NORMAN

                                                  

Agora que estava livre de todos os problemas, se sentia perdido, tinha sido uma coisa atrás da outra.

Quando seu pai ficou enfermo, passava todo seu tempo livre com ele, inclusive as noites, quando tinha seus pesadelos, ele estava ali para segurar sua mão.   Nesta altura, John fez uma coisa que ele nunca tinha imaginado, ou ele ou eu.

O relacionamento deles, vinha desde o primeiro ano de universidade, tinha para mais de 13 anos, já nada era o que parecia, mas não verbalizavam, quando este decidiu dormir no outro quarto do apartamento, pensou, a coisa já foi para a merda.

Mas claro levavam o antigo escritório de seu pai de arquitetura juntos, apesar de ser o sócio com maior parte, tinha feito questão que ele tivesse uma participação, afinal, viviam juntos.

Tudo tinha acontecido no primeiro ano de universidade, uma festa que compareceram seus pais, ele caro sabia que era filho adotivo, nunca tinham escondido isso dele, mas os colegas resolveram fazer bullying com ele, John o defendeu, meteram porradas nos outros, além de tudo eram companheiros de habitação.

Quando depois chegou no quarto ele estava aborrecido, sempre tinha sido assim, quando o viam com seus pais, logo faziam perguntas, ou mesmo zombavam dele.  Mas pensou que na universidade a coisa fosse diferente.

Claro seus pais eram loiros, ambos eram descendentes de irlandeses, com olhos azuis, ele ao contrário, era mais moreno, pele azeitonada, cabelos negros lisos, um olho verde outro negro.

Sempre chamou atenção desde pequeno, quando pela primeira vez que foi a escola, zombaram dele, perguntou a sua mãe, ela esperou seu pai chegar em casa se sentaram com ele, contaram que o tinha adotado numa cidadezinha no meio da ruta 66.  Depois de 4 abortos, tinham resolvido sair de férias para ela se relaxar, ao te encontramos, desde então te amamos como nosso filho.  Ele aceitou, realmente o amava acima de tudo.

Ela quis troca-lo de escola, mas ele disse que não agora já entendia por que falavam dele, deve ser também porque sou bonito.

Isso era verdade, era um garoto bonito, depois de jovem, ficou realmente um espetáculo, diziam as garotas.

Nesse dia John entrou no quarto, foi se sentar ao lado dele na cama, não se incomode, a mim sempre me encheram o saco porque sabem que venho de uma família pobre, de pais alcoólatras, sempre tive que dar um duro danado, para conseguir bolsas de estudos. Mas vou em frente.   Nisso colocou a mão sobre a sua, quando viram estavam se beijando.  Ele se levantou correndo, fechou a porta do quarto, tirou sua roupa toda, em seguida a do Norman. Foi a primeira vez dele, a partir daí o amava com loucura, teve coragem de enfrentar seus pais, sua mãe não gostou muito, mas escutou seu pai lhe dizendo a vida é dele, ele é quem tem que enfrentar tudo isso.

Quando sua mãe ficou doente, um câncer difícil de curar, ele ajudava o pai, este resolveu passar para eles seu escritório, não era nada importante, mas para começarem estava bem, fizeram do mesmo um bom escritório, ficaram com certa fama na praça, principalmente pelo famoso boca a boca.  Tinha trabalho, as vezes em demasia, mas aguentavam, nos últimos dois anos, pediam mais a ele que ao John projetos, pois ele sempre tinha alguma ideia inovadora, mas ele fazia questão de o arrastar para o mesmo.

Pensavam que tinham superado tudo isso, mas nada, John ficou furibundo quando quis atender um cliente, o mesmo soltou que queria falar era com o Norman, que o esperaria.   Nesse dia fez um escândalo que ele tinha inveja, que sempre o deixava na sombra.   Foi o dia que se mudou de quarto.       Semanas depois ele passou a dormir na casa do pai, para cuidar dele, o amava, tinha sido um pai generoso, tinha cuidado dele desde pequeno, quando voltava do trabalho o levantava no alto, como se ele fosse voar, o adorava.

Agora só se encontravam no trabalho, cada dia John aparecia com olheiras, mas quando o via, colocava um sorriso na cara, as vezes perguntava pelo seu pai, mas nenhum dia foi vê-lo.

Tampouco apareceu no seu enterro, colocou a casa em ordem, sem saber se vende-la ou não, andou a casa inteira, em cada cômodo lembrava um dia de sua infância.   Uns dias antes de perder a consciência, contou para ele sua real história, agora tinha que pensar muito a respeito.

Fechou a casa, foi para seu apartamento, mas nem sobra do John, ligou para o escritório, lhe disseram que fazia semanas que não aparecia.

Viu um recado estranho no seu celular, com tanta coisa não tinha se dado conta.  Era de um hospital, avisando que ele estava internado.

Quando chegou o médico falou com ele, antes de mais nada, aconselho o senhor fazer um teste de AIDS, pois seu companheiro está internado justamente por isso, foi encontrado na rua desmaiado.

Explicou por que não tinha aparecido antes, fez o teste, o médico o aconselho a fazer a cada mês.  Só depois o deixaram ver o John, era uma sombra do que tinha sido.    Chegava a estar feio, coisa que ele nunca tinha sido.  Parou na porta ficou olhando, estava com os olhos fechados, quando se aproximou abriu os olhos, senti teu perfume, pensei em ficar com os olhos fechados para aproveitar mais esse momento de paz, porque sei que agora vira a tormenta, iras me condenar.

Ele se sentou, não disse uma palavra, sabia quando o John começava, nunca parava, ele falaria tudo sem que ele perguntasse nada.   Mas desta vez, ficou quieto, apenas buscou sua mão, com lagrimas nos olhos lhe pediu perdão.   Mas minha cabeça estourou, quando escolheste cuidar de teu pai, só muito tempo depois entrei em mim, sempre tive inveja de tua família, os meus, não os vejo desde que fui para a Universidade, quando me procuraram escapei deles, queria com certeza dinheiro, filhos da puta, fizeram da minha vida um inferno.  Só faltaram me alugar para ganhar dinheiro.

Mas me aceitaste como eu era, me apresentaste a tua família, como se eu fosse a coisa mais importante.

O eras de verdade a coisa mais importante da minha vida, mas quando te mudaste de quarto, senti que te perdia, mas a escolha já tinha sido feita, eu sempre amei meu pai, me cuidou, na verdade esse último ano, foi com uma revelação, me contou como tinha me encontrado, como me adotaram, me deu toda a localização de aonde sai, quando ficares bom, irei procurar esse lugar.

Vês, por isso te abandonei, só pensas em ti, todos te querem, a mim não.  Mesmos as aventuras que venho tendo acabam fugindo de mim.   Tenho relações com outros homens, pelo menos a mais de cinco anos, por isso tiveram que fazer exames em ti também, deixaste de me satisfazer.

Eu imaginei, pois entre nós o fogo apagou.

Eu ao contrario de ti, nunca deixei de te amar, inclusive pensei que ias me ajudar com meu pai, a tua negativa me feriu mais que isso tudo.

Mas ficou ali, com ele, até que um dia lhe pediu que o levasse para casa, no dia anterior, pela impossibilidade, o fez assinar junto com ele a venda do escritório.  Estavam afundando em dividas, precisava de dinheiro para cuidar dele.

Assim o fez até ele morrer, um ano e meio depois, o enterrou ao lado de seus pais, pediu desculpas a eles, mas ele também foi importante na minha vida.

Só então parou para analisar tudo, finalmente foi falar com o advogado, sobre o testamento do pai, este lhe deixava a casa, que valia um bom dinheiro, bem como dinheiro no banco, mas não imaginava que fosse tanto, tinham gastado muito dinheiro durante sua doença.  Vendeu seu apartamento, já não seria capaz de viver ali.   Mas antes fez uma coisa, reformou a casa inteira dos pais, a modernizou, para poder viver nela.  Quando enfiou no banco o dinheiro do apartamento, viu que tinha um bom pecúlio.

Mas ao mesmo tempo estava indo ao psicólogo, tinha muita coisa em sua cabeça.  A primeira tentativa de voltar a trabalhar, mandou seu curriculum a uma empresa de arquitetura, era de um conhecido seu.  Lhe explicou por que não o contratava, tinha deixado a sua a deriva, acredito que nenhuma empresa aqui, que saiba do teu trabalho te contrate, sou honesto contigo. Acreditavam que ele não era de confiança.   Ele concordava, tampouco talvez contratasse alguém assim. Mas tinha sido um decisão pensada, nunca ia imaginar que o John entraria em crise ao mesmo tempo, drogas, sexo em saunas, em lugares públicos, mais drogas, isso tinha acabado com ele.   Não entendia isso, pois ele sempre tinha condenado seus pais por isso, pelas drogas, ao final, nem era o homem que ele tinha amado, conhecido de toda a vida, lhe mostrou um lado que nunca tinha percebido dele.

Aceitou o que disse o arquiteto, nunca mais mandou nenhum curriculum para ninguém.

Mas na solidão de sua casa, analisou as conversas que tinha tido com o John, antes de fazer sexo com ele, já tinha feito sexo com outros da escola.  Ele nunca tinha desconfiado disso, muito menos isso de estar saindo com outros a mais de quatro anos.  Agora fazia exames mensais para saber se tinha, graças a deus sempre davam negativo.

O médico mesmo assim o aconselhou a sempre tomar cuidado, lhe oferecendo uma caixa de preservativos.

Quando terminou, de analisar tudo isso com o psicólogo, inclusive disse num dos primeiros dias, que se sentia o coco do cavalo do bandido, pois pensava que se saia bem na cama.

Quando começou a conversar com este das conversas com seu pai, nos últimos dias, o descobrimento de como tinha nascido, aonde, inclusive seu pai tinha marcado num mapa.

Eles tinham saído para a famosa viagem, quando chegaram nesse tramo do caminho, resolveram dormir no deserto, pois a noite estava lindíssima, com o céu cheio de estrelas, de repente, escutaram um tiro, justo nesse momento viraram uma curva da estrada deram com um homem armado, um já estava atirado no chão, segurava pelos cabelos uma mulher, quando foi iluminado, atirou nela, duas vezes, depois desapareceu.  Eles tentaram chamar o xerife mais próximo, tinham passado pela cidadezinha a uns vinte minutos.  Desceram do motorhome, quando se aproximaram viram que a mulher ainda estava viva, estendia os braços para um matorral, apontava dizendo Norman, Norman, sem parar.  Quando tua mãe se aproximou, viu que tinhas acabado de nascer, ainda tinhas o cordão umbilical sem dar o no, lhe disse que te levasse, que avisasse o xerife, bem como pedisse uma ambulância, no lugar mais próximo.

Ela não voltou, quem apareceu foi o xerife, com a ambulância, eu tinha a tua mãe em meus braços.   Lhe contei a história, os da ambulância, acreditavam que ela não aguentaria chegar ao hospital. Mas chegou.   Foi operada, mas o parto, além de ter perdido sangue, acreditavam que não aguentaria uma segunda operação, ela nos viu, tua mãe contigo nos braços, o colocou nos dela.  Nos perguntou se tínhamos filhos, tua mãe lhe contou que por causa do último aborto, jamais teriam filhos.  Ela pediu que chamasse o xerife, pediu que preparasse um papel, para te dar em adoção, se o queríamos.  Tua mãe já estava apaixonada por ti, eu também, concordamos imediatamente, só não entendemos de momento porque te chamava de Norman.  Só depois o xerife nos contou que ela era uma índia, o homem que estava com ela, não, era loiro, tinha os olhos azuis.   Pelos documentos dele se chamava Norman Schochi, ela se chamava Pena Alva Smith, era de uma tribo que estava a uns duzentos quilômetros dali.

Estavam fugindo do marido desta.  Quem deve ter matado o Norman, deve ter sido ele.

Ela explicou ao xerife que o dava em adoção, porque ele jamais seria aceito na tribo, por ser um filho ilegítimo, com um homem branco.

Queria procurar agora se tinha algum parente.  Pediu ao seu advogado se encontrava algum com o nome de Norman Schochi, disse que perto de Sacramento, numa cidadezinha pequena tinha uma família que tinha perdido um filho com esse nome.

Quanto a ela, era difícil, teria que encontrar sua tribo.

Fez a mesma coisa eu seus pais, comprou uma motorhome, pequena só para ele, fechou a casa, levou dinheiro com ele, algum escondido, pôr debaixo do assento de motorista, era difícil de achar.

Partiu, todo mundo o desaconselhou, por ser inverno, até duas paradas seguinte, nevava, nesses lugares ficou em motéis.

Na terceira parada o tempo ainda estava frio, mas dava para aguentar, mesmo assim, num motel desses de estrada, cheio de caminhões, parou para comer, numa das mesas tinha um homem que não tirava os olhos dele, quando saiu, ficou parado pensando se dormia no motel, ou no motorhome.

Quando foi verificar, não tinham quartos livres, saiu bom o jeito é dormir na motorhome, o homem lhe perguntou se não tinham mais quartos, lhe disse que não.

Sorriu um sorriso desses de propaganda, se quiseres podes dormir comigo.

Achou graça, disse por que não. Aproveitou tomou um bom banho quente, de repente o outro entrou com ele no chuveiro, lhe perguntou podes me dar um banho.  Assim fez, com muitos beijos, acabaram na cama, foi como recuperar parte de sua vida, parada a muito tempo atrás, mas na hora que lhe foi penetrar, perguntou se tinha camisinha, pois era necessárias.

Claro que ele tinha, foi uma noite sensacional, fizeram sexo umas duas vezes, uma ele lhe penetrou, na seguinte o outro fez o mesmo.    Tinha vontade de gritar de prazer, nunca tinha se sentido assim.

Caramba, adorei fazer sexo contigo, disse o outro, estendeu a mão, Antonio Bolívar, disse que vivia em Sacramento, sou uma mistura de irlandeses, com mexicano.

Contou que seus pais adotivos eram descendentes de irlandeses. Mas que tinha descoberto recentemente que seus pais verdadeiros, ela era índia, ele também descendente de irlandeses.

Por isso estou indo por aí, quero ir parando, no deserto, para ver se encontro o lugar que meus pais me encontraram.

Se quiseres na próxima cidade, deixarei o caminhão, depois pensava em tomar um ônibus para voltar para casa.  Na verdade não sou caminhoneiro, sou engenheiro mecânico, os caminhões são de uma empresa, que dou consultoria, esse é novo, queria saber como funcionava, adoro carros, os reconstruo para vender.

Se me acompanhas amanhã, vou contigo o resto do caminho, não quero te perder de vista.

Ele tampouco, fazia tempo que não se sentia vivo, primeiro era muito fácil falar com o Antonio, o dia quase amanhecia, dormiram agarrados um no outro.  Despertaram rindo, este lhe disse, que imaginou que ele se escaparia durante a noite.

Fizeram sexo outra vez, depois tomaram banho juntos. Um segurou a cara do outro para dizer, adorei te conhecer, vamos tomar café, te acompanho até a cidade, depois te dou carona.

Antonio era uma excelente companhia, iam conversando como se fossem velhos amigos, a hora que te aborreça, me deixas numa cidade, vou embora.

Mas isso não acontecia, além de que ele conhecia muito bem o lugar. Tinha contado sua história para ele, bem porque tinha falado de usar camisinhas.

Ele também contou sua vida, tinha sido criado por sua avô mexicana, pois os pais viviam trabalhando, eu sem querer realizei o sonho dela, fui seu primeiro neto a ir para a universidade. Lá conheci também meu primeiro namorado, mas acabou rápido, ele que nunca tinha feito sexo antes, entrou em crise, dizendo que não podia continuar, anos depois o encontrei numa festa que terminou em orgia, com ele no meio.  Sai dali sem entender nada, depois falaram comigo, que ele fazia isso para se afastar das pessoas.  Mas que eu tinha tido sorte, pois andava nas drogas, nem tinha terminado a universidade.

Fico vendo isso, sonhei em construir minha vida, vejo essas pessoas, indo em sentido contrário, destruindo as suas com drogas, sem um sentido para as suas, as vezes comprovo que são pessoas que tiveram uma vida fácil.   Eu podia alegar mil, coisas, pais ausentes, mas sempre tive a certeza de que estavam era trabalhando como loucos, para colocar a mim e aos meus irmãos para frente.  O interessante é que só eu gostava de estudar, os outros logo começaram a trabalhar, por conta própria, o dono da empresa de transporte é meu irmão.  Se casou com uma mulher complicada, agora quase perde tudo por causa do divórcio.   Os outros já verás, formam uma família unida, divertida, as festas em casa, são uma mistura de irlandeses, com mexicanos, saia de baixo.

Na primeira parada que fizeram o frio era patente, era deserto, mas tinha nevado, os dois prepararam um fogueira, ficaram sentados ali, depois foram dormir, para eles dormir era agarrado, o que não acontecia com o John, fazia sexo virava para o lado, dormia, não queria que o tocassem.  O sexo entre dos dois não tinha nada a ver com isso.  Ele que pensava que a viagem seria pesada, ao contrário, estava divertida.   Seguiam o roteiro de seu pai, quando chegaram a cidadezinha, procuraram pela delegacia, ele se identificou, o xerife não era mais o mesmo, estava aposentado, conseguiram seu endereço foram a sua casa.

O homem fez uma festa incrível.  Imagina quando te peguei nos braços, pensei, mais um para um orfanato, graças a deus o casal que te atendeu, te adotou, tua mãe no hospital, achou melhor.

Ela sobreviveu apesar de tudo, está agora na reserva aonde sempre viveu, o homem que matou teu pai, bem como a feriu, está preso até hoje.

Lhe deu o endereço, mas eu se fosse você avisava antes, pois nunca se sabe.

Lhe deu o número da central do povoado indígena, pode até ser que com a modernidade, tenham celulares, mas isso eu não sei.

Venham vamos tentar aqui do meu telefone fixo.  Ele marcou o número se identificou, pediu para falar com Pena Alva, lhe deram um número de celular, atendeu uma voz meio rouca, ele tapou o bocal, dizendo que isso tinha acontecido depois da operação.

Ele se identificou para ela, veja tenho aqui seu filho, ele gostaria de te conhecer.  Se fez um silencio imenso.  Posso falar com ele.

Olá meu querido Norman, se é que mantiveram teu nome.

Sim, minha mãe, me criaram com todo amor e carinho, fui muito feliz com eles, já morreram, meu pai me deu a localização, aonde tinham me encontrado, não sabia que estavas viva.

Gostaria de conhece-la, para mim seria muito importante.

Quero antes falar com meu atual marido, bem como teus irmãos, tens 3 irmãos. Me dê o número de teu celular.  O fez com dificuldade, pois chorava ao mesmo tempo.

Vou contigo, disse o Antonio, assim pelo menos terás meu apoio.

Nessa noite, dormiram exatamente aonde tinha sido encontrado, por indicação firme do velho xerife.   Ele desejou boa sorte.

Fizeram uma fogueira, ele ficou imaginando a cena, seus pais não tinha visto o que estava morto, portanto seu pai não sabia dizer como era.

Viram que ali, não tinha cobertura, mas no dia seguinte conforme se moviam, entrou uma mensagem, dizia que ele podia vir, que a maioria nem se lembrava mais da história.

A chamou pelo celular, disse que já estava a caminho, ia com um amigo, perguntou a idade dos irmãos, o mais velho tinha 15, outro 13 e o pequeno 11, de que gostam.

Comprou na primeira cidade grande, presentes para eles, para ela ele comprou um xale de lã, muito bonita.  Não sabia do marido, por isso não comprou nada.

Dois dias depois, outra vez com neve, entraram em terras indígenas, se dirigiu ao lugar como ela tinha dito.  Claro chegar com uma Motorhome, numa comunidade fechada, chamava atenção, mas logo um garoto parecido com ele, correu, se identificou como seu irmão, venha os levo até em casa, eles estão no rancho, assim não chamam tanta atenção.

Deixou o Antonio dirigindo, ficou falando, era como falar com ele mais jovem. Era um rapaz bonito, lhe perguntou se estudava.   Sim mas aqui é muito limitado, gosto muito de música, mas não tenho aonde estudar.

Como chamas?

Jonas, nossa mãe hoje é católica, quando nasci, me deu o nome de Jonas o da Baleia, pois tinha uma barriga imensa.

Depois de mim vem o Abe, que se parece muito com meu pai, vem de Abraham, o último, é o Caio, pois quando nasceu ela estava lendo sobre os césares, lhe deu o nome de Caio Julius, mas o chamamos de Caio, este esta como um louco para te conhecer, nossa mãe contou tua história.

Ela se divorciou, se casou com meu pai, que era amigo seu de infância, ele estava fora quando tudo aconteceu.

Chegaram a um rancho, na varanda de madeira, estava uma mulher com os cabelos imensos negros, com um xale, como ele tinha comprado. Correu para ela, sentia as pernas bambas, mas correu. Ela abriu os braços o abraçou, beijou todo seu rosto, meu filho Norman, que bom te ver.

Nisso saíram da casa um homem alto, com os cabelos largos também mais cheios de fios brancos, o abraçou dizendo que fosse bem-vindo, logo foi cercado pelos meninos.

Esse tinham muitas perguntas, mas deixaram a mãe fazer todas.

Entendeste por que te dei a esse casal, infelizmente ia entrar em cirurgia, pensavam que não viveria, não pedi o endereço deles.

Eles me educaram, nunca esconderam que tinham me adotado, os adorei a vida inteira, foram uns pais fantásticos, ela morreu primeiro, mas ele cuidei até que morreu, me contou a verdadeira história do que aconteceu.

Meu pai, me deu todo o roteiro de como chegar à cidade, perto da aonde tinha te encontrado, bem como a mim.

Morreu nos meus braços, contava isso com lagrimas nos olhos.  Tive outros problemas antes de sair para vir aqui, mas isso já não importa.

Estudaste?

Sim sou arquiteto, tinha uma empresa que herdei do meu pai, vendi tudo da minha herança, só fiquei com a casa.

O homem trouxe água para ele.

Depois te contarei tudo disse ela.  Deixou os meninos fazerem uma série de perguntas, o pequeno o olhava com adoração, era como ele em criança. Lhe disse isso, ele ria, vou ficar como vocês.

O segundo era como o pai, serio.

Este conto que tinha estado no exército, teu pai Norman era meu amigo, lhe pedi que passasse por aqui, pois tinha sido ferido, voltava para sua casa, o marido de tua mãe, levava anos desaparecido, então se apaixonaram, mas os parentes dele, conseguiram avisa-lo, quando ele voltou, fugiram, por isso nasceste no meio do deserto. Mas ele os alcançou, era uma pessoa má.

Sempre tinha nos perseguidos desde criança, era muito mais velho do que nós, sempre falaram que estava fazendo tráfico de drogas para as reservas.  Graças a deus tem prisão perpetua, não só por isso, mas por uma série de mortes.

Agora ele entendia tudo, porque ela o queria longe, tinha medo.

Em nenhum momento soltou a mão dela. 

Ela comentou que para os meninos era difícil, não tinham muita opção de futuro, as escolas daqui são precárias.

Se eu puder ajudar, o farei mãe, afinal são meus irmãos.

Jonas queria seguir viagem com eles, argumentou que não se preocupasse, ele voltaria, iria agora em busca da família de seu pai.   Explicou que necessitava saber de aonde tinha saído, sempre precisamos disso, ter o pé no chão, para poder seguir em frente.

Foram a vila mais próxima, comprou uma guitarra que ele queria, pois a sua era velha demais, os outros fizeram a festa, o pequeno, comprou livros que queria ler, já o Abe umas botas novas, pois trabalhava com o pai no campo. Era muito diferente dos outros dois, lhe disse, amo o campo os cavalos, se tivéssemos agora uma casal de Mustang, ia fazer uma criação, foi com ele, seu pai as terras ali perto, um índio velho lhes vendeu um garanhão, uma égua que ele mesmo escolheu, pela primeira vez se soltou, abraçou o irmão, agradeceu muito, por realizar seu sonho.   Quando tiver o primeiro potro será seu.

Então invista nesse potro, para termos mais.

Tirou do dinheiro que tinha guardado, deu um pouco para sua mãe, lhe disse que voltaria para buscar o Jonas, para poder estudar música, se o Caio quisesse ir, tudo bem a casa era grande.

Se despediram, Antonio ia dirigindo, pois ele estava muito emocionado.

Esse encontro te fez bem, ainda mais sabendo que agora tens esses garotos fantásticos, para ajudar, os da minha família raros são os que se interessam em estudar, acho que fui o único, meu irmão que tem a oficina mecânica, os meninos só pensam em carros.

Seguiram, a primeira noite como ainda fazia frio, ficaram num motel, isso de não podermos fazer sexo, por estamos na casa dos outros, é um horror, estava morto de vontade de sentir o teu cheiro.

Dormiram agarrados, Norman despertou de madrugada, ficou pensando como faria, pois quando chegasse a Sacramento, ele ficaria, era como se já não pudesse viver sem ele.

No dia seguinte comentou isso com Antonio. 

Este segurou sua cara entre suas mãos, na frente de todos da cafeteria, isso quer dizer que estás apaixonado por mim?

Sim, pior que muito, ontem perdi o sono, pensando como vou fazer sem ti.

Sempre se pode encontrar um jeito para tudo. Agora no momento estás livre verdade, podes refazer tua vida em qualquer lugar, quem sabe podes fazer isso em Sacramento.

Ficou pensando nisso, realmente em NYC seria difícil conseguir um emprego, estava meio cansado do que faziam.  Algumas vezes ele acabava de decorador, o que John não suportava, mas ele argumentava que era dinheiro em caixa, seu pai também fazia isso.

Realmente, mas teria que oficializar o relacionamento deles.   Quando falou isso em voz alta, o Antonio ficou as gargalhadas, imagina, não viste a cara das pessoas que estavam na cafeteria do Motel, mais oficializado impossível.

Foram ainda parando, quando tinha cobertura, chamava para saber de sua mãe, dos meninos, como estavam.

Ficaram chateados quando foste embora, estão contentes contigo.

Disse que talvez se mudasse para Sacramento, ainda ia pesquisar, tinha contado para ela, o que tinha acontecido com seu escritório, lá terei mais dificuldade de encontrar um emprego, em outro lugar nem tanto, mas vou ver, creio que os meninos podem vir para ficar comigo.

Fico imaginando uma casa grande com esses meninos dando vida, eu sempre me senti muito só, pois não tinha irmãos, era interessante porque eu queria, mas os outros colegas reclamavam disso.

Pararam em Las Vegas, foram uma noite ao Casino, Antonio ganhou dinheiro na roleta, mas ele de brincadeira como não entendia dos jogos, comprou uma fichas para brincar nas maquinas, foi uma surpresa, ganhou o prêmio máximo que elas davam, que estava acumulado a meses.

Era muito dinheiro. Resolveu depositou no seu banco, antes de irem embora, já tenho um pé de meia, para uma casa.

Quando chegaram na casa da mãe do Antonio, ficou rindo, da explosão contagiosa que era a recepção. Todos falavam ao mesmo tempo, ele tinha avisado antes, como era um sábado, todos estavam lá para fazerem um churrasco.  Todos eram parecidos com ele, mas sem dúvida era o mais bonito.  Ele os apresentou a todos como seu namorado, ficou rindo da cara dele, pois ficou vermelho.  Depois o escutou conversando com o irmão que tinha oficina mecânica, que perguntou como tinham se conhecido.  Contou que estava na lanchonete do Motel, antes de entregar o caminhão, quando viu aquele homem bonito, com cara de triste, me apaixonei, ele não conseguiu quarto, lhe ofereci para ficar comigo, me olhou assustado, sorriu, concordou.

Contou para a mãe do Antonio, dona Maria, que tinha reencontrado sua mãe verdadeira, que tinha 3 irmãos, que queria que viessem viver com ele, para poder seguirem estudando.

O irmão do Antonio, José, disse que conhecia uma família que realmente tinha perdido um filho, que tinha sido assassinado quando voltava para casa.   Amanhã vamos até lá, eles vivem aqui perto.

Dona Maria quando soube quem era, disse que era muito amiga da senhora, nos encontramos no mercado, ficamos sempre conversando.  Tirou um celular velho do avental, chamou a senhora, perguntou como chamava seu filho.  Quando ela disse Norman, ele ficou nervoso.

Tenho aqui seu neto Norman, venha conhece-lo. 

Apareceu uma senhora de cabelos brancos, muito crespos apanhados num coque, ela quando o viu, ficou parada rindo.

Disse que quando mandaram o corpo do filho, diziam que tinha um filho, mas não aonde estava.

Ele contou sua história, ela o abraçou, ficou chorando, venha conhecer teu avô, ele tem a mobilidade reduzida, vive numa cadeira de rodas.

Ele tinha uma foto do Norman que sua mãe tinha lhe dado, mostrou para ela.

No caminho ela falou pelo celular com alguém, mas chegaram o levou para ver o velho, este quando soube quem era, abriu os braços para ele, chorou muito, ela dizia que ele ficasse calmo, trouxe uma pastilha para ele colocar embaixo da língua.

Ele se chamava Peter, ela Louise Marie, me chame como quiser, aqui cada um me chama de uma maneira.  Em seguida a casa foi invadida por um bando de homens de várias idades, diziam seu nome, o que o confundia muito, pediu perdão, mas tinha sido um tempo de reencontro, era difícil guardar tantos nomes.

O mais velho deles, lhe deu um beijo na cabeça, sabia da história do meu irmão, pois ele me telefonou, dizendo que vinha com a mulher pela qual tinha se apaixonado, que ela estava gravida, já nos últimos meses, que era de ascendência índia.

O segurava pelos ombros dizendo, como vieste parar aqui, falou do Antonio, que tinha vindo com ele.

O olhou sério, tens algo com ele?

Sim, por quê?

Chamou um dos irmãos mais novos, Jim, olha com quem veio teu sobrinho, com o Antonio.

Jim, caiu na gargalhada, fica tudo em família, eu fui apaixonado por ele, levei muito cascudo, mas ele só pensava em fazer universidade, em motores, desde que era jovem, nunca me deu atenção.

Espera, chamou um rapaz, que era moreno, meu marido.  A família nos aceitou bem, temos dois filhos adotados.

Nessa noite demoraria para dormir, quando Antonio veio busca-lo para comer, levou todo mundo, assim não sobra comida, foi uma festa memorável, ele ficou a maior parte do tempo, ali entre sua avó, o velho segurando sua mão.

Andrew, seu tio mais velho, lhe perguntou o que fazia em NYC, mais ou menos lhe contou a história.  Agora não sei ainda o que vou fazer, quero ter meus irmão pequenos, comigo, para estudarem, na reserva, não tem muito futuro.

Eu, além do Jim, trabalhamos na construção, temos uma empresa que faz reformas, nos viria bem um arquiteto, temos prática, mas não formação.   Teu pai queria justamente fazer arquitetura, mas nunca fez, foi para o exército para escapar da vida aqui, veja o que aconteceu.

Mas se ele não tivesse feito isso, eu não teria meu neto.

Ela diz isso, soltou o Andrew, pois sou o mais velho, o único que não tem família, que vive com seus pais ainda.  Me casei com a mulher errada, depois nunca mais quis ninguém na minha vida, até tentei com um sujeito, mas não deu certo, disse que sou muito bruto.

Riu com isso, ter feito o que ele tinha feito, ainda era capaz de sentir suas mãos nos seus ombros.

Preciso saber se aqui tem uma escola de música para o mais velho o Jonas, comprei uma guitarra para ele, mas toca de ouvido, quer muito estudar música.

Terei que vender minha casa em NYC, o que não seria difícil, pois acabei de reformar, não quero me separar do Antonio.

Jim trouxe para perto deles, duas crianças, uma era negra, o menino também era mestiço, abraçaram os avôs, deram beijos neles.   Os estamos educando bem não é Brown, que também era mestiço.   O conheci numa obra, estava desiludido, um dia ficamos conversando, enquanto esperávamos o material, vimos que gostávamos das mesmas coisas, daí foi um pulo.

O velho, ria, meus antepassados, devem se virar na tumba, segurou a mão da mulher, lembra-se ficaram furiosos porque me casei contigo, sem consulta-los, agora temos uma família imensa, eles que se fodam.  Caíram na gargalhada.

O Barrabás ou Bar como o chamavam os irmãos, estava dando uma olhada na Motorhome, viu que ele como o Antonio, abriam o motor da mesma, gritou de longe, mais um pouco estaria na estrada, esse daqui não entende de carro, Antonio lhe deu um murro.

Andrew, perguntou se era sua?

A comprei, contou para ele a história dos pais, como o tinha encontrado, quis fazer uma homenagem a eles, ao mesmo tempo me encontrar, saber das minhas origens.

Pobre de ti, com essas duas famílias, iras a loucura.  Mas na verdade, aqui só vivemos eu, bem como Jim com o Brown, os outros vivem aqui nas cidades perto.  As vezes passamos meses sem nos vermos, mas claro imagina Natal, outras festas, é todo mundo junto.

Mais tarde chamou a mãe, iriam dormir a última noite na Motorhome, pois no dia seguinte iria para a oficina para consertar.

Sua mãe falou que seu marido tinha tido um enfarte no campo, ainda não sabemos o que vai dar.

Queres que vá para aí?

Precisa de alguma coisa?

Não meu filho, com o dinheiro que deixaste, tudo bem.

No dia seguinte foi olhar uma casa, não sabia por que, tinha ido com seu tio, Andrew, tenho um pressentimento que terei que ter uma casa que possa ter um campo atrás, creio que o Abe, não vai querer se desprender dos cavalos que lhe comprei.

Venha comigo, eu estive para comprar, para viver lá, mas não posso deixar os velhos, quem ajudaria a velha a colocá-lo na cama.

Chamou o Antonio, para ir junto, afinal a vida deles estava ligada.    Este ficou apaixonado pelo local, aqui viviam disse o nome de uma família, o filho era nosso companheiro de escola, pergunte ao Jim, o idiota entrou para o exército, por não gostar daqui, morreu no primeiro combate.  A família, quer vender por isso.

Era uma casa antiga de madeira, por fora precisava de obras, mas por dentro estava perfeita, tinha pelo menos cinco quartos, além de três banheiros.

A cozinha era imensa, o salão era para uma família grande.  As pessoas achavam estranho, só viverem aqui os três.   O homem deixou uns cavalos, que cuida um antigo empregado, o chamou, José, veio um senhor mexicano, com idade indefinida, meu sobrinho, tem um irmão que tem cavalos.

Ele logo fez uma série de perguntas, que raça eram.

Mustang, sua paixão.

Venha, o levou para o celeiro, aonde estavam, eram lindos, tirou fotos dele para mandar para o Abe.

Antonio, ria, mas sei que nosso amigo ia a escola, pois aqui na estrada passa ônibus escolar, bem como um circular para a cidade.

Ele gostou de uma sala ao lado do salão, que parecia um escritório, perfeito para mim.

Perguntou o preço.  O velho não sabia, mas Andrew, disse que o da imobiliária estava vindo para aonde estavam.

Nesse meio tempo, ligou para o banco perguntou quanto poderia dispor do dinheiro que estava aplicado. Queria comprar uma casa em Sacramento, se ali tinha uma agência.  O homem lhe deu a informação, vou falar com o gerente daí, depois se for o caso transferes a conta para aí.

Era seu amigo, tinha feito uma boa reforma na sua casa, bem como decorada a mesma.

Antonio o chamou de lado, para dizer que se vamos viver aqui, tenho que entrar com uma parte, tenho dinheiro dos carros que recupero, ainda não viste nenhum, vais gostar.  Guardo sempre o dinheiro ganho, tiro só uma parte para comprar outro velho.

O da imobiliária disse que com os móveis era um preço, mas que podia se negociar, era um valor diferente claro de NYC, dava e sobrava seu dinheiro, riu disse ao ouvido do Antonio, era o dinheiro que tinha ganho em Las Vegas, perfeito.

Hoje vou conversar com minha família, depois falo com o senhor.

Este lhe deu um número de celular.  Perguntou se queria que o reservasse para ele.

Telefonou para sua mãe, mas quem se colocou no celular foi o Jonas, disse que o pai tinha falecido.    Perguntou se ele sabia qual era a cidade mais perto, que tinha aeroporto.

Ok, vou para aí, o Antonio fazia sinal que ia junto.

De lá podemos alugar um furgão, para irmos, ele ligou para o homem dizendo que ficavam com a casa.

Tenho que me acostumar agora a falar em plural, pois não estou sozinho.

Pegou alguma roupa, o Andrew os levou ao aeroporto, qualquer coisa, me avisa, que vamos com outro furgão. 

Apesar de não gostar muito dos moveis que estavam na casa, depois dariam um jeito.

Se despediram de todos, antes de partir.

Da cidade, que chegaram ficava a uma hora da reserva, chegaram justo na hora do enterro, sua mãe se agarrou a ele, bem como os meninos.  Os outros índios o olhavam sem entender.

Ela lhe disse ao ouvido, não diga quem eres.

Depois foram para casa no campo.   Mostrou para o Abe a foto dos dois cavalos que estavam no celeiro.  Só escutou Uau, imagino cruzar os Mustang, com essas duas éguas.

Como sabe que são éguas, ele riu, mano, tu não passa de um índio de cidade.

Tinha tirado fotos da casa, começou a explicar, não fica dentro da cidade, mas tem ônibus escolar na frente, além de um que vai para a cidade.  Jonas tem uma escola de música especial para ti. Tu pequeno Caio, já veremos o que fazemos contigo.

Precisamos de um reboque para levar os cavalos, a senhora tem muita coisa para levar, ela disse que de qualquer maneira teriam que sair de lá, essas terras pertenciam a família do marido, já a tinham pedido de volta, nem esperam o defunto esfriar.

Preparem as coisas, Abe, podes conseguir um desses trailer de levar cavalos, não sei como se chama isso.

Ele foi com o Antonio, falar com alguém, ia tirar dinheiro da carteira, mas ele disse que tinha dinheiro, se fosse caro, usava um visa.

Mas foi barato, era velho, mas serviria.  No dia seguinte de manhã, encheram o furgão, foram embora. Jonas ia sentado ao lado do Antonio na frente, ele atrás com a mãe de mãos dadas, a senhora vai gostar da casa, tem uma cozinha imensa.  Levaram dois dias viajando, dormiam em motéis, na beira da estrada, Abe aproveitava, para descer os cavalos, com o Antonio, que gostava, davam um passeio com eles.

Quando chegaram foram para a casa da mãe do Antonio, ela fez a maior festa, lhe disse que com a Marie, tinha limpado a casa toda, já podem ficar lá se quiserem.

Foram antes, para sua mãe, conhecer a Marie, bem como o Peter, eles adoraram sua mãe, claro se meu filho se apaixonou por ti, alguma coisa tinhas, o Peter disse aos meninos, podem me chamar de avô Peter.

Dali foram para a casa, antes falou com o da imobiliária, que já tinha falado com o banco, mas que podia ficar na casa, que no dia seguinte fosse ao escritório.

Foram para lá, o velho José quando viu a família toda, ria, pelo menos deixarei de estar sozinho, ajudou o Abe, levar os cavalos para um curral que estava ali quase ao lado da casa, para fazerem exercícios, os dois conversando, pareciam que se conheciam de toda a vida.

Um pelo menos já encaixou.

A mãe adorou a casa, sempre sonhei com uma cozinha assim.  Aqui cabemos, todos, para as reuniões de família, durante a viagem, tinha falado com ela, que ele viveria junto com o Antonio, pois iriam comprar a casa juntos.   Eu o amo minha mãe.

Meu filho, contanto que estejas por perto, estou feliz, ele é uma pessoa boa, vai dar tudo certo.

Ele comentou que com o tempo iria reformando a casa, tem moveis que não gosto.

Deixou cada um escolher seu quarto, Caio finalmente foi o que fez todo mundo rir, finalmente não terei que dormir com esses dois, sempre discutindo.

Mas o interessante, escolheu um quarto pequeno ao lado do banheiro, piscou o olho, assim me levanto antes deles para tomar banho.

José foi ensinando sua mãe, bem como ao Antonio, como arrumar tudo.

Ele gostava muito de uma varanda grande na frente da casa, estava sem moveis, mas já sabia o que fazer.

Pediria ao seu tio Andrew para depois pintar a casa por fora, bem como tirar um papel de parede do salão, pintar de branco, ele trairia algumas coisas de NYC.

Conversou muito com o Antonio nessa, noite, esperto tinha escolhido um quarto que ficava de frente, ao lado tinham os banheiros, assim ninguém escutaria o barulho dos dois fazendo sexo.

Os dois nus sentados na cama, ele falou serio com ele, me preocupo com os garotos, estava pensando, por isso te consulto, que achas de comprar este lugar, no nome deles, mas em usufruto nosso.  Assim no futuro sempre teriam uma casa, eu imagino que o Jonas ira pelo mundo, mas o Abe sempre ficará aqui, o Caio ainda é cedo para saber.

Foram a imobiliária, conversaram com o homem, ele disse que sem problemas, necessitava só do nome completo dos meninos, foram ao banco, transferiu o valor ao proprietário.

Quando chegaram em casa, era uma loucura, até o velho Peter tinha vindo, as duas mulheres, traziam comida para todos, Caio levava a cadeira de rodas do avô, para ver os animais.

