MAN – MADE

Nem tudo são rosas, isso todo mundo sabe, que a vida é difícil também, mas algumas vezes a resoluções que tomamos, os caminhos, nos levam a pensar que o mundo virou uma loucura.

Tenho um irmão gêmeo, somos idênticos um ao outro, desde criança sentíamos as mesmas coisas, embora em alguns aspectos somos totalmente opostos, como em gostos musicais, ideia de como levar a vida, amar, etc.

Nossos amigos mais próximos, com quem fomos criados juntos, são outros dois que também são gêmeos, fomos concebidos mais ou menos ao mesmo tempo.

Segundo minha mãe que tem um sentido de humor afinado, já nos conhecíamos da sala de espera da clínica de fertilidade.   Nossa mãe, era produtora de moda, inclusive para o cinema, moderna, era pouco para defini-la, gostava de tudo que fosse novidade.  Quando tínhamos uma idade para entender por que não tínhamos pai, ela nos explicou.                              Estava farta de relacionamentos complicados, de homens que entravam, saiam de sua vida, num abrir e fechar de portas.   Estava com 30 anos, viu que nunca chegaria a casar-se, tampouco tinha vontade de despertar todos os dias com o mesmo homem.  Fazendo uma reportagem junto com uma jornalista, conheceu uma clínica de fertilidade, tinha encontrado a solução.

Já a mãe dos outros dois era uma alta executiva de uma empresa, tinha levado tanto tempo para chegar até sua posição atual, que não tinha tempo para homens, nem mulheres, tudo tinha que ser como tirar um sapato porque os pés estavam doendo, palavras dela.

As duas se conheceram na sala de espera da clínica, souberam que estavam gravidas, de gêmeos, ao contrário de minha mãe, os seus eram de óvulos diferentes.   Saíram para tomar um café para conversar.   Minha mãe, Mae, de Margareth, a dos outros dois Bessie Walter, mais conhecida como Walter, assim a tratavam na sua empresa, seria assim que os dois a chamariam.

Está tinha tudo organizado, quem ia cuidar dos garotos enquanto trabalhasse, o quarto já estava pronto.

Nossa mãe ao contrário, nem tinha pensado no assunto, já se veria, essa era sua maneira.

Nascemos os quatro no mesmo dia, na mesma clínica.  Os meninos de Walter eram diferentes, um era loiro, o outro moreno, um tinha olhos negros o outro azuis. Ela ficou encantada com isso, pois não teria trabalho em reconhece-los, nos dois ao contrário, éramos idênticos, cabelos castanhos, olhos verde escuro, como os da minha mãe,  num primeiro momento pensou em nos chamar de zip –  zap, todo mundo riu disso, mas acabamos levando os nomes de seu pai e de seu avô.  Albert e David, quando erámos garotos nossa distração, era a deixar confusa, por mais que as roupas eram iguais, as trocávamos, para confundi-la.   Um dia nos ameaçou, que ia mandar fazer uma tatuagem em cada um com os nomes.  Ficamos pedindo que sim, queríamos as tatuagens, eu como um louco, pois me atraiam os homens com tatuagem.

Talvez o doador, fosse um homem tatuado, pensava eu.

Não frequentamos as mesmas escolas, nem tínhamos amigos em comum, pois a situação financeira das duas era diferente, mas íamos aos aniversários, quando crescemos íamos ao mesmas colônias de férias.  Até que nos desentendemos de um deles, o mais agressivo, o loiro de olhos negros, ele era brutal, adorava pegar meu irmão, sabia o distinguir de mim, não sei como.  Albert sempre foi mais frágil do que eu, na escola, eu tinha sempre que protege-lo, por isso nos gozavam, pois, estávamos sempre juntos.   Menos na sala de aula, que as professoras nos colocava a uma boa distância.   Quando passamos a escolher nossa própria roupa, comprar a mesma com nossa mesada, tínhamos gostos completamente diferentes.   Ele gostava de uma camisa polo, calças jeans justas, jaquetas de equipe de beisebol, eu ao contrário, amava uma camiseta, calças mais largas, bermudas no verão, sempre escorregando pela bunda, tênis, cabelos compridos, se acabou a coisa de irmos por ai, como dois vasos iguais.

Minha mãe permitia perfeitamente isso.

No secundário, como queríamos carreiras diferentes, íamos juntos, mas fazíamos classe distintas, eu queria fazer artes, desenhava como um louco, gostava também de moda, queria ir para estudar na Parsons School of Design ou na FIT, Fashion Institute of Tecnology, quando consultei minha mãe, ela disse que a Parsons poderia me abrir outros caminhos.

Meu irmão ao contrário queria estudar direito, ser advogado, nunca entendi essa escolha, ainda brincava com ele, como um banana mole podia  ser um bom advogado.

A partir desse momento de definições, fomos nos afastando, tínhamos amigos diferentes, eu nem conhecia com quem saia.   O meu grupo era diversificado, tínhamos negros, amarelos, gays, lesbianas, heteros, enfim era mais colorido.  Riam de mim, pois não tinha me definido ainda, tinha experimentado fazer sexo com garotas e depois de um tempo com um garoto da turma, não saberia dizer qual tinha me gostado mais.

Albert chegava sempre tarde em casa, quando lhe perguntava aonde tinha estado, me dizia, cuide da tua vida que teu grupo é o pior da escola.   Mas minhas notas eram fantásticas, poderia escolher uma bolsa de estudos para qualquer universidade.

Mal começamos a universidade, mudamos para um apartamento maior, com três quartos, ele reclamava que não podia estudar, nem se concentrar com as minhas loucuras, eu ajudava minha mãe em alguns trabalhos, para ganhar um dinheiro por fora, ela se surpreendia, pois lhe entregava inteiro.  Para ajudar em casa, sabia que ter o luxo de ter um quarto só para mim, com uma mesa grande no centro para desenhar, projetar meus trabalhos, custava caro.

No final do primeiro ano, Albert desapareceu, passou uns cinco dias fora de casa, ficamos como loucos, não atendia o celular nada.   Convenci minha mãe de ir a polícia, foi ela que o encontrou num lugar cheio de drogados, totalmente grogue, ficou mais de uma semana no hospital.  Eu mesmo não podia entender o que se passava.   Tentei falar com ele, me dizia que eu não o entenderia.   Quando estava em casa, tinha sempre a porta do quarto fechada a chave, não permitia que ninguém entrasse.

Ficamos preocupados, minha mãe lhe conseguiu um psicólogo, mas só foi a uma seção, antes de desaparecer novamente. 

Desta vez minha mãe correu como uma louca a delegacia, fez a queixa, nesse dia não tínhamos visto sair, quem falou que roupa vestia foi o senhor que trabalhava na portaria, disse que tinha entrado num sedan negro, mas que não tinha visto a placa.

O foram encontrar semanas depois atirado numa lixeira, dentro de uma bolsa destas que usam para levar cadáveres, tinham lhe cortado a cabeça, bem como as mãos, os pés, mas estava tudo costurado, com pontos de linhas coloridas.

Foi um choque para minha mãe, chegamos então a certeza que ele estava metido em alguma coisa complicada, o que tinha logica, sendo ele uma pessoa certinha, ela mesma disse ao inspetor, se fosse ele, que vive no meio de artistas, gente considerada louca tudo bem, mas Albert era quieto, calmo, não tem lógica.   Antes que a polícia revisasse seu quarto, encontrei um diário, sabia que quando ela o encontrasse, o levaria, tirei uma cópia do mesmo, assim depois o leria.

Não deu outra, o diário foi levado embora.

Dias depois, me chamaram para perguntar se podia ir a delegacia, me fizeram sentar frente ao dito diário, para ler o mesmo, mas ele não citava nomes, agora entendia que saia com alguém que curtia sadomasoquismo, drogas duras coisas do gênero.

Fiquei chocado, pois espera um tempo para ler o mesmo.  O inspetor que levava o caso, me olhou curioso.  Vocês como gêmeos deveriam saber o que o outro fazia.

Eu fechei os olhos tentando me lembrar de coisas, lhe disse que quando tínhamos ido ao último acampamento de verão, ele já tinha um grupo diferente, que tinha voltado estranho desse acampamento.   Eu participei de coisas de teatro, de leitura, ele honestamente não sei o que fez, estava com uma turma de filhinhos de papai, sempre com brincadeiras brutas.  O que eu não entendia porque ele era mais frágil de nós dois.  Quando lhe cobrei porque não participava das coisas comigo, me disse que o que eu fazia eram coisas de gays.

Estou confuso, o senhor me desculpe, nem sabia que tinha essa roupa preta com a que foi encontrado, no último ano, estive trabalhando com minha mãe, em duas montagens de teatro, bem como num filme.  Quase não o vi.

Sim, ele fala disso, que sente que te perdeu de vista, que devia ter te escutado.

Me passou as últimas páginas.     Vou te passar uma parte do relatório, porque mesmo tua mãe sendo uma mulher moderna, creio que a afetara.   Ele tinha o anus dilacerado, creio que alguém vinha abusando dele sistematicamente. Talvez por isso usasse roupas negras.

Sai dali, com as pernas bambas, o inspetor me alcançou, me fez sentar num banco de uma praça, não podia imaginar meu irmão nisso.  Ele era tão certinho, quando o encontramos drogado, já tinha sido uma paulada, eu quando muito tinha fumado marijuana, nada mais.

Quando liberaram o corpo para enterrar, o caixão estava fechado, eram muitos os conhecidos de minha mãe, os poucos diferentes eram Walter com o que era moreno, lhe perguntei pelo seu irmão, levantou os ombros, desde os dezoitos se foi de casa, não sabemos nada dele, a policia o procurou, mas não temos ideia.

Ficou assim, depois que invadiu uma noite a clínica de fertilidade, para descobrir quem eram os homens que tinham doado o esperma.  Depois disso, nunca mais soubemos dele.  Eu não me interessei.   Nessa época o vi algumas vezes com teu irmão, aliás depois da colônia de férias os dois andavam juntos com essa turma de metidos a duros.

No dia seguinte, com a dúvida corroendo minha cabeça, fui falar com o inspetor, a respeito. Eu nunca tinha gostado do Joseph, ele sempre estava provocando confusão, preferia o Brian que era mais tranquilo, mas depois quando ficamos maiores, só nos encontrávamos na colônia de Férias.

Comentei o que tinha me contado o Brian, mas nem tinha ideia do que poderia ter unidos os dois, voltei a ler o diário, alguma coisa não encaixava, num determinado momento ele falava no judeu, que tinha sido um encontro que ele queria muito.  Disse ao inspetor, só pode ser isso, Joseph, judeu, mas não tenho certeza se a senhora Walter seja ou não judia.

Eles ficaram de procuras saber aonde andava o Joseph.

Quando me chamaram novamente, a coisa piorou, o Joseph, tinha morrido mais ou menos no mesmo dia que meu irmão.  Seu corpo não tinha sido reclamado, tinha sim desenhado num dos braços por isso o identificaram, uma numeração.  Que era do doador, sua mãe disse que um dia apareceu com essa tatuagem como se fosse um judeu, mostrou para ela, dizendo que sabia quem era seu pai. 

A coisa piorou quando foram checar na clínica, realmente coincidia o dia mais ou menos que o Brian tinha dito que sabia que o irmão tinha ido a clínica.  Mas não se lembrava da historia da tatuagem, o vi um momento, saindo carregando uma mochila, minha mãe chorando. Nada mais.

Na clínica levantaram o historial do doador, era um homem que atualmente estava ingressado num hospital psiquiátrico, era um catatônico, drogas e muitas outras causas, um militar retornado da guerra que não tinha se ajustado.  Pela foto, ele era igual ao Joseph.

Tinham roubado também todo o historial do uso do semem do doador,  revisaram a autopsia do que creiam que era o Joseph,  não encaixava a dentadura,  revisando todos cadáveres desconhecidos, encontraram mais dois, com a mesma tatuagem de números, o último encontrado dava para perceber que a tatuagem tinha sido feita, pós morte, todos tinham morrido da mesma maneira que meu irmão, todos eram gays.

No final reconheceram que nenhum era o Joseph.  Voltaram ao hospital, com uma ordem para saber se a pessoa tinha recebido visitas. Havia sim um mister Walter, uma semana antes do assassinato do meu irmão.

Quando a polícia, conseguiu por fim levantar a ficha militar do mesmo, descobriu que tinha sido por baixa desonrosa, tinham encontrado o mesmo numa orgia sadomasoquista, numa de suas folgas, totalmente drogado, com o anus dilatado ele algemado numa espécie de cadeira de couro suspensa. Segundo o laudo, estava totalmente drogado.

Agora começava a fazer sentido tudo isso. Mas aonde estava o Joseph?

Ninguém sabia.  Tudo que se sabia que estudava medicina, tinha abandonado os estudos, dai talvez a destreza em fazer o que tinha feito.

Minha mãe estava abalada, aceitou fazer um filme em Los Angeles para se afastar de NYC, eu tinham um trabalho novo, não podia ir.    Estava desenhando o figurino de um musical, era minha primeira oportunidade.   Voltava todos os dias tarde para casa, notei que estava sendo seguido umas duas vezes, falei com o inspetor.

Lhe disse meus horários, o ensaios eram pela noite, tinha que os acompanhar, para transformar a roupa em algo prático.

Uma das noites ao sair, nem bem tinha andado dois quarteirões quando me agarraram por detrás, me chamando de Albert.  Por sorte dois policiais a paisana, que estava cuidando de minha segurança, sem eu saber, conseguiram depois de muita luta pegar o agressor.

Era o Joseph.  Gritava Albert me perdoa, eu te amava, eras o melhor de mim, mas tinhas que dar exemplo aos outros.

Dois dias depois conseguiram finalmente interroga-lo como devia.  Todos os outros eram de um grupo que estava sempre na Colônia de férias, sem querer ele tinha descoberto que a maioria eram de mães solteiras, que tinha tido óvulos fertilizados na mesma clínica.  Juntos na última férias tinham feito uma orgia, o mais fraco tinha sido meu irmão, que tinha sofrido abuso de todos, mas ele não contava se apaixonar por ele.   Quando se reencontraram, voltaram a sair juntos.   Gostavam de praticar sexo duro, um com o outro.  Quando tomavam drogas as coisas iam além.   Quando encontramos meu irmão a primeira vez, tinham participado de uma orgia com os outros naquele lugar, o abandonaram, pois, pensavam que estava morto.

Foi quando descobriu do seu verdadeiro pai, no hospital roubou sua ficha médica, fazia o mesmo que eles, orgias a troco de dinheiro, drogas. 

Entendeu seu prazer, mas começou a matar um a um, os que tinham provado a morte do meu irmão.  Fazia igual, que tinham feito com ele.  Nos exames médicos, seus braços estavam cheios de picadas de agulhas.  Se negava a ver a mãe, bem como o irmão.   Pediu se podia me ver.

Quando me viu ficou me olhando e chorando ao mesmo tempo, se eu o amava, devia tê-lo protegido melhor, ele era o mais frágil do grupo, deixou tudo acontecer, porque me amava desde criança.  Tu sempre o defendeste, mas ele dizia que não te entendia, como podias ser igual a tua mãe, serem iguais fisicamente, mas que mentalmente ele não era igual a ti.

Eu o amava, mas chegou um momento que as drogas puderam conosco, as orgias foram cada vez mais pesadas, quando o mataram, pensei que tinha ficado louco, mas consegui juntar suas partes para colocar naquele saco.   Iam jogar em vários lugares, ele não merecia isso, me perdoe.

Eu o olhava, não conseguia entender, porque meu irmão, não me tinha falado comigo a respeito, eu tentaria ajuda-lo.   Foi o que lhe disse.

Ele não queria mais tua ajuda, era um homem, tinha direito a escolher seu caminho.

Minha mãe tinha resolvido não voltar a NYC, me perguntou se queria tentar Los Angeles, não tinha parado de trabalhar desde que chegara, encontrarei trabalho para ti.  Separe os livros que gostamos, tudo que aches necessário, as coisas de teu irmão acho melhor que desapareçam para podermos guardar só o que temos na memória.

Isso podia ela, mas eu, sabia de toda a história, embora não entendesse o porquê de algumas coisas.

Resolvi sair dali, tudo naquele apartamento me fazia me lembrar do meu irmão, quando ela conseguiu uma casa, me avisou, mandei tudo que tinha ali que fosse importante, tinha avisado para virem recolher os moveis restantes, bem como as roupas, coisas do meu irmão, no que afastei a mesa que usava para escrever, encontrei outro diário, falava principalmente de nós dois.

Avisei minha mãe, que iria acabar um trabalho, fiquei num hotel em Times Square lendo o mesmo.  A data que ele começava, era de um aniversário nosso, eu lhe dei esse diário como presente.  Pois o tinha encontrado escrevendo num caderno, pensei ele gosta de fazer um diário, fui e comprei um.

Ele começava dizendo que eu era uma pessoa que se podia esperar isso, o observava nos menores movimentos.  Sempre estava preocupado com ele, o defendendo, querendo resolver as coisas por ele.   Começava a falar do amor que sentia pelo Joseph, com uns doze anos, que os dois tinham se masturbado escondido dos outros, que gostava do sabor da sua boca.

Mais adiante falava da primeira penetração, o prazer que sentia com o Joseph. Os encontros escondidos que tinham em casa, quando eu estava na escola, minha mãe trabalhando fora, as descobertas de prazer que iam tendo. As saídas escondidas dos dois.  Depois quase no final, falava do abuso sofrido no acampamento.  Dizendo que se eu soubesse, ia chamar a polícia, ia ser um escândalo, embora achasse que ele mesmo tinha provocado essa situação.  Gostava da violência, já que ele não era forte.

Essa parte li chorando, como podia ser, o ponto que nós tínhamos afastado tanto.  Que eu só pensava em trabalho, era como minha mãe, nos realizávamos fazendo nosso trabalho.  Que quando estávamos fazendo algo, o resto do mundo deixava de existir.  No caso dele, era quando estava sendo violado, adorava a sensação de pertencer a todo mundo, que a violência o fazia extrapolar junto com as drogas.

Levei o diário comigo, em seguida comecei a ir a um psiquiatra, pois sentia que tudo isso estava me desequilibrando.   Minha mãe entendeu.   Me bloqueei tanto que não podia mais ter relações sexuais.   Tinha um medo horroroso, as cenas que tinha imaginado estavam em minha cabeça.

Tinha feito um trabalho para um diretor francês, esse me convidou para ir fazer outro em Paris, pedi perdão a minha mãe, mas precisava me evadir.

O studio me arrumou um apartamento, aonde na verdade ia dormir.  A filmagem levou quase seis meses, mas foi importante, pois me desliguei completamente de tudo.  O diretor dizia que eu era confiável, pois esquecia até quem eu era.   Minha assistente me tinha que lembrar de tomar banho, de dormir.

Quando acabou, senti um vazio imenso.   Agora precisava de um lugar tranquilo para passar um tempo. Um dos atores me ofereceu sua casa em Cap D’Antibes, me deu as chaves, fique tranquilo ninguém aparece por lá.

Foi como entrar no paraíso, esqueci de tudo, escrevendo nossa história, agora juntava a sua com a minha, me lembrava dos comentários das pessoas, como éramos idênticos.  Agora entendia que ele odiava isso, o fato de sermos fisicamente parecidos, tudo que ele tinha feito para ser diferente de mim.  De como nem minha mãe, nem eu percebemos nada, que ele precisava de uma ajuda de um psicólogo.   Depois de tanto pensar, como era um observador nato, alguns signos que tinha passado por alto, coisas de seu comportamento, alguma que outra agressividade com respeito a minha mãe, por nos ter parido a partir de alguém que ela nem sabia quem era. Sem se preocupar com o que podia acontecer conosco.  Ou alguma brincadeira que eu fazia, querendo fazer um retrato dos dois juntos, mas diferentes.  No fundo como ele me dizia, eu te amo e odeio ao mesmo tempo, porque sei que tens coragem de enfrentar a vida de peito aberto.  Vais vencer.

Quando o filme que tinha feito, ganhou um Cesar, eu um outro pelo figurino, bem como  cenário, surgiram mais convites, avisei minha mãe que ficaria mais tempo, se ela queria vir, mas claro estava metida num filme complicado.  Quando acabe irei.

Tinha aprendido a amar esse meio, desde pequeno, metido entre suas pernas, olhando como desenhava, imaginava alguma coisa.  Era capaz de ficar quieto muito tempo observando tudo, mas que Albert, nem se aproximava, as vezes chorava, querendo atenção, mas era eu quem ia abraça-lo como sempre, primeiro me empurrava, pois queria minha mãe, não seu irmão.

As lembranças do passado foram voltando, fui me lembrando de detalhes, o quanto ele odiava que nos colocassem na frente do espelho, para ver como estávamos iguais.   Odiava isso.

Eu ao contrário amava, o amava com todas minhas forças.

Um dia nas filmagens quando estava provando a roupa de um ator, que tinha inclusive conhecido no anterior.   Me disse, que era impressionante, como eu não prestava atenção, a nada a não ser o que estava fazendo. 

Te enganas, queres que te diga, que vens fliteando comigo desde o outro filme, que me convidaste para almoçar umas duas vezes.  Isso?

Ah, então não passei desapercebido. Me tornou a convidar para almoçar no seu apartamento no final de semana.

Aceitei a contragosto, mas fui claro com ele, não estou preparado para ir para a cama com ninguém.    Não faço sexo desde a morte de meu irmão.

Ficou me olhando, imagino que alguma coisa te traumatizou, sem querer me vi contando para ele, segurando um copo com Coca-Cola, ele só balançava a cabeça.

Te entendo, me contou dias depois alguns detalhes de sua vida, que tinha chegado aonde estava, primeiro se prostituindo, depois que conseguiu um bom papel, deixou de fazer isso, mas trabalhou duro.   Depois amei uma pessoa muito mais velha do que eu, que era um artista completo, pois não só atuava, escrevia, pintava, imaginava as cenas.  Quando morreu, fiquei seco, só voltei a me interessar por alguém, quando te conheci no outro filme, pensei, esse homem é completo.

Passamos a nos encontrar, sair juntos para jantar, fomos passar um fim de semana depois do final do filme, em sua casa em Saint-Malo, ele tinha herdado a mesma de seu amor.

Ali passávamos tempo conversando, eu escutando os planos dele de dirigir um filme, quando fui avisado que tinha mãe tinha tido um enfarte, que estava muito mal, foi comigo para Los Angeles, ainda a encontrei com vida.   O reconheceu em seguida, disse seu nome, obrigado, tome conta de meu menino.

Me pediu perdão, tinha noção que não tinha estofo para ser mãe, mas eu acalmei, devo tudo a senhora, comecei a falar quando ficava vendo como trabalhava, como aprendi a amar esse trabalho a partir dela, morreu sorrindo.

Levei suas cinzas para ficar perto do meu irmão, recolhi algumas fotos, me livrei de tudo, voltei para a França.  Fui cotado para outro Cesar pelo trabalho que tinha feito.

Mas desta vez o trabalho seguinte, foi dirigir junto com meu amante, o filme que tinha imaginado, discutíamos tanto tudo, que era capaz de imaginar as cenas completas, ele se admirava desse meu lado.

O filme foi um sucesso, foi também o lançamento dos dois como diretores.

Escrevi um texto baseado no que nos tinha acontecido, claro, mas mudando a história, de dois irmãos gêmeos, mas totalmente diferentes um do outros, desde a infância, como vão tomando caminhos opostos.

Minha gente pensou que era totalmente minha vida com meu irmão, disso só tinha tomado a ideia, não ia expor sua memória, para que falassem dela.

Nunca mais voltei ao Estados Unidos, pensar em ir a New York, era como pensar em tocar na ferida outra vez.   Agora que estava em paz, disfrutava do que a vida tinha me dado.

Quando não estávamos trabalhando, ficávamos em Saint-Malo, falávamos o dia inteiro sem parar, as pessoas não entendiam isso, mas nos completávamos.  Fizemos mais uns quantos filmes juntos, alguns ganhamos prêmios, outros só aplausos.  Isso bastava.

Escrevíamos alguns, juntos, quando ele quis contar sua história, escrevi por ele, como me tinha contado.   Foi um grande sucesso, a dirigimos juntos, como uma catarse.

Ao final olhando para trás, apesar de tudo posso dizer que fui feliz.  Sentirei sempre porque meu irmão não foi em frente, mas o amarei sempre.

FILHO DE EXU

                                             

Os anos tinham passado rápidos como trovões de Xangô, mas ele se sentia jovem como sempre, dizia para todo mundo que um dia seu corpo murcharia, mas sua cabeça seguiria jovem.

Afinal era uma verdade, estava naquela época que as vezes um comentário, lhe fazia lembrar de alguma coisa.

Conversando com um jornalista sobre um livro que tinha escrito, falando do retorno de um escritor a pátria amada salve, salve.                 Tinha comentado que talvez fosse a história mais autobiográfica que tinha escrito, pois tinha incluído várias coisas suas na mesma. 

A pergunta do jornalista lhe pegou de calças curtas,  se ele tinha tido realmente esse romance com o chefe do tráfico da favela.

Na hora respondeu rapidamente que não, imagina, isso era uma história, nada mais, tinha se imaginando voltar ao Brasil, por isso tinha incluído formas suas de pensar.

O jornalista tinha insistido, nunca tiveste nada a ver com os chefes de tráfico de favelas, pois não é o único livro teu que cita os mesmo.

Bom pelo menos sei que lestes meus livros.  Cortou pelo sano.

Só no dia seguinte no avião, retornando a casa, foi que se tocou, porra estive mentindo durante a entrevista, justo ele que gostava de soltar coisas que não eram verdades, em respostas a perguntas cretinas.

Realmente não tinha tido nenhuma aventura com o personagem do livro, nem de longe.

 Mas romances sim.

Quando lhe tinham oferecido para trabalhar um tempo em Salvador da Bahia, a princípio tinha se negado a ir.  Não lhe agradava muito a ideia, bem como tinha um certo preconceito contra os baianos. 

No dia seguinte, começava o carnaval, queria mais depois de muito tempo preso num relacionamento que não levava a lugar nenhum, se esbaldar.  Tinha a casa cheia de amigos vindos de São Paulo, que tinha sido seu último pouso. 

Era conhecido por ser uma pessoa para consertar empresas, primeiro por sua maneira de trabalhar.  Se lembrava sempre de uma brincadeira de criança que era em forma de canção” Alemão batata, como queijo com barata” a maioria das crianças cantava isso, por causa do número de emigrantes alemães, claro a escola estava cheia por causa disto.                       Ele ao princípio se esqueceu quando cantava isso, que era filho de emigrantes.    Seus pais tinham chegado, vindos da Alemanha, justo dois anos antes da ascensão de Hitler.  Tinham horror a ideia nazista, tiveram que passar por judeus, para os deixarem em paz.   Tinha chegado como todos os outros emigrantes, com uma mão na frente outra atrás.   Foram trabalhar para um outro alemão, quando se falava em trabalhar, era trabalhar duro, sem direito a sábado e domingo.

Com o tempo conseguiram comprar umas terras, aonde cultivavam uma horta, gêneros de primeira necessidade, batatas não podiam faltar, pois era a comida diária da família. Sua mãe tinha galinhas, por isso também vendiam ovos na feira.   Seu pai tinha uma criação de abelhas, vendia também mel de primeira qualidade.  Foram prosperando, ele mesmo fez uma carroça, em que durante a semana ele, seus sete irmãos iam para a escola, na volta traziam alguma encomenda da cidade.

Ele era o mais inteligente da sua turma, suas notas eram sempre as melhoras.  Os professores chamaram seus pais, mas claro tiveram que ter um tradutor, já que falavam muito mal o português, nunca tinham tido tempo de aprender.  Além de que em sua casa todos falavam alemão.   Falando duas línguas tinha facilidade de aprender mais.  Por sorte, por ser uma cidade de imigrantes, o professor de Inglês, era nativo, bem como a de francês, então era aluno destacado dos dois.    Mais tarde isso lhe serviu para seguir em frente.

Quando ficaram maiores, seus pais tiveram que alugar uma casa na cidade, num bairro mais simples, contrataram uma mulher que cuidava  deles, outra alemã, eles todos seguiram em frente com seus estudos.  Da mesma maneira que tudo crescia, a cidade já tinha algumas faculdades, mas tudo que ele sonhava, era ir embora dali o que queria fazer não se ajustava a cidade.

Conseguiu a muito custo, trabalhando desde os 15 anos, juntar dinheiro para poder ir embora, não gastava um tostão fora do orçamento que tinha previsto para si mesmo.  Quando chegou no Rio de Janeiro, alugou um quarto na casa de uma senhora, enfermeira, que era alemã, conhecida de seus pais, na Rua Carlos Sampaio, ali perto da Praça da Cruz Vermelha, que era aonde ela trabalhava.   O tinha num regime de prisão.  Saia de manhã para a Faculdade na PUC, na Gávea, levava quase uma hora para chegar, mas depois ia trabalhar, primeiro conseguiu um emprego por ali mesmo, mais tarde ficou de vendedor numa loja.

No segundo ano, graça a um professor, conseguiu para trabalhar no Jornal do Brasil, no centro da cidade, começou entregando papeis, cartas, de mesa em mesa, depois aprendeu a fazer fotos como auxiliar do fotografo, ele lhe ensinou primeiro a revelar as fotos, dai foi um pulo para ficar atendendo a determinados jornalistas.   Já tinha um pequeno apartamento ali no mesmo lugar, me virava.  Algumas noites me escapava para o Campo de Santana, para arrumar uma foda.  Tive primeiro um amante que era do Corpo de Bombeiros, o sujeito era divertido, gostava de dançar na Estudantina Musical, me arrastava para a noite do centro da cidade.

Não durou muito porque o sujeito era uma verdadeira galinha, dizia que tinha que fuder todos os dias, porque senão não relaxava.

Acabou levando uma facada ali na Praça Tiradentes, numa briga que resolveu separar.

Logo como passei a ser responsável por mais áreas, me mudei para Copacabana.

Agora também escrevia uma coluna.  Fui conhecendo gente ao fazer fotos, tratava bem as pessoas, diziam que tinha uma educação diferente do pessoal do Rio de Janeiro.   Era muito educado, como ia explicar que minha mãe, tinha um lema, escreveu não leu, o pau comeu.

Não obedecias, levavas uma chinelada.

Me ensinou a não ter preconceito de cor, raças nada, somos todos iguais me dizia.

Isso me ajudou, eu tratava bem um rico, como um pobre, conversava da mesma maneira com uma madame da sociedade, como com  a domestica da casa.  Todos eram tratados bem por minha pessoa.

Então conseguia entrar em qualquer lugar, pois com o tempo sabiam que eu era respeitoso.

Comecei a escrever uma coluna de música pois, frequentava o Beco das Garrafas. Ali fiz amizades incríveis.  Quando fui para São Paulo, para registrar na coluna de Músicas, os grandes eventos da Musica Popular Brasileira, que nascia ali com toda sua força, tinha um campo vasto, consegui um pequeno apartamento no centro da cidade na Praça Franklin Roosevelt, ficava justo no meio, se ia para um lado estava a Rua Augusta, aonde tudo acontecia na época, do outro lado estava a Igreja N.S. da Consolação, aonde ia fora do horário de missas, para pensar, algumas vezes via tanta coisas loucas numa semana, desde assassinatos, a festa de sociedade, que precisava parar para relaxar a cabeça.   Deixei o escritório de São Paulo, muito bem montado.

Quando voltei para o Rio, aproveitei para escapar de um relacionamento horroroso que tinha, uma pessoa controladora, ciumenta, vingativa, muito baixo astral.

Descobri um apartamento em Niterói, em São Domingos, de frente para o mar, que me vinha de pérolas, pois bastava andar 10 minutos até as Barcas, tomar a mesma, lendo o jornal que trabalhava, assim via o que tinha escrito, se tinham publicado certo.

Vieram uns amigos de São Paulo para o carnaval, não queria de maneira nenhuma pensar na decisão que teria que tomar.  A ideia que tinha da Bahia, não me atraia, tinha ido de férias ou para cobrir alguma notícia.   Queriam que eu montasse o mesmo que tinha feito em São Paulo.

Queria outra coisa, mas as coisas nem sempre se escrevem em linha reta.

Estávamos nos divertindo com o carnaval, fui buscar uma bebida, estava morto de sede, senti que me empurravam para o chão, quando senti balas passando, olhei para cima, quem tinha  me jogado no chão era um negro imenso, só com uma tanga, tens que resolver tua situação, indo para a Bahia, poderás encontrar o terreiro de Exu.

Sempre me tinham dito que tinha um Exu de cabeça, que deveria ir a um lugar que só tratasse disso, nenhum pai de santo se atrevia.   Eu achava engraçado, eu branco como a neve, descendente de alemão, metido em candomblé.  A princípio não dei valor, mas quando comecei a desmaiar nos lugares mais estranhos, sempre que colocava roupa branca, resolvi prestar atenção.

Uma outra vez, estava saindo de uma discoteca em Copacabana, uma pessoa postada do outro lado da rua atirou, nunca entendi, a polícia disse que tinham se equivocado de pessoa, mas que alguém tinha me empurrado.

Balancei a cabeça concordando iria aceitar ir para a Bahia.  O pessoal dizia que me viam falando como se estivesse alguém na minha frente, devias estar bêbado, pois falavas sozinho.  Eles não tinham visto que o negro que me dava instruções.

Vá, seja tu mesmo como sempre, vais conseguir resolver o problema.

Quando cheguei em Salvador no final de Março, com carta branca dos diretores, primeiro era conseguir um escritório, montar o mesmo, depois comecei a entrevistar gente, logo entravam me tratavam como se tivessem visto no dia anterior.  Quando pedia um curriculum, iam falando os jornais que tinham trabalhado.

A empresa que tinha contratado para me ajudar a conseguir jornalista era uma merda, fiz um escândalo de fazer gosto, aliás quando se tratava de meter a boca, eu era o melhor.

Se no dia seguinte não me conseguiam candidatos em condições que fossem a casa do caralho.

Vi um negro, retinto, ali, sorrindo, enquanto escrevia a máquina.   Me alcançou na esquina, me convidou para um café.

Gosto do jeito do senhor, aqui ninguém leva nada a sério.   Me diga o que o senhor quer, que vou ver se consigo.

Lhe expliquei como trabalhava, queria gente séria, que não se escapasse a cada trio elétrico que passava na rua.  Gente que soubesse cobrir um caso de crime, outro que escrevesse sobre música.  Dei uma lista do que queria. 

De que cor quer o senhor contratar as pessoas?

Devo ter ficado de boca aberta com a pergunta.  O rapaz se chamava Alípio.

Me importa uma merda a cor ou raça de uma pessoa, lhe disse alto me exaltando, estas me ofendendo.    Olhe bem rapaz, sou filho de emigrantes, vivi sempre misturado com todo mundo, uma coisa que minha mãe me ensinou que somos todos iguais, que o esperma é igual a todo mundo, não sei se é verdade, que a raça, cor, credo importa um caralho.

Ele ria muito, era magro, desajeitado, feio, mas tinha uma maneira de falar educada.

Que merda estas fazendo naquele antro, porque vou lá falo, me mandam todos os brancos desta merda de cidade, idiotas.

Amanhã mesmo começo a levar gente, mas por conta própria.

Que formação tens tu garoto.

Bom minha avó que me criou, nunca me deixou em paz, enquanto eu não fiz uma universidade, fiz administração de empresas.

Mas que merda faz trabalhando de datilografo nesta puta empresa?

Foi o que consegui.

Bom a partir de amanhã, trabalhas para mim, tire essa roupa ridícula, imitando funcionário público, venha trabalhar, de camiseta ou camisa, veja como me visto.

Venha comigo agora conhecer o local.   Mostrei tudo para ele, aquela sala ali, pode ser a tua, quando eu for embora, porque não penso em ficar aqui.

No dia seguinte apareceu um homem desconcertante, era mais branco do que eu, disse que era francês, tinha sido professor da universidade, agora estava de férias permanente, me enjoei de pessoas que não prestam atenção a nada, acabo de editar esse livro em Paris.   Me passou o livro, quero trabalhar de jornalista, falando a verdade desse povo.  Jean Pierre Rasckai me fez rir a bessa, lhe perguntei quem o tinha mandado, ele sinalizou o Alipio, o melhor aluno que tive.

Lhe pedi que escrevesse isso, uma matéria sobre os alunos universitários da Bahia.

Me perguntou dentro de que pauta.

Tu escreves o que tens na cabeça, me dá igual. Já veremos.

Lhe indiquei uma mesa, foi, se sentou, enquanto eu folheava o livro, era muito interessante, tinha pedido ao Alípio, que queria saber o salário que os outros jornais pagavam.

Quando li o artigo escrito pelo Jean, que volta e meia tirava um bloco do bolso, para fazer uma consulta, já estava gostando.

Li o artigo de cabo a rabo, verdadeiramente, me levantei, apertei sua mão, disse ao Alípio, que queriam que mandasse para o Rio, falei com o presidente do jornal, que tinha me contratado, não quero que se corte nem uma virgula, senão pego o primeiro avião, abandono esse projeto.

Me avisou que tinha lido, que iria na primeira página do caderno de Cultura.

Estás contratado Jean Pierre, já podes começar a trabalhar, amanhã fazemos uma reunião, comecei a rir, não conseguia parar.   Estava acostumado a me reunir com todos os jornalistas logo pela manhã, para falar do projeto do dia.

Quando consegui me controlar, mudei, tomamos café os três juntos.

No outro dia apareceu um mulato sarará, se apresentou com Miguel dos Prazeres, sou músico, mas sou jornalista também, fiz o curso no Rio de Janeiro, já escutei muito falar do seu jeito de trabalhar.   Me trazia uma série de artigos, aqui me contratam principalmente para falar do Trio elétrico no Carnaval, os idiota só querem saber disso.

Indiquei outra mesa, me escreva sobre a cultura, a música baiana, os cantores que começam a aparecer.

Estava discutindo com Jean Pierre, queria saber o que pensava da influência do candomblé, se o pessoal que ia a Universidade ou estudava, acompanhava ou sabia a história disso tudo.

Lhe dei um gravador, ele se mandou.

Já na hora do almoço, estava com a barriga roncando, quando Miguel dos Prazeres, que via rabiscando, tornando a escrever me apresentou um artigo.  Li quase sem respirar, podia sentir no ar o que ele escrevia.   Fiz duas correções de gramatica, pois sabia que esses termos no Rio não seriam entendidos, lhe disse ao Alípio, mande para a mesma pessoa no Rio, vamos comer os três, na hora entrava, o Jean Pierre, o agarrei pelo braço, fui arrastando os dois, lhe apresentei o Miguel dos Prazeres, se conheciam de vista.

Fomos almoçar num restaurante que não tinha ido ainda, quem comandava era uma mulher interessante, alta, magra, uma mulata de deixar qualquer um doido.

Miguel dos Prazeres soltou, uma lastima, está aqui presa no restaurante da mãe, pois não consegue emprego.  Se formou em filologia, bem como literatura, mas ninguém contrata nada dessa área.

Nilceia, venha aqui minha filha, venha vou lhe apresentar o doutor Lud Kass.

Virei para ele, dizendo, doutor é o caralho, me levantei, me inclinei, Lud ou Ludwing Kass, ao seu dispor.

Ela já conhecia o Jean Pierre, foi, meu professor.

Ele imediatamente disse que ela escrevia muito bem sobre qualquer coisa.

Lhe perguntei sobre o que gostava de escrever, esperando que me dissesse culinária, ou coisa parecida.

Soltou, gosto de escrever sobre política, analisando os filhos da puta que governam nosso pais, nosso estado.

Pode me escrever um texto analisando os problemas do atual governo da Bahia.

Atual governo, isso é um império, a séculos governa o mesmo sem vergonha, com ligações em Brasília.

Me escreva sobre isso, mas análise fundamentada em provas ok.

Quando apareceu dois dias depois, pensei que não lhe interessa-se, me disse que pensou que era um gozação de minha parte.

Me deu o texto, escrevi essa noite, depois que Alípio voltasse ao restaurante para dizer que era a sério.

Li o texto, estava escrito a mão, lhe disse que passasse a máquina.  Lhe indiquei uma mesa.

Mandei o texto para o Rio, o presidente me chamou em seguida, se publicas isso, perdemos as propagandas desse filho da puta.  

Se não publicamos, perde um diretor de província que é muito bom.   Telefone para ele dizendo o que vamos publicar, se ele quiser dar uma entrevista para minha jornalista bem, senão estaremos andando atrás do cu dele.

O presidente que era de família fina, ficava horrorizado com meu palavreado.

Alípio que dividia a sala comigo, se matava de rir.  Quem vê o senhor, serio, lindo, loiro, nunca pode imaginar o que vai sair de sua boca.  Mas claro o senhor tem Exu de frente.

Como sabes disse Alípio?

Minha avó que lhe falei, é a mãe de santo do único terreiro da Bahia, que é só de Exu.

Fiquei sério, preciso falar com ela, urgente.

Ele disse, ui vai ser difícil, a meses teve um princípio de enfarte, está na casa de sua filha mais velha, que é católica, apostólica Romana.  Vou falar com ela.   

Ainda lhe disse, falta uma pessoa, que fale do que acontece nos restaurantes, coisas de turismo, esse milongas. 

Ele riu, quando fazia isso, todos os dentes ficavam a mostra, como se fosse morder.  Tenho um conhecido que faz isso, mas é gay.

Qual o problema, eu também sou.

O senhor é gay?

Sim, porque algum problema, vai dizer agora que tem medo de que te ataque aqui nessa sala pequena.

Porque ninguém diria, pela sua maneira de se comportar.

Que eu seja gay, não implica que seja amaneirado, cheio de trejeitos, apenas gosto de fazer sexo com outro homem como eu.

Ele ria a não poder mais, eu aqui preocupado, pois meu amigo tem um azar incrível, quando descobrem que é gay, o colocam no olho da rua.

Vamos telefona pra ele  já.

Quando apareceu o Carlos, os outros olharam, vinha com uma roupa super colorida, foi logo dizendo, bem alto, eu sei que minha roupa é bonita, eu mais ainda.

Realmente a roupa chamava atenção, ele muito mais, tinha 1,90, mulato claro, olhos verdes garrafa, os cabelos quase brancos, descobri depois que era albino.

Riu muito quando eu me levantei, lhe apertei a mão, lhe disse meu nome, me fale de ti, tirou uma série de reportagens que tinha feito, mas só me querem como free Lancer, escrevendo as mesmas bobagens que falam de Salvador, isso já me cansou, pior quando me veem em pessoa, não lhes interesso, pois sou muito colorido segundo alguns para não me chamar de gay.

Mas ele não tinha trejeitos nenhum. 

O que gostaria de escrever de Salvador.  Só sobrava uma mesa, aquela pode ser tua, escreva o que lhe saia da casa do caralho, fale tudo sem papas na língua, mas se lembre só de uma coisa, quando usar um termo muito baiano, escreva ao lado como se diz no Rio de Janeiro.

Ele riu, mostrando uns dentes branquíssimos, que me deu até inveja.

Alípio ficou me observando.   Quando lhe chamei, me disse, não vais me meter em nenhuma arapuca não é seu sem vergonha.

Amanhã Alípio, quero na sala de reuniões, tinha montado uma sala para entrevistas, com uma mesa grande, quero os contratos em cima da mesa, já tenho os salários que me destes, vou ajustar, um meio termo, entre aqui e o Rio de Janeiro.

Li o texto que me trouxe o Carlos, achei ótimo, falava disso, das pessoas que chegam a Salvador querendo ver tudo que os jornais dizem, mas que esses lugares esta maquilado, que deviam sim conhecer os lugares que vivem as pessoas dali.  Citava uma série de lugares, restaurantes, bares, bares gay’s, enfim uma artigo como Deus manda.

Estava conversando com ele, quando tocou o telefone, escutei o Alípio dizendo, no momento está numa entrevista.    Não senhor, não posso interromper.  O senhor Lud Kass, não gosta de ser interrompido, nem pelo próprio papa.

Se o senhor quiser posso marcar uma hora para ele atender o senhor amanhã. 

Entendi que era o governador, ou alguém perto dele.  

Que ele vá até aí, espere vou olhar na sua agenda.  Tapou o telefone, é o governador, sobre o artigo da Nilceia.

Lhe escrevi num bloco, só vou se ele der uma entrevista para a Nilceia.

Escutei um grito do outro lado do telefone.

Desligou, disse que vai falar com o presidente do jornal.

Carlos, olhava achando demais, ele se matar de rir.

O senhor está cutucando onça com vara curta.

Se ele reclama, eu volto para o Rio, esse idiota não sabe que sou de Exu, adoro uma briga.

Exu, não combina com o senhor.

Primeiro pare de me chamar de senhor, detesto esses protocolos, não queres que antes de te contratar te mande a merda não é.  Acabou de ler o conteúdo do que tinha escrito, Alípio pode mandar para o Rio.

Quando chamaram do Rio, era o presidente as Gargalhadas, te chamou de todos os nomes possíveis, nem sabia que existiam tantos palavrões assim na vida.  Mas lhe disse que tinhas carta branca para montar o jornal como quisesse, inclusive contratar quem quisesse, ele disse que mandou um rapaz, que mal o entrevistaste porque não tinha curriculum.  

Como se alguém mandado por ele devia ter curriculum.

O que ele queria era alguém aqui prestando atenção.

Chamou todo mundo, perguntou se alguém tinha rabo preso com o governador, ou o prefeito, que dava no mesmo, era um lacaio do mesmo.

Nem pensar, disseram todos.

Digo isso, porque se descubro como o cu de vocês sem vaselina.  Desculpe Nilceia, é à minha maneira de falar, acostuma-te.

Bom amanhã as nove reunião, na mesa estará o contrato de cada um, com o salário, espero que queriam trabalhar comigo.

Qualquer coisa sempre falem comigo, gosto muito de uma briga.

Alípio lhe chamou a sala, minha avó acaba de chamar, disse que tem que fazer uma firmeza para o senhor.  Melhor a reunião ser rápida, pois nos quer na casa de sua filha as 10 da manhã.

Nesse momento o chefe do jornal que escrevia sobre turismo telefonou dizendo que tinha amado a matéria, pediu duas coisas dele, que falasse da noite de Salvador, dos restaurantes a beira mar, daqueles que se pode ir comer bem, sem gastar muito dinheiro.

Passei para o Carlos o pedido. 

Já ia sentar para escrever, deixa para amanhã, me surgiu um problema, tenho que sair com o Alípio logo de manhã, vamos inaugurar a puta sala de reuniões.

Cada um recebeu o seu contrato, leiam de cabo a rabo, para ver se está tudo bem, são todos iguais, mas atenção ao salário.    Pode ser também que eu me dê o direito de pedir que escreva sobre algum outro assunto.   Nunca pedirei nada que não saiba que possam fazer.

Cada um olhou o salário, sorriram, a única que ficou o a caneta no alto foi a Nilceia, lhe perguntou se não achava melhor esperar como ia ficar a situação.

Quero que você escreva um artigo, falando do que aconteceu, que o Governador, se sentiu incomodado com a reportagem, sinal que não disseste nenhuma besteira, que pulou por cima de tudo como costuma fazer, para reclamar junto a diretoria no Rio de Janeiro.

Quero tudo isso em cima da mesa na hora que chegue.  A Jean Pierre, escreva um artigo, porque a maioria dos professores se acomodam por serem funcionários públicos.  Miguel, quero um artigo sobre tudo que há por detrás do Trios Elétricos, que tanto fazem carnaval, como campanha para os deputados, senadores, governador, todos tem rabo preso, descubra tudo que podes ok.

Esse batia a mão em cima da mesa, o Kass tens um caralho de fazer gosto.

Rindo lhe disse, está ao teu dispor, qualquer coisa te mostro. 

Todos ficaram rindo.

Nesse dia fui para o hotel que estava no Farol da Barra, com cuidado, sabia que ao tocar no estabelecido, sempre era um problema.

No dia seguinte, quando o Alípio chegou, estava nervoso, disse que sua avó tinha pedido que ele tomasse cuidado.

Pegaram um taxi, apesar de que não era longe.  Ficaram esperando a tia dele sair de casa. Mal ela entrou num ônibus, eles subiram.

A senhora que abriu a porta era um mimo, baixinha, cabelos pixaim já bastante brancos, negra como um carvão.  Beijou o neto, o atraiu a ela, com uma saudação de candomblé, fez o mesmo com ele.    Menino mal chegas vais fazendo uma confusão do caralho.

Vó, se a tia escuta a senhora falando assim, a interna.

Essa filha me está colocando de saco cheio, na segunda-feira se o médico me disser que estou bem, mando a merda, prefiro ficar na casa da tua mãe.  Ela já deve estar chegando.

A mãe do Alípio chegou carregada com três bolsas grandes.  Era igual a ele, se apresentou, logo disse, finalmente alguém descobriu que meu filho é inteligente.

A velha, cortou dizendo, logo puxas o saco, fazendo uma feijoada daquelas que só tu sabes fazer.   Trouxeste tudo que pedi?

Sim, tá tudo aqui, minha senhora.

A mãe se vestiu rapidamente com as saias do candomblé, a filha lhe arrumou um turbante vermelho na cabeça, como se fosse uma coroa.

Foram para uma varanda fechada, que não dava para nenhum apartamento, a velha mandou que ele tirasse toda a roupa, não fique acanhado, já vi muito piru negro, branco, amarelo, na minha idade já não faz diferença.   A filha já tinha trazido um banho de descarrego de sua casa, porque se minha irmã descobre qualquer coisa, faz um escândalo de dar dó. Acaba chorando.

A velha começo a falar em Yoruba, ele imediatamente viu o negro que tinha visto no carnaval, estava ali rindo, na sua cabeça foi dizendo, aonde chegas esparramas confusão, como eu.

Ah teu Exu está aqui, consegues vê-lo, ele já te salvou umas quantas vezes, tens que escutar mais a ele, deixar que te ajude, foi ele que me pediu para fazer isso.

Começou a fazer o descarrego total, de repente apareceu com um olho de boi, imenso, claro estamos acostumados a ver um olho de boi no animal, mas fora dele, era diferente.  O colocou no meio de sua testa, disse para segurar, que olhasse aonde estava o Exu, para que esse fizesse uma firmeza, a partir de hoje sempre o verás perto de ti.                 Menos é claro na hora da sem-vergonhice, isso ele não quer nem saber.

Depois que tudo acabou, ele perguntou quanto era.  Ela lhe respondeu, que pagasse a filha o que tinha comprado, que depois quando ele fosse na Ilha com o Alípio, no próximo sábado, ai faremos um trabalho maior.   Mas cuidado.   

Agradeceu muito.

Não tenha medo desse homem, grita muito, faz escândalo, mas é um corno manso, quando alguém fala mais alto que ele, fica com o rabo entre as pernas, mas é vingativo.   Diga a ele que eres filho de Exu.  Ele entenderá.

Quando chegaram no escritório, todo mundo, fez que estava sentido o cheiro que ele tinha, no caminho tudo que tinham usado, foi colocado numa encruzilhada.

O telefone não parou de tocar, o Carlos atendeu, disse que o senhor não estava, que estava fazendo uma entrevista com o juiz Federal que está na cidade investigando alguma coisa.

Segundos depois o telefone tocou outra vez, Alípio atendeu, disse que ele estava no meio de uma reunião, sobre a reportagem que tinham acabado de fazer.  Espere um momento, vou ver se pode falar consigo.

Bom dia, como vai o senhor, interrompeu o homem que tinha entrado direto no assunto, quero avisar ao senhor que minha mãe sempre dizia que sempre dizemos bom dia, boa tarde ou boa noite quando atendemos alguém.

Ah o senhor quer dar uma entrevista?

Sobre que assunto o senhor quer falar, da sua tentativa de me pressionar, não funciona, até me faria um favor, pois iria embora dessa terra, mas não irei muito rápido, pois sou filho de Exu, tenho uma obrigação para fazer.

Bom falarei com a pessoa que fez o artigo, verei se está disponível, amanhã ou depois, aviso vamos os dois falar com o senhor.

Desligou o telefone.   Está manso.

Me deixa ler o artigo que escreveste, todo mundo já terminou?

Todos correram para suas mesas para terminar.   Tinham cara de bem humorados.

Leu o artigo, mandou passar imediatamente para o Rio de Janeiro, bem como para São Paulo que tinha uma edição de tarde, conhecia muito bem quem tinha ficado no seu lugar, o tinha treinado ele mesmo.

Este chamou por telefone rapidamente, rindo a bessa, rapaz como gostas de confusão.  Vou publicar no anexo daqui agora a tarde.   Já vi que fizeste como aqui, contrataste uma mulher para a parte política.

Vais gostar também do que contratei para escrever sobre turismo, essas coisas, tem uma cabeça maravilhosa.   Alias tive sorte, depois de todos os merdas que tive que entrevistar, inclusive um que vinha indicado pelo governador, com certeza queria ter um pé aqui dentro.

Fique em paz meu irmão.

Todo mundo pensava que eram irmãos, pois eram muito parecidos, inclusive ao dizer palavrões, era filho de imigrantes como ele, só que poloneses.

Carlos convidou todo mundo para a inauguração de um boteco, de uma parente dele, mas avisou, fica embaixo da favela.     Foram todos, aquilo estava fervendo, como dizia o Carlos, imagina saber que a primeira ronda de cerveja é grátis, todo mundo aparece, lhe apresentou sua parente, uma negra enorme, com um sorriso de orelha a orelha.   Quando soube que tinha contratado seu sobrinho, lhe estalou dois beijos na cara.    Um bom menino, o senhor vai ver.

Ele estava esperando uma mesa para sentar, quando foi sentar-se apareceu um homem moreno de sua altura, com os cabelos muito esticados com goma.

Sinto muito, mas estava esperando essa mesa, estou cansado, trabalhei duro hoje.

O outro soltou, pelo seu cheiro, creio mais que estiveste tomando um bom banho de descarrego também.  

Riu muito, isso também, mas não se preocupe, podes sentar-se comigo, os meus conhecidos estão fora fumando, estão se conhecendo melhor, pois os acabei de contratar.

Perguntou o que ele fazia.

Lhe explicou que tinha vindo do Rio, para fundar a filial do jornal, tentaram me enfiar goela a baixo uma série de energúmenos, odeio gente tonta, ficaram conversando os dois como velhos amigos,  lhe contou o que tinha acontecido com o governador, o idiota não sabia que sou filho de exu.

Eu também disse o outro, imagina que coincidência.   Só tem um porém fui expulso do terreiro porque me meti no que não devia, mas valeu porque todo mundo pensa que tenho corpo fechado.

Tinham já tomado duas cervejas, o melhor que tinha conversado todo esse tempo um olhando nos olhos do outro, com os joelhos encostados, estava inclusive de pau duro.

Trocaram cartões com número de telefone, perguntou seu nome?

Mais tonto não pode ser, José Campogrande.  Olhou meio de viés, viu que seu exu, falava com um outro tão negro como ele, riam.

Se afastou um pouco, o outro também, comentaram alguma coisa, ele pediu a conta, Lud disse que não se preocupasse, ele pagava, só pelo prazer de falar com alguém tão agradável.

Apertaram as mãos, quando ele saiu, viu que seu Exu, ia atrás dele.

Mal o rapaz saiu, seu pessoal se acercou a mesa.  Alípio logo soltou, chefe como o senhor gosta de confusão.

Por quê?

Sabe quem é esse?

Menor ideia, olhou o cartão, só tinha o nome, um número de telefone.  José Campogrande.

Pois esse é o chefe do tráfico de drogas aqui do morro, bem como de metade de Salvador.

Nisso entrou um de seus homens pelo visto, lhe entregou um bilhete, abriu ficou rindo, se alguém te encher o saco me telefone, mando dar um sumiço.

Passou para os outros, então já sabem, me provoquem, vocês vão ver com quantos paus se faz uma canoa.

A partir desse dia, quando alguém reclamava ele dizia ao Alípio, chama o Campogrande.

Mal chegou ao hotel, tomou um banho, fez a ligação, já estou no hotel, foi um prazer imenso te conhecer.   Não pense que descobrir o que eres, me impressiona, gostei da pessoa. Vamos ver se podemos nos ver.

Que hotel estás.

Farol da Barra, ainda não encontrei nenhum apartamento como quero, tranquilo, mas que eu possa ver o mar, tudo que me mostram é uma merda.

Claro com essa cara de gringo que tens, pensam logo em te enganar, amanhã vou pedir a uma moça minha conhecida que te mostre um apartamento, se gosta, depois nos falamos.

Ainda ficaram um tempo falando.

De repente Campogrande falou, estas de pijama, ele disse que não, estava nu, sempre durmo assim.

Adoraria ver-te nu, deve ter um corpo interessante.   Posso ir?

Sim, podes vir.

Tempo depois bateram na porta, ele tinha fechado as cortinas pois da rua se podia ver dentro do apartamento.

Entrou, ele tinha colocado uma bermuda.

Me enganaste, disseste que estavas nu?

Riu, não seja por isso, tiro, se você tirar tua roupa também.

Viu que ele tirava um revolver que estava metido nas calças.

Nunca se sentiu tão livre com uma pessoa que não precisava fingir o que não era.

Quando terminaram, Campogrande soltou, caralho, até o sexo contigo é igual, forte como uma tormenta.

Ficaram um tempo ainda, tenho que ir embora, pois disse aos meus homens que ia até a casa da minha mãe.   Nós veremos, se gostas do apartamento, será ótimo, pois tenho um no mesmo edifício.

Foi duro se separarem, gostaria de dormir contigo, mas não posso.

Não se preocupe, dizem que ronco muito.

No outro dia quando chegou ao trabalho, Nilceia disse que o próprio governador tinha telefonado para ela, pedindo para dar uma entrevista.  Fiquei de consultar minha agenda depois chamaria sua secretária.

Diga que amanhã podes, pelo que soube, ele no final de semana vai para uma casa que tem na praia.  Mas terá que ser aqui, não no seu conforto.

Combinou com o pessoal, que cada um escrevesse uma pergunta que gostaria de fazer ao governador, mas tirou de sua pasta, um gravador pequeno que tinha comprado uma vez que visitou os Estados Unidos.  Dizem que é usado por detetives, vê se consegue mais uma fita, pois só tenho essa,  vou limpar, mas gostaria de ter uma de reposto.

Alípio saiu para conseguir uma igual.

Prepare a sala, coloque flores, como se fosse receber uma personalidade, uma jarra de agua bem fria, ou garrafinhas dentro de um coisa com gelo, assim cada um pode pegar o que quer.

Só isso, nada de frescura.

Depois se sentou com eles, para falar como ia ser, como ele é prepotente, vai querer falar o que lhe interessa, mas isso é uma entrevista, tens que ser dura com ele, vai te tentar engambelar, mas nada de fraquejar, qualquer coisa fazes assim, tenha tua mão esquerda sobre a mesa, bates com o dedo indicador na mesa, saberei que tenho que entrar.

Quero ver todas as perguntas, bem como teus argumentos.

Caralho, soltou ela, mal começo, já estou brigando com o Governador.

Uma coisa disse ele, quando alguém nos chamar para um entrevista na televisão, iremos todos, somos um grupo, aqui estamos como os três mosquiteiros, todos por um, um por todos.

A risada foi geral, mas todos colocaram as mãos umas sobre as outras.

Seu Exu já lhe tinha avisado o que ia acontecer, chamou o Alípio a parte, não conheces ninguém da televisão que poderia vir, gravar tudo isso.

Não, mas tenho uma filmadora, presente de minha avó, meio antiga, mas funciona.  Se podes trazer hoje, podemos experimentar.

Prepararam tudo, o Governador, apareceu com um assessor, bem como um capanga. Não notou na gravadora, nem tampouco na câmera de vídeo.  Não deu a mão a ninguém, viu apenas que estavam todos com blocos, com um papel ao lado.

Venho aqui receber as desculpas necessárias para melhorar nossas relações.

Como? Perguntou a Nilceia, em nenhum momento ficou isso explicito.

Bom, deduzo por ser a única mulher aqui, que a senhora escreveu o artigo, minha filha lugar de mulher é em casa, criando filhos para o futuro da Bahia.

Só não esperava o que ela lhe respondeu.

Então é por isso que sua filha se suicidou, porque o senhor a mandou ficar em casa, pois não servia para nada.

Ficou vermelho como um pimentão, o que faço ou deixo de fazer no âmbito familiar, não interessa a ninguém.

Então tampouco deve interessar ao senhor que uma mulher que tem duas Universidades, quando o senhor não tem nenhuma, possa trabalhar, criticar seu trabalho mal feito com o estado, com a cidade, verdade?

A mim me interessa um pimento o que a senhora pensa, eu sou o comandante em chefe da Bahia.

Caramba não sabia que estávamos novamente dentro de um regime militar, para que o senhor fosse comandante em chefe, esse só pode ser o Presidente da República, ninguém mais, a não ser que o senhor pretenda governar todo o imenso Brasil, desde Salvador de Bahia.

Ele chegou a se engasgar.

O senhor fez toda essa confusão por causa de um artigo, em que mostro o total desgoverno da província, porque o senhor manda, desmanda como se fosse a casa da mãe joana, o povo que se lasque.

O povo vota em mim, quando não o faz eu os compro com besteira, são como os nativos destas terras que venderam em troca de bijuterias que trouxe Cabral.  

Ou seja, o senhor acha que o povo só serve para enfeite em seu governo.

Minha família está nessa província a muito séculos.

Ela sorriu, bateu como dedo na mesa, Lud atacou, embora não tenhamos apertado as mãos cordialmente, creio que o senhor se engana, recebi desde meu diretor presidente do Rio de Janeiro sua arvore Genealógica, sua família, vem de escravos, sabemos que o senhor não toma sol, para não ficar moreno.  Além do que o senhor só pode se referir aos séculos, se fala do tempo que seus ancestre viveram em Africa.

Ele se levantou de um salto.  Não vim aqui para ser ofendido.

Não é essa minha intenção, veja bem, eu também sou filho de emigrantes, tenho orgulho disto, se meus antepassados tivessem vindos de Africa, eu citaria isso com orgulho.

Mas o senhor veio aqui na verdade para que?

Quero que deixem de me criticar, aqui nesta província mando eu.

Bom o senhor pode pensar assim, mas o tempo dos coronéis já acabou a muito tempo, se o senhor olhar, na verdade se engana, pois não manda nada, está rodeado de gente que puxa o seu saco, faz todas suas vontades, mamando nas tetas do Governo Federal.

A partir de hoje, cada verba que chegue de Brasília, estaremos olhando se ela foi realmente usada para o devia ser, ou se foi gasta na sua casa de campo, na praia, que o senhor construiu dentro de terras do Governo Federal sem licença de ninguém.

Estamos publicando isso amanhã no Jornal do Rio de Janeiro, inclusive mencionando os seus cumplices em Brasília, o senhor sabe que o Presidente lê nosso jornal, bem como todo mundo sabe que tem horror a sua pessoa, pois em todos atos oficiais, ele se nega a lhe apertar a mão, pois diz que é de um negro sujo.

O governador espumava, o capanga, colocou a mão sobre a arma, ele se levantou calmamente, disse ao ouvido do mesmo, sou filho de Exu, amigo de fulano, traficante, vais te atrever. Saia imediatamente da sala.

Como se atreve dar ordens ao meu empregado?

No meu local de trabalho mando eu. Lhe avisei de quem sou filho nada mais.

Aviso ao senhor que não se atreva a tocar nenhum dedo em meus funcionários, pois o senhor é conhecido por fazer desaparecer quem não lhe interessa.

Uma lastima, que o senhor tenha cagado a entrevista, tínhamos muitas perguntas, que quem sabe poderia melhorar sua figura.

Dispara Carlos Mendonça, ele escreve sobre turismo,  seu último artigo não só foi publicado no Rio de Janeiro, bem como em várias revista da rede do jornal.

Fala de um Salvador, que o turista não conhece.  

O governador foi se sentando aos poucos. Respirando fundo, com o seu assessor, lhe batendo no ombro para que ficasse calmo.

Governador, o senhor manda limpar o Pelourinho, pintar todas as casas, tirar todas as putas, malandros de lá, o mesmo fez na Praia do Forte, em todos os lugares turísticos, mas fez uma coisa, como varrer a merda para baixo do tapete, pois o turista sai do Pelourinho, na volta da esquina, se esbarra com malandros coniventes com a polícia local, rouba, abusa dos turistas, o mesmo com relação as putas, a mais antiga profissão do mundo, desde que existe Salvador, temos putas de todas as raças.   Mas os turistas gostam muito das nossas negras.

Então correm o risco, já que não estão num lugar seguro como o Pelourinho, serem assaltados, esfaqueados, mas essas notícias nunca saem nos jornais, pois o senhor não permite.

Pode me explicar este ato de varrer a merda para baixo do tapete?

Ele estava de novo furioso.

Já disse, eu mando na cidade, faço o que quero.

Me explique como então, que essas casas de putas, que tinham proprietários, as mesmas foram parar na mão de assessores do senhor, sem pagar um tostão aos verdadeiros donos, não sei se sabe, mas a polícia federal está investigando o mesmo.

Olha, seu moleque de merda, aqui mando eu, a polícia federal vai fazer o que eu quero, pois tenho podres do presidente, de toda essa cambada de Brasília nas mãos.  Aqui faço o que quero.

Aliás o senhor com essa roupa parece que é gay?

Com muito orgulho, não sou como seu filho que anda por Salvador, fazendo sexo com todos os negros, depois se esconde atrás de uma mulher que o senhor arranjou.

Meu filho não é gay.

Bom isso posso fazer uma reportagem, entrevistando, começou a citar nomes, pessoas que o senhor ofereceu um belo cheque para esquecer o que aconteceu.

Agora ele quase espumava.

Então venho aqui para receber desculpas, recebo mais ofensas.

Quem disse ao senhor que íamos dar desculpas?

Ele apontou ao seu assessor.

Esse senhor, pode lamber muito bem seus ovos, não estamos aqui para ficar elogiando suas falcatruas, mais bem critica-las, falar com o presidente do Jornal, fica feio, porque eu tenho carta branca para tudo aqui, inclusive publicar o que quero.

Se levantou, fez um sinal ao seu assessor, vamos embora, seu idiota.

A senhor, quero lhe avisar que a entrevista foi gravada, não só em som, como em vídeo, publicaremos tudo isso.

Ele deu um tapa na cara do assessor, estas fudido, me enganaste dizendo que iam se dobrar ante mim.

Desligaram tudo, ficaram rindo. 

Tire uma cópia de tudo, mande para o Rio de Janeiro, para o presidente, vai ficar furioso que eu tenha usado o que ele me mandou em confidencia, mas não importa.

Depois descubra qual banco que tem cofres de segurança, vamos guardar isso a sete chaves, com várias copias.    Primeiro, mande para todos os canais de televisão do Rio, São Paulo, Brasília, polícia federal. Bem como a gravação para as rádios daqui da capital que sejam inimigas dele, cópias para o Rio de Janeiro, rádios de São Paulo, ele vai ver com quantos paus se faz uma canoa.

Todo mundo ajudando o Alípio.

A não ser que alguém tenha medo, pode pedir demissão se for o caso.

Todos riram, nunca estivemos melhor.

Quando saíram da sala, ele ligou para o Campogrande, pediu se podia mandar proteção para seu edifício, bem como para cada um dos seus jornalistas.

Que foi que aprontaste? 

Vens de noite, te conto tudo.

Avisou aos pessoal, pedi ajuda ao meu amigo José Campogrande, ele vai mandar um capanga para cada um. 

No dia seguinte, no Rio de Janeiro, em Brasília, São Paulo, não se falava em outra coisa, os jornais que eram contra o Governador em Salvador, incialmente estavam receosos de publicar, mas quando viram em canal nacional a entrevista, foram à luta.

Vieram entrevistar o Lud Kass.  Se sentou na mesma sala com todos seus ajudantes, dizendo não temos nada a esconder.  Este senhor chegou aqui, se esqueceu que o tempo dos coronéis acabou, veio acompanhado de um jagunço, de um baba ovo, querendo que pedíssemos desculpas por uma reportagem da senhorita Nilceia, ainda teve a ousadia de dizer que lugar de mulher era em casa.   Ora vejam, por isso a Bahia não vai em frente.

Soube que o Tribunal Superior, mandou investigar quais os juízes da cidade que estão acobertando os documentos sobre as casas do Pelourinho.   A nome de quem estão, porque os processos de restituição, estão no Tribunal Superior.

Inclusive, ajudado por cidadãos reais da cidade Santa de Salvador da Bahia, temos todos os documentos falsificados, quais os cartórios, bem como quais os amigos do Governador receberam o beneplácito disso, inclusive, que ele fez uma festa para comemorar isso, que agora era donos de Salvador, que fariam o mesmo na Baixa do Sapateiro.

Salvador ficou em polvorosa.

Do Rio o presidente do Jornal lhe ligou, esse é o meu menino, tá vendo como eu sabia a quem escolher para ir para Salvador.   Outros diretores que têm rabo preso com políticos, não gostaram, um inclusive disse que ficava imaginando se eu te mandasse para Brasília como seria.

Lhe respondi, que seria igual jogar merda no ventilador, mas tamanho gigante.

A polícia federal invadiu a casa da praia do Governador, colocou todo mundo para fora, isso tudo filmado pelos canais de televisão do Rio de Janeiro.  Em Brasília se abriu sindicância sobre as últimas verbas, para saber se estavam sendo aplicadas realmente aonde tinham sido solicitadas.

Foi um fuzuê desgraçado.

José Campogrande, tinha um apartamento que usava ao lado do seu, de noite pulava uma mureta, para ficar com ele, gostavam de ficar sentados na varanda conversando, olhando o mar, nunca lhe perguntava sobre o que fazia.

Mas um dia lhe disse, quero que um dia subas a favela com tua brigada, que façam uma reportagem a respeito.   Vendo drogas sim para os filhinhos de papai, para o pessoal que tem dinheiro, lá em cima, é proibido consumirem drogas, os que se atrevem, coloco para correr. Aos que tem famílias, mando dar um corretivo, pois estão roubando o futuro de seus filhos.

Depois os dois iam para a cama, se entendiam super bem.  Aliás nunca tinha se encontrado assim com ninguém.  José inclusive lhe disse que como não podia sair com ele abertamente, que ele podia ter namorados.

Sinto muito meu garoto, mas me nego a isso, gosto é de poder disfrutar da tua companhia, das nossas conversas.

Numa segunda-feira, sem avisar, pararam a Kombi que tinha agora, com o logotipo do Jornal, na parte baixa da favela, viu um dos homens que conhecia, pois as vezes ficava guardando o prédio, em que vivia, pediu que avisasse ao senhor José Campogrande, que vinham fazer uma matéria sobre a favela,  enquanto este subia como um foguete, pediu a um outro, que os fosse guiando para cima. 

Tinha ensinado ao Alípio a fazer fotografia, mas agora também tinha uma câmera de Vídeo presente do presidente do jornal, ele ia ora fotografando, quando alguns dos jornalistas parava para falar com alguém, primeiro fotografava, depois com autorização da pessoa, gravava o vídeo.

Quando ele viu José Campogrande chegando deu ordem, não o fotografem, nem tampouco gravem vídeo dele, nem da gente que o acompanhe.

Foram subindo, agora os jornalistas iam na frente, eles atrás.

Me arrumaste uma cilada, pois me deixaste de calças curtas, pois não posso montar nenhuma mentira, verdade seu malandro.

Gosto de ti, meu amigo, mas meu trabalho, é minha vida.

Depois lhe entrevistaram sem vídeos, tampouco gravação, falou como funcionava seu mando na favela.   Aqui não esta permitido consumir drogas, o que o faz, tem que ir embora.

Tinham visitado a escola, aonde os professores, diziam o mesmo, ninguém se aproxima de nenhum garoto para que venda drogas.  Somos professores, que o Governador expulsou das suas escolas originais, por não falarmos bem dele.

Aqui encontramos crianças sedentas de saber, a maioria leva a sério o que estuda.  A cada um que tem as notas mais altas do semestre, o chefe faz um presente. Nada demais, mas um incentivo para que siga em frente.

A reportagem foi excelente, o presidente só reclamou que não tinha nenhuma foto do chefe do tráfico.  

Só se eu fosse um idiota.  Colocaria em risco sua vida.

Todos eles agora, se esmeravam por ter boas matérias para mandar para o Rio de Janeiro, sejam entrevistando pintores, escultores, mães de santo, enfim o mundo de Salvador.

Um ano depois, Alípio treinado por ele, era seu braço direito.   Mas o melhor que nesse tempo, tinha começado a frequentar o terreiro de sua avó, na Ilha de Itaparica, seus finais de semana eram sagrados.  Se esquecia da vida dedicado ao culto de Exu.

Ela dizia que ele estava se preparando, para que quando partisse para o mundo, que seu Exu fosse totalmente preparado para estar com ele.

Em particular lhe agradecia o que tinha feito pelo seu neto.   A mãe do Alípio era a Mãe Pequena do terreiro, dizia, ninguém deu por esse menino, é feio como eu, mas tem um coração gigante, bem como uma inteligência impressionante.

Um dia saiu do trabalho, disse ao Alípio que queria conversar com ele em particular.  Achou que o melhor lugar era sua casa.  Se sentaram os dois na varanda, cada um com uma lata de cerveja bem gelada.

Me fale de seus sonhos Alípio?

Puta merda, isso é um interrogatório como o que me faz minha avó, sempre.   Nunca imaginei estar fazendo realidade meus sonhos.  Trabalhar contigo, é o máximo, sei que breve iras embora, fico pensando que tudo bem que me escolheste para ficar aqui, dirigir o Jornal, mas na verdade acho o Miguel dos Prazeres, ou mesmo o Jean Pierre, diria mais, a Nilceia é mais bem preparada para isso.  Descobriste uma mulher com dois caralhos bem postos.

Meu sonho, seria segui a ti, para teu novo destino.    Não sei quais teus planos, mas vive dizendo que iras embora.

O prometido é que se eu conseguisse o que fiz, poderia escolher meu próximo destino, quero ir para a Europa, cobrir grandes notícias internacionais.   Não me interessa América do Norte, não faz meu gosto, gostaria de viver me Bruxelas, aonde a Europa está montando sua grande Capital, de lá posso me mover para aonde queria.  Ou Paris, ou Berlin.  Dois pontos podem ser bons, Paris, pois de lá posso me mover basicamente para qualquer lugar do mundo, aonde esteja acontecendo alguma coisa.    Mas quero que sabias, isto fazemos correndo o risco de vida.  Há as guerras, evidentemente que estas aconteceram, podemos sair feridos, fudidos, outras coisas mais.

Se queres vir comigo, tudo bem, mas tem que consultar com o travesseiro.  Escutaram uma voz do outro lado.   Garoto, eu não duvidaria nenhum minuto, em colocar minha vida nas mãos desse homem.   José Campogrande, saltou a mureta, foi até a cozinha, pegou uma cerveja, se sentou no chão, rindo para os dois.

Escutei metade da conversa, Alípio, confesso que fiquei com uma puta inveja, não duvidaria nenhum minuto, em ir com ele até o inferno, mas infelizmente meu destino é aqui.  Tenho minha mãe, para cuidar, sou o único da família.

Fale com a tua, essa Mãe Pequena, de quem gosto muito.  Sinto lastima ter sido expulso do terreiro, mas um dia volto.

De gozação, mas antes de ir embora, aconselho aos dois a fecharem seus corpos.  Ria a não poder mais.

Os Exus podem te empurrar, ou te cuidar, mas bala é bala.

No sábado foram a Ilha de Itaparica, a avó de Alípio, sentou-se com ele, foi claríssima, esse teu relacionamento pode ser prejudicial, não para ti, mas para o outro, estão desconfiando dele, o difícil é que esse meu filho se perdeu, se vosso relacionamento o fosse colocar no caminho, bem, pois contigo ele mostrou seu lado bom.    Mas o dinheiro fácil para ele sempre foi importante.    Vais me dizer que tem princípio, mas infelizmente sua vida será curta, como todos que pensam que são eternos.

Na segunda-feira, foram para o Rio De Janeiro foi no primeiro avião, levando com ele o Alípio, sentou-se com o diretor presidente, meu tempo acabou, agora chegou a hora de cobrar o que me prometeram, senão irei trabalhar para a Agencia Reuters, pois me convidaram, lhe passou a carta, que o convidava para uma entrevista em Paris, analisava todo seu trabalho que tinham acompanhado.

Tudo bem, escolha a cidade, te pagamos tudo, mas terás que ser fiel.

Mais uma condição, levo comigo o Alípio, ele não sabe ainda, mas é o homem de campo que preciso comigo, um pessoa inteligente, sabe se virar, além de falar inglês e Francês, confio plenamente nele.

Quero muito conhece-lo.

Pois está aí fora.

A cara de surpresa do diretor presidente foi espantosa, não esperava que aquele homem feio, magricela, negro ainda por cima, fosse o homem que seu preferido falasse.

Lud, dirigiu a conversa em francês, Alípio imediatamente seguiu seu chefe, lhe fez uma série de perguntas, pegou as notícias que estavam em cima da mesa, vindas da Europa, principalmente do funcionamento da comunidade europeia, pediu que ele analisasse.

O outro ficou de boca aberta, pois eram notícias que ainda não tinham sido publicadas, a análise foi aguda.

Me rendo disse ao Lud.

Dentro de uma semana volto para o Rio, deves mandar o diretor do jornal, examinar os candidatos, nos dois preferimos a Nilceia, pois é uma mulher de coragem.  Foi ela que enfrentou o governador.

Foram tirar o passaporte do Abílio, pois em Salvador demorava muito.  Compraram passagem, antes de decidir aonde vamos viver, vamos visitar as cidades para poder analisar aonde será melhor.

Não escondeu do José Campogrande que ia embora, lhe disse, sinto muito, mas sempre soubemos que não teríamos futuro. Se despediram em grande estilo.

Ia sentir falta dele, mas tinha que seguir seu rumo, tinha entendido a mensagem, que a ele lhe faltava pouco tempo de vida.   Que ele não tinha futuro ali.

Arrumou seus poucos pertences, se desfez do que não lhe interessava, deixou tudo para o José, pois tinham o mesmo corpo, inclusive livros, pois ele gostava de ler.

Antes foram ao terreiro na Ilha de Itaparica, se despediram de todos, ele agradeceu muito ter sido recebido no meio deles.  Fez uma oferenda a todos Exus dali, esperando contar sempre com a proteção deles.

No aeroporto, se despediram do pessoal da redação, realmente a chefe iria ser a Nilceia, que lhe agradeceu profundamente ter mudado sua vida do avesso.

Posteriormente a indicaria para trabalhar na Agência Reuters, se encontrariam em Paris anos mais tarde.

No Rio, se despediu dos amigos, resolveu liquidar seu apartamento entre os amigos, estava completamente desapegado de coisas materiais, não queria nada.  Assim seria sua vida agora, nunca mais guardaria nada, livros, roupas, tudo poderia sempre encontrar o que necessitasse.

Ficaria conhecido por ter um uniforme de trabalho.   Uma Sahariana, de jeans, calças do mesmo estilo, camiseta, botas, o resto para ele era supérfluo, mesmo que fosse uma entrevista com um chefe de estado, seria sempre assim.   Aliás os dois tinham o mesmo uniforme.

Sempre seriam confundidos como um casal, nada mais longe da verdade, os unia além dos espíritos, uma amizade profunda, confiança absoluta.

Fizeram de tudo, escolheram ficar em Paris, mas dali se moviam para aonde fosse necessário, foram fazer reportagem de guerra, no oriente, ocidente, aonde tivesse algo importante, iam. Quando a matéria não interessava ao Rio de Janeiro, vendiam para alguma Agência, repartiam o que ganhavam.

A Reuters, seguiu os convidando.  Quando o Diretor Presidente se aposentou, deixaram de representar o jornal, na verdade os contatos que tinham eram melhores, aceitaram trabalhar para a Reuters, como companheiros como sempre, falavam o tempo todo em francês, se esquecendo com o tempo de falar em português.

Quando lhe pediam para cobrir alguma notícia do Brasil, principalmente de política, sugeriam a Nilceia.   Sua mente aguda, seguia lhe encantando.

Na verdade, era talvez a única que tinha percebido o relacionamento dele com o José Campogrande, foi ela que lhe avisou que tinha morrido.   Não havia provas, o corpo tinha desaparecido.   A verdade só saberia anos depois.

Quando foram a guerra na Bósnia, quase perdeu uma perna, levou um tiro, apesar de como sempre ter levado um empurrão.   Justamente sua sorte foi o Alípio estar ali.  O arrastou até uma ambulância da cruz vermelho, continuou trabalhando, mas tarde foi vê-lo no hospital.

O avisou, Alípio, cuidado, a coisa está muito louca, nunca sabemos com que bando estamos falando.

Quando ele ia ser transladado pela Cruz Vermelha, para a Alemanha, chegava uma ambulância, com o corpo dele.   Fez a maior confusão, pois queria que levasse o corpo do amigo com ele.

Em Berlin, conseguiu que seu corpo fosse levado para o Brasil, precisamente para a Ilha de Itaparica. 

Escreveu uma carta para Nilceia, falou com ela por telefone, antes de fazer uma operação muito séria.  Diga a sua mãe que sinto muito, mas eram os riscos.

Quando esteve em recuperação, se sentiu completamente sozinho, tinha sido o melhor amigo, companheiro de sua vida.  Se entendiam com um simples olhar, entre eles, não havia necessidade de falar muito.

Essa camaradagem, ele perdia.   Sabia que ele tinha uma namorada em Paris, sabia o nome, o endereço.    Pediu que a agência se comunicasse com ela.  Que lhe passasse o telefone que queria falar com ela.

Quando voltou para Paris, foi procura-la, andava de bengala, bateu na porta, surgiu uma mulher lindíssima, o fez entrar, no salão, havia uma série de fotos dos dois juntos, eram as pessoas mais diferentes uma da outra.   Ela tinha sido uma famosa manequim, que tinha se retirado cedo da carreira, se dedicava a escrever livros para crianças com sucesso.

Chorou muito nos ombros dele, esse menino me salvou a vida, quando o conheci estava perdida, todos só viam em mim, minha beleza, com ele podia falar de tudo que sentia, me entendia.   Sempre estava falando no senhor.    Como o tinha descoberto, a chance que tinha de acompanha-lo, como dividiam tudo.   Uma vez brincando, lhe disse que ele devia estar apaixonado pelo senhor.

Riu muito, sempre falam isso da gente, mas melhor amigo impossível.

Agora era ele que chorava tudo que não podia ter feito. 

Tinha agora uma situação, boa, quase não gastava dinheiro, os gastos sempre corriam primeiro por conta do Jornal, depois pela Agência Reuters, os artigos que não queriam, vendiam ao melhor postor.    Viviam como sempre tinha vivido num apartamento pequeno, a não ser nos primeiros meses tinha compartido apartamento com Alípio, mas em seguida cada um tinha o seu, com uma pequena distância um do outro.

Um dia conversando com um outro jornalista, esse disse que estava farto de tudo, que agora iria escrever para séries de televisão, que era o que estava na moda.

Sonhou com o Alípio, sobre uma aventura que tiveram, de ir a Angola, desentranhar as relações que tinham o presidente do Brasil, com o de Angola, dois tipos da mesma laia.  Alípio por ser negro, além do seu físico, ninguém dava por ele, conseguia material, fazia amizade com os que o governo explorava para manter o fluxo de dinheiro, que vinha do Brasil, para determinadas coisas, que acabava tudo na conta do presidente de Angola, nunca era feito nada a respeito.

Relataram os dois juntos, o tudo, tiveram que sair escondidos de Luanda, escondidos, num caminhão, pois estavam sendo perseguidos, cruzaram a fronteira do Congo, metidos entre fardos de material suspeito. Mas conseguiram chegar a Kinsasa, aonde puderam pegar um avião para voltar.   Escreveu toda a história, inclusive analisando todo material que tinham, algumas coisas não tinham usado na reportagem.    O livro foi editado com sucesso, ele mesmo fez a tradução para o Alemão quando lhes interessou.

Mandou o mesmo para a mãe do Alípio, para que ela sentisse orgulho do filho.

Tempos depois contou uma série de acontecimentos que se passaram em Moçambique, aonde estiveram à beira da morte, mas quando começaram a falar em português, se salvaram, o melhor era como tinha tirado do pais, toda a reportagem, as fotografias, voando de Maputo, que ele chamava de “vem cá meu puto”, para Antananarivo, aonde passaram duas semanas fazendo fotografia, como se estivessem de férias.

Sempre tinha pensado que lá seria um lugar ideal para viver.

Soube que a avó do Alípio, estava muito mal, com os dois livros embaixo do braço, voou através de Lisboa para Natal, de lá conseguiu um voo para Salvador.  Carlos Mendonça o esperava no aeroporto, a senhora estava sendo velada no Terreiro, ele chegou, foi abraçado por todos, sentia lastima de não ter podido chegar a tempo de vê-la com vida.  A mãe do Alípio que era agora a responsável pelo terreiro, disse que não fazia diferença, que tinha estado em coma uma semana, nunca voltou a si.  Tinha sim deixado uma carta para ele, pois quando leu o livro sobre seu neto tinha-se emocionado.

Leu a carta, no final do dia, chorou muito, voltou no dia seguinte para a cerimônia do enterro, ela seria cremada, suas cinzas ficariam no grande Iroco que existiam ali no terreiro.

Ele ajudou com todas as despesas, sentia-se observado todo tempo, agora o terreiro tinham mais gente jovem.

Depois de tudo, uma semana depois, estava fazendo uma obrigação para Exu, como agradecimento desses anos todos, quando tudo terminou, escutou uma voz nas suas costas.

Ela sempre dizia que um dia voltarias, embora ela não pudesse te ver.

Era o José Campogrande.  Ficou surpreso, o via diferente, só seus olhos eram os mesmos.

Fiz uma plástica, como ela me recomendou quando a procurei, pois me sentia perdido, me ajudou todo esse tempo, basicamente vivo aqui cuidando dos Exus, das quartinhas, como uma Yao, estudando, quando li seu livro, morri de inveja do Alípio, que deixou tudo para trás, para te seguir.

Ele me procurou antes de ir embora, me incentivando a romper com tudo, para ir atrás de ti, mas lhe disse, que tua vida estava marcada, pouco sobrava de espaço para outra pessoa.

Tens alguém?

Nunca mais tive ninguém depois de ti, a princípio alguma aventura, mas depois me cansei, disso tudo.  Essa eterna busca de uma pessoa que pudesse substituir outra que me fez feliz pela primeira vez, embora fosse tudo escondido.  No nosso relacionamento, nunca fomos a um cinema, a um restaurante, estávamos sempre fechados entre quatro paredes.  Eu saia ganhando, pois tinha tempo para viver o meu trabalho, mas tu estavas preso com tuas coisas, sempre na surdina da noite, quando pulava aquela mureta, para se refugiar no meu apartamento.   Nunca me esqueci das noites passadas naquela varanda, conversando, nunca tinha tido isso com ninguém, tampouco tive depois.

O mundo hoje corre mais rápido, estamos sempre com a sensação, que temos um cachorro, querendo nos morder o calcanhar.

Pois é encontrei aqui a paz que buscava.

Vives como sempre em Paris?

Não a dois anos, me mudei para uma casa numa praia pequena em Les Calanques, não tem sequer nome, um caminho de terra batida, mas de uma paz imensa.  Sabes contínuo o mesmo, não preciso de muito.  Quando necessito vou até Cassis, faço as compras, depois volto para casa.   A luz é uma merda, escrevo outra vez em máquina de escrever, daquela portáteis de antigamente.

Ficava escuro, o pegou pela mão, venha comigo, logo por detrás do terreiro, havia uma cabana, vivo aqui.   Ficaram ali abraçados, sentados no chão da sala, até que escureceu totalmente, se beijaram, foi como um balsamo que estivesse necessitado.  Se amaram como faziam antes, chorou agarrado a ele, pelo Alípio, por tudo que tinha perdido. 

Quando se acalmou, lhe perguntou por que não vinha com ele, não penso em voltar para o Brasil, daqui irei para Natal outra vez, de lá embarcarei para Lisboa, Marseille, finalmente estarei em casa.   Queres vir?

Vou falar com minha mãe, agora chefe do terreiro, só posso ir se ela me liberar.

Dormiram agarrados uma ao outro, coisa que nunca tinham feito, quando despertou, José disse que ele tinha mentido, não roncas como dizias.

Só ronco quando estou cansado demais.   Mas estar agarrado a ti, me faz feliz.

Foi falar com a chefe do terreiro, voltou com um sorriso na cara, me disse que estou liberado, que já paguei tudo que devia a Exu, ele me libera porque vou estar contigo.

Tiveram que usar o Carlos Mendonça para conseguir um passaporte e documentação para ele, afinal estava morto a muito tempo.   Desta vez ficou esperando por ele, para ter certeza de que iria mesmo.

Se despediram do terreiro, com uma cerimônia muito bonita.  Ele avisou a senhora do terreiro, que quando ele morresse, suas cinzas vinha para cá, aonde ele tinha se encontrado com seu Exu.

Foram embora, não tiveram problemas nenhum

José Campogrande, dizia que o lugar aonde estava sua casa, era um paraíso. Podiam passar semana sem ver ninguém, mesmo no verão, pouca gente sabia como chegar a cala aonde estava a casa.

Então a paz era perfeita.    Muitos anos depois José voltou fazendo o mesmo trajeto, para trazer suas cinzas, nunca mais saiu do terreiro.

WAY

                                                       

Sua avó dizia sempre, que nada é o que parece, até que se confirma a verdade.  Assim tinha sido sua vida, falsas aparências, solidão, batalhas imensas para chegar a algum lugar.

Imagina, seu pai um dos primeiro comandante negros da história, um homem feito a si mesmo, reto como uma agulha como ele dizia, mas incapaz de fazer um carinho, um gesto para nenhum dos filhos.

Exigia obediência, de seus filhos como os homens sobre seu comando.

Para ele só existia uma única verdade, a sua, a dos outros não lhe interessava.  Desde que era garoto, se chocavam, ele era o único filho homem criado no meio de 4 irmãs mais velhas do que ele.   Por instinto, cada ordem do pai, para ele que nunca o via em casa, a não ser entre uma viagem e outra, aquele homem negro de 2 metros de alturas chegava em casa, começava a reclamar de tudo, dar ordens como se tivesse num quartel.

Suas irmãs, bem como sua mãe, pareciam baratas tontas, correndo de um lado para o outro para obedecerem.  Ele desde pequeno, ficava parado olhando criticamente aquele homem.  Não lhe obedecia, ou contrário o ignorava.

Para ele era um desconhecido.  Sempre se lembrava de uma pergunta que fazia em sua cabeça, lá vem esse idiota querer mandar num lugar que funciona.

A coisa piorou com a idade.  Quando se mudaram para Washington,  aonde finalmente ele ia ter seu pouso de guerreiro, sua vida virou um inferno.

Só faltava ter um homem em posição de sentindo tocando corneta dentro de casa a cada ordem sua.  Desde que levantava, até a hora de dormir.

Ele o ignorava totalmente, se fechava no seu quarto a chave, podia bater quanto quisesse que não abria.  Tinha escolhido esse quarto estrategicamente, pois sua janela dava para uma árvore, podia sair dali tranquilamente, quando o velho conseguia abrir a porta.  Ele como era grande e com a idade pesado, não se atrevia a pisar nas telhas.

Lex Willcox, ao contrário, parecia um pincel, era magro, alto como seu pai, mulato claro, olhos azuis, como o de sua mãe, uma loira impressionante.  Suas irmãs eram como ele, mulatas claras, como nunca tomavam sol, podia passar por brancas.   Mas ele tinha traços de seu pais, nariz de negro, boca grande com uns lábios grossos.  Ao contrário das irmãs, tinha cabelos crespos como se seu pai.

Tinha uma coisa que destoava de tudo, tinha um QI impressionante, com 17 anos já estava na faculdade, contra a vontade do pai que queria que fosse para West Point.

Nem pensar, aproveitou que seu pai estava viajando, visitando tropas, quando voltou ele já estava na universidade, com uma bolsa de estudos, afinal tinha sido um aluno exemplar desde criança, suas notas sempre eram as melhores.

Sofreu Bullying sempre, mas aprendeu a se safar sozinho. O primeiro idiota que se meteu com ele, deu um murro na cara do sujeito, rebentando seu nariz.   O bom que como tinha muitos ossos, uma cotovelada sua era como bater num muro.   Era louco por música, não uma música qualquer, clássica, jazz, todos os novos movimentos.  Estava sempre com uma na sua cabeça.  

Ao contrário, quando o velho estava em casa, nada de música.   Pensava, graças a deus existem maneiras hoje em dia de se escutar música.

Quando o pai voltou, ele já não estava em casa, mas imaginou a cena, o velho espumando porque estava estudando música na universidade.  Tocava piano, violoncelo, sax, fagote amava o som desses instrumentos.    Um dia chegou no seu dormitório, encontrou o mesmo acompanhado de sua mãe, lhe deu uma ordem, arrume suas coisas, vais mudar de escola.

Ele tinha sido malandro, tinha aprendido com sua avô,  lhe deu uns documentos da escola para assinar, ele fez sem prestar atenção, estava vendo um noticiário que criticavam a guerra, falavam mal do presidente que continuava mandando gente para a frente.  Lhe enfiou os documentos na frente dele, assinou sem ler.

Tinha assinado sua emancipação,  nunca lhe tinha dado mesada, mas a recebia de sua avó, uma mulher negra, semi analfabeta, mas de uma inteligência raríssima.   Além de ter uma das melhores bolsas de estudos para estudantes de música.

Enfrentou a fera, não tenho porque o acompanhar, estou aqui estudando, com uma bolsa de estudos, tenho meu dinheiro, além de que, não tenho que realizar suas frustrações, ir para essa escola de idiotas, West Point.  

Isso era enfiar o dedo na ferida, pois quase todos superiores de seu pai, tinham ido, ele não teve que entrar no exército, ir subindo degrau a degrau.

Você é menor de idade, tem que me obedecer, ao lado dele estava o reitor da universidade, sinto muito,  disse ele, o rapaz é emancipado, tem 17 anos, quase 18, temos um documento com firma reconhecida, o senhor assinou sua emancipação.

Sua mãe se atreveu a abrir a boca, é verdade, tu assinaste sua emancipação, antes de ir de viagem.

Não assinei nada, impossível isso.

Ele sorriu, tinha vencido a fera, segui os conselhos da senhora sua mãe, me disse que lhe entregasse para assinar, enquanto o senhor estivesse vendo um noticiário, que falasse da guerra, o senhor não estaria prestando atenção.

Ficou uma fera, só faltava espumar, sua mãe o conhecia bem demais.   Depois que começou a subir no exército, basicamente se esqueceu que ela tinha lavado roupa, limpado casas, feito da tripas coração, para manda-lo para a escola.    Quando se casou, simplesmente já apresentou sua mulher, tinha vergonha que ela aparecesse no casamento.

Pois ela acabou se casando com um professor universitário, mulato, alto, com uma voz potente, quando ele apareceu para reclamar que ela tinha se casado sem perguntar a ele.  O homem lhe deu uma bronca fantástica.  Estas falando com tua mãe, minha esposa, portanto mais respeito, se não sabe se comportar, fora de minha casa.

Sua mãe levava os filhos para verem a avó, sempre que podia, ele a adorava, bem como ao seu marido, o chamava de avô, ao contrário de suas irmãs, na adolescência elas deixaram de ir, mas ele não.  Eles já viviam em Washington, quando eles mudaram.  Então depois das aulas, sempre ia para lá, sentava-se no salão escutando música com eles.    Muito Jazz, depois ficavam discutindo as interpretação, ele acabou gostando disso.  

A avó o matriculou numa escola de música,  ele juntou sua inteligência a um ouvido espetacular que tinha, de escutar um tema, saber tocar, bem como improvisar em cima do mesmo.

O velho ficou furioso, no dia seguinte voltou com duas bolsas, com tudo que tinha no seu quarto, vim trazer os despojos de um filho que morreu.

Ele pensou bem, riu na cara dele, me fizeste um favor, pois assim não tenho mais que ver a cara de um sujeito desagradecido, ignorante, que acha que a força manda mais que a inteligência.  Passar bem. Pegou as bolsas jogou na primeira lata de lixo que viu na frente dele.   O senhor acha que eu deixei alguma coisa que podia necessitar na sua casa, isso dai é lixo, nada disso me interessa.

Foi passar o final de semana com seus avôs, o velho se matava de rir com a história.

Que bom que vieste, mandei a gravação daquele último tema que me mostraste, acho que estar perdendo tempo aqui na universidade.  Tens que ir enfrentar o mundo. 

Tenho um grande amigo de infância que é professor da Juilliard School em NYC, me disse que gostou demais, se quiseres ir para lá, consegues que entre para a escola.

Mas aqui, tenho a bolsa que paga tudo, lá não terei.

Olha meu filho, eu e tua avó, estamos em final da vida, tenho dinheiro que guardei esses anos todos, você é nosso herdeiro com respeito a tudo, pois eres o único que sempre vem nos ver, compartilha conosco tua vida.   Nada mais natural que te ajudemos.

Resolveu ir até lá conhecer a escola, bem como o professor Miguel Martinez, ele inclusive tinha dois discos dele.

Se apresentou, diante de uma banca, tocando ao piano jazz, música clássica, perfeitamente.

Não temos muito para te ensinar.

Quero aprender composição, saber escrever direito as músicas que tenho dentro de minha cabeça.  Lhe aceitaram.

Era época de férias,  Miguel disse que ele podia ocupar um pequeno apartamento que tinham em cima do deles.  Na W74th Street, para cima da West End Av.  Ele vivia no último andar do edifício, mas tinham um apartamento pequeno no que seria a varanda de cima.  Era perfeito, podia estudar música sem incomodar ninguém.   Além de poder ia para a escola ou de bicicleta, ou skate.

Logo estava tocando com companheiros da escola, ou mesmo acompanhando o grupo do Miguel, mudou seu nome, mas antes pediu autorização ao avô,   agora ele era Lex Avidan.

Logo estava tocando fixo no grupo, se revezava  com Miguel Martinez no piano, mas tocava o violoncelo super bem. 

Miguel lhe avisou que a Orquestra do Lincoln Center, fazia provas para novos contratos, ele se apresentou para piano, bem como para Violoncelo, Fagote, passou para as três, o diretor disse que podia  dispor dele para qualquer emergência nesses instrumentos.   Agora passava o dia metido em ensaios, ora com a orquestra, ou com o grupo do Miguel.

Quando saíram as críticas do primeiro concerto do Lincoln Center, destacavam seu trabalho, dizendo que um jovem aparecia no cenário americano com um futuro brilhante.

Logo saiu um disco com o grupo do Miguel, nesse os críticos comentavam de sua versatilidade.

Saiu de turnê com a orquestra do Lincoln Center, fizeram San Francisco, Los Angeles, Chicago, logo era convidado para tocar com todas as orquestras.  Sua avô, com Avidan, vieram para NY.

Avidan alugou um grande apartamento, foi viver com eles, este cuidava de sua agenda, lhe ensinou a aplicar dinheiro, a levar uma vida com os pés no chão.

Sabia de sua mãe, por sua avô, lhe contou que tinha pedido divorcio de seu pai, mas que esse se negava a conceder.  Agora iriam a juízo.

Se manteve afastado, pois não queria se ver envolto em problemas alheios.

Saiu de turnê com o grupo de Miguel, retornou a San Francisco, depois a Chicago, por último, faziam uma serie de show em Memphis,  New Orleans, aonde eram para ficar uma semana, já estavam a quinze dias.

Na última semana, o cantor do grupo tinha faltado, por um grave problema de doença, um dia não viu que seu microfone estava aberto, estava tocando, cantando a música ao mesmo tempo.

Foi um sucesso.   Ele sabia todo o repertorio.  Saiu em todos os jornais.  Nem sabia que tinha essa possibilidade.

Saiu num intervalo para descansar, no beco ao lado da casa de jazz que estava fazendo show, quando se viu cercado de  três homens negros, com uniforme militares, tinha uma quarta figura na sombra.   Tentou escapar, mas lhe conseguiram pegar.  A surra foi imensa, pior foi ver o pai sair das sombras, com uma barra de metal, bater em todos seus dedos.   Agora quero ver se vais te sentir como um rei da música, sem esses dedos para tocar a merda desse piano.

A surra foi a pior, pois este lhe dava chutes, não eras meu filho, eu sabia. Filho da puta.

Depois o jogaram na água, desacordado levou um choque, não sabia nadar, por sorte uma corrente arrastou seu corpo, para um canal, ficou preso num embarcadouro rudimentar de um pescador.

De manhã o filho deste o encontrou, chamaram rapidamente a polícia, bem como os bombeiros.

Foi levado já nas últimas a um hospital.  Os do grupo já tinham comunicado de seu sumiço, inclusive a polícia dizia que devia como todos os músicos, ter ido cheirar cocaína.   Mal sabia que ele não bebia, tampouco usava drogas.

Ficou em coma uma semana, tinha colocado seus dedos no lugar, bem como um novo sistema para que não perdesse os movimentos.  Ter estado na água, com as mãos para baixo, preservou tudo.

Quando seus avôs chegaram, bem como sua mãe, mal saiam do hospital.

O idiota de seu pai, não sabia que o Club de jazz tinha um sistema de vigilância do beco, foram gravados, estavam preso, o velho, gritava se sabiam com quem estavam lidando.  Que não ia aturar que nenhum bastardo lhe amargasse a vida.

Quando voltou a si, estava confuso.   A polícia nem precisava dele para declarações, tinham os vídeos que acusavam seu pai, bem como os outros militares que obedeciam ordens dele.

Quando ficou a sos com sua mãe, verbalizou isso, como um pai podia fazer isso contra um filho.

Ele não é teu pai, teu verdadeiro pai, morreu no Iraque, eu o conheci durante um período que teu pai estava fora, me sentia sozinha.  Agora estão tentando esclarecer a morte dele.

Tudo saiu a luz no julgamento de divórcio.   Finalmente o Juiz me concedeu o divórcio,  o qual ele não aceitou.

Quando ele começou a argumentar que eu tinha estragado seu filho, perdi a paciência lhe disse que tu não eras filho dele, se quisesse fizesse um teste de ADN.   Ficou furioso, como eu podia falar isso em público.

Creio que tudo isso não passou de uma vingança, pois tinha um novo cargo, perdeu tudo pela sua arrogância, agora piorou ainda mais por isso que fez.   Ira para prisão militar, pois esse atentado, o idiota estava vestido como comandante.

Seu medo agora era a recuperação de suas mãos.   A preocupação dos médicos, era a fisioterapia.   Mas ia bem, recuperava.

Quando saiu do hospital, voltaram para NYC, enquanto se recuperava, ficou como cantor do grupo.   Teria problemas para tocar música clássica.  Mas ele não ia desistir.

Passava o dia fazendo exercícios, tocando piano, embora algumas vezes não conseguisse tocar como queria.

Gravou dois discos com o grupo, cantando músicas novas.  Apareciam em programas de televisão devido ao sucesso.   Mas se negava a falar em qualquer assunto nas entrevistas que se referissem ao seu suposto pai.

Sua mãe lhe contou quem era seu pai verdadeiro, o tinha conhecido no Club militar, justamente tocando piano.

Ele era órfão, não tinha parentes que soubesse.

Resolveu falar com o avô Avidan, lhe disse que gostaria de continuar usando seu nome, assim fizeram trocou definitivamente de sobrenome.

Quando recuperou os movimentos dos dedos, preparou uma das peças mais complicadas para piano, o concerto nº3 de Rachnaninoff, que o consagrou. Sendo inclusive gravado pela sua discográfica.   Tinha levado quatro meses estudando pelo menos 8 horas por dia esse concerto.

Durante a Turnê, estavam em Los Angeles, quando soube aonde o que pensava que era seu pai estava preso.

Um advogado lhe contou que tinha passado mal na prisão militar, pois maltratava todos seus soldados, tinha sido agredido várias vezes.   Gostaria de te ver.

Mas eu não a ele, nunca foi um pai para mim, tampouco para minhas irmãs.  Sinto muito.

Voltou para NYC, comentou com sua mãe, que agora vivia com os avôs.   Era interessante, pois ela mais parecia filha deles que seu ex-marido.

Suas irmãs tinham ficado em Washington, aonde faziam a universidade. 

Um dia conversando com sua mãe, perguntou se ele sabia desde que tinha nascido, que não era seu filho. 

Isso pensei eu durante muito tempo, mas não, disse que nunca tinha suspeitado disso, mas não admitia teu comportamento com ele, pois na verdade nunca o tinha respeitado.  Isso ele não admitia.   Seus ordens eram leis.

Nada é perfeito, mas o que eu gosto é que fizeste uma coisa que eu sonhei durante muito tempo, ser livre, fazer o que quisesse de minha vida.   Mas estava presa por um amor de minha juventude, não sei o que aconteceu, quando o conheci, era um jovem promissor, fez tudo para me conquistar,  anos depois com as guerras foi mudando, ignorando totalmente sua mãe, principalmente quando se casou com Avidan, não a podia perdoar, mas ele ao mesmo tempo tinha colocada a ela em segundo plano.   Não sabia que visitávamos os dois.  Sempre foram fantásticos comigo.

Creio que as guerras todas que participou, foram deteriorando sua cabeça, se achava acima de bem e do mal.  Mas sabia que nunca chegaria ao topo por ser negro.   Então sua maneira era não permitir que ninguém desafiasse suas ordens, inclusive em sua própria casa.

Me mandou uma carta pedindo desculpas, mas nas entre linhas, existem mais acusações do que desculpas, não respondi.

Foi de turnê com o grupo do Miguel, aproveitou a levou com ele, assim ela se distraia, em Paris como ficaram mais tempo, conheceu um homem de sua idade, eles voltaram, ela ficou para trás, tentando refazer sua vida.

Ninguém sabe como seu pai ficou sabendo, talvez através de suas irmãs, que tinha se casado com esse homem.    Lhe escreveu uma carta, completamente louca, exigindo que fosse lá, a matasse, já que ele estava preso por sua culpa.                                  Ela tinha ousado o desafiar.

Tirou uma cópia, mandou para sua mãe, outra para o advogado dele, dizendo que acreditava que estava louco.

 Acabaria assassinado dentro da prisão por um dos soldados que tinha maltratado, não sobreviveu aos ferimentos de arma branca.

Só suas irmãs foram ao enterro, quando lhe avisaram, lhes disse que como não era seu pai, não tinha por que ir.   Tampouco teve glorias militares, foi tudo sem chamar a atenção.

Ele seguiu sua vida.   Agora era pai de duas crianças que tinha adotado, lhes dava todo amor possível, tudo que tinha lhe faltado.

DREAM UP

                                           

Era um sonho saber que agora podia voltar para casa, apesar de que, quase todos anos vinha passar o natal com sua mãe, não era a mesma coisa, sabia que no dia seguinte iria embora.

Desde que era criança, esse lugar tinha sido seu espaço de fantasia, tinha escrito vários livros em que o personagem habitava essas terras.  Minha mãe a tinha herdado de meu pai, estava entre Truxton e a Havasupai Indian Reservation, cerca de Grand Canyon, a paisagem que me lembrava desde criança era fantástica.

Meu pai criava cavalos, bem como plantava milho, pastos para os animais, a casa como minha mãe dizia, era como um lugar tribal.   Era ao contrário das outras casas da região, muitas de adobe como na reserva, ou então tradicionais de madeira.   Não sabia muito bem a origem de meu pai.  Minha mãe dizia que quando ele tinha entrado no pais, tinham trocado seu nome, por isso me chamava Michael Kingshot, que mais ou menos seria Tiro de Rei, mas segundo dizem ele era um péssimo atirador.

Ah, voltando a casa, era retangular no sentido de uma linha, tinha uma varanda imensa na frente, no andar de baixo, existia uma lareira muito grande, que parecia que ia aquecer todo um batalhão, no meio ficava uma cozinha das antigas, de fogão de ferro, hoje tinha tudo que se podia pedir, naquela época não tinha eletricidade ainda.   No andar de cima, ficavam um quarto imenso que era o deles, no outro extremo um quarto grande que era o meu, no meio dois banheiros também grandes.  Esses sofreram várias reformas seguidas, até que hoje em dia eram modernos.

Tinham mais duas casas, uma imensa, era a casa dos cowboys, um banheiro grande, muitas camas,  outra era a residência do administrador.   Nesta vivia uma família grande, eram sete garotos, todos mais velhos do que eu, o pai era um índio hualapai, casado com uma mulher branca, que vivia de eterno mau humor.   Minha mãe a aguentava, pois o marido era excelente no que fazia.

Do meu quarto, junto a janela, tinha uma árvore imensa, eu saia pela janela, subia no mais alto, , parecia um ninho, era meu lugar favorito, para observar as montanhas, bem como os cavalos nos diversos lugares do campo, o melhor, observar o que as pessoas faziam.

Nunca tinha entendido, porque minha mãe tinha se casado com meu pai, só fui descobrir muitos anos depois.

Era uma mulher com uma formação universitária, inteligente, adorava uma carta, se correspondia com muita gente, não havia dia que o carteiro não viesse trazer uma, reclamava da distância.    Dizia que ela devia ter uma caixa postal em Truxton, assim poupava ele de vir, ela fazia que não escutava.   Aliás uma característica sua.

As cartas começavam sempre com um Sue Elen, ou Sue, como gostava de ser chamada, as lias todas as noites para mim.  Evidentemente descobri depois que fantasiava em cima delas, a mim pareciam um conto de fadas.

Quando percebeu que tinha facilidade de assimilar tudo, começou a me ensinar a ler, escrever com 4 anos, quando chegou a época de ir à escola em Truxton, eu já sabia tudo, me passaram logo para o segundo ano.  Com  9 para 10 anos, estava pronto para ir a secundaria em Kingman, mas ela tinha planos para mim.    Os dois primeiros anos, fiquei vivendo na casa de uma senhora conhecida dela, essa dizia que eu não me adiantasse muito, porque quando chegasse o momento de ir à universidade, teria que me mover para longe.  Eu lhe escrevia pelo menos duas cartas por semana, ela as respondia com sua letra bonita, vinha a cada 15 dias, para me ver, a não ser que nevasse muito no inverno.   Reclamava da minha letra, as vezes não entendia uma palavra por ter escrito na cama, a letra saia meio complicada.   Me fazia reler o que tinha escrito para ela, consertar a palavra, lhe devolver em seguida  para que a levasse embora, agora a lerei outra vez, te respondo.

Com 16 anos estava pronto para ir a Universidade, sua amiga dizia que era muito jovem para me enfrentar a esses marmanjos.  Eu estava na equipe de boxe, de basquete, era um jovem alto de cabelos compridos, castanhos queimados do sol, olhos castanhos quase verdes.  Em sumo era a cópia dela, tinha já nessa idade 1,85 metros, não parei de crescer até que tive dois metros de altura.

Eu não queria perder tempo.   Nunca parava de escrever tudo que me lembrava, detalhes de algo pela rua, alguma situação que merecesse a pena contar.

O jeito foi ir para Tucson, estudar.   Ela foi comigo até lá, tinha a opção de viver dentro da Universidade, mas lhe disse que gostaria de ser independente, acabamos arrumando um pequeno apartamento em cima de uma loja de ferramentas.  Durante o dia tinha barulho, mas no final da tarde tudo era um remanso de paz.

Minhas cartas agora eram imensas, lhe comentava de tudo.   Alguma cena que tivesse visto numa lanchonete, alguma história que me tivesse contado algum colega de faculdade.  Eu só tinha um problema, me custava muito me relacionar com as pessoas.

Talvez porque esses anos todos, estivesse centrado em meu relacionamento com ela, era como se fosse um cordão umbilical, mal desligado.

Mas todos os anos voltava para o Natal,  agora como estava longe, passava uma semana, assim que tirei carta para conduzir, com o dinheiro que tinha economizado de minhas pagas mensais, comprei um velho jeep militar, de capota que se podia arriar.

Fucei o motor com um conhecido que o pai tinha uma oficina mecânica, no final, sabia aonde estava cada parafuso do motor.    A primeira vez que fui dirigindo até a fazenda, para mim foi toda uma aventura.   Tinha descoberto numa loja, uma gravador manual, ia com esse preso na direção, qualquer coisa interessante que via, bastava apertar um botão, começava a descrever o que tinha visto.

Quando me formei em Literatura Comparada e Jornalismo, marcou um encontro com o diretor de um jornal de Phoenix.   Vim descobrir depois que tinham sido companheiros de faculdade.

Ela tinha mandado duas cartas minhas, relatando uma em que tinha ido a uma festa tribal na reserva.  Tinha registrado cada detalhe, sobre a história oral, que tinha me sentado pacientemente para escutar, as danças, os jovens a parte que não se integravam nessa festa, como eram de minha idade, tinha ido conversar com eles, para saber o que pensavam da vida, só um deles estava fazendo faculdade de veterinária.   Tomamos um bom porre juntos, no dia seguinte despertei completamente nu, metido junto com ele num grande saco de dormir.

Foi minha primeira experiencia sexual.     A contei da mesma maneira que imaginava que tinha acontecido, tinha bebido demais.   No dia seguinte, ao despertar, esse descendente de índios, riu, não te lembras de nada verdade?

Lhe disse que sim, riu muito, agora poderia te colocar num aperto, mas não fizemos sexo, tirei sua roupa porque caíste na água, não encontrei contigo nenhuma mochila, retirei tua roupa, te coloquei aqui para dormir, eu durmo nu sempre, mas não te preocupe não aconteceu nada, só um beijo.

Não sabia se dar graças a deus, mas ele tinha me atraído muito, estávamos dentro de um lugar fechado, começamos a nos beijar, finalmente fizemos sexo, eu não tinha porra nenhuma de experiencia.

Trocamos número de telefone.  Voltei para a Universidade pensando o tempo todo nisso, falando para a gravadora.

Ela me perguntava  rara vezes se não tinha amigos, ou uma namorada, lhe dizia que não, mas quando lhe escrevi, lhe contei tudo, como tinha acontecido.

Era uma carta de vinte páginas, ela me respondeu com outra imensa, me contando que antes de conhecer meu pai, tinha tido um relacionamento sério com uma companheira da faculdade, que um belo dia a mandou a merda, foi quando conheci teu pai.   Nunca soube se o amei ou não, pois ele foi meu salva vidas.   Se é esse teu caminho quero que sejas feliz.

Achei interessante ele ter lido o que falava de minha experiencia sexual, mas depois entendi, pois ele vivia junto com um homem a muitos anos.   Nunca convivi com eles, com ele só a nível laboral.   Me mandava fazer vários tipos de matéria, de tudo que acontecia pela cidade, ou em Tucson,  sabia que eu iria apurar os detalhes.   Um dia me mandou fazer um artigo, sobre um assassinato, achei estranho mais fui.  Quando me permitiram entrar no lugar do crime, analisei cada coisa de aonde tinha acontecido o ato de violência,  estava ali um inspetor, me viu olhando muito para uma coisa na parede.   Perguntou o que eu via, lhe disse que ali devia estar uma terceira pessoa, pois se a vítima foi apunhalada nessa posição, o sangue deveria ter coberto essa parede inteira, mas veja bem há um contorno de uma figura na parede.

Ele chamou imediatamente o pessoa que tinha analisado a cena do crime, tinham passado por alto isso.  Fiquei olhando depois atentamente o tapete, lhe disse, esse tapete foi mexido de lugar, quem fez isso teve tempo de mudar as coisas de posição, para a polícia pensar como tinha sido cometido o crime,  como se tivesse um atacante externo, não sei se a vítima era casada, mas uma pessoa assistiu isso passivamente.

Ele fez analisarem atentamente o que tinha dito.   Devias ser policial, me deu seu cartão, achei interessante. Me apertou a mão muito forte, como para dizer que ali ele era o poderoso.  Lhe disse que era a primeira vez que fazia uma reportagem a respeito de um crime.   Em sua cara dura como aço, surgiu um sorriso que o transformava em humano.

Depois podes me mandar uma cópia para que eu veja como pensas.

Sai dali, fui entrevistar os vizinhos,  tinha um jeito especial para perguntar as coisas, acabei descobrindo mais coisas que a polícia.   Todos diziam a polícia que quem vivia ela um casal simpático.   Mas comigo se abriram, era um casal complicado, como se o marido estivesse eternamente de mau humor.   Uma das mulheres que tinha escapado de dizer alguma coisa a polícia, aliás ninguém tinha ido a sua casa, ficava justamente atrás da outra, a polícia não lhe interessou porque o muro que separava as duas propriedades era alto demais.    Mas  a senhora me mostrou o andar de cima, seu quarto dava justamente para o vizinho, falou das eternas brigas, os gritos, tinha visto muitas vezes ele bater nela, a chamando de puta.  Uma vez, me mostrou uma foto, a estava estrangulando, quase a jogando janela a fora.  Fiz a foto, falei com ela que deveria apresentar denúncia, mas ao falar em polícia, tremeu, disse que nem pensar, que não queria nada com a polícia.

Pelo nome da vítima, fiz uma busca, achei estranho, o nome não constava em nada, era como se não existisse.   Até que comecei a usar um jogo de letras, como mudando o segundo nome, descobri que eram testemunhas protegidas do FBI.

Telefonei ao inspetor, marcamos de tomar um café.   Falei de tudo que tinha descoberto, não quero publicar sem saber se realmente é verdade.

Vou verificar isso, pois não aparecem nada em lugar nenhum, o marido continua desaparecido.

Fiquei quieto, ele me olhou inquisitivo.  

Se você fosse da máfia, aonde atiraria um cadáver aqui.   Num desses lugares, sucata de carros, ou no Rio Salado, que passa pela cidade.   Normalmente atiram a pessoa na água com pedras amarradas nos pés.

Começaram a buscar, até que encontraram o homem, estava embaixo de uma ponte, do jeito que tinha visto nos filmes.

Tornamos a nos ver, me disse que podia publicar, que o FBI tinha se negado em colaborar, fiz uma matéria inteira falando do assunto, das conversas com os vizinhos, o trato com a polícia que tinha sido excelente, mas não mencionei seu nome.

Dia depois esperando um fotografo para ir fazer uma matéria, sem me dar conta tinha marcado no mesmo bar que tínhamos nos encontrado.   Ficamos conversando, me disse que morava justo no edifício ao lado.  Anotou em seu cartão o número, apartamento. Etc.

Sendo como era, soltei de repente, por que me das teu endereço particular?

Porque podes querer aparecer dia desses para conversar.

Só isso?

Tu, eres uma pessoa especial, me atrai, basta isso como resposta?

Sim, agora está explicado, vou aparecer sim, hoje à noite estas livre?

Que rápido, nem pensou duas vezes.

Ficamos rindo os dois.

Nessa noite começamos um romance, mas nunca fui viver com ele, sabia que era uma pessoa que trabalhava por turnos, não queria estar sempre a espera.   Algumas vezes ia ao meu apartamento, que ele ria dizendo que mais parecia um ninho.

Lhe contei que não precisava de um puto apartamento, não queria estar preso, não sabia o dia de amanhã.   Lhe contei a história do ninho que tinha na árvore ao lado do meu quarto.  Creio que foi aí, que aprendi a observar tudo.

A reportagem acabou sendo publicada também no NY Times, fizeram isso com mais duas ao longo de dois anos, um dia me chamaram para ir a uma entrevista.   Mas antes fui até em casa falar com minha mãe.   NYC estava do outro lado do pais.

Ela riu, nos falamos mais por carta que quando estas aqui.  Nunca falhas, gosto imenso de ler o que escreves.  

A culpa é tua, todos os anos da minha infância lendo cartas para mim de outras pessoas como se fossem contos de crianças.

Fui a entrevista, fui contratado, me deram uma semana para começar.   Só tive tempo de ir a Phoenix, pedir demissão, dizer adeus ao meu amigo inspetor.

Ele colocou as mãos sobre meus ombros, dizendo que tinha sido os dois melhores anos de sua vida, que eu era mais jovem que ele, devia aproveitar as oportunidades.   Creio que estarei cada vez mais de mau humor a partir desse momento.

Arrumei um pequeno apartamento, com vista para o Rio Hudson, o duro era aonde deixar meu Jeep.   O jeito foi pagar uma garagem a parte.  Tinha no salão uma janela imensa, com vista para o rio, nada de cortinas, ali, coloquei uma mesa de trabalho, assim quando estivesse escrevendo de vez em quando podia levantar a cabeça e ver o rio.

Fizeram a mesma coisa, para que fosse conhecendo a cidade, me mandavam escrever o mais variado tipo de reportagem, desde a inauguração de uma exposição, seja numa galeria ou num museu, até um desfile de moda.  Eu sempre levava junto uma câmera de fotos, assim podia fotografar as pessoas que me pareciam interessantes,  as entrevistava, anotava seu nome, assinalando como se vestia, depois escrevia a respeito.  Até o primeiro crime demorou, pois tinham um jornalista que estava a anos no cargo, mas se aposentava.   Não lhe cai bem no primeiro momento, me disse que era muito bonito para esse tipo de trabalho.

Me fizeram o acompanhar durante dois meses, ele sempre levava um fotografo. Nas primeiras vezes, me fazia ficar mudo, que não me movesse do lugar.   Mas meus olhos, ouvidos, meus sentidos não estavam ao seu serviço.   Estava atento a tudo, analisava cada ângulo, sem dizer palavra nenhuma, escrevia o meu texto.   Ele escrevia o dele.   Um dia me viu atento escrevendo o texto, veio por detrás, me mandou imprimir o que tinha escrito.

Analisou profundamente,  veio até minha mesa, eu esperando uma bronca monumental, sorriu tristemente, soltou uma coisa que nunca pensei em escutar.  Quando te vi jovem, bonito, pensei esse filho da puta deve ser um merda, chegou aqui indicado por alguém.  Depois li os artigos que tinhas escrito, mudei um pouco de opinião, pois não só retratavas as pessoas, mas as analisava.   Nisso ganhaste um ponto comigo, mas pensava esse desgraçado vai ficar no meu lugar, confesso que fiquei com ciúmes.   Mas porra escreves muito bem, observas detalhes que eu com a idade, passo por alto.  Questiona o que aconteceu, procura vários ângulos do assunto, escreveste melhor essa reportagem, venha comigo.  Fomos ao gabinete do diretor, disse que mandasse parar a rotativa, queria que tirasse seu artigo, que incluísse o meu.  Ele descreve melhor o crime do que eu fiz.

Ficamos amigos, me ensinou a me mover pela cidade, qual a melhor forma de chegar rápido a um lugar, um final de semana me convidou para ir passar um final de semana numa cabana que tinha, eu lhe disse vamos no meu carro.                Quando apareci com o Jeep, riu muito, encaixa contigo.

Fomos para as montanhas, ele pensava que eu era o típico garoto de cidade, mas divertiu me ver montado a cavalo, galopando.   

Quando voltamos, disse, um segredo, esses filhos da puta, vão fazer uma puta festa surpresa, pela minha aposentadoria, mas vão se dar mal.

No dia seguinte tinha desaparecido, o único que desconfiou fui eu, pois tinha visto uma carta com uma marca em cima, ele se engajava a uma equipe que percorria Africa para ajudar as pessoas.

A festa foi para a casa do caralho.   Passou a me escrever sempre, era como minha mãe, gostava de escrever no papel, nada de e-mail.

Eu separava em gavetas as cartas dela, bem como as dele, recebia uma vez por mês uma carta sua, a ele lhe mandava cópia do que tinha escrito.

Foram as duas pessoas que leram em primeira mão um livro que escrevi sobre o que tinha visto nos meus primeiros dois anos em NYC, analisava a cidade, as gentes, o que acontecia por ela.

Os dois disseram, publique, ele me mandou o nome de um editor.

Quando o livro ficou pronto, mandei uma cópia para ela, outra para ele, a dele voltou, procurei saber tinha falecido de malária, na Africa do sul.

Juntei todas suas cartas, num ficheiro, comecei a ler cada uma, cada história ou acontecimento que tinha visto pelo caminho que tinha percorrido.  Escrevi um livro, contando como o tinha conhecido, bem como eram as cartas que me mandava, mas explicava que o texto na verdade era dele, eu só fazia comentários.

Fui chamado para uma série de entrevistas, a primeira pergunta era sempre, que eu explicasse isso. 

Bom o prologo é meu, tenho o hábito de escrever semanalmente a minha mãe, ela não gosta de laptop, ele era igual, usava no trabalho, mas gostava de escrever tudo a mão.  Durante esse tempo, que ele se foi de viagem, me escrevia sempre, eu lhe respondia, quando soube que tinha morrido,  coloquei todas as cartas por ordem de datas, as reli inteira, fiz como se fosse um diário, aonde ele me contava as coisas interessantes que tinha visto, com esse seu olhar matreiro de jornalista.

O entrevistador, disse que por causa desse livro, tinha lido o anterior, em que eu falava da cidade.

Veja, fui criado primeiro numa fazenda no Arizona, depois estudei numa cidade próxima, depois fui para Tucson estudar, mais tarde comecei a escrever num jornal de Phoenix, vir para NYC, era como sair de uma cidade do interior que eu conhecia, a chegar numa grande cidade que além da mistura étnicas, o movimento, a agitação, fui conhecendo os lugares, o mesmo nos meses que trabalhei as ordens dele, me foi ensinando como cada parte da cidade funciona. O que é uma verdade, a cidade inteira é como  caixas de surpresa, para entender, há que observar quem vive nesse pedaço.    Isso eu fiz, para entender como escrever qualquer artigo sobre ela.

Ele recomendou os dois livros aos espectadores.                Logo surgiram várias entrevistas, que fizeram que se publicasse uma segunda edição do primeiro.   O melhor foi o seguinte, pois me pediram para transformar o primeiro num roteiro de uma série de televisão.                  Criei um personagem jornalista novato que tinha que escrever notícias desses lugares.  Transformei em histórias que depois tinha escrito em alguma reportagem sobre aquele parte da cidade.

As pessoas gostavam, pois ele falava do bairro deles, mencionava aonde se comia bem, o que acontecia por ali, um crime, ou um acontecimento que tinha mudado a maneira das pessoas verem as coisas.

Fui guardando dinheiro, o mais interessante, quanto a minha vida pessoal, tinha romances, que acabaram rindo de mim, pois sabia que era conhecido, com dois livros, quando viam meu apartamento se desapontavam.   Pois imaginavam um lugar cheio de glamour.  Se decepcionavam, pois, eu não era uma pessoa glamourosa, me vestia da mesma maneira sempre, ia os lugares, era mais um ali.   Assim podia observar quem queria.

Por isso, quando muito chegava ao terceiro encontro, nada mais do que isso.  Mas honestamente não me preocupava porque sabia que era assim mesmo.   As relações eram superficiais, escrevi sobre um assassinato de um homem homossexual,  o fiz de tal maneira, checando tudo sobre ele, como vivia, como se sentia, conversei com amigos, inimigos, até chegar a uma conclusão, era um solitário, seus romances não passavam como os meus de uma noite.                 Estava mais preocupado em ficar rico de qualquer maneira, para atingir isso, usava qualquer meio.   Sem querer descobri seu assassino, entre as pessoas que tinham falado dele.

Escrevi um livro sobre isso, mergulhei no mundo gay da cidade, para saber por que a maioria era assim, uma noite em cada cama.   A solidão das pessoas numa cidade grande.  Levei mais de um ano, entrevistando, falando com as pessoas, com algumas fui para a cama.  Uma delas me definiu bem, na cama eres como uma criança.    Pareces acreditar no eterno romance, nada é assim.   Me levou pelo mundo do couro, do sexo duro, da insatisfação sexual de algumas pessoas.   Acabei lhe agradecendo por me analisar.   Nunca realmente, tinha sofrido, ou me atirado num relacionamento para saber como era.                Não tinha tempo de conviver com as pessoas.   A minha vida passava rápida demais.

Justo quando lançava o livro, dava entrevista a respeito, soube que minha mãe estava mal.

Pedi umas férias, fui para ficar perto dela, avisei que estaria fora um mês, que se transformaram em seis meses.   Fiquei ali cuidando dela.   Lá também o mundo tinha mudado, já tínhamos celulares,  torres de transmissão em todos os lugares.   Então segui escrevendo.

Contratei uma enfermeira, embora ela achasse uma besteira, para me ajudar a cuidar dela, se negou terminantemente a se tratar, queria morrer consciente de quem era.

Aprendi junto ao administrador, a olhar as contas, como ela fazia, achei que pagava pouco aos empregados.   Ele riu, ela diz que se paga mais, gastarão o dinheiro em bebida.  O que não deixa de ser verdade.

Quando ela morreu, ao saber do testamento, me vi numa sinuca.   O que fazer da minha vida, tinha que analisar realmente o que queria.  Me deixava a fazenda, bem como uma boa soma de dinheiro no banco.   Mas eu também tinha o meu dinheiro.   Mas nesses meses, que tinha estado ali, tinha encontrado uma certa paz. Tinha reaprendido a observar inclusive um mosquito, ou uma abelha, que nem sabia que existiam mais.

Tomei uma decisão, não precisava me mover dali, para seguir escrevendo.  Fui a NYC, pedi demissão, mandei todas minhas coisas para casa, todas as cartas dela, comprei coisas que nunca tinha pensado em comprar, para disfrutar.

Comecei a reformar a casa, modernizar a cozinha, os banheiros, uma parte que era o antigo salão transformei na minha biblioteca, mas era tudo aberto, queria que fosse como sempre, os homens solteiros ainda tinham o hábito de vir comer na casa, contratei uma mulher, para cozinhar, cuidar da casa, isso eu não gostava de fazer.

Em cima, no quarto dela, montei um belo lugar para trabalhar.                     Assim ninguém me incomodaria.                  O administrador veio me dizer que os cowboys tinham o hábito de ir à comemoração dos festejos na reserva.             Me lembrei da minha vida, fui, me diverti muito, conversando com as pessoas.  

Hoje não vais beber muito verdade, assim não despertarás dentro do saco de dormir alheio, levantei a cabeça, ali estava ele, meu primeiro homem.  Me levantei, nos abraçamos, perguntei o que tinha sido dele.

Bom estive de rodeio em rodei, fiz sexo com homens com mulheres, tenho um filho, que vive comigo, mas sou honesto, nunca me esqueci de ti.    Tenho teus livros.

Ficamos ali até tarde da noite, os dois sentados em volta de um fogueira falando da vida, me perguntou se tinha alguém, contei a verdade,  quando lhe disse o que tinha falado ao meu respeito, me disse, então mudaste muito, porque nosso encontro foi fantástico.

Talvez tivesse sido isso, o primeiro estava livre de ataduras para experimentar.  Acabamos dormindo juntos essa noite, confesso que a muito tempo não me sentia tão excitado com alguém.

No dia seguinte conheci seu filho, era um dos empregados da fazenda.  Lhe perguntei por que não vinha comigo, o administrador estava velho, eu não entendia nada de fazenda, sempre tinha sido mantido a margem de tudo.    Só me perguntou pelo velho jeep. 

Está em plena forma.

Teria que conversar antes com meu filho, nunca estivemos muito juntos, pode ser que lhe incomode minha presença.

Seja franco, honesto com ele, comente como nos conhecemos, nunca gostei de mal entendidos.

O rapaz veio falar com ele, não me importa o seu relacionamento com meu pai, mas o que ele não viu que isso seria uma oportunidade de nos conhecermos realmente.  Lhe disse que seria bem-vindo.

Creio que encontraras uma maneira de ir se comunicando com ele.  Tive algo em minha vida de fazer inveja a muita gente o relacionamento que tinha com minha mãe, baseado justamente numa coisa, conversar, falar abertamente tudo.  Contou ao rapaz que tinham sido anos e anos, de cartas em ambas direções.   Eu sempre lhe contei absolutamente tudo.    Ela podia não gostar, mas tentava dialogar comigo.

Quando voltaram, tocou a ele falar com o velho administrador, era difícil falar com uma pessoa que tinha estado sempre a frente de tudo, seus filhos todos tinham ido embora, então nem podia esperar que algum o substituísse.   Aceitou rapidamente a presença do Marco, este logo se entendeu com ele, tinham algo em comum, amavam os cavalos.

Na feira de animais de Tucson, venderam metade da manada, para começar outra leva grande de animais.

Eu agora saia todos os dias para cavalgar com os dois, Marco dizia que eu parecia um centauro, pois era como parte do mesmo.

Depois me fechava no meu lugar de trabalho, abrindo todas as cartas que tinha escrito para minha mãe, colocando num arquivador, por ano,   Buscava nas minhas as cartas dela, fazia a mesma coisa, depois montava o diálogo de um com o outro.  Os assuntos que tratávamos, algumas vezes ria muito, outra chorava.   Mas as que me interessavam era nas que tratávamos de falar sobre nossas vidas particulares.   Assim fui alinhavando quem ela era realmente.

Porque sempre soltava um pouco de sua vida passada.   Eu lhe contava da minha vida atual, ela de seu passado.    Me dei conta que algumas coisas que dizia eu tinha passado por alto, talvez a desculpas fosse, estava metido em cheio em algum artigo, ou história.

Foi como reconstruir a vida de duas pessoas, que nem sempre liam realmente o que o outro dizia inclusive nas entre linhas.

Levei meses fazendo isso.  Fiz uma quantidade absurda de borradores a respeito do que falávamos, o duro era ver que tinha passado nas entre linhas alguma coisa, ou não tinha dado importância ao fato.

Uma das coisas interessantes, foi comentar uma vez que tinha ódio da fazenda, quando se mudou para lá, mas com o tempo aprendeu a apreciar a simplicidade da vida ali, a valorizar essa solidão auto imposta.

Um detalhe, que já tínhamos conversado em várias visitas, era o fato de ela ler cartas dos amigos que tinha pelo mundo, me contando como se fosse um conto infantil.

Quando o livro ficou pronto, vi que tinha uma quantidade de páginas imensa, mandei mesmo assim para o editor, que me sugeriu fazer em duas vezes.   Contar desde minha saída de casa, até a universidade.  Depois uma segunda parte, até minha vida adulta.

Experimentamos uma primeira edição assim.

Quando foi lançado, tive que sair de turnê por muitos lugares, mas me dava conta que ficava louco para voltar, agora ali era meu refúgio.   Marco ria disso, dizia, que desde jovem estivera de rodeio em rodeio, que nunca tinha encontrado uma casa, a primeira vez que me senti bem, foi quando te tive no meu saco de dormir, agora que vivo contigo, tenho a sensação que estou no meu ninho.

O fiz subir, abri a janela, venha, ele riu dizendo estamos velhos demais para subir nessa árvore, lhe mostrei aonde tinha meu ninho, daqui observava tudo, os cavalos, os que faziam os cowboys, se conversavam, imaginava a conversa.   Ri, pensando, creio que devia escrever uma história sobre isso.

O livro sobre as cartas fez sucesso, queriam transformar em série, conversamos, que haveria uma segundo livro, se interessaram mais.  Quando falei que a próximo seria do meu refúgio infantil, o meu ninho, a ideia tomou forma.  A discussão era, essa parte devia ser o começo ou o final, explicando tudo.   O como meu personagem, adquiriu um senso de observação.

Falei com o pessoal, que ia transformar em roteiro, das entre linhas de muitas cartas, então me contrataram para reescrever essas partes, tornando uma parte contada dentro da história.

Isso gerava uma construção da história de maneira diferente, duas pessoas  que tem liberdade de falarem tudo, mas que as vezes comentam coisas nas entre linhas, para não se desnudarem totalmente.

Cada capítulo, os roteiristas, passavam 10 a 15 dias, instalados em casa, os obrigava a sair a cavalo conosco todos os dias,  um deles ficou interessado no Marco, mas quando percebeu que vivíamos juntos, nunca mais tocou no assunto. 

Nos dois rimos muitos, ele soltou, se não estivesse tu, até poderia, mas seria aquela famosa história de uma noite.    Volta e meia fazíamos uma excursão ao deserto, só pelo prazer de dormir os dois no mesmo saco de dormir.

Eram as melhores fodas que tínhamos,  lhe disse que deixaríamos de dormir na cama, que passaríamos a só dormir neste saco.  Acho que ele é magico, pois depois de um final de semana assim, me sentia revigorado.

No final da primeira temporada, ganhamos dois prêmios, sobretudo pelo texto, pela maneira de manejar o mesmo.

Algumas vezes ia assistir a rodagem, via o ator que tinham escolhido para ser o meu “eu”, era realmente era parecido comigo.    Marco ficava com ciúmes, o que eu adorava.

Numa das entrevistas que via pela televisão, ao entrevistarem o ator que tinha uma fama de uma vida totalmente reservada, lhe perguntaram que se não tinha problema de enfrentar um personagem que estava vivo, além de ser gay.

A resposta me surpreendeu, respondeu com outra pergunta, se o entrevistador já tinha conversado comigo alguma vez.    Já quiséramos todos, poder ter esse diálogo que ele tinha com sua mãe, muito não teríamos esse prejuízo da tua pergunta.   Hoje em dia a quem importa o que fazemos na cama com alguém, a não ser os paparazzis, as revistas sensacionalistas.  Mas veja bem, as pessoas leem o que se escreveu sobre essa pessoa, olham as fotos, mas ao virar a página da revista, se dão com outra história mais ridícula que a primeira.

Se passamos a um nível mais baixo, quantos famosos, vivem hoje disso, de vender exclusivas, pois encontraram uma maneira de vender sua própria vida.

Quando Marco comentou do ciúmes, lhe disse que não fosse por aí, imagina, seria como fazer sexo comigo mesmo, de certa maneira somos muito parecidos.

A série ia para o sexto ano, quando Marco ficou doente, tinha caído de um cavalo, escondido que tinha se ferido, em duas costelas, quando não aguentou mais, reclamou, já era tarde, tinha um problema sério.   Entrou no hospital para uma operação de emergência, mas não saiu.

Fiquei atontado, como se tivesse levado uma porrada na cara, não tinha nem vontade de falar, tinha sido minha primeira experiencia, reencontrado o bom que tinha sido.  Esses últimos anos tinham sido fantástico, pois era uma pessoa que eu podia falar de tudo.  Quando não entendia algo, eu percebia que estava falando sem objetividade, tinha que ser mais claro.

Lia os textos, quando me passava a querer analisar intelectualmente, me cortava na maior dizendo, crês que as pessoas vão entender essa frase ou essa análise do que escreves.

Pior era que agora teria que reescrever, ou melhor criar o meu mundo em cima do ninho, não tive dúvida nenhuma, subi, para ficar ali pensando.   Me chamaram de louco, pois podia cair.

Ali, pude pensar para escrever como eu fazia nessa época, tentar voltar a uma fase da minha vida que tinha sido imensamente feliz, mas não me tinha dado conta disso.  Cheguei inclusive a lembrar-me de ideias que tinha quando via duas pessoas falando.  Observava seus movimentos de cabeça, de braços, um simples girar de tronco para olhar um cavalo, ou algum cowboy.

O mesmo, tinha as cartas que ela me lia, tentei recordar o que contava de cada uma, ri muito, bem como chorei como um possesso, pois as vezes nem vinte por cento estavam realmente ali, se podia dizer que ela o tinha inventada, imaginado, ou tinha entendido nas entre linhas.

Tinha tudo tão organizado, que fiquei imaginando quem eram essas pessoas.   Tentei fazer contato com algumas, pois tinha os endereços.   A maioria tinha morrido, as com quem podia conversar, fui  visita-las, levando suas cartas, algumas tinham as que minha mãe tinha escrito falando de sua vida, de mim.

Mas quando comentava com essas pessoas como ela lia as cartas, como se fossem contos infantis, riam muito.

Alguns me cederam as cartas que ela tinha escrito, outros que as queriam, tirei copias, organizei tudo isso, para escrever uma história, agora o personagem era ela.   O ator que tinha feito até agora meu personagem um dia veio me visitar.   Ficamos conversando, ele disse que tinha uma certa inveja de mim.  

Lhe perguntei por quê?

Fui criado num orfanato, ficava imaginando como seria minha mãe, conversava com ela.  Mas você teve uma mãe fantástica, com quem podia falar qualquer assunto.

Quando falei que o Marco tinha ciúmes dele, me deu uma resposta que me deixou sem jeito.

Eu também tinha dele, pois via que não tinha chance nenhuma.

Pois é lhe comentei que se fizesse sexo contigo, seria como fazer comigo mesmo, pois somos muito parecidos fisicamente.

Não acho, temos algumas coisas em comum, mas de outro ponto de vista, somo completamente opostos.   Es uma pessoa franca, pela educação que tiveste, eu ao contrário, sempre tive que ter dupla personalidade, a do ator, deixando para trás a pessoa que sou realmente.   As vezes fico farto, escapo, como agora.

Vim aqui pedir que escrevesses qualquer coisa especialmente para mim.

Lhe ensinei o texto do ninho,  ele achou fantástico.  Subiu ao ninho na árvore, cheio de medo de cair, mas quando se sento lá, disse que me entendia.  Subi também, nos demos o primeiro beijo.

Reescrevi totalmente o texto, imaginando um adulto querendo recuperar seu lugar magico de infância.   Mas que nada é o que parece, pois tudo tem uma sub texto.

Nos vimos muito durante a gravação do filme, pois queria que eu estivesse presente, fazíamos sexo em vários lugares, as vezes me sentia olhando num espelho.  Mas no seguinte momento estava com uma pessoa completamente desconhecida.

Quando foi nomeado ao Oscar, me convidou como seu acompanhante.   Nunca tinha ido, tinha visto pela televisão, quando morava em NYC, mas ir assim de convidado, fiquei surpreso.

O filme ganhou pelo texto, efeitos especiais sobre o ninho, ele acabou ganhando o Oscar de sua carreira.   Ao agradecer, foi direto a mim, apesar de sermos parecido fisicamente, somos os opostos em termos de personalidade.  Foi analisando nossa relação.  No final soltou, eu te amo, obrigado por esse presente.

Agora passava mais tempo na fazenda, pois não lhe apareciam texto que gostasse, lhe disse por que não aproveita o texto, fazes um monologo no teatro.  Fui a estreia em NYC, me disse que estava nervoso.   Uma coisa é fazer um filme, que não tem publico presente, outra é isso.

Queria que eu ficasse em NYC, lhe disse que nem pensar, estava no meio de um novo livro, ali, não ia dar certo.

O espetáculo durou dois anos em cartaz, nos fomos afastando delicadamente sem ofender um ao outro.

Já estava escrevendo um roteiro, sobre a minha amizade com o Marco, não me interessava contar nosso relacionamento, mas sim, nossas conversas.   Os cowboy me convidaram para ir novamente ao festival.    Quando ele era vivo, sempre ia com ele.   Estava ali sentado conversando com os da tribo que eu conhecia quando um homem de seus 35 anos, se aproximou perguntando se podia falar comigo.   Num primeiro momento fiquei de sobreaviso, era um tipo rude, desses cowboys índios, mas cai do cavalo, era um professor da reserva.

Eu conheci o Marco a muito anos, logo depois que ele te conheceu, me contou a historia do saco de dormir.   Ele amava estar nos rodeios, ser cortejado por homens, mulheres, os que queriam fazer sexo com ele.   Se deslumbrou com isso, afinal era bonito.  Mas sempre me dizia  nunca esqueci o primeiro homem, que eras tu.

Tentei ter um relacionamento serio com ele, mas não consegui, acabei me casando, foi uma merda, não deu nada certo.  Graças a deus não tivemos filhos. 

Li todos teus livros, ele sempre falava no mesmo, que conversar contigo, era fácil, pois sempre dizias tudo que sentias, que prestava atenção, que até mesmo quando se falava complicado, abrias o jogo.

Queria te convidar para dormir no meu saco de acampamento, como fizeste com ele, queria sentir isso que ele sentia por ti.

Fiquei surpreso, pois não esperava nada disso.  Subimos no velho jeep, fomos para uma área deserta, acendemos uma fogueira, ficamos os dois encostados num tronco conversando sobre sua vida, sobre a minha.   Mas no momento que nos beijamos, foi algo maravilhoso, se fosse um filme, aconteceria soltarem fogos de artificio.  Dai para o resto foi um passo.

Agora entendi, me disse, nem sabes meu nome, me chamo Clay Roman, sou filho de índia com um mexicano, mas fui criado na tribo.  Só sai para estudar fora.  Mas voltei para dar aulas para as crianças. 

Fomos nos conhecendo aos poucos, encontrei minha cara metade, éramos diferentes em tudo, mas numa coisa era impressionante, ele lia os textos, sabia aonde estava o que eu queria dizer. Um dia pegou o livro das historias das cartas, que minha mãe usava como contos, quando li esse livro, me lembrei de minha mãe que era analfabeta, mas me contava historias maravilhosas, sobre como eram os índios, como viviam antes, falava de caça dos animais, o significado da águia que tudo via.   Uma vez me levou com ela a uma parte aqui da reserva, nas montanhas quase chegando ao Grand Canyon, entramos num lugar especial, cheio de desenhos, era um lugar sagrado.   Eu só pedi uma coisa, que um dia tivesse uma pessoa especial na minha vida.

Demorou, mas aconteceu, no dia que te vi na reunião do festival, sabia que não podia perder a oportunidade de te conhecer.  Não me enganei.

Veio com o tempo viver comigo, o filho do Marco o chamava de tio, mas me disse que era assim porque o tinha apresentando  assim ao filho.

Sexualmente nunca tinha tido nada igual, erámos um complemento um do outro. Ia todos os dias dar aulas, depois voltava, ficávamos conversando na cama pelas noites.  

Tinha era muito medo dessa felicidade toda, mas os anos me fizeram entender, que o nosso era para o resto de nossas vidas.

Nada mais simples do que isso.

ABED FAISAL

                                        ABED  FAISAL

ESTA É A SEGUNDA HISTORIA DERIVADA DE NEW CHANCE

Encostado numa das impressionantes colunas do Templo da Roca, em Jerusalém, com seu pequeno caderno de desenho, observava, anotando a lápis os motivos intricados árabes.

Amava isso desde que era criança na pequena cidade que vivia no interior do Líbano.  Eram uma das poucas famílias mulçumanas do lugar, com uma maioria maronita.   Mas ali a paz reinava.

Ele tinha seus domínios na loja de tecido de seu pai, adorava ir pelos estreitos corredores, passando a mãos pelos tecidos, sentindo seu tacto, era como se lhe dissessem, me transforme num lindo vestido.

Observava as mulheres entrando para comprar alguma coisa, a algumas diria, esse tecido merece uma proprietária mais bonita, ficava imaginando que transformariam o mesmo numa roupa sem interesse nenhum, tinha vontade de lhes desenhar como iria melhor, naqueles corpos gordos.

Era o único filho homem de uma família, em que dominavam as mulheres, desde criança tinha vivido no meio delas.     Mas era o único que ia a escola, tinha ensinado suas irmãs a lerem, escreverem, pois seu pais achava uma inutilidade para elas isso.   Para eles a obrigação delas era formar família, ter muitos filhos.

A mais velha que ele 10 anos, já era casada, mas também só paria mulheres, vivia na casa ao lado, seu marido trabalhava para seu pai.

Ele tinha saído a sua mãe, cabelos negros, crespos, olhos negros, umas pestanas monumentais, como se fossem postiças, a pele clara, mas com um pouco de sol ficava moreno.  Suas irmãs ao contrário tinha saído imagem e semelhança ao seu pai, nariz feio, cabelos negros, mas mortos sem brilho, caras sempre cheias de acne.  Ele era o filho preferido pela sua mãe.  Seu pai queria colocar o nome do seu avô paterno, mas como tinha escolhido os nomes das filhas, que só faltavam ser um, dois, três, quatro.   Ela ficou o pé, escolhendo o nome de um irmão que tinha morrido jovem, que era um artista, Abed Faisal.   Dizia serás famoso como teu tio.

Ele adorava ir à pequena mesquita, para admirar os desenhos intricados das paredes, da cúpula, bem como o ritual, ao chegar, podia ter saído de casa, nem a 100 metros da mesma, mas lavava as mãos, como fazia seu pai, os pés, dizia as preces, que fazia, copiando seus mínimos gestos.

Amava, respeitava seu pai acima de todas as coisas, ficava prestando atenção como fazia para atender alguma cliente, quando lhe tocava atender alguma, usava tudo o que ele dizia, os adjetivos todos.   Ele se matava de rir, já seu cunhado ficava uma fera, pois era uma pessoa sem graça nenhuma, um homem desprovido de ambições, estava sempre de mal humor.

O escutava as vezes falando com sua irmã, quando esse velho vai morrer, para que eu possa realmente dirigir a loja, será a melhor do mundo.

Qual nada, ele era um simples capacho de seu pai, que lhe dava ordens como se falasse com um animal.  

Cada vez que passava por ele, o empurrava, lhe dava um beliscão, as vezes se atrevia passava a mão na sua bunda.  Reclamou com o seu pai, que disse que isso eram simples brincadeiras, mas este passou a observar o genro.

Teria uns 15 anos, um dia seu cunhado, estava de um humor de cachorro louco, o viu no armazém medindo um tecido para uma cliente, não só se atreveu a passar a mão na sua bunda, bem como abaixou sua calças, o empurrando contra os fardos.   Nesse momento seu pai, entrou, ficou parado na porta, gritou o nome dele, com o dedo indicou o escritório.  Espumava de raiva, escutou através da porta o cunhado se defender, dizendo que ele o provocava, que não era de ferro, com aquele corpo que tinha.   O velho ficou uma fera, no dia seguinte, embarcou o genro, a filha e as filhas desta para uma loja que tinha numa vila perto da fronteira.  Se acabaram os sonhos do genro de administrar a fortuna do velho.

Ele, ao contrário foi mandado para Beirut, para se preparar para a universidade, teria que estudar administração de empresas.   Mas ele queria como seu tio, estudar artes, se escapulia das aulas para ir as classes de belas artes.

Quando o pai descobriu, ficou uma fera, acho que teu cunhado tinha razão, tens que te tornar um homem, nada de artes, o mandou estudar em Istambul, interno num colégio.  Sem direito a saídas, vigiado 24 horas do dia.  Claro quando te tornas prisioneiro, o anseio de liberdade aumenta.  Foi o que aconteceu, não estava permitido que desenhasse, mas isso o fazia mentalmente, ia anotando em sua memória tudo o que via.

Mas claro num ambiente fechado, ele chamava mais atenção que numa escola aberta, foi abusado várias vezes por seus companheiros, pois era o mais frágil.

Quando um superior, encontrou em seu lençol manchas de sangue, o devolveu ao seu pai.

A bronca foi impressionante, justo dias depois sua irmã mais nova se casava com um novo empregado do velho.  Ele agora já sabia que gostava de homens, quando viu o pretendente, que ia casar com sua irmã mais feia, tudo é claro para posteriormente dirigir o negócio.  O provocou no armazém, esse em seguida fez sexo com ele.

Mas desta vez o pai, não viu nada, passado o casamento, viu seu pai discutindo com o genro, o queria mandar para estudar em Marseille, aonde vivia um irmão dele, seu cunhado dizia que não, que o queria ali.   Claro para desfrutar de seu corpo.

Quando seu pai o levou a Marseille, seu tio era uma pessoa muito fechada, era professor na mesquita.  Vivia cercado de seu corão, bem como outros livros religiosos, seu pai se fechou com o irmão na biblioteca, ficaram horas discutindo.   No dia seguinte o tio o começou a preparar para seguir seus passos.

Mas desenhava escondido tudo o que podia.  Quando fez dezoito anos, descobriu aonde o tio, escondia o dinheiro que o pai mandava para sua manutenção, não usava nunca pois dizia que era um dinheiro corrompido, pois vinha de servir a mulher para tentar o homem.

Na surdina, comprou um bilhete para Paris, todo o tempo que tinha livre, ia a um quiosque ver as revistas de moda, sabia que era aquilo que ele queria fazer.

Chegou em Paris, conseguiu um quartinho num hotel de quinta categoria, aonde as baratas ao passar diziam bom dia.  Procurou um emprego, descobriu que não tinha documento nenhum, por isso não lhe davam emprego.      Foi a um departamento tirar documentos, mas o homem o olhou de cima a baixo, dizendo que ele era estrangeiro, apesar de falar um francês impecável.

O viu de novo num bar da esquina, o homem fez um sinal para ele.  Disse que conseguia os documentos, se ele fosse generoso.   Na hora pensou que o homem se referia a dinheiro, mas não o levou a um hotel barato, fazendo sexo com ele.  Desta vez aprendeu que não era só se deixar penetrar, que existiam outras coisas, o homem brincou com seu sexo, alisava seu corpo, dizia, para quem em uns cabelos assim como o teu, deverias ter o corpo cabeludo, ao contrário, ele só tinha umas penugens em volta do sexo, nada mais.  Se encontrou com o homem, várias vezes, até que conseguiu documentos.     Logo estava trabalhando numa boutique na rue de Saint-Honoré, perto da Place Vendôme, aonde estavam as lojas das grandes marcas.

A proprietária o contratou, pois, além de falar um francês perfeito, falava árabe, inglês, entendia de tecidos, de moda.  Tinham duas costureiras no andar de cima, quando uma cliente pedia, ele desenhava uma roupa, para a mesma.  Era capaz de ficar depois da loja fechada, bordando alguma adereço para os vestidos.   Eram senhoras que tinham dinheiro, mas que a alta costura, não chegavam aos seus bolsos.   Logo contrataram uma moça que tinha uma facilidade de bordar, entender o que ele queria.  A senhora o queria como um filho, estava a muitos anos nesse mundo, para perceber que ali tinha um artista de mão cheia.  Ensinou a ele a calcular, quanto custava cada peça que fazia, analisar a cliente, para saber até aonde poderia ir, todos os truques da profissão.  Em breve colocavam na vitrine roupas feitas por ele.

Ele com seu senso agudo, viu que muitas vezes, alguma mulher árabe parava diante da loja para observar suas roupas, sempre colocava num dos manequins uma capa árabe cobrindo parcialmente o vestido.    Isso se vendia como água, escolhia tecidos vaporosos, mas que não mostrassem o que se levava por baixo.  Num cumulo de ousadia, um dia colocou, umas calças largas de seda, com uma blusa, bordada em pedrarias, com uma capa dessas por cima, não ficou nem dez minutos na vitrine, logo entrou uma mulher que comprou tudo.

Trabalhou uns bons oito anos com essa senhora.  Morava num pequeno apartamento em Marais, o bairro que anteriormente estava degradado quando ele chegou.  Agora virava a cada dia mais um bairro de moda.   Os gais compravam apartamentos antigos, os reformavam.

Ele tinha seus encontros, mas não queria perder tempo com nenhum homem, todos tinha sido sempre um problema para ele. Tinham o sentimento de posse, isso ele odiava, lutava loucamente para ser dono de sua própria vida.   Não queria ser uma pessoa que lhe dissessem esquerda, a direita, o rumo de sua vida era seu.

Um dia viu um homem parado na frente da vitrine da loja observando um dos seus desenhos, uma calças largas, as fazias assim, porque normalmente as mulheres árabes que tinham parido, tinha cadeiras grandes, as fazia de tal maneira que disfarçava sua silhueta, uma blusa com a frente toda drapeada, da qual saia uma fina linha de ouro, a capa era a mesma coisa, negra, mas os fios de ouro, criavam um detalhe a mesma.   Uma mulher que era cliente, desceu de seu Mercedes, o cumprimentou, lhe deu dois beijos, entrou na loja seguida pelo homem, pensou que era seu amante ou marido.  Quero experimentar essa roupa que acabas de expor.

A dona da loja, tinha um sorriso na cara.  Conversando com ela em árabe, perguntando pela família, lhe estendeu a roupa.

Ela saiu do provador, vê mon cher ami, a caída é diferente, esconde meus michelines, esse garoto entende as mulheres árabes.   Virou-se para a proprietária, levo o conjunto como sempre.  Ele estava no balcão, se dirigiu a ela, lembra-se da última vez que estiveste aqui, falamos num traje de noite, desenhei isto para ti.   Te vai transformar em uma princesa das mil e uma noites.   O homem simplesmente arrancou o desenho da sua mão.   Aonde aprendeste a desenhar isso.  Não era um simples rabisco, era como ter ideia realmente do vestido.

Desenho desde criança senhor, meu pai tinha uma loja de tecido no Líbano, eu via os tecidos, imaginava como seria transformá-los, depois em casa desenhava o uso do mesmo.  Mas claro não podia dizer as clientes que comprava os mesmo, na senhora ficara uma merda, melhor um tecido negro.

Sabe quem sou, lhe perguntou o homem?

Menor ideia senhor, estava furioso, mas sem perder a educação, como tinha lhe ensinado a senhora para quem trabalhava.

Ela rindo, soltou, esse filho da puta, é o maior costureiro da França, mas não entende as mulheres árabes, está perdendo todas suas clientes para ti.

Madame, não sejas má, quero que venhas trabalhar comigo garoto.

Ele teve a ousadia de responder, estou bem aqui, sou tratado com educação, respeito.

Madame se matava de rir, abaixe sua crista monsieur.   Sabe que o rapaz tem futuro, com certeza vais colocar o mesmo num canto, só para atender as clientes que não entendes.

Este virou as costas, saiu batendo a porta.

Verás disse a senhora árabe, sem querer fui eu que fiz essa confusão toda, quer apostar que ele vai mandar fazer o vestido que desenhaste para mim, mas se fores esperto, começas imediatamente o coloque na vitrine amanhã, eu o quero de qualquer maneira, mas me faça uma capa de mil e uma noites, como Sherazade.

Ele passou o resto do dia, cortando, passando o tecido as costureiras, a bordadeira que ia aplicando borboletas, mas muitas capas da saia, o busto ele mesmo drapeou, insertando pequenos bordados de prata que vinha fazendo a meses.  De noite se dedicou a capa, desta vez a mesma não escondia nada, nos ombros, era como um enxame de borboletas coloridas, a bordadeira, dizia que estava com os dedos doendo de tanto aplicar as mesmas.

Logo as oito da manhã ele colocou o vestido bem como a capa em um manequim sozinho na vitrine, mas cobriu o mesmo.  Só descobriu quando a dona da loja, ia abrir, fez um sinal que fosse do outro lado da rua, para olhar.    Ela estava de boca aberta.

Passou a mão no telefone, ligou para a cliente, já está, convide seu amigo, o melhor costureiro do País para vir até aqui.

Viu o mesmo saindo da Place Vendôme pisando duro, só então voltou a tirar o tecido que cobria o manequim.  Ele ficou parado olhando, entrou sem dizer bom dia a ninguém, começou a examinar as costuras, os apliques, como se fosse um fiscal de obras.

Virou-se para ele, te contrato, soltou um valor absurdo, que nem sonhava em ganhar.  Mas tens que trabalhar comigo.

Ele sempre tinha sido atrevido, sua mãe dizia que as regras de boa educação, eram a base de tudo.

Sinto muito, mas o senhor é mal educado, prepotente, entrou aqui sem respeito nenhum, examinou meu vestido, como se fosse um trapo sujo, de esfregar o chão.   Agradeço o oferecimento, mas se eu fosse o senhor, saia entrava novamente, seguia as regras de educação, cumprimentava a dona da loja, elogiava o que estava exposto, perguntava quem tinha criado, aí eu falaria com o senhor.

Só faltava espumar.  Saiu outra vez batendo a porta, justo nesse momento parava o Mercedes na porta, saiam do mesmo, sua cliente, cercada de amigas, com certeza clientes dele.

Entraram todas na loja como loucas.   Sua cliente provou o vestido, em seguida passou a mão no telefone.    Meia hora depois entravam na loja, um fotografo, uma mulher que depois descobriu que era a diretora de Vogue da França.  Eram muitos oh, ah, que diziam.

Todas as mulheres queriam roupas para a festa que ia promover a revista.  Faltavam 10 dias para isso.   Três delas, já tinham seus vestidos, mas duas outras não.   As olhou bem, pediu para ficarem a uma certa distância dele, começou a desenhar, o mesmo fez com a outra, se viam que eram irmãs, mas criou roupas completamente dispares, mas de acordo com a personalidade que intuía em cada uma.

A diretora do Vogue, pediu se ele podia desenhar um modelo, eu já tenho, mas quero imaginar o que serias capaz de fazer para mim.

Enquanto ele tinha desenhado, o fotografo, tinha feito mil fotos em cima dele.

Desenhou para ela, um conjunto de calças, imensas, como uma saia, uma blusa totalmente atrevida, com um bustiê todos de pedrarias por baixo, mas que deixaria tudo a mostra.  Pode fazer, mas te aviso, ao receber os convidados, usarei um do teu competidor, mas em seguida usarei o teu, na hora do jantar, Madame, a senhora, o seu fiel escudeiro, estão convidados para a festa, mandarei os convites ainda hoje.  Pegou na bochecha dele, meu lindo, esse será teu debut no mundo da alta costura.

Depois que a cliente pagou a roupa, colocando tudo numa caixa, saíram todas.  Ele suspirou aliviado, estou morto de sono, mas não posso perder um minuto. 

Uma pausa, saiu com a senhora para o café da esquina, aonde sempre comia o mesmo um café imenso, acompanhado de um croissant.    Chamou a garçonete, Ivete, hoje quero outro café, um para levar.   Ela se chegou a ele, vi o vestido na vitrine, cheguei a chorar de emoção.  Tens futuro meu garoto.

Madame olhou para ele muito séria, lhe disse, hoje a tarde o contador, vira com uns papeis para assinares, a partir desse momento eres meu sócio, outro estaria lambendo as solas do sapato desse grande costureiro francês, não precisas dele, tens luz própria.   Alias um conselho, nunca querias ser tão grande como ele, pois perderas a criatividade.   Isso ele escutou, seguiu ao pé da letra.

Foi uma batalha, contrataram mais duas costureiras, duas bordadeiras.   Ele mesmo cortou todos os vestidos, duas capas.   O bustiê de Catherine de Vogue, bordou ele mesmo.  Mas se esqueceu que não tinha um traje para ir ele mesmo a festa.  Foi ousado, na loja tinha um smoking feminino, colocou uma calças jeans negras com uma faixa de centim nas costuras laterais, com uma seda branca, drapeou em seu próprio corpo a parte de cima, colocou o casaco, ficava com as costas nuas, uma gravata borboleta negra com um anel de rubi no meio solto em seu pescoço, seus imensos cabelos crespos negro.   Madame foi com um conjunto que ele tinha desenhado a mais tempo, que ela gostava, nunca quis vende-lo.

Quando chegaram a festa, ela o empurrou em direção a Catherine, que o abraçou e beijou, dizendo ao seu ouvido, que atrevimento, estas chamando mais atenção do que eu.  Tire esse casaco já, imagino o que tem por baixo.   Os flash não paravam de estourar. Tornou a colocar o casaco, foi buscar madame que tinha lagrimas nos olhos.   Meu filho acabas de nascer para o mundo.

A mesa de Catherine, era redonda imensa, a viu dando uma ordem, eles estavam sentados numa lateral, ela foi pessoalmente já vestida com seu traje, para que fosse se sentar na mesa, Madame, sorriu, deixe o meu menino brilhar com luz própria.   Na mesa estavam sentados todos os grandes da moda de Paris.   Ela atravessou todo o salão, com ele de braço dado, subiu a um pequeno palco, apresentou a Paris, ao mundo, uma nova estrela. Pediu para as senhoras que ele tinha vestido subirem com ele ao palco.  Os aplausos eram fantásticos.

Depois o guiou até a mesa, o foi apresentando a cada um, Abed Faisal, as senhoras ele beijava na mão, aos homens ele inclinava meio corpo, em respeito.  Menos ao que o tinha ofendido, estendeu a mão simplesmente o olhando nos olhos.

Todos elogiaram sua criações.   Um que estava ao seu lado, lhe perguntou qual seria sua criação de outono inverno.  Se dirigiu ao mesmo para que todos ouvissem, senhor, não pretendo competir nas coleções, eu gosto mesmo é de desenhar para minhas clientes, ao que posso dedicar de corpo e alma.  Saber o que lhe convém, se faço coleções, perderei essa liberdade.

Depois ainda tenho muito que aprender dos grandes mestres, espero que com humildade.

Eles dois, Madame, administrava, ele atendia as clientes, escolhia os tecidos que lhe caiam bem, quando alguma cismava em querer uma coisa que ficaria horrível, ele se levantava a acompanhava até a porta, dizendo senhora, estas no lugar errado, aqui trabalhamos para a deixar linda, não para ser uma a mais.

Algumas voltavam, outras iam aos grandes costureiros, para comprar qualquer coisa que queriam usar de qualquer maneira, ficasse bem ou não.

Quando começaram a crescer muito, ele um dia parou, assim não vamos a lugar nenhum, estamos fazendo o mesmo que eles.  Mal tenho tempo para digerir, nem gastar o dinheiro que ganho.  Tinham saído pelo menos três vezes nas capas de Vogue, por causa de suas clientes.

Agora algumas atrizes famosas, iam até ele, para pedir, vou ao festival de Cannes, preciso de uma roupa que me faça brilhar.

Através de uma cliente, milionária Libanesa, casada com um embaixador do pais, conseguiu informação de sua família, tudo baixo sigilo.   Para todos efeitos, ele era de um bairro marginal de Marseille.    Seu pai tinha morrido, seu cunhado tinha enterrado a loja, tinham perdido tudo.

Como no momento estava cansado, avisou Madame, vou resolver problemas particulares, logo estarei de volta.

Comprou um bilhete para Beirut, alugou um carro para o levar até sua cidade.  Tudo continuava igual, mas a loja estava fechada.  Foi a casa familiar, só viviam ali, uma irmã com sua família, sua mãe.   Esta pensou que ia ter um enfarte quando o viu.   Se agarrou a ele, chorando.

Sua irmã lhe contou tudo, depois da morte do pai, os genros tinham brigado pelo dinheiro e pelo comercio, resultado o dinheiro correspondia a nossa mãe, que lutou como um leão com eles, a loja acabou fechando, restam tecidos impressionantes dentro.  O local é nosso, mas temos que tirar o que está para alugar.

Ele foi com a mãe e a irmã olhar o local, sem se dar conta foi separando sedas antigas que ele tinha passado a mão mil vezes, ia dizendo meninas voltei para buscar vocês.  Mandou embalar tudo, mandando para Paris.   Tinha trazido as revista em que saia, com suas roupas, a mãe não fechava a boca, seu pai ia estar orgulhoso de ti.  Brilhas com tua própria luz.

Porque a senhora não vem comigo, podemos viver juntos.

Não, aqui é meu lugar, meus netos estão aqui, morrerei nesta casa aonde nasci.  Antes de ir embora pediu a irmã que sempre desse notícias.  Foi embora da mesma maneira que tinha chegado como um relâmpago.

Agora se podia dar o luxo, de vez em quando tirava um tecido escondido, para fazer um vestido ou uma roupa para brilhar.

Suas clientes sabiam que estaria fazendo exclusivamente para elas, mas tinha sempre alguma coisa especial na vitrine.  Quando encontrava algum costureiro num jantar que tinha sido convidado era educado, perguntava pelo trabalho, escutava as reclamações sobre as coleções, o estressados que estavam.  

Um dia escutou um barulho tremendo na rua, era um carro de segurança, uma limusine, outro carro atrás, entraram na loja, perguntando por ele, se podia atender uma pessoa em particular, que não se visse desde fora.

Claro que sim.  Viu um homem descer, entrou na loja, foi direto a ele, se apresentou como um príncipe árabe.

Era jovem, disse que não queria aparecer com o traje branco que usavam todos os árabes, era sua festa de aniversário, que gostaria de estar diferente.   Vi sua foto naquela festa da Vogue a muitos anos, quero algo discreto, mas digno de mim.

Olhou bem para ele, pediu se podia tirar essa casca de capa que usava, que ficasse só com o que tinha por baixo, para poder imaginar o homem que estava vestindo.

Ficaram só os dois na sala. Príncipe, ficou quase nu.  Ficou olhando nos olhos dele, ao mesmo tempo desenhava, lhe disse, vou ser sincero consigo. Se faço uma coisa louca, ou absurda, irão dizer que o príncipe é gay.   Acredito que sua sexualidade, deve ser guardada para seu foro íntimo.     Mostrou o desenho, era um smoking branco, mandarei bordar em ouro e prata, pois significam a riqueza do mundo, por cima o jovem usará uma capa que farei, em seda branca, com as bordas bordadas com vossa insígnia também em ouro e prata. Sugiro que como vejo que usas óculos, que visite o oculista aqui ao lado, nesse dia você usara uma lente de contato.

O rapaz se aproximou, foi o que imaginei, sabes falar.  Sim algo exagerado faria levantar suspeita a meu respeito.  Pode fazer o traje.  O convidou para a festa, seria numa sala exclusiva do Hotel Ritz.

Como lhe aviso para provar o traje?    Lhe deu um cartão, falas com meu secretário, mando te buscar.

A coisa agora era o tecido que tivesse um caimento como uma roupa árabe.  As bordadeiras, esticaram um tecido de lã finíssimo, que ele mesmo foi buscar em cada fábrica, até encontrar o que queria.  Aplicaram os fios de ouro e prata, a uma distância de um centímetro uma da outra, cortou o traje, na gola de cetim, o mesmo desenho que estava na borda da capa, os signos de sua dinastia. Bordados tão sutilmente, que só de muito perto se percebia.

Quando avisou que tudo estava para prova, veio uma limusine para o recolher, o que estranhou e que deram uma volta para entrar para a garagem do Ritz.    O príncipe, na frente dele ficou quase nu, vestiu a roupa, lhe caia como uma segunda pele.

Fantásticos, apertou sua mão, mandou o secretário passar na loja para pagar.  Te espero na festa, lhe estendeu um convite.

Justo no dia seguinte lhe comunicaram que sua mãe tinha falecido.  Embarcou num voo particular, para a cidade mais próxima da sua.  Chegou justo a tempo.   Sua irmã, lhe entregou um envelope.  Só abra quando estiver em Paris.

Voltou no mesmo avião depois do enterro, suas outras irmãs mal falaram com ele.

Não se incomodou, o único vínculo que tinha com o Líbano, acabava de deixar de existir. Nunca mais voltaria.

Quando chegou estava exausto, Madame o avisou que teria a festa nesta noite, que deveria ir para casa dormir.

Chegou ao seu apartamento, sempre dizia que ia se mudar para um melhor, pois tinha dinheiro para isso.

Tomou um bom banho, caiu na cama, se não tivesse colocado o despertador, teria perdido a festa.  Se vestiu como sempre, um smoking em cima de uma calças jeans, uma camisa, com fios de prata, gravata borboleta negra com fios de prata.

Quase sai de casa sem sapatos, uma cliente lhe tinha dado de presente umas babuchas de seda prateada, as colocou.

Estava a fina flor da sociedade francesa, misturada com jovens príncipes do mundo árabe, jovens com grandes marcas francesas em suas roupas.   Quando o príncipe apareceu com sua roupa os outros estavam todos de negro, de longe parecia que estava com suas roupas tradicionais.  Mas quando tirou a capa viram que estava todo de branco sim, mas que sua roupa brilhava discretamente.   Quando o aplaudiram, foi até ele, levantou o seu braço como um campeão.

Estava cansado, as conversas não podiam ser mais superficiais possíveis, isso o deixava a margem, pois nunca tinha tido tempo para esse tipo de conversa, um homem que estava sentado ao seu lado, calado todo o tempo, com um smoking severo, de óculos escuros, com uma barbicha.  Lhe perguntou, se estava aborrecido, por falarem coisas superficiais, ou porque não falavam de moda.

Eu nunca falo de moda com ninguém, tampouco fofocas da vida alheia. Meus interesses são outros, adoro livros, exposições de arte que vou sozinho para não ser perturbado enquanto as admiro, absorvo tudo.  Melhor, gosto de estar em paz, na sua frente as taças de bebidas estavam cheias, mas sem tocar, cada vez que faziam um brinde ao príncipe, ele levantava a sua, mas sem tocar nem os lábios.   Não gostava de beber, claro só o café. Sem querer se viu conversando com o homem, um olhando a cara do outro.   O príncipe se aproximou, dizendo que ia ficar com ciúmes, seu professor preferido, conversando com seu costureiro preferido.

Então se apresentaram, ele se chamava Jean-Pierre Al Laud, lhe explicou que era judeu Druso, que vivia desde criança na França.

Somos de terras vizinhas, começaram a falar de política quando a música aumentou, o professor o convidou para saírem irem a algum lugar para seguir a conversa.  Acabou na sua casa fazendo sexo com ele.  Se sentia excitado quando o outro trocava seu corpo, se exploraram mutuamente.

Ao final, lhe perguntou se não tinha ninguém?

Se eu estivesse alguém não estaria contigo.  Minha vida particular, é um pouco escassa, pois as vezes não me sobra muito tempo.   Isso que não preparo coleções, mas estou sempre informado das tendências de moda.

Depois o levou a sua casa também, voltaram a fazer sexo, ele estranhou, imaginei uma casa cheia de porcarias de decoração, mas vejo que eres uma pessoa que gosta de simplicidade.

Quando ele foi embora no domingo a tarde, se deu conta da carta da mãe.   Com sua letra miúda, lhe dizia que devia procurar um advogado, seu nome, sua direção.  Ele te dará outra carta que te explicara tudo.

No domingo a noite o Jean-Pierre lhe chamou, estou sentido tua falta, vens para cá, ou vou para tua casa.

Venha para cá, estou com preguiça de me vestir.     

Jean-Pierre vivia em Saint-Germain de Prés, chegou em seguida, disse que na verdade tinha lhe chamado da rua.  Se davam bem na cama, bem como conversando, assim começaram um romance, que duraria 15 anos.

Quando foi ao advogado durante a semana, este soltou que imaginaria que ele depois do enterro, estaria ali direto.  Mas ao parecer tomaste teu tempo.

Só sei que o senhor tem uma carta para mim, o resto nem imagino.

Lhe entregou um dossier.  Aqui tem tudo que lhe pertence.  Sua mãe, desde que o senhor saiu de casa, vinha depositando dinheiro, não me pergunte como, pois não sei, em Luxemburgo, este dinheiro está ao seu inteiro dispor.  Era um valor bem considerável.

Pegou a carta, guardou no bolso de seu casaco.

Minha mulher me fez prometer que lhe perguntaria, se o senhor poderia lhe atender, mas que lhe dissesse que não sou rico. 

Lhe estendeu um cartão com seu nome, em uma linha muito fina em prata.  Que me procure na loja.

Semanas depois, ele ainda não acreditava no que tinha.   Madame o chamou muito séria, temos problemas, o proprietário vendeu a loja, o novo dono a quer quase imediatamente.

Vou ser franca contigo, eu gostaria de me aposentar, já tenho uma idade considerável, nos paga uma indenização se saímos dentro de um mês.    O que pretendes.

Vou pensar.  Fez uma coisa que nunca fazia, desceu, foi ao Bar, pediu a Ivete um café, tinha o hábito de falar com ela. Como estava vazio, pediu que sentasse com ele.

Contou o que tinha entre mãos, queres vir trabalhar comigo, eu tenho poucas pessoas que confio, te vejo sempre educada com todos, eres franca comigo, podias me bajular, mas me trata como um igual.

Ela ficou de boca aberta, riu.  Contigo meu amigo, vou ao inferno se for preciso.

Então toca procurar um lugar para levar tudo daqui.  Em sua cabeça estalou um lugar que gostava de passear, vá trocar de roupa, vamos ver um local, para nosso negócio.  Seu patrão já olhava feio, pelo fato de estar sentada com um cliente.  Ela chegou a ele, falou ao seu ouvido, ele ficou furioso.

Voltou em seguida, com uma saia justa negra, um casaco simples.

Ele só lhe disse, te falta uma coisa, um batom vermelho, um coque bem apertado, que estire, de luz aos teus pômulos.

Assim será chefe.

Foram olhar o local, assim minha clientes não levam multas.  Quando negociou com o proprietário, esse não sabia com quem estava falando.  A loja era menor, mas a parte de cima para o ateliê era perfeita, tinha sido uma galeria de arte.  Tenho um apartamento, mas este está a venda.   Quando mostrou o mesmo, ele viu que tinha encontrado o lugar de seus sonhos, de frente não estava devassado, pois tinha uma arvore imensa na pequena praça que tapava o mesmo de olhos indiscreto.   Quando o homem disse o preço, se inclinou e lhe perguntou ao ouvido, se lhe pago em Luxemburgo, como ficamos?  

O homem economizaria em impostos, abriu um sorriso imenso. Trato feito.

No dia seguinte, Ivete já estava ao comando da pequena obra necessária, as paredes já eram brancas, o resto trairiam da outra loja.  Sentaram-se os três, elaboraram uma carta as clientes, lhe dando sua nova direção, agradecendo sempre sua constância, bem esperando poder seguir contando com elas.

No dia seguinte levou suas poucas coisas para seu apartamento novo, agora poderia ir a pé, pois estava perto da casa de Jean-Pierre, nunca chegariam a viver juntos.  Ele necessitava de seu espaço para escrever, dormia quase todas as noite juntos, jantavam, conversavam horrores.

Basicamente não perdeu nenhuma cliente, o ateliê, montou como queria, com um pequeno salão íntimo para atender as clientes.  Depois a sala de costura com as mesmas empregadas, todas queriam seguir trabalhando para ele.

O mais interessante, estava cercado de galerias de arte, mas compunha sua vitrine como se fosse mais uma.   As vezes turistas ricas americanas viam a roupa na vitrine, entravam, logo encomendavam alguma roupa.   Ivete lhe explicava, que a que estava no manequim, era sempre uma peça única, poderiam arrumar para a cliente, mas o senhor, teria prazer em atendê-la desenhar algo exclusivo para ela.   Assim fez também uma clientela rica americana que sabia que teria uma roupa diferente dos costureiros que seguiam tendências.

Os primeiros cinco anos, ele é Jean-Pierre eram inseparáveis. Depois ele começou a sugerir sair para encontrar com seus outros companheiros, professores como ele da Sorbonne, eram discussões, que pareciam nunca terminar, quando os assuntos não lhe interessavam, tirava do bolso um bloco, ficava desenhando algum motivo árabe, que depois usaria num vestido ou traje.

Jean-Pierre ria disso, enquanto tentamos salvar o mundo, tu tentas salvar as mulheres de parecerem feias.   Normalmente dormia em sua casa, mas quando ele começou a se fartar dessas reuniões, a maioria das vezes dormia na sua.   Quando fizeram 10 anos que estavam juntos, confessou, que necessitava de novas emoções, que gostaria de experimentar fazer trios, ou outro tipo de relacionamento sexual.

Entendeu, a vida junta, lhe parecia cômoda, queria emoções porque estava ficando velho, era mais velho que ele 15 anos.   Sem querer o entendia, pois quando estavam na cama, sentia que cada movimento era igual ao que já tinham feito antes.

Lhe disse que ele é quem tinha que resolver, mas que não queria esse tipo de relacionamento, podemos seguir amigos.    Jean-Pierre seguia o apresentando para todo mundo como seu companheiro.   Não lhe incomodava.

Um dia andando na rua, encontrou um de seus conhecidos, veio lhe contar que devia ter cuidado, pois Jean-Pierre estava frequentando o baixos fundos do mundo gay.  Estava agora de madrugada com jovens que não se sabia de aonde tinha saído.   Outro dia foi preso, por estar com um menor.  A universidade já lhe advertiu que fosse discreto em sua vida.

Foi falar com ele.  Não se surpreendeu muito, pois foi franco, necessito dessa emoção com os jovens, é como se por momentos, recuperasse a juventude que perdi, ou não soube usar.

Um dia foi jantar com ele, viu que estava com ansiedade, este o levou até a porta de sua casa, se despediu.

Esperou um instante, viu que ele mudava de direção, em seguida viu que estava com dois jovens que quando muito tinham 18 anos, com cara de gigolos.  Viu que iam para sua casa.

Ficou com pena dele, ele também sentia o tempo passar, mas quando era abordado por alguém jovem, a saída de um bar, pensava o que vou falar com esse idiota.    Ia para casa sozinho.

Um dia Jean-Pierre chegou arrasado ao ateliê, perguntou se podiam subir para falar com ele.

No apartamento se abriu, embora fosse um choque para ele, soltou como um soco no estomago, estou com Aids, já em fase avançada.  Quero que faças um exame, pode ser que tivesse alguma aventura ainda quando fazíamos sexo.   Tinha vontade de lhe dar uma surra.

Mas sempre tinha exigido usar proteção, mesmo assim fez os exames, inclusive foi com ele fazer outra vez.  Ele não tinha nada, mas se começava a notar em Jean-Pierre os signos da doença, o médico foi franco, devias estar fazendo tratamento a mais tempo.  Durante o dia ele trabalhava, se revezava de noite como enfermeiro que cuidava dele.  O viu definhando, pediu se podia encontrar um sacerdote Druso para ele conversar.  Conseguiu, pediu que ele levasse suas cinzas para Israel.  Lhe prometeu, chamou um advogado, pois queria deixar sua imensa biblioteca para a Universidade.   Nunca nenhum amigo seu, esses com quem tinha imensas discussões sobre o direito a liberdade sexual, apareceram, só uns poucos vieram a cerimônia que teve antes de sua cremação.   Agora estava ele em Israel, entregou as cinzas a família, que o tratou de maus modos, como se ele fosse culpado de alguma coisa.

Aproveitou, para descansar, estava hospedado num apartamento em Tel Aviv, tinha ido já uma vez a Jerusalém ao Domo da Roca, a primeira vez, se sentiu como quando era criança, junto com seu pai, fazendo a cerimônia da limpeza corporal, as rezas que seu pai fazia, voltaram todas a sua cabeça, entrou rezou, sentiu uma imensa paz.   Foi a primeira vez que viu o homem moreno, ali ajoelhado, rezando com fervor.

Tinha um corpo de enfarte, se via que cuidava fazendo exercício.    O viu outra vez no ônibus voltando para Tel Aviv.   No dia seguinte o viu na praia, fazendo exercícios.  Na última vez alguns jovens tinha tentado fazer uma paquera, lhes tinha respondido que só gostava de homens mais velhos.

Agora o faziam com o homem na barra, seu corpo era liso, como que desenhado a lápis, estava excitado só de olhar.  O mesmo disse aos jovens alguma coisa, eles apontaram para ele.

Ficou se graça, procurou se relaxar, mas o homem veio se sentar ao seu lado, estendeu a mão Drew Brow, sou americano, mecânico de motos, os dois estavam excitados, foram diretos para cama, ficou impressionado com seu corpo, sem um pelo, pensou que se depilava.

Esse corpo que tanto admiras, só me deu problemas, todos querem só isso, a casca o que tem dentro não.   Contou para ele como tinha se convertido.

Dois dias depois se despediram, se sentia vivo outra vez, tinha sido uma experiencia fantástica, mas cada um tinha sua vida, tinham que tocar em frente.

Voltar para Paris, era como voltar para casa, ali tinha feito sua vida, tinha logrado êxitos, tinha que seguir em frente.

Ivete lhe avisou que uma cliente americana estava louca para falar com ele, disse quem era, riu, pois, era uma mulher super divertida.  Muito natural, de uma beleza surpreendente, tinha sido miss pelo seu estado, Texas, dizia sempre, todo mundo pensa que sou burra, porque sou bonita, me casei com um milionário, nada mais longe da verdade, na minha família primamos todos por sermos sempre os melhores da escola, as notas mais altas.  Tinha um curso superior de fazer inveja, na verdade, era diretora sênior da empresa do marido.   Se ele bobear, le roubo a empresa porque a entendo melhor que ele.

Ela apareceu logo em seguida, desta vez estou na casa do meu irmão, ele vive aqui ao lado, estava como uma rosa, calças jeans, tênis, camiseta bem decotada, com os cabelos presos num rabo de cavalo.    Rodou na frente dele, nada mais americano, nem texano.   Meu querido amigo, necessito uma roupa para uma festa da Vogue em NYC.  Não quero nada de essas que pensam que serão famosas a vida inteira usam.  Coisas incomodas, que mal podem andar, quanto mais sentar-se. Tirou da bolsa uma caixa, veja essa joia era da minha mãe, me deixou de herança, mas nunca pude usar, porque é uma coisa singela.  Era um colar, com dois brincos, tinha a forma de flor, no centro de cada uma tinha um rubi.   Queria um vestido que pudesse usar isso.   Pertenceu sempre a família, diz sua lenda que na época da guerra foi vendido para comprar comida para os escravos.   Mas que depois voltou a família.

Ele copiou o desenho do colar, disse, amanhã venha fazer uma prova.

Buscou um vestido dessa época, desenhou o mesmo como se fosse um vestido usado uma atriz num filme de época.              Usaremos uma coisa antiga, como anáguas ligeiras, mas que criem volumes, por cima ia uma saia em que a rosas se reproduziam na barra, era ligeiramente mais curta na frente pois sabia que existia uma escadaria para subir, mais comprido atrás, formando uma pequena cauda, nada como as gigantescas que usavam, o busto era todo plissado, como o colar era de ouro, uma das bordadeiras, fez meias rosas em crochê, de fios de ouro, com uma pequena pedra no meio, iam subindo da cintura encaixada no plisse, quando chegavam em cima, só tinha uma que ficaria logo abaixo do colar.    Os braços estavam livres, buscou numa caixa um leque precioso de plumas que tinha comprado num antiquário a anos, as plumas eram brancas embaixo, depois rosa, finalizavam com a cor rubi.

No dia seguinte ela apareceu mais arrumada, ele tinha chamado uma cabeleireira, amiga da Ivete, lhe disse que antes como deveria ser seu cabelo, enquanto se arrumava, entrou um homem com uma cara severa, perguntou por ela, o levaram para cima, ela disse que estava emocionada, esse homem sabe me cativar.  Ele estendeu a mão, perguntou como vai.

Tinha ligeira sensação que o conhecia.  Quando o cabelos ficaram prontos, um imenso coque, cheios de flores brancas como do desenho.  Ele disse, agora feche os olhos, deixe as ajudantes te vestirem, só abra quando estiver pronto.  Ela docilmente se deixou vestir, o homem sorria o que o deixava bonito.   Ele enquanto isso começou a buscar entre seus blocos de desenhos até que o encontrou. Ficou quieto.

Quando o homem lhe deu o colar, lhe sorriu, pediu que o colocasse.   Agora abra os olhos, ela deu um grito.  Caramba, em casa de minha mãe, tinha um quadro da dona do colar, com um vestido mais ou menos como esse.  É como voltar no tempo, me sinto bailando naqueles bailes que aparecem nos filmes.

Ele ria, quando estavam te vestindo pensei o mesmo, mamãe ia ficar feliz.

Ah este é teu irmão, por isso tinha a sensação de conhecê-lo, fui buscar entre minhas coisas um desenho.   Mostrou para ela.    Esta ria a bessa, ele quis ver o desenho, era ele nas famosas conversas do Jean-Pierre, com a cabeça apoiada nas mãos, como pensando, isso não vai acabar muito.    Ele ria a bessa, ficava mais bonito.

Me lembro da conversa desse dia, uma discussão sem fim, sobre liberdade sexual de cada um.

Sim nesse dia entendi que nosso relacionamento tinha ido para a merda, nessa noite vim embora, porque já não queria perder meu tempo.     Ele estava desesperado em busca da juventude perdida, acabou perdendo sua vida.

Sinto muito disse ela.

Não, eu lamentei muito, cuidei dele até que morreu, pois no fundo era o único amigo que tinha, acabo de voltar de Israel, aonde fui levar suas cinzas, ele negava de todas as maneira suas raízes judias misturadas com árabe.  A família me olhou como se eu fosse culpado de alguma coisa, eu nem sabia que existiam.  Mas de outra maneira, me reencontrei com minha religião, a ligação que tinha com meu pai, quando ia com ele a mesquita, o simples fato de lavar o rosto, as mãos, os pés rezando, foi um balsamo para mim.

Ela o abraçou o beijou.

Deixemos isso de lado, mostrou o desenho da pequena capa, todas irão com aquelas capas monstruosas, se queres faço essa para ti, mas meu presente é esse, lhe entregou a caixa de seda, ela quando abriu deu um grito, que lindo.

Tenho até medo de usar, como te devolvo depois?

Nada é um presente para ti, o comprei num antiquário, sua dona original era uma grande artista de teatro francês.  Tem seu nome no fundo.

Bom a partir de amanhã podes vir buscar o vestido, vamos só terminar alguns detalhes.

Ninguém vai esperar que eu apareça com um vestido lindo deste, esperam que eu apareça com um escandaloso.

Hugh o que achas?

Em ti minha irmã tudo esta sempre bem.    Nosso amigo é um mestre.  Nesse dia do desenho, estávamos os dois chateados com a conversa, olhei para ele desenhando, fiquei com inveja, pensei, ele pelo menos pode se ocupar, eu me sinto aqui perdendo meu tempo com discussões sem futuro, nunca mais voltei a me reunir com esse pessoal.

Sou professor na Sorbonne, de literatura e filosofia aplicada ao pensamento americano, além de ser teu vizinho.   Te vejo sempre com tua assistente, tomando café no mesmo lugar que eu vou, mas nunca tive coragem de me aproximar.

Bom agora já sabe que não sou nenhum bicho papão.

Porque não vamos jantar essa noite sugeriu ela, porque depois eu irei embora.

Foi ótimo o jantar, pois nos dias seguintes ele teve uma enxurrada de pedidos de clientes americanas, que queriam roupas diferentes para a festa.  Nas vésperas, recebeu um convite para ir a NYC.   Mas não estava de humor para isso.  Escreveu um e-mail, agradecendo, mas tinha assumido outro compromisso.   Nada disso queria ficar em casa tranquilo.

Nesse dia pela manhã, um domingo, encontrou Hugh no café, ele se aproximou, perguntou se podia sentar-se.

Nada me dará mais prazer de ter uma conversa tranquila contigo.   A irmã queria que ele fosse a festa, para ela no fundo é como administrar seu negócio.   Aproveitara, que estará deslumbrante, para convencer muita gente de fazer negócios com ela.

Foram caminhando para casa, o convidou para subir para conhecer seu apartamento.

Este da porta riu, eu imaginava um apartamento totalmente superficial, embora saiba que eres muito sério, posso fazer uma coisa que tenho vontade de fazer, desde o dia que te conheci.

Se aproximou, segurou seu rosto com as duas mãos, o beijando, era como beijar um vulcão em erupção, nem teve consciência que estava nu com ele na cama, o sexo era igual, o homem de tranquilo, como que explodia.

Quando comentou isso com ele, respondeu, que era porque é você que me deixa assim, agora estavam juntos sempre no café da manhã no restaurante, dormiam juntos todos os dias, depois de fazerem sexo.  Não se cansavam, nunca nada era igual.

As conversas eram imensas.  Ele recebeu a revista em que saia sua irmã, falando dele, o costureiro que tinha encontrado a alma do colar.  Tinha posado para a foto, embaixo do quadro da casa da mãe dela.

Temos que um dia ir ao Texas, completava rindo, para fazer nosso casamento a moda de lá. Com uma grande festa.

Um dia Ivete chegou atrasada, a escola de seu filho tinha uma epidemia, estava fechada, não tive com quem deixá-lo, ele pode ficar no ateliê, a cara do garoto era divertida, examinava tudo cada detalhe, se aproximou de um vestido exposto, como se examinasse as costuras.

O levou para cima, apresentou ao pessoal, lhe deu um bloco, lápis, o deixou ali, mergulhou no seu trabalho, quando levantou a cabeça, estavam todas costureiras olhando o que fazia o garoto.

O estava desenhando numa sequência, ele com o lápis suspenso no ar pensando, outra com o lápis na boca, outra desenhando coçando a cabeça.   Riu muito.  Como te chamas filho.

Ele rindo disse, pensei que sabias, Ivo, estendeu sua mão, que eram firmes.   Não desenho muito porque na escola dizem que isso é coisa de gay, fui perguntar minha mãe, ela disse que os meninos eram idiotas.  Que uma coisa não tinha a ver com a outra.

Em seguida voltou a trabalhar rindo, mais tarde o viu sentado ao lado da que estava fazendo uma barra bordada, o ensinando a fazer igual.    Agora ia todos os dias depois da aulas, ficar no ateliê, disse que tinha que aprender de tudo, pois um dia queria ser como ele.  Quando estava com o Hugh tinha conversas interessantes, riam a bessa.

Ficou olhando um dia os dois juntos, imaginou se tivessem um filho, o Hugh seria um grande pai.

Conversando com a Ivete, perguntou pelo pai dele.

Não sabe que existe, é um homem casado, me mentiu, dizendo que era solteiro.   Nem sei por aonde anda.

Vou te fazer uma proposta, mas tens que falar com ele antes.  Eu não tenho herdeiros, esse menino se segue assim será um grande costureiro.   Queria adotá-lo.

Estava fazendo pela primeira vez uma coleção, a pedido da Vogue para uma Festa por todo o alto em Paris, depois iria para NYC, aonde a festa se repetiria.

Quando estava retocando o último vestido, desmaiou, Ivo tomou rédeas da situação, chamando uma ambulância, bem como avisando ao Hugh que estava dando aulas.

Tinha tido um princípio de enfarte, por stress.  Depois dizia a Ivete, vês por que nunca quis fazer uma coleção, menos mal que estava tudo pronto.    Hugh dormiu todos os dias no hospital, Ivo vinha vê-lo pela tarde depois das aulas com o Hugh, pareciam pai e filho juntos.

Pediu ao Hugh se o deixava falar sozinho com o Abed, minha mãe me contou que querias me adotar, eu ia dizer que sim, quando tiveste esse princípio de enfarte, fiquei louco, ia perder meu segundo pai.   Não sei quem é o primeiro, mas não quero te perder, se me queres como filho eu aceito, mas não porque podes me deixar uma herança ou mesmo teu negócio, porque aprendi a querer o senhor.

Quando ficou bom, a primeira coisa que fez com o Ivo foi ir a mesquita, o ensinou como seu pai tinha ensinado todo o processo de preparação para entrar, a reza que ele fazia.  Ele estava compenetrado.   Minha mãe nunca vai a nenhuma igreja, não creio que se aborreça que vá contigo.

Ivete ria, imagina agora terei um filho mulçumano.   Quando foi com o Hugh a Texas numa reunião de família, ele insistiu em levar o Ivo, bem como a Ivete, como todo ateliê estava de férias foram.  Ela comentou com ele, esses dois conversando, parecem pai e filho, verdade.

Sim Hugh o adora.  Me pediu para me casar com ele, aproveitando toda a família junta.

A anfitrioa da festa era sua irmã, os recebeu de braços abertos na mansão da família que ela vivia.   No salão, embaixo do quadro estava exposto o vestido que tinha usado.

Não parava de chegar gente no dia da festa, Hugh tinha saído a cavalo de manhã com Ivo, voltaram rindo muito.   Esses dois estão tramando algo, disse para Ivete.

Ele estava vestido como tinha dito para se vestir, com uma roupa normal, quando Hugh tomou a palavra, estou a muitos anos fora do país, quando fui, imaginei uma vida de aventura, mas nada mais longe da verdade, logo me aborreci, estava prestes a pendurar a chuteira, deixar tudo para trás voltar com o rabo entre as pernas, quando encontrei a pessoa que quero viver a vida inteira, encontrei na verdade uma família, um filho adotivo dele, que adoro, é como meu filho, por isso por querer ser dessa família, queria pedir a mão do senhor Abed Faisal, em matrimonio, aproveitar que meu irmão que juiz oficialize essa união.    Ivo foi até ele, arrastou realmente pois estava com vergonha.   Não tinha imaginado nada assim.

Ele tinha assinado um papel que Hugh tinha pedido, mas estava distraído, não viu que era o de casamento.   Quem falou ao final da cerimônia foi o Ivo, quem não tinha nenhum pai, agora tenho dois, além de minha mãe maravilhosa.

A festa foi sensacional, todo mundo da família vinha falar com eles, Ivete ria, dizendo que fazia anos que não se divertia assim.    Um dos irmãos do Hugh, não a deixava em paz, ele dizia aproveita é o mais rico de todos, viúvo ainda por cima.

Quando voltaram, passaram por NYC, aonde ia acontecer a festa para qual tinha feito as roupas, mas se livrou de enxurrada de entrevista, dizendo que tinha que mostrar os museus da cidade ao seu filho, junto com sua família.  Numa das fotos da revista, apareciam os quatro, numa foto da festa.

Agora Ivete vivia na casa que tinha sido do Hugh, os dois tinha se casado novamente na França por causa dos papeis, formalmente eram os pais adotivos do Ivo.  Na cerimônia, só estava o pessoal do ateliê, deu uma pequena festa em casa para comemorar.

Ivo agora, era um aprendiz, mas sem largar os estudos, volta e meia, apresentava uma ideia, a confeccionavam para colocar na vitrine, claro era vendida em seguida.

Ele reservava o lucro, para ele ir a Universidade.   Fez belas artes, ali perto, mas dizia que aprendia mais com ele.  Agora ficava ao lado dele, para aprender a conhecer as clientes.

Tinha a cabeça cheia de cabelos brancos o que lhe dava um charme especial. Nunca podia imaginar amar uma pessoa como ele amava o Hugh, o relacionamento deles seguia igual, o vulcão sempre estava ativo.

Ivo estava se transformando num belo homem, como sempre conversava sobre tudo com Hugh, ele ficava prestando atenção na conversa deles, inclusive ia com eles á mesquita, com todo o respeito, fazia o mesmo que eles.  Mas para ele nada era mais importante que sentar-se depois de rezar, ficar pensando na vida, lembrando do passado.

Mandou a sua irmã uma foto de família, mas nunca recebeu resposta.   Nunca chegou a usar todo o dinheiro que sua mãe deixou para ele, era a herança do Ivo.  Tinha certeza de que iria adorar seu neto.

Sempre rezava pelos seus pais, o que não esperava era que Ivo cada vez fosse mais religioso, o acompanhava sempre.

Discutiam depois os três fundamentos das religiões.

Cada vez mais foi ocupando o lugar do pai no ateliê, algumas costureiras hoje eram filhas ou netas das anteriores, ele não tinha prejuízo nenhum em sentar-se com as bordadeiras, para fazer junto o que queria.

Seus primeiros trabalhos, ganharam um prêmio, quem entregou foi o Abed, eles agora tinham uma casa no campo, aonde ficavam mais tempo.   Ivete, acabou se casado com o irmão rico do Hugh, volta e meia vinha para o filho lhe fazer um vestido para alguma festa.

Esperavam o dia que Ivo chegasse dizendo que estava apaixonado.   Mas este dizia que não tinha conhecido ninguém ainda como os que tinha como exemplo.

BRIAN NOTE

                                               Esta história é de um dos personagens da anterior New Chance, foi escrita meses depois, quando revisava a anterior.

Estava encostado na parede esperando a polícia que ele mesmo tinha chamado, para levar o homem que tinha tentado lhe matar, tinha que manter os olhos abertos, espero não morrer até a mesma chegar.   Fazia um esforço tremendo.

O homem tinha surgido do nada, era um antigo armazém de ocupas, ali viviam muitos homeless, homens que tinham servido ao exército de seu pais, para a glória do mesmo, como ele dizia, mas que em seguida virava as costas para os mesmos.

Ah, se ele soubesse disso, mas agora era tarde para chorar o leite derramado, talvez tarde para recuperar sua própria vida, depois de tudo que tinha feito para sobreviver.

Levava sóbrio a quase um ano, analisando toda sua vida, ia regularmente ao hospital de veteranos para conversar com um psicólogo, porque normalmente o psiquiatra o que faria seria lhe receitar um medicamento que o retornaria ao vício, isso ele não queria.  Quando lhe doía a perna, o que fazia era deslocar seus pensamentos para outra coisa.   Tampouco já se atirava a loucuras sexuais, para afundar mais ainda no charco da miséria.

Tinha caído tão fundo, mas tão, fundo, que quando olhava no espelho, mal se reconhecia, para quem estava beirando aos 50 anos, ele aparentavam 10 mais.   Os seus cabelos, já sequer tinham brilho.

Quando a polícia chegou, disse que o homem tinha surgido do nada com um revolver na mão, nem sei se esta carregado, na outra tinha, apontou mais ao longe uma navalha.  Me atacou, o filho da puta sabia que eu usava prótese, pois a primeira coisa que fez, foi dar um golpe na minha perna, com esse tubo, nem sei aonde está minha prótese, essa é a terceira neste ano, agora só querem me dar as mais baratas.

Já sabemos quem é esse sujeito, ele agride as vezes consegue ferir, a todos os homens que aparecem ou apareceram em filmes pornográficos.

Então deve ser isso, eu apareci em uns quantos por dinheiro.    A pensão de ex-combatente nunca é boa.

O levaram até uma ambulância, não se via por ali, nenhum dos ocupas, pois se estivessem seriam desalojados, então o melhor era fugir.

O levaram para o hospital, mas claro antes pediu que localizassem sua prótese.  Com ela posta, viu que as enfermeiras o olhavam com nojo, sabia que precisava de um banho.

Pediu se podia fazê-lo, um médico o olhou de cima a baixo, mandou que sentasse numa cadeira de rodas, deu uma ordem, a um enfermeiro que estava por ali.  Levou pelo menos meia hora embaixo do chuveiro, se lavou todo, a cabeça perdeu as contas, precisava era raspar a mesma, viu o mesmo enfermeiro, perguntou se tinha uma máquina de cortar cabelo, esse disse que sim, a trouxe, raspou para ele seus cabelos, teve noção que estavam imensos, aproveitou, passou pelo sovaco, pelo sexo, no resto do corpo não tinha pelo. Tornou a tomar um banho. Agora se sentia limpo.  Sentou-se na cadeira de roda, o enfermeiro o levou de novo para urgências, de lá o mandaram para um exame geral como sempre.

O médico apareceu, soltou, é um prazer em vê-lo apesar das circunstâncias Brian.

Me conheces?

Sim servimos juntos, tu eras polícia militar em Kandahar, eu médico que estava aprendendo a profissão, por isso trabalho em urgências, sou melhor aqui.

Depois de todo os exames, soltou, fui eu que fiz tua amputação, tua perna tinha evaporado, do joelho só estava um troço de osso destroçado.

Pensei que não ias subsistir, te mandamos para a Alemanha imediatamente, pelo ataque tínhamos tantos mortos feridos, que nem te vi partir.

Depois algumas vezes soube de ti.

Ele ficou olhando o médico, começou a rir, agora me lembro de ti, atrás do barracão de alimentos fizemos sexo uma vez.   O outro começou a rir, é verdade, o sem vergonha do Mattei, mandou que eu tirasse o pau do cu dele para por o teu que era maior.   Olhei para o teu, realmente era maior, depois encontrou um jeito de estarmos os dois dentro dele.  Era muito louco aquele rapaz.

O mataram, fomos juntos para a o Hospital na Alemanha, ele foi embora antes, mas eu fiquei, te ocupaste da perna, mas quando cheguei lá uma parte de metal, tinha entrado nos rins, tiveram que retirar um, além de cortarem meus ovos fora, fiquei impotente para sempre.

Que merda, sinto muito, mas agora se quiseres posso te encaminhar para um médico que serviu também, ele me operou, pois tiver um problema também, esqueci que estava ferido, passei a atender todo mundo, quando ao final quase morri.

Anos depois ele me ajudou com um enxerto, consigo ficar excitado outra vez.   Começou a rir, tu dizes fizemos sexo uma vez, mas não é verdade, um dia estava de baixo astral, tu estava percorrendo o acampamento, me viste sentado atrás do hospital, vieste falar comigo, ficamos conversando, te deixei me penetrar, foi fantástico.   Eu pensava, sou feio, baixinho, meio gordo, como esse homem tão bonito pode querer fazer sexo comigo.

Era a única maneira que me aliviava do stress, dos ruídos da guerra, das merdas todas que via, não me importava, precisava descarregar.  Se te conto que fiz depois, coisas que não tenho orgulho, mas tampouco vou ficar chorando por isso.

Viu os resultados todos, estas bem, tens é que cuidar da alimentação.    Vai te parecer uma proposta com duplo sentido, mas se quiseres podes ficar na minha casa.  Meus pais a deixaram para mim, as vezes alugo para alguém que está fazendo práticas aqui, mas não misturo as estações, aprendi que não estamos no campo de batalha.   Se espera, vou trocar de roupa te dou alta, te levo.

No caminho, soltou, teu carro está com um ruído estranho, amanhã dou uma olhada para ti, naquele dia fui atingido, pois passava minhas horas vagas na oficina da unidade de motorizados, adoro fuçar os carros, coisa que fiz desde criança.  Tentei ser dessa unidade, mas como era alto, forte, me colocaram de polícia militar.

Era uma casa dessas antigas, desceu do carro com dificuldade, terei que arrumar outra prótese, essa está mal.

Amanhã, tiro a referência, consigo uma mais moderna para ti.

Por que estas fazendo tudo isso comigo?

Queres a verdade, ou uma mentira, daquelas, tipo, temos que estar unidos pelo país.

A verdade, tenho asco dessas história todas que nos faziam engolir.

Bom, naquele dia que te conheci, me apaixonei por ti, por isso depois ficava como um louco atrás de ti, mas estava sempre com o Mattei, ainda pensei em te contar que o vi muitas vezes fazendo sexo, com dois ou três.   Mas pensei, não posso me meter nessa história.

Sim é verdade, mas eu sabia disso, até entendia, ele estava como uma bala perdida, sem saber aonde chegar.   Me contou o porquê disso.   Sempre tinha sido bonito, vivia em Venice Beach, abusaram dele, desde que era garoto, não tinha coragem de contar ao seu pai, pois esse era muito severo.   O conheci a anos atrás, um homem simpático, sofrendo porque o filho tinha sido assassinado.  Tentou de tudo com ele, para livrá-lo das drogas, não conseguiu.

Mas como te dizia, ele acabou se acostumando, gostando disso, quando começou a fazer surf na praia, ao mesmo tempo exercícios nas barras, era capaz de passar horas num ginásio fazendo exercícios, para o corpo ficar como era, ao mesmo tempo fazia sexo três a quatro vezes por dia, estava sempre pronto, desde que o sujeito fosse bruto com ele.

Por isso se metia com o pessoal da pesada, adorava se meter numa briga, dava porrada em todo mundo, os que sobravam, levava para trás de algum armazém para fazerem sexo no meio das porradas.    Uma vez dois soldados da polícia militar, lhe desceram o cacete, depois quando o fui ver na cela, pediu para chupar meu pau, com a boca ainda saindo sangue.  Eu acabava me excitando com isso, pois estávamos como se o mundo estivesse acabando.

Ficaram no salão conversando.    Giorgio contou, que tudo o tinha afetado também, não consigo ter um relacionamento, pois se não estou cansado depois do trabalho, tento ficar acordado, pois sei que terei pesadelos, que não consigo salvar algum companheiro, muito sangue sempre, acordo aos urros,  por isso tive que mandar insonorizar meu quarto.   Quando voltei foi um inferno, pois ainda fui trabalhar num hospital militar, ver toda essa gente com problemas, piorou muito.  Comecei a tomar drogas, para que nos momentos que estava sozinho a cabeça não explodisse.  Um dia disse basta, fui para a outra ponta do pais, me internei voluntariamente, numa clínica, fiquei lá pelo menos dois anos.  O melhor é que trabalhava também, mas fui fazendo terapia, foi lá que fui operado também como te falei.

Creio que ao poder voltar a poder fazer sexo, melhorou minha vida um pouco, mas necessito desse stress da urgência para seguir vivendo, me chamam para trabalhar em outros setores, mas não quero.  Tampouco suporto ficar muitos dias livres, se vou de viagem tenho que me ocupar muito, andar tudo que posso para ter depois sono.

Preparou comida para eles, sentaram-se para comer, em forma de agradecer, colocou sua mão sobre a dele, viu que ficava nervoso. Não me provoque, faz muito tempo que não faço sexo, isso seria uma maldade de sua parte.

Mas foram dormir juntos, deixou que ele o penetrasse, se sentiu bem nisso, normalmente precisava de vários lhe penetrando, por isso agora entendia o Mattei. Dormiram agarrados, mas despertou quando viu que ele estava tendo um pesadelo, o acalmou.

Era uma boa pessoa, se levantou, tinha visto na garagem ferramentas, quando Giorgio se levantou, o encontrou lá arrumando o carro.

Pensei que tinha ido embora?

Prometi arrumar teu carro, tinha algumas peças sem lubrificar, bem como dois parafusos soltos. Nunca olhas teu carro?

Era do meu pai.  Eu me lembro que tinhas paixão por motocicletas, não era assim, porque me contaste a respeito.

Como te sentiste de noite? 

Como não tenho como ejacular, necessito de muito sexo, agora estou tentando controlar isso, mas gostei, me relaxou.

Espera, vou falar com o médico que te disse, para saber aonde esta no momento, ele está sempre em movimento.

O escutou falando muitos palavrões, rindo ao mesmo tempo, depois falando tranquilo com a pessoa do outro lado, explicando o caso, ele tinha examinado seus exames, sabia do que se tratava. Ok, anotou alguma coisa, mando ele te procurar.

Tome o endereço, ele estará esse mês num hospital em Washington, depois irá para a Europa.

Tens dinheiro para ir até lá?

Sim tenho um pouco.

Passamos num banco, eu tiro dinheiro para que possas pegar um voo.

Não, irei na minha moto, eu a tenho sempre num guarda moveis, quando estou em alguma cidade.  Não se preocupe.

O deixou na frente do guarda moveis que ele disse, apesar da quantidade de gente passando, ficaram se beijando no carro.   Uma pena que não queiras ficar, eu poderia me apaixonar outra vez por ti.   Pelo menos me entenderia.

Ele sabia que se ficasse, tudo acabaria mal, melhor era sempre seguir seu caminho.

Foi até o armazém que usava, trocou de roupa, colocou roupas negras, botas, tirou uma jaqueta de couro de uma caixa, ali estava tudo que tinha, inclusive escondida uma caixa com dinheiro, nem sempre tinha ganhado esse dinheiro honestamente, mas isso não importava.

Amarou uma bandana na cabeça para proteger sua cabeça raspada do capacete.   Parou num posto de gasolina para encher o tanque, saiu em rumo a Capital.   Odiava a cidade, mas se esse homem podia ajudar, ele gostaria de ver seu pau empinado outra vez.   Talvez se sentisse melhor.

Chegou de noite, pois tinha parado várias vezes, para descansar.   Levava os exames que o Giorgio tinha lhe dado num envelope.

Ficou num motel na entrada da cidade, falou por celular com o médico, se via que era judeu, pelo sobrenome, André Coen.  

Este perguntou em que hotel ele estava, gostaria de conversar com ele essa mesma noite, eu durmo pouco.  Lhe deu a direção.   Como entendia que era judeu, imaginou uma pessoa baixa, peluda, nada mais longe da verdade, tinha sua altura, era magro, pelo sim tinha, um belo bigode, uma cabeleira imensa, parecia um leão enfurecido, quando falava, gesticulava muito, a cabeça parecia estar em eterno movimento.

Viu todas os exames, leu atentamente, lhe disse, sei que não é um hospital, tire a roupa, deite-se perto do abajur.  Examinou sua ferida, lhe perguntando se doía em algum lugar.  Tenho que examinar se tens próstata, colocou uma luvas, tinha os dedos largos de uma mão ossuda, perguntou o que ia sentindo.  Vejo pela tua dilatação, que passaste a usar o anus, para teres prazer, mas está muito dilatado, se te opero, posso reduzir isso também, rindo soltou, desde que me deixe estrear, caiu numa gargalhada que ele acompanhou.

Ele também ficou rindo imaginando a cena.

Caralho é a primeira vez que alguém, entende meu humor.

Me sacaneiam muito pelo tipo de especialização que tenho, mas já consertei tanta gente, quando comentam algo, digo, arrumei o piru do teu pai, mas aproveitei comi o cu dele em pagamento, ficam furiosos comigo.  Na mesa do quarto tinha comida, o convidou para comer com ele.

Pelo que examinei, pode ser que consiga, mas amanhã de manhã, tens que vir comigo a clínica, vamos fazer o seguinte, eu tenho que operar dois senadores, colocarei toda tua despesa nas contas deles.  Não te vai custar nada, como meus honorários são altos, nem vão perceber.

Deixou a moto na garagem do hotel, as chaves como André, este perguntou se podia usá-la, pois adorava andar de moto.   Nessa noite tinha dormido na mesma cama que ele, viu que ele também tinha pesadelos, se encostou nele quando começou a resmungar.  Ele se virou o abraçou, tinham dormido a noite inteira assim.  O contato era super agradável.

Na clínica, falou com a chefe das enfermeiras, que ao parecer lhe conhecia, está mandou fazer uma bateria de provas com ele, desde exame de sangue, tudo o necessário para uma operação, como era particular, tudo ia rápido.   As seis horas da tarde o André apareceu, fiquei com vontade de cortar o escroto do senador, o sujeito filho da puta.

Vamos agora começar a primeira operação, não te preocupes, tudo correra bem, como estavam sozinhos, veio até ele, não te agradeci, o fato de ter-me acalmado esta noite, as vezes os vizinhos de quarto reclamam dos meus gritos.   Lhe deu um beijo demorado na boca.

Em seguida, quando ia falar alguma coisa, entraram dois enfermeiros, o levaram.  Ia dizer a ele, que gostava de seus beijos.

Depois mergulho na escuridão total.

Era a primeira vez que sonhava com sua juventude, no Texas, eram uma família imensas, tinha pelo menos mais quatro irmãos, seu pai dizia, pelo menos nessa família não temos mulheres, pois sua irmã, só tinha filha mulheres.

Viviam na fazenda, mas ele os obrigava a ir à escola, tinha que descer um caminho, até a estrada para pegar o ônibus.    Seu irmão mais velho era brilhante na escola, ele na verdade só gostava de aulas de história, geografia.   Imaginava-se indo pelo mundo.  No domingo, seu pai dizia era um dia santo, não trabalhavam, os trazia a cidade para comer em algum italiano, depois se estava passando algum filme de faroeste iam ao cinema, o velho adorava isso.  Ele também.   Uma vez se escapou com um amigo, pelas montanhas, nas férias, montados a cavalo, acamparam, de noite faziam experiencias sexuais.   Foi aí que descobriu que gostava de homens.  Era seu melhor amigo.  Os dois tinham as mesmas paixões, mecânica, o pai deste tinha a melhor oficina da cidade.  A única diferença era que ele queria ir pelo mundo, o Bob não, ele sonhava em herdar a oficina do pai, seguir trabalhando.   Mas adoravam fazer sexo um com o outro, lhe dizia ao ouvido o homem mais bonito da cidade gosta de mim.   Não tinham barreiras um com o outro, faziam de tudo.

Um dia no meio de um filme, apareceu um vídeo chamando para o exército, venha conhecer o mundo.  Ele tinha acabado de fazer 18 anos.  Tinha dois metros de altura, loiro, olhos azuis, forte pelo trabalho no campo ou na oficina.  Se alistou sem seu pai saber, seus dois irmãos mais velhos estava na universidade, seu pai insistia que fosse também, mas não tinha objetivos.

Foi para um forte perto de Dallas, ali começou seu treinamento, um pouco chateado porque seu pai ficou furioso com ele, ainda lhe soltou, prefiro que fiques, que continue fazendo sexo com esse teu amigo, que vaias para o exército.

Mas era tarde, no dia marcado compareceu, embarcou com outros rapazes da cidade no ônibus militar.   Se destacou logo, estava acostumado a exercícios pesados, lutar com os irmãos, tudo lhe parecia fácil, pediu para ir para a unidade motorizada, disse que tinha experiencia em oficina, mas pelo seu porte o mandaram treinar com a Policia Militar, sob o mando de um sargento, mais baixo que ele, forte como um touro, com ele aprendeu tudo.

Estavam para ir para sua primeira saída do pais.  Fazia um calor infernal no acampamento, resolveu tomar um banho, quando estava ali embaixo d’água, apareceu o sargento, levava uma toalha na cintura.  

Perguntou o que estava fazendo ali?

Disse que tinha muito calor, que não conseguia dormir, o homem tirou a toalha, tinha um corpo perfeito, se aproximou dele, o provocando, fizeram sexo ali, disse ao seu ouvido, já me masturbei muitas vezes pensando em ti.    Era pelo menos uns 10 anos mais velho do que ele.

O escolheu para chefiar o grupo.   Na véspera tinham dia e noite livre na cidade, passaram esse tempo todo num motel, fazendo sexo.   Este contou que era casado, que tinha filhos, mas que estava louco por ele.  

Quando embarcou, ele lhe entregou uma lista de soldados conflitivos de outras unidades, fique de olho neles, na lista constava o Mattei.    Ficou impressionado com sua beleza, mas viu que suas brincadeiras com os companheiros, estava carregada de brutalidade, coisa que não gostava.

Quando o surpreendeu com o Giorgio, ele estava de quatro, como o outro por detrás, pedia baixinho gemendo, mais por favor.  Quando o viu, o chamou, estava excitado, abriu suas calças colocando seu piru na boca, lá pelas tantas, disse ao Giorgio, tire o teu piru do meu cu, quero este que é maior.   Depois mais tarde sem parar nem um minuto, juntou os dois sentando em cima dos mesmo.   Estava alucinado.  Pensou esse garoto está drogado.  Depois lhe pediu se podia dormir numa cela, senão sairia em busca de mais.

Nos dias seguinte tentou conversar com ele, mas quando estava sóbrio, queria estar com ele, mas qualquer descuido, com alguma droga que conseguia não sabia a aonde, a coisa ficava feia, pior ninguém se atrevia a fazer gozação com ele, porque descia porrada.

Mas se apaixonou, o tentava manter o mais tempo possível perto dele, quando estava perturbado, pedia para dormir numa cela, assim se comportaria.  Quando foram feridos, na Alemanha, acabaram mandado para casa, pois simplesmente não se comportava, um dia o pegaram na farmácia do hospital, roubando drogas.

Nunca mais o viu.

Ele ao voltar para casa foi outra merda, claro vinha perneta como dizia um sobrinho, seu pai lhe fez serias acusações, tipo eu te avisei, se sentia vigiado 24 horas do dia, de noite urrava de dor, ou nos pesadelos, o colocaram para dormir no celeiro.

Descobriu que seu amigo levava a oficina mecânica do pai, quando o viu, o abraçou, mas não o beijou.  Logo lhe apresentou sua mulher, seus dois filhos.  Começou a trabalhar para ele, dormia no fundo da oficina, até que uma vizinha reclamou dos gritos.

Um dia o amigo apareceu, ele estava dormindo, no meio de um pesadelo, começou a gritar, o outro lhe abraçou, acabaram fazendo sexo.   Por duas vezes foi assim.  Mas chegou um dia, lhe disse que tinha que ir embora, gostava da sua mulher e dos filhos, com ele ali, não conseguiria, comprou uma moto foi embora.   Em San Francisco se meteu em mil confusões, mas precisando de dinheiro, começou a fazer vídeos de sado masoquismo, drogas.  Até que foi preso.

Guardou a moto num armazém, foi fazer reabilitação, a primeira de muitas, mas sempre voltava a recair.   Basicamente de moto rodou o pais.

Foi a Venice Beach, já sabia pelos conhecidos que Mattei estava morto, mas queria deixar o que estava com ele, com a família.   Lá conheceu o rapaz que trabalhava com seu pai, ficou alucinado por ele, mas no sexo, viu que seria impossível se controlar ali.  No dia seguinte foi embora, tentou de novo se controlar, mas sempre resvalava na tentação de dinheiro fácil, como não sentia já nada sequer nas penetrações, as coisas foram ficando mais duras.

Despertou num quarto branco, com o André olhando sua cara, tomando a pressão.   Estava falando enquanto dormia, quem é Mattei.

Uma larga história, talvez o homem que me fez cair nesse buraco, mas o amava.

Bom agora ficaras em observação uns quantos dias, depois volto a te operar, vais urinar sangue, mas não te preocupe.  Eu esta noite dormirei aqui contigo, assim tento controlar teus pesadelos.

Ficaram foi conversando a noite inteira, quando chegou de manhã estava morto de sono, queria tomar banho, não que o lavassem.   Dois enfermeiros, o colocaram de pé embaixo do chuveiro, ia passar a mão neles, mas se controlou, queria respeitar o André, o fato de o estar ajudando.

De tarde apareceu outro médico, o examinou junto com o André, lhe perguntou se aguentaria outra operação, ia operar seu reto, bem como o anus. Teria que ficar de lado na cama.

Escutou o médico falando, não sabe quantos casos já vi assim, as pessoas voltam da guerra destruídas, não tem medidas para encontrar uma escapatória no prazer.

Despertou de madrugada com o André dormindo segurando sua mão, ficou rindo, ele era até bonito assim dormindo, pela primeira vez em muitos anos fez um gesto de carinho em alguém, só escutou sua voz rouca dizer, continue.

Agora era aguentar um sem fim de exames, curativos, uma rotina que tomava todo o dia, comer só coisas liquidas.   Até que se sentiu melhor.  Uma enfermeira sempre vinha lhe perguntar se queria morfina.  Desde o primeiro dia lhe disse, se tomo uma gota, caio de novo no vicio de drogas, tenho que aguentar.

Todas as noites André vinha dormir ali, tinha mandado colocar uma cama perto da sua, segurava sua mão, quando ele começava a se agitar, a apertava.

Finalmente 10 dias depois, agora vamos para o final, o abriu outra vez, colocando um enxerto, quando ficares excitado, que vai depender de tua cabeça, o membro ficara duro, poderás ter relação sexual, embora não tenha esperma, pode ser que teu corpo volte a fabricar como um liquido no lugar disso.

A recuperação foi mais dolorosa que as outras, esteve tentado a tomar morfina, mas aguentou.

André o levou para o hotel, dormiram juntos outra vez, este o começou a provocar, mas nada, o deixou dormir, de madrugada o excitou, ele ficou como louco, sentia seu sexo outra vez duro, queria gritar.    André, começou a lhe masturbar, perguntando o que sentia.  Não podes ainda penetrar ninguém, pois pode abrir os pontos internos.     Fazia muito anos que não tinha prazer, se agarrou a ele para dormir.

Lhe avisou que iria para a Alemanha, trabalhar um tempo no hospital militar, se ele queria ir junto?

Vou fazer o que lá?   Ficarei chateado, logo me meterei em confusão.

Nas suas viagens, tinha ido até o Oregon, resolveu voltar, atravessando todo o pais, quando fez o último exame, lhe deram ok.   O médico que substituía o André, quando soube que ia de moto, lhe disse, que o melhor seria que fosse devagar.  Isso não era com ele, entregou a moto numa transportadora, foi de avião, assim quando esta chegasse ele já teria encontrado uma casa, um emprego.

O conseguiu fácil, agora, usava sempre a cabeça raspada, pois tinha os cabelos brancos, a bandana tinha virado um elemento de seu corpo.  A moto chegou, ia ao trabalho com ela, as vezes ia a praia, embora a agua fosse fria.   Ia todos os dias a uma piscina climatizada nadar, foi recuperando sua figura.   Mas não se interessava por ninguém, fazia exames periódicos com um médico que lhe tinham recomendado.

André as vezes o chamava, para saber como estava, me acostumei tanto contigo, que as vezes sonho que estou conversando.   Já fizeste sexo com alguém.

Não André, prometi ao meu médico que ele seria o primeiro.   Ele se matava de rir, agora ia para a França, fazer um curso num hospital.   Não posso parar dizia, me deprimo.

Ele ao contrário, estava levando uma vida normal.  Tinha menos pesadelos, estava sempre ocupado, quando caia na cama dormia como um bebê.

Ia agora, as secções de terapia de grupo de excombatente, escutavas seus casos, bem como ele os seus.    Fez camaradagem com alguns, outros se insinuaram para ele, mas ficou quieto.

Um dia apareceu um homem forte na oficina, para arrumar sua moto, já tinham feito sexo em San Francisco.   O homem o convidou para jantar.   Conversaram, este comentou o que tinha feito, ganhei dinheiro fazendo sacanagens, agora tenho umas terras aonde crio cavalos, desenhou como se ia até lá, se um dia queres vá até la.

O provocou, mas só de se lembrar das loucuras que tinha feito com esse, nessa noite teve pesadelos.    Sabia que não podia ceder à tentação.

Uma ano depois, até ria, levava uma vida de casto, dizia brincando ao André que pensava entrar para um mosteiro, se masturbava quando sentia desejo, algumas vezes pensando nele.

André disse que estaria em San Francisco, por uns três meses, ficarei trabalhando num hospital da marinha, venha ver-me, gostaria de estar contigo.

Pediu demissão do emprego, o dono tinha justo um irmão com outra oficina de motos em San Francisco.   Alugou um apartamento pequeno, quando André chegou, o apertou, vejo que estas ótimo, perdeste aquele jeito de derrotado, pela tua cara, vejo que tens paz.

Lhe contou como tinha feito esse tempo, do sujeito que tinha aparecido, consegui me conter para não cair na mesma esparrela.

Nessa noite, os dois fizeram sexo, com ele era diferente, tinham o mesmo tamanho, se encaixava a perfeição, André pediu que o penetrasse, queria saber como ele se sentia, ficou como louco, uau, mostrou depois, a ele como que um liquido saído do pênis, como se fosse um esperma.   Isso é teu corpo reagindo.  Nesse tempo trabalharia menos, quando chegava em casa os dois jantavam, conversavam como tinha ido o dia.   Era o que tinha sonhado com seu amigo de infância.   Ter um relacionamento a sério.   Tinha poucos pesadelos, tanto um como o outro.

Chegou à prova dos nove, André disse que tinha possibilidade de ficar ali trabalhando, estou cansado de estar de um lado para o outro.   Gostaria de estar contigo para sempre, aprendi a te amar.

Num primeiro momento, seu instinto dizia que devia ir embora dali imediatamente.  Mas passou dois dias tristes, mas claro dessa vez, comentando tudo que pensava, os seus medos, a cidade cheia de tentações,

Acabaram indo para uma cidade pequena, André podia seguir operando.  Vivia pela primeira vez um relacionamento, as vezes olhava pais com filhos, sentia vontade disso ser pai.  Mas depois pensava no seu passado, era como empurrar a ideia para o fundo da sua cabeça afinal não tinha mais idade para isso.

Um dia na oficina, um rapaz que vivia ao lado, se aproximou, lhe mostrando um celular, aonde ele era penetrado por vários homens.  Lhe disse na cara que queria fazer isso com ele, que tinham um membro que não se cansava.   Olhou para o rapaz, lhe deu dez minutos para sair dali, antes que quebrasse sua cara.   Bom posso mostrar isso para todo mundo.   Justo nesse momento, um cliente que era da polícia, estacionou o carro, segurou o rapaz, chamou o outro, lhe disse o que acontecia, estava sendo ameaçado.  Este levou o outro para a delegacia.

O policial, voltou, soltou que o entendia, mas que ele sempre fizesse isso, os erros do passado servem para que os acossem.   Não se deixe vencer.   Contou que tinha um filho, que por ter matado um traficante, falaram para seu filho que ele era um assassino.  Mas eu lhe expliquei que cuidar e proteger as pessoas era minha profissão.

Vinha sempre falar com ele, apresentou seu filho, o garoto queria andar de moto, deu uma volta com ele. Correu para o pai rindo, me sinto como se tivesse voado.

André tinha ciúmes, dizia esse homem vai te roubar de mim.   Queria voltar para San Francisco ou NYC, pois sentia que a cidade era pequena para ele, a relação dos dois também estava em campo morto.  Já não era a mesma coisa.   Acabou indo embora, ele resolveu ficar, o dono da oficina, lhe ofereceu sociedade.

Um dia jantando com o policial, esse disse que não tinha precisado ver o vídeo do garoto, o conhecia, o tinha reconhecido desde que chegara na cidade.   Fiquei te observando para saber que tipo de pessoa eras.  Meu filho te adora, um final de semana venha passar conosco, vivia fora da cidade numa pequena sítio.  Tinham inclusive cavalos.

Dormiu lá, de noite Henry, o policial, veio ficar com ele, tiveram um sexo sensacional, ele pensou agora que terminamos, ele se vai levantar ira para o outro quarto, nada disso, se agarrou a ele, esperei isso muito tempo.   Agora levavam anos assim, vivia ali no campo, aonde tinha reencontrado seu amor pela terra, tinha uma horta, um filho que adorava.   Saiam os dois a cavalo, quando Henry estava era melhor.

O garoto entendeu o que se passava, agora tenho dois pais.  Nunca se preocuparam com o que as pessoas podiam falar, levavam a vida deles, o resto para eles era resto.

Finalmente tinha paz de espírito, era raro ter pesadelo.   Nunca mais viu o André, mas agradecia o ter curado de seus problemas.

NEW CHANCE

                                              

Meu nome é Drew Bron, depois de 10 anos em prisão, descobriram que eu não tinha culpa de nada, estava no lugar errado, na hora errada.

Por minha sorte o investigador que tinha ocupado do meu caso, nunca desistiu, mas era época de eleições para prefeito, bem como para fiscal.  Queriam uma solução rápida para o crime que tinha comocionado a cidade.   Um assassinato brutal de uma jovem, a tinham esfaqueado até não poder mais, bem como lhe cortado os genitais, os lábios, as orelhas.  Isso nunca foi encontrado.

Resulta que eu estava dormindo justo perto, escondido entre ramos, drogado como um idiota, tinha sido minha primeira vez, levei dois dias para me dar conta que estava na prisão.

Minha historia é curta, fui abandonado num orfanato, por uma mãe, que dizia que não tinha como me criar, tinha antes feito uma denúncia de abuso, eu era fruto disso, portanto tampouco saberia nunca quem era meu pai.    Fui educado nesse lugar, dado em adoção, duas vezes, nas duas sofri abusos sexuais, quando voltei da primeira, estava completamente desnutrido, doente, passei meses na enfermaria do orfanato.   Da segunda vez, já não aguentei mais, fugi, mas antes fiz uma coisa que me condenou.  Queimei o caralho do sujeito que abusava de mim, estava dormindo, me levantei, peguei álcool na cozinha, bem como óleo, coloquei fogo.  Literalmente fritei os ovos do sujeito.

Mas me pegaram, como só tinha 14 anos, fui para o reformatório, muitos abusos, até conseguir aprender a me defender.  Cresci, fazendo exercícios, mas como dizia um companheiro, a merda é que eres bonito.  Era um mulato muito claro, com olhos verdes, cabelos de sarará, loiros, uma boca sensual, um corpo sem nenhum pelo.   Isso dizia ele atrai os homens brutos.  Inclusive diziam que delícia seu cuzinho de cabelos loiros.

Quanto mais musculoso ficava, mais pareciam atraídos por mim.

Quando escapei do reformatório, passei a fazer pequenos serviços, adorava a mecânica, tinha aprendido alguma coisa no reformatório.  Entendia de carros, gostava de dirigir, ajudei um grupo a roubar drogas, me deram um pouco em pagamento.  Quando acabou o dinheiro, não encontrei mais os sujeitos, o jeito foi consumir a droga toda, pensava que assim morria de vez.

Quando me encontraram, estava ali, quase ao lado de aonde tinha acontecido o crime, sujo, completamente drogado.  O Chefe de polícia, além do fiscal, acharam o bode expiatório perfeito.    Fui acusado, para cumprir uma pena de 15 anos.   Tinha acabado de fazer 18 anos, quando entrei na prisão.   O fiscal, bem como o prefeito, foram eleitos por causa disso, a rapidez como resolveram o caso.

Mas o detetive, não se conformou, dizia que se eu estava drogado dessa maneira, não poderia ter tido capacidade para executar com tanto requinte esse assassinato.  Aonde estava as coisas que faltava?   Ficou esperando que acontecesse outra vez, foi acompanhando tudo que acontecia no pais, procurando crimes idênticos.  Dizia que um dia alguém pegaria o fulano.

Ia sempre me visitar na prisão, me dizia não desisto, vou te tirar daqui.  Procurava provas, para pedir minha exoneração.

O primeiro momento foi de estupor, ao me dar conta que teria que ficar ali, sem chance nenhuma de escapar durante 15 anos.    Poderia dizer que nem tinha vivido ainda.  Minhas chances de passar dos 5 primeiros anos era quase nulas.

O primeiro mês, sofri pelo menos dois abusos, as duas vezes fui parar no hospital, depois passei a me defender, agora tinha força, acabava sempre na solitária.  Não adiantava argumentar, o chefe dos guardas, dizia na minha cara, quem manda ter uma bunda apetitosa.

Três anos depois, sofri o pior deles todos, porque foram muitos, sofri um desgarro anal, fiquei entre a vida e a morte.   Um dos ajudantes de enfermaria, era um mulato, forte, mulçumano, o vi rezando por mim, com muitos custo, lhe pedi, nunca tive fé, minha vida foi miserável, será que podias me ensinar a rezar.  Fiz um esforço imenso, para me recostar na cama, ele me ajudou, me ensinou a rezar a Alah.   Vinha todos os dias, rezar comigo, ler um troço do seu livro.  Um dia veio acompanhado do homem que coordenava todos os mulçumanos na prisão.   Me perguntou por que queria me converter.   Lhe disse que nunca tinha tido religião, que estava perdido, mas desde que o George Brown me ensinou a rezar, me sentia melhor.   Lhe disse, que tinha um problema, nem era branco, nem era negro.   Mas me recebeu no seu grupo.  Sabia que os outros não se atreviam a colocar a mão em cima deles.  Quando sai da enfermaria, me colocaram na cela do George Brown, com ele, aprendi tudo sobre ser mulçumano.  O que devia comer, como devia me comportar.   Eles também levavam uma parte da oficina de carros, disse que sabia alguma coisa.    Fui aprender mais, logo era um excelente mecânico.

Agora, estava protegido.   Contei toda minha história de abusos ao George, ele passava a mão na minha cabeça, me chamava de irmão, eu também sofri isso a vida inteira.   Confessou que tinha chegado a um ponto de sentir prazer com isso.