Esses corriam pelo cercado, com as outras éguas.   Abe disse, o seu José disse que a égua Mustang já está gravida, rindo disse que se fosse um garanhão o ia chamar de Norman, nada disso disse o Andrew, vais é colocar meu nome, sou o mais velho da família.  Caio parecia a sombra do Andrew, o seguia por toda a parte, esse, não o ignorava, sempre estava falando com ele.

Nos dias seguintes, foram organizando a vida, matricular os meninos na escola, de lá o Jonas iria à escola de música, Abe faria um modulo de veterinária, para depois ir à universidade se quisesse.  Caio ainda não sabia o que queria fazer.   Tinha uma parte nos fundo da casa, que era uma antiga garagem, Antonio se apossou, arrumou ele mesmo tudo, ali seria sua oficina para reconstruir carros.

Agora ele teria que pensar.  Tinha andado pela cidade com seu tio, para verem as lojas de moveis, ficou pensando, num sonho de juventude, abrir uma loja que vendesse moveis restaurados, gostava da mesma.  Seu tio disse que um dos sobrinhos, estudava isso na escola, podem trabalhar juntos para começar.

Mas antes resolveu que iria a NYC, vender a casa, separar as coisas que queria trazer, mas os dois não foram sozinhos, tiveram que rir, pois Jonas, disse que queria ir, para assistir shows de Jazz, que tinha muita curiosidade, Andrew disse que também iria, que era um antigo sonho seu, a surpresa que quando soube, Barrabás, disse que ia também.

Ele disse ao Antonio, creio que esse dois vão se enrolar.

Acho que eles tiveram alguma coisa no passado, pois estudaram juntos.

Seus avôs, ficaram no campo, assim o velho ficava satisfeito, estar ali com sua família, sua mãe era como uma filha para eles.

Tiraram documentos do Jonas, ele no aeroporto, comprou uma dessas revistas de shows, para que ele escolhesse o que queria ver.

Pela primeira vez, a casa, parecia completa, riu para o Antonio, pois a viagem inteira os dois não paravam de falar.

No dia seguinte de manhã, os deixou por horas, foi primeiro ao advogado, para colocar a casa a venda, esse disse que era pão comido, reformada, está perfeita para venda.   Vais levar os moveis.

Sim, pois foram coisas que comprei porque gostava, levarei todo o recheio da casa. Precisarei de uma transportadora.  Depois foi ao Banco, queria ver como seria mover esse dinheiro, tinha usado na verdade o dinheiro do cassino.

Quando contou para seu amigo, que a casa tinha saído barata, imagina, paramos em Las Vegas, eu não entendo nada de jogo, enquanto meu namorado jogava na roleta, resolvi comprar fichas para jogar nas maquinas, na segunda ou terceira jogada, eu que nunca fiz isso, ganhei o que tinham acumulado de meses.   A primeira coisa que fiz, foi colocar no banco.

Podemos transferir tudo, inclusive quando venda a casa, lá pedes para o gerente falar comigo, para lhe explicar como aplico teu dinheiro.

Tenho que pensar nisso, agora tenho responsabilidades, tenho 3 irmãos para acabar de criar.

Ele que conhecia seus pais, ficou com cara de interrogação, sabia que ele era filho adotivo, lhe contou que tinha reencontrado sua mãe verdadeira, bem como está tinha três filhos.

Quando voltou para casa, Antonio se matava de rir, o quarto aonde estavam seu tio, bem como seu irmão, tinha duas camas grandes, só tinham usado uma.

Ficaram rindo os dois, quando apareceram pois tinha ido dar uma volta pelo bairro, era interessante, pois os dois eram grandes, fortes, ficaram imaginando os dois na cama.

Quando falaram da mudança, os dois prontamente disseram que a levariam, alugamos um caminhão, levamos, Barrabás, imediatamente falou com o irmão, esse entraria em contato com um agente, que eles depois devolveriam a sua empresa o caminhão.  Topas disse ao Andrew, esse riu, grande malandro, sei o que estas tramando.

Ali na frente deles, os dois deram um grande abraço, se beijando.

Nessa noite foram assistir um concerto no Blue Note, tinha feito a reserva para os cinco, o Jonas estava eletrizado, quero isso mano, estava com os olhos arregalados, os dois queriam ir a uma discoteca gay que conheciam de nome, mas o Jonas por ser menor não podia entrar.

Você me coloca num taxi, me dá o dinheiro, pois não tenho nenhum, ele tinha dado uma chave ao Andrew, este estendeu a sua, voltamos a hora que vocês quiserem.

Ele chamou um Uber, o colocou no carro, sabia o valor da corrida, pagou com visa, assim não tinha problema, quando chegue em casa, me chame ok.

Saíram andando, os dois disseram, não podíamos falar na frente do Jonas, mas o nosso é música country, ele ia nos matar, pois disse que não gosta.

Quando chegaram aonde era o Stonewaal, claro fizeram um sucesso tremendo os dois, depois foram a outra que eles tinham curiosidade de ver.

Foram para casa de mãos dadas, chegaram o Jonas estava vendo um concerto pela televisão, lá em casa não tinha, preciso comprar um laptop para ver essas coisas, começou a cantar a música que tocava agora, tinha um voz bonita.

Ele com o Antonio, subiram iam juntar as camas, mas eles disseram, a outra está boa, nos arrumamos.

No dia seguinte começaram a empacotar tudo, os dois apesar de grandes eram mais rápidos que eles, de tarde enquanto foram ver o caminhão, antes pediram as chaves da casa do Jonas, sabemos que queres escapulir desse velhos loucos, mas não vai conseguir, entre os dois o agarraram pelos pés e braços.   Barrabás, se chegou a eles, deu um envelope, tens cara de quem vai comprar o laptop para o garoto, essa é a nossa parte.

O levou a B&H, uma super loja, do mundo eletrônico, desceram com ele, a parte dos computadores, explicou ao rapaz o que ele necessitava, a cara dele era ótima, ele sugeriu um laptop, aonde ele pudesse fazer música, ver vídeos, coisa do gênero, lhe falou de um aplicativo que ele poderia, inclusive ligando uma guitarra, gravar o que fazia.

Disse o preço, ele abanou a cabeça, muito caro, não tem nada para um jovem sem um puto no bolso, o rapaz ria, mas estou mostrando o melhor, porque senão no futuro, terias que comprar outro.  Nisso um músico que estava ao lado, disse que usava esse, lhe deu uma porção de aplicativos que ele poderia usar.

Nessas alturas, ele já tinha juntado dinheiro com o Antonio, já tinha pagado no caixa, ele estava entretido com o homem, que lhe disse que a escola que queria ir era boa, mas que devia se preparar bem para futuramente vir estudar na Juilliard School. O homem se despediu, desejando sorte, quer cara maneiro soltou ele, tinha anotado tudo que o homem tinha falado, o vendedor, lhe entregou a caixa do laptop.  Presente dos marmanjos para ti.

Agora temos que pensar em presentes para teus irmãos, que sugeres.

Entraram numa livraria, ele pediu um livro sobre criação de cavalos, para o Abe, ao mesmo tempo chamou sua mãe para saber como iam as coisas. Ela ria, pois o velho estava se matando de rir com o Caio.   Esse encontrou o avô que queria, pois o seu nunca falou com eles.

Antes de passar teu filho, me deixa falar com o Caio, perguntou que livros ele, queria, espera, estive olhando numa livraria aqui, mas não tem.   Era um sobre regras de como escrever bem.

Perguntou, ali sim tinha, isso basta.  Passou o Jonas com a mãe, ele quase gritava, o que tinha feito na noite anterior, que tinham comprado entre todos um laptop para ele.  Estava super feliz.

De novo falou com sua mãe, depois com sua avó, essa riu dizendo que mais um pouco, não conseguiriam levar seu avô de volta para casa.  Eles estavam dormindo num quarto que estava no andar de baixo que tinha banheiro.

Por isso não, podem ficar.

Quando se encontraram com os outros para almoçar, primeiro foi o abraço, beijos que o Jonas deu nos dois, obrigado, se surpreenderam quando ele disse que show iam ver essa noite, passamos no Madison Square Garden, compramos entrada para todos, vamos ver Dolly Parton, afinal aguentaram o show de ontem.

No almoço comentaram do caminhão, tem uma cabine especial, podemos ir os dois, pareciam duas crianças contando uma aventura.  Riram muito com eles, Norman se virou para o Antonio, dizendo que essa mudança ia sair caro.

Vai nada, nos estas fazendo um favor.

Comentou com o seu tio, como seu pai estava feliz, bem como o Caio, minha mãe, diz que ele encontrou o avô que nunca teve, pois os seus não aprovavam o casamento do pai.

Eu disse que ele podiam ir ficando, afinal a casa tem espaço.  Que tua mãe Barrabás, tampouco sai de lá.

Antonio, soltou, imagina na hora que eu contar na família que esses dois se enrolaram.

Pode ser que a gente se case em Las Vegas.

Nada disso, acho que temos que casar numa cerimônia só.   A cara do Antonio era ótima, ele tirou do bolso, um anel, era do meu pai, queres te casar comigo?

A cara do Jonas era ótima, eu numa mesa, em que quatro marmanjos falam em casamento, o que vou fazer da minha vida.   De gozação soltou, mano, acho que vou com eles no caminhão senão essa mudança não vai chegar nunca.

Voltaram para casa, agora era embalar os quadros das paredes, que ele gostava.  Jonas viu um perguntou se podia ficar no quarto dele.

Ele riu muito, claro, mano, esse foi o primeiro quadro que comprei na minha vida, feito por um amigo.

Eu vejo nesse quadro, um homem falando de sonhos a serem realizados.

Exatamente por isso o comprei.

Dois dias depois tinha tudo pronto, estava acabando de carregar o caminhão, quando chegou um casal para olhar a casa.

Essa noite dormiriam os três num hotel, para pegar o avião no dia seguinte.

Se despediram dos dois, boa viagem, se comportem, disse ao dois o Jonas.

Depois pegaram um taxi, para o hotel, avisaram que tinha que serem chamados cedo para ir para o aeroporto.

No jantar ele perguntou ao Jonas, se ele se incomodava, de estar no meio dos gays.

Nada tio, meu melhor amigo na escola, que eu tinha que defender sempre é gay, imagina ser gay numa reserva índia, em que todo mundo vive contando com quem fez sexo.

Uma vez quis fazer sexo comigo, no caminho de casa, mas lhe disse que não estava ainda preparado, que não sabia o que queria.

De qualquer maneira puseram o despertador, o Antonio, ficou abraçado com ele na cama, queres realmente se casar comigo?

Sim, não queres.

Sim quero, mas faz pouco tempo, além de que nesse meio tempo temos tanta gente em volta da gente, vamos esperar um pouco as coisas acalmarem, mas de qualquer maneira quero.

Entendeu que ele estava sendo ponderado.

Fazerem sexo para eles, era ótimo, lhe disse que esperava que não acontecesse como o que tinha passado com o John, que ele sempre falasse tudo com ele.

Quando o penetrou nessa noite, Antonio sentado em cima dele, era como tivesse iluminado, sorria feliz.  Te amo muito disse, faz pouco tempo, mas não posso pensar em minha vida sem ti.

Ao passarem o controle no aeroporto, ele disse ao Jonas que tinha que mostrar o laptop, riu quando ele o fez, como dizendo é meu.

Quando chegaram em casa, foi uma festa, para as senhoras eles tinham comprado uns chales fantásticos, para irem à missa, para o velho, uns puros como ele gostava.

Um dos irmão tinha trazido uma televisão a pedido do pai, agora assistia os jogos de beisebol com o Caio, ia lhe explicando cada jogada.   Esses moloides dos meus filhos nunca aprenderam.

Reclamou dizendo que aonde estava o Andrew.

Lhe explicaram que os dois iam demorar, pois vinham com a mudança trazendo o caminhão, o velho soltou aí tem.

Jonas entregou os presente dos irmãos, bem como das avôs.

Foram dar uma olhada nos cavalos, o José disse esse garanhão Mustang, já montou as duas éguas, pode ser que ainda possam parir potros, vamos ver, a outra daqui a pouco vamos ter que separar, para poder ter a cria em paz.

O José, me falou de uma feira que ele ia antigamente, será que podíamos ir?

Claro Abe, descubra a data, vamos sim.

Antonio, ainda soltou, teremos dois companheiros mais, que gostam de country, riram, esses agora vão se apontar a todas as saídas, querem recuperar o que perderam.

Caio chegou para ele timidamente, perguntou se ele podia conseguir um velho laptop para ele poder escrever.   Não quero uma coisa como o do Jonas, mas alguma coisa que possa escrever.

Abe estava mergulhado no livro, discutia com o José, o que lia, esse dizia que finalmente tinha um neto que gostava das mesmas coisas.   Meus filhos foram embora, eu fiquei para trás.  Nenhum deles gostava de cavalos.

Ele marcou com um médico, como tinha que fazer seus exames periódicos, comentou com o médico, que iria trazer sua família, falou com ele que tinha um namorado fixo, queria saber se podia deixar de usar camisinha.   Traz ele aqui, fazemos exames dos dois, os ensino como evitar os riscos.

Mas levou sua mãe, bem como os meninos, para fazerem os exames.  Tudo estava bem.

Quando foi com Antonio, esse fez o exames, tudo normal, sentou-se com os dois explicou que podiam fazer sexo sem usar camisinha, mas que fossem com cuidado.

Nessa noite pela primeira vez, o fizeram, era diferente, estavam acostumados a camisinha, resolveram seguir usando.

Quando quase dez dias depois os dois chegaram, estavam mais magros, quase perdemos o caminhão no jogo em Las Vegas. Disseram rindo.

Foi uma festa geral, Caio quando viu a quantidade de caixas de livros, perguntou ao irmão se podia ler o que lhe interessasse.   Claro que sim, só se me ajudar a montar meu escritório, prometo deixar um espaço para ti.

Iriam comprar estantes para seu escritório, simples, para colocar os livros. Da única caixa que tinha aberto, viu que o menino, passava a mão pelos livros com carinho.

Temos que colocar uma estante no teu quarto, também para ires fazendo uma coleção de teus livros favoritos, a partir de agora terás uma mesada para isso. Mas depois terás que comentar os livros comigo.

As poltronas, os sofás se juntaram aos da casa, ele foi arrumando como estava acostumado fazer, o Antonio o ajudava.  Colocou os quadros nas paredes brancas, separou o que era para o quarto do Jonas, o deixou em cima da sua cama, ele estava na aula de música.

Levou duas pequenas poltronas de couro para o quarto deles, como estava na casa de NYC, assim os dois podiam conversar sossegados.

Claro trouxeram as louças, tudo que era da sua mãe, mostrou a foto dos dois, com ele pequeno no Times Square.

Depois de tirar medidas, ajudado pelo Caio, saiu com ele, bem como as senhoras, no furgão que tinham comprado, para irem a Ikea, elas tinha feito uma lista das coisas que faltavam na cozinha.  Ele se matava de rir, pois pareciam jovens casadoiras.

No sábado fariam um churrasco para as duas famílias, só com isso já era muito.

Jonas nessa noite sentado com eles na varanda, tocou uma música que estava trabalhando, o velho era quem curtia mais, nessa família tem de tudo.   Isso é ótimo, um músico, outro criador de cavalos, meu neto preferido será escritor, um dia escrevera sobre toda a família, eu já contei para ele, toda minha história.

As coisas que pedia o Caio, sempre eram voltadas ao que queria fazer quando adulto.

Na Ikea, compraram tudo, as estantes era como queriam, depois os marmanjos, como chamava Andrew, Barrabás, montaram tudo.

Andrew quando perguntou ao pai quando iam para casa, ele riu, queres matar esse velho, agora que sou feliz, infelizmente tenho que aguentar essas senhoras, mas estar aqui, com o meu neto, não tem coisa melhor.   Era uma verdade, Caio chegava da escola, corria para falar com ele, na mesa se sentava ao seu lado, as vezes quando o velho tinha dificuldade de cortar a carne, ele cortava para ele.

Barrabás comentou que tinha um cliente interessado na motorhome, lhe disse o valor de mercado agora é contigo.

Temos que pensar que prometi ao Abe irmos a uma feira dessas que tem exposição e vendas de cavalos.  Tudo bem como seremos três, nenhum problema.

Barrabás ficou ofendido, nos colocaram de fora Andrew, eu sempre quis ir, pois tem muita coisa country.   Nada disso, vendemos essa, alugamos uma grande, ou então vamos de furgão,

Estamos arrumando aquele trailer, pois nessas alturas, o potro já terá nascido.

Abe quer vender meu potro, isso discutiam na mesa do jantar.

Não, queria mostrar nosso produto.

Talvez nas férias vá como José buscar mais, mas quem sabe que encontramos nessa feira.

Estou guardando a mesada que me dás, para tentar comprar algum.

Riram quando o Jonas se levantou, foi buscar sua guitarra, cantou uma música, meio country que compus para meus queridos tios.

Ele percebeu do que ia o negócio, falou no seu ouvido, os avôs ainda não sabem.

Ah, então vou cantar uma que estou fazendo para cantar no sábado.  Cantou para todos, o velho virou-se soltou, esse garoto tem boa voz.  Será um cantor de sucesso.

Até eu se fosse jovem iria nessa feira, imagina meu neto, ficar aqui com essas mulheres falando sem parar, o que vale, é a comida, está muito melhor.

É verdade, cozinhar para duas pessoas não tem graça, aqui cozinhamos para muitos.

Cada dia uma fazia suas receitas prediletas.

Antonio soltou, um dia desses minha mãe se muda para cá.  Sinto muito, ocupei o último quarto que estava livre ao lado do salão com meu escritório.

Antonio, passava o dia inteiro, as vezes ele se sentava numa cadeira o ficava desenhando, tinha voltado a isso, desenhar.

As duas éguas agora estavam esperando potros também, caramba, esse garanhão, é foda.

O velho José que a princípio não se sentava na mesa, o escutou discutindo com o Abe, tenho umas economias, quem sabe vai dar para comprar um cavalo.  Temos é que comprar mais éguas dizia o Abe.

Ele se informou, para saber, tinha colocado internet na casa, por causa dos meninos, tinha comprado um para o Caio, mais simples, ele depois de conversar com o avô, se sentava para escrever, depois imprimia, levava para ele ler.

Um dia foi chamado na escola, a professora, estava reclamando, que esse menino deve estar copiando os textos que mando escrever, em algum livro ou romance.  Assim ele não cria nada.

Ele leu o texto a senhora está enganada, ele está escrevendo as histórias que seu avô lhe conta, quer fazer um livro com isso.

Peça que ele lhe traga tudo que já tem escrito.

O tornou a chamar, na escola tinha um curso de escritura, para os alunos mais adiantados, creio que para ele iria bem.

Quando falou com ele no escritório.

Soltou, filhos da puta, eu fui perguntar, me disseram que era jovem demais para esse curso, agora me oferecem, rindo disse, aceito, achas que será bom para mim?

Claro que sim mano.

Mas tem que pagar.

Não há problemas.  Agora os três tinham mesadas, assim tinham dinheiro para administrar, como seu pai tinha feito com ele.

Antes da viagem foi ao banco, viu que seu dinheiro aplicado, gerava muito, o gerente do banco, vais pagar um imposto fantástico, porque não fazes uma empresa ou algo para gastar, lhe deu um valor.

Nesse dia se sentou com Antonio no quarto, nunca fazia nada sem o consultar.

Esse ria, imagina um de NYC, pensando em cavalos, deve estar no sangue, inclusive quando me galopa o faz bem.  O que mais gostavam que chamavam de galopar, era estarem sentados um em cima do outro, mas olhando a cara do outro.

Acho a ideia ótima, eu se fosse você, o colocava como teu sócio, assim ele tem responsabilidade.

No dia seguinte foi buscar o Abe que estava como louco, já tinha tudo sobre a tal feira, o levou ao banco, preciso que assines uns papeis comigo.

Que papeis, vamos montar uma empresa, explicou para ele, que o dinheiro que tinha, junto com o da casa de NYC, geravam muitos lucros, que precisava aplicar esse dinheiro, pois senão teria que pagar muitos impostos, assim terás dinheiro para comprar pelo menos duas éguas, ou o que querias na feira.   Ele o abraçou chorando, bendita hora que apareceste meu irmão.

O professor, vira essa semana com a turma, pode ser que a Mustang, vai parir dia desses.

Dito e feito, nesse dia chamou o professor, que veio com uma turma para assistirem o parto.

Nasceu um potro lindo, tinha metade da cabeça negra, a outra metade branca, depois só nos quartos traseiros tinha manchas.

O professor disse que tinha que registrar o animal, como o vais chamar, ele rindo respondeu, como me comprometi, Norman.

Os colegas de curso, apertavam sua mão, as senhoras tinham preparado um lanche para a turma toda.

Assim da gosto fazer visita.

Marie lhe perguntou se não tinha estudado com seu filho Jim.

Sim, estudei com ele, mas fui embora para estudar, anda por aqui.

Venha amanhã temos um churrasco, estará toda família, pode trazer a sua.

Sou solteiro, infelizmente.

Nessa noite discutiam quem ia afinal na tal feira, pois temos que fazer reserva de hotel, ou então, alugar uma motorhome grande.

Andrew trocou um olhar com sua mãe, quero anunciar uma coisa para vocês, porque amanhã pode ser confuso.   O pai olhou para ele, soltou, posso eu dar a notícia, vais dizer que estás vivendo com o Barrabás.   Somos velhos mas não tontos.

Não ia dizer pai, que vamos nos casar.

O velho ria muito, virou-se para o Norman, por que vocês não fazem o mesmo?

Isso, estou esperando o Antonio decidir, esse ria, ainda tenho tempo de trocar de dedo o anel.

A festa do dia seguinte estava preparada, as mulheres estiveram trabalhando até tarde.

No quarto os dois conversavam. Norman perguntou se tinha dúvidas.

Não eu te amo, mas fico com medo de estragar tudo.

Não deixarei que isso aconteça, para ti está tudo bem comigo sexualmente?  Depois do John ele tinha medo disso.

Nem pensar, que me faria fazer tanto sexo, um dia vou pendurar as chuteiras, vou ser monge.

Na verdade, há um problema, embora nunca tenha acontecido, sou ciumento, desconfiado.

Ok, seguiremos como queres. Mas venha cá, fizeram sexo, fantástico.

A festa foi um sucesso, na hora que os dois comunicaram a família que se casavam, foram muitos que ficaram surpresos.

Na verdade já estamos morando juntos faz tempo, como os velhos estão aqui.

Bom tomou a palavra Peter, quero bendizer aos meus filhos que se casam, que sejam felizes, veja como teu irmão, já com dois filhos.

A única coisa discordante foi quando chegou o professor do Abe, quando falou com o Jim, esse não gostou, perguntou o que ele fazia, ali?

Sou professor do Abe, voltei a cidade.

Ele pegou seus filhos, foi embora, com o Brown sem entender.

O professor, tomou uma cerveja, também foi embora. 

Mas finalmente tinha os que iam na feira. Teriam que ir num carro maior, conseguiram fazer reservas, Jonas resolveu ir de última hora, pois viu a lista dos que faziam shows.

Nesse dia da festa cantou a música que tinha feito para os que iam se casar.  Falava do amor de dois homens adultos, que perderam tempo na vida, mas que agora a recuperavam.  Era uma balada bonita, composta por ele.

O velho José se preocupou, mas os que ficavam prometeram cuidar dos cavalos.

Se divertiram horrores, os dois, o velho, Abe, tinham examinados todos os cavalos, viram um negro, totalmente, mas pensaram esse dará problema, o interessante foi que quando o cavalo viu o Abe, veio até perto dele, colocou a cabeça no seu ombro, o dono achou incrível, esse cavalo é complicado, adora correr, precisa de espaço.

Compraram esse, mais duas éguas, os deixariam em separado, do Mustang e suas ladies como diziam.

Na última noite, claro por insistência do Andrew, Jonas cantou a música que tinha composto, foi um sucesso, era uma noite de calouros, ele cantou a outra também, ganhou o prêmio.  Um agente, se aproximou, lhe deu um cartão, quando estiveres preparado para entrar na estrada, me chame.

Ficou cheio de si, mas virou-se para o irmão dizendo, mas tudo com pé no chão, ainda falta muito para sair pelo mundo.

Quando chegaram foi uma festa, o Peter estava contente, faltava gente nessa casa, eu tive que ajudar o Caio a cuidar dos cavalos.  Esse ria, ficava me dando ordens, mas o tio Jim, vinha ajudar todos os dias.

Andrew ficou com a pulga atrás da orelha, pois sua mãe disse que ele vinha com as crianças, ficava o dia inteiro.

Quando encostou na parede, disse que o Brown tinha brigado com ele, por ter escondido sua paixão de jovem com o Professor.

Imagina, me deixou porque queria ir embora, agora está aqui dando aulas, tem um consultório de veterinária, aonde o Abe as vezes ajuda.

Quem me contou foi sua mãe.

Acho que era o que ele queria, um motivo para pedir o divórcio, queria levar as crianças, mas claro quem as adotou fui eu, nem pensar.   Graças a deus até o apartamento comprei em nome delas com usufruto meu, está furioso com isso, não pode me tirar nada.  Alega que assim não tem como recomeçar a vida.

Assinou os papeis, foi embora, eu acabei assinando também, menos mal.

Nessa noite foi esse o tema da conversa dos dois. E se isso acontece com a gente.

Norman de brincadeira disse que cortava o piru dele.

Mas nessa noite teve um pesadelo, com o Antonio o abandonando. Estavam no mesmo motel, este o colocava para fora do quarto, dizendo que era um tonto.

Despertou com ele assustado, o que foi?

Contou o sonho, nem pensar, jamais faria isso, te amo, mas muito mesmo, nunca fui feliz em minha vida como agora, bendita hora que te convidei para dormir comigo, apenas pensei ele não vai aceitar, mas quando aceitaste, nunca poderei esquecer do nosso primeiro banho juntos, um hábito que tinha, um dar banho no outro.

Seu último carro estava pronto, o anunciou, apareceram vários compradores, o vendeu em seguida, já tinha outro ali, que lhe daria trabalho, pois faltariam peças, que ele teria que fazer.

Trabalho duro, mas o resultado é bom.

Esteve conversando com o Caio, enquanto trabalhavam, pois ele dizia, quando alguém lhe chamava, não vês que estou trabalhando.

Precisas ler a parte que o avô fala da tua chegada, depois do romance do tio Andrew, acho fantástico.

Uma semana depois ele ficou doente, o levaram para o hospital, mas já era tarde.

Nunca se esqueça de mim, meu neto, abraçou o Caio que estava abalado, quero ver minha história publicada.

O enterro foi impressionante, nem sabia que ele conhecia essa gente toda, a igreja estava lotada, ele que não ia nunca.

Depois a reunião foi só da família.

Ele passou o texto inteiro para o Norman ler, ele ficou impressionando com a maneira do garoto escrever, afinal ele só tinha treze anos, tinham se passado já dois anos que estava ali com ele, nada mano, vou fazer 14 logo.

Mandou o texto para um editor que conhecia em NYC, que ficou interessado, quando soube da idade do Caio, riu, ele escreveu à sua maneira o que seu avô lhe contou.

Mandou para outro de San Francisco, que telefonou em seguida, muito interessante o texto, quero falar com o autor.  Contou ao mesmo que ele só tinha 13 anos, achou que era uma brincadeira, foi até lá para comprovar.

Fez uma boa oferta, mas Caio, disse que antes a família tinha que aprovar, pois ele era menor de idade.

Pediu para o Andrew reunir toda a família, comentou que desde que tinha conhecido o avô, esse tinha lhe contado a história de sua vida, desde garoto, quando conheceu a Marie Louise, como tinham enfrentado a vida, está tudo aí, claro ele me contava, eu escrevia a minha maneira, lhe dava para corrigir.

Só quero publicar, se vocês aprovarem, levem essa cópia, leiam depois me digam algo.

Sua mãe estava orgulhosa dele, colocou a mão em cima do Norman, graças a ti, isso tudo está sendo possível, um fazendo música como sonhou, o outro criando cavalos, esse escrevendo.

Andrew, lhe perguntou o que ele estava escrevendo agora.

Ora tio, estou escrevendo um livro, sobre uma coisa que o avô me disse, que na família dele, só não tinha ladrões, esses eram seus antepassados que tinham vindo para a América, mas seus filhos eram um exemplo de homens, que os filhos eram isso, um diferente do outro, como os dedos de uma mão, que havia que aceitar cada um, como era, para ser feliz e que eles fossem também.  Quando perguntei o que lhe parecia seu casamento, ele disse que esses dois estavam destinados, imaginem foram amigos de juventude, quando o Barrabás, se casou, ele ficou chateado, agora são felizes, nos cuidou sempre, ele merece ser feliz.

Isso é o que eu escrevo, como vejo as pessoas construindo suas vidas.

A cara do Andrew, era patética, chorava, aquele homem imenso chorando como uma criança era impressionante.

Se preocupava também pelo Jim, dizia que o Brown, era boa pessoa, mas que nunca ajudaria o Jim ir para a frente, queria controlar a família.  Um dia Jim vai se cansar, aí será uma merda. É o meu filho pequeno, mas o mais carinhoso, sempre esteve ao meu lado.  Eu lhe sugeri, ir atrás do professor, mas tinha medo, com isso ficou frustrado.

Só que isso eram conversas nossas particulares, não estou colocando nome aos bois, mas sim o fato de um jovem como eu discutir isso com meu avô.   O quanto ele me fez crescer como pessoa.  O Andrew pegou o abraçou levantou do chão, meu garoto.

Sempre chamava Pena Alva de cunhada, que filhos fizeste mulher, mas este é especial como os outros, mas meu pai o amava.

Todos concordaram, o livro foi editado, a primeira entrevista que ele deu, agradeceu a duas pessoas, ao meu irmão Norman que me deu minha primeira oportunidade, me fazendo entrar para um curso de escritura para adolescentes, eu era o mais jovem, ao meu querido avô Peter, um grande homem.

Nós caímos bem um com o outro, desde que nos conhecemos.  Podias falar horas e horas, ainda hoje escrevo sobre nossas conversas.  Espero ser o homem que ele viu em mim.

A plateia veio abaixo com ele, de tanto aplauso.  Em pouco tempo o livro estava na sua terceira edição.  Norman foi com ele mais o Antonio, a NYC, para lançar o livro, dar entrevistas, era interessante, pois mais cara de índio, que ele tinha era impressionante, ficaram todos impressionados com sua madures.  Uma idiota lhe perguntou como ele tinha tantos parentes gais, se ele achava que seria.

A senhora me desculpe, isso não é uma pergunta que se faça a um jovem que ainda vai fazer 14 anos, como posso saber, mas como dizia meu avô, cada um tem direito de ser o que quiser em sua vida.

A senhora é o que queria ser, acho que não, porque senão não faria uma pergunta desta a um adolescente.

Isso saia nos jornais do dia seguinte, a pergunta idiota que tinham feito, a madures com que ele tinha respondido.

Nasce um escritor, assim diziam a maioria dos críticos.

Uau, soltou, ele, tenho muito ainda que aprender.

O que ele mais gostou, foi ir a uma livraria imensa, buscar coisas que trazia num pedaço de papel, o reconheceram, logo juntou gente querendo um autografo nos livros para comprar.

Ele se sentou como tivesse feito isso a vida inteira, falava com as pessoas.

No dia seguinte tinha uma entrevista num canal de televisão, lhe perguntaram que programa gostava?

Bom, só vi televisão quando fui morar com meu irmão mais velho, lá na reserva não tínhamos, mas eu gostava mesmo era de ver com meu avô, embora os outros não entendesse, pois ele só via jogos de beisebol, me explicou cada jogada, víamos jogos antigos, discutindo o comportamento dos jogadores, as críticas dos que faziam a transmissão, era divertido, eu gosto mesmo é de ler livros, só uma duas vezes me chamou atenção ver alguma coisa, foi filme sobre Caio Julius Cesar, minha mãe tinha esses livros que alguém doou a igreja da reserva, li esse livro mil vezes, porque não tinha outro, fiquei decepcionado quando vi o filme, pois deturparam muita coisa que esse homem fez.  Por isso prefiro o livro.

Me ofereceram dinheiro, para transformar esse livro numa série, eu falei com meu irmão Norman, o que vou fazer com tanto dinheiro, já tenho dinheiro do livro que bastará para ir à universidade quando chegue a hora.  Um garoto de 14 anos, fiz aniversário ontem, que vai fazer com tanto dinheiro.

Em casa cada um tem um caminho, meu irmão mais velho, um dia será um bom músico, o outro é criador de cavalos, temos agora três potros novos, graças ao meu irmão mais velho.

Sem ele não teríamos futuro.

Na noite anterior, lhe perguntaram aonde queria jantar, ele escolheu um McDonald, pois sempre tive vontade de ir num. 

Norman ria muito com ele.

Voltou para casa famoso, soltou, ainda bem que estou de férias, senão essas meninas iam querer me namorar, só porque sai na televisão, mas não sou tonto.

Suas notas na escola eram brilhantes, já tinha lido e analisado todos os livros do ano seguinte, agora que não tinha o avô, Norman o obrigava a conviver com os irmão, ajudar como os cavalos, não podes ficar todo o tempo em cima desse laptop escrevendo.

Era interessante o potro Norman, agora estava grande, estava separado, porque tinha começado a disputar com o pai, terreno.  Temos que comprar uma égua para ele.

Foram a uma outra feira, mas desta vez, que foi com os dois foram o Andrew, com o Barrabás, que aproveitavam os shows de música country, compraram duas éguas Appaloosa, as soltaram com ele, Antonio dizia que o sem vergonha tinha saído ao que lhe deu o nome, como gostava de fazer sexo com as éguas.

Abe se sentou com eles, com a mãe, para decidirem seu futuro, sei que ir à universidade, terei um futuro diferente, mas só vou se a fizer aqui, não quero estar longe do meu rebanho.

Como você quiser, ele conseguiu entrar na universidade, logo ser destacou, por já ter experiencias.

Um dia o Jim apareceu com Rob o veterinário, estavam tentando outro vez, faziam um casal mais interessante que com o Brown, estava fazendo um curso de noite para poder entrar na universidade, instigado pelo Rob, ele ficava com as crianças.

Norman comprou um jeep, para o Abe, para ele ir, voltar da universidade.  Já o Jonas, resolveu ir estudar na Juilliard, mas antes teve uma conversa com o Norman, sua mãe, além das senhoras, claro o Antonio.   Todos só o alertaram do uso de drogas, pense bem, pois isso pode arruinar tua carreira toda, tampouco o faça para se sentir enturmado.

Norman alugou um apartamento pequeno para ele, perto da escola.

Mas ele vinha sempre que podia.  Sentia falta da família, aprendeu o que queria, perguntou se podia construir um studio de música ali depois do estabulo.

Vocês tinham razão a cada 10 minutos alguém me oferecia alguma coisa de drogas, não entendiam que estava ali para aprender.  Menos mal que meus professores entenderam, me ajudaram até nisso.

Procurou o agente, esse se lembrava dele, mostrou suas músicas novas, queria formar uma banda pequena.   Foi abrindo o espetáculo de um músico conhecido.  Esse logo cantou duas músicas dele, o melhor foi um dia que o show estava sendo televisado, que o chamou para cantar as músicas com ele.

Breve gravou um CD, montou um show pequeno como ele gostava. Fazia um circuito de universidades, bares, estava contente.

Não permitia que nenhum dos músicos usassem drogas.

Quando chegou a época do Caio ir à universidade, ele tinha um leque para escolha, com direito a bolsas, mas resolveu estudar ali mesmo, como dinheiro do livro, comprou um carro de segunda mão que lhe arranjou o Andrew.

No primeiro dia que ele foi a universidade, Norman com o Antonio, conversando como sempre, agradeceu ele ter colaborado, estando todo esse tempo ao lado dele.

Não consigo imaginar minha vida sem ti.

Sabe o que gostaria de fazer, ir passar algumas noites contigo no deserto, riram muito porque nesse dia fazia muito frio.   Na cama como sempre, cansados ou não se dedicavam a fazer o que gostavam.   Vê como tinha razão, ninguém me montou jamais como tu.

Se mataram de rir um dia que Caio chegou irritado da Universidade, essas garotas parecem tontas, querem sair comigo, porque consideram que sou escritor de sucesso.

Algumas inclusive se insinuam.

Mas estás interessado em alguma delas?

Não mano, porque não tem conversa, quando começo a falar de algum escritor antigo, logo fogem, só ficamos dois gatos pingados, meu amigo Tadao, que é descendente de japoneses, que está escrevendo um livro sobre o assunto, o Arno, que é um mestiço como tu, pai negro mãe irlandesa.  Com os dois me apanho, pois tenho o que conversar, horas e horas, mas essas idiotas, creio que estão lá para arrumarem um marido.

A única que não entra nisso, é uma que veio de Dallas, mas é lesbiana, está sempre com sua namorada que é de outro curso.   Mas da mesma maneira faz gozação, que somos um grupo de garotos, intelectuais.   Eu acho engraçado porque nem me considero um escritor de sucesso, tampouco um intelectual, não é porque gosto de ler, debater assuntos, que eu seja intelectual, apenas um interessado.   Hoje trouxe dois livros que mandei encadernar, falo sobre o que disse aquele dia para o tio Andrew, de minhas conversas com o avô Peter, sobre sexo, escolhas essas coisas, quero que você leia primeiro, depois me desenha uma capa para o mesmo, para oferecer a editora, se achar que é bom.

Algumas vezes, enquanto lia, chorou, era como estar escutando os dois conversando, o velho com a voz pausada, como tinha aceitado a diversidade dos filhos.  Os netos que ele adorava, num dado momento, fazia uma reflexão que os que eram adotados ou por ele ou pelos filhos, eram mais carinhosos, que os outros.

Quando leu o que ele sentia a respeito disso, chorou muito, fechou a porta da sala, para fazer isso a vontade, falava do apaixonado que tinha ficado com o irmão mais velho quando apareceu, logo me comprou os livros que pedi, já estava farto de ler o mesmo livro sobre Caio Julius Cesar, ele me abriu o mundo, depois quando perdi meu pai, me senti sozinho, mas quando conheci o avô Peter, foi como ele acolhesse um cachorro abandonado, logo estava conversando comigo sempre.     Dizia que eu tinha tutano, batia com os dedos em sua cabeça, que fazia um ruido oco, depois fazia na minha, me fazia rir.   Quando começou a conversar comigo, me dizia sempre que confiava em mim para guardar seus segredos, ninguém me conheceu como tu.

Quando ele morreu, meu sentimento de solidão, só era preenchido nas horas que estava com meu irmão, compartido mesa de trabalho.    Amo os desenhos que ele faz, não entendo por que não mostra para o mundo, sei que alguns deles são muitos particulares, fala da sua vida.

Tenho inveja as vezes do Antonio, o amor que os dois sentem um pelo outro.

Quando Antonio, entrou no escritório, pois o estavam chamando para jantar, ele estava debruçado sobre a mesa, ficou nervoso, quando levantou a cabeça, tinha os olhos inchados de chorar.

Tens que ler esse livro, é apaixonante.

Foi lavar a cara para ir jantar.

De noite o Antonio começou a ler o livro, quando foi para cama, disse, esse menino, é um espanto.   Lembrasse que quando perguntaste o que queria, ele disse livros.  Não queria nada como fazem meus sobrinhos, que pedem coisas de informática.  O mesmo quando pediu um laptop, ele queria o mais simples pois era só para escrever.   As vezes o vejo, usando roupas que minha mãe consegue para ele dos outros netos, ele a beija agradecendo.

Quando faz alguma comida especial também é o único que a abraça, beija, alias faz isso com todas, está sempre agradecido pelas coisas mais simples.

Mesmo seu quarto, é o menor, ali só tem espaço para seus livros, nada de outras coisas.

Os três são especiais para mim, cada um, no que construíram para eles.

Olha quantos cavalos, tem agora o Abe, outro dia apareceu um interessado, num que comprou a pouco tempo, lhe fez uma oferta impressionante, mas ele disse que não, pois o estava cruzando com uma égua Mustang, além da Appaloosa, queria ver o que ia sair desse mistura de raça.

Nunca escuto o mesmo falar de nenhuma namorada, diz que as que estudaram com ele, só querem cuidar de cão, gatos, coisas assim.  Quando ele começa a falar de cavalos, se desinteressam dele.   Agora o professor Peter vinha sempre, o ajudava quando uma égua ia ter uma cria, Jim tinha mudado completamente, era mais fácil falar com ele, talvez era agarrado ao Caio, por causa do avô, sempre batia na porta do escritório, perguntava se tinha cinco minutos.

Ficavam os dois horas conversando, falava como ele como este gostava, como tivessem a mesma idade, isso fazia o avô, nunca o tratou como uma criança.

Os pequenos dele, já estavam grande, adoravam o Peter, nunca falavam do Brown.

Um dia Jim contou que tinha se encontrado com ele por acaso, está completamente diferente do que era, estava acompanhado de um homem muito mais velho que ele, me apresentou como seu marido, se vê que o sujeito tem dinheiro.   Ele que sempre gostou da boa vida, me disse que tinha tido sorte.

Mas quando soube que estou com o Peter, me soltou na cara, nunca me amaste, sempre foi esse idiota veterinário, esse rompante chegou a assustar o homem que estava com ele.

Mas Caio, a vida como meu pai dizia é assim, me incentivou a ir atrás do Peter, mas tinha medo de sair da casca do ovo.  Mas agora, além de um pai perfeito para meus filhos, é o homem que amo.

Quando via que queriam falar com ele Norman, arrumava uma desculpa qualquer para deixar as pessoas com ele.

Nesse dia depois que o Jim foi embora, abriu-se com ele, sabe, contigo posso falar dessas coisas, pois sempre me escutaste, tu bem como o avô Peter sempre foram assim.

Vejo os relacionamentos dos homens, gosto mais, os que tem mulheres, as acho complicadas, nunca me interesso por elas.   Outro dia meu amigo Arno, me deu um beijo, o sabor ficou na minha boca, tive que dizer a ele que depois tive que me masturbar.   Ficou rindo, disse que tinha feito o mesmo, que queria experimentar fazer sexo comigo, os dois somos virgens.

Olha meu irmão, não quero que fiques fazendo sexo por aí, quando quiseres, traz o Arno aqui em casa, podes dormir com ele no teu quarto.

Mano, ele é imenso, não cabe na minha cama.

Realmente quando trouxe o Arno, todos riram, pois tinha dois metros de altura, era forte, além de bonito, logo se sentiu em casa, com a recepção de todos. Os pegou de mãos dadas no escritório, mas ele entrava com uma boa notícia.

Caio, pegou a mão que o Arno tinha retirado, com meu irmão não tem esse problema.

Perdão por interromper a conversa de vocês, mandei o livro para o editor, quer publicar como sempre.    Mas quer que vocês, escreva aproveitando o livro em si, para escrever o roteiro de cinema, um de seus irmãos era o que queria fazer o filme do livro anterior.

Se escreves o roteiro, ele apresenta, inclusive podes acompanhar a filmagem para saber se está como queres.

Ele no seu entusiasmo, beijo primeiro o Arno, para depois correr aos braços do irmão.

Sua mãe estava orgulhosa dele.

Então discutia no almoço com todos, aproveito que na faculdade tem um curso de roteirista, vou me matricular, que achas Arno.

Sem se dar conta, este soltou, vais ficar famoso, vais me esquecer.

Deixa disso homem, fazes o curso comigo, também.

Norman, depois conversou com ele, tens que tomar cuidado, pois o Arno é inseguro, gosta um pouco de manipular.

Sim eu sei, estou revisando seu livro com ele, odeia que o corrijam, mas comigo aguenta.

Nunca quer mostrar para ninguém o que escreve.   Sabe mano, nele noto muita dor, que ele não sabe botar para fora.

Um dia chegou em casa, furioso, fechou a porta do escritório, se abraçou com o Norman, você tinha razão, o idiota meteu os pés até o fundo na merda.

Quase morreu ontem de overdose, por pouco, se meteu com drogas, eu lhe chamei a atenção que não o queria perto de mim com drogas.  Fazia uma semana que não nos falávamos, Tadao pensa igual, que a inseguridade dele, vai lhe dar problemas.  Mostrou o texto para um professor, esse fez as críticas que eu já tinha feito, claro, uma coisa sou eu falando, mas o outro disse que tinha que parar de ser inseguro.  Ao mesmo tempo tinha mandado o texto para um editor, que devolveu dizendo que trabalhasse mais o texto.

Se não fosse sua mãe, teria morrido, agora terá que passar um tempo se tratando.

Ainda não era o momento de me apaixonar totalmente.

Com o Tadao era outra coisa, estavam sempre rindo, conversavam sobre os textos, quando o rapaz pediu ao Norman que lesse o que tinha escrito, o achou maduro, pois analisava, o fato de seus pais basicamente terem vivido como num gueto até saírem de San Francisco.  O Texto basicamente falava nisso as pessoas que se fecham num gueto, o difícil que é sair.

Era um romance, falava de um jovem que procura sair desse gueto a qualquer preço, mas que se sente sozinho.

Quando conversou com ele, este riu soltou, até conhecer o Caio, me sentia sozinho, tinha acabado de chegar de San Francisco, todos nos olham, como se fossemos da mesma raça, como ele tem os olhos amendoados, cabelos negros, olhos negros como eu, pensam que somos da mesma raça, isso lhe faz rir muito.

Posso mandar o livro para o Editor, o que achas, eu faço sempre isso para o Caio.

Meu pai, leu, mas não gostou do livro, diz que eu menosprezo o que eles passaram, mas não é verdade.

Antonio, disse de noite, esses dois estão fazendo sexo, pois passei pelo quarto do Caio, escutei ruídos indiscretos.

Tadao agora passava mais tempo lá que no apartamento aonde viviam.

O livro dele foi aceito, Norman como ele pediu, desenhou a capa, como fazia com os do Caio.

Este estava de cheio no curso de escritura de roteiros.  Sobre o mesmo tema, preparou três roteiros, Norman, bem como o Antonio lera, gostavam mais do primeiro.  Era mais denso, mais interessante.

O mandaram para o Editor, este leu, disse que passava para seu irmão.

Dois dias depois o homem apareceu em casa, justo nesse momento Caio não estava, enquanto isso Norman conversou com o sujeito, lhe disse como pensava seu irmão.

Estava desenhando justamente a capa do livro do Tadao.

Quando o Caio chegou, o homem, tentou o cativar de todas as maneiras, o convidou para ir almoçar.

Ao contrário, nos dará o prazer de almoçar aqui em casa, o homem quando viu que iam comer na cozinha achou graça, mas sentar-se para comer numa mesa cheia de gente, que falava dos seus assuntos, como se ele fosse mais um ali.

Depois diria que se conversou de tudo, de música, cavalos, livros, tudo girava em torno da mesa.

O próximo roteiro, quero que escrevas sobre isso, o que acontece numa cozinha de uma família assim.

Depois o levou para sentar-se no escritório, junto claro com Antonio, além do Norman.

Aqui decidimos as coisas assim, para economizar tempo, me faça sua proposta, pois eu sempre discuto com meu irmão.

O que o homem não sabia, era que tinham se informado a respeito de textos, pediu que o mesmo analisasse o texto como tinha entendido.

Levou um susto, quando Caio se levantou, sinto muito, não entendeste o texto, me nego a vender para fazeres como pensas.   Ou é como está escrito, ou nada.

Antes que me diga, quem estou pensando que sou, lhe digo, uma pessoa que preza o que escreve, como quer que lhe entendam os demais.

O homem tinha o texto na frente dele, o retirou, sinto muito, mas nada feito.

Já basta a decepção que tive depois de ler durante toda minha infância a história de Caio Julius Cesar, ver como faziam um filme destroçando a vida do homem.

O diretor disse que nunca tinha visto esse filme, compre o livro, escreveu num pedaço de papel o nome do mesmo, depois veja o filme, odiaria que um texto meu acabasse assim.

Além de querer participar da filmagem.

Isso nem pensar, não gosto de gente no cenário. 

Estendeu a mão, desculpe o fazer vir até aqui, mas nada feito, aliar, pretendo nunca mais escrever para o cinema.

O homem foi murcho embora.

Norman ria muito, meu irmão adoro ver-te defender tuas ideias.   Tadao fez um comentário depois que estragou tudo, que ele ao contrário daria a vida para ver seu nome num filme.

Pois eu não, prefiro trabalhar de limpa botas, que ver meu texto desvirtuado.

Tiveram uma briga monumental, este foi embora, furioso.

Depois sentados na varanda, no meio dos dois, comentaria, será que me espera justamente isso, as pessoas que não aceitam a minha cabeça, minha maneira de pensar.  Eu respeito o que ele quer, mas quer mudar minha maneira de ver como quero as coisas.

Como vocês conseguiram?

Não, sei, desde que conheci o Antonio, conjugamos em tudo, podemos discordar, mas um explica para o outro o que pensa, chegamos a um meio termo.

Riram segurando as mãos, fazia tempo que os dois usavam agora um anel igual.

Tinham feito os votos numa noite no deserto, adoravam estar nus ali na natureza.

Nisso viram o Norman, brigando com um novo garanhão, filho dele.   Olha como ele defende o que é seu.

Tinha comprado um terreno ao lado, para fazer uma pista para os cavalos correrem.

Mas ninguém ganhava da Helga, uma mistura de Mustang com Appaloosa, deviam ter colocado o nome dela de vento, a iam levar para participar de um derby, foi a família inteira, inclusive as senhoras, ganhou o grande prêmio para surpresa deles.

Logo queriam compra-la, mas Abe se negou redondamente, meses depois ganhou outro grande prêmio, num dos lugares mais famosos de corrida de cavalos.

Logo ele a cruzou com um puro sangue árabe que tinham lhe emprestado.

O Potro já nasceu correndo, como dizia o Norman.

Agora passava horas sentado no celeiro desenhando os cavalos.  Seus desenhos eram perfeitos.

Riram muito quando um dia depois de uma turnê larguíssima o Jonas, voltou, com duas músicas country, mostrou claro primeiro para o Andrew que rapidamente chamou o Barrabás.

Entre os dois o levantaram por cima de suas cabeças.

Veio acompanhado de uma loira, muito interessante. Era sua namorada, cantava as músicas com ele.

Com o irmão comentou, essa a hora que fizer sucesso, irá embora, não deu outra, mal conseguiu um contrato, se mandou.  Mas surpreendeu a todos porque numa gira, que fez cantando música country, veio acompanhado de uma jovem índia, a tinha conhecido numa reserva, tinha avisado ao Abe que tinha encontrado cavalos, este foi com o Andrew, o velho José já não estava para isso, gostava de ficar tranquilamente observando os cavalos, tinha uma idade indefinida, ele mesmo dizia que tinha perdido as contas, o mais interessante que passou a conversar com o Caio, contando a história de sua vida.  Até o momento que os encontrou, aí passei a ser feliz.

Quando Abe voltou com um caminhão, cheio de cavalos, tinha comprado em parceria com o Andrew, que cada vez mais estava ali.

Mal soltou os cavalos Mustang que tinha trazido na parte nova, era impressionante ver os mesmo correrem.   Eram só um garanhão, com cinco éguas, além de um potro.

Antonio se apaixonou pelo potro, que tinha curiosidade, vinha buscar sempre na sua mão uma cenoura.

Andrew, agora estava construindo uma nova quadra, para abrigar os cavalos durante o inverno, isso faziam nas terras que tinham comprado ao lado.

Aproveitou para construir uma cabana para ele, Barrabás, que dizia que estava farto de consertar carros alheios, deixou tudo, veio trabalhar com o irmão.

Jim de brincadeira dizia que acabaria morando lá também, pois, imagina o Peter, a cada momento livre escapa para cá.

Quando morreu a mãe deles, com quase 95 anos, logo em seguida foi a do Andrew, os dois enterros foram concorridos, pois elas estavam sempre ajudando a todos na igreja.

Só ficou a Pena Alva, que agora era a matrona deles, conseguiu ela mesma na igreja duas senhoras para trabalharem na cozinha com ela, pois era muitos homens para alimentar.

Meses depois o Abe estranho que o velho José não aparecia, o encontraram morto, tinha partido em silencio, dormindo.

O enterraram junto aos seus, afinal ele tinha acabado sendo da família.

Abe sentiu muito a perda dele, agora precisavam de mais gente para trabalhar.

Qual foi a surpresa, que Andrew ajudado pelo Jim, reformaram a cabana do velho José, os dois vieram viver ali, agora Jim era quem ajudava o Abe.

Os filhos estavam na universidade, ele acreditavam que nunca voltaria, o rapaz estudava medicina em NYC, a garota, estava em Washington, estudava, era namorada de um coronel, mais velho do que ela.

Então para que viver na cidade, se estamos quase que o dia inteiro aqui.  Depois construíram uma clínica, na entrada, assim os dois atendiam os animais que traziam.

Jim estava super relaxado, agora quando sobrava tempo se metia na cozinha.

Norman fez a primeira exposição dos seus desenhos, a fazia sem pretensão nenhuma, ficou surpreso, quando se vendeu tudo.  A critica o elogiava pelo perfeccionismo.

Tinha tantos desenhos que separou uma boa quantidade para uma exposição em San Francisco, de novo sucesso.

Agora se dedicava mais a isso, mas nunca se esquecia de fazer uma pausa, para ir dar um beijo no Antonio.

Um dia sua mãe, perguntou ao Norman quando iam se casar, afinal, já estavam ficando uns senhores.

Pergunte ao Antonio, eu estou esperando por ele.

Acabou que resolveram se casar todos ao mesmo tempo, foi uma baita festa, se divertiram muito, Caio trouxe um aluno seu, agora era professor na universidade, não era jovem, inclusive um pouco mais velho do que ele, à primeira vista não se dava nada por ele, tinha passado os últimos anos de sua vida, cuidando dos pais.  Agora livre voltava a universidade.

Os dois juntos era interessantes, um alto, loiro de olhos verdes, Caio, moreno, cabelos negros, olhos negros, mas os via relaxados de mãos dadas.

Abe disse que ele acabaria ficando solteiro, pois Jonas sempre estava com sua namorada índia por aí, ele ficava sobrando.    Agora dava aulas também, mas só sobre cavalos, na universidade que tinha aberto um tipo especial de classe para ele.

O rebanho era imenso, mas o melhor mesmo era que a égua campeã, tinha parido uma égua que prometia, a chamavam de Raio.

Pena Alva foi a seguinte, morreu dormindo, tranquila, os meninos como chamava Norman, bem como ele, sentiram muito, na verdade se tinha transformado em importante para todos.

Seu enterro foi interessante, pois tinha muita gente de diferentes raças, gente que ela tinha ido fazendo amizade na igreja.  Foi enterrada ao lado de suas amigas.

Resolveram que tinham cada um cuidar do seu espaço, conseguiram contratar um cozinheiro, para todos.   Ficaram entrevistando muita gente, mas acabou ficando um mexicano, que gostava do campo.  Tinha trabalhando em San Francisco, tinha vindo a pouco tempo para a cidade, mas ao escutar falar que precisavam de um cozinheiro, apareceu.

Era da mesma idade do Abe, riram muito, pois pensou que este era o manda mais, começou a conversar com ele.

Os outros deixaram, como as senhoras esse dia tinham ido embora, ele entrou para a cozinha tomou posse, ia conversando com o Abe ao mesmo tempo que cozinhava.

Nunca tinham visto o Abe falar tanto.

Emanuel, acabou ficando, riram muito quando acabou passando a dormir no quarto do Abe.

Este era um deus para ele.  Não se incomodava com a brincadeira dos outros, dizia que nunca tinha se acostumado com o tipo de vida de San Francisco, que era nada mais de uma noite, quem como ele que trabalhava num restaurante, nunca tinha tempo para um romance.  Tinha vindo para a cidade, esperando uma vida simples.  Mas a rotina de um restaurante cansa dizia ele.

Lá ele tinha liberdade de cozinhar o que queria, como tinham feito as senhoras, descobriu um livro de receitas delas, cozinha sempre alguma coisa dali.

A vida seguiu em frente, agora iam a feiras de cavalos, levando os que achavam melhor para mostrar, tinha comprado mais terras por detrás da deles.

Sempre aparecia algum agente imobiliário, querendo comprar tudo para construir ali um parque residencial, nunca se interessaram.

Seguiram em frente, dando espaço para os mais jovens, Norman as vezes fazia alguma exposição, mas ali na cidade, sempre produzia muito devagar.

Anos, depois de muita estrada fazendo música, Jonas apareceu, com duas crianças, vinha com ele, eram pequenas, gêmeas, ela tinha morrido num acidente de carro.  Tinha saído para comprar comida para os meninos, quando um carro com um bêbado, se chocou contra o seu,

Os nomes não podiam ser melhor, um se chamava Abe, outro Caio.  Foram adotados pelos tios imediatamente.

A morte dela, afetou muito a vida do Jonas, que foi ficando por ali. Ajudava a todos, mas havia momentos que ficava sentado na varanda como esperando alguém chegar.

Um dia o encontraram ali, morto, um enfarto.

Ele tinha deixado um bom dinheiro paras os meninos de sua música, os tios conseguiram a custodia deles.

Pelo menos a casa tinha agora gritos, risadas de crianças.

Norma dizia ao Antonio, o duro é isso a vida segue em frente não para nunca.   Menos mal que tenho a ti ao meu lado.

TURBULÊNCIA

                                             

Diziam que tudo em volta dele sempre era turbulento, chegava a concordar, embora ele como pessoa fosse um remanso de tranquilidade na hora de trabalhar, a sensação de quem estava a volta era que a adrenalina não fazia parte de sua vida, que a frialdade predominava.

Voltava agora a uma delegacia, tinha passado os últimos meses, trabalhando como interno, devido a uma ferida a bala, que lhe impossibilitava no momento atirar.   Foram meses de reabilitação, para poder voltar outra vez ao batente.

Enquanto isso lhe deram um encargo, checar os relatórios dos agentes, ultimamente esses relatórios eram incompletos, ocasionando que os advogados se aproveitavam disso, para liberarem seus clientes.

Ele era conhecido por seus relatórios, bem como conclusões perfeitas, isso talvez, por ter feito universidade de direito. Saiu com louvor, mas a vida dá muitas voltas, não gostava de estar do outro lado da lei, livrando criminosos.

Optou pela polícia para depois de estar trabalhando algum tempo num escritório de advogados. Seu trabalho era justamente esse analisar os relatórios da polícia.

Pelo menos aproveitou isso, saber analisar um relatório, ver os erros cometidos pelos policiais, saber nas entre linhas do que escreviam.

Na hora de analisar o relatório, pedia que a caderneta que tinham usado estivesse ao seu dispor, quando um deles se negou, apenas lhe disse que estava lhe ajudando, imagina que aparece algum erro, serás o culpado, todos virão em cima de ti.

Ele conversando com esse policial, todos riram, ele tinha 1,90 metro de altura, o outro era baixinho, tinham trabalhando anteriormente juntos.

Analisou o relatório do mesmo, encontrou lacunas, o chamou para verificar, que o tinha feito mudar certas coisas.

Andrew, lhe comentou que o relatório tinha sido feito pelo outro detetive, ele sempre muda tudo, nunca entendo por quê. Tem muitos amigos advogados.

Pediu a caderneta do outro, esse se negou, disse que quem escrevia era seu companheiro.

Ficou com a pulga atrás da orelha, se um fazia anotações, porque era o outro que escrevia o relatório.

Falou com o chefe deles, mas esse tirou o corpo fora.

Mostrou a esse, aonde os advogados poderiam usar para livrar seu cliente.

Mas nem assim, conseguiu nada.

Como quem tinha lhe dado esse trabalho era o chefe de polícia, foi falar com ele, este abriu os braços quando o viu, salve Drew Sacktis, vamos ver o que me trazes, porque eu espero de ti a verdade.

Comentou com ele o que tinha descoberto, que em pelo menos três casos, seria batalha perdida nos tribunais.  Inclusive, seu amigo tinha anotado certas peças para provas, essas não existiam ou tinham sido perdidas.

Há algo de estranho nisso tudo.  Segundo um deles, o chefe da equipe tem muitos amigos advogados, mas que o inspetor chefe fique quieto é muito estranho.

Quero que acompanhes esses julgamentos, quero ver como se comportam como testemunhas, direi ao fiscal que os cite como tal.

Marcou a data de cada julgamento, compareceu com todas suas anotações, para checar.

Procurou passar desapercebido, o que no seu caso, era difícil.   Mas de tonto não tinha um pelo, antes procurou na sala um lugar que fosse discreto.  Chegava antes se identificava, se sentava ali.   Nunca era o responsável pelo que estava escrito que testemunhava, sempre sobrava para alguém, que na verdade se perdia ao responder as perguntas.  Dando clara vantagem ao advogado.

Tinha gravado tudo isso, comparado o depoimento, com o que estava escrito, nunca nada batia.

Voltou a falar com o chefe de polícia, foi o que eu imaginei meu caro, agora vem o pior, quero que você como já tem a alta, se integre nessa delegacia.  Observe tudo, me faça um relatório semanal do que acontece.

Quando se apresentou, lhe olharam de esquerda, pois sabiam do trabalho que tinha feito antes, ninguém queria ser seu companheiro.  Se ele tinha uma coisa a seu favor, era o fato de ser bom observador, bem como saber usar sua intuição.  Lhe tocou durante um tempo ser justamente companheiro do cabeça da história, ainda pensou era como estar infiltrado numa quadrilha de traficantes.   Este examinava a cena do crime, sempre com pressa, não lhe interessava muito, dizia que ele escrevesse tudo, depois ele faria o relatório.

Para surpresa deste, ele mesmo fazia o relatório, a partir que tinham o mesmo status, o fazia corretamente, agregando tudo, analisava as provas, as catalogava, em seguida apresentava para o chefe.  Este dizia, quem tem que fazer o relatório é o teu companheiro.

Nada disso, eu faço o relatório do que vi, se ele quiser faça outro, pois em nenhum momento prestou atenção em nada.  Tenho o mesmo status dele, ele não é meu chefe, sim meu companheiro.    O outro ficou uma fera.

Em seguida o descartou, logo lhe tocou o Andrew como companheiro, ai foi mais fácil, mesmo assim o outro queria ver o relatório, não o permitia, quando os casos foram levados a julgamento, claro os advogados não encontraram nenhuma brecha.

O fiscal o chamou, lhe agradeceu, tudo que vem desta delegacia, é sempre uma merda, o teu é perfeito.

Um dia encontrou o mesmo fuçando, colocando uma coisa no bolso, de sua caixa de provas, o encostou na parede, retirou o que tinha colhido dali.  Nunca mais te atrevas a fazer isso, se eres corrupto, é um problema teu, mas nos meus casos, cuido eu.

Revisou tudo, faltavam duas coisas, deu queixa ao chefe, esse levantou os ombros, por sorte relatou isso ao chefe de polícia.

Já se corria rumor, que toda a delegacia seria trocada.

Estava no carro como Andrew, que justamente lhe dizia, que trabalhar com ele, era melhor, estava livre das merdas do outro.

Foram chamados todos os carros, para uma troca de tiros num lugar complicado.

Segundo a chamada, tinham cercado um traficante de drogas.

Mal chegaram apesar de proteger o carro, era como se alguém o estivesse esperando, Andrew levou um tiro certeiro na testa.  Como um relâmpago, se jogou fora do carro, tratou de se proteger, avistou na parte mais alta, um franco atirador.  Que merda é essa, pensou, os traficantes não têm franco atirador.

Foi procurando dar a volta ao carro, mas pareciam que todos os carros, seja de que lado fosse, atiravam na mesma direção, olhou para uma lateral, estavam pelo menos uns cinco policiais mortos, memorizou suas caras.

Justo nesse hiato de distração, recebeu uma bala no mesmo braço ferido anteriormente, o que o jogou no chão.

A partir desse momento tudo foi uma confusão geral, pois os traficantes, passaram a atirar com metralhadoras, na outra direção.  Alguém o arrastou, o deixou junto aos outros policiais, disse baixinho, velho amigo, te cuide, coloquei no teu casaco um número de celular, entre em contato comigo.  Como num relâmpago, reconheceu Robert Smith, um velho companheiro de orfanato.

Em seguida perdeu os sentidos.   Escutou longe, o filho da puta, que tinha chamado todos os carros, reclamando que tinham raptado um deles.  Mas não dizia qual.

Nesse momento a ambulância, recolhia os feridos, uma enfermeira deu com ele, chamou os outros para a ajudarem, escutou o mesmo dizendo, esse desgraçado era para estar morto.

Então entendeu, era uma emboscada.

Foi direto para a sala de operações, lhe retiraram a bala, teria que colocar uma prótese, o fizeram em seguida.  Despertou no quarto, que estava vigiado, ainda meio sonolento, o médico lhe disse que desta vez tinha uma prótese, que iria demorar mais tempo em reabilitação.

Tornou a dormir, viu que entravam dois enfermeiros, que faziam uma coisa, estranha, abriam uma porta ao lado da cama, lhe retiravam dali, colocando outra pessoa no seu lugar.

Reconheceu pela voz, pois estava de máscara cirúrgica, o Robert Smith, que lhe fez sinal de silêncio, viu que ele, se escondia, tinha uma pequena câmera de vídeo.

Depois escutou tiros abafados no outro quarto. Uma voz irada dizendo, mas não é ele, o filho da puta conseguiu escapar, mas isso não fica assim.  Nesse momento, uma grande confusão, pois apareceram vários agentes do FBI, prendendo quem estava no outro quarto.

Robert, chegou-se à cama, colocou a câmera de vídeo embaixo do braço ferido, depois me contata, que te conto mais coisas.

Até descobrirem aonde ele estava foi demorado. Disse não saber de nada, porque o tinham trocado de quarto, tampouco sabia o que tinha acontecido ali.

No dia seguinte o chefe de policia o veio ver.  Desculpe essa confusão que te meti, agora estão atrás das grades, todos eles, incluindo o chefe da delegacia.

Todos estavam envolvidos em uma série de merdas, tu estavas dentro, me fazia os relatórios, conforme isso, pedi ajuda ao FBI.   Mas de qualquer maneira alguém creio que te ajudou, o tiroteio era para te matar sem duvida nenhuma, teu companheiro o Andrew, pagou o pato, embora anteriormente fizesse parte da coisa.

O duro agora será levar todos eles a julgamento, a quantidade de advogados que apareceram para os defender, foi grande.

São os que se beneficiam do que fazem de errado.

De qualquer maneira, foram requisitados todos as anotações das cadernetas.

Quando pode se sentar, finalmente pode ver o que tinha na câmera de vídeo, avisou o chefe de polícia, este veio, ficou rindo, o dito cujo alega que entrou para te proteger.

Depois lhe contou por celular, que na hora que viu a prova, o advogado que o defendia, desistiu do caso.

De noite, apareceu o Robert, vestido de enfermeiro, lhe agradeceu ter salvado a sua vida.

Meu amigo, se desde crianças vinhas salvando a minha, lembra-se eu era o gordinho da turma, todos se metiam comigo, tu o mais alto, nunca permitia que ninguém abusasse de mim, ou fizesse bullying, eu nunca me esqueci disso, os dois saímos ao mesmo tempo do orfanato, tu com uma bolsa de estudos, eu tive que ir para o exército, foi lá que aprendi a fazer o que faço hoje, não imaginas a quantidade de trafico que se faz dentro das forças armadas, camuflado em várias coisas.

Te trouxe um vídeo definitivo, mostrou o que era numa cópia que tinha no seu celular, conseguimos entrar por detrás capturar o que estava de franco atirador, que matou teu companheiro, só o entregaremos na hora que diga.   Era o mesmo confessando como tudo se tinha tramado, quem era o cabeça da história.                  Incluía inclusive o chefe da delegacia. 

Extorsionava todos os traficantes que trabalhavam na zona, recebiam dinheiro dos advogados, ele tem tudo anotado, num caderno que está embaixo de sua mesa, é necessário retirar um pequeno ladrilho, está debaixo.

Passou isso ao chefe de polícia, bem como a cópia do vídeo.

Quando o caso foi levado a julgamento, o advogado estava nervoso, evidentemente que sabia que perderia a causa.  Não sabia desse vídeo, que o fiscal guardou até o último momento.

O mesmo entrou totalmente arrogante, como dizendo não podem fazer nada contra mim.

Mal sabia que com os nomes de todos os advogados, os escritórios dos mesmos, estavam nesse momento sobre intervenção do FBI.

Justo na hora que entrava o Juiz, alguém disse ao seu advogado o que acontecia.

Quando foram apresentado as provas, dele inclusive entrando no quarto, atirando na cama, que tinha já um morto, o que ele dizia, o advogado deveria dizer que não aceitava essa prova, estava estático.  Quando o fiscal, apresentou o depoimento do que era franco atirador, contando tudo, inclusive aonde estavam as anotações dos nomes dos advogados, o quanto tinha recebido de cada um por ajudarem a perder o processo.

Ficou com a boca aberta, ia dizer protesto, mas nesse momento o juiz, declarou, que o julgamento estava finalizado, o condenava a cadeia perpetua, bem como seu advogado, que estava preso por comprar resultados nos julgamentos, saíram os dois algemados da sala, viu que ele o procurava, mas estava sentado justamente atrás de dois policiais mais altos do que ele.

Voltou ainda para o hospital, fazendo fisioterapia, quando finalmente pode voltar para casa, teve que rir, tinham invadido seu apartamento, talvez esperando encontrar alguma coisa lá, devem ter pensado, esse idiota mora mal.   Ele vivia num último andar de um velho edifício sem elevador, minúsculo, era um quarto pequeno, a sala com uma varanda também pequena, uma cozinha, o banheiro era pequeno, mas com um box de chuveiro grande.   Ele usava o apartamento a muitos anos, tinha pintado a última vez ele mesmo.   Todo que devem ter encontrado, pois estavam todos atirados no chão, era uma quantidade absurda de livros, suas roupas tampouco eram muitas, 90% roupa de trabalho, quando muito tinha duas calças jeans, umas quantas camisetas, que agora estavam prontas para irem para o lixo, de tão pisadas que estavam.

Virou as costas, desceu as escadas, amanhã mando alguém fazer uma limpeza, separar os livros colocar numa caixa, fica perigoso voltar a viver aqui.

Foi para um hotel, aonde conhecia o dono.  Ligou para o Robert Smith, disse aonde estava, que tinham destruído sua casa, mas não importava.

Estava jogado na cama quando este chegou, escutou uma batida na porta, pegou seu revólver, foi olhar quem era, levou um susto, ele entrou o abraçou, ah amigo, quanto tempo, atrás dele tinha outra pessoa, não lhe era desconhecido.

Este estava louco para te ver, quando o puxou para a luz, ele gritou, “Bolinha”, era outro companheiro que ele defendia, por ser baixinho, usar óculos.  Tinha crescido, estava magro, tinha uma cara boa.

Sentaram no chão, não havia outro lugar, era como faziam quando criança, sentar-se em algum lugar do imenso pátio, principalmente quando já eram adolescentes, como nunca tinha querido adota-los, nem eles tampouco queriam ser separados.

Ele conseguiu sua bolsa de estudos para a universidade, segundo os dois era o mais inteligente deles.

O que fazes Bolinha?

Tomo conta para que esse senhor, não estrague sua vida, ele foi para o exército, eu fui estudar ao mesmo tempo trabalhar, fui aprender contabilidade.

Junto montamos uma empresa, durante muitos anos lavamos dinheiro dos traficantes, agora estamos fora, foi por isso que o filho da puta do teu colega, nos queria morto, sabíamos aonde tinha seu dinheiro.

Mas vocês se casaram, tem família, um olhou para o outro começaram a rir, sim temos família, formamos um casal de delinquentes que se ama.

Se lembra da vez que nos pegaste, eu o estava masturbando?

Sim claro que me lembro, fiquei furioso, mas depois entendi que vocês se gostavam, era iguais, eu também sou gay, mas nunca dei certo em nenhum relacionamento.  Tentei me casar, mas graças a deus, terminei antes, não achava justo enganar a coitada, se casou com um outro companheiro, agora está viúva.

Se procura apartamentos, temos muitos, em vez de ficar levando dinheiro para fora, fomos comprando apartamentos, reformando, inclusive temos um que se parece contigo, me lembro que dizias que teu sonho era ter um apartamento que tivesse uma biblioteca, tínhamos visto um filme no orfanato, em que aparecei um garoto sentado na poltrona do avô, na biblioteca, dizia que esse era teu sonho.

Temos um assim, verdade Robert?

A maneira como os dois se olhava, se via que eram realmente duas pessoas que se amavam.

Robert se levantou para ir ao banheiro, o Bolinha soltou, ele sempre foi apaixonado por ti, mas tinha medo.  Uma vez se meteu na tua cama, mas ou dormia ou fingia dormir.

Pense bem Bolinha, como podia alimentar uma coisa, se íamos cada um para um lado diferente depois.

Que estão falando de mim?

Da noite que te meteste na cama dele, esperando que algo acontecesse.

Cheguei a pegar no piru desse filho da puta, mas era como se eu não existisse.

Não podia alimentar nada, sabia que me querias, mas eu sonhava com coisas, como conquistar o mundo, mas claro na realidade o buraco é mais em baixo.

Realizei tudo pela metade, sou bom no que faço analisando situações.

Se estivesse no nosso lugar agora, o que farias?

Se vocês já tem esse capital, sairia do pais durante um tempo, inclusive se pudesse mudaria de nome, voltem diferentes, construam algo, tenham filhos, adotem já sei que iam dizer que era impossível.    Se lembram quantas crianças saiam, voltavam frustradas, pois se sentiam rejeitadas, mesmos as que por algum motivo tinham sido motivo de abusos.  Todos queriam uma família, menos nós que juramos ser uma família.

Veja, agora, as coisas serão mais duras, por isso lhes digo, se mandem daqui, passem um tempo fora, mudem de nome, façam algo diferente.

Temos um edifício, queríamos transformar num hotel, para homens solteiros, já sabes, quem sabe.

Brincando o Robert disse, para comemorar devíamos os três ir para a cama, fazer sexo.

Ficaram rindo, mas realmente era a vontade deles, quem encontrou a saída foi Drew, nem posso imaginar, com o braço como tenho, segurar o pau dos dois.

Mas sem querer acabaram os três na cama, foi uma coisa fantástica, ele no meio dos dois, se sentiu querido como nunca tinha sentido na vida.

Acabaram dormindo ali os três agarrados um ao outro.  Despertou com o braço doendo muito, merda, exagerei, mas claro, era porque o Bolinha estava dormido em cima do mesmo.

Tentou se levantar, mas estava no meio dos dois.

Acabaram se despertando, um olhava para o outro com uma certa vergonha, depois começaram a rir, imagina se a polícia entra agora, íamos presos.

Bolinha ficou para ir mostrar o apartamento para ele.  No carro foi dizendo, realizaste um sonho dele, fazer sexo contigo.   Sempre falava nisso para mim.

Ele me salvou a vida outro dia, se não fosse ele estaria morto.

Pois ele diz que salvaste a vida dele, muitas vezes no orfanato.  Sempre nos defendia, acabamos formando nosso grupo.

Dos três ele sempre foi o mais triste, pois sabia que tinha família, mas não entendia por que tinha colocado no orfanato.  Era muito pequeno para se lembrar.

Nos dois claro fomos bebês para lá, aprendi a me defender desde pequeno, soltou o Drew tudo que deixaram foi um bilhete com meu nome, mas nunca encontrei ninguém com esse sobrenome.  Depois pensei, para que, se me deixaram deviam ter algum motivo.

Não entendo, porque não tens ninguém contigo, tem um porte, uma presença impressionante.

Tampouco, acho que as pessoas querem isso, essa presença, mas quando me conhecem realmente, fogem.

Lhe mostrou o apartamento, Bolinha disse, não se preocupe, pertence a minha empresa, não tem nada de irregular aqui.  Era muito bom, estava também num último andar, o edifício tinha sido reformado a algum tempo, tinha elevador.  Realmente se deslumbrou, no que seria uma sala, era uma biblioteca, além de dois quartos, banheiro, cozinha, uma boa varanda, lhe perguntou se podia fechar a mesma para usar nos meses de inverno.

Bolinha, lhe mostrou, que atrás de uma estante, tinha um cofre.

Os herdeiros, venderam toda a biblioteca, parece que era uma coleção impressionante, quando comprei, essa estante estava afastada, o cofre, limpo, mas quando reformei, fechei isso, para ninguém ver, terás que chamar alguém que saiba manejar isso, para colocar um novo segredo.

Quanto queres de aluguel?

Quanto pagavas no outro, estava mais central?

Lhe disse o valor, te cobro 10% mais se fazemos sexo agora.

Nada disso, prefiro pagar mais, mas fazer sexo só contigo, seria criar problemas com o Robert, isso nunca.  O que aconteceu ontem não vai se repetir.

Vamos ao meu escritório para fazer o contrato.

Nisso o chamaram, era o chefe de Polícia, disse o nome de um Juiz, o hospital que estava, foi operado a dois dias, quer falar contigo, para oferecer um trabalho.

Mas antes passou pelo escritório do Bolinha, que era bem situado, com várias pessoas trabalhando para ele.   Assinou o contrato, bem como lhe deu o número de sua conta para cobrar todos os meses, com as chaves no bolso foi para o hospital.

Perguntou pelo Juiz Ferguson, lhe disseram o número do quarto.

Quando entrou o encontrou de mãos dadas com um homem muito bonito.

Entre disse este, devia ter uns cinquenta a sessenta anos.

Ele se apresentou.  O juiz apresentou ao outro, Justin Brown, meu marido.

Tens algum problema trabalhar com um juiz gay?

Riu, se contasse da noite anterior, mas respondeu, não senhor, eu também sou gay, era a primeira ver que verbalizava isso.

Sente-se, lhe explicou, eu assim que sair do hospital, vou chefiar um novo sistema de julgado, vamos atender pessoas que foram injustamente, ou justamente presas.   Teremos que examinar todo o expediente com lupas, para saber realmente se foi culpa da pessoa, se não tem nenhuma prova manipulada, coisa assim.  Seria trabalhar diretamente comigo.  Pelo que sei, o teu chefe te elogiou muito, a não ser que queira se livrar de ti.  Que nisso eres muito bom analisando os perfis, bem como os documentos.

Mas o primeiro caso que quero, é resolver um problema pendente, seu antigo companheiro, prendeu um rapaz, surdo mudo, que se parece com um traficante de armas, deu-lhe uma surra de fazer gosto, pois o mesmo não respondia a nada.   Agora seu advogado, recorreu, pois ele nem americano é.    Sim inglês, que veio aqui procurando seu pai, pelo visto o mesmo é um traficante procurado.

Nisso chegou sua secretária o apresentou, Elizabeth Schuster, melhor não podia ser, disse que ele ia trabalhar na nova fase, terás que o atender também.   Trazia um folio, tudo que encontrei a respeito do rapaz.   Riz Richard, tem uma foto de quem seria seu pai, a dele, pouco mais, pois parece que o prenderam por não entender a situação.

Se pudesses entrevistar com ele, seria ótimo, firmou uma autorização, para essa entrevista, veja o que podemos fazer, leve junto um que fale a língua dos signos, pois é como ele se comunica.

Eu quando estava no orfanato, tínhamos dois rapazes surdos, aprendi a língua dos sinais.

Sim me informei a respeito de ti, dizem que eras o defensor de muitos deles, para que não sofressem bullying.

Eu aprendi a me defender desde pequeno, nunca suportei os abusos.

Tentarei ir hoje, depois tenho que fazer minha mudança, arrasaram meu apartamento, pensando que tivesse ali alguma documentação.  Arrumei outro apartamento, assim não sabem aonde estou.

Foi a prisão, era tipo prisão preventiva, mas o rapaz já estava a mais de um mês ali.

A aparência do mesmo era lamentável, se identificou, ele sorriu, finalmente um que fala como eu.

Lhe disse que fizesse os sinais devagar, pois fazia tempo que não usava a linguagem dos signos.

Lhe contou que sua mãe tinha morrido a pouco tempo, esteve quando jovem estudando aqui, conheceu um homem paquistanês, se apaixonou, só tenho uma foto dele, os policiais me pegaram justamente mostrando a fotografia, perguntando pelas pessoas.  Me deram uma surra, porque não falo, estudei, sou formado em literatura, mas não falo direito.

Vou verificar tudo, aonde estavas hospedado, ele deu a direção. 

Dali foi ao hotel, o mesmo foi considerado como abandonado, suas coisas estavam numa bolsa.

Ele apresentou seu distintivo, levou tudo com ele.   Não sabia por que mas já sentia pelo mesmo um carinho especial.

Voltou a hospital, encontrou o juiz sozinho, falou com ele, o que o rapaz tinha explicado, creio que roubaram todo o dinheiro que tinha, pois na bolsa do hotel, está vazia.

Esses filhos da puta, sempre abusaram das pessoas que prendiam.

O Juiz escreveu uma ordem de soltura, mas veja se o coloca num lugar que possa depois ir ao fórum, eu volto dentro de dois dias.

Arrume tua casa, depois falamos.

Telefonou ao Robert, ele saberia quem era o pai do rapaz.

Ficaram de ir com um furgão, buscar suas coisas.

Conseguiu num supermercado perto, caixas de papelão, comprou adesivos largos para lacrar as caixas.

Ia separar por temas ou ideias os livros, mas na verdade, estavam antes metade em pilhas pelo chão, porque na estante não cabiam mais.  A verdade era que cada vez que ia procurar alguma coisa, batia nisso.  Estarem misturados, aí tinha que procurar, um fato que gostava, pois acabava encontrando algum livro, que relia outra vez.

Resolveu, que na hora que fosse colocar nas estantes da biblioteca de sua nova casa, faria isso.

Guardou tudo, no dia seguinte, teria que comprar camas para os dois quartos, bem como colchões, ainda pensou em um deles, forrar com tatame, para fazer exercícios, quando o braço ficasse bom.

Ali não sobrava mais nada, nem roupa, que estavam todas rasgadas, nada da cozinha era aproveitável, falou com uma senhora, que disse que limparia o apartamento.

Depois falou com o proprietário, avisou que se ia, que a senhora ia atirar tudo, depois podia mandar pintar, arrumar o que estava quebrado, debitar na sua conta.

Não se preocupe, foste o melhor cliente que tive, nesses anos todos vivendo aqui, nunca deste trabalho.