Um noite, o vi chorando, lhe perguntei que passava, me disse que era seu aniversário, que ninguém tinha se lembrado dele.  Eu dormia no catre de cima, desci, me sentei, comecei a cantar para ele, mudando a letra Sweet Georgia Brown, trocando por George, ele ficou passando a mão no meu rosto.  Obrigado amigo, obrigado.   Cantas bem, me agradeceu com um beijo, dormimos juntos essa noite.   De manhã me pediu desculpas por ter cedido a tentação, lhe disse que ninguém precisava saber do nosso.   A partir desse dia, passamos a formar um casal.  Eráramos amigos para o desse e viesse.   Trabalhávamos juntos consertando motos dos policiais, carros o que fizesse falta.  Agora me deixavam em paz.

Consegui levar os anos, que foram passando, estudava na biblioteca as revistas de carros e motos, melhorei minha leitura também, vimos juntos um filme que adorei, Easy Rider, vimos tantas vezes que sabíamos inclusive os diálogos, as músicas.  Ficávamos de noite conversando qual roteiro faríamos.  Se víamos um filme que falava de alguma lugar, logo o incluíamos.

Ele me ensinou a sentir prazer, bem como eu lhe dava prazer.  Posso dizer sem vergonha nenhuma que o amava.

Nos momentos de oração, orava pedindo que um dia pudesse sair de ali, refazer minha vida.

Fazia tempo que o detetive não aparecia, desta vez veio com um advogado.  Tinha capturado o sujeito, pois tinha feito crimes iguais em todo Estados Unidos, estavam revendo meu caso, incluindo que poderia pedir uma indenização para recomeçar minha vida.

O fiscal e o chefe de polícia fizeram de tudo para que o caso não fosse reaberto, mas desta vez o juiz era um inimigo dos dois, se deram mal.

Dias antes quando soube que poderia ir embora, chorei muito abraçado ao George, ele me dizia que nunca me esqueceria, a ele lhe faltavam cinco anos.  Se houver um milagre na próxima tentativa de condicional, pode ser que saia.

Me deu um endereço, é a oficina de meu irmão, o chamarei, dizendo que eres um bom mecânico, podes trabalhar lá.

Na noite antes de sair, nos amamos sem vergonha nenhuma, eu estava acostumado a fazer sexo com ele.  Sou honesto de dizer que nunca tinha sentido tanto prazer na minha vida.   Nos despedimos de manhã, com um beijo.  Mande notícias, sabes o quanto gosto de cartas.

Nesse dia chovia demais, ao mesmo tempo estava começando a nevar, não entendia isso, como se as duas coisas quisessem me dar boas-vindas ao mundo livre.

Lá fora estava o detetive, me perguntou se tinha aonde ficar.  Disse que nem saberia andar hoje pela cidade, tinha o endereço do irmão do George, me levou até lá.   Era um negro imenso, o dobro do George.

Me examinou de cima a baixo, vamos ver o que sabes de motor, me sinalizou um carro velho ali encostado.  Levantei o capo, comecei a fuçar, se me permite, posso arrumar.   Fiquei hospedado na casa do Inspetor, ia todo os dias cuidar do carro velho.  Um dia que foi me levar, lhe disse que seu carro tinha algum problema, mas me meti embaixo, vi que tinham cortado o cabo do freio.  Alguém está tentando matar o senhor.

Ele fez uma denúncia na delegacia, tiramos fotos, troquei o cabo, tempo depois lhe tentaram matar com um tiro.

Disse que tinha recebido uma chamada telefônica, que o melhor que fazia era mudar de cidade.

Ele me contou que tinha uma filha que era da CIA, vivia em Washington, vou viver com ela, qualquer coisa, também acho melhor saíres daqui.   Eu finalmente tinha recebido a indenização da condena errônea.  Era boa, podia começar a vida em qualquer lugar.

Escrevi para o George, lembra nossa lista de Easy Rider, vou para a última, te espero lá. Sinto tua falta meu amigo.

Seu irmão me deu uma carta de recomendação, bem como eu tinha uma carta me inculpando de tudo.

O Carro velho estava como novo.  Tinha sido para ver como me saia.  Eu tinha trabalhando com tanto amor ao carro, que o comprei, sai da cidade num dia de madrugada, já com ele abastecido, só parei ao meio dia do dia seguinte, para comer estudar o roteiro que ia fazer.  Vi que tinha um desses armazéns que tem de tudo.   Comprei um barraca do exército de segunda mão, bem como saco de dormir.  Queria quanto mais pudesse acampar, não queria ter muito contato com as pessoas.  Sempre estava desconfiado.

A ideia de colocar distância era o mais importante.  Dirigi o resto do dia inteiro, até me encontrar já dentro da rota 66, foi um paraíso, comprava mantimentos, se o tempo estava bom, parava em algum lugar deserto, para dormir, no dia seguinte, em algum posto de gasolina, aproveitava para tomar banho.  Meu dinheiro estava no banco, quando resolvesse aonde ficar, faria uma transferência.

Aonde tivesse telefone, falava com o George, mas todos os dias lhe escrevia uma carta, contando o que tinha visto.

Um dia que chamei o guarda disse que agora era tarde, na noite anterior tinha assassinado o George, se sabia que era uma coisa mandada.

Falei com seu irmão, ele confirmou, acredito que estava atrás dele pelo relacionamento que vocês tinham.   Mas lhe tinham negado a última condicional.   Pois seu crime não estava prescrito.

Fiquei chocado, fiquei parado nesse lugar, no meio do deserto uns dois dias, escondi bem o carro num beco da montanha, subi a mesma, fiquei ali lambendo minha feridas.

Tinha perdido a graça, ir para Santa Fé, aonde pensávamos que era a final do filme.

No último dia ali na montanha, estudei o mapa, nunca tinha visto o mar, podia tentar algum lugar que encontrasse trabalho.

 Tomei a direção de Los Angeles, me pareceu a mais segura, dali poderia ir procurando algum lugar, pensei, tenho que viver num lugar que tenha muita gente assim posso passar desapercebido.     Quando cheguei a Venice Beach, foi um amor à primeira vista, tinha visto em filmes, mas ali ao vivo era diferente.  Logo descobri, uma oficina mecânica para motos, o dono um senhor já de uma certa idade, disse que atualmente tinha poucos clientes, o pessoal não para, se quiseres experimentar.

Nem pensei duas vezes, consegui um pequeno apartamento, num beco, logo por detrás da oficina, que como era o último andar, me dava uma vista do mar.   Nas horas vagas aprendi a fazer surf com o pessoal da praia, quando me perguntava o que fazia, logo apareceram mais clientes na oficina.    O que diziam era que o velho tinha muito mal humor.

Quando lhe comentei isso, respondeu honestamente.    Foi um período difícil, meu filho foi para a guerra do Golfo, voltou outra pessoa, viveu nas drogas, pelas ruas, eu mantive a oficina pensando quando ele voltasse.  Tinha muito jeito para as motos.  Foi encontrado na rua literalmente beijando o meio fio.   Tinha um tiro na nuca.   Dizem que roubou drogas de quem não devia.

Logo apareceu um carro para arrumar, eu nunca me negava, fomos ficando conhecidos outra vez, deixei meus cabelos crescerem nem precisava fazer um rastafari, ele se enrolavam sozinhos.    Volta e meia aparecia um ex-combatente, procurando pelo filho do dono.  Quando lhes contava o sucedido.  Todos diziam o mesmo, voltamos com a vida trucada.

Fui ficando ali, o velho me tomou carinho, era como se tivesse me adotado, algumas vezes me apresentava como seu filho.   Ninguém lhe enchia o saco, porque ele era dono do local, pois o resto, nunca vi abrir e fechar tantos locais.   Quando chegava o verão se trabalhava muito, mas na época do inverno, que eu mais gostava, podia fazer surf tranquilamente pela manhã.

Me resguardei uns bons dois anos, sem me meter com ninguém, nada de sexo, queria me equilibrar bem.  Inclusive fui a um psicólogo, para me centrar bem em mim mesmo, dizia que nos primeiros dias eu parecia um enxurrada de problemas, pelos quais tinha passado, aos quais pensava que tinham influído em minha vida.   Eram mais para colocar para fora, do que reclamar.

Não ia ficar chorando o leite derramado, já tinha acontecido mesmo, pensava, concordava que apenas tinha que ter realmente noção do que me tinha acontecido.   Fazia exercícios com o pessoal nos equipamentos da praia.  Mantinha meu corpo forte.                  Algumas vezes recebi insinuações sobre meu corpo, mas fiz como se não escutasse.     A toda custa tinha que evitar dar margem a problemas. 

O velho Mattei, ria comigo, tu eres contrário ao meu filho, ele simplesmente não se envolvia em problemas, era o problema, estava sempre metido em brigas, pensei que indo para o exército ia se endireitar, mas nada.

Estava arrumando uma moto de última geração, quando viu uma pessoa parada ali ao meu lado, reparei que a mesma usava uma prótese.  Levantei a cabeça, ali estava o homem mais bonito que já tinha visto. Com uns cabelos largos, loiros, com um sorriso que me fez perder o folego.

Perguntou pelo senhor Mattei.

Espere, foi tomar um café com os amigos, lhe aviso.

Este voltou rápido, lhe perguntou o que queria, este tirou da sua moto, um pacote, são coisas de seu filho.  Servimos juntos, mas fomos internados em lugares diferentes, essas coisas dele ficaram misturadas com as minhas.

Vejo que cheguei tarde, já soube por amigos o que aconteceu, mas vinha pedir emprego, entendo que já tem empregado.

Eu me levantei, sempre há trabalho para duas pessoas, eu agora trabalho sozinho, mas acredito que o senhor Mattei entende que necessitas de trabalho.

Claro que posso te contratar, não posso é pagar muito, esse jovem me tirou do buraco, pois quando meu filho ficou mal, eu atendia os clientes com raiva, me irritavam as perguntas, mas ele recuperou não só os clientes de moto, como de carros.

Me chamo Brian Note, se precisarem de informação, eu servi na brigada de veículos, meu trabalho era justamente esse reparar carros blindados.

Tens aonde morar lhe perguntei?

Não, mas posso dormir numa tenda na praia.

Isso está proibido, posso lhe ceder um pequeno quarto da minha casa, é pequena, mas dá para se ajeitar.    Na verdade, eu não o queria perder de vista, estava embelezado por ele.

Ficou por ali, conversando com o senhor Mattei, sobre seu filho, como era impetuoso, nosso grupo o controlava, mas estava sempre se metendo em confusões.   Era como dizia o velho, não entendia por quê.

Terminei o que estava fazendo, o levei até minha casa, era um pulo, lhe disse que ia surfar um pouco, se queria vir.

Terei que ir de muletas, pois a prótese se afunda na areia.

Sem problemas, ele ficou só de sunga, fiquei louco, tive que controlar minha excitação. Ele percebeu.

Fomos caminhando para a praia, ele me contou que sua volta tinha sido traumática, além de perder a perna, essa teve que ser amputada duas vezes, mas a recuperação psicológica, foi dura. 

Não quis dizer ao senhor Mattei, mas tive um relacionamento com seu filho, não deu muito certo pois ele gostava era de sexo duro.   Por isso nos afastamos.   Ele se metia com todos os tipos duros do acampamento, não escondia que fazia sexo com eles, mas tampouco ninguém se atrevia a lhe chamar de marica, pela força que tinha.

Levei muito tempo para me refazer de tudo, pensava que quando estivesse aqui, ele tivesse se centrado, mas o pessoal me avisou que andava nas drogas, vivendo nas ruas.   Todos tentaram ajudar, mas dizem que foi impossível.   Ninguém conseguiu descobrir quem lhe deu o tiro, mas alguma deve ter feito para isso.

Depois, fui até minha cidade, para ver se me acostumava, mas impossível, minha família, tinha medo de mim, pois era uma época que ainda tinha pesadelos feios, despertava de madrugada, gritando, dava murros nas paredes.

Vi que me faltava muito para recuperar.   Me internei espontaneamente, para isso, foram dois anos me recuperando.      Agora estou bem, só tenho pesadelos, se estou nervoso.

E tu?

Bom eu passei dez anos em prisão, por um crime que não cometi, graças a Deus o detetive que me prendeu me ajudou, pois não aceitava que eu tivesse cometido o crime, tinha nesse dia experimentado droga, pensava na verdade em me matar.

Sofria desde garoto abusos sexuais, diziam que eu era bonito, além do corpo que tinha, na prisão num primeiro momento foi igual, mas fui esperto, porque senão estaria ferrado, me uni a um grupo de muçulmanos negros, dividia cela com um deles, que foi o amor da minha vida. Pensamos nos encontrar depois, mas o assassinaram.  Ninguém sabe por quê.    Agora, estou a anos sem ter relações, podia ter com qualquer um, mas decidi me centrar em reconstruir minha vida, nunca é tarde, a anos que vou a um psicólogo, para me encontrar direito.

Realmente tens um corpo de enfarte, fiquei de pau duro quando te vi ali abaixado, se via o teu rego, mas me controlei.  Ficaram rindo os dois como dois adolescentes.

Sabes fazer surf?

Sim, vivi perto de uma zona de praia, de garoto sempre ia, mas com uma perna só, não tentei ainda.

Espera, gritou por André, logo apareceu um homem como ele, com uma perna só.   Um aluno para ti.

Esse ria, nos os pernetas, somos os melhores surfistas do mundo, pois temos que encontrar o equilíbrio, mas complicado.

Foram até aonde estava um grupo, todos usavam próteses. Estavam ali de muletas.  André chegou dizendo mais um para nosso grupo.

Um deles, uma vez tinha soltado, que adoraria dormir em cima de mim.

Sorriu, perdi meu tempo hem.    Talvez não tivesse tentado nada com ele, porque se parecia demais ao George.

Mais tarde comendo alguma coisa, ele me perguntou se seguia sendo mulçumano.

Sim sigo indo a mesquita, tem uma aqui.  Aprendi a rezar, mas vou sempre no horário que não tem ninguém, não gosto de pregação.

Vi que o rapaz que estava na praia, não tirava o olho de ti.  Me pareceu boa pessoa.

Pois é, mas me lembra muito o George, tinha medo de relacionar com ele por isso.

De noite lhe avisou, tenho o hábito de dormir nu, espero não te incomodar, as vezes levanto de madrugada quando não consigo dormir. Procurarei não fazer barulho.

Nessa noite, despertou com ele sentado ao lado da cama, completamente nu, olhando para ele.

O que passa. Não tiro você da minha cabeça, posso, se deitou ao seu lado, ficaram conversando baixinho, até que começaram a rir, como se alguém fosse escutar nossas conversas.

Pensou que ia fazer sexo, mas ele fez uma coisa, mostrou seu corpo perfeito, tinha uma cicatriz que ia desde a virilha, até a parte de baixo, não tenho ovos, se foram na mesma explosão, não fico excitado.   Só posso me satisfazer pelo anus.

Lhe penetrou, ele ficou como louco, depois se sentou em cima dele, lhe provocando, para que sua excitação continuasse muito mais tempo.   Quando ele não pode mais, disse isso tenha seu prazer, porque eu já tive o meu.

Confessou, que ultimamente tinha participado de coisas pesadas, creio que não sirvo para ti, preciso de pelo menos três a quatro pessoas me penetrando continuamente para ter prazer.

No outro dia de manhã quando despertou, já não estava.   Tinha ido embora, tinha um bilhete, pedi o emprego, só para fazer sexo contigo, mas vejo que estou viciado em coisas piores, não quero te envolver nisso, não tem futuro.

Nesse dia contou para o psicólogo o que tinha acontecido. 

Pelo menos foi honesto contigo.   O problema de quando as pessoas perdem esse poder de ejacular, de se sentirem poderosos pelo momento, procuram formas outras de se satisfazerem, sexo em grupo, sadomasoquismo, nem sempre isso acaba bem.

Ficou chateado, quando foi a praia no final do dia, o André, perguntou pelo rapaz, lhe disse que tinha ido embora.

Não quis te falar nada, mas o reconheci de um vídeo de sadomasoquismo que me passaram, me excita ver.  O reconheci pois ele era penetrado por muita gente, sempre queria mais.

Lhe contou o que tinha descoberto.  

Bah, somos balas de canhão, não resta dúvida, nos mandam para a guerra sem preparação psicológica do que vamos ver, sofrer, das consequências.  Sempre acabamos mal.

Venha vamos entrar, que a agua hoje está bestial.   Ficaram duas horas conversando na água, André lhe comentou do rapaz que estava sempre tentando algo com ele.  É boa gente, muito traumatizado.  Esteve metido nas drogas, tenta se regenerar, mas sempre recai, nós somos o seu sustentáculo.   Se não fosse por ele, já teria eu me metido contigo.  Sinto atração por ti, mas veja bem, tens um corpo impressionante, mas gosto mesmo como te comportas.  O que fizeste com a oficina do Velho Mattei, foi fantástico, podias estar trabalhando num lugar mais importante, mas estas, dando força para ele.

Pobre do homem, pensou que o amigo de seu filho ficaria, mas hoje quando soube que tinha ido embora, ficou desconsolado.   Ele trouxe o diário de seu filho, me passou algumas partes para ler.  Só agora descobriu que seu filho sofreu muitos abusos quando era jovem, por isso se rebelava.   Pelo que o Brian me contou, ele também gostava de sexo duro.  Mas não disse isso para o velho, não merece.    De uma certa maneira, veja bem, eu sofri tantos abusos, que poderia ter ido para esse lado, mas não fui, busquei outro refúgio.   Quando estou nervoso, ou com problemas, vou a mesquita, num horário que não tenha ninguém, rezo, procuro me entender, pela forma que estou agindo.    Isso me ajuda a despejar a cabeça.   O que não gosto, digo isso sempre, é de pregação, tipo eu sou a melhor religião do mundo, não me importa qual, quando não posso, porque sei que a mesquita está cheia, venho aqui, rezo desde minha prancha.

Melhor comunhão não há, soltou o André.  É a única coisa que me relaxa.  Fui casado, ou melhor fiz uma besteira, na véspera de embarcar para a guerra, me casei com uma namorada que tinha desde o instituto.   Quando voltei, ela estava com outro, já tinham inclusive um filho, tornei a embarcar, meio desesperado.   Mas um dia conheci um dos jovens que todo mundo dizia que era um covarde, pois estava sempre rezando.  O coitado estava mal preparado.  Foi ferido em combate, passei algumas noites com ele segurando minha mão.  Tinha medo, não queria matar ninguém.  Uma noite pediu que eu me deitasse com ele, assim se acalmaria.  Mas eu ao contrário, fiquei excitado, nunca tinha me acontecido.  Nunca tivemos nada, mas o protegi tudo que pude, morreu em combate.  Estivemos cercados por franco atiradores, ele morreu com uma bala na cabeça.  Chorei muito com a cabeça dele nas minhas pernas feridas, rezei por ele, que descansasse.   Quando voltei a mim, já tinham cortado minha perna, me mandavam para um hospital militar na Alemanha.   Fiquei meses lá, até poder voltar a andar de muletas.                  Lá finalmente tive sexo com outro homem, mas não me senti bem, ele era muito neurótico, queria que eu o pegasse, pois só sentia prazer assim.

Voltaram para a praia, viram de longe uma confusão.     André demorou a encontrar sua muleta, quando chegaram perto, todo mundo disse que tinha sido uma coisa rápida, um carro negro tinha se aproximado, metralhando dois do grupo.

Um era o rapaz, ele e o outro segundo soube o André depois estavam distribuindo drogas, pedi tanto para não fazer isso, inclusive lhe disse que se precisasse de dinheiro eu lhe ajudava.

Começou a sair com o André, era mais velho que ele, ficavam sentados na praia conversando, um dia lhe convidou para ir a sua casa.   Estava nos canais, numa zona tranquila, aqui encontro minha paz.   A casa tinha o mínimo de moveis possíveis.   Gosto assim, o necessário.

Ficaram sentados na varanda, comendo, depois num determinado momento André, colocou a mão sobre a sua, queres experimentar, fazer sexo com um homem sem experiencia.

Realmente ele não sabia muito como se colocar, mas o sexo foi fantástico, se encaixavam bem um ao outro.     Um ano depois estava vivendo juntos.   Tinha duas coisas boas, a amizade, um sexo super.

O Senhor Mattei, queria ir viver em San Francisco com uma irmã, disse que se ele quisesse podia ficar com a oficina, lhe alugaria. Mas ele encontrou outro lugar mais perto de casa, que anteriormente também tinha sido uma pequena oficina,  achou melhor.  André consertava bicicletas, se especializaram.   

As vezes André despertava gritando, pedia desculpas pelo pesadelo, mas ele sabia como relaxar o mesmo.  O montava, o levando a loucura, o fazia gritar de prazer.   Garoto, esse teu corpo tem magia.

Os dois tinham corpos de escândalo, pois quando iam a praia aproveitavam antes de entrar para fazer surf, faziam exercícios nos aparelhos.

André dizia que quando o olhavam muito, que tinha vontade de dizer, podem olhar, mas é meu.

Viveram bem durante 6 anos, quando ele estava com 35, André fez 45, estavam comemorando, quando ele caiu.  Disse que não se sentia bem, o levou para o hospital. Depois de muitos exames, descobriram que tinha um tumor na cabeça, não se podia operar pois estava muito inflamado. 

André disse que não queria nenhum medicamento, pois poderia ficar dependente.  Ele mesmo redigiu um documento, em que não queria ficar entubado, tampouco medicamentos.  Fechou a oficina, ficava o dia inteiro com ele, só ia em casa para buscar roupa limpa. Tomar um banho e voltar.   Procurava ser o mais rápido possível.   Um dia voltou, o quarto estava cheio de médicos e enfermeiros.  A enfermeira que o conhecia, disse, teve um enfarte, mas como não se pode fazer nada, é esperar, foi empurrando todo mundo, ficou ali ao seu lado, segurando sua mão, antes de morrer, fez um sinal que se aproximasse, obrigado por esses anos maravilhosos que tive contigo. 

Ele só pode dizer, vá em paz meu amor.   Descobriu que André tinha deixado a casa para ele, não tinha mais bem nenhum.   Mas tudo em Venice Beach lhe fazia lembrar-se dele, resolveu que deveria ir embora, preciso de outro lugar para recomeçar outra vez a vida.

Vendeu tudo, colocou o dinheiro no Banco, fizeram uma cerimônia com a cinzas do André todos seus amigos levaram em pranchas numa noite de lua, como ele gostava, a tinham colocado em um pequeno barco de madeira que ele tinha em casa, soltaram.

Um dia querendo se animar, esteve olhando uma agência de viagem.  Resolveu ir a Israel, pois assim visitaria a grande mesquita.

Alugou um pequeno apartamento, saiu pela cidade, descobriu como podia visitar a grande mesquita, fez o que fazia sempre rezou agora pelos seus dois amados, George e André.  Depois de fazer todas as viagens possíveis, desceu para Tel Aviv, estava sentado numa praia gay, quando uns jovens se aproximaram, querendo saber de aonde era.  Entendeu o que queriam, riu, vocês são jovens demais para mim, gosto de homens maduros.

Estas no lugar errado, lhe disseram aos bares que deveria ir.  Nessa noite tentando se animar, foi a um bar, viu um tipo forte como ele, de cabelos brancos, com uma cara muito séria.

Ficou olhando, mas não se aproximou.  Não sabia fazer isso, um dos rapazes da praia, passou por perto, olha só, foi ligar justo com o homem mais difícil dessa cidade, foi até o outro, lhe disse algo ao ouvido.

Ele se aproximou, perguntou se era americano.

Sim, algum problema?

Não o rapaz disse que não gosta de gente jovem, eu tampouco, me esforço para sair, pois fiquei sozinho recentemente.  Vais ficar muito tempo?

Não sei, tenho que procurar um novo lugar para viver.  Mas claro, tem que ter praia, adoro surfar. 

Eu também.   As ondas aqui são pequenas, Abed Faisal, não sou judeu, mas sim metade árabe, te vi outro dia na mesquita, achei estranho.

Sim sou mulçumano, me converti quando estava preso, contou rápido sua conversão.

Pois eu sou de nascimento, mas abandonei tudo pelo homem que amava, que não acreditava em nada. Era um intelectual.    Morreu a cinco meses, vim trazer suas cinzas para sua família, fui ficando, pois estou como tu, sem saber o que fazer da vida.

Passaram a se encontrar todos os dias pela manhã para fazer um passeio, um dia foram nadar, ficou impressionado com o seu corpo, era forte, muito peludo.

Acabaram fazendo um prenuncio de sexo na água.

Foram para sua casa, os dois tinham fome de sexo, foi fantástico, depois retornaram mais pausado. 

Caramba soltou o Abed, não pensei que fosse ser assim, teria me precipitado antes.  Mas com os dias tudo tinha cara de rotina, não era o que buscavam, Abed se foi a Paris, antes dele voltar a NY.    Pensava em chegar, ir visitar seu amigo o Inspetor em Washington, quem atendeu o telefone foi sua filha.  

Ele faleceu a uma semana atrás, um câncer fulminante, nem chegou a fazer nenhum tratamento, anos demais fumando.

Deu os pêsames, disse que sentia muito.

Resolveu ir até a oficina mecânica do irmão do George, para saber aonde estava o tumulo dele, queria ir ali rezar por ele, nunca tinha sido capaz de esquece-lo.

No caminho se lembrou do dia que tinha tido a notícia de sua morte.  Tinham passado muito tempo, tinha tentado de todas as maneiras reconstruir sua vida, mas sempre esbarrava com isso com a puta morte.

Quando chegou, viu uma pessoa de costa, ajoelhada consertando uma moto, reconheceu imediatamente a única tatuagem que George tinha, ficou ali parado fazendo sombra sobre ele, não conseguia se mexer.   Ele se levantou, se virou, ficou de boca aberta.

Tudo que disse foi, perdão.

Ficou furioso, como pudeste fazer isso comigo, fiquei sofrendo esses anos todos, vim aqui inclusive para descobrir aonde tinham te enterrado, para ir lá rezar como tinhas me ensinado, seu filho da puta.   Tinha dois desejos desencontrados, um abraça-lo outro lhe dar uma porrada.

Fez o primeiro, sem se importar com a graxa da roupa dele.  Ficou ali em pé abraçado chorando, como pudeste fazer isso comigo.

George se controlou, enxugou as lagrimas, quando me negaram a condicional, sabia que teria que ficar mais seis anos na prisão, não era justo, que ficasses me esperando. Tinhas direito a viver tua vida.

O irmão de longe ficava olhando, soltou dois marmanjos, chorando como madalenas, deveriam ir para um hotel, para fuderem tudo que não fizeram em todos esses anos.    Isso dizia rindo.

Venha disse o George, vivo aqui perto, meu irmão disse que alugavas esse apartamento.

Quando chegaram ficaram abraçados em silencio, não sabes o quanto sonhei com isso, soltou o George, dia atrás dia, pensava em ti.   Nunca tinha amado ninguém, tive que pensar muito para fazer o que fiz, não achava justo.

Bom eu tentei viver esse tempo todo, todos os dias rezava tudo que me ensinaste, para me sentir mais próximo de ti.  Pensava realmente que tinhas morrido.  Depois de conto tudo.

Eles não paravam de beijar-se, foram retirando a roupa lentamente, pela primeira vez, não iam ter sexo escondido como na prisão.  Colocou a boca no seu ouvido, faça como a primeira vez que me ensinaste a ter prazer.    George o penetrou, como um louco, se amaram horas.  Depois era como se não tivesse passado nada.

Ainda temos nosso sonho por realizar, lembra-se, eu comecei a fazer sem ti, no meio do caminho, me deram a notícia, fiquei no meio do deserto, num lugar que imaginava que ias amar, escondi o carro, fiquei no alto da montanha rezando, chorando por ter-te perdido.

Ficaram uma semana ali, ele ajudava na oficina.   Apareceu um Rover grande, para vender, tinha que ser arrumado antes.   Assim o fez, comprou em segredo.  Quando ficou pronto, disse ao George, toca ir de compras, ele tinha se desfeito de tudo que tinha.  Compraram tudo que necessitava, uma tenda, sacos de dormir, mantas, comida.   Se despediram do irmão dele, caíram na estrada, foi parando mais ou menos nos mesmos lugares, mas nunca ficavam em motéis, sim no meio do nada.  Quando chegou à altura da montanha, vamos acampar lá.

Passaram três dias no alto da montanha, se comungando um com o outro.

Aqui decidi ir viver perto do mar, passei um bom tempo vivendo em Venice Beach, foi bom, conheci uma pessoa boa comigo, o cuidei até que morreu.  Por isso fui embora, mas creio que precisas aprender a surfar.

Estou imaginando, todo mundo olhando para esse teu corpo.  Não sabe a quantidade de vezes que me masturbei, pensando que passava a mão por ele.

Tirou toda a roupa, melhor fazer ao vivo. Nunca se saciava dele.  Se aqui tivesse mar, íamos viver aqui.

Em Santa Fé, fizeram todo o percurso do filme.  Riam como duas crianças, que sonham ir a Disney, depois seguiram para Venice Beach.     Conseguiram uma casa, para viver, iam a praia, a surfar, reencontrou os amigos.   Finalmente estava feliz, os dois abriram uma oficina de conserto de motos, não precisavam de mais nada.

Um dia um conhecido deles, soltou, aqui todos ficam imaginando os dois na cama, com esse corpo que os dois tem.

Se estas pensando em pedir para fazermos um trio, sinto muito, eu só amo esse homem.

Ajudavam os amigos, volta e meia o irmão vinha visita-los, acabou ficando.   Eram uma família.

JAZÁN – CANTOR DE SINAGOGA

                                     

Meu nome é Ariel Baumanuel, sou filho de uma drusa com judeu, meu pai é um dos mais famosos cantores de Sinagoga de Israel.

Se conheceram na universidade de música de Tel Aviv, ela estudava para ser maestra, uma carreira que era patrocinada por Zubin Mehta.   Ele estudava para aperfeiçoar sua voz, por herança hereditária todos homens de sua família eram Jazán, cantores de sinagoga, uma função de muito prestígio, já que leva todas as orações durantes as cerimonias.

Pelo que soube foi um romance conturbado desde o começo, ela não queria nada com ele, mas ele insistia.   Brigaram, amaram, reataram, brigaram, até que acabou ela ficando gravida, mas se negava a casar, não ia mudar de religião só por isso, ele tampouco abria mão de nada.

Como nada eram rosas, desde que se conheceram, a gravidez também foi tumultuada, de um lado a família dele que queria que tudo fosse a maneira de sua religião, pôr o lado dela, queriam totalmente ao contrário.

Foi um gravidez complicada, ele prometia que não iam discutir, cinco minutos depois só faltava saírem nos tapas.   Mas dizem que se amavam.

Sei que justamente quando rompeu as águas, caia uma chuva torrencial em Tel Aviv, as ambulâncias não davam abasto para a emergências.   Do hospital lhe perguntaram se tinha carro, se fosse o caso, tentasse chegar ao hospital.

Os relâmpagos surcavam os céus, anunciando minha chegada, num cruzamento, em que um raio caiu sobre o semáforo, torrando o mesmo, ao mesmo tempo um caminhão investia sobre o carro que estavam, que virou ao contrário.  Eram pelo menos cinquenta veículos acidentados, quando chegaram os bombeiros ela estava presa no carro, dizem que meu pai, estava parado ao lado do mesmo, tentando vocalizar, dizia que tinha perdido a voz, como ia cantar.  Os médicos riram, pois parecia transtornado, como podia pensar nisso se sua mulher corria risco de vida.    Nasci ali mesmo, no meio de trovões, ruídos da sirenes de caminhões de bombeiros, das ambulâncias que não parava de chegar ou partir. Tudo era um caos total.

Nasci, talvez por isso, dizem que como que me resistia a sair, em silencio absoluto, as enfermeiras estavam nervosas, pois o famoso tapa, fez com que eu sorrisse, não chorasse como as outras crianças.   Fui colocado sobre o peito da minha mãe, ao escutar com as minhas mão pequenas, o som de seu coração, sabia que ela ia morrer.  Dizem que caiam lagrimas da minha cara.  Ela disse a enfermeira, ele se chama Ariel Baumanuel, que era o sobrenome dela, não dele.   Se ele não estivesse preocupado tanto com sua voz, entre os dois sairia uma discussão tremenda.

Meus avós maternos viviam a muitos anos em NYC, ela era de lá, mas como ganhou uma bolsa da fundação Zubin Mehta, foi para lá estudar.

Mesmo no caos, fiquei ali contente entre seus peitos generosos, dizem que alisava sua cara, secando seu choro.

Fomos levados finalmente para o hospital, mas para ela já era tarde.

Quando o médico saiu para falar com meu pai, este continuava com a ladainha de perdi minha voz.  O mesmo não teve conversa, dizem as más línguas, que lhe deu uma bofetada tão grande que ele caiu para trás.   Mas se levantou tranquilo.

O menino está bem, mas acredito que devido as circunstâncias, nasceu surdo, reage a todos os signos, menos ao do som.

Isso para uma família tradicional de Cantores, era uma tragédia. Dois dias depois fui levado para a casa dos meus avôs paternos, ali começaram uma pantomina impressionante, que graças a deus eu não escutava.   Fui arrancado dos braços do meu pai, pelo meu bisavô, o chefe do Clã, que se sentou na sua cadeira de balanço, com a sua bengala, quebrou um vaso chinês falso que era a paixão da sua nora.  Todos ficaram em silencio, mandou todo mundo sair, era conhecido pelos seus ataques de ira.   Ele se pôs a conversar comigo, eu tinha a mão sobre seu coração. Escute os latidos do meu coração, saíba da minha história completa, nunca escute esses idiotas, que pensam que sabem quem eu sou.   Sou um farsante, filho da puta, sem consideração com meus descendentes, esses idiotas.  Teu pai, é um bom cantor, mas nunca será como tu.   Escutas o som do meu coração, ficou ali comigo três dias, só me deixava quando uma mulher da vizinhança, vinha me dar de mamar.   Tinha perdido seu filho, então estava cheia de leite. Acabou virando minha mãe de criação.

Quando meus avôs americanos chegaram, tiveram que contratar um advogado, pois minha mãe não era casada com meu pai.  Segundo as enfermeiras, ela disse qual devia ser o meu nome, Ariel Baumanuel, que era o sobrenome da família.   Eram de certa idade, mas muito sérios, meu bisavô, pediu para que eu ficasse mais um dia, acharam que ele estava louco, afinal tinha 108 anos, ele está acabando de saber toda minha história através do meu coração.   Ali fiquei mais um dia escutando tudo. Quando acabou de me contar, morreu.   Era a segunda morte que eu conhecia.   Só nesse momento comecei a gritar, sem som nenhum.

Minha mãe de leite, chamou o médico, que veio correndo, examino minhas cordas vocais, fomos outra vez para o hospital, meu pai, meus avôs maternos, minha mãe de leite foi a única que pode entrar.

Era uma mulher morena, muito bonita, infelizmente tinha se casado com um idiota ultra ortodoxo, que ao ver o filho loiro, achou que ela o tinha traído com outro homem, sorte da criança que nasceu morta. Ele desceu pancadas nela, foi preso por isso, quando fizeram a prova de ADN, na criança, tudo concordava, era sua.   Mas era tarde ela tinha conseguido o divórcio.

Diria posteriormente, foi só uma passagem, minha vida, vim para cuidar de Ariel.

Depois de todos os exames, não entendiam por que eu não emitia som nenhum, nem ao chorar a morte de meu bisavô.   Me levaram para escutar meu pai rezar o Kadish, dizem que nesse momento dei um cagada tão grande, que tiveram que sair rapidamente comigo, pois fedia demasiado.     Na verdade, tinha cagado a parte negra da história do Bisavô, a que ele não queria que a família descobrisse.

Sabia que ao momento que me colheu nos braços de sua nora, que eu sabia quem ele era, que tínhamos vivido uma vida juntos.   Eu tinha sido o amor de sua vida.  Quando me colocou minha pequena mão em cima de seu coração, o primeiro pensamento dele, foi, estive te esperando a tanto tempo Ariel, que meu coração já não pode mais, me deixe descansar por favor.

Eu nesse momento, o amei loucamente, nunca mais iria esquecer dele.  Jibril, ou Gabriel, esse era meu bisavô.

Morreu dormindo, comigo em seus braços.

Finalmente meus avôs americanos, conseguiram minha custódia, pois pelas leis hebreias meu pai não tinha se casado, portanto, não tinha direitos.   Meus avôs convidaram minha mãe de leite Tamar, para ir com eles, já que não tinha ninguém por lá.  

 Levei dez minutos para fazer minhas maletas, meu menino, dez minutos, pois contigo iria até o fim do mundo.

Era a única pessoa na verdade que eu escutava, falava com delicadeza comigo, eu era o seu filho, minha avó sempre tinha sido um pouco histérica com sua filha, a controlava de todas as maneiras, quando me via, dizia a Tamar, tai o resultado, eu sempre lhe orientei, esta ai um resultado, repetia e repetia isso.  Meu avô que era um bonachão, Abed Baumanuel, fazia que não escutava.    Quando ela morreu, casou-se com Tamar, para ela ter cidadania, bem como direito a uma parte da herança familiar.   Os dois se davam bem.

Mal chegamos, fizeram todos os exames novamente em todos os melhores médicos, todos diziam o mesmo.  Acreditamos que é um problema psicológico, esse menino deve ter recebido um grande choque na hora de nascer.    Contavam para o médico o caos que as enfermeiras contavam justo na hora que sai ao mundo.

Já antes da escola para surdos, falávamos os dois por signos, quando eu teimava alguma coisa, colocava por intuição minha mão sobre seu coração, como tinha visto meu bisavô fazer, me dizia não faça isso. Espere.

Eu ficava quieto no ato.

Dormia no seu quarto, apreciava a beleza de seu corpo desnudo, quando saia do chuveiro, pensava um belo corpo de mulher.

Quando fui para a escola aprender a linguagem dos signos, minha verdadeira avó, teve um dos seus inúmeros chiliques, o que iam pensar da família com um garoto sem mãe, ainda por cima surdo.   Meu avô perdeu a paciência, lhe dizendo sempre foste louca, mas agora estás passando da raia. Ou te controlas ou te interno de vez.

Só me pegava no colo, se chegava alguma visita, mas eu fazia tudo para escapar.

Acabava me dando para Tamar, que me levasse dali.

Essa ria muito, que mulher, mas tonta me dizia, mal sabes como eres lindo.  Eu tinha ao parecer os olhos do bisavô paterno, azuis como agua, mas cabelos negros como de minha mãe, umas sobrancelhas muito negras, o que fazia um contraste interessante, além de ter a pele, como se tivesse vivido nu no deserto.

Meu avô não permitiu que circuncisasse, isso foi feito numa das visitas do meu pai.  Mal ele entrava ficava irado.  Tentava se comunicar comigo, mas o idiota não tinha entendido que devia colocar a minha mão em seu coração, talvez porque não quisesse que eu visse do que era feito.

Depois dos meus cinco anos de idade, deixou de vir. Estava tão neurótico com a sua voz, que dizia que me ver sem voz, temia perder a sua.

Comecei a aprender a linguagem dos signos, junto com Tamar, os dois falávamos depois numa velocidade espantosa, mas nos entendíamos também com o olhar.

Eu percebia pelo som do chão, que faziam os sapatos altos de minha avó, que era hora de nos escondermos, tínhamos um sinal para isso.  Me pergunta por aonde vinha ela, eu lhe sinalizava o corredor principal, saímos pela cozinha contornando todo apartamento.

Ela gostava que quando estava com suas amigas, que desaparecêssemos, para não responder a perguntas.    Não sabia nenhum sinal dos signos.   Meu avô sim aprendeu, aprendi a ler os lábios.

Quando fui para a escola, decidiram que talvez se eu convivesse com alunos normais soltasse a voz.

Era alto, para minha idade, fui ficando forte, fazendo exercícios, mas continuei não falando, quando estava em segundo de secundária, no primeiro dia de aula, vi dois garotos novos, um pensei, farei sexo com ele, o outro olhei, esse será minha paixão, os dois vinham transferidos de outras escolas.  O que sentava atrás de mim, não parava de implicar comigo, mal a professora se virava para o quadro.  Quando se voltava ficava quieto, sei que ele falava algo, mas não lhe escutava.  Me virei para trás lhe avisei que se comportasse, pois senão ia se arrepender, mas claro em linguagem dos signos.  Ele continuou, mas ela se virou para frente, estávamos sentados ao lado de duas amplas janelas no segundo andar, agora estavam abertas por causa do calor.  Me virei rapidamente, o levantei, o coloquei do lado de fora da janela.   Ele ficou segurando com as duas mãos meus braços, por ali fiquei sabendo quem ele era, porque tinha problemas, fiquei olhando diretamente aos olhos dele, me pedia por favor.

O levantei o coloquei em pé, lhe fiz o sinal que da próxima vez lhe cortaria o pescoço.

Que queres dizer com isso. O outro novo, respondeu por mim, disse que te cortara os ovos.

Não sei por que escutei, me virei para ele, falei pela primeira vez na minha vida, vou cortar os teus ovos idiota, enfiar nesse teu cu sujo.

A classe inteira ficou de boca aberta, tinha uma voz rouca de nunca ter falado.

Mas quando a professora se voltou, eu estava tranquilamente sentando.

A partir desse dia durante uma semana escutava tudo, mas falava pouco.   Marcava depois das aulas, no fundo da escola, com Gerard, o menino que seria meu a vida inteira, ele era filho de franceses.  Fumamos ali nosso primeiro cigarros juntos, nos beijamos, masturbamos, sempre sorrindo um para o outro.  Ele não permitia, por ser mais alto que eu, que ninguém me incomodasse, embora soubesse que sabia me defender.

Um dia cheguei em casa, Tamar estava nervosa, porque meu avô tinha tido um princípio de derrame, se esqueceu de falar a língua dos signos comigo.  Temos que ir para o hospital, ele já está lá, vim buscar os documentos dele.

Minha resposta foi simples, deixo a mochila, troco de camiseta, pois está suada.

Ficou parada me olhando, como se nunca tivesse visto.   Fui falando com ela o trajeto todo, aproveitou que estava no hospital foi falar com o médico que me atendia. 

Já estou com saudade do outro Ariel, que não falava, pois não conseguia parar de falar.

Me examinaram as cordas vocais, os ouvidos, enfim, realmente estava tudo normal como sempre.

Meu avô quando se despertou ficou contente.

Nesse domingo seguinte fomos a sinagoga, quando o Jazán, começou a cantar, eu fui fazendo o mesmo que ele, desceu de aonde estava foi me ver cantar, ficou impressionado com meu timbre de voz.    Depois me perguntou se queria aprender.  Olhei para meu avô, que não gostava muito de ir a Sinagoga. 

Ainda não sei, meu pai é cantor de sinagoga em Israel, pedi licença, fui ao centro para cantar um Kadish pelo meu bisavô, lhe dizia que finalmente eu falava.

Nessa tarde depois do almoço, meu avô telefonou ao meu pai, somente lhe disse, te passo teu filho.  Comecei a falar com ele, hoje cantei meu primeiro Kadish, como vai o senhor, tudo muito pausado.  Pois se acelerava doía a garganta.

Ele pensou que era uma brincadeira de mal gosto, Tamar lhe explicou que de repente de uma hora para outra, sem nenhuma interferência, tinha voltado a falar.   Tinha nessa altura 12 para 13 anos.

Em seguida ele veio me visitar, como era uma pessoa que só pensava em si mesmo, soltou na minha cara, que lhe parecia impossível que eu cantasse, pois tinha uma voz horrível, rouca, sem timbre nenhum.   Comecei a cantar um Kadish, pelo meu pai que só pensava em sua própria voz.   Foi embora puto da vida, pois deve ter reparado que eu cantava melhor que ele.

Entrei para uma escola de música, aprendi a ler, escrever pautas, tinha aula de canto, me juntei a um grupo que fazia canto gregoriano.

Os professores ficavam cativados, pois não podiam classificar minha voz, cantando em nenhuma modalidade, barítono, baixo, vamos dizer eu era uma pessoa versátil.

Um dia, pela primeira vez vi o piano de minha mãe aberto, estava a tanto tempo fechado, que meu avô chamou um técnico para revisar o afinamento, se tudo estava perfeito, queria vender o mesmo.

Tinham deixado o mesmo aberto, me sentei, a senti do meu lado, colocando as mãos sobre as minhas, foi dizendo na minha cabeça o que eu tinha que fazer quase num sussurro.

Tamar veio correndo ver quem estava usando o piano.  Quando me viu ali tocando uma música sem partitura, sem nada.   Quem te ensinou a tocar piano.

Fiz um sinal a minha mãe que estava sentada ao meu lado no banco.   Ela me ensinou, agora tenho tudo na minha cabeça.

Como era exagerado, nesse dia passei tocando piano.

Quando realmente dominava o mesmo, comecei a tocar e cantar músicas que estavam guardadas dentro de mim.   Músicas que o bisavô me tinha ensinado.         Músicas austríacas, de aonde ele era originário.

O único comentário foi da Tamar, como sempre ele agora fala outra língua que não conheço.

Na escola os professores se reunirão para enfrentar o problema, de aluno modelo que nunca interfere nas aulas, agora eu só não interferia, bem como corrigia os mesmo.  Gerard se matava de rir, pois os professores me lançavam olhadas furibundas.

O convidei para ir conosco a Sinagoga, adorou, gosto da tua religião.   Mas nunca dou atenção a isso.

Nesse dia sonhou com seu bisavô, justamente a parte negra que ele devia ter esquecido, ou será que o fato dele sonhar o fazia de propósito para que não se esquecesse de suas origens.

Ficou dois dias meditando sobre isso.  Tentou falar com a Tamar, ela sabia de coisas, mas as vezes se aferrava que ele era um garoto normal.

Tamar, quando vais entender que desde o momento que eu vim ao mundo, nada foi igual para mim. Anos guardando um silêncio, observando o mundo passar, sem poder fazer um movimento, me deixando ir pela inercia.  Te lembras que eras a única que podias entrar na sala aonde estava meu bisavô, inclusive comentaste que era como se eu estivesse com a palma da mão diminuta colada na parte de cima do coração dele.  Ele me dizia que estava esperando por mim para colocar tudo para fora, para contar a verdade sobre ele.

Anos depois escutei meu pai falar, aqui mesmo, que igual ao seu avô era impossível.   Ele tinha sido o grande cantor de Sinagoga desde o momento que chegou a Israel.

Mas ele dizia que não, que o grande cantor tinha sido o amor de sua vida, um homem que morreu em seus braços.  O homem que o tinha incentivado a fugir, abandonando toda sua família, ele caminhou desde Salzburgo, até Jerusalém.  Estavam os dois num concurso de cantores de Sinagoga quando Hitler invadiu a Áustria, os dois passavam por tipo ario, quando chegaram a Viena, viram suas famílias serem assassinada em plena rua.   O jeito foi fugir, roubar roupas, cortar cabelos, trocar o modo de tudo, foram para Budapest, lá foram acolhidos na sinagoga, mas também sabiam que mais dia menos dia estariam invadidos.

Conseguiram dinheiro para ir de trem até Bucareste, lá roubaram pão porque estavam mortos de fome, seguiram um caminho paralelo até Sofia, que em breve seria invadida. Foram descendo, sendo ajudados por pessoas, estavam quase chegando a Istambul, quando começou o inverno, seu amigo, seu amante Bruno Grandzist, dormiam agarrados, para fazerem entrar calor um no outro.   Mas a tuberculose pode com o Bruno, morreu nos seus braços, no dia que avistou a Torre Gálata.   Tudo o que pode fazer foi atirar seu amigo ao mar, chorando, já sem sapatos, em Istambul, foi ajudado por judeus, que lhe ensinaram o caminho para Jerusalém sob mandato inglês. Disfarçado de beduíno, conseguiu chegar depois de meses, aventuras, nessas alturas, seu ódio por tudo que o tinham feito perder seu amante, foi imenso.

Mal chegou se alistou no Haganá, para lutar pela libertação do seu povo, ali fez de tudo, com a fachada de cantor de Sinagoga, matou, aniquilou famílias inteiras, até que em 1948, conheceu uma mulher, estava gravida de um companheiro que morreu em ação, assumiu a paternidade do filho deste, que vem a ser o meu avô.   Este sempre pensou que era filho dele, como sua mãe morreu cedo, foi criado como seu filho.  Mas sempre odiou seus descendentes, porque nunca pode assumir que amava os homens.  Muitos dos quais matou. Era palestinos.

Depois se dedicou somente a cantar, cantou tantos Kadish, que se tornou um experto nisso, me ensinou o primeiro, que cantei com ele, justo quando morreu.   O que meu pai cantou, foi na verdade o segundo.  Porque enquanto ele morria, eu lhe cantei, como tinha cantando para mim, a beira do Mar Negro, aonde me deu sepultura, isso me disse, pois reconhecia em mim a reencarnação de Bruno.

Tamar estava de boca aberta enquanto ele contava tudo isso.  O único para quem ele repetiu a história foi para Gerard.   Esse acreditava em tudo que ele lhe contava, tinha a sensação de estar vivendo o momento descrito por ele.  Ia escrevendo sobre isso.

Foi nessa época que Gerard foi viver com eles definitivamente, pois os dois assumiram seu romance.  Tamar os encontrou dormindo nus abraçados, nunca fez nenhum comentário a respeito.  Os dois levavam sua vida discretamente.

Gerard entrou na universidade porque ganhou uma bolsa, foi estudar literatura, já tinha escrito todo o relato do Bisavô.  Ganhou um prêmio com direito a publicação do livro.  Como era uma história contada pelo Ariel, ele colocou nomes e sobrenomes nos personagens.

A partir que mencionava Jibril, mais o Bruno, o pai de Ariel ficou uma fera.   Chegou justamente a NYC, num dia que Ariel se apresentava na grande sinagoga da cidade. Discutiu com ele antes da apresentação, lhe disse na cara para que ficasse nervoso, fizesse má figura.

Antes de apresentar um Kadish, disse que pela segunda vez na vida, cantava a morte de seu pai, um sujeito invejoso, mal nascido, que pensava que a verdade sempre devia ficar oculta.

O pai não se atrevia mexer do lugar.   Resultou que o filho foi consagrado justamente na frente dele.  Ali estava presente o rabino da sinagoga de Jerusalém que o convidou para ir cantar lá.

Lhe disse que iria sim, mas que não queria a presença de um morto no recinto.  Isso tudo com seu pai escutando.

Foram para Israel, apresentar o livro, que contra todos os prognósticos fazia sucesso, os dois não podiam viver sem a Tamar, ela era a verdadeira família deles.

Antes de se apresentar, conversou muito com o rabino, o que está escrito no livro, me contou meu avó antes de morrer, bem como me mostrou a família que me cercava, que pensavam que eram seus descendentes, mas não eram.  Não sei se o senhor acredita nisso. O primeiro que me lembro do meu nascimento, eram trovões, relâmpagos, sirenes de ambulâncias, bombeiros, polícia tudo ao mesmo tempo.   O idiota de meu pai, vendo minha mãe morrer, mas o único que lhe preocupava era se perdia a voz, que era a dignidade da família em gerações.    No fundo uma grande inverdade.

Enquanto contava isso, colocou a mão no coração do rabino, foi transmitindo para ele tudo que tinha escutado do seu avô.  O mesmo o viu como um bebê, com a mão em cima de uma pele muito antiga, que lhe transmitia todo o conhecimento do mundo dos cantores de sinagoga.

Ele entendeu, será uma honra que você cante junto comigo, faremos um novo Kadish ao final para que ele descanse em paz.

O pai ficou escondido atrás de uma coluna.  Pela primeira vez via seu filho tocar piano, o mais estranho era que ele nunca tinha feito nenhum curso, ou estudado para isso.  O rabino explicou que Ariel, vinha com desígnios já de outra vida.  Toda a cerimônia foi perfeita.  Volto a cantar aqui um Kadish pelo meu bisavô Jibril, quando soltou sua voz, foi como uma revoada de pássaros no céu, as modulações eram perfeitas, o sentimento vencia acima de tudo.

Embarcaram no dia seguinte de volta, sem contato nenhum com a família de seu pai.  Ele só foi antes ao cemitério, para rezar na frente do tumulo de Jibril, bem como de sua mãe.

Agora sabia que eles estavam em paz.

Seguiu cantando em qualquer sinagoga que lhe convidasse, ia rezar o Kadish em qualquer enterro que lhe pedisse, nunca solicitava nada.  Essa era sua obrigação dizia.  Tentaram ventilar que ele era gay.  Nem se imutou.  A pessoa que pensou que o ofendia, ficou vermelha, se engasgou.  Porque ele lhe perguntou somente uma coisa.   Te olhas muito no espelho, vês realmente o que es.  Nada mais.

Quando Tamar morreu, já muito velha, mas na sua cabeça, ela continuava linda.  Brincava com ela, que preferia lembrar quando ela entrava no quarto quando ele era bebê, nua, que ele admirava seu corpo.

Foi para ele o Kadish mais emocional, porque ela tinha tido um final infernal, com um câncer que não tinha cura, o enfrentou como tudo que tinha feito na vida, de cara feia, sem nada que aliviasse a dor.   Quando sentia muito, só pedia para ele cantar para ela.

Sua glória final, foi cantar no Vaticano, para uma multidão, ao lado do papa.  Falou que o Deus que ele conhecia, procurava não fazer sofrer tanto seus fiéis seguidores, não importando a religião.  Acredito que todos temos o direito de escolher o que professamos.

Cantou um lamento, pelo mundo perturbado, acompanhado de instrumentos tocados por um grupo de israelenses, palestinos, drusos.   Era um som completamente diferente.

Assim seguiria para a frente, misturando sons de todos os árabes, pois no fundo ele tinha uma parte disso.

ZERO A ESQUERDA

                                                    

Omar, estava aturdido, nas vésperas do seu casamento sua mãe, morreu de um enfarte, depois de receber uma chamada de telefone dos Estados Unidos, ninguém sabia o que era a chamada.

De uma certa maneira ele estava contente, assim se adiava o casamento, seu pai, dizia que não tinha cabeça no momento para isso.

Ele precisava de uns documentos, para agilizar os papeis.

Eles viviam perto de Safed, numa colônia ultra ortodoxa, reunida em volta de um rabino, que ele achava que estava louco.  Desde que tinha consciência, usava aquelas roupas negras, que no verão eram um inferno.  Aqueles rabichos laterais, eram para ele como uma praga.  Esse casamento, em que só tinha visto a noiva duas vezes assim mesmo sentada entre mulheres, a tinha achado horrorosa.  Quando falou isso para sua mãe, levou uma bofetada na cara.

Sua mãe Shira, com seu pai Ariel, tinham emigrado para Israel, ele era um bebê.  Não se lembrava de nada disso.

Era rara a sensação que tinha, se ver livre de sua mãe, afinal era ela que comandava a casa, se fazia passar por uma esposa dócil, uma mãe carinhosa, mas na verdade era tudo ao contrário.

A tempo atrás tinha lido um livro, que encontrou abandonado num banco de jardim, falava sobre isso a hipocrisia.   Ele concordou com o livro inteiro, o tinha escondido em seu quarto, atrás de um armário velho.

Alias ele sempre tinha sido do contra, mas isso em silencio, tudo que era proibido lhe encantava, nunca tinha tentado arrastar ninguém para suas aventuras, pois sabia que falariam do assunto.   Era coisas que não estava disposto a compartir com ninguém.

Achou uma caixa dentro do armário dela, seu pai estava na rua preparando o enterro, falando com o rabino para oficializar a cerimônia.

Nunca tinha visto a caixa, abrira o armário, porque seu pai na confusão o deixou aberto.

Viu uma série de papeis, documentos de seus pais, com outros nomes, mas bem americanos que de judeus,  encontrou uma certidão de nascimento de Yosef Ben Cohen, com todos os datos que se referiam a ele.   Mas os nome dos pais, não correspondiam com ninguém.

Depois recortes de jornais, contando como dois avós tinham fugido com seu neto, procurado pelo seu genro.  Depois cartas de chantagens, ameaçando contar tudo para as autoridades.

Parou como sempre fazia analisou tudo.  Sempre os tinha achado velhos demais para serem seus pais.  Sua mãe quando alguém comentava, dizia que era um milagre da natureza, de acreditar em Deus.

Agora certas coisas na sua cabeça faziam sentido,  por debaixo disso, encontrou envelopes com dinheiro, tanto séquel, dólares, quantidades, correu ao seu quarto, encheu uma mochila com eles, tempos atrás para suas escapadas, tinha roubado numa casa, em que as roupas estavam no varal, umas duas camisetas, calças jeans, um tênis.

Foi ao banheiro, sem contemplação nenhuma, cortou os rabichos,  tirou toda sua roupa, alisou seu piru, vais ser livre bandido disse para o mesmo, adorava se masturbar, o que era um grave delito.   Bem como gostava de ficar olhando a bunda dos homens, mas sempre o fazia discretamente, adorava ver os garotos com calças apertadas, ficava imaginando tira-las, passar a mão naquelas bundas, começou a rir baixinho.  Tens que ser rápido, chamou a atenção dele mesmo.

Passou uma água pelo seus cabelos crespos, passou o pente. Nunca mais ia usar gomas para segurar. Atirou o Kipa pela janela, foda-se coisa fedorenta.

Saiu de mansinho pela porta traseira que dava a uma pequena varanda, fez como fazia sempre que escapava, como um gato, atravessou o muro até a casa vizinha, desceu por um tubo.  Correu rua acima, seu pai passou por ele do outro lado da rua, de cabeça baixa.

Entrou no primeiro ónibus que viu para a estação de ônibus, foi tudo uma correria louca, entrou em outro em direção a Tel Aviv, iria a embaixada americana com todos esses documentos.

 Só relaxou quando estava chegando a Tel Aviv, sabia que talvez não conseguisse entrar pois não tinha hora marcada.

Chegou no embaixada, viu que um homem olhava o relógio, este o confundiu com alguém, venha temos que aproveitar nossa hora.

Só depois entendeu que o mesmo era um advogado.   Entrou, com ele, até a sala de alguém importante.  Quando o homem começou a falar no seu caso, pediu licença.   O senhor me confundiu com seu cliente, mas estou mesmo precisando de um advogado, retirou da mochila, todos os recortes, os documentos, as cartas de chantagem.

Hoje a pessoa que pensava que era minha mãe morreu, com o sentimento de me livrar de algo, fui procurar meus documentos, era uma casa que tudo estava sempre fechado a chave, as perguntas nunca foram respondidas, quando alguém perguntava como tinha conseguido ter filhos tão velhos, contavam que era um milagre de Deus, creio que o rabino sabe, os acobertando.  Nunca me senti filho deles, odeio ser ultra ortodoxo, queriam me obrigar a casar, eu só tenho 16 anos nada mais.

Gostaria que pudessem verificar isso. 

O homem o olhava, te vejo muito maduro, me conta que mais fizeste, ele riu, meu símbolo de liberdade, tirou um vidro pequeno da bolsa, a mecha de cabelo que tinha cortado do seu lado direito.

E essa roupa?

Posso ser honesto?

Claro que sim.

Eu desde que soube que tinha que me casar, passei a escapar de noite, quando estavam em alguma reunião, roubei uma calças jeans, duas camisetas, um tênis,  que ficaram me servindo para minhas escapadas. 

O homem da embaixada ria, pelo que vejo gostas de aventura?

O senhor já se sentiu ameaçado?

Pois eu fui a vida inteira, tudo era motivo para castigo, se não lia a tora, castigo, se não decorava castigo, tudo era motivo para me pegarem.   Quando disse que a noiva era muito feia, levei uma bofetada, cada vez que me negava a isso, uma dele, outra dela.

Fora as vezes que me pegavam com cinturão, sem a menor cerimônia, tirou a camiseta, bem como abaixou as calças,  se viam muitas marcas por ali.

Havia um furo numa das partes da bunda, aqui a fivela se enterrou.  Mas o castigo seguia, porque não havia curativos, para todos efeitos, estava com febre em casa.   Nesses dias me davam água, um troço de pão velho.  O senhor acha que os pais fazem isso.

O homem, que depois ficou sabendo que se chamava Robert Daltrige, o advogado que olhava sua maneira de falar, com a boca aberta, Sr. Wailler.

O senhor Robert, chamou um homem que disse que era do serviço secreto americano, lhe passou a informação, veja se consegue descobrir alguma coisa desses recortes, é urgente.

Já comeste hoje lhe perguntou?

Não senhor, não como nada deste ontem.

Venha comigo ao refeitório dos funcionários.  Estavam já fechando, mas pediu que lhe fizessem um sanduiche.  Perguntou de que queria.    Ele riu, pois tinha provado na sua última escapada, um cheeseburger.   Provei um da última vez que escapei.

Lhe trouxeram uma coca cola, o sanduiche.

Estavam ali, conversando, o advogado aproveitando falando do seu caso, que era similar ao seu, uma mãe que tinha fugido para Israel com seu filho, sem autorização do pai.

Uma hora depois, apareceu o homem do serviço secreto, pensou como podem ser do serviço secreto, se basta olhar para saber que é.

Falou ao ouvido do Robert, que ele depois descobriu que era o cônsul americano.

É parece que tua história tem fundamento.   O homem que diz ser teu pai, está tomando imediatamente um avião, para cá.   Conheces alguém, tens aonde ficar?

Não senhor, mas posso dormir na praça, me escondo bem, ninguém vai me descobrir.

Deixa disso, chamou o mesmo homem, lhe disse para arrumar um lugar para ele ficar.

Mandou preparar outro sanduiche pois ele poderia ter fome de noite.  Acredito que o homem que pode ser seu pai, estará aqui amanhã.  Pediremos um teste de ADN, para confirmar, ao mesmo tempo que mandaremos reter o que disse ser seu pai.

Ele agradeceu ao senhor Roberto, muito obrigado, me arrisquei, a história podia ser tonta, mas tinha que tentar saber quem eu sou.

O do serviço secreto, deu um sorriso torto,  me siga.  O foi seguindo, observando sua bunda apertada nas calças, morria de vontade de passar a mão.   Num dado momento, lhe disse sem se voltar, para de ficar olhando a minha bunda, não tens vergonha.

Não gosto de olhar, ela é muito bonita, me atrai.  O outro parou, olhou para ele disse que era muito sem vergonha.

O que não sou, é hipócrita.  Disse uma verdade.

O outro, fez sinal que o seguisse, mas nem se atreva a passar a mão nela, o último que tentou ficou sem mãos.  Ele riu da ameaça, estou imaginando a cena, que maldade.

Na verdade, estou tão acostumado a ser castigado por dizer o que penso, que talvez me atrevesse ficar sem mãos.

O outro o fez entrar num quarto ali no pátio, eu vivo no quarto ao lado, qualquer coisa me chame, meu nome é Jameson.  Viu que no quarto tinha uma geladeira, não tinha fome no momento, colocou o sanduiche lá, por causa do calor, tirou sua roupa, tomou um banho, se masturbou pensando na bunda do Jameson.  Como era bom pecar.  Queria ter perguntado a ele quem era o homem que dizia ser seu pai.

Vestiu outra vez a calça jeans, colocou a outra camiseta que estava na mochila. Bateu porta ao lado.    Jameson, pode me dar alguma informação sobre esse homem que vem amanhã que diz ser meu pai.

Boa tentativa, mas não tenho autorização para falar, melhor esperar, para não fazeres ilusão.

As vezes a realidade é outra coisa completamente diferente.

Vá descansar, sem pensar besteiras.

Já fiz uma besteira, me masturbei pensando em ti.

O Jameson, não sabia se ria ou não.   Deixa de ser atrevido, porque senão te levo para a masmorra.

Ele voltou ao quarto, se jogou na cama, nem queria ver televisão.  Sempre tinha morrido de vontade de ver filmes, essas coisas, mas era proibido.

Acabou dormindo, por tanta confusão, como se relaxou, a adrenalina também foi abaixando.

Se despertou de madrugada, ficou pensando se estava louco, será que era realmente filho desse homem que vinha.

Afinal não sabia o que podia ser tantas coisas.   O que lhe intrigava era a quantidade de dinheiro, o deixaria escondido enrolado na camiseta suja, para caso necessitasse de um plano B.

Logo de manhã o Consul Robert mandou lhe chamar, tinham prendido o que se fazia passar por seu pai.   Este confessou que realmente não era filho dele, mas se recusou a falar mais nenhuma coisa.

Estavam levantando a vida do casal nos Estados Unidos.

Se concentrou, procurando retalhos da sua infância, se lembrou que de vez em quando ela se ausentava, voltava com alguma criança, que desaparecia em seguida.  Ficou lembrando que quando isso acontecia, o trancavam no quarto, só abrindo para deixar comida, quando ele saia a criança tinha desaparecido.    Tinha que mijar num pinico, quando vinha levar a comida, levavam, depois traziam limpo.

Será que o dinheiro era disso.  Por enquanto tinha que ficar quieto.

Pediu para falar com o Consul outra vez, disse que tinha se lembrado desse detalhe, das crianças, que o rabino, sempre estava presente nessas ocasiões em que chegavam crianças.

Mandaram prender o Rabino, esse montou uma grande confusão.

Quando foi apresentado ao homem, não sabia bem por que, não gostou dele.

Lhe tiraram sangue, bem como do mesmo.  Este queria ir para um hotel com ele, lhe contar toda a história. O Jameson, disse que enquanto não saísse o teste do ADN, não podia ficar a sos, precisavam ter certeza. 

Quando o levava para o quarto, disse ao Jameson, não gostei desse sujeito, tem cara de complicado.

Estamos levantando o desaparecimento de jovens entre a época do teu nascimento, se existem mais denúncias.  Principalmente se eram crianças judias.

Mais tarde, já quase final do dia, veio o Jameson, com um agente da Mossad, já sabiam que ele não era filho do tal sujeito.   O Rabino tinha contado que o casal, ajudava as famílias que não tinham filhos, trazendo em adoção dos Estados Unidos.  Que ele Omar, não tinha sido aceito pela família que estava destinado, porque sem querer souberam que a mãe, tinha sido viciada em drogas.   Normalmente, as crianças mal nasciam, eram embarcadas para Israel.

Localizaram o filho do sujeito, atualmente servia no exército.   Já tinha se rebelado contra o sistema ultra ortodoxo.  Nessa confusão, ele descobriu que tinha já 18 anos, não 16 como pensava.  Tinham inventado um nome para ele, nada era verdadeiro, quem tinha o nome de sua família americana era o Rabino.

Ao ser contatada, a família disse que sentia muito, mas que sua filha tinha morrido depois do parto, que tinha já uma família grande.  Não o iriam reclamar.

Pediu ao Jameson que o ajudasse, não vão me deixar sair daqui.  Preciso de um passaporte para ir embora.

Ele disse que ia ver o que podia fazer, já que ele era maior de idade.  Brincando disse que com essa podia pensar em deixar passar a mão na sua bunda.   Ficou de pau duro imediatamente.

Dois dias depois, lhe trouxe um bilhete de avião, bem como um passaporte. Aqui tem o nome de tua família, mas terás que usar esse nome que tens Omar Ben Simon.

Amanhã vou levar-te ao aeroporto.

Ok, nem sei como te agradecer.

Não é preciso nada. Riu que ele continuava ficando excitado cada vez que falava com ele.

Perdão não posso controlar, sinto uma atração incrível por ti.

Nessa noite, bateram na porta, Jameson entrou.  Sentou-se numa poltrona, estava de bermuda e camiseta. 

Foi direto, perguntou se ele era virgem.

Claro que sim, mas sempre me senti atraído por homens, sempre gostei de ficar observando na rua a bunda deles.

Como fizeste com a minha?

A tua é muito bonita, mas sou honesto de te dizer que nem sei como se faz sexo com outro homem.

Quando Jameson se levantou, pensou que ia embora, ia lhe pedir para conversar mais um pouco, o que ele fez foi tirar toda sua roupa, o corpo era um espetáculo, foi até ele, foi tirando a sua lentamente, tens um caralho considerável, vais fazer sucesso.

O colocou na boca, ele enlouqueceu, chegou a colocar a mão na boca, pois tinha medo do ruído que podia fazer de prazer.

Teve uma ejaculação de tanto prazer que sentia, mas seguiu com o mesmo duro, Jameson se deitou do lado dele, você é muito bonito.

Não sei fazer essas considerações.

Tens um corpo de garoto, talvez pela má alimentação, mas faça exercício.  O que pretendes fazer quando chegar lá.

Sou sincero em dizer para ti, que não sei.  Pois se essa família não me quer, porque vou procura-los, quero fazer uma universidade, estudar algo.  Mas tudo é complicado, preciso de um emprego. Um lugar estável.

O que sempre nos impressionou desde o primeiro momento, é que tens uma inteligência superior, uma linha de pensamento maduro, descobriste algo errado desde o momento que resolveste fugir.

Para de falar, falamos depois, não posso me controlar, se agarrou a ele, passando a mão por aquele corpo perfeito, ia fazer exercício sim para ficar igual, pois parecia um garoto, só o seu caralho era de um adulto.

Como eres sem vergonha.  A culpa é tua Jameson, desde que te vi, fiquei interessado em ti. O Jameson se deixou penetrar por ele, queria gritar de prazer, isso ele não faria com aquela garota feia que tinham arrumado para ser sua mulher.

Fizeram mais uma vez, até que Jameson, eres incansável.

Vou fazer uma coisa, meus pais vivem sozinhos, em New Jersey, ele tem um negócio de madeiras, minha irmã acabou de casar-se, vou perguntar se podem te receber, até decidires o que vai fazer da tua vida.   Quem sabe podes trabalhar para ele.

Gostei da ideia, assim terei esperança ver-te novamente.

Pode ser, estou meio farto disso, não era o que eu pensava.  Talvez volte para fazer um doutorado, mas ainda são planos.

Ele ia, embora, pediu que ficasse para dormir com ele, se agarrou a ele como uma tabua de salvação.  Calma, disse rindo, assim não posso respirar.

Se despertaram os dois super excitados, fizeram sexo outra vez, Jameson, disse ao seu ouvido, nunca ninguém entrou assim tantas vezes em mim, nem me deu tanto prazer.   Não vás chegar agora em NYC sair fazendo sexo com todo mundo.

Não, vou te esperar, prometo.

Jameson, voltou vestido, ele estava com a mesma roupa. Não tens um casaco, em NYC vai estar nevando.

Não só tenho isso.   Espera, logo voltou com um casaco de plumas, tem um rapaz da cozinha que tem um corpo igual ao teu.   

Ele ficou furioso, não queria aceitar.

Por que isso?

Sinal de que fazes sexo com ele.

Nem pensar, não é interessante, tampouco inteligente como tu, além de saber me deixar louco.

No meio do caminho, ele passou várias vezes a mão pelas pernas, pelo sexo do Jameson.  Quando chegaram ao aeroporto, foram ao banheiro, ele pediu se podia chupar seu sexo outra vez, acabaram transando no banheiro. 

Menino, comporte-se.

Se ficas comigo Jameson, fico aqui.

Não o melhor é ires embora antes que comecem a te chamar para depor nos juízo contra o Rabino, e o velho.   Podem acontecer muitas coisas, o Consul acha que é a melhor maneira de te proteger.

Mostrou uma foto para ele, meu pai vai te buscar no aeroporto,

Ele de brincadeira disse que era mais bonito do que ele, vou me jogar em cima dele.

Jameson disse ao seu ouvido, irei em breve para casa, pedi licença para passar o natal, aí resolvo minha vida. 

Menos mal, vou estar louco de saudade de partes do teu corpo.

Garoto deixa de ser sem vergonha.  O arrastou para trás de uma coluna lhe deu um beijo na boca.  Cuida-te, deixe que meus velhos te ajudem, são boas pessoas.

Queria se agarrar a ele, para ficar, ficou olhando ele se afastar, pois tinha que passar para o embarque,  de manhã sozinho tinha contado o dinheiro, tinha suficiente para um bom tempo, mas ficaria na casa dos pais do Jameson, para poder espera-lo, estava desesperadamente apaixonado.

No avião escutou alguém reclamando que tinham lhe retirado o dinheiro que pensava levar.

Ufa tive sorte, pois como o Jameson o tinha levado, não passou no controle, afinal só tinha a mochila, meio vazia, o dinheiro tudo nota grande, estava enrolado na camiseta suja.

Acabou dormindo, só despertando em NYC.   Saiu confuso do avião, ainda com sono, passou os controles, quando finalmente chegou fora, viu o pai do Jameson, era ele mais velho.  Pensou com um sorriso na cara, se ele ficar assim continuarei o amando.

O homem se apresentou, Jimmy.

Ele pediu que falasse devagar com ele, pois não dominava muito a língua, nem se tinha dado conta que sempre conversava com o Jameson em sua língua.   Nunca em inglês.

Ficou embasbacado com a visão da cidade.  Jimmy lhe perguntou se nunca tinha visto nada da cidade, na televisão, no cinema.

Não senhor, em casa não tinha televisão, era pecado, cinema nem pensar, eram muito estritos.

Ele avisou, minha mulher fala muito rápido, mas é um anjo de pessoa.   Vamos passar na escola, aonde trabalha para irmos almoçar.  Tinham passado dois tuneis, isso o tinha feito rir, era como uma criança descobrindo coisas novas.

Jimmy ria com ele, procurou entender como devia ser uma pessoa em que tudo está proibido.

Parou o carro, subiu uma mulher morena, linda, o abraçou e beijou, ele não estava acostumado, explicou isso. Posso parecer desajeitado conforme o tratamento amoroso das pessoas.

Ela era muito diferente do Jameson, pois era morena.  Quando verbalizou isso, ela riu, saiu a ele, disse que ele era descendente de irlandeses, ela de italiano, uma bela combinação.

Jimmy pediu que ela falasse mais devagar, pois ele não tinha vocabulário, precisa pensar para responder.

Foram a um restaurante italiano, da irmã da Maria, as duas falando, o deixaram tonto, não entendia nada.   Jimmy ria a bessa, não se preocupe que as vezes eu tampouco entendo.

Quando viu tanta comida, não sabia aonde atacar primeiro. Na casa de seus falsos pais, comiam normalmente uma sopa, cheia de pão velho, uma salada, nada mais.   Carne nunca.

Maria percebeu, explicou para ela o que comia na sua casa.  

Por isso meu Jameson disse que estavas desnutrido, mas eu vou cuidar de ti.

Quando chegaram em casa, ela perguntou pela sua maleta. 

Só tenho essa mochila com uma camiseta, nada mais.

Está o olhou de cima a baixo, saiu.  Ele não entendia.

Aqui todos somos amigos, com certeza ela já sabe teu tamanho, deve ter ido pedir roupa que esteja pequena para suas amigas.  

De verdade voltou com duas bolsas de roupa, roupa de inverno, camisetas, calças jeans.

Ele agradeceu.

Não acredito, ele agradece, o Jameson, ficava furioso, não gostava aproveitar roupa dos outros.

Venha, vou deixar você descansar um pouco.   Quando iam subir, tocou o telefone, era ele falou com os pais. Depois falou com ele em hebraico. Como sabia que os pais não entendiam, disse sem pensar, tenho saudades de ti.

Eu também, perguntou da viagem, da primeira impressão, logo estarei aí, um beijo.

Ele sentiu realmente o beijo.   Quando chegou no quarto, Maria disse que era o quarto do Jameson, o que era da minha filha, vamos reformar, está cheio de coisas.

Ela tentava falar devagar, mas se atropelava.

Mostrou o banheiro, tome um bom banho, descanse.

Ele queria ficar dentro do quarto, abriu o armário, tinha roupa do Jameson ali, sentir seu perfume o deixava doido.  Viu fotos dele, em cima de uma estante, uma em traje de banho, abraçou a fotografia, podia sentir sua pele junta a dele.

Se deitou na cama, imaginando que estava ali com ele, começou a chorar baixinho, lhe doía o corpo todo, talvez tenha pensado, ele é a única pessoa que me quis, me deu carinho em tão poucos dias, mas foram verdadeiros.

Desceu depois vestido, conversou com a Maria, preciso de umas aulas de conversação.

Vamos ver o que podemos fazer.  Eu dou aula de teatro na escola, queres vir, assim escuta as pessoas falando, estou como todos os anos montando um espetáculo de final de ano, esse para ser diferente, resolvemos fazer um apanhado de tudo que já fizemos.

Foi com ela, estava com problemas, ninguém queria fazer Yentl, cantar “papa can you hear me” que segundo ela cantava Barbra Streisand, quando montamos, quem cantou foi o Jameson, pois ninguém queria cantar.   Meu filho tem uma voz linda.

Ele disse que não sabia quem era a cantora.

Quando ela lhe perguntou se tinha visto o filme, afinal era uma história judia.

Teve que contar outra vez que em casa não tinham televisão, era proibido ir ao cinema.

De noite estava irritada, com isso, o Jimmy estava vendo um futebol americano na televisão, perguntou se ele gostava?

Nunca joguei nada disso, acho um absurdo ficarem brigando por causa de uma bola.

Maria ria horrores, penso o mesmo.

Tirou toda sua roupa na hora de dormir, ficando nu, pegou um blusa de capuz do Jameson, vestiu, tudo para poder sentir o cheiro dele.

Despertou de madrugada, com alguém cantando, se vestiu, desceu, era Maria vendo o pedaço do filme que cantavam a música que ela queria que os alunos cantassem.

Ficou sentado na escada prestando atenção, buscando entender a história.  Ela o viu, ele perguntou o que era a história.    Lhe explicou, ele riu, eu querendo escapar disso tudo.

Realmente as mulheres na sinagoga ultra ortodoxa, é como se não existissem.  Ficam totalmente a parte. Os cantores são homens. Quer ver como é.  Começou a cantar baixinho, uma das coisas que eles cantavam.

Que voz tens?

Vê se consegues cantar essa.   Eu escutei três vezes, mas posso tentar.  Cantou de um folego só a capela.

Maria ria, me salvaste, mais mostrar a esses meninos como se faz, mas vamos fazer diferente, imagina que estas na sinagoga, em vez de ser essa música religiosa, cante a do filme.

Ele fechou os olhos, começou baixinho.  Na sua cabeça traduziu para o Hebreu, quando terminou recomeçou cantando em sua língua.

Ela batia tantas palmas que Jimmy se levantou para ver o que acontecia.

Ela comentou, que era um segredo dele, dela, ele ia salvar a apresentação, para o final de semana.   O bom que o Jameson já estará aqui.

Ele abriu os olhos, como?

Jimmy, soltou, eu disse que não contasse para ti, não sabes ficar de boca fechada.

Ele voltou para a cama, estava excitado só de imaginar ele ao seu lado.  Fechou os olhos imaginando passar as mãos pelo seu corpo, ejaculou sem sequer segurar seu caralho.

Voltou com ela a escola no dia seguinte, ela trabalhou com os alunos, sem comentar nada, quando todos foram embora, ela falou com os que a ajudavam.  Vamos fazer um Yentl diferente.                     O Omar, vai cantar em hebreu e inglês.

Vamos tentar encaixa-lo na música.

Ele disse que não, tinha que ser a capela, porque senão não fazia sentido.

Assim fez, fechou os olhos tentou imaginar que estava na sinagoga, cantando uma música profana.

Ela gravou para depois mostrar para ele.

A pergunta dele, era se o Jameson ia gostar?

Claro que sim.

Sem se preocupar, então soltou, vou cantar para ele, o meu salvador.

A semana passou voando, Maria conseguiu a roupa como ele disse, inclusive os chales usado pelo cantor. 

Era uma segredo entre os dois.  Jameson, chegou na sexta feira de manhã, mas tinha ido diretamente a Washington, para resolver suas coisas.

No sábado de manhã, tinha chegado muito cedo, ele ainda estava dormindo, depois de falar com os pais, disse vou ver meu menino.

A mãe soltou, ele te ama muito, todos os dois sabiam que ele era gay, sempre tinha confiado nos pais.

Tome cuidado para não magoa-lo, pois se vê que não sabe que caminho tomar.

Subiu descalço para não fazer barulho, abriu a porta do quarto, riu quando o viu vestido com sua roupa, deu a volta na cama, tirou toda sua roupa, se deitou ao lado dele, falou no seu ouvido, estou aqui em carne e osso.

Ele soltou um grito de felicidade.  Mas já estava sendo beijado, não posso deixar de pensar em ti.   Nem pensei que soubesse o que era amor.  Senti tua falta, falava com você na minha cabeça.

Calma, estas parecendo minha mãe falando, só que ele falava hebreu.

Estavam os dois de pau duro, mas se contiveram.  Vou tomar banho, para descermos para tomar café, estão esperando.

Posso ir contigo, ele ficou sentado enquanto Jameson tomava banho, não entrava, porque sabia que acabariam fazendo sexo.  Depois tomou banho frio, Jameson disse que estava louco, ele mostrou seu sexo duro, é o jeito.

Quando desceram os pais os esperavam sentados. Tentou acompanhar a conversa deles, não tinha entendido uma coisa.  Lhe perguntou o que tinha dito aos pais em Hebreu. 

Que deixei meu emprego, não quero mais fazer esse tipo de trabalho, vou fazer uma pós graduação em filologia, lhe explicou o que era, em língua árabe, tenho um posto vacante na universidade, volto a dar aulas que gosto.   Não gosto disso de ser espião, não vai comigo.

Não gostaram muito, mas disse que não queria continuar.

Não vais mais embora?

Não, estas contente.

Nem precisava perguntar a cara dele, era de felicidade.

Almoçaram, depois ele e Maria foram ensaiar, Jameson foi dormir, pois estava cansando.

Gostas do meu filho, verdade Omar.

Eu o adoro, ele me entendeu desde o primeiro momento, se negou a fazer sexo comigo, porque pensava que eu era menor de idade, eu também pensava, só aceitou porque viu que eu já tinha 18 anos, que realmente estava apaixonado por ele.

Ela ria, tenho medo pelos dois, pois eres mais jovem que ele, não tens vivência.

Senhora Maria, sim sou jovem, estou inclusive descobrindo quem sou, pois na verdade não sei, a única coisa que tenho certeza, que é o que me salva, é saber que o quero.

No final do dia Jimmy junto com o filho, vieram assistir o espetáculo, estava lotado, sabiam que Maria, convidava muita gente das escolas de música e teatro.  Dali já tinham saído dois atores, uma cantora que já era conhecida.  Ela tinha telefonado para dois professores da Juilliard que eram seus amigos.  Quero que conheçam uma pessoa diferente ao cantar.

Tinha deixado o número dele, para o final.  Este ano, fizemos diferente, em vez de montar um musical, fizemos um apanhado de tudo que já fizemos.  Agora para o final, o rapaz não é aluno da escola, acabou de chegar ao pais, uma larga história.  Como ninguém queria cantar essa música, ele resolveu me ajudar, me convenceu a fazer de outra maneira.

As luzes se apagaram, ele apareceu no meio do palco, com a indumentaria completa de um cantor de sinagoga.   Se concentrou como tinha aprendido a fazer, mentalmente pensou isso é para ti Jameson.

Começou a cantar a música a capela, como faria um cantor durante uma cerimônia, mais ou menos no meio, passava para o hebreu, o silencio em volta dele era impressionante, voltou a cantar em inglês.

O público aplaudiu em pé.  Ele viu quase no final o Jameson ao lado do Jimmy, sorriu para ele.

Batiam tantas palmas, queriam que cantasse outra vez.  Ele tinha escutado num walkman velho uma música, que na caixa estava escrito, minha música preferida.  Concordou em cantar outra música.   Cantou Moon River a capela, olhando em direção aonde o Jameson estava sentado.

Quando acabou tudo, viu que Maria falava com dois homens, um muito branco, outro muito negro.  Apresentou os dois, são professores de música da melhor escola daqui.  Querem que te apresentes lá para conseguir uma bolsa de estudo, a seleção é depois do ano novo.  Queres fazer.

Ele foi honesto, como não sei o que fazer da minha vida, aceito, pelo menos movo a inercia.

Ficaram olhando para ele, Jameson que chegava, explicou o que ele queria dizer, a história do Omar, é muito especial, nem meus pais sabem direito.  Ele conhecia os dois, se quiserem venham amanhã almoçar, eu conto, junto com o Omar sua história.

Iam comer no restaurante, ele disse que seria impossível, do lado de fora se escutava todo o ruído, fico confuso.  Prefiro comer um hamburguer como aquele que me conseguiste no primeiro dia.

Passaram num Mcdonalds, compraram para levar, nem sabia que existia isso.  Depois ficaram os quatros comendo em silencio.

Jimmy foi quem soltou, eu entendo nada de música, mas a Maria entende, se não tivesse casado comigo, teria sido uma grande cantora, colocou a mão sobre a dele, te amo meu coração.

Como sabias que aquela música era minha preferida?

Estava escrito na caixa da fita do walkman.  Dormi dois dias escutando a mesma. Me fazia sentir mais perto de ti.

Nessa noite fizeram sexo com cuidado, porque ele disse que seus pais podiam escutar.

Mas só o fato dele estar ali, lhe completava.

Temos que ir ver um apartamento perto de aonde vou estudar e trabalhar, se entras para a Juilliard, também.   Queres viver comigo?

Mas tenho que arrumar um emprego, como vamos repartir as despesas.

Eu sei que pegaste o dinheiro da caixa dos velhos, ele disse que só podia ter sido tu.  Tanto reclamou que a polícia lhe disse que não ia precisar dele mais, pois ia passar o resto dos dias presos, pois trazer crianças de contrabando para Israel, é crime.  

Eles tinham um complô com o rabino, os jovens que fossem parentes próximos demais, eles conseguiam crianças, para não terem na comunidade risco de crianças retardadas.

É verdade, tem muito retardado, mas eles escondem.

De manhã, sabiam que seus pais iam a missa, fizeram sexo como aos dois gostavam, disse ao Jameson, eres meu primeiro homem, espero que sejas o último.

Jameson disse que ele já estava diferente, mais gordinho. Terás que fazer exercício, para ficar com um corpo como o meu.

Começaram tudo de novo, um determinado momento, perguntou se ele podia lhe penetrar, tenho que saber como é, pois não é justo só eu fazer isso.

Com muito cuidado Jameson o penetrou, ficou alucinado, sentado em cima dele, os olhos dele, brilhavam.  Se sentiu em fogo, a cara do Jameson o excitava, era como uma roda viva, quanto mais um ficava excitado, mais ficava o outro.  Terminaram ao mesmo tempo. Beijando-se como loucos.

Jameson soltou que nunca em sua vida tinha tido uma experiencia assim. 

Só posso dizer que te quero, meu homem.

Depois Jameson percebeu que tinha livros fora da estante.  

Sim estou lendo esses dois ao mesmo tempo, porque os assuntos, são contrários entre si, mas ao mesmo tempo se completam.

Como chegaste a essa conclusão, depois ele ficou admirado com a logica que ele usava, acredito que serias um excelente aluno ou de filosofia, ou de literatura comparada.  Buscou entre seus livros, dois de autores demasiados extremistas, lhe deu para ler, vamos ver como se sai nessas.  

Omar colocou os dois na sua mochila, sorriu dizendo que teria que passar numa papelaria para fazer compras

Ele achou graça como ele se comportava.                           Mas foram olhar apartamentos perto da Universidade, Jameson, no seu trabalho tinha conhecido muita gente, foi falar com um agente imobiliário que tinha conhecido numa investigação.  Explicou o que queria.

Tenho um exatamente como queres, o venho guardando para um cliente especial, visto pertencer a minha tia, ela vive no mesmo edifício, só a pouco tempo descobriu que esse apartamento lhe pertencia, mas claro, nesse tempo o inquilino não pagou nada, sequer o condomínio.   Ela se viu num aperto, depois de muita briga, conseguiu colocar o mesmo para fora.

Ficava no último andar de um edifício antigo, precisava de uma boa mão de pintura, no salão que tinha o chão de tabuas de madeiras, inteiras, teria que pedir ao seu pai para conseguir arranjar, tinham arrancado todas.   Tinha dois quartos, dois banheiros, uma cozinha americana pequena, uma parte da varanda era fechada, mas o chão estava estragado porque tinha deixado aberta, com chuva e neve, foi a merda.

Chamou seu pai, Jimmy, olhou examinou tudo, sorriu , deixa comigo, no dia seguinte começaram a arrumar tudo.   Jameson tinha os moveis de seu antigo apartamento guardados no armazém do pai.

Iriam usar o segundo quarto para uma sala de estudos.  Mas claro nem tudo era perfeito, tudo era em número singular, pois ele sempre tinha vivido sozinho.  Então o jeito foi comprar uma nova poltrona para o salão, mas deixou que Omar escolhesse tudo.  

No dia 5 de janeiro, ele tinha a prova na Juilliard, estava nervoso, tinha ensaiado muito, Maria o tinha acompanhado ao piano, para se apresentar.   Escolheu bem as músicas, que se adaptassem a sua voz.   

Mas ele se apaixonou por uma das músicas preferidas do Jameson, “Good Morning Heartch”, lhe cantava no ouvido de manhã, este ficava louco, lhe dizia com voz rouca, assim não saímos da cama.  

A outra que preparou sozinho, foi Summertime, mas a fazia a capela, como um cantor de Sinagoga, como que declamando a mesma com uma voz rouca.  Teve o trabalho de mudar a letra para o Hebreu, Maria quando descobriu, incluiu tocar para ele.

Acabava ela chorando como uma Madalena.

Ele tinha crescido, o médico tinha dito que seu estado de desnutrição, era perigoso, pois podia ter uma tuberculose, que devia se proteger bem no inverno.

Nesse dia fazia um frio infernal, nevava.  Ela tinha comprado para ele em segredo, uma calças negras, bem como uma blusa de lã do gola alta.  Parecia um brinquedo nas mãos dela.

Estava no fundo mais nervosa que ele.  Teria que cantar três músicas, ele começou com Good Morning Heartch, depois passou para Moon River, ai fez o Summertime, a cara da banca era impressionante, duas professoras tinham a boca aberta, pois a vocalização dele era perfeita, quando terminou, uma senhora de cabelos brancos perguntou emocionada se ele podia cantar Hasidic Kadish,  ele fechou os olhos, se lembrou de uma vez que tinham ido visitar uma sinagoga no centro de Jerusalém, que um cantor cantava essa música, fez um sinal de um minuto.

Com os olhos fechados cantou, com todas as nuances dessa música, ficou cantando como fosse para a mãe que não tinha conhecido, já morta.

Quando terminou, a mulher chorava copiosamente, se levantou da mesa, foi abraça-lo, meu pai morreu ontem em Israel, não pude ir ao enterro.  Muito obrigado meu filho.

Maria ria, agora os professores disputavam entre si quem ia ser seu professor.  A senhora perguntou se ele sabia ler partituras.

Nem sei o que é isso, lhe respondeu.

Pois serás meu aluno de aprender a ler, escrever partituras.   Estava feliz da vida.

Entregaram a Maria, cada um, uma folha do que podiam ensinar, ele que escolhesse.

Ela ria como uma louca, venha, vamos visitar um parente meu, Jameson e Jimmy já estão lá nos esperando.   Era um restaurante dos antigos de Little Italy, depois do Soho, ela só faltava dançar pelas ruas, ele estava aturdido, lhe dizia para falar com calma, pois estava confuso, as paredes o escutavam, mas ela dizia, depois te explicarei,  mas preciso falar, desabafar.   Pararam numa praça, ela tirou uma garrafinha de água da bolsa, tomou uns goles, passou para ele, que a olhava assustado.

Verás, eu fiz essa prova, fui classificada, mas já estava gravida do Jameson, tinha que escolher entre meu filho que ia nascer ou uma carreira.   Escolhi meu filho.   Agora você se classifica melhor do que eu.  É um sonho.

Quando chegaram ao restaurante, ela falou com os parentes, quando sentou-se à mesa, perguntaram então.

Omar, estendeu a mão, ela responde.

A cara dos dois era ótima, parecia que tinham aberto uma comporta de palavras, ela misturava italiano com inglês.   Quando fez uma pausa para tomar água, Jimmy tomou as rédeas, não entendemos nada, respire fundo, fale devagar, sabia como controlá-la, olhe estão todos olhando para cá, pensam que estas louca.

Ela respirou fundo, começou a falar lentamente.  Os professores no final, estavam brigando por causa dele, todos o querem como seu aluno.  Sinal que tem potencial.  Contou o que ele tinha cantado para a professora de partituras.   A mulher chorou muito, pois não ido ao enterro de seu pai em Israel.

Jimmy de gozação disse, vais precisar rápido de um agente, pois quando começarem os contratos, tem que ser alguém que te conheça bem.  Ele olhou para o Jameson, este ria, o Jimmy a mesma coisa.   Mas ao responder a pergunta, foi com outra.

O que faz essa pessoa, nunca ouvi falar num agente, só conheço do de polícia.

Riram horrores com sua inocência.  Maria lhe estalou dois beijos na cara.  Agora já estava se acostumando a esses arranques dela.

Quando lhe explicaram, ele balançou a cabeça, mas se é isso já tenho um, sinalizou a Maria, foi ela que arrumou toda essa loucura para minha vida. 

Ai de ti se não me escolhesse.

Jameson ria dizendo, salvo pelo gongo.

Dali iriam a Universidade, já tinha seus papeis da escola Hebraica.  Tinha resolvido fazer Literatura, depois faria literatura comparada.

Novamente Jameson tinha mexido seus conhecimentos, o levou para ser entrevistado por um senhor muito maior.

Simplesmente perguntou o que ele estava lendo, ele tirou os dois livros da mochila, Jameson me disse para ler isso.

Sem parar, foi falando, fico pensando como duas pessoas, em época distintas, podem falar a mesma coisa, mas com palavras diferentes, à primeira vista, parece que esse mais moderno está renovando alguma coisa, mas tudo é uma manipulação exclusiva da palavra.

Falou durante cinco minutos, o senhor, lhe estendeu um copo d’água, estava rindo, ele deve ter feito isso de propósito, o muito filho da puta.   Sabe que eu batalho com esses dois livros com os alunos, nenhum faz o que você acabou de fazer.

Ele me disse que lês a muito pouco tempo?

Sim, era pecado ler livros que não fosse os sagrados.

Contou do livro que tinha achado, e que tinha lido mil vezes escondido, tem uma página que gosto muito, repetiu de cabeça tudo que tinha lido.   Desde que cheguei aqui fui lendo por sequência, os livros que estão na estante do quarto, da primeira, li primeiro os que via muito manuseados, pois era evidente que ele gostava desses textos.

Mas o que gostei mesmo, pois parece uma história de um homem se debatendo continuamente com suas próprias ideias, porque se paro para analisar, cada momento, no fundo ele está analisando seus atos, mesmo quando se pode imaginar que está louco, não está, analisa essa loucura transitória.

De que livro falas tu?

Don Quixote de La Mancha, de Miguel de Cervantes, fiz uma série de anotações sobre o assunto, mostrou ao professor, a cada capitulo, ele analisava o que realmente entendia do personagem.

Quando lhe perguntou a idade, respondeu, eu pensava que tinha 16, resulta que tenho mais de 18 anos, uma larga história.  Me aborrecia nas aulas, com 10 anos sabia a Torá totalmente decorada folha por folha. 

O homem fechou os olhos, lhe perguntou a página 134, o que diz?

Ele em hebraico, recitou a página inteira.

Acreditas nisso?

Honestamente não, pois prega uma inverdade, o homem não é piedoso nunca, ao contrário, é hipócrita, mentiroso, invejoso, muitas coisas mais.

Ok, pode chamar teus pais, ele chamou a Maria, com o Jimmy,  eles são o mais próximo que tenho de pais.

Bom posso conseguir uma bolsa de estudos para ele sem problema nenhum, pois demonstrou que tem uma cabeça privilegiada, mas exijo que faça aulas comigo de literatura comparada, não posso perder a oportunidade, de dar os dois últimos anos de aulas nessa faculdade, sem ter um aluno brilhante.

Ele não tinha entendido muito bem?   Que quis dizer com tudo isso.

Bom, terás uma bolsa de estudo, financiada por algum homem rico, que deduz isso dos seus impostos, o que terás é dinheiro para estudar.  Vivendo com o Jameson, estarás coberto.

Depois te explicou direito, vendo que ele ficava confuso.

Foram passar um final de semana fora, para relaxar de arrumar apartamento, transferir os livros do Jameson. 

Este viu que ele já tinha uma caixa de cadernos, perguntou o que era.

Você não vai querer que eu escreva nas laterais do livros, comprei isso, assim vou anotando o que penso.

Veja, como aqui a página é dupla, de um lado anoto o que pensei de um sobre o assunto, busco o mesmo assunto no outro, escrevo do outro lado, depois analiso os dois.  Tudo era muito organizado.

Tiveram que alugar roupa de frio, para andar na neve, mas ele adorou, finalmente tinha uma família.

Quando voltaram foram para o apartamento novo, havia alguns momentos, principalmente na hora de comer que sentia falta da Maria, o som de sua voz, era sempre quente.  Quando disse isso ao Jameson, ele riu.   As vezes também sentia falta disso, principalmente quando estava sozinho.    Uma vez no deserto, imaginei ela ali falando aos quatro ventos.

Iam sempre comer no domingo com eles, sabiam que hora voltava da missa.

Omar lhe perguntou por que não ia a missa?

Deixei de acreditar em Deus.

Porque, eu apesar de tudo continuo acreditando, imagina, se ele não tivesse me ajudado, não teria te encontrado, nem a essa família que ansiava.

Quando começaram as aulas, umas fazia de manhã, outras de tarde, de noite os dois se reunião para jantar.  Maria tinha uma chave do apartamento, levava comida para eles.

Ele dizia que era como estar em casa, ao mesmo tempo sentia falta dela.   Jameson dizia a Jimmy, esse sem vergonha quer roubar minha mãe.   Ela como boa italiano, batia no peito dizendo nesse coração tem lugar igual para os dois.

Estavam preparando na Juilliard um especial, pela morte de Leonard Cohen, ele cantaria duas músicas, agora já sabia cantar com a orquestra feita pelos companheiros, a primeira seria Hallelujah, a cantaria em Hebreu, a outra cantaria com o grupo.

Tinha lhe pedido que cantasse o Kadish, por ele ao final, mas que ele fizesse a música.  Ficou semanas ensaiando, construindo uma letra com a Maria, ia todos os dias a sua casa pela manhã, voltava no final do dia.   Nos dois últimos dias, dormiu lá.

Jameson não gostou muito, me tens abandonado, não vê, que não posso viver sem ti.

Ele ria, já te compenso esta noite depois do espetáculo.

O mesmo foi um sucesso, o cantor anterior foi muito literal, a música deixava as pessoas distraídas, quando ele começou a cantar Hallelujah, fez uma coisa que tinha escutado, mas nunca tinha feito, o ruído que faziam os homens e mulheres com a língua.  Todo mundo parou o que estava olhando ou falando, ai então começou a cantar.

No final, quando disseram que ele ia cantar um Kadish, muita gente ia começar a se levantar, quando ele entrou paramentado de cantor de sinagoga, fazendo o som com a língua.  Mostrem respeito por um grande compositor, escritor, cantor, um homem que honrava sua música, sua língua.

Parou no meio do palco, vazio, só ele sem acompanhamento nenhum começou a falar primeiro o Kadish, soltando a voz, mas não cantando, para que as pessoas entendesse o que ele iria dizer, isso o tinha preparado com a Maria, depois soltou sua voz maleável cantando a ode que tinha preparado.  Terminou com Hallelujah, a parte final. Tinham combinado que entraria todos os cantores com Hava Maguila, os jovens da orquestra, entravam tocando, dançado ao mesmo tempo.

O público se levantou cantando junto.

Quando saiu do palco, Maria, o abraçava, ficou perfeito.  Estava ao lado dela, um homem, viu logo que era um rabino, ela o apresentou, Abed Wailler, rabino de uma sinagoga, pequena, integrada por negros, bem como alguns drusos.  Queria que no domingo fosses cantar para eles.   Não podem pagar muito.

Gostou da cara do homem, se via que era jovem.   Estava rindo com ele, quando Jameson chegou, se conheciam, disse que tinham estudado juntos na universidade.

Maria acertou sua agenda, iriam todos.

A cara do Jameson, mamãe, a senhora precisa perder essa mania de organizar tudo, incluindo todos.   Não nos perguntou a mim, nem ao papai se queremos ir.

Eu quero ir, conheci o pai desse garoto, ele teve uma vida complicada, pai alcoólatra, uma mãe que esfregava o chão de muito judeu rico.   Ela era drusa, se sentia rejeitada por todos da comunidade deles.   Tua mãe era a única amiga que ela tinha.  Todos esperavam que esse garoto fosse  cair na drogas ou nas más companhia, ao contrário, era a melhor nota da escola, conseguiu uma bolsa de estudos para fazer universidade.  Se tornou rabino, de uma comunidade de excluídos, negros, judeus pobres marroquinos, etiopês, drusos.   É uma pessoa muito séria.

Jameson não teve outra maneira que ir também. 

Ele não cantou paramentado, pois sabia que a comunidade era pobre.

Quando chegaram, viu que uma família chorava muito, perguntou o que se passava, o pai tinha morrido na rua a um dia atrás, tiveram que o enterrar rápido, nenhum filho tinha rezado o Kadish, pois não sabiam como rezar.

O fazemos no final, o senhor reúne todos os filhos, faço junto com eles.

O templo era pequeno, uma velha igreja católica que tinha sido cedida a anos pela prefeitura, não tinha dinheiro para recuperar a estrutura.

Ele oficializou com o rabino toda a cerimônia cantando.  Ao final o rabino chamou a família, para o Kadish.  Ele primeiro falou, façam comigo todos os primeiros movimentos, da oração, faremos juntos, devagar, depois ele começou a cantar em hebreu.   

No final, junto ao rabino, ficaram ali apertando as mãos de todas as cores.  Tinha se sentido emocionado, isso para ele era mais comunhão que tinha sentido aonde tinha sido criado.  Sabia todo o ritual porque era um observador.

Dois jovens se aproximaram, podíamos falar contigo.

Sim claro, que posso fazer por vocês.  

Éramos um grupo, mas nosso cantor virou cantor Pop, entrou para um concurso, também precisamos alguém na percussão, mas que entenda de música árabe/judia.

Um indicou ao outro, ele é druso, eu descendente de judeus com árabes, gostaríamos que escutasse nossa música.   Para ver se podemos nos encaixar, queríamos cantar aqui na sinagoga, o rabino já nos ofereceu o lugar, a acústica você viu é maravilhosa.

Em vez de dizer vou pensar, soltou quando nos vemos?

Amanhã a noite pode ser, por volta das seis, pois os dois trabalhamos.

Ok, estarei aqui, o rabino que estava ao lado sorria, assim poderia captar mais jovens para sua comunidade.

Vou ver se na Juilliard encontro um percussionista.

Jameson, no caminho de volta ia reclamando, agora isso, daqui a pouco não sobrara tempo para mim.

Maria estalou, deixa de ser egoísta, devias te juntar para ajudar esses jovens, tiveste tudo, eles lutam por uma vida melhor.  Toma vergonha na cara, eu não te criei para que fosses o melhor do mundo, mas sim para que fosse um homem justo.

O silencio até em casa foi ótimo.

Quando Jimmy, que tinha saído para comprar pão voltou, o silencio na casa era ótimo.  Mas foi dizendo que tinha encontrado o padre da paroquia, que tinha perguntado aonde tinha estado que Maria não tinha ido à missa.   Era um homem muito estrito, além de velho rabugento.

Devia ter dito que mudei de religião, agora sou de uma religião que é o mundo de Deus.  Estou farta de estar fechada numa igreja que não faz nada pelos outros.

Ninguém ousava discutir quando ela ficava irada.

Omar não disse nada, mas não estava disposto a perder a abertura que tudo isso estava lhe dando, era o melhor aluno da universidade, as discussões com o velho professor, era ótimas, os outros alunos, a princípio não entenderam.  Estavam os dois discutindo numa análise de dois livros que ele tinha indicado, buscando uma terceira via para entender o que os dois escritores tinha realmente buscado transmitir.    Aulas mais tarde, ele provocava que algum outro estudante comentasse com ele como tinha feito anteriormente.   Poucos se destacava, porque havia realmente que ler profundamente um livro, analisar as frases, procurar um duplo sentido nelas.

Com o tempo alguns aderiram, se preparavam profundamente, porque sabiam que a batalha com o Omar não seria fácil.    Um dia Jameson que passava pela classe do velho professor, ficou parado na porta, sem que o visse, como Omar defendia as suas ideias, ele mesmo tinha lido e relido os dois livros, não tinha entendido o que ele explicava.

Um dos colegas dizia, que não estava escrito exatamente isso.

Ora, soltou o Omar, esse escritor esteve sob o julgo da censura em seu Pais muitos anos, tu crés que ele seria idiota de escrever realmente o que pensava.  Ah, que ler o subtexto, bem como nas entre linhas.   Se pegas esta frase, a solta pelo ar, escreveu a mesma no quadro.  Ela não quer dizer nada, é banal, idiota até, mas se a dividimos assim.  Cortou a frase em quatro, leia só esse pedaço da frase, quer dizer uma coisa totalmente diferente, agora o segundo, o silencio era impressionante, o professor no fundo da sala, ria.  Falou, eu sempre achei essa frase perdida nesse mar de palavras, mas como você analisa, parecem formar ondas.

Jameson, percebeu, que até a voz do professor estava mais jovem.

Quando chegaram ao final, a frase resultava totalmente diferente, fazendo um sentido, como uma mensagem em código.

Cada escritor, espero não estar sendo louco ao dizer isso, principalmente dos países complicados, sempre usaram uma linguagem dupla.   Estou enganado professor.

Ah, quero dar uma notícia antes de responder, hoje foi aprovado, ficarei mais dois anos na universidade.

Meu filho não estas errado, se analisamos a primeira edição de Arquipélago Gulag, de Aleksandr Solzhenitsyn, verificamos, que tem pontos diferentes da segunda edição.

O primeiro foi mandado para fora da Rússia, ele ainda era um prisioneiro, muitas coisas estavam em doble sentido, nas entre linhas.  Por mais aberta que era a escritura, muitos intelectuais ficaram sem entender, principalmente os que se diziam comunista.

Para estes era uma bofetada em tudo que acreditavam.

Vou ver se consigo uma cópia da primeira para analisarmos.

Ficou sentado no pátio de longe, quando viu o professor saindo com a mão nos ombros do Omar, falava com ele, como se fosse um igual a ele em tudo.

Ele estava orgulhoso, agora entendia, que já não tinha só um garoto na cama para fuder, mas sim um homem, com uma cabeça privilegiada.  Nesse momento se deu conta que o amava profundamente.   Os dois continuavam fazendo um sexo, que nenhuma experiencia anterior tinha conseguido chegar.   Com ele era uma coisa completa.

Ele conseguiu um rapaz que tocava guitarra, que também tocava o alaúde árabe, o percussionista foi fácil, viu um rapaz moreno, uma cor distinta, não era negro, disse que era da Etiópia, concordou levar dois aparelhos que ele gostava de tocar para ver se encaixava.

Um logo na primeira reunião, Maria compareceu, riram muito, pensava que ela seria cantora, mas como todos eram jovens se encaixaram.  Cada um mostrou o que sabia tocar.  Gostaram do local de ensaio, bem como o horário, todos tinham outras ocupações.   Um dos dois que ele tinha conhecido primeiro, pediram que cantasse a capela, como tinha feito outro dia, vamos ver como nos saímos te acompanhando. Ensaiavam todos os dias, ele estava ficando com um horário complicado, de manhã uma parte Universidade, depois Juilliard, depois ensaio.

Estava entre os tempos, escrevendo tudo que se lembrava da sua infância. Queria escrever sobre isso, para ao mesmo tempo entender as coisas, achava que tinha que preencher lacunas.

Dormia agarrado ao Jameson, como se tivesse medo de perde-lo.   Um dia esse despertou, com ele no meio de um pesadelo.   Estava sonhando com o dia, que o velho tinha lhe dado a primeira surra, o chamava de bastardo, lhe retirava o prato de comida, hoje não comes, ele não conseguia saber qual o motivo, era como se aí tivesse alguma coisa oculta. Se fixou que a mulher, tinha uma folha de papel nas mãos.

Ele dizia a ela, vês, tudo porque não deste atenção ao atestado do hospital, aonde informava que a mãe deste bastardo, vivia nas drogas.   Está tudo escrito nessa página.  Essa tua sede de ganhar dinheiro, ainda nos vai levar a ruína.        Agora infelizmente ficamos com o idiota, pois seus avos dizem que não o querem, tampouco temos documentos de nada disso.

Ela se levantava da cadeira, olhava para ele, lhe dava uma bofetada, escutou o velho falando, nem pense em mata-lo, pois nos comprometeria.

Estava nisso, quando despertou com o Jameson o sacudindo.

Lhe contou tudo do sonho, acho que tenho que saber a verdade ao fundo.   Quem são esses daqui que são meus avôs, porque não me queriam.

Entre tudo isso que tenho em mãos, estou escrevendo tudo que me lembro a respeito, foi o que me pediu o psicólogo, creio que sem querer abri uma gaveta que estava fechada a chave na minha cabeça.

Eu te ajudo, tenho os contatos, podemos ir dar uma olhada, verificar o porquê rejeitaram a filha e a ti.

Ficou agarrado a ele para dormir, mas sua cabeça dava voltas e voltas.

Pela primeira vez, perdeu a hora de levantar-se, teve que se arrumar as pressas para a faculdade.  Se as aulas estiverem chatas, ou não conseguir se concentrar me manda um WhatsApp, vamos dar uma olhada no endereço que tenho.

Realmente não conseguia se concentrar.   Avisou que podia sair.

Jameson levava os papeis que tinha com o endereço.

Era em Williamburg, Jameson, estava com o furgão do pai, lograram localizar o endereço, era um prédio humilde, cheio de crianças, mães com carrinhos de bebês, reunidas fazendo fofocas.

Perguntaram pela família, uma das mulheres torceu o nariz, dizendo o andar o apartamento.

Quando tocaram a campainha, se escutou um barulho incrível de crianças.  Abriu uma mulher despenteada, uma roupa que cheirava a usada, o cheiro da casa era igual.  Pediram para falar com ela, precisavam de uma orientação.   Ela os fez entrar, a sala era uma confusão incrível de roupas jogadas por todos os lados.

Ela foi arrebanhando tudo, pensaram que ia levar para outro lugar, mas que nada jogou tudo num canto.

Tenho horror a casa, arrumar casa.  Saíram duas criança de idade indefinidas, meio desnutridas, são meus netos, meu filho está no exército, sua mulher também, como estão de missão, as deixam aqui.

A senhora tem mais netos?

Mais dois, de meu outro filho.

Não tem nenhuma filha, a cara dela se torceu.  Tinha uma, morreu com 16 anos, nunca soubemos realmente o que se passou, a casamos, porque era uma boca a mais para alimentar, mas meses depois de casada, sumiu de casa, se escapou do marido, veio pedir para ficar aqui, lhe disse que tinha sua casa.   Não soubemos mais, até que vieram da polícia, que estava no hospital parindo.   Nesse tempo o marido já tinha pedido o divórcio, por abandono, nunca soubemos se o filho era dele ou não.   Ela morreu no parto, ele não se interessou, apareceu uma mulher nos ofereceu dinheiro por ele.  Tudo que sabíamos era que vivia na rua, aonde parece ser que se drogava.

Porque a senhora não a ajudou, era sua filha.

Nós quando uma filha se vai de casa, é um alívio, porque não servem para muita coisa.

E seu neto, nunca procurou por ele?

Bom o dinheiro que ganhamos por ele, nos ajudou durante um tempo, para que os meninos estudassem, nada mais.

Tudo era de uma simplicidade absoluta, nem se preocupava com o que estava contando.

Omar fervia de raiva. 

Bom eu sou o seu neto, fui maltratado, tive milhões de problemas, pois como na ficha dela constava que tomava drogas, ninguém me quis em adoção.  Durante quase toda minha vida, pensei que a bruxa que chamava de mãe, o era de verdade.   Levei muitas surras, fui sacudido, mas nada disso me impediu, seguir adiante.

Aonde está seu marido.

A cara dela era de espanto.  Trabalhando, é alfaiate, mande um desses meninos ir chama-lo.

Eu telefono, falou com o homem em hebreu pensando que ele não entendia.  Ele cortou o que ela falava, pegou no telefone, creio que o senhor deve vir imediatamente a sua casa, pois vou chamar a polícia.

Dez minutos depois chegava um homem gordo, com os cabelos sebentos, mal vestido para quem era um alfaiate.    Chegou sem folego.

Estive aqui conversando com essa senhora, sobre sua filha.  Ele repetiu mais ou menos o que tinha falado ela, apenas disse que sua filha e seu neto tinham morrido.

A mulher fazia sinal para ficarem quietos.

Bom senhor, eu sou seu neto, sua mulher me vendeu a uma mulher que levava crianças daqui para Israel, para casais que fosse consanguíneos, para que estes tivessem filhos.

Qual a satisfação que deram ao marido?

Nunca soubemos se ele era o pai da criança ou não, pelo tempo acreditamos que sim, ele apenas sabe que ela morreu.   Ele era muito mais velho do que ela, estava solteiro, nunca tinha se casado.

Pode o senhor telefonar, para saber se podemos visita-lo, não diga nada os dois falamos hebreu, portanto, somente pergunta se podemos ir até sua casa, o senhor nos leva.

Escutaram a conversa, quando saíram o marido disse para a mulher, conversamos quando volte.

Estava furioso, andei como um louco procurando minha filha pelo bairro, depois pela cidade, mas nunca encontrei, era o proprietário do atelier, acabei tendo que vender, por não conseguir trabalhar.   Quando minha mulher chamou do hospital, dizendo que estava morta, foi tudo uma grande confusão.   Ela sempre toma a frente de tudo, menos da casa, é relaxada.  Disse que enterrariam minha filha com o bebê, já que era um bastardo.

Agora entendo, porque enquanto eu estive deprimido, havia dinheiro em casa para tudo.  Pensei que tivesse sido a comunidade que tivesse ajudado.   Hoje trabalho no atelier, que foi meu, passei a ser um simples ajudante.

Olhava para o seu neto, tens coisas dela, essa maneira de olhar inquisitória, ela era frágil, mas inteligente, era a melhor de sua classe.   Até que a mãe quando fez 16 anos resolveu que tinha que se casar.    Quando ela mete uma coisa na cabeça, não há maneira de tirar a ideia de lugar.

Tinham oferecido esse professor, para ser seu marido, ele tinha cuidado dos pais, que vieram da Polônia, depois da guerra.    Seria raro que uma mulher quisesse se casar com ele, pois além de nunca ir a sinagoga, vinha com uma bagagem pesada.  Seus pais tinham perdido o juízo.

A casa estava toda fechada com grades.

Quando o homem abriu a porta, foi para o Omar, como se ver num espelho.  O homem ficou confuso, meu nome é Yosef Rabkin, em que posso ajudar.

A casa estava em perfeita ordem, nada fora de lugar, tudo limpo.  Mas realmente as janelas tinham grades.

Contou a história, escondeu a cara entre as mãos, nunca pude pedir perdão a ela, pela minha brutalidade.  Estava destroçado, meus pais tinham morrido, vim com eles desde a Polônia, estávamos subnutridos, aqui nos ajudaram, eu comecei a estudar, mas eles, nunca conseguiram voltar a realidade, pareciam crianças, que se perderam num labirinto, era muito difícil cuidar deles, eu tinha que trabalhar para sustentar os dois, me esqueci de casar, de manter um relacionamento com uma mulher.

Só fui me preocupar com isso, quando fiquei literalmente sozinho, essas mulheres que arrumam casamento, ficaram o tempo todo atrás de mim.  Quando conheci sua filha, se dirigia ao seu avô, vi que era querida pelo senhor, pensei é uma pessoa amorosa.   Era ela quem mantinha a casa em ordem.

Foi tudo muito rápido quando vi, já estávamos casado, nem sabia como me comportar com uma mulher na cama.   Ao mesmo tempo era brusco, sentia minha intimidade invadida.  Estava acostumado que tudo estivesse no seu lugar como antes.    Nem lhe dei tempo de pensar que era a dona da casa. Tudo que eu sabia de sexo era a masturbação, com isso me contentava, até que tentei por todos os meios fazer sexo com ela, não da forma essa idiota dos que vão a sinagoga, rasguei suas roupas, a penetrei sem preparação nenhuma, como te  masturbas estava pensando só no meu prazer, o dela achava que era igual ao meu.  Foi um verdadeiro horror, descobrir a cama cheia de sangue.  Fiquei fora de mim, pois tinha me comportado como um selvagem, a partir dai não houve remédio, ela morria de medo de mim.  No fundo eu também pois me sentia um mal nascido, um bruto.   Por mais que tentasse, não me deixava me aproximar, um dia voltei para casa não estava, procurei, falei com a polícia nada.  Fui a casa deles, tampouco sabiam nada.  Sua mulher disse que por lá não tinha aparecido.

Mas ela a viu sim, sequer a deixou entrar, disse que ali não era mais sua casa.   A cara do velho era de ódio absoluto.

Só me avisaram quando o caixão já estava fechado, com ela, o bebê dentro.

Só ela, o bebê sou eu.

Por isso eres parecido comigo.   Olhava para Omar com verdadeira adoração, ignorando o resto começou a lhe perguntar, gostas de ler?  Música, parecia um garoto que encontra outro que tem afinidades.