Mal pode ajudar os dois a descerem as caixas, seu braço não permitia. Mas Robert, chamou uns garotos que estavam por ali, lhes deu dinheiro.

Não me diga que tudo isso é caixa de livros?

Sim, meus bens mais preciosos, sempre foi minha paixão desde que aprendi a ler.

No outro apartamento ele fez a mesma coisa.  Disse o que estava pensando em fazer no segundo quarto.

A cara do Robert era de gozo, melhor para sexo a três.

Robert, já disse ao Bolinha, isso não vai se repetir.

Foram jantar, ele mostrou a foto para o Robert, conhece esse sujeito.

Uau, de aonde tiraste isso, esse sujeito é super perigoso.   Vende armas para todos os traficantes.

Lhe contou o que tinha acontecido, o pobre rapaz levou uma surra do meu querido companheiro, pois estava nas ruas mostrando a fotografia, perguntando se alguém o conhecia.

Imagina o ingênuo que foi, além de tudo é surdo/mudo.

Lá vai o defensor dos fracos e comprimidos, soltou o Bolinha.

Amanhã tenho que o tirar da prisão, ficou comentando do novo trabalho, vou ganhar mais, bem como tem muita responsabilidade, analisar caso por caso, ver aonde tem erros, eu sempre fui considerado um dos melhores nos meus relatórios, contou a história que quando tinha trabalhando com o outro, sumiam provas, etc.

Imagina, o rapaz diz que tinha dinheiro, consta que não tinha nenhum, na bolsa que estava no hotel, tampouco. Não sei o que tem na prisão.   Menos mal que aonde está as celas são individuais, pois senão teriam abusado dele.

O deixaram no hotel, Robert insinuou outra vez, mas ele cortou, tinha sido interessante, mas seguir em frente seria um erro.

Amanhã, vou fazer contatos, tinha uma foto do mesmo jovem, bem como do filho.

Logo de manhã, comprou o que queria, ficaram de entregar no final do dia, tinha comprado para o salão/biblioteca, três cadeirões, desses bons para ler, os colocaria perto da janela, depois teria que comprar um abajur, ou mais de um.   Comprou uma mesa, antiga que viu na loja, para ser sua mesa de trabalho, tinha desistido do tatame, pois sabia que acabaria indo fazer exercício em algum lugar da polícia.

Depois foi para a prisão, primeiro falou com o encarregado, lhe dando a ordem do juiz, esse comentou que todos sabiam que ia trabalhar para ele.  Viu que ainda tinha o braço no cabresto, lhe comentou que seus antigos colegas tinha estado nessa prisão uma semana. Não sabe a confusão que aprontaram.  Não se podia colocar todos juntos, pois saiam no braço.

Quase mataram um que os denunciou, o jeito foi colocar o mesmo numa cela longe deles.

Enquanto isso foram buscar o rapaz, esse quando o viu, sorriu, falou com ele em linguagem de signos, vim te buscar.

No carro comentou, que não tinha encontrado o seu dinheiro, ele tirou a carteira verificou que ainda tinha seu cartão de crédito, disse que sem problemas, lhe comentou que estava num hotel, se quisesse podia ficar lá, assim poderiam conversar.

Claro que sim, eres meu anjo da guarda.

Comentou com ele, que tinha pedido um amigo, que verificasse aonde estava seu pai, mas antes que tenhas uma decepção, te aviso, me parece que é um traficante de armas, há que ir com cuidado.   Acho que, os que te prenderam pretendiam fazer chantagem com ele.

Portanto toda cautela é pouco, vamos esperar o que diz meu amigo.

Foram almoçar os dois, disse que tinha que ir para o seu apartamento novo.  Enquanto esperavam os moveis, abriu a caixa de livros.

Meus melhores amigos disse Riz, ficou rindo.

Melhor ir separando os assuntos, vou te ajudar.  Trabalhei muito tempo na biblioteca da universidade.

Volta e meia as mão se tocavam, gostava desse contato, era uma coisa diferente.

Depois foram colocando tudo nas estantes, iam sobrar espaço para mais livros. Riu pensando nisso.

Explicou ao Riz, porque ria, como estavam esses livros em sua casa antiga.

Quando chegaram os moveis, foram colocando no lugar, os homens montaram as camas, tenho que comprar lençóis, pois os meus estavam muito velhos, toalhas de banho, até roupa preciso.

Tinha mandado lavar a que estava no hotel, pois não tinha outras, nem sabia como devia se vestir para trabalhar.

Levou depois o Riz até o hospital para falar com o juiz, foi traduzindo o que o juiz perguntava, ele soltou que podia ler os lábios das pessoas.

Explicou ao juiz que nunca tinha visto seu pai, nem sabia quem era, pois em seus documentos, constava só o sobrenome da mãe, ela mesma não sabia o nome dele direito.

Fui educado na igreja católica, como ela, mas agora que ela morreu de um câncer fulminante, só teve tempo de me contar isso, que ele vivia aqui na cidade, que tinha sido uma aventura fugaz, que só se deu conta, quando estava em Londres outra vez.

Ai já era tarde, resolveu levar a gravidez até o final, depois decidia, se apaixonou por mim, foi a melhor mãe do mundo.

Tinha um excelente emprego no governo, herdei dela a casa que vivíamos, bem como alguma coisa de dinheiro.   Trabalhei sempre depois da universidade, numa biblioteca.

Drew contou ao juiz, que ele acabava de o ajudar a montar a sua, da casa antiga não sobrou nada, só meus livros.

Também gosto de livros.   Comentou o que Drew já tinha comentado, ao parecer teu pai, é um traficante de armas, se for assim, é perigoso.   Melhor deixar para lá.

Riz concordou.  Ficarei o que resta das minhas férias, depois penso no que fazer.

Drew perguntou como devia ir vestido.

O Ferguson de brincadeira disse que de smoking.  Olha eu vou por livre, como quando estou em presença do publico estou de toga, mas o resto do tempo uso uma gola alta, um casaco, mas nada de gravatas que odeio, portanto estas livre.

Tampouco terás que te fazer público, pode ser que algumas vezes, precisarei de ti, para os julgamentos, ter um traje com gravata ira bem.

Tinha mais um dia ainda para aproveitar, resolveu mostrar a cidade para o Riz, esse ria dizendo que era um policial diferente.

Depois de comprar roupa de cama, coisas para a cozinha, uma maquina de fazer café, sem o qual ele não podia passar, tinha o carro cheio, Riz o ajudou a subir tudo, a arrumar as camas, lhe disse que podia ficar ali na sua casa.

Confias em mim?

Claro que sim. Já tinha agilidade outra vez, em falar com a linguagem dos signos.

Teria que perguntar ao Robert, se sabia alguma coisa desses meninos, eles tinham saído do orfanato, eles tinham continuado.

Não tinha sido infeliz no orfanato, mas tampouco feliz, de pequeno, tinha sofrido abusos dos maiores, mas com o tempo tinha aprendido a se defender, por isso sempre defendia os outros quando via alguém querendo fazer maldade com eles.

Foram ao hotel, recolheram suas coisas, pagar a conta, etc.

Tinham comprado coisas para fazer um bom sanduiche para a noite, se sentaram nas poltronas novas, contou sua história para o Riz.

Ele disse que sua mãe, graças a deus tinha ficado com ele, imagina nasci surdo/mudo, num orfanato.

Quando disse que tinham alguns aonde estava, que os defendia dos maiores, pois claro queriam abusar deles, por não poderem depois reclamar.   Por isso aprendi a falar a linguagem dos signos, para falar com eles.   Tinha um professor que vinha três vezes durante a semana, eu escapava das outras aulas, ia aprender.

Vejo que eres amigo de seus amigos.

Procuro ser, se andam na linha comigo.

Já eram quase meia noite, quando Robert chamou pelo celular, tinha conseguido falar com o pai do rapaz, esse disse que não sabia que tinha um filho, que era melhor não se aproximar dele.

Acho que está certo, principalmente agora, que creio que o FBI ou mesmo a CIA, está atrás dele.   Se fosse tu, colocava esse rapaz no avião amanhã mesmo.

Foi o que ele fez, o convenceu a voltar para Londres.

Começou a trabalhar com o Ferguson, lhe deram uma sala, ao lado da sua, tudo que pediu a secretária, foi um laptop, bem como blocos para fazer anotações. Claro muitos lapises.

Ela lhe avisou que os casos, estavam por ordem de entrada, na frente de cada um tinha um número, além da data de entrada.

Analisando o primeiro, deu logo de cara com que estava incompleto, anotou de que delegacia era, bem como os detectives. 

Perguntou ao Ferguson como agiria nos casos assim?

O Chefe de Polícia disse que nos ajudaria, consiga uma ordem dele, para que se entreguem as cadernetas, bem como entreviste os detetives.

Quando falou com o chefe de polícia, este anotou o nome dos dois, bem como que as provas deveriam ser entregues a ele, para analisar.

No outro dia apareceram os dois detetives, pela cara, estavam de má vontade, lhes entregaram as cadernetas, mas foi esperto, não entrevistou os dois juntos.

Quando se viram separados, a coisa ficou feia.

Primeiro não queriam responder as perguntas, foi direto ao que entrou ou me responde, sou como uma víbora que grudara no teu pé, não vou soltar até descobrir o que falta.

Este disse que ele só escrevia o que lhe mandavam escrever. Pediu para ele descrever tudo que tinha acontecido nesse dia, comece contigo levantando.  A cara do outro era de espanto, me conte como é tua rotina diária?

Que tem a ver isso com o caso?

Faça como estou pedindo, era uma maneira de saber como o mesmo se comportava no seu dia a dia. De má vontade o outro começou. Quando chegou o momento de descrever o que tinha visto no lugar do crime, o obrigou a descrever, como tinha entrado na sala, fazia perguntas, como colocaste luvas para não tocar nada com tuas mãos, em determinado momento viu que o outro ficava nervoso.  Perguntou se tinha conversado com o assassino?

Sim fiz algumas perguntas, mas meu companheiro foi quem levou a maior parte das perguntas.

Me conta o que falaste com ele, está escrito em sua caderneta?

Sim, escrevi tudo o que ele respondeu.

Seguiu, nisso de passaram duas horas, tinha descoberto que sua sala tinha uma saída pela outra lateral, mandou que ele esperasse ali.

Imediatamente fez o outro entrar, ou seja não dava tempo de se falarem.

Fez a mesma coisa, esse já estava nervoso de esperar, além do que o outro podia ter falado. Mas seguiu calmamente, esse disse que não tinha colocado luvas, ele perguntou se o seu companheiro tinha, não reparei, essas duas palavras, cada vez que mencionava o companheiro, se tornaram normal, tudo que se referia ao outro, era assim.

Ele perguntou, não reparaste, ou simplesmente não olhas para o teu companheiro.

Pelas anotações, a chamadas foram num horário, vocês demoraram para chegar quase uma hora depois.  Mesmo assim o assassino estava dentro da casa?

Sim, custodiado por dois policiais que tinha chegado primeiro.

No vosso relatório não existe o nome desses policiais, tampouco a hora que eles chegaram.

Pois já estavam lá, putos da vida pelo nosso atraso.

Por que do atraso?

Não vem ao caso, problemas particulares.

Quando perguntou se ele tinha interrogado o suspeito, disse que só o seu companheiro, mas você é o encarregado.  Não anotei nada.

Fez o outro entrar o mais interessante, foi que começaram uma discussão justo na frente dele, um acusando o outro.

Apertou um botão, entrou um guarda, mandou que ele ficasse do lado de fora.

Caramba vocês estão chamando muita atenção.

Vamos chegar a um acordo ou terei que mandar os dois para prisão.

Foi uma santa palavra.  Demoramos porque ficamos discutindo um assunto particular, por isso chegamos ao local nervosos.

Vou colocar cada um num lugar diferente, anotem tudo que viram ou ouviram nesse dia desde o momento que pisaram o local, reflexionem.

Enquanto estavam cada um numa sala, sozinhos, ele deu uma olhada nas cadernetas, realmente só uma tinha anotações com perguntas, a outra estava em branco.  Uma hora depois fez os dois entrarem, quase começou a rir, tudo que não tinha colocado estava ali, com pontos de vistas diferentes.

A quanto tempo trabalham juntos.  Os dois disseram 4 anos.

Uma pergunta, vocês tem um relacionamento, visto os dois serem solteiros?  Ficaram como um pimentão.  Aqui podem falar o que quiserem, não os estou julgando, tampouco posso comentar nada.

Sim, por isso discutimos, soltou um, ele andava saindo com outro companheiro, me deixando de lado.

Bom só posso dar um conselho, peça para trabalhar com outros companheiros.

Agora sim as coisas estavam mais completas.

Analisou cada uma, claro o advogado tinha percebido algo errado, achava que tinha poucas informações a respeito.  Depois analisou as mostras de tudo, além de tudo relacionado a vítima, bem quem a tinha matado, o motivo alegado, o laudo do perito, a análise da casa.

Agora tinha um cartão que lhe dava direito a entrar na prisão para falar com quem lhe interessasse, só tinha que avisar que iria, para que levassem o prisioneiro a uma sala especial.

Quanto entrevistou o mesmo, colocou um gravador, quando esse permitiu.

Conversou com ele a respeito.   Este contou sua história, sabia que cada vez que viajava, ela trazia alguém para dentro de casa.  Desta vez o tinha pegado em fragrante, pois tinha deixado as roupas lá.  Fugiu só com uma cueca. Anotou a hora, nada disso constava nos relatórios, os encontrei em plena discussão do que iam fazer com o dinheiro que iriam roubar de mim.

Quando me viram, o sujeito saiu, me deu um soco, mas me desviei pois tinha uma navalha na mão.

Me fez um corte aqui, quando os policiais chegaram, eles me atenderam, chamaram uma ambulância, só uma hora depois chegaram os inspetores.  Vinha com uma cara de quem tinham discutido.  Só um me fez perguntas, o outro não, examinaram muito por alto tudo.

Chamou os dois outra vez, as roupas que constavam na perícia, era como, fosse dele, mas seria impossível, pois eram um tamanho maior que do acusado.

Perguntou sobre o amante, nem sabiam disso, bom pelo que ele descreveu, o homem saiu, em cuecas da casa, olhem todas as câmeras de vídeo desse dia, desde duas horas antes de vocês chegarem, analisem cada uma.

Os dois deixam de ter qualquer caso, se quiserem arrumo uma sala para isso aqui.

Preferimos.

Falou com o juiz, omitiu o motivo da briga dos dois, por enquanto era melhor ficar calado.

Ia várias vezes por dia aonde estavam revisando o vídeo, até que deram com o sujeito, que entrava num carro, dava para ver o numero da matricula, agora façam vosso serviço direito, atrás desse sujeito.

O mesmo acabou confessando que na hora que entrou o marido, ele tinha passado a navalha no pescoço dela, por o meter nessa situação, como o outro foi preso, relaxou. Inclusive no vídeo se via aonde tinha jogado a navalha.

Quando acabou o processo, o marido solto, os dois detetives, foram separados em duas delegacias diferentes.

Vamos por bom caminho lhe disse o juiz.

Sempre recebia a visita do Robert com o Bolinha, insinuava fazer o que tinha feito antes, mas se negava. Não era o que queria para sua vida, estar sempre sozinho, já era um costume dele, gostava de ficar trabalhando ali no silencio de sua casa.

Estava analisando um processo complicado, pois envolviam vários policiais, em que suas histórias não encaixavam.  Tinha analisado os dois primeiros, suas cadernetas estava organizadas, bem como tinham feito um bom relatório, tinha atendido uma chamada, da porta a senhora da casa tinha dito que estava tudo bem, que tinha sido um mal entendido.

Já as outras chamadas era confusa, a última, quando chegaram a mulher estava como uma louca, com uma faca na mão.  Foi dada como louca, estava internada num hospital.

Os médicos diziam que não tinha nada, apenas um ataque de nervos.

Os que tinham atendido a segunda chamada, foram rápidos em sua análise, pois já sabiam da chamada anterior.

Os últimos totalmente relapsos.  Finalmente quem atendeu a última foi a mesma equipe do primeiro, viram que a coisa se escapava de suas mãos, chamaram mais agentes.  A mulher estava fora de si, ameaçava qualquer um que entrasse na casa.  Um grupo entrou por detrás encontrou toda a família morta na cozinha, a facadas.

Tentava agora encaixar tudo isso, pois muitos escreveram à sua maneira o que viram.

Estava pensando nisso, quando chamaram a porta, no momento lhe pareceu Riz, quando abriu entrou seu pai.  Ficou gelado, ao contrário do filho, o pai, parecia um bloque de gelo, queria saber se era verdade o do filho.

Sim contou a história, que o tinham confundido com ele, mas era surdo/mudo, um bom garoto.

Lastima, nunca soube de sua existência.  Talvez tivesse tomado outro rumo.

Achas que devo procura-lo, lhe deu o mesmo conselho, esqueça, deixe que ele siga seu rumo na vida.

O homem foi embora, semanas depois recebeu um e-mail do Riz dizendo que seu pai tinha feito contato, queria vê-lo.

Tentou faze-lo ver que podia ser perigoso, pois agora sabiam quem ele era, podia o seguir até seu pai.  Acho melhor você ficar em Londres.

Mas uma semana depois bateu em sua porta, pois ele era o único que o entendia.

Dito e feito, no dia seguinte o FBI fez contato, queria saber o que tinha vindo fazer o rapaz outra vez em San Francisco.

Veio me visitar, afinal sou seu amigo.

Não convenceu muito, o pai não apareceu nem fez contato, ele voltou para Londres com o rabo entre as pernas, o convenceu de ir-se, ficava com pena dele, mas era o melhor.

Contou tudo para o Juiz, não entendi a jogada desse homem, creio que o que queria era criar uma grande confusão nisso tudo.

Para continuar seu trabalho, foi até a clínica que a senhora estava, se sentava regia numa cadeira, não falava com ninguém, ele nesse dia vestiu um uniforme, ficou sentado como os outros internos a observando de longe. Notou que ela fazia o mesmo com todos dali.  Quando via que não havia ninguém por perto, provocava alguém para que essa pessoa perdesse os nervos, quando fazia isso, ela aproveitava para roubar coisas do carrinho dos enfermeiros.

Não se preocupe, pois temos tudo isso gravado, mas ela rouba, o recolhemos de volta, mostrou o vídeo desse dia, dois enfermeiros tinha lutado com ela, pelo que tinha retirado do carrinho, uma faca de plástico.

Quando a entrevistou, se mostrou apática, fez cara de vítima, ele usou seu método, ficou ali sentado sem fazer nenhum movimento, até que ela começou a ficar nervosa, perguntando se tinham sido eles quem o tinham mandado.  Que a deixassem tranquila, agora estava em paz.

De quem esta falando, ela recitou os nomes dos filhos, do marido.

Ah, não se preocupe, pediram o divorcio da senhora, ficaram com a casa, fazem festas muito bonitas.

Ela ficou aos gritos, por isso os matei, um a um, queriam viver, não podia permitir.

Mas seguia tendo a ideia de que alguma coisa não funcionava, foi entrevistar, apesar dos policiais terem feito isso, cada um dos vizinhos, todos falavam das enormes broncas na casa.

Perguntava sempre quantos filhos era. Falavam sempre de três, mas uma falou que o mais velho, filho do casamento anterior, nunca estava ali, devia viver fora.

Foi checar, não deu outra. Procurou saber se existia algum seguro de vida da família, sempre esse mais velho era o que devia receber tudo.

Conseguiu localizar uma prima da senhora, essa contou que sempre tinha sido desequilibrada, do primeiro filho, ficou meses deprimida, quando morreu o marido num acidente, recebeu uma boa fortuna, que investiu nessa casa.  Até se casar novamente, vivia bem com o filho, quando se casou outra vez, teve em seguida dois filhos, os meninos, desta vez estava eufórica, mas quando ficou gravida outra vez, nasceu a menina.  A depressão foi brutal, esteve em tratamento muito tempo.

O filho mais velho tinha saído de casa já a tempo, não tinha ideia de aonde ele estava.

Chamou os dois primeiros policiais, eles não tinha alertado nenhum inspetor. Chamou em seguida os que tinham atendido no final.

O trabalho de vocês foi uma merda, a mulher tinha outro filho, que ninguém sabe aonde está. Sofria depressão pós parto, vejo que as entrevistas com os vizinhos está mal organizada, creio que devem voltar a analisar tudo.  Lhes deu uma cópia do que já tinha descoberto, agora façam um trabalho como deve ser.  Quero um relatório diário dos passos.

Saíram dali foram fazer uma queixa contra ele, se deram mal, receberam ordens de acatar tudo que tinha sido dito.

Levaram uma semana caçando o filho.  Este vivia nas drogas, quando o trouxeram, mandou que os detetives ficassem numa sala ao lado.

Fez o mesmo de sempre ficou em silencio, o garoto estourou, imagina viver com uma mãe desequilibrada, que te policia todos os dias, te segue quando sais com teus amigos, arma escândalos, assim que os gêmeos nasceram fui embora, vinha cada semana para receber minha mesada, cada vez era motivo de escândalo.

Todas as outras vezes que os agentes tinham ido atender, não era uma briga com o marido, esse não se metia, o filho não era dele.

Da última vez, estava como louca, me ameaçou com uma faca, ou eu voltava para casa, ou me mataria. Quando ia sair, ela avançou como sempre fazia querendo me pegar, nisso seu marido tentou intervir, dizendo que me deixasse em paz.   Ela se virou dizendo que a culpa era dele, que seu filho querido vivia nas drogas.  Eu fui saído rápido pela porta da cozinha, quando olhei para trás ela tinha dado uma facada nele, gritava com os meninos que eram culpados de terem um irmão drogado, fui eu que chamei a polícia.

Não tentaste salvar nenhum?

Se eu entrasse ela me mataria.

Perguntou que horas tinha sido isso, ele disse uma hora, não coincidia com a chamada, inclusive a voz era de mulher.  Colocou numa gravadora.   Era ela gritando que ele tinha matado todos.

Ele ficou gelado, sabes o que isso significa?

Sim, fui eu que os matei, na verdade ela avançou para cima de mim, eu me esquivei, ela deu uma facada no marido, creio que na jugular, pois o sangue esguichava.  A cada vez que ela se aproximava de mim, eu colocava um filho na minha frente, assim ela matou todos eles, de repente se resvalou no sangue, eu fugi.

Lhe perguntou se ele ela canhoto.

Não senhor, ela sim. Bem como os outros.

Ele realmente não tinha sido ferido em nenhum momento, fez uma coisa, o levou com os dois policiais ao hospital, ela quando o viu, apesar de estar medicada, avançou em cima dele, dizendo por tua culpa fui matando um a um.

O rapaz se escondeu atrás dos policiais, ela verbalizou tudo que tinha acontecido.

Ele também ficou preso, por usar os irmãos como escudo.

A cara dos inspetores era ótima no final de tudo, tinham feito um trabalho de merda, bem como os anteriores, que não entraram na casa, nem tampouco procuraram saber realmente o que tinha acontecido dentro.

Um ano depois, estava exausto, o juiz tirou férias, ele também, foi até Londres ver o Riz, o viu completamente diferente, mais agressivo.  Quando conversou com ele, respondeu que o pai tinha vindo, tinham feito uma prova de ADN, em seguida foi embora sem se despedir de mim.

Antes me contou uma história nada romântica sobre minha mãe, que ela fazia sexo com todos, uma série de coisas, achava que ele não era seu filho.

Tampouco queria um herdeiro para seus negócios que fosse surdo/mudo.  Estou indo a um psicólogo.  Tenho agora por causa de uma burrice minha, um problema de agressividade horrível.

Quando voltou, encontrou-se com um problema, tinha havido um acidente, os dois amigos estavam em coma no hospital.  Alguém tinha tentado elimina-los.  Tinham dado um tiro nos pneus do carro com os dois dentro.

Estavam em coma induzido, com o quarto vigiado.

Começou a analisar tudo, ficou surpreso em descobrir que o Robert não tinha propriedade nenhuma, ao falar com os empregados, ficou surpreso, pois disseram que ultimamente discutiam muito, uma delas, que era a secretária, dizia que o Bolinha reclamava que não devia ter se metido com esse traficante de armas, que o outro alegava que era muito dinheiro.

Nem tudo era trigo limpo na história, pois apertando o banco, descobriu que Robert fazia grandes investimentos fora dos Estados Unidos, que o dinheiro nunca voltava para cá.

Dos dois o que estava pior era o Bolinha, ficou com lastima dele, afinal, era o mais equilibrado na relação, era quem segurava o outro.

Foi a casa deles, com um mandato, analisou a casa inteira, dormiam em quartos separados, o Bolinha como um adolescente escrevia um diário.  Falava do encontro entre os dois, pulava sempre para quando tinha alguma novidade. 

Falava do atentado que ele tinha sofrido, desconfiava que o Robert sabia que ele era o alvo, mas não tinha provas, só descartou quando raptaram o franco atirador, esse contou tudo.

Mas o de se aproximar, tentar um relacionamento era ideia sempre do Robert.  Nunca o conseguiu tirar da cabeça, os homens com quem gostava de fazer sexo, tinham que ser parecidos com o Drew.  Citava vários nomes, ele pensa que me engana, mas sou mais esperto.

Realmente os bens com a desculpa de estarem protegidos estavam no nome dele.

Falava do contato com o pai do Riz, que agora Robert lavava dinheiro para ele, acho que isso vai acabar mal.

Depois falava das visitas do FBI, da CIA, que estavam atrás do Robert por causa disso.

Nessa semana o Robert veio falecer, alguém tinha entrado de noite no hospital, cortado o tubo que ligava ao respiradouro.

Dois dias depois o Bolinha morreu, mas de causas naturais.

Levou uma puta surpresa, pois era o herdeiro dele, todos os bens passavam a ser seus.

Ficou horrorizado, pois nunca tinha imaginado nada disso.  Fez uma coisa, conversou com o advogado que o tinha procurado, ele ficaria provisoriamente só com o apartamento que vivia, o resto devia ser vendido, que esse dinheiro fosse entregue ao orfanato todos os meses, como uma doação dos dois.  Assim com o que era dinheiro sujo, ficava limpo.

Quanto ao dinheiro do Robert, ele não tinha menor ideia, ele não tinha testamento.

A partir daí, começou a visitar o orfanato, uma empresa organizava reforma do mesmo. Ria com a freira que sempre tinha tido carinho por ele.

Um dia lhe disse, hoje ele não esta na escola, tenho outro Drew, foram para o pátio, ficou rindo, era exatamente como ele se comportava. É um caso parecido com o teu, foi deixado aqui, tinha dias, ficou meses entre a vida e a morte, é um lutador, é o melhor aluno na escola que vai, fora daqui, mas volta todos os dias, defende os pequenos de todos os abusadores.

Drew venha aqui, o apresentou, esse é o Drew que te falo sempre.  Ele ficou parado na frente dele, em silencio, o observando.

Lhe soltou, esse truque fui eu quem inventou, estás esperando que eu fale primeiro, verdade?

Sim como sabe. Pois era o que eu fazia nessa época, uso esse truque até hoje.

Funciona?

Sim, mas veja, você parpadeou duas vezes.  Isso te faz perder o jogo, porque eu esperei para poder falar.

Choca aqui amigo, lhe disse o garoto.

Perguntou o que ele gostava de fazer?

Ler, para fazer com que minha mente saia daqui, vague pelo mundo afora.

Depois de meses o visitando, levando os livros que ele lhe pedia, o adotou.

Agora de brincadeira o chamava de Jr, porque dois com o mesmo nome era difícil na mesma casa.  O deixou arrumar seu quarto como queria, mas quando chegava em casa, ele sempre estava sentado com um livro, lhe dizia vou ser escritor, verás.

Mas iam sempre ao orfanato, ele não se esquecia dos amigos.  Eram mais dois, os adotou também, assim poderiam ter um futuro.   Saia com os três, sempre nos finais de semana, se acabou o tempo debruçado em cima de papeis, procurando erros dos outros, nunca mais os trouxe para casa.  As noites agora, eram com conversas, vendo algum filme na televisão, os três eram inteligentes.

Quando se aposentou, eles já estavam na universidade, todos com bolsas de estudos.

Ele nunca mais trouxe nenhuma aventura para casa.  Adorava os domingos quando ainda era pequenos, que corriam para sua cama, para planejarem o que fazer nesse dia.

Foi a formatura dos três, nenhum saiu de casa, todos estudaram na cidade para não se afastarem.  Drew, realmente virou um bom escritor, os outros um era médico o outro arquiteto.

Quando os dois se casaram, Drew disse para ele, pai, eu fico contigo, afinal sou gay, mas não quero confusão com ninguém.

Quando trouxe seu primeiro namorado sério, ficou rindo, parecia com o Bolinha, pensou isso não vai durar, mas estavam juntos a mais de 10 anos.

Ele uma vez por mês se reunia com o juiz, conversavam, esse de brincadeira dizia que devia ter-se casado era com ele, que o entendia.

Agora é tarde demais para isso, seguiam bons amigos.

UM PÉ EM PILARES

                                       

Meu pai sempre me contava a história que eu nasci em Pilares, no Rio de Janeiro, que no fundo era brasileiro.   Falava rindo do começo da história, que tinha acabado de ser formar em engenharia mecânica, queria correr o mundo, arrumou um emprego num navio, quase deu a volta no mundo, deixou a noiva em San Francisco.

Quando chegou ao Rio de Janeiro se deslumbrou com a entrada na Baia da Guanabara, nunca soube explicar o nome, quando desceu do navio, perguntou como podia ir para Copacabana que era tudo que ele tinha de referência, mas como era tudo que ele falava, lhe foram indicando os ônibus, não sabia que estava do lado errado.

Nisso passou um ele perguntou, lhe disseram que sim Copacabana, ia cheio de músicos com seus instrumentos, quando viu estava em Pilares, não tinha noção de aonde tinha se metido, le levaram a escola de samba que tinha um ensaio.   Ficou alucinado, foi quando conheceu minha mãe, Leontina Alvarenga, uma mulata, bem clara, que sambava como tivesse o corpo cheio de molas, ele ficou como louco a olhando, até que ela percebeu o gringo de cabelos vermelhos, a cara cheia de sardas, gostou do tipo, perguntou se lhe pagava uma cerveja.

Quando ele lhe explicou que queria ir para Copacabana, ela disse que o levava num inglês macarrônico.   Foram para Copacabana, se meteram num hotel, ficou com ela lá cinco dias no bem bom, para não dizer outra coisa, lhe disse seu nome inteiro Bob Smith, lhe deu seu endereço, caso ela resolvesse ir para San Francisco um dia.

Seguiu seu caminho, Africa, Austrália, de lá teve que voltar, pois sua mãe, estava mal, era a única pessoa que tinha de família no mundo.

Chegou para pegar o velório, era tarde demais, a enterrou, recebeu como herança a casa que viviam, arrumou logo um emprego, numa fábrica que trabalhou quase sua vida inteira, se casou com a namorada que tinha de antes, mas essa avisou que não queria ter filhos, na verdade não podia, tinha tido uma aventura enquanto ele esteve fora, tinha abortado, a coisa saiu mal.

Ele aceitou, vivia para seu trabalho.  Um belo dia, recebeu um presente, apareceu no endereço, um brasileiro, que estava fazendo um favor para sua irmã, me entregou na porta de sua casa, com uma carta escrita em um mal português.

Era da Leontina, ia se casar com um gringo francês, lhe mandava o filho que tinha tido com ele, eu tinha uns três anos mais ou menos.  Ele abriu a porta, viu primeiro um negro alto, que sorriu para ele com uma fila de dentes brancos, disse que eu estava escondido por detrás do homem, este explicou que vinha trazer seu filho, quando me viu foi amor à primeira vista, eu era igual a ele, claro, cheio de sardas, com os cabelos vermelhos, um pouco mais escuro que os dele. Lhe estendeu a carta, se quiseres posso ler para ti, explicou que a Leontina, ia se casar com um francês que não queria filhos, pois já tinha demais do seu primeiro casamento, no meu registro constava o nome dele Bob Smith.

Ela dizia que preferia arriscar mandar o filho para ele, que colocar num orfanato.

Isso eu já estava no colo dele, o olhando com adoração, tinha encontrado alguém como eu de cabelos vermelhos.

Sua mulher não gostou nada, tinha horror a crianças, seis meses depois pediu o divórcio, pois fez a clássica pergunta, ou ele ou eu.   Seu matrimonio não ia bem, depois ele já me adorava, cuidava de mim o tempo todo.   Arrumou uma senhora para cuidar de mim, enquanto estava trabalhando.    Em seguida se mudou para Detroit para trabalhar numa fábrica de carros, uma coisa que ele adorava.

Só voltou a se casar, quando eu fui para a universidade, encontrou como ele dizia uma alma gêmea era uma viúva mulata, tinha sido mulher de seu melhor amigo, já se conheciam de longa data, os dois tinham o mesmo tipo de humor, gostavam de sair, dançar, ir a jogos de beisebol, eu fiquei menos preocupado.

O adorava, pois com ele podia comentar qualquer coisa, quando tinha uns 15 anos me apaixonei por um companheiro de classe, antes fui falar com ele, como devia me comportar com isso, foi uma longa conversa, disse que eu esperasse que o outro se movesse em minha direção, demorou, pois os dois éramos tímidos, ele vinha dormir lá em casa, meu pai dizia que não queria que eu ficasse fazendo sexo por aí.    Nos separamos quando fui para a universidade, eu ia estudar em San Francisco, pois as fabricas de Detroit começavam a fechar, ele retornou a sua antiga casa, Drew foi estudar em NYC, nunca mais soube dele.

Consegui uma bolsa de estudos, para estudar literatura, era como ele um apaixonado pelos livros, pensava que depois podia ser professor.   Qualquer coisa que escrevia, ele era o primeiro em ler.

Me incentivou a seguir em frente, ainda não tinha terminado a universidade, me meti num curso de escrita criativa, que me saiu bem, em seguida consegui um emprego numa editora, para ler textos, analisa-los, para passar para o editor.

Também consegui editar meu primeiro livro de contos juvenis.  Não fez muito sucesso, a não ser em San Francisco.

Ele agora vivia com sua nova mulher Doris, que como não tinha filhos me adotou, vivia dizendo por que não voltava a viver em casa.                       A cada paulada que levava por meus romances frustrados, pensava por que não, mas prezava minha liberdade.

Meus romances, era os famosos de uma noite, com o tempo aprendi, se me convidavam para dormir, não significava que no dia seguinte seguiríamos com o romance, achava melhor depois da foda mal dada, me vestia, saia de fininho.

Quando meu pai me perguntava no domingo, ia sempre almoçar com eles, lhe contava, ele dizia um dia encontraras tua forma do sapato.

Me convidaram para trabalhar numa editora melhor em NYC, me disse para aceitar, pois era o melhor para mim.

Arrumei um apartamento minúsculo perto do emprego, a cor do mesmo era horrível, o fazia ficar melhor, o proprietário permitiu que pintasse pelo menos de branco.    Na verdade não passava de um quarto com banheiro.  Mas como passava o dia inteiro na rua, me parecia bem, além claro de estar dentro de minhas posses.  O Editor com quem fui trabalhar, era um sujeito temperamental, diziam que ninguém parava no posto que ocupava, por causa dele, mas ao contrário dos outros nos demos bem.  Eu gostava de trabalhar, lhe dava o trabalho praticamente mastigado, ele só tinha que digerir, falar com o escritor, os de menor importância passava diretamente para falarem comigo, só depois atendia.   Dizia sempre nas reuniões, finalmente encontro alguém que entende o que quero, mas o salário não saia do mesmo.

Eu continuava com a vida de sempre, romances de final de semana, uma noite quando muito, mas um em especial, mal chegamos à cama, vimos que não encaixávamos, ficamos o resto da noite conversando, ficamos amigos.

Saímos juntos, ele parecia ter feito sexo com toda NYC, ria muito dos seus comentários, fiz amizade também com uma garota que era secretária do chefe, com ela saia para almoçar, ou mesmo para jantar com ela, seus amigos num final de semana.

Por azar foi quando conheci Peter Brown, ele parecia tímido, tinha começado a fazer um estágio numa revista de moda, estava com a que apresentava como sua namorada.

Me levantei para ir ao banheiro, tinha acabado de mijar quando entrou, foi direto, se ajoelhou começou a chupar meu pau.  Alucinei, depois se levantou ficou me beijando.  Ele era muito bonito, se vestia de maneira de quem veio do interior, voltamos a mesa, por separado, mas ele mal falava, na despedida, lhe dei meu número de celular, mal cheguei em casa, ele estava chamando perguntando se podia ir até lá.   Foi uma noite estupenda, pela primeira vez tinha alguém para tomar um café da manhã no domingo.  Seguimos nos vendo, até um dia que apareceu com sua maleta, dizendo que tinha rompido com a namorada que queria viver comigo.

Nos mudamos para um apartamento maior, tinha acabado de ganhar um aumento, ele ia começar a trabalhar no Vogue.  Foram cinco anos juntos, meu pai quando o conheceu, me disse que tinha achado precipitado o fato de termos ido morar juntos, agora mal me sobrava tempo para escrever, quando muito pequenos contos de coisas que via pela cidade.

Conseguir editar, como “Conhecendo uma cidade”, as pessoas usavam o livro como guia para conhecer lugares interessantes de NYC, o qual não era o propósito do livro.

Quando chegou no quarto ano de relacionamento, um dia cheguei em casa, estava completamente drogado, queria fazer sexo, muito sexo.   Lhe perguntei por que tinha se drogado, ficou furioso comigo, que eu parecia sua mãe.  Saiu de casa batendo a porta, no dia seguinte voltou mais tranquilo, disse que a pressão do seu trabalho, ele só conseguia aliviar com drogas ou com sexo.

Me pediu desculpas, aí começou o calvário, estava sempre com um cigarro na boca de maria, ou mesmo bem colocado.  Um dia cheguei em casa o encontrei com 3 na cama, me chamou para entrar na brincadeira.   Coloquei todos para fora de casa, todos queriam o dinheiro que ele tinha prometido.   Estava se metendo com chulos, ficou furioso, me disse que eu não o satisfazia plenamente, se arrumou, foi atrás dos rapazes.    Não voltou essa noite, passei a noite inteira chorando, era uma pessoa totalmente desconhecida para mim.

No dia seguinte quando cheguei em casa, tinha limpado tudo, levado suas coisas, bem como algumas coisas minhas de valor.

Fiquei furioso, quando chamava seu celular, diziam que essa linha não existia mais.

Por sorte, justo nesse momento, me ofereceram um trabalho de editor adjunto numa grande empresa, para desenvolver novos escritores, ou escritores jovens.

Me pagariam bem, mudei de apartamento, sai da zona boemia da cidade, fui para um apartamento que era a minha cara, algumas vezes podia trabalhar em casa.  Amava meu canto, antes fui passar uns 15 dias com meu pai, que só fez um comentário, me desculpa meu filho, eu o achei uma pessoa que escondia alguma coisa, nunca o achei uma pessoa natural.

Chorei nos braços de meu pai.   Quando voltei, me dediquei a escrever contos, falando disso, dos desenganos do amor, de achar que conheces alguém, que no fundo não passa de belos desconhecidos no último momento, quando mostrei ao editor chefe, ele logo mandou fazer uma capa, meses depois estava nas livrarias, vendia como agua, quando chegou na segunda edição pediam entrevista, coisa que eu detestava.   Mas tive que engolir sapos, ir as entrevistas, pediam que falasse no assunto.   Procurava generalizar, como se fosse coisa que aconteciam todos os dias.

Como deixei de frequentar a zonas por aonde ele se movia, bem como seus amigos, não sabia nada dele.   Um dia encontrei a amiga que o tinha apresentado.    Foi franca comigo, prefiro que saibas por mim.   Está um trapo, já esteve duas vezes em reabilitação, mas parece que o problema é mais complicado.   Me contou que tinha me procurado, mas claro eu também tinha trocado de número de celular.   Ele me disse que te procurou.

Um dia recebi uma chamada de um hospital, me disseram o seu nome consta como contato de fulano, está internado com Aids, seria bom que o senhor viesse fazer um exame.

Fui, comentei com o médico que não o via a mais de anos, que tínhamos tido um relacionamento, o mesmo me soltou na cara, que ele tinha confessado, que no último ano do nosso relacionamento, fazia sexo com qualquer um que encontrasse na rua, antes de ir para casa, era uma necessidade dele.

Fiquei pasmo, tinha a vontade de rebentar tudo que via pela frente, perguntou se eu o queria ver.

Lhe pedi desculpas, mas não, se o faço, sou capaz de querer lhe rebentar a cara, imagino que ele não está para isso.

Sai dali furioso.

Meses depois, estava tomando café com um jovem escritor, ele tinha um certo humor, como eu tinha nascido no Brasil, seu pai trabalhava no consulado da cidade.   Falava horrores da saudade que sentia de lá.   Estava me explicando o que era saudade, o que significava, ria pois eu não sabia nada de português.

Fui ao banheiro enquanto ele esperava o café na barra, passei por um grupo, me pareceu conhecer as pessoas, mas estava apertado, quando ia saído do banheiro, ele apareceu na minha frente, vai ser como da primeira vez, levei um susto, pois era um esqueleto ambulante.