Lhe deu pena dele imensa, não sabia que de sua brutalidade tinha nascido um filho, não tinha tido tempo de se desculpar.

Bem tua sogra me vendeu a uma mulher que comprava bebês, para casais em Israel, tinham que ser judeus.  Mas claro, ela viveu na rua, constava que tinha usado drogas, nunca saberemos se era verdade.  Então ninguém quis me adotar, me criaram eles, me deram uma vida de merda até que consegui escapar.  Aqui estou.

O homem tinha sede de saber tudo desse filho que pensava morto.  Podemos nos ver mais vezes, trocaram celular.   Ficou com pena dele.  Tinha culpa, mas nem sabia basicamente que ele tinha existido.

Foram levar o outro para casa, quando chegaram viram uma baita confusão na porta, era a mulher arrastando malas imensas, para ir embora.

Um detalhe importante, sem sair do carro, fez um gesto ela que se apanhe, tua mãe, não era filha dessa bruxa, era filha do meu primeiro casamento, por isso a casou, para se livrar dela, meu sonho era que minha filha fosse para a universidade, os filhos desta são um vago, o que está no exército, foi obrigado a ir, ou iria para a cadeia.  Tem dois filhos, cada um de uma mulher diferente.   O outro nem ideia de aonde anda. A Casa é esse chiqueiro que vocês veem.

Ainda por cima essa filha da puta, te vendeu ao melhor postor, melhor que vá embora, antes que tenha que passar o resto da vida na cadeia.   Já não tenho forças.  Começou a hiper ventilar, o levaram para o hospital.    Avisaram seu pai verdadeiro, Yosef, apareceu em seguida, contaram o sucedido, ele tampouco sabia que sua mulher era filha do primeiro casamento, daí a pressa da outra casa-la.

Veja te trouxe isso, era a foto dos dois no dia do casamento, ela era uma menina frágil, se via na foto, ele estava incomodo, olhando para o chão.

Jameson foi falar mais afastado com seus pais.

Teu amigo é especial, te olha com um amor imenso.   Sei por que já amei um homem, hoje não tenho vergonha de dizer isso. Segurou as mãos do Omar, quero pelo menos te conhecer, saber o que fazes.

Ele contou, que estava terminando a faculdade, que tinha procurado por isso, pois estava escrevendo sobre ele, o que tinha vivido.

Se quiseres saber sobre a história da minha família, eu posso te contar tudo, depois da guerra estava tudo muito desestruturado.    Imagina chegar a essa terra desconhecida, com dois pais, que se agarravam das mãos, como duas crianças,  eu tinha ficado escondido com uma senhora, ela os encontrou, num deposito de retornados dos campos.  Mas aqui, foram perdendo gradativamente a cordura, ao final eram como crianças, passavam o dia, vendo televisão, todos os programas infantis.   Eu só pude ir a universidade, depois que fiquei literalmente sozinho, mas isso já falaremos.

Que mais fazes, lhe contou da música, isso é herança genética, meus pais eram músicos, ele tocava violoncelo, ela tocava harpa, cantava muito bem.     Mas o interessante que depois não suportavam a música.

A música me salvou, quando estava para explodir, se conseguia comprava um bilhete para o poleiro, do teatro, ia assistir um concerto, para tentar me relaxar, muitas vezes pensei em me jogar no rio,  mas nem por isso, não podia me dar o luxo de deixar os dois sozinhos.

Agora me sinto só, as vezes passo dias em silencio, lendo, o som do silencio é mais profundo.

Ficou olhando para ele, quando tinha muita gente junta, ele gostava disso também o som do silencio.

Vieram avisar que seu avô estava fora de perigo.  Pode deixar eu passo a noite com ele, assim creio que podes descansar, muitas notícias, muita coisa para pensar, colocou as mãos em cima das dele.  Estou muito emocionado em saber que tenho um filho. Ficarei contente que me deixe participar, nem que seja de longe da tua vida.

Nesse momento chegava Maria com Jimmy.  Maria o beijou, o que fazes aqui Yosef?

Ele é o meu pai Maria, o conheces?

Sim é diretor da escola que trabalho.  Você viu teu filho cantando, não se deu conta ainda.

A cara do Yosef era ótima, era você meu filho cantando como os anjos. As lagrimas corriam pela sua cara.

Jameson, comentou, bem que me parecia conhece-lo, mas nunca tinha sido apresentados.

Contou que o médico já tinha vindo, que estava fora de perigo.  Yosef diz que vai passar a noite com ele.  Depois se ele quiser o levo para minha casa.

Ele depois no carro, ficou quieto, era muita informação na sua cabeça, precisava digerir, Maria queria que fosse para a casa deles, mas disse que não, que precisava de silencio, da companhia do Jameson, estaria tranquilo.

Tomou um banho, quando voltou para o salão, Jameson, estava sentado em sua poltrona, olhando para fora, se sentou em cima dele, se acocorou como uma criança, ficou chorando, abraçado a ele.

Tiveste o azar de ter duas bruxas na tua vida, ou melhor antes de nasceres, mas agora estamos em paz. O carregou nos seus braços para a cama, ficaram ali abraçados, até que ele conseguiu dormir.   Jameson ficou preocupado, pois era como se ele continuasse chorando dormindo.

No dia seguinte, arrumou um tempo para passar no hospital, o avô já estava num quarto, com outra pessoa.  Yosef tinha resolvido tudo. 

Tens algumas coisas de tua mãe, essa maneira de olhar, me encanta saber que sobreviveste a tudo isso.   Yosef me convidou para ficar na casa dele, quando sair daqui.   Preciso de paz, para recuperar minha vida.   Talvez aceite.

Disse a Yosef que tinha que ir ensaiar.

Posso ir contigo, adoraria ver, escutar outra vez você cantando.

Foi junto com ele.  Ontem mal preguei o olho pensando em ti.  Não posso dizer que senti tua falta, porque pensava que estavas morto.  Portanto, nunca tinha te visto.   Mas as vezes pensava a se meu filho tivesse sobrevivido, como seria.

Quando viu Maria lá no ensaio, ficou sentado ao seu lado, no fundo da sinagoga.

Esta lhe disse tens que vir domingo, eles cantam durante a cerimônia.  O interessante é que teu filho não é religioso.

Passou a ir todos os dias ao ensaio.   No sábado, Omar disse a ele, que no domingo rezaria um Kadish atrasado pela sua mãe, se ele queria participar. 

Não sei rezar, mas estarei ao teu lado.   Vou trazer teu avô também, ele vai gostar, disse que depois da morte da tua mãe, nunca mais voltou a sinagoga.    Eu só fui no meu casamento, estive buscando para ver se encontrava alguma foto dela, encontrei essa, que foi a que a casamenteira me mostrou.  Vive na mesa de cabeceira,

Era sua mãe, que parecia um bibelô, sentada num desses cenários de fotógrafos, com a cabeça cheia de laços. Como se usava na época.

No domingo quando eles chegaram, ele abraçou o avô que se sentou entre o Yosef e Maria, no Final disse que hoje cantaria um Kadish pela sua mãe, que não chegou a conhecer, que sofreu muito nos poucos anos de vida que teve. Chamou seu avô, o apresentou, bem como seu pai, por último ao meu companheiro Jameson.  Foi um Kadish emocional, pois pela cara de todos eles corriam lagrimas.

Agora que a verdade tinha vindo a tona, o que valia era seguir adiante.

A cumplicidade que surgiu entre ele e seu pai, foi boa, conseguiam aparar suas arestas, agora a família tinha ficado maior, segundo a Maria, podia comemorar, tanto as festividades católica como as judias.  Para ela isso era um luxo.

Jameson apesar do ciúmes, defendia seu espaço com unhas e dentes.   Lhe dizia sempre eu te amo, nunca pensei em dizer isso a ninguém, mas eres a coisa mais importante da minha vida, agora ele era professor adjunto da universidade. 

A ele quando convidaram para ser cantor de outra sinagoga, disse que nem pensar, ele era daquela, aonde o povo as pessoas simples me necessitam.

Tinham conseguido, através de seu pai, da Maria, mesmo do Jimmy que conseguia material bom mais barato, restaurar as partes mais estragadas da sinagoga.    Todos os dias que tinham canto, agora estavam cheios, não havia separações de famílias, estavam ali todos juntos, sem distinção de raças, credos.   Segundo o rabino, era uma sinagoga ecumênica, recebia todo mundo que precisava de paz de espírito.

Outras sinagogas, ajudavam a melhorar essa.   Tinham agora na antiga casa do padre, feito um lugar para os que estavam na rua dormir.   Davam preferencias as famílias, as que tentavam a ajudar a se colocarem de novo em pé, para enfrentar a vida.

Ele estava feliz, tinha agora uma família, grande, como sempre tinha sonhado.  Agora sabia o rosto de sua mãe, a mulher que as vezes aparecia em seu sonhos, agora tinha cara.

No ano seguinte, conseguiram que um sacerdote viesse fazer uma missa de final de ano, ecumênica, assim valia para todos.  O grupo atuou, ele fez questão de cantar uma coisa que preparou com cuidado um Kyrie para a Missa.   As pessoas ficaram com os cabelos em pé, foi alguma coisa emocional.   Era sua maneira de dizer a sua mãe, que agora, aonde estivesse, que ele estava bem.

VIA DE ESCAPE

                                             

Escutava sua avó cantando uma de suas músicas preferidas,  “Bom dia Tristeza” na voz da sua cantora preferida “Elizeth Cardoso”, isso era sua música da manhã, devia ter trabalhado até tarde na sua máquina de costura, a tinha ajudado até tarde, quando o mandou dormir pois cabeceava  muito, vais acabar cortando o que não deve.

Ela na verdade dormia pouco, mas estava preocupado, o dinheiro nunca chegava, ele agora, fazia bijuterias, aproveitando o que lhe tinha dado uma vizinha, sua filha fazia, mas tinha morrido de uma sobre dose, tinha se metido como ela dizia com quem não devia.

Mas ali, era difícil não se meter com quem não devia.  Ele não podia dizer nada, sua avó ficava na sua cabeça, já me basta dois filhos idiotas, um foi embora daqui com um homem, a tua mãe nunca assentou a cabeça, pensando que era a passista mais incrível do mundo, se mandou sabe-se lá com quem para as Ouropas, nunca dizia Europa.

O tinha obrigado a estudar, não posso te mandar para a universidade, não tenho dinheiro, essa merda de costuras mal dá para a gente comer, comprar os meus putos remédios.

Ele no dias de feira descia com pasta o que chamava duas folhas de cortiça, com uma moldura, forrado de feltro negro, aonde colocava as pulseiras, os brincos, que tinha feito, tinha aprendido de olhar a garota trabalhar.  Mas ela fazia o normal, ele improvisava. Acrescentava pedras que encontrava numa parte do parque ali perto, criava coisas diferentes.

Vendia logo tudo, tinha uma semana para repor.  Esta semana tinha chovido justamente torrencialmente nos dias da feira, portanto não vendeu nada.

Sua avó continuava com a ladainha, para que fui me casar com esse cachorrão, estava tão bem solteira, trabalhando sim, em casa de alta costura.  Agora quem vai querer uma velha com reumatismo, com pressão alta, o escambau.  Ai soltava muitos palavrões, mas ai dele se falasse algum, o ameaçava de lavar sua boca com sabão.    Isso que ele já tinha 17 anos.

Era sim franzino, magro, desengonçado, um mulato sarara, de olhos azuis.   Nos dias de feira, as senhoras lhe davam sempre legumes que sobravam para fazer uma sopa para sua avô.

Meu filho se mexa, vá até a casa de mãe Balbina, para ver se tem um chá que me relaxe um pouco, tenho dor no peito.

Escutar ela reclamar de alguma dor, era que realmente estava sentindo, acabou de escovar os dentes, enfiou uma camiseta bem velha, deu um beijo na testa dela, vou sim vó, tô saindo, mas não tenha qualquer, piripaque enquanto eu não chegue.   Só tinha a ela na vida, morria de medo de ficar sozinho.

As vezes ia dormir, pensando, se me desperto amanhã ela não está, como vou fazer, se levantava outra vez, ia até a sala, do apertamento, assim ela dizia do lugar que moravam, lhe dava um beijo.

Subiu correndo a favela, até a casa de santo de Mãe Balbina.  Ela logo mostrou a bochecha para ele beijar.  Era sua madrinha.

O que é desta vez meu filho.   Ela está com aquela dor no peito outra vez Mãe Balbina, não temos dinheiro para comprar o remédio, é muito caro. Ela mandou pedir se a senhora não tem um chá para essa dor.

Ah minha pobre amiga, virou-se séria para ele, que musica começou cantando hoje?

Bom dia Tristeza, a senhora sabe que quando ela canta isso, é porque está com saudade do meu tio, da minha mãe, esses dois desgraçados que desapareceram no mundo.

Ele nem sabia quem era seu tio, nunca o tinha visto na vida, só sabia que tinha ido embora.

Não se preocupe, que ele volta.  Fechou os olhos, juntou as pedras, búzios que estavam ali, jogou mesmo em pé.

Sabes o que devias fazer hoje, ir vender tuas coisas na praia, ali em frente ao Copacabana Palace, fica cheio de turistas cheio da grana.    Pode ir, que eu desço daqui a pouco para fazer companhia para ela, assim converso um pouco, falando mal da vida alheia, que relaxa muito.

Voltou com o chá, o preparou, colocou ao lado dela.  Mãe Balbina me disse que o dia está bom para ir vender minhas coisas em frente ao Copacabana Palace, diz que a cidade deve estar cheia de turistas.  Quem sabe não ganho suficiente para comprar seu remédio.

Mal Mãe Balbina colocou o pé na porta, lhe estendeu dinheiro para o ônibus, para Copacabana, saiu disparado, pela rua da Matriz, para pegar o ônibus que ia para Copacabana.  No ponto estava um grupo de garotos da sua idade, ia para Copa, para ganhar uns trocados.  Uns roubavam os turistas, outros se prostituiam.  Mas ele queria dinheiro limpo para comprar remédio para sua avó.   Se ela desconfiasse que ele tinha feito alguma outra coisa, o céu ficava negro.   Atreveria ainda levantar o chinelo para ele.

Ficou escutando a conversa deles, um deles disse que no dia anterior tinha dormido com um italiano, pau pequeno, enfiei meu caralho naquele cu branco, vou me encontrar com ele. Diz que hoje tem um grupo grande.

Desceu na Rua Barata Ribeiro, os outros foram andando quase correndo para a praia, mas ele, foi indo devagar, balançando a cabeça, pensando, tenho que arrumar um emprego rápido. Senão estava fudido, mas nem uma roupa descente para ir pedir emprego numa boutique do shopping ele tinha.  Seu tênis estava furado, tinha colocado um troço de papelão para enganar.

Tinham tido que se mudar, viviam numa casa ao lado de Mãe Balbina, mas sua avó não aguentava mais subir a ladeira toda.  O jeito foi mudar para esse apertamento, a cozinha era mínima, logo na entrada, o banheiro idem, o quarto era dela, mas de uns tempos para cá dizia que dormisse ele ali, ela preferia dormir no cadeirão da sala.

Quase que um carro lhe pega ao atravessar a Av. Atlântica, estava com a cabeça nas nuvens.

Viu aonde os garotos se dirigiam.  Se sentou um pouco atrás ficou vendo como faziam, uma pessoa que estava nas espreguiçadeiras, se virou, parece que o viu ali mais atrás sentado, desanimado.  Viu que o homem era alto, com um corpo incrível, meio moreno como ele, cabelos de sarará como o seu.    O homem se sentou ao seu lado na areia, começou a falar com ele em italiano.

Desculpe moço, só falo um pouco de inglês que aprendi na escola, mais nada.

Então começou a falar com ele em português.  Ficou surpreso olhando para ele, a cara não lhe era desconhecida.

Não vais fazer como teus amigos, tentar arrumar um namorado italiano para tirar dinheiro dos tontos.

Deus me livre, o chinelo ia cantar na minha bunda, a velha não ia me perdoar.   Nada disso, vim aqui vender as bijuterias que faço, para tentar comprar um remédio para minha avó. Mas estava esperando ver se a praia ficava mais cheia, tem muito homem aqui, quero ver se chegam mais mulheres. 

Esses meninos fazem isso, depois todo mundo os chama de viado lá no morro.   Eu na verdade estava era aqui pensando como sair da situação que estou.   Estou num beco sem saída, não tenho para aonde correr.

O outro soltou, “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”.

Isso diz sempre minha avó, que eu devo pensar sempre muito antes de tomar qualquer decisão.

Mas ela já tá muito velha, nem sei como aguenta ainda todos os dias costurar até tão tarde, mas não tem jeito, eu ajudo, mas só temos uma máquina de costura, a última vez que ela teve que fazer um exame sério, tivemos que vender a outra.

Nem sabia porque estava falando com esse homem que olhava para ele atentamente, hoje começou o dia cantando sua música preferida, Bom dia Tristeza, sinal que a coisa tá feia, fui correndo até a casa de Mãe Balbina, atrás de um chá, porque o remédio que toma acabou a dias, tinha dor no peito.   Por isso tenho que vender pelo menos a metade do que está aqui. Esse puto remédio custa muito caro.   Pior nem dura o mês inteiro.  Esta semana choveu no dia da feira aonde vendo bem, não pude fazer nada.

Deixa me ver o que tens aí.

Ele abriu seu expositor, o homem começou a passar a mão por tudo.

Que diferente.

Eu ganhei isso da mãe da garota que me ensinou a fazer.  Ela morreu nas drogas, a mãe ia jogar fora, eu estou aproveitando, mas claro daqui a pouco não terei dinheiro para comprar nada, eu improviso vou num parque perto de casa, que quando chove desce do morro muitas pedras, algumas são bonitas, como essa, eu as lixo, limpo bem, passo verniz, fica diferente do que fazem os outros que trabalham com bijuteria.

O homem, se levantou, fez um escândalo tremendo, chamado o pessoal que esta na espreguiçadeira, mas falando em italiano.  Venham ver que maravilha que encontrei nas mãos desse garoto, bom para comprar, para dar de presente.

Vieram todos, cada um foi escolhendo uma coisa, quando perguntavam o preço, o homem nem deixava ele responder.   Cinquenta reais cada um.   Ia dizer que era muito, mas ele lhe piscou.

Quando viu não tinha mais nada, sentou-se no chão, com o dinheiro na mão, chorando de emoção, obrigado moço, nessa terra ninguém ajuda ninguém.

O amor da vida de minha avó, meu tio, sumiu no mundo, nunca o conheci, minha mãe, nunca se preocupou comigo, leva desaparecida dois anos, foi embora não sei para onde com um turista que conheceu.   Nunca tinha dinheiro para colocar em casa, só pensava em roupas, sapatos, nem sei quem é meu pai.  A única pessoa que ajuda é Mãe Balbina, mas claro ela vive do dinheiro dos clientes da macumba.   Tampouco é muito, imagina no Morro de Santa Marta, ninguém tem dinheiro sobrando, a não ser os traficantes.   Uma vez minha avó me viu falando com um deles, me deu uma surra de fazer gosto.

Eu faço qualquer coisa por ela.

Como chama essa avó que você ama tanto?

Maria Mercedes Martins, mas todo mundo a chama de Naná, não sei por quê.

Mas ela não morava perto da casa da Mãe Balbina?

Gente, faz muitos anos que nos mudamos para o apertamento, como ela fala do apartamento que vivemos, não aguentava mais subir o morro.

Aí está a explicação.

Olhe bem para minha cara.   Olhou, somos um pouco parecidos, ele tinha um troço de espelho para as pessoas olharem o que compravam, o homem puxou juntou a sua cara com a dele, olhe agora, eram parecidos.

Eu sou Oliva, seu tio.

Ficou com a boca aberta, espere aqui não se mexa.

Como se ele fosse capaz de se mexer.  Esse homem bonito era seu tio. Caramba, será que Mãe Balbina tinha visto isso no jogo para mandar ele vir até ali.

Ele voltou com as suas coisas.  Estava agora de bermudas, camisetas, uma sandália bonita.

Fez sinal para um taxi, aonde mesmo que dizes que mora.

Ele nunca tinha entrado num taxi, disse a direção Barão de Macaúbas, na parte baixa do Morro de Santa Marta.  O homem olhou para trás, um homem bem vestido do lado de um garoto mal vestido, dava para ver os buracos na camiseta dele.

Ufa, espero que Mãe Balbina esteja lá, pois ela pode ter um enfarte. Fez o sinal da cruz.

Calma garoto, todos esses anos, mandei dinheiro para cá, mas sempre voltava como destinatário desconhecido, cheguei a pensar que tinha morrido.

E a primeira vez em vinte anos que volto ao Brasil, se ela não estava viva, não tinha por que voltar, me enganei.

Então eres meu sobrinho.  Não sabes mesmo aonde está tua mãe?

Menor ideia, ela desapareceu uma vez, mas voltou, agora fazem uns dez anos que não sabemos nada dela.   Até melhor, porque ela roubava o pouco dinheiro que a vô conseguia, para suas roupas para ir ao samba brilhar como dizia.

Sim sempre foi louca pelo samba.   Mas chegou a casar com teu pai.

Mas se não sei quem é meu pai, quem me deu esse nome foi minha avô, pois nem registro eu tinha, não podia estudar.   Agora acabei a escola, mas não posso nem pensar ir a uma universidade, não temos dinheiro.

Vá pedir algum emprego por aí, quando dizes que vives no morro de Santa Marta, já te olham de esquerda, ainda mais, roupas velhas, remendadas, quem vai dar um emprego assim para uma pessoa.   Esse tênis, era de alguém, Mãe Balbina me deu, mas tá com a sola furada, não tem problema, eu não o levanto do chão assim ninguém vê.

Seu tio olhava para ele, passou a mão pelos seus cabelos, ah meu menino, eu estive igual a ti, o mundo mudou quando eu me mandei.   Depois te conto minha história.

Estava virando a esquina quando viram uma ambulância na porta do prédio.  Ao lado estava Mãe Balbina, ela quando o viu, saiu correndo, meu filho, ela teve um derrame, claro para isso não serve um chazinho.  Olhou o seu tio dizendo, seu filho da puta, voltou né.

Aonde vão levá-la?

Ao Pedro Ernesto, aonde vão os pobres morrerem.   Ele disse ao do taxi, espere por favor, como tinha dado uma gorjeta, o homem parou.

Ele falou com os da ambulância, vamos para a Clínica San Vicente, ok.  Os dois olharam para ele, venham vamos, não querem que ela morra aqui.

Mandou que ele é Mãe Balbina fossem no Taxi, deu dinheiro para ele.  Pague o taxi lá.

Subiu na ambulância, pegando na mão da sua mãe, que a apertou.

Ele começou a cantar baixinho para ela, “Bom dia Tristeza”,

Quando chegaram na clínica, não queriam atender, ele tirou um cartão de crédito, quero um quarto particular, sou Oliva, tudo isso falando em italiano, costureiro Italiano, quero o melhor para essa senhora.  Foi ela quem me ensinou a costurar.

Foi para a sala de emergência.   Perdão Mãe Balbina, beijou a sua mão, nem tive tempo de falar direito com a senhora.   Estava contando pro Juca, que durante muitos anos, mandava dinheiro para ela, mas as cartas voltavam.  Destinatário desconhecido, pensei que tinha morrido, por isso nunca vinha ao Brasil.

Ficaram sentados ali esperando, viu que o Juca tinha cara de terror, que rezava murmurando.

Que passa Juca, este de repente explodiu.   Que passa, se ela morre, estou literalmente fudido, pois não tenho mais ninguém na vida, ela me criou desde bebê, me fez estudar, nada de sonhos de ser jogador de futebol para ficar rico, tinha que estudar duro, as melhores notas tinham que ser as minhas, me deu tudo que pode, dividia comigo o pouco de comida que as vezes tínhamos, a puta da minha mãe deu no pé com o primeiro gringo que a tirou da merda, como tu, nunca mais se preocupou com ela.

Era duro chegar ao final do mês, mas ela não deixa que eu desistisse, as coisas vão se arrumar, ainda escuto sua música na minha cabeça.  O seu Bom dia tristeza hoje, era realmente muito triste.

Mãe Balbina, não estás sozinho, tens a mim.  Realmente qualquer problema ele corria para ela, sou tua madrinha lembre-se disso.   Vê como os Orixás não mentem.  Te disse aonde ir hoje porque sabia que ia acontecer alguma coisa.  Encontraste teu tio.

Quando a levaram para o quarto, o médico disse que a deixassem descansar um pouco, está muito agitada, fala no filho, apontou ao Juca, não sou seu neto.

O filho é ele. Apontou o tio, com raiva.  De qualquer maneira esperem um pouco, que lhe demos um remédio para ficar mais tranquila. Já venho chamá-los.

Vamos entrar os dois, não precisa ficar com ciúmes, sei que ela te quer muito.

Quando o médico disse que podia entrar, ela com muito esforço levantou a mão da cama. Meu filho, meu neto, com cada mão segurou a deles.  Não chores Juca, hoje rezei tanto por um milagre, tenho medo de te deixar sozinho no mundo, mas teu tio está aqui.

Sabe vô, ele mandou dinheiro para ti muitos anos, deve ser quando mudamos para o apertamento, pois as cartas voltaram, disse que te mandava dinheiro.

Meu filho como estas bonito, aonde andavas.

Moro em Milão mãe, tenho uma casa de alta costura, afinal aprendi tudo com a senhora, lembra que eu a ajudava com a costura invisível, foi o que me salvou.

Ele abaixou a cabeça, beijando na testa como o Juca fazia, ela ficou passando a mão pela sua cara, vê Juca, um dia serás bonito como teu tio.   Agora preciso dormir um pouco, se via que tinha a respiração forte, ele chamou o médico, lhe deram mais medicação.

Ela está com problemas nos pulmões, o coração está falido, tem as pernas muito inchadas, estava sentado com os três, comentando essas coisas.  Se supera, podemos colocar um by pass, caso contrário, tem poucas opções.   O senhor agiu bem, trazendo para cá, somos especialistas, num outro hospital, já estaria morta.

Ele deu dinheiro para Mãe Balbina se ela queria pegar um taxi para ir para casa.

Não me conheces, garoto, te vi nascer, acha que ia abandonar a minha melhor amiga aqui, com vocês, que são dois bananas.   Essa mulher aguentou muito da vida.   Depois  ficou sentada com ela um tempo segurando suas mãos.

Oliva foi ao hotel, com ele, quando disseram que não podia subir, reclamou, é meu sobrinho, olha estou com minha mãe no hospital, viemos só tomar banho.  Aonde posso comprar umas roupas para meu sobrinho, além de um tênis.

A essa hora da noite, só no Rio Sul.  Os dois tomaram um banho rápido, foram ao Rio Sul, lhe comprou roupa nova, bem como um tênis, ele estava com vergonha, sua cueca estava toda furada, remendada mil vezes pela sua avô.

Foram com uma bolsa cheia de roupa para o hospital.   Ficaram os dois sentados a noite inteira ao lado dela.

Juca acabou dormindo, com a cabeça no colchão segurando sua mão.   Ela aproveitou para falar com o filho.

Meu filho, fico contente em saber que não te esqueceste de mim, mas preciso que cuides desse menino, não o deixei cair de lado errado esse tempo todo, devia ter sido igual contigo, não tive compreensão.  Me perdoa.

Eu e que te peço perdão mãe.  De manhã cedo ela respirava com dificuldade, Mãe Balbina, voltou, ficou rezando junto dela.  Lá pelas tantas olhou para cima dizendo, vai minha amiga, vai descansar.  Tinha falecido.

Os dois choravam como dois bananas.  Ela colocou ordem no pedaço, temos que conseguir um lugar para enterrá-la como merece.  Depois tens que conseguir a guarda do Juca, ele não tem documento nenhum, a não ser o que ela fez, o registrou como seu filho.  Agora é como se fosse teu irmão.

A senhora conhece algum advogado, para resolver esses tramites?

Sim tenho um bom, que é meu cliente.  Espera de sua bolsa imensa tirou uma agenda, chamou passo o celular velho ao Oliva.

Conversaram, iria conseguir um tumulo no cemitério do Caju, ali podiam fazer o velório também.   Ela ficaria na geladeira do hospital até o dia seguinte.  Mãe Balbina, iria ao apartamento buscar uma roupa para vesti-la.

Ele queria ir junto.  Oliva disse que não que era melhor ele ficar junto com ele. Temos que resolver seus documentos, conseguir uma ordem para que fiques sobre minha guarda, bem como um passaporte, vais comigo para Itália.

Ele pensou em bater o pé dizendo que de maneira nenhuma ia com ele que tinha abandonado sua mãe, mas se lembrou que um dia tinha criticado alguém.  Ela lhe respondeu, te achas melhor do que ele, cada um tem que ter o sentido de sobrevivência, senão a coisa fica preta.

Na saída avisou que queria uma nota fiscal, pagou tudo.

Foram para o hotel, Mãe Balbina tinha seu celular, bem como o número de seu quarto no Hotel Excelsior.

Precisas cortar esses cabelos, quando chegaram no hotel, pediu um quarto ao lado do seu, para seu sobrinho.  Pediu que avisassem um dos italianos, este apareceu em seguida, lhe apresentou esse garoto é meu sobrinho.   Ontem foi um dia movimentado, reencontrei minha mãe e meu sobrinho, ela morreu esta manhã, se aguentem sem mim, perdão.  O homem o abraçou, não se preocupe, estão se divertindo, hoje alugamos um carro com motorista, fomos ao lugares turísticos que disseste para ir.    

Oliva disse que tomassem cuidado com os garotos da praia.   Nem pensar, são crianças, gostamos de homens.  Mesmo assim já sei temos que ter cuidado.

Perguntou quando seria o velório, ele disse que na manhã seguinte, no cemitério do Caju, o nome de sua mãe, Maria Mercedes Martins.

Darei um jeito de ir. Amigos são para estas coisas.

É o teu namorado, perguntou Juca.

Não tenho namorado, esse namorado é o meu trabalho, não sobra muito tempo para isso.

A avó dizia que tinhas ido embora com um homem.

Não ele nunca foi meu namorado, me ajudou isso sim, sair daqui começar uma nova vida, herdei dele a casa de costura que dirijo. Mais nada.

Morreu a dois anos atrás, sinto falta dele, foi o pai que eu não tive.

Um dia te conto tudo.

Venha, vá para teu quarto, tome um banho, te vista, vamos sair para comer alguma coisa, que só temos um café na barriga.

Quando ele voltou ao quarto do tio, ele estava do mesmo jeito, sentado, com a cara entre as mãos chorando.  O abraçou, agora o entendia, encontrar e perder a mãe no mesmo tempo devia ser difícil.   Se ele estava sentido a perda da avó, ele no fundo era seu filho.

Ele lhe deu um tapinha na cara, tenho que lavar a cara, espera.

Quando saiu do banheiro, disse, venha vamos comer aqui no Maxin’s, ou ao lado na Tratoria, que tem comida italiana para ires te acostumando.

Tratoria estava cheia, foram se sentar no Maxin’s.   Perguntou o que podiam comer, o garçom soltou logo uma feijoada.  Tens muita fome perguntou ao Juca.

Sei lá, pode ser que sim, não como nada desde ontem.

Se fartou, ao final soltou um arroto, os dois ficaram olhando um para o outro rindo.

Serás agora o filho que nunca tive.  Tens que ter paciência, pois nunca me vi nesse papel.

Saíram dali, foram ao Rio Sul, não podes ir de bermudas a um enterro, lhe comprou uma calça preta de jeans, bem como uma camiseta preta, aproveitaram para ver um casaco, quando voltarmos, iremos para o inverno da Itália, em Milão deve estar nevando, lhe comprou um casaco de plumas, ele arregalou os olhos como pratos quando viu o preço.  Isso pagávamos pelo apartamento.

Não importa, o Euro vale muito por aqui, assim que me sai barato.   Não abuses que te mime um pouco, mas agora eres meu filho.

Foram depois ao final do dia ao escritório do advogado, ele tinha os papeis todos prontos, agora vou levar a um juiz para assinar.  

Amanhã, podem ir tirar o passaporte, lhe perguntou se tinha bilhete de identidade.

Não ia tirar o ano que vem quando fizesse 18 anos.  Bom amanhã depois do enterro, fazemos isso.

Ficou emocionado no dia seguinte, uma funerária tinha se encarregado de tudo, ela estava ali com sua melhor roupa, penteada pela amiga.  Mãe Balbina, estava com suas vestes de Mãe de Santo, honrando sua amiga.  Tinha muita gente.   Balbina disse que ela sempre tinha sido generosa com os outros.  Depois chegaram todos amigos de seu tio, lhe deram pêsames, conheceram o sobrinho, só um deles disse, mas este é o garoto da praia.  Sim, mas é meu sobrinho.

Um ao lado do outro, ia recebendo os pêsames, as filhas de Santo chegaram, todas vestidas como deviam nas circunstâncias, foram ao lado do caixão cantando uma música muito bonita.

Juca chorou muito, perdia a coisa mais importante de sua vida.  Sabia que seu futuro ia mudar, mas ela o tinha criado como se fosse seu filho. Iam os dois com lenços na mão, enxugando as lagrimas.

Ele convidou Mãe Balbina para almoçar, já que iriam à cidade, foram comer na Colombo que ficava perto do escritório do advogado.   Ela soltou que ia lá com um namorado rico, quando era jovem.

Olhou o Juca comendo, olhe o que tua avó te ensinava, nada de comer como um esfomeado, que vão pensar de ti.  Ele moderou, nunca tinha visto tanta comida assim na vida dele.

É verdade Juca, eu quando cheguei a Itália, comia como um louco, fiquei gordo, depois para perder peso foi difícil.  Ele fechou os olhos imaginando o tio gordo, soltou uma risada.

De que ris?

Te estou imaginando gordo.

Ela foi com ele ao escritório do advogado, no caminho como Juca tinha parado para olhar uma vitrine, ele perguntou se achava que se devia ir ao apartamento buscar alguma coisa. 

Meu filho lá só tem trastes velhos, a roupa dele, era as que eu conseguia com minhas filhas de santo.

Esta outra figura com as roupas que compraste para ele.

Olhe é um garoto muito sério, tua mãe sempre o criou, o educou.   Estava desesperada pois queria que ele fizesse uma faculdade, mas já não tinha forças.  Ele nem sabe quem é seu pai, tua irmã nunca deu atenção para ele, nem peito quis dar, pois disse que ia estragar seu corpo.

Só pensava nesse puto samba, dizia que seria seu passaporte para arrumar um gringo para ir embora daqui, da última vez, se escapou sem dizer nem para aonde ia. 

Estou feliz, pois vai estar bem contigo.

Será como meu filho Mãe Balbina, meu medo é que nunca fui pai, tenho medo de errar.

Lembre-se como era tua mãe contigo, seja igual, mas a tua maneira.  Tenha paciência com ele.

Tu tinhas mais idade quando foste embora, ele não, tampouco viveu nas ruas como tu, sabias te virar, nisso tua mãe errou, pois o prendia ao máximo, com medo de perder, como tinha te perdido.

Resolveram tudo, no dia seguinte, iria com ele tirar os documentos.

Nessa noite jantaram com os amigos do tio, na Tratoria, falavam sem parar, riam muito, ele não entendia ainda as brincadeiras.

Seu tio lhe disse ao ouvido, os italianos falam muito, alto demais, riem e choram da mesma maneira, tudo é exagerado, há que aprender a lidar com isso.

Quando os outros souberam que ele ia levar o sobrinho com ele, era como se fosse um velho amigo deles, nunca tinha se sentido assim.

Mas o que mais se aproximou dele foi o Giorgio, que tinha visto no quarto do tio, o primeiro a saber de tudo, lhe explicava as palavras.  Achava engraçado isso.  Vou te dar aulas, para alguma coisa deve servir meu curso, sou professor.

Vivo no apartamento ao lado do seu tio, é meu melhor amigo. Mas via que ele olhava com amor ao seu tio.   Um dia lhe perguntou se era apaixonado por ele.

Riu, tu percebes, ele não, vive para o seu trabalho, não vê nada mais que isso.          Demorou, lutou demais para chegar aonde está.   Creio que isso o faz assim.  Tens que pensar que era um rapaz jovem quando saiu daqui.  Foi trabalhar, para um dos homens mais famosos de Itália, quando morreu, seu tio era como um filho para ele.  Deixou-lhe tudo.  Então para assumir a casa de moda teve que provar que era bom como o mestre, mas na verdade os últimos cinco anos, ele fazia as coleções o mestre só apresentava, já não enxergava um palmo diante do nariz.

Foi um belo gesto do seu tio, uma forma de agradecer, quem tinha sido um pai para ele.

Tu já gostaste de alguém lhe perguntou, ele falava bem devagar para Juca entender.

Não, na verdade Giorgio, sou virgem ainda, nunca fiz sexo com ninguém.   Minha avó dizia que soubesse que eu fazia sexo com os homens da praia por dinheiro me mataria de pancada.

Achava que seu filho tinha feito isso, que tinha ido embora com alguém por sexo.   Nunca chegou a saber quem ele é na verdade.

Giorgio lhe perguntou de Mãe Balbina, lhe explicou quem era, o que fazia.   Podias me levar até lá, mas sem que teu tio saiba de nada.

Digo que vou ao apartamento, antes que joguem tudo fora, para buscar minhas ferramentas, tu te ofereças a me levar.

Assim fizeram, ele foi recolher suas ferramentas, mas já estavam na casa de Mãe Balbina, lhe disse que o Giorgio queria que jogasse os Búzios para ele.

Antes lhe fez tomar um banho de descarrego.  O mandou ficar nu, pediu ao Juca que lhe jogasse devagar o banho em cima.  Foi nesse momento que Juca se apaixonou por ele.  Ela lhe estalou os dedos na frente.  Falou baixinho, terás que ter paciência, ele precisa te descobrir.

Tinha pensado que ele iria perguntar algo do tio, mas nada disso, perguntou pela situação complicada de sua família, a briga interminável por uma herança.   Sentia falta das reuniões com os irmãos, que tinham deixado de se falarem.  Seu pai tinha deixado toda a herança para ele, agora se sacrificava levando a fábrica, gostava, mas teve que fazer uma coisa que tinha odiado fazer, expulsar os irmãos, pois viviam brigando na frente dos funcionários, fazia pouco tempo que tinha conseguido reerguer a empresa.    Eram suas primeiras férias em anos.

Ela jogou, várias vezes, sem dizer uma palavra, de repente, parou, a solução vai aparecer em breve.   Então poderás, fazer isso que amas, ensinar, escrever.   Não perca teu tempo, tens tua vida não é, logo vais descobrir o amor de tua vida, esqueça o resto.  Esse dinheiro está maldito, teu pai fez isso de proposito, para te tirar o que mais gostas de fazer.

Ele confiava no Juca, falo contigo como uma pessoa adulta, vejo que tens cabeça, escutaste tudo, eu acho que ela está coberta de razão.   Eu levantei a fábrica sim, mas odeio tudo isso, gosto mesmo de escrever, dar aulas na universidade.  Tive que me licenciar para poder dirigir a fábrica.   Todos tem famílias, mas vivem como se fossem deuses, só gastam dinheiro.

Estou farto de ser um pai de filhos ingratos.  Sempre acreditei no que ela disse, que meu pai fez isso de proposito pois não suportava ter um filho intelectual, me jogava sempre isso na cara, dizia que eu era um tonto.   Fui o único da família a ir à universidade, ele não foi, teve que assumir a fábrica depois da guerra, estava arruinada. A levantou novamente.  Vou consultar um advogado.

Fiquei intrigado quando me disse que ainda vou encontrar o amor de minha vida.   Sempre tinha pensado que era seu tio.  Vejo que não.

Quando chegaram ao hotel, o ajudou a levar suas coisas para cima.  Não tenho vontade de ir a praia, já me cansei desses gritos, os escândalos porque se acham gays, me cansa, teu tio os atura, porque tem negócios com eles, como eu também, afinal são compradores.

Gostaria de ir fazer um passeio, me falaram do centro da cidade, quer ir comigo.

Claro que vou, quase lhe disse contigo vou até o inferno.  Acabaram indo a duas livrarias, ele comprou uma série de livros de arte, encontrou dois de elaboração de bijuterias, os comprou para dar depois de presente ao Juca. 

Como só voltaram de noite para o hotel, seu tio estava preocupado.

Não confias no Giorgio?

Sim é meu melhor amigo, uma pessoa inteligente, bom gosto, gosta de ler, escrever, não é como os outros, hoje dois se meteram com dois meninos negros na praia, queria sair para fuder com eles, eu avisei, quase que se meteram em confusão.

Os fiz deixarem todas as joias que gostam tanto, a carteira, foram só com um pouco de dinheiro, quase levaram porrada por causa disso.

Ele nunca se mete em confusões, aliás nunca ouvi dizer que tivesse um namorado.

O senhor tem?

Meus romances não passam de uma noite, creio que o faço mais para descarregar as energias acumuladas, nunca amei ninguém como o homem que me ajudou.

Tu já amaste alguém?

Nunca tio, sou virgem ainda, falou um pouco com vergonha, pois todos da sua idade já tinha feito sexo, ou com homens ou com mulheres.

Sempre achei que tinha que gostar da pessoa.

Antes de ir embora, foram ver Mãe Balbina, o Giorgio foi também, lhe levou um presente, metros de tecido brancos, rendas coisas que ela gostava.  Pegou seu endereço, vou lhe mandar tecidos de minha fábrica, coisas lindas veras.

Ela lhe sussurrou alguma coisa no ouvido, ele riu, fazendo um sinal positivo.   Seu tio não tinha visto o que acontecia, ficou com a pulga atrás da orelha.

No avião, todos estavam em primeira classe, seu tio tinha comprado um bilhete para ele, a princípio iria na executiva, pois não havia lugares na primeira.  Como o avião ia por São Paulo, lá uma das pessoas que tinha que embarcar, não apareceu.  Ele acabou sentado do lado do Giorgio.   O voo Rio, São Paulo, tinha sido tranquilo, mas Giorgio disse que de noite por causa que atravessavam o Atlântico numa zona de turbulência, o avião balançava muito.  Se sentires medo, segura minha mão.   Os outros estavam curtindo os últimos momentos de férias.

Sem saber muito por que começou a cantar baixinho uma que sua avó adorava, “pra dizer adeus”, Giorgio ficou prestando atenção.   Disse que era muito bonita.

Tentou dormir, mas o medo, a incerteza do futuro não o deixavam relaxar-se.  Giorgio o escutou sobre isso, não tenhas medo, lembre-se eu sempre estarei aí para ti, afinal eres meu amigo.

Começou a comentar com ele, suas possibilidades, gostaria de saber administrar coisas. Pois de uma certa maneira fiz isso todos esses anos, minha avó exigia que eu fosse o homem da casa, devia saber administrar o pouco dinheiro que tínhamos.  Nada de gastar dinheiro em besteira.

Se meu tio não me compra roupa, eu seguiria usando roupas que Mãe Balbina, arrumava das suas filhas de santo, para mim.

Sempre usei roupas dos outros, é a primeira vez que tenho roupas minhas.   Preciso arrumar um emprego, para me manter, não quero viver as custa do meu tio.  Você acha que posso conseguir um emprego de meio dia, para poder estudar, trabalhar?

Claro que sim, se queres te consigo na fábrica.  Te arrumo para começares de baixo, mas quero que aprendas tudo, seja bom observador, para saber administrar.

Seu tio num momento que foram ao banheiro lhe perguntou o que tanto ele falava com o Giorgio?

Ele me perguntou meus planos, lhe contei dos meus medos, de como pode ser meu futuro, ele me ofereceu um emprego na fábrica dele, para que eu aprendesse, mas posso estudar ao mesmo tempo. 

Esse Giorgio, vai acabar roubando meu sobrinho. 

Chegaram de manhã a Milan, cada um tinha um carro esperando, menos os três que se meteram num taxi grande, como viviam basicamente lado a lado.  Finalmente entendeu o que seu tio, Giorgio diziam de lado a lado.

Eram dois casarões, seu tio tinha no térreo e no primeiro andar a loja, e a confecção, Giorgio vivia num pequeno casarão quase igual, que tinha herdado de sua mãe.   Lhe tinha explicado que era filho do primeiro casamento de seu pai.  Que tinha sido criado a vida inteira em escola interna.   Não gostava da madrasta.   Eles vivem na mansão familiar, mas quem paga todas as despesas sou eu.

Seu tio tinha mandando preparar um quarto, quando ele olhou pela janela, Giorgio, estava do outro lado de um pátio, trocando de roupa, quando o viu nu, ficou como louco, correu para seu banheiro para se masturbar.

Seu tio começou a trabalhar imediatamente.   Giorgio saiu com ele, para comprarem o que ele quisesse, foram olhar as faculdades, lhe comprou um laptop, bem como um celular.   Mas não tenho ninguém para chamar.

Tens a mim, lhe colocou o número do seu celular.   Foi com ele até a fábrica.  Ele chamou um rapaz, mandou que lhe ensinasse a fábrica inteira.

Viu um grupo desenhando estamparia de tecidos, se interessou imediatamente.  Foi seu primeiro trabalho.  Era um aprendiz, mas foi assimilando tudo.  De noite ficava escondido atrás da cortina, esperando a hora que Giorgio tirasse a roupa, ficava muito excitado.

Tinha vergonha disso, mas não queria contar, o que ele podia pensar dele.

Semanas depois viu que seu tio entrava com um jovem manequim, acenou a mão para ele, foi para seu quarto.  Mas escutava o barulho dos dois fazendo sexo.  Chamou o Giorgio nervoso, meu tio está com um jovem no quarto, o ruído deles me deixa nervoso, posso ir para tua casa.

Claro, venha para cá, estou sentando escrevendo alguma coisa que me veio à cabeça.

Ele estava no salão de sua casa, de pijama, achava divertido isso, ele usar pijama, sentado na frente da lareira, com um laptop nas pernas escrevendo, ia colocar música, lhe perguntou se tinha escutado alguma vez Milva.

Não nunca, mas gostaria de conhecer.

Por causa da Milva descobri outra de minhas paixões, Astor Piazzolla.

A esse escutei na rádio.

Ficaram os dois sentados no sofá, ele realmente prestava a atenção, adorou a Balada de um Louco.

Ele num momento disse, tenho a sensação de que a estou vendo, tenho certeza de que representa o que canta, como se diz isso em italiano.

Já sei uma que deves gostar, esse cantor tem uma voz fantástica, ele canta operas, mas tem discos de música popular, escute essa, Erwin Schrott, cantando insensatez, de Jobim.

 Ele começou a chorar, ao escutar alguém cantando em português, se lembrou imediatamente de sua avó.

Não chore, fico nervoso, o abraçou, está tudo bem garoto.   Ele levantou a cabeça, o beijou, para Giorgio foi uma surpresa, ficou parado, mas sem saber começou a corresponder.

Iam começar a tirar a roupa, não posso, eres menor de idade, sou muito mais velho que você.

Sabes que te vejo nu, teu quarto dá para o meu, já me masturbei pensando em ti.  Fico louco quando te vejo.

Queres dormir aqui, arrumo um quarto para ti, quando olharam para fora, estava nevando, ficou ali abraçado ao Giorgio, era a primeira vez que via cair a neve.

Temos que esperar até que faça pelo menos 18 anos Juca, não posso trair a confiança de teu tio.

A partir disto, cada vez que seu tio trazia alguém ele se mandava para a casa do Giorgio, já levava inclusive roupa para o outro dia.

Mostrou inclusive ao Giorgio suas notas antes que ao seu tio, este estava preocupado com a coleção que ia lançar.  Só pensava nisso.

Um dia estava em seu ateliê, ele discutia com um homem, que não entendia o que ele queria para completar o vestido, ficou observando o mesmo, começou a desenhar.  Apresentou ao tio, o que queres é isso não?

Como sabes disso?

Olha estou prestando atenção, na fábrica agora desenho estampas, entendi que queres completar o vestido,  o homem tinha ali, uma caixa de ferramentas, começou a montar o desenho que tinha feito, cantando Balada de um louco, em italiano, o tio ficou olhando para ele, aonde aprendeste cantar essa música?

Na casa do Giorgio, cada vez que o senhor traz um homem para dormir, tem muito escândalo, vou dormir na sua casa.

Como é isso?

Ele arrumou um quarto para mim, sei que o senhor e seja com quem estás vão levantar tarde, levo roupa, de lá vou com ele para a fábrica.  Assim de simples.

Não estas dormindo com ele?

Claro que não tio, ele diz que é muito velho para mim.   Mas o adoro, está me ensinando a viver, esta semana vai me levar a Opera para que eu saiba como é.

O senhor está sempre ocupado, ele me ensina a falar direito, nada mais.

Meu filho, espera um pouco, perdão se te molesto, com o meus namorados, espero encontra um dia alguém para amar.   Tentarei não fazer barulho. 

Ele seguiu fugindo para a casa do Giorgio, porque sabia que ele dormia tarde, tinha discutido com ele, porque agora sabia que o olhava trocar de roupa, fechava a cortina.  

Não podes fazer isso comigo, sei que não queres fazer sexo comigo, mas não consigo te tirar da minha cabeça.   Lhe mostrou um desenho que tinha feito dele nu. 

Ficou olhando o mesmo, não deixe teu tio ver isso.

Ele já sabe que estou apaixonado por ti.  

Falaste para ele.

Sim, disse que vinha dormir em tua casa, mas que não querias fazer sexo comigo, porque só estou nas vésperas dos dezoito.

Aliás no dia da Opera, é meu aniversário.

Pediu para o tio, uma roupa para ir a opera com Giorgio, acho que tenho um smoking que usei quando fui com meu amor a opera a primeira vez, tive que ficar quieto pois não gostei.

Giorgio contou ao Oliva que esse dia era aniversário do sobrinho.

Foram os dois a Opera, que ele amou de paixão, Giorgio ficou impressionado com sua concentração, depois quando saíram, seu tio os esperava para irem jantar, mas quando se juntou todo o grupo ele acabou ficando deslocado.  Era muito ruído para sua cabeça.

Giorgio percebeu, o levou embora, quando chegaram a casa dele, disse já tenho 18 anos, quero fazer sexo contigo.  Viu que ele ficava sem graça, nem sei como me comportar contigo.

Mas ele tomou a iniciativa, me masturbei tanto pensando no teu corpo que o quero ver todo só para mim,  tirou toda a roupa do Giorgio, ficou alisando seu corpo, alucinado, tocava seu amor, Giorgio mal podia se controlar, mas deixou que ele fizesse tudo  que lhe desse prazer, ao mesmo tempo se sentia como um louco.

Nem sabia que era capaz de sentir essas coisas, sempre tão fechado em suas músicas, seus livros, sua linha de pensamento para escrever coisas, não imaginou que tudo isso era nada, perto do que estava sentindo.   Entendeu o que lhe disse a Mãe Balbina, será um amor para sempre.

Dormiram agarrados como se fossem uma só pessoa.  Riram muito quando despertaram, com a campainha da porta.   Era seu tio, estava furioso. 

Ele o fez sentar-se, lhe deu um copo de água, eu esperei, bem como o Giorgio ter 18 anos, agora sou dele, de ninguém mais, o amo com loucura. 

Não podia dizer nada de um homem mais velho, pois seu grande amor lhe levava mais de 30 anos.  Abaixou a cabeça, me desatendi de ti, ele ao contrário se tornou teu amigo, cuidou de ti. Entendo.   Perfeito, mas escuta bem Giorgio, se ver algum dia meu sobrinho chorando por tua causa vou te encher de porrada.

Nesse mesmo dia se mudou para a casa dele.  Foi promovido, para a seção que executava os desenhos sobre a tela, em breve tinha aprendido tudo, na sua cabeça, funcionava de outra maneira, começou fora do horário a fazer experiencias, viu que num setor, haviam senhoras trabalhando, bordavam em cima de seda de crepes, de desenhos,  preparou uma tela como ele pensava, pediu para elas bordarem como ele queria, sentou-se com elas, como fazia com sua avó, nesse dia esqueceu de ir a universidade.  Já tinha acabado o expediente, Giorgio ia para casa quando o viu concentrado, bem como as mulheres.  Disse é muito tarde, hora de ir descansar.  Foi como quebrar um momento magico.  As mulheres disseram esse garoto nos fez reviver nossa vida de antes.  Todas se levantaram, foram beijar sua cabeça, amanhã continuamos,  ele fez uma foto com o celular, mandou para seu tio.

Nessa noite, estava com as energias loucas, começou a fazer sexo com Giorgio, desde a porta de entrada, o arrastou para a cama, o penetrou, depois se fez penetrar, queria mais.

Giorgio ria, assim me matas antes do tempo.  Teria agora que se acostumar do tempo que tinha ficado fechado para o mundo.  Tudo deles era num silencio profundo. Só se escutava o ruído dos beijos, de outras coisas.

Nunca me cansarei de ti Giorgio.  Quando se acalmou, o que achou do trabalho que fiz com elas.   O quero ver amanhã a luz do sol.   Como planejaste isso,

Explicou, se fazemos esse tipo de estampa, ou desenho em cima da seda, algumas partes elas podem bordar, como eu disse que queria, encontramos, pedras, canutilhos, tudo isso, em quantidade, porque ninguém usa mais.  Acho que podemos fazer, mostrar para as grandes casas de moda de Paris, de Milan, o preço claro será exorbitante, pela mão de obra, mas duvido que alguém se negue a comprar.   O que achas.

Me deixa pensar garoto, vamos dormir, quando ele o abraçou, se virou de costa para ele, disse baixinho me penetre mais uma vez por favor, fizeram sexo pausadamente como Giorgio gostava.  Ai final estavam rindo, lhe disse vou dormir no outro quarto, acendeste um fogo dentro de mim que não se apaga.

Os amigos reclamavam que não podiam contar com o Giorgio para as festas, pois ele descobriu que Juca não se divertia, como ele tampouco. Queriam estar sozinhos.

Tinham arrumado uma saleta, aonde tinha uma lareira, uma mesa de trabalho para ele, outra para o Juca.  Esse ficava com um pedaço de tecido, aplicando peças de metal, ou mesmo bordando, no outro dia levava para as senhoras.  Eram sempre muitos oh, as. 

Viu um desenho que tinha feito ele, no princípio, que imaginou o mesmo em cima de um plissado, perguntou se tinha alguém na fábrica que fazia isso.   Foram buscar um velho, este riu, nem sei por que me mantiveram aqui, estou sempre ajudando os outros, mas plissados, nunca mais.  Explicou o que queria.   Uma tela diáfana com a estampa, mandou imprimir a mesma estampa em uma seda.  A tela diáfana, bem como a seda foram plissadas, depois ele arrumou um manequim, foi montando um vestido, com os dois tecidos, quando ficou pronto, elas começaram a bordar tudo com canutilhos, toda a parte em seda.   Giorgio quando viu ficou de boca aberta.

Teu tio vai ficar com ciúmes. 

Não sou como ele, mas quero que veja o que podemos fazer de tecido.  Giorgio amou o desenho, fui eu que fiz logo quando comecei.

Pediu uma audiência com seu tio, levou todos os tecidos que tinham preparados.  Inclusive numa caixa grande o vestido que tinha feito.

Ele só dizia quero.  Quando viu o vestido, perguntou ao Giorgio, com quem me traíste para trazer um vestido pronto?

Ele esticou o dedo, mostrando o Juca.

Tô fudido, o garoto chega, rouba meu melhor amigo, agora se quero conversar tenho que ir à casa deles, avisar antes, para não os encontrar nus.  Agora isso.

Não tio, eu me lembrei da avó, uma vez fazendo um vestido assim, só queria que o senhor como os outros que vamos oferecer os novos tipos de tecidos, o que podemos fazer.

Só fazemos uma peça, que sirva para um vestido, assim ele será peça única, claro existe um, porém. O preço, tinha montado ele mesmo todo o custo do material, sem interferência do Giorgio que só ria.   Ele podia gastar duas horas calculando um preço para os tecidos, o puto garoto fazia em segundos, com seu Laptop.

Muito caro, eu gostaria de ficar com esse daqui. 

Era o que ele tinha feito primeiro.  Sabe o que é esse desenho, folhas da mangueira que tinha na casa da avó, antes do apertamento.   Quando era garoto, adorava ficar vendo quando chegava a época de elas caírem.   Sem querer começou a chorar, abraçou o tio, sinto tanta falta dela, por isso estou sempre pensando como ela faria.

O tio foi indicando, esses de aqui, eu mostraria para o Karl da Chanel, ele deve vir a Milan para trabalhar com a Miuccia Prada, vou falar com ela, assim vem os dois ver o que tens feito, mas esse é meu,  Como posso pagar Giorgio?

Isso também é com ele, tem planos, eu só sou o dono da fábrica, bem como o corpo que ele usa pelas noites como quer.   Os dois homens ficaram rindo, ele ficou furioso, nossas intimidades, são nossas, não gosto disso, saiu batendo a porta.

Giorgio para limpar a barra, teve trabalho, dormiu uma semana no outro quarto.

Quando conseguiu que ele se sentasse, soltou logo de cara, o que é nosso, é só nosso, falar sobre isso, me parece vulgar, baixaria.  Senti como quando teus amigos falam dos garotos que levam para a cama, o que fazem ou deixam de fazer.   Nem se atreva a repetir isso, vou embora.

Era a primeira briga deles.  Nessa noite disse que tinha sentido falta de dormir, juntos, mas me levantava para ver se estavas, coberto direito, tinhas sempre um sono agitado.

Talvez porque essa nossa briga me fez lembrar coisas do meu passado, do quanto sofri por alguém que amei, mas não me permitiram.  Vê mostrou seus braços, viu uma finas cicatrizes, tentei me matar como um idiota, enquanto o outro, embolsou o dinheiro que meu pai lhe deu para desaparecer.

Quando estou nervoso, tenho esse pesadelo, sinto que estou morrendo, que ninguém entra para me salvar.

Está bem da próxima vez que briguemos dormimos juntos. 

No dia seguinte no carro, os dois relaxados, ele disse que Karl, ia ver o trabalho hoje.  Estas pronto para enfrentar o Zar Karl.   Ele é osso duro de roer, a última vez que esteve aqui, não gostou do tecido que tinha encomendado.

Ele tinha encontrado uma garota na fábrica, que era magra, mas linda de cara.  A arrumou com o vestido.  Só entre quando eu abrir a porta.

Colocou o tecido que tinha vendido para o irmão, ali dobrado numa estante, primeiro mostrou todos os outros, o Karl, só dizia ah, passava o seguinte dizia ah.   Foi até a estante, quero este também.  Mas viu uma marca de vendido.  Quem ousou a comprar antes de mim. 

Ele lhe explicou que era irmão do Oliva.  Esse desenho tem a ver com nossa infância, por isso vendi para ele.    Mas explicou o porem.   Fantástico, um garoto ditando como devemos comprar o quanto vamos pagar, que mais vais dizer.

Ah que voltamos a fabricar tecidos plissados, tanto em seda como transparente, veja como fica, abriu a porta, fez a garota desfilar para a sala.

O Karl ria, o filho da puta, ainda é capaz de montar um vestido como ele imagina.

De aonde vens tudo isso. Bateu com o dedo na sua cabeça, que sopra essas ideias.

Ele disse que sua avô, que o tinha criado, tinha sido costureira de uma das casas mais famosas do Brasil de alta costura, tudo aprendi observando, vendo como trabalhava.  Os comentários que fazia sobre os tecidos, que eram uma merda, que já não se fazia mais tecidos, com glamour francês.

Karl ria muito, pois ele se esqueceu, começou a falar em português.  Quando viu os preços, disse que tinha que consultar, telefonou a Miuccia, disse que viesse rápido, se não queria ficar sem nenhum dos produtos novos da fábrica.

O levou a parte, lhe perguntou se conversasse com ele, suas ideias, se era capaz de montar os tecidos em sigilo.    

Claro que sim, por quem me toma por um rufião, se é para trabalhar para ti, faço, mas com uma condição, que seja citado o nome da fábrica.  A cara do Karl era ótima, Giorgio depois contando se matava de rir.  Acho que ele não sabia se espumava, ou o mandava a puta que o pariu.

De qualquer maneira levou dois tecidos para Paris, bem como fez com que Miuccia, comprasse um para o final do seu desfile.  Ela reclamou dos preços. Ele argumentou com ela, se ela ia cobrar por um trabalho que já estava basicamente feito, só tens que mandar costurar o modelo.

Ele ganhou o direito, de aumentar a sala das bordadeiras, agora o senhor dos plissados, sempre lhe trazia uma ideia nova, aumentou o salário delas.   Giorgio ria dizendo ao Oliva, um dia já me avisaram, eu entrarei, só terei que me sentar, assinar minha demissão.  Ele faz tudo, calcula o preço, argumenta.   Melhorou a qualidade dos tecidos.

Foram os dois ao Japão, para conhecer de perto as novas tecnologias, alisou tecidos, sentiu a texturas.  Não disse nada, levou amostras dos mesmos, alguns empresários ofereceram exportar eles venderem.

Quando chegou, se fechou com todos os técnicos, se não queremos fechar a fábrica, temos que mudar.  Veja quantos pontos tem esse tecido.  Se usássemos dois dos telares antigos que estão encostados, podemos fazer melhor.  Um olhou para o outro como dizendo estas louco.

No dia seguinte, ele escolheu jovens que trabalhavam nos teares, os levou para aonde estavam os velhos, arrumaram essa parte do galpão, tirando todo o lixo que estava ali, escolheu um tecido fino, quase uma pele.

Temos que encontrar um fio que seja capaz de suportar o movimento desse teares, contou para eles o que tinha descoberto, a China, a índia  usam hoje os teares como esse que Inglaterra achou que não valiam mais nada, só eles podem fazer uma série de coisas que os outros não podem. Vamos nos valer disso, temos teares maravilhosos, quem quer comprar a briga comigo.

Os jovens de sua idade, compraram a ideia, uma das senhoras que bordavam, disse que tinha começado na fábrica, usando um desses, olha aqui, meu nome gravado, o do meu marido ao lado.

Aonde está seu marido, na limpeza, vá busca-lo, o apresentou, esse senhor sempre que ele passava dizia, bom dia jovem mestre.

Eu disse a ela, que o senhor era inteligente, um mestre.

Mostrou para ele o tecido, acha que podemos fazer alguma coisa similar.

Esse tecido é sintético, os fios aguentam bem, mas se usamos um fio de seda pode se romper, teríamos que fazer uma pequena quantidade.  Nada de quilômetros de tela.

Isso, não quero quilômetros de tela, sim a quantidade que elas bordam.

Começaram a experimentar, breve tinha um de qualidade superior, não era sintético, coisa que ganhava dos outros.  Criou um desenho, super ligeiro como se fosse uma renda antiga, que ele tinha visto num dos livros que Giorgio tinha comprado para ele no Brasil.

Numa outra parte da fábrica, descobriu linho que estava estocado a muito tempo, o branco já era amarelo.   Chamou um dos técnicos, lhe disse que pegasse todo esse branco, sabes o que é um Tie Dye. Como ele não sabia lhe deu dois livros técnicos, mandou que chamasse dois jovens que trabalhassem com ele, experimentassem fazer, queria que a textura fosse encorpada, que a tinta não saísse, que experimentassem lavar de todas as maneiras possíveis.

Uma semana depois o homem apareceu feliz, esses garotos aprenderam mais rápido do que eu, pois eles mesmo tem camisetas assim.    Ele tirou um livro de Tie Dye, usado na Índia, mandou olharem, estudarem, as páginas marcadas, são os desenhos como eu gosto.

O colorido era super interessante, quando finalmente mostrou para o Giorgio, ele o beijou na frente de todos.  Esse menino é genial, verdade, todos aplaudiram.   A anos atrás estávamos para fechar, teria que mandar todo mundo para a rua.  Não consenti, agora esse rapaz, estava levantando a fábrica outra vez, daqui a pouco poderemos contratar gente nova.  Sem desmerecer os que já estão aqui a anos.

Ele com as mulheres, preparou os tecidos, disse a elas que discutisse, criassem nomes para os mesmos.   Foi a Paris, com o Giorgio, primeiro visitaram a firma Kenzo.  O que era o desenhador, ficou em dúvida, gostava mais do sintético, por causa da caída, ele tirou de uma maleta, justamente um modelo quase igual da coleção anterior dele, olhe a caída nesse teu modelo, mas o tecido é nosso.

Depois visitou Jean Paul Gaultier, ficou alucinado, com o linho, lhe explicou como funcionavam, se queres um desenho ou estampa, faço só para ti, mas uma quantidade de metros pequena, para que possas fazer um coleção.

Comprou dois que tinha gostado, reclamou do preço, virou-se para o Giorgio, esse menino deve ser duro na queda, até na cama.    Giorgio riu de orelha a orelha, dizendo eu aguento.

Foi visitar o Karl, disse que não acreditava que ele fosse se interessar pelos tecidos, mas trouxe uns tecidos novos, para que veja, posso fazer o que quiseres em cima.  Estampar, bordar.

Ele ficou olhando aquele tecido, o primeiro que tinham feito.  Tenho um vestido de noiva para fazer, fico com esse, chamou o pessoal para que o conhecessem.

Não esperavam que fosse tão jovem.  

Quando chegou o final do ano, os valores financeiros da fábrica tinham triplicado.

Giorgio disse, ganhamos dinheiro, que agora terei que dividir com meus irmãos.   Ele riu, sabia da do que tinha falado Mãe Balbina, sempre se falavam.

Tenho uma ideia.  Quanto me deves esse ano. Fez as contas.

Vamos fazer o seguinte, vou contratar um advogado que você nunca saberá quem é, ele irá ao teu irmão que tenha mais dívidas, comprarei suas ações.   Porque se vais dar esse dinheiro todo a ele, ele vai gastar mais rápido que um peido. Não poderá pedir mais.

Assim foram fazendo ano atrás ano, chegou um momento que ele era conhecido, mas quando teve todas as ações de seus irmãos, se transformou em sócio.  Agora ele manejava a fábrica, seu tio lhe dizia, porque não levei você para trabalhar comigo.

Um dia o apresentou um senhor que o estava ajudando a desenvolver um tipo de tecido, tinha descoberto que o homem era gay, mas muito discreto.  De uma época que em Itália isso era quase um crime.   As vezes faziam uma pausa para discutirem música, literatura, esse homem controlava a parte nova, velha, dos teares.   Seu tio o conheceu, ficou interessado, o convidou para sair.  Em breve estava apaixonado pelo homem, Santo Matteus, esse disse que de maneira nenhuma teria um relacionamento sério com ele, não gostava da vida que levava, cercado desse pessoal que tinha a vida fácil, que estavam sempre criticando uns aos outros, ele era sério, não estava disposto a isso.  Seu tio mudou completamente, em breve viviam juntos, ele cortava todos seus excessos.

Ele ria, tinha criticado tanto o tipo de vida que ele bem como o Giorgio levavam, fez uma puta gozação, nada como o amor.

Nesse ano, comprou uma parte das ações do Giorgio, para surpresa dele, fez uma coisa, passou uma parte das ações, bem como os benefícios, aos funcionários, agora ao final de cada ano, receberiam uma porcentagem do lucro da empresa. 

Uma das bordadeiras, veio reclamar, pensavam que elas como estavam velhas seriam excluídas disso.

Quem disse, tal idiotice?

Era um dos jovens, que achava que só eles teriam direito.   Lhe deu uma bronca, mas antes fez uma coisa, mandou analisar seu trabalho, bem como seu comportamento.   Não encaixava com os outros, lhe pagou o que devia, comprou o que lhe tocava de ações, o colocou na rua.

Serviria de exemplo para os outros.   Se os velhos foram quem levantaram comigo a fábrica, como podem pensar nisso.   Algumas senhoras que estavam para se aposentar, ele as convidou para almoçar, perguntou o que a senhoras vão fazer em casa agora?

Nenhuma tinha pensado, se quiserem seguir trabalhando, eu as recontrato depois da aposentadoria.   O mesmo fez com o homem do plissado. Este lhe soltou, vivo com duas irmãs solteironas que vão a missa todos os dias, dizem que quando me aposente, terei que ir também, eu prefiro morrer.   Ele completou ou seguir trabalhando.

Tinha seu pessoal,  Giorgio, publicou seu livro, fez uma coisa que ele mesmo não esperava, quero que fiques como presidente da companhia, eu passarei no final desse ano, o resto de ações que tenho, assim me sustentas, serei a puta que te espera em casa.

Ele fez uma proposta, não quero teu gabinete, se escreves nele, fique aqui, eu sou feliz sabendo que estas sempre aqui, pois se eu preciso falar contigo, posso correr te beijar, abraçar.

Giorgio aceitou, mas financeiramente, se livrava de ficar pensando em dinheiro.

Foram para Paris, a convite do Karl, queria desenvolver uma coleção toda em cima de peças únicas, o tecido teria que dar para dois vestidos, o que fosse do desfile, é o que fizessem para a cliente que o comprasse.

Levou meio ano trabalhando em cima disso.

Era de um requinte absoluto, foram assistir ao desfile, Karl, fez questão de o colocar ao seu lado nas entrevistas, sempre dizia que ele era o rei do tecido.

Dali ele e Giorgio foram para o Rio, Mãe Balbina, estava mal no hospital.   A levaram para a Clínica San Vicente, cuidaram dela até morrer.   Na volta ele cantou de novo a música abraçado ao Giorgio, ela foi a primeira pessoa a perceber que eu estava apaixonado por ti.

Ele foi treinando gente para ocupar postos dos mais velhos, assim a fábrica nunca pararia.

Os dois apesar da diferença de idade, continuavam os mesmos na cama, um dia vendo o Giorgio nu, disse, o que andas fazendo, contínuas com o mesmo corpo de sempre, eu estou um pouco mais gordo.  Ah já sei, não tenho tempo para te olhar nu pela janela, nem me masturbar.

Sabia que nunca haveria outro homem em sua vida, os dois esperavam que fosse autorizado o casamento entre homens na Itália para se casarem.  Tinham se casado no Brasil.  Reconheceram no governo italiano.

ENCONTRAR A SI MESMO

                                     

Bom meu problema sempre foi o mesmo desde os dez anos de idade.  Aguentar minha mãe, tinha sido uma mulher bonita, que foi deixada pelo marido que a trocou por um homem.

A partir desta época tudo sempre foi a mesma ladainha.  Quando chegava em casa era submetido a um verdadeira inquérito, para saber se não andava com más companhias.

Passava o dia inteiro na escola, inclusive comia lá, a escola era paga pelo meu pai, bem como o curso de inglês que fazia.   Era um excelente aluno, além de um bom atleta, aproveitava horários que os outros não estavam, para fazer mais exercícios.  O curso de inglês tirava de letra, era o melhor, mas tinha perdido todos os intercâmbios possíveis, porque ela não permitia.

Sabia que a muitos anos, revisava meu quarto inteiro, por isso, nunca guardava nada em casa, minha mochila era impoluta, uma vez fiz uma maldade, com o dinheiro que ganhava da semana, comprei um cadeado, coloquei na mochila, a filmei rompendo a mochila inteira, falando absurdos, escondi a gravação.  Agora me faltavam dois dias para a graduação, nunca permitiu que eu avançasse na escola, dizia que cada ano tinha que aguentar sem reclamar como disciplina, devia ser como os demais.

Ela era funcionária pública, nunca tinha conseguido nenhum ascenso dentro do departamento que trabalhava, desconfiava que por isso não me permitia avançar antes, pois assim poderia ir para a universidade antes.  Estava analisando a possibilidade de pedir minha independência com 17 anos, quase 18, mas sabia que os juízes não eram muito simpáticos a respeito.

Cheguei em casa cansado, tinha ido treinar judô na escola com companheiros, amigos não tinha nenhum, a não ser o filho de sua melhor amiga, que tinha o mesmo problema que o meu, seu pai tinha abandonado a mulher formando outra família.  Vivíamos no mesmo edifício, na Rua Otaviano Hudson, ali perto da praça General Arcoverde.  A única coisa que tinha de diferente do meu amigo, era que ele estudava numa escola pública, pois a mãe vivia da pensão do pai.

Estranhei ao abrir a porta, não escutar as mesmas perguntas de sempre, quando cheguei ao salão, estavam as duas conversando, me fez um sinal que significava de devia ir para o meu quarto, que não devia escutar o que diziam.  Sua amiga tinha parado no meio de uma frase que era “tenho certeza que era ele”.

Fiz que ia para o meu quarto, abrir, fechei a porta batendo, voltei de mansinho, ai escutei o que dizia,  tenho certeza que era ele, bonitão como sempre, acompanhado do americano, entraram no hotel Excelsior, tu sabes que cada vez que vem, sempre se hospeda ali.

Nunca mais tinha visto seu pai, tudo o que tinha dele era uma foto escondida detrás de uma foto de sua mãe no seu quarto.   As vezes abria o porta foto, tirando a foto para olhar, de fato seu pai era um homem muito bonito.

Devagar, passou pela cozinha, saiu pela porta de serviço, que era a única que não fazia barulho, pegou o elevador,  quando chegou na rua, respirou fundo, era agora ou nunca.

Desceu a rua rapidamente, sabia aonde estava o hotel, pois costumava correr no calçadão nos finais de semana com o filho da vizinha, ultimamente o vinha evitando, porque sempre queria mamar o seu caralho.   Ah se as duas soubessem que eles faziam sexo desde os 15 anos.

Riu ao pensar nisso, mas ultimamente estava se tornando pesado, tinha medo de lhe confiar seus planos de ir estudar fora.   Tinha duas opções de bolsas de Estudos, ir estudar inglês nos Estados Unidos, ou entrar para a PUC, para estudar bioquímica, ou mesmo línguas.

O amigo reclamava dizendo que ultimamente estava calado, fugindo dele, não era uma mentira.

Quando chegou ao hotel, ficou do outro lado da rua, colado ao Bar e restaurante Maxin’s, viu que era besteira poderia ter saído, tomou coragem foi até a recepção, perguntou se o senhor Roberto Guimarães, estava hospedado no hotel?

Sim, chegou hoje de manhã.

Está no seu quarto?

A recepcionista olhou confirmando que sim, poderia dizer que  seu filho Ayrton Guimarães está aqui, que gostaria de falar com ele.

Nem dez minutos depois o seu pai desceu de camiseta, bermuda, sandálias.  Ficou parado olhando para ele, de cima a baixo.  Só disse como estas alto, meu filho, abriu os braços, ele se atirou.   Começou a tremer, não sabia como exprimir o que estava sentindo nesse momento.

No começo o tinha odiado, mas depois passou a entender o que ele sentia, principalmente depois que começou a ter sexo com seu amigo.

Venha vamos sentar no Maxin’s.

Atravessaram a rua, sem dizer uma palavra.   Quando se sentaram lhe perguntou o que queria beber.   Água somente, estava morto de sede, tinha vindo quase correndo de casa até ali, não era longe, mas fazia calor.

Como estas?  Nunca esperei que viesses me ver, cada vez que consigo que tua mãe me atenda, ela diz que não queres ver-me.

Não sabia disso, nunca me disse nada.        Atualmente passo a maior parte do tempo fechado no meu quarto, pois aguenta-la com as mesmas merdas de sempre, seus controles, suas perguntas idiotas, prefiro ficar fechado, alias fechado nada, pois a porta não tem fechadura.  Para ela poder entrar quando queira.   Estou farto de tanto controle.   Começou a rir, sem saber se era de nervoso.

Estas rindo de que?

O senhor sabe, quem controla muito é sinal que quer ser enganado, isso faço com ela.

O senhor como vai?

Apesar de nunca saber nada de ti, vou bem, tenho um bom emprego, vivemos bem, mas sempre venho ao Rio para ver minha mãe, agora ela está numa residência de pessoas de idade.

Pois que bem, eu não vejo a avó desde os 10 anos, nunca me permitiu ir vê-la.  A única vez que arrisquei me disseram que já não vivia lá.

Pois é está muito delicada, por isso venho vê-la.   Sempre pergunta de ti, invento alguma mentira piedosa.

Mas isso vai acabar pai, dentro de dias faço 18 anos, vou tomar rédeas da minha vida.

Este riu, imagino o escândalo.

Contou para o pai, eu já devia estar na universidade, mas ela fez tudo para que eu não avançasse nos curso. Dizia que eu tinha que ir conforme minha idade.  É um controle férreo sobre mim, apesar que os professores tentaram, mas não adiantou.   O mesmo no curso de Inglês, nunca permitiu que eu saísse para estudar fora.  Dizia que era besteira.

Tens namorada?

Mas bem namorado, a cara do pai foi ótima.

Na verdade, estou tentado escapar dele.  É filho da única amiga que ela tem, só me permite estar com ele, então com 15 anos começamos a transar, já que temos o mesmo tipo de mãe.

Como sabia que eu estava aqui?

Lhe contou que tinha escutado, não mencionou teu nome, mas entendi que era de ti que falavam, não podia perder essa oportunidade.

Nisso, se aproximou da mesa o homem com quem seu pai vivia.  Era tão alto quanto ele, de cabelos brancos.  Um tipão.

Se levantou estendeu a mão, Ayrton Guimarães, prazer em conhece-lo.

O outro ficou surpreso, Todd Stevens.

Nisso seu celular começou a tocar, ele olhou, era sua mãe.

Soltou ela não vai parar, até que atenda.

Atendeu, mamãe, estou correndo na praia, estou no meio da corrida, fez que estava ofegante. Sim vou para no Forte de Copacabana, depois vou até o Leme.  Até mais.  Se escutava a voz dela estridente, dizendo que tivesse cuidado.

Não mudou nada pelo visto, soltou seu pai.

Sim, esta cada vez pior, tudo é abaixo de chantagem, eu finjo que faço, mas mudo tudo para minha maneira.

Ela nunca me deu o divórcio, agora poderíamos estar casado,  mas disse que não ia permitir que eu tivesse liberdade de viver minha vida como queria.

O senhor tem planos para hoje a noite?

Por quê?

É a minha graduação na escola, gostaria que o senhor viesse.  Depois queria saber se o senhor está disposto a comprar uma briga, queria minha independência. Daqui dois dias faço 18 anos, tenho a oportunidade de ter uma bolsa de estudos como graduação em inglês, pelo instituto Brasil Estados Unidos.   Ela disse que nem pensar, que já basta de estudar inglês.  Que nunca sairei daqui.

Farias isso por mim.

Meu pai olhou o Todd, que fez que sim com a cabeça.

Amanhã vou visitar tua avô, queres vir?    Se escapo sim.

Bom tenho que correr um pouco para chegar em casa suado, tem gente que gosta de ser enganada.  Fez uma coisa que seu pai não esperava, o pegou pela mão o levantou, o abraçou beijando.  Quanta falta senti de ti meu pai. Fez o mesmo com o Todd, cuide bem dele por favor.

Saiu correndo pelo calçadão, mas voltou para dar endereço da escola para o pai, além do horário, o viu chorando, foi até ele secou as lagrimas, isso acabou meu pai.

Saiu correndo outra vez, chegou em casa suado, da porta sua mãe, já estava gritando se tinha encontrado alguém, não respondeu, já fazia tempo que não respondia.  Entrou no banheiro, tomou um banho, ela já estava batendo, histérica que ele não lhe tinha respondido.

Passou por ela enrolado na toalha, quando mais ela falava, ele acabou fazendo uma coisa, antes de entrar no seu quarto tirou a toalha, mostrando a bunda para ela.   Não enche o saco.

Bateu a porta, o silencio era fantástico, devia ter feito isso antes.  Se vestiu foi para a cozinha, fazer um sanduiche, pois tinha fome.

Depois se fechou no quarto, separando coisas, como que preparando uma mala para dar no pé.

Olhou mais tarde no relógio, se arrumou para ir a graduação, ela estava com um vestido horrível, sua maneira de vestir-se era de muito mal gosto, a fazia aparecer mais velha do que era.   Ainda lhe perguntou não tens uma roupa melhor para ir.

Que mais dá é uma simples festa de formatura.  Quando saíram a vizinha já estava esperando, pelo menos ela se vestia bem.  Seu amigo sorriu timidamente, bom estamos ficando mais velhos hoje.

Nada disso vocês não passam de crianças, soltaram as duas ao mesmo tempo.  Nem se davam conta que os dois eram mais altos que elas.

Na escola se escaparam, para falar com os conhecidos.  Na hora de entrar para o salão nobre, viu que seu pai chegava, sabia que as duas estavam lá dentro.  Apertou a mão dos dois, beijando os mesmo.

Foi se reunir com os amigos.   Ele seria o orador da turma que se formava.

Foi também o último a receber o diploma.  O Diretor da escola, falou dizendo que tinha a honra de entregar o último diploma, ao melhor aluno da escola, em todos esses anos.  Um aluno que sempre honrou a escola, não só com suas notas, mas como desportista.  Esperava para ele um futuro brilhante.  Que pudesse escolher a carreira que quisesse pois tinha boas notas para tudo.

O chamou, lhe entregou o diploma.  Deixei por último porque ele também foi escolhido pelos seus companheiros de curso como orador da turma.

Hoje um amigo, falou uma coisa importante, estamos ficando mais velhos, complementaria que mais adultos, mas responsáveis do nosso futuro.  Cabe a cada um individualmente escolher seu rumo.  Temos que lutar contra tudo, contra todos, contra os moinhos de vento como fazia El Quixote de Cervantes, para conseguir sermos uma pessoa única.         Isso somos, pessoas, queremos viver nossas vidas, sei que os pais de hoje tem mais problemas, temos ao nosso alcance informações de todos os tipos (não era seu caso, só podia usar computador na escola, tampouco tinha celular), tentações das mais variadas, drogas, sexo and Rock Roll, como se diria antigamente na época deles.    Temos que ir em frente despejando nossos caminhos.  Sei que alguns ficaram pelo meio, mas não importa, desde que esteja conscientes de que fizeram o melhor.  Desejo a todos uma feliz universidade, um futuro com oportunidades, rumos, não se esqueçam que a linha reta é muito chata.   Todos riram. Ele sempre falava isso com os professores.

Agora um aplauso para os professores que nos aguentaram, para os pais que as vezes pensamos que são chatos, ou na verdade são, mas fazer o que?   Acham que é um direito deles.

Ultima palavra “A LUTA”.

A turma toda ficou em pé o aplaudindo, inclusive os professores, tinha falado sem ler nenhum papel, tinha escrito um discurso, mas sua mãe não gostou.  Esqueceu que ele sabia falar em público, bem como pensar.  Olhou para ela, estava de cara fechada, mas ficou alegre em ver seu pai na última fila em pé junto com o Todd, aplaudindo. Desceu correndo foi até ele o abraçou.  Sua mãe estava irada, o agarrou pelo braço, querendo arrasta-lo dali ele lhe deu um tapa em sua mão, vou comemorar com meu pai, que nunca permite que me veja, quando vem.

Ela tentou agarra-lo outra vez, a senhora fique quieta, pois posso chamar a polícia. Quer um escândalo, posso fazer.

Ela tinha horror a escândalo, embora fosse ela que sempre provocava.  Olhou com ódio seu pai, que lhe enfrentou.  Segunda-feira te espero junto com o juiz. Meu advogado acaba de falar com o teu, olhe seu celular, deve ter alguma coisa importante para ti.

Abraçou novamente o filho, seu amigo passou por ele, ia se aproximar, mas sua mãe o puxou.

Pode me apresentar o diretor?

Sim, foram até o palco, o apresentou, meu pai, professor.  Este levantou a cabeça, sorriu, olá amigo, como vai.

O senhor conhecia meu pai?

Sim, sempre lhe passei informação ao teu respeito, mas em segredo, se tua mãe descobrisse te tirava da escola.  Esse era o preço, silencio.

Olá Roger, fico contente que meu filho tenha tido o melhor, achas que ele pode realmente fazer qualquer universidade?

Não só aqui como fora daqui.  Já devia estar numa, não sei como ele aguentou ter que ficar aguentando os colegas mais atrasado do que ele.  A tempos sem que ele mesmo se desse conta lhe fiz um teste de Inteligência, a sua supera a média mais alta.

Foram jantar, num restaurante chic em Ipanema.  O celular não parava de tocar, ele acabou apagando o mesmo.  Pois era sempre ela.

Segunda-feira fazes 18 anos, poderás aceder a tua conta no banco, retirar todo o dinheiro que depositei todos esses anos.

Não tenho conta no banco, não sabia de nada disso.

Desde o momento que comecei a trabalhar em NYC, depositei religiosamente dinheiro para tua manutenção.  O apartamento foi um presente de casamento de meus pais, ficou para ela.

Mas todos os natais, te mandava presentes, os dois últimos, te mandei um laptop, bem como um celular da Apple.

Pois eu nunca vi presente nenhum, não tenho laptop, uso sempre os da escola, celular esse velho dela.    Deve estar tudo guardado no quarto dela que está sempre fechado a chave, é a única porta da casa que tem chave.

Espera, se levantou, falou pelo celular. O via balançando a cabeça.

Ele ficou conversando com o Todd, não sabe o quanto quero conhecer direito meu pai.

Ele é um grande executivo em um banco de investimento em Manhatan,  sabe sempre por ti pelo seu amigo diretor da escola, mas é tudo que sabe, também sempre quis estar mais contigo, mas tua mãe nunca permitiu.   Ou estava de férias em algum lugar, ou fazendo um curso fora da cidade.

Se eu nunca sai de férias fora do Rio de Janeiro, sempre passei as mesma em casa, curso só de inglês, mas isso, durante o ano.   Estava conversando com o Todd em inglês. 

Te expressa muito bem em Inglês.  Teu pai foi traduzindo para mim o que falavas.

Ele tirou do bolso, imagina escrevi um discurso, ela rasurou tudo, me fez escrever esse, falando da dela mesma, do sacrifício que fez para me manter na escola.  Mas tudo mentira, sabia pelo diretor que meu pai pagava a mesma.   O curso de inglês, ela pensava que era uma extensão da escola, mas sei que meu pai pagava também.

Estou mergulhado num poço de mentiras desde meus dez anos de idade.

Seu pai voltou, quase em seguida, sentaram comeram, quando estavam na sobremesa chegou o Roger, diretor da escola.  Vim assim que teu advogado me avisou.

Sabemos que pode acontecer alguma coisa se te levamos para o hotel.  Então Roger ofereceu sua casa.  Ele ira com meu advogado, bem como a polícia, a casa da tua mãe, para buscares tuas coisas.  Depois até segunda-feira, ficaras na casa dele.   Amanhã passo cedo para te buscar para irmos ver tua avó.  Esta louca para isso, já falei com ela que tinha te visto.

Depois chegou o advogado, era outro amigo de seu pai, se abraçaram, sempre que encho o saco cada vez que venho.   O levou a parte, mas escutou o que dizia, quero que verifiques a historia do dinheiro no banco, sempre mandei bastante, mas ele diz que não sabe de nada.

Era principalmente para ir à universidade.

Foi com os dois, depois de abraçar e beijar seu pai bem como ao Todd, que ficava meio sem graça.

Quando chegaram, um carro da polícia, com uma ordem de um juiz estava esperando. Quando abriu a porta, escutou um escândalo,  estava com sua amiga, furiosa. Dizendo ele deve ter escutado o que dizias.

Mas falava tão alto que parecia que estavam brigando.

Bateu na parede, ela ficou parada vendo os dois homens, bem como o policial. Este estendeu um papel para ela, leu branca de ódio.

O rapaz ficara em guarda com o advogado, segunda-feira de manhã, a senhora tem que se apresentar ao juiz.  Aconselho a levar todos os papeis que tem dos bancos.   Não disse mais nada, esperaram que ele enchesse uma bolsa grande de esporte que tinha, suas roupas já estavam todas dobradas para guardar numa mala.  Pegou o porta retrato, isso com ela olhando, retirou a foto dela, deixando aparecer a de seu pai.  Isso nunca descobriste verdade?

Ficou furiosa, eres igual a ele, me vai abandonar também.

Se eu fosse a senhora, fazia um exame de consciência, tens sido desagradável anos trás anos conviver consigo.

Ela ficou muda.

Saíram do edifício, sabia que todos estavam olhando, imagina um carro de polícia parado na frente era muito para chamar a atenção.

Foram para a casa do Advogado Nestor, só então entendeu que ele vivia junto com o Roger, os dois formavam um casal interessante.   De dentro saiu o filho deles que era seu colega na escola.   Sabia que esse garoto era adotado, mas não que era filho dos dois.  Viu uma foto dos dois juntos com o garoto no meio.  Várias vezes ele tinha defendido o mesmo de bullying na escola, treinavam junto o judô, jogavam Vôlei, na equipe da escola.

Filho hoje tens companhia para dormir, arrume a cama debaixo para o Ayrton.

No quarto contou tudo para o outro, nunca tinham falado nada de suas vidas.  Talvez por  falta de oportunidade.

No dia seguinte de manhã, o pai passou com o Todd, para irem visitar sua avó,  ela ficou emocionada, fazia mais de oito anos que não o via.   Não parava de passar a mão pelo seu rosto, como es bonito meu neto.   Sabes que levas o nome do teu avô.    Ele iria adorar te conhecer, avisei tua mãe quando ele morreu, bateu o telefone na minha cara.

Sinto muito avó, não ter podido me despedir dele.  Depois a senhora tem que me dar uma foto dele.

Espera, essa vais gostar,  rebuscou numa caixa, olhe, era teu avô na mesma idade tua.  Veja meu filho como os dois são parecidos.   Realmente a não ser pela roupa, poderia ser uma foto dele.

Uma vez teu avô ficou bravo, foi até o apartamento, estavas na escola, tua mãe o ofendeu muito, morreu dias depois.   Dizia que não queria morrer sem ver-te, nunca me disse o que foi que ela lhe falou.

Passou uma outra senhora, a chamou para lhe apresentar, esse é meu neto, esse meu filho apertou a mão do Todd, esse seu marido.   O dizia com orgulho.

Porque a senhora não se veste, vamos comer por aí. Faz tempo que a senhora não sai.

Sabe se existe aquele restaurante ali no começo de Barra da Tijuca, que teu pai adorava nos levar para comemorar coisas.  Ainda existe?

Vou descobrir rápido.   Seu pai acessou o celular, era um último tipo.  Em seguida o viu falando com alguém.  Voltou rindo, fiz a reserva,  quando dei meu nome, perguntou se eu era filho do Comandante Guimarães.

Sabia que teu avô era comandante da Marinha?

Não pai, a menor ideia, ela nunca falava nessas coisas, tampouco adiantava perguntar.

Tinha exata noção que todos esses anos tinha vivido numa bolha de mentira, que algumas vezes com muito custo tinha conseguido fazer um buraco.  Mas sempre esperando um dia que pudesse ser livre.

O pai o viu calado, perguntou por quê?

Respondeu, porque todos esses anos vivi numa bolha, cheia de mentiras, tentando que ficasse alienado de tudo, mas felizmente não conseguiu, porque chegou um momento que aprendi a mentir tão bem ou melhor do que ela.

Ontem quase soltei o do meu amigo, já que sua vizinha faz igual, mas depois pensei que não tinha esse direito.

Fizeste bem meu filho, não se deve mexer com a vida dos outros.

Me lembro um dia tendo aula com o Roger, que falávamos de hipocrisia, eu vesti a carapuça totalmente, pois imagina o tempo todo ter que fingir que tudo está bem.  Ter que aguentar aulas que já sabia tudo, procurar não responder antes dos outros.                      Eu só respondia se me perguntassem.  Roger ria muito comigo por causa disso, dizia que os professores nunca tinham reclamado de mim.  Tinham medo de que eu me tornasse pedante.

Sua avó do assento de trás, que gosto da ver, pai e filho conversando tranquilamente.

O almoço foi genial, sua avó estava com a língua solta, tinha tomado um copo do vinho que gostava branco, bem frio.   O dono do restaurante se lembrava do detalhe.

Quando lhe apresentaram, o homem disse o Comandante Guimarães falava que tinha um neto, mas pensei que vivesse nos Estados Unidos, pois nunca o tinha levado ali.

Teu avô era uma grande figura, fui marinheiro com ele.  Me deu força para ter esse meu restaurante, mas já estou velho, preciso me aposentar, mas nenhum filho quer isso, todos fizeram faculdades graças a deus, tem sua vida.  Vou aguentando para me distrair, além de que o pessoal aqui a maioria está comigo desde o começo.   Nos aposentaremos todos juntos.

Nunca estive na Barra, é a primeira vez, meus amigos vinham fazer surf aqui, na segunda feira sempre estavam falando nisso, eu quieto, pois como ia dizer que tinha passado o final de semana sentado num sofá, vendo secção da tarde com minha mãe.  Se tentava escapar era pior, pois ficaria falando horas.   Se dizia que ia ao cinema, só podia ir com ela, com a amiga, o filho desta, mas claro elas queriam ver comedias românticas, nos dois queríamos ver um filme moderno.  Isso nem pensar.

Meu amigo pelo menos passa um final de semana com seu pai, além dos irmãos mais novos que tem.   Pelo menos tinha o que contar.

Ficou parado com o garfo no ar, olhando o mar, se pudesse, se tivesse assas nesse momento estaria fazendo voos rasantes sobre as ondas.

Notou que sua avô pousava a mão no seu braço.  Isso fazia seu avô muito, quando lhe perguntava o que?   Me dizia se tivesse asas nesse momento estaria fazendo voos rasantes sobre as ondas.

Era exatamente isso que estava pensando.    Do nosso apartamento, se via o mar, ele sempre gostou de ficar sentado olhando as ondas, aliás, morreu assim, sentado na varanda, olhando as ondas.

Eu avó quando quero pensar, vou a praia, fico olhando as ondas para ver se me responde as minhas incógnitas.

Quase soltou, quem eu sou, para aonde vou, quem serei no futuro.

Depois a levaram outra vez a residência em Jacarepaguá, foram para a casa do Roger.

O Nestor disse que o advogado dela tinha chamado, queria saber quem era esse novo juiz. Lhe disse a verdade, o outro se aposentou.   Ainda soltou, ela esta me chamando a cada 15 minutos, repetindo a mesma coisa, essa mulher está louca, pensei que os anos tivesse melhorado, mas creio que piorou.

Lhe disse que não falasse mais nada, pois o poderia chamar para depor.

Na segunda-feira, antes de saírem da casa do Roger, só iria o Nestor, foi com ele primeiro até seu escritório.   Lhe perguntou se sua mãe sabia que ele vivia com o Roger.  Acredito que não.

Quando chegaram ao fórum, ela estava com a mesma roupa do outro dia, cabelos despenteados, de braço com a amiga.   Não olhou em sua direção.

Mudou de comportamento quando viu entrar o juiz, não era o mesmo que ela conhecia, perguntou alto ao seu advogado, aonde estava o outro juiz.   Este respondeu se aposentou.

Não quero esse juiz, tem cara de filho da puta.  Evidentemente começava mal, o juiz bateu o martelo.

Iremos por parte nesse caso.

O Nestor a chamou ao banco de testemunhas, quando lhe colocaram a bíblia, se negou a colocar a mão em cima.   Bom descobrimos que todos esses anos que meu cliente pedia para ver seu filho, a senhora dizia que estava de férias fora, ou fazendo um curso, é verdade isso.

Ela tinha se convencido realmente disso que disse que sim.  

Pode nos detalhar essas férias, esses cursos.   A resposta foi incrível.  Vá tomar no cu.

O juiz a chamou a ordem.

Seguinte pergunta, hoje cedo fizemos um levantamento no banco.   Seu ex-marido, deposita mensalmente no banco um valor alto, para a universidade de seu filho.

Soubemos que a senhora, com o seu advogado, bem como o juiz, logrou sacar todo esse dinheiro, queríamos saber aonde estão, já que esse dinheiro não fazia parte do que ele depositava para despesas de seu filho.

Se negou a responder, tinha visto tanto filmes que respondeu me acolho a quinta emenda.

A cara do Juiz era ótima.   O advogado dela, não fez nenhuma pergunta.

Ele foi chamado a depor.  O outro advogado ia dizer que ele era menor de idade, quando o juiz lhe perguntou qual a tua idade.

Hoje senhor faço 18 anos.   Ela gritou, mentira, tem só 16 anos, é um irresponsável.

Senhora, mais uma interrupção, a mando para o calabouço.

Meu jovem, como é teu dia, ele detalhou.

Tens amigo?   Só um, me é permitido, o filho da senhora que está ali.  Mais ninguém, todos os dias tenho que falar com quem conversei, se falei alguma coisa que não estava certa etc.

Como os jovens da tua idade, quais os teus esportes favoritos?

Faço o que esta permitido na escola, fora dela, escapo para correr na praia.

Todos esses anos, você recebeu pelo teu aniversário, natal, algum presente de teu pai.

Nunca, ele me disse que no último ano me mandou um laptop além de um celular, mas nunca os vi em minha vida.

Ela gritou, tudo isso para o corromper, sem querer soltou tudo de uma vez, todos esses presentes, caros, livros de museus, coisas assim, tudo eram para corromper meu filho, esculturas nuas, tudo sexo.   Porque o pai dele sempre só pensou nisso.

Ele sem querer perdeu a paciência, a senhora acredita que nunca fiz sexo?

Claro que não, eu não ia permitir.

Mas permitiu, porque eu fiz sexo desde os 15 anos, com o filho da sua melhor amiga. 

A cara da outra era de horror, sua mãe estava de boca aberta.   Saíste ao teu pai, um viado, vou te colocar num colégio interno, do qual nunca mais vais sair. Isso falava em pé com o dedo em riste.  Por detrás veio um policial, a fez se sentar.

Agora senhor juiz, gostaria de fazer uma coisa inédita, interrogar o advogado da senhora.

Este tentou saltar o convite, mas o juiz concordou. 

Este estava nervoso.  Ontem o senhor me contou, vou mencionar, porque em nenhum momento me pediu confidencialidade.  Que o senhor junto com essa sua cliente, o anterior Juiz, fizeram tudo em conluio, pois o dinheiro nunca está no banco, os avisos chegam no dia seguinte são retirados.   O que queremos saber aonde está?

Ele apontou a ela, dizendo numa conta que abriu em seu nome.  Diz que por direito esse dinheiro lhe pertence pelos anos de amargura que ele lhe causou.

Bom senhor juiz, pedimos o embargo dessa conta, já que o dinheiro era depositado, para que o rapaz pudesse ir à universidade.

Para que ir à universidade, se acabara sendo um funcionário como eu.  Esse dinheiro senhor juiz é a garantia de minha aposentadoria.  Ganho muito mal, sou funcionária pública.

Este disse, pela sua ficha, inclusive uma péssima funcionária, inimiga de todos seus companheiros.

Tem muito viado no departamento sim, muitas putas, mulheres que saem com qualquer homem, não são pessoas honradas. 

A cara do juiz é ótima.

Uma última pergunta, ontem o senhor me fez um comentário, poderia repetir.

Não posso fazer isso, fiz em confiança.

Como em confiança fez uma série de coisas erradas, eu poderia pedir que o senhor fosse suspenso pela ordem dos advogados, por agir sempre de má fé.

Acurralado, soltou, eu disse que pensei que com os anos ela fosse entrando em razão, mas via que estava cada vez mais louca.

Para que disse isso.  Tudo virou um circo.  O juiz batendo o martelo ela gritando milhões de palavrões, a amiga tentou acalmá-la, mas ela repeliu, teu filho é viado corrompeu o meu. Coisas assim.

Quando finalmente os guardas conseguiram fazer as duas se sentarem, o advogado na cadeira de interrogados pediu água, isso foi demais para mim.

Bom o senhor que quer Doutor Nestor.  Que reconheçam os erros anteriores, dando a guarda ao pai, bem como a devolução do dinheiro roubado, ou perdão se ela assinar essa petição de divórcio, que o anterior juiz se negou sequer a olhar, é um divórcio à revelia.

O Juiz olhou para ela, sabe que a senhora pode ir para a cadeia verdade, por toda essa manipulação, roubo de dinheiro que não era seu, ela tentou falar, ele fez sinal de silencio.  Primeiro assine a petição de divórcio.  Lhe deram o papel ela assinou.  Segundo isso com o senhor advogado, esse dinheiro tem que estar na conta desse garoto hoje, que ele tenha acesso a mesma.   Segundo este outro papel, o declaro independente da família, nem guarda nem nada, tens 18 anos, eres dono do teu nariz.

Ele agradeceu o juiz.

O jovem quer retirar alguma coisa da casa da sua mãe?

Não senhor, a única coisa que tinha valor, era um foto do meu pai, que escondia atrás de uma dela, no meu quarto, isso ela nunca descobriu.   Depois virou-se para a vizinha, acho que a senhora devia conversar com seu filho, o escute por favor, para tampouco perder o único na verdade que tem, ele a adora, mas vai fazer 18 também pode ir embora para a casa do pai.

A cara da mulher era ótima, ele ia falando, ela balançando a cabeça, que sim, saiu rapidamente dali.

Quanto a sua cliente, primeira providência, dinheiro na conta,  além de uma ordem de que não pode se aproximar de seu filho, nem de seu ex-marido, porque é agressiva.  Ainda olhou para ela soltando, quem planta colhe senhora.

Senhor advogado, quero os papeis das transferência de dinheiro na minha mesa dentro de uma hora, ou os dois serão presos.

Ela ainda tentou fazer uma chantagem daquelas eu, que me sacrifiquei a minha vida inteira por ti. 

Por mim, vivi numa prisão escutando falar o dia inteiro as mesmas coisas, que meu pai, era mau, que isso que aquilo.   Nem sei como ele pode aguentar suas loucuras, eu também daria no pé.

Tens coragem de chamar de louca tua mãe. 

Se não estas louca, estas muito perto disso, acredito que um bom psiquiatra pode ajudá-la, verdade senhor juiz.

Gostei da ideia, senhor advogado, quero que arrume um psiquiatra para sua cliente, que me de todos os avances dela em busca de uma normalidade, caso contrário, recomendarei uma internamento numa clínica psiquiátrica.

Ela pegou um cinzeiro que estava em cima da mesa, atirou em direção do juiz. Filho da puta, achas que vou ficar de braços cruzados, enquanto esse leva meu filho, prefiro matá-lo. O juiz, fez um sinal, dois guardas a algemaram.  Fica recomendada o internamento.

Mas quero a transferência do dinheiro. 

Seu pai por recomendação do Nestor, não tinha falado nada até então, tudo que fez, foi colocar a mão em cima da dele, estas livre meu filho.  Quero que faças como teu avô, que voe sobre as ondas.

Ele riu, sentia pena dela, mas achava quem ia acabar num psiquiatra era ele.

Saiu abraçado ao pai, reservamos um quarto no hotel, assim poderemos conversar, para que possas decidir o que queres da tua vida.

Não foi uma conversa fácil, queria entender o que tinha acontecido no passado, para Roberto era difícil falar nisso, mas como dizia Todd, ou agora ou nunca.

Começou falando de sua juventude, de ter um pai Comandante da Marinha, o quanto este lhe tinha cobrado para que entrasse para mesma.  Ele tinha preferido fazer universidade.   Não levou muito tempo aborrecido comigo, não era um sujeito de ficar guardando magoas para depois.  Conversamos, ele entendeu meu ponto de vista.  Mas claro, como único filho homem as perguntas era as mesmas de sempre.  Conheci tua mãe, eu estava terminando a universidade, numa festa de calouros.                    Ela estava completamente bêbada, se atirou em cima de mim literalmente.  Os companheiros diziam para me aproveitar, a levei para sua casa, quando chegou acompanhada de um homem, bêbada, foi um escândalo, seus pais eram muito estritos, nem a deixaram entrar, eram contra a entrada dela na universidade.   Lhe perguntei se tinha aonde ficar, me disse que não conhecia ninguém, como ela fez depois contigo, os pais não a deixavam sair nada disso.   Eu vivia sozinho, já tinha um emprego, a levei para meu apartamento, de noite ela se meteu na minha cama.   Meses depois, nascia tu.   Mas eu sabia o que queria, gostava dos homens.  Ela achava que podia me curar, tentei de todos os modos me curar como ela dizia, fui a psicólogos, nada.                           Claro, estava tu que pesava muito no relacionamento, eu te adorava, quando começaste a andar, corrias para mim, a primeira palavra tua não foi mãe, mas sim pai.   Ela fez um concurso para o emprego público, a ajudei a estudar, cuidando de ti.  Finalmente na segunda tentativa passou, acredito que meu pai tenha mexido seus conhecimentos para isso, pois ela só falava nisso.  Tínhamos nos casado, meu pai nos deu esse apartamento, nunca nada estava bom.                    Eu reclamava, pois, te desatendia constantemente.   Estava preocupada em puxar saco de todos para ficar fixa no emprego.

Nessa época eu trabalhava de noite num hotel, na portaria, fui conhecendo homens que me atraiam.   Entre nós já não acontecia nada.   Ela estava histeria quando eu chegava de manhã, dizendo que tinhas passado a noite inteira chamado por seu pai.   A verdade era que mal eu entrava, corrias para mim.   Depois passou a ter ciúmes de ti, exagerados.   Lhe propus nos divorciamos, pois queria seguir minha vida.  Fez um escândalo, dizendo que em sua religião isso não existia.   Eu lhe dizia que não tínhamos casado pela sua religião, mas sim no civil. Falar com as paredes era mais fácil, talvez que entendesse, respondesse aos argumentos.

Nessa época conheci um rapaz, comecei a ir dormir com ele, fui inconsequente reconheço, mas era jovem queria viver.   Pedi o divórcio, se negou a assinar os papeis, fazia coisas absurdas, no meio de meu turno de noite, aparecia contigo, te largava no hotel, ia para casa dormir, dizendo que tinha que ir trabalhar de manhã.

Quase perdi o emprego, o que fiz foi levar-te comigo, a todas as partes.   Mas não se contentava, te levei a viver comigo e com Antonio, ele te adorava, passou a ir à casa dele, fazer escândalos, acabou me deixando.   Lhe dei um ultimato, ou me dava o divórcio, ou ia embora contigo de qualquer jeito.   Colocou uma denúncia que estava roubando seu filho, ai tudo virou uma merda, perdi o emprego, voltei a viver na casa de meus pais.   Eles tentaram falar com ela, mas foi inútil.

Acabei indo embora, pois a cada emprego que arrumava, ela aprontava. Fazia denúncias anônimas que eu era gay, que tinha abandonado sua família, essas coisas.

Um dia desesperado, fui falar com seus pais.  Uma dura realidade, ela não era filha deles, mas sim de uma parente que a tinha abandonado lá.   A senhora que ela dizia que era sua mãe, a chamava de manipuladora.   Não queriam saber nada dela.

Fiquei sem tem aonde recorrer.   O jeito foi abrir um processo, mas não sei como ela conseguiu enganar o advogado, bem como ao juiz se fazendo de vítima, uma mulher com um filho para criar, que o marido gay abandonava para passar as noites com homens.

Saiu isso nos jornais, quando ia procurar trabalho, levava com a porta na cara.  Me desesperei quando o juiz lhe deu a guarda de ti, queria dinheiro além do apartamento.

Meu pai me disse que o melhor que fazia era ir embora do Brasil por um tempo.  Primeiro me fui a Miami, arrumei um emprego num hotel, o dono tinha hotéis por todo o país, coloquei em ordem a maneira de administrar o mesmo, depois me passou a cadeia inteira, passei a ganhar bem, mandando dinheiro para ela.   Estava sempre reclamando mais, dizendo que te criar custava muito.   Meu pai, bem como Nestor que virou meu advogado disseram que de maneira nenhuma, que o valor que eu mandava, transformado em dinheiro do Brasil, era muito.

Outra briga, mas desta vez o juiz concordou, desde que eu começasse a mandar dinheiro para um fundo para tua educação.   Nessas alturas, tinhas terminado o primário, o Nestor arrumou para estudares na escola do Roger.  Já viviam juntos nessa altura.

Viraram teu anjo protetor sem que tu soubesses.  Ela deixou de me perturbar, nessa época conheci o Todd, nos apaixonamos, me levou para NYC, acabei arrumando um emprego excelente fui subindo, deste passei para outro melhor aonde estou até hoje.

Mas nunca imaginei que ela passava a mão no teu dinheiro, porque tem o salário dela, bem como a ajuda que mandava para teus cuidados.   Agora vejo que não fazia nada disso, além de falar mal de mim sempre.  Acredito que ela tenha um problema de rejeição complicado.

Mas todas as vezes que eu vinha, como era férias, nunca estavas, ou enrolava, até me dizer que não me querias ver dizia, inclusive nas últimas vezes apareceu com essa mulher que é sua vizinha, esta concordava com ela que não me querias ver.

Hoje poderia processá-la também.   Mas foste corajoso dizendo que se ela não queria perder o filho, conversasse com ele.

Nunca te esqueci meu filho, mas imaginei que estarias cheio de ódio contra mim.  Não tivemos a partir da tua infância, nenhum contato.   Te mandava os presente todos os anos, mas não recebia nenhuma resposta.   Todd dizia que se tu tinhas mágoa de mim, era natural.

Eu nunca recebi nada em agradecimento, algo que pudesse alimentar, ele recebeu meu presente, até pensei, se ela entrega dizendo que é dela, tudo bem, mas ele tem isso que mandei.

Mas descobrir que nunca de teu nada, me enfurece.  Escrevia sempre uma carta que colocava nos presentes, falando como sentia falta de ti.

Na verdade, falei com o Roger, quando ele me disse tua facilidade em aprender, que inventasse isso do Instituto ter um acordo com a escola, para poderes cimentar teu futuro.

Mas talvez se estivesse aqui, talvez tivesse descoberto tudo isso a mais tempo, teria tentado me aproximar mais de ti.    Me sinto culpado por tudo isso.

Pai, acho que não teria mudado nada, talvez até tivesse piorado.   Sempre desconfiei de seu equilíbrio.  Quando você foi embora, me lembro que nas primeiras férias, fiquei literalmente preso em casa.  Só podia sair na varanda. 

Adorava a volta as aulas, porque assim podia escapar dela, depois como passava o dia inteiro na escola, esta virou meu refúgio, o outro eram as aulas de inglês, sabia que vivias na América, então se podia sonhar em viver contigo, teria que aprender.

Terei que me adaptar a tudo isso, resolver se faço faculdade aqui, ou se tento ir com o senhor, mas tens uma vida com o Todd, não achas que isso pode atrapalhar?

Podemos falar com ele.

Este riu muito, vais acabar com os longos silencio que existem entre os casais que vivem a tanto tempo junto.    Amo seu pai, faria qualquer coisa por ele, se vai estar feliz em colocar-se em dia contigo, eu estarei feliz.  Mas se o faz infeliz, eu vou encher tua bunda de palmadas.

Ficaram rindo, no dia seguinte se dedicaram a tirar um passaporte para ele, descobriram que não tinha nenhum documento, sua mãe nunca tinha cuidado disso.

Todos os dias iam visitar a avó, ela estava radiante. Abraçava o neto, o apertava, sentia seu cheiro. Para guardar na minha memória.

Uma noite saíram foram fazer um programa que o Todd adorava, ir a uma roda de samba. Nunca tinha saído de noite, sem querer se soltou, quando viu dançava relaxado, pensavam que ele era um gringo que sabia sambar.  Vinha falar com ele em inglês, pois o tinham visto falando com o pai e o Todd.

Riu muito, nem fui embora, já virei gringo.

Mal chegou a NYC, amou a casa que viviam, tinha um quarto para ele. Os dois tinham uma agenda apertada, seu pai lhe disse, confio em ti, que tomaras cuidado com drogas e outras coisas.  Atenção com quem te envolves.    Ia começar a fazer um curso de arte na Parsons, ao mesmo tempo que iria conhecer a cidade, para pensar no que fazer.   Não tinha na sua cabeça definido nada.

Andava pela cidade, com um bloco, parava desenhava, sentia a pulsação da cidade, ainda não tinha ideia, mas nele estava desabrochando todas as imagens que tinha trancadas na sua cabeça.  Da timidez das primeiras aulas, começou a se soltar, breve estava pintando em papeis imensos, falou com os seus pais, nem sei o que fazer, não posso trazê-los para casa, são muito grandes.    Todd era bem relacionado, foi com um galerista, sem ele saber, ficaram de longe o vendo pintar.

Estava com um audiofone escutando músicas que gostava, nunca tinha podido fazer isso, seus movimentos eram abertos, eram uma série de imagens superpostas, de recordações suas, uma Todd imaginou que era Roberto o sustentando no ar, se cruzava com uma imagem do Cristo Redentor, eram suas lembranças de infâncias que saiam a galope desenfreados pelo papel.

O Galerista, falou no ouvido do Todd, eu compraria agora esse trabalho.

Não sabia o que ele estava escutando agora, se ajoelho, quando se levantou, tinha tinta nas mãos, verde, amarela na outra, começou a desenhar com a mão, marcando ritmo no pé, como se estivesse sambando, era o batuque que escutava desde seu quarto nos sábados.  Nunca tinha ido, mas imaginava.

Todos alunos estavam ali parados, olhando com os olhos abertos seu trabalho, ele nem se dava conta.

Quando de noite falou com o Roberto, esse riu, esse menino tem muito para colocar para fora. Temos que conseguir um studio para ele pintar.

Todd dias depois achou a solução, no último andar do edifício, em que uma parte eram partes técnicas do edifício, existia um grande espaço, que tinha sido residência de um pintor, enquanto tinha vivido em NYC.   Perguntou ao porteiro quem era o dono.  Pertence ao condomínio, basta pedir autorização numa reunião, que eles alugam, precisam de dinheiro em caixa.

Fizeram um preço bom, esse foi um presente dos dois ao Ayrton.  Com o dinheiro que tinha, comprou material, agora mal amanhecia o dia lá estava, colocando tudo em grandes papeis próprios para isso.

O Galerista levou o primeiro, o mandou emoldurar, deixou ele sozinho numa parede de sua galeria, aonde tinha uma vasta vidraça na frente, de qualquer ângulo da rua, se via.

Dois dias depois uma cliente sua, uma milionária, disse que tinha passado várias vezes por ali, se admirava que ninguém tinha comprado ainda.

Ele disse talvez pelo preço, também por ser uma obra em papel.

Quem é o artista disse ela.

Quer conhecê-lo?

Adoraria, me emociona esse trabalho.  Chamou várias vezes, não atendia, chamou o porteiro, que disse que tinha subido como pedia o Todd, que ele estava trabalhando, como tem música não deve escutar.  Avisou a senhora, ficaremos do lado de fora, normalmente ele não percebe que tem alguém olhando.

Tinha agora uma tela imensa na parede, escutava uma música que o devia colocar elétrico. A senhora Goldstein, não fechava a boca. Os movimentos eram precisos, as figuras de etéreas se tornavam vivas. Pareciam se mover na tela contando uma história, era a sua história de um garoto solitário, os sonhos que tinha de sair voando pelo mundo.  Quando ela se virou para a outra parede, havia uma sequência em branco e negro de uma figura alada que começava na esquerda da tela, se movia a direita como que alçando voo, o que fazia agora era a sequência. Ela categórica, disse ao Sam Samuelson, que queria comprar o da galeria, bem como esses dois, não me importa o preço.   Podem ficar expostos na galeria, até eu conseguir esvaziar uma duas paredes do meu apartamento, tenho belas obras, mas me faltam vida, para o meu final de vida. Dois dias depois, ele veio jantar com eles, não viu o Ayrton, quando perguntou aonde estava, lhe disseram já o chamamos, disse que já desce.

Entrou sala adentro a cara era fantástica.  Vou tomar um banho, já me junto a vocês.  Mas Sam não lhe permitiu.   Tenho que avisar de três coisas, o quadro da galeria foi vendido, bem como o do anjo negro, você voando, também.

Como?   Ele contou quem era a senhora Goldstein, ela esteve aqui, viu você trabalhando, mas não quis interromper, disse que os quadros podem ficar na galeria, enquanto desocupa paredes da casa dela, que tudo isso para ela significa vida. Que está cansada do que tem.

De quanto estamos falando perguntou o Roberto?

Cinco mil dólares, respondeu o Sam, sem a minha parte que já retirei.   Ayrton olhava para ele sério, e se não quero vender.

Aí estou fudido, respondeu diretamente o outro.  Ela vai me matar, fazer picadinho.

Antes quero conhece-la, ele não disse nada, era um envelope com um timbre, dentro um convite manuscrito convidando os três para um jantar informal.  No final de semana.

Ele foi pensando deve ser uma velha louca.  Caiu para trás quando a viu, estava com seus cabelos brancos, eram tantos que pareciam de prata, soltos sobre uma roupa que devia ser antiga pois não se usavam mais.  Depois soube que era um Palazzo Pigiama de um famoso costureiro italiano, já falecido, feito em brocado prateado com seda negra.

Começou a falar com ele, segurando sua mão, quando te vi pintando, sei que é algo somente teu, mas sem querer eu entrei na história, a fiz minha, essa vontade de voar sobre as ondas que algumas vezes temos, como se fossemos donos do mar, do ar.   Isso me fez me sentir viva outra vez.  Passara para uma sala, que estava cheia de caixotes, mandei doar todas as obras que estavam aqui para o MoMA, que eles aproveitem para enriquecer sua coleção.

Mas o que tinha nessas paredes?

Algumas obras de Picasso, dois Monet, quatro Braque, que comprou meu marido, eu de uma maneira os odiava, menos Picasso, porque se tentava entendê-los dava um nó na minha cabeça.

Vai sobrar uma parede, mas depois me pintas alguma coisa mais.

Eram só os cinco jantando, depois ela avisou, vem algumas pessoas para tomar um drink, eu sairei com duas delas para um show de jazz, se querem me acompanhar, adoraria.

Não o deixava afastar-se dela, lhe disse baixinho, é muita gente chata junto, mas tem uma coisa vão te fazer famoso, quando eu disse que tinha comprado o quadro da galeria, riram de mim dizendo que eu nem conhecia o pintor.   Eu disse que sim, os mandei tomar no cu.

Minha família emigrou para cá da Polônia, com a chegada do nazismo, quase morremos de fome, eu fui vendedora de uma loja fina,  Um dia meu marido entrou para comprar um presente para uma amante dele, dois dias depois voltou dizendo que estava solteiro, que não podia deixar de pensar em mim.  Meu inglês era horrível, mas a maioria pensava que tinha um sotaque francês, que era fino.  O enrolei meses, até ter certeza de que não tinha mais nenhuma amante, me casei com ele, infelizmente o único filho que tivemos morreu na guerra do Vietnam, ele morreu de tristeza.   Sobrei eu só vivendo nessa merda de apartamento, que mais parece um mausoléu, ao ver teu trabalho me senti viva. Obrigado garoto.

Ele se desculpou de não ir ao show com eles todos, prefiro um dia sair contigo sozinho. 

Eu passo pelo studio para te ver. Posso.

Ele foi direto para lá, colocou uma tela retangular alta, começou a pintar a senhora como a imaginava, da esquerda para a direita, numa sucessão de personagens como ela tinha contado, era como se uma imagem se sobrepusesse a outra, a mais impressionante, foi de um momento fugaz quando ela falou da morte do filho e do marido. Depois a direita como uma maestra de cerimonia ela na noite que a conheceu.

Estava ali retocando na quarta-feira uns detalhes rebuscados, quando ela apareceu, se desmoronou numa cadeira, ficou aos prantos. Como conseguiste sentir tudo isso.

Pelo que conversamos.  Esse é um presente meu para a senhora, que se mostrou autêntica comigo, eu detesto gente chata, desconfio delas. 

Meu amor, eu aguento essa gente para não me sentir sozinha, naquela noite te procurei várias vezes para fazer algum comentário.

O que vais fazer agora?

Ia descer para comer alguma coisa.

Coloque só uma calças jeans uma camiseta, foi então que ele reparou que ela estava vestida assim, apenas levava uma jaqueta Chanel por cima.

Vamos comer num lugar que adoro.   Ele ficou imaginando num lugar chic, nada disso foram comer no restaurante judeu, daqueles antigos, todos a conheciam, desde os donos aos cozinheiros.   Trouxe um amigo para comer no meu restaurante preferido.

Sentaram-se junto a janela, olhando o movimento da rua, era uma típica avenida de Chelsea, riam das figuras que passavam.  No teu momento mais colorido, lembre-se disso, que ricos ou pobres, todos tem cor.

Ficou olhando para ela, cada vez que nos falamos, aprendo algo da senhora, me faz bem.  Se eu não fosse gay, me casaria contigo.  Tens cor na alma disse ele para ela.

Nunca mais se separariam até a morte dela.

Quando teve uma serie de quadros prontos, fez uma exposição na galeria, no lugar do primeiro quadro estava o dela.  Estava tão abarrotada a vernissage, que os dois escaparam, foram comer cachorro quente na praça em frente, com um copo de champagne na mão, ele acabou oferecendo para o rapaz do carrinho em troca de uma Coca-Cola gelada.  As pessoas os procuravam, mas só o Todd os viu.

Ele achava interessante a ligação dos dois, quarta-feira era o dia dela, como ele dizia, iam a algum museu, almoçar por aí, fizeram um passeio entre Manhatan e Staten Island de ferry, como qualquer turista passeando.

Tinham sempre o que falar, ele a escutava falar do que entendia por arte, ele do que almejava alcançar. 

Os quadros da galeria que não eram delas, foram vendidos.   Ele tinha uma boa soma de dinheiro, ela lhe disse, se não queria ir com ela a semana da moda em Paris, normalmente me hospedo na casa de uma amiga.  Mas se vens alugaremos um apartamento para os dois.

Seu pai ficou preocupado, mas Todd, lhe disse tens que dar asas para que ele voe.

Ela tinha na sua bolsa como um portifólio da exposição, além dos desfiles de moda, foram ver muitas galerias no Rive Gauche, aonde estava o apartamento, muito moderno, simples.

Riram muito quando uma das amigas que encontraram na semana da moda, a chamou a parte para perguntar se estava fazendo sexo.     Na minha idade, posso ser a avó desse rapaz, ele apenas me faz sentir viva.

Foi mostrando seu trabalho em todas as galerias, ela falava um francês perfeito.

Quando foram à casa da amiga, ela avisou antes, adora fazer sexo  não importa com quem, cuidado.

A mulher só faltou abaixar suas calças.   Mas ele não permitiu, sinto muito senhora, não sou um gigolo.

Sinto muito, mas tinha que fazer essa visita, era casada com meu cunhado.  Quando ele morreu ficou tão rica, que veio viver aqui.

Nos outros dias, andavam como faziam em NY, de calças jeans, tênis, camisetas, visitando tudo que ele não conhecia.

Quando lhe impressionaram as máscaras Africanas do Museu do Quai Branly, ela lhe propôs fazer uma viagem ao Senegal, já que estava ali, era fácil, ele comprou material, alugaram um carro grande 4X4, com um condutor, foram de vila em vila, casebres que ele queria parar, para desenhar as crianças, o fazia tão rápido, depois dizia a ela que tinha feito fotos como ele pedia, olha que olhar triste tem essas crianças, nem começaram a viver, parece que já vem que suas vidas será uma merda.    Pedia para os homens posarem nus para ele, bem como as mulheres, as envolvia com seus panos coloridos, se sentava ali num banco, o motorista e guia dizia que podia cair o mundo que ele não despertava de seus sonhos.

Todos pensavam que eram mãe e filho em viagem.   Num lugar ermo, que viram umas chochas no alto da montanha quiseram subir, o guia, disse que ali só vivia um curandeiro.

Os dois subiram devagar falando coisas, sentiam uma atmosfera fantástica no local, estatuas meio enterradas nas terra.  Depois ficaram sabendo por quê.  As pessoas se convertiam em muçulmanos, tinham medo de ter as velhas esculturas dos orixás, então levavam até lá. O velho tinha uma idade indefinida, podia ter cem como duzentos anos.  Estava sentado num banco, quando eles chegaram.

Falou que os dois em vidas passadas tinham sido família, que esse reencontro, a tinha feito reviver toda sua vida, os dois são de pontos diferentes do mundo, mas ele nunca vai esquecer que a conheceu.  Tu o esperavas todo esse tempo.

Ele perguntou se podia desenha-lo, ele fez um movimento, disse desenha esse homem que a partir de agora vai acompanha-lo, ele levantou a vista, ali estava um negro imenso, só com um taparabos.   Falou no seu ouvido, eu estava te esperando Ayrton, agora sou teu protetor, desculpe o passado, mas tinha que acontecer.

Ela lhe perguntou com quem estava falando, o velho explicou a ela, que só ele veria esse homem, que o ia acompanhar até o resto de seus dias.   Nunca deixará de te desvie de teu caminho.

Quando voltaram estava cheio de material, imprimiu as fotos de Goldstein tinha tirado, da criança, junto com seus desenhos.   Um dos meninos em trapos, ele pintou sobre um desenho geométrico em branco e negro da engrenagem de uma máquina, a criança com seus trapos coloridos, olhando desencantada da vida.  Assim foi fazendo, todos de bom tamanhos, depois o velho o colocou num quadro grande, mas somente detalhes de seus olhos falando com ele que tinham ficado em sua memória, o resto eram detalhes de Africa, detalhes de esculturas, desenhos, era uma visão diferente de Africa, misturou depois com elementos dos gárgulas, como se os animais estilizados em gárgulas estivessem na floresta.

Ficou três meses, quando só saia na quarta feira, que era seu dia de descanso, Roberto, Todd tinham que subir para falar com ele. Um dia fazia muito calor, os dois ficaram ali sentados sem camisas, ele pediu para os dois tirarem a roupa.  Os pintou nus, no meio da selva, o quadro era de uma beleza incrível, pois não havia sexo ali, somente dois homens abraçados, como sempre estavam.   Esse por mais que Sam quisesse levar para a Galeria, não permitiu, desceu ele mesmo para o salão dos dois.    Todd de brincadeira dizia que nunca mais poderiam convidar ninguém para irem até ali, pois iram querer ir para a cama com eles.

Todd um dia lhe confessou que quando ele pediu para os dois ficarem nus, imaginou que ele queria transar com os dois.

Ele riu, Todd, desde que cheguei só fiz sexo com uma pessoa, daquelas de uma noite, ainda não encontrei a pessoa que me desse um click.   Não se preocupava com isso, sabia que um dia chegaria à pessoa certa.

Dois dias depois da inauguração da exposição sobre a Africa, Goldstein, tinha convidado os principais diretores dos museus americanos e franceses.    Não sobrou nenhum quadro, ela ainda fez um jantar no salão aonde tinha nas paredes os quatro quadros dele, o museu Pompidou pediu os quadros emprestados, para montar uma sala.   Ela ficou de responder, morreu dois dias depois.

A grande surpresa, foi que deixou tudo para ele, as obras de artes antigas já tinham doado a museus, a casa estava limpa.

Pela primeira vez chorou muito, perdia não uma benfeitora, mas uma grande amiga, estava inconsolável.   Roberto e Todd, estavam preocupados com ele.  Fazia semanas que não subia ao studio.    Um dia desapareceu.  Ninguém sabia aonde estava.

Tinha colocado à venda o imenso apartamento dela, a ele não interessava viver ali, tampouco transformar o local num atelier, não encaixava, atendeu a última vontade dela, enviou os quadros para Paris.

Passou quase três semanas desaparecido, até que uma pessoa o viu, perto do restaurante que ia com ela em Chelsea, estava vivendo na rua.

Não estava tomando drogas nada disso, apenas tentava entender o mundo dessa gente que vive na rua.

Depois de tomar um banho, e que Todd lhe raspasse a cabeça, pois estava cheia de piolhos, ele se centrou, pintou esse universo, os homeless.  Eram pinturas duras, drogados, ex-militares que ele tinha desenhado, muita coisa estava em sua cabeça.  Quando terminou o último quadro, eram quase 60 em vários tamanhos, Sam teve que alugar uma sala ao lado da sua para fazer a exposição.   Chegou na casa dos seus pais, os dois estavam sentados o esperando, já tinham conversado sobre seu sumiço.   O assunto era outro, sua mãe, nesse entra e sai de clínicas, tinha se suicidado.   Sem avisos, sem recados, que informou ao Nestor foi a vizinha.  Eles conseguiram manter o corpo na morgue, num congelador, até eles chegarem.

No enterro só estavam eles, Roger, Nestor, a vizinha e seu filho Claudio, seu antigo namorado, se surpreendeu, pois, era outra pessoa. O abraçou, beijando, velho amigo.  Estiveram conversando depois, Claudio confessou que ele tinha sido seu único amor, que nunca tinha amado alguém como ele.  Nesse vai e vem, retomaram seu romance, ele tampouco tinha esquecido o amigo.    Este contou, não sabe o bem que me fizeste, naquele dia minha mãe chegou em casa desesperada, se sentou comigo, conversamos honestamente.  Reconhecia ter perdido o contato comigo.   Cada vez que tua mãe voltava para casa, a tentava jogar contra mim, mas nunca conseguiu.  A um ponto de minha mãe ignorá-la totalmente.

Uma noite depois de terem feito sexo, como dois homens adultos, ficaram conversando, Claudio contou o que estava fazendo, estava desenhando moda para várias boutiques, bem como estamparia.  

Não gostaria de ir estudar em NY, lhe perguntou, estou negociando a compra de um apartamento antigo em Chelsea para transformar em meu studio, bem como minha casa, podias ficar lá, de uma certa maneira é perto da Parsons ou de outras escolas de moda.

Sua mãe agora, tinha um namorado sério, achou ótima a oportunidade, não podes perder, além de que vocês se dão bem.

Claudio, logo estava trabalhando como fazia no Brasil, desenhando estamparias, criando moda, no apartamento, ele tinha um studio só para ele, agora os dois eram clientes do restaurante que ia com Goldstein, saia dali com várias quentinhas, para distribuir entre seus conhecidos da rua.

Tentava ajudá-los, embora que a escolha as vezes de viver assim eram deles mesmo.

O romance deles, agora era sério, olhava o exemplo do Roberto com o Todd, as conversas eram sempre longas ao final da noite, duas vezes por semana os velhos como eles diziam vinha jantar com eles.

 Claudio agora usava uma barba grande, que o fazia extremamente viril, quando estavam sós trabalhando andavam nus pela casa, as vezes se cruzavam por qualquer coisa, provocavam um ao outro.   Quando os velhos se aposentaram, ficaram na dúvida aonde viver.  Não queriam viver longe deles, ao mesmo tempo queriam um apartamento menos complicado.

Conseguiram um perto deles, assim ficava mais fácil.              Agora iam comer com eles, os dois entraram para um associação que protegia e ajudava o pessoal da rua.   Faziam o possível para ajudar as pessoas.   Nunca estavam quietos.

Ele conseguiu reunir novamente quadros de todas suas épocas, já com seus cinquenta anos, fez um retrospectiva, na galeria do Sam, que passava a mesma para seu filho.  Embora não houvesse nada para vender, até os quadros que estavam em Paris voltaram para lá.  Foi entrevistado para revistas, televisão.   Um dos entrevistadores lhe perguntava, como definia todas essas fases, todas eram fortes, mas a do homeless era a mais forte de todas.

Imagina, perdi uma mulher maravilhosa em minha vida, vamos dizer minha alma gêmea, andamos muito, nunca conversei tanto com uma pessoa, ela fez o mesmo comigo. Viajamos juntos, quando ela morreu, me desequilibrei, pois ficou faltando uma parte de mim. Foi duro me recuperar, foram esses amigos da rua que me ajudaram, afinal perderam muito mais coisas do que eu.

Pelo que sabemos também recuperaste o amor da tua infância e juventude.   Sim, voltamos a estar juntos, nunca amei ninguém, ele era a única pessoa sempre que estava comigo, nos momentos difíceis.   Quando vim embora, podia ter cobrado alguma coisa, pois ficava para trás, mas nunca me esqueci dele.   Agora nos casamos.  Apesar de velhos para alguns nos casamos porque sabemos que queremos seguir juntos.   Não somos pessoas que frequentam a noite, vivemos para nosso trabalho, viajamos muito sim, com meus dois pais.

Em seguida foram fazer uma viagem longa pela Itália inteira, gostaram tanto da Sicília, que alugaram uma casarão numa vila antiga, ficaram por lá alguns anos pintando, Claudio desenhando, os velhos se divertiam na vila.

Quando tinha uma boa coleção de quadros prontas, a ofereceu para uma galeria de Paris, que aceitou imediatamente.   Estavam tão habituados nessa vila, que ficaram a viver lá.

Os velhos tinham seus amigos, com que iam jogar cartas, os dois seguiam sempre trabalhando, nem era pôr dinheiro, ajudaram a montar uma escola na vila, para que as crianças não tivessem que ir estudar fora.  Ajudaram as mulheres a montar uma associação, para produzirem cerâmicas, estavam sempre em movimento.

As vezes os dois na cama, ficavam olhando um para o outro, lembra-se que fazíamos isso vestidos, alisávamos nossos sexo, nos beijávamos, sempre fomos importantes um para o outro. Agora podemos dormir nus, fazer sexo como o que sonhávamos em fazer, mas tínhamos medo.

A mãe do Claudio vinha visitá-lo sempre que podia, passava meses com eles.  Se entrosava na vila com as mulheres.  Pensava que tinha sido infeliz, mas a vida delas é mais difícil que a que eu tive.

Ele ainda sonhava as vezes que estava voando sobre as ondas, no dia seguinte ia à beira mar, para se relaxarem.  

MIDNIGHT

                                                  

Tinha acabado de cumprir sua pena de seis anos na prisão, por uma besteira, estar no lugar errado na hora errada.   Como tinha sido um jovem problemático todo o tempo, ninguém acreditou nele.

Seu tipo sempre lhe tinha causado problemas, era filho de uma vietnamita, com um soldado negro.   Quando os Estados Unidos resolveram deixar o país à mercê dos comunistas, tudo mudou.   Seu pai era da embaixada Americana, conseguiu autorização para levar a mulher com quem tinha se casado bem como o filho.

Mas tudo nem sempre é perfeito, na corrida para chegar a embaixada, para o último voo de helicóptero, sua mãe foi atingida, seu pai correu tudo que pode, foram quase os últimos a subir no helicóptero.    Tinha dois anos, estava acostumado a uma coisa, quando seu pai o levou para ver sua família, a coisa ficou feia, tinha deixado uma noiva antes de partir, agora voltava com um filho nos braços.   Ainda por cima mestiço.  Foi um deus nos acudam.  Ele olhava assustado a tudo.  Quem lhe salvou foi a avó de seu pai, que o pegou nos braços o afastando dali.  Ela vivia numa casa ao lado, o levou com ela, a partir desse dia viveria com ela até que morreu.

A amava por cima de qualquer coisa, para alguns ele era lindo, magro, mulato, cabelos lisos negros, olhos rasgados, de uma cor estranha, nem marrons, nem negros, uma mistura, era como um verde escuro, cheio de motas amarelas.  Sua pele era azeitonada. 

O pior era, seu pai se casou com a prometida, tiveram cinco filhos, nenhum se aproximava dele, pois a mãe não permitia, o pai, estava mergulhado em seu trabalho, dar de comer a todos.  Os negros não gostavam deles, tampouco os brancos, na escola era como se ele não existisse, mas em compensação era o melhor aluno.

Com 16 anos começaram os problemas, treinava artes marciais com um chinês, que acabou lhe dando o nome de Chen, na verdade se chamava Tuan Brown,  como tinha crescido muito era para muitos desengonçado, mas se virava bem nas artes marciais, era o preferido do professor.

Esse dizia sempre, que a luta não era para sair agredindo todos na rua.   Um dia foi ao centro da cidade, se viu cercado de jovens brancos, que acharam divertido sacanealo, se defendeu como pode, acabando todo mundo no chão.  Não viu a polícia que estava ali observando, mas tampouco fizeram nada para ajudá-lo.   O pai teve que vir resgata-lo na delegacia, foi embora reclamando que ele não fazia outra coisa que dar problemas.

Com 18 anos, ia entrar para a Universidade, quando um dia saindo de um bar com uns amigos gays, foram atacados, os outros ficaram com medo, mas ele se defendeu, um deles tinha um taco de beisebol,  retirou de sua mão, quando o atacaram desceu cacetada em todo mundo. Fugiram, só um deles ficou ferido, ele mesmo chamou a polícia, ambulância, ficou ali esperando, mas claro bastou se negro, com duas passagens pela polícia, foi considerado culpado.   Nem o fato de ter avisado a polícia, ter chamado a ambulância, foram atenuantes, o advogado de ofício, não fez muita coisa.    O jovem não morreu, mesmo assim não adiantou.

Nos dois últimos anos, esse jovem vinha visita-lo na prisão.  Ninguém de sua família tinha aparecido, somente o advogado de sua bisavó que sim, para dizer que lhe tinha deixado sua casa de herança. 

Greg, esse jovem quando descobriu que ele estava na prisão por sua culpa, foi visitá-lo a primeira vez.   Ele apareceu cheio de hematomas, quando lhe perguntou o que tinha acontecido, soltou que se defendia dos abusos sexuais.  Estava se recuperando do último, um grupo o tinha atacado, ele se defendeu como pode, mas uma porrada na cabeça o deixou desacordado, seis tinha abusado dele.

O outro começou a chorar, pediu perdão por tudo.

Ele ficou olhando com uma cara séria, eres a primeira pessoa que me visita, pensei que era meu pai, para que autorizasse que vivesse na casa de sua avó.   Nunca pensei que fosse você.  Não se preocupe, se eu fosse guardar raiva por todos que me atacaram esses anos todos, os que me repudiaram, estava morto.               Apenas eu saí com uns amigos, os poucos que tinham, que se negaram a depor a meu favor, pois temiam que seus pais descobrissem que eram gais.  Tampouco nunca vieram me visitar, sinal de que não eram meus amigos.

Mas estou aproveitando para estudar, como não tenho muito o que fazer, estou fazendo a universidade a distância.

Greg, passou a lhe trazer livros, revistas dos assuntos que ele gostava, estava no momento fazendo um curso de escritura criativa por internet.

Greg estudava direito, foi ele na verdade que conseguiu adiantar sua liberdade, foi até um juiz negro, porque tinha tentado com um branco, que o mandou para casa.   Ao juiz negro contou tudo que tinha acontecido, tinha esperado seis meses para falar com o juiz.

Confessou que ele, com um grupo de amigos, não tinha o que fazer, viram um grupo saindo de uma discoteca gay, resolveram atacar, o que tinha o carro, tinha um taco de beisebol no bagageiro.    Todos correram, o único que se defendeu foi o Tuan, colocando todos para correr, mas não tinha sido ele que o tinha acertado com o taco, sim um amigo, ele estava entre o amigo e Tuan, então levou ele a cacetada, além de o mesmo tinha chamado a polícia, bem como a ambulância, ficou esperando segurando minha cabeça.

Meus pais não me permitiram depor por ser menor de idade, só agora sei de tudo, pois o visito na cadeia. 

O juiz revisou tudo, deixando Tuan em liberdade.

Quando saiu, o sol estava muito forte, tinha um pouco de dinheiro que lhe deram para ir para casa.   Ficou cego com a claridade, ali parado sem saber o que fazer.  Não tinha visto o Greg a dias.  Quando olhou, lá estava ele parado do outro lado da estrada.

Era um carro com chofer, viu que ele tinha uma faixa enrolada na cabeça. O Abraçou, me desculpa não ter vindo antes, mas dias depois que falei com o Juiz, me desmaiei, descobriram um tumor, justo aonde tive a pancada.  Tiveram que me operar as pressas.

Venha te levarei a tua casa.  Entre seus pertences, estava a chave da casa da bisavó.  Deu a direção ao motorista.

Quando chegou, o pequeno jardim que era o orgulho dela, estava totalmente abandonado.  Desceu do carro ficou olhando, era como se ela estivesse na varanda o esperando como sempre quando voltava da escola.   As lagrimas corriam pela sua cara.   Se virou agradeceu ao Greg por tudo.   Esse se despedia, pois seu pai ia dirigir uma empresa na França, te enviarei a direção, quem sabe podes vir me visitar.

Subiu o jardim, a varanda estava cheia de tabuas soltas, abrir a porta foi difícil, a casa tinha sido fechada depois da morte dela, tudo estava igual, foi abrindo as janelas, deixando o ar entrar, encontrou uma vassoura, começou a limpar tudo.  Da mesma maneira, encontrou pregos, martelo, foi prender as tabuas soltas da varanda, tirou para fora a cadeira favorita dela.  Varreu a varanda toda, foi limpando, começou a tirar o mato que estavam afogando as roseiras da Bisa como a chamava.   Trouxe uma lixeira que estava na parte detrás, aonde também precisava de uma bela limpeza.  Foi limpando tudo, sabia que os estavam olhando pelas janelas, mas nem era com ele.  Tinha os documentos na sua mochila, a casa era dele.

Teria agora que arrumar um emprego para mantê-la.  Saiu foi até o mercado da esquina para comprar algo para comer, depois voltou ao seu serviço, molhou todo o jardim, as plantas enfim poderiam respirar.   Amanhã limparei a parte detrás.  Depois de um bom banho, estava ali sentado na cadeira dela, pensando no que poderia fazer.  Teria que ir ao escritório do advogado, para irem ao banco, esse disse que tinha algo de dinheiro para ele.

Estava pensando se conseguiria fazer o curso agora na universidade, gostava de escrever, contar histórias, tinha escrito vários textos das coisas que escutava na prisão.

Nem se deu conta que seu pai estava parado na frente dele.

Era como ver um desconhecido.

Não vais me dar um abraço, perguntou.

Lhe respondeu olhando diretamente na cara, não o conheço senhor, por que deveria abraçá-lo?

Sou teu pai apesar das merdas que fizeste.

Incrível, foi necessário a vítima, da qual fui acusado de agredir, ir me visitar, me ajudar, porque um senhor que nunca cuidou de mim, que diz ser meu pai, nunca moveu um dedo.   Sinto muito, mas é imperdoável.  Passar bem, cuidado seus pés passaram pelo jardim de minha casa, estão sujando a varanda.

Essa casa era da minha avó, ninguém entendeu por que ela deixou para ti, pedi autorização para viver nela com minha família, o negaste.

Pelos mesmos motivos, porque não foste em pessoa pedir isso.  Tua querida mulher que passou o dia inteiro me olhando pela janela, não permitiu?

Ele abaixou a cabeça, sabia que tocava em seu ponto frágil.   Ele só fazia o que ela mandava.

Não se preocupe, seremos vizinhos, mas me importa uma merda tua família, incluindo tu.

Passar bem, favor não fazerem muito ruído, senão chamarei a polícia.  A Bisa, estava sempre reclamando de sua mulher que parecia falar aos gritos.

Foi o que escutou em seguida, fechou as janelas de baixo, não tinha subido ainda, seu velho quarto estava igual, bem como o da Bisa.   Amanhã se dedicaria a limpar os banheiros, a cozinha, fazer uma boa compra.   A velha geladeira, tinha estado ligada todo esse tempo com nada dentro.

Com dizia a Bisa, quando se referia que a geladeira estava vazia, era como uma boca grande sem dentes.

Chorou de saudade delas, lastima não poder ter ido ao seu enterro, ela era tudo que ele tinha.

Experimentou umas calças velhas que estava ali, mas limpas. A usaria no dia seguinte para ir falar com o advogado.

Estava tão cansado emocionalmente que caiu duro na cama, sabia que teria que lavar a roupa de cama, que cheirava a mofo, mas o cansaço era maior.

Despertou de madrugada com a mulher de seu pai, lhe gritando, como sempre fazia, olhou ao relógio, era as duas da manhã.   Desceu, viu que o telefone funcionava, denunciou o escândalo da casa vizinha.

Dez minutos depois viu o carro da polícia parado na frente da casa deles.  Ficou rindo no escuro, ela como sempre não suportava que lhe dessem ordens, começou a gritar com o policial, este disse, estamos fartos de receber reclamações da senhora, por favor nos acompanhe, creio que dormir uma noite na cadeia lhe fará bem.

Escutou aplausos da vizinhança inteira.   Ficou rindo, a vizinhança não gostava dela.

Escutou baterem na porta, mas como tinha tudo apagado, viu pelo tamanho que era seu pai, subiu rapidamente, abriu as janelas de cima, perguntou o que estava acontecendo, tinha se despertado com o barulho dele batendo na porta.  Estou cansado, tenho muito o que fazer amanhã.  Boa noite.

Viu que o pai tentava falar alguma coisa, mas fechou a janela.  Sentiu no quarto o cheiro da avó, parecia estar vendo-a se matar de rir com o que tinha acontecido.  Ela mesma as vezes chamava a polícia para parar as confusões.

No dia seguinte, tomou um bom banho, se vestiu, saiu, fechando a porta, o pai o esperava na entrada, se desculpou, assim. 

Bom dia vizinho, espero que tenha dormido bem, não posso parar, pois tenho que ir ao centro da cidade, resolver alguns problemas, passe um bom dia.

Seu pai estava de boca aberta sem poder falar.

Saiu andando como se nada, na parada de ônibus, pegou um para o centro da cidade.   O advogado chegou uns quinze minutos depois.   Eres como tua Bisavó, quando vinha, madrugava, vinha toda arrumada, com sua roupa de ir a igreja.   Uma grande mulher.

Já tomaste posse da casa não é.  Bom no banco, se depositava o dinheiro que tinha direito como funcionária pública, foi durante muitos anos bibliotecária.   Esse dinheiro foi sendo usado para pagar os impostos da casa.  Mas tem um fideicomisso, que era o dinheiro para ires a universidade, esse dinheiro como sempre era retirado do seu salário, continuou todo esse tempo.   Disse mais ou menos o valor.

O senhor acha que conseguiria vender aquela casa?

Sim por ali faltam casas, será fácil, vender, tenho um amigo que tem imobiliária ali perto, falo com ele, enquanto vamos ao banco.   Pelo caminho, foi falando com o amigo, ok.

Disse que depois passes pela imobiliária, que ele mesmo tinha já olhado a casa várias vezes, mas por fora, ninguém sabia informar nada.

No banco para sua surpresa tinha muito dinheiro, para ele que não tinha nenhum, acreditava que seria suficiente para entrar na universidade.

 Iria ao colégio aonde tinha terminado seus estudos, para conseguir seus documentos.  Foi comer num restaurante vietnamita que ia sempre com a bisa, que dizia que ele não devia perder suas raízes. 

Pensava nisso, poderia estudar filologia, aprenderia a língua da sua terra.

Sempre tinha sido um aluno excelente, ela só permitia que ele saísse para brincar nos fundos da casa sozinho, quando acabava de estudar.

Passou depois na imobiliária, foi com o homem olhar a casa.   Caramba foi o que ele disse, precisa de uma limpeza, mas esta para se viver.  Lhe disse que tinha arrumado alguma coisa, só ontem entrei na casa, estava na prisão cumprindo uma pena por uma coisa que não fiz.

Mas estou lhe contando isso, não tente passar a perna, pois irei a outras imobiliárias, saberei o valor real da casa.

Este disse que cada vez que pedia informação na casa ao lado, lhe tratavam mal, aquela mulher é uma víbora.

Vou trazer te o preço real, tenho vários candidatos para a casa, o senhor pensa em ir para aonde?

Ainda não sei quais opções que tenho de universidade, já resolverei.

Justo quando se despedia do homem no portão, chegava seu pai, com a mulher.  Ela o olhou com um ódio imenso, começou a gritar que aquela casa devia ser dela, não desse bastardo, olhou para o pai, fez um sinal de estar falando no telefone, esse tapou a boca da mulher a arrastando para dentro de casa.

Por uma semana se dedicou a limpar tudo, sabia que todo esse tempo estava sendo seguido pelas janelas, fazia uma coisa que depois se matava de rir, soltava peidos altos em direção a janela dela, tirava o pau para fora, mijando ali mesmo. Sabia que isso a ofendia.

Depois de tudo limpo, autorizou as visitas a imobiliária.   Um casal com filhos pequenos que vinham de San Francisco, se encantou pela casa.   Pensou esse lugar merece uma família decente.   Quando chegaram a um acordo, por um bom preço vendeu a casa.  Avisou a família, que no dia que assinassem os papeis ele iria embora.

Arrumou seus poucos pertences, que incluíam uma foto que estava no salão, ele de pequeno sentado no colo dela.

Já tinha os papeis da escola, conversou como uma orientadora, disse o que queria estudar, ela disse duas universidades de NYC, ou seja ali mesmo.   Ele pediu outra opção, quiça San Francisco soltou, ou mesmo Los Angeles.  Ela lhe mandou todos os papeis.

Com isso, tudo, uma mochila, uma maleta velha, saiu da casa, entregou as chaves para o homem da imobiliária.    Desceu, já estava na porta do taxi, quando seu pai chegou ofegante.

Vais embora sem se despedir de teu pai?

Pai, não vejo nenhum aqui, a única pessoa de quem fui me despedir, foi da Bisa no cemitério, deviam ter vergonha, o tumulo estava sujo, as flores ainda do enterro.  Que família tinha a coitada.  Mas se faz tanta questão, Adeus.

Porque vendeste a casa a estranhos, podia ter te comprado?

Porque ela sempre dizia que não queria tua mulher vivendo em sua casa, isso dá para um homem sem caráter, em que a mulher manda mais.  Alias cuidado, o novo vizinho é advogado, uma família simples, não custará muito chamar a polícia, eu se fosse tu a internava de vez.

Adeus.

Mas para aonde vais, o que vais fazer da tua vida.

Algo que se meu pai tivesse me defendido, já estaria fazendo a muito tempo.  Vou para a universidade estudar.

Tudo o que ele fez, foi deixar cair os ombros, pedir perdão.

Um pouco tarde, mas tudo bem perdoado, nunca gostei de homens frouxos na minha cama, talvez por ter um pai assim, imenso, mas frouxo.

Entrou no carro, disse que fosse para o aeroporto.

Tinha tido sim vontade de abraçar aquele homem imenso que era seu pai, mas o tinha ferido tanto que isso era quase impossível.  Estava de óculos escuros, mas mesmo assim as lagrimas caiam pela sua cara.

O motorista soltou, uma despedida complicada não é.

Sim é verdade, mas não importa vou começar vida nova, isso para mim é o mais importante.

Tomou o avião para San Francisco.  Tinha alugado um quarto num hotel, até arrumar um lugar para ficar.

Tinha que decidir sim aonde estudar.    No dia seguinte, foi a universidade, se apresentou, disse o que queria estudar, apresentou seus documentos.   Foi encaminhado para uma entrevista.  Por acaso era um escritor que ele tinha lido em prisão.

Apertaram as mãos, soltou logo, pois não tinha nada a esconder.   Li os teus livros durante o tempo que estive preso.

A única pergunta do outro foi porque estivera preso.   Em vez de responder, tirou uma carta do juiz, que dizia que reconheciam o fato dele ter sido julgado e condenado injustamente.

O outro, um dia desses me conta tua história.   Disse o que queria estudar, filologia, para poder aprender a língua de sua mãe, bem como aprender a escrever livros, roteiros, o que fosse.

Tens trabalho?

Não senhor, mas tenho dinheiro para sobreviver algum tempo.  Preciso só decidir aonde vou conseguir me matricular, para procurar uma casa ou pequeno apartamento para viver.

Eu vivo com minha mulher, os meus filhos já se mandaram pelo mundo, temos um apartamento atrás de casa, é pequeno, mas tem de tudo, um quarto, uma saleta, cozinha pequena, banheiro. De quando as casas se faziam com um apartamento atrás para os empregados. Podes vir a pé até aqui, bem como  tomar ônibus, mas é só uma parada.

Nisso seu celular tocou, o escutou falando,  sim estou de saída, te incomodas que leve um futuro estudante para olhar o apartamento detrás.

O professor, era um mulato alto, com as têmporas já brancas.  Lhe perguntou se tinha algum texto escrito. 

Tirou da mochila um, este escrevi na prisão das historias que escutava por lá.

Estava contente com o professor, este lhe disse vou aprovar tua admissão, amanhã te apresento ao departamento de filologia.    O homem era um bom papo.   Sem querer resumiu sua história, contando da bisavó, que o tinha criado, deixado sua casa para ele poder estudar.          Era uma mulher fantástica, sempre me protegeu.

Antes de mais nada, quero que o senhor saiba quem mete no apartamento atrás de sua casa, sou gay, fui muitas vezes abusado na prisão.              Pode ser que as vezes tenha pesadelo, desperte gritando.

O outro bateu no seu ombro, gosto da tua honestidade, outro tentaria esconder tudo de sua vida, mas depois sempre se descobre.

A mulher era uma negra alta, muito bonita, com um penteado africano na cabeça.  Disse que era professora de Yoruba na universidade.   Atualmente tenho poucos alunos.

Antes de mais nada vamos comer, pois senão a comida fica fria, depois podes ver o apartamento, nosso filho maior, o usou durante um tempo antes de ir para NYC, é editor de  um jornal por lá.

Estava uma delícia a comida, verbalizou isso, ela agradeceu.

Falou claramente com ela de aonde ele vinha.

Esse menino prima pela honestidade de não esconder nada Esther, podemos confiar nele.

Enquanto saiam para ver o apartamento, ele perguntou sobre o curso dela.  Sabe apesar de ser uma mistura, minha bisavó falava muito nas suas raízes africanas, talvez me interesse fazer esse curso.

Ficou encantado com o pequeno apartamento.  O professor mostrou como ele podia entrar tranquilo sem incomodar ninguém.   Só não gostamos de música alta.

Não se preocupe, eu adoro o silencio, música, só se for eu mesmo cantando,  tenho mania de cantarolar enquanto escrevo, nunca entendi por quê.

Combinou o preço do aluguel, terei que comprar um laptop, eu escrevia na biblioteca da prisão, mas não tenho nem celular, começou a rir, não podia parar.  Respirou fundo, disse ao professor, para que quero um celular, se não tenho ninguém para conversar.

Daqui um tempo sim, tenho certeza de que faras amizades.

Isso espero, mas estou tão acostumado a ser sozinho que talvez me dê medo ter amigos.

Esther disse aonde ele podia comprar o que precisava, a princípio os alunos, tem direito a imprimirem seus trabalhos na universidade.

No dia seguinte, Trouxe suas coisa, ligou a pequena geladeira, colocou a mesa numa posição perto de uma janela para ter claridade,  pagou o professor, foi com ele conhecer a parte de filologia.

Este o foi apresentando a uma série de pessoas, a professora de vietnamita o acolheu bem, não tenho muitos alunos, é raro os filhos de emigrantes quererem aprender, acham suficiente o que tem em casa.  Querem é serem americanos, em tudo.

Fez sua matrícula, pagou com um cartão visa, ia pedir a transferência de seu dinheiro, já tinha localizado a sucursal do banco perto da universidade.  Tinha até medo das coisas estarem se encaixando.

Pegou um horário, as aulas começavam mais ou menos dentro de 15 dias, tinha duas semanas para ir se aclimatando, foi conhecer a biblioteca, aonde sabia que passaria horas enfurnado.

Calculou que teria dinheiro por bastante tempo, mas queria um trabalho, cabeça ocupada, não pensa merdas.  Viu um cartaz na biblioteca, de que precisavam de gente.   Se apresentou, lhe disseram quanto pagavam, poderia trabalhar no horário da tarde.   Isso ele gostou, teria aulas de manhã, de tarde trabalharia, deu como referência o professor.

Quando chegou em casa, o professor lhe disse sério, temos que falar.  Vinha com as caixas das coisas que tinha comprado, foi entrando no apartamento com o professor atrás.  Tudo que podia pensar era, estou fudido, esse homem vai me mandar embora justo agora que achei o lugar perfeito para viver.

Deixou tudo em cima da mesa, virou-se para o professor, tudo bem, irei embora, entendo que o senhor não gostou que tenha lhe dado como referência na biblioteca, para conseguir um emprego.

Que bom, tinha anotado falar nisso contigo, a chefa de lá não falou comigo, pois como não tinha nada que fazer vim para casa.

Começou a rir da confusão dele.  Perdão as vezes falo assim com meus alunos para lhes meter medo, deve ter sido instintivo.   Quero lhe falar do texto que me deste para ler.

Sente-se.  Parece que vais desmaiar.   Buscou na pequena geladeira, água, lhe deu um copo. Ele afastou com o braço as caixas que tinha colocado em cima da mesa.

Olhava aflito o professor, temia que ele dissesse que era uma merda ou coisa parecida.

Gostei demais do teu texto, li duas vezes como sempre faço, as vezes me pedem para ler texto para a editora com quem trabalho.  Fiz anotações na lateral do texto, nada demais, em alguns lugares uma correção que ao meu entender pode ser benéfica para o texto, outras que devia trocar a frase de posição a colocar mais acima ou mais abaixo.  Depois te ensinarei como se faz isso ao analisar o texto.

Ele começou a respirar mais tranquilo.

O professor começou a rir, de negro, viraste branco.  Calma, não tomes tudo tão a peito.

Acercou a cadeira, sente-se direito, vamos olhar isso junto, foi repassando com ele, todo o texto principalmente aonde tinha anotações.

Quando tiver corrigido,  vamos ler outra vez juntos, gostaria muito de mandar este texto para meu editor, é muito madura tua visão, para a idade que tens.                Mas já te aviso, quando te oferecerem um contrato, mostre a um advogado, eu posso recomendar um, verás que sempre é uma arapuca, só oferecem aos escritores que precisam de dinheiro, é uma maneira de prende-los para o próximo livro.    Isso depois te acarreta o problema de muitos escritores, como são pressionados ao segundo livro, não conseguem escrever.

Ele nem se atrevia a falar.  Respirou fundo, eu escrevi isso na biblioteca da prisão, só tenho essa cópia.   Tenho mais dois escritos, são diferentes, prefiro atacar esse primeiro para revisar os outros depois.  Como só tenho a cópia em papel, terei que reescrever tudo outra vez.  Vou instalar o Laptop, comprei também uma pequena impressora, papel, por isso vinha carregado.   Acabei comprando um celular, pois o rapaz que me vendeu tudo, me disse que podia gravar ideias ou mesmo anotar para quando chegasse em casa não perder tempo.

Me colocarei mãos à obra em seguida.   Ia sair para comprar comida, mas deixo para depois.

Nada disso, um corpo sem alimento não produz.  Venha tenho uma lista de compras que me deixou minha mulher, assim vamos falando no assunto, depois tu trabalhas.

Fizeram as compras, o professor caçou dele, pois sua lista era mais séria que a dele. 

Vê, é tudo pela educação que recebi da Bisa, ela não admitia coisas que não ias comer a curto prazo.  Dizia que gastar dinheiro com coisas que poderias  comprar na outra semana era besteira.

Te deu uma boa educação, não é?

Ela foi bibliotecária da Biblioteca de NYC, tinha altos conhecimentos, adorava os livros, foi quem me ensinou a gostar disso.  A partir dos dez anos de idade, me deu uma lista de livros que eu tinha que ler cada ano.  Administrava os mesmos, me fazia pensar em cada livro, conversar com ela de noite, nada de televisão, conversas sobre livros.    Por isso detestava a casa de sua filha que vivia ao lado.  Muita gente, barulho demais.         Quando a convidavam para comer, se negava a ir, porque sabia que a esposa de meu pai não me suportava.  Então era como viver ao lado de seu pai, sem nunca conversar com ele, a outra como ela dizia o dominava.

Quando eu vinha abaixo, conversava comigo, dizendo o que minha mãe esperava de mim.

Quando minha mãe ficou para trás morta no meio da multidão como me contou meu pai, eu tinha dois anos.  Quando quis saber dela, a Bisa o vez vir a sua casa, sentar-se comigo, contar como a tinha conhecido, de que falavam, se ele gostava dela, como era seu nome, enfim me contou a história inteira.   Deve ter sido a única vez, realmente que conversei com ele.

Perdão professor, desculpe o desabafo.  O segundo livro, conto isso, mas claro romanceei tudo, criando uma personagem correspondente a ela.

O professor o ajudou a montar tudo na mesa junto a janela. Disse que ele ficava sem uma mesa para comer. 

Não se preocupe eu como em qualquer lugar.

Nada disso, venha comigo, entraram no porão da casa, acendeu as luzes, me lembro ter visto aqui a mesa de trabalho que meus filhos usaram.

Afinal a encontrou, mas em respeito a sua mulher lhe chamou para falar a respeito.  Ela concordou, mas depois fale com ela, que darás bom uso dessa mesa.               Era do seu filho preferido, meu garoto morreu na guerra, foi um bobo, querendo ser um homem se inscreveu escondido, não durou um mês lá.

Sinto muito professor.  Levaram a mesa para fora, o ajudou a subir, a limpar a mesma, depois compras uma cera, passe por ela.

Ele a limpou, tirou medida, foi no dia seguinte numa casa de molduras, pediu um vidro para colocar em cima da mesa, para proteger a mesma.

Quando Ester subiu para falar com ele, viu o que ele tinha feito. 

Para proteger o que foi do teu filho. 

Queria dizer que li o texto, gostei muito, siga os conselhos do Georg, ele é bom nisso.

Nesse dia passou o dia inteiro reescrevendo o texto, fez todas as correções do professor, bem como melhorou algumas partes ou histórias, as rebuscava em sua cabeça, o momento que a tinha escutado.

Imprimiu duas cópias, a entregou ao professor Georg. Não precisava fazer tão de pressa.

Não passa nada professor, não tinha nada pra fazer, semana que vem começo a trabalhar, vai me sobrar menos tempo para isso.

Nessa noite dormiu tranquilo sem pensar em nada, talvez por ter tocado nos nomes da Bisa bem como de sua mãe, sonhou com elas, que lhe sorriam.                      Acordou sorrindo, feliz da vida.

Era domingo, viu um movimento inusitado na casa do professor, se lembrou que Esther lhe tinha avisado que um dos seus filhos, sempre vinha comer aos domingos, só assim vejo meus netos.

Estava olhando o texto sobre sua mãe, quando sentiu abrir a porta, era um garoto, diferente, era o que se diria de um mulato sarara,  nem branco nem preto, com os cabelos claros, olhos claros.

Sorriu para ele.

Meu avô disse que eras diferente como eu, vim confirmar.

Como te chamas?

Mas o garoto já tinha escapado, com medo de que o professor o chamasse para comer, pegou um mapa de São Francisco, que orientava passeios, decidiu ir pela cidade.  Afinal tinha que conhece-la, a loja aonde tinha comprado o laptop, lhe deu de presente uma bolsa, na verdade um saco de pano, colocou um bloco, com lápis, para escrever alguma ideia que surgisse de sua cabeça.

Tomou um elétrico, desceu para a cidade.  Apesar de domingo, o movimento de turista era impressionante.      Escutou um garoto falando com o pai, se iam ao Píer 33, que ele queria fazer o passeio de barco.   Foi o que fez, comeu por ali, se meteu num barco, ficou na coberta pois fazia um dia fantástico de sol, viu a cidade de outra perspectiva, de fora.   Viu o garoto com o pai, que lhe ia explicando cada coisa, ficou mais ou menos ao lado.  O pai percebeu, começou a rir.   Pensou que ele era estrangeiro, mas lhe explicou que acabava de chegar a cidade.

Venho estudar, lhe explicou.

O homem sorriu, sou professor, me toca dois finais de semana do mês, meu filho, sou professor da universidade.

Em que área lhe perguntou?

Ensino francês, alemão no curso de Filologia.

Então vamos nos encontrar, vou fazer uma coisa mais estranha, vou estudar vietnamita, Yoruba.

Com a professora Esther verdade?    Excelente pessoa, me dou muito com seu marido. 

Comecei a viver nos fundos de sua casa.

Então nos veremos, pois vou muito a casa deles.  Uma pergunta, não me digas que es o jovem que escreve, ele falou muito bem de seu trabalho, que era uma visão diferente do mundo da prisão.  

Estive preso seis anos, por um erro, teria mais quatro, mas a vítima reconheceu que não tinha sido eu, ao contrário, o socorri.   Ele a acabou me ajudando a sair.   Agora quero recuperar a minha vida.

Quando desceram do barco, o final do dia, ele parou para olhar o por do Sol, o outro afinal se apresentou, nos vemos, me chamo André, qual o teu?

Tuan Brown, nos veremos na universidade.

Não me ofereço a te levar, porque tenho que levar o garoto com sua mãe.

Quando chegou em casa, sentou-se para registrar o que tinha anotado,  bateram na porta, era Esther, trazia um prato, estive te procurando para comer em casa, mas tinhas saído.

Sim fui conhecer um pouco essa cidade.  Acabei conhecendo um professor da universidade, que me falou super bem da senhora.

Não me chame de senhora, só de Esther.    Quem era esse sem vergonha.

Quando ele disse o nome, era riu muito.  Pobre André, agora está se recuperando da separação, a mulher o deixou por outro, ainda lhe sacaneia com o garoto.  Esse vai ser problemático.   Agora estão de novo na justiça, pois ela quer voltar para a França com seu novo companheiro, se o Juiz autoriza, ele só verá o filho nas férias.    Uma larga história.   Ele vem sempre aqui em busca de conselhos.

Foi o que me disse.  Georg esta vendo um jogo de futebol americano, não queres ver?

Não gosto muito, acho violento.   Em casa minha avó me proibia ver televisão, dizia que era melhor ler um livro.

Concordo com ela.    Bom te deixo para fazeres tuas coisas.

Esther já me matriculei em teu curso, não tenho menor ideia de nada, será como iniciar uma nova linguagem.

Voltou depois a revisão do texto sobre sua mãe,  encontrou erros de gramática, pois tinha escrito num impulso.   Resolveu reescrever tudo de novo.   Ficou até as duas da madrugada.

Agora como que o lugar lhe transmitisse paz, pois dormia sem ter pesadelos.

No dia seguinte encontrou na carteira a direção do Greg, escreveu um e mail, dizendo que estava vivendo em San Francisco, que iria a Universidade.  Tinha agora um correio, lhe passou, além do número do celular.

Foi trabalhar no horário combinado, assinou o contrato, quanto ia ganhar, não era muito, mas daria para pagar o aluguel de aonde vivia agora.

Queria administrar bem seu dinheiro, já tinha falado com o gerente do banco para fazer a transferência, este lhe aconselhou tirar uma parte para fazer aplicações, dinheiro parado desvaloriza.

Adalgisa lhe ensinou o trabalho, um dos mais chatos, seria, colocar de volta os livros no seu lugar,  lhe designou uma quantas estantes, devia verificar todos os dias quando entrasse se os livros estavam em seu lugar certo.   Outra, verificar aonde estavam os livros que faltavam, se já tinha vencido o prazo ou não, avisar a pessoa que devia devolver.

Estava fazendo isso, quando escutou uma voz em cima do balcão, venho devolver esse livro, quando levantou a cabeça deu de cara com o André.

Ah vais trabalhar aqui?

Sim, necessito trabalhar, para poder seguir em frente.  

Eu sou um cliente habitual, se compro todos os livros, um dia esses me expulsam pela janela do meu apartamento, pois é muito pequeno.  

Ele tinha terminado seu horário, guardou tudo, quando saiu o André estava esperando, vou para a casa do Georg, vais para lá.

Sim agora começo no meu outro emprego, estou corrigindo ao mesmo tempo reescrevendo um texto que fiz sobre minha mãe, a fantasia que tenho dela, pois morreu quando eu tinha dois anos.     Que tal foi o dia com teu filho?

Difícil, a mãe o põe contra mim o tempo todo, as crianças sente muito isso, lhe cria uma confusão, pois quando esta comigo, vê que não é nada do que ela pensa.    Está fazendo isso, porque quer voltar para a França.   Isso será uma merda, o pior que a juíza do caso, dá sempre parecer favorável as mães.                A família dela é rica, contratou um dos melhores advogados, fizeram uma verdadeira devassa em minha vida.   Por isso as vezes não sei o que é melhor para o garoto.   Se vivesse comigo seria também complicado, pois estou sozinho, teria que ter pelo menos duas babas.   Não tenho dinheiro para isso.

Quando viram já tinha chegado, Georg estava sentado com a  Esther na varanda da frente conversando.    Olha esses dois, já são amigos, rindo disse o Georg, já tens alguém para dar o número do teu celular,  brincando contou que ele não queria comprar um pois não tinha com quem falar.   Agora já tens três pessoas.

Venha tomar uma cerveja com a gente.

Perdão, normalmente não bebo, tanto insistiram que se sentou ali, ficou escutando a conversa deles, mas reuniu valor, disse que queria escrever um pouco.  Mesmo Esther insistindo que jantasse com eles, escapuliu.

Estava com um sanduiche pela metade, num prato ao seu lado, lendo e relendo uma frase, que não sabia realmente se seu pai tinha dito, ou ele tinha inventado.   Tampouco podia lhe chamar para perguntar.   Não sabia o número do seu celular.   Merda disse alto.

Escutou baterem na porta, era o André, venho me despedir, foi ótimo conversar contigo.   Estas com uma cara?

Pois é fiquei agora em dúvida sobre uma frase, não sei se meu pai falou esse assunto ou fui eu que inventei.  Pior não tenho como falar com ele, não sei o número do seu celular.

Vamos ver, sabes o endereço aonde vive?

Sim, mas será que vai gostar que eu lhe chame por isso?

Me dê o endereço, o código postal, o nome?

Assim fez, em seguida tinha o número, por sorte seu pai estava na rua.  Atendeu sem saber quem estava falando.  Quando se identificou, o pai começou a chorar.  Nossa despedida foi horrível meu filho, perdão.

Bom agora o senhor já tem meu número, como estas?

Bem, tu aonde andas, se sentiu bem contando aonde estava, que tinha se inscrito em dois cursos na universidade, além de fazer escrita criativa.  Não contei para o senhor, mas aquela vez que a Bisa, te obrigou a falar da minha mãe, eu escrevi tudo, depois na prisão, reescrevi tudo romanceando, mas agora esbarrei com uma frase, que não sei se o senhor me disse ou inventei.

Diga a frase.

Leu para ele,  sim eu disse isso, ela não tinha muita ideia de qual aldeia tinha saído, tinha sido vendida a um comerciante, que era aonde trabalhava.  Para se livrar dele eu a comprei, me casei com ela, para poder ser americana.  Era isso?

Sim pai, obrigado. 

Se tiveres mais dúvidas não hesite em me chamar ok.  Fique com Deus, a essa hora, sempre estou no caminho de casa.  Lá tu sabes que é difícil falar comigo.   Um beijo meu filho, te quero.

Era a primeira vez que seu pai falava isso para ele, começou a chorar baixinho, abaixou a cabeça, André o abraçou, ficou com a cabeça ali no seu ombro chorando.

Quando se acalmou, lhe disse, é a primeira vez que o escuto dizer que me quer.

Quando viu, estava frente a frente com o André, se beijaram.  Este se afastou, riu desculpe, foi uma coisa instintiva.       Qualquer coisa que necessite me procure.

Ficou sem entender, mas estava feliz, tinha criado um vínculo com seu pai.

Voltou a se sentar trabalhar o texto, mas o beijo ficou na sua cabeça, pois André tinha retribuído.   Sabia que passava por um momento difícil, tinha que respeitar.

Dois dias depois o tornou a ver na biblioteca, estava buscando um determinado livro, buscou, mas não achou, consultou o computador, constava que estava emprestado justamente a ele.

Como anda minha cabeça, o devo ter no escritório aqui da universidade, vou consultar o que procuro, depois devolvo.    Um prazer em ver-te.

Na semana seguinte, soube por Esther que a mulher tinha conseguido o que queria, mas o liberava de pagar pensão ao filho, ele disse ao Juiz que continuaria depositando numa conta para que um dia o filho soubesse que podia contar com ele para ir a universidade que quisesse.

Quando o viu de novo na biblioteca, estava arrasado, pediu uns quinze minutos a chefa, saiu com ele, desta vez quem chorou foi ele.   Não posso fazer nada, só de ver a cara do meu filho no meio dessa confusão me deu uma lastima, não queria estar no lugar dele.

Queria ter te chamado, mas não fiquei com o número do teu celular.

Vê como são as coisas, aquele dia, subi justamente para isso, lhe deu o número.   Como vai o texto?

Sigo revisando, tens que pensar que eu tinha dois anos de idade, o que sei, foi pelo meu pai, tive que reconstruir na minha cabeça todo o resto.   Andei conversando com minha professora que me ilustrou de certos hábitos dessa época em se tratando de mulheres do campo.  Os pais quando tinham muitas filhas as vendiam, principalmente as mais frágeis, ou acabavam sendo prostitutas, ou explorada por patrões, dormiam em cima de sacos.   Isso meu pai me contou também.      Estou indo por aí.

Tens uma cópia do texto que deste ao Georg.   

Sim tenho uma cópia, espera está na minha mochila.

Dois dias depois o Georg, lhe perguntou se podia ter livre a manhã de quarta-feira, vamos almoçar com o editor, mas me deixa levar a conversa se confias em mim.

Avisou Adalgisa que chegaria mais tarde, lhe contou do texto.   Uau, eu também quero ler. Conheço vários editores, se quiser, posso passar para ti.

O primeiro impacto no almoço, foi, não gostou do sujeito, tinha uma maneira de falar, que lhe lembrava os chefes de gangs da prisão, se sentiu enrolado desde o primeiro momento.  Em momento algum disse diretamente que queria editar o livro.  Mas lhe entregou uma cópia de um contrato para ele assinar.   Olhando nos olhos do sujeito disse que ia passar para seu advogado dar uma olhada.

Este estourou com Georg, tem dedo teu nisso, tenho certeza.  Orientaste esse rapaz.

Sinto muito que o senhor tenha perdido teu tempo, mas tenho outras editoras interessadas, obrigado Georg, mas tenho que ir trabalhar.

Disse até logo sem estender a mão.   Não queria trabalhar com quem não confiasse.

De noite tirou mais cópias, para passar para a Adalgisa.  De manhã quando saia, o Georg lhe esperava para ir a universidade, lhe pediu desculpas,  mas esse sujeito não me inspira confiança, sei que sua editora é a melhor, mas sou um novato, talvez seja melhor procurar outro caminho.

Adalgisa, quando viu o texto, se fechou em sua sala, começando a ler, colocou as três cópia que lhe tinha dado, num envelope, telefonou, logo estava ali, um desses rapazes que fazem entrega de correspondência.  Quis pagar, mas ela disse que não, os que vão receber, pagam.

Adorei teu texto, podíamos jantar para falar sobre ele.  Eres meu convidado.

Saíram da universidade, conversando, ela tinha nessa época pelo menos uns cinquenta anos, ficaram conversando num restaurante que ela conhecia.   Falou tudo que tinha achado do texto.

O que me impressiona, é que em algumas histórias, criaste uma distanciamento, realmente estas contando o que escutaste, noutras te vejo mais próximo, como se tivesse acontecido contigo.  Mas tu as misturas muito bem, para quem leia, não saiba que no fundo aconteceu contigo.

Como essa do abuso nos chuveiros, do rapaz que te defendeu, acabou na enfermaria, depois ele te contou as historias todas dos abusos que sofreu.   Achei muito interessante tua maneira de expor, como se fosse uma das consequências naturais dentro de um presidio.  

Claro Adalgisa, chegas eres  carne fresca no pedaço como dizem.  Por mais que tenhas proteção, estão te marcando, esperando uma oportunidade, a não ser que logo encontres um namorado.    Nesse ponto, me lasquei, pois eu era diferente dos negros, diferente dos mulatos, tampouco era branco.   Estava num limbo, num ponto tive sorte, dividia cela com um rapaz albino, ele tinha um olho azul, outro verde, muitas manchas pelo corpo, falava uma língua que eu não entendia, os outros achavam que estava lançando alguma maldição.   Mas ele tinha guarida dos policiais, não me pergunte por que, nunca descobri.   Numa das histórias falo dele.

Quando alguém tentava se aproximar, ele dizia logo, o garoto eu meu, tem um maleficio, se te aproximas muito morres.

Mas a estas alturas eu já tinha sofrido dois abusos, complicados.   Isso fica na tua cabeça, principalmente sabendo que eu podia reclamar ser a vítima, estava no lugar errado, na hora errada.   Só depois de muito tempo é que o rapaz pelo que me condenaram foi buscar saber o que tinha passado comigo, me ajudou.

Já sei qual historia falas, a chamada Estranho Maleficio, não é essa?

Sim essa.    Imagina o que nos unia era quase a mesma coisa, eu não sou negro totalmente, minha mãe era vietnamita, meu pai negro.  Dai essa minha cara diferente, eu tinha contra mim a família inteira do meu pai.   O sujeito vai para a guerra, volta casado com um filho, mas tinha uma namorada lhe esperando.   Minha mãe morreu justo no dia que íamos embarcar, tinha dois anos.  Era uma confusão generalizada, eu não entendia nada, pois só entendia a língua da minha mãe, por isso agora estou estudando a mesma, pois me esqueci com o tempo. 

Minha sorte foi que a avó do meu pai estava ali, quieta, de repente se levantou, passou a mão em mim, dizendo, a partir de hoje ele é meu.   Fui viver com ela, me criou, me deu amor, brigou  por mim com o resto da família que não me suportava.   Mesmo meu pai, nunca mais falou comigo, só nos voltamos a falar agora.   Já te contarei a história.

Esse rapaz foi a mesma coisa, imagina nascer branco no meio de uma família negra, as brigas até entenderem que ele era albino.  Nunca foi aceito nem por sua própria mãe.  Não teve a sorte que eu tive.  Podes imaginar um sujeito de 1,90 de altura, forte para caralho, desculpe o termo, músculos por todos os lados, nunca estava pra brincadeira.   Claro se meteu em milhões de confusões, tentou entrar para a polícia, mas não foi aceito pelos seus antecedentes, disse que tinha sido a única maneira que via de se livrar da merda que vivia.   Esse repudio, o levou a sem querer cometer um crime.  Se defendendo de um bando que o queria matar, deu uma patada em um que era um policial infiltrado.  Foi o seu azar, sua patada acertou o pescoço do sujeito, morreu sufocado.

Tem prisão perpetua, graças a deus me protegeu, quando viu que abusavam de mim.  O mais interessante foi que nunca me tocou.   A ele tampouco tentavam nada, tinham medo de se encostar em sua pele.    Uns o chamavam de pele de serpente.

Olha só, isso daria um livro por si só, use isso agora, mas futuramente se puderes, volte lá converse mais com ele, escreva a historia mais profundamente.

Guardou isso na cabeça.   Dias depois ela disse que tinha um encontro com um dos editores que conhecia, o problema é que não podemos sair ao mesmo tempo.  Falou a mesma coisa, não assine nada, só converse.

O homem era um senhor de uns cinquenta anos, quando o viu, ficou parado o examinando.  Agora entendo muitas coisas que escrevestes.   Gostei do livro, posso edita-lo, meu problema é a distribuição, fico preso na mão dos grandes, já sei pelo editor que recusaste trabalhar com a melhor editora da cidade.  Fica difícil, mas tentarei te dar força, vou falar com ele, vê se me deixar editar teu livro, com a distribuição dele, voltamos a nos falar.

Voltou um pouco desanimado, mas Adalgisa era toda sorrisos, olha, mal você saiu chamou um que é uma fera, vem até aqui, pois disse que tinha uma reunião na Universidade.   Ele edita os livros da universidade, principalmente teorias, mas tem um leque aberto.

Esse tinha uns 40 ou 45 anos, os cabelos levemente prateados nas têmporas, um sorriso imenso.

Jacques D’Corte, se apresentou, não vou fazer você perder seu tempo sei que estas no trabalho, li o livro o achei moderno, interessante, creio nele.  Posso edita-lo, cuidar de ti, apenas tens que confiar em mim, na minha maneira de trabalhar.                     Aguentar agenda de apresentações, entrevistas em televisão, conversar com pessoas que tem jornais sobre livros, alguns muito pedantes, mas que divulgam livros, viajar muito.   Como é teu primeiro livro, tenho que te promocionar, saber da tua vida para que não me peguem de calças curtas.  Pode pedir informação aqui na universidade ao André, ao Georg, mesmo a Esther de que estou editando um livro sobre Yoruba.   Por seu teu primeiro livro, eu fico com quarenta por cento da venda, nada de contratos idiotas.   Para o segundo livro, abaixo meu custo para 20 por cento, já tens algum em andamento. 

Ele disse que tinha um que estava reescrevendo, outro que não tinha tocado, e uma ideia que lhe tinha dado a Adalgisa.

Bom se ela te deu uma ideia, é porque é boa.  Já a convidei para trabalhar comigo, mas ela adora esse lugar.

Os outros dois não o convenceram.  Quando comentou com ela a respeito, ela foi direta, é o melhor para ti.  Eres um desconhecido, em breve não poderás nem soltar um peido que vão falar de ti.

Antes ainda conversou com o Georg, com a Esther, os dois disseram é um sujeito sério, o outro tudo bem tem uma marca conhecida.  Mas Jacques fará que falem de ti, isso é excelente.

Ainda marcou com o André, de irem jantar, conversou com ele.       O primeiro livro que editou meu, foi excelente, mas depois com toda confusão que estive metido, parei de escrever, mas ainda me chamam quando alguém necessita da minha opinião sobre o assunto.

Aproveitou ficou conversando com ele, como estava, lhe disse olhando nos olhos, não tenho maturidade no problema que estas atravessando, mas posso te escutar.

Ainda estou lambendo minhas feridas, consigo falar uma vez a cada 15 com meu filho, mas sinto que o vou perder.   A família dela  é muito rica na França, lhe compram com presentes caros.

A última vez que chamei, disse que não queria falar comigo, pois estava jogando alguma coisa eletrônica.  Vai chegar uma hora que rompera todo, qualquer vínculo comigo.   Agora só quer falar comigo em francês.   Eu o adoro, então fica difícil isso.

Sim eu vi no primeiro dia quando os encontrei na barca, que lhes dava toda a atenção, explicando numa linguagem que ele pudesse entender todas tuas dúvidas.

Um dia descobrira que o pai que tem é maravilhoso.

Porque dizes isso.  Estas apaixonado por mim?

Teria algum problema se estivesse?

Não, só creio que não saberia corresponder agora tudo isso, vamos nos vendo, tenho que me fazer uma ideia, nunca tive um romance com outro homem, mas você me atrai muito.

Se centrou na edição do livro, junto com a pessoa que lhe foi designada para acompanhar, foi se preparando para tudo.

As aulas na faculdade começaram, estava encantado, dividia bem seu horário, conversou muito com a Adalgisa, dizendo que não queria perder o emprego, mas sabia que a hora que o livro estivesse pronto devia estar preparado para tudo o que vinha junto.

Daremos um jeito, estou contente com teu trabalho, nos apanharemos. 

André veio devolver o livro finalmente, comentou que podia mandar sua secretária, mas queria vê-lo, nossa conversa de outro dia, foi boa para minha cabeça.   Espero que teu livro seja um sucesso.  Podíamos sair hoje para jantar?  Ou prefere me aguentar na cozinha, assim conhecerias meu pequeno apartamento.

Aceitou, o apartamento era pequeno, pois estava entulhado de livros dos mais vários assuntos, ficou folheando um que lhe interessou, pediu emprestado, falava sobre o Yoruba, o porque de uma língua subsistir a tanto tempo.

Estava ali foleando o livro, enquanto ele arrumava a cozinha depois do jantar, quando ele chegou por detrás, disse ao seu ouvido, creio que chegou a hora de experimentar um homem na minha vida.

Ficaram se beijando, numa pausa disse com voz rouca, no dia que te beijei na tua casa, queria mais, mas tinha medo.   Eu me interessei por ti, já no barco, não sabes a quantidade de vezes que me imaginei tirando tua roupa.   Ao mesmo tempo que tinha medo, mas vejo que tu eres forte, poderá subsistir se não der certo.

O arrastou para o quarto, mais beijos, sussurrou ao seu ouvido, me deixa recrear minha fantasia de te tirar a roupa, o deixou fazer o que quisesse.  Ele beijou seu corpo inteiro, tirou também a sua roupa. Ficaram os dois nus na cama.  Terás que me ajudar, não sei por aonde começar.

Tuan se soltou, estava a tanto tempo esperando uma coisa assim que liberou todo seu corpo a receber o do André, o levou a loucura. 

Essa tua pele, me deixa louco, o beijava, ao mesmo tempo que o penetrava.  Depois de terem um orgasmo muito sentido pelos dois, pois estremeciam de prazer.  Soltou caralho, porque esperei tanto por isso.

O que me dá medo disse depois, sei que chegara o momento que me queiras penetrar, não sei se estarei preparado.

Tuan riu, dizendo já veremos.  Começou a provoca-lo de novo, o fez de tal maneira que quando André percebeu estava dentro dele, gemendo como um possesso, mais por favor me deixas louco.  Depois dormiram agarrados.  Despertaram muito cedo, ficaram olhando um para o outro, Tuan de cozação soltou, imagina tinha medo, estavas era quase pedindo, de novo por favor.

André não ficou atrás, sussurrou, de novo por favor.  Caíram os dois numa gargalhada que não podiam controlar.

Só posso dizer que estou feliz, como se a tempestade tivesse passado, sei que posso estar contigo.

Vais ter paciência comigo, me ajudar no lançamento, sou honesto de te dizer, que tenho medo, sei que vão fazer perguntas, capciosas a respeito da minha vida.  Mas se tiveres ao meu lado, aguentarei.

Sim vou estar sempre ao teu lado.          Quase todas as  noites dormiam juntos, acharam melhor contar para Georg e Esther, antes que soubessem por outras pessoas.

Assim pelo menos seremos quatro pessoas jantando, soltou Esther.

Havia algo elétrico entre eles.  Tuan encarou a primeira entrevista, aonde esmiuçaram sua vida, porque tinha sido preso, teve que contar toda a história.  Tinham inclusive buscado entrevistar o Greg.  Que falou do que tinha passado.  Poderia ser uma pessoa vingativa, pois ficou na prisão muito tempo, até que tive coragem de encarar a verdade.

Já na segunda como ele dizia o podre sobre ele já estava no ar, falaram mais do livro, como o tinha escrito, o quanto havia de verdade, ou se ele tinha usado somente algum detalhe.

Claro que melhorei as histórias, mas veja bem, não mencionei o nome real de ninguém, a ideia não é fazer essas pessoas sofrerem, mas sim saber por que estão ali.     A sociedade, a família falhou com elas.   Claro que existem casos que não contei, nem pretendo tocar, que são pessoas que fizeram mal a si mesmas, são neuróticos incontroláveis.

Mas isso existe dentro e fora do presidio.  Vemos todos os dias nos jornais, manipulações de políticos, coisas de interesses, julgamentos que nem sempre justos. No meu primeiro julgamento não se levou em causa, que eu ajudei o Greg, chamando eu mesmo a polícia a ambulância, se eu o tivesse pegado de proposito teria fugido, não ficado ali.  Ao contrário fiquei segurando a cabeça dele que sangrava, com minha própria camisa.   Nada disso foi levado em conta, que bandido, ou assassino faz isso.

As pessoas quando não tem dinheiro, quando recebem ajuda de um advogado de ofício, não digo que todos sejam maus, mas a maioria nem tem tempo de ler um caso. Isso está errado.

Se for negro, meio asiático, então nem se fala.

Nesse dia seu pai lhe chamou pelo celular, nada mais ao acabar a entrevista.  Perguntou se ele iria a NYC, para autografar livros, ele disse que sim, bem como a data, mas irei também ao presidio, pedi licença para uma entrevista.  Depois eu conto.

Perfeito, quero te ver, quero que teus irmãos te conheçam direito, não é justo que porque sua mãe tenha mania de ti, que eles não saibam quem é seu irmão.

Já veremos, quando estiver em NYC, marcamos de nos falar.

Um mês depois foram os dois a NYC, no primeiro momento que viu seu pai, com um livro na mão, na fila para o autografo, ficou emocionado.  Se levantou o abraçou, te espero para falarmos depois.

Quando tudo acabou, apresentou o André, o homem com quem eu vivo.

Seu pai, apertou sua mão, desculpe, mas foi impossível trazer as crianças, ela me abandonou, de um lado estou contente, mas de outro, só posso ver os garotos uma vez por mês.  No divórcio, fiquei horrorizado como pude aguentar uma pessoa que tentou me manipular todo esse tempo.  Mesmo tua avô agora vê que foi uma víbora, pois a separou de sua própria mãe, que te deu abrigo.

Quero um dia conversar contigo, antes que vás embora, sobre tua mãe.  Quero que saibas tudo.

Depois do tour de entrevistas nos jornais, nas televisões, ele finalmente conseguiu um dia para ir ao Presidio.    Falou cara a cara com seu companheiro de cela, tinha mandado um livro para ele. Creio que fui o único que sabia que ias escrever um livro sobretudo daqui.

Fico contente que tenhas encontrado seu caminho.    Eu me apaixonei por ti, mas sabia que se tivesse alguma coisa contigo, estragaria tudo.

Queria saber se poderias me dar uma entrevista, queria escrever a tua história, mas me baseando no que pensas tu de ti mesmo.  Este riu, eu quando li o livro, comecei a escrever tudo que imaginava que ias me perguntar. Quando fores sair, peça um envelope que mandei deixar para ti na portaria.   O escrevi na biblioteca.    Talvez quando você consiga publicar eu já não esteja aqui.   Estou com câncer de pele, creio que eu mesmo me provoquei isso, alias podes escrever que prefiro isso a ficar eternamente aqui.   Mas não se preocupe, esse é meu desejo. Não podiam se abraçar, mas sim segurar a mão.    Meu belo garoto negro, todo mundo pensa realmente que tive algo contigo.  Honestamente não me faltou desejo, mas sei que não tinhas nada por que estar preso, já bastava o que tinha acontecido contigo referente aos abusos.  Te cuide muito.

Levou com ele o envelope, escrito a mão, na frente um bilhete, não volte aqui, já disse ao diretor que não quero te ver novamente.  Ai tens minha história.

Mais tarde pode ler o texto, ali estava toda a historia de seu amigo do presidio, vou escrever tua história.

Marcou com o pai, num lugar que poderiam conversar, este apareceu com dois dos filhos maiores.  Os apresentou formalmente.   Claro os meninos ficaram sem graça, tinham sempre escutado falar mal dele.

Os dois em seguida estavam com o celulares, jogando, o pai conversou com ele.  Contou tudo o que sabia realmente sobre sua mãe.   Quando pensas que eu a comprei para fazer sexo, te enganas, porque quando a vi ali prisioneira.  A primeira cena que me vem a cabeça, eu tinha alugado um pequeno apartamento, não gostava de viver com os outros soldados, que passavam o tempo todo de putas.  Falavam delas como se não fossem seres humanos.

Um dia fui comprar arroz, vi tua mãe, parecia uma garota subnutrida, muito magra, com umas olheiras de fazer gosto, fui lhe perguntar qual arroz me recomendava, levou um susto, deixou cair o saco de arroz que estava enchendo.  Saiu um homem de dentro da loja, começou a pega-la, eu segurei seu braço, não permitindo.    Ele me disse que era sua escrava, tinha obrigação de obedecer, que era um desastre.   Fiquei literalmente chocado, porque me lembrei de historias que a Bisa contava dos nossos antepassados escravos.

Lhe perguntei quanto custava a garota, ela ficou assustada, me olhava de cima a baixo, eu era o dobro do tamanho dela.   O homem disse um absurdo de dinheiro, fui ao banco, retirei esse dinheiro, voltei por ela.  Ela estava atirada num cercado como dos porcos, em cima do feno, de qualquer maneira ele tinha dado uma surra nela.

Lhe dei o dinheiro, bem como um soco no meio da cara.  Sai arrastando tua mãe, mas chegou um momento que desmaiou.    A levei ao hospital, pedi que a atendessem, sabiam que eu era o segurança do comandante.   Ela ficou lá uma semana, cada vez que eu ia visita-la, falava como uma louca.   O que ia ser dela agora, sem casa sem ter aonde morar.  Eu a acalmava, ficas no meu apartamento.

Comprei roupas novas, tinha raspado sua cabeça que estava cheia de piolhos,  disse que não tomava banho a muito tempo.   Depois tinha mania de banhar-se todas as horas do dia.

Quando ficou boa a levei para o apartamento, lhe disse que dormisse no quarto, eu dormiria num tatame, estava acostumado.  Meses depois, era como minha família, eu chegava tinha comida pronta, lhe deixava dinheiro para compras, confiei sempre nela.   Não sabia sua idade real, só sabia seu nome Thuy, tudo que lembrava era que em sua casa tinham muitas mulheres, que seu pai, precisava de homens para a lavoura, por isso a vendeu.   Não adiantou chorar, era a solução.   Tampouco sabia aonde era a aldeia, apontava numa direção dizendo dois dias daqui.    Era a pior zona de conflito.   Não podia manda-la de volta, com certeza a venderiam outra vez. Ela teve sorte de não ter sido vendida para algum prostibulo, a maioria morria jovem de doenças venéreas.

Me contou que o homem tinha abusado duas vezes dela, mas que sua mulher lhe dava um chá abortivo, pois não queria que ele tivesse mais filhos.

Um dia veio me buscar para sua cama, fiquei apaixonado por ela, quase um ano depois nasceste, eu fiquei louco, pois eras lindo como bebê.   Mas a guerra ia a pior, como era da Polícia militar, consegui me casar com ela, já pensando em voltar com vocês, não ia abandonar a mulher que amava, nem meu filho para trás como via muitos fazerem.  O resto tu sabes, no tumulto, já estavam os vietcongs com franco atiradores no alto dos edifícios, graças a deus não sofreu, levou um tiro na cabeça, então fugi contigo, embarcamos entre os últimos.   Tivemos que passar um tempo na Alemanha, antes de chegar aqui.    Nem me lembrava mais da namorada que tinha antes, eu era louco pela tua mãe, até hoje sonho com ela.

Mas a pressão ao voltar, era que ela já vivia na casa da minha mãe, tinha me esperado todo esse tempo.   Acabei me casado, para descobrir depois que o primeiro filho não era meu.  Mas em compensação é o mais agarrado comigo.   Quer muito te conhecer, é bom estudante, serio, acha que a mãe está louca, bate de frente com ela o tempo todo.   Agora está vivendo um tio dele, veja, está chegando.   Viu que este corria para o pai, o abraçava, beijava os irmãos.  Era completamente diferente deles.  Se aproximou, lhe estendeu a mão, mas o pai o empurrou, acabou lhe abraçando, beijando.  Passou a mão pelo seu rosto, como eres bonito, sempre te via pela janela, sempre te amei.

O pai explicou que tinha ido viver com o tio, pois a mãe tinha descoberto que ele era gay, não o aceitou.

Tuan, abriu sua mochila, lhe deu um livro, espera vou autografar para ti.  Como te chamas?

Todo mundo me chama de Chen,   mas es Cheyenne, minha mãe quando me expulsou, disse que eu não pertencia aquela família, que meu pai era um índio Cheyenne.  Não me importou muito, pois o pai, sempre me quis.

Anotou no livro seu celular, qualquer coisa me chamas ok.

Se despediu do pai, esse disse, te quero meu filho, abraçou o Cheyenne, apontou sua direção, não podia falar, estava emocionado demais.

Quando chegou a San Francisco, André lhe estava esperando, o beijou ali na frente de todo mundo, estou morto de saudade,  quase vou te buscar.

Estiveram conversando depois de fazer sexo, contou tudo para ele.

Se queres traze-lo podemos pensar em mudar para um lugar maior.  Ao lado da casa do Georg, tem uma para alugar, vou perguntar a ele, quanto custa, podemos dividir entre os dois, pois agora eres um rico escritor.

Todo dinheiro que foi recebendo do livro, foi guardando no banco, aplicando.

Foram ver a casa, ficou apaixonado,  tinha inclusive dois lugares que poderiam usar para escrever,  cada um teria seu canto sem incomodar o outro, se Chen quisesse vir viver com ele, poderia.

A alugaram, ele pensando no futuro, fez um acordo de se mais tarde se interessassem poderiam comprar.

Falou com seu pai, que se o Cheyenne quisesse vir viver com ele, tinha mudado de casa, poderia.

Este lhe chamou super contente, tenho que decidir o que quero estudar, pensava em Belas Artes, crês que posso ser admitido aí.

Mandou suas notas, ele foi a universidade, mostrou, disseram que sim.

Avisou ao pai que mandaria dinheiro para o bilhete dele.

Não se preocupe, eu pago a viagem, embora não seja meu filho o quero muito.

Dias depois ele chegava, quando viu o André, riu dizendo ao irmão, que namorado tens.

André tinha voltado a escrever, ele estava com o livro sobre sua mãe,  o estava reescrevendo todo, no final do dia, cada um mostrava para o outro o que fazia, mas ele não perdia as aulas de vietnamita, tampouco a de Yoruba.

Cheyenne, foi basicamente adotado pelo casal de vizinhos, cederam o apartamento que ele vivia antes, para ser seu studio.

Este estava feliz, tenho uma nova família,  apesar de ser mais jovem, participava das conversas na varanda da casa do Georg, como um deles.

Esther o tinha levado para conhecer arte Africana, estava alucinado, fazia aulas com ela de Yoruba, ele começou a desenhar os Orixás que ela comentava.

Ela propôs a ele que ilustrasse seu novo livro, que falava justamente disso, dos Orixás, do Ifá, coisas da Nigéria.   Era uma maneira dele ter dinheiro.

Quando ficou pronto o livro sobre sua mãe, depois do André ter lido, o mostrou para a Adalgisa, mas quem fez a revisão foi o Georg.     Estava emocionado o dia que lhe devolveu o texto, não sabes o quanto chorei lendo esse texto novo.

Acho que quando o editarem, seria melhor, que ele fosse acompanhado de uma caixa de lenços de papel.

Quando o entregou finalmente ao Jacques D’Corte, no dia seguinte ele telefonou, filho da puta, chorei como uma Madalena.   O livro é espetacular.   Sem dúvida nenhuma vou editar, mas com novas condições, agora só receberemos 20% do livro, o próximo será só 10%,  afinal já eres um escritor conhecido.    Posso mandar para um produtor de cinema?

Ok, te mando mais uma cópia.

Cheyenne quando leu, o abraçou dizendo, meu irmão, o outro adorei, mas este, é sensacional, agora vejo como minha mãe estava enganada, creio que tinha era ciúmes.  Tem um mal humor permanente, nunca soube por quê.

Mandou assim que foi impresso uma cópia para o pai, estranhou, pois voltou, telefonou para o mesmo.  Eu não recebi nada.   Estamos em pé de guerra em casa, porque ela não admite que o Cheyenne foi morar contigo.

Deu-lhe outro endereço, é do escritório que trabalho.

Dias depois telefonou as lagrimas, caramba meu filho, a cada página que leio vejo, tua mãe, eu agora sei que nunca, mas nunca deixei de ama-la.   Vou me aposentar daqui um tempo, mas quando resolva tudo, te aviso.

Logo um produtor se interessou para transformar em filme, primeiro consultou o pai, para saber o que ele achava.

Não posso dizer nada o livro é teu.

Foi dando largas ao produtor.

Fez todas as promoções, quando esteve em NYC, procurou saber junto ao presidio pelo seu amigo.   O diretor disse que estava as últimas na enfermaria do presidio.   Posso ir até ai visita-lo.   Sim pode.

Foi um choque, era uma sombra do que era, passou o dia ali com ele, entre seus momentos de consciência, segurando sua mão, voltou no dia seguinte, no terceiro dia quando chegou, soube que tinha morrido.  Seria cremado.

Isso lhe deu maior força para escrever o livro. André bem com o Cheyenne ficaram preocupados, pois só largava o texto para um banho, comer alguma coisa, dormia em cima do laptop,  Quando acabou, passou o texto para o André.  Este ficou impressionado com a força da história.

Tirou uma cópia para o Georg e Adalgisa.   Ela como sempre apareceu, para falar o que tinha sentido.  Isso é uma bofetada na cara dos preconceitos de cor.   Desta vez se te propõem fazer um filme devias aceitar.

Ele estava esgotado, precisava descansar, quando Jacques lhe chamou para falar da edição do livro, pediu ao Cheyenne que tinha ficado muito impressionado com o mesmo, que fizesse a capa, bem como desenhos para o seu interior.

Quando viu os mesmo, entendeu que seu irmão tinha entendido sua ideia.

Estava tão esgotado, que começou a chorar, não havia meio de parar, Cheyenne ficou apavorado, ficou ali ao lado do irmão, segurando sua mão.

Eram férias na universidade, André ia a França para ver o filho, os dois foram juntos, mas ficaram em outro hotel.  Estiveram passeando, foi a todos os museus com Cheyenne,  por duas vezes pararam o mesmo na rua, para fazer uma foto dos dois.

André tinha feito a tradução para o Francês do primeiro livro, tinha um encontro marcado com um editor.    Foram almoçar com o mesmo.  O homem era extremamente pedante. Tuan soltou isso na sua cara.  Se a empresa tem outro editor que eu possa falar tudo bem, consigo não vou falar nada.

Um homem que estava sentado numa mesa atrás, disse o nome do homem, mandando que se retira-se.  Se apresentou, sou o dono da Editora, me impressionou muito seus três livros, estou interessado nos três.    Podemos fazer a tradução ou o André pode fazer isso por ti.  Como é o teu primeiro livro aqui, ficamos com 50%. 

Como, nem pensar, quando lancei esse livro, o editor ficou com 30%, o segundo ficou com 15% assim seguimos hoje em dia.   Mas 50%, nem pensar.  Desculpe se fiz o senhor perder seu tempo, mas me nego a seguir negociando.

Vejo que es um jovem com caráter.  Fechamos em 25% ok. 

Um detalhe, meu irmão Cheyenne desenha a capa bem como desenhos que gostaria que estivesse no interior.   Por conta de vocês, ele cobra o seu preço como na américa.

Passaram por NYC para ver o pai, o chamaram pelo celular.  Estava muito diferente, estou vivendo sozinho, nos separamos, pois a coisa estava complicada.  Estava jogando teus irmãos contra mim, porque apoio vocês dois.

Perdi a paciência, lhe soltei que sabia que Cheyenne não era meu filho, mas o pior era que o que eu gostava mais, bem como ele de mim.  Quanto ao meu primeiro filho, graças a deus teu veneno o fez ir em frente. 

Estou vivendo num pequeno apartamento, estamos em processo de divórcio.  Eu me aposento dentro de dois meses, os juízes levaram isso em conta. 

Se o senhor quiser, venha passar um tempo conosco.   Ele agora conhecia o André com quem se dava bem.

André vinha totalmente fora do ar, pelos dias que tinha estado com seu filho.   Foi como falar com um estranho.   Me estendeu a mão educadamente, me perguntou por minha saúde, ao mesmo tempo que tirava o celular, ao qual não parou de usar.  Quando cobrei isso, me disse que não tinha nada para conversar comigo.

Foi uma bofetada na minha cara.

Eu esse tempo todo evitei uma coisa, queria me casar contigo, porque pensava que isso iria causar problemas, mas agora quero.

Não esperava a resposta do Tuan.   Não acredito muito nisso de casamento, os exemplos que tenho são uma merda.   Prefiro continuar ser teu amante, disfrutar de ti, seguir vivendo juntos até que te canses de mim.

Impossível, estavam nus na cama, tinham acabado de fazer sexo, só aceitarei isso, se me diz que me ama, dentro de mim.  Nunca nenhum homem esteve aí, mas contigo gosto muito.

Voltaram a brincar, quando o penetrou colou a boa em sua orelha, te amo muito, eres o amor de minha vida.

Cheyenne estava preparando sua primeira exposição individual,  Seu pai veio de NYC, para estar presente.   Tinha mudado muito, os primeiros fios de cabelo branco apareciam nas têmporas,  estava feliz.

Passou uma larga temporada com eles, Cheyenne dormia no studio, ele ficou com seu quarto, adorou fazer amizade como Georg, Esther, Adalgisa.    Com estas conversava muito, a convidou para sair, começaram a namorar.     Dois meses depois avisou aos filhos que ficava, ia viver com ela, aproveitar o resto dos seus dias junto a uma pessoa fantástica.

Quando lançou seu quarto livro, pensou que depois iria ter a famosa crise do escritor, em não saber o que escrever.

Usou como texto do quinto livro, uma conversa que tinha escutado, eram de dois convictos contando seus casos, bem como o detetive que os caçou.

Este seria o seu segundo roteiro para o cinema.

Acabou comprando a casa, viviam bem, trabalhavam muito, pois agora ele estava pesquisando em Yoruba, para escrever seu sexto livro, queria falar das historias que tinha escutado de sua avó.

Ficou feliz quando soube que iriam editar seu livro em vietnamita. 

Ele, André, seu pai, Adalgisa foram até lá. Seu pai era o cicerone, embora dissesse que muita coisa tinha mudado.   Era interessante, ele as vezes parava, ficava olhado alguma coisa, depois soltava, era como se estivesse vendo eu mesmo, passeando com tua mãe, por esta rua.

Das largas conversas que tinha com o pai, escreveu um livro, contando a historia de um soldado que se apaixona por uma vietnamita.  Se baseou em toda história dele.

Choveram propostas para levar ao cinema, acabaram contratante seu pai, para descrever o que tinha visto.

Mesmo estando feliz com a Adalgisa, se ressentia dos filhos nunca se interessarem por ele. Na nova exposição do Cheyenne, se surpreendeu com um retrato seu, vestindo o uniforme de polícia militar, cercado da imagens da mãe do Tuan, bem como eles dois como os filhos que o amavam.   Se emocionou muito.

Eles agora eram uma família a parte, quando tinham comemorações, dividiam entre sua casa algumas festas, outras na casa da Adalgisa.

Quando estreou o filme, foi requisitado para entrevistas, pois a historia estava baseada nele. Foi muito cauteloso falando dos filhos.   Mas nem isso fez com que o procurassem.

Seguiram suas vidas em frente.

VELHO GUERREIRO

                                         

Estava no meio do fogo serrado, não tinha por aonde escapar, as balas passavam voando sobre sua cabeça.  Respirou fundo, foi se arrastando para baixo do veículo, sua única escapatória, quando chegou a parte da frente, bem embaixo do motor, viu as pernas dos que lhe atacavam, pensavam que devia estar morto, pois tinha deixado de atirar, apertou o gatilho, dando uma rajada de balas, atingindo a todos eles, saiu rapidamente, rolou para o lado, ainda atingindo um que estava em cima de uma casa preste a desmoronar.  Justo nesse momento o carro que tinha estado embaixo explodiu, não tinha percebido que uma parte de sua roupa tinha ficado impregnada de gasolina, o fogo o atingiu, rolou pela terra apagando o fogo, mas claro já tinha queimado sua pele nas costas.

Estava sufocado pelo calor, pelo suor que lhe escorria desde a cabeça, despertou gritando de dor.    Menos mal que estava sozinho, um dos vizinhos já tinha reclamado dos gritos da madrugada.   Por isso agora dormia num quarto afastado nos fundos da casa.

Não podia controlar os pesadelos, tinha feito tratamento, mas se negava a tomar os remédios, pois todos eram aditivos, não queria correr esse risco.

Quando lhe amputaram as pernas num outro atentado, levou em coma dois meses, quando teve consciência, preferiu aguentar a dor, mordendo uma toalha, a tomar remédios.  Sabia de casos de companheiros que caiam nessa sequência de remédios, passavam o dia dopados.

Ele ao contrário, seguia trabalhando.   Colocou as  próteses, usou um bastão que ficava enganchado a mesa de cabeceira, para lhe ajudar a se levantar.   O  dia amanhecia em Paris, foi até a varanda detrás do apartamento, respirou fundo.   Essa varanda dava para um parque, isso lhe bastava pela manhã, ver o verde.

Tinha cobrado caro sua aposentadoria antecipada como oficial das forças de segurança de Israel.   Estava farto de tanta guerra, tantos atentados, tantas mortes, tinha visto bebês mortos, agarrados a suas mães, jovens de todas as idades, velhos, chegou o momento que disse basta.

Era judeu de origem francês.  Seu pai tinha morrido durante a segunda guerra como oficial francês.   Este apartamento pertencia a família, os anos que ele viveu em Israel, esteve sendo usado por sua irmã.                  Agora ela vivia com seu filho, não aguentou seus gritos noturnos, dizia que era pior que estar numa guerra.   Não sabia de nada, tinha sempre vivido no conforto, na verdade era filha do segundo matrimonio de sua mãe em Israel.

Preparou um café forte, estava cansado, pouco tinha dormido esta noite, a maior parte com pesadelos.  Sentou-se na cadeira especial que tinha no banheiro para tomar um banho, isso sempre o relaxavam, ficar ali embaixo d’agua.

Viu que o celular chamava, olhou para um relógio em cima do espelho, caralho pensou, as cinco da manhã, me chamar, só pode ser alguma má notícia.

Saiu do box, se secou, colocou a prótese, em pé fez a barba, nunca tinha gostado de barba grande, lhe incomodava.   Talvez porque o fizesse parecer mais judeu do que era.  Era um caso a parte, gostava de comida francesa, era católico, nunca tinha usado o Kipa, odiava as cerimonias judias.              Nunca compartia nenhuma, a única coisa que sabia era rezar o Kadish, principalmente pelos companheiros mortos.       Depois de vestido foi olhar o celular, era de sua afilhada.   Achou estranho, sempre se falavam, mas o chamar a estas horas devia ser algo sério.

Chamou, ele atendeu em seguida, chorando, era para dizer que seu pai tinha morrido no dia anterior num atentado.

Se apoiou na mesa, até conseguir se sentar.   Ela lhe contou os detalhes.

As lagrimas escorriam pela sua cara, marcando mais ainda suas rugas.   Sim irei, vou arrumar algo de bagagem, tomarei o primeiro voo.

Joseph tinha sido o grande amor de sua vida, nunca tinha saído do armário, tinha aguentado anos os encontros escondidos, mas não sabia viver sem ele, tomou essa decisão, no dia que ele veio visita-lo no hospital, olhou com horror, que ele não tinha pernas.  Para ele, sempre tinha sido o herói, o forte que aguentava tudo, inclusive viver escondido o romance dos dois.

A um ponto que era padrinho de sua filha mais velha.  A queria como se fosse sua filha, tinha inclusive escolhido seu nome, Mariah, tinha a ajudado sempre, a maioria das vezes contra a vontade de Joseph.    Pagou seus estudos na França, para que ela pudesse ser o que quisesse, quando brigaram por causa disso, ameaçou Joseph, ou deixava, ou contaria a todos que lhe comia o cu.  Foi categórico dessa maneira.   Nessa época ele tinha entrado para a política, isso significaria acabar com tudo.

Já andava de bastão nessa época, por várias lesões, ou melhor dizendo tiros nas pernas.  Quando as perdeu, dizia que tinha recebido umas novas como condecorações.   Joseph, não voltou a ir visita-lo no hospital, quem ia era Mariah, que lhe levava livros franceses, jornais, lhe chamava de tio.   Foi sem querer ela quem lhe deu à luz.

A estas alturas da vida, estás sozinho, lutando por uma pátria que nunca reconhece teus esforços, sempre pedindo mais.   A cada combate, atentados, sofres para salvar teus homens, te sacrifica.   Não eres judeu, sim francês, esquece essa merda.

Nem sabia que estava em Tel Aviv,  pensou que estava em alguma escavação por aí, afinal era arqueóloga.   A última vez que a tinha visto, voltava de uma temporada no Egito.

Catou roupas ordenadamente como estava acostumado, meias, cuecas, camisetas verdes ou negras, umas quantas, um casaco, duas calças jeans dessas elásticas que lhe facilitavam os movimentos.

Pediu um taxi, foi para o Aeroporto, iria usar seu passaporte de Israel, para facilitar as coisas, embora levasse no bolso um francês.

No aeroporto, foi direto a um balcão da Air France, lhe disseram que tinha um voo saindo dentro de 45 minutos. Quando ele apresentou seu passaporte, o fizeram passar basicamente todos os controles rápido.

Quando  se sentou em primeira classe, que lhe tinham conseguido, respirou fundo.  Fechou os olhos, se lembrando da última grande discussão que tinha tido com Joseph.   Este estava com ciúmes, pois tinha descoberto apesar de não terem mais nenhum relacionamento, que ele estava saindo com um jovem militar.

Fez um escândalo, ele um oficial graduado, dormindo com um jovem militar.  Perdeu a paciência a pouca que já tinha com ele, lhe disse tudo que pensava dele, que ele tinha uma vida, uma família, eu ao contrário não tenho nada.    Sabe o que é nada, nem pernas para correr tenho.   Nesse dia, tinha ido vistoriar um acampamento, quando atacaram, uma das bombas o atirou a metros de distância, suas próteses, desapareceram.

Mais uma vez estava no hospital.  Quando saiu, encontrou o rapaz com quem estava, com outro, de sua idade, estava apaixonado.   Simplesmente se sentou com ele, conversou, o aconselhou a não viver no armário, para não ser como ele, um homem maduro, sem nada, sem amigos íntimos, sempre sozinho, olhando para a direita, esquerda, vigiando seus próprios passos para não cair em nenhuma emboscada.

No dia seguinte pediu a aposentadoria que tinha direito, quiseram lhe fazer uma festa, mandou todo mundo tomar no cu.   Que o deixassem em paz.   Fechou seu pequeno apartamento, arrumou as malas foi para Paris.

Tinha estado esses últimos sete anos, mais calmo, tinha chegado a pensar que sua vida estava chata, mas ele se ocupava o tempo todo.  Tinha conseguido um emprego numa rádio como especialista em música oriental.  Um  programa que apresentava pelas madrugadas, um horário que ninguém queria, mas para ele era perfeito, assim evitava ter que dormir.

Quando chegava em casa estava tão cansado, que caia morto na cama.   Tinha avisado para reprisarem programas antigos, assim poderia estar fora uma semana pelo menos.

Sentiu uma mão suave no seu braço, abriu os olhos a aeromoça, disse que ele estava falando dormindo.   Pediu desculpas, pediu uma bebida, precisava de algo para aguentar o que ia ter que enfrentar.

Passou o controle no aeroporto, como oficial militar do pais, entrou num taxi deu a direção de seu apartamento.    Um vizinho lhe fazia o favor de abrir o mesmo, algumas vezes na temporada, lhe perguntava se podia alugar para algum turista.

Quando abriu a porta, entrou no salão, ali estava em pé um homem, com uma cara de surpresa, totalmente nu, eram mais ou menos da mesma idade.

Ah, perdão, sou o proprietário, não sabia que meu vizinho tinha alugado o apartamento.

O homem riu, era muito atrativo.  Falou com ele em Inglês, disse que era judio americano, que tinha vindo de férias.   Então terei que ir para um hotel.

O apartamento tinha dois quartos, não se preocupe, qual quarto estas usando, eu usarei o outro, pois somente vim para um enterro.

Nunca tinha acontecido isso com ele estar sentado numa poltrona, com outra pessoa totalmente nua na outra.

Tomou outro banho, sentado num banco no box, o outro quando viu suas próteses, isso deve ser uma merda.

Não reclamo, pois estou vivo, tentando dar um rumo na minha vida.

Se arrumou, ia colocar o uniforme que estava dentro do armário, como sabia que estariam os outros amigos do Joseph, mas não vestiu uma roupa confortável.   Nada mais de sacrifícios por ninguém,  nem pelo simples cumprimento social.

Não deu outra, quando chegou para o velório, viu que todos o olhavam, pois estavam com seus uniformes, seus galões, toda essas merdas pensou ele.

Abraçou sua afilhada, a beijou na cabeça, ela era como a mãe, mais baixa do que ele.  Quando foi cumprimenta-la para lhe dar os pêsames, o olhou de cima a baixo, sibilou, esperava que tivesses a decência de não aparecer.   Que minha filha te adore, bem, mas podia me poupar de ter que te engolir mais uma vez em minha vida.    Passou o resto do tempo afastado, de qualquer maneira, não o poderia olhar, primeiro por que não, gostava, segundo porque o caixão estava fechado, sinal que estava aos pedaços.    No cemitério, sua afilhada lhe pediu para rezar o Kadish.

Sua mãe fez sinal que não, mas ela ignorou.  Ele fez como sabia fazer, somente pensou no velho amor, esperando que finalmente encontrasse o descanso, sabia que Joseph era uma alma atormentada desde infância.   No fundo não lhe queria mal, tinha feito tanto para aceita-lo como era, as migalhas de seu amor. Que agora não iria chorar pelo leite derramando a tanto tempo.

Depois da cerimônia, perguntou a Mariah se ficava mais dias ali, ficou surpreso com a resposta.

Estou aqui já a tempos, houve uma crise entre os dois, tive que vir, ele finalmente se revelou quem era a ela, dizendo que a única pessoa que ele tinha amado na vida, tinha sido tu.  Ela ficou furiosa, pois se dedicou a ele toda sua vida.

Pode ter-me amado filha, mas eu só recebi migalhas dele,  sou honesto de te dizer que se fosse hoje, nunca teria tido nada com ele.

Sabia que já não podia desfrutar mais da companhia delas, pegou seu chapéu, saiu, quando encontrou dois oficiais esperando por ele.

Disseram que o comandante queria vê-lo.   Levantou os ombros, dizendo diga a ele que eu não tenho nada a falar, tampouco quero escutar nada.

Entrou num taxi foi para casa.   Quando desceu do taxi o comandante estava ali, na porta do edifício lhe esperando.  Saíram andando em direção a praia, o que queres de mim?

Queremos que nos ajude a vingar a morte de nosso amigo, companheiro.

Olhou surpreso, vingar, estou cheio de vinganças, não conte comigo.

Virou-se com tanta raiva, que quase perde o equilíbrio, foi andando rápido para seu apartamento,  De lá foi para o aeroporto, furioso, como podia pedir isso a ele.  Joseph, sempre tinha instigado coisas que ele odiava, ocupação de terras, cada vez queriam mais.

Só porque meus pais eram judeus, tenho que ficar brigando sem parar. Não, estou fora disso.

Fez uma coisa diferente, trocou a data de regresso, pediu para a que atendia mudar o passaporte, lhe apresentou o francês, passou como qualquer outro turista, entrando na fila, só relaxou quando esteve dentro do avião.  Lhe tocava por acaso o último assento da turística, assim era melhor podia observar tudo.    Pensou que viagem rápida, saiu no primeiro voo, voltava no último.    Já no aeroporto, tomou uma decisão, se fosse rápido, poderia pegar ainda um último trem fora de Paris, talvez não conseguisse a conexão, mas dormiria em qualquer hotel perto da estação.   Estava acabando de pagar o bilhete, quando deram a primeira chamada do trem, andou rápido pelo andem até chegar ao seu vagão, foi o tempo justo.

Colocou sua pequena bagagem na parte de cima, podia ficar descansado, pois a sua era basicamente a última parada.   Chegou a Marseille, já passada a meia noite.  Atravessou a rua se hospedou num hotel Ibis que tinha justo ao lado.  Pediu uma garrafa d’agua, caiu na cama, apagou, a muito tempo não dormia assim.

No dia seguinte, tomou um taxi,  para o porto, aonde partiam os ferrys para a Córsega, tinha ali um amigo de longa data, tinha falado com ele antes de dormir.   O esperaria em Bastia, depois iriam para sua casa numa enseada mais afastada da civilização.    Tinha depois dessa chamada apagado seu celular, retirado a bateria.

Queria tempo para lamber suas feridas.   Por vias das dúvidas, pegou um camarote, já que não ia de carro.   Quando estava entrando no seu, olhou para o lado, um homem, o estava olhando, no seguinte.  Sorriu, lhe disse olá em resposta.  O outro perguntou se queria tomar alguma coisa, lhe respondeu que era cedo, mas que aceitava um café.  Desceram para o bar, ficaram numa mesa mais isolada.

Este estendeu sua mão se apresentando, François Duvalier,  vou  a Bastia, para resolver um problema de herança.  O barulho era infernal, viu que não valia a pena ficarem ali, subiram novamente.  Andas com dificuldade, algum problema?

Uso próteses nas pernas. Nada demais.

O outro riu, gosto da sua maneira, acabaram ficando nus, retirou suas próteses, acabo de deixar de ser sexi disse ao François.

Sabes o meu nome, mas não sei o teu?

Paul  D’Arnaud, um tipo raro, para melhor me explicar.   Sabia que apesar de tudo tinha um corpo bonito, os contínuos exercícios de recuperação o faziam manter o corpo a um alto nível.

Não me enganei, François, foi deslizando suas mãos grandes pelo seu corpo todo. Não esperava que fosse um sexo satisfatório, mas ao contrário, foi excelente.

Sempre verbalizava essas coisas, assustando a outra pessoa, François riu, eu tampouco esperava isso, mas foi para mim fantástico.

Era viúvo a pouco tempo, nunca fui casado, tive um companheiro de muitos anos, erámos sócios,  só que ele era casado tinha filhos, que agora me enchem o saco para vender tudo, para viverem na boa vida.   Estou pensando seriamente nisso.

Ficaram ali, um nos braços do outros, conversando, lhe contou que até anos atrás sua vida era mais ou menos igual.   Voltava justamente do enterro do velho amante, fui minha vida inteira o outro.   O Fiel escudeiro.   Os dois riram da imagem.

Quando deram o sinal de que estavam chegando, que lastima, podemos trocar o número de celular pelo menos, para nos vermos em Marseille, ou em Aix en Provence aonde vivo.

Sim claro, passarei aqui uns dias relaxando na casa de um velho amigo, depois quando volte te chamarei.  Ficaram se beijando, se despediram.

Seu amigo Charles, estranhou, esperava vê-lo furioso, o encontrou relaxado, comentou isso no carro.   Se te conto, não vais acreditar, tive um romance durante toda a viagem, imagina passar toda essa viagem, nu em cima de uma cama com outra pessoa.  Foi o que me aconteceu.

Charles tinha sido seu amigo de muitos anos, muitas batalhas, tinha sido do serviço secreto Frances, agora vivia ali, numa casa que tinha comprado, num condomínio.

Lhe contou o que tinha acontecido em Tel Aviv, o pior disso tudo foi lembrar como conheci Joseph, quando fazíamos serviço militar.   Ele era contra as invasões de terras, argumentava que isso sempre nos trairia problemas, justo nessa época levei o primeiro tiro de minha vida, o salvando.  Quiça o deveria ter deixado matar, porque sua transformação com a política, foi letal, sua filha inclusive era contra ele, se tornou um radical, achava que todas as terras deviam estar em mãos dos judeus, que tinha que se sacrificar todo o povo palestino.  Segundo ela, ele tinha feito umas declarações dias antes, queria um troço da Cisjordânia, para um assentamento de ultra ortodoxos.   Creio que dai veio o atentado.     Ele se retirou cedo do exército, seu  negocia era a política, ficou rico com isso.

Eu ao contrário vi tanta gente morta em minha vida, que até hoje tenho pesadelos, tenho gravada na minha cabeça por exemplo uma cena, de uma mãe morta, dando peito para seu bebê, levou um tiro dentro de casa, aonde estava sentada sem fazer mal nenhum.  Depois vi um soldado, colocar uma arma em sua mão.  Fiquei furioso,  foi  quando comecei a me desencantar, os meus pesadelos creio que me perseguiram a vida inteira.

Na última vez que o vi, um dos motivos da discussão foi essa, era contra minha aposentadoria, porque havia que limpar a terra que nos pertencia.  Quase lhe dei um murro na cara, pensar que perdi quase toda minha vida, por ter amado esse idiota.  Hoje me enfado comigo mesmo por isso, perdi minha juventude, até mesmo minha madures por migalhas de afeto, hoje estou sozinho, com os putos pesadelos.   Estou obrigado a me cansar ao máximo para conseguir dormir, pois me nego a tomar qualquer medicação.

Seu amigo, Charles, colocou a mão sobre a sua, pois é pensamos algumas vezes que estamos fazendo o bem para um pais, mas por detrás sempre tem interesses dos políticos.  Por isso também sai do trabalho, nos últimos anos, como me negava a fazer certas coisas, me davam trabalho de escritório para fazer, como forma de castigo.

Chegaram à casa, o lugar era magnifico, tinha inclusive uma piscina no fundo da casa.  Com piscina posso tomar banho, mas no mar é mais complicado, teria que ter trazido minhas muletas para isso.   Creio que tenho uma, uma amiga a deixou aqui, quando veio descansar, tinha tido uma lesão.   Outra que se desencantou com a vida.

Pediu ao Charles que lhe desse o quarto mais afastado, se desperto dando gritos, não incomodo ninguém.

Queria que me fizesse um favor, sei que tens ligações, queria saber o que pretendem esses filhos da puta com sua vingança.

Depois de guardar suas poucas coisas, pediu ao Charlie se podia lavar sua roupa, estão fedidas, estive ontem o dia inteiro com elas e hoje também.  Este lhe emprestou uma sunga para a piscina.    Tirou a prótese, foi andando com as muletas, até a beirada as deixou ali, se atirou na água.

Ficou horas sentado dentro da piscina, se relaxando.   Quando Charles apareceu com uma cerveja, o sol estava quente, foi uma ótima sensação.

Depois tenho umas coisas para te mostrar, você tem toda razão sobre o atentado, o pior é o que querem fazer.

Tenho que ver agora, minha cabeça estar fervendo de tanta conjecturas, imagino o que está por detrás disso.

Saiu da piscina se enrolou numa toalha que o Charles lhe deu, sentaram na varanda, ele trouxe seu laptop. Veja, era um vídeo do Joseph, expulsando com soldados, uma família inteira, de uma granja,  inclusive duas crianças pequenas.    Os soldados agrediam um velho com seus cabelos brancos, que se negava a sair de sua casa.   Aparecia o Joseph dizendo que a cidade precisava crescer, que ali se construiriam edifícios.

Segundo as fontes, ele estava ganhando dinheiro por baixo dos panos, para liberar essa faixa de terra para as construtoras.   Parece que a tempos estava vendido aos mesmo.  Agora o pior para ti, segundo as mesmas fontes, estava envolvido com um jovem da idade de sua filha.    Bom pelo que se sabe agora vão atrás dessa família, a ordem é liquidar a mesma, não deixar nada.

Carregou seu celular, chamou sua afilhada, falou com ela a respeito.   Sim eu sei de tudo isso, mas o que faço.  

Salve essa família, pelo amor de deus, as crianças não têm nada a ver com isso. 

Horas depois ela telefonou dizendo que não tinha sobrado ninguém, que estava furiosa, tinha feito uma declaração nos jornais contra isso tudo.  Na entrevista, disse inclusive isso, que seu pai era culpado da situação.  Mas duvido que publiquem, nada disso.   Avisei minha mãe que vou para Paris, pois tenho trabalho, se quiser vir comigo bem, senão que fique aqui com suas lamurias.

Sabias que ele tinha um amante da minha idade tio, as vezes ela lhe chamava assim, foi um filho da puta até sua morte, por isso brigou com minha mãe, queria ir viver com o rapaz, disse que tinha muito dinheiro para viver.

Procure em suas contas nos bancos, mesmo fora do pais, segundo as informações que tenho ele estava recebendo dinheiro das construtoras para fazer isso, mas muito cuidado.

Ficou sentado ali, nem sentiu as lagrimas correrem em sua cara.   Joseph no final tinha destruído tudo que tocara, ele, a mulher, a filha, tudo.    Aonde tinha ido parar esse homem a quem tinha amado com loucura.   Que idiota fui, não ver o que acontecia.                   

Charles da porta o viu chorando, o deixou ali, sabia que quanto mais pusesse para fora, melhor, tinha passado pelo mesmo.   Sua mulher o tinha abandonado, quando viu que perdia seu status de chefe, gostava da importância de títulos, menos mal que não tinham filhos.

Sentia uma vontade imensa de explodir, precisava um ombro para chorar, sem querer pensou no François,  o chamou, para saber como estava. 

Já tenho tudo resolvido, te chamei, mas o celular dava ocupado, gostei tanto de te conhecer, que não paro de pensar em ti.

Eu adoraria conversar contigo, mas creio que seria nefasta minha conversa, acabo de saber coisas que não queria ver. Isso esta me molestando, com certeza terei pesadelos essa noite.

Eu irei embora amanhã, mas acho que vou voltar de avião.  Adoraria te ver.

Espere. Colocou a mão sobre o celular, chamou o Charles, lhe perguntou se podia convidar seu amigo.

Claro, fale com ele, depois me passa que lhe digo como chegar aqui.

François, chegou duas horas depois, em um taxi.  Se abraçaram, contentes, o apresentou ao Charles.   Sentaram-se para jantar.

Como foi a resolução do problema.

Vais rir, os irmãos estavam brigando pela disputa de um apartamento em Paris, resulta que o que deixou a herança, nos últimos dez anos, não pagou nenhum imposto, tinha muitas dividas, então metade do valor é para pagar as dívidas, o apartamento esta caindo aos pedaços, tem que ser restaurado inteiro.  Até a venda vai ser difícil.

Eu também penso em vender aonde vivo, ou então me mudar para um lugar mais tranquilo, imagina, quando fiquei sozinho nele, mandei reformar inteiro, tirar todos os papeis de paredes velhos, pintei tudo de branco, minha meia irmã ficou horrorizada. Disse que era uma blasfêmia.

Mas mesmo assim, tenho que dormir num quarto que não dá para os outros edifícios, pois quando tenho pesadelos, desperto gritando, isso incomoda os vizinhos.

Ias gostar da minha casa em Aix, fica fora do centro, é um tipo mansão antiga, a comprei de uma briga também por herança.  Mandei reformar, mas há uma parte que irias gostar, nos fundos, havia pequenas casas, que eram aonde viviam os empregados, agora as vou reformar, para alugar para estudantes, uma delas penso em transformar em meu escritório, se rompo com os herdeiros do meu ex-companheiro.    Isso está basicamente certo na minha cabeça.

Paris, nunca mais, nasci, cresci, estudei lá, mas me acostumei a essa vida mais tranquila de Aix.

Porque não voltas comigo, passe uns dias lá.

Dormiram juntos, fizeram o sexo que tinha gostado tanto, num dado momento nas preliminares sentiu prazer quando François, passou a língua pelo lugar da amputação, isso o levou a loucura, não sabia que tinha esse tipo de prazer nessa parte, ele quando percebeu, lhe provocou mais, depois se deixou penetrar por ele que estava enlouquecido de prazer.

Pelo menos uma coisa boa em tudo isso,  depois de tanta merda, uma coisa boa, te conhecer.

Passaram o final de semana lá, no domingo a tarde conseguiram um voo para Marseille, era incomodo o tipo de avião, mas valia a pena.  Lhe disse ao ouvido de François, podia ter voltado de ferry, assim voltaríamos fazendo sexo.

Riu para si mesmo, estava com 62 anos, mas se sentia rejuvenescido.    Ficou deslumbrado com a casa do François, ele lhe foi explicando o que tinha feito, restaurei basicamente tudo, mas a maioria dos cômodos estão sem moveis, tudo teve que ir para o lixo, salvei algumas molduras, espelho, imagina a casa esteve fechada quase trinta anos, pelo litigio.   O segundo andar estava todo aqui no térreo, o sótão, tive que tirar todo, as madeiras estavam podres, na verdade, tirei tudo, reconstruí por dentro, salvo as lareiras, com suas torres nada sobrou, portanto o andar de cima, foi feito a minha maneira, duas suítes grandes, com roupeiro incluído, pensei que o meu querido vinha viver comigo, não era com ele.   Tu es a primeira pessoa que entra aqui comigo, agora estão construindo a piscina, mostrou pela janela, preciso de um jardineiro para redesenhar o jardim,  quero plantar mais árvores para fazer sombra.  Mostrou ao fundo, o que ele dizia.

A cozinha foi feita inteira, nem o chão sobrou,  aproveitei para reabrir a bodega que estava em ruinas, um cheiro de vinho velho pelo chão.    Alguém entrou abriu todas as garrafas que estava aqui, deixou vazar tudo.

Mas agora ao reconstruir para abrigar uma parte da bodega, outra será lavanderia, coisas assim, por enquanto não temos garagem, terei que usar uma das casas para isso.

Nessa noite sua afilhada lhe chamou.   Acabo de descobrir, que as crianças não morreram, estavam com uma tia delas, as que morreram foi de uma vizinha que estava fazendo uma visita a família.

Falei com ela, esta concorda comigo, se ficam aqui, vão ser criadas no ódio, na vingança, são muito pequenas, tem apenas dois anos de idade, não viram o que aconteceu, queria fazer no enterro dos pais, uma passeata com o caixão, bem como as crianças, mas a tia fugiu com eles, está aqui em Tel Aviv.   Falei com ela, precisa de ajuda, tem família, teme por ela, não tem a menor condição de criar as crianças.  Cai na besteira de falar com minha mãe, disse que se as encontrasse, as mataria ela mesma.    O que faço.

Já te chamo.  Conversou com o François, se fosse amantes a muitos anos, eu iria propor criarmos as crianças, mas mal nos conhecemos.   Tens algum meio de tirar elas de lá.

Ele começou a mover seus fios, diga a sua afilhada, lhe deu um endereço, que vá até lá, leve uma foto das crianças, vão conseguir documentos para elas, como se fossem seus filhos, esses mesmos a vão escoltar até o aeroporto para não ter problemas, um viajara no avião com ela, depois virão para cá.

Venha comigo, vou lhe mostrar uma das únicas casas prontas.    Saíram para a rua, contornaram a esquina, a primeira casa da outra ponta, estava pronta, não tinha moveis nem nada.  Era muito simples, uma sala com a cozinha americana, um quarto com banheiro, no andar de cima dois quartos mais um banheiro, na parte detrás, mandei construir isso, uma pequena varanda virada para a casa grande, ali numa parte fechada estava a lavadora e secadora, bem como uma pequena despensa.   Acho que para ti serviria.   Depois se queres ir para Paris, isso será contigo.

Uma pergunta, viras dormir aqui comigo?

Sem dúvida nenhuma, não penso em me afastar de ti.

Falou com a afilhada, perguntou se ela queria correr este risco.

Desde que seja para salvar essas crianças que não tem culpa de nada, sim.  Estou farta das burradas do meu pai.   Encontrei o dinheiro sim, esta todo em Luxemburgo.   O muito filho da puta pensava em se escapar com seu jovem amante.

Lhe deu todas as instruções, siga todas as orientações, só me avise quando estiverem saindo para Marseille.