Me afastei, já soube o que fizeste no último ano que estávamos juntos, não quero nada contigo, sai dali, como um louco, o rapaz já tinha o café nas mãos, saímos, ele tentando me acalmar, nos sentamos numa praça, lhe contei minha história.

Imagina, agora tenho medo de fazer sexo com as pessoas, se já beberam muito, fico imaginando que me dirão, que não se lembram de nada, ou então se me parecem drogados menos ainda.   Se chego querem usar alguma coisa estranha, saio correndo, tudo por culpa desse filho da puta que me enganou direitinho.

Recebi uma chamada da minha conhecida, no dia seguinte, que a policia o tinha retirado do banheiro do café, pois estava fazendo sexo com todos que entravam, sem avisar que tinha Aids.

Fiquei horrorizado.    A mesma me avisou dias depois que o tinham assassinado, que tinha se metido com drogas pesadas outra vez, que devia muito dinheiro ao traficante, mais parecia um ajuste de contas, depois descobriram que tinha feito sexo com alguém para dizer depois que tinha Aids, a pessoa tinha perdido a cabeça, o matou.

Me falava do enterro, que sua família se negava a ajudar, bem como recuperar o corpo do filho, que ele seria enterrado como indigente, que fazia muito tempo que tinha perdido o emprego, que vivia de ocupa num apartamento abandonado.

Dias depois recebi recado de um advogado, era só um envelope, com um diário dentro, que ele tinha escrito durante o tempo que estava fazendo terapia em sua reabilitação.   Contava toda sua vida, que tinha sido abusado desde que tinha dez anos, pelo seu tio, que nunca ninguém acreditou nele, pois o tio, era um pastor evangélico.    Quando ficou numa idade que podia se defender, deu uma surra no mesmo, mas ao mesmo tempo, tinha chegado a amar o tio.   Confessava depois que quando tinha começado a tomar drogas, procurava isso, que abusassem dele, pois gostava disso, que o romance tinha comigo, mas a brutalidade tudo isso era o que ele gostava, me pedia perdão, pois eu tinha sido a única pessoa que o tinha amado.

Comentei com meu novo amigo, José Aparício Paixão, me disse uma coisa, se te dão limões faça uma limonada, escreva um livro sobre isso, coloque tudo para fora, é o que eu faço.

Seu primeiro livro, vi que era muito dramático, o ajudei a arrumar o livro, contava sua vida, vindo do Brasil, aonde fazia surf, tinha bons amigos, os pais se divorciaram, lhe tocou voltar para NYC junto com a mãe que tinha sua guarda, a falta de adaptação, os problemas que tinha enfrentado, brigas homéricas com ela, que queria dirigir sua vida, acabou estudando o que não queria.  Gostava mesmo de escrever, quando fez 18 anos, largou o que estava estudando para fazer jornalismo, agora escrevia para um jornal.

O segundo ele falava das suas experiencias desesperadas de encontrar alguém, como eu tinha feito, isso foi motivo de muitos papos, nos café, bem como em sua casa ou na minha, até que um dia acabamos na cama.

Até nisso ele era diferente na maneira de fazer sexo.  Com o outro ele era sempre o passivo, José não, gostava de tudo, me ensinou a me comportar na cama como um homem, eu ria disso, eu quero estar transando com outro homem.

Meu pai, veio com minha madrasta para passar um final de ano conosco, reclamou do frio de imediato, mas tinha papos imensos, com ele, contou como eu tinha nascido, eu já sabia a história, ele ria muito, quando dizia Pilares, com seu sotaque mais carioca.

Meu pai dizia que gostaria muito de voltar um dia, não conheci nada do Rio de Janeiro, soltava grandes gargalhadas.

Na época não fiquei sabendo, era como um encontro de despedida, ele tinha um câncer terminal, queria passar o final do último ano de sua vida perto de mim.

Num dia que saímos de braços dados andando pelo Central Park, ele ria muito, dizendo creio que encontraste alguém que te quer de verdade.

Atrás vinha minha madrasta conversando com o José, ela avisou a ele que meu pai estava mal, mas não queria que eu soubesse, que ele ficasse ao meu lado, olha como os dois se querem.

Quando ela avisou que ele tinha morrido, vim abaixo, se não fosse o José tomar todas as providencias, comprar bilhete de avião, me ajudar em tudo, creio que teria me metido num buraco.

Ele queria ser cremado, que eu levasse suas cinzas, para cada lugar do Rio de Janeiro que ele não tinha conhecido, pois estava ocupado me fazendo, até o fim tinha humor, fazia uma lista, me dizia para ser discreto, ir deixando suas cinzas um pouquinho em cada lugar, me dava inclusive dicas de como fazer.    Mas em especial, queria que eu fosse a Escola de Samba Caprichosos de Pilares, para deixar um pouco lá.   Ali tinha conhecido a Leontina.

Com o tempo comecei a me levantar, a casa como herança tinha ficado para mim, mas minha madrasta vivia nela, lhe disse que continuasse, que era o melhor, pois eu não sabia quando voltaria.

Voltamos para casa, pela primeira vez na vida, pude dizer a alguém que o amava.  José era o centro de minha vida, já tinha uma coluna no jornal, tinha uma pagina na internet, em que falava de todos os assuntos possíveis, desde política, algum acontecimento da cidade, da vida gay, dos livros, eu lhe passava resenha dos novos autores, ele entrevistava os mesmo, publicava no jornal, bem como em seu site.    Vivíamos agarrados um ao outro, eu que nunca tinha gostado de dormir agarrado a alguém se ele se levantava de madrugada para escrever alguma coisa que tinha sonhado, eu ficava desesperado, esperando que voltasse para a cama, senão me levantava ficava sentado ao lado dele.

Um dia por surpresa, me disse que tinham lhe pedido um artigo sobre o Rio de Janeiro, se preparando para o Carnaval.

Eu tirei férias fui com ele, nos hospedamos na casa de seu pai, que tinha se aposentado.  Ele ainda se lembrava de coisas, mas eu de nada, era como um mundo novo, mais colorido isso sim.

Tínhamos conseguido a autorização para as cinzas graças ao pai do José, ele tinha sido um brasileiro casado com uma americana, que tinha trabalhado a vida inteira no consulado americano, no centro da cidade.   Ainda mantinha boas relações por lá.

Começamos a distribuir as cinzas conforme a lista do que ele tinha pedido, a cada lugar que esvazia o pequeno envelope com as cinzas eu sentia saudade dele, rezava por ele.

Em vários lugares, senti como uma sombra ao meu lado. Mas deixei passar, acreditava que estava impressionado com isso.

Finalmente chegou o final de semana, seu pai que vivia na Gloria, me disse se prepare para a emoção, vamos a um ensaio da escola de samba.    De tanto o José falar comigo, em português, conseguia falar, entender alguma coisa.   Fazia um calor infernal, mas me sentia ótimo, tínhamos saído com frio de NYC, o calor da cidade me deixava feliz, não sabia por quê.

Tínhamos ido à praia umas quantas vezes, minhas sardas ficavam mais fortes, meus cabelos mais vermelhos.

Enquanto estacionava o carro, já escutávamos a bateria tocando, era uma coisa vibrante, me sentia emocionado, sem saber por quê.   Entramos, o pai foi buscar umas latas de cerveja para eles, eu só bebia água, tinha sempre medo de álcool, drogas, essas coisas.

Devia estar com os olhos arregalados, ele tinha reservado uma mesa, nesse momento estavam apresentando um dos temas do samba enredo para o público, seu pai, João Paixão, me explicou como funcionava.  Sempre ria disso, explicar para um brasileiro que não sabia de nada as coisas.

Nisso um homem imenso, negro, se aproximou, perguntou se eu era Carlos Alvarenga Smith, lhe disse que sim.

Me puxou, me abraçou, já não te lembras de mim, não é verdade, sou teu tio, quem te levou para San Francisco.   Agora o olhava, me era familiar, me disse ao ouvido, tem uma pessoa que quer falar contigo, pensei que fosse a minha mãe, mas nada era uma senhora forte, uma mulata daquelas que todo mundo chama de mocetona, estava chorando quando seu filho se aproximou dela, é o meu menino, vê, eu o reconheci, é o meu menino.  Eu estava atordoado, me abraçou muito, ia falando para as outras senhoras, é o meu neto, que foi embora daqui em garoto.

João Paixão sempre muito prático, falou com meu tio, que era melhor sairmos, pois o ruido da música era muito alto, viu que eu estava atordoado.

Venham, minha mãe mora aqui perto.  De fato mesmo da casa se escutava o som da bateria.

Ela ia de braços dados comigo, dava dois passos me olhava, como dizendo ele está aqui. Foi contando que minha mãe tinha colocado na cabeça que era melhor ele estar com o pai que com ela.   Como está teu pai, eu só o vi uma vez, era igual a ti, tenho uma foto dos dois lá em casa, mas nunca imaginei que fosse tão parecido.

Contei para eles o que tínhamos vindo fazer, realizar sua última vontade.

Que um pouco das suas cinzas ficassem ali, aonde ele tinha sido feliz, que lhe tinha dado o filho que amava.

Me amou muito, foi um pai maravilhoso, não tenho nada que reclamar dele.

Entramos numa casa, ela nos levou por detrás, mania de velha, nunca levo a chave da frente da casa, pois se me roubam a chave, tenho os espíritos me guardando.

Se via uma árvore imensa nos fundos, fiquei com os olhos abertos, tinha muita gente em volta abanando as mãos para mim.  Foi como voltar a minha infância, corri até lá, ela ria, ele fazia isso mal conseguiu andar.  Está falando com seus amigos da infância.   Nunca mais tinha pensado nisso, tinha ficado guardado numa caixa no fundo da minha cabeça, foi como se a tampa tivesse voado, eu estava feliz.

Ela contou ao João Paixão, ele mal começou a andar, ia até o Iroco, ficava sentado, falando com os espíritos, minha filha sempre detestou isso, acredito mesmo que o tenha mandado para lá, por isso, odiava que eu fosse mãe de Santo, que a casa sempre estivesse cheia de pessoas, pedindo alguma ajuda, a gente faz o que pode.

Meu filho viveu muitos aos por lá, trabalhando duro, agora vive na Barra, mas vem sempre me ver, principalmente nos dias de ensaio, eu quase não vou, mas ele me convenceu.

Carlos, voltou da árvore rindo, eles todos se lembram de mim.  José que não via nada, dizia que tinha inveja, ele o arrastou, venha comigo, põe a mão nela, quando o fez, sentiu uma vibração imensa, se afastou, conseguia ver os orixás que estavam ali.

Ela os levou para dentro de casa, era tudo muito simples, eu gosto de viver como sempre vivi, tranquila, sem muitas modernidades.

Virou-se para seu tio, vê se a filha da puta da tua irmã, está no Rio.  Ela tem um apartamento no Leblon, que seu marido comprou para ela, vem para cá passar o verão, volta para o verão de lá, mas raramente vem aqui, acabamos discutindo, não gosto como se comporta com as pessoas daqui.

Ela estava no meio de um jantar, disse que não podia ir, ele tanto fincou o pé, que disse que vinha, que lhe desse tempo de colocar uma roupa mais simples.

Ele estava muito nervoso, disse a sua avô, nem me lembro da cara dela, não sei o nome de ninguém.

Ela ria, normal, tinhas 3 anos de idade meu neto, eu me chamo como dizias avô Nena, lembra-se, ele riu, pois se lembrou, teu tio se chama Gustavo, o pessoal daqui o chama de Guto, foi jogador de futebol, o levaram para a América, jogou lá um bom tempo, ganhou muito dinheiro, que investiu aqui no Brasil, por isso pode te levar para lá.

Espere vou mandar passar um café, chamou alguém veio uma moça, que ela disse que era a Yao da casa.   Mandou fazer um café.

Ele a olhava impressionado, tinha uma cara que lhe dava vontade de beijar.  Até que foi outra vez até ela, ficou de joelhos, deitado com sua cabeça no seu colo.

Como gostavas de um cafune, verdade meu neto, começou a cantar para ele baixinho a música que ele gostava, era de ciranda, coisa de criança.  A música lhe veio inteira na cabeça, começou a cantar com ela.

A conversa estava boa, seu tio contava ao José que tinha uma churrascaria na Barra da Tijuca, hoje meu filho fica cuidando para mim, porque amanhã, com certeza vai desaparecer para fazer surf.   Me casei com uma americana, ela não gosta muito de vir aqui ao samba, eu adoro, a desculpa que dou, é que venho ver minha velha.

Em casa falamos inglês todo o tempo.

Os dois tinham que ficar aqui alguns dias, para fazermos uma firmeza para vocês, o mundo que vivem é muito competitivo.

Ela não soltava a mão do neto de jeito nenhum, de vez em quando seu olhar se dirigia ao Iroco, fazia um ruido de hum, hum, que devia corresponder a um sim, sim.

Eita, soltou seu tio, é sempre assim, estou falando com ela, olha para o Iroco, me solta alguma resposta do que estou falando com ela.   Ela me alertou que eu ganhava muito dinheiro lá, a principio estava encantado, me disse que tinha que sonhar, mas com os pés no chão, um dia tudo isso acaba, tens que ir investindo em coisas que aqui te saem barato pela diferença do dólar, fui comprando apartamentos, lojas, o local aonde tenho a churrascaria, que já era um restaurante antigo.   Por isso hoje estou bem.  Meu filho se adaptou bem, minha mulher é muito americana, as vezes passa mais tempo lá que cá.

Eu voltei uma vez para te procurar, queria saber notícias, a casa estava alugada, a pessoa me disse que vocês tinham mudado para Detroit, mas não quis me der o endereço, me olhava de cima a baixo, como dizendo o que quer esse negro aqui.

Tampouco deixei meu endereço com teu pai, me pareceu boa pessoa, me lembro da emoção dele quando te viu, de como tu te agarraste com ele, o olhavas como dizendo, encontrei um igual a mim, com os mesmos cabelos vermelhos.

Já era quase meia noite, quando sentiram um carro parar na porta, apareceu uma mulher que se ele encontrasse na rua, não saberia dizer quem era.  Mulata clara, muito bem vestida, elegante, com uma cara fria, sem saber por que ficou com um pé atrás.  De imediato não o viu, posso saber o que era tão importante para que eu viesse do Leblon até aqui.

Meu tio me puxou para a frente dela.  Me olhou, que faz esse garoto aqui, aconteceu alguma coisa com o Bob.

Nem se aproximou, pois não sabia o que fazer.

Não te disse meu filho, uma filha da puta, olha o filho, nem se aproxima, dá um beijo nada, nem tampouco perde essa pose de besta.

Na verdade não cuidou de ti nenhum dia, mal te pariu, trouxe para cá, só voltou no dia que resolveu te mandar para o teu pai.

Ele respirou fundo, soltou, vim trazer as cinzas do Bob, pois ele queria que elas fossem distribuídas em cada lugar do Rio de Janeiro que sonhou conhecer, mas não viu, como ele dizia as gargalhadas, porque estava me produzindo.   Fizeste bem em me mandar para lá, me amou, me fez ser o que sou hoje em dia, nunca falou mal de ti, nada disso, viveu para mim.

Foi meu melhor amigo, pai, tudo que alguém pode esperar da vida.

A resposta dela, era interessante conforme o ângulo que se olhasse, eu tinha razão, pelo que me lembrava dele, dizia que queria ter filhos.  Eu não, depois meu marido, já tinha filhos demais, além da maioria serem adultos.  Na primeira vez que te viu, deste um chute no saco dele, começou a rir, sem parar, virou-se para o irmão, sempre me lembro disso, ficaram rindo, ela se relaxou, se aproximou dele, seja bem-vindo filho, fico contente de ter feito o melhor para ti.

Era como se fosse nem fu, nem fá, pois não sentia nada por ela, ao contrário da alegria de encontrar sua avô.

Ia falar das cinzas, mas sua avó, lhe segurou, lhe disse baixinho, espera.

Ela comentou como vivia, a herança do meu marido foi bem dividida, em vida mesmo ele já tinha deixado as coisas como eram para ser, fiquei com dinheiro no banco lá, um belo apartamento, tenho amigos por lá, o rendimento do dinheiro dá para viver bem, o apartamento daqui ele já comprou no meu nome, pois estava velho, mas queria morrer aqui.

Creio que como teu pai, a cidade o enfeitiçou.

Ela ainda tinha um corpo de fazer inveja, só lhe perguntei, foste feliz com esse senhor?

De uma certa maneira sim, ele me deu a vida com que eu sonhava desde criança, que era sair daqui de Pilares, ir pelo mundo.   Isso eu fiz.  Mas como diz tua avô tudo tem preço, agora estou sozinha, venho para cá, tenho um pequeno circulo de conhecidos, compro pedras, joias antigas, vendo por lá, ganho um dinheiro extra, para meus luxos.

Lá pelas tantas disse que tinha que ir embora, não gostava de ficar com seu carro parado na frente da casa, o motorista devia estar cansado, se despediu de todo mundo, lhe deu dois beijos, fez um tchau, foi embora, sem dar o endereço, nada.

Quem estava de boca aberta era o José Aparício, falo mal da minha mãe, mas a tua a supera, menos mal que não é chantagista como a minha.

A tua te levou com ela, verdade, mas não permitiu que viesses aqui ver teu pai.

Ela no fundo achava que poderia ter feito um casamento melhor, como funcionaria pública americana, ter casado com um pé rapado brasileiro.

João soltou que achava que tinha casado com ele, porque ficou gravida, era uma funcionária graduada do consulado, quando surgiu a primeira oportunidade se mandou levando meu filho, mas nunca deixei de escrever para ele.

Não podia fazer nada, porque o juiz tinha decidido fazer assim, mas fui várias vezes lá o ver, passamos juntos bons momentos, verdade filho.

O Abraçou.  Era o que tinha faltado entre ele e sua mãe.

Quando foram falar com ele, já estava outra vez ao pé do Iroco, escutando o que lhe diziam, ele tem um dom soltou sua avô, creio que isso a assustou, uma dia chegou aqui, ele se virou para ela disse, vais dar o golpe do baú, nunca a chamou de mãe nada disso.  Ficou olhando para ela.

Se voltou para o Iroco, dizendo, vocês tem razão, ela é vazia por dentro.

Ficou uma fera, com que eu estava falando, sempre teve horror a qualquer coisa que tivesse a ver com os Orixás, preferia dividir um quartinho com alguma amiga em Copacabana que viver aqui.   Não posso reclamar, podia ter sido uma puta, mas falava duas línguas pelo menos, trabalhava num hotel, foi lá que conheceu o Francês.

Pelo menos ela é ou pensa que é feliz.

Mãe, tá na hora da senhora ir para a cama.

A deixaram, ela o abraçou, venha me ver meu neto, temos muito que falar.

Eles voltaram para o samba, embora Carlos estivesse quieto.  Chegando lá, ele se sentiu tentado a tomar uma cerveja, mas estava morto de sede, quando viu estava dançado como mais um deles, se relaxou, não adianta esquentar a cabeça.

Foram para casa, ele dormiu agarrado ao José, com medo de perde-lo.

No dia seguinte tinha combinado, de irem comer na churrascaria do tio Guto, não tinham ido ainda a Barra da Tijuca.

Ele tinha dormido com a mãe, a fez vir com ele, o filho que ia fazer surf estava lá de má vontade.

Quando viu o primo e o namorado dele, escapou de fininho. Sua praia era mais importante.

Beijou a avó, dizendo já volto, não o viram o resto do dia.  Sua mulher fazia um esforço danado para ser simpática.

Seu tio avisou sua mãe, aonde estava, mas disse, quem atendeu o telefone foi a empregada, que disse que antes das duas da tarde a senhora não levantava.

Sua avó morreu de rir, sempre foi assim gostava do bem bom, dormir até tarde, ficar pensando na vida, lendo contos de fadas, sonhando com a vida como dizia, pedir para ajudar, nem pensar.

Cada um tem a vida que lhe concedem.

Ele estava sentado do lado dela, ela se virou para o João, perguntou se no dia seguinte podia trazer esses meninos, que iam dar um jeito nas cinzas, que não era bom estar com elas de um lado para o outro.

Venham os três, mando preparar uma boa comida brasileira, beliscou a cara do José, verdade coisa bonita, eu também cairia sobre teu feitiço, ele te ama muito.

Seu tio não tinha entendido ainda que os dois viviam juntos.   Olhou para o João, que levantou o ombro, dizendo a vida é dele, se é feliz assim eu também.

Fazes muito bem João, soltou avó Nena, assim se vive melhor.

Ele, saiu para caminhar pela praia com o José, muita coisa na tua cabeça, verdade lhe perguntou?

Sim nunca pensei em encontrar minha mãe, nem me lembrava da cara dela, tampouco do resto, creio que ficou tudo guardado em algum lugar da minha mente. Contou que todos esses dias sentia que tinha uma pessoa acompanhando o que fazia.  Me dizia para deixar por último a árvore, mas eu não me lembrava do Iroco.

Quando vi, lá estavam os meus amigos de criança, adorava ficar conversando com eles, ali sentado na frente da árvore.  Minha avó sempre estava atendendo alguém, sempre tinha como a de ontem uma pessoa lá com ela.   Então eu ficava sozinho com eles, me sentia fantástico, creio que quando meu tio veio me buscar para levar para o meu pai, devo ter aprontado um grande berreiro.

Imagina, nunca tinha escutado falar do meu pai, ela aparecia quando queria por aqui, as duas sempre discutiam porque dizia que me deixava abandonado, que nenhuma mãe devia fazer isso, porque depois pagaria por isso.

Veja o comportamento dela ontem, se despediu como eu fosse uma pessoa qualquer, nenhum gesto, fiquei até tarde da noite pensando nisso, acho que ela perdeu essa capacidade de amar.

Era ao contrário, me lembro do meu pai chegando em casa, correndo para aonde eu estivesse, me levantando no ar, perguntando como tinha sido meu dia, tinha paciência de escutar tudo que eu lhe contava. Depois ficávamos juntos, sempre.  O amei pois foi o melhor pai que podia ter.

Outro talvez dissesse esse filho não é meu, ou ter corrido para um médico para fazer um exame de ADN, embora na época não existisse.

Me quis nada mal ao me ver. Tinho uma foto dos dois, juntos, nessa época, era como se eu fosse a miniatura dele, os dois rindo muito.

Quando fiz 10 anos, tirou férias fomos a Disneyland, nos divertimos muito, voltamos para casa super cansado de tantas coisas que fizemos.

Quando voltamos para San Francisco, eu ia a um bom colégio, nos finais de semana estávamos sempre juntos, sempre tinha um programa para fazer.

Uma lastima que não conheci meus avós, pois ele era muito apegado a sua mãe.  Ela lhe deixou a casa, que ainda está lá.

Agora reencontrar a Nena é o máximo, pois sei que ela me amou também, veja a alegria dela em me ver.   Mesmo meu tio, tudo que me lembro dele, é no avião segurando minha mão, dizendo vai dar tudo certo, é um cara legal, mas a mulher dele não encaixa aqui.  Ou ele gosta muito dela, ou está com ela por causa do filho.

Minha avó diz que é raro ele ir até lá. 

José soltou, imagina um surfista dizer aos seus amigos, minha avó é mãe de Santo, iriam olhar para ele diferente.  Veja como todo mundo olha, ela ali sentada, com esse tocado que representa alguma coisa que não sei.   Mas se algo lhes aperta o cu, correm todos aos orixás para serem ajudados, isso diz meu pai.

Estou tão contente de estamos juntos, que se não fosse pelo trabalho, eu ficaria aqui com ele, contigo é claro.

Estavam acostumados a andarem de mãos dadas em NYC, que nem perceberam o pessoal os olhava.

Quando entraram assim no restaurante, seu tio se matou de rir.  Pois tinha visto pelo vidro que as pessoas olhavam.  Aqui dizem que são livre de preconceitos, mas isso é o mesmo que contar uma mentira, todos tem todos os preconceitos possíveis.

Sentaram-se ao lado da sua avó, que lhes disse, já combinei tudo com o João, amanhã ele leva vocês, vamos fazer uma cerimônia simples, colocas as cinzas de teu pai, no Iroco, assim dentro de breve poderás vê-lo.

Só de imaginar isso, ele ficou contente, depois vamos fazer uma firmeza para os dois, escutar os Orixás, para saber com devem seguir a vida de vocês. Ok.

Seu tio ia leva-la para casa, mas João disse que não se incomodava em leva-la, assim iam conversando mais.

Ele a ajudou a entrar no carro, ela disse que gostava mais deste do João, não era como os dos filhos cheio de nove horas.

No dia seguinte, foram para a casa da vó Nena, só estavam ela, bem como a Yao, com tudo preparado.   Os dois tomaram um banho de ervas, depois ela jogou para cada um em separado, lhe disse ao seu neto, que seu Karma era grande, pois tinha todos os guias lhe esperando desde criança, mas tu sabes o quanto isso é sacrificado, eu não tenho uma casa de santo, como os outros, essa casa sempre foi da minha família, esse Iroco esta ai, desde antes de minha avó, sempre um da família seguiu o caminho, meus filhos não estavam para isso, nem tem noção de nada.

Pensam que eu não sei o que pensam disso tudo, me mágoa, mas respeito, mas quando as coisas apertam correm para pedir alguma coisa.   Esse é o mal, as pessoas procuram ajudas, algumas querem um trabalho, mas não um emprego, o número da loteria se vai sair, sempre procuram por banalidades, por isso, minha mãe tinha casa de santo, mas a fechei, só atendo quem eu quero. Nada de perder tempo, não tenho filhos de santo, apenas ajudo quem eu acho que se ajuda.

Se um dia resolveres o que fazer, seja como tu queiras, a única coisa que acho é que deves pensar muito, tens tua vida lá.  Essa é uma outra vida.

Tens tempo para pensar, não penso morrer tão rápido.

Quando jogou para José, ficou olhando, tornou a jogar, chamou a Yao, lhe mandou preparar umas coisas, que o ajudou a levar a casa de Exu, para lhe dar segurança.  Lhe disse que ia aparecer o convite que tanto esperava, mas que era muito perigoso, que sempre estivesse atento a sua intuição, que se cuida-se muito, lembre-se disso, proteja-se ao máximo.

Foram os dois embora, só se despediram de sua avô, ela disse que adorava receber uma carta como antigamente, que quem tinha um celular era a Yao, lhe deu o número, sou antiga meu filho, sou antiga.

Não tornou a ver sua mãe, tampouco a procurou, pensou para que, é uma bela desconhecida.

Mal chegaram a NYC, lhe esperava uma quantidade imensa de trabalho, muitos jovens tinham mandado depois da entrevista na televisão, muito trabalho.

Mas era atento, revisava um por um, lia, se chegava a 10 pagina, sem ter nada de interessante, lia o final, se era igual de monótono, passava.

Mesmo assim, chegou a ter 20 textos na mão.

Agora os analisou profundamente, com um bloco ao lado, anotando coisas, só quando acabou o primeiro é que marcou um dia com quem tinha mandado.   O texto era interessante.

Era a visão de um rapaz despreparado para a vida, que para fugir da mesmice, que vivia tinha entrado para o exército, indo parar em Kandahar, as coisas não foram como ele queria, viu muita merda, gente morta, crianças abandonadas, o grande império americano, querendo impor uma nova uma visão a um povo apegado a tradição.

Voltou ferido, menos mal que tinha uma família para o apoiar, escrever era sua maneira de se colocar para fora.

Ficou impressionando com sua juventude, era de uma das cidades perto de Boston, o interessante era que falava português, institivamente, pegou sua mão, começou a falar, tiveste sorte, tens um protetor muito grande Exu Bara, te cuida.

Os olhos do outro eram imensos, como ele sabia dessas coisas.  Ele era filho de um brasileiro, com uma portuguesa, que tinham vindo para melhorar sua vida na américa.

O nome era curioso Osiris Dutra, achou graça, pois sentia afinidade com ele. Falou com ele do seu texto, foi mostrando tudo que tinha anotado, pediu para a secretária tirar uma copia destas anotações passou para ele, pediu que as fizesse, que voltasse.

Seguiu seu trabalho, José finalmente conseguiu o que queria, que o mandasse fazer reportagem pelo mundo, voltava morto de saudades, estava na Grécia fazendo uma reportagem, quando pediram que fosse cobrir uns acontecimentos no Afeganistão, apenas avisou o Carlos, com medo que ia dizer para não ir, disse que tinha uma nova missão, só escutou, cuidado.

O coração do Carlos ficou apertado, esperando notícias, embora ele tivesse falado, que quase não poderia se comunicar.

Estava preocupado, ao menor toque do telefone, ficava tenso. Mas graças ao trabalho, conseguia se distrair.  Trabalhava mais do que antes.

Estava atendendo justamente o Osiris Dutra, quando do jornal lhe chamaram dizendo que ele tinha sido ferido, que estava em estado grave, que o tinha levado a um hospital militar na Alemanha.

Avisou o João, como tinha contatos, este procurou se informar.  Mas no final do dia as notícias eram más, tinha falecido.

Ficou arrasado, tinha uma carta dele, para saber o que fazer caso lhe acontecesse algo, queria ser cremado, que suas cinzas fossem para o Brasil.  Enquanto esperava isso, lhe surgiu outro problema, sua madrasta, também tinha falecido.  Os parentes dela a enterraram, pensavam que a casa era dela, ficaram furiosos quando souberam que não, que nada era dela.

Ele foi até, lá para resolver a situação, foi necessário os retirar da casa, que ficou vazia por dentro, na verdade ele não tinha nada que quisesse dali, deu ordem para o advogado vender a mesma, deixou uma procuração com ele, para fazer isso, que depois depositasse o dinheiro na sua conta.

Enquanto esperava o corpo do Jose Aparício, mas seu pai, conseguiu que o liberassem direto para o Brasil como ele queria. 

Terminou esse trabalho a muito custo, pediu uma licença no trabalho, pois queria estar lá quando isso acontecesse.

João o esperava no aeroporto, o abraçou, já tenho as cinzas, foi uma briga horrível com sua mãe, menos mal que quando esteve aqui me deixou uma autorização que se alguma coisa lhe acontecesse, queria ser cremado aqui, que eu fizesse a mesma coisa que fizemos com teu pai, ele sempre tinha amado essa terra.

Foi em seguida visitar sua avó, está o consolou, ficou de joelhos, com a cabeça nas suas pernas, ela alisando seus cabelos.

Dias depois seu advogado avisou que tinha vendido sua casa.  Era um bom dinheiro, para o Brasil era uma verdadeira fortuna.   Nunca tinha tocado no dinheiro que seu pai tinha deixado para ele, juntando os dois, era como se dizia no Brasil, um bom pé de meia.

Foi dar uma olhada no mercado brasileiro, conversou com vários editores, inclusive recebeu ofertas.  Depois foi participar como convidado de um congresso sobre literatura, escutou muitas vezes a mesma coisa, que os jovens não tinha oportunidade, era muito difícil alguém entrar.

Essa era sua especialidade.

Um dia andando no centro da cidade, com o João, viu uma coisa que pensou que nem existia mais, uma livraria de sebo.  Livros velhos, foi selecionando o que queria, coisas que nunca tinha lido.  Ficou conversando com o dono do lugar, pois este pensava em fechar em breve, o pessoal não lê, o proprietário vai dividir o local em dois.   Nisso chegava o proprietário, por sinal conhecido do João, conversou com ele, o outro local, será uma parte desse, mais a parte de cima.   Foram olhar, ele ficou imaginando como podia ser, uma pequena editora, com uma livraria pequena, moderna embaixo.

Nesses dias seguintes, passou o tempo todo na casa de sua avô, pensou muito na vida, valia a pena tentar, conversou com os Orixás, todos disseram que daria certo, ela sorria.

Foi lhe ensinando o Yoruba, embora era a língua que ele falava com os amigos da árvore, estava dentro dele enraizado tudo isso.  Era só como um desabrochar.

Tomou a decisão, pediu para o João para marcar um encontro com o homem, esse disse que sentia muito, como não tinha falado nada, tinha alugado já.  Mas falou de um outro local que tinha em Ipanema, era menor, mas muito jeitoso.

Foi dar uma olhada, era um dos poucos edifícios antigos, precisava de uma reforma, tinha muito comercio por perto, era uma loja estreita, bem como o andar de cima que era um apartamento, disse o preço que queria, ele fez as contas, achava o local, interessante.  Disse se o senhor espera, vou pedir para o João que conhece todo mundo se pode me ajudar.

Ele foi franco, meu filho, ter você por perto é ótimo, me lembro do meu filho, como te considero como tal.   Arrumou uma empresa, que olharam tudo, iriam troca encanamento, toda a fiação elétrica, lhe deram dois meses de prazo.   Era o tempo de ir a NYC, fechar o apartamento, pedir demissão da empresa, enfim, mudar sua vida.

Separou as coisas do José que não tinha tocado ainda, coisas que sabia que o João ia adorar ter com ele. As suas coisas, se tratavam de livros, textos dele mesmo, para trabalhar, bem como ideias anotadas ao longo dos anos.

Preparou tudo, conseguiu um transporte, iria demorar para chegar, mas não importava, na empresa fizeram uma festa de despedida para ele.  Por um acaso se topou com o Osiris, esse agradeceu, seu livro era um sucesso.  Contou que ia para o Brasil, ia abrir uma pequena editora aberta a jovens escritores, bem como uma pequena livraria.

Este lhe abraçou desejando sorte, me mande seu endereço, quem sabe um dia apareço.

Foi embora, o apartamento de cima, não era grande, montou uma sala para trabalhar, bem como receber as pessoas, o apartamento tinha dois banheiros, um ele reservou para ele, colocou uma porta no corredor, assim separava o seu apartamento do resto.

Quando ficou pronto, começou a trabalhar, foi a sebo, comprou todos os livros que viu interessantes, na placa em cima da porta colocou, Editor Alvarenga Smith, edição de livros, livraria.

Sua editora de NYC, lhe tinha dado uma quantidade de títulos, aos quais tinha propriedade literária, para poder traduzir, editar no Brasil.

Partiu disso, ele conseguiu através de um editor que tinha conhecido, uma boa tradutora, lhe deu os livros, para ela começar a trabalhar, depois ele revisava.   A livraria apesar de pequena era confortável, num canto colocou duas poltronas antigas, daquelas que se olha, pensa em seguida, que conforto, no balcão tinha uma parte em que ele podia trabalhar.

A principio queria ficar sozinho, recebeu títulos em inglês de sua antiga editora, que sabiam que faziam sucesso, alguns que ele mesmo tinha feito a edição.

Comprou uns poucos moveis, nunca tinha gostado de casas cheias de coisas.

A inauguração foi uma coisa, simples, trouxe sua avô antes para olhar e bendizer o local, nada mais, nesse dia mostrou aos dois como ia viver, trabalhar.

Vai dar tudo certo meu filho. Ele agora ia nos finais de semana para Pilares, ficava recolhido, aprendeu a jogar os búzios com os Orixás, pois sua avó dizia que se ele podia escutar os mesmo, nem precisava de muita coisa, que o mais importante era sua intuição.

Ao princípio muita gente entrava para olhar, ele explicava que com o tempo teria novos escritores, pois pensava em seguir seu trabalho, mostrava os livros que tinha feito ele o trabalho, um dia conversou com uma mulher muito interessada, ela lhe perguntou se podia fazer uma reportagem com ele, assim ajudava a divulgar, selecionou com ela dois títulos pelo que ela tinha dito, que gostaria de ler.

Deu a entrevista para ela, tinha um programa de televisão, vieram filmar uma outra entrevista na própria livraria, falou do livro que tinha escrito, dos jovens que tinha lançado, inclusive comentou do último, que tinha na livraria o do Osiris Dutra, um jovem americano, mas de pai brasileiro, mãe portuguesa.

Estava aberto que os jovens mandassem trabalho.

Um dia estava ali, trabalhando, um senhor com os cabelos imensos prateados, muito queimado do sol, se apresentou, Humberto Costa, vi tua entrevista, mas não sei se posso me classificar no que disseste, pois não sou jovem.  Acabo de me aposentar, meu sonho era, ficar fazendo surf, mas me sobram horas, comecei a escrever, gostaria dentro do possível que o senhor olhasse alguns textos que tenho.  Tinha agora um garoto que ficava na livraria para ele poder atender alguém.  Subiu com o senhor, teve um bate papo com ele, no final lhe disse, me traz o texto, explicou como trabalhava, olharei o mesmo, numa caderneta a parte faço as anotações do que vou encontrando, mas tenho que arrumar alguém que faça as correções em português, pois vivi muitos anos fora, não sei gramática.

Nisso eu posso ajudar, fui professor de português a vida inteira, daí minha ideia de escrever.

Marcaram para o dia seguinte que ele trouxesse o texto.

Tinha pensado em colocar uma banca do lado de fora da livraria, mas seus vizinhos disseram que nem pensar, vão roubar, ele não podia acreditar.

Quando comentou isso com o Humberto, esse disse que realmente podia acontecer.

Leu seu texto de uma vez só, era interessante, a vida de um homem, que viveu sempre voltado para si mesmo, seus livros, para seus momentos de prazer, fazendo surf, sem ter que ter conversas superficiais, mas que agora esbarrava que não encaixava em muitos lugares, o texto era excelente, inclusive, falava de suas experiências sexuais falidas, o aprender a conviver com a solidão.

Tinha pensado para as edições suas, um logo, uma marca em que se cruzava new/novo.

Conseguiu como sempre através do João um jovem para fazer a programação visual do livro, lhe explicou o que queria, lá foi com o João, buscar uma gráfica que fizesse esse tipo de trabalho, seu conhecido editor que já tinha ido duas vezes a livraria, comprar livros americanos, lhe recomendou uma, disse que eles sempre lhe atendiam, quando a gráfica que usava estava cheia demais de trabalho.

Realmente o sujeito o atendeu bem, soltou eu te conheço, te vi na quadra da Caprichosos, nunca pude esquecer tua cara, com esses cabelos vermelhos, essas sardas.  Conhecia também sua avó, seu tio.

Claro, você me diz o que quer, posso te atender.

Não quero a princípio uma grande edição, quero começar trabalhando pequeno, tenho que conseguir alguém para distribuir os livros.

Quando o mesmo ficou pronto, entrou em contato com a jornalista, que fez uma matéria sobre o livro, entrevistando o Humberto.  Depois no seu programa convidou os dois.

Logo algumas livrarias se interessaram no título.  Começaram a chegar mais textos, ele fazia como sempre, lia, se lhe interessava, chamava a pessoa, senão, como lhe faltava uma secretária para fazer isso, ele mesmo escrevia a pessoa, que devia fazer um curso de escritura, para poder se expressar melhor, se quisesse também podia marcar uma hora para conversar com ele.

João se interessou, em ir pelas livrarias, levando livros para divulgar, oferecia o livro do Humberto, bem como livros em inglês, como tinha essa facilidade em se comunicar com as pessoas, dava certo.   Me salvaste dizia, estava de saco cheio da minha vida, fui salvo por ti.

As vezes almoçavam os dois, sem querer falavam no José, conseguiu que mandassem o seu livro.

Agora tinha seu tempo ocupado, um sábado que estava ali na porta, colocou uma banca com livros.  Ficou quieto, chegou um garoto, foi olhando, um a um, de alguns títulos ria, outros abria para ver o que era o assunto. Abriu tranquilamente a mochila, enfiando os livros, não tinha visto que ele estava ali. Se aproximou, lhe segurou pelo cotovelo, o senhor quer me acompanhar dentro para pagar.  O garoto que era negro, ficou branco.

Não tenho dinheiro, mas gosto muito de ler. Mas nunca tenho dinheiro, se posso roubar um ou dois, fico contente, pois sou capaz de ler e reler os mesmos muitas vezes.

Ficou olhando para o mesmo, perguntou se estudava.  Sim mas a escola é fraca, me aborreço, sempre tiro as melhores notas, vivo com minha avó, meus pais sumiram no mundo.

O fez entrar, disse ao rapaz que ficava no caixa, que ia subir com esse jovem.

Tinha achado interessante, pois ele tinha escolhido títulos em inglês, lhe perguntou se sabia ler em inglês.    Procuro ler o máximo, riu quando ele disse, que passava por esses hotéis internacionais, que sempre tinha jornais antigos em inglês, o tirava do lixo, os levava para casa, para estudar.  Procuro fazer a tradução.

Ele pegou seu livro que estava ali, leve este, me traz a tradução, se o fizer bem te pago o que mesmo que pago a uma tradutora.

Não vais me denunciar?

Não, pois se gostas de ler, já verei se posso te aproveitar.  Quando quiseres livro, me dizes, tenho muitos, eu era editor numa grande empresa em NYC, agora estou lançando livros aqui.

Sentiu que falava com o garoto, como seu pai falava com ele.

Sim senhor, posso trazer alguma coisa que escrevi, as vezes por exercícios, quando as ideias são boas, escrevo um conto.

Claro estou aqui para isso, em momento algum, abriu a mochila para tirar os livros que ele tinha guardado, foi ele mesmo que tirou, dizendo se ganho dinheiro com o senhor, poderei comprar.

Lhe deu um dinheiro adiantado pelo trabalho, o sorriso do garoto era imenso. Estendeu a mão, dizendo seu nome, eu vivo aqui na favela, meu nome é Antenor da Silva, como todos os brasileiros que não têm eira nem beira.