Quem teve uma ideia, foi o François, pelo que me contaste podem vir atrás de ti, se esses garotos são registrados como meus, ninguém poderá fazer nada, serão franceses.  O pessoal que cuida disso por  aqui me dever imensos favores, creio que seria uma solução, poderão viver comigo, sempre quis ser pai.  Os educarei como franceses, procuraremos que se esqueçam do passado.

Assim fizeram, quando Mariah chegou a Marseille, esteve com ela, disse que como estavam agitados, tinha lhe dado um comprimido para crianças. 

Sempre te manterei ao dia, mas encontrei a família própria para eles, não se preocupe, estarão bem cuidados.

Assim o fizeram, um mês depois, os meninos já falavam francês de tanto escutar, eram sempre acompanhados de uma psicóloga, que não via signos de ansiedade neles.  Tinham cortado seus cabelos, a moda que se usava agora entre as crianças, no semestre seguinte iriam a um jardim de infância, aonde as crianças a maioria era francesa.

Eles continuava bem, de noite François atravessava o jardim, para dormir com ele, as crianças ficavam com uma baba que dormia no mesmo quarto, mas mesmo assim François levava um desses aparelhos, que escutava até um peido dos meninos.   Era todo um grande pai, jogava com eles, esses espontaneamente o abraçavam.

Charles o mantinha a par de qualquer movimento tanto por parte de um lado como do outro.

Sabia que estavam vigiando seu apartamento em Paris, por isso ficava aonde estava, tinha feito uma modificação em sua aparência, deixou a barba crescer, passou a raspar a cabeça, usava um gorro típico dali.  Se distraia, criando o jardim novo para François.  Nunca tinha imaginado que poderia ter um relacionamento assim, para todos efeitos, morava na casa de empregados, as outras foram sendo reformadas, mas todas deixaram de ter acesso ao jardim.   Criou um caminho ao qual François passava despercebido.    Raramente saiam juntos pelas ruas.           O François apresentava a criança, como seus sobrinhos, tinha construído uma história perfeita.

Viviam simplesmente, ele trabalhava em seu escritório, da janela via Paul, trabalhando no jardim, agora tinha um ajudante, pois para ele era difícil ficar de joelhos,  passaram o inverno, felizes.    Usava para falar com Mariah, um celular desses de pré pago, para dificultar a localização, tinham combinado o dia que se chamavam.

Ela embarcaria em breve para uma escavação no México, assim estaria longe.  Contou que sua mãe, estava vivendo com uma irmã num povoado perto de Jaffa.  Tinha tomado posse do dinheiro do pai,  depois de muitas complicações.

A última vez que falaram, disse que estivera indo a um psicólogo, pois descobrir toda a verdade a respeito do pai, a tinha deixado confusa.                  Quando me contaste a respeito de quando o conheceste, seu posicionamento político, sua mudança, ao longo do tempo.       Nos últimos anos mal nos falávamos, pois um dia soltou que esperava ter um filho homem, para seguir sua carreira política, descobrir que não passava de um blefe.   Mas vou sobreviver a tudo isso, sem dúvida nenhuma, tinham um código para perguntar pelos meninos, perguntava pela próteses que usava.   Estão funcionando perfeitamente, algum dia correrei umas olimpíadas. Tudo isso significava que estavam bem, que seguiam se adaptando. 

As crianças o chamavam de tio Paul, se agarravam a ele, quando o viam sem as próteses na piscina ficavam olhando para ele, mas ele procurava que se acostumassem.

Adoravam se jogar com ele na piscina, falavam o tempo todo em francês, o que ele mais gostava era ver, como eram agarradas com o François.   Sentia como se agora tivessem uma família.

Mas ele por hábito estava sempre atento, tinha instalado em cada esquina da casa, bem como nos fundos um sistema de vigilância, estava sempre repassando as gravações para ver qualquer coisa diferente.   Tinha quase uma neurose nisso.  Hoje em dia ofereceria sua vida, pela dos meninos.   As crianças eram sempre um vítima colateral de tudo.

Agora já sabia inclusive os dias que poderia ter algum pesadelo, dedicava esse dia a não dormir, repassar os vídeos, escrever.    Um dia estava pensando nisso, quando lhe surgiu na cabeça uma ideia, escrever sobre o assunto.   Como se sentiam as pessoas depois de tanto anos sobre pressão, dessa eterna guerra por um pedaço de terra, quando todos poderiam ter desde o princípio ter tentado conviver.   Chegou a conclusão, se tivesse mais informação sobre as coisas, nunca teria participado nos atos do exército, se arrependia do tempo perdido, devia ter saído procurado um emprego ou estudar alguma coisa.

Dez anos se passaram,  agora usava uma prótese mais moderna, se movia mais rapidamente, mas continuava forte.   O jardim era seu orgulho, devia ter estudado isso.   Tinha uma coleção de bonsais que fazia ele mesmo.    Os meninos estavam numa fase curiosa, pois tinha passado do tempo de fazer perguntas, a terem posições mais firmes.

Os dois continuavam agarrados aos dois, mas era com Paul, que faziam confidencias.  O maior um dia chegou-se a ele no jardim, disse que vinha tendo um sonho, em que falava outra língua, que ele entendiam o que falava, mas que não gostava dos tiros que escutava, nem ter que ficar escondido embaixo de uma cama.   Conversou com a psicóloga, para saber como agir, estava num beco sem saída.   Infelizmente o sonho se tornou uma coisa, cada vez que o menino ficava nervoso, tinha o pesadelo.   Um dia o pegou falando um arremedo de árabe com o irmão, como se fosse uma língua secreta deles.           Se assustou, resolveu que tinha que contar a verdade, a psicóloga mesmo contra a vontade do François concordou.             Sentaram-se os três com eles, contaram o que tinham passado.       O olhar deles era de interrogação, porque tinham feito isso. Explicar foi difícil, mas resolveu que a verdade era o melhor, contou com detalhe o que tinha feito, o porquê de tudo.   Foram meses difíceis, mas uma coisa foi interessante, vinham sempre conversar com ele, os começou a ensinar árabe, achava que tinham esse direito.

O menor, era o que menos se lembrava de alguma coisa, o outro sim, pois tinha os pesadelos, mas desde que soube da verdade, deixou de ter os mesmo.

Se tornaram mais agarrado a ele, que sabia da verdade deles.  

O pouco cabelo que o Paul tinha hoje, era todo branco,  ele é François,  acabaram se casando, para terem segurança dos dois.  Eles estavam encantados, agora tinham dois pais.

Um dia o maior mostrou curiosidade de ir conhecer aonde tinha nascido.  Pediu que esperasse mais um ano assim seria maior de idade, ele disse que sentia muito, não podia ir, pois aquela terra lhe dava  ansiedade, tinha medo de que depois de todos esses anos, seus pesadelos voltassem.  Acabaram indo os quatro, ao maior tudo lhe fez muita impressão, mas no pequeno era como uma viagem de turismo, não se lembrava realmente de nada.

A miséria continuava do lado oposto, enquanto o lado de Israel, tinha abundância, isso o revoltou.   Ele conjugava com o Paul a respeito.   

Dois anos depois os dois já estava na universidade, quando Paul ficou seriamente doente tinha um câncer ósseo justamente a partir da amputação.   Já não havia mais cura.  François fechou seu escritório para cuidar dele.

Os meninos como os continuou chamando, vinham todos os dias passar horas com ele, na sua casinha.  Se negava ir para a outra, tinha vivido ali os melhores anos de sua vida.   Se negou a ir para um hospital, qualquer tratamento, pois sabia que não tinha cura.  Mas se preparou a consciência, os deixando como herdeiros de tudo o que tinha, o apartamento de Paris, dinheiro que tinha no banco,  um dia a sós com o mais velho, conversou tudo o que pensava, tu tens o direito de tomar o rumo que quiser na tua vida, só te peço que não entre em jogos de vingança nunca, não leva a nada, veja passei a maior parte de minha vida, sem pernas por causa disso.  Me perguntei desde o primeiro momento se tinha valido a pena, sou honesto de te dizer que não.  Mas lembre-se a decisão é sua.

Queria ser cremado, que suas cinzas fossem espalhadas pelas suas flores, como adubo, nada de cerimonias, de religião nenhuma.   Eu nunca pude acreditar num deus que deixar seus filhos se matarem entre si.

Os garotos entenderam sua mensagem,  um se tornou médico, outro professor, anos mais tardes emigraram para Cisjordânia para trabalharem lá, atendendo a quem necessitava.

François foi com eles, morreu lá, mas pediu que suas cinzas ficassem juntas no jardim com o Paul. 

Diziam sempre os dois bendita a hora que resolvemos ir a Córsega de ferry.

Os meninos eram super respeitado por suas convicções de paz.

SOLO

                                                            

SOLO, aqui não se refere a solidão, mas sim fazer tudo sozinho, ir a batalha pela vida.

Sua mãe, era uma jovem bonita, de boa família, que ficou gravida com 17 anos, uma garota super protegida, que ao comunicar ao rapaz que a tinha deixado gravida, este desapareceu, sua família era extremamente estrita, os pais a colocaram na rua em seguida, tinha uma irmã um ano menor que ela, mas não a deixaram ajudar sua irmã.

Vivendo na rua, sem preparo nenhum, sem ter vivido além do conforto de sua casa, se tornou logo uma viciada.  Ao romper águas, se dirigiu ao hospital mais próximo, mas nem chegou a entrar,  caiu no jardim em frente a ele, com convulsões, ninguém sabe, como, mas quando chegaram os de urgência, a criança já tinha nascido, estava aos berros, ela morta.

Na sua mochila, encontraram o endereço da família, que se recusou a comparecer.

Estive vivendo um bom tempo numa incubadora, os médicos, enfermeiras, me adotaram em seguida.  Como eu tinha saído sozinho, debatiam mil possibilidades.   Uma delas uma enfermeira de pediatria muito engraçada, dizia que eu saí porque era apressado, quando vi a situação ficar negra cai fora.

Essa mesma mulher sabendo aonde ficava a casa da família, se plantou ali, para tentar falar com a mãe da garota, mas só conseguiu falar com sua irmã que já estava na universidade.   Minha tia então passou a ir todos os dias no berçário, ficar comigo em seus braços, enquanto tentava encontrar uma solução.   Acabou me levando para um lugar, na rua Paissandu, ali no Flamengo, aonde ia me visitar todos os dias, escapando da universidade, que era relativamente perto, eu não estava em adoção.  Guardava todo o dinheiro que conseguia, para me levar a um pediatra para saber se eu tinha problemas derivados das drogas.   Nada, mas tinha que estar sempre em observação.  Ela gastava, quase toda sua mesada comigo.

Ao mesmo tempo, tinham mais seis garotos da mesma idade, todos de mães com problemas de drogas, jovens demais para enfrentar a vida.

Fomos crescendo juntos,  o último a chegar foi o Pivete, como o chamávamos, porque ele mesmo não sabia seu nome, o tinha dado em adoção, mas abusaram dele, voltou, a partir disso ninguém queria mais adota-lo.  Os outros porque em sua ficha constava que eram filhos de gente que andava nas drogas.  Fomos ficando, o Pivete quando tinha temporais, uma coisa normal no Rio de Janeiro, corria para minha cama, ficava abraçado comigo, talvez porque eu fosse o maior, mais alto, forte, lhe dava segurança.   Descobrimos todos a punheta ao mesmo tempo, os outros queriam lhe penetrar, mas nunca deixei, por isso estava sempre do meu lado.

Quando os outros começavam a fazer gozação porque ele não crescia, bastava um olhar meu para se calarem.  Um deles o mais atrevido, sempre estava dizendo que eu abusava dele, mas não era verdade.  O queria muito, não sei devido a que problema, ele era o mais frágil em todos os sentidos.  Quando fiz 16 anos, um dia minha tia, veio, me disse, arrume suas coisas, vamos para casa.  Fiquei assustado, lhe perguntei se não podia levar também o Pivete, pois ficaria desprotegido sem mim.  Pediu desculpa, mas sabia que não iam autorizar, era uma mulher solteira, apesar de ser funcionária pública, tinha tido dificuldades para conseguir minha guarda.

Tinha feito uma coisa, com a qual se debateria a vida inteira, ao ver que seus pais jamais me iriam aceitar, chegou um momento que teve que escolher.  Como estavam velhos, conseguiu o direito de gerir os bens da família, a primeira coisa que fez, foi coloca-los numa residência de pessoas de idade, o pai começava a ter Alzheimer, a mãe era frágil, com a desculpa que tinha que trabalhar foi a solução.   Mandou reformar o apartamento inteiro, colocando todas as paredes, brancas, jogou fora todos os moveis horríveis da casa.  Quando cheguei, tudo era claro, bonito. 

Ela já tinha feito uma coisa por mim.  Um dia a professora que nos ensinava, lhe disse que eu era o mais adiantado da turma, que se pudesse me colocasse numa escola melhor.  Ela não teve dúvida, se sacrificava, era uma escola particular, o colégio Bennet ali mesmo no Flamengo, eu sempre fui o primeiro aluno da classe, depois ensinava aos meus amigos, o que eles não entendiam.

Meu problema era que parecia como filho de mãe solteira. Isso não ajudava, os garotos maiores queriam sempre me meter a mão, o jeito foi treinar a lutar com meus amigos.   Pivete o mais frágil era o mais perigoso, pois sempre conseguia uma navalha, um canivete, alguma coisa para se defender.

Quando fui viver em Copacabana com ela, como a escola era perto, segui indo ver meus amigos todos os dias.  As que cuidavam dali, não entendiam, porque quando alguém ia embora nunca mais voltava, a não ser que devolvessem.

Minha preocupação era, como eles iam fazer depois que saíssem dali, mais um ano, os colocaria na rua, pedi tanto que minha tia deixou o Pivete ficar em casa.  Compartíamos o mesmo quarto, com uma daquelas camas duplas, a de baixo de noite se puxava, essa era sua cama.

Ela conseguiu matricular os dois numa escola em Copacabana, o que ele não entendia eu o ensinava, me esforçava ao máximo, mas Matemática para ele era um bicho de sete cabeças.  Um dia conhecemos na praia um sujeito que ficava sempre sozinho, me dava pena, era um sujeito triste.  Quando descobrimos que era professor de matemática, lhe perguntei qual era a melhor maneira de ensinar uma pessoa que tinha dificuldade de entender.  Me deu várias opções, mas acabamos indo mesmo a sua casa para aprender.   Era uma quitinete, no corredor estreito, tinha livros amontoados até o teto.  Ele conseguiu que o Pivete aprendesse.  Quando Pivete fez 18 anos, minha tia, usando seus conhecidos de onde trabalhava, conseguiu dar um nome a ele,  lhe perguntamos que nome queria, rimos muito porque queria o mesmo que eu tinha.  Meu nome é Humberto Arcoverde,  então depois de muito teimar, ele que gostava da bíblia, escolheu Moises.    Mas claro todos continuaram a lhe chamar de Pivete, quando lhe perguntava como se chamava, soltava logo Pivete Arcoverde.

Eu fui o filho de minha tia desde pequeno, mas seu filho mesmo foi ele.  Ela fez tudo é muito mais por ele.  Nos obrigava ir ao médico, fazer revisões, estava sempre falando, nada de drogas, nem de bebidas, isso será a perdição de vocês.

Eu entrei com a melhor nota do Vestibular, para Economia, além de Matemática,  tinha aprendido tanto com o professor que era bom nisso, teria que coordenar o meu tempo para fazer as duas.  Ele escolheu fazer Belas Artes, seu sonho era ser pintor, a casa estava sempre cheia de desenhos, feitos por ele.

Ficou mais difícil vigia-lo, pois claro o tipo de pessoas com que passou a conviver eram diferentes.   Eu todo os dias lhe dizia que não podíamos  errar, que tínhamos que ser fortes, um dia subiu para minha cama, disse que queria fazer sexo comigo, que me amava.

Na hora fiquei confuso.   Lhe tentei explicar, que ele era como meu irmão, que não queria fazer sexo com ele.

Essa reação caiu mal, eu nem tinha tempo para pensar em fazer sexo.  Vivia preocupado com meus amigos, dois viviam nas ruas, os outros tinham conseguido empregos.  Tentava ajudar de todas as maneiras os que estavam nas ruas, mas claro logo caíram aonde não deviam vender, consumir drogas.  Eu me desesperava com isso.

Um dia um conhecido da rua me avisou que tinha visto Pivete, com esses dois, que estava fumando um baseado.  Fiquei furioso com ele, me abriu a navalha, me soltou, eu pensava que me querias, mas me negas o que mais quero de ti.   Mais uma vez tentei explicar, mas não funcionou.   Um dia cheguei em casa, não havia mais nada dele ali.  Ficamos desesperados, minha tia por um lado, pois o queria muito.  Acabei tendo que contar a ela, o porquê,  não foi fácil, mas chorei muito contei.  Ficamos procurando pelos três, falamos com a polícia, nada um dia encontrei um dos dois que vendiam drogas, me soltou que tinha encontrado seu homem, que agora era amante do chefe do tráfico de drogas da favela aonde viviam.

Desmoronei, pensei em desistir de tudo, ir atrás dele.   Fui falar com a única pessoa que podia me abrir.  O professor Décio.   Me escutou com a calma que parecia sempre estar com ele.

Me respondeu, se foi assim desde criança, apesar de estares certo, ele sempre te viu como seu protetor, seu homem.   Me lembro eu aqui ensinando, ele te olhava embelezado, como se fosses um deus para ele.   Um dia me perguntou se eu era gay?   Lhe disse que sim, mas por azar, não era bonito, ninguém queria minha inteligência, nem fuder comigo.  Eu tampouco sei lidar muito com as pessoas.

Me contou que não podia mais se aguentar, que queria fazer sexo contigo, mas que não entendias as indiretas dele, só pensavas numa coisa, chegar ao fim da universidade, para ajudar aos outros, mas ele não vê que já e tarde, que dois já estão nas drogas, os outros dois continuaram como pobres, pois tampouco tem a inteligência dele.

Antes de sair de casa veio aqui em busca de consolo, eu lhe disse que não fosse embora, que inclusive podia ficar aqui comigo uns tempos.  Ele pensou que eu queria fazer sexo com ele.

Fiquei bravo, estou te oferecendo ajuda, menino pare de só pensar nisso.  Ficou furioso, entendi que não lidava bem com a rejeição.   Nunca mais o vi.

O que eu faço professor, estou perdido, tenho os exames finais, não consigo me concentrar.  Voltei a estudar com ele, nossa amizade ficou mais forte, vivia me dizendo que as pessoas têm direito a escolher seu rumo.

Um dia o beijei, fizemos sexo, ele era muito mais velho, gostei de estar com ele, era diferente, não era bonito, mas tinha uma barba imensa, era muito peludo, mas forte.  Dormir com ele me deixou tranquilo.  Ele ao contrário ficou com medo.   Fui aprovado com louvor, ele e minha tia foram a minha graduação.

Fiz um concurso, consegui a vaga do professor da Universidade, que se aposentava.  Era o aluno mais brilhante, em seguida orientado pelo Décio, comecei a fazer uma pós graduação, estava sempre metido nos livros,  estar com ele, me equilibrava. 

Ele vivia reclamando, que eu devia viver a vida como meus outros companheiros, sair, tomar uma cerveja, eu nunca me atrevi, ir as discotecas, tentar ter um romance com um rapaz da minha idade.

Eu lhe perguntava se não me queria?

Claro é o melhor que passou na minha vida, mas veja, eu sou muito mais velho que você, não gosto da noite.   Eu não me incomodava, gostava de ficar com ele, os dois sentados no sofá, lendo juntos, comentando alguma coisa, ou ir a um cinema, discutir um filme.

Não me esqueci em momento algum do Pivete, vivia perguntando por ele, sabia que continuava com o tal chefe do tráfico de drogas.

 Os anos passaram, 6 anos pelo menos, um dia o Décio, me fez sentar tinha uma cara séria, me disse que tínhamos que falar de algo muito desagradável.   Ele a meses vinha reclamando de dores de cabeça, eu lhe dizia que tinha que ir ao médico.  Me soltou de cara, estou com câncer na cabeça, não há cura nenhuma, nem operação.   Acho que chegou a hora de ires viver tua vida.

Fiquei olhando sério para ele, soltei nem pensar, vou cuidar de ti. 

Ele não queria de jeito nenhum, eu tomei uma serie de decisões, fui falar com minha tia, que já desconfiava, ela agora depois de tantos anos, tinha um namorado, um sujeito que não me caia muito bem, mas ela gostava dele, um dos motivos que usava para ficar na casa do Décio.

Vou viver lá com ele, vou cuidar dele, como ele cuidou de mim, me ensinou muitas coisas.

Nos sentamos conversando sobre isso.  Ela muito séria, disse que tinha chegado a hora de que eu pudesse, receber minha parte na herança dos meus avôs.   Depois que ela os colocou na residência, ia uma vez por ano, nada mais.  Dizia que não os suportavam, que seguiam iguais como sempre, egoístas.   Me contou que sua mãe, lhe dizia na cara que a tinha tido, para isso cuidar deles quando fossem velhos,  que ela era uma má filha.

Lhe disse que ao contrário que ela era uma mulher maravilhosa, olha o que fizeste comigo, me deste tudo.

Bom até agora eu só podia administrar os bens deles, agora que já morreram eu sou a herdeira de tudo, não deixaram nada para tua mãe, mas resolvi que tens direito ao mesmo que eu.

Já falei com o advogado, mandei verificar todos os valores, portanto, a ti te toca um apartamento no Leme,  é grande sempre esteve alugado, mas o inquilino morreu justo quando mandei fazer esse inventário, duas lojas no Saara, uma inclusive com o prédio inteiro,  além de vários locais aqui em Copacabana, eu fico com esse apartamento, mais outros dois alugados.

Acho que é o correto, tua mãe era minha irmã mais velha. Portanto tinha mais direito do que eu, isso me basta.

Mandei arrumar o apartamento, ficava no final do Leme, era um térreo, levei o Décio para lá bem como todos seus livros, tinha uma sala na frente mandei colocar uma poltrona para ele, passava o dia lendo, tinha uma senhora que ficava com ele, enquanto eu estava na universidade. Quando piorou contratei um enfermeiro.  Quanto aos bens, resolvi fazer o seguinte, o que era só a loja, vendi por um preço bom, o outro como estava no meio de dois edifícios já sem características nenhuma, quase no Campo de Santana, resolvi demolir, reconstruir de novo.

Convenci o que usava a loja, bem como o do andar de cima, que alugassem outro lugar, se quisessem voltar, eu cederia o local outra vez por um bom preço.  Havia inclusive uma parte traseira sem usar.   O Arquiteto fez um bom projeto, simples, mas funcional, poderia ter 4 andares como os do lado.  Concordei em alugar a loja para o anterior inquilino por um bom preço,  O andar de cima ficou para uma confecção, que justo próximo ao carnaval trabalhava para fantasia de destaques, os dois últimos, foram para várias coisas.  Inclusive agora tinha elevador.   Um dos amigos cuidava agora de construções, consegui que o engenheiro o contratasse.  Gostou tanto dele que ficou fixo na empresa, me agradeceu muito.  O outro trabalhava numa lojinha de sucos, sanduiches numa esquina no Flamengo, o dono ia se aposentar, transpassava, o consegui para ele tocar o barco em frente.

Aprendi a usar o dinheiro que ganhava com tudo isso, além da lojas de Copacabana que vendi todas, aplicava o dinheiro base, quando dobrava o valor, retirava o dinheiro invertido, colocava de novo no banco.  O que ganhava, invertia novamente, assim teria sempre uma coisa segura, comecei a fazer para minha tia também, logo tinha uma carteira de clientes boa, podia trabalhar de manhã, passava o resto do dia em casa, fazendo isso.   Uma das moradoras do prédio me descobriu, pediu que lhe fizesse o mesmo.  Quando dobrei, queria investir tudo de novo, foi difícil fazer entender, que sendo num pais como o nosso, sempre era importante, ter um dinheiro para investir, outro para guardar por segurança.

Assim pude tomar conta do Décio com tranquilidade, morreu comigo lhe segurando a mão. Eu nunca tinha me preparado para isso, já era difícil ver aquela pessoa inteligente que conhecia, ir se apagando aos poucos.   Antes de perder o raciocínio, me contou de sua família.  Tinha mais um irmão.  Os pais não queriam saber dele.   Avisei o irmão que estava mal, nunca apareceram para visitar.  Quando morreu, eu avisei, das vontades dele, seria cremado, sua cinzas jogadas ali no Caminho dos Pescadores, que contornava a Pedra ao final do Leme.  Tampouco apareceu ninguém.   Avisei sua morte  ao colégio que trabalhava.    Meses depois apareceu o irmão perguntando se não tinha deixado nada para a família.   Lhe perguntei o que?

Dinheiro me respondeu.   Mostrei a quantidade de livros que tinha, lhe disse que ele investia nisso, se queria algum.  Levantou os ombros foi embora.  Pensei, a família, difícil de entender.

Reformei a parte da frente do apartamento, ali era meu escritório na parte da tarde.

Aproveitei para fazer minha primeira viagem,  era época de natal, ano novo, peguei um voo para Paris, fiquei o tempo necessário para me apaixonar pela cidade.  Tive um encontro fortuito com um alemão, ri muito, meu francês era uma merda, o dele pior. O jeito foi usar o inglês.

Voltei mais relaxado, fui ver os amigos que podia, para saber como andavam.  Falei dos dois o que fazia, com  as aplicações.  Se eles quisessem eu os ajudaria.  Era pouco dinheiro ao começo, mas em breve estavam tranquilos com o dinheiro ganho.

Um dia me falaram que estavam almoçando, tinha visto o Pivete, que demoraram para o reconhecer.  Estava muito diferente.

Diferente como?

Bom, primeiro tem tetas, silicone na bunda, parece uma mulher.  Ficamos pasmos, alias foi ele que nos reconheceu.

Eu não entendia nada.   Dias depois andando no calçadão, para fazer exercício, pois ficava muito tempo sentado, escutei alguém me chamar Humberto Arcoverde, virei para trás ali estava ele, até que de mulher ficava bonito.   Nos sentamos num bar, ele pediu uma cerveja, eu um refrigerante.

Vejo que continuas o mesmo, nada de bebida, nada de sexo, nada de nada, disse me provocando.

Te enganas, estive vivendo com o Décio, todos esses anos, cuidei dele até ele morrer, agora estou sozinho.

Os meninos me contaram que você os ajudou a se levantarem. 

Sim, pena que não pude fazer isso contigo, não aceitaste minha ajuda.

O que eu queria de ti, hoje acho que seria impossível, demorei para entender que me querias como um irmão pequeno.

Agora uma irmã pelo visto.  Porque fizeste tudo isso.

Para agradar ao homem com quem vivo.  Me trata bem, me dá tudo que pode.

Mas se amanhã acontece alguma coisa, como vais fazer?

Bom tenho um dinheiro guardado, para emergência. 

Lhe disse o que tinha feito com os outros dois, se queres posso fazer para ti.  Tens conta num banco?

Não tudo escondido.

Então faça o seguinte, abra uma conta num banco, me dê uma parte desse dinheiro, eu invisto para ti, vou depositando sempre o valor que me des para aplicação, quando o dobre, deposito de volta nessa conta, assim cada vez terás mais dinheiro seguro. O que achas.

Poderias fazer isso para o meu homem?

Não, isso seria lavagem de dinheiro, sinto muito, estou fora disso.

Ele ficou insistindo, lhe disse, vejo que não tens jeito, acho melhor cuidares da tua vida, eu da minha, vou ser honesto, não gosto de te ver assim, indefinido, nem homem nem mulher, ele estava de manga larga, agarrei sua mão levantei a manga. Estava cheia de picadas de agulha. Pior com tudo isso, melhor não nos vermos mais, guarde esse dinheiro ou para o teu enterro, ou para uma clínica.   O que eu sempre temi, está acontecendo, comecei a chorar ali mesmo, não podia parar, não tinha podido protege-lo, paguei a conta, segui andando, meio que arrastando os pés, até que cai sentado num banco.

Um policial, veio me perguntar se estava me sentindo mal?

Estou me sentindo como um fracassado.   Sem saber bem por que contei tudo a ele.

Ficou me olhando sério, é difícil eu sei, venho do mesmo que tu, sou comandante do destacamento daqui de Copacabana,  passei isso com meu irmão, fiz tudo por ele, tentei ajuda-lo de todas as maneiras, mas não houve jeito, achava porque eu era polícia tinha costas largas.

Se deu mal, acabou sendo encontrado numa sarjeta lá pros lado da central do Brasil.

Assim fizemos amizade, me disse para esperar, que ia trocar de roupa, tinha acabado o horário de serviço.  Voltou de bermudas, tênis camiseta, tinha um puto corpo, voltamos caminhando até o Leme, lhe contei o que fazia, ele se interessou.

Comecei a aplicar seu dinheiro, um dia me disse, a próxima vez que fores viajar, quero ir contigo.  Vou guardar dinheiro para isso.

Fui claro com ele, sou gay, não sei se isso vai te incomodar.  Estávamos sentados no sofá da minha casa.   Se inclinou, me beijando na boca.

Eu tinha dúvidas, mas tinha medo de avançar.  Fui casado, mas não deu certo.  Ele era uns dez anos mais velho do que eu.

Fiquei rindo, eu aqui louco para te beijar, mas claro um comandante de polícia, não podia me atrever.

Pois é as poucas aventuras que tenho, são sempre escondidas.

Nosso relacionamento já dura 10 anos, foi me trazendo mais clientes, lhe ensinei como trabalhar, para ele ir ganhando dinheiro também.   Resolvemos que devíamos ter um lugar para isso.  Resolvi usar o último andar do prédio do Saara, estava vazio, montei o negócio lá, assim arrumei clientes por lá, foi tudo propaganda boca a boca.   O Leme virou a nossa casa.

Minha tia quando o conheceu, gostou dele, estava agora casada, mas as coisas não iam bem, a ajudamos a se divorciar.    Um dia me chamou assustada, fui até lá para saber o que passava.

Não vais acreditar, estava no banco, escutei uma voz atrás de mim.  Não me era desconhecida, quando me virei, lá estava o namorado da minha irmã, claro mais velho, mas a voz era a mesma.

Perguntei, se não era ele.   Sim, claro me ligo logo com tua mãe, perguntou por ela?   Lhe contei toda a história tomando café.    Ele é casado, tem duas filhas mais jovens que tu.  Quando falei de ti, me disse que tua mãe ia abortar, por isso ficou tranquilo.  Ela o tinha enganado com a idade. Me perseguiu até que fizemos sexo, quando me disse sua idade, a chamei de louca.  Ele quer te conhecer?

Vou pensar, não sei se estou preparado para isso.

Foi um encontro brutal, esperava uma pessoa cordial, já que queria me conhecer, quando me viu com o Heraldo, lhe apresentei como meu companheiro. 

Me perguntou o que queres dizer com companheiro?

Oras vivo com ele, somos um casal gay.

Se levantou, tantos anos esperando um filho, tenho já duas mulheres em casa, não quero mais uma, não me procures seu safado, filho da puta, ainda por cima gay.

Heraldo quis lhe dar um murro, mas lhe disse, vais sujar tua mão.

Contei tudo para minha tia, foi o que eu pensei que ia acontecer, mas nunca fez falta essa é a verdade.

Não senhora, sempre a tive ao meu lado para me proteger.

A vida seguiu, um dia um dos meninos me telefonou, perguntou se eu estava no escritório, posso ir até aí, mas apareceram os dois.  Fiquei assustado.

Estavam com um jornal desses que contam os crimes, se torce os mesmo sai sangue.  Na primeira página, saia uma foto do Moises, assassinado pelo homem com quem vivia, se apaixonou por outro, o outro, lhe arrancou as próteses de silicone que tinha, o deixou morrer  dessangrando, ali aos seus pés.

Chorei tanto, mas tanto, me sentia impotente com tudo isso, menos mal que Heraldo estava ali, me consolou, contei para minha tia que chorou muito também, que lastima.

Nesse natal, fizemos uma viagem os três, fomos a Itália, passeamos, na Basílica de São Pedro, rezei por ele.  No Brasil, sem saber nunca qual era a religião dele, tinha mandado rezar missas por ele.

Quando voltamos, um dia apareceu um advogado desses de ter mais cara de bandido, que os próprios bandidos, perguntou se podia falar comigo.  Chamei o Heraldo, para ficar junto, não gostava do sujeito.

Me disse a que vinha, a pedido do traficante que queria conversar comigo, pedir perdão, mas quer muito falar consigo.

Sobre o que?  Não tenho nada para falar com ele, depois que matou um amigo que era um irmão para mim.

Sobre ele mesmo, mandou esta carta para o senhor.   Li a carta passei para o Heraldo, me olhou sério, vamos ver o que ele quer.

Fomos os dois ao presidio.

Ele quando viu o Heraldo, ficou sem graça.  Disse que não queria falar na frente dele.

Foi direto ao assunto, eu quando conheci o Moises, me apaixonei, tive que brigar com todos, porque não podia viver sem ele.  Mas claro sendo chefe do Tráfico, o tentei manter o mais longe possível de tudo isso, montei uma casa para ele.    Me falava sempre no senhor, a princípio lambia suas feridas, pois dizia que o tinha amado, mas que nunca tinha sido correspondido.

Dizia que ele tinha cuspido no prato que tinha comido, pois até um nome te deram, ele levou tempo para entender, se sentia sempre rejeitado.  Disse que os outros o tinha aceitado, porque tu o aceitaste.  Um dia descobrir, que estava se drogando, lhe dei uma surra o internei, voltou bem,  mas assim foi ano atrás ano, se injetava nos dedos do pé para que eu não prestasse atenção,  começou a loucura de querer ser mulher.  Eu lhe perguntava por que, se o amava como era.   Me roubou dinheiro para colocar silicone no peito, depois queria ter bunda, porque era muito magro.    Eu já não sabia o que fazer.  Mas o amava cegamente, um dia cheguei em casa, estava com um negro imenso na cama,  riu da minha cara, dizendo que ele o satisfazia, que tinha um tão grande como o do Humberto, inclusive o mesmo nome.  O cara quando me viu se mijou todo.  Disse que nunca tinha me amado, que não suportava mais meu contato, que ele queria o Humberto, não parava de falar o nome, chegou um momento, que eu já não entendia se era o senhor ou o negro.                   Começou a me agredir, mostrou uma serie de cicatrizes, me apunhalou em vários lugares, só depois foi que eu entendi que estava até a alma de cocaína. Chegou um momento que eu estava cego, chorava, digo isso sem vergonha nenhuma, me senti enganado por todos esses anos.   Quando me cuspiu na cara, perdi a cabeça, lhe matei, eu sei que errei, quando vi, já estava feito, lhe tirei o silicones aplicados, porque queria ficar ali abraçado ao homem que amava.      Nem pensei, a polícia vai chegar, tenho que fugir, mas para onde, se eu estava preso a ele todos esses anos.        Depois uma travesti amiga dele, me contou que não suportava estar ficando velho, que há meses se encontrava com esse negro, o Humberto.

Chorava muito, tentei lhe consolar.  Me lembrei de uma coisa de criança, talvez por isso nunca fiz sexo com ele,   Estávamos todos nos masturbando, ele quis se sentar em cima do meu, os outros riram, eu lhe disse que se comportasse pois éramos amigos.              Que aquilo era uma brincadeira entre nós.      Me disse, olhando na cara, se eu o penetrasse, depois deixava os outros fazerem o mesmo, quase o peguei, mandei ter vergonha na cara. Proibi os outros de encostarem o dedo nele.   Dias depois entendi, por quê?   Tinha descoberto que sua mãe era uma puta, não tinha ideia nem de quem ele era filho.  Foi visita-lo aonde vivíamos, era uma figura ridícula.   Vivia nas drogas, se prostituia para comprar drogas.   Nessa noite se deitou como sempre fazia ao meu lado, chovia muito, ficou ali chorando baixinho.  Foi quando me disse eu sou uma merda, nunca poderei encontra meu pai, pois sou filho de uma puta.

Depois virou minha sombra, quando eu ia a escola fora, quando chegava estava no portão me esperando, todo mundo o gozava por isso.  Quando fui embora, mas ia lá todos os dias, lá estava ele me esperando.   Mas eu não podia alimentar nada com ele, era como meu irmão.

Consegui que viesse morar conosco, minha tia lhe conseguiu dar nosso nome, durante um tempo ficou contente.        Imagino o difícil que devia ser para ele, dormir na cama ao lado da minha, sem poder me tocar.   Quando me pediu pelo amor de deus que eu o penetrasse, lhe disse que era impossível.  Primeiro porque era meu irmão, depois eu o queria como amigo, da noite para o dia desapareceu.

Quando o reencontrei, descobri depois que estava se prostituido a troco de dinheiro, eu não conseguia entender.  O Décio que tinha sido nosso professor me ajudou a me levantar, eu o amei com toda minha alma.  Me consolava dizendo que cada um tem direito a escolher seu caminho.   Acho que meu amigo tinha feridas que eu não pude ver, nem sequer curar.  Quando o vi, meio mulher, meio homem, uma caricatura de si mesmo, com o braço cheio de picadas, enlouqueci.   Estava justo tentando mais uma vez, ajuda-lo.

Mas foi graças a isso que conheci o Heraldo, mais uma vez um homem forte me ajudou, estamos juntos até hoje.

Quem tem que pedir perdão sou eu, não sabia que tentavas protege-lo, creio que ele não gostava disso, ser protegido, quando na verdade, sequer assimilava o que queria ser. Cuidaste dele muitos anos.  Obrigado.

Queria seu perdão?

Não tenho nada a perdoar, você é que tem que se perdoar, vejo que sofreste muito.

Agora uma vez por mês ia ao presidio para visita-lo.   Um dia brincou, acho que Moises tinha razão é fácil a gente se apaixonar por ti.                        Não venha mais por favor, fico esperando desesperadamente o dia que venhas, atendi seu pedido, pois o Heraldo me convenceu a fazê-lo,    Tempos depois soube que tinha sido assassinado.

Honestamente senti pena, comecei a ir a um psicólogo, para poder entender tudo isso, o Heraldo me dizia que tivesse calma.  

Fui até a um pai de santo, que me disse que ele agora estava bem, que eu segui-se com minha vida.

Fui tentando, mas claro quando se tem uma pessoa ao teu lado que te ama, fica mais fácil, o Heraldo não me deixava cair.     Por isso seguimos em frente, agora temos um casal como filhos, conseguimos adotar  duas crianças, gêmeas que queriam separar.                     Minha tia, diz que finalmente é avó.   Heraldo os coloca na linha, ela os tira da linha, fazendo todas as vontades, diz que avó é para isso, mal criar.   Como diz o Heraldo, finalmente temos uma família completa.

ROY

                                                       

Tinha graça, tinha saído a dois dias de reabilitação, lhe ofereciam uma taça de champagne, riu agradeceu, levantou a taça para um brinde, fez que bebia, colocou a mesma sobre a mesa, começou seu discurso, agradecendo a associação de atores de Hollywood, pelo prêmio de uma carreira.  Falou dos colegas que já tinham partido, com quem tinha feito amizade nos cenários, dos diretores, a maioria estava morta.  Ou de sobre dose, câncer, álcool, outras merdas, mas ele seguia ali.    Daqui uma semana faço 60 anos, tomei uma resolução na minha última reabilitação.

Fez uma pausa, sabia que estava sendo retransmitindo em cadeia nacional, o da reabilitação já tinha sido forte, mas agora vinha o golpe de graça para ele mesmo.  Depois de muito pensar, deixo a carreira, já ganhei o suficiente, bem como me droguei, bebi demasiado, fumei todas as ervas do mundo para me esconder.  Sou gay, depois de anos de especulação, finalmente posso admitir perante todos, bem como a mim mesmo sou um senhor homossexual desde que nasci.

Entrar, se manter nessa indústria não é fácil, vi muita gente se casar, ter filhos, divorciar, tudo para esconder quem é.   Nunca paguei esse preço, nunca me casei, tive filhos nada disso, as mulheres que me acompanhavam nas estreias era contratadas para isso.   Portanto receberam dinheiro, não lhes devo nada.   Tampouco nos dias atuais que todos abrem a porta de seus armários escuros, posso ficar fechado, sou quase um decano na artes cinematográficas, a maioria dos meus colegas já morreram.   Não penso tampouco escrever uma autobiografia falando com quem fui para a cama, porque é uma coisa que só interessa a mim mesmo.

Agradeço o prêmio,  apesar dos Oscar todos que ganhei, que uso para segurar as portas da minha casa, riu, muitas vezes os considerei injusto, pois meus colegas mereciam mais do que eu mesmo.  Não importa, não tem volta atrás.                      Acredito que depois de falar hoje, não me concedam um mais para finalizar minha carreira.   Teria que ser um maior, para segurar a porta do meu estabulo.   Boa noite, se divirtam, por favor, não me ofereçam mais nenhuma bebida pois terei que pagar a última reabilitação, não quero voltar atrás.

Poucas pessoas vieram falar com ele, algumas falsamente, apertaram sua mão, outras sorriram, como dizendo eu sabia, mas seu agente se aproximou, lhe abraçou, lhe disse ao ouvido, estas fudido meu amigo, estas fudido.

Segurou com as duas mãos, seus ombros, disse, nosso contrato terminou a dois dias, não lhe devo nada, ganhaste dinheiro comigo, foda-se.

Fez um sinal para a porta, ali estava seu fiel valete, o único amigo que tinha, era para que buscasse o carro para o levar para casa.

Desta vez se sentou no volante, posso dirigir, pois não bebi nada somente a água que estava na minha frente.

Foi tranquilamente para casa, respirou fundo algumas vezes, se as pessoas soubessem o seu dia anterior iriam rir.

Tinha se preparado a consciência para isso, não para a cerimonia em si, mas para o discurso que faria, não ensaiou, escreveu nada disso.

Passou o dia indo de banco em banco, aonde tinha suas contas espalhadas com seu verdadeiro nome Aaron Ishah, era filho de Drusos, vindos da Síria, seus avôs chegaram primeiro, depois vieram seus pais.  Mudaram seu nome quando fez o primeiro teste de câmera, para fazer um filme.

Pelo mesmo motivo a família o excomungou, nunca mais teve contato com nenhum deles, tampouco com a sua fé.   A pouco tempo voltou a rezar em sua língua original, algumas palavras tinha se esquecido.

Ninguém sabia, que ele, fazia uma coisa, recebia o dinheiro de algum contrato com o nome de Roy, em seguida depositava no banco em nome de Aaron.   Reuniu tudo num banco só, que tinha agência perto de sua casa, iria viver finalmente quem ele era.

Tinha tido uma juventude traumática, por serem uma comunidade extremamente cerrada, não lhe estava permitido conviver com os amigos da escola, era bom estudante, bem como um excelente esportista.   Mas foi no teatro da escola que se encontro, fazendo outros personagens, descobriu que se liberava.   Saia da escola, trabalhava numa confeitaria, ali aprendeu a fazer coisas.  Nos finais de semana, se levantava as 4 da manhã, para ir ajudar o proprietário a preparar pães.  Podia trabalhar horas, sem dizer nenhuma palavra.              Quando começou a primeira coisa que pediu, foi que seu pagamento fosse direto a ele, nada de entregar aos seus pais, queria ir a universidade, eles eram contra, queriam que exercesse o trabalho que todos faziam, eram alfaiates.  

Nunca tinha entendido, como podia ser diferente deles, a maioria era extremamente morena, com nariz que delatava sua origem étnica, ele ao contrário tinha nascido loiro, olhos negros, grande demais para sua mãe tão pequena.    Não podiam pensar que tinha sido trocado, porque tinha nascido em casa.  Tampouco era o filho mais velho, sua mãe tampouco saia de casa, até que sua avô se lembrou que duas gerações atrás havia loiros.

Mesmo assim foi desde criança, diferente, gostava de esportes, era mais alto que os outros irmãos, o mais bonito de todos dizia sua pequena mãe.

Seu pai, era interessante, mesmo com todas explicações, não se aproximava muito dele, fazia carinho nos outros, mas nele nunca.

Quando acabou a secundária,  ele já tinha conseguido uma bolsa de estudos, pelo esporte para a universidade de NYC,  tudo isso em segredo.  Recebeu seu último salário, juntou com o que tinha escondido.  Quando seu pai lhe disse que tinha que começar a trabalhar na alfaiataria  na semana seguinte, não disse uma palavra.  No domingo quando todos foram rezar, arrumou uma desculpa que tinha dor de barriga, arrumou a pouca roupa que tinha, tudo numa bolsa de pano, foi em rumo à estação de Trem de Búfalo, de lá tomou um trem a NYC.

Não se despediu de ninguém.  Ia estudar línguas, em que se daria sempre bem, acreditava que tendo falado inglês a vida inteira, Druso, uma língua complicada, podia falar qualquer outra.  Se dava bem no curso, mas se interessou pelo grupo de teatro.         Daí foi um pulo para conseguir fazer casting na Broadway.   Era um tipo interessante, pois sendo loiro, com aqueles olhos grandes negros, uma cara talhada a faca, um nariz reto.  Era um tipo diferente.  De uma ponta, na seguinte conseguiu um papel, depois outro, depois o segundo personagem, até chegar o primeiro.

Já tinha até um agente.  Um dia seu pai viu numa folha de jornal que comprava para fazer moldes para economizar, sua fotografia, com o nome embaixo.  Tomou um trem a NYC, foi até o teatro, viu o espetáculo, aonde ele fazia um papel de filho da puta.  Depois foi ao seu camarim, lhe disse na cara que não queria que ele manchasse o nome da família, que desse um jeito de trocar de nome.  Que por favor, nunca aparecesse por Búfalo, se por um acaso fosse não procurasse a família.   Sempre foste um estorvo na família, eu tinha razão, não eras meu filho.

Falou com o agente, esse o ajudou a mudar de nome, mas o fez oficialmente, Roy Park, Roy porque quando era garoto, roubava dinheiro da lata aonde sua mãe escondia moedas, notas pequenas, para ir ao cinema assistir filmes de Roy Rogers, o mochinho dos filmes de cowboy.

Park, porque já viviam em Park Avenue, num apartamento pequeno, mas que não tinha que compartir com ninguém.

Lhe conseguiram um teste logo em seguida para um filme, segundo o câmera, sua cara, comia a tela.  A partir de então se mudou para Hollywood, aonde fez de tudo, filmes de cowboys, detetives, dramas, guerras, romances, tudo ele saia bem.  Mas desde o primeiro momento zelou por sua vida pessoal.

Para as revistas do coração, vivia numa casa do studio, mas ele tinha aprendido uma coisa, se queria uma vida só sua, teria que se virar, então entrava nessa, casa, saia pelos fundos, tinha sempre um jeep velho ali, no meio do caminho mudava de roupas, das roupas de glamour, usava uma roupa de obreiro, ia para sua casa verdadeira.  Vivia em Venice Beach, em uma das muitas casas dos canais, a mais afastada, ninguém dava muita importância a aquele homem, ia a praia muito cedo, fazia surf de madrugada, nunca era visto com ninguém.  Mas não era verdade, tinha tido sempre amantes, ou outros atores, ou gente que conhecia nos bares a noite, como usava óculos para ler, usava um que disfarçava totalmente sua cara.

Quando perguntavam seu nome dizia Aaron, nada mais.   O problema, era que sempre bebia muito, no total tinha feito pelo menos 8 desintoxicação.   Ninguém sabia claro, os studios faziam tudo que isso ficasse em segredo.

Cada vez que fazia um filme de guerra, roubava um dos carros usados, tampouco trocava as placas, assim nunca pagava impostos.    A uns vinte anos atrás tinha conhecido seu fiel valete, um negro alto que tentava fazer carreira.  Mas nunca passava de extra, um dia o encontrou num bar de Venice.   Ele já estava muito bêbado, o ajudou o levou para casa.  Nunca tiveram nada, afinal Sean, era heterossexual, as mulheres babavam com ele.  Mas sempre lhe foi fiel.       Era quem podia melhor que ninguém contar sua vida.  

Era sua família.  Agora no carro dizia vamos para casa finalmente meu amigo, anos atrás tinham feito uma filmagem em um rancho de criação de cavalos, quando falou com o proprietário que se via que estava velho para levar aquele local. 

Este lhe contou que o alugava, para pagar suas dívidas, mas queria morrer ali, seu único filho tinha morrido na guerra do Vietnam.    Ficaram amigos, lhe propôs uma coisa, lhe comprava o rancho, ele poderia continuar vivendo ali, como sempre, ali seria seu esconderijo.  Usaria uma casa de hospedes que caia aos pedaços.   Sean o ajudaria a levar o rancho.

O rancho passou a pertencer a Aaron Ishah, sem problemas nenhum,  reformou a casa de hospedes,  aonde tinha seus encontros amorosos, o velho descobriu fácil, mas nunca o criticou. Com o tempo, Sean passou a ser um experto em cavalos,  se casou com uma mexicana que levava a cozinha, sempre viviam ali.   Quando o velho morreu, foi enterrado aonde tinha pedido, reformou a casa grande, passando a viver lá.   Era um pouco longe, de Los Angeles, mas se apanhava.

Quando chegaram queria gritar, finalmente sou livre.  Ria muito, tinha um bom humor incrível. No dia seguinte levantou muito cedo, quando viu um cowboy levando cavalos um grupo grande. Perguntou ao Sean, se era algum cowboy novo.   Novo e velho ao mesmo tempo é um cara experimentado, sorriu.   Porque não vais ajuda-lo a levar os cavalos.

Realmente não tenha que fazer, a não ser pensar merdas.  Selou o velho Brow, como chamava seu cavalo, velho companheiro de mil filmagens.

Saiu atrás do cowboy, a trote, até que o alcançou, o homem o olhou devia ter a mesma idade que ele, quando vais aposentar o velho Brow?

O conheces?

Sim, muito, olhe bem a minha cara.

Caramba, fizemos muitas filmagens juntos, as vezes era meu doble, outras fazias figuração, me lembro aquela vez que filmamos uma viagem de vaqueiros com gado, lutamos contra os índios, me lembro que briguei com o diretor para te dar falas, para irmos falando, mas se negou disse que tinhas uma voz horrível, mas eu não achava.

Menos mal, porque sempre fui um canastrão representando.  Riu, agora trabalho aqui, Sean me contratou, porque não tenho idade mais para fazer essas filmagens.  Além de que vinha trabalhando na fazenda ao lado, o filho da puta falou mal de ti, não me contive, lhe dei um murro.

Falou o que de mim?

Que eras um gay de muito cuidado, pois te via entrando na casa de hospede com homens, lhe perguntei e daí?

Lhe respondi que já tinha dormido contigo muitas vezes, me ofendeu, lhe dei um murro.

Mas nunca dormi contigo.

Não, mas quase.    Nesta filmagem que falas, um dia depois de um dia inteiro filmando, me disseste que fosse ao seu trailer, quando cheguei, estavas até os fios de cabelo de cocaína, tinha bebido também, mas escorregaste, bateste a cabeça.  Estava desacordado, chamei o Sean, ele me ajudou, até que veio o médico, fiquei te segurando nos meus braços.

Alguém realmente me segurava, me sentia num porto seguro, segundo o médico, isso me salvou, que eu sorria enquanto me davam os pontos.  Que essa pessoa, tinha enfiado o dedo na minha garganta, fazendo com que eu vomitasse muito.

Pois é dedos grandes, servem para isso também.

Filho da puta, por que não me disseste depois?

Eu, ia parecer que te cobrava algo, tinha tesão em ti, mas não queria ser um mais na tua lista.

Riram os dois.

Aproveitando que entendes de cavalo, levamos estes, depois quero te mostrar um lugar, que quero comprar.   Deixaram os cavalos num pasto mais acima, saíram a trote, volta e meia o outro se voltava, sorria.              Estava fazendo um esforço muito grande para se lembrar do seu nome, acabou soltando, estou ficando velho demais para me lembrar.  Qual o teu nome?

Se é verdade o que se diz que escolheste o nome principal, Roy, eu sou o Rogers.

Agora me lembro, por isso devo ter-te convidado, me fazia graça, acho que tenho uma foto dos dois, embaixo escrito justo isso  Roy & Rogers.

Parou o cavalo, olhe aquela ravina, faz parte da fazenda vizinha, queria fazer aqui um lugar para o descanso de guerreiro do Braun, está ficando velho, nem me atrevo a fazer um galope, quero preserva-lo para uma aposentadoria boa, ele merece.

Desceram do cavalo, ficaram olhando, teria que descobrir quem é?

Creio que faz parte da fazenda do outro lado, vou me informar para ti, pois podem querer enfiar a faca em ti, se vê que não usam esse lugar.

Voltaram conversando, já era hora de comer, venha comer conosco.  Sempre é bom encontrar um velho amigo.

Sean sorria, tava esperando que o reconhecesse.

Estou ficando velho amigo, demorei, ele teve que me dar uma dica.  Aquela vez que vocês me salvaram.

Pois é não tenho vergonha, hoje posso reconhecer isso, estava cansado de estar só, queria alguém comigo, mas era muito vigiado, tinha vergonha, uma serie de coisas, embora tenha sempre separado minha vida pessoal do personagem, era difícil.

Não conseguia sair do círculo vicioso, beber até cair, ou cheirar.  Era o único que eu pensava que me fazia bem.

Minha mulher trabalhava no filme, por causa disso pediu divorcio pouco depois?

Mas porque, por você ter-me salvado?

Não, porque quando viu pela porta do trailer, que eu te socorria, aproveitei para te beijar, era um sonho que eu tinha.

Porra, sinto muito.

Nada, ela já estava desconfiada, pois quando chegava em casa depois de alguma filmagem contigo, não parava de falar em ti.                 Contava ao meu filho milhões de histórias, como te comportava.   Ele achava genial, quando ela se casou de novo veio viver comigo, porque não gostava do marido dela.

Trabalhei muito para que ele fosse a universidade, fazer o que eu não fiz, estudar.  Esta acabando um livro, sobre a historia dos filmes de cowboy, tem um ou dois capítulos, pois não me deixou ler ainda, falando de ti.

Pois o convide para vir aqui, pode ser que eu possa lhe dar informação sobre isso, tenho muito material.

Não temos aonde hospeda-lo, aonde vivem os cowboys que estão solteiros, está cheio.

Ora Sean, arrume a casa de hospede para os dois, afinal Rogers é um amigo, me salvou a vida.

Vou telefonar para ele, voltou sorrindo, ficou como um louco, sempre quis te conhecer.

Ficaram os três depois sentados na varanda falando dessas terras atrás.

Queria colocar lá o Braun, para que ele tivesse algumas éguas para montar, o final da vida de um guerreiro.    O comprei quando soube que o studio ia mandar mata-lo, pois já não galopava como antes.  Filhos da puta, fiquei uma fera.

Nessa noite, sonhou com as cenas justamente que tinham falado, porque tinha se interessado por ele.   O tinha olhado nos olhos, não como faziam os outros que viam um ídolo, mas sim como um homem olhando outro homem.   Despertou, ficou se lembrando disso.   Talvez isso o tivesse feito lembrar o quanto estava sozinho todos esses anos.   Nunca tinha um romance como os que ele fazia nos filmes.   Estava sempre sozinho, talvez por isso emendava um filme no outro.

Tinha sim muitas aventuras, mas não lhe interessavam, era um corpo bonito a mais.

Gostou como o Rogers tinha olhado para ele hoje, a cara, o sorriso que tinha lhe dado, a facilidade de falar com ele das coisas.

No outro dia montou um outro cavalo, castanho escuro, mas muito bonito, que tinha comprado a pouco tempo.  Foi levando o Braun, pelas rédeas, para solta-lo num pasto mais acima.  Quando chegou lá, tirou a brida,  o abraçou como fazia sempre, falou ao seu ouvido, eres livre meu amigo, tão livre como eu quero ser.  Depois traria até ali duas éguas para lhe fazerem companhia.

Quando montou para voltar, viu que Rogers vinha em sua direção.  Desceu do cavalo, resolveste adiantar.

Sim, acho que ele merece, seu repouso de guerreiro.  Agora quero encontrar duas éguas bonitas para lhe fazer companhia, que ele não se sinta só.

Ele parecia ter entendido, saiu a galope pelo campo, ia e voltava até aonde eles estavam.

Olha Rogers, essa noite sonhei como que tínhamos falado, já sei por que te convidei para ir se encontrar comigo.  Eu estava tremendamente sozinho, não me olhavas como esse olhar de todo mundo, opa um famoso, vou me aproveitar.   Me olhaste como um homem olha o outro, querendo estar juntos.    Me lembro que falamos muito durante o dia, enquanto gravamos juntos.  Aparentemente eram dois vaqueiros conversando.

É verdade eu estava apaixonado por ti, quando minha mulher me perguntou, eu lhe disse a verdade, estava farto de estar escondido, como tu.

Quando meu filho veio viver comigo, eu lhe contei a verdade, que gostava muito de ti, como homem.

Os dois se aproximaram, se beijaram, o que não tinha feito naquela época.

Quando se separaram, Aaron lhe perguntou se não achava que estavam velhos para isso?

Não sei Aaron, mas sempre fui apaixonado por ti.  Conheço todos teus filmes, nunca te condenei por ter que fazer sexo escondido.   Queria dizer olha estou aqui, mas eu não queria esse sexo de um dia somente.

Bom quem sabe podemos tentar.  Sentia uma necessidade de um abraço forte, lhe pediu sem vergonha nenhuma.  Ficaram ali parados, um abraçado ao outro, sentiam que estava excitado, mas não fizeram nada, depois ficaram ali, na cerca olhando o Braun.

Sabes qual o problema, as pessoas se apaixonavam pelos personagens, confundiam comigo, jamais, podia imaginar que eu fosse uma pessoa por assim dizer frágil, que o álcool, as drogas não ajudavam, pioravam.

Eu ao contrário, pensava, quantos Roy existe, porque procurava algo de ti realmente nos personagens, mas nenhum era como o homem simples com quem tinha conversado várias vezes montado em cima de um cavalo.  Agora o que fazes com o Braun, me toca, pois sempre amei os cavalos.

Entendo o que dizes, porque, tinha feito um filme contigo, em seguida estavas fazendo um policial corrupto.  Num era um justiceiro, tudo pela lei, no outro um policial corrupto, inclusive ganhaste um Oscar por esse filme.

A esse segura a porta do escritório.  Começou a rir, não parava mais, quando disse na cerimonia que usava os Oscar para segurar portas.  Claro nunca fiz nada pensando tenho que fazer isso para ganhar um prêmio.   Fazia porque gostava.

Quanto a esse filme, o anterior era muito agua com açúcar, tonto vamos dizer assim, mas fui obrigado a fazê-lo, lhes  disse que fazia se me deixavam escolher o seguinte.  Quando escolhi, imagina era um roteirista desconhecido, o diretor idem, saiu o filme como eu queria.

Eu estava numa época dura, fudido da vida, mas com o personagem me desafogava, tentava colocar na boca dele, o que eu no fundo estava sentindo com relação a vida.

Poderia analisar contigo os filmes todos que fiz.  Alguns aceitei porque diziam alguma coisa de mim, sem que realmente o publico soubesse.    Não sei se te lembras de um filme que fiz, que fazia o papel de um sacerdote, que está numa ilha, ninguém o quer ali, só um garoto que o aceita porque diz que ele conta boas histórias.   Nesse filme, me sentia tão terrivelmente só, estava cada vez me fechando mais, tinha medo de que a bebida me consumisse.  Até que um dia o garoto que trabalhava no filme, se virou para mim perguntou se eu não tinha vergonha de aparecer todos os dias na filmagem basicamente bêbado, ele tinha que ir para a escola, além de aguentar meu bafo de álcool.

Fiz uma desintoxicação severa, mas não durou muito tempo.    Hoje em dia ele vive entrando e saindo de clínicas por ser alcoólatra.

A vida é um eterno vaivém, mas desde que estou aqui, não bebo, não fumo.  Me levanto cedo, vou andar a cavalo, venho ver o velho Braun, falo com ele.

Agora tens a mim para falar.  Eu tampouco tive uma vida tão fácil, creio que me dei conta que era gay realmente, quando sem querer me tocaste numa filmagem.  Tive uma ejaculação sem estar excitado.  Morri de vergonha, por isso quando me chamaste para ir ao trailer, fui esperando te conhecer direito, não o ator, mas o homem que me provocava isso.

Entendo quando falas de solidão, como comecei a ter encontros, me passou o mesmo, essa coisa que as pessoas esperam que sejas de um jeito, não es o que ela espera de ti.   De mim  esperam que eu seja um macho alfa, mas quando tiro as calças, veem um homem normal, com tudo normal, esperam um caralho imenso, mas é um normal.   No dia seguinte, não as encontro, estou sozinho outra vez.   Até que tomei a decisão, de nada de ir para a cama com ninguém, se querem sexo comigo, será no meio de uma rua escura, rápido, ali mesmo dizes adeus, vais para casa, contigo mesmo.     Mas até disso desisti.

Quero alguém na minha vida, quando me casei foi por isso, mas não consegui enganar a ela, desconfiou logo, dizia que na cama eu estava perdido.

Acho que quando fizemos sexo, do qual nasceu meu filho, eu pensava em ti, foi impressionante, ela dizia, pela primeira vez eres realmente um homem na cama.   Mal sabia que eu procurava outro homem.

Estavam assim, quando Sean avisou que o filho dele tinha chegado.

Voltaram rindo da conversa que tinham tido, volta e meia, paravam os cavalos para um beijo.

O rapaz era a cara do pai quando jovem, Aaron riu dizendo, quando te conheci, eras como ele, esses cabelos loiros rebeldes, esse olhar desafiante.  Nos apertamos as mãos, ias ser meu doublé, nas cenas perigosas, te desejei sorte.  Vais salvar um idiota de fazer feio.

O rapaz estava olhando os dois, percebeu o que passava.

Aaron, desceu do cavalo, o abraçou, prazer em te conhecer meu filho.  Como é teu nome?

Ele riu, por tua culpa Roy Rogers.  A gargalhada foi geral.

Então poderei realmente te chamar de meu filho. Viu que ele abraçava o pai, com muito carinho, ficou com uma certa inveja.   Nunca teria um filho que lhe abraçasse assim.

Rogers foi levar o filho até a casa de hospede, se refrescaram, voltaram para comer.

A mesa da cozinha era imensa, ali comiam todos que não tinham família.

Aaron, foi mostrar a casa para Roy, o que ele gostou foi da biblioteca, havia uma parede cheia de roteiros de filmes,  guardei todos, com minhas anotações de como encarar o personagem.

Como vai o livro que escreves, espero que me permitas ler.  Assim posso te acrescentar informações sobre a filmagem.  Tinha um hábito que não interrompia nunca, ia escrevendo mais ou menos como ia a filmagem, as merdas, os erros, tudo no roteiro, estas livre para procurar o que querias.    Atenção, hoje falava com seu pai sobre isso, que muita gente me confundia com os personagens,  mas o Aaron, estava lá no fundo escondido.  Mas inclusive se queres falar mal de mim, podes, me importa um pepino.

Tenho uns dias de folga, acha que poderia ler o que quisesse, escrever aqui?

Com uma condição.   Pai e filho ficaram olhando para ele, esperando alguma coisa espantosa.

Que venhas andar a cavalo comigo, com teu, pai, assim nos falamos. Ok.

Claro que sim.

No final do dia, estavam sentados na varanda como sempre, conversando.  Rogers disse que tinha separado duas éguas para o Braun.

Roy perguntou com espanto, esse cavalo ainda vive?

Sim, está solto num pasto só para ele, agora lhe damos duas concubinas, para comemorar seus dias de herói.

No dia seguinte saíram os três, foram conversando, quando chegaram a um alto embaixo de uma árvore imensa, ficaram ali sentado apreciando Brown com suas meninas, corriam como loucos pelo prado.

Roy, estava feliz, puxa pai, faz tanto tempo que não saímos assim, que sentia falta.  Ficaram ali falando de quantos filmes tinha participado o Braun.

Aaron, contava que tinha sido amor a primeira vista, os outros cavalos nunca me interessavam, a principio ele pertencia a um homem que fornecia cavalos para as filmagens, depois que fiz o primeiro filme com ele, que foi um sucesso, só queria a ele, fui até o rancho do homem e o comprei, tinha primeiro um estabulo perto de casa, achavam uma loucura de ator, que saia a passear pelo parque com seu cavalo.   As vezes as crianças, me cercavam, eu dava uma volta com elas, as mães ficavam loucas, imagina um ator de cinema que vai ao parque com seu cavalo preferido, passear.  Era muito divertido, todas queriam conversar, até que apareceu o marido de uma delas, que era da polícia dizendo que eu não podia fazer isso, que era proibido.  Assim passei a procurar lugares para passear com ele.    Me lembro de uma vez que descobri um lugar fantástico, na estrada de Las Vegas, quando tinha muito tempo, saia com ele por ali, tirava os arreios, o deixava livre, mas bastava assoviar que ele vinha correndo.

Depois quando tinha folga, passei a acampar com ele, nesse lugar, até que um dia apareceu o proprietário da região, reclamando que eu não tinha licença para estar ali.

Procurei outro lugar, o Sean já cuidava das coisas para mim, íamos com um motorhome, acampávamos, o deixávamos solto.  Era fantástico, de noite nos sentávamos em volta de uma fogueira o Braun, vinha se chegando, ficava ali como um cão de guarda.

Sabe o que eu queria fazer Aaron, era ir gravando isso tudo em vídeo, depois montar como se fosse um documental, mas claro se você me autoriza.

Claro, que sim, se isso faz com que tua vida siga em frente, tudo bem.

Na seguinte ida, ele se posicionou, pediu para contar a historia do Braun, o filmou com suas namoradas, pediu para o Aaron contar, como tinha deixado que ele vivesse seu retiro de guerreiro.  Depois pediu para contar como tinha sido o tempo que tinha contracenado com ele.

Aaron, soltou, realmente entendeste, a maioria acredita que não, mas o cavalo faz parte do personagem, estas contracenando com ele, com os outros personagens, mas os coitados nunca aparecem nos títulos.  Por isso merece esse retiro.

Depois Roy foi a cidade, alugou todo um equipamento, começou devagar a entrevistar o Aaron, pedindo que ele lhe contasse sua infância.   Isso com ele, que ele achacava a idade, conseguia se lembrar de milhões de coisas.  Começava dizendo, vocês me conhecem como Roy Park, mas meu verdadeiro nome é Aaron Ishah, sou descendente de 2ª geração de Drusos, espero que saibam o que é, sua origem, se não sabem busque no Google, tem muitas informações a respeito.

Falou da dificuldade em sua adolescência de viver numa família fechada, em que seguiam fazendo o mesmo geração, após geração, nunca tive vergonha deles, mas eles sim de mim, fui embora para NYC, banido pela família.    Mas tinha sonhos a realizar.

Se escutava a voz em Of, perguntando se estava arrependido disso?

Jamais, acho que cada um tem o direito, inclusive a obrigação de buscar seus sonhos, evidentemente tudo tem seu preço, eu paguei o meu.                  Vivi solitário muitíssimos anos, trabalhando como um louco, as vezes desafogando na bebida, nas drogas, por ninguém conseguir ver na verdade quem eu era.

Creio que isso sempre será um choque, entre o ator, seus personagens, seu íntimo.         Fez um gesto mostrando a estante, cheia de manuscritos, tinha por hábito por ter vindo do teatro, escrever no dorso das páginas, como ia a criação dos personagens, nada escapava.  Bem como anotações de tudo que acontecia nas filmagens, inclusive não poupava críticas a mim mesmo, algumas por ter aceitado um papel idiota numa comedia romântica.  Mas claro, os contratos te obrigavam.   Se levantou, até um deles que estava meio para fora,

Vou mostrar um exemplo, ontem estive relendo esse roteiro, creio que se o fizesse hoje teria brigado muito com o diretor, por não ter sabido ler nas entrelinhas.

Como o autor do roteiro já morreu eu posso falar.  Ele era gay, sei porque me deitei com ele, uma pessoa excelente, serio, critico com tudo, vou ler uma anotação que fiz no final, depois de ter lido o roteiro pela primeira vez.

“vejo que o personagem, reflete uma dualidade, entre ser um homem de família, mas tem algo escondido, que para meu gosto ficou fora.   Pois no final aparece uma amante, evidentemente pelo texto se percebe que essa amante é um homem, no filme, era uma mulher atrativa”.

Fui falar com o roteirista, lhe disse porque não se atrevia  a colocar que o amante era um homem.

Me respondeu se eu teria coragem de fazer o papel principal assim.  Disse que sim, fui falar com o diretor, esse armou um escândalo impressionante, o que iam pensar, perderíamos o financiamento da filme, tudo como imaginamos.

Eu sugeri, vamos a pagina que esta marcada aqui, ia mostrando para o vídeo, solicitei que não existisse o personagem feminino, no filme eles se encontravam, mas pedi para cortar isso, faria o seguinte, eu chegaria em frente a casa, olharia para os lados, abriria com uma chave, entraria na casa, pela janela, se veria a sombra de duas pessoas se abraçando, nada mais.

Basta ver o filme para saber que essa cena esta aí,  mas não se vê o sexo da pessoa, pois a cortina só mostrava duas pessoas se abraçando.   Inclusive que foi a figura, foi alguém da filmagem.

Essa arma de dois fios, como era Hollywood, estragou muitos filmes, imagina um homem de família, abandona tudo pelo amante, isso na época seria imperdoável para os de moral dupla.

Conheci muita gente que tinha família, ao mesmo tempo amantes, não posso falar nomes, não porque me proíbem, ou podem me processar, mas eram grandes companheiros de filmagem.

Conhecias essas pessoas, via-se que viviam num poço de solidão incrível, eu mesmo padecia disso, me questionavam o porque de uma filmagem depois da outra.   Na época tinhas uma resposta do studio na ponta da língua.

Voltando a esse filme, fiquei muito chateado, porque o texto era bom.   Por um acaso ganhei um Oscar com esse filme.  Quando fui recebe-lo, disse sinceramente, pois tinha visto os outros filmes, que meu personagem não merecia esse prêmio. Não entenderam, publicaram que eu não apoiava esse tipo de pessoas, que sejam fortes suficiente para abandonar uma vida pública miserável, estar dentro do armário a vida inteira, se sacrificar por uma sociedade que o condena, mas faz coisas piores.

Esse roteirista me apresentou um roteiro para um filme fantástico, riamos os dois, pois sabíamos que jamais seria feito.    Ele se suicidou com drogas pouco depois.

Espera, aqui está, funcionaria como uma comedia/drama romântico, entre dois homens, que estão na guerra, as confusões que aprontam para esconderem que são amantes.

Leia, creio que vais gostar?

Realmente teria feito esse filme?

Sim, claro que sim, estava louco para sair do armário, na verdade os dois estávamos, mas claro nem nos atrevíamos mandar para os diretores ou produtores do studio.   Quando começaram a fazer filmes com personagens gays, na verdade eram produções independentes. 

Farias um filme com um personagem gay, hoje, um personagem da tua idade?

Sem dúvida nenhuma, se o roteiro fosse bom, sim.

Um dos dias, quando já estavam no final desses gravações, Roy trouxe todos os recortes de jornais, falando de sua saída do  armário, durante a entrega de prêmios, críticas, ou outros que elogiavam embora que fosse tarde. 

Veja esse que critica, o conheço, é uma maricona de muito cuidado,  tenta se aproximar de todos atores jovens que conhece, se está dentro do armário, mais fácil de alcançar, mas os atores hoje cagam para Hollywood, a maioria dos filmes bons, são feitos fora de lá.

Quando a reportagem ficou montada, Roy passou para eles, a cena embaixo da árvore falando do Braun, era ótima, na biblioteca, falando dos roteiros, os comentários, no final, ele colocou a história do roteiro gay.  Juntou a gravação de antes, com como era hoje.

Ficou excelente meu filho.  Se um dia tens um roteiro, me mostre.

Roy lhe passou um envelope, eu vou embora essa noite, dê uma olhada depois me fala.

Três dias depois disse que o documentário tinha sido aceito para se apresentar no Concurso do Sundance,  o queriam presente na inauguração.

Sinto muito meu querido, mas impossível, já não tenho paciência para perguntas idiotas.

Foi necessário muita conversa para aceitar.  Mas vou com teu pai.  Tinha dormido pela primeira vez juntos, adorava escutar sua voz rouca, lhe falando ao ouvido na cama, eram dois homens maiores fazendo sexo.

Tinha lido o roteiro do Roy, gostava, mas faltava vivência que ele não tinha, escreveu em todas as páginas do roteiro.

Lhe entregaria depois da apresentação.

Agora já dormiam juntos quase todos os dias, mas Rogers, dizia que estava tão acostumado a dormir sozinho que tinha dias que não aguentava, saia na surdina.  Já Aaron, gostava de acordar com ele ao seu lado.

O jeito foi trocarem a cama por duas, assim era melhor.  Aaron ria, dizendo, estamos como os casais antigos, que dormiam em camas separadas.

Quando chegaram, tinham agendado para ele, uma serie de entrevista, antes de qualquer uma, se sentava ao lado do Rogers, que não queria a princípio.   Soltava logo de cara, se alguém fizer alguma pergunta idiota, já sabem que não responderei. Tampouco falarei da minha vida pessoal, portanto cuidado.

Mas parecia ter falado com as paredes, a primeira pergunta era sobre os dois, ele se levantou com o microfone na mão, foi até a repórter, perguntou seu nome, bom senhorita, imagino que seja, não tem anel de compromisso, a examinou, eres lesbiana, ou muito moderna para sentar com as pernas abertas, acredito que lesbiana, tem um chupão no pescoço, ou seja a foda da noite foi boa.  Ela fez menção de se levantar para ir embora, ele a obrigou a sentar,  vê como pimenta no cu dos outros é refresco.  Olhou bem os reportes, fez que como se contasse, depois perguntou quem aqui assume que é gay.   Ninguém levantou a mão, ele foi sinalizando um a um, assim vocês nunca mais vão me perguntar se sou gay, com quem durmo, etc.

Só aceito perguntas sobre o documentário?

Ai saiu a primeira pergunta, se ele hoje em dia teria feito o roteiro do seu amigo?

Sem dúvida nenhuma, teríamos saído do armário rindo a bessa, se tivesses a oportunidade de ler o mesmo, veria que nas entrelinhas, nos momentos cômicos principalmente havia melancolia, solidão, muitas coisas que não se falam nos filmes.

Hoje vemos os filmes, ou séries falando dos problemas dos soldados que foram a guerra por esse pais, uma guerra que eles não provocaram, quando voltam, cheio de problemas na cabeça,  os cineastas falam mais abertamente disso, mas veja se fossemos colocar o dedo na ferida, veríamos que o governo, o povo pelo qual lutaram, cagam para eles.

A maioria deve sair do cinema, pensando, isso já aconteceu a tanto tempo.  Mas quando um desses provoca uma matança porque está desequilibrado, não comentam porque ele está assim, sempre olhamos somente para o que interessa.

Os jornalista, viram que ele não tinha nada mais a ver com o personagem Roy Park, agora ele era Aaron Ishah, com opiniões, sem censura do studio.

Um dos primeiro papos que tive com meu velho amigo Rogers, verão no documentário que nos conhecemos a muitos anos.  Se mostra uma fotografia dos dois, na qual escrevi Roy & Rogers, neste dia ele me salvou a vida.  Quando entrou no trailer, eu tinha cheirado cocaína, bem como bebido muito, cai, bati a cabeça em algum lugar.  Tive que ir para o hospital.  Tudo porque me sentia sozinho.  Até hoje mantemos essas conversar no pé daquela grande árvore, olhando como meu cavalo Braun é feliz, com suas duas donzelas.  Aviso, recebemos notícia aqui que as duas estão imensas, ele as deixou gravidas.   Espero que sejam dois animais, tão nobre quanto ele.

A apresentação do documentário foi um sucesso, ele agora olhando numa tela grande, via que era o dono finalmente de sua vida, que se tivesse sido antes, teria sido um ator imenso.

Tornou a dar entrevistas no dia seguinte, agora as perguntas eram mais interessante, com o Roy sentado ao lado dele.

De noite lhe entregou o roteiro que ele tinha escrito,  leia minha anotações, medite sobre elas, algumas te pareceram uma crítica, mas veras que não são, seria impossível para ti, nessa idade saber como funciona isso tudo.

Quando tiveres lido tudo, vá visitarmos.

Ele riu, irei, agora então que já entendi que tenho dois pais, uma família completa.

Ele se desligou totalmente, seu prazer era agora subir, mesmo sozinho para ficar observando a gravidez das éguas, ainda pensou como os animais são fantásticos, era como se o Braun, cuidasse delas com mimo.    Tinha consultado um veterinário, que as vezes vinha examinar as mesmas.

Sabes se ele tinha cruzado com alguma égua antes?

Não tenho a menor ideia.

Quando ia sozinho, sentia falta do Rogers, mas sabia que ele tinha que trabalhar, não estava ali para o distrair.  Conversava com ele mesmo dentro de  sua cabeça, era como se seus dois eu estivesse sentados frente a frente, dizendo verdades um ao outro.

Agora o que fazia era escrever isso.  Não queria perder o confronto dele mesmo.  Algumas coisas realmente chegou à conclusão eram culpa dele.  Se tivesse se defendido melhor, talvez, tivesse sido diferente.   A fama, também leva a pessoa a desconfiar das outras, sabia que algumas se aproximavam dele por isso, era um ator famoso.

Mas ele na verdade se ria por dentro, pois o confundiam com a imagem que tinha dele os jornais, revistas. 

Algumas inverdades ele mesmo tinha construído. O fazia de proposito, para confundir os jornalistas.  Nunca tinha suportado isso, de ficarem fuçando sua vida, ele não fazia isso com a vida dos outros, entendia que era o preço da fama.

Claro nem podia dizer, se eu pudesse voltar a trás, faria diferente.    O mundo hoje era rápido demais, soltavas um peido, em seguida está na internet.

Quando Roy, chegou, passou a acompanha-lo para ver Braun, pois seu pai estava com os outros levando as manadas de cavalo, de um pasto para outro, montanha acima.

Lhe perguntou se tinha digerido bem os comentários, as críticas do texto?

Confesso que num primeiro momento, fiquei confuso, mas retornei a leitura de cada página, a analisando de cima a baixo, passei a entender, claro, eu mesmo passei a escrever como tu fazes, ao lado, com o que não concordei.   Depois, escrevi o texto inteiro, num acrescentei tuas sugestões, noutro, como eu sentia isso.   Foi uma experiencia interessante,  mostrei a dois conhecidos, que leram as duas, me soltaram que eu devia juntar tudo que ficava mais interessante.

Sean voltou trazendo o Rogers, pois ele tinha sofrido um acidente, os dois desceram como loucos, o acompanharam ao hospital.  Depois de vários exames, o médico disse que o problema era sério.  Ele tinha um tumor no cérebro, talvez devido a tantas caídas do cavalo,  agora no momento estava inflamado justo nesse lugar, não podia simplesmente retirar, por não conseguirem saber a extensão.

Aaron, passava o dia inteiro no hospital, segurando sempre que possível a mão do Rogers, era impressionante, o sentia mais frágil a cada dia.  Quando finalmente puderam fazer os scanners como deviam, a notícia foi terrível.   Estava espalhada por toda a parte traseira da cabeça, era impossível operar,  o médico foi honesto, tu podes escolher.  Ter teus últimos meses ou ano, com qualidade de vida, ou uma tortura com quimioterapia, mas no fundo vai dar no mesmo, os efeitos colaterais serão imenso.

Subiam os dois todos os dias a cavalo a árvore, ele colocava uma manta, ficavam ali deitados observando.   Rogers dizia que os dois estavam tendo um final de vida, de verdadeiros guerreiros de seu tempo.  Braun com suas éguas, ele com o homem que tinha amado a vida inteira.

Quando chegou o inverno o jeito foi descer as éguas com o Braun, para as cocheiras da fazenda, elas pariram lá.    O tempo esse ano estava horrível, chovia demais, ficavam os dois sentados na varanda, conversando, até o momento que só podia fazer em cadeiras de rodas.  Roy, ficou o tempo todo ali na fazenda, salvo as poucas vezes que teve que ir a Los Angeles.  Mas Aaron, não saia dali de maneira nenhuma.     Um dia se pegou no campo chorando, maldizendo a tudo que se podia acreditar nos deuses.  Porque justo quando ele tinha encontrado um equilíbrio, uma pessoa que o queria, a perdia, não era justo.

Rogers, morreu em seus braços.  Com o filho do outro lado.  Tudo que pediu ao Aaron, foi que cuidasse dele.

O enterraram lá em cima aonde se sentavam para conversar.

Roy mostrou o texto que tinha refeito mil vezes para o Aaron, este gostou, agora toca botar isso para frente, mande para os produtores.  O silencio foi total.

Que se fodam, vamos levantar a produção, procure qualquer para ser diretor do filme, um desses que são jovens arrojado.   Já foi melhor a coisa, pois três se candidataram.

Entrevistaram os três, ficaram com o que tinha a visão, mais próxima do texto.

Roy e este debatiam página por página, quase que frase por frase, a ideia.

Agora era encontrar os atores, Roy pediu que ele fizesse o papel do personagem no presente, se ele se arriscaria. 

Não tenho nada a perder.

Ensaiaram com os atores um bom tempo.  Aaron, deixou que algumas partes do filme fosse ali na fazenda, o resto seria num studio em Hollywood.

O primeiro dia lá, para ele foi como ter um sabor amargo na boca, estava um pouco mal humorado,  tinha tanto o texto dentro da cabeça, que podia rodar as cenas de um tirão só.

Pela primeira vez em todos esses anos, acompanhou a montagem do filme.  Quando ficou pronto, convenceu uma serie de atores que conhecia, que viesse ver.

Todos aplaudiram no final, as cenas que ele fazia mesmo sozinho, era um verdadeiro tour de force, de um ator.   Principalmente do final,  o fazia sentado na biblioteca de sua casa, era como se profetizasse o que iria acontecer.

Pela primeira vez na vida, usava seu nome verdadeiro, o tentaram fazer mudar de ideia, mas se negou.

Quando o filme entrou em circuito, foi um sucesso, passou em todos os festivais de  cinema, principalmente os LGBT, foi lançado no Sundance, considerado o melhor filme da temporada, depois Cannes, foi outro sucesso, lhe deram o primeiro prêmio ao Roy, para gargalhada geral ele ganhou como ator revelação.

Depois Londres, Berlin, acabou sendo indicado para os Óscares.  Cabe lembrar que ele não foi a nenhum, dizia que estava no seu retiro de guerreiro.

Depois da perda do Rogers, não tinha muita vontade de ver gente, ficar falando algo vazio.

Os potros tinham nascido, se sentia como avô os mesmos, pois o inverno chegava ao fim, assim podia estarem no pasto, ia todo os dias ver a família.

Os chamava de os meus meninos.  Braun parecia sentir o mesmo com eles, era como se estivesse ensinando o que era a vida de um cavalo.

Todos queriam que fosse a cerimônia do Oscar, se negou rotundamente.  Lhe disse a Roy, vá seja o orgulho de teu pai.   Ele tornou a ser nomeado apesar da critica ser toda contra, o queriam como ator principal, de novo como ator revelação.

Qualquer coisa tinha vindo uma equipe para gravar o que diria.

Roy ganhou como melhor roteiro, agradeceu, dizendo que sem o auxílio do Aaron, não seria possível.  Ele tem uma vivência que eu não tive,  conversamos muito sobre todo o roteiro. Não ganhou para melhor filme, não se atreviam dar um premio assim para fomentar  tipo de filme, Ele ganhou o Oscar de ator revelação.  Fez uma coisa divertida, saiu pela casa mostrando os Oscares que tinha, segurando portas, soltou a dúvida agora, aonde colocarei esses.  A segunda parte, ele estava no campo abraçado ao Braun, como todos sabem, ele está vivendo seu retiro de guerreiro, nunca ganhou nenhum Oscar, embora tenha feito trabalho maravilhosos, foi uma honra contracenar com ele durante tantos anos.   O público veio abaixo com isso.

Roy, recolheu o prêmio por ele, soltou, foi o grande amor da vida de meu pai, o conheci em criança como Roy, entendi então por que levava esse nome.  Mas quando voltei a reencontra-lo ele já era Aaron Ishah, um grande homem.  Meu segundo pai, este prêmio é teu, já podes começar tua segunda carreira.

Ele viu tudo pela televisão,  nessa noite fazia mais calor, se sentou na varanda com o Sean, é, parece que consegui recuperar a pessoa que existia dentro de mim.  Lastima que Rogers não estava aqui para ver seu filho vencer, numa coisa que ele amava, que era fazer cinema.

Sean disse que ia dormir, pois queria levar a nova manada para os pastos de cima, como tinham novos cowboys, tinha que ver se algum era experimentado realmente.

No dia seguinte o encontraram morto ali, do pasto de cima veio um cowboy, a galope dizendo que o velho Braun tinha morrido também.

Deixou tudo para o Roy, dividindo a fazenda em duas partes, entre Sean e ele.   Assim poderiam levar para frente.

Com sua morte o documentário voltou a ser passado nas televisões, seus filmes todos eram passados como uma homenagem a ele.  Roy reviu todos ali, sentado com o Sean na biblioteca.

Do último não falavam, era outro personagem, só que esse era o real Aaron Ishah.

ROCK

                                                  

Meu nome verdadeiro é Rockefeller, mas todo mundo me conhece por Rock, imagine dizer a alguém, já me bastam os do banco, que me chamo Rockefeller Macfarley, muita gente pensa que é por causa do ritmo Rock and Roll, nada mais longe da verdade.  Fui criado dentro da música Country, porque era o que escutávamos na Rádio.

Sou o filho temporão de uma família rural, comigo foi tudo por um acaso, a diferença com meu irmão mais velho é de dez anos.  Ele era um tipo, quase dois metros de altura, com um corpo incrível, tudo pelo trabalho do campo.  Parecia um jogador de futebol americano ou nadador, mas ao contrário tinha medo da água, nem sabia nadar.

Eu ao contrário não sei se nasci por descuido, cheguei a 1,75 metros de altura, tinha como ele um corpo bom.   Estudamos o básico na cidade mais próxima, ele antes de mim,  meu pai morreu dois anos depois que eu nasci, uma ferida mal curada, além da cabeça dura que tinha ao não resolver cuidar-se, dizia que tudo se cura por si só.

Então tocou a ele levar as terras que tínhamos, ele, eu o ajudava, era uma terra ruim como dizia minha mãe, cheia de pedras, meu ofício desde pequeno era ir tirando as pedras amontoando por ali.   O bom de trabalhar com ele, era que cantava o tempo todo as músicas country que escutava pela rádio, cantava altíssimo, para se fazer ouvir por em cima do trator.  Foi a minha primeira paixão.  Ele era tudo para mim.   Me defendia quando algum garoto se metia comigo, alias adorava uma briga.  Dizia que assim se descarregava.

As garotas da cidade próxima brigavam por ele, se é que se pode chamar de cidade, um lugar com três ruas paralelas.  A sorte do lugar, era que ficava ao lado de uma estrada interestadual, mas com um tráfego de merda.   Até isso aqui é horroroso, dizia minha mãe, odiava viver lá, tinha sido enganada dizia, sou de cidade.   Infelizmente estava desgastada pelo tempo, pela vida dura, quando vi uma foto sua de jovem, fiquei com a boca aberta. Tinha sido uma preciosidade quando jovem.

Meu irmão se chamava Marc Macfarley, foi um grande cantor de Country, tudo começou por um acaso, eu tinha uns 15 anos, ele 25, as vezes o encontrava na varanda de casa no final do dia, olhando o campo, aonde estava plantadas batatas, milho, algo de cevada para os animais.  Seu olhar era triste, sem querer lhe comecei a cantar uma música que tinha na minha cabeça, ele se virou ficou me olhando, quando parei me disse, repete, repeti, riu de onde tiraste essa música fedelho.  Bati na minha cabeça, daqui.

Ele começou a cantar com aquela voz potente que tinha, a letra falava de ter plantado, a espera, o vazio dessa espera, quando estas só, da solidão de ficar olhando a paisagem de tudo crescendo.

Escreva para mim, quero ter essa música em minha cabeça.

Uns quinze dias depois, ele estava arando a terra, perto da estrada, quando viu um carro descapotável, parado.   Perguntou ao homem o que passava.  Este ficou de boca aberta quando viu meu irmão, com aquela velha camisa de quadros, aberta, mostrando um peito peludo, forte, calças ajustadas jeans, era uma beleza de olhar.

Meu irmão arrastou com o trator o carro até a casa, chamou o mecânico da cidade, enquanto isso o homem já tinha se refrescado, sentou-se na mesa para comer conosco. Tinha se apresentado como Gene Brow, era agente de cantores, tinha ido a uma feira, para escutar cantores locais.  Voltei com a mão vazia, nada de novo, só imitadores.

Minha mãe lhe ofereceu um quarto que não era usado para dormir, na cidade não tem hotéis. Riu dizendo, quem ia querer vir passar uns dias nesta merda de lugar.

O mecânico disse que teria que pedir a peça para o carro, o levou para sua oficina numa grua. O Gene ficou lá em casa, no dia seguinte estava sentado na varanda, viu meu irmão arando, cantando altíssimo, com sua voz poderosa, para se escutar por cima do trator.

Ficou de boca aberta, quando meu irmão parou, pois ficava repetindo uma e outra vez a música, para encontrar a maneira perfeita para cantar a mesma, lhe disse que tinha uma voz fantástica, mas porque cantava tão alto?

Lhe explicou, senão não escuto o que estou cantando, mostrou o trator, tento que a letra dessa música fique melhor.

De quem essa música?

Do pirralho, de quem vai ser.  Já cansei das músicas que escuto no rádio, ele sempre tem letras na cabeça, me canta a mesma, depois vou arrumando para minha voz.

Me canta outra que ele tenha feito.

Lhe cantou a música da tristeza, automaticamente abaixava seu tom de voz, parecia que estava sussurrando ao ouvido de quem escutava.

Queres vir comigo para Nashville, só precisas aprender a modular um pouco tua voz.

Minha mãe que escutava tudo, disse que só se fossem todos, pois estava farta de viver ali, que eu merecia algo melhor.

Na verdade, meu irmão nunca seria capaz de deixarmos para trás, porque amava minha mãe acima de tudo.

O homem concordou, ela vendeu as terras ao vizinho que sempre a tinha cobiçado, juntou um pouco de merdas que tínhamos, trapos dizia ela. Subimos na nossa caminhonete, fomos seguindo o Gene até Nashville, nos colocou todos num hotel barato, mas no dia seguinte ela já saiu atrás de uma casa para nós, tinha dinheiro da venda das terras. Encontrou uma casa simples, fora do centro, de madeira, dizia que amava isso.

No mesmo dia, eu segui Mac, para as aulas que ele ia ter, ficava do lado escutando tudo, aprendendo por osmose vamos dizer assim.   A professora tinha sido cantora de Country, até que perdeu a voz, por um câncer nas cordas vocais.

Ensinou o Mac a modular a voz, a colocar-se em cena, a cantar minha música, dizia, pense que estas cantando no ouvido da pessoa amada.

Eu ficava como louco, pois era impressionante.  Um dia me escutou a fazer seus exercícios, disse que era de família, que eu modulava muito bem em outro tom.  Podia fazer falsetes inclusive, sem querer soltei outra música que estava na minha cabeça, falava de admiração por uma pessoa que pode ensinar, apesar das tragédias, tem um motivo para seguir adiante.

Uau, saiu agora da tua cabeça?

Sim disse eu, fiz para a senhora.

Ela trabalhou mais essa com meu irmão, como devia cantar essa música.

Gene o levou a uma audição, estávamos os dois aprendendo a tocar guitarra, a mim, me saia estupendamente, tinha basicamente aprendido de ouvido, as cordas eram como seguir meus dedos guiados pelo que escutava na minha cabeça.

Ensaiamos muito.  Lá fomos os dois, tinham umas 10 pessoas escolhidas pelo Gene para escutarmos, nem tinha ideia de quem eram.

Mac cantou, soltou a voz, como não sabia ainda usar direito o microfone, cantou como fazia na fazenda, mas controlando a voz, modulando,  eu lhe seguia como contraponto, nos momentos que tínhamos combinado.

A primeira ficaram em silencio, um homem gordo, imenso de grande, em que a roupa parecia muito pequena, pediu outra, mas country.   Ele soltou a primeira que tinha feito para ele.

Bom agora estamos de acordo, quem compôs essas músicas?

Mac me apontou, o homem olhou para mim, com minha cara de garoto.  Riu, esse pivete escreve música?

Então escute a melhor que ele fez.  Soltou a que tinha composto para ele na fazenda, essa posso cantar de diversas maneiras.  Quando terminou uma mulher que estava ali, aplaudiu.

Fazem uma dupla perfeita, Gene, precisamos que ele tenha acompanhamento certo, o rapaz toca direito, mas ele com esse corpo a guitarra parece um brinquedo.

Foram dias e dias montando o grupo, Mac como era cabeça dura, disse que só queria gente em quem ele confiasse.

Mas continuamos indo as aulas, um dia estava sentado na sala, vi um livro aberto, por curiosidade, comecei a ler, era de Walt Whitman, a professora me viu lendo de boca aberta, me falou quem era.

Pediu que eu lesse, depois comentou, tens uma voz linda, me disse abaixe o tom um pouco a deixe ficar um pouco mais rouca.

“Apenas me movo, pressiono, sinto com meus dedos, e sou feliz, tocar com meu corpo a do outro e quase todo o que posso resistir”

Me desafiou a compor uma música só com isso.

Fiquei dois dias, compondo a música, era um tanto erótica, imaginava como um prenuncio de sexo.

Quando Mac escutou, disse que eu estava libidinoso, de devia parar de bater punheta, tentar fazer sexo com alguém.   Ele dizia isso, porque as mulheres viviam correndo atrás dele, se fazia de desentendido, rindo, mas só escolhia as de um dia.

Minha mãe, não se intrometia, vivia feliz na sua casa nova, comprava roupas, tinha ido a cabelereiro, cortado pelo sano como dizia, agora estava mais jovem, tinha comprado cremes para a cara, para a mão.   Saia com as amigas que tinha feito, não se intrometia em momento algum com a nossa vida.

Um ano depois, com a maioria de músicas minhas,  Mac fez sua primeira apresentação, foi um sucesso, gravamos um disco.

Gene queria que Mac aparecesse como compositor das músicas, das letras, mas a professora, antes dele assinar contrata algum o orientou.  Nada disso, isso seria como roubares teu irmão, se essas músicas funcionam, lhe explicou como funcionava a coisa.  Eu sempre ganharia algo, quando ele cantasse, ou tocassem a música no Rádio. 

Gene ficou uma fera, mas já sabia que quando Mac dizia uma coisa, não arredava o pé.  A única pessoa que conseguia convence-lo era eu.

Assim fiquei conhecido como compositor.

Depois do sucesso do disco, tocando na rádio, já com bastante dinheiro, Mac, comprou uma Motorhome, para sairmos de tour por um sem fim de cidades, feiras agrícolas, a lista era imensa, minha mãe se negou terminantemente a sair de sua casa, que eu fosse em seu lugar, cuidando do Mac.  

Fez uma reunião comigo, me dizendo que não o deixasse beber muito, nada de fumar erva, nem drogas.

Eu agora, agora quando não me apareciam músicas na cabeça, pegava uma ou duas frases do livro, desenvolvia uma música.   Mas claro as transformava em minhas essas palavras, mudava o sentido delas.

Um dia Mac estava de bares com os da banda,  estávamos numa feira, fiquei sentado num monte de feno, na frente de um lugar cheio de animais, pensando, estava no mundo da lua. Quando apareceu um Cowboy, ficou parado me olhando.  Mas claro eu estava em outro mundo.

Garoto acorda, estou falando contigo, quando o olhei, fiquei de boca aberta, tinha a camisa aberta, num peito peludo, um sorriso de cara a cara, as pernas arqueadas, Vem vamos dar uma volta, vi você tocando com Mac, depois soube que as musicas era tua.  Fiquei pensando esse garoto não tem vivência para falar dessas coisas.

Ficamos sentados no chão, seu nome era Scott, me perguntou se eu já tinha amado na vida, se tinha sofrido por amor, como podia compor se não tinha experiencia.

Para um cowboy de rodeio, ele era inteligente. Me olhou nos olhos, dizendo vou te ensinar a amar. Foi a primeira vez que fiz sexo.  Minha cabeça explodiu, ele foi me tirando a roupa desabrochando tudo, puxou minhas calças para baixo, me segurando pela cintura, beijou meu corpo inteiro, me chupou o caralho, fez de mim um boneco de trapo. Fiquei alucinado.

Os dias que estivemos ali, nos encontramos todos os dias de noite, ficávamos conversando, depois acabávamos fazendo sexo.   Fiz uma música para ele, falando nisso, de como passávamos de uma conversa, a que ele fosse me desvestindo, que me sacava a virgindade em todos os sentidos.  Não coloquei um personagem masculino nem feminino na letra, falava como se fosse ele, tendo esse privilégio de fazer isso com uma pessoa virgem em todos os sentidos.

Nesse dia o sexo, foi como uma despedida, ele ia em outro sentindo que não o da nossa turnê, sabia que ia sentir falta dele, me disse no último momento, vou sentir falta de ti, me beijou apaixonadamente.

Nesse dia cheguei tarde a Motorhome, meu irmão queria saber aonde tinha estado.  Vi que tinha bebido demais, mudei o rumo, fiquei bravo com ele, tens que te controlar, sei que todos querem te oferecer mais bebidas, mas agradeça, não podes ficar bêbado todos os dias.

Seu mal talvez fosse esse não sabia dizer não.

Quando lhe mostrei a música, ficou como louco, primeiro quero saber para quem compuseste essa música, porque vou partir a cara desse sujeito.

Fiquei de boca aberta, como sujeito.

Ninguém faz uma música assim, a não ser que estivesse com outro homem, achas que não sei da vida.  Venho fudendo o Gene todo esse tempo.  Gosto de homens também, não sou tonto.

Lhe contei o que tinha acontecido.

Soltou, pelo menos tiveste um romance, com Gene é só um momento de sexo nada mais, se quero romance, tenho que ter sexo com uma garota, me preocupando se não é uma menor de idade.  Ele fica vigiando, olhando as vezes, depois pede que eu o penetre.  Filho da puta.

Vamos arrumar essa música, entre os dois arrumamos a letra, quando cantava, mandava o grupo parar de tocar, só eu tocava a guitarra, cantava com a boca quase colada ao microfone, rouca, como se estivesse fazendo sexo.   As mulheres ficavam loucas, mas percebi que os homens também.

Um dia estava acertando contas com Gene, afinal ere eu que levava as contas de tudo, no dia seguinte iria ao banco depositar na conta, tínhamos uma conta em conjunto.

Quando entrei na Motorhome, lá estava ele deitado com um homem, fazendo sexo. O homem gemia como um animal, fiquei parado sem saber o que fazer, excitado, Mac me disse, tire essa pau para fora, de para ele chupar.    Foi uma das muitas vezes que participei de sexo com ele, o pior era que me beijava na boca, me dizia ao ouvido, meu único amor.

Quando percebia que algo ia acontecer, desaparecia do mapa, não queria isso, estava confundindo minha cabeça.   Se a cidade era grande, me vestia diferente, camiseta, tênis, amarava meus cabelos compridos num rabo de cavalo, ia aos lugares gays.   Tinha aquelas famosas relações de uma noite, pois no dia seguinte não estaríamos ali.

Um dia voltava de madrugada, escutei o Gene brigando com ele.  Só escutei Mac dizendo, tire esse cu sujo da minha frente, o caralho é meu coloco aonde queira.  Quando entrei, tinha um rapaz da minha idade, sentado nu na cama. Meu irmão estava em pé, completamente nu, o Gene possesso, entendeu que tinha perdido seu lugar. 

A partir desse momento fui a ligação com os dois.  Sabia por exemplo que no dia que ele cantava essa música era porque queria um homem com ele.   Eu escapulia, pois não queria que ele me beijasse na boca, me confundia.  Fui buscar na biblioteca o que era isso, um incesto.

Ele quando me neguei uma vez a participar, riu dizendo que eu tinha medo de me apaixonar por ele.  Como dizer ao teu irmão, que estava apaixonado por ele desde garoto.  Mas não uma paixão física, apenas ele era meu mundo.

Uma frase do livro me chamou a atenção “ Zombam de minha confusão na calma luz do dia”.

Compus uma música, falando dos meus sentimentos. Não mencionava sexo, nada.

Ele escutou a música, soltou eu nunca zombaria de ti, sei que me queres como sempre desde criança.  Eu sempre vi teu olhar de admiração. Como o mesmo tenho por ti, por saber colocar palavras na minha boca para que eu expresse meus sentimentos.

No show desse dia, ele soltou, agora meu irmão, me apontou, vai cantar para vocês sua última música.   Lhe disse baixinho que não podia, nunca tinha enfrentado o público sozinho.  Olhou na minha cara, nem se atreva a não fazer, cante como se fosse para mim.

Assim fiz, o publico ficou louco, cantei em ritmo de balada.  Depois do show, dois rapazes se aproximaram de mim, para dizer que isso tinham sentido da primeira vez que tinham feito sexo.

No dia seguinte tínhamos uma entrevista na rádio.             Gene já não nos acompanhava, apenas administrava os contratos, acertava contas comigo.                    Estava mais triste, apagado, fiquei preocupado.

Ele exigiu que eu participasse da entrevista, ria, conversava descontraído com o locutor, agora quero que escutem essa música incrível que compôs meu irmão, que cantou ontem a noite com sucesso.  Me obrigou a cantar.

Em seguida a radio começou a receber chamadas de telefone, Mac se levantou, disse agora é contigo.

Fiquei ali, atendendo a cada chamada, escutando as pessoas falarem do que tinham sentido, ao escutarem isso.     Um homem com uma voz suave me disse que tinha sido assim a primeira noite de sua vida com outro homem.

Quando terminou o programa, o diretor da rádio disse que se eu quisesse um emprego, era meu.

Nessa noite conversei com Gene, me preocupava os dois, quando lhe perguntei o que sentia pelo Mac.   Disse somente que tinha se acostumado a fazer sexo com ele, que nunca tinha imaginado ser rechaçado.

Mas o amas?

Não sei o que é amor, apenas quero que ele me penetre nada mais.

Depois do show, vi Marc conversando com  os músicos, iam a uma festa, voltou bêbado, drogado, isso passou a ser o cotidiano.   Quando brigava com ele, me dizia que não o entendia, me pedia perdão.

Fomos fazer uma apresentação na televisão em Los Angeles, nunca tinha visto o mar assim, fiquei fascinado.  Nesse dia ele estava mal humorado, tínhamos uma entrevista numa rádio, que na verdade tocava música Rock, para os mais jovens, lá pelas tantas, disse, já escutaste a voz do meu irmão cantando baladas, me fez cantar a maldita música.   Ele a chamava de confusão. Aconteceu o mesmo, as pessoas telefonavam para falar comigo.  Eu paciente respondia a tudo, olhando na cara dele.

No hotel, nessa noite, chegou com um rapaz, como ele totalmente drogado,  como era uma suíte fui dormir no outro quarto.  Quando despertei de manhã, escutei o rapaz gritando, corri, não via o Marc, o rapaz estava agarrado na cortina do quarto, quando olhei para baixo, vi o Marc na piscina boiando com o corpo virado para baixo, nu completamente.

Disse ao rapaz, que se vestisse, que saísse dali rapidamente para evitar confusão. 

Ele é o teu namorado?

Não, por quê? 

Pois ele passou a noite inteira me chamando de Rock.  Disse que não podia viver sem mim. Eu lhe dizia que não me chamava Rock, mas isso não o incomodou, seguiu fazendo o mesmo.

Olhei finalmente o rapaz, era super parecido comigo, apenas a diferença era os cabelos.

Me vesti, desci correndo, mesmo sabendo que era tarde,  ele não sabia nadar.  Tinha pulado da varanda dentro da piscina.  Chamei o Gene, esse cuidou de tudo, pela primeira vez fez um gesto de carinho no rosto do meu irmão.   Eu me sentia como uma pedra de gelo.

Avisei minha mãe, disse que me esperava em Nashville.  Ele ia ser enterrado lá.

Quando chegamos, a vi depois de quase quatro anos rodando pelos Estados Unidos, de braço com um homem de sua idade.   Me disse que estavam vivendo juntos.

O enterro foi uma coisa impressionante, da mesma maneira que estava cheia de garotas, também havia muitos garotos chorando, na hora não entendi por que, até que vi o que tínhamos feito sexo a três.   Depois se aproximou, marcamos de conversar.

Mais tarde tomando um café, me disse que Marc o tinha chamado muitas vezes para fazer sexo, mas que só o chamava de Rock.   Pensei que era uma brincadeira, pois ele sabia que eu gostava de Rock And Roll, até que descobri teu nome, me penetrava, ficava passando a mão na minha cabeça, dizia que eu cuidava dele, essas coisas.

Eu não sabia, fiquei me culpando, por achar que ao ter aceitado a participar do sexo a três, tinha feito aflorar nele isso.

Um advogado me procurou, para que eu fosse ler seu testamento.        Nem sabia que tinha feito, me disse, que no dia antes de termos ido a Los Angeles.  Perguntei se minha mãe deveria ir, disse que sim.   Mas ao sair, se virou, ia me esquecendo, deixou isso para o senhor.

Era uma carta, a letra dele sempre tinha sido infantil.

Quando nasceste me apaixonei por ti, eras pequeno, quase podias caber na minha mão, creio que fui teu pai desde essa época. As vezes você de noite corria para minha cama, para dormir comigo.  Eram momentos incríveis, eu te amava, protegia.   Aceitei ir para Nashville, aonde nunca fui feliz.  Gene ia para minha cama, já na fazenda.   Fiquei louco por ele, mas depois descobri, que não passava disso, ele para esconder sua homossexualidade, fazia sempre tudo escondido, não conseguia sair desse círculo vicioso.  Não conseguia escapar disso, aquele dia que descobri que tinhas feito pela primeira vez sexo com um homem, morri de ciúmes, fiquei furioso comigo, pois tinhas esse direito.  Mas cada vez que te via perto de alguém ficava com ciúmes, não entendia meus sentimentos.

O pior foi, te peço desculpas por isso, no dia que basicamente te obriguei a fazer sexo a três, quando te beijei, senti amor, passei a ficar procurando isso, queria fazer sexo com pessoas que se parecessem a ti, buscava a ti, até que entendi que isso não era normal.

Quando chegava bêbado, ou drogado em casa, lá estavas tu, para me cuidar, chegou a um ponto que fazia de proposito, pois queria isso, que me cuidasses, na verdade o fizeste isso muito tempo.  Sei que foste falar com o Gene, pensando que eu o amava.   Para nada, tinha descoberto o amor de outra maneira.

Essa é a última viagem, não suporto mais, quero fazer sexo contigo, mas não posso, sou uma vergonha.

Adeus, cuide-se, mas lembre-se que eres melhor músico, compositor, canta baladas como ninguém.   Não deixe que te arrebatem isso.   Não fique em Nashville, busque teu lugar.

Passei o dia inteiro chorando, finalmente colocava para fora tudo, chorei tanto, que no dia seguinte tive que ir ao advogado com óculos escuros, para esconder minha cara.

Minha mãe, estava vivendo sua segunda vida, parecia feliz.

A leitura era simples, me deixava tudo o que tínhamos no banco, além de transferir todos os direitos autorais das músicas para mim.    A minha mãe, lhe deixava dinheiro também numa outra conta.  A única coisa que tenho é a Motorhome, fica para ti, ou a vendas.

O advogado depois conversou comigo é com o Gene, para resolvermos os problemas das músicas.

Depois saímos, Marc tinha falado com ele o que estava acontecendo.  Eu sinto muito, mas gostaria de levar tua carreira, sempre nos demos bem, sabes falar cara a cara comigo, isso eu gosto.  Quisera ter músicos como tu.

Me lançou como cantor de baladas, de repente descobriu, que meus fans não eram só ali, fazia sucesso nas grandes cidades.   Em San Francisco, o publico era totalmente gay, achei graça disso, depois fomos para NYC, foi uma loucura, descobrir que os gays me adoravam.  Tampouco escondi que o era.  Gene achava que isso não era bom.  Mas estava seco de músicas novas.

Nosso contrato terminava, lhe disse que não pensava ficar mais de turnê, que queria parar um tempo, que queria recuperar minha vida, saber na verdade quem eu era.

Ele montou o show de despedida, em Los Angeles, fui de novo a muitas rádios, televisão, a última rádio era aonde tinham me convidado para trabalhar.  O apresentador, me perguntou se eu podia cantar de novo aquela balada que meu irmão gostava tanto.   Cantei, mas chorando no final.   Segundo o diretor, se colapsou a linha telefônica pela quantidade de gente chamando. Atendi a todos que pude. Queriam me consolar. 

Durante o show que estava lotado, eu disse que me retirava por um tempo, que precisava saber quem eu era na verdade.  Todos esses anos segui meu irmão estive na estrada todos os anos da minha juventude.  Agora me cobro quem eu sou.  Agradeço a todos, seguirei compondo, os verei algum dia.

Gene ficou furioso, tinha um contrato embaixo do braço, para tentar me convencer, mas lhe disse que não.  Ainda tentou me chantagear, que estava velho demais para procurar novos cantores, lhe disse na cara que se aposentasse.

Aluguei uma casa em Venice Beach, aonde tinha passado bons momentos com Marc na praia, ninguém nos conhecia, como agora, cortei meu cabelo imenso, passei a usar as roupas que antes usava como disfarce, era um a mais entre todos os outros ali, aprendi a fazer surf.

As vezes ria, quando estava no mar, pensando o quanto Marc tinha medo da água.

Tinha algumas aventuras, mas nada demais,  precisava me recompor.  Um dia lendo o jornal, vi um anúncio de um curso de escritura.   Pensei comigo, talvez isso me ajude com as letras que agora me saiam tão complicadas, que me davam um trabalho incrível para colocar para fora.

Justo no dia que começava o curso, logo pela manhã bateram na porta de casa.  Ela o rapaz que tinha dormido com Marc em sua última noite.  O convidei para se sentar, lhe procurei uma cerveja, já que não bebia.

Soltou logo de cara que estava indo a uma terapia para deixar as drogas, aquela noite foi super confusa na minha cabeça. Eu era fã dele, o conheci num bar gay, mas o reconheci em seguida, me fez sinal para ficar quieto.

Todo o tempo me chamava de Rock, mas só depois descobri que era teu nome.  A partir dai minhas lembranças ficaram mais clara.  Ficou um bom tempo sentado comigo na cama, abraçado, passando a mão para minha cabeça, só então entendi que não estava falando comigo, mas sim com quem estava atrás da outra porta.   Por isso de manhã pensei que eras o namorado dele.  Creio que te chamou várias vezes, me segurava a cara, me beijava, me dizendo que o estava fazer beijar outra pessoa, que era a ti que queria, mas chorava ao mesmo tempo, depois me penetrou selvagemente, chorando todo o tempo.  Dizendo, Rock te amo, que vou fazer, que vou fazer.

Quando despertei, o procurei por todas parte, quando olhei pela janela que ficava em cima da piscina, foi que o vi.    Levei uma bofetada na cara vamos dizer assim.  Quando gritei, saíste, era como ver eu mesmo num espelho, mas com cabelos compridos.

Depois descobri que chamavas Rock, aí minha cabeça embaralhou tudo.  Por isso comecei a terapia, para drogas, vou a um psicólogo também.   Foram muitos anos fazendo sexo com quem não devia, me meti em muitas confusões.    Mas uma coisa eu sei, que de verdade ele te amava.

Primeiro claro, entendia que pela cabeça dele isso devia ser um pecado.   Mas quando falava, demonstrava amor.  Acho que nunca terei esse tipo de amor de nenhum homem, queria que soubesses disso.

Eu sei, as lagrimas rolavam na minha cara.  Demorei tempo demais para entender isso, nem sei como, ele foi durante minha infância, minha figura paterna, eu o acompanhava por todos os lados, era sua sombra.   Quando chovia, ou tinha trovões, corria para a cama dele, ficava agarrado a ele.  Sentia que estava protegido.  Na época da escola, havia o famoso bullying, eu foi lá meteu a bronca em todo mundo.

Quando saímos pelo mundo na maldita Motorhome, essa era nossa casa.  A princípio nunca trazia ninguém, via que tinha namoradas, o peguei fazendo sexo com seu agente, mais bem apenas lhe metendo o caralho pelo cu.    Fiquei muito confuso, depois descobri que sempre tinha sido assim, desde um princípio.   Creio que nesse momento alguma coisa se rompeu dentro dele, pois passou a trazer jovens para fazer sexo.   Mas sexo de uma noite, que era o tempo, que estávamos numa cidade.  Ele quando descobriu que eu durante uns dias num rodeio, estive várias noites com um cowboy, ficou puto da vida, me chamou a atenção, ficou bravo comigo, na hora não entendi.   Achei que estava era bancando meu pai.

Tudo foi se estropeando, eu fiz uma música falando disso, me obrigou a cantar, todo mundo gostou, ele não, os jovens se aproximavam de mim, pois entendiam o que eu estava cantando.

Quando por qualquer motivo brigava comigo, me obrigava a cantar essa música.  Ele pensava que eu não via, que saia do palco para cheirar cocaína.     Nossas brigas eram frequentes, pois ele saia, voltava com alguém,  depois chorava, me perdia perdão.  Um dia perdi a paciência, lhe disse que não era nem seu namorado, que as merdas fazia ele sozinho, que eu continuava sendo seu irmão.  Isso foi no dia que ele te conheceu, bateu a porta foi embora, quando vi que vinha acompanhado, fui para o outro quarto.

Eu também vou a um psicólogo, quero entender esse amor dele por mim.  Eu sempre o adorei como se fosse o pai que não tive.  Na verdade, nos dávamos carinho mutuo, pois minha mãe tampouco era carinhosa, estava farta da vida que ela não queria, até que ele sem querer lhe deu a escapatória.   Ele não queria ser cantor, queria continuar na fazenda, lá era seu porto seguro.

Então agora entendo, que ele foi perdendo o rumo durante todos esses anos, sorria, quando queria chorar.  As vezes estávamos na estrada, ele ia olhando o campo, logo tocava no assunto de como era feliz lá.  Que devíamos ter ficado os dois um cuidando do outro.

No fundo, não sei como funcionava a cabeça dele.            Foi um erro não perceber o quanto ele sofria, mas  tinha descoberto uma coisa que amo, escrever músicas que ficam rondando na minha cabeça.   Hoje começo um curso de escritura, para ver se a transformo numa coisa menos complicada.

Nos despedimos, lhe agradeci ter vindo.  Trocamos número de celulares, apertamos a mão, foi como despedir do meu passado.

Gostei do grupo que faziam as aulas, o professor era jovem, lhe disse que nunca tinha chegado a universidade, que escrevia música, que dado a um bloquei, as letras agora surgiam em minha cabeça, muito complicadas, que tinha dificuldade de encontrar palavras, para transformar em uma letra mais fácil de entender.

Voltando descobri que vivia perto da minha casa, me disse que também tinha passado por uma crise que entendia.   Atualmente dava aula, por ser sentir bloqueado no meio de um livro.

Ficamos amigos, conversamos muito.  Quando escrevi uma letra que estava na minha cabeça, foi até em casa para trabalharmos.  Era como se eu quisesse colocar para fora um sentimento que estava num lugar escuro.  Falamos muito nisso.  Aproveitei comecei a analisar esse sentimento com o psicólogo.   O que era afinal que eu sentia pelo meu irmão.  O que tinha sentido quando fiz sexo com ele, além do outro rapaz.  Me fez recordar com detalhes.

Acabei aceitando, que queria estar no lugar do outro, queria que beijasse só a mim.  No meio disso tudo, fui ao casamento da minha mãe.  Não queria, mas fui.  Tivemos uma conversa antes, falamos no Marc.  Ela me contou que na verdade tinha se casado com meu pai, porque estava gravida de outro que a tinha abandonado.   Mas não pensei que ia viver naquele lugar que odiava.    Concordou que ele nunca tinha sido carinhoso com Marc, pois era tão diferente dele, que acreditava que não era seu filho.   Era mais alto que ele, loiro, olhos verdes.  Quando tu nascestes, sim, se via que era filho dele, mas morreu pouco depois.   Marc ficou apaixonado por ti, não saia do teu lado.  Mal eu virava as costas, lá estava ele contigo no colo.

Sei que ele queria ficar lá, mas quando vi o Gene indo para a cama dele, o que faziam, tínhamos que ir embora.   Não fui boa mãe eu sei, devia ter os acompanhado nesses viagens, mas queria uma vida para mim depois de tudo.

Fiquei com pena dela, mas de qualquer maneira, talvez se Marc soubesse que só era meu meio irmão, poderia ter sido mais feliz com o que ele chamava de seu pecado.

Gene foi ao casamento,  estava velho, falou que realmente tinha um bloqueio com suas emoções, que amava Marc, mas não sabia ser carinhoso, achava que ele estando contente dentro de mim, bastava, mas ele queria mais, esse mais eu não sabia dar.  Agora estou sozinho, não bebo, fico horas e horas escutando sua música,  na verdade tua.  Preste atenção, falavas sempre em amor.   Ele quando cantava, era esse amor que ele queria também.