Riu muito com ele, na segunda-feira apareceu com uma parte do livro traduzida, vinha com um papel na mão, me esbarrei nessas duas frases que não fazem sentido ao serem traduzidas.

Tirou da mochila, o texto que tinha escrito, está a mão, porque não tenho outra maneira de escrever.   Subiram, ele foi até a parte que era sua, trouxe uma máquina de escrever, uma relíquia, disse que tinha sido do seu pai, um dia te conto minha história.

Experimenta usar, vê se consegue.   Nisso chegava o João, se via que tomava de amores pelo garoto. Os apresentou, João divulga os livros que vou produzindo.

Conte tua história para o João, é super boa gente.  Este lhe perguntou se sabia usar um laptop, disse que sim tinha aprendido na escola. 

Pois eu tenho um, amanhã deixo aqui para ti, assim tens como escrever.

O sorriso do garoto era imenso, iam almoçar, lhe perguntou se queria ir com eles?

Não avisei minha avó, ela tem um celular velho, mas eu não tenho, só sei o número. 

Use o meu, disse o João.

Foi todo contente, o rapaz da livraria, torceu o nariz, como dizendo o que faz esse negrinho aqui.

Não gostou muito do comportamento dele, já tinha visto fazer isso quando entrava algum negro na livraria.

Comeram conversando, na volta uma surpresa, encontrou a livraria fechada, a chave estava com a vizinha, seu garoto se mandou, diz que prefere fazer surf a ficar aqui.  Depois passa para acertar o que o senhor deve para ele.

Se o senhor quiser, posso atender, quando não tenha movimento, vou fazendo a tradução.

Ele começou a ler o texto do Antenor, lhe disse que qualquer problema o chamasse, ele desceria.  Da sua mesa, tinha uma central ligada a câmera de vídeo, viu como ele era educado atendendo as pessoas.

Ao final da tarde, apareceu uma senhora, ele desceu, entendeu que era a avó dele, preocupada, se apresentou a senhora, desculpa pensei que ele tivesse avisado.

Sim me disse que ia almoçar com o senhor, mas não que ia ficar trabalhando.

Está de férias, não quero que se meta em confusão, pois podem me tirar a guarda dele.

Tinha ainda dois meses de férias, o contratou, depois já se veria, se ele se saísse bem, poderia trabalhar na parte da tarde. 

Ele se virou para avó dizendo que tinha atendido dois senhores, ingleses que se esqueceram de trazer livros para lerem na praia, conversei com eles em inglês me sai bem pois me elogiaram.

Convidou a senhora para tomar um café ou um refrigerante ali ao lado, assim aproveitou para conversar com ela.  A senhora se parece com minha avó, eu só a recuperei a pouco tempo.

Perguntou o que ela fazia?

Eu limpo casas por aqui, para ganhar a vida, manter o barraco. Esse menino é tudo que tenho, seus pais desapareceram, o que foi melhor, pois caíram na droga.  Nem sei se estão vivos ou mortos.  Melhor mesmo é que não apareçam.

Ele é muito inteligente, os professores dizem que a escola que está é muito fraca para ele.

A senhora poderia me limpar a casa umas duas vezes por semana, assim estará ao par do que faz.

Nesse dia saiu depois de fecharem a loja, foram a um shopping, lhe comprou umas calças, camisetas, tênis, para ele trabalhar.  Se matou de rir quando ele disse, vou fazer o seguinte, guardo aqui, uso como uniforme, porque senão os garotos da favela, vão pensar que roubei, não quero dar essa impressão.  Quero explicar que no outro dia, os dois livros, eu ia levar para ler, depois devolver.

Ficaram discutindo a melhor maneira de traduzir a frase que ele não tinha entendido, quando lhe explicou o que queria dizer, que tinha a ver como uma relação sexual.  Ele riu, é que ainda sou virgem, não sei nada disso.

Nessa noite, ficou lendo seu primeiro conto. Achou incrível, ele falava do estigma de ser um filho de duas pessoas que tinha caído nas drogas.   De como as pessoas o olhava, era como ser um marciano. Tinha um linguajar muito próprio dele.  Em alguns momentos riu dos comentários que fazia.  Mas no final estava chorando, pois com tudo isso dizia, como posso sonhar com um futuro, se só me está permitido viver o dia de hoje.

Falou com o João, esse disse quero ler, deve ser interessante, o que eu gosto que ele é respeitoso.

Amanhã, levo o laptop.

Quando desceu no dia seguinte, ele estava na porta esperando para abrir.  Foi ao banheiro do local, trocou de roupa.  Ainda soltou, ontem comprei um desodorante, pois minha avó ainda usa leite de rosas, mas se transpiro fica um cheiro horrível, se eu sinto, imagino os outros.

Lhe disse, li teu primeiro conto.

A cara dele de expectativa era interessante, esperando que ele falasse alguma coisa.

Gostei demais, hoje me dedicarei a ler os outros.

Depois viu que o João chegava, lhe passava o laptop. Que ele abraçava o mesmo, este subia.

Como sempre o beijava na cabeça, como fazia com o José.

Lhe entregou o texto do Antenor, quando olhou ele chorava.

Disse que ajudaria o garoto em tudo que pudesse, eu só pude ajudar meu filho de longe.

Teriam que conversar com a avó, apresentou a Maria Neves Silva ao João, os deixou conversando na sua casa, seguiu trabalhando de vez em quando olhava o visor para saber se estava tudo bem.  Viu que ele estava de costa, falando com uma pessoa no balcão aonde estavam os livros das jovens promessas americanas.

Se distraiu outra vez, quando o escutou pelo interfone que tinha uma pessoa procurando por ele na livraria, se podia mandar subir.  Pensou que era algum autor, disse que sim, levou uma surpresa era o Osiris Dutra.

Este abriu os braços, como a montanha não vai a Maomé, este vai a montanha, não sabia nada de ti, perguntei na editora, a que foi tua secretária falou da livraria, que fazias a mesma coisa aqui, então resolvi trazer meu novo livro para que de uma olhada, mas vim só por isso, nada de segundas intenções.

Nisso saia o João com a dona Maria, essa tinha lagrimas nos olhos, os apresentou, esse é um dos meus meninos João, o apresentou, Osiris Dutra, embora americano, é filho de pai brasileiro, mãe portuguesa, veio nos visitar.

Aonde estas hospedado, emendou?

Num hotel em Copacabana, olham admirados quando apresento passaporte americano, pois o primeiro comentário é que tenho cara de brasileiro.

Se quiseres ficar aqui em casa, será um prazer.

Como foi a conversa João?

Convidei a dona Maria, bem como o Antenor, para irem morar lá em casa, assim eles tem um lugar melhor para viver, estive falando com ela, daqui um ano esse garoto precisa ir para a universidade, que eu ajudarei em tudo que for possível.

Mas eu continuo cuidado aqui da casa, seu Carlos.

Ele, riu, agora toca falar com o Antenor.  Os dois desceram, ele contou mais ou menos para o Osiris do que se tratava.

Esse menino tem talento, lhe deu a primeira história para ele ler.

O bom que amanhã é sábado, fechamos mais cedo, assim posso te levar para conhecer minha avô, depois te levo ao samba.

Quando desceram o Antenor, chorava abraçado ao João.

Bom gente, amanhã vamos comemorar isso, dona Maria, amanhã é dia de ir ver minha avô em Pilares, porque vocês não vem juntos, assim depois comemoramos no samba.

No dia seguinte dez minutos depois que tinham chegado, ele agora tinha um carro de segunda mão que guardava numa garagem do edifício ao lado, Antenor ia colocar uma roupa velha, ele disse que não, suba tome um banho, se vista com uma que não tenha usado ainda, vamos de comemoração garoto.

Se via que ele estava feliz.

Quando o João chegou, estava feliz, só disse, depois quero falar contigo.

Foram em dois carros, para não irem apertados, ele foi descrevendo para o Osiris, por aonde iam.
Perguntei ao meu pai, de onde ele era aqui no Rio, me disse que se tem família pode ser lá pros lado da Ilha do Governador. 

Iam falando em português para ele se acostumar. 

Ele comentou, eu entrei falei com o Antenor, em inglês, se ele tinha um livro de um tal Osiris Dutra, ele foi direto ao meu livro, disse que o tinha lido, que gostava muito, ainda me soltou a conversa de vendedor, uma das jovens promessas da literatura americana, espero um dia ser como ele.

Quase o abracei, dizendo eu sou Osiris Dutra, mas aí ia estragar a surpresa.

Estou super feliz de estares aqui.

Obrigado, se achas que não incomodar fico em tua casa.

Imagina, será um prazer, sabes o quanto gosto de conversar contigo.

Quando chegaram sua avô, que ele tinha avisado, estava junto com a Yao, arrumando uma mesa para o Lanche, de repente o Antenor tinha sumido, ele riu, mostrou aonde ele estava, parado na frente do Iroco.   Num dado momento, ele abria os braços como se fosse abraçar alguém.

A dona Maria começou a chorar, ele está abraçando meu marido, que o cuidou muito de pequeno.

Saíram todos, o Osiris, ria, eu sonhei muitas vezes com essa gente toda.

Mais um que vê tudo que a senhora tem aqui minha avó.

Ele foi render sua homenagem ao Exu, este disse, estou trazendo para perto de ti, todas as pessoas que te amam de verdade, não te quero sozinho.

Viu sua avó numa larga conversa com dona Maria, esta só balançava a cabeça.

Antenor, estava sentado num banco, conversando com alguém do Iroco, de vez em quando ria.

Osiris, lhe perguntou se ele jogava os búzios.

Sim por quê?

Pergunte a eles o que eu vim fazer aqui na verdade?

Eu não preciso, Osiris, já sei que vieste por minha causa, nunca me esqueci de ti, inclusive divulguei teu livro aqui.

Obrigado, então sabes que vim, por que não posso te tirar da minha cabeça verdade?

Sim eu sei, mas teremos tempo para nos acertarmos, fico contente de tua vinda, quando nos conhecemos, foi num momento difícil, tiveste paciência, estiveste ao meu lado, nunca esquecerei isso.

Mandou a Yao, preparar um banho para ele, outro para o Antenor.

Quando ele veio se sentar na frente dele, lhe disse, Antenor, mandei preparar um banho para ti, pelo visto hoje não vamos ao samba.

Não importa, porque não sou muito disso, dizem que sou doente do pé, pois não sei sambar.

Bom, vejo que estas feliz?

Sim, o interessante, é que a muito tempo sonho com esse senhor negro, ele sempre me dizia, não se preocupe vai dar tudo certo, vais conhecer a pessoa que movera tua vida.

Resulta que era o senhor.

Antenor, deixa de me chamar de senhor, não gosto muito disso. Para ti eu sou Carlos.

A Yao, disse que já tinha o banho preparado, depois veio correndo, ele incorporou, mal coloquei a primeira caneca com o banho nas suas costas.

Era interessante ver aquele garoto completamente nu, saudando seus irmãos no Iroco, ele se aproximou se identificou.

Eu sei quem eres, vais ajudar meu garoto, verdade, eu sou amigo do teu Exu, ele disse que posso confiar em ti.

O exu, abraçou dona Maria, falou alguma coisa no ouvido dela, ela desatou a chorar ele a consolando.   Ele já sabia o que era, os pais dele, tinham morrido já faz tempo, enterrados como indigentes, pois não tinha documentação.

Avó Nena a consolou, dizia, não vamos estragar a comemoração do teu neto.

Depois a coisa ficou tranquila, ele sentou-se jogou para o Antenor, dizendo que a vida se abria na frente dele, agora devia pensar que universidade queria fazer, devia planejar seu futuro.

Disse que queria ser jornalista, escritor, amava escrever desde garoto.

Espero que tua avó me permita vir aqui sempre que possa, pois necessito desse contato com os Orixás.

Quando jogou para o Osiris, viu que realmente ele tinha vindo fazer, tinha uma pensão do exército, queria experimentar viver no Brasil com ele.   Mas realmente trazia um livro para ele ver.

Depois mais tarde foram ao samba para o Osiris ver, tinha visto por vídeos na Internet, mas como dizia, ao vivo era outra coisa.

Depois voltaram para a casa da sua avô, já era tarde, ela ao se despedir disse que sua mãe estava no Rio, sabia pelo filho, mas que com ela não tinha falado, ele só soltou filha da puta.

Uma semana depois apareceu na livraria, Antenor estava almoçando no andar de cima, dona Maria agora deixava comida pronta para eles, era só esquentar.

Ela lhe estendeu a mão como se fosse um beija mão, mas ele fingiu não ver.  Foi super profissional, perguntou se ela procurava um livro em concreto.

Perguntou se tinha algum em francês, ele lhe indicou a banca, nisso o Ernesto desceu, ela estava de costa, quando se voltou ele já não estava mais, esse disse que ele tinha saído.

A cara de quem não suporta que a contradigam era grande.

Fez uma série de perguntas ao Antenor, que ele não soube responder, só dizia, a senhora tem que fazer essas perguntas pessoalmente com o proprietário.  Se via que ia embora contrariada.

Quando ele desceu, depois de se relaxar, Ernesto lhe perguntou quem era essa louca que saia fazendo perguntas particulares sobre você, perguntou inclusive se eu era teu namorado.

Essa é minha mãe, mas não se desculpe, ela é louca mesmo.  Contou a ele, que nunca tinha cuidado dele, primeiro sua avó, depois me mandou para os Estados Unidos, para viver com meu pai, que nem sabia que eu existia.   Graças a Deus, me amou, me educou, me protegeu até morrer.

Ela ao contrário, se quando vim da primeira vez não a tivesse visto na casa de minha avó, se cruzasse com ela na rua, ia dizer que mulata besta.

As coisas são assim na vida meu amigo Antenor, temos que lutar para seguir em frente, gosto de ti por isso, eres um batalhador.

Você gosta do Osiris?

Sim, eu o lancei no mercado, num momento difícil na minha vida particular, ele ao contrário saia de um turbilhão, se você leu o livro entendeu o que passou.

Mas não temos nada, hoje ele vai trazer seu texto novo, para que eu dê uma olhada.  Mas creio que a vida dele é lá.  Mas isso ainda vamos ver.

Ah o seu Humberto Costa, telefonou marcando uma hora para amanhã, tem um texto novo, o livro dele tem vendido bem.  Outro dia o Jornal do Brasil, fez uma matéria com ele, no dia seguinte tinha muita gente aqui comprando o livro. Não sei se o senhor vai pedir mais, pois só temos um.

Fale com o João, para ver se alguma livraria tem de sobra, ou então pedimos mais uma edição.

Quando o Osiris chegou com sua bagagem, era pequena, lhe entregou primeiro o texto, disse que ele podia dormir no sofá da sala, já tinha deixado roupa de cama ao lado.

Me deixe pelo menos ler um capitulo.

Era interessante, começava falado das coisas que aconteciam quando uma pessoa se torna conhecida, pelas entrevistas, pelos jornais, os que lhe pedem autografo num livro, mas notas que continuas sozinho, essa sensação de vazio, isso o faz ir a sua infância, pois com a ausência dos pais que estão sempre trabalhando, sente sempre essa sensação, que está sozinho, mesmo durante o período que está no exército, fala de estar cercado de muita gente, mas que continuas só, do medo de se acostumar na solidão.

Ele como experiência tinha escrito em português, quando levantou a vista do texto, ele estava sentado na sua frente.

Bom, muito interessante o assunto, acredito que muita gente se sente assim.

Te sentes só tu também.

Na verdade não Osiris, se leste meu livro, me sentia só com relação ao amor, até que conheci o José, ele foi meu grande amor. Me completou, foi amigo, companheiro, não só de cama, mas como de ideias.  Acredito mesmo que se estivesse vivo, estaria aqui.

Sentes falta dele?

Claro que sim, mas estou sempre tão ocupado, que nem me sobra tempo as vezes.  Procuro dar atenção a todos que me cercam, tenho certas obrigações com relação ao que faço.

Por exemplo amanhã vem trazer seu novo texto, ao que foi meu primeiro escritor aqui, não é jovem, mas era o primeiro livro dele.  Ele sempre viveu para si mesmo, aprendeu a conviver com a solidão por não encaixar com as outras pessoas.  Tem uma cabeça fantástica, vais gostar dele.

No dia seguinte quando o Humberto Costa chegou apresentou os dois, viu que o Osiris demonstrava um certo ciúmes, pois não estava acostumado ao hábito das pessoas chegarem se beijarem.

Já o Humberto parecia enfeitiçado, estava encantado com o outro.

Entregou o texto, ficaram falando, João tinha avisado que realmente o livro estava esgotado nas livrarias que ele tinha vendido.

Temos que fazer uma edição menor, por se vamos editar esse, queres o mesmo tipo de contrato?

Sim, com esse fomos bem, foste super honesto nas contas comigo, fico tranquilo, comentou quem faz essa parte é o João, pai do homem que amei na minha vida, o José Aparício.

Agora esta cuidado da vida do rapaz da livraria, que estou acabando de revisar o livro, embora ele seja um crânio, gostaria que revisas se a parte de ortografia, como já fizeste antes para mim.

Tai Osiris, quando acabe de ler teu texto, quero passar ao Humberto, pois ele foi professor de português, ele sempre revisa os textos em termos de gramática.

Osiris concordou, contou rapidamente sua história.

Ah já sei, li teu livro, o Carlos me emprestou o livro, achei super interessante.  É um assunto que a juventude daqui nem passa por perto, estão cada vez mais superficiais.  Adoraria comentar contigo algumas coisas do livro.

Porque os dois não vão almoçar juntos, assim podem falar à vontade.   Sem querer estava empurrando o Osiris para o Humberto.      Sabia que gostava do Osiris, mas não o amava, era isso que ele necessitava, sair de seu casulo.  Sabia que ele não estava em seu futuro, já tinha visto isso quando o Exu falou com ele.

Seguiu fazendo uma coisa que gostava de fazer, ler um capitulo depois anotar, passar para outro livro, como criando uma distância.   Só quando relia totalmente o texto, era quando tinha acabado de revisar tudo.

Tinha acabado o do Antenor, ia entregar ao Humberto, desceu para falar com ele, para que consentisse que desse uma olhada no livro em termos de gramática.

Deu de cara com sua mãe, que estava ali outra vez.  Disse a ela que o esperasse no café ao lado, que já iria tinha que resolver uma coisa antes.

Falou com o Antenor, explicou o fato do Humberto, fazer as correções ortográficas, sabes que não tenho conhecimento suficiente do português para isso.

Embora eu tenha tido todo cuidado do mundo, as vezes a emoção confunde a cabeça da gente. Claro, deixa aqui o envelope, se for o caso, que eles cheguem antes do senhor, eu entrego.

Foi se sentar com a mãe.  Ela estava rígida na cadeira, tinha vontade de lhe dizer que se relaxasse.

Perguntou o que queria diretamente, pois era a segunda vez que o procurava.

Queria falar contigo, preciso te conhecer, para saber quem eres.

Ele riu, não achas um pouco tarde, eu não sinto nada pela senhora, mesmo a segunda esposa de meu pai, foi mais minha mãe que a senhora.

Queria te convidar para um jantar na minha casa, pode ser interessante para ti, tenho amigos editores de livros aqui, em vez de fazer como o fazes pode fazê-lo em grande.

Sinto mas me interessa justamente fazer à minha maneira, ela tinha citado os nomes, ele disse que já os conhecia, um deles com quem se falava sempre, trocando ideias, o tinha convidado para trabalhar.

Veja, não preciso de dinheiro, tenho o suficiente para seguir em frente, depois o salário que ele oferece é uma miséria, nem pensar.  Prefiro minha liberdade.

Eu só queria ajudar, nada mais, além de poder te apresentar pessoas importantes da sociedade daqui, que podem ter serem úteis.

Talvez para tua próxima temporada.   No momento não, uma pergunta particular, a senhora já foi visitar tua mãe?

Não, ainda não.

Porque eres tão filha da puta, porque não apresenta tua mãe negra aos teus amigos, tenho certeza de que se encantaram com ela.  É uma mulher inteligente, sabe se comportar, conversar sobre qualquer assunto.

Bom já nos falamos, abriu uma bolsa Chanel, entregou um cartão pessoal, com seu número de celular, frisou que só se levantava depois da uma da tarde.

Ia pagar a conta, mas ele o fez, ela estendeu a mão, mas ele como sempre fez que não viu.

Que porra de mãe era essa que estende a mão para seu filho, como se fosse um belo desconhecido, começou a rir, não podia parar.

O que foi perguntou ela?

Ele respondeu, mas da maneira que tinha pensado, que porra de mãe é essa?

Ela ficou totalmente sem graça, foi embora.

Ligou para a Yao, pois só ela tinha um celular, esta passou para sua avó, comentou o que tinha acontecido, o que lhe tinha dito.

Ela se matou de rir, você é pior do que eu, eu engulo os sapos, mas tu falas.

Teu tio apareceu aqui hoje, vai se divorciar, pois tem outra mulher, a americana, quer que o filho vá com ela, ele não quer.  A merda é que teu tio, prefere que o filho vá com sua mulher para começar uma nova vida.

Ele tinha o telefone do restaurante.   Ligou para lá, perguntou pelo primo.

Este atendeu o telefone, ele se identificou, sei que estás num mal momento, se quiseres falar com alguém, lhe deu endereço, podes vir falar comigo.

Ele agradeceu, pensei em ir conversar com nossa avó, mas acho que essas merdas da família, são demais para ela.

Pois foi ela quem me comentou, estou ao teu dispor.

Ah, soube que o rapaz que te acompanhava da outra vez morreu, sinto muito, deve ser uma merda perder alguém.

Era a primeira pessoa além de sua avó que falava com ele do José. Sua mãe, nem tinha perguntado como ele ia nada disso, seu tio tampouco tinha falado com ele esse tempo todo.

Te espero.  Cuide-se, mas só te lembres de uma coisa, a vida deles é deles, tens que pensar na tua.

Voltou para a livraria, estavam os três conversando, brincando soltou, o gato sai, as ratazanas fazem as festa, viu que os dois se davam bem.

Osiris disse que ia a praia com o Humberto.  Subiu para trocar de roupa.

Humberto se afastou com ele, perguntando se os dois tinham alguma coisa.

Não, sou seu editor, amigo, nada mais.

Ah, fez o Humberto.

Quando ficou sozinho com o Antenor, este soltou, era um puto observador, assim fazes com teus romances, se livra empurrando para outra pessoa.

Primeiro Antenor, o Osiris não tem nada de romance comigo, nem eu com ele, se te interessa saber nunca fiz sexo com ele, aliás desde a morte do José, nunca fiz sexo com ninguém. Ok.

Desculpe, fui intrometido.

Que tal a conversa com tua mãe?

Difícil como sempre, creio que fui educado de uma maneira, que fica difícil entender a cabeça dela, essa vergonha que tem de sua mãe, de querer esconder o passado.

Meu pai dizia, que temos como umas caixas que vamos guardando as coisas, num dado momento de nossa vida, essas caixas como que explodem, atirando todos o que escondemos, no chão, aí tens que recolher tudo, digerir isso, para poder seguir em frente.

Sabe minha avó me contou que os orixás disseram que meus pais foram enterrados como indigentes, por não terem documentos.  O João está sendo o pai que nunca tive, disse que ia tentar encontrar aonde estão, para lhes dar um tumulo direito.

Já conversei com ele a respeito, me disse que não devo ter vergonha disso, que a vida é assim, me contou sua vida, a separação do filho, o quanto lhe doía isso, o dia que apareceu aqui contigo, que ele tinha mais um filho.   A perda do filho, mas que tu, esta como o outro filho dele.

Vê, como é, as vezes é assim.

Eu fui imensamente feliz com meu pai, imagina eu morto de medo, uma criança de 3 anos de idade, mas quando o vi, ele era igual a mim, cheio de sardas, cabelos vermelhos, mais vermelhos do que os meus, me levantou no alto, ficou olhando para minha cara, comecei a rir, tinha encontrado um porto seguro.

Como o que eu encontrei aqui contigo, com o João, até minha avó está mais relaxada.

Já reparou que agora ela vai ao cabelereiro, ele me tomou sobre as suas asas, as vezes brinco com ele que é mais galinha que minha avó.

Entreguei o texto para o Humberto, espero que ele goste.

Ele pode ser surfista, mas foi professor, é uma pessoa especial, vais ver como gosta.

Nisso entrava uma jovem que estava a um tempo olhando pela vitrine, era negra, com um cabelo Black Power.

Perguntou pelo editor, ele se apresentou.  Ela estendeu a mão, com um sorriso imenso, sou uma tonta, se o vi na televisão, estava do lado de fora tomando coragem para entrar, pois as duas editoras que apresentei meu texto, nem passei da secretária.   Uma pensou que eu inclusive vinha pelo trabalho de copeira.

Joana Dutra, podemos falar.

Antenor, qualquer coisa estou no escritório.

Subiram, o que me fez tomar a decisão de entrar, foi ver como o senhor tratava o rapaz, sem problema nenhum.

Ele riu, não se preocupe, minha avó que amo muito, é negra, minha mãe mulata, meu pai sim era branco, americano, cheio de sardas como eu, com os cabelos mais vermelhos, os meus só ficam iguais ao seu, se vou muito a praia.

Eu li os livros que o senhor editou.

Ele corrigiu, podes me chamar de Humberto, quando duas pessoas podem virem a trabalhar juntas o melhor é retirar os formalismo do meio.

Ela sorriu timidamente.

Me fale de ti Joana.

Sou formada em filologia, trabalho de professora, amo os livros, trabalho com crianças com síndrome de Down, tenho vários textos, mas este é o que acho mais completo.

Gosto muito do primeiro, que saiu numa explosão minha. Trouxe os dois, assim você pode ler.

Ele comentou como trabalhava, a porcentagem que ganhava, o trabalho que fazia.

Agora estou em finalização de edição do livro do rapaz que trabalha na livraria.

Estou lendo um texto que um amigo me trouxe dos Estados Unidos, tenho o novo do Humberto Costa, em seguida leio os teus.  Não se preocupe porque sou rápido.

Trocaram cartões com os números de celular.   A acompanhou até a porta, viu o sorriso que dava para o Antenor.

João passou para falar com ele, pois tinha mais dois livros esgotados, como iam fazer, pois as livrarias estavam pedindo mais.  Descobri que estão anunciando em suas páginas de internet, o que lhes dá um bom lucro, creio que devias fazer o mesmo.

Buscar alguém que crie uma página para ti.

Isso farei mais a frente, imagina, tenho agora o texto do Osiris, do Humberto Costa, dois dessa garota com quem acabaste de cruzar.

Tenho que me dedicar mais horas com isso, menos mal que tenho o Antenor na loja, tu se encarregando das vendas, enfim, temos que ir tocando, essas livrarias que têm esse sistema são grandes, mas ainda não estou maduro para isso.

Sempre com os pés no chão, subiram para ver as contas, comentou com o João sobre o encontro com tua mãe.

Outro dia me passou o mesmo, a mãe do José me telefonou, imagina depois de todos esses anos sem falar comigo, me disse que se sentia perdida, o filho a muito tinha escapado dela, indo viver contigo, nunca gostou da ideia dele fazer jornalismo.

Agora não sabe o que fazer de sua vida, está aposentada, sem ter o que fazer.

Muito ao final, perguntou como eu ia, sem falar nenhuma mentira, disse que tinha uma nova família, escolhida por mim, mas não entrei em detalhes.

Ela amargou muito minha vida, mas tampouco vou ficar fazendo acusações, eu devia ter percebido que ela no fundo tinha vergonha de ter um relacionamento com um simples funcionário, nem sei afinal por que teve um romance comigo. Me deu um filho maravilhoso isso sim, mas que perdemos os dois.

Como vão as coisas como Osiris. 

Riu, contou para ele, o Antenor diz que eu empurrei o embrulho para a frente.  Mas a verdade João é que não esqueci totalmente o José, nem posso, ele foi o melhor da minha vida.  Não vou ficar enganando ninguém dizendo que amo, quando não é verdade.

Estas certo, conte sempre comigo, eres como outro filho que tenho, sabes disso.

Depois ficou lendo por curiosidade o texto do Osiris, foi anotando coisas, para depois passar para ele.

Pegou o primeiro livro da Joana, ficou como que enfeitiçado, quando viu já estava na última página, nem tinha levantado a cabeça, quando olhou no monitor, Osiris com Humberto estavam conversando com o Antenor.

Desceu, desculpem mas fiquei enfeitiçado com um livro.

Viu que Osiris estava já vestido, subi, te vi mergulhado no livro no quis incomodar.  Estávamos te esperando para ir jantar.

Ia tirar o corpo fora, mas resolveu ir, assim enfrentaria mais uma situação, eles tinham convidado o Antenor também.

Foram a um dos bares da Farme de Amoedo, ficaram conversando, Osiris dizendo que tinha ficado apaixonado pela praia, Humberto se dispôs a me ensinar a fazer surf.

Inclusive o convidei para ficar na minha casa, mas tem medo a te ofender, pois ofereceste a tua.

Nada disso, faça como achar melhor, eu estou sempre trabalhando.

Humberto disse que já tinha lido o primeiro capítulo do livro do Antenor, não encontrei nenhum erro, hoje de noite leio o resto.

Se puderes vir amanhã Osiris, já sabes como sou, fiz algumas anotações do teu livro.

A conversa caiu sobre escritores que o Humberto gostava, americanos, viu que o Antenor, ia anotando, ele riu, não se preocupe te empresto, assim podes ler, depois comentamos.

A velada foi ótima, quando chegaram de novo em casa, Osiris pegou suas coisas, olhou sério para ele, entendi, entre nós a coisa fica impossível.  Com o Humberto, sinto uma atração diferente quero experimentar, se não der certo tudo bem.

Eu odiaria ir para a cama contigo, sabendo que espera algo mais, ainda não estou pronto para dizer a ninguém que o amo.  A ferida ainda está aberta, com o trabalho vai sanando, mas dói demais.

Os ficou vendo caminhar juntos, viu que entre eles nasceria um vínculo forte.

Ficou até tarde lendo o segundo livro da Joana, não era tão forte como o primeiro, foi anotando o que poderia tornar o livro tão bom como o primeiro.

Ela tinha um poder, que parecia enfeitiçar ao ler.

O primeiro falava dos jovens que procuram na política, uma maneira de se encaixarem na sociedade, principalmente sendo negros, o pior é descobrir toda uma manobra que está por detrás disso, que na verdade nada é o que se diz, o que se proclama aos quatro ventos.   Mas o pior é o depois, a desconfiança, o desprezo que sofre dos amigos, por não concordar com as ideias.

Era um tema super atual, o segundo era mais a luta diária com o sistema, pelo rechaço aos portadores de síndrome de Dow, as perguntas difíceis de responder, aos mesmo, que porque a sociedade não quer nada com eles.

O envolvimento nos problema dos mesmos, a dificuldade das famílias, para que os próprio parente aceite a criança, não as tratando como uns coitados.  A preocupação dos pais, o que acontecerá com meu filho, se morro.

Gostava dos dois, embora no segundo, em alguns momentos faltasse força do primeiro.

Despertou deitado em cima da mesa, com os papeis espalhados, era o celular.  

Antenor preocupado com porque a porta estava fechada, se tinha acontecido alguma coisa com ele.

Tens que ter uma chave para abrir a loja.

Que tal o livro da Joana, lhe passou o primeiro que ele lesse, queria sua opinião, o via inteligente demais, para não ter uma ideia do assunto.

Acabou as anotações do segundo com uma caneca de café na mão, só depois então foi tomar banho.

Falou com sua avó logo de manhã, disse que sua mãe tinha ido, que tinha reclamado dele, minha resposta foi “quem planta vento, colhe tempestade”.

Comentou com ela, o que tinha lhe falado, sobre o aperto de mão.

Essa nunca tomará jeito, diz que você deveria estar trabalhando para uma grande editora, não ter a sua.

Sim me disse isso, inclusive queria me colocar em contato com uma, que quis me contratar, mas o salário é uma merda, tenho minha herança, que ainda nem toquei, não sei se é isso que quer saber.

Avisou que iria para sua casa no final de semana, falou do primo, mas que esse não tinha feito contato.

Em seguida telefonou para a Joana, marcaram quando ela saísse da escola, dava uma passada por lá.

Seguiu trabalhando, para ele era muito importante isso, estar concentrado, se esquecia do mundo.

De tarde o Humberto veio com o Osiris, trazia o texto do Antenor, o elogiou, o único era que tinha encontrado, se devia ao novo acordo da língua Portuguesa, que só os mais jovens aprendiam.

Passou para o Osiris, o texto já com o caderno de anotações do lado, em seguida pegarei o teu Humberto.

Perguntou ao Osiris se ele pensava em editar nos Estados Unidos, toca a escrever com o que marquei para mandar para lá.

Falarei com eles, ou pensas ir a NYC?

Um olhou para o outro, riram, se o Humberto for comigo vou.

Esse riu soltou, tenho que tirar o passaporte, comprar dólares, é o tempo de fazeres a correção.

No final de semana foi para a casa da avó, Antenor, disse que subia no sábado no final do dia com o João, além de sua mãe.

Era sexta-feira, fazia um calor infernal, sua avó lhe disse que tinha uma senhora que queria falar com ele.  Se preparou a consciência, tomou um bom banho de descarrego, foi cuidar das coisas do seu exu, dos seus santos.

Quando esta, entrou na lateral da casa, levava um garoto pela mão, ele se soltou, correu para o Iroco, depois se virou para ele, soltou Baba, foi abraçar ele.

A cara da mulher era de surpresa, por sinal era dessas mulatas de fechar o comercio, um corpo de fazer inveja a muita jovem.

Ela já sabia quem era, era por ela que seu tio estava apaixonado, a Yao, trouxe uma cadeira dessas brancas, para ela se sentar, o garoto ficou colado a ele, tinha síndrome de down.

Calmamente lhe perguntou o que tinha visto na árvore, ele respondeu respirando fundo, esse povo todo.

O abraçou, inclusive sabia seu nome, muito bem Antônio.

Acho que vim no lugar certo, me falaram de ti, sei que eres neto de dona Nena.  Estou num apuro, por não saber o que fazer, tenho que tomar uma decisão, mas está difícil.

Eu imagino que sim.

Conta-me teu ponto de vista.

Primeiro eu não sabia que teu tio era casado, com filho adulto, nada disso.  Quando me falou que estava pedindo o divórcio, lhe disse para pensar, pois ele tem um patrimônio, que eu não quero interferir.

Sou viúva, tenho pensão do meu marido, que era do exército, ele era louco pelo seu filho, nunca se incomodou que ele tivesse síndrome de Down, mas ao falar com teu tio, esse não gostou muito, pensa em colocar o garoto para viver numa escola particular.  Sou contra, apesar de gostar de teu tio, não vou abandonar meu filho.

Eu tampouco abandonaria, disse sua avó da porta, é meu filho, mas te digo, nenhum dos dois que tenho vale a pena.

O garoto correu para ela, a enchendo de beijos.

Olá meu neto.

Pois fico tranquila, o conheci um dia que umas amigas me levaram ao samba, aqui em Pilares, eu sempre gostei.

Ele chamou a Yao, lhe disse que preparasse um banho para o garoto, eu mesmo dou, outro para a senhora, disse as ervas para cada um.

Ele tinha seu jogo a pouco tempo, com coisas particulares que tinha ido juntando ao longo do tempo.  Se concentrou, sentiu as pedras, os búzios dentro de sua mão falando, o que devia fazer antes.  Fechou os olhos, começou a cantar em Yorubá, a música que tinha em sua cabeça.

Ela imediatamente, caiu para a frente.

Ele se levantou, colocou a mão em sua cabeça, ela incorporou uma Oxum, está foi lhe falando, que tinha sido ela que a tinha feito vir aqui falar com ele.  Esse homem não vale a pena, ela leva muito tempo dedicada ao garoto, por isso se encantou que um homem lhe desse atenção, mas não sabe se gosta dele de verdade.

Não tem firmeza de cabeça, pois quando começou a frequentar um terreiro, se casou, o marido não gostava.      Teve forças para seguir em frente, é uma mulher batalhadora.

Ele colocou a mão na cabeça dela, a Oxum se despediu agradecendo, pois sabia que ele faria o melhor.

Sua avô, junto com a Yao, a levaram para tomar seu banho, ele levou o Antonio, ria muito ele, mas lhe disse, agora feche os olhos, pense no que queres mais na vida.   O menino obedeceu.

Queria estudar, ser alguém.   Ele o ajudaria.

Lhe deu uma toalha disse como devia se secar.

Depois se sentaram outra vez.  Ele deixou o Exu falar por sua boca, disse a ela, tens uma tarefa difícil, deixe meu garoto te ajudar.  Ele sabe o que quer seu filho.  É um largo e duro caminho, pois teu filho quer estudar, ser alguém na vida.   Ele fará todo que for possível.

Depois ficaram na cozinha, ele perguntou se ele ia a uma escola, para os que tinham síndrome de Down.   Ela disse que não, o tinha ensinado a falar ela, bem como ler, escrever.

Ele claro não gosta de brincar com jogos nada disso, gosta de livros.   Às vezes eu estou lendo um livro, o tira da minhas mãos, lê um pedaço, diz que está fora da realidade, pois eu gosto de ler romances.

Lhe contou que tinha agora entre mãos, uma jovem escritora, que era professora justamente numa escola, gostaria que conversasses com ela.

Abriu seu celular, falou com a Joana, está lhe perguntou aonde estava, ele deu a direção, ela riu, estou perto, pedirei um Uber, vou até aí, quero conhecer esse teu outro lado.

Vais gostar é uma jovem brilhante.

Quando Joana chegou, foi como uma festa, a deixou conversando com o Antônio, que estava encantado com ela, enquanto isso ficou conversando com Lourdes, essa basicamente contou a vida dela para ele, embora soubesse, escutou.

Lá pelas tantas escutaram alguém dizendo, o que faz esse garoto aqui.  Porra era seu tio, imediatamente entendeu, o tinham feito vir para nesse momento Lourdes estar protegida dele.

Ficou uma fera, como ela fazia isso pelas costas dele, se ele quisesse que conhecesse sua família a tinha trazido ali.

A primeira coisa que fez Carlos, foi abaixar sua crista de galo, dizendo ao ouvido dele, cuidado que conto teus segredos, o olhou desconfiado, foi abaixando a voz.

Primeiro seja educado meu filho, bom dia, como estás, está é a Lourdes, seu filho Antônio, Joana, se diz bom dia quando se chega a algum lugar, senão vão pensar que tua mãe nunca te educou.

Ele ficou totalmente sem graça, murmurou um Bom Dia, geral, depois se sentou numa cadeira, bufando.

Lourdes, tomou coragem, vim consultar os Orixás, com respeito a tua proposta de me casar contigo, mas sem querer descobri que tudo não passa de uma balela, pois não podes fazer isso, sem perder metade de teu patrimônio.  Entendi por que finalmente adia tanto esse encontro com tua família.

Quem te disse isso, foi meu sobrinho, é um farsante, começou a levantar a voz outra vez, soltando um ingrato, que nem respeita sua mãe.

Talvez tenha seguido seu conselho, porque tu tampouco respeita a tua.

Nisso o Exu, apareceu, puxou uma cadeira perto dele, começou a contar todas as coisas que ele tinha escondido, um outro filho, com outra mulher, seus negócios sujos, motivos pelos quais não podia divorciar, pois sua mulher sabia de tudo, o restaurante era uma fachada, detrás o qual ele se escondia.  Por isso tinha passado a administração para o filho.

Falou com as pessoas com quem ele estava metido, o que ele pensava em fazer com o filho da Lourdes, para não lhe atrapalhar seu romance.

A cara dele era de fúria, não estava acostumado a que lhe dissessem na cara tudo isso. Darei a dica a teu sobrinho, que mande investigar tua vida, no momento que ele toque em seu nome nos Estados Unidos, a Interpol bem como o FBI ou a CIA, vão aparecer aqui.  Por isso deixa de fazer papel de ofendido.

Se fosse você dizia adeus a todo mundo, desaparecia por um bom tempo, mas cuidado, muito cuidado, pois tudo pode acontecer, depois avise a tua irmã, que também tenha cuidado, sei o que está tramando, está arruinada, quer dinheiro, mas ainda não se atreveu a pedir.

Ele se levantou, disse adeus, saiu de fininho.

Nena, tinha lagrimas nos olhos, pois tinha entendido tudo.

Ainda por cima isso, um traficante de armas, misturado com a pior espécie de gente.  Fazes bem em não aceitar minha filha.

Lourdes tinha contado, que mesmo tendo uma pensão de viúva, tinha trabalho, costuro em casa para uma fábrica de roupas, nunca estou parada, assim posso estar perto dele.

Antônio ao ver que sua mãe tinha chorado, veio limpar suas lagrimas.

Acho melhor ficar uns dias na minha casa, ele não saberá que estás lá, depois tem mais gente na loja.

Joana que estava calada, falou, impressionante, agora entendi as coisas que me disseste na livraria.

Bom, tenho que te falar que adorei os dois livros, depois verás que tenho já os dois lidos, que quero falar contigo, mas primeiro vamos te preparar para o que vem pela frente.

Começou a rir, tua mãe iria ficar furiosa contigo, verdade, ela é da Igreja do Reino de Deus.

Me importa uma merda o que ela pense, apesar de ser minha mãe, se fosse por ela estaria casada com algum idiota, cheia de filhos, indo à igreja para dar o dizimo.  Inclusive não entende por que trabalho dando aulas as crianças com síndrome de Down.

Disse a Yao, como devia preparar o banho, depois jogo para ti.

Nena foi com a Lourdes, buscar roupas, bem como sua maquina de costura para irem para a casa dele.

Seu celular tocou nesse momento, era sua mãe furiosa, pelas coisas que seu irmão tinha lhe contado, como ousas pensar que estou sem banca.

Eu se fosse a senhora, ou vendia o apartamento que tens aqui para pagar tuas dividas na França, ou o de lá, mas fazer o que estás pensando, ajudada pelo teu irmão, em dar o calote nos teus credores, acho melhor pensar bem antes, porque eu de maneira nenhuma vou ajudar.

Bateram com o telefone na sua cara.

Ficou rindo, o exu tinha contado para ele desde o momento que ficou enquizilado, com a aproximação dela, a insistência em saber se tinha dinheiro.

Ela não sabia com quem estava lidando.

Depois jogou para a Joana, está só disse que nunca faria uma matança, que lhe respondeu que ele tampouco.

Apenas lhe disse que tivesse os pés no chão, pois o livro chamaria atenção, seria chamada pelos jornais, televisão, para participar em debates, que inclusive iam a convidar para ser política.  Só te digo uma coisa, nesse pais como no mundo atual, que temos tudo num galope desenfreado, hoje tens a gloria, nem dez minutos depois ninguém sabe quem eres.  Portanto pé no chão, qualquer coisa fale comigo.

Ela veio com eles para Ipanema, vivia sozinha num pequeno apartamento em Copacabana, mas foi com eles, para ajudar a que se acomodassem, os deixou no seu quarto, ele usaria o sofá cama, sem problemas.

Depois se sentou na sua saleta, para conversar com a Joana, deu um livro de desenhos, para o Antônio. Conversou com ela sobre os dois livros, o primeiro não tinha muita coisa para modificar, mas ela prestou a atenção nas mudanças que ele sugeria.  No segundo, mostrou a caderneta, leia tu mesma outra vez, mas acompanhando a caderneta, mostrou como fazia, pois anotava o número da página, o que ele sugeria.

Vou fazer o que me pedes, depois venho trazer novamente o texto.

Quando ela saiu, o Antônio, veio se sentar na sua perna, colocou o livro em cima da mesa, começou a contar para ele a história.

O menino, apesar do síndrome de down, tinha uma inteligência superior. Isso a Joana tinha comentado com ele no carro.

Na segunda feira, o levaria com ela a sua escola, para fazer um teste, aonde o podia encaixar, pois para ir em frente ele precisaria de estar fazendo aulas.

O garoto virou uma sombra dele, quando desceu, comentou, bem Antenor, acabou que voltei, tens mais algum livro que eu possa dar para o Antônio se divertir.

Esse disse que queria lápis, cadernos para desenhar uma história também, ele deu dinheiro ao Antenor, que foi a uma papelaria ali perto com o garoto, o deixando escolher tudo que queria.

Depois foi dar um passeio pela praia, com ele, junto com a Lourdes, esse foi falando, que desconfiava de algumas coisas de seu tio, pois realmente o tinha visto falando com alguns do tráfico do Morro do Alemão, ele de vez em quando desaparece por vários dias.

Pensei que era uma oportunidade, mas quando ele falou que não queria meu filho junto, fiquei com um pé atrás.

Depois de noite, foram jantar na casa do João, que sem dúvida nenhuma era um paizão, pois logo estava conversando com paciência com o Antônio.

João inclusive ofereceu sua casa para eles se hospedarem, o apartamento era antigo além de imenso.

Puxa, nunca pensei que fosse encontrar pessoas tão receptivas, lhe disse Lourdes, a senhora Maria inclusive costura também se ofereceu para me ajudar.

Talvez fosse melhor mesmo ir para lá.

No dia seguinte acordou com o Antônio, jogado na cama com ele, riu, pois nem tinha notado a sua presença, até o momento que ele segurou sua mão.

Estava tendo um sonho tumultuado, com sua mãe, nesse momento o garoto fez isso, como se sentisse que lhe passava alguma coisa.

Ficaram os dois ali no sofá, deitados conversando, até que sentiram cheiro de café, vindo da cozinha, ele arrumou o sofá, foi tomar um banho.

Enquanto fazia barba, deixou o Antônio metido no chuveiro, ele ria muito, aqui tem mais água quente que lá em casa.

Se não fosse talvez pelos olhos uma coisa tão particular nos que tinham síndrome de Down, não se notaria que tinha essa particularidade.

Logo estava desenhando, quando num momento desviou a atenção do que estava lendo, viu que ele estava desenhando o que tinha acontecido no dia anterior, na casa de sua avó.

Os desenhos eram perfeitos.   Desenhava seu tio, com um rabo de diabo.

Maria, chamo, convidando que fossem almoçar lá, pois tinha feito um bom feijão, como o João gostava.  Como era domingo, aceitou o convite, o menino levou seu material, para isso.

Na conversa depois do almoço, Lourdes aceitou o convite de ficar lá, assim eu teria paz, ia dizer que não, as duas já estavam arrumando a área de serviço para costurarem juntas, assim poderiam pegar mais encomendas.

Minha avó não pode parar, voltou com o Antenor, para buscar as coisas deles, queria conversar com ele, pois estava escrevendo algumas coisas.  Como ia as coisas, com ele, apesar de estarem quase todo dia juntos, nem sempre tinha tempo para falar.

Precisamos conversar, pois em breve começo a faculdade, pensei em fazer de noite, pois só tenho duas opções, ou de noite, ou de manhã.

Tens escrito alguma coisa?

Sim tenho dois contos novos, depois passo para ti, é como uma continuação do que escrevia antes, mas agora em tom mais otimista.

De noite esteve com Osiris, que vinha trazer o texto retificado, lhe deu uma cópia também em inglês.   Humberto tinha ficado preparando as maletas, para irem para NYC.

Comentou com ele, que os dois se davam bem, é ótimo conversar com ele, tem as vezes paciência comigo, pois sou ciumento, ele conhece muita, gente que vem falar com ele, mas me dedica especial atenção.

Depois ele entendeu que eu vim aqui atrás de ti, contei para ele o que tinhas me falado, eu entendo, não ia gostar de realmente saber que me estarias usando para esquecer o José.

Pediu para ele se lá poderia pesquisar a respeito do tio, mas com descrição, para não chamar muita atenção.

Perguntou se queriam que os levasse ao aeroporto, agradeceu, mas o Humberto, já tinha feito uma reserva com Uber.

A semana correu bem, tinha avisado a Joana aonde estaria o Antônio, esse vinha com o João a livraria, pelas tardes.

Tinha agora vários livros em andamento, os dois juntos iam a gráfica, estudavam a capa dos mesmos, era uma empresa funcionando.  O contabilista cada quinzena sentava-se com os dois para analisar tudo, impostos a pagar, tudo isso.

De uma certa maneira, a livraria se sustentava, bem como tinha caixa com o dinheiro ganho com os livros.

Era interessante, como comentou o João, se você fosse um bom carioca, estaria esbanjando esse dinheiro frequentando os melhores restaurantes, indo de férias, comprando carro do ano, etc.

Mas segues a tua vida como se nada.

Nunca gostei disso João, essa era a verdade, podia ser um tonto, um cara cheio de problemas, mas tive um pai que me ajudou até nisso, me dizia sempre, pés no chão.  Agora sei pelo Exu, que terei sempre gente nova em minha volta, precisando de ajuda.

Antenor lhe avisou que sua mãe, estava embaixo, acompanhada de um senhor que já tinha vindo várias vezes a livraria.

Olhou pelo visor, era o tal da editora, que será que essa jararaca está tramando.

Imediatamente entendeu, ela tinha convencido o outro, que o faria vender a editora, assim ele lhe pagaria por esse favor.

Venha João, vou te apresentar como meu sócio gestor, assim me ajudas a cortar isso pela raiz.

Não os convidou para subir, mas sim apresentou o João, como seu sócio na editora, os levou ao café ao lado.

Não estendeu a mão, tampouco beijou sua mãe, embora ela tivesse feito o gesto.

Bom vamos direto ao assunto, pois, tenho muito trabalho, não sou uma grande editora, que tem gente para isso, aqui dividimos o trabalho, os dois estamos lançando vários livros, a que movimentar muita coisa.

O sujeito com um sorriso na cara foi direto ao assunto, isso acabaria se trabalhasse para mim, pois tenho uma equipe para isso.

Infelizmente nosso contrato de firma não permite isso, o João não precisa de dinheiro, pois está aposentado, eu tampouco, isso para mim, é uma aventura bem sucedida, ontem estivemos com nosso contabilista, estamos no lucro.

Pois tua mãe me deu entender que estás em sérios apuros.

Olhou para ela, começou a rir, acho que te enganou, quem está em sérios apuros é ela, pois deve muito dinheiro.  Mas essa senhora deve vir te enganando a tempo, eu não a reconheço como minha mãe, nunca me criou, é bom saberes da história.

Ela fez um gesto como dizendo para calar a boca, mas ele continuou, fui criado primeiro pela minha avó, lá em Pilares, depois ela me mandou com 3 anos de idade para viver com meu pai, pois seu futuro marido não me queria.  Graças a Deus, meu pai, foi um homem sensacional, inclusive quando sua mulher lhe obrigou a escolher entre ela e eu, escolheu ficar comigo.

Foi tudo na minha vida, pai, amigo, confidente, acho que morrerias de inveja de um pai assim.

Portanto, essa senhora não é minha mãe.   Apenas levo no registro seu nome, mas olhe como assino meus livros, Carlos Smith.

Não estou interessado em vender nada, nem penso a respeito, mas se quiseres, posso mandar alguns textos que não tenho tempo para atender, para que teus editores analisem.

Se não queres editar, é sinal de que não são perfeitos.

Não, recebemos textos demais, é muita gente nova para entrar no mercado.

Nisso chegou a Joana, com os textos novos, ela riu, disse que tinha estado na editora do homem, foi lá que pensaram que eu procurava um emprego de copeira, nem da secretária passei.

Vê, esse jeito brasileiro, preconceituoso, dá nisso, pois vou editar dois livros dela, de imediato, uma nova escritora, além dos assuntos sérios que me interessam publicar.

Se desculpou, sem dar a mão a ninguém, disse que tivessem um bom dia.

Essa senhora trabalha para a Editora, lhe perguntou Joana?

Nada é minha mãe, que precisa de dinheiro, disse a ele, que eu venderia minha editora, para ela ganhar um dinheiro com isso, é igual ao irmão, por dinheiro são capazes de vender até sua mãe.

Quando o primeiro livro da Joana esteve pronto, avisou sua amiga jornalista, queria que ela lesse antes, além de escrever o prefácio, pois sabia que ela tinha uma linha de pensamento político, bem particular, apresentou as duas, lhe passou o texto.  Era como juntar duas pessoas inteligentes.

Depois ela disse que era uma honra escrever o prefácio num livro tão contundente, para a juventude manipulada do pais.

Pensava o mesmo que ele, que teria que ter muito pé no chão para aguentar o que vinha pela frente, se quiseres, posso ficar como uma espécie de agente tua, para selecionarmos, jornais, televisão, para os debates, essa, coisa, ia adorar fazer esse trabalho.

Boa ideia, iria te passando vários escritores novos, eles precisam disso alguém que saiba separar o joio do trigo, em termos de como fazer publicidade.

Meus filhos estão grandes, vivo sozinha, me sobra tempo.

Conversaram muito a respeito, ela comentou sobre um jovem escritor que tinha tido seu primeiro livro um sucesso, depois foi chamado para escrever para novelas, foi um fracasso, pois não estava preparado.

Aqui no Brasil, não temos como na Europa, ou América do Norte, esse conceito de aulas de escrita dramática, as pessoas aprendem a maioria na bordoada.  Além do sucesso que todos querem que sobem a cabeça como uma bolha de sidra cereser, depois fica tudo por isso mesmo, nenhum editor vai resgatar essa pessoa.

Gosto do teu trabalho por isso, é direto com o escritor, eu mesma estou escrevendo alguma coisa, um romance que me passou pela cabeça, depois vou trazer, para dares uma olhada, fazeres tuas famosas anotações.

Quando ficou sozinho com a Joana, lhe disse, ganhaste uma madrinha de peso, siga suas instruções, pois foi uma das poucas pessoas sérias que encontrei por aqui.

Perguntou como ia o Antônio na escola?

Por incrível que pareça, sua mãe fez um trabalho formidável, pois o educou como se fosse uma criança normal, ele já alcançou os estágios superiores, o que para sua idade é muito.

Quer estudar belas artes, pois realmente desenha bem, na escola, temos o elementar, nada mais, mas seu João disse que ia conseguir um professor para ele.  É como se fosse seu neto, é impressionante, esse homem construiu uma família do nada.  Está sempre incentivando os outros a irem para a frente.  

Ele concordou, imagina, agrupou a Maria, com a Lourdes, mais várias senhoras do prédio, como tem uma área de festa que ninguém usa, elas estão todas trabalhando para várias confecções de roupas, que mandam trabalho para fora, ganham todas dinheiro, como uma cooperativa.

Outro dia interrompi sem querer vossa conversa com o editor, não quis falar nada, mas ele me chamou para conversar, o atendi por telefone, me disse que me daria um contrato permanente, pois se tu acreditavas em mim, ele também o faria.

Me desculpei, pois estava muito atarefada, quase o mandei a merda.

Ele vai tentar descobrir quem traz textos para ti, para roubar de você.

Não se preocupe, o que é do homem o gato não come.

Ficaram rindo, ele sabia que alguns poderia se interessar, para ter um departamento de publicidade, todo para trabalhar para ele, mas se esquecia do que dizia a jornalista, não se preocupavam com a pessoa, como ele fazia.

De NYC lhe chamaram, pois tinham gostado do livro do Osiris, se ele tinha um contrato com ele?

Não, só para a edição no Brasil, vocês já tem o trabalho limpo.

Assim que tiver um livro, que sei que vocês vão gostar, de uma jovem, creio que poderei traduzir para o Inglês, depois te mando.

A camaradagem com o antigo chefe era boa, como ele sempre dizia, saia, mas deixe sempre uma janela, portas abertas.

O livro da Lourdes, foi como ele pensava, provocou uma oleada de os que falavam mal, propiciavam uma divulgação do mesmo, a primeira edição se esgotou em menos de duas semanas, iam agora para a terceira.  As livrarias não paravam de pedir, o João inclusive tinha contratado um rapaz de seu edifício que tinha carro para fazer esse trabalho de repor nas livrarias.

As entrevistas, orientada do Beatriz Cavalcante, a jornalista, ela se saia bem, as pessoas mais politizadas, se batiam de frente com argumentos sérios, nada de quero vender minha ideias.

Mas de um partido a convidou para suas filas, mas ela não se interessava.

Ele leu os vinte primeiros capítulos do romance que tinha a Beatriz, gostou, fez como sempre sua caderneta, de anotações, ela adorou, pensei que estava escrevendo uma besteira, mas conviver contigo me faz bem.

Quando o editor soube que estava escrevendo um livro, logo se ofereceu para publicar, ela disse que não, que já tinha um contrato.

Quando o livro ficou pronto, foi um sucesso, nas entrevistas ela agradecia ao Carlos Smith por todas as orientações que ele tinha dado.  Lhe perguntavam se não era esse da editora de gente jovem.

Ela explicou que ele consideravam gente jovem, os escritores que queriam uma oportunidade, eu conhecendo sua maneira de trabalhar, pedi por favor que olha-se os vinte primeiros capítulos, pois estava estagnada, ele me deu a direção que eu devia tomar.

O novo livro de contos do Norberto, também estava indo em frente, ele pouco tinha feito de correções ou melhor indicações, como ele chamava seu trabalho.

Antenor, já sabia como ele pensava, escrevia agora de uma perspectiva que sua vida tinha mudado, tinha conseguido a chance de seguir em frente, mas como todos os jovens, tinha dúvidas, ele analisava essas questões, com muita propriedade.   Um dos contos que fazia enorme sucesso, ele falava do amor, como ele, bem como os de sua idade, confundiam, ele tinha conversado a respeito com os companheiros de universidade, todos tinha uma certa confusão a respeito.

O lançamento do livro, foi concorrido, como tinha sido o da Joana, agora sairia o do Osiris, pois tinha que esperar que esse voltasse ao Brasil, lançou o de lá, voltou para o do Rio, o apresentou a Beatriz, que se tornou sua agente também, o acompanhava pelos platôs de televisão, rádio, entrevistas nos principais jornais, também foi rápido o sucesso.

Agora, o do Humberto, que tinha refeito alguns trechos de seu livro.  O amor, o tinha feito pensar de maneira diferente.

Beatriz veio lhe dizer, que realmente o editor, como estivesse em guerra com ele, pois mal tinha descoberto que ela era agora agente desses escritores, a tinha o convidado para esse trabalho na editora. 

Imagina que mal sabe ele que não cobro para fazer isso, era capaz de me dar o título de diretora, se matava de rir.

Ela era uma mulher esperta, contatou com todos que fazia críticas de livro, para conversarem, fez um trabalho exemplar, queriam que eles soubessem como o Carlos, escolhia, ou melhor aceitava a Editar um livro. Qual era seu processo de trabalho.

Alguns inclusive disseram que dois editores tinham falado mal dele, um americano que vem aqui botar banca em nosso trabalho, diziam isso, pois esperavam um tipo americano, mas quando encontravam uma pessoa falando um português perfeito, ainda dizia que era de Pilares, riam das críticas.

Lhe perguntaram se atreveria a editar algum livro de uma pessoa saída de uma favela?

Claro que sim, foi um dos primeiros clientes que tive, embora hoje trabalhe comigo, vivia numa favela com sua avó, ele faz questão que as pessoas saibam disso.

Apareceu um jovem que veio de Quintino, com um texto muito interessante, sobre o samba, devia ter uns 16 anos, o que era o samba para ele, bem como tocar na bateria de uma escola, ele falando era cheio de ginga, bem como sua maneira de escrever, era como ver uma pessoa apaixonada por isso.  Contou que tocar numa bateria, bem como compor música o tinha salvado de ser um traficante de drogas, um alcoólatra.

Leu o texto todo fez suas anotações, pediu consentimento dele, tirou duas cópias, passou para o Antenor, bem como para a Joana, os convidou para lerem, depois se reunirem os três para discutir.  Depois ampliou, com Osiris, Humberto bem como a Beatriz.

Geovaldo Prazeres, ficou alucinado, pois todos realmente tinham lido seu texto, conversaram muito sobre ele.    Não estava preocupado em contar a história do samba, mas sim o que o samba tinha feito por ele.

Humberto teve a paciência de sentar-se com ele, para corrigir o texto em cima da gramática, mas sem perder o frescor que ele tinha ao falar, pois escrevia da mesma maneira.

Beatriz foi experta no lançamento do livro reuniu os outros escritores, como tinham feito antes, todos conversavam como encaravam o samba.  O programa foi um sucesso, ela voltou a ter seu programa na televisão.

Aceitava que os outros editores mandassem escritores para conversarem, mas a maioria estava fechada em um círculo, comandado somente pelo editor.

Agora tinham um distribuidor, que mandava para o Brasil inteiro, os escritores ganhavam mais dinheiro, seu contabilista, tinha agora duas pessoas só fazendo isso.

O rapaz que ajudava o João, agora era seu braço direito.

Nessa época, Nena sua avó ficou mal, ele passava os dias lá, com ela, se revezavam entre Maria, Lourdes, mesmo alguma outras senhoras que sempre a tinha conhecido, mas ele dormia todas as noites lá com ela.

Ela já no final, disse, vais ter uma batalha a troco de nada, tua mãe, bem como teu tio, vão querer disputar a única coisa que posso deixar de herança essa casa, a qual eles na verdade tem horror.   Por eles esse Iroco nunca existiria, teu tio que ainda vinha me visitar, desapareceu, segue com sua vida, tua mãe, não sei aonde anda.

Ele sim sabia, tinha se casado novamente com um velho rico, que a ajudou a pagar suas dívidas.

Avisou os dois que ela estava mal, nunca apareceram.

Quando ela morreu, foi uma coisa impressionante, saiu no jornal inclusive, a quantidade de gente ali da região.   Ele aparecia, ao lado do João, segurando seu caixão.

Beatriz que tinha chegado a conhece-la escreveu um artigo sobre ela, do neto que não renegava suas raízes.   Apesar de ter avisado ao tio, bem como sua mãe, numa chamada internacional, essa disse que não podia ir, tinha compromissos.

Mas como ela tinha previsto, quando o advogado leu o seu testamento, em que deixava o único bem que tinha, a casa, sendo explicita, que ninguém poderia tocar no Iroco.

O tio, bem como sua mãe, entraram na justiça, porque queriam a casa.

Ele contratou um advogado especialista, finalmente quando foi a julgamento, o tio apareceu, para depor, mas sua mãe, mandou um representante.

Ele ganhou a causa, principalmente pelo depoimento das duas últimas Yaos que ela tinha, que os filhos nunca apareciam, quando vinham era para a deixar nervosa, que seu neto sim, tinha cuidado dela, até o final, desde que esse rapaz a descobriu, pois não sabia que existia, nunca deixou de ir visita-la.

O tio o ameaçou, ele respondeu francamente, mova qualquer ficha, eu aviso a quem tenho que avisar.

Não terás coragem de fazer isso, posso te mandar matar.

Mas antes, todo mundo vai saber quem eres na verdade, inclusive tua família.

Dito e feito, a melhor arma de defesa é o ataque.  Avisou a Interpol, FBI, CIA, aonde ele estava, em seguida desapareceu, foi um escândalo, pois para muitos era uma pessoa do bem.

Seu primo, inclusive o agradeceu, consegui passar o restaurante para meu nome, pois minha mãe tem uma grande porcentagem nas ações, agora é um negocio meu.  Ele tentou me levar para esses outros negócios, lhe disse que com o restaurante e o surf estava bem.

O pegaram nos Estados Unidos, sempre tinha tido uma dupla documentação, só não sabia que sua mulher sabia disso, ela deu a dica as autoridades.

Ele agora, passava a aparte da manhã na livraria atendendo, mas a parte da tarde estava na casa atendendo os necessitados.

Um dia apareceu um jovem, de sua idade, comentou que tinham feito um trabalho para ele, tinha sofrido um acidente, desde então não estava bem.

Depois de um banho, o fez sentar-se para jogar para ele.

Ficou horrorizado, pensava que isso já não existia mais, fazer trabalhos para matar uma pessoa.

Lhe disse que não se preocupasse, que os exus iam devolver tudo para quem tinha feito isso contra ele.

Exu lhe chamou a atenção, coloque a mão na cabeça do rapaz. Realmente o problema era sério, devido ao acidente, tinha um coagulo no cérebro.

Melhor ir para o hospital imediatamente.  Perguntou se ele estava ligado a algum sistema médico, trocou de roupa rápido, o colocou no carro, foi para a melhor nesse tipo de problemas, deu seu cartão de crédito que nunca usava, que ele tivesse um quarto, mas já no primeiro exame, o levaram para a sala de operações.

Foi uma coisa de horas, segundo o médico, mais um dia, estaria morto.

Depois foi vê-lo na UTI, perguntou se queria que avisasse alguém?

Lhe disse um horário, em que sua mãe estaria sozinha em casa, pois seu pai, não o aceitava por ser gay.

Ele avisou a todos, ficou ali no hospital com ele, segurava sua mão, avisou sua mãe, que apareceu justo no dia seguinte, no horário que o marido estaria trabalhando, foi um encontro bonito, sentou-se depois com ele, para dizer que não sabia o que fazer.

Nada, ele sabe que a senhora o quer, isso lhe basta, depois quando sair do hospital, o levo para minha casa, para que se recupere.

Entre eles nasceu um vínculo, Alberto João Batista, era um artista plástico, depois lhe contou o que tinha se acontecido, ele sempre tinha usado sua intuição em termos de relacionamento, teve um homem que nunca aceitou suas recusas de sair com ele, bem como ir para a cama.

Sim tens um exu, muito bom, ele te levou para perto de mim, pois sabia que ia te ajudar.

Ficavam conversando horas, principalmente de noite. Estava louco para voltar para seu studio, um dia João veio resolver umas coisas com ele, o Antônio veio junto, mostrou os desenhos que estava fazendo, mas ele queria pintar, para isso necessitava de espaço, mostrou o trabalho do garoto para o Alberto, que adorou, quando meu carcereiro, me liberar, podes ir para o meu studio, ele o tinha em Santa Tereza, assim como João vivia na Gloria era fácil de levarem o Antônio.   Agora se viam sempre, se deu conta que com o tempo, José estava num bom lugar na sua memória.  Quando comentou isso com o Antenor, esse se virou rindo, espero agora ter uma oportunidade, já não sou aquele garoto, a não ser que estejas apaixonado pelo Alberto.

Não estou, pode ficar tranquilo, sem querer, deixou o Antenor se aproximar, foram ficando juntos, acabaram na cama.  Rindo porque como ele dizia, sou virgem, tens que me ensinar tudo.

Mas era uma coisa espontânea, quando viu, já estava dentro do romance, o queria muito, os dois compartiam mil coisas, foi treinando o Antenor, para ser um editor, lhe ensinou todo seu trabalho, como fazia, como pensava, como analisava os mínimos detalhes de um texto, primeiro les as 10 primeira páginas, se te interessa seguir em frente, é sinal que te conquistou com a historia ou o texto.  Volta essas dez primeiras paginas a passas a analisar cada detalhe do texto.

Agora tinham uma garota que ficava uma parte do dia, quando o Antenor chegava da universidade, o primeiro era ir beijar o seu amado, a quem tinha esperado tanto.

Três dias da semana ele ia para Pilares, atendia quem aparecia, fazia suas obrigações com o Iroco.

Um dia de manhã, a Yao o chamou nervosa, ao entrar pela lateral da casa como sempre faziam, tinha encontrado seu tio morto.   Lhe disse o que fazer, vou para aí, chame a policia ok, chamou o João que disse que ia com ele, passo por tua casa em seguida, se deitou cinco minutos com o Antenor, o beijou, avisou o que ia fazer, volto tarde.

No momento que saia, avisou seu primo, este ainda estava dormindo, deixou recado, que o chamasse urgente.  

Quando chegaram lá, claro não havia nada a fazer, viram que seu carro estava parado perto da entrada, que ele já tinha vinha ferido de algum lugar, com certeza esperava que o ajudassem, não contava que a casa estivesse vazia.

Quando seu primo acordou, lhe chamou, lhe disse o que tinha acontecido, que o iam levar para o necrotério, havia que fazer autopsia.  Perguntou para aonde, esse disse, avisou ao primo, este como sempre nem disse obrigado.

Agora era avisar sua mãe, mas sabia que ela tinha vendido a tempos atrás o apartamento do Leblon, portanto acreditava que não viria.

Fez uma quantas coisas, conversou com o Exu, para saber como devia se comportar.

No carro na volta, João tocou no assunto do Antenor.  Ele sorriu, nunca pensei que ele menino fosse assim apaixonado por mim, esperou, mas segundo ele muito, pois me queria desde que me viu.

Eu igualmente estou apaixonado por ele, podia estar por qualquer pessoa, por isso o estou ensinando para que aos poucos ocupe meu lugar, a inteligência dele é impressionante.

Quando chegaram ao necrotério, seu primo já estava lá, perguntou se estava contente?

Com o que?

Com a morte de teu pai, quem fez essa merda toda foi ele, não eu, quem vendia armas, traficava com as mesmas foi ele.

Não tenho culpa nenhuma nisso, cada um cava o buraco que quer, claro sair depois é um problema.

Ele tinha voltado na surdina para o Rio, vivia na casa de uma das muitas amantes que tinha, depois se descobriu, que uma outra que tinha filho dele, lhe pediu ajuda, ele se negou, ela o denunciou.

Espero que não venhas ao enterro?

Não se preocupe, não irei, só fui atender, pois morreu na entrada da casa da Nena, nossa avó, só por isso.

Avisou sua mãe, mas a resposta já esperava, não podia se ausentar de Paris, pois seu marido estava mal, ainda soltou, agora sou enfermeira desse velho.

Nem perdeu tempo argumentando com ela, lhe disse que entrasse pelo menos em contato com seu sobrinho.

Ele seguiu sua vida em frente, agora com o Antenor, levando a maior parte da editora, com ajuda da Beatriz, João, além da colaboração da Joana, podia se dedicar também a levar os textos mais complicados para a casa de Pilares, bem como atender as pessoas que o procuravam.

Quando estava lá, Antenor vinha todos os dias comer com ele, além de ficar para dormir, não consigo dormir se não estas.

João as vezes trazia o Antônio, que dizia, quero falar com meus amigos, tenho dúvidas, quero esclarecer.

As águas estavam mais mansas, ele sempre desconfiava disso, até receber a noticia que sua mãe estava presa em Paris, acusada de envenenar o marido.

Não moveu nem um fio de cabelo, que faz paga soltou.

Nunca mais escutou falar nela.

Ele junto com o Antenor, era agora conhecidos como bons editores, que a equipe era boa.

Ele pensava sai de Pilares, acabei voltando as origens, embora as origens para ele era o Iroco, a casa de sua avó, de quem sentia saudades imensas.

THESE GUYS – ESSES MOÇOS

            

Esses moços, pobre moços, ah se soubessem o que eu sei?