Voltei para casa de um lado confuso, de outro mais relaxado.  Falei com o psicólogo, se achava, se ele sendo meu meio irmão, seria errado ter sexo com ele.                 Me falou de uma serie de personagens que tinha tido sexo com seus irmãos.        Na verdade, nenhum saiu bem parado da situação.

O que acho é que deves procurar um novo caminho para ti, seja compondo, ao ler esta última letra sua, é um hino ao amor entre dois homens.  Achas que algum cantor vai querer assumir isso de cantar essa música.

Comecei a trabalhar na rádio, fazia um programa a partir da meia noite, colocava músicas que gostava, músicas que ia descobrindo, pela própria rádio, as pessoas me ligavam, comentavam coisas.   Um dia quando dei por terminada a música, a toquei no programa.   Contei que a música estava a muito tempo dentro da minha cabeça, mas que acreditava que nenhum cantor ia se arriscar a cantar a mesma.

Apesar de ser de madrugada, o sistema de telefonia da rádio se colapsou.   Achavam que devia ser eu a lançar a música. 

O problema era que não queria voltar outra vez a fazer turnês intermináveis, sem ter tempo para mim.   Fui trabalhando várias músicas, alguém a gravou, publicou no Youtube, um dia vieram me dizer quantas pessoas no mundo inteiro adoravam a música, as ajudava a se entender.

Aceitei uma série de apresentações, em teatros pequenos, formei uma nova banda, alguns da antiga outros novos.  Lá fui eu outra vez, estrada afora.   Mas agora, só fazia capitais. A segunda depois de Los Angeles foi em San Francisco.  O teatro era grande, mas estava lotado.  Subi ao palco, cantei duas canções antigas, parei respirei fundo, essa música agora a lancei no programa que faço.       A fiz para meu irmão, no fundo para mim mesmo, buscava me entender.  A cantei inteira, o silencio era impressionante, quando acabei, a plateia começou a cantar sozinha a mesma, fiquei parado no palco, chorando, agradeci escutar todos cantando era um consolo que necessitava.   Em NYC, foi igual, o público adorava a música.                Circulava no Youtube, quando a plateia cantava para mim.

No final estava louco para voltar ao meu programa da rádio, sentia essas pessoas perto de mim, concordei em dar shows no final de semana quando não tinha programa, mas só uma vez por mês.

Segui a vida em frente, um dia uma pessoa chamou a rádio, soltou, eu sou um cowboy solitário, me chamo Scott,  que um dia encontrou sua alma gêmea, mas a deixou escapar.   Me arrependo muito, será que essa pessoa aceitaria se encontrar comigo?    Quando nos encontramos, aos meus olhos ele continuava o mesmo, nessa noite nos mergulhamos outra vez um no outro.  Nunca tinha tido esse tipo de relacionamento com outra pessoa.    Me contou que tinha um rancho, perto de Nashville, que quando me procurou, meu irmão o espantou, não teve coragem de voltar a procurar, mas ao escutar minha música na rádio, tomou coragem.  Queres passar uns dias no rancho comigo, é pequeno, para que eu possa leva-lo basicamente sozinho.        Tirei férias da rádio, fui com ele, quando desci da sua caminhonete, me senti em casa outra vez, não era igual, mas estava em casa, entendia agora o que dizia Marc, ao falar vendo passar os campos.

Fui ficando, estamos mais de 10 anos nesse ficando, me procuram para cantar em shows daqui, mas não, prefiro cantar para Scott, na varanda da nossa casa.  A sintonia que sinto com Scott, não tem igual.   Quando brigamos por alguma coisa tonta, ameaço ir embora, ele se ajoelha pede que eu fique.  Mas na verdade, nem pensava em passar da porta.

GET AWAY

                                                      

Tinha escapado outra vez da casa aonde estava sob custodia, era sempre mais o mesmo, queriam abusar dele.  Agora com 16 anos, já não era um tonto, com 12 anos tinha conseguido escapar, delatar o sujeito que estava abusando dele.  Um pédofilo procurado, tinha sido vendido basicamente pelo sistema.   Quando o recolheram, prometeram que se testemunhava contra o sujeito, cuidariam dele.   Nada aconteceu, acabou o juízo, foi levado para um albergue de menores, de aonde não podia sair, em seguida, outra vez sobre a guarda de uma família que era desconcertantes, pois ora o homem, ora a mulher invadiam seu quarto atrás de sexo.

A mulher dizia que a culpa era dele, ser um moreno tão bonito.

Nem sabia direito quem era, pois tinha ido passando de mãe em mãe, o que se dizia seu pai, era um louco de muito cuidado, tinha uma aparência espetacular.  Fazia com que as jovens se apaixonassem por ele, dizia que precisava de alguém para ajudar a cuidar do filho, quando a coitada já estava na sua rede a colocava para se prostituir, passar drogas.                  Elas nunca o denunciavam pois achavam que ele as ajudaria.   Só uma não caiu nesse conto, o denunciou, foi preso, condenado, descobriram muitas coisas no seu passado.             O teste de ADN, dele, não coincidia com o meu, fui levado em seguida para um orfanato.  De lá adotado num sistema mal cuidado por um casal, logo fui vendido.    Assim fui levando a vida. 

Desta vez tinha jurado que não voltaria para o sistema de governo, ia arrumar minha vida de qualquer maneira.

Estava ali na parada de ônibus, abaixo de uma chuva torrencial, quando parou um carro ao seu lado, o sujeito já tinha passado antes, ele sabia o que o homem estava buscando.   A conversa mole, queres companhia nessa chuva toda.  Esta ameaçando um temporal de fazer gosto. Venha moro perto.

Ele aceitou, pelo menos, quem sabe podia dormir numa cama.  Mas mais uma vez viu que tinha errado no seu juízo.   O sujeito era daqueles, cheio de músculos, forte, com a cabeça raspada, apesar de tudo conforme o ângulo, era bonito.

Quando entraram na casa, ele já temendo o pior, ficou de sobreaviso.  Viu que o homem tinha todas as janelas fechadas por dentro com cadeado, a porta da cozinha também, o banheiro tinha a janela tapada.  Mal entraram ele fechou a porta com outro cadeado, estava prisioneiro.   O mesmo disse como desculpa, estavam na zona dos tornados.    Estava ameaçando um, que parecia forte.   Realmente o vento fazia um ruído na casa imenso.

Tentou alcançar as chaves, que estavam presas na calça do homem, este lhe deu um murro no peito o jogando longe.  Não tente me roubar.

Eu só quero a chave do cadeado para ir embora.

Nada disso, ainda não fizemos sexo, garanto que vamos fazer muito.

O levou para a parte de baixo da casa, aonde ele viu, aqui posso gritar, que ninguém vai me escutar.   Porra estou fudido.

Viu ali toda espécie de aparelhos para musculatura.   O sujeito, simplesmente arrancou sua roupa, mas quando ele pensou agora ele vai me arrebentar, nada, ficou parado olhando para seu sexo.  Não me enganei, poderemos nos divertir horrores.  Começou a o provocar de todas as maneiras, mas ele estava desesperado, não conseguia ficar excitado.  O homem o algemou mesmo ele lutando contra ele, numa tabua que estava ali meio inclinada.  O fez cheirar algo de um vidro, mesmo contra sua vontade ficou com o sexo duro.  O outro fez de tudo com ele, não podia se mexer ou defender.  Tentou com as pernas dar-lhe patadas, levou foi um puta murro na cara.

Tens que colaborar bonitão, pretendo fazer muitos vídeos contigo.   Os velhos vão adorar, ver esse caralho bonito, moreno.

O deixou ali, ele escutava movimento no andar de cima, mas perdeu a noção se era dia ou noite.   Vou ter que ser engenhoso se quero sair daqui.

Ele desceu com um prato com um sanduiche, coca cola de lata, o soltou, vê se te comporta, abriu um armário que estava na parede, feito de madeira bruta.  Viu uma quantidade de CDs arrumado em fila.  Tudo garotos com quem fiz sexo.

Todos colaboraram, depois foram embora tranquilos, pelo sorriso dele, viu que de tranquilos nada.

Ele colocou uma rádio, com notícias, está dizia que o tornado alcançaria terra dentro de momentos, que todos estivessem abrigados.  Talvez seja minha chance nesse momento, o homem olhava para ele, passando a língua nos lábios.  Não terei como escapar disso, seu caralho ainda estava sob efeito do que ele o tinha feito cheirar.  Passava por ele o alisava, tentava beija-lo. Mas era bruto em tudo que fazia.   Ouviram um estrondo imenso, parecia que a casa se balançava, ele subiu correndo a escada, tinha certeza que se ficasse o homem o mataria, ficaram correndo na parte de cima, como num jogo de gato atrás do rato, não havia muito aonde se esconder, num determinado momento, quando já estava quase sem folego, ele foi se aproximando, com uma faca na mão, desta vez tu passaste não acabou a frase, o teto inteiro desabou em cima dele, as vigas todas da casa de madeira, caíram sobre suas costas.  Ele correu na parte de baixo, procurou roupa para vestir, encontrou roupa que devia ter sido de algum outro garoto, cheiravam a mijo, seja quem fosse tinha mijado na calça, não importava, uma camiseta que também cheirava a mal,  escutou outro estrondo, se caia mais uma parte da casa.

Apesar das luzes piscando, viu que no armário aberto, tinham um portátil, bem como uma caixa de metal. As chaves estavam na porta, procurou uma que pudesse abrir a caixa, dentro muito dinheiro, bem como uma agenda de direções, deviam ser seus clientes.  Na parte de baixo viu uma mochila de couro negra, enfiou o dinheiro dentro de um saco de plástico meteu tudo ali.

Buscou um casaco para sair no meio do temporal.  Calçou seus tênis velhos, ainda dava para usar, todos seus movimentos eram automáticos, desesperados.

Pegou uma barra, que dessas que se usam para colocar pesos, subiu, viu que ele tentava sair debaixo das vigas.  Chegou por detrás, acertou na sua cabeça a barra várias vezes, viu quando ele caiu. Foi a cozinha lavou a barra, desceu, a colocando no lugar.   Esses anos todos presos em casas desconhecidas, aonde o que podia fazer era ver filmes, por puro instintos, pensou tenho que destruir tudo, levou as chaves para cima, abriu a porta da cozinha, que dava para uma garagem.   O carro estava ali, viu vários galões com líquidos amarelos, cheirou, era gasolina, subiu com dois, foi jogando nos moveis, gastou esses dois, voltou por mais, um derramou pela escada abaixo, inclusive no armário.   Foi até o homem, se lembrou de um filme que o sujeito coloca o celular no micro-ondas, esse explode, colocando fogo na casa, de um outro filme Shooter o ator Mark Wahlberg, explode a casa, rompendo a tubulação do gás,  procura como tinha visto no filme a ligação, a rompe abre a porta da cozinha, joga uma caixa de fosforo que estava por ali, na gasolina, foi como se iniciou o incêndio.   A explosão já escutou um tempo depois escondido detrás de um tronco de árvore imenso que tinha caído com o tornado.

Depois correu o mais que pôde, com a mochila nas costa, com a chuva lhe atrapalhando a visão, vais adiante, viu como um celeiro, a casa tinha voado inteira, mas o celeiro só estava inclinado, não viu viva alma.    Ali encontrou um baú cheio de roupas de algum garoto de seu tamanho, inclusive umas botas, de couro.  Trocou rapidamente a roupa molhada, a colocando num saco de lixo.     Como lhe ficavam bem, escolheu mais uma calça jeans velhas, bem como camisa de quadros, camisetas, uma cueca já amarela pelo tempo.

Nesse momento a chuva e o vento, deram uma parada, saiu correndo, por detrás se via uma estrada em direção a cidade de aonde tinha vindo.  Sabia que a parada não estava muito longe, viu ao longe ainda as chamas da explosão.   Correu tudo que pode.  Quando estava na parada passou uma senhora num chevrolet velho, parou dizendo, hoje não creio que apareça ônibus nenhum por aqui, vou a cidade mais próxima, que está fora do círculo do furacão, esse vai voltar logo, é um perigo ficar ai.   Era uma senhora de idade.

Não parou de falar, sem perguntar nada a ele, minha casa ficou arrasada, o celeiro meio caído, menos mal que me abriguei na casa de uma vizinha que é de material resistente, vou para a casa da minha filha, os telefones não funcionam.    Parece que a casa do homem estranho que se mudou a meses atrás, foi destruída por uma explosão.   Aquele homem me metia medo.

Estava sempre com todas as janelas fechadas.  O único momento que perguntou o que fazia ele por ali.   Estava esperando um ônibus, para ir para San Francisco, foi o nome que saiu nesse momento.

Então te deixo na estação de ônibus.  Acho que tem um que sai dentro de duas horas, disse olhando seu relógio.   Como é seu nome?

Mark Berg, disse usando o nome do ator, mas só o final de seu sobrenome.

Muito bem Mark, espero que o tornado não alcance o ônibus, riu muito de sua piada.

O deixou justo na frente da estação.   Espere, abriu uma bolsa que estava no chão, minha amiga é exagerada, me deu dois sanduiches imensos, não acredito que bar da estação esteja funcionando.   Pelo menos ainda estava seco.

Viu numa placa que o ônibus para San Diego saia em 15 minutos, correu ao guichê, pedindo um bilhete, o homem mal olhou, se tivesse olhado, teria visto um garoto assustado.

Até a metade do caminho, só tenho um lugar no final do ônibus, depois troque de lugar. 

A ele lhe importava uma merda isso, pagou, entrou correndo no andem da estação, viu aonde estava o ônibus, o condutor já estava dentro, vamos, que o temporal volta em minutos, se consigo pegar a estrada, será mais fácil.

Mesmo assim o começo da viagem foi emocionante, pois ao longe conseguiam ver os estragos que fazia o furacão, animais voando, telhados desaparecendo num sopro.   Parecia um filme de ação, ficou colado a janela, até que toda essa paisagem desapareceu, ficou escuro como a noite, começou a chover sem parar.    Na parada seguinte, uma família que estava mais à frente desceu, mas não subiu ninguém, o condutor ainda esperou uns minutos, mas nada.  Creio que com esse tempo desistiram da viagem.  Seguiu o caminho, ele mudou de lugar, pois o final do ônibus era desconfortável.  Em seguida se relaxou, usou a mochila que com as roupas, lhe serviam de travesseiro, ao mesmo tempo que a protegia com o dinheiro que tinha dentro.

Não tinha ideia de quanto tinha, mas era algo para ele começar a vida. Dois dias e meio depois iria chegar a San Diego, ficou tentado em várias cidades a descer, principalmente em San Antonio, ou Tucson, ao descer na Estação, mudou de pensamento, se me buscam, irão a San Diego,  comprou um bilhete para San Antonio, tinha deixado no ar, San Francisco e San Diego, se é que iam procura-lo.

Quando chegou a San Antonio, buscou um hotel pequeno para se hospedar.  Nessa noite contou o dinheiro que tinha na mochila, tinha mais de dez mil dólares em notas grandes.  Uau pensou, posso me virar, mas na verdade preferia procurar um trabalho.  Entrou numa loja que vendia de tudo, comprou umas calças, bermudas de surfistas, duas camisetas, cuecas e meias, viu um tênis barato também colocou no carrinho.

No caixa quando estava pagando, perguntou se não sabia de nenhum emprego para um jovem, preciso trabalhar.

O homem chamou uma senhora de cabelos compridos brancos que estava falando com outra senhora.   Melissa, não procuravas alguém para fazer pequenos serviços, o rapaz está procurando emprego.

Ela o olhou de cima a baixo, que sabes fazer?

De tudo um pouco, vivi em casas de acolhida, aonde me faziam trabalhar de tudo, até cozinhar um pouco eu sei.  A mim me basta olhar para aprender, gosto de prestar atenção aos outros trabalhando, nunca se sabe se vamos precisar ou não.

Como te chamas?

Mark Berg, nem sei por que tenho esse nome, já que meu pai era mexicano, minha mãe não sei, pois nunca a conheci.

Bom eu moro perto da praia, posso precisar que venhas comprar material para mim, passar máquina no jardim que dá para a praia, as vezes preciso de algumas coisas da cidade. Sabes conduzir?

Não mas posso aprender, ou posso ir de ônibus se for longe, ou andando se for perto.

Bom tenho um pequeno apartamento no fundo da casa que antigamente quando vinham muitos surfista por aqui eu alugava, mas acabavam me dando dor de cabeça.   Podes ficar lá, tem cama, banheiro com chuveiro, até uma pequena piscina.

Ela transmitia confiança. Na caminhonete velha, foi dizendo que era pintora, mas hoje em dia vivendo de sua velha gloria, pois ninguém se interessava mais por seu tipo de pintura, herdei de meu marido, essa casa, por isso vivo aqui.  Não é nada demais, na verdade não passa de uma cabana, no meio dessas casas de veraneio.

Tens bagagem?

Não senhora, só o que acabei de comprar, essa mochila, com outra muda de roupa, mas a cueca já está cheirando mal, bem como a bota.  Tenho que jogar fora, pois estiveram molhadas, nem eu aguento o cheiro. 

Devias ter comprado um chinelo para andar pela praia, mas no puxado atrás, deve ter alguma esquecida pelos surfistas.

Quando chegaram mostrou primeiro o lugar para ele, ficava na frente da praia, ele ficou deslumbrado, era muito bonito.  Depois de colocar o carro num puxado ao lado da casa, lhe mostrou o que ela chamava de apartamento,  era um quarto comprido, com uma cozinha num armário, bem como um banheiro pequeno, mas ele podia tomar o banho ali.

Devias ter comprado escova de dentes, sabonete, bom eu te arrumo isso, da próxima vez, compras, reponha na minha dispensa.  Venha lhe vou dar uma toalha de banho, roupa de cama, depois também compras para ti, pois sou muito desligada, sempre me esqueço de comprar essas coisas.   A cozinha de sua casa era boa, grande, ali estava a televisão, com duas poltronas, faço meu final de dia aqui, ou sentada na varanda vendo o por do sol.   Não gosto muito de cozinhar, faço o básico.  De noite sanduiches.  Ao falar isso a barriga dele começou a roncar.

Ela riu, toma a toalha o sabonete, a roupa de cama, tome um banho, jogue essa roupa suja no lixo, bem como essa bota, agora sinto o cheiro.

Ele fez isso, quando saiu do banho, ela o chamou, vamos sentar na varanda da frente, olhar o pol do sol acompanhada, será bom,  deu uma lata de coca cola para ele, atravessaram o salão ele ficou de boca aberta, o salão era seu studio de pintura, ficou parado na frente de um quadro que era a paisagem de um por do sol.  Chegou a sentir lagrimas nos olhos de tão bonito que era.

Ela sorriu, ganhaste meu coração garoto.  Amanhã durante o dia, me limpas o studio, eu te mostro meu trabalho.  Se sentaram fora, ficaram vendo o por do sol  em silencio, era impressionante, a praia estava vazia.

No sábado iremos a um lugar que fazem um mercado, isso se fizer sol,  ali aproveito para vender telas pequenas com paisagens, que uso como dinheiro para comprar material, algo de comida.  Assim economizo, me ocupo também, enquanto não vem o click para pintar algo grande.

Se sentia bem ali com o corpo lavado, a cabeça parecia que tinha barro de tanta sujeira que saiu. Ficou super contente.                       

Ela disse que gostava de dormir cedo, no verão é mais problemático, porque tem muito turista, no final de semana sempre, gente que vem ou de San Francisco, ou de Los Angeles, que tem casa aqui na praia.

Se tem ondas, muitos surfistas, jovens, os que tem carro, essas coisas vão a outras praias.

Pela primeira vez em dias dormiu contente, enfiou a mochila no fundo da cama, se ela tentasse pegar, ele saberia.

Mas acabou dormindo como uma pedra, só despertou com o ruído na casa.  Se levantou lavou a cara, colocou uma camiseta nova, as bermudas de surfista, como ela disse, ali tinha uma sandália dessas de dedo.  Descobriu também uma bicicleta que os pneus estavam murchos além de um skate.  Isso ele sabia usar.

Ela o chamou para tomar café.  Depois o levou para o studio, varra tudo por aqui, tinha um pote cheio de pinceis sujos, ela lhe ensinou como limpar, como os deixar secando.  Tinha um bloco imenso num cavalete preso com uma pinças, o desenho de um homem, velho, cheio de rugas.
Ao lado uma foto de aonde estava tirando o desenho.   De um viagem a Marrocos que fui, a muitos anos atrás com meu marido, ele escrevia, eu pintava, ficamos mais ou menos 3 anos percorrendo o Pais, por isso tenho muitas fotos que estou usando agora.

Veja esse quadro, era uma garota, com um menino pendurado atrás, recolhendo ervas, muito bonito, a expressão da garota era de tristeza.  Quando comentou isso, rapidamente ela respondeu, a vida das mulheres nesse lugares é uma merda, estão desde criança fadadas a serem uma mulas de carga.   Os homens não fazem grande coisa, a maioria fica rezando ao Alah, tomando chá.

Quando ele acabou de limpar os pinceis, pediu que limpasse umas espátulas, tenho horror a fazer isso, com os anos piorou, explicou como se limpava, deixar de molho, ir raspando uma com a outra.

Olhe a geladeira, vê se consegue preparar algo de comida com o que tem.  Para mim pode tostar pão.

Ele olhou, procurou aonde cozinhar, preparou uma salada com o que tinha na geladeira, depois fez ovos fritos dois para cada um, tostou o pão.

Quando a chamou, teve que o fazer várias vezes, estava tão concentrada no que fazia que não via mais nada.

A chamou de perto, ela levou um susto, me esqueci de ti.

A comida vai esfriar.

Se sentaram para comer, disse que os ovos estavam como ela gostava, para molhar com o pão, me lembre de te dar dinheiro para comprar comida no supermercado, lhe explicou como ir.

Vou arrumar aquela bicicleta que está no quarto detrás.

Era do meu marido, creio que ao lado do supermercado tem um senhor que arruma. Ele sempre levava lá.

Lhe deu dinheiro, para compras, a bicicleta ele disse que tinha um pouco de dinheiro.  Foi andando até aonde ela tinha falado, deixou a bicicleta com o homem, que ia arrumar enquanto ele fazia compra.   Tinha olhado tudo que faltava na geladeira. Anotou mentalmente, não sabia escrever direito, ler sim, mas escrever tinha dificuldade.

Comprou com seu dinheiro, blocos de desenho, lápis de cor, um estojo de aquarela de criança, de tarde se sentou olhando o mar, foi desenhando, depois tentou usar a aquarela, ria como uma criança, porque ia fazendo por intuição, não notou que Melissa estava atrás dele olhando.

Não está mal, mas o papel não é apropriado para isso, espere, foi buscar um bloco especial para aquarela, lhe explicou como se fazia. Tens quer ser rápido, pois o papel absorve a tinta, precisas tentar colocar uma por cima da outra para dar certo, fez um exemplo para ele.  Entendeu?

Sim, vou experimentar, um pouco depois fazia numa velocidade boa para quem faz aquarela.

Ela ficou admirada com a destreza dele, foi ensinando ele a trabalhar.   No final de semana, se sentou depois de suas obrigações, observando os surfistas, pintando os mesmo, ia fazendo tirando a folha do Bloco para  secar, as vezes retornava a mesma para mais alguns detalhes.

Melissa estava encantada com o trabalho, lhe ensinou como fazer sua assinatura, com um pincel mais fino.  Podes fazer um M.B. junto o ano. Assim documentas que época pintaste isso.

Ele sorriu sem graça, disse para ela, na verdade não sei meu nome, pequei esse nome de um ator de cinema, abreviei para não ser igual ao dele, Porque para mim é difícil escrever o nome inteiro dele.

Não sabes escrever?

Muito mal, nunca ia a escola tempo demais, pois ou era abandonado, ou ia para outra família, algumas não me colocavam em nenhuma escola, queriam o dinheiro que o governo paga para elas.

Vamos resolver isso, vou arrumar uma professora para ti, mas tens que te aplicar.

Tinha uma vizinha na parte de trás, tão antiga como ela ali na praia, tinha sido professora, quando ele lhe quis pagar.        Disse que não cobrava, porque seria uma distração para ela, se aborrecia de não ter o que fazer.          Ficou pasma com a facilidade que ele tinha de aprender, misturada como desejo de saber mais.   Ensinou tudo o que pode para ele, inclusive matemática prática, de como conferir um troco, coisas assim.   Uma vez por semana ele fazia compras para ela nunca ficava com o troco, prestava contas exatas.  Melissa achava isso engraçado, porque os de sua idade, com certeza iriam ficar com o troco.

Sempre tirava tempo para andar de skate pela linha de praia, pois mais adiante havia uma avenida que na verdade não passavam carros, era como um passeio largo acompanhando a praia.

Depois se sentava ali na frente da casa, desenhando ou fazendo aquarelas, quanto teve uma boa quantidade, acompanhou Melissa a feira, ajudou a carregar a barraca que ela usava, a arrumar os quadros pequenos, o ensinou a colocar as aquarelas, num envelope, que um lado era transparente.  Resulta que no primeiro dia ele vendeu todos, gostavam da coisa do surf.

Para a próxima prepare mais, vou te ensinar a trabalhar com tinta acrílica, que pode ficar melhor, preparou das duas coisas, um dia ficou de boca aberta, ao longe apareceu um veleiro, ele foi desenhando a aproximação do mesmo, depois ficou na linha atrás dos surfistas.   Ele desenhou e pintou os dois juntos.

No dia da feira, foi vendendo, até que parou um casal na frente deles, dizendo olha nosso veleiro aqui, o rapaz nos acompanhou.  Era um homem alto, com uma mulher muito bonita, um rapaz da idade dele.  O  mesmo disse que o tinha visto desenhando na praia.

Não sabes fazer surf?

Não, mas gosto de olhar mais do que pensar em fazer.

Nos dias de feira de peixes, ia ficava anotando detalhes dos peixes, passou a ilustrar com eles seus desenhos.  Cada vez ia acrescentando mais coisas.

Os anos foram passando, quando acreditava que fazia 18 anos, já tinha aprendido a conduzir a caminhoneta de Melissa.  Mas precisa de documentos.

Um dia a viu remexendo umas gavetas, procurando documentos.  Até que achou.

Meu filho morreu no Marrocos, contraiu uma doença, nunca disse aqui que tinha morrido, que achas de usar o nome dele oficialmente.

Como era o nome dele?

Robert Montgomery, mas podes seguir usando esse de Mark Berg como se fosse teu nome artístico, fica melhor.

Foi com ele, tirar os documentos, meu filho precisa de seus documentos, para tirar carteira de motorista.  Atualizaram tudo, oficialmente ele era agora Robert Montgomery, além de filho da Melissa.

Agora ela a levava a todos os lados, um dia pediu para colocar na caminhoneta os quadros grandes que estava no studio.    Os embalou todos antes, depois entre um e outro, colocou lençóis velhos que ela usava para limpar pinceis.

Quando chegaram a San Francisco, ela tomou a direção, pois conhecia o caminho aonde iam.

Foram a uma galeria, que comprou todos os quadros dela.  Dali foram a um banco, ela abriu uma conta no nome dele, depositando tudo.  Assim se me acontece alguma coisa, estas coberto, depois ela foi a um advogado, lhe mostrou ali perto uma loja de material de pintura, os alunos de Belas Artes, compram ali.  Leva meu cartão de artista, diga que é uma encomenda para mim, olhe o que queiras, assim podes seguir pintando. Ele fez todas as encomendas dela, foram dormir num hotel, ela se registrou com seu nome, o apresentou como seu filho.

No dia seguinte foram visitar um museu, que ela queria mostrar umas obras suas antigas, que vais gostar, são de uma época que pensava diferente.

Tinha um muito grande, ele ficou sentando num banco mais atrás admirando.  Te sentias exuberante não é, qual idade tinhas.

Quando ela disse, ele sorriu, estavas solteira e apaixonada, não é verdade.

Sim, mas era por outro homem, o verdadeiro pai de meu filho, me abandonou no dia que ele nasceu, disse que não tinha madeira para ser pai. 

Mas quando me casei, meu marido adotou meu filho.    Infelizmente ele não viveu muito, tinha uma saúde frágil, no Marrocos contraiu uma doença normal ali nas crianças, mas não resistiu.

Agora que falas nisso, quando eu morrer levas minhas cinzas para enterrar com ele, vou deixar escrito aonde ok.   Foi em Fez uma das antigas capitais do pais.  Foi lhe falando da cidade, da sua cor, do Zocco, era como se ele estivesse vendo, eram tantos os detalhes que ele ficou com a cabeça cheia.   Em casa tenho uma serie de fotografias de lá, depois te mostro.

Agora dava aulas para ele de pintura a óleo, lhe foi aumentando o tamanho dos quadros, em breve os dois dividiam o studio.

Um ano depois, estava trabalhando, quando olhou para ela, estava sentada, sem se mover, ficou assustado, chamou uma ambulância como tinha aprendido fazer.  Eles a levaram para o hospital, ela tinha tido um pequeno enfarte, mas em consequência disso passou a ter os movimentos complicados, ficava horas sentada na varanda, as vezes a via falando com alguém.             Um dia perguntou com quem falava.   Com meu marido, com meu filho, amigos que já partiram.  Explicou a ele o que deveria fazer se ela morresse, quero ser cremada, nada de missas ou qualquer outra coisa.  Lhe entregou um cartão, chames imediatamente esse advogado. Se for num final de semana, chame esse outro número que é o seu particular.   Escreveu num papel tudo como queria.

Ele pediu se ela podia posar para ele, fez um quadro grande dela sentada numa cadeira da varanda dessas trançadas, com um vestido florido que tinha, com seus imensos cabelos brancos soltos pelos ombros.    Ele pensou que não conseguiria, mas ela ficou emocionada ao se ver através dos olhos dele.

Está perfeito meu filho, agora só o chamava assim, nunca podia imaginar que herdasses de mim o talento, as vezes confundia realmente ele com o filho que tinha tido, o chamando inclusive de Robert ou Bob.

Os da galeria vieram visita-la, ela pediu para ele mostrar todos os quadros que tinha feito do Marrocos a partir das fotografias dela.   Parece como se estivesses lá, ela teimou dizendo que seu filho tinha estado lá com ela.  Ele tinha escutado ela falando de cada fotografia com tanta paixão, que sentia isso ao pintar.

Ficaram interessados em fazer sua primeira exposição.  Quiseram lhe oferecer um contrato, ela telefonou ao advogado que mandou um rapaz recolher o contrato para ver.   Disse ao Robert pois o conheciam assim, que não assinasse nada, que fosse sempre livre.

Marcaram a exposição, parecia que era ela que ia expor, foram juntos para San Francisco, ele disse como era para colocar os quadros, disse para escreverem ao lado a história, ela ditou a uma secretária o que devia escrever.  Ele tinha pintado suas memorias.  Ela nunca tinha pintado nada de lá, porque lhe lembrava o filho.   Agora que ele voltou, eu amo isso.

Na inauguração, estava sentada num cadeirão como num trono, falando com as pessoas, os que a conheciam murmuravam, como esse reencontro com o filho lhe fez bem, está menos agressiva.

Venderam 90 por cento dos quadros, saiu matéria no jornal.   Ele só não quis vender o quadro grande dela.

Semanas depois morreu dormindo, com um sorriso nos lábios, ele pensou ela encontrou com o marido e o filho.   Avisou o advogado, ela deixou uma serie de coisas para serem feitas, não tenho experiencia nenhuma nisso.

Um deles veio, providenciou tudo, como ela queria ser cremada, num caixão simples de pinho, com a mesma roupa do quadro.  Que ele levasse suas cinzas para Fez, tinha uma indicação, tumulo número 97.

Ele devia depois escutar a leitura do testamento.

Perguntou que é um testamento.  O advogado lhe explicou.

Foi até lá com o coração apertado, teria que deixar a casa aonde tinha sido tão feliz, tinha aprendido uma nova profissão ali.  Agora tinha dinheiro no banco, não só o que ela tinha depositado, bem como o da sua própria exposição, numa das vezes que foi ao centro da cidade depositou o dinheiro que tinha escondido, não tinha usado quase nada.

Estranhou, pois pensou que teria mais gente para escutar o que o advogado ia falar.

Eres como seu filho o único benificiário de seu testamento, ela te deixa tudo, a casa, o dinheiro que tinha no banco, bem, como a caminhoneta.  Deixou uma carta para ti também.

Voltou para casa, agora era dono de uma, depois iria ao banco, se sentou na varanda para ler a carta.

Meu querido Bob,

No dia que te vi na loja, primeiro levei um susto, eras parecido ao meu filho, tinha a mesma cor de pele dele, dos olhos, esses teus cabelos que estavam tão sujos.

Quando te vi desenhando pela primeira vez, pensei meu filho vive nesse garoto, passei a te amar como se fosse ele, tratei de te ensinar tudo que sei, pois tenho certeza que serás melhor do que eu fui.

Eres rápido desenhando, eu sempre fui lenta, por isso fazia fotografias.

Encheste meu final de vida, que não podia ser melhor, te deixo o meu studio, tudo o que possa possuir, só te peço aquilo que te disse, leve minhas cinzas para perto do meu filho.

Um beijo nesse teu coração imenso.    Melissa.

Ele ficou ali na varanda, tinha realmente perdido a mãe que nunca tinha tido,  olhava agora o por do sol, com que esperando que ela viesse se sentar ao seu lado.   Continuava dormindo no quarto detrás.

Nunca tinha subido ao andar de cima, era somente dela.

Foi uma surpresa, encontrou quadros dela quando jovem, fotos imensa dela, sentada como no quadro que ele tinha pintado.  Ela o marido, o filho, esse realmente se parecia com ele.

Quando recebeu as cinzas, procurou saber como devia fazer para ir até Fez.  Dali não havia voos diretos, na agência de viagem lhe aconselharam ir até Londres, de lá a Casablanca, alugar um carro, ir a Fez.    Lhe arrumaram um Riad para se hospedar.  Lhe explicaram que a maioria falava francês, mas alguns falavam inglês.

Conseguiu uma licença para levar as cinzas, dentro de uma maleta de mão.  Fez um voo San Diego, Londres, de lá outro até Casablanca, eram muitas horas de voos para quem nunca nem tinha subido num avião,   Arrumou um hotel, perto da praia para se hospedar.  Ficou dois dias ali, sentando olhando o mar, estava guardando tudo na sua cabeça.   Mas no segundo dia, saiu com seu bloco de desenho, sentou-se no cais, começou a desenhar tudo, as crianças vinha ficar perto dele.  Ele lhes dava uma moeda, ela se sentavam quietas para que ele as desenhassem, ficavam impressionada com a rapidez com que ele desenhava.  Alguns realmente posavam, gostavam de fazer isso.

Falavam com ele em sua língua, era como se ele as entendesse.

No dia seguinte recolheu o carro comprou um guia, conversou numa agencia de viagem, que lhe fizessem um roteiro,  iria primeiro a Fez para cumprir sua obrigação,  depois iria devagar aos lugares que lhe interessavam.

Lhe traçaram um roteiro.   Iria direto a Fez, aonde tinha o Riad reservado, de lá na volta iria visitar umas ruinas romanas, entre Fez  e Mequinez,  lhe disseram o que visitar lá.  Foram reservando para ele todos os Riad.  Voltaria a Casablanca, de lá iria bordeando o mar até Esauíra, lá ficaria 10 dias num Riad, depois iria a Marrakesh, a Uazazate, voltaria a Marrakesh, Casablanca, por último se ele decidisse a Rabat, mas lhe disseram era francesa demais.

Levou três meses fazendo esse viagem, a quantidade de blocos de desenhos que comprou era imensa, caixas de lápis de cor, outra quantidade, ainda material para aquarela.  Em alguns lugares dormiu no furgão que tinha alugado, em praias, em aldeias de pescadores, aonde parava para conversar, desenhar.   Estavam acostumados com turistas que faziam fotos, mas que desenhasse não. Ainda mais que tinha a mesma cor que eles, deixou os cabelos crescerem, estava sempre com um turbante em volta da cabeça, como eles usavam.  Sem sentir foi aprendendo a falar, a entender o que lhe diziam.  Em Esauíra, se deliciou desenhando, fazendo aquarela dos barcos, de uma praia cheia de surfistas.  Um deles inglês, lhe perguntou se queria fazer sexo, pensando que ele era dali.  Quando disse que era americano, ficou olhando para ele, nesse dia ele se questionou, porque nunca se interessava em fazer sexo.  Talvez pelo que tinha sofrido, não sabia explicar.

Em Marrakesh, fez a mesma coisa, entrou nos palacios que podia se visitar, desenhou os pátios, contratou um guia que o levou aonde ele tinha pedido.  Foi visitar a casa Majorelle que pertencia ao YSL, passou horas ali desenhando, bem como La Cotovia uma torre impressionante de uma mesquita. Visitou também La Menara, um belo lugar, mas sua paixão pelas cores o levou mudar toda sua viagem, em Uazazate.  Ficou conhecido por lá, passava os dias pelas ruas estreitas, desenhando as mulheres com ruas roupas coloridas, bem como os homens com seus turbantes, anotava detalhes de portas de madeira, bem como lâmpadas.   Comprou tapetes de Lã para levar para a casa da praia.  Voltou a Marrakesh, mas só dormiu uma noite, foi para Casablanca, conseguiu despachar tudo que tinha comprado, que lhe aguardasse no aeroporto de San Diego.  Mesmo assim pagou um excesso pelos seus cadernos de desenhos.  Quando desembarcou em Londres, uma aeromoça lhe chamou atenção pois estava de turbante, cuidado pode complicar sua entrada.    Claro ele estava de barba grande,  cabelos imensos, chamava muita atenção.  Mudou de roupa no banheiro do aeroporto, seguiu para San Diego.  Alugou um furgão tinha se acostumado a usar um.  Levou horas para liberar tudo que era seu que estava no aeroporto como coisas despachadas.  Só o seu material, eram duas caixas de cadernos.

Avisou o Advogado que já estava de volta, contou como tinha sido emocionante, encontrar o que ela tinha lhe pedido.  Tinha feito inclusive um desenho baseado na fotografia que tinha encontrado no andar de cima, o tumulo, o jarro com sua cinzas, ela junto como filho como na fotografia.

Os da galeria queriam ver todo material que ele tinha trazido.  Os convidou para passarem o final de semana, pois era um casal gay, lhe cedeu o quarto dela. Que estava igual. Os deixou foleando horas e horas todo os cadernos.

Disse que faria por sequência da viagem.  Que pensavam em arrumar o studio primeiro, depois começaria a trabalhar.  

Os dois comentaram com ele, que nessa viagem ele tinha deixado de ser um garoto, para ser um homem diferente.                  Lhes contou o que tinha acontecido com o Surfista em Esauíra, da confusão que o rapaz tinha feito.

Porque não ficaste quieto, aproveitavas fazia sexo com ele.

Isso queria falar com vocês, tenho confiança para isso, fui tão abusado em criança, que não me sinto a vontade, nem com vontade de fazer sexo.  Pode me aconselhar um psicólogo para que eu possa conversar, terei que ir a San Francisco.   Assim converso com um.

Aqui mesmo vive um amigo nosso, já tem uns cinquenta anos, mas é uma pessoa agradável, telefonaram para ele, este foi até a casa.  Ficaram andando na praia, ele contou mais ou menos o que tinha acontecido, os primeiros abusos que tinha sofrido nas casas de acolhida.

O Cristóbal, disse que tinha encontrado um lugar incrível para conversarem, podia usar sua varanda.

Estiveram ali sentados conversando muito tempo.  Falou da viagem que tinha feito ao Marrocos, a emoção que tinha sentido, cumprindo os sonhos de sua mãe postiça, na praia, quando perguntaram se queria fazer sexo, que se deu conta que não pensava no assunto.

Evidentemente estás te protegendo a muito tempo dessas recordações,  quando chegaste aqui encontraste um lar, um oásis para descansar.  Seguiram falando vários dias.

Um dia Cristóbal chegou o encontrou colocando na tela um desenho, perguntou de aonde era?

Fez, Marrocos, aonde estive como te contei.  Estive andando pela Judiaria de lá, vi esse símbolo numa sinagoga antiga, pegada ao cemitério. 

Minha família esteve por lá, contou o Cristóbal, meu filho acaba de retornar de uma viagem que fez a España, buscando a origem dos nossos antepassados, foram expulsos primeiro de Castilla, foram para Granada, finalmente atravessaram o estreito, viveram em Fez, para ele foi muito importante isso.  Ele encontrou um diário de meu bisavô, quando veio para América, aqui foi interessante o mesmo deixou de acreditar em qualquer deus, nunca mais praticou nada, nem o Sabbat, nem circuncisão dos filhos nada. Meu pai tampouco, sabia que era judeu, mas isso não lhe importava, o meu filho ao contrário, necessitava depois de ler o diário, refazer o trajeto do avô, inclusive fala o dialeto Sefardita, bem como o Árabe.   Como te entedias por lá.

Foi interessante, pois ao final eu os entendi. Aonde ia estava cercado de garotos, eles falavam sem parar, só faziam silencio quando me viam desenhando.  Em Uazazate, aluguei um burro, para levar cavaletes, meu material, para desenhar a cidade por fora, me acompanhavam o tempo todo, espera.

Procurou um desenho que tinha feito, dos meninos cercando o burro, tomando banho num riacho ali.   Fiz esse auto retrato também, ele no meio da garotada.   Um dia no Riad, me olhando no espelho, com turbante, roupas dali, me fiz um autorretrato assim também, sempre me parecia mais um deles.       Os velhos também me recebiam bem, pois era educado, antes de desenha-los, perguntava se podia.  Oferecia chá para eles, eles achavam graça dos garotos me seguirem.   Dizia que eu os estava ensinando a serem respeitosos com os mais velhos.

Posso trazer meu filho aqui?

Claro que sim, não tenho amigos da minha idade, as vezes o filho do vizinho vem de férias, mas como faz surf o tempo todo quase não o vejo.    No último verão veio acompanhado de um amigo da universidade, fez que não me conhecia.

Essa coisa dos preconceitos já conheço de longa data, quando era mais jovem me incomodavam, um dia perguntei a Melissa, ela disse que todos não passavam de uns tontos porque tinham dinheiro.

Dias depois ele apareceu com o filho, estava justamente pintando um homem do Zocco de Fez, sentado em sua pequena loja de telas de lã.   Tinha lhe encomendado um traje, um casaco que o homem tinha costurado tudo a mão, numa velocidade espantosa.   Esse seria o seguinte quadro.

O filho era mais moreno que o pai, talvez pelo sol da praia.  Joseph estendeu mão, que maravilha teu trabalho. Eu atravessei o estreito, para ir a Tanger, aonde se perde a pista da família, para aparecer mais tarde aqui.

Na sinagoga de Fez, tem uma lista de pessoas que habitavam ali, pode ser que consiga alguma informação, a dona do Riad, era uma Francesa, Judia segundo ela, tinha se casado com um árabe marroquino, por isso vivia lá.   Te dou o telefone, pede para ela verificar.

Ficaram conversando um tempo, perguntou se podia voltar no final do dia para seguirem conversando.  

Lhe disse a hora que costumava parar para ficar olhando o pôr do sol.

Na hora exata, ele tinha acabado de tomar banho, estava com os cabelos molhados, como um cachorro, o outro riu, fazendo a comparação, balançou a cabeça, o molhando, pediu desculpas.

Foi buscar Coca-Cola, ele seguia sem gostar de bebida alcoólica. Joseph perguntou porque, não sei talvez da minha infância, quando via gente drogada ou alcoolizada, peguei pavor de me imaginar assim.

Agora ele vinha todo dia conversar.  Lhe falava de Sevilla, Córdoba, Granada, aonde tinha estado na España, buscando fontes de referência da família.

Acho interessante meu pai nunca se interessar por isso, mas creio que foi sua educação, ele disse que leu o diário do bisavô, como se fosse um romance.

Cada um na verdade tem uma maneira de reagir.  Eu só comecei a me questionar minha sexualidade, quando me confundiram com um marroquino, me perguntando se queria fazer sexo.  Quando respondi em inglês, que era americano, desistiram no ato.

Levo tanto tempo embutido nessa capa de proteção que nem sei como será o dia que me interesse por alguém.

O outro ria, eu ao contrário, imagina, queria descobrir de aonde tinha saído, quando cheguei na España, era um gringo, todos queriam fazer sexo comigo.  Os olhava, meu interesse era outro, quando perguntava se tinham alguma ascendência Moura, como eles chama os árabes, mudavam de assunto no ato.

Também tinha colocado minha sexualidade a parte.   Me questionava coisas que mais tarde quando estendi minha viagem a Israel entendi.   Agora os Gays de lá são mais livres, mas antes estavam dentro de um armário a sete chaves.    Mas realmente sou como tu, necessito de tempo para me interessar, me tornar amigo pelo menos.    Acredito sempre nisso, que há que ter uma amizade também nesse relacionamento, não pode ser só sexo, pois este acaba, o que fica é a amizade.

Vinha ver todos os dias seus trabalhos, viu o desenho do seu autorretrato, soltou que ele ficava super interessante vestido assim.  Se fosse contigo para cama, ia pedir que colocasse um turbante.  Ficaram rindo.

Se queres posso colocar, não sei por que fiquei excitado.

O levou para seu quarto no fundo da casa. 

Joseph perguntou se esse era seu quarto apenas para fazer sexo?

Olha podia ter-me mudado para o quarto da Melissa, mas para mim é um santuário, gosto de continuar vivendo aqui.  É simples não preciso de muita coisa, tirei sim a estante aonde tinha o fogão, coloquei um tapete de lã que comprei por lá,  um cadeirão para ler as vezes que não tenho sono.  Nunca pensei em me mudar para a casa.  Lá está a cozinha, o meu studio, raramente subo para o quarto que tem lá em cima.

Ficaram um longo tempo se beijando, conversando, até que realmente partiram para o sexo, foram se explorando devagar, quando chegaram ao clímax os dois ao mesmo tempo, foi ótimo.

Agora vinha dormir todos os dias com ele, meu pai outro dia me abordou, estando preocupado por ti, não por mim.  Lhe contei como levamos a coisa.  Ficou mais relaxado.

Buscou para saber como era as roupas safardi, mas fazia quando ele não estava, sempre cobria a tela com um lençol velho.  Até que terminou.  O deixou ali a mostra,  Joseph entrou, esteve falando por celular com alguém, até que se deu conta do quadro.  Parou de falar, ficou com a boca aberta.  Se aproximou dele, o abraçou.    Incrível isso.  Quero ele para mim.

É um presente para ti, pelos momentos maravilhosos que temos passados juntos.

Tenho uma má notícia, me chamaram para dar aulas na Universidade em San Diego, estaremos mais afastado.

Eu entendo, deves ir, estás a tanto tempo esperando essa oportunidade, que deve ir.

Mas, nós dois?

Venhas quando queira, sabes que eu sentirei tua falta,  mas os caminhos são assim, tua vida profissional tem que ter importância, a quanto tempo estas esperando essa oportunidade.

Já perdi a conta, se não aceito, será mais difícil sair outra.

Então, se podes escapar para os finais de semana, afinal não estamos tão longe.

Passavam o final de semana juntos, até que um dia Joseph lhe disse que tinha conhecido um professor, que lhe interessava.

Conversaram a respeito, se despediram como amigos que sempre tinham sido.

Realmente sentia falta dele, principalmente para ter com quem falar.

Quando tinha uma boa quantidade de quadros, avisou os da galeria, que vieram como loucos para ver, estamos esperando a muito tempo essa oportunidade.

Estavam maravilhados com o que tinha feito, a única concessão de avanço, tinha desenhado dois quadros grandes, com os barcos de Esauíra.   Eles queriam fazer dois catálogos, um com os desenhos, outro com a pintura.  Eram tantos os desenhos, que esse seria o número um, só com Casablanca, Fez, algo de Esauíra,   Um dos primeiros grandes de  Uazazate, uma panorâmica da cidade que ficaria no final da Galeria.

Esperaram os catálogos ficarem prontos, começaram a divulgação, foi entrevistado pela televisão, contou o que tinha ido fazer lá, não disse que o rapaz de quem levava o nome estava enterrado lá.   Expos o desenho de Melissa com o filho, mas este não estava a venda.

Antes mesmo, recebeu um convite para expor em NYC, pela primeira vez.

Os quadros estavam vendidos, agora levavam o nome dos compradores que emprestavam os mesmos.   Mesmo assim como a galeria era maior, preparou mais 10 quadros imensos, o dos garotos, ele com o burro, foi vendido rapidamente para um museu.   Os outros, as mulheres carregando agua,  os velhos na frente da sinagoga, todos vendidos, eram imensos todos.

A capa do catálogo de NYC, era seu autorretrato de árabe.  O de desenho, já tinha esgotado a primeira edição, agora estava na segunda.

Na de San Francisco, Joseph apareceu com seu pai, além de seu namorado, imediatamente não gostou do sujeito, mas não comentou nada, achava que era porque estava com ciúmes.

Antes de ir para NYC, Joseph apareceu para conversar, o viu com uma cara de fazer pena, mais uma vez me enganei, meu pai quando o conheceu, disse que não confiava nele, eu fiz ouvidos surdos, me dei mal.

Lastima que vou para NYC amanhã, senão iriamos conversar muito a respeito disso.   Joseph perguntou se tinha conhecido alguém.

A verdade, verdade é que não tinha muito trabalho, tampouco saio tanto para conhecer gente.

Em NYC, foi uma roda viva de entrevistas para jornais, televisão, as perguntas as vezes eram cretinas, ele não respondia, só dizia a seguinte.   Uma entrevistadora lhe perguntou por que fazia isso.

Porque as perguntas são cretinas, não gosto de perder meu tempo falando besteiras.  Se me perguntas algo interessante respondo.

Esteve contente, mas louco para voltar para seu atelier, queria seguir trabalhando, tinha uma outra viagem em mente.   Mas ainda lhe faltava muito para acabar.

Seria como uma segunda exposição sobre o mesmo tema.  Agora o catalogo era sobre Marrakesh, Uazazate, as marinhas com os barcos, eram imensas, sempre com surfistas misturados,  um dos quadros lhe deu trabalho, pois tinha mais de dois metros, eram os barcos chegando as pessoas ajudando a traze-lo até a praia, fazendo uma fila imensa, puxando a corda, num desses, se colocou junto.  Fez um auto retrato dele de peito nu, com turbante colorido que usava nesse dia, ajudando os homens a arrastarem o barco.  Depois ao lado retratos de todos eles, assim sem camisetas, com panos na cabeça, alguns com uma caixa de peixes na cabeça, os peixes como que saltando da mesma.   Os garotos na praia, querendo aprender surf, fazendo com pedaços de madeira.   Revendo todos os desenhos, riu, pois tinha sido feliz ali, bem como Uazazate, pois tinha sido considerado um deles.  Isso que não usava todos os desenhos, pois eram muitos.

Tinha também muitas paisagens das ruas estreitas de Uazazate, a cor da terra subindo pelas paredes, alguns velhos sentado na porta de suas casas, com quem tinha parado para desenhar e conversar.

Quando tudo ficou pronto, estava exausto, pois se levantava as vezes a seis da manhã, porque a imagem esta ali em sua cabeça viva, querendo sair.

Um dos críticos comentou justamente isso, que seus personagens estavam tão vivos que ele não estranharia que se levantassem, saíssem andando dos quadros.

Lhe convidaram para sair, para conhecer a cidade, foram jantar, não conhecia direito o grupo, um deles lhe disse, não entende as indiretas não?

Indiretas, não sei do que falas.

Estão todos se oferecendo para ti, é como se nada, contínuas na tua.

Desculpe não estou acostumado a conviver, passo muito tempo no studio, gosto de coisas simples.  

Para complicar o arrastaram para uma discoteca, primeiro ficou surdo com tanto barulho, não bebia, viu que todos fumavam erva.  Foi saindo de fininho, na rua parou para respirar, um homem ficou rindo.   Se vê que não gosta de ambientes assim, eu tampouco, fui arrastado por um grupo de amigos.

Vim ver uma exposição, amanhã, de um artista que gosto muito, ele me faz lembrar o tempo mais feliz de minha vida, quando vivi no Marrocos.

Estas brincando comigo, não é?

Não, porque ia brincar contigo, era um tipo completamente diferente, barba grande, cabelos como o dele compridos, mas ruivos misturado com branco.  Eu vivo basicamente perto do mar, venho raramente a cidade, tenho apartamento aqui, mas desde que fui viver em Fire Island, deixe de vir a cidade.   Aproveito a paz para escrever.  Como sabem que vivi muitos anos no Marrocos pediram para que eu escrevesse sobre o assunto no Times, inclusive amanhã tenho uma entrevista com o rapaz.

Ficaram conversando, foram tomar um refrigerante ali perto.  Ele se identificou como Thomas Brookmaster, escrevi vários livros sobre o Marrocos, agora escrevo romances.

Tu com te chamas?

Robert Montgomery.  Não disse o nome que usava para assinar os quadros.

Quer vir até minha casa, ou preferes que marquemos alguma coisa amanhã?

Prefiro amanhã depois que tenhas tua entrevista.  Aonde vai ser?

Na Galeria, ira um fotografo, vou entrevistar o rapaz.

Se lembrou disso, que tinham lhe pedido que colocasse o turbante, para a entrevista.

O levou até seu hotel, antes que ele entrasse, posso pedir um beijo de boa noite?

Sim claro, trocaram número de celular, amanhã nos falamos.

Achou interessante o homem lhe interessar, afinal era um tipo diferente, relaxado na maneira de vestir, como ele, viu que tinham algo em comum.

No dia seguinte se vestiu como sempre, nem notou que a camiseta estava suja na parte de baixo de manchas de tinta, nunca dava muita importância para isso.   Como fazia frio, colocou o casaco que tinham feito para ele em Fez, bem como um pano em volta do pescoço, se lhe pedisse, colocaria na cabeça.

Foi para a galeria, atendeu a primeira entrevista, numa sala a parte, posou para as fotos, voltou para sala para descansar, 15 minutos depois lhe anunciaram o Thomas, ficou de costa para a janela, esperou que entrasse, então se virou.

O que fazes aqui? Foi sua pergunta.

Sou Mark Berg, o pintor que vais entrevistar, mas também me chamo Robert Montgomery, uma larga história.

Ficaram os dois rindo, o fotografo não entendia nada. Quando esse pediu que pusesse o pano na cabeça como turbante, lhe perguntou sério.  Tens certeza disso, o uso com orgulho, porque me sentia um deles, mas fazer pose de uma coisa tradicional, me parece fútil, desagradável.

As perguntas era sérias.   Como sabia dos lugares aonde tinha estado, falou o que tinha se sentido em cada um.   Mas te confesso que talvez tenha sido Uazazate, aonde me senti em casa, me receberam como um igual, talvez a cor da minha pele, ou minha postura, estão acostumados com turistas que vem fazem uma fotografia, ou um selfie, que esta mais de moda, vai embora em seguida, ou fica fechado dentro de um Riad, porque acha bonito.

Eu me levantava cedo, pois gostava de pegar a luz da manhã, para fazer aquarelas, desenhar, venha, foram a sala de exposição, apesar de ser um auto retrato, pois não fiz baseado em fotografia, mas sim num desenho, os meninos me acompanhavam o dia inteiro para  me ver trabalhar.  Conversava com ele, numa mistura de língua ou sinais.  Se riam muito comigo, como eu com eles.     Os velhos, ah, com esses tens que ser respeitoso, mas isso me ensinou minha mãe Melissa.  Ela tinha vivido um tempo por lá, então estava sempre falando.  Eu fui na verdade levar suas cinzas para deixar no cemitério de Fez.  Foi uma das coisas mais emocionantes da minha vida.   Tinha uma ideia, mas pensei que não aguentaria ficar três meses por lá.  Agora não consigo tirar isso da cabeça.  Se eu quisesse ainda faria outra tanda de  quadros, os tenho dentro de minha cabeça.  Tomei consciência de que tinha sido os melhores momentos da minha vida.  Talvez volte, depois entre por cima no Senegal, mas dizem que é perigoso.

De uma certa maneira quero me adentrar na arte negra.

A cada pergunta do Thomas que estava gravando, ao mesmo tempo que um dos homens que lhe acompanhavam faziam um vídeo.

O que fazia o vídeo lhe perguntou se não tinha relacionamentos, nem família.

Não tenho ninguém na minha vida, como desde da morte de Melissa, não tenho família, ela foi o melhor que aconteceu na minha vida, me ensinou a pintar, quando observou que eu tinha um certo talento.  

O mesmo fez outra pergunta, alguém ventilou que você continua dormindo num quarto pequeno atrás da casa, quem falou sobre isso, disse que ganhaste muito dinheiro, mas continua vivendo como se não tivesse, agora mesmo, se nota que sua camiseta está suja de tinta.

Primeiro claro que esta suja, sou um pintor, não vou me vestir uma roupa nova porque estou dando uma entrevista. A única coisa nova aqui é esse casaco que esta aí, mostrou o casaco numa poltrona.  Gostei como costuravam em Fez, a mão, se tens o catálogo de desenhos, verá dois, um eram os movimentos da mão do homem, que o fazia numa velocidade incrível.                Outra porque foi feito com amor pela sua profissão.                    Isso eu sempre respeito, mas não vou te responder, eu gosto da minha vida como esta.   Talvez o fato de dormir no pequeno quarto, me faça ter os pés no chão, me lembrar quem sou, de aonde sai         .  Isso é só meu, está guardado dentro de mim.

O homem ia fazer outra pergunta, mas Thomas lhe cortou, lhe perguntando se tinha feito contato com o mundo intelectual do pais.

Na verdade não Thomas, sou tímido, creio que prefiro estar entre a gente do povo, pois eu sai daí,  aprendi a escrever tarde, a ler, leio os livros velhos que  Melissa tinha em casa, li o que ela tinha sobre Marrocos antes de ir.      Imagina, nunca tinha viajado de avião, lá aluguei um furgão para andar pelo pais.  Dormi em praias, algumas vezes em Riad, uns bons outros nem tanto.

Gostei por exemplo que vi em Esauíra, de todos ajudando o barcos chegarem à areia, a descarregar os peixes, mas sempre com cuidado como se fosse seu.            Isso não vemos aqui, todos querem saber até a cor da merda que fazes.   Com quem vais para a cama, ou quem te incomoda, então vamos falar mal da pessoa.

Vivo numa casa velha, que era de minha mãe, continuo pintando no atelier que era o seu,  de vez em quando encontro algum tubo de tinta esquecido por ela em algum lugar.      Por isso não vou embora.            No verão a coisa fica mais complicada, pois a praia está cheia, nunca fecho a porta, as pessoas entram para olhar o que estou fazendo.   Como comecei pintando surfistas, me perguntam por que agora retrato essa gente feia.    Tento ser educado, para não dizer, não te olhaste ainda no espelho.   Outros querem encomendar um retrato, lhes digo que não faço isso, ao menos que o rosto da pessoa me diga algo.

O dono da galeria fez um sinal, dando por acabada a entrevista.

Mark, Robert, foi um imenso prazer em te conhecer.  Queres jantar comigo essa noite?

Sim, mas vou embora amanhã, sinto saudade de ver o mar.

Foram jantar, ontem parecias duvidar que eu não te conhecia, nunca tinha visto uma foto tua, as únicas que me mandaram era as que estavas com turbante.  Ficas diferente, gosto também como falas, sem problema nenhum de ser franco.

Depois foram andando pela ruas sem rumo, até que Thomas lhe disse, vivo ali, mostrou um edifício antigo, queres subir?

Foi como entrar num mundo caótico, cheio de mascaras, coisas dos países por aonde ele tinha andado.

Se aproximou, aquele beijo de ontem a noite só me deu vontade de dar mais beijos.  Aviso não tenho ninguém, vivo sozinho como tu, adoro minha solidão para escrever.

Estavam nus em cima de uma cama, me senti atraído por ti, na hora que te vi na discoteca, tinhas uma cara de chateado por estar ali, bem como eu, houve uma época que eu necessitava dessa musica no último volume, para abafar o que tinha na cabeça.   Mas hoje o silencio para mim é importante.   Ficaram juntos a noite inteira.

De manhã, ele se despediu, tinha que passar no hotel, para pegar sua bagagem, para ir para o aeroporto. 

Não se preocupe eu te levo.  Quero que tenhas meu endereço, pois se queres estar de novo comigo, como eu quero o teu, caso tenha vontade de ir te ver.

O levou ao hotel, depois ao aeroporto, se despediram com um beijo.  Assim que tiver o texto te mando uma cópia.

Uma semana depois recebeu um envelope daqueles antigos pardos, dentro estava o texto que ele tinha escrito.

Começava, tive a oportunidade de conhecer um grande artista, que retrata a terra que amo, fui esperando encontrar alguma brecha na sua história, mas esse homem, é fiel à si mesmo, vive como quer, sem se importar com o glamour de ser o pintor da moda.  Foi criado por uma mulher que não conheci, mas que sei que pensava da mesma maneira.

Posso dizer abertamente que me apaixonei por essa pessoa.   Quando vês em seus retratos, os personagens saindo do mesmo, parecem ter a intensão de falar alguma coisa, de se expressar seus sentimentos, tens realmente a ideia de que esse homem captou tudo.   Pelo que sei, não faz fotografias, ficou dias convivendo com essas pessoas desenhando cada expressão.  Espero que um dia me receba em seu atelier.  As fotos que acompanhavam, era ele ao lado dos quadros que Thomas mais tinha gostado.    O melhor era ele na frente do quadro com os meninos, o burro.  Embaixo, estava escrito, isso diz tudo dessa pessoa.

Lhe chamou, não atendeu, meia hora depois, ele lhe chamou, perdão, não tenho o hábito de levar o celular nos meus passeios pela praia.

Ficaram conversando.  Num rompante lhe perguntou por que não vinha passar uns dias com ele.    Dois dias depois estava trabalhando, ainda tinha ideias sobre Marrocos, estava pintando uma sinagoga de Fez que tinha entrado, era cheio de detalhes, um único homem com uma chilaba branca, estava lavando seus pés para entrar na sinagoga, ele tinha ficado impressionado com isso, estava acostumado a ver as pessoas colocarem suas melhores roupas, para irem a igreja.   Esse homem estava com a roupa do dia a dia, mas tinha lavado suas mãos, seus pés, o rosto, o braço.

Sentiu uma sombra na porta, Thomas, com a bagagem no chão encostado olhando para ele, senti que falavas com esse homem.

Estava pensando no respeito que tem pela oração, eu não acredito em Deus ou Deuses, mas admiro quem tenha uma fé assim.

Correu para ele, se abraçaram.   Então aqui é teu pequeno paraíso.  Levou as coisas dele para seu quarto, depois foram se sentar na cozinha para conversarem.   Num determinado momento ficou quieto, se levantou, foi para a varanda.

Isso  é a minha reza diária, me sentar aqui, como sempre fizemos, olhando o mar, deixando que a nossa cabeça, flutuasse além do horizonte.

Ficou ali de mãos dadas com o Thomas.

Este foi ficando, entendia agora o que ele dizia, ele realmente podia escrever sem ser perturbado, podia passar dias até que aparecesse alguém pela porta.   O observava agora uma pintura que fazia, era as mulheres subindo uma rua, em fila, cada uma com um alguidar de  barro na cabeça, com água para suas casas.  Algumas eram crianças ainda.

Ficava sempre de boca aberta, com sua concentração total, a sensação que tinha tido no primeiro dia, era a mesma, ele estava falando com essas pessoas.

Nesse dia ao olharem o por do Sol, contou o relacionamento que tinha tido com o Joseph, o que este tinha ido buscar do passado de sua família Sefardita, pensei em fazer isso, ir a España.

Sevilla, Córdoba, Granada, depois cruzar o estreito, entrar por Tanger, Tetúan, Rabat, depois descer outra vez, indo para Uazazate.   Desta vez quero aproveitar, vou levar para esses meninos, lápis, cadernos, passar um bom tempo por lá, me impregnando de tudo isso.

Thomas o ficou olhando, creio que vais precisar de um companheiro, para irem trocando a direção da Motorhome que fores alugar. 

Ele riu, estava mesmo pensando em comprar uma, depois vender antes de voltar.

Queres realmente ir comigo.  Levo o mínimo de bagagem, mas material muito para poder desenhar, pintar, essas coisas.  Que precisas tu?

Meu laptop, o amor de minha vida, alguma coisa de roupa, porque gosto de estar nu com ele.

Desfrutaram muito, porque agora um chamava a atenção do outro para algum detalhe, o mais interessante foi um dia que estavam os dois na praia, em Casablanca, prontos para adentrarem rumo a Uazazate, quando um rapaz parou na frente de Mark, voltaste, eu sabia que um dia voltaria,  era um dos meninos do quadro.

Que fazes aqui tão longe de casa.   Estou trabalhando na construção, mas é o que me toca, não tenho muitos estudos.   Gostaria, pensei que aqui poderia trabalhar, aprender.  Mas vejo que não, venho dormir aqui na praia, pois não tenho casa.

Nos vamos amanhã cedo para tua cidade, queres vir, passe esse tempo conosco, vou ver se te levo comigo.    Era o garoto que lhe fazia milhões de perguntas sobre américa, como era  viver lá.     Ele lhe olhou sério, sempre foste honesto comigo, isso não significa que queres fazer sexo comigo, como todos esses que se aproximam de mim.

Não para nada, tenho o que quero, colocou a mão em cima do Thomas,  Olha essa noite, de dou um saco de dormir, amanhã, vamos embora, queres vir.

Sim quero voltar para casa. Lá pensarei na tua oferta.  Foram a viagem inteira, com Thomas ensinando o rapaz a falar inglês.   Quando chegaram a Uazazate, saiu correndo, voltou com os meninos, agora todos grandes, gritava, eu não disse que ele ia voltar um dia.

Thomas tinha a revista com a reportagem, mostrou a foto dele, na frente do quadro.

Aquilo era uma festa, ficaram na motorhome, fora da cidade, mas todo o dia tinha garotos, os velhos vinha conversar com ele, se deixarem desenhar, falavam com ele, o rapaz de se chamava Mahamud, dizia, sabes o que ele disse.

Ele respondia perfeitamente, sim, não sei por que os entendo.   Perguntou se ali havia uma professora.  Sim apareceu dois jovens, não muito maior do que os outros rapazes.  Ele era do grupo, como a família tinha mais dinheiro, tinha ido estudar em Marrakesh,  aonde conheceu a jovem, com quem tinha se casado.    Perguntou o que precisava para a escola.  

Nos falta tudo, cadernos, lápis, livros, tudo.  Thomas arrumou uma caminhonete, foi com eles até Marrakesh, compraram tudo o que eles precisavam, mas em grande quantidade, Mark tinha dado o dinheiro.   Depois começou a ajudar as famílias, que os velhos diziam que mereciam ser ajudadas.

Como uma maneira de pagar ou retribuir o dinheiro que tinha ganho com os quadros. Numa das idas a Marrakesh, foram ao consulado americano, para conseguir visto para o Mahamud, lhe disseram que era menor de idade.   A solução foi o Thomas que era conhecido, no consulado, adotar o rapaz.

Deixou a Motorhome para que os professores pudessem ter uma casa, viviam os dois num quarto, foram até Marrakesh, para pegar um voo para San Diego, via Madrid, depois Miami, finalmente em casa. Antes de voltarem, conversaram como iriam fazer. Thomas não pensava deixa-lo, foi a NYC, vendeu tudo que tinha por la, inclusive a casa da praia. Enquanto isso, ele comprou a casa dos herdeiros da vizinha, ampliaram a deles.  Mas a casa de Melissa ficou igual.   Como ela tinha feito com ele, conseguiu uma professora, que lhe ensinou a falar, escrever direito.  Perdeu um ano recuperando tudo.   Hoje em dia fazia universidade, sempre falava, como era o mais velho da turma, os outros o respeitavam.

Era um exímio surfista, tinha inclusive ensinado ao Thomas, ele não podia perder tempo, tinha que pintar.   Tinha altas conversas com o Thomas sobre a idade de ouro dessa parte de Andaluzia, quando estiveram habitada pelos Árabes, então todos os quadros referentes tinham uma figura como ele tinha visto nos livros que tinha comprado, mas com a cara dos habitantes de Uazazate.

Tornou a pintar várias coisas.       Começou a sentir dores nas articulações, os médicos atribuíam o fato de ele ter sido desnutrido em sua infância.   Diminuiu o ritmo, não pintava por dinheiro, não necessitava de muito para viver, mas sim, agora usufruía mais da conversas intermináveis que tinha com Thomas.    Mahamud ou Mud, como o chamavam os amigos, dizia, que os vê de longe, parece que vão sair aos tapas.  Eu sempre digo, estão apenas conversando.

Ele mesmo entrava as vezes nas conversas, colocando seu ponto totalmente oposto, por ter vivido tudo aquilo.

Um dia contou sua verdadeira historia aos dois.   Ficaram olhando para ele, sem saber se acreditar ou não.  Mas pela força dos detalhes, acabaram acreditando.

Quando Mud, se formou na universidade, era o orador, falou de aonde tinha vindo, um paraíso miserável, sem futuro.   Um dia quando era criança, apareceu um homem da mesma cor que a minha, com um furgão, carregado de blocos de papeis, eu ia aonde ele ia, queria ver o que ia desenhar ou pintar, as figuras pareciam sair do papel.  Procurei não perder nenhum dia de sua companhia.   Dava gosto ver esse homem, conversando com os velhos da sinagoga, com todo respeito do mundo, ao mesmo tempo que ia desenhando seu rosto.  Bom esse é um dos meus pais, quando o reencontrei com meu outro pai, em Casablanca, estava cansando de tentar melhorar minha vida, me apresentei diante dele, me disse amanhã vamos para aonde vivias, depois te levamos para América.   E assim fizeram, sempre me cuidaram como seu filho, me deram a oportunidade de estudar, me formo hoje graças a eles.  Obrigado por serem meus pais.  

RETRACTU

                            

Caminhou tranquilamente pela Av. Vieira Souto, pois do hotel em que estava, que tinha escolhido por ser o mais caro, era perto. A uma certa distância seguia seu guarda-costas um negro de 1,90 metros, um verdadeiro armário.

Ia relaxado, pois desde que estava de tournée pelo lançamento do livro, tinha tido este tipo de entrevista, com jornalistas, fotógrafos, ou mesmo interessados no assunto.

Apesar da idade, tinha um porte de homem seguro de si mesmo.  Estava moreno, calvo, moreno porque acabava de retornar de uma larga temporada na Africa.

As pessoas não entendiam o que ele via nesse continente, era muito difícil as vezes de explicar.

Ia vestido muito simples, com uma calça de linho larga em tom pastel, uma camisa também de linho da mesma cor.

Sapatos confortáveis, melhor dizendo um tênis.

Esperava que não o reconhecessem quando entrasse, na foto da capa do livro, era uma antiga, com os cabelos compridos, brancos, óculos.

Sua sobrinha que era sua Manager não tinha encontrado nenhuma foto sua mais atual ele apesar de fotografo, tinha horror a ser fotografado.

Entrou no salão de entrada, gostou, pois, todos estavam conversando, ninguém prestou muita atenção nele. Olharam sim para aquele negro imenso, muito sério, bem vestido.    Este se dirigiu a pessoa que sabia que estava ao mando da organização da entrevista, disse algo ao seu ouvido, indicou uma direção.  Ele como tinha visto a direção, se antecipou. Viu que todos murmuravam sobre o negro, riu, pois, sabia que nada tinha mudado nesse pais. Que o preconceito continuava, enraizado.

Jacques, seu secretário, segurança, pau para toda obra, entrou atrás dele, lhe passou a pasta, foram até uma sala,

Aguardaram, uns vinte minutos depois da hora estabelecida, vieram lhe avisar que estavam lhe esperando.

O único comentário foi em francês. “Le Brésil ne changera jamais”.  Pegou a pasta, seguido por Jacques se dirigiu a coxia do teatro.

Esperou que o mediador lhe anunciasse.

“Temos o prazer de ter conosco o Fotografo, Jornalista, Pedro Aragão”.

Ele entrou, se inclinou a plateia, como ele tinha pedido, numa cadeira mais atrás quase nas coxias, se sentou Jacques.

Reconheceu algumas pessoas, lhes fez um gesto de reconhecimento. Ao fundo do teatro viu umas figuras, que infelizmente não enxergava direito, para identificar.

Todos se sentaram.

Entrevista teve início, era a moda agora, depois que os ingleses, americanos tinha lançado o Time Laps, todo mundo agora o fazia, viu que as câmaras estavam acesas pela cor que a luz destilava.

Se sentou calmamente, esperou a primeira pergunta.

O Jornalista que o entrevistava também se chamava Pedro, se apresentou como Pedro Viera, disse o nome da televisão, do jornal que trabalhava, que tinha tido o prazer de conhecer o Pedro Aragão a algum tempo atrás em Paris, tinha ficado surpreso em descobrir que o fotografo, jornalista era brasileiro.

Mas o senhor usa documento francês não é assim.

Sim sou naturalizado francês, para me mover pelo mundo era mais fácil, bem como vivo a tantos anos lá, que é a minha pátria.

Perdão antecipado porque poderei usar algumas palavras ultrapassadas.

Pedro Vieira, mas seus vínculos com o país continuam, porque uma das coisas que menciona no livro, uma entrevista com um traficante de drogas de uma das favelas do Rio de Janeiro.

Pedro Aragão, sim uma entrevista que fiz a uns dois anos atrás, quando vim resolver  problemas pessoais, coisas de família.

Pedro Vieira, essa sua entrevista deu muito no que falar na época, ao ser publicada nos jornais da Europa.

Pedro Aragão, que bom que começas pelo final, pensei que isso me perguntaria ao final da entrevista.  Pelo visto o resto do livro não tem sentido algum, nem interesse, pois saltas todo o resto do livro, como se isso fosse a coisa mais importante.  Sinto dizer, mas não é.

Pedro Vieira, perdão,  creio que me deixei levar pela curiosidade, posso dizer que li seu livro de cabo a rabo, embora a parte anterior de sua vida aqui no Brasil, se resume em dois capítulos nada mais.

Pedro Aragão, porque não é um livro de memórias, nem de ajustes de contas.  Além de que a maioria dos nomes das pessoas que eu poderia citar, nem sei se estão vivos ou mortos.  Vivos vejo alguns aqui na plateia, os mortos não sei, nem me interessa saber.  Porque passado, passado está.

Pedro Vieira, voltando então a esses dois capítulos, poderia falar da sua infância aqui no Brasil.

Pedro Aragão, creio que foi como de qualquer criança do interior naquela época.  Começavam a aparecer os grandes descobrimentos ou novas tecnologias, como a Rádio, televisão.  Mas eu fui mesmo um leitor voraz, rato de cinema.  Descobri os livros por ser uma maneira de viver creio outras experiências.       O cinema porque me projetava para um mundo diferente com o qual passei a sonhar.

Desde que tinha uns 12 anos, já sonhava que ir embora do interior aonde sentia que não encaixava, havia limites, descobri depois com a maturidade, que odeio os limites, sempre parto para rompe-los.

Acreditava que indo para uma cidade grande como o Rio que eu amava, pelos filmes de Oscarito, Grande Otelo, que foram meus ídolos de infância, eu estaria conquistando o mundo.

Vim para o Rio justamente quando antes da  Ditadura militar. Não tinha ideias políticas claras, como contínuo não tendo, não acredito em políticos, governantes, nem em socialismo, comunismo, capitalismo, nada disso me atrai, é no fundo tudo a mesma merda.

Pedro Vieira, mas se sabemos que o senhor teve imenso contatos com muitos Governantes de quase todo mundo.

Pedro Aragão, por isso mesmo, por conhece-los, saber que são todos da mesma laia.  Conhecer é um exagero brasileiro, mas se conhece uma pessoa, se diz amigo dela.  Não é o caso, as conheci, porque tinha que entrevistar as mesmas.  Perdão, mas foste outra vez para quase o final do livro.

Pedro Vieira, perdão, curiosidade.

Pedro Aragão, não entendo, sendo o senhor um jornalista, como pode não saber o que perguntar, não me diga que aos seus entrevistados, vais perguntando ao leu, sem uma pauta, uma ideia de um todo. Eu que já entrevistei muita gente, antes, me preparo a consciência.

Pedro Vieira literalmente incomodado, se mexeu na cadeira, fez um gesto para que seguisse.

Pedro Aragão, em curtas, grossas palavras, cheguei aqui,  fui estudar, fiz muitas coisas, transei com muita gente, me descobri, redescobri o que queria da vida.

Plateia, levanta a mão.  Ele faz um gesto dizendo que sim.

Nós estivemos fazendo junto teatro, se lembra de mim por um acaso.

Pedro Aragão, sim fiz duas peças tuas, a primeira foi censurada, fiz a outra que me deu uma certa presença na mídia, como se diria hoje.   Talvez tenha sido a melhor coisa que fiz naquela época.  Mas é verdade que fiz muita pontas, substituições, entrar mudo, sair calado, tirar a roupa, pois tinha um bom corpo, cara, visual interessante.  Fiz uns dois filmes, que sequer foram vistos pelo público, pois foram censurados.             Na verdade, não gosto de fazer cinema, gosto mais de ver. Mas chegou um momento que era ou eu mudava de rumo, ou me afogava.  As chances que tinha, havia que pagar um preço que eu não estava disposto.

Pedro Vieira, isso sim contas num dos capítulos, com nomes, tudo.  

Pedro Aragão, eu não estava disposto a ir para a cama com ninguém, pelo fato de ter noção que se o fizesse, não me respeitaria mais.

“todos riem, aplaudem”.

Pois é uma das coisas mais importantes que eu aprendi nessa época, era que se eu não me respeitasse, me tornaria uma puta, isso eu não estava disposto.      Apesar de respeitar as putas.

Graças ao Teatro, pude me manejar em várias frentes, na moda, publicidade, etc.

Um dia me fartei, me mandei para Paris, estava realmente farto que ver a falta de seriedade de tudo.

“um dos amigos” levanta a mão.

Já sei o que vais perguntar,  sim a melhor época foi a que trabalhamos juntos. Este senhor um grande personagem da minha vida, não só foi meu amigo, como é até hoje, uma das poucas pessoas com quem mantenho contato aqui.

Mas por loucuras da minha cabeça, eu me mandei.

Não via, como contínuo, não vendo seriedade nas coisas aqui no Brasil.

“muito murmúrio na plateia”

Ele riu, esperou que o jornalista fizesse outra pergunta.

Pedro Vieira, já vi que cortaste realmente a entrevista.

Pedro Aragão, na verdade, eu não senti interesse nenhum em comentar minha vida pessoal, o pouco que escrevi, está aí.  Eu sempre dizia que um dia publicaria os nomes de todos os meus amantes nessa época, com nome, sobrenome, registro de cartório, tudo.

Mas se pensar bem, alguns já morreram, outros me fizeram feliz ou infeliz, ou eu a eles, porque a verdade sempre tem duas caras, não sou nem nunca fui perfeito.

O Pedro Vieira vai me perdoar, mas eu sempre fiz o que quis da minha vida, sem problema nenhum. Vou filosofar um pouco.                 Nunca gostei de linhas retas, mas sim como o grande arquiteto Oscar Niemeyer, gosto é das curvas, se uma direção não me interessa, mudo de rumo.     Por isso fui embora.

Pedro Vieira, mas foste direto ser fotografo ou não.

Pedro Aragão, não, como acabo de explicar, não tinha um objetivo concreto.  Tinha uma base de mil coisas que poderia fazer.        Fiz de tudo um pouco.        Por um acaso, preparei um cenário para uma sessão de fotos, o fotografo na última hora não apareceu.  O manequim estava pago, tudo estava ali, abusado como sou me atirei, fiz a sessão de fotos, como tinha visto fazerem, mas a minha maneira de enfocar.

Os da revista gostaram, passaram a me chamar, pois sabiam que além de tudo entendia de moda, estava aberto a todas as frentes, o que viesse era lucro.

Consegui, com isso comprar boas Câmeras fotográficas, desse arroubo partiu tudo. Durante um tempo isso me satisfez, mas acaba sempre sendo a mesma coisa.  Como digo sempre a mesmice me incomoda, me dá a sensação de que vou morrendo aos poucos.

Um dia na revista vi que precisavam de alguém para acompanhar um jornalista a guerra de Bósnia.  Por um acaso eu o conhecia, lhe pedi a oportunidade.  Ele riu muito, tinha um sentido de humor que eu gostava, acabamos na cama, começamos a viajar juntos.               Ele tinha um sentido de trabalho interessante, eu sou uma pessoa que observa tudo.

Vi como pensava, trabalhava, como enfocava as ideias, segui a corrente.

Uns dois anos depois, ficamos entre dois fogos cruzados, por um acaso ele foi atingido, com muita dificuldades, conseguimos retira-lo de lá,  me pediu, segues com a reportagem, escreva tu.

Eu nem tive tempo nem escolha, segui em frente mandando os artigos como se fosse ele.

Uns dias depois, num desses lugares que descansávamos, fiquei sabendo que tinha falecido.  O Diretor da revista me chamou dizendo que continuasse escrevendo que estava muito bem.

Depois disto não parei mais. Cobri várias, guerras, para jornais, revistas, quando não me contratavam ia por conta própria,  vendia ao melhor postor, eu queria mesmo era estar na linha de frente.  Ao me tornar independente, ganhei maior liberdade de movimento, de ideias.  Passei a ver outras coisas que no momento que me pediam alguma coisa concreta, não via.   Sentia essa sensação que passava por alto aos outros problemas decorrentes dessas guerras.

No fundo uma coisa muito importante, “o depois”, os que sobram, os que emigram com a roupa do corpo, sujeitos a muitas coisas.

Passei a escrever sobre isso, algumas revistas ou jornais se interessaram, compravam os artigos que fazia.    Mas se pensamos bem, sai das primeiras páginas, para as segunda, assim para trás, depois para as revistas filosofia, outras coisas.              Mas sempre que tinham alguma coisa importante, me chamavam, pois sabiam como eu iria encarar a reportagem.

De uma certa maneira, não tinha problemas de dinheiro, pois quando trabalhava para alguém ou empresa, arcavam com todas as despesas, meu dinheiro era limpo.

A cada reportagem que me encomendava, aproveitava, para ver o pais, esperava captar outra visão, outra perspectiva, como disse antes, a verdade tem sempre duas caras.

Com isso ganhei dois prêmios internacionais.

Virou-se para trás, sinalizou o Jacques, conheci no Senegal, quando fui fazer uma matéria sobre os garotos que vivem nas ruas de Saint Louis, das cidades do interior, pedindo dinheiro nas ruas para suas madraças, aonde os pais os mandam para estudar o Corão.  Foi ao mesmo tempo meu guia, bem como meu guarda-costas.   Quando alguém me enche o saco, digo que é meu capanga.  Leva me seguindo muitos anos, com ele percorri grande parte de Africa.

Sempre me perguntam por que me interesso por Africa, no livro falo de várias reportagens sobre os problemas de lá.     

De uma certa maneira tem uma similitude com o Brasil, este nunca deixara de ser emergente, porque os governantes são corruptos.  Os de lá, interessa aos países que se dizem desenvolvidos, que fiquem como estão para poderem conseguir o que necessitam.   Matéria prima, a baixo preço, subornando os homens de governo.

Mesmo que troquem de governantes, o suborno é sempre presente.

Um dos seus amigos levantou a mão para uma pergunta. 

Uma das vezes que falamos, me comentaste, que tens entrada vetadas em vários desses países?

Sim é verdade, ninguém quer que seus trapos sujos sejam ventilados mundo afora.  Tampouco os grandes países, pois isso acaba com sua mamata.

Os países quando são muito grandes, tem uma dificuldade que é a comunicação.  Todos esses países necessitam de estradas, escolas, hospitais.   Nada disso interessa aos governantes, nem aos outros países.   Porque se vão a escola, aprenderam a pensar.

Por isso quando vamos, tenho sempre o Jacques, bem como outros para me protegerem.

O mesmo levantou a mão outra vez.

Numa das últimas, estiveste entre a vida e a morte, por causa de um tiro?

Uau, vais me fazer contar tudo sobre minha vida.  Melhor trocares de lugar com o Pedro Vieira, que está aqui quieto.

Sim, fiquei mesmo muito mal, mas fui salvo pelo Jacques, estava subindo no helicóptero, quando fui atingido.   O jeito foi uma coisa de emergência, depois sair diretamente para Paris.  Justamente no tempo da recuperação, foi que comecei a montar esse livro.

Imagina, dentro de casa, sem poder fazer muitas coisas, escutava os telejornais, mas me enchia o saco.  Um dia sem querer, prestando a atenção numa reportagem de um amigo meu, vi que os jornalistas que apresentavam o programa, mudavam o contexto de suas palavras.   Pensei esse homem não pensa dessa maneira.

Quando estas ocioso, viras um filho da puta.   Na surdina, como tinha acesso aos canais de televisão, disse que estaria escrevendo um livro, que necessitava do material original, da apresentação da reportagem.   Porque quando estas em movimento, não vês televisão, tampouco te chegam os jornais, quando isso acontece é com muito tempo de atraso.

Acabei fazendo cópia de tudo.  Assim se me processassem, tinha a coisa na mão.  Quase 50% das reportagens tinha sido adulteradas.  As vezes só usavam para dar o enfoque que queriam, cortavam os vídeos, os deixando sem contexto.   Usando somente a parte que lhes dava o enfoque errado.  Justificando os governos.

Começou a rir, teve um acesso de tosse, tomou um gole d’água.  Virou-se para o Pedro Vieira, não vais perguntar o que eu fiz a respeito?  Isso não está no livro, sim num vídeo que te mandei.

A cara do Pedro Vieira era ótima.  Me disseram para não perguntar nada a respeito, nem falar no assunto.

Preciso responder?

O único jeito foi usar, a internet, que meu amigo Jacques faz de maravilha.            Criamos um blog, divulgamos tudo.       Claro com isso, passei a ser presença funesta em qualquer canal de televisão.

Mas a verdade é que não deixei barato.   Acabei escrevendo um roteiro de cinema, sem querer, o vendi para um diretor de cinema, independente.   Coitado, a luta que foi para poder exibir o filme.

Foi quando vim ao Brasil.   Agora sim Pedro Vieira, se encaixaria tua pergunta sobre a entrevista que fiz.

Recebi uma queixa formal do governo brasileiro, por estar escrevendo mal sobre a mãe pátria.  Mas no fundo a historia é divertida.    Vim para resolver problemas de família, uma herança que tinha que ser repartida.  No caso, estavam me passando a perna.  Mas resolvi tudo, nunca gostei de ser enganado.   Depois família, tirando alguns como minha sobrinha que organiza tudo para mim aqui, o resto é resto.

Um final de semana, fui ao samba, com meu inquisidor, apontou o amigo que tinha lhe feito as perguntas.    Lá pelas tantas se aproxima um sujeito, me aponta um camarote do outro lado da quadra, me diz que fulano quer falar consigo.

Sem ter a menor ideia quem era fulano, perguntei ao meu amigo. Vi que ficou sem graça, me disse que era o chefe da drogas da favela.

Me interessou, sempre tinha visto do outro lado da história.  Uma pergunta estalou na minha cabeça, qual era a sua verdade.

Fui falar com ele, esperando um velho, como vemos sempre nos filmes sobre a máfia, tipo Al Capone.

Nada era um sujeito muito mais jovem do que eu.

Me estendeu a mão normalmente, como faz a gente educada quando se conhece, me disse seu nome, eu o meu. 

Foi direto ao assunto, quando soube que estavas na quadra, quis conhece-lo, porque leio sempre tuas reportagens.    Lhe perguntei qual por exemplo, para minha surpresa, era uma que tinha escrito para o Times Americano.   Ele falava um inglês perfeito, seguimos falando nessa língua.   Depois descobri que era para que seus homens o vissem importante, bem como não escutassem o que falava.

Ao me despedir, lhe perguntei se poderia fazer uma entrevista com ele.   Iria embora dentro de dois dias, se lhe interessava.

Com uma condição, atrases tua viagem de volta, fique uns dias comigo na favela, para ver a vida por lá como é.

Aceitei prontamente, embora meus amigos depois me chamassem de louco.   Não tinha medo, pois tinha concordado que o Jacques me acompanhasse.

A princípio como todo mundo pensa, é que temos alguma coisa de sexo, que ele é meu amante, nada mais longe da verdade.  É um irmão para mim.  Saibam que tem dois livros editados de poesia, mas também atira para matar, sem pestanejar.   

A plateia ria, tinha se descontraído.

Voltou-se novamente para o Pedro Vieira, sigo ou já basta.

Todo mundo gritou, siga, esta interessante esse papo.

Pedro Vieira, levantou os ombros, como dizendo, estou fudido, fudido e meio.

Ele viu que alguns da plateia gravavam com celular, sabia que quando acabasse as redes sociais como se conhecia, Facebook, Youtube, estariam com isso no ar.

Bom, direto ao assunto, no dia seguinte um puta carro, veio nos buscar, nos levou até a parte mais alta da favela,  lá estava sua guarida.   Jacques se espantou, pois esperava um casebre, que teríamos que dormir no chão, coisas do gênero.  Nada mais longe da verdade, era uma boa casa, por fora sem acabamento nenhum, por dentro uma verdadeira fortaleza, com todo conforto possível.

Ele me contou toda sua vida, desde infância, etc.  O que mais me interessou, sobre o que escrevi longamente, era que sabia que nunca seria eterno, que tinha uma vida curta, como tinha tido seu antecessor.   Nunca duramos muito.  Se não nos matam aqui, quando somos presos, nos matam na prisão.  Por isso ele se documentava de tudo.   Quem eram os clientes, peixes gordos, tinha todo esse material em lugar seguro.   Políticos que comiam na sua mão, pois lhes fornecia cocaína.

O mais interessante foi que em determinado momento, de entrevistado, passou a entrevistador, começou a fazer pergunta sobre como eu vivia, como eram essas viagens, as guerras que tinha coberto, que disse que considerava como aventuras.    Soltou depois, que tinha muita inveja de mim, por ir leve, solto pelo mundo, sem amaras.

Andei com ele por toda favela, as pessoas lhe tinham respeito, pois graças a ele, tinham médicos, enfermeiras, escola,  Ninguém queria subir a parte alta da favela, mas lá de uma certa maneira se vivia melhor.    Me deu a liberdade, de entrevistar as pessoas.  A maioria me pergunta, se eu escreveria seu nome.  Lhes disse que não, que podiam falar à vontade.   Quase todos temiam sim a entrada de policiais nessa parte do morro, pois entravam atirando, sem olhar em quem.  Ele ao contrário, foge desses confrontos para proteger as crianças.   Um dos velhos ainda me disse uma coisa que tenho dito aqui, tudo tem duas verdades.   Me fez uma alusão interessante, que pedi depois que um designer fizesse para a capa da reportagem, é uma faca, que tem duas partes afiadas, que eles sempre estavam andando no fio dessa faca, se equilibrando, sobrevivendo, a cara de tranquilidade quando me dizia isso era interessante.   Para ele resultava que essa faca se rompia, quando chegava a polícia, que entrava dando tiros, sem pensar em quem atingia.

Bom sei que depois da reportagem, meses depois o traficante desapareceu, uns dizem que seus cumplices o mataram, outros a polícia.  A verdade ninguém sabe, ninguém viu.

Bom já sabe de que vai o livro, fotos, reportagens que fiz, da metade para frente, muitas viagens a Africa, aonde descobri uma parte de mim.   Pois sei que tenho ascendências Africanas, embora minha família como qualquer outra do Brasil que quando escuta falar, que em sua família, em algum momento houve um negro, nega, renega.

Uma última pergunta. 

Uma pessoa no final, levantou a mão, ele não via quem era, mas ao escutar a voz reconheceu, procurou não demonstrar surpresa, tampouco pediu para a pessoa se identificar.

Achas que é possível, um dia retornar ao Brasil, viver aqui?

Meu amigo, essa pergunta é uma arapuca.  Riu, muito difícil, tenho toda uma vida fora daqui, imagina meu sistema de saúde está lá.   Não valeria para o Brasil.  Então se tenho um problema, teria que usar a saúde pública.  Não me arrisco, depois me aposentei a pouco.   Tenho um pequeno apartamento que vivo bem.  Se necessito ajuda basta gritar pelo Jacques.  Morrer, eu vou morrer como todos.  Mas como dizia Carlota Joaquina, deste pais não quero nem o pó.

O Brasil que eu vivi, os motivos pelos quais fui embora, uma serie de coisas que no momento não vem ao caso, não mudou nada, em alguns aspectos piorou.                  Mesmo essa cidade Maravilhosa, tão fotogênica como Paris, virou uma merda.      Então, só posso responder uma coisa, não se deve cuspir para cima, pois pode cair em nossa própria testa, tampouco nunca digo não.

Muito obrigado a todos por estarem aqui. Um prazer em falar com vocês.

Saiu de fininho com o Jacques.  Sabia que seus amigos iam até o hotel tomar um drink com ele.  Mas sua cabeça estava em outro lugar.    O que fazia esse louco ali, aonde poderiam vê-lo.      Porra que tenha sido o causador de seu sumiço tudo bem.  Mas estar ali, era loucura.

Chegava a suar frio. Ao mesmo tempo estava feliz, sabia que ele estava vivo, que nenhum dos lados o tinha matado.   Se o tivesse que reconhecer seria impossível, só o tinha feito pela voz.

Se contasse aos seus amigos, com certeza o tomariam por louco.   Como podia ter tido uma aventura com um traficante de drogas.

Mas tudo era diferente.   Jacques atrás dele, disse baixinho, era ele não?

Sim Jacques, não vi sua cara por culpa da iluminação, mas pela voz, como tu o reconheci.

Ele também tinha ficado amigo do Jacques, que encarava tudo com normalidade, a ele desde o princípio tinha sido assim.   Podia contar a ele qualquer coisa, o segredo estava garantido, se fosse um problema, em seguida estava buscando uma solução.

Jacques podia ser tomado por muitas pessoas quando o tratavam pessoalmente como um retardado, mas ao contrário era de uma inteligência espantosa.    Tinha sido maltratado quando criança, vendido como escravo

Era mentira que o tinha conhecido no Senegal, falava sempre isso, mas nessas alturas, ele já estava com ele.    Estava no Sudan fazendo uma reportagem, tinha 6 pessoas o protegendo, mas nem sempre isso valia, qualquer um podia mata-lo.    Estava num mercado, fazendo fotos, quando o viu.  Estava jogado no chão, com um homem lhe batendo com um bastão de madeira.

Embora o que estava no chão fosse um homem grande, não se defendia.  Um dos homens disse que o que lhe pegava era um vendedor de escravos, dizia que não o conseguia vender porque era retardado.

Mas quando olhou os olhos do Jacques, viu uma luz que os outros não via.  Pergunte o preço, vou comprar esse escravo.  Pagou, mandou os homens ajudarem a levantar o rapaz, o levou ao acampamento que estava.  Depois de limpo, esse veio falar com ele.  Estou ao seu inteiro dispor, meu senhor.

Primeiro, não sou teu senhor.  A partir de hoje estas livre, podes ir para aonde quiser.

Não tenho para aonde ir, nem sei de que lugar sou, comecei a ser vendido desde criança.  Não tenho ideia de aonde sou.

O homem que coordenava sua viagem, lhe ajudou, conseguiram um documento falso para ele, com o nome de Jacques Vivier, quando foram embora o levou com ele.

A partir de então alugou um apartamento pequeno quase ao lado do seu aonde ele vivia.  Quando ele lhe contou toda sua vida.  Primeiro ficou furioso. Mas com o tempo, viu que Jacques nunca reclamava desse passado, quando lhe perguntou por quê?

Lhe respondeu olhando nos olhos, se eu perco tempo indo me vingar de cada um que me fez mal, não terei tempo de ter um futuro.  Agora estudava, sabia ler, escrever, tinha uma inteligência impressionante, tinha lido basicamente cada livro que tinha em minha casa.  Depois gostava de discutir comigo a respeito.  Fez um longo curso de informática, aonde deu um salto, de viver 100 anos atrasados, a pleno século XXI,  o mais interessante que achava isso normal.

Ele era como seu filho.  Quando esteve muito mal, cuidou dele com carinho, uma vez que estava chateado com uma pessoa que tinha tido um relacionamento, lhe perguntou se queria que  fazer sexo com ele.    Pois o tinha usado muitas vezes para isso.  A princípio ficou horrorizado, mas conversou longamente com ele.  Jacques, eres dono do teu destino, gosto de ti como um filho, jamais iria estragar esse sentimento, por sexo.

A vida tinha lhe ensinado que não estava errado, pois ele sempre estava aí, quando o precisava, fora dele a ideia do vídeo, o tinha ajudado com o livro.   Fazia agora alguns trabalhos agora para a editora, ganhando seu próprio dinheiro.   Por isso se vestia tão bem.               Dizia como ia se apresentar numa reunião mal vestido, iam perguntar, que faz esse negro aqui.

Chegaram ao hotel, realmente os amigos estavam ali no bar, sentou-se com eles numa mesa, ficaram rindo, alguns falavam de pessoas que ele não se lembrava mais,   até que perceberam que estava cansando.  Foram um a um, se despedindo, com a mesma coisa, que ele se despedisse antes de ir, pois tinha esse hábito, de ir embora sem falar nada com ninguém.   Riu, pensando que o faria como sempre, iria embora na surdina.

Quando chegou ao seu quarto, se despediu na porta do Jacques que estava no quarto em frente. Amanha nos vemos. Boa noite meu filho.

Entrou, viu que a janela estava aberta, achou estranho, pois a tinha deixado fechada, quando acendeu a luz.   Lá estava ele, sentando tranquilamente no sofá.

Quase me matas de susto, filho da puta.  Quando escutei tua voz, me fazendo aquela pergunta, quase te pedi, de um passo a frente para te ver na luz.

Ele se levantou, veio até ele, o abraçou, lhe deu um beijo prolongado.   Devo tudo isso a ti.

O afastou um pouco, realmente estava diferente,  já não tinha o nariz torcido, tampouco o cabelo tinha a mesma cor, estava cortado muito rente na cabeça.

Podia passar por uma pessoa qualquer na rua.

Começaram a tirar a roupa um do outro, dizia a todo mundo que tinha ficado uns 3 dias na favela, era uma mentira, pois tinha voltado outra vez. Tinha sido sua melhor aventura.

Senti sua falta, demoraste muito a voltar.

Pelas notícias que tinha, pensei que estavas morto, então não tinha motivo para voltar.  Não vou perguntar aonde vives, nem quero saber nada.  Estou feliz em saber que estas vivo.

Se amaram a noite inteira, de manhã quando acordou, já não estava mais.  Só um bilhete, te vejo em breve.

Hoje em dia achava que nunca tinha amado realmente ninguém.  Tinha deixado em contra partida de julgar as pessoas.  Elas faziam o que faziam por algum motivo. 

No dia seguinte só falou com sua sobrinha.  Esta disse que tinha um canal de televisão, com um programa de entrevista que queria falar com ele.

Nada disso, essas entrevistas são depois editadas, mudam o contexto todo.  Tampouco disse a ela que iria embora.

Como não tinha que fechar a conta do hotel, saíram de fininho, Jacques o conhecia bem, não disse uma palavra, só se voltaram a falar basicamente dentro do avião.  

Ele estava no teu quarto, não é?

Como sabes?

Esqueces que tenho um olfato privilegiado, senti o cheiro dele, nada mais ao entrar, além de tua cama como se tivesse tido uma batalha.  Mas estás feliz eu sei.

Não fez nenhum comentário a respeito.

Chegaram a Paris, queria ir para casa, Jacques tinha o carro, seu único luxo, no estacionamento.  Ficou ali parado lhe esperando.  Não o podia tirar de sua cabeça.

O senhor está muito distraído, qualquer um podia chegar, levar sua bagagem.

Escutou essa voz atrás dele, não ousava se virar, mas o fez lentamente.  Filho da puta, vieste no mesmo voo.

Sim, mas claro em turística para não chamar atenção.

Jacques quando chegou com o carro, abriu o porta malas sem perguntar muito.  Ria, nada mais, só de ver seu pai postiço contente, lhe deixava também.

Se viveram felizes, para sempre isso nunca se sabe.

NEVER – NUNCA

                                                

Estava orientando a montagem de uma exposição retrospectiva de toda sua carreira, num momento passou diante de uma coluna com espelho, automaticamente deu uma olhada, continuava o mesmo.  Cabelos longos, hoje branco total, as sobrancelhas seguiam iguais amarelas, olhos azuis puros, sua pele apesar dos tratamentos, seguiam igual, branca como a neve.  As pessoas se fascinavam com isso, o fato dele ser albino, ao mesmo tempo que seus quadros estavam cheios de cores.   Hoje em dia já não usava rastafari, por uma questão de tempo para cuidar, depois acabavam cheios de tinta.

Se poderia dizer, que muita água tinha passado por baixo da ponte, as vezes tranquilas, outras como uma torrente ou mesmo uma enchente.  Mas sempre considerava ao final que o passado, passado estava.

Olhou a capa de uma revista ali jogada, riu, duas fotos, ele no inicio de sua carreira, outra hoje, apesar dos anos, não sabia se pela pele, não tinha nenhuma arruga sua pele era lisa, lembrava a de sua mãe, quando estava morrendo, podia estar cheia de dor, as sua pele estava esticada.

Nunca tinha descoberto de havia outro problema como o seu na sua família.  Odiava recordar seu passado, sempre acabava lhe doendo muito.  Sentia uma falta de sua mãe, até hoje não conseguia entender por que não quis cuidar do câncer que tinha.   Poderia estar viva, poderia ter cuidado dele, dos irmãos,  mas algo a impedia de lutar mais.

Seu pai era todo ao contrário, um polonês, que tinha chegado na vila em criança, acompanhado de seus pais, uns 10 anos depois da segunda guerra.

Era um homem totalmente fechado em si mesmo, agressivo, já levantava de mal humor, o melhor era sair da frente dele.

Sua tia lhe tinha contado mais ou menos a história, quando queria se aprofundar em algum detalhe ela fugia as respostas.

Ela e sua mãe, tinha nascido com uma diferença muito pequena, menos de um ano, podia passar por gêmeas, pois eram idênticas.  Uma pele branca, olhos negros, cabelos negros crespos que ele tinha herdado, uma boca larga com um sorriso imenso.

As duas tinha conhecido seu pai, na escola, quando este chegou a vila, falando um inglês horrível, enquanto todos os outros garotos lhe faziam bullying, elas ao contrário, lhe ensinavam a falar direito.

Os pais dele eram muito estritos, católicos daqueles de irem a missa quase todos os dias, o pecado era uma coisa horrível para eles.

Elas ao contrário nunca iam a igreja, não lhes incomodava o mínimo isso.  Sonhavam sim as duas em irem embora da vila.  Seus pais, tinham um restaurante administrado pela mãe, ele levava uma loja que vendia coisas para as fazendas, além de tratores, coisas pesadas.

Quando chegou a época de irem a universidade, foram embora as duas, sua mãe ficou na universidade, sua tia, ao contrário, pegou o dinheiro que os pais tinham dado, se mandou para a Europa, voltou depois que ele tinha nascido.

Sua mãe, mantinha correspondência com seu pai, desde que chegara, ao ficar sozinha não parava de reclamar, não gostava do que estava fazendo, queria voltar, no meio do segundo ano, de repente lhe chamou disse que voltava, se ele queria casar com ela.  Ele tinha sido sempre apaixonado pelas duas, aceitou.   Sete meses depois eu nasci, para todo mundo um parto prematuro.    Mas ele ao ver aquela criança branca como leite, olhos azuis, cabelos loiros quase brancos, me repudiou imediatamente,  a questionou se era filho dele.

As crianças de 7 meses não nasciam do meu tamanho, sempre fui alto demais para tudo.

Levaram anos brigando por minha causa, ele nunca se chegava ao meu lado, eu não existia na casa, quando chegava bêbado, me chamava de bastardo.     Não entendia de maneira nenhuma o que queria dizer, quando perguntava a minha mãe, ela mudava de assunto.

Cresci sem ninguém para brincar, viviam na fazenda originalmente de meus avos, uma casa velha de madeira, que precisava sempre de uma pintura que não aparecia.   Ele saia de manhã, voltada de tarde.   

Dez anos depois, depois de um dia que ele tinha chegado bêbado, segundo minha tia, a tinha agredido sexualmente, nasceram os meninos, era divertido, os dois eram completamente diferentes um do outro, um se parecia a ela, outro a ele.  Um se chamou Matheus outro Thorpe, como meus avôs, eram meus brinquedos, me apaixonei imediatamente por eles, mas meu pai quando estava em casa, não permitia que eu me aproximasse.

Quando eles tinham oito anos, ela descobriu que tinha um câncer, ficou quieta, não disse nada a ninguém, nem a sua irmã que estava sempre pronta a escuta-la.

Minha tia já nessa época não falava com meu pai, quando eles fizeram 10 anos, ela estava muito mal, eu tinha 17, tive que deixar de ir a escola, para cuidar deles, dela, os levava a escola, depois fazia compras, comida, colocava a roupa para lavar, limpava a casa, se me sobrava algum tempo me dedicava a desenhar.   Ela já não saia da cama, estava sempre ali de olhos fechados, as vezes quando tinha muita dor, eu dormia ali aos pés da cama em cima de um tapete.

Ele jamais entrava no quarto, dizia que estava pagando pelos seus pecados que eram muitos, tampouco cuidava dos meninos, creio que se acostumou que eu cuidasse deles, tudo era comigo, aprendi a dirigir sozinho a velha camionete dela, os levava a escola, fazia tudo que tinha que fazer, voltava correndo para casa, para ajudar minha tia, que me ajudava a levanta-la, para trocar a roupa de cama, a principio dar-lhe um banho, depois com o tempo, limpa-la com um pano húmido.    Minha mãe, não dizia nenhuma palavra, ficava com a boca fechada.

Ele as vezes chegava bêbado, abria a porta, lhe perguntando ainda não morreu, filha da puta.

Se eu estava sentado segurando sua mão, se aproximava de mim, me dava um murro na cara, ou com sua imensa mão me batia, bastardo, sempre agarrado a mamãe.   Antigamente ela me defenderia, um dia resolvi enfrenta-lo, me levantei, era mais alto do que ele, ia me dar uma porrada, mas segurei sua mão, lhe disse na cara, isso se acabou covarde.

Sem querer vi pelo canto dos olhos, ela sorrindo.

Uma semana antes de morrer, eu estava ali segurando sua mão, ela me disse, ele não tem culpa, realmente não eres filho dele.  Conheci teu pai verdadeiro num concerto de jazz, ele tocava o saxofone,  era brilhante, era diferente dos outros do grupo que eram negros.  Usava o cabelo como tu, mas era claro, tinha algumas manchas no corpo, dizia que estava mudando de pele, depois descobri que era um albino.  Nem sabia o que era.   Me apaixonei, um dia despertei, tinha ido embora, voltei me casei com este, pois não queria abortar.   Mas não lhe disse nada, a culpa realmente foi minha.

Não sei por que chamou minha tia, lhe contou a verdade, lhe pediu um revolver que era do meu avô que estava ali na cômoda, um dia desses ele vai tentar me matar, bem como meu filho.

Estava cada vez pior, podia passar um dia inteiro sem dizer uma palavra, a última vez que escutei sua voz, foi para pedir que eu não deixasse os meninos a verem dessa maneira, queria que guardasse a imagem dela bem.

Ao final era pele e osso, ele ficou dois dias sem aparecer em casa, eu depois de todas as tarefas, estava sempre com ela, as vezes me olhava sorrindo.

No dia anterior, ele entrou no quarto de madrugada fazendo um escândalo, dizendo que não podia dormir por culpa dos gemidos dela.  Me assustei, pois ela não estava gemendo, se aproximou da cama, me assustei, colou os ouvidos nos lábios dela, era como se ela tivesse falado alguma coisa, se afastou, mas antes me pegou desprevenido, me deu um murro na cara.

No dia seguinte quando sai do armazém, dei de cara com o xerife, olhou minha cara, esse filho da puta te pegou outra vez. Isso tem que acabar.

Nesse dia, minha tia por problemas com o restaurante não pode ir, ao limpa-la, percebi o revolver justo ao lado de sua perna, ia tira-lo dali ela o agarrou muito forte, hoje ele vem matar-me, a ti também, defenda-se.

Coloquei os garotos na cama, no quarto que compartiam comigo, que era embaixo do quarto de minha mãe.   Depois subi, me deitei ao lado da cama, no chão, escutei o ruído que ele chegava, subiu as escadas como qualquer outro bêbado, quando abriu a porta, trazia um revolver na mão, disse desta vez vamos acertar as contas antes que morra. Lhe apontou o revolver, institivamente, busquei o que ela tinha, o segurava, mas não tinha forças, a ajudei a tirar debaixo dos lençóis, levantei o mesmo, com ela com o dedo no gatilho, ele viu, riu, até para isso eres patética, atirou ela suspirou morreu, eu aproveitei, apertei o dedo dela, acertando no meio da testa do filho da puta.

Por instinto, desci rapidamente, minha cama ficava pegada a porta, os meninos me viram como se eu estivesse levantando da mesma.   Que foi isso falaram os dois ao mesmo tempo, apenas lhes disse, chamem nossa tia, vou subir, vocês fiquem aqui.

Sabia o que ia ver, mas fiquei quieto,  Quando minha tia chegou me viu ali parado na porta, na cama minha mãe, com todo sangue em volta, ele caído no chão também num charco de sangue.

Ela ficou parada ao meu lado, eu imaginei que isso ia acontecer um dia. Estavas aqui?

Não, estava embaixo com os meninos, ele chegou fazendo escândalo como sempre, batendo portas, os meninos se assustam, depois escutei os tiros.  Mas, já era tarde, mandei avisarem a senhora, porque sabia que ias avisar o xerife.

Realmente ele chegou em seguida.

Me perguntou sentado na cozinha com uma caneca de café na mão, se eu tinha visto alguma coisa, repeti a mesma coisa, depois entendi que tinha que me apegar a essa historia pois, não tinha outra.   A repeti, até não aguentar mais.

O que eles não entendia era como ela tinha tido força de levantar o revolver, me perguntou se sabia que estava ali.   Lhe disse que sim, mas que não me deixava tirar dali. Repetia uma e outra vez que a qualquer momento ele viria para matarmos.

Depois de enterra-los, minha tia me perguntou se eu queria levar o negócio dele, lhe disse que não, que queria ir a Universidade, todos meus conhecidos tinham ido embora, eu tinha ficado para trás, teria que recuperar o tempo perdido.

Ela concordou, passamos a viver em cima do restaurante, eu continuei dividindo quarto com os meninos.   Eles queriam saber a verdade, eu lhes contei tudo, não queriam que tivessem problemas posteriormente.

Minha tia me contou que depois que os dois tinham nascido, ele tinha colocado na cabeça que ela o tinha traído com dois homens, por isso eram diferentes.

Durante o ano que estive afastado, estudei como se estivesse na escola, além de fazer desenhos, tinha desenhado minha mãe se definhando como um exercício, ou porque me aborrecia de estar ali, sem fazer nada.

No meio do ano, fui aprovado, falei com minha tia, que iria embora, não aguentava mais estar ali, me sufocava, aguentar o olhar de todo mundo em cima de mim. Quando trabalhava na caixa registradora do restaurante, todos me olhavam com pena.   Não tinha mais amigos, os da escola eram menores do que eu, me sentia um peixe fora d’água.

Aonde queres ir?

Lhe dei o folheto das escolas que gostaria de ir em NYC.

Te dou dinheiro, mas terás que trabalhar, sei que isso não te assusta, creio  que o dinheiro te dará para um ano ou dois.  Mas o resto é parte dos meninos, para seu futuro.   Na vila as coisas não valiam muito, ela vendeu a fazenda, bem como o negócio do meu pai.  Repartiu entre os três, os dos meninos colocou no banco, me deu mais dinheiro, como um presente dela.

Me ajudou a pagar para arrumar a caminhonete que usava, nesse tempo tirei bilhete de identidade, carteira de motorista. 

Peguei as poucas coisas que tinha, tomei rumo a NYC,  mal sai da cidade, tive que parar, pois chorava, tudo o que tinha guardado, saiu como uma catarata.  Coloquei a caminhonete na lateral da estrada, fiquei ali chorando, finalmente colocava para fora tudo o que sentia.

Mas me contive, segui em frente, tinha a direção de um conhecido de minha tia, que vivia no Brooklyn,  ele me disse que poderia usar o quarto que tinha em cima da garagem. No dia seguinte me levaria a escola, para ver como fazíamos.    O quarto era imenso, com um banheiro, pequeno, mas tinha um chuveiro, poderia me apanhar.  Paguei dois meses adiantado, embora ele não quisesse aceitar dinheiro.

Ele vivia com sua mãe, que estava doente na casa da frente.  Me contou que na verdade vivia em Manhatan, mas quem iria cuidar de sua mãe.

Me levou primeiro a uma escola, pois pensou que eu não sabia desenhar, a professora olhou meu trabalho, me disse que não tinha nada a me ensinar, que eu fosse a Parsons, lá sim poderia ir em frente.

Ele mesmo me disse, não sabia que eras tão bom.

Na Parsons me fizeram um teste, porque o semestre tinha começado, passei no teste, me disse que fosse pagar a matricular, pegar a lista de material que necessitava.

O amigo de minha tia Jim, foi legal comigo, disse que seu apartamento era ali perto, que eu podia ficar com ele, pois a casa era longe.  Pelo menos alguém cuidava do apartamento, depois eu conseguiria alguma outra coisa.    Na loja que fui comprar o material de pintura, vi um cartaz de que procuravam alguém para trabalhar, me ofereci,  teria aulas de manhã, tinha umas cinco horas livres, me contrataram.   Já tinha dinheiro, além de desconto no material que iria usar.

A primeira coisa que fiz, já que a casa não era minha, foi forrar uma parede de plástico, para não sujar, bem como o chão.

Nos dias seguintes estava a pleno vapor, dormia no salão, já que o quarto seria meu studio, comecei a receber informação, a trabalhar, a tentar entender a arte.

Nos domingos falava logo cedo com os meninos, com minha tia, eles agora a ajudavam, afinal não era tão jovem assim.

O que estranhei a princípio era que sempre tinha alguém procurando pelo proprietário, eu só respondia que não vivia ali, que tinha alugado o apartamento.

Um dia fui abordado na rua por um sujeito imenso, desses que passam o dia inteiro no ginásio, lhe disse o mesmo, que só tinha seu número de celular, nada mais.

No dia seguinte este me ligou dizendo que não disseste aonde estava, pedi dinheiro emprestado para cuidar da minha mãe, esses caras querem o dinheiro.

Quando o homem me parou na rua outra vez,  eu mesmo lhe disse, creio que jogou o celular fora, pois não me atende, aluguei o apartamento por dois meses, quando acabe vou embora daqui ninguém me deixa trabalhar direito.

Me perguntou o que eu fazia, lhe disse que pintava, abriu a camisa, perguntou se eu não o queria como modelo.  Lhe disse que não fazia esse tipo de pintura.

Ele insistiu, aceitei a contra gosto.  Marcamos, logo no primeiro dia, mal chegou, tirou a roupa toda, ficou nu.

O mandei se sentar num banco, numa determinada posição, comecei a desenha-lo, fui mudando de lugar para ver de outras posições, ao final, abriu as pernas, estava excitado.  Foi claro, queria fazer sexo comigo, essa nossa diferença de cor me excita.  Lhe disse que nunca tinha feito sexo com outro homem.

Não se preocupe te ensino, quando me viu nu, ficou impressionado com meu pênis, não o largou mais, eu pensando que ia ser currado, tive outra experiencia.

Ficou aparecendo várias vezes, conversava comigo, lhe impressionava o fato que eu sendo artista não consumisse drogas.

Me disse esta noite, que se continuasse me vendo, ia se apaixonar por mim, que não sabia se isso era bom, para o que ele fazia, mas que não conseguia me tirar da cabeça.  Eu não lhe disse nada, mas tinha arrumado um outro apartamento, no sentido contrário deste.

Durante o dia, ele nunca aparecia, me mudei rapidamente, tinha pouca coisa, além do meus desenhos, poucas roupas, meu luxo era a caminhonete. Coloquei tudo em cima desta, me mandei.

O melhor é que este agora tinha garagem, assim pelo menos eu podia esconder a caminhonete, se alguém me procurava por ela.

Semanas depois na banca de revista da frente da loja que trabalhava, mostrava uma foto de um assassinato, era o coitado, fiquei imaginando se eu estivesse junto, o chumbo que teria recebido.

Nunca mais voltei a ver o proprietário que me tinha ajudado, sabia que estava metido num marrom de fazer gosto, dever dinheiro a máfia, não era nada fácil.

Creio que fui criando sem ter muita noção um estilo próprio de trabalhar, isso parecia agradar aos professores,  na verdade escutava suas orientações, as entendia, mas usava a minha maneira, descobri depois que era isso que esperavam, orientar, mas que cada um fizesse a sua maneira.

Sentia uma dificuldade imensa de fazer amizades, tinha o tempo limitado, quando não estava ali, estava na loja, depois estava no pequeno apartamento pintando.

Na escola estava experimentando fazer um quadro grande, queria me sentir vivo fazendo isso, cada um tinha uma parede para isso.   A principio não se via qual o meu objetivo, fui criando capas, já com o rosto da figura em volume, quando estava com a textura que queria, comecei a desenhar o rosto de minha mãe morrendo, como ela tinha ficado com a boca aberta, após levar o tiro, querendo buscar ar.    Estava tão concentrado, que não percebi que os outros tinham parado de fazer o que estavam fazendo, estavam me olhando trabalhar, dois professores me observavam.

Quando acabei, me afastei, sem querer esbarei num colega que estava atrás de mim, que eu não tinha visto. Me aplaudiram.

Os professores balançaram a cabeça, como dizendo muito bem.

No dia seguinte, quando entrei na sala, eu sempre chegava antes dos outros, para seguir trabalhando,  ali estava um homem bem vestido, os cabelos impecáveis, todo uma figura, estavam ele, um dos professores de costas para mim.

Quando me viram o professor me apresentou,  Ruben Gaultiery tem uma galeria, no Soho, gostou do teu trabalho.

Mas ainda sou  um iniciante, preciso trabalhar mais.

Isso, necessito de mais quadros, não posso te lançar numa coletiva, pois vais acabar com os outros.

Se me fazes 10 desses tamanhos, prometo te vender todos.

Sinto muito no meu apartamento, não tenho espaço para isso,  é um studio pequeno, é o primeiro grande que faço, acho que o senhor está se precipitando.

O Ruben ria, imagina encontrar um artista que tem a capacidade de ser honesto, reconhecer que está começando.

Converse com teu professor, me deu um cartão, tens uma semana para me responder, eu posso arrumar um lugar para trabalhares.

O professor, era daqueles pessoas que falavam o estritamente necessário.  Quando vi o teu quadro vi o teu talento nascendo, todos teus trabalhos anteriores, embora pequenos são bons, mas isso te faltavam espaço para mostrar teus sentimentos.

Eu te arrumo um lugar, pois se ele o faz, ficarás em dívida com ele, outra coisa, ele vai te apresentar um contrato de exclusividade, não assine, ficarás para sempre preso dele. Leve essa conversa que só estas começando.   Mas faça a exposição.  Ah antes que use como argumento que trabalhas de tarde, eu sei que sim, tens dinheiro para aguentares pelo menos dois meses, esse é o tempo que vais pedir a ele.  Se não tiveres eu empresto.

Nesse tempo todo, tinha usado pouco o dinheiro que minha tia tinha me dado, bem como guardava a maior parte do que ganhava na loja.

O dono me disse, vai, se não acontecer nada voltas, as senhoras adoram ser atendidas por ti, pois lhes explica o que devem usar.

Fui ver o local com o professor, era um dos últimos, galpões que existiam ali no Village, recebi de herança, estou negociando a venda, mas posso esperar você acabar de preparar seu trabalho.

O senhor poderia vir por aqui olhar o que estou fazendo?   Senão perderei a noção do tempo, o contato com gente, já não tenho amigos, ficarei muito isolado.

Claro virei sempre que possa.

Coloquei três telas imensas na parede, fui preparando mais ou menos igual a todas, duas fiz um fundo negro, pintei a cara do meu pai me chamando de Bastardo, quando falava, era como o visse em câmara lenta. Aquela boca imensa, com os dentes meio estragados pela bebida, os olhos amarelos, a fúria que tinha seu olhar.

O terceiro desenhei o homem que tinha conhecido que tinha posado para mim, que nem sabia o nome, mas aproveitei os desenhos, a foto dele no jornal, pois a tinha visto de cabeça para baixo, o fiz sem roupa, numa diagonal do quadro, tudo era branco negro, em vez de estar com os olhos fechados, como na foto do jornal, o fiz com os olhos abertos, quando tínhamos sexo, chegava ao orgasmo.   Era como um orgasmo na morte.

O professor tinha uma maneira de comentar, balançava a cabeça, isso fazia que eu soubesse que estava bem.

Um final de semana me convidou para jantar, sei que não frequentas ambientes, mas precisas conhecer gente de tua idade.   Fomos a um restaurante, que parecia um teatro de revista, entrava e saia gente que sequer comia, somente alguns comíamos.   Muita gente vinha falar com ele, me apresentava, mas não me chamavam atenção.  Entrou um homem muito alto, vestido de mulher todo de azul, parecia um choque, pois se notava que tinha pelos no corpo, perguntou ao professor se depois ia ver o show.

Venha com seu namorado, apontou a mim.

Respondi rapidamente, não sou seu namorado, sou seu aluno, não tenho namorados, mas quero te pintar.

O outro puxou uma cadeira, como é isso.

Quero te pintar da minha maneira, vens ao studio, vês o meu trabalho, se aceita, te pinto, não posso pagar muito.

Caralho esse garoto, é incrível.

Incrível é o talento que ele tem, disse o professor que estava olhando a cena, com um sorriso na boca.

Ok, se vier ver meu show, apareço no studio, ok

Lhe disse que sim, prometo. Estendi a mão apertei, era a mão de um homem forte.

Depois de jantar, de conhecer mil pessoas, que no momento seguinte já não me lembrava de quem se tratava.  Não conseguia tirar da cabeça esse homem vestido de mulher, mas ao mesmo tempo tão masculino.

O professor, me disse, vais gostar do show, não é o show típico de travestis.

Eu lhe disse que nunca tinha visto nenhum, que nem sabia o que era.

O lugar do espetáculo, era ali perto, hoje já não existe mais.

Um bar, com mesas, um palco não muito grande, de repente apareceu aquele homem imenso peludo, com uma tanga, contou duas piadas, a melhor coisa que me aconteceu hoje foi conhecer uma pessoa, humana, sim porque vocês suas bichas descaradas, não são humanas.

De repente começou a cantar, quando terminou com sua voz potente, ficou meio em diagonal aonde eu estava. Tirei da minha bolsa um lápis, um bloco comecei a desenhar isso.

Mas era como se eu estivesse ao seu lado,

Apareceram outros atores, ele só voltou no final, agora vestido como estava antes, fazendo um numero comum outro ator, que estava vestido de homem, muito afeminado, dado momento, não sei como fazia, começava a cantar, mas como se estivesse comendo o outro que estava de fraque.  Era uma mulher possuindo um homem.

Sua cara era de uma maldade incrível, eu não parava de rabiscar, sobre o olhar atendo do professor. Quando acabou o show, ele disse que devíamos esperar mais um pouco, pois tinha muita gente saindo.

Por detrás chegou alguém que bateu no ombro dele, olá meu irmão, como andas, esse menino não prestou atenção no show.

Eu não podia acreditar, aquele homem era ele.  Comecei a rir, ele perguntou qual era a graça.

Lhe contei se o encontrasse na rua, não ia saber que era ele.

Obrigado isso é um puto elogio, significa que sou bom no que faço, mas na verdade, sou irmão mais velho dele.   Ele sempre foi o certinho da família, eu o ovelha negra.

O professor, tirou o bloco que eu tinha embaixo do meu cotovelo, ele prestou atenção sim no show, olhe.

Filho da puta desse garoto, como podes ler minha alma. Apertou minha mão, amanhã mesmo estarei lá.

Eu não podia esperar amanhã, não podia deixar esse homem escapar.  Lhe disse olhando na cara, não podíamos começar hoje?

Ficou me olhando serio de repente, o professor se afastou.

Não sabes com quem estas te metendo?   Isso pode ser ruim para ti, sou essa pessoa que viste em teus desenhos.  

Ah, estas pensando que quero fazer sexo contigo, ainda é cedo para isso, não tenho muita experiencia no assunto.  Portanto o que quero é outra coisa, tenho que fazer o que tenho na cabeça antes que me perca em outras coisas.

Fomos para o studio, quando entramos, ele só disse o local do meu pai.  Um bom filho da puta.

Pedi que tirasse a camisa, fui até o desenho, o que pensavas nessa hora, coloquei uns papeis grande na parede, comecei a desenha-lo, ficamos assim até de manhã, fazia calor, tirei a camisa, ele deve ter achado graça, eu era quase esquelético, branco como uma parede, meus pelos do sovaco eram amarelos.  Ficou me olhando, com um olhar de desejo, pintei isso também.  Lhe disse, tens uma coisa incrível, teu olhar, tua maneira de olhar, transmite tudo.

Bom por hoje acabamos, estou morto de cansado, um bom café agora iria bem, não achas.

Respondeu, prefiro um beijo.

Me aproximei, peguei sua cara passei a mão sujas de tinta por ela, o beijei, não imaginei que ia me incendiar. Não conseguia parar.

Caralho, não era para fazer isso. Mas não resisti, tirei sua roupa inteira, mergulhei nele, por assim dizer.  Quando terminamos estávamos os dois sujos de tinta.  Ficamos rindo.

Eu nunca imaginei que um garoto que não soubesse fazer sexo, pudesse fazer tudo isso.  A mil anos luz não tenho um sexo como esse.

Não nos largamos mais, durante dez anos, mas depois conto.

Preparei os quadros todos, ainda pintei dois de um negro que pedia dinheiro na Washington  Square, o desenhei ali na praça, sentado, pedindo dinheiro, era um dândi velho, mas com classe.   Perguntei se podia posar para mim, que lhe pagaria.  Me disse um preço, como dizendo ele vai se negar.

Um era um fundo branco, com ele como estava ali sentado, no outro o fundo era o céu cheio de nuvens, como se ele estivesse prometendo para todo mundo o melhor de suas vidas.  No último dia me disse que eu tinha uma coisa diferente das outras pessoas, tinha alma.   Nunca mais o vi, o procurei o resto de minha vida, mas não o encontrei.

Mas guardei isso dele, me dizendo que eu tinha alma, não aceitou o dinheiro que tinha me pedido.

O professor levou o Ruben Gaultiery para ver os quadros, ele ficou entusiasmado, eu não me enganei.  Tirou do bolso do casaco um contrato, justo nesse momento entrava o Jael, meu namorado, dizendo eu sou o agente dele, não assina nenhum contrato sem passar por mim, nem pelos advogados.

Tirou um lápis de uma de minhas caixas, foi riscando coisas.   Se quiseres fazer essa exposição, queremos um catálogo, cartazes pelos lugares importantes em termos de arte, quanto a essa porcentagem de 50% nem pensar, qualquer outra galeria ficaria com muito quiça com 15, o outro disse 20, ele é um desconhecido.

Ok, se trabalhares direito, os próximos quadros estarão sempre em sua galeria, mas nada de contrato.

Perfeito, vou preparar tudo que me pediste Jael, eu te conheço não?

Não acredito, acabo de chegar na cidade.  Eu agora ia dormir todos os dias na sua casa, nos dias que tinha show, eu ficava esperando por ele no studio, até que vinha me buscar.

Não tens medo de que saia com outro homem do show? Me perguntava sempre?

Não, porque sei que me queres, como eu a ti.  Olha Jael, podes fazer  isso qualquer hora do dia, quando estou trabalhando, nem vou pensar em te vigiar, mas se descubro algo, nunca mais vais me ver.

Um dia me arrastou com ele a um médico, para fazermos exames, foi claro, tenho Aids, me trato, viu que tenho cuidado, mas isso sempre é pouco.  Se quiseres me deixar eu entendo, devia ter falado no assunto no primeiro dia.

Nem podia pensar em deixa-lo, ele era um raio na minha vida.

Nos exames, deu que eu não tinha nada, mas me aconselharam como devia me comportar, isso tínhamos feito desde o primeiro instante.

Eu ia com ele visitar seus amigos no hospital, alguns em fase terminal, pedia licença educadamente se podia desenha-los, queria fazer uma exposição, para arrecadar fundos para o hospital, para aonde estava essa gente.   Quando ele dizia isso, aceitavam.

Mas tinha um que me olhava com horror, lhe perguntei por quê?

Me disse que nos meus olhos via a morte, que essa pele, esses cabelos, parecia a morte andando vestida de Rastafari.

Me sentei, comecei a desenhar, lhe disse assim?

Mostrei, começou a rir, até tossir, virou um grande amigo, saiu dali, seguimos amigos, porque se recuperou.  Jeremy Custer, um grande escritor, dramaturgo, as vezes aparecia no studio, ficávamos os três conversando coisas textos, quadros, ele dizia que eu conseguia ver a alma dos outros.  Acho que só quem viu a morte de perto pode fazer isso.

Um dia contei aos dois minha história, a cena do meu pai, minha mãe, como eu lhe dei o tiro no lugar dela.

Ficaram em silencio, Jeremy soltou que nesse momento eu tinha feito um pacto com o diabo, pois o que pensava que era meu pai ia me matar, mas teus reflexos ganharam, fizeste bem, um filho da puta sempre merece isso.

Minha tia tinha vindo com os dois ver a vernissage, disse que quando jovem tinha vivido essa vida, em Paris, fazia sucesso entre todo mundo.   Os meninos não se sentiram muito a vontade vendo os quadros, parece que estou vendo mamãe na cama me disse Matheus, pensei que ia me apaixonar pela cidade, mas a detestei.  Quero ir para casa, eu entendia, eu já não lhes inspirava confiança, entenderam minha pintura.   Me evitaram o resto de minha vida, como se eu os tivesse traído, os respeitei.

A vida seguiu, quando fiz a segunda exposição, ao ser dedicada aos doentes,  Ruben, convocou todos os jornalistas, pedia divulgação era por uma boa causa, nem ele nem eu íamos ficar com um puto dessa exposição.   Tudo foi vendido, o valor depositado em nome do hospital, para o tratamento da Aids.

Apesar da pressão para fazer uma nova exposição, queria mudar de ar.  Precisava sair de NYC, quando eu comentei com o Jael, ele me perguntou o que queria fazer.

Talvez me relaxar, ir a Paris, aos museus, beber na fonte, Londres, ou Berlin, vens comigo.

A resposta dele, foi franca, por nada do mundo te deixaria sozinho porque eres o ar que respiro.

Beber na fonte para ele, significava aprender, observou tudo nos museus modernos, como o Picasso, o Pompidou, depois em Berlin tudo que havia de moderno nas galerias.

Quando voltaram no voo Jael, começou a passar mal, saíram do aeroporto em ambulância diretos para o hospital,   depois de todos os exames, uma das medicações que ele tomava deixava de fazer efeito, agora vinha o mais difícil, acertar com outra, foram dias de agonia no hospital, mas não saiu do seu lado.

Eram capazes de se entender pelo olhar.                    Um dia Jael lhe disse que não queria ficar apodrecendo num hospital, como tinha visto seus amigos ficarem.  Não entendeu ou não quis entender o que se passava.  Dois dias depois quando voltava de comprar material para começar a trabalhar, visto que Jael saia do hospital, o encontraram morto.   Alguém tinha levado para ele um revolver ao hospital.

Ninguém sabia, ele estava aturdido, não conseguia entender.  Se lembrou da conversa, falou com os amigos dele, alguém tinha entendido a mensagem, ninguém abriu a boca.  Ele estava profundamente abalado com tudo, ficou fechado no escuro do studio dois dias sem sair, esperando uma luz, dormia ali mesmo no chão,  o tempo todo sonhando com os 10 anos que tinham convivido.

Quando se levantou, começou a pintar um quadro que era um revolver, pela primeira vez colocava umas palavras num quadro, será que resolve.

Passou semanas pintando como um louco, todos estavam preocupados, ele só abria para o rapaz que lhe levava comida.  Um dia, foi atender, atrás das embalagens estava o Jeremy Custer, venho te buscar, hoje é o enterro do Jael, não podes faltar.

Quando viu o que ele estava pintando, estas colocando toda tua agressividade para fora, isso mesmo.  O arrastou dali, contra sua vontade, o levou para tomar banho, mas a casa do Jael, tudo lhe fazia lembrar o homem que tinha amado tão loucamente.

O enterro ia ser judeu, tinham feito a autopsia do Jael, a bala tinha destroçado seu crâneo, mas nisso descobriram que tinha um tumor na cabeça, que sua vida não ia demorar muito tempo.

Ele procurou ficar a parte o tempo todo, essa quantidade de gente dando a mão, lhe ofendia, lhe fazia mal, era como ver milhões de mãos tentando lhe agarrar.

No cemitério, ficou afastado chorando, agora realmente tomava consciência que nunca mais o ia ver.   Ficou ali sentado num tumulo qualquer chorando como uma Madalena, uma pessoa lhe estendeu um lenço, aceitou, quando levantou a cabeça, estava ali um dos atores que trabalhavam com o Jael.        Sei o quanto ele te amava, mas é impressionante ver como transformastes esse homem num ser maravilhoso.   Devo muito a ele, deixei de fazer shows, ele disse que eu estava perdendo tempo, tinha talento para outras coisas.  Me fez ver que podia ser algo mais, agora estou estudando psicologia.

Ficaram ali conversando, comentou o que sentia, perdi uma pessoa que amei desde o momento que o vi, mesmo vestido de mulher, pude ver que por detrás estava um homem fantástico.

Ele me dizia o mesmo de ti.  Mas ele sabia que se ficasse vivo, a vida ia ser uma miséria, para ti, para ele.  Tinha visto todos seus amigos morrerem, não queria isso.

Eu entendi desde a primeira vez que me disse, mas não sabia o que podia fazer, não sabia como aliviar isso dele, na verdade tivemos uma viagem de despedida maravilhosa, nunca poderei esquecer nada que vi com ele, as conversas, as discussões que tínhamos a respeito do que víamos.

Eu acho que ele sabia que era sua última viagem, pois me disse dias antes, se não vou, pode ser que nunca mais veja o homem que amo.

Mas tens que tocar para frente, lembre-se que o Jael, já tinha quase 65 anos, ele era muito mais velho que você.   Tinha vivido a vida que tinha escolhido.  Você ainda é jovem, tens muito pela frente.

Lhe deu seu número de telefone, quando quiser apareça no studio.   Assim começo uma amizade que duraria sua vida inteira.   Agora saiam os três, Jeremy, Coult, o arrastavam para jantar, ir a um cinema, ou mesmo a estreia de um espetáculo, baseado na obra de Jeremy.

Assim foi se reerguendo aos poucos.  Pintou uns dois quadros que era ele mesmo gritando, na verdade era um quadro em branco, com uma boca escancarada gritando, os dentes, a língua  as narinas , os olhos nada mais.

O outro era sobre um sonho que ele tinha tido, como se fosse uma vingança, agora lhe tirava outra vez uma pessoa que ele amava.

Tentou falar com os irmãos, Thorpe estava estudando em San Francisco, Matheus levava o restaurante na vila, cuidava da tia, não quis falar com ele de maneira nenhuma.

Não insistiu, quem sabe o tempo acomodaria tudo.

Os dois últimos quadros, foram comprados sem sequer passar pela galeria, todos os dois para um museu Frances.   Para muitos seria uma glória, mas o dinheiro de um comprou um apartamento antigo, imenso num último andar, como precisava de reforma, abriu todo um lado, deixando uma pequena parte, para uma, sala, cozinha banheiro e um quarto, o resto era seu studio.

As vezes tinha vontade de sexo, saia com os amigos, pelas discotecas, os dois riam dele pois se fixava em homens parecidos com Jael.  Ele mesmo percebeu isso, começou a procurar o oposto.

Mas nunca passavam de uma noite, não havia magia, nada que fizesse inclusive que a pessoa ficasse para dormir.

Um dia vinha andando pela rua, deu sem querer um encontrão com alguém que vinha carregado de livros, se abaixou para ajudar, pedindo desculpas.   Era mais ou menos de sua idade, loiro, olhos verdes, atlético.   O rapaz disse, eu sei quem eres, caramba, adoro teus quadros.  O sorriso que tinha era cativante, começaram a conversar, foram tomar um café.

Porra quiseram ter isso todos os dias, conhecer uma pessoa especial.  Ficaram de se ver, estuda jornalismo na universidade.   Mas não deu certo, quando chegaram a cama, ele queria o Jael, foi uma merda, menos mal que o outro foi esportivo.  Eu entendo, as pessoas que amamos, nos marcam para a vida.

Um dia vagabundeando pela rua, para se relaxar, viu um cartaz de um grupo de jazz, um que segurava o saxofone, parecia com a descrição que tinha dado sua mãe.   Foi assistir sozinho o show.   Como estava sozinho numa mesa, três rapazes perguntaram se podiam sentar ali.  Um deles era filho do homem do saxofone.  Lhe perguntou se queria conhecer seu pai, podia apresenta-lo.

Disse que não, ir buscar no passado, não ia fazer bem, pois teria que desenterrar muita coisa.

Fez um quadro, que era como figuras recortadas, um homem tocando saxofone, tinha memorizado seus movimentos, era como se a cada movimento a figura que começasse em negro fosse se diluindo na tela, até ficar com duas mãos mais nada segurando o saxofone.

Isso era o seu passado, se diluindo, nunca mais iria em busca do passado, nunca mais voltou a vila, quando a tia morreu, mandou um ramo de flores, mas sequer telefonou aos irmãos.

Seguiu sua vida pintando, algumas vezes saia com alguém, mas seus dois amigos eram sua companhia predileta.

Pelo menos uma vez por semana, saiam para jantar, conversar, ou iam ao studio para ver o que estava pintando.  Quando teve uma quantidade grande de quadros, chamou o Ruben, marcaram uma exposição.   De novo foi um sucesso.  Tudo vendido.

Ele sentia que precisava se reciclar, não gostava de ficar parado no tempo, resolveu aprender a fazer escultura, voltou a escola para isso.  Quando estiveram em Paris, tinham ido ao Museu du Quai Branly, aonde viu muitas máscaras africanas, nem tinha tocado nessas fotos, procurou as mesmas,  começou a trabalhar em cima disso.    Misturando o como gostava de trabalhar, dizia que a boca os olhos, as narinas das pessoas podiam dizer muita coisa.

Começou a sair pelas ruas procurando negros que se parecessem com mascaras, os desenhava, um dia estava na Washington  Square, ficou fascinado por um estudante, seus traços pareciam terem sido cortados a faca, ficou ali o desenhando, mudando de lugar para ter outras perspectiva, quando escutou uma voz forte dizendo, fazes isso sem autorização, vou chamar a polícia.

Não tinha visto que ele tinha saído do banco aonde estava para se colocar ao seu lado.

Caramba, fico mais bonito, pelos teus traços. Estendeu as mãos negras por fora, brancas na palma,  Jonathan ou Jonas  Klayberg, mas minha mãe me chama de só Jonas,  é uma senhora fantástica.

Queres posar para mim Jonas?

Caramba rapaz, vai ser difícil, primeiro porque eu disse meu nome, me apresentei, mas tu não disseste o teu.

Thobias Grunderk, sou pintor.

Eu sei quem eres, me lembro quando chegaste na universidade, com aquele cabelos imensos rastafari, ainda perguntei a um colega, de aonde saiu essa peça.

Sou professor aqui,  dou aulas de direito, bem como de psicologia criminal.

Estou perdido, adeus, meus crimes todos virão a tona.

Se tenho tempo, claro que posaria para ti, mas tens que fazer um retrato meu, para oferecer a minha mãe, ela ia adorar. Tirou da carteira, uma foto dele, ao lado de uma mulher branca, ah sou filho adotivo.

Passaram a se encontrar ali na praça, até que um dia o levou ao studio,  pediu que tirasse a jaqueta, bem como a gravata, a camisa. O iluminou como gostava, começou a desenha-lo de todas as maneiras.  Sem saber, bem porque, num desenho incluiu o menino que estava com a mulher branca.  Seus olhos, sua maneira de olhar para ela.

Jonas quando viu ficou de boca aberta, como sabes que eu estava pensando nisso, essa foto estava guardada aqui a muito tempo, nunca mostrei para ninguém, porque pedem muitas explicações, eu odeio.  Você ao contrário, olhou, guardou na tua cabeça, agora sai espontaneamente.

Quando Jonas voltou de novo, ele tinha pintado um quadro, aonde Jonas criança, estava sentado num banco de jardim, com a senhora, que ele tinha memorizado, com um vestido cheio de flores, atrás olhando os dois Jonas adulto, de traje, gravata, um olhar sério.

As lagrimas rolavam na sua cara.  Como chegaste a isto?

Não sei, olhando a ti. Nada mais.

Eres um caçador de almas. Fez uma coisa que ele não esperava, se levantou, o abraçou, beijou sua boca, foi um efeito devastador. Ficou sem folego.

Tinha encontrado um novo amor.   Os dois faziam um par completamente diferente, ele tão branco, o outro tão negro.   Quando ele disse ao Jonas que era albino, primeiro ele não acreditou, lhe mostrou a foto de sua mãe, ela me contou no seu leito de morte, que tinha tido uma aventura, com um negro de uma cor distinta aos demais, que ele sem roupa era como um homem branco, eu nasci assim, branco quase transparente.

Foram levar o quadro para a mãe do Jonas, era uma senhora muito distinta, vivia numa zona chic da cidade.   A então é você que tem sequestrado o meu filho.   O abraçou, beijou seu rosto.

Quando viu o quadro, perguntou quem te falou nesse vestido, ele explicou que tinha visto nos olhos do Jonas.   Quando soube que ele na verdade era albino, ria muito, podia pensar que eras sueco, da Noruega, ou coisa parecida, mas que tivesses sangue negro nunca.

Agora ia com Jonas todos sábados jantar na casa dela.

A princípio Jonas só vinha dormir, mas foi ficando, gostava de estar estudando ou escrevendo qualquer coisa, enquanto ele pintava ou desenhava.

Os outros dois quadros do Jonas foram para a exposição, já marcados de vendidos, não queria que ninguém tivesse o seu amado. Os deu de presente a ele.

Agora depois de todos esses anos, estava esperando por ele, para entrar nas salas aonde faziam a retrospectiva de sua vida.   Estava emocionado,   Jonas sempre o acompanha em tudo.

Viu que ele chegava por detrás, o que estas fazendo aí escondido, aproveitando isso para rever tua vida.  Ele ofereceu seus lábios, sim, exatamente isso, fazendo uma análise de tudo.

Entraram os dois no salão do museu, aonde estava sendo sua retrospectiva, com obras que tinha espalhados pelo mundo inteiro.  Agora com a idade, trabalhava mais devagar, fazia uns desenhos pequenos para depois aumentar.  Tinha sempre no bolso, um bloco pequeno, um lápis.  Nunca tinha imaginado isso, essa necessidade de estar sempre captando pessoas.

Estavam os dois casados oficialmente a meio ano, a mãe do Jonas, dizia que queria morrer tranquila, sabendo que o filho estava bem casado com ele.

Comentou com ele, pena que ela não está aqui.

Ia adorar, conversar com essa gente toda.  O quadro do Jonas com ela, ocupava uma sala especial.

Pela primeira ver tinha se recordado do Jael, sem sentir dor no peito.

A vida seguia, agora em ritmo mais tranquilo.

OUTRO?

                                                      

Estava com a mão doendo de tanto dar murros na parede, filho da puta era pouco dos palavrões que dizia, ao mesmo tempo se culpava por ter sido ingênuo.

Estava literalmente apaixonado, mas isso não resolvia o problema, agora via que tinha sido usado todo esse tempo.

Se lembrou literalmente como o tinha conhecido, estava em seu escritório, no alto de sua torre que os amigos diziam que era de Rapunzel por causa de seus cabelos loiros compridos, acabava de atender um cliente, agora entrava outro.

Desculpe, abriram a porta, a secretária me mandou entrar, mas creio que há um engano, estendeu a mão ele por força do hábito disse, Johnny Fieldscott em que posso atende-lo. 

Estou procurando o senhor Robert.

Ah, é a sala seguinte, não passa nada, as secretárias deviam acompanhar os clientes até a sala, mas estamos em falta com pessoal, a empresa ainda é nova.

Ele tinha estado mais de dois meses, fazendo práticas em San Diego, agora sentia falta de lá, ao voltar em pleno inverno de NYC.  Acompanhou o homem, lhe indicou a sala, tudo que viu  que era um homem atraente.

Atendeu o seguinte, depois saiu para almoçar, estava esperando um amigo que não via a algum tempo, tinham sido namorados, mas agora eram apenas amigos, já estava sentado quando este chamou para pedir desculpas, um cliente de última hora.   Não passa nada, respondeu, já nos falamos.

Começou olhar o menu para pedir a comida, ia almoçar sozinho isso já estava acostumado, viu uma pessoa parada na frente dele, ia dizer o que queria, era o homem que tinha entrado em sua sala por engano.

Johnny, não é?    Me chama Robert Dascal, não tive tempo de me apresentar, falei com teu colega, creio que houve um erro lamentável de ambas as partes, me mandaram vender algo, que vocês também vendem. 

Sente-se, vais almoçar?

Não, acabei de fazê-lo, mas  te espero para tomar café.  Ficaram conversando, ele disse que vivia fora da cidade, ainda não consegui apartamento aqui.  Estou procurando. 

Creio que um ao lado do meu, está para alugar, se me espera depois do trabalho, eu saio por volta das seis, inclusive dá para ir a pé.

Ficaram conversando, falando de produtos que vendiam, nada de muita importância, não sabia o que pensar, já que o outro o olhava diretamente na cara. Por duas vezes quase tinha deixado a comida cair na toalha.   Tinha ficado nervoso, aquele homem bonito olhando para ele assim, não sabia o que pensar.

O acompanhou até o edifício, se despediram, nós veremos quando saia.

Trabalhou o resto da tarde, atendendo pessoas, era um trabalho novo para ele, antes tinha sido vendedor, mas de sistema de internet para grandes empresas, era especialista nisso.  Mas a empresa fechou, aceitou esse trabalho.  Não lhe desgostava, mas esperava logo conseguir alguma coisa na sua área.

Por algum tempo esqueceu do outro, quando levantou a vista, viu que estava atrasado, pensou no frio que devia estar aquentando.

Desceu rapidamente, lá estava, pediu desculpas, foram andando, foi cortes perguntou pela sua tarde de trabalho, etc.

Quando chegaram no edifício o porteiro disse que já estava alugado, mas dentro de uma semana, vai liberar um justamente no andar de cima.  Anotou o nome do Robert, com o frio que tinha obrigado ao outro aguentar, por ter esperado, lhe perguntou se queria um café, assim via como era o tipo de apartamento.   Entraram sacudindo do resto de neve.  O apartamento estava razoavelmente quente.          Perguntou se queria café ou outra coisa para esquentar, este riu lhe perguntado o que tinha para oferecer, trouxe uma garrafa de whisky, dois copos, perguntou se queria gelo, ele disse que gostava a cowboy, riu dizendo que ele também.

Lhe serviu, lhe mostrou o apartamento, por último o quarto que era espaçoso, com relação a sala, lhe perguntou se tinha família,  porque aqui não vive nenhuma família, creio que a maioria é família sem filhos.

Disse que não, lhe gostou que tinha uma poltrona, com uma mesa, justo perto da janela,  lhe explicou que gostava de ler, ali estava bem.  Quando iam voltando para a sala, ficaram frente a frente na porta, o outro avançou o beijando na boca, foi uma loucura, um terremoto percorreu seu corpo.  Quando viu estavam fazendo sexo como loucos, o tinha penetrado, este gemia, pedindo mais.  Acabou dormindo ali com ele, se levantou mais cedo dizendo que tinha que passar pelo seu hotel, para trocar de roupa.

Um pegou o número de celular do outro, passaram a dormir todos os dias, mas na sexta-feira disse que tinha que tomar o trem para a casa dos pais, pois levava a roupa para lavar, que se veriam na segunda, assim foi durante dois meses. 

Estava literalmente apaixonado.  Como era época de natal, saiu para comprar alguns presentes, no sábado, com um amigo, tinha que comprar coisas para sua mãe, sua irmã, claro para os sobrinhos, entraram numa grande loja de brinquedos modernos, quando o viu abraçado a uma mulher, ficou parado, se escondeu atrás de uma coluna, menos mal que seu amigo disse que o esperava fora, pois ali cheio de criança não entravam.  Viu que dois garotos corriam até ele, gritando papai.  Ele passou a mão na cabeça dos meninos, depois beijou a mulher. 

O primeiro impulso foi de se aproximar, para ver sua reação.

Ficou furioso, nessa noite saiu com o amigo tomou um porre monumental, estava frustrado, não gostava do emprego, ia aguentar mais tempo, pois pensava que estava apaixonado, mas não passava do outro.  Na cama o filho da puta estava sempre pedindo para ser enrabado, agora isso, era casado.

Por sorte no domingo, um amigo que tinha feito em San Diego lhe chamou, para dizer que na sua empresa de informática, precisavam de alguém com a experiencia dele, se queria, o lugar era seu.  Disse que sim, que queria, só precisava de dois dias, para embalar suas coisas, pedir demissão.   Se for possível, irei buscar meu carro  na casa da minha mãe, deixo os presente, irei de carro, pois aí, é melhor andar de carro.  

O amigo lhe disse que podia ficar uns dias na sua casa, mas que normalmente a empresa encontrava apartamentos para os empregados.   Perfeito foi tudo que disse, nem perguntou pelo salário, queria era sair desse inverno, da situação que estava.

Passou o dia inteiro arrumando em três caixas o que era seu,  segunda de manhã, foi a empresa, pediu as contas, foi até a casa de sua mãe no Brooklyn, deixou os presente, pediu desculpas, mas não podia perder essa oportunidade.   Quando voltou seu celular não parava.  Até conseguir um lugar para estacionar, foi difícil.  Quando chegou a porta do edifício, lá estava ele lhe esperando.  Lhe apertou a mão, ele subiu atrás dele.

Quando o este olhou as caixas, lhe perguntou o que significa isso, ele lhe mostrou uma fotografia dele com a família.

Ele literalmente se sentou numa cadeira.  Eu ia te contar, sinto muito, estou apaixonado por ti, estou tentando aguentar tudo, não esperava me apaixonar, pensei que ia ser somente uma noite, mas não consigo te tirar da minha cabeça.

Chegas tarde, além de que, eu jamais aceitaria ser o que fica esperando, te enganaste de pessoa, sou jovem demais para aguentar isso.   Se levantou tentando beija-lo, mas o empurrou, não sejas idiota, nem uma última noite quero contigo, me usaste isso não perdoo.

Queria saber para aonde ele ia, se negou a dizer.  Aliás nem no trabalho tinha dito, a única que sabia era sua mãe.

Estava furioso, lhe disse agora que já falamos, por favor de sair, antes que chame a polícia.

Ele foi embora, furioso, como se tivesse a razão.   Se sentou, chorou um pouco, mas não podia perder tempo, desceu pediu se o porteiro podia ajuda-lo, desceu suas coisas, enfiou no carro, lhe entregou a chave do apartamento.

Se me perguntarem aonde o senhor se mudou, o que digo.

Nada, literalmente nada, vou pelo mundo.

Entrou no carro, olhou para ver como estava de gasolina, era uma hora horrível para sair da cidade.  Estava literalmente furioso, nem dois quarteirões de sua casa, quando o viu falando com um rapaz, parecido com ele.  Ficou furioso, desceu do carro, se aproximou, ele dizendo ao outro que prazer te encontrar.   O agarrou, beijou na boca, virou-se para o outro, tens que ter o pau bem duro, pois ele gosta muito de dar o cu.

Saiu disparado, com ele atrás, filho da puta, é o irmão da minha mulher.

Agora te apanhes, entrou no carro, foi embora. Tinha de uma certa maneira se vingado. Na hora foi ciúmes mesmos.   Agora lhe importava uma merda a vida dele.

Antes de entrar na estrada, parou num posto de gasolina completou o tanque, viu que tinha um motel ali perto,  pediu um quarto, a mulher riu dizendo, o último, com esse frio ninguém quer dormir nos caminhões, ele viu uma fila de caminhões ali.

Já estava entrando no quarto quando escutou uma voz atrás dele, ei garoto bonito, não queres dividir teu quarto, meu caminhão está frio.   Olhou para trás, era um cara alto, com uma camisa de quadros vermelha, botas de cowboy, bonito a bessa.  Disse entra, antes que morras de frio.

Uau, que sorte, a mulher tinha acabado de dizer que este era o último. Se te incomoda durmo no sofá.

Bom tudo que quero agora é tomar um banho, quando saiu o outro estava deitado na outra cama, de cuecas, camiseta, tinha um corpo de enfarte.

Agora vou eu,  parou na porta, na hora que te vi, estava com uma cara de fúria, que quase desisti de pedir.

Não passa nada, vestiu uma camiseta, uma cueca, ficou encostado na cama.  O outro saiu, só de toalha, com os cabelos molhados.

Sabia que quando andas teus cabelos largos balança, são muito atrativos.

Posso, se sentou ao seu lado na cama, me conta o que te aconteceu?

Sem saber muito por que contou tudo. 

Eu te entendo, passei por algo parecido, mas do outro lado, me casei muito cedo, mas evitei ter filhos a toda custa,  ela era minha primeira namorada, nunca tive outra, não tinha experiencia, quando comecei a viajar, conheci um sujeito que levava a vida como eu, da mesma empresa que trabalhava na época.   Acabei fazendo sexo com ele, me apaixonei como um idiota, pedi o divórcio, pois não podia imaginar minha vida sem ele, quando cheguei na empresa, me disseram que ele tinha trocado de companhia, para ficar mais perto da família, tinha mulher, quatro filhos, estava no seu segundo casamento.

Mas a primeira vez que nos encontramos, se comportou como se nada tivesse acontecido.

Bem vamos dormir que está tarde, perdão se jogou na outra cama, não sei dormir de roupa, tirou toda sua roupa.  Tinha um corpo espetacular.

Porque não pensou, melhor dormirmos juntos, para esquentar, foi uma da melhores fodas que tinha tido na vida.   Depois ficaram rindo, ele soltou, fazer sexo contigo é como uma montanha russa.

Para aonde vais?

San Diego, para um novo trabalho.

Vou na mesma direção que você, podemos ir nos encontrando pelo caminho, marcamos quantos quilômetros fazemos, que te parece.  Tomaram café junto, escutando as notícias comentando.   Lhe perguntou aonde vivia.

Vivo em San Diego, embora seja de Santa Fé, mas amo a praia, fazer surf, tenho uma pequena casa na praia.

Ele disse o próximo lugar que pararia, te espero lá, riu posso ter certeza disso?

Sim, vou ligar para o amigo que me arrumou o emprego, lhe digo que por causa do tráfego, que preciso ir pensando na vida,  chegarei em uns 3 dias.

Vale,  marcaram, ficaram rindo, ele viu se carro, precisas de um novo, eu quando não estou na estrada, conserto carros, vendo, etc.

Sem porque ficou analisando o encontro, tinha sido algo estranho, tudo o que ele não tinha feito na cama com o outro, porra nem lhe perguntei o nome. Lhe chamou pelo celular, nem perguntei teu nome.

José Garcia, apesar de loiro, sou filho de mexicanos, depois te conto.  Paramos para almoçar?

Já te alcançarei.   Almoçaram juntos rindo, do fato de não terem perguntado o nome um do outro.

Johnny nunca gostei tanto de estar com alguém, me senti a vontade, apesar do princípio de pensar que estavas se desaforando do teu ex-namorado.

Nem pensei nele, juro, me senti a vontade contigo, contou que o outro na cama era como uma mulher, eu achava estranho, mas não me toquei, ele queria o que não tinha na cama com sua mulher.

Se não fosse me atrasar pois tenho que cumprir horário, iria fazer sexo contigo no caminhão.

A noite jantaram, depois ficaram na cama comentando coisas, estavam entrando numa área de deserto, a noite que vem, se queres podemos fazer uma coisa, parar num lugar que adoro, tenho mantas, edredom no caminhão, dormir olhando as estrelas queres.

Ficou de pau duro, imaginando, já não estava fazendo mais frio, se entregou completamente a ele, depois dormiram agarrados um ao outro.  De manhã fizeram sexo outra vez.

Disse que ele faria as compras, para comerem no deserto.  Ok

Nos vamos falando,  almoçaram juntos outra vez, chegaria mais tarde em San Diego, mas arrumaria uma desculpa.    Se encontraram no posto de gasolina, comentou meu carro está esquentando muito, ele imediatamente abriu o capo, começou a examinar. Uau, menos mal, porque ia te deixar atirado daqui uma ou duas horas.   Foi a loja do posto de gasolina, veio com a peça, trocou para ele.

Quanto te devo?

Me paga com sexo, faz muito tempo que não sou feliz com ninguém,  me siga, chegaram justamente na hora que o sol estava se apagando, a paisagem era fantástica.

Comeram sentados em cima de mantas, bebendo, coca cola, José lhe disse que quando estava na estrada não bebia.

Me conta essa historia de seres loiro, olhos azuis, ter nome mexicano.

Sou adotado, meu pai verdadeiro era amigo da família que me criou, ele estava com minha mãe tinham bebido muito, eu estava num cesto no banco de trás, capotaram com o carro, morreram os dois, o nome de contato como parente era o Jose Garcia.   Ele me levou para sua casa, não tinham filhos, então me adotaram, me colocou seu nome.  É uma figura, pensei que ele fosse dizer quando descobriu que eu era gay, que não me queria como filho, só me disse que me queria feliz.

Foi fantástico fazer sexo ali a luz da lua, olhando nos olhos, dele, cada um penetrou o outro várias vezes, não queria acabar, pois no dia seguinte chegariam a San Diego.

Já vi que não tens muitas coisas, não queres ficar na minha casa para irmos nos conhecendo?

Não vou te incomodar.   Depois iras de viagem, como fico.

Ah, não te disse, essa era minha última viagem, fiz para cumprir um compromisso com a empresa, faltou alguém, me chamaram, eu arrumo os caminhões para eles.  Só faço isso de vez em quando me pedem, me pagam muito, por isso não nego.

Depois é norma ir passar o natal em Santa Fé, com meus pais, podes vir comigo.

Mas José mal nos conhecemos.

Eu sei, mas não quero perder o que tenho contigo.   Ele pensou bem, disse eu tampouco, creio o que tive em NYC, foi porque me sentia totalmente sozinho.  Agora me sinto forte ao teu lado.

Lhe disse aonde tinha que lhe esperar, almoçaremos juntos, depois te levo para minha casa.

Voltaram a fazer sexo, quando o dia amanhecia, adoro teu cheiro lhe disse ele ao ouvido, estou louco por ti.  Fizeram um sexo fantástico.

Voltaram para a estrada, como tinha sobrado coisas, comeram no meio do caminho, quando entramos em San Diego, vou deixar o caminhão, tu me segues,  depois pego meu carro, vamos para casa, espero que não queria me esperar fora, não tenho vergonha do que sou, todo mundo sabe que sou gay.   Mas não deixo nenhum deles, se aproximar de mim.

Assim fizeram, ficou surpreso, com a casa dele, era fantástica, estava quase ao final de uma praia relativamente perto de aonde ia trabalhar.  Avisou seu amigo que tinha chegado, que não se preocupasse, que no dia seguinte cedo estaria pronto para trabalhar, embora fosse sexta feira, pelo menos ia tomar contato com o que ia fazer.

Comeram ficaram sentados numa varanda que tinha no andar de cima, no quarto do Jose, só não podemos fazer sexo aqui, porque iam ficar com inveja do meu homem.

Lhe mostrou aonde tinha oficina.

De noite disse, as vezes a vida te putea, mas em seguida te dá um presente, não podia ser melhor, isso é ótimo.

No dia seguinte, foi cedo para o seu novo trabalho, foi bom porque estavam relaxados pelo final de semana.  Conversou longamente com o chefe que queria criar um novo tipo de serviço, lhe explicou, infelizmente só te podemos oferecer uma secretaria ou secretario que tomes como ajudante.  Lhe disse o salário que era três vezes o que ganhava em NYC, bom isso estava bem, lhe levaram aonde iria trabalhar, uma sala separada, ah disse o chefe, esse salário é para os três primeiros meses, se o projeto avança, aumentamos com benefícios.  Agora venha, vou te apresentar os candidatos que temos, lhe passou as fichas, leia no final de semana, na segunda-feira entregue a minha secretária, ela os chamara para entrevista.

No meio da semana que vem é natal, então paramos na quinta-feira, voltamos na terça-feira porque a maioria é de outra cidade, para dar tempo de chegarem.

Estava super contente, passou na oficina, do José, ele estava terminando um trabalho, ficou sentado perto o vendo super concentrado no que fazia.  Era um modelo antigo da Ford, do ano de 1946, super luxo Woody Vagon, lhe recitou José.   O comprei de um senhor que foi surfista estava na garagem meio oxidado, o motor tinha ido para a merda, desmontei inteiro o mesmo, as peças que não encontrei, fiz eu mesmo no torno, até ficarem iguais, estou nisso a três meses, faltam ainda lixar a madeira lateral, recuperar a mesma, depois pintar nas cores da época, enfim bastante trabalho.   Anúncio, falando que o motor é novo.

Recupero ou peço para algum conhecido me ajudar recuperar os assentos, esses estão ótimos, escute o motor, parece um novo. 

Foram caminhando para casa, ele disse, preciso falar uma coisa séria contigo, porque se vamos para Santa Fé, será uma das primeiras coisas que meu pai vai falar contigo.  Não quero que te pegue de calças curtas.                  Inclusive depois do que eu te diga, podes até me dizer adeus.  Eu nunca comento, morro de medo de falar no assunto, mas como estou apaixonado por ti, tens que saber a verdade.

Eres soropositivo por um acaso?

Não nada disso, tem a ver com doença, mas nada disso, sentaram-se na sala, de mãos dadas, olha a uns dois anos atrás, desmaiei, fui parar no hospital, me diagnosticaram uma doença do coração, que deve ser hereditária, ou de nascença, como sou tão grande, meu coração em alguns lugares é como uma folha de papel.   Posso viver, cinco anos, 10 anos, 20 anos, conforme o que eu faça.   Um dos motivos que não aceito mais viajar de caminhão, pois poderia acontecer algo na estrada, sem querer provocar um acidente.

Mas faço exames todos os meses, segundo o médico, o que me aconteceu foi como um aviso, quero que saiba disto, pois como estamos começando a nos conhecer, temos tempos de nos recuperar.  O segundo assunto, ficou parado, esperando a cara de ansiedade dele, foi difícil esperar o dia inteiro para te ver de novo.

Seu sem vergonha, quase me mata de susto.  Na verdade, a vida é assim, por exemplo meu pai, saiu para trabalhar, não voltou, minha mãe levou dias para descobrir que estava morto na morgue de um hospital, quando caiu fulminado, lhe roubaram a carteira, ficou sem documentos.

Ela imaginando que ele a tinha abandonado com dois filhos por criar, essas coisas.

Tinha somente 28 anos, ninguém podia esperar isso, como pode acontecer de repente eu morrer antes de ti.   Nunca saberemos o que vai nos acontecer depois.  Creio sim que quero te conhecer mais, o que conheço já gosto demais, nunca esperei encontrar alguém como tu.

Temos interesses completamente diferentes, mas isso não nos impede de gostar de viver, um dia desses tem que me ensinar a fazer surf.

Amanhã o dia promete, tem um garoto na praia que gosta de ensinar, vou pedir que lhe dê as primeiras aulas, depois tenho duas pranchas, pode usar uma.

O duro sempre seria levantar, gostava de ficar agarrado a ele, sentindo o cheiro de sua pele.

Escutou que ele falava em espanhol com alguém, fez um sinal, meu pai.

Lhe disse que ia levar um namorado, se tinha problema, me disse que não que ia avisar minha mãe.

Foram em seguida a praia, lhe apresentou o rapaz, a praia estava lotada de jovens se preparando para entrar na água,  ele antes deu um mergulho, como querendo sentir que seria bem-vindo ali.          Depois se juntou a um grupo que idade variada, que o rapaz estava ensinando os primeiros passos,  depois mais tarde experimentaram o que ele tinha ensinado.

José veio ficar perto dele, lhe ajudou com as ondas pequenas, truques de equilíbrio, depois foram comer num bar ali na praia.  Comeram peixe, estava estupendo, a tarde já case caia quando foram para casa, ficaram nus um comendo o outro com os olhos, por estarem molhados fizeram sexo no tapete.

De noite ficou olhando analisando as fichas que tinha dos candidatos.  Tinha separado 3, dois rapazes, uma moça.   Ele olhou as fichas, passou ao José, o que achas.  Ele leu, separou uma, ficou olhando a cara do sujeito, depois olhou a outra, por último a garota.

Lhe disse, este daqui, vais notar que gosta de trabalhar junto com outra pessoa, esses dois vão querer te passar para trás porque estão loucos para entrar na empresa, subir a qualquer custo.

Faça uma pergunta trampa, para saber qual deles se acha o máximo em informática.  Aí saberás que esse daqui, está mais querendo aprender, compartilhar que esses outros dois.

Disse para a secretaria do chefe chamar os três para entrevista, sentou-se em sua sala, começou a estudar a ideia do projeto, fazendo anotações em seu laptop.  Tinham lhe dado um novo, aonde ele acoplou um disco duro externo, pois gostava de levar para trabalhar em casa.

Quando o chefe entrou, tinha seu novo laptop totalmente desmontado, estou verificando se é melhor forma de trabalhar, seria conseguir maior rendimento dele, vou acoplar o disco duro externo, bem como criar um sistema de segurança, para que nenhum funcionário, já que isso fica aqui, possa entrar, depois te dou o código.

O outro estava de boca aberta, se eu faço isso, ao remontar sou capaz de fazer outros dois laptops,  Entendo de teorias, mas não de coisas práticas.

Eu ao contrário entendi as duas, começando a montar o meu primeiro computador, com dois velhos de primos meus.  Vi as peças que estavam boas, fui montando até conseguir um superior a um novo.   Ainda o tenho, com ele posso fazer coisas inclusive que um laptop não faz, pois o fui melhorando.   Se me autorizas posso trazer para trabalhar.  

Claro que sim, como queiras, alias vinha te avisar que os candidatos estão aqui, faço passar o primeiro.

Logo de cara, não gostou do sujeito, sentiu que tinha um cheiro não muito agradável, mãos suadas, se estas nervoso, relaxa.   Perguntou uma serie de coisas que este respondeu, pelo teu curriculum vejo que trabalhaste na Oracle.   Porque saíste de lá.  Foi logo falando que tinham inveja do trabalho dele, que ele era melhor que os outros.  Nem precisou fazer a pergunta trampa, viu que se perguntava sobre o trabalho anterior a pessoa caia.

Depois foi a garota, muito segura de si, viu o computador desmontado, fez uma cara de asco, que tonto, deve ter pensado, se todos vem prontos.   Era experta em programação, tinha trabalhado na Microsoft.  Fez a pergunta de um milhão, caramba é uma puta empresa, porque saíste.

A lista que ela apresentou, nem de longe poderia ser verídica, que os homens tinham medo da inteligência dela, que na área dela, era a melhor, sabia mais que o próprio chefe.

Lhe disse que entrariam em contato.

O último era um rapaz simples, quando viu o laptop desmontado, ficou alucinado, se relaxou, ficaram falando um tempo no que ele estava fazendo.   Soltou o primeiro que tive, era um velho do meu pai, o desmontei, ele tinha trocado porque tinha um defeito que voltava sempre, mandava arrumar, funcionava dias depois tinha que voltar.  Vi um gatilho que tinham feito, é o meu preferido até hoje.  Meu pai ficou furioso quando descobriu que tinha sido enganado, na verdade seu trabalho era rotineiro, ele só usava uns 10% do potencial do computador.

Lhe explicou qual era o trabalho, metade isso, preparar alguma peça ou ligação para desenvolver um programa de interligação com clientes.

Uau, muito interessante, mas teria que aprender a fazer isso, pois sei das coisas, mas cada grupo funciona de uma maneira, estou disposto a aprender.

Mandou o rapaz para o departamento pessoal, para fazer o contrato, este agradeceu, o melhor presente de natal que poderia ter.  Eu estava trabalhando numa empresa que reparava computadores, meu chefe me disse que eu podia aprender mais numa empresa como essa, foi ele quem me indicou.

Avisou o chefe quem tinha escolhido, esse riu, eu quando vi as fichas, também teria escolhido esse, alias conheço seu antigo chefe, diz que o rapaz esta sempre interessado, mas que ali não tinha futuro.   Mas claro não ia dizer isso para ti.

Voltou para casa feliz, Jose estava passando lixa na parte de madeira do carro, esse lhe disse, passa esse líquido do outro lado, mas coloque máscara, espere secar um pouco, depois, raspe.

Sim senhor meu chefe, como pensas em pagar?

Com carne viva.  Foram para casa conversando, ele falou do rapaz que tinha contratado.  O chefe depois voltou para ver se eu tinha remontado o laptop, pediu se eu podia fazer o mesmo no seu, quando viu que o meu funcionava mais rápido.

Vou lá dizer, que cuidado, que nenhum avance sinal contigo, porque eres meu.

Essa noite, contou, vou te apresentar um amigo, aliás meu único grande amigo. O vais achar estranho, porque ele é diferente, é grande porque tem ossos grandes, mas não gordo, esta sempre serio prestando atenção em tudo.   Meu pai quando consegue arrancar um sorriso dele se levanta o beija na cara.  Sabe que esse sorriso, representa que gostou da história. Mas sempre foi assim.  Ele foi repudiado pela tribo inteira, ah esqueci de dizer que ele é índio, pois seu pai era um filho da puta de muito cuidado, matou a sua mãe, então na sua infância foi um garoto problemático, agressivo.  Quando José o trouxe para casa, vivia querendo me provocar para brigar.   Mas um dia na escola um grupo resolveu me dar uma surra, ele não permitiu, disse para os outros se alguém vai dar uma surra nele sou eu, nem se atrevam a tocar um dedo nele, tirou um canivete.   Todos saíram correndo, deu esse seu sorriso torto, ficamos amigos de pôr vida.

Quando eu estou em casa, Maria minha mãe o avisa, ele vive sozinho no centro, cuidando de um centro de recuperação de menores, vai para casa todo o tempo que estou, pode sentir um pouco de ciúmes de ti, mas não ligue.

Quando saíram da cidade, iam carregados de presentes, ele o ajudou a escolher os presentes, mas para o amigo que nem saiba o nome, escolheu uma coisa especial.

Quando chegaram, os pais saíram para abraçar o filho, ao contrario dele que era alto, os dois eram baixos, mais para gordos, o abraçaram também, seu pai Jose, segurou sua cara ficou olhando nos seus olhos, lhe deu um tapa suave, seja bem-vindo garoto.   Nisso parou um jeep velho, caído aos pedaços, saiu um homem com uma cabeleira negra imensa, levantou José do chão, filho da puta, nunca das notícias.  Abraçou e beijou os velhos, quando o viu, olhou o José, quem é esse garoto, o abraçou apertado, levantando do chão, disse ao seu ouvido, se fazes alguma coisa má para meu amigo te matarei, o colocou no chão deu um sorriso torto, gostei do muchacho.

A mesa estava posta, tinha comida para um batalhão, não quero que meus meninos passem fome, olhe como estão magros.  Agora entendi o nome do outro era Corvo, eu magro, estou assim porque vivo comendo aqui, levando quentinhas para meu quarto, se um dia estouro a culpa é de vocês.

Depois os dois foram arrumar a cozinha, nem deixaram Maria fazer nada, quando eles estão aqui me tratam como a rainha de Inglaterra.

Falas espanhol Johnny?

Não senhora, mas estou aprendendo, como José misturando sempre alguma palavra no que fala, aprendo.

O pai muito sério, ele te contou do que padece.

Sim senhor, me contou tudo, para que eu não levasse um susto.

Perguntaram de seu trabalho, procurou explicar em palavras simples. Quando viu os dois estavam parados lado a lado na porta, escutando.    Papi, entendeste alguma coisa?

Nada, mas fiz cara de interessado para ele não pensar que sou mal educado.

Verás depois lhe dá aquele seu computador que não funciona direito, vais ver do que ele é capaz.

Depois, agora vocês deveriam ir leva-lo para dar uma volta, conhecer a cidade.  Tua mãe vai preparar a ceia de Natal para amanhã.

Johnny qual a tua religião? 

Sou católico, por quê?

Amanha fazemos a ceia antes, depois vamos a missa, hábito da casa.

Os dois levantaram as mãos para o céus, mama, é necessário?

Claro que sim, a família toda junta, que vai pensar o Johnny.

Nada responderam os dois ao mesmo tempo.

Corvo foi explicando a cidade, sua maneira de falar era meio bruta, suas mãos eram imensas, a direção do jeep parecia uma dessas de brinquedo com ele segurando.

Depois foram tomar uma cerveja, fez questão de apresentar alguns conhecidos que estavam ali.

Depois os levou para casa, hoje não janto com vocês, tenho plantão. Me toca cuidar dos garotos.

Corvo gostou de ti, pois se alguém aparece do meu lado, logo cria caso, fica provocando a pessoa, faz tudo para instigar que a pessoa se aborreça ou comigo.  Diz depois não servia para ti.

Por que não o convidas para vir passar o Ano Novo conosco na praia?

Isso seria interessante, pois ele quase nunca sai daqui, creio que foi uma única vez, chovia horrores, nem banho de mar tomou.

Antes de ir embora, o convidaram.  Olhou para um, depois ficou olhando o Johnny, isso foi ideia tua não é, quer me conhecer fora do meu ambiente, para saber se sou mais amigo.  Perde teu tempo sou pior.

Absolutamente, apenas quero te conhecer melhor, eu estou aprendendo fazer surf, o José disse que a única vez que estiveste lá, chovia muito.

Surf, ficar andando em cima dessa coisa, como se fosse a coisa mais importante do mundo.

Eu tampouco me interessava, posso dizer que me relaxa, como se a água do mar, me descarregasse por dentro.

Ias acabar gostando, eu ainda não sou um experto nisso, mas gosto de ir aprendendo, alias nunca me nego a aprender uma coisa nova.

Falou tudo isso, desmontando o computador do velho José, esse ao lado estava com os olhos arregalados.    Perguntou quem tinha um soldador, tem um peça aqui solta, ia falando, mas estava prestando atenção em tudo que fazia.   Corvo se debruçou, começou a perguntar para que servia cada coisa.  Foi lhe explicando da maneira mais simples possível.  De que estava composto etc.   Experimentou, a velocidade tinha aumentado.    Perguntou qual o uso que o José pai, lhe dava ao computador.

Instalou uma série de coisas que lhe facilitariam seu uso.  Também lhe ensinou a usar, lhe disse que anotasse tudo isso, pois em caso de dúvida, olhasse as anotações.

Corvo tinha desaparecido, voltou com um velho laptop, é o que tenho lá na associação, os meninos as vezes usam fica uma merda, dá um jeito nisso para mim.

Claro, arrumou tudo, se não queres que usem, crie um bloqueio.

Os deixo usar para se distraírem. 

Vou ver se consigo, aonde trabalho, antigos, arrumo, assim iras buscar, esses garotos terão o que usar.

Ficou olhando para ele, o que vais querer em troca?

Nada, que apenas vá passar o Ano Novo com a gente.

Ficou olhando para ele como se desconfiasse.

Mas na hora que se despediram o apertou como fazia com o José.

Vais te arrepender dessa chantagem, mas irei.

Lá estarei esperando, vou ver o que consigo com os portáteis para os garotos.

Logo no dia que foi trabalhar, entrou como um furacão na sala do chefe, perguntou se podia pedir uma coisa.

O que vais pedir desta vez.

Se vocês tem laptops velhos, que eu possa consertar para dar para uma organização que cuida de garotos de ruas.  Claro faríamos uma coisa benéfica.

Venha comigo, o levou a uma sala, é tudo teu.  Se quiseres o nome da empresa bem, mas pelo menos livra essa sala dessas coisas todas.

Arad Ronney, seu ajudante, quando viu ele separando tudo, perguntou para o que era, ele lhe explicou, vou trabalhar nisso depois do horário.  Esses meninos quem sabe o que serão no futuro.

Posso me oferecer para te ajudar, além de ser uma coisa que gosto de fazer, será para uma boa causa. 

Se consigo pelo menos dez antes do ano novo, já fico super feliz.  O que faltar num, procuramos um bem fudido, vamos juntando peças, fazemos uma seleção dos que tem possibilidades, os que não fazemos como um ferro velho, separamos as peças boas para usar.   No primeiro dia, já tinham ordenado uma boa parte, fazendo isso.

Na véspera do Ano Novo, já tinham 11 para usar, na mão dos garotos seria genial.   Perguntou aonde o Arad ia passar o Ano Novo.

Com minha namorada, embora estejamos estremecidos, pois não quer que eu fique longe, mas assim é a vida, ela tem a profissão dela, não posso pedir que venha para cá.  Lá aonde vivemos não tenho futuro.   A largo prazo, evidentemente vamos nos separar.

No dia seguinte, bom o que eu temia, já aconteceu, me deu o fora, vai passar o Ano Novo com os pais num barco.

Lhe disse que Corvo vinha para passar com eles, porque não vens.

Quem são eles?

Ah vivo na casa do meu namorado, na praia.

Corvo é gay?

Não que eu saiba, por que te incomoda que eu seja gay?

Nem pensar, cada um tem direito a viver sua vida, só não quero incomodar os planos dos outros.

Nada será tudo simples, jantaremos, depois ficaremos na praia com a turma de amigos surfistas.

Surf, uau, então vou, posso levar minha prancha, assim faço um novo grupo, estou procurando um lugar para viver, quem sabe algum, quer dividir apartamento.

Avisou ao José que vinha seu ajudante.

Ele fez a mesma pergunta, se ele era Gay.

Foi o que ele perguntou do Corvo, é surfista também, vamos nos divertir, ensinando o Corvo surfar.

Não creio que ele queira aprender?

Deixa comigo.  Depois que estiver na água, nunca mais vai querer sair.

Trouxe com Arad, todos os laptops, embalados, o deixou na oficina do José.   No escritório em cima arrumou uma cama para o Corvo.

A primeira coisa quando chegou foi, aonde estão os Laptops, pois senão vou embora.  Na hora que foi levar suas coisas aonde ia dormir, ficou de boca aberta.  Conseguiste, seu filho da puta, agora vai me chantagear, nisso entrava o Arad.  Lhes apresentou, ele me ajudou a arrumar tudo para os teus meninos.

Quando viu a prancha do Arad, não penso em subir em cima disso.

Ninguém respondeu.  O dia estava estupendo, foram para a praia, quando Corvo tirou a camiseta, tinha um corpo estupendo que ele escondia embaixo de roupa muito grande, logo se viu cercado de surfistas que pensavam que ele era do Hawái, foi divertidíssimo, quando disse que não sabia surfar.  Todos queriam lhe ensinar, ele não teve escapatória.

Os outros entraram na água, ele perguntou o que eu fico fazendo.   Aprendendo. Jose ficou surpreso, Arad surfava bem, disse que era seu esconderijo, dos chatos, ali no mar se sentia pleno, além é claro quando estou consertando coisas com o Johnny.

Foi um fim de ano estupendo, estavam impressionado pois Corvo quando finalmente entendeu como funcionava o surf, fez sucesso com os garotos, pois se ele conseguia na sua idade, eles também.   Fizeram a festa na areia, uma grande fogueira, com todo mundo cantando, conversando, namorando, até o dia nascer.   Quando o sol despontou, José, falou ao ouvido do Johnny, queres casar comigo. Este levou um susto pela seriedade do José.   Me darias um grande prazer na vida, não consigo imagina-la sem ti.

Antes fales com teus pais, se concordarem, te respondo. 

Que tem meus pais a ver com isso, não vou casar com eles.  É por causa do meu problema?

Que problema estas falando, fico preocupado que não queira isso para ti, sei o quanto eres importante para eles.

Eles já sabem, tanto que minha mãe, mandou o anel de família para ser ampliado para ti.

Então quero, muito, apesar do pouco que nos conhecemos, não consigo pensar em viver longe de ti.   Nunca vivi com ninguém, nos damos bem, que mais posso pedir.

Contaram aos outros, Corvo ficou olhando serio os dois, vocês tem muita coragem, fico com inveja.  Quem sabe um dia eu também encontre o que eu quero.

Agora todos os finais de semana que tinha de folga vinha para surfar, tinha feito amizade com a turma da praia, além do Arad.   Os mais jovens vinham pedir conselho a ele, sobre muitas coisas, drogas, namoradas.   Nisso ele era ótimo.

Passaram cinco anos, Johnny tinha acabado o programa que fazia sucesso, mas por um lado ele não se sentia satisfeito, gostava disso, mas lhe faltava algo.  Conversando com Arad, esse comentou o mesmo, pensei que me sentiria mais realizado, mas sabe do que sinto falta, daquilo que fizemos com os laptops para a garotada, gosto disso de construir, de  juntar coisas, criar isso sim me deixaria contente.

Johnny disse que nunca tinha visto um lugar para estragar tanto material, a maioria dos que ali trabalhavam, ao menor problema pediam um novo, pois reclamava que o seu dava problemas, entendiam de tudo, menos da própria máquina.

O famoso deposito estava sempre cheio.   Eles tinham conseguido um lugar na oficina do José, na parte de cima, continuavam montando laptops com os que não serviam mais, primeiro arrumaram mais para o lugar do Corvo.   Depois eram os garotos da praia que lhes trazia o que tinham, para arrumar.

Ficaram pensando nisso, pois chegou um momento, que  não davam abasto, além do trabalho, na empresa queriam dar um cargo ao Johnny, para desenvolver um novo programa, quando olhou a proposta, lhe resultou totalmente desinteressante.  Declinou, falou com o José, este riu, já esperava isso a algum tempo, quando ficas quieto pensando, alguma coisa não vai bem, pensei que era entre a gente até que entendi que não, estamos bem.

Sim, imagina que se eu não te tivesse como ia ser, minha cabeça ia explodir, mas sempre posso contar contigo.

Tempos depois, estavam trabalhando na parte de cima, quando escutou um baque, pensou que alguma coisa tinha caído, chamou o José, não escutou resposta, desceu com o Arad.   Ele estava caído no chão.  Chamaram a ambulância, ficou uma semana no hospital, não houve jeito de o tirarem de lá.  Arad lhe levava roupa, tomava banho lá mesmo.

Quando Corvo trouxe seus pais, conversaram com o médico, ele foi claro, é o começo do declive, podemos lhe assistir, agora ele pode durar um tempo indefinido, como pode ser de um momento a outro.   As coisas foram complicando, depois que Maria morreu, piorou, a um ponto de estar de cadeira de rodas, mas seguiam dormindo juntos, ele pedia ao Johnny faça sexo comigo por favor, prefiro morrer a não te sentir em mim.

Havia um carinho imenso entre os dois. Corvo arrumou um emprego num organismo quase idêntico, era o apoio dele, bem como Arad.

Durou pelo menos mais um ano e meio, morreu dormindo nos braços do Johnny.  No seu testamento deixava tudo para ele.  O que  queria era que suas cinzas fosse levada pelos surfistas, lançadas depois das ondas, para que elas viessem surfando até a praia.   Assim fizeram, foi um ritual maravilhoso.   José pai, foi morar com uma irmã sua em San Diego.

Assistiu da praia a cerimonia do filho.  Deu um abraço apertado no Johnny, obrigado por cuidar do meu filho até o final.  Eu não estava só, tinha o Corvo, Arad é os amigos.

Corvo o pegou uma madrugada andando pela praia, ficou andando com ele em silencio, até que se sentou, começou finalmente a chorar, contou como o tinha conhecido, num mal momento de sua vida.  Nunca mais tinham se separado, eu sabia do seu problema, mas imaginei que isso seria daqui uns dez anos ou mais.   Mas me arrancaram o amor de minha vida.

O trabalho para ele era um desafogo, agora consertava inventava em cima do que a empresa que trabalhava antes precisava.   Foi com Arad a Corea, aonde estavam os grandes fornecedores de material, depois ainda a alguns fabricantes na china do qual já compraram, passou a desenvolver um tipo de Laptop, que os que trabalhassem em informática, tivessem o maior potencial possível para seu trabalho.  Depois o mesmo fizeram para quem trabalhava em desenho gráfico, ficaram conhecidos por isso, por desenvolverem laptops especiais para quem lhes encomendassem.

Agora os dois trabalhavam, usando a parte da oficina embaixo.  Corvo chegava cedo todo dia, para tomar uma cerveja com eles, ajudar na cozinha.

Arad arrumou uma namorada que trabalhava com desenho gráfico, estava morando com ela, sem compromisso.  Agora só sobravam ele, mais o Corvo para irem fazer surf.

Um dia preocupado, perguntou a ele, pois nunca o via falando de nenhuma namorada, se não sentia falta de estar com alguém.

Como é isso, eu estou com alguém, justamente já fazia muito mais de ano que José tinha morrido.

Que queres dizer com isso?

Que estou esperando por ti, ainda não percebeste que estou apaixonado por ti, desde o dia que apareceste com o José.   Hoje é pior pois não quero viver longe de ti.

Ah, meu amigo, colocou a mão em cima da sua, achas de poderia dar certo uma coisa entre a gente.  Deves estar farto de me escutar dizer o que sinto falta dele, nunca mais fiz sexo com nenhum outro homem.

Quem sabe um dia desses chegamos a um ponto.

Lembra quando você me contou como se tinham conhecido, a noite que dormiram no deserto, a gente acostumava fazer isso na nossa adolescência.  Ficávamos os dois olhando o céu, as estrelas,  falando dos nossos sonhos, o dele era ser amado.  Os meus de vingança, contra os que tinham me expulsado da tribo.

Mas anos depois descobri a verdade de tudo isso, foi doloroso, mas superei tudo, afinal tinha uma família, nele, em José, Maria, não precisava de mais nada.

Eu adoraria ir de novo fazer isso, planejamos tantas vezes, mas nunca conseguimos ir. Fazíamos  si aqui na praia, nos dias muito quentes, levávamos uma manta, dormíamos olhando o céu.

Eu sei, ficava com uma certa inveja disso.

Estou cansado, podemos tirar uma semana, ir até o deserto perto de Santa Fé, acampamos, o que achas.

Seria fantástico.  Ele tinha tudo a tenda, sacos de dormir.  Planejaram, ainda convidaram o Arad, mas sua namorada, disse que nem pensar, tinha medo de que algum bicho a atacasse.

Lá foram os dois, no primeiro dia estavam inibidos, ficaram conversando.  Corvo contou que suas aventuras nunca tinham passado de uma noite, as pessoas se assustam comigo, pelo meu tamanho, ficam imaginando coisas, quando me veem nu totalmente devem se decepcionar, pois tenho um membro normal, nada demais.  Ai quem não se sente bem sou eu.

Na segunda noite, tinham bebido, isso os relaxou, estavam sentados recostados num tronco ao lado de uma fogueira, conversando Corvo contando as reminiscências de sua juventude com o José.  Todo mundo pensava que eles tinham sexo, mas creio que nunca nos passou pela cabeça.

Quando se viraram para algum comentário, estavam cara a cara, saiu o primeiro beijo, primeiro terno, depois com mais ânsia, quando se deram conta, estavam fazendo sexo.  Nem tinha se tocado do que ele falava, realmente ele deitado em cima do Corvo parecia que estava no mar.

Era uma coisa diferente do que tinha com José,  ficaram rindo quando acabaram, ele deve estar olhando a gente lá de cima, rindo.

Sabe que ele sabia que eu gostava de você?

Como um dia, estávamos a volta da cama dele, saíste para ir a farmácia, ele daquele jeito direto, me viu te acompanhar com o olhar quando saias do quarto, me olhou nos olhos, me disse meu, irmão, amas o Johnny?

Nunca escondi nada para ele, lhe contei que sim, desde o primeiro dia.

Então me promete que vais cuidar dele para mim.

Eu ri, mais fácil ele cuidar de mim.

Passaram a viver os dois juntos, iam a todos os lugares juntos, tiveram foi que mudar de cama, pois esta era pequena para ele.   Johnny sempre de gozação dizia que quando estava em cima dele, sentia como se estivesse no mar.

Sabes que aprendi a fazer surf, porque queria estar perto de ti no mar.  Era verdade, ele sempre estava no meio dos dois.  Agora percebo coisas que não percebia, era tudo tão natural que não me toquei.

Eu jamais iria interferir entre vocês, cheguei a sonhar de estar fazendo sexo com os dois, mas claro isso era como profanar nossa amizade,  me afastava.

Arad estava nervoso, lhe perguntou porque, a namorada o estava pressionando para se casar, ele não queria uma família, filhos, nada disso.

Teriam que fazer outra viagem, foram os três, depois ele esticou com o Corvo até o Hawái, foi divertido, pois todos pensavam que era um deles.  Se divertiram muito fazendo surf.

As noites era boa demais, Corvo era muito apaixonado fazendo sexo, queria que ele tivesse o maior prazer possível, era como se procurasse superar o José.  Quando lhe disse isso, riu, sei que não poderia.   O que quero mesmo é sentir que você fique louco, é como eu entrasse em transe contigo.  Então estou sempre procurando uma coisa nova em ti, para te satisfazer.

Mas o que eles tinham era completo.   Eu adoraria me casar contigo, mas isso terei que esperar que você me peça.

Um dia ele voltava da oficina, tinha como sempre os surfista ao lado do Corvo, conversando, se confessando como ele dizia.  Mas tinha um em especial com cara de adoração, sentiu uma coisa que nunca tinha sentido, ciúmes.

Quando comentou com Corvo isso, ah, ele já se abriu comigo, lhe disse que era impossível, pois sou de uma pessoa só, que não posso pensar em viver sem ti.

Mas já está conformado.  Um dia viu o rapaz conversando com o Arad, achou graça. Este depois comentou que esse rapaz tinham um laptop que tinham feito.  A cabeça do Arad, estava diferente, disse um dia durante o trabalho, levantou a cabeça, sabe que vou fazer?

Não, vais voltar com a tua namorada?

Nem pensar, me sinto prisioneiro com ela.  Depois o sexo já nunca funcionou direito, me sentia incompleto não sei por quê.   Talvez porque via primeiro você com o José, agora com o Corvo como se comportam.  Vou experimentar fazer sexo com uma pessoa que me interessa.

No outro dia estava rindo.  Foi demais, nunca pensei que seria possível.

Quem foi?

Aquele rapaz que pensou que estava apaixonado pelo Corvo, disse que sentiu o mesmo que eu, vendo vocês dois juntos, ele queria uma coisa assim.  Tampouco como eu, tem muita experiencia, vamos seguir nos encontrando.

Realmente um ano depois estavam vivendo numa casa quase ao lado da deles.   Mas anos depois adotaram um casal de crianças abandonadas.   Quando lhe comento isso, sempre dizias que não querias filhos.

Não sei te explicar, mas me sinto completo com ele, adora crianças, sempre quis ser pai, então por que não.

Corvo na verdade tinha muitos filhos adotivos, adorava trazer a garotada de aonde trabalhava para aprenderem surf.

Tempos depois souberam da morte do José em San Diego, foram os dois ao enterro.  Na volta dormiram outra vez numa área muito deserta, entraram com o carro, jogaram mantas no chão, ficaram ali conversando.  Johnny tirou um anel que o tinha visto provar, o pediu em casamento.

Ele quase jogou o Johnny no ar, como uma criança.   Sonhei tanto com isso, mas vamos fazer uma coisa discreta ok.  é entre nós dois. Usaremos o mesmo anel, se perguntam respondemos.

Agora estavam mais soltos que nunca, Corvo não escondia que eram um casal, alias peculiar, pelo seu tamanho, Johnny mal chegava ao seu ombro.  As vezes faziam sexo no mar, experimentaram uma vez o Corvo ficar boiando, ele o usando como uma prancha de surf sentado em cima do seu sexo, depois saíram da praia as gargalhadas.

Já posso contar a garotada, que virei uma prancha de surf.  Mas quando chegaram em casa, agora quero ser tua prancha de surf, mas contigo dentro de mim.

Assim era a relação deles.

SORT OUT

                                                       SORT  OUT

Tinha levantado com os dois pés esquerdos como costumava dizer, quando mal abria os olhos se lembrando como seria seu dia.  A primeira coisa que pensou, vai ser uma merda.

Sua tia, fazia questão de todos os anos, mandar rezar uma missa por sua mãe, que já tinha morrido a mais de 10 anos.             Isso incluía aguentar um sermão do padre, que adorava falar complicado para parecer importante, ao que passados cinco minutos ele deixava de escutar, a plateia como ele chamava estava escassa, as velhas estavam todas morrendo pensou. Olhou diretamente na cara do padre, quando esse o olhou, fez um sinal, colocou o dedo sobre o relógio, este ficou vermelho, cortou rapidamente o sermão, afinal não mais que dez gatos pingados ali.

Teria que esperar sua tia se despedir das outras mulheres que iriam lhe perguntar quando se casava.   Estava já a estas alturas fartos, colocou dinheiro na mão de sua tia, disse que pegasse um taxi.

Ela colocou as mãos na cadeira, soltou, é que tua mãe, não te ensinou a ser cortes com as mulheres. 

Sim, respondeu de mau humor, mas não com as chatas que não tem nada que fazer no seu dia a dia, tenho pressa, tenho que trabalhar.

Entrou no escritório furioso, sua secretária de muitos anos, riu, cuidado teus cabelos estão pegando fogo.  Acabou rindo, pois usava a cabeça raspada.

Me fizeste imaginar a cena, quem é a primeira vítima, foi tudo o que perguntou, quando ela entrou enquanto ele tirava o casaco, colocou o café na frete de sua mesa.

Pelo visto o sermão esse ano foi curto?

Ele contou as gargalhadas o que tinha feito.   Agora era a vez dela rir, eu quando tenho que levar minha mãe a missa aos domingos, antes com a desculpa que tenho que falar com o padre, lhe digo se não faz um sermão curto, vou me levantar mandado tomar no cu na frente de todo mundo.              Faz uns sermões de uns 10 minutos, mas ao final me olha, faz um sinal para mim. Embora saiba que quer me mandar a puta que pariu.

Bom vamos as vitimas da quarta-feira, era o dia que ele recebia os escritores, ou para dizer que iam publicar seu livro, ou para mandar reescrever quase tudo, ou dizer que a ideia era boa mas que refizesse o texto inteiro, ou por último que era uma merda.

Nem sempre era agradável, o primeiro era um escritor pedante, que achava que todos seus livros seriam best sellers, normalmente a ideia original podia ser boa, mas ele não queria ter trabalho, vinha com um papel na frente, essa ideia foi usada num filme de Classe B, uma merda.

Sabia quem tinha lido o mesmo, era seu braço direito, nunca poupava a linguagem.  Tinha uma cabeça fantástica, se lembrava dos textos, se eram cópias ou não.

O sujeito entrou na sala com um sorriso falso em toda sua cara, lhe apertou a mão, depois esfregou uma na outra, quando vamos publicar essa maravilha.   Sem uma palavra, para não ter que discutir, lhe entregou o mesmo.   Sua cara mudou totalmente, quase espumava, a ideia pode ser do filme, mas eu a melhorei muito.

Sinto muito, ou mudas a ideia original, ou começas outra vez desde a primeira página. Não posso fazer nada, se um leitor diz isso, sinal que tem razão, ainda mais se tratando do Bradford.

Essa maricona velha, sempre faz tudo para amargar o dia.

Respeito, primeiro Bradford é mais jovem que tu, pelo menos uns dez anos, ou mais, além de que confio totalmente nele.

O outro se levantou, pegou o manuscrito, levantou os ombros, jogou ele mesmo na lixeira. Mais um sonho inalcançável.

Teve que ficar rindo, quando o via descer pelo corredor.   Era um embusteiro de muito cuidado, tinha escrito realmente em sua vida um livro bom, o primeiro, depois jamais foi capaz de escrever outro.   Vivia ainda das vendas do primeiro.

Apertou o interfone, avisou a secretária que estava livre.              O segundo era um rapaz jovem, estava nervoso, mas seu texto era muito interessante, ele mesmo o tinha lido por  recomendação do Bradford.   Apertou sua mão, perguntou se queria um café ou água.

Água por favor, estou nervoso, depois que vi esse senhor sair furioso, dizendo que ninguém o entende, fiquei pensando meu texto é uma merda.

Não meu caro, olhe aonde ele jogou o dele, ele mesmo o considerava assim, o teu pelo contrário é interessante, Bradford anotou as páginas, que gostaria que revisasse, bem como melhorar o texto, peça depois a minha secretária, para marcar uma hora com ele, mas recomendo não chegue atrasado, ele odeia.

O sorriso do rapaz iluminou a sua cara.  Obrigado, muito obrigado.

Assim foi toda a manhã, agora teria que ir almoçar com um amigo do Bradford, que vinha tentando publicar um livro com a historia da família, escrito por uma tia, solteirona que não tinha o que fazer, mas que glorificava a família.

Teria que ir com tato, porque essa família possuía ações da empresa.   Isso lhe incomodava uma merda, mas estava em suas obrigações.   Ele mesmo tinha lido o tal escrito, mais tonto era impossível, talvez tivesse algum fundo de verdade no que falava, mas iria interessar mais ou menos meia dúzia de leitores, com certeza amigos dessa família WASP, White Anglo-Saxon Protestant, normalmente todos metidos a besta como ele dizia.

Estava entrando no restaurante, o garçom que o conhecia, sabia qual mesa deveria lhe oferecer, dali poderia olhar o restaurante inteiro, se aparecia alguém, que ia ser um saco, ele saia pela cozinha, dali a porta dos fundos.

Mal se sentou, chegou o homem, vestido no estilo inglês perfeito, estendeu a mão como se fosse um beija mão papal.  Se sentou lhe entregou o envelope, gostava de ir direto ao assunto, assim poupava ter indigestão.  A cara do outro era curiosa.

Assim, antes do aperitivo, da comida.

O senhor me desculpe, mas é minha maneira de trabalhar, infelizmente o texto não merece uma publicação, nos daria prejuízo, o senhor como possuidor de ações da empresa sabe disso.  Acredito que lhe possa oferecer uma outra opção, indicar uma empresa que imprime, encaderna um livro assim, muito bem, para que o senhor possa oferecer aos seus amigos, seria a melhor opção.

Só então notou que tinha uma pessoa em pé.  Era uma cópia melhorada do outro, com uma roupa informal, passou por detrás deste, se sentou sem cerimonia nenhuma, me desculpe ao meu irmão, tão cheio de protocolo, mas eu lhe avisei que o texto era uma merda, uma quantidade de mentiras dessa bruxa solteirona.  Tinha dinheiro, não tinha o que fazer foi para a Inglaterra, inventou que estava pesquisando por la, quando o que mais fez foi gastar dinheiro.

Agradeço sua gentileza, eu também prefiro soltar a verdade, antes de comer, porque pode dar uma azia muito forte.

O outro se levantou, filho da puta, sempre estragando tudo que eu queira fazer.

Virou as costas, foi embora sem se despedir. 

O outro lhe estendeu a mão outra vez, Richard Brakstone, odeio todas essas mentiras, creio mesmo que os nossos antepassados vieram para cá, algemados na galera, por serem bandidos ou coisa parecida.  Mas meu bisavô inventou essas bobagens todas ao respeito da família, para entrar na sociedade, quando ficou milionário.

Meu irmão nunca trabalhou na vida, só me faz essas merdas, ora quer ser produtor da Broadway, ou de cinema, patrocinar qualquer artista que acha que será um sucesso, gastar dinheiro.    Eu sou pelo menos honesto, sou um sem vergonha de muito cuidado, gasto minha parte da fortuna sim, pois sou gay, não penso em me casar, então antes que acabe na mão desse idiota, vou gastando.

O olhou bem, não me eres estranho, fez um sinal para o garçom, lhe perguntou vinho tinto ou branco.

Me desculpe, não bebo,  no almoço só tomo água, porque depois tenho uma tarde horrível hoje. Podemos pedir se queres comer comigo.

Nem pensar, acabei de levantar-me, acabo de tomar o café da manhã.  Daqui irei jogar tênis para manter a forma.

Já sei de aonde te conheço, te vi uma vez numa festa na casa de alguém ou um jantar não é.

Ia concordar, mas nunca o tinha visto, não frequentava esse tipo de ambiente, suas saídas estavam com seus amigos de sempre.

Creio que não, basicamente odeio festas fúteis, como lhe disse, não bebo, não fumo, odeio ficar escutando besteiras superficiais, desculpe se sou franco.

Eu gosto, no nosso meio, tudo que escuto é isso, tens razão, tens razão.  Se levantou, com educação, estendeu a mão, espero não ter estragado o seu almoço.  Bom apetite.

Foi embora, realmente era uma bela figura de homem, mas todos os dois estavam fora da sua lista, odiava esse tipo de comportamento, tanto de um como de outro.

Pediu finalmente seu prato predileto das quartas-feiras, para alguns um gosto um pouco tonto, pois era uma comida leve. 

Acabou de comer, pagou, saiu, foi direto para a editora, na sua sala, estava esperando o Bradford, rindo.    Pela sua cara queria saber como tinha se saído.  Ao contrário dele, ele adorava essas festas, para depois sacanear todo mundo.  Na verdade, o convidavam, pois, pensavam que ele ainda tinha o dinheiro de sua família, nada disso, trabalhava porque não tinha muito dinheiro.

Bom fiz como sempre fui direto ao assunto, mas apareceu o irmão.

O Richard é muito louco, as festas que ele dá, são as melhores, dizem que na cama é uma fera, com um apetite insaciável.

Sim me deu essa impressão.  Mas não faz o meu tipo.

No final do dia, fazia um calor infernal, antes de sair, tirou a gravata, arregaçou as mangas, ia se encontrar com os amigos para uma cerveja.   Se surpreendeu em ver o Richard lhe esperando.

Estava te esperando, não pudemos nos conhecer direito.  Podemos tomar uma cerveja pelo menos. 

Ia dizer que o estavam esperando, mas resolveu aceitar.                 Falaram de mil assuntos, ficou intrigado, ele sabia tudo sobre ele.

Pelo visto fizeste uma investigação ao meu respeito, verdade?

Sim, nunca faço isso, mas achei interessante alguém que plantasse cara ao meu irmão, ele sempre se mete com gente que não deve, os esfolam depois o mandam a merda.

Porque essa curiosidade ao meu respeito, eu mesmo poderia te contar melhor a minha vida, sem problemas.    Não tenho nada que esconder, ao contrário, para não ser chantageado por ninguém procuro ser reto.

Quase soltou, que a pouco tempo um editor tinha ido para a rua, por ter misturado sua vida particular com a profissional, se encantou com um escritor, esqueceu que era casado com filhos, foi chantageado pelo outro que queria quer fosse editado seu livro.  Quando se negou, fez um escândalo.   Resultado o outro perdeu o emprego.    Mas não disse nada.

Bom o que gostas de fazer, já sei que não te posso convidar para nenhuma festa, pois não gosta, como é a tua vida?

Trabalho, amo os livros, ia agora tomar uma cerveja com meus amigos, depois iria para casa, pois comecei o dia com mau humor, me tocava uma missa, pela alma da minha mãe, que sua irmã faz questão de fazer todos os anos.   Ela ia odiar, pois nunca ia a igreja.   Mas para me livrar durante meses da minha tia, vou, depois a quarta-feira é o dia que vejo os escritores, para dizer sim ou não, julgamento como Salomão.

Agora o que quero é ir para casa, tomar um banho, escutar uma música, talvez até cochilar um pouco, depois trabalhar outro tanto.

Uma vida sem emoção nenhuma como pode ver.

Não tens namorado, ou alguma aventura.

Não, tenho paciência, as pessoas são absorventes, te querem possuir, minhas experiencias foram desastrosas.   Então prefiro ficar na minha, tenho claro aventuras sem compromisso.

Hum, acho que gostaria de ter uma aventura contigo.  Ficaram rindo, mas um olhando para o outro.   Ele acabou na sua casa, entrou olhando tudo, não acredito numa sala de visita com tantos livros, não cabem na biblioteca?

Está lotada, preciso de espaço para trabalhar, acendeu a luz da mesma, ele disse, caramba podias vender isso, já sei, colocas uma banca ali na quinta avenida, vou vender para ti.

Gostava desse jeito dele irreverente, em contraste com seu humor severo.

Mas na cama, foi uma loucura, ele era um furacão, ele quando tocado também, era insaciáveis os dois.   Ao final estavam exausto.

Richard soltou, porque não te encontrei a mais tempo.

Acabou dormindo, quando o despertador tocou as 7 da manhã resmungou, virou para o lado, seguiu dormindo, ele se levantou, fez a barba, tomou banho, se vestiu, ele não se mexia.  Deixou um bilhete, com seu número de celular, quando desperte, é só bater a porta que se fecha por dentro.

Teve pelo menos três reuniões, na qual a norma era, celulares, sem som, não atender nenhuma chamada.

Ao final do dia, viu que estava exausto, um amigo lhe chamou para tomar uma cerveja, mas disse que era impossível, estava morto.

Quando abriu a porta, sentiu cheiro de comida, o Richard na cozinha nu, preparava comida, estou te esperando, vá tomar um banho enquanto coloco a mesa, depois de jantar, lhe perguntou como tinha feito as compras, se não tinha saído. 

Oras por telefone, eles existem para alguma coisa.  Gosto de cozinhar para alguém, não quero te perder de vista.

Richard, hoje tive um dia  cansativo, se fizer o que fizemos ontem a noite, amanhã, não consigo trabalhar.

Entendi, não queres mais me ver?

Não é isso, eu levanto cedo, minha cabeça precisa funcionar, para tomar decisões, quiça no final de semana, sim podemos passar juntos.

Merda, esse é o problema, tenho uma festa na casa de praia em Los Hamptons, com alguns amigos, começou a rir, ias odiar, pelo menos umas 200 pessoas.

Realmente, nem pensar.

Bom, posso cancelar se for para ficar aqui contigo.

Não creio que você possa gostar, pois pretendo trabalhar.  Veja isso diz logo de cara que temos vidas completamente opostas.  Nada daria certo.

Mas a verdade, foi que ele cancelou para ficar com ele, o deixou trabalhar, jogado numa poltrona lendo um livro.

Saíram para jantar, fizeram sexo muitas vezes, lhe dizia ao seu ouvido, não posso ver o seu caralho que o quero para mim.

De repente de uma hora para outra, mudou, encontrou o que fazer, mas chegava na sua casa no horário, o apresentou para seus amigos, caiu bem a todos, se interessou pelo que fazia cada um, quando lhe perguntava, o que fazia, ele dizia sou um vagabundo, cheio de dinheiro, não escondia o que era.

Meus amigos diziam, Henry, ele não é nada do que parece, ouvi dizer que esta agora indo as reuniões da empresas da família, se interessa pelas coisas.

Se acostumou, de chegar em casa, o encontrar nu, andando por ela, ou fazendo algo especial para ele, se interessar como tinha sido seu dia.  Assim foi durante dois anos, um dia lhe perguntou se queria se casar com ele.   Levou um susto, ficou olhando para ele, agora sabia quando falava sério.

Eres a melhor coisa que me aconteceu na vida Henry, quero viver contigo, o resto de minha vida.

Ficou olhando para ele, estamos bem assim, para que complicar.  Mas tanto fez que acabou concordando.   Estava acostumado a ele.    Um belo dia o foi buscar na hora do almoço, foram ao fórum, se casaram.

Queria que ele fosse viver na sua mansão.   Disse que nem pensar, gostava de sua casa, foi um dia com ele até lá, achou um absurdo uma pessoa viver sozinha numa casa como aquela.

Depois queria dar uma festa para comemorar que tinham se casado, se negou, mas ele agora mostrava suas garras, fez a festa sem ele.

Apareceu três dias depois bêbado, drogado. Foi o começo do fim, se comportava uma semana, depois desaparecia.  Lhe disse que queria o divórcio. 

Nem pensar, gosto de estar casado contigo.

Cuidado, foi fazer um exame, completo, tinha medo de ficar com Aids, embora desde o primeiro dia tinha se cuidado.

Estava irritado, pois isso o impedia de se concentrar no seu trabalho.  Tomou uma resolução, lhe disse que não queria mais vê-lo, que assim não queria estar com ele.

Sua reação o surpreendeu, ninguém me deixa, sou eu que deixo as pessoas.  Saiu batendo a porta.   Ele prudentemente, mandou trocar a fechadura da porta, avisou o porteiro que não o deixasse entrar mais.  Se fosse o caso, inclusive falou com seu advogado pedindo uma ordem de que ele não podia se aproximar dele, até que considerasse o divórcio.

Uma semana depois, acordou com a campainha da porta, levantou de mal humor, pensando que era ele.    Era um policial.

Lhe perguntou se era casado com Richard Brakstone, ao dizer que sim, lhe pediu que o acompanhasse a sua mansão.    Tinha sido assassinado.

Quando entrou, aquilo parecia o inferno, gente bêbada, drogada, caída pelos cantos, sendo atendida por enfermeiros, o fizeram subir, ele estava numa cama imensa com dois garotos ao lado, cada um com um tiro na cabeça.

Quem fez isso?

Não conseguia passar da porta.  Quem fez isso perguntou de novo.  Ali aos pés da cama estava o irmão dele, com uma aparência horrível.   Foi ele, diz que estava farto dessas orgias que não o deixavam dormir.

Não posso ficar aqui, sem conseguir se controlar, começou a vomitar.  Merda, foi tudo o que pode dizer, além de agradecer o inspetor que o ajudou.

Sabemos que o senhor pediu divórcio, como o irmão esta incapacitado, tinha que ser o senhor.

Ok. Posso ir embora.  Depois o senhor sabe aonde me encontrar.

O sorriso do inspetor era amargo, a pergunta que o senhor está se fazendo é aonde eu fui me meter, verdade?

Sim, sem dúvida nenhuma, viveu comigo dois anos, maravilhosos, insistiu que nos casássemos, em seguida voltou a sua vida de antes.  Pedi o divórcio,  me disse que não, que era ele que deixava as pessoas.  Depois desapareceu.   Segui com minha vida, trabalhando, esperando que aceitasse, me deixasse em paz.

Bom, como o senhor já reconheceu o cadáver, não tem que ir ao necrotério, não sabemos quando liberaram os corpos, primeiro teremos que analisar tudo aqui.  Pode ser que tenhamos que falar outra vez com o senhor.

Foi para casa, avisou que não podia ir trabalhar, ficou primeiro andando pela casa, feito um louco, que idiota, com tudo que tinha podia ter feito algo de útil com sua vida.

Depois chorou, mas chorou muito, estava assim, quando tocaram de novo a campainha, foi atender, era o inspetor outra, vez,  posso entrar.

Já falei com o porteiro da noite, me disse que horas o senhor chegou, que não saiu de casa a noite inteira, me desculpa, mas tenho que descartar todas as possibilidades.  O irmão não é coerente.

O senhor aceita um café, eu necessito de um bem forte, fez café se sentaram na sala, pode perguntar o que queira.

O senhor sabia que quando ele começou o relacionamento consigo, tinha saído de uma clínica de desintoxicação?

Não, mas ele sabia, que eu não bebo, não fumo, não tomo drogas, eu lhe disse isso no primeiro dia.  Necessito minha cabeça limpa para pensar, para trabalhar.

Pelo que sei nesse tempo se manteve limpo, queria fazer um casamento por todo o alto, me neguei, só estive uma vez nessa mansão, queria que fossemos viver ali, eu acho um desperdício, quando chegou o verão queria ir para a casa de Los Hamptons, tampouco fui pois tenho que trabalhar.   Não só é o meu ganha pão, como amo o que faço.

Sim eu sei, o senhor é muito respeitado no meio, já tinha essa informação, quando vim busca-lo de manhã.

Mas a que hora aconteceu isso?

Pelo que vimos aconteceu de madrugada, ninguém na festa viu nada, só quando o irmão apareceu na escada, com o revolver dando dois tiros no ar, mas estavam acostumado que ele fazia isso, realmente o teto esta cheio de buracos de bala.

Os conheci ao mesmo tempo, o irmão queria publicar um livro escrito por uma tia, muitas mentiras a respeito da família, dizendo que eram nobres essas besteiras Wasp.

Me neguei a publicar, ele chegou justo quando eu dizia isso ao irmão.  Nesse dia me foi buscar para conversar, sem me dar conta, me apaixonei por ele.   Mas me neguei a sair de minha casa, ir a qualquer festa com ele, tampouco proibi.

Pode ser que  tenha visto no senhor um lugar seguro, para viver.  

Sim viveu aqui comigo dois anos, estávamos bem, por isso não queria me casar.   Mas ele era uma pessoa envolvente, nunca desistia de nada.   Quando vi tinha me casado.   Quando voltou a beber, drogar-se essas coisas, desaparecia, depois pedia desculpas.  Mas cortei pelo sano, pedi o divórcio, disse que em sua família isso não acontecia.  Lhe disse que não queria nada dele, só que me deixasse em paz.  Acionei meu advogado, dei ordem que não entrasse mais aqui, troquei a fechadura da porta.   Enfim, passei levar uma vida mais segregada do que levava antes.

Só assim podia ter paz para trabalhar.

As pessoas dizem que fui um privilegiado, mas para nada, primeiro sou filho adotivo, minha mãe, era uma pessoa fabulosa, nunca quis se casar, mas queria um filho, me viu num orfanato me adotou,  da para perceber que não sou branco, sou um mulato claro.  Mas a adorei com todas minhas forças, me deu um futuro.   A única coisa que discuti com ela, foi que comprou ações da editora, para que me deixassem trabalhar lá, por isso tive que ser melhor que os outros, não ia deixar ninguém me pisar, me chamar de protegido.

Mas não sou o dono, vivíamos nesse apartamento, o reformei, pois precisava de lugar para meus livros.

Agora se me pergunta, me sinto perdido, eu o amava, acreditei nele, agora me sinto perdido, mais do que antes, quando tudo acabou.   Se o visse agora, lhe daria uma surra, dessas que os pais davam antigamente nos filhos quando eram desobedientes.

O senhor me faz um favor, pois conhecendo meus amigos, dentro em breve todos vão querer vir aqui. Diga ao porteiro que eu não posso receber visitas, preciso ficar sozinho.

O inspetor lhe apertou a mão, depois passo para saber como está, meu nome é Duke Almagro, lhe deixo meu cartão se precisa falar com alguém.

Tirou toda roupa, entrou embaixo do chuveiro, ficou pelo menos meia hora ali. Tinha a sensação de que precisava limpar-se de toda essa merda.

Depois se sentou na mesa de trabalho, apoiou a cabeça nas mãos, algo lhe chamou a atenção num texto, começou a ler, acabou dormindo cansado, com a cabeça encostada na mesa.

Não sabia quanto tempo tinha estado ali, dormindo.   Mas pelo menos se relaxou.

Pediu comida pelo telefone de noite, viu a quantidade de mensagens que tinha no celular, borrou tudo, não queria conforto de ninguém.   Ia começar a comer, quando o inspetor Duke chegou outra vez.  Trazia comida também.  Se sentaram os dois na cozinha comendo em silencio.

Acredita que não acabamos de interrogar todo mundo que estava lá.  A maioria tinha uma alta dose de drogas.     Pela autopsia, ele morreu no ato, mas a alta concentração de drogas, estimulantes, além de esperma anal, a cama era uma verdadeira sujeira.  Me perdoe contar isso, mas o senhor tem que saber, pois isso acaba nos jornais.

Pare de me chamar de senhor, meu nome é Henry, nada mais.   Sim, creio que é bom saber tudo, assim não me assusto.

O advogado já me mandou um e-mail, dizendo que o enterro é amanhã.  Mas nem sei se irei, não conheço toda a família, odeio essa coisa dos pêsames.

Queres que te leve?

Duke, porque estas fazendo tudo isso por mim, me achas culpado de alguma coisa, ou tem alguma coisa que não sei?

Não te lembras de mim, não é?

No momento, com minha cabeça como está, não.

Estivemos juntos no orfanato, dormíamos em camas pegadas, Henry o tonto te chamava, a mim me chamavam de Duke el chicano.

Agora sim, sorriu, claro, me lembro, chegamos no mesmo dia no orfanato, cada um de um lado, estávamos mortos de medo, você me deu a mão, entramos de mãos dadas.  Mas você foi adotado antes, não é?

Sim fui adotado por um policial, que não tinha filhos, como era de ascendência mexicana, me adotou, foram uns pais maravilhosos para mim.

Quando fiquei maior, fui te procurar, queria saber quem tinha te adotado, quando vi aonde morava, pensei, ele está bem.

Ok, se podes amanha irei contigo ao enterro, é melhor estar com amigos.  Mas aviso, ficarei afastado, não quero nada dessa gente.

Assim, foi, veio busca-lo cedo, ele se vestiu todo de negro, com uns óculos negros também, ficou afastado, tinha muita gente, mas ele não se aproximou de nenhum, na verdade não conhecia os outros.

Um senhor se aproximou, perguntando se ele queria dizer algumas palavras, disse que não, não conhecia essa gente.  Sou o advogado do Richard, amanhã o senhor tem que ir a leitura do testamento, antes, enfiou a mão no bolso, isso ele deixou para o senhor.  Mas é necessário ir a leitura do testamento, pois vocês se casaram com comunhão de bens. 

Fez cara de surpresa, perdão, mas não sabia disso.

Lhe deu o cartão, disse a hora que devia estar, era perto de aonde trabalhava, pensava em voltar a trabalhar no dia seguinte.   Iria depois disso.

Viu que todos iam embora, um senhor já maior, com uniforme de chofer se aproximou, dizendo, eu o conheci desde criança, o tempo que esteve com o senhor, foram os melhores de sua vida.

De uma pessoa simples ele podia entender.

Ficou de contar ao Duke, depois como sairia da leitura, depois nos falamos.

Ficou em casa trabalhando, falou com sua secretária, ela ia dizer algo, mas ele cortou, não diga nada, não suporto isso de pêsames, diga ao pessoal que nem se atreva.

Amanhã chego mais tarde que tenho que ir ao advogado, depois irei trabalhar.

No dia seguinte se arrumou como outro dia qualquer para ir trabalhar, antes passou no escritório do advogado, aquilo parecia um jardim zoológico.   Se sentou nos fundos, mas o advogado foi busca-lo, o senhor é o viúvo, tem que estar na frente.  Viu que a família toda o olhava com desprezo.    Leu a carta que lhe entreguei ontem. Fez que não com a cabeça.

Sentou-se sem olhar a ninguém.

Ele leu as formalidades.   Quando leu o testamento, só escutava murmúrios de raiva, ele não tinha entendido nada, só escutava arrastar de cadeiras, em seguida a sala ficava vazia.
Perdão não entendi nada!

Ele deixou tudo para o senhor, pelos melhores anos da vida dele.  Tudo que tinha no banco, bem como a renda do fideicomisso que tinha da família, a mansão, a casa da praia, tudo é seu.

Que vou fazer com essa merda.

O senhor faz uma coisa, coloque tudo a venda, quando estiver vendido me fala, como vamos distribuir esse dinheiro.  Não quero nada.

Se alguém da família quiser comprar, posso vender para eles?

Me importa um caralho quem compre, desde que seja um preço de mercado. Depois darei uma parte ao orfanato aonde fui criado, obra da igreja que minha mãe ia. Depois resolvo isso.

Saiu dali tonto, o homem ainda correu atrás dele, com um envelope, aqui tem as contas de bancos, para saber quanto existe.

Estava furioso, como podia ter feito isso com ele, pensar que ele queria seu dinheiro.  Não disse bom dia a ninguém, foi direto a sua sala, fechou a porta, chamou o Duke.  Estou farto dessa merda que me meti.  Contou para ele tudo.  Já disse que uma parte vai para o orfanato de aonde saímos, vou distribuir o dinheiro dessa canalhada toda. Filhos da puta.

Posso passar por tua casa de noite?

Sim, pode, preciso falar com alguém, que me possa clarear a cabeça.

Sua secretária, abriu a porta, colocou a cabeça para dentro, lhe disse reunião da diretoria, tome um copo de água, pois as coisas por aqui andam quentes.

Entrou na sala, todos fizeram menção de lhe dar os pêsames, mas ele cortou rapidamente, não façam isso.

Bom qual o problema.  Ele na verdade tinha uma ninharia de ações, seu voto não valia para nada, que não fosse decidir o que devia ser transformado em livro ou não.  

Acabam de lançar uma OPA, para comprar a editora, vamos aceitar, pois estamos com o barco furado, os lucros são uma merda, preferimos ficar com o nome bem alto.

Ele perguntou e os funcionários?

Os que quiserem ficam, os outros podem fazer acordos para saírem.

Ok, eu vou embora, preciso de uns dias para refletir.  Podem me considerar na rua.

Saiu, pediu a sua secretária que mandasse, chamar o Bradford, quando este chegou, a chamou também.  Contou a situação, creio que montarei uma pequena editora, para fazer o que eu quiser.   Já os aviso, se quiserem seguir trabalhando comigo, façam um acordo com a empresa, peçam para sair.

Os abraçou, lhe pediu para recolher as coisas que eram dele, bem como sua lista de escritores que ele representava, essa ele enfiou em sua pasta,  por enquanto trabalharemos da minha casa ok.

Amanha os espero as 10 da manhã, tenho uma coisa para fazer antes.

Quando Duke chegou de noite, lhe contou tudo. Não abriste a carta?

Não tive coragem, porque se tem besteiras escritas, ficarei furioso, preciso ter a cabeça fria.

Amanhã preciso de um advogado para consultar, alguém honesto, em quem eu possa confiar.

Ele riu, eu sou advogado, mas quem ia querer um advogado mexicano, a não ser os das drogas por isso entrei na polícia.  Posso tirar férias que tenho vencidas, como já entreguei o relatório do caso, estou livre.

Se abraçaram na hora da despedida.

Tens família Duke?

Só meus pais, estão velhos, mas firmes, falei de ti para eles, mandaram abraços para ti.

Então amanhã podes vir tomar café comigo, assim discutimos tudo isso, nem abri o envelope do banco, mas não quero fazer isso sozinho.

Sentou-se sozinho na sala, com a carta do Richard nas mãos, só pode dizer, filho da puta, eu te amei tanto, como pudeste fazer isso comigo.

As lagrimas caiam pela sua cara, sentia como se todas as portas estivessem fechando em sua volta, mas se lembro de sua mãe, quando ele sentia isso ela, dizia.  Não importa, se fecham, meta o pé numa delas, que abre.  Mas o fazia literalmente, levantava uma das pernas como dando uma patada na porta.

Acabou dormindo, ali no sofá, a carta escorregou ficando em pé em cima do tapete.

Não sabia quanto tempo ficou ali, despertou com um ruído, no andar de baixo.  Se sentou no sofá recolheu a carta, vamos fazer isso de uma vez.

Perdão, era a primeira palavra, mas fiz merda, nunca consigo me livrar de minhas merdas, pensei que nunca mais depois de dois anos, pudesse recair outra vez nas drogas, mas não sou como tu, que tens uma fortaleza invejável.

Pensei que me escondendo atrás de ti, superaria qualquer coisa na minha vida inútil, mas nada deu certo, na empresa riem de mim, pois não entendo de nada, acabaram pedindo que eu fosse para casa, pois só faço merda.

Minha primeira recaída, fiquei furioso, pensou vou provar que posso fazer tudo que fazia depois sair como se nada.  Mentira.

Mas já tinha estragado tudo contigo, sabia que não ias me perdoar, nunca encontrei ninguém como tu.   Tinhas razão em não querer se casar, mas eu te amei, como nunca tinha amado ninguém, por isso deixo tudo para ti.   Esses merdas que se fodam.

Me criticaram por ter casado com um mestiço, isso nunca me importou, dei o rabo para muito negro, quando estava totalmente drogado.

Mas me aceitaste assim com esse passado negro, nunca me perguntaste nada.

Sei que me querias, como eu te quis.  Por isso aproveite faça alguma coisa boa com tudo isso que te deixo.

Um beijo imenso, não podia te dar o divórcio, pois ele não existe na minha família.  

Mereces o melhor.

Richard.

Não irei mais te molestar, só saberás disso quando eu morra.

Soltou um grito tremendo, sentiu que ia arrebentar, filho da puta, podia estar com ele, levar uma vida normal.  Ao mesmo instante se perguntou o que era normal, desde logo sua vida cotidiana de trabalho, não era a vida que Richard estava acostumado.

Tinha se escondido atrás dele, ou mesmo o tinha usado como uma balsa salva vida, por ter medo de encarar seu lado mais negro.   Nunca saberia o que teria levado a isso.  Pela rigidez que se comportavam todos, viviam de aparências.

Nessa noite dormir foi um desastre, até que acabou se levantando, tomou um banho, se sentou em frente a mesa, começou anotar coisas.        Caiu dormido em cima do que estava escrevendo, que na verdade eram seus planos.

Escutou a campainha tocando, se levantou, espreguiçou, foi abrir a porta, nem se tocou que estava nu. 

Isso lá são maneiras de receber teu advogado, Henry, que vou pensar, que estas te oferecendo.

Saiu correndo, voltou vestido, Duke já estava fazendo café, disse rindo, trouxe croissants, para tomarmos com café.

Mas tampouco precisava sair correndo, o máximo que iria fazer, era te jogar no chão te ensinar a fazer sexo direito.   Tinha um sorriso de troça na cara.

Deixa de zombar de mim, dormi mal a noite, me levantei tomei banho, me coloquei a escrever tudo que queria falar contigo hoje.

Foram os dois com as canecas de café, o saco de croissant para o escritório.  Sentaram-se na mesa, me diga tudo que pensaste, depois, voltamos atrás analisando cada coisa.

A primeira coisa é, quero que vás ao advogado da família, busque todos os papeis, tanto da mansão daqui, bem como da casa de Los Hamptons, pois não confio nesse homem, é capaz de querer vender a própria família por um preço mais baixo do mercado.  Desconfio dessa gente como do diabo.

Segundo, devemos analisar o que existe no banco, não tenho ideia disso, não abri o envelope ainda.

O que quero fazer é o seguinte, primeiro, ontem sai da empresa, convidei minha secretária, bem como Bradford para virem trabalhar comigo, quero montar uma editora, seria, que faça livros que eu tenha orgulho de publicar.

Temos que encontrar um local para isso.   Eu trouxe comigo a lista dos escritores que edito, o que necessito saber é se é honesto, tipo conectar com eles, dizendo que sai da empresa, que monto a minha própria. Mas claro vou escolher só alguns.

Temos que montar uma empresa, eu ficaria com 51%, o resto divido com quem queria trabalhar comigo.  Não quero ser o dono absoluto de nada.

Quero um ritmo mais tranquilo, em que possa ter uma vida mais relaxada.

Da venda das casas, quero que uma parte seja para o orfanato, pois estão sempre precisando de dinheiro, todos anos, reservo uma parte para lá, isso minha mãe sempre fez.  Depois vamos olhar aonde tem gente que precise de dinheiro.  Vou gastar o dinheiro dessa gente em coisa realmente boa.

Que te parece?

Me parece genial, se fosse outra pessoa, estaria já de mala e cuia, se mudando para a mansão, mas sei que tu eres diferente.

Vamos abrir o envelope, antes que chegue o Richard e a Marie, eles sempre trabalharam comigo, assim posso ter gente de confiança em minha volta.

Quando abriram o envelope, viram que havia contas em mais de um banco, os saldos eram grandes, pois a maioria era dinheiro aplicado, tirando as festas ele não gastava muito dinheiro.

Olhando o extrato, Duke disse, ele tinha coragem de pagar com cartão aos das drogas, isso será um prato cheio para a polícia, tirarei uma cópia.

Mas era muito dinheiro, pois foram anotando, significavam muitos milhões,  caralho, viu os depósitos do fideicomisso,  era como se fosse um salário de um grande executivo, do qual ele gastava pouco, pelo visto transferia isso para as contas.

Outra coisa, disse que tenho direito a esse fideicomisso, se é assim, esse dinheiro dá para ir tocando a editora, 

O resto, devo transferir para uma conta minha, ou abrir no próprio banco, preciso de um documento do advogado para isso não é, sei por que tive que fazer isso com o da minha mãe. Terei que procurar alguém que controle tudo isso.   Alias você poderia fazer isso como advogado, cuidaria dos contratos dos escritores, além da parte contabilidade.

Quando chegaram os outros dois, estavam ali discutindo o que fazer.   Fizeram mais café, sentaram-se todos a volta da grande mesa, os apresentou ao Duke, que já conheciam, pois tinha ido na editora investigar.

Explicou que Duke na verdade era um amigo seu de infância, vivemos juntos no orfanato, dai que nos conhecemos bem.

Ele será meu advogado.  Como estão vocês com a empresa?

Esperando ouvir tua proposta, nos ofereceram para ficar, mas claro trabalhar contigo é outra coisa.

Contou o que tinha pensado em fazer, os dois disseram que não tinham dinheiro para montar a sociedade.

Sem problemas, eu tenho o dinheiro, a princípio será apertado, mas penso em só editar o que realmente gostamos.  

Bradford, tu sempre estas reclamando, que tem que ter um pé fora do círculo, pois alguém te obriga a publicar o que não queres.     Isso acabaria, farias o meu papel, trabalharíamos juntos lado a lado, contratarias, uma ou duas pessoas como leitoras, mas pessoas que confies tu, de principio Marie iria controlar o escritório, precisamos de gente de confiança para controlar as empresas  que imprimem, encadernem, o Duke, além de administrar os contratos, ficaria com o controle de gastos.

Cada um pode ter não mais de dois funcionários a princípio.   Agora o mais importante, nada mais de trabalhar aos sábados, domingos, precisamos de tempo para nossas vidas.

Minha ideia é que eu teria 51% das ações, o resto dividido entre os três.   O que acham, já estavam rindo antes.    Trato feito.

Ele repetiu o que já tinha falado com o Duke, o dinheiro dessa gente finalmente servira para algo útil. 

Só vamos fazer livros que sejam bons.   Quero também entrar num mercado novo, livros através da informática, esse era o problema da editora, estava defasada, muita gente hoje não lê os livros em papel.

Agora temos que procurar um local, pois não quero nada aqui na minha casa.

Por enquanto nos reunimos aqui, mas depois temos que ter um local.

Marie disse que sabia de um em frente a outra editora, o espaço é menor, mas vi pela janela que o reformaram inteiro, vou bisbilhotar, depois aviso.

Bradford, que não parava de anotar, já tenho as pessoas, creio que basta telefonar, elas aceitaram.  

O Duke precisa dos documentos de todos, para montarmos a empresa.  Estava tão empolgado com tudo, que por pouco se esquecia do Richard.

Vamos chamar a editora, de Stone,  se não existe outra com esse nome, uma homenagem ao homem que está fazendo com que isso seja possível, o Richard.

As coisas começaram a correr, ao mesmo tempo que recebeu uma chamada de uma pessoa da família, perguntando pelas joias.

Joias, eu não sei nada de joias, falem com o advogado do Richard, nem tenho ideia do assunto.

Caso existam, nos gostaria comprar essa parte, bem como a mansão.

Tudo isso vocês deverão falar com meu advogado, o senhor Duke Almagro, ele sabe que as casas serão vendidas, o dinheiro ira para um orfanato e beneficência.

As casas estão fechadas, o advogado tinha mandado fazer uma avaliação de tudo que tinha dentro,  a maioria eram quadros que de valor não tinham muita coisa, mas os moveis sim.

Duke ficou sabendo através do advogado, já que não estava mais no caso, que o irmão estava em dificuldades financeiras, para pagar um advogado bom.  Estava internado num hospital, os outros parentes não querem o ajudar.

Contrate um criminalista bom para ele, creio que ele não é muito certo da cabeça, mas não quero de maneira nenhuma estar envolvido nisso.

Realmente num dos bancos tinham uma caixa de segurança, cheia de joias da família.

Mandou tudo para um especialista, riram muito pois descobriram que a maioria eram falsas, essas entregaram a família. O resto colocaram a venda. Se queriam comprar, teriam que pagar o preço do mercado. 

O que tinha telefonado já tinha feito contato, queria pagar um preço baixo, mas a estas alturas, Duke já tinha contatado um agente imobiliário da zona que lhe devia favores, sabia o preço justo. Disse que teriam que negociar com a imobiliária.

Bradford, de gozação disse que ele deveria manter Los Hamptons para fazer uma grandes festas.  Mas disse isso rindo.

Foram ver os 4 o local que Marie tinha falado, gostaram.  Só duas salas seriam fechadas, a de reuniões, é a que usariam para atender os escritores, o resto seria tudo aberto.

Bradford, já tinha feito contato com as impressoras de livros, a maioria o conhecia, então bastava mover.

Contrataram uma empresa para comprar os moveis, eram todos iguais, sem distinção de chefe, mesmo para ele, na sala de atender os escritores, uma mesa como as que tinha em casa.

Ao mesmo tempo, foram fazendo contatos com os escritores,  Bradford, colocou um cartaz nos cursos de escritura, nas faculdades de filologia, falando de novos escritores, como deviam mandar os textos.

Todos estavam trabalhando a pleno vapor, se mudaram para o escritório novo, pode por fim recuperar sua casa.

Duke disse que ia sentir falta de estar lá, talvez por inveja, nunca tive uma casa minha, meus pais, sempre vieram em primeiro lugar.

Falar nisso, querem organizar uma festa em sua casa, para comemorar nosso novo negócio, mas aconselho que venhas comigo até lá, para que não façam uma festa tipicamente mexicana com ge