As vezes olhava para a juventude de agora, não entendia nada, sabia claro que os tempos eram outros, mais modernidade, sempre a palavra mais na frente.
Mesmo seu filho, que em criança parecia adora-lo com loucura, hoje estava longe dele, cada um vivendo de um lado dos Estados Unidos. Quando se divorciou, ficou contra ele, claro descontava que sua ex-mulher, fazia jogadas com ele, o manipulava.
De um lado, tinha saído do que para ele era um inferno, pois ela era uma pessoa possessiva, dominante, menos mal que tinham se casado com separações de bens, sua família era muito rica.
Imaginava agora o filho vivendo no luxo do apartamento dos avôs no Central Park. Ele sempre tinha vivido igual, num bom apartamento, num edifício construído por ele mesmo, afinal era engenheiro para alguma coisa. Sua empresa ia bem, não podia reclamar, embora cada vez mais se cansasse das idiotices dos outros.
Estava numa idade, que se arrependia de não ter desfrutado mais da vida, ter sido um jovem inconsequente, mas evidentemente isso era quase impossível, vinha de uma educação firme, quase germânica.
Tinha passado boa parte de sua juventude em bons colégios, misturado com jovens de família bem, o que lhe enchia o saco de tanta pose.
Quando acabou a universidade, entrou para trabalhar na empresa do pai, que construiu os maiores edifícios da cidade. Quando morreu, herdou sua parte na empresa, era proprietário de 55% da mesma, então seu voto era decisivo.
De jovem tinha verdadeira adoração pelos que podiam fazer surf, mas essa palavra em sua casa era uma blasfêmia.
Aonde já se viu perder tempo se equilibrando em cima de uma prancha com a possibilidade de quebrar o pescoço, isso eram os argumentos de sua mãe. Já os de seu pai, era como gastar tempo em nada.
Escutava seus amigos que faziam com inveja, nunca tinha se enturmado com eles. Quando entrou para a empresa, lhe arrumaram um casamento, basicamente foi isso, selar duas boas fortunas num matrimônio.
Ela era super simpática quando se conheceram, depois se tornou uma mulher azeda, preocupada sempre com o que vão dizer, que a sociedade de San Francisco era inculta, essa merdas, passava mais tempo em NYC que com ele.
Quando ficou gravida, inclusive pensou que o filho não era dele, mas o menino desde pequeno era sua cara.
Mal seu pai morreu, ela pediu o divórcio, ou ele vendia tudo vinha morar num lugar culto, ou se divorciavam. Ele preferiu o divórcio. Embora claro que isso significasse ficar sem o filho. Pagava pontualmente a mesada do mesmo, conforme decisão do Juiz. Ia sempre até lá só para vê-lo, mas claro quando chegou a adolescência a coisa torceu o rabo. Já não queria se encontrar com ele. Sua mãe tinha se casado outra vez, com um milionário, ao que ele chamava de pai.
Tomou talvez uma decisão errada, pois deixou de ir, lhe mandava o dinheiro, inclusive lhe pagou a universidade, tinha estudado arquitetura. Sabia dele por um amigo, estava trabalhando em sua empresa.
Ele ao contrário, estava estagnado, nem tinha refeito sua vida, tinha tido romance com homens, mulheres, mas nunca tinha se encontrado. Alguns inclusive chegavam a dizer que ele não sabia amar.
Tinha quase certeza disso, tinha sido criado num distanciamento amoroso de seus pais, seu casamento era igual, a única pessoa que conseguia demonstrar carinho era seu filho, mas esse não o queria.
Estava pensando nisso, preso no engarrafamento de todos os dias. Puta merda, isso não é viver.
O celular começou a tocar, era um antigo cliente, ex-senador, que alguns diziam que tinha negócios sujos, mas com ele sempre tinha sido super atencioso, fizeram bons negócios juntos, tinha deixado a política, porque teve que cuidar de sua mulher.
Sabia que tinha um filho, um pouco mais jovem que ele, mas nunca o tinha visto.
Esse como sempre foi direto ao assunto, queria saber se podia atender seu filho, este tinha uma ideia para uns terrenos que tinha herdado da mãe, mas precisava de alguém que o orientasse.
Sem problemas, marcou uma hora, justo depois da reunião que tinha nesse dia.
Mal chegou ao escritório mal humorado, sua secretária de muitos anos, o esperava como sempre na porta, alguém claro a avisava que ele estava subindo. Foi relatando todos os problemas de obras, ele se perguntava, porque seus punheteros sócios não se enfrentavam a isso, tentassem pelo menos resolver os mais simples. Alguns mal saiam do escritório.
Pegou todos as anotações de sua mão, estava mais irritado ainda.
Entrou na sala, todos estavam ali fumando, com uma taça de café na mão.
Ele simplesmente atirou os papeis em cima da mesa, dizendo, já que estão coçando o saco, acho melhor trabalharem, resolvam todos esses problemas, já que sou o chefe dessa merda, façam alguma coisa, para fazerem jus aos benefícios que meu trabalho dá.
Saiu batendo a porta, entrou em sua sala, fechou a porta, disse a secretária que a hora que chegasse o filho do senador, um tal de Henry Jr. Que o avisasse.
Abaixou as persianas, ficando no escuro. Não sabia quanto tempo mais aguentaria tudo isso.
Tinha muito medo sempre de suas próprias explosões.
Na noite anterior, tinha sido obrigado a ir a um jantar de negócios, tinha escutado reclamações de todos, ele não dizia uma palavra, com o atual governo a coisa estava difícil, era necessário ser amigo de alguém de dentro.
Ele tinha obras ainda por algum tempo, mas seus melhores homens de apoio, estavam todos se aposentando, por idade.
Caralho, eu daqui a pouco também estou, se a coisa segue assim, nem chegarei vivo a isso.
Quando a secretária avisou da chegada do Henry Jr, abriu as persianas, se sentiu um pouco tonto, mas abriu a porta, estendeu a mão, pensando que homem bonito, caiu redondo no chão.
Quando despertou, estava numa ambulância a caminho do hospital, com o tal Henry segurando sua mão, dizendo não se preocupe vai dar tudo certo.
Mas não foi bem assim, depois de todos os exames, resolveram que ficaria mais uns dias para fazerem um check up total.
Quando o levaram para o quarto, o homem estava lá.
Já avisei teu filho, pedi o telefone dele para tua secretária, ele disse que vem para cá. Mas não se preocupe, fico aqui fazendo companhia para ti.
Nem tinha falado sequer bom dia ao homem, este ficava com ele, por algum motivo, não conseguia falar.
Pediu um papel, uma caneta, escreveu, bom dia, obrigado.
Em seguida dormiu outra vez. Estava num túnel escuro, muito escuro, escutava as vozes longe, mas não via ninguém. Sentiu que caia num poço muito profundo.
Quando despertou outra vez, estava, com tubos na boca, cheio de coisas no braço.
Henry chamou imediatamente a enfermeira, que acionou o médico que o tinha atendido.
Tiveste um enfarte, tivemos que fazer uma operação de peito aberto, para fazer uma plastia, além de colocarmos dois by pass.
Lhe deram um sedante, ali em pé estava ainda o Henry.
Pensou outra vez, como é bonito esse homem, seria seu anjo da guarda, pois não tinha saído de seu lado todo esse tempo.
Só despertou no dia seguinte, viu que ele falava com outra pessoa, não via seu filho a tanto tempo que quase não o reconheceu.
Esse segurou sua mão, estou aqui, pai.
Henry disse que ia a sua casa descansar um pouco, que voltava para passar a noite com ele.
Quase gritou, não me deixe aqui, me leve contigo.
Seu filho ficou ali segurando sua mão, quase perguntou quem eres, pois agora não passava de um belo desconhecido, nem saberia o que falar com ele, não se falavam desde que ele tinha ido à universidade, isso já se fazia muito, quase 10 anos, todos esses anos, talvez por desencargo de consciência depositava todos os anos uma parte dos seus rendimentos na empresa.
Como não podia falar, ficou quieto, sentia ainda muito cansaço. Fechou os olhos pensando, no que poderia dizer ao filho. Tipo olá meu filho senti falta de ti, mas esse que vejo não conheço.
De noite, quando despertou, vieram lhe retirar os tubos, que lhe incomodavam a garganta.
O médico ria, dizendo se não é teu anjo da guarda, indicou o Henry, já estava no outro lado.
Ele piscou para o Henry, obrigado disse com uma voz rouca.
Não fale muito, espere um pouco, pois acabamos de te retirar o tubo.
Lhe deram água, viu que seu filho não estava.
Ele foi a tua casa, trocar de roupa, bem como tomar um banho, já voltara.
Quando ficou a sós com o Henry, ele de brincadeira disse, sei que sou bonito, mas que isso provocasse um enfarte não.
Sorriu para ele, não seja cabotino.
Não se preocupe, tenho justa noção do problema que tive sempre, as pessoas olham a minha cara de bonito, pensam logo alguma merda, mas minha cabeça ninguém quer, nem meu pai acredita nela.
Tenha paciência com teu filho, ele me disse que faz muitos anos que não fala contigo.
Realmente eu ontem me perguntei quem era esse, nem o reconheço mais, realmente não sei o que dizer para ele.
Achou melhor quando ele apareceu de noite para ficar com ele, deixar que ele falasse tudo que queria. O escutou, algumas vezes, por ter sempre acreditado no seu sexto sentido, ou intuição pensava, está mentindo. Mas ficou quieto.
Sabia através do amigo que tinha dado emprego ao seu filho, que sua ex-mulher bem como o novo marido, tinham perdido quase toda sua fortuna, em mal empreendimento. Mas isso na verdade não era com ele. Além de que seu filho, não era muito experiente no trabalho, claro tinha se formado, lhe ofereceram uma viagem pela Europa, só depois então é que foi procurar emprego, na época ainda pensou, coisas da cabeça de sua mãe.
O deixou falar à vontade, até que acabou dormindo. De uma certa maneira, pensou, não tenho nada a ver com isso.
No dia seguinte, o médico com o Henry de um lado, seu filho Major do outro lhe explicou que tinha que ficar afastado do trabalho por um bom tempo. Teria que levar uma vida mais tranquila.
Ele só foi concordando com a cabeça. Resolverei tudo isso quando o senhor me der a alta, na verdade creio que isso se passou, pois estava pensando justamente nisso.
Não tinha falado nada com os sócios, mas tinha tido uma oferta muito boa, para comprarem sua parte, justamente uma empresa de NYC.
Era seu ás na manga.
Uma semana depois, quando já estava em casa, perguntou ao filho, o que pensava em fazer da sua vida. Nunca poderia esperar a resposta que escutou.
Acabo de receber a herança dos meus avós, irei passar um tempo na Europa, quando o Henry me chamou, eu estava justamente numa agência de viagem, comprando um bilhete de avião, por pouco ele não me pega.
Vais para lá trabalhar, ou simplesmente passear.
Ainda não sei, acabo de me livrar de minha mãe, do meu padrasto, a morte dos velhos lhes salvou, mas quero estar longe do seu tipo de vida.
Pensei que irias ficar um tempo aqui comigo?
Sinto muito pai, mas quero aproveitar, para descobrir na verdade quem sou, esses anos todos fui um brinquedo nas mãos da minha mãe, nem sei se deveria ter feito arquitetura, pois não gosto muito, gosto mesmo é de pintar, desenhar, talvez faça algum curso por lá.
Não lhe disse mais nada.
Como ele tampouco lhe perguntou de sua empresa, ou nada disso, só lhe soltou que ele não precisava ficar mandando dinheiro como fazia, que ele já era grande para se virar sozinho.
Só balançou a cabeça.
Quando esteve a sos com o Henry, que tinha se tornado um amigo com quem falar, esse riu, ele não viveu nada ainda, nem sabe quem é na realidade. Deixe o ir, sempre é melhor. Eu por exemplo, fui viver longe de meu pai, para poder ser eu mesmo, não o filho do senador.
Usei durante muitos anos só o sobrenome de minha mãe, assim não me ligavam a ele. Ele sempre foi um político controverso, que dirá na sua própria vida particular, por isso me mantive a margem.
Eu estou agora, assumindo a herança da minha mãe, ela me deixou terras, algumas coisas que gosto muito. Nesses anos todos, estive trabalhando com jovens, sou psicólogo, trabalhei com jovens problemáticos. Meus companheiros me diziam que como tinha cara de anjo, acreditavam em mim.
Por isso, deixe teu filho ir, não diga nada, além de que ele tem uma idade, mas tampouco foi feliz esses anos todos ao lado de tua ex-mulher.
Quero saber o que pensas fazer de tua vida?
Pois é não falamos o tempo todo do assunto que teu pai queria que eu escutasse.
Isso ainda pode esperar, quem sabe o mais fácil, seria ires comigo até lá, para ver o que quero fazer, sim me aconselhar. Iras gostar do lugar. Primeiro porque não é aqui, não sei se sabias que minha mãe era da Africa do sul. Então tudo que herdei está lá, bem como eu vivi todo esse tempo lá. A muitos anos administrava tudo para ela.
Ele já tinha entrado em contato com a empresa que queria comprar sua parte, marcou em sua casa com o representante, justo no dia que seu filho foi embora, esse ficou de lhe dar noticias de aonde fizesse seu pouso.
O representante da companhia, veio até sua casa, sabia do que tinha acontecido, a proposta continuava a mesma. Já tinha consultado seu advogado particular, se tinha ou não obrigação de oferecer primeiro aos seus sócios. Comentou com ele, que nenhum deles tinha ido visita-lo no hospital, tinham si discutido, pois sua secretária vinha lhe passando as notícias, que estavam mais preocupados com quem ia ficar no meu lugar.
Que ele podia vender tranquilamente, sem consultar.
Assim na segunda-feira, com todos os documentos de transpasso de sua parte para a outra empresa, foi para o escritório, sua secretária como sempre com uma quantidade imensa de papeis na mão, foi falando com ele, mas fez um gesto, que agora não.
Quando entrou na sala, se fez um silencio, o que queria seu lugar, sem lhe dizer sequer bom dia, lhe perguntou se não era pronto para assumir outra vez o trabalho.
Só fez um gesto pedindo silencio, abriu a porta, fez o outro entrar, me retiro da empresa, vendi minha parte a empresa desse senhor, passarem bem, disse boa sorte para o outro.
Saiu, sua secretária estava com a boca aberta, não se preocupe, falei bem de ti para ele. Retire tudo o que é meu no escritório mande para minha casa.
Não guardava nunca nenhum documento particular ali, sempre colocava tudo num caixa forte no banco, bem como num cofre em sua casa.
O dinheiro já estava depositado em sua conta no banco. O resto não lhe importava, era como se tivesse tirado um fardo de cima. Olhou em volta, sua mesa sempre impoluta, só tinha uma foto de seu filho quando garoto, nem esse existe mais, com ela ao lado, abriu as gavetas, não precisava de nada dali, olhou o quadro que ficava atrás da mesa, era uma cópia de uma foto de um projeto que tinha dirigido. Tampouco queria isso.
Na verdade, não precisa mandar nada para mim, pegou o porta retrato, retirou a foto do filho, colocou no bolso, riu para ela, nem ele é mais assim.
Tomou um taxi, foi para casa, telefonou para o Henry, perguntou se podia vir a sua casa.
Contou rindo para ele o que tinha feito, estou livre de tudo, só farei uma coisa, antes de te acompanhar até as terras que queres me mostrar,
Vou me livrar de tudo que tenho de valor aqui. A metade das obras de artes que tinha ali, não representava nada para ele, eram herança de seus pais.
Tinha um amigo antiquário que a muitos anos queria tudo isso.
Foram almoçar com ele, queria que o livrasse de tudo aquilo, era um peso morto na sua vida.
Esse quando viu o Henry, ficou de boca aberta, já sabia o que tinha feito com a empresa, num momento que Henry foi ao banheiro, comentou, vais abandonar tudo por esse pedaço de homem, riu, eu também o faria.
Não disse nada, depois foram até sua casa, ele foi colocando uma marca em tudo que lhe interessavam, disse que estimava, em uns quanto milhões. Ia contatar os clientes interessados, assim iria recolhendo.
Depois só com o Henry ele falou do comentário do outro.
Era mais fácil eu te seguir ao fim do mundo, que tu a mim. Me apaixonei desde o momento que caíste em meus braços.
Por isso não te pude deixar nenhum momento, esperava esse momento, para fazer isso.
Se aproximou, segurou seu rosto com suas mãos, lhe deu um beijo, institivamente, segurou sua cabeça com medo de que ele se afastasse.
Da mesma maneira que começou o Henry Jr. Parou, não posso sem que saibas como sou, lhe contou sua vida, porque tinha ido para a Africa do Sul, além da herança de sua mãe.
Por culpa de meu pai, fui sequestrado a primeira vez, tinha uns dez anos, ele negou-se a pagar resgate, sempre disse que não tinha certeza que era seu filho. Resultado, dez homens abusaram de mim. Depois anos mais tardes para provocarem um escândalo, para que ele não fosse eleito, aconteceu outra vez, mas desta vez, me relaxei, deixei que fizessem tudo que queriam porque sentia prazer nisso. Ele não saiu da política por causa da minha mãe, saiu pelo escândalo que foi ele não ter feito nada. Estive internado muito tempo ele achava que eu estava louco ter prazer com muitos homens ao mesmo tempo, mas já era tarde.
Mesmo com todo tratamento, não posso controlar isso, acho melhor não começarmos nada que depois eu possa fazer alguma coisa que te pode prejudicar.
Ficou horrorizado com a conversa, vê no que dá ser bonito, como me dizem, sou sexualmente retorcido, me apaixono, mas não posso retribuir da maneira que querem, preciso sempre de muito.
Podia agora estar chorando aqui perto de ti, mas até essa capacidade perdi, a dor já não faz nenhum sentido para mim, preciso como você de um amigo em quem confiar, nunca disse nada disso a ninguém.
Por isso vivo numa mansão, numa cidade perto da capital, em cuja praia tem muitos surfistas, mas a maioria não quer nada comigo, uma das poucas maneira de me relaxar é justamente fazendo surf.
Como não tinha nada a perder, resolveu ver o que ele queria fazer, saíram de San Francisco, rumo a Paris, assim viu seu filho de passada, estava estudando artes como queria. De lá foram para Africa do Sul, se espantou, não imaginava nada disso.
Henry pagou o que devia por ter deixado o carro estacionado no aeroporto, foram saindo da cidade. Quando chegaram assim que viu a praia se deslumbrou, viu um hotel ali, no começo, perguntou se não se incomodava, ele queria estar só para pensar em tudo, que no dia seguinte olharia o que ele queria.
Conseguiu se registrar no hotel, na única suíte que não estava ocupada, ficou preocupado, suíte, devia ser imenso, mas nada era um quarto amplo, com uma saleta pequena, banheiro incluído. Riu muito, pensou que estava sendo esnobe.
Deixou a bagagem, foi andar pela praia, viu uma mansão no alto do penhasco, entendia agora mais ou menos o que lhe tinha falado o Henry, toda essa parte baixa do penhasco pertencia a ele, queria fazer cabanas para os surfistas, uma coisa moderna. Só de pensar que estariam na frente da praia, lhe agradava a ideia.
Perguntou a um surfista que saia, quando a maré subia muito até aonde chegava.
Este sinalizou que quando muito chegaria até o muro de contenção ao lado da estrada.
Mas o que gostou mesmo, foi de uma parte que estava justo ao começo, como fizesse parte da vila, não da montanha que tinha atrás, perguntou a um senhor de uma loja ao outro lado da rua, a quem pertencia, ao dono de tudo o resto ou a alguém da vila.
Esse era muito bonachão. Ali tinha minha casa, está vendo que a montanha soltou uma parte, caiu em cima da minha casa, acabou com tudo. Talvez agora consiga vender essa parte, se o Henry construir o que quer.
Quanto quer por esse terreno?
Ele disse o preço tinha dinheiro para isso, imaginou uma cabana como gostaria de fazer, o homem mostrou a casa que tinha ali, era muito tradicional. O bom é que está ligada a vila, fica mais fácil, podemos fazer negócio, mas antes falarei com o Henry, pois ele me trouxe para fazer o projeto.
Se apresentou ao homem, Paul Nez, o senhor tem algum celular desse de carga, pois o meu americano não funciona aqui.
Entraram dois surfistas, com um corpo de fazer inveja, ele os apresentou, esse é o senhor Paul Nez, que talvez faça o projeto das cabanas.
Esses dois são os veteranos, tem uma escola de surf do outro lado da rua.
Pois estou interessado em aprender, embora tenha passado minha época, sempre sonhei em fazer, nado bem, fui campeão na universidade.
Os dois lhe deram as mãos, Andrew e Jack Sparrow, riram mas não temos nada a ver com o pirata.
Ele ficou com uma cara de interrogação.
Não me diga que sendo americano não viste o filme.
Foi honesto a muito tempo não tempo para nada, para ver um filme menos ainda, estou por fora das coisas relativamente novas.
Ficaram conversando, o convidaram para tomar uma cerveja, ele aproveitou para perguntar sobre mão de obra, se era fácil de arrumar.
Podes arrumar muita gente jovem que trabalha em construção, mas normalmente, quem vem são negros que vivem nas vilas por perto.
Não notou nenhum preconceito nisso.
Eles não vem surfar?
Sim o campeão daqui é descendentes deles. Andrew disse meus filhos são todos mulatos, minha mulher é negra.
Vou dar uma olhada nas casas da cidade, ver se tem algum estilo próprio.
Nada, aqui tudo é imitação de coisas inglesas, holandesas.
Precisava comprar roupa, perguntou aonde podia comprar camisetas, bermudas, pois não trouxe nada no gênero, não tinha tempo de usar.
Eles o levaram na loja da mulher do Andrew, que era uma negra lindíssima, gostou de duas camisetas, olhou as bermudas, disse que até tinha vergonha, pois estava branco demais.
Não se preocupe, logo chega o inverno, esse pessoal todo desaparece, as aulas começam, o hotel ficara praticamente vazio, mas são as melhores ondas, claro há que usar Neoprene.
Tiveram que lhe mostrar o material, disse honestamente, sempre vi as pessoa usando, mas nunca toquei em nenhuma.
Nunca tiraste férias?
Na verdade não, não tinha com quem viajar, estava sozinho, me joguei no trabalho.
Pensou para si mesmo, como perdi tempo, em voz alta soltou agora penso em recuperar esse tempo perdido, a primeira coisa é aprender a fazer surf.
Viu que Henry estava ali, falando com algumas pessoas, os apresentou, o engenheiro que fui buscar.
Foi honesto de dizer que tinha adorado o lugar, vim de um lugar cheio de praias, mas as que nunca ia, agora estou perto de um lugar como sempre sonhei.
Foram comer alguma coisa, viu que todo o mundo conhecia o Henry, cheguei aqui como um belo desconhecido, mas a mansão da família da minha mãe, voltou a se abrir, temos plantação do outro lado de laranjas, então comecei a melhorar a vida do pessoal.
Comentou com ele do lugar que era do homem da loja.
Ele está louco para vender, mas não faz parte dos meus interesses.
Então posso comprar para construir uma casa para mim.
Pensas em ficar aqui.
Pode ser que sim, senão será um investimento. Estive olhando de longe, teríamos que proteger toda a encosta, forrar com uma tela de metal, recobrir por cima com concreto, alisar tudo, seria necessário um estudo geológico da área, não sei como funciona aqui.
Foi ao mesmo tempo desenhando na toalha de papel o que pensava, seria necessário fazer uma vala, na parte baixa, para que a agua da chuva escorra para outro lado, pois senão poderia inundar as cabanas.
Henry ria, foi o que meu pai dizia, tu olhas, em seguida começas a imaginar.
Agora era o Henry que desenhava, uma parte mais larga, faria cabanas mais grandes, tipo que uma pessoa pudesse morar com a família, depois essa parte vai ficando estreita, seria pequenas para os surfistas, as últimas na parte mais estreita mesmo, seriam mínimas para o pessoal que vive fora guardar suas pranchas.
Amanhã de manhã te mostro desde cima, creio que vais gostar, inclusive tem uma parte que se pode construir a cabana que pensaste para cá. Já verás.
O deixou no hotel, voltou a falar, que esperava que não o tivesse assustado com sua história.
Henry, eu só quero dar uma volta na minha vida, aproveitar o que não aproveitei, sonhei quando jovem fazer surf, mas meus pais eram controladores não permitiam, creio que será o primeiro que farei.
Quando caiu na cama, teve o sonho dos justos, apagou.
Despertou de madrugada com um temporal de fazer gosto, olhou pela janela, os relâmpagos sobre o mar, era como se duas forças da natureza se encontrassem, ficou ali sentado numa poltrona olhando, acabou dormindo ali.
Logo pela manhã, depois de tomar café como gostava, só comeu umas tostadas com um pouco de queijo, nada mais.
Henry o estava esperando, foram olhar pela parte de cima, a vista era impressionante, eu construiria as cabanas aqui, disse rindo devem valer mais.
Foi mostrando a ele o ponto aonde se devia colher amostras para a prova de resistência do terreno, de qualquer maneira, como não conheço os custos daqui, isso pode ser um projeto seguinte se te interessa.
Explicou como devia ser toda a parte de cobertura, terás que chamar um especialista em terreno, que conheça a terra daqui. Isso eu não posso fazer, o que farei em seguida, será desenhar para ti as ideias que eu tenho das cabanas.
Quando o deixou de volta no hotel, viu do outro lado o Jack Sparrow, atravessou a rua, foi falar com ele, se por um acaso, não conhecia uma casa ou apartamento que ele pudesse alugar para montar um escritório de engenharia, precisava desenhar.
Pensei que Henry fosse te ajudar nisso?
Eu vou por livre ele sabe disso, odeio que as pessoas tentem me controlar, queria um lugar calmo, com alguma vista, pois para pensar gosto de ficar olhando o horizonte.
Venha comigo, deu um grito para dentro da escola que já voltava, viraram a esquina, passaram pela praça, logo mais à frente era o monte que fechava a baia da praia do outro lado.
Eu vivo por aqui, minha casa é recente, voltei para cá a muito pouco tempo, depois de deixar os circuitos de campeonatos de surf. Sentia falta aqui da cidade, de uma vida mais tranquila.
Com teu irmão, não te casaste?
Não esperava a resposta dele, sou gay, imagina nesses circuitos aonde só escutas merdas, eu sendo um dos mais velhos no ranking, dizer publicamente sou gay.
Nada, levei uma vida de merda no armário, até que há dez anos atrás voltei para cá, mas aqui é uma cidade pequena. Henry ainda me tentou para participar de suas festas dizendo que talvez eu encontrasse alguém que gostasse. Mas nem pensar, eu sei que sou gay, gosto de homens, mas não quero nada disso para minha vida. O que vou lhe mostrar, são duas casas iguais, uma delas é a minha, a outra mandei construir, para vender num futuro. O arquiteto que as desenho, construiu a minha, antes de terminar totalmente a segunda, começou a andar com o Henry, se fudeu totalmente, não estava preparado para essas loucuras, com drogas, sexo etc.
Acabou indo embora, antes de ficar louco como ele dizia.
Deram com uma pequena enseada, aqui do lado oposto ainda vivem os pescadores, indicou para ele, nessa praia quase não faz ondas para o surf, então é como uma praia familiar, no verão durante o dia, se escuta barulho, mas no final do dia é um remanso de paz.
Viu as duas casas, eram modernas, uma estava pronta, moro aqui, a outra, tem a parte de baixo pronta, imagina estão inclusive encomendadas as janelas, vidros que a fechavam, mas como ele foi embora, fiquei sem dinheiro, pois tive que pagar a obra. A coloquei a venda, venha ver, entrou correndo em sua casa, para buscar as chaves.
A porta de entrada se via que era provisória. No andar de baixo, faltava alguns acabamentos, por exemplo o salão tinha o chão de uma madeira muito bonito, mas não estava ainda lixado, o quarto era nos fundos, dava para a outra praia. Era um quarto imenso, com banheiro. Tudo isso estava pronto, inclusive tinha uma cama ali, mas faltava o colchão. O louco do arquiteto se olhares no andar de cima há uma marca no chão de um colchão queimado, ele quase morreu ali, pois estava tão drogado, que dormiu com o cigarro acesso. A cozinha também estava montada, era americana aberta para o salão, faltava era na parte detrás da ilha que separava do salão colocar madeira no chão.
Subiram a escada faltava revestimento, ele já tinha começado a imaginar como fazer, aqui não se chegou a acabar, o coitado trazia aqui todos os homens que encontrava, ficou alucinado, queria fazer sexo todo o tempo. Era como um loft, faltava terminar o banho, não havia divisória nenhuma. Mas claro faltavam as janelas, por uma escada subiram na parte de cima, a sua tinha uma cobertura muito moderna de painéis solares, assim era a ideia, que o sol que temos aqui servisse para sustentar a parte elétrica, como na minha casa.
Quanto você quer por pela casa?
Ele disse um preço, ele fez o cálculo, transformando para dólares. Teria que saber se seu apartamento tinha sido vendido ou não, pelo preço dele, essa casa como estava, custaria um terço do valor.
Foi até a parte frontal da casa, se sentou, ficou ali olhando a paisagem, Jack fez o mesmo, adoro fazer isso, se olhas para minha casa, eu tenho duas poltronas com uma mesa, justo aqui para poder olhar o mar.
Já eu viveria na parte de baixo, aqui seria meu studio, penso em voltar a pintar, desenhar, recuperar algo da minha juventude.
Nem reparou que a mão do Jack estava pousada em cima da dele.
Quando viu, começou a rir, desculpe, estava com a cabeça como sempre funcionando a mil, as vezes fico totalmente abstraído.
Fazes o meu tipo de homem, te tenho na cabeça desde que vi, mas pela primeira ver estou sendo afoito.
Se viraram um para o outro, trocaram um beijo prolongado. Se sentiu super bem.
Ele explicou quando estava com alguma coisa na cabeça, tinha que resolver.
Podemos nos sentar para conversar, ou preferes primeiro ir para a cama, para saber se valemos juntos.
Venha até minha casa. Ele o seguiu como um cachorro abandonado.
Da porta um foi tirando a roupa do outro, ele tinha a pele curtida do sol, que o excitava, não se cansava de passar a mão por ela. Quando se deu conta, estavam na cama, se explorando, riu, caralho, não sinto isso desde que era um jovem idiota.
Seguiram em frente, quando tiveram um orgasmo simultâneo, ficaram abraçados se olhando.
Só uma coisa Jack, nunca vivi com ninguém a não ser a época que estive casado, estou acostumado a estar sozinho para poder trabalhar, mas o fato de podermos viver lado a lado, gosto, assim podemos viver uma aventura.
Nus como estavam se sentaram ficaram conversando, falou tudo o que tinha pensado. Terei que falar com meu advogado, teria que ver como transferir dinheiro para ti.
Mas de momento posso sinalizar, isso posso, ao mesmo tempo podes mandar entregarem e colocarem as janelas, pois se são iguais as tuas, gosto.
Tens credito comigo, voltaram a fazer sexo. Desta vez o penetrou, foi como uma coisa louca, não queria parar, quando Jack gozou, ele ficou como louco o beijando.
Foram tomar um banho juntos, ele perguntou se não tinha tido uma aventura com o arquiteto.
Eu não fazia o tipo dele, além de que ele logo se enrolou com o Henry. Era um tipo bonito.
Mas creio que eu esperava algo especial, como o que tivemos hoje, é a primeira vez que me sinto assim.
Escutaram alguém abrindo a porta, era o André, que ficou rindo, pela demora fiquei preocupado, os dois seguiam nus. Ele apontou para o Paul, cuide bem do meu irmão, é o bem mais apreciado que tenho.
Foi embora rindo.
Sempre temi esse momento, em que ele me visse com alguém, mas reagiu bem. Ele ao contrario de mim, quando estava nos torneios de surf, fazia sexo com todas as garotas que apareciam, mas quando voltou para cá, muito antes de mim, se casou com sua companheira de escola. Nunca escondeu dela nada.
Se tens um advogado aqui, podemos fazer isso, além de que, eu preciso autorização para viver no pais.
Não voltou ao hotel nesse dia, ficaram disfrutando tudo que podia juntos, nunca tinha se sentido tão bem em sua vida, era como pensava as vezes, estava num porto seguro.
Jack o pegou de manhã sentado anotando coisas, enquanto preparava café para os dois, ele foi dizendo como queria fazer tudo, uma parte do andar de cima ia revestir de madeira a parede, mas o chão ia mandar passar cimento, alisar, pois como seria seu studio, futuramente tinha que ter algo que se pudesse limpar facilmente.
O resto pintaria tudo de branco.
Estas decidido mesmo a comprar, ficarás aqui?
Queres que vá embora?
Não ao contrário, quero que fiques, quero te conhecer direito, ir em frente.
Voltaram a se beijar, esqueceram do café, voltaram para a cama.
Tomaram banhos juntos outra vez, gostava demais de estar com ele.
O café estava horroroso, fizeram outro, nunca tenho nada em casa, como na escola.
Podemos ir até lá, assim vou ao hotel, troca de roupa.
Uma proposta para pensares, enquanto fazes a obra, porque não ficas aqui em casa, use a parte de baixo da outra por enquanto para fazer o projeto, se não me engano numa das paredes tem um mesa dessas de projetos, que podes usar.
Mas enquanto isso ficas aqui. Depois se quiseres, quando tudo estiver pronto passas a dormir na tua casa.
Ficaram rindo, mas uma coisa tens que fazer?
O que disse o Jack?
Me ensinar a fazer surf, um velho sonho, já te contei.
Mas para te ensinar, terei que me deitar em cima de ti.
Nada mais justo.
Saíram rindo como duas crianças, se aproximaram várias crianças que iam para a escola.
Olhou para a praia, viu que estavam chegando barcos de pesca, se quero se pode ir comprar quando chegam os barcos.
Sim, claro, nunca te cobraram muito, se gostam de ti. Mas nenhum fara nada grátis contigo como eu.
Para de me provocar, se encontraram com a cunhada do Jack, que riu, caramba Jack nunca te vi com esse sorriso imenso na cara.
Estou apaixonado, essa é a verdade.
Foram tomar café, ele comentou que precisava de um carro, bem como alguém para ser seu guia na cidade para ir comprar material.
Posso te levar, assim se quiseres podemos falar com o advogado, para tu conseguires a residência.
Perfeito, vou até o hotel, trocar de roupa volto.
Me espere lá, vou falar com meu irmão, depois vou buscar meu carro, mas cuidado é velho.
Subiu para seu quarto rindo, tinha vontade de gritar de felicidade.
Colocou uma das roupas que tinha comprado na loja da mulher do André.
Desceu cantando pela escada, entregou a chave, tinha deixado a maleta pronta, para a hora que fosse voltar.
Foram primeiro ao advogado, na cidade do Cabo, esse tirou cópia do seu passaporte, de todos os documentos que tinha, número de conta do Banco, lhe deu o contato com seu advogado, lhe perguntou se podia chamar dali o seu de San Francisco.
Claro, sem dúvida nenhuma, lhe estendeu um cartão com o nome de Jasper Van Brouken, falou com o advogado, lhe passou seu número de celular, bem como o do Jasper, falou que era o advogado que tinha acabado de contratar, iria tirar um autorização de residência, talvez precise falar contigo. Alguma boa notícia?
Sim, vendi teu apartamento, o dinheiro está depositado no banco.
Comentou com ele que estava comprando uma casa, queria que ele combinasse com o Jasper como transferir esse valor para a conta do proprietário, para poder fechar negócio.
Os deixaram falando, a secretária do Jasper, lhes indicou aonde podia comprar material. Avisou que era mais caro que nos outros lugares, pois tudo é importado.
Teria que voltar ao escritório, assim chamaria seu filho, lhe pediria que lhe mandasse material.
Comprou tudo que podia comprar, folhas grandes para desenhar, viu umas mesas de trabalho, bem feitas, em que podia guardar papel embaixo, a compra foi grande, perguntou se podiam mandar para ele. Realmente quando fechou a conta, ficava caro, mas foda-se pensou.
Quando voltaram para o escritório, Jasper estava contente, tinha conseguido um cliente que tinha dinheiro, iria providenciar tudo. Assim que o dinheiro fosse transferido, ele prepararia a escritura do local.
Pediu se podia abusar, precisava falar com seu filho em Paris, esperava encontra-lo acordado.
Atendeu no primeiro momento, ficou conversando como iam as coisas com ele, ia expor em breve, estava contente.
Por tua culpa, um dia te conto a história, resolvi voltar a pintar, desenhar, que sempre gostei. Precisavam que me comprasses aí pigmentos, papeis para pintar a óleo ou acrílica por cima.
Uma coisa, quando é a tua exposição?
Daqui uma semana, por quê?
Gostaria que eu fosse?
Seria genial pai, minha mãe nunca me incentivou, mas tu sim.
Então reserve um hotel por perto do teu studio, assim vou compro o que quero, além de poder conversar contigo, quero trocar ideias contigo.
Quando saiu da sala, olhou Jack de frente, lhe perguntou, queres fazer uma viagem comigo?
Ir aonde?
Meu filho inaugura uma exposição em Paris, assim aproveito para comprar material, olhar coisas, quem sabe encarar como uma lua de mel.
Ficaram um olhando para o outro rindo.
Não estamos indo rápido demais?
Olha Jack, já não sou jovem, viste minha cicatriz, quero aproveitar minha vida, nem sempre aconteceu isso, encontrar uma pessoa que gosto. Quero tentar.
Então vou, podemos reservar avião lá mesmo da cidade, uso sempre uma amiga que tem uma agência.
Antes passaram na empresa que tinha pronta as janelas, pagou tudo, mandou instalar, a resposta do visa foi rápida, disseram só que iam confirmar as medidas, para saber se não tinha dilatado nada.
Ele disse que estaria lá, pois tinha que esperar que chegasse as coisas que tinha comprado.
Foram almoçar os dois num lugar que ele amou, na beira da praia, comendo mariscos.
O Jack relaxado era mais bonito ainda, sem querer, querendo esbarrava na sua pele, para sentir que era real o que lhe acontecia.
Jack lhe disse que nunca tinha ido a Paris, que só conhecia o aeroporto, para trocar de avião nada mais.
Eu tampouco conheço muito, mas podemos descobrir as coisas juntos.
Quando chegaram ainda passaram numa loja de colchões, aonde comprou um para a cama de sua casa.
Iam comprar as passagens, mas Jack antes fez questão de falar como o irmão, esse ria muito, só de ver tua cara, fico feliz, minha mulher disse que nunca tinha visto esse sorriso permanente em tua cara.
Se encontraram com ela, lhe contou ao ouvido que iam a Paris? Ela soltou uma gargalhada contagiosa, o abraçou, meu querido não era sem tempo.
Aproveitou, perguntou se não conseguia uma pessoa para limpar a casa.
Jack lhe explicou que tinha comprado a casa ao lado da sua para trabalhar.
Claro que arrumo, falo com a senhora que limpa lá em casa, com certeza arruma uma. Tem problema que seja uma senhora negra.
Nenhum, não tenho preconceitos.
Passaram pela agência, reservaram os bilhetes, em executiva. Ele queria pagar a do Jack, mas ele se negou.
Podíamos tomar um banho de mar, que te parece?
Passaram na loja da Daisy, comprou uma sunga de praia, Jack disse que ninguém usava assim, escolheu para ele, uma bem estampada, dessas que usam os turistas.
Acabou levando as duas, passaram pelo hotel, ele fechou a conta, tinha um recado do Henry, avisando que ia de viagem, que ele fosse tocando o barco em frente.
Levou suas coisas para a casa do Jack, de lá foram para a praia ali na frente, nessa hora de final da tarde não tinha ninguém na praia. Quase fizeram sexo na água, mas lhe dava vergonha, um dia desse faremos ok.
Nessa noite enquanto comia, contou para o Jack basicamente sua vida, o que tinha acabado de deixar, o reencontro com seu filho, durante o tempo no hospital, depois o tinha visitado em Paris, gosto do trabalho dele.
Finalmente conseguiu se livrar das garras de sua mãe.
Fizeram sexo, dormiram agarrados uma ao outro. Sentia que isso podia virar realmente um relacionamento.
No dia seguinte apareceu a Daisy com uma senhora negra, que devia ter mais ou menos sua idade, com o cabelo todo em tranças. Gostou dela de imediato, tinha um sorriso cativante, explicou o que queria, hoje limpar todo o andar de baixo, pois enquanto o de cima na estivesse pronto, trabalharia ali. Comentando com a Daisy o que faria como acabamento em cima, a senhora disse que seu marido tinha um equipe de obras.
Diga que venha até aqui.
Ela se chamava Baby, dizia que era uma diminutivo. Lhe deu dinheiro para comprar material de limpeza, tudo o que precisava.
Queria limpar a parte da frente, enquanto esperava a entrega da papelaria, montaria uma mesa ali.
Falando com a Daisy, disse que adoraria ter ali duas poltronas dessas antigas de orelhas, mas que não tinha visto nenhuma nas lojas.
Quando a senhora voltou, ela disse que a acompanhasse, tenho um amigo que tem uma loja de antiguidades, vamos até lá quem sabe encontra o que queres.
Não era muito longe, no caminho Daisy soltou que estava feliz, por Jack, fazia muitos anos que não o via sorrir como agora, sei que está apaixonado por ti, ele seguiu o irmão nos circuitos, mas claro não era feliz, enquanto o André era um sem vergonha, ele se guardava para amar alguém. Mas claro nunca encontrou a pessoa certa, isso que ele já tem certa idade.
Acabas de me chamar de velho, pois tenho alguns bons anos mais que ele. Mas estamos descobrindo isso de viver juntos.
Comentou do porquê ir a Paris, estou tentando recuperar o relacionamento com meu filho, estivemos muitos anos afastados.
Ah se eu pudesse iria junto.
Chegaram à loja, saiu um mulato muito bonito, olhou para ele de cima a baixo, como dizendo UAU, mas Daisy cortou o barato, dizendo tem dono.
Ficou encantado com a loja, encontrou duas poltronas com queria, de couro marrom escuro, o outro comentou que tinham chegado ali em péssimas condições, mas que as tinha recuperado, gostava como estavam arrumadas, com uma mesa redonda no meio, um abajur de pé de cada lado. Bela composição.
Eu gosto de montar assim para as pessoas terem uma ideia.
Ok, fico com o conjunto se me entregas em minha casa, hoje à tarde.
Claro que sim, mais alguma coisa, ele achou duas mesas de cabeceira antigas, com um tampo de mármore verde, foi separando as coisas que gostava.
O outro só torcia a mão.
Queres dizer que viveras aqui?
Tenho que viver aqui, está a pessoa que amo, além de não ter mais casa em San Francisco, vendi meu apartamento lá.
Viu uma escultura muito bonita negra, o rapaz logo disse que não era antiga, mas sim de um rapaz dali.
Fico com ela também. Não se cansava de olhar para a mesma, era uma figura estilizada, em estilo africano, mas moderno.
Ele vai ficar feliz da vida, trabalha com o pai, faz isso quando pode, aí me traz, ou para a Daisy, colocar na loja para vender.
Depois de pagar, ele disse que tinha que voltar para casa, pois iam começar a chegar as coisas.
Mal chegaram viu descarregando as armações das janelas de cima.
Tinha um senhor ajudando, Baby o apresentou, meu marido Peter.
Ele disse que tinha trabalhando na obra da casa, pena que o homem foi embora, parou tudo.
Pois acabo de comprar a mesma, mostrou o que queria fazer embaixo. Acabar o revestimento de madeira do chão.
Depois subiu com ele, disse como queria o chão, bem como terminasse o banheiro, ele perguntou sobre as paredes.
Riu, nenhuma, aqui vai ser meu studio, vou desenhar, pintar, aqui, sou sozinho, a parte de baixo me basta, aqui usarei para trabalhar.
Depois mostrou aonde estavam colocando o vidro na frente, aqui quero que alguém construa para mim com um banco largo de madeira.
Quando chegaram as mesas da papelaria, ele perguntou se iam colocar os vidros pela tarde, pois assim já montaria ali. Como confirmaram, o Peter passou a mão no celular, ligou, pediu para trazerem ferramentas, apareceu uns vinte minutos depois, um rapaz que era a cara da Baby, meu filho apresentou ela.
Deixou os dois montando a mesa, a moveriam quando fizessem o chão.
Se eles fecham as janelas hoje, amanhã posso começar a colocar o cimento como o senhor quer, alisar, vamos fazendo aos poucos para ficar bem feito.
Depois desceram, em cima da bancada da cozinha, estavam os papeis o material que tinha comprado, viu o rapaz lavar a mão, alisar os papeis com gramatura.
Imaginou que seria ele o escultor.
Nisso, chegou os moveis, Baby já tinha limpado a parte que ele queria, foram colocando as poltronas já no lugar, viu que faltava aonde ligar os abajures, o Peter anotava num bloco pequeno isso.
Quando o rapaz viu chegar à escultura, abriu um sorriso imenso. O pai tinha lagrima nos olhos, é meu filho, quem tem bom gosto sabe apreciar teu trabalho.
Ele perguntou ao Bradford, se ele tinha mais pequenas, disse aonde gostaria de colocar, bem como gostaria de levar alguma para meu filho, ele é pintor, vive em Paris.
Meu sonho de consumo, soltou ele, adoraria poder estudar arte. Trabalho por instinto.
Claro depois posso trazer para o senhor ver, ou se quiser ir até lá em casa, tenho bastante.
Vamos acabar aqui, eu nunca deixo para amanhã o que posso fazer hoje.
Colocaram tudo no lugar, ele ainda perguntou a Baby, se podia cozinhar para ele, deixar na geladeira. Eu normalmente me esqueço de comer, quando estou trabalhando.
Claro que sim, quantas vezes o senhor quer que venha por semana.
Que tal se começamos três vezes por semana, para começar, eu em San Francisco, tinha uma senhora que ia todos os dias, nem a via, reclamava como eu estava fora, que acabava esquecendo de comer. Era uma verdade, sempre trabalhei demais.
Mas aqui, como vou trabalhar em casa, já veremos.
Lhe perguntou quanto cobrava, acertou com ela já o dia, agora vou com o garoto, olhar suas obras, tens carro, eu preciso comprar um, pois ando abusando dos outros, sou muito independente.
Baby soltou que seu irmão vendia de segunda mão.
Perfeito, isso de carros modernos, cheios de merdas, para aparentar não é comigo.
Ele entendeu quando iam chegando, que entrava na parte da cidade que era negra, ainda pensou eu sou branco demais para essa gente.
Viviam numa casa modesta, mas se via perfeitamente limpa, arrumada, o rapaz trabalhava na garagem. Ficou encantado, viu uma escultura pequena de um surfista, separou para dar de presente ao Jack.
Separou as que gostava, as imaginou na casa. Adorou uma mesinha esculpida num tronco, em que os pés era um homem como um atlas segurando a parte de cima.
Ia ficar perfeita ali, ao lado das poltronas, já arrumaria lugar para a que tinha comprado.
Perguntou quanto era tudo, teria que tirar dinheiro de um caixeiro desse para lhe pagar.
A cara do rapaz era de felicidade, nunca vendi tanto, meu pai vive dizendo que se vou viver, morrerei de fome.
Eu ao contrário, acho que tens talento, gosto do seu trabalho. Podia sair comprando essas imitações de esculturas antigas, as tuas tem um toque muito moderno.
Vou agora a Paris, assistir a vernizasse de meu filho, vou aproveitar comprar material.
Queres alguma coisa?
A cara do rapaz era ótima, o senhor nem me conhece, já comprou muitas coisas, que mais posso pedir.
Bom eu quero que um dia poses para mim. Ok.
Voltaram, ele o ajudou a subir o material que tinha comprado para as duas mesas já prontas.
Depois chegou o colchão, abriu os armários, viu que não tinha roupa de cama. Anotou isso.
Preparou uma mesa para desenhar como queria, separando lápis essas coisas.
Quando chegou o Jack na hora do almoço, não viu o Brad, como ele gostava de ser chamado, o beijou. Caramba, já fizeste uma grande confusão pelo visto, ficou ótimo, depois podias dar um jeito na minha casa.
Lhe entregou a pequena escultura do surfista, foi então que viu o Brad, ficou vermelho, olá colega, fazemos surf no mesmo grupo.
Subiu com os dois atrás dele, o Peter ainda estava por ali, tirando medidas do banheiro, ele lhe explicou que não queria uma pia normal, queria uma dessas feitas, explicou para o que era, para lavar pinceis, coisas brutas, rindo soltou, um lugar para cagar em paz, um chuveiro, pois gosto muito de tomar banhos.
Depois lhe mostrou duas paredes, queria revestir de placas, pois gosto muito de pintar na parede, era o que fazia quando era jovem, como teu filho, mas meu pai me cortou as asas, dizendo que não tinha futuro.
Peter tirou as medidas. Posso encomendar, vir colocar.
Olha Peter dentro de dias, vou de viagem, mas deixo a chaves com tua mulher, que vira limpar essas coisas, assim vais fazendo as coisas que te pedi.
No final do dia, estava feliz como a muito tempo não estava.
Ficou desenhando o rosto do Jack que tinha em sua cabeça, principalmente quando ele falava, com seus cabelos largos, de cor indefinida, todo raiado do sol.
Este quando chegou viu a luz acessa, subiu. Ficou parado na porta, chegou por detrás dele, dizendo quem é esse sujeito. Depois ficou olhando seu retrato, mas se eu não posei para ti?
Eu tenho a tua imagem gravada na minha cabeça.
Venha vamos jantar, hoje jantaremos na casa do meu irmão, mas antes temos que tomar banho.
Foi um banho demorado. Segurou a cara do Jack, nunca fui tão feliz, como estes dias contigo, estamos indo a galope, mas não quero me separar de ti.
O jantar foi super agradável, as crianças adoravam o tio, o aceitaram de imediato como amigo dele.
André, riu, minha mulher diz que tens um ritmo impressionante.
Talvez, mas sempre fui assim, talvez por isso carreguei muito tempo a empresa, era socio principal, os outros se aproveitavam, pois sempre tomei decisões rápidas, sou consciente que a culpa numa parte é minha, por ser assim. Nunca deixo para depois o que posso fazer imediatamente.
Jack soltou, eu imaginei que íamos namorar meses até surgir algo.
Todos riram, eu guardei tua figura quando conheci os dois, acho que foi quando me apaixonei, nisso eu sou lento, pois quando me divorciei, levei muito tempo magoado, não a amava, mas perder meu filho que adorava foi muito para mim. Vivia em San Francisco, ela foi viver com ele em NYC, ia sempre que podia, mas ela jogou o garoto contra mim, sempre foi possessiva.
Agora ele se livrou dela, vive em Paris, quando passei mal o Henry conseguiu localiza-lo, ele veio ficar alguns dias comigo, mas claro falta muito para a antiga camaradagem que tinha com ele.
Mais tarde em casa, os dois combinaram que iriam se revezar de casa, um dia dormiriam na sua, outra na dele. Os dois adoravam ficarem deitados conversando na cama, depois de fazerem sexo.
Se aproximou do Jack, lhe disse ao ouvido, eu nunca me deixei possuírem, mas quero isso contigo, pois não é justo só eu te penetrar, mas terás que ter paciência.
Foi o mesmo que acender a chama outra vez, Jack o provocou tanto, mas tanto, que quando viu já estava dentro dele, se mexia devagar, lentamente, ele alucinou, teve um orgasmo, sem tocar-se.
Caramba, nunca pensei nisso, ficaram se beijando, foram tomar um banho para dormir.
Contigo vivo tomando banhos.
No dia seguinte perguntou se ele tinha roupas de inverno, pois em Paris estaria frio.
Sim, tenho alguma coisa desses abrigos de plumas,
Ele também tinha um, depois compramos alguma coisa lá, pois tampouco tenho roupa.
No dia seguinte tudo estava em movimento, colocavam os vidros, como já tinham colocado na traseira, Peter com mais dois homens faziam o banheiro.
Se isolou totalmente, como sempre fazia, os homens falando, ou fazendo barulho não le incomodavam. Estava desenhando as cabanas como imaginava. Ao lado detalhava como uma planta baixa como seriam.
Não viu que Brad, estava ali ao lado prestando atenção.
Sorriu, disse que era o projeto que tinha vindo fazer. Explicou o que era.
Tenho inveja, mas no bom sentido, sempre quis desenhar, mas claro nunca sobrou dinheiro em casa para isso, meus irmãos agora têm sua vida, eu fiquei para trás.
Dois dias depois embarcaram, a felicidade do Jack era uma coisa patente, ia fazer uma viagem de lua de mel, com o homem que amava.
Major os foi buscar no aeroporto, os apresentou, mas não disse nada. Ele pediu desculpas mas estava montando a exposição, precisamos de roupa para ir, como é.
Sei lá pai, eu irei como gosto de andar, alias uma maneira que o senhor sempre fez no inverno, uma gola alta, um casaco, calças negras, para mim é perfeito.
Os deixou no hotel, eles depois de um banho, riram porque não podiam tomar banho junto, o espaço só cabia uma pessoa.
Enquanto um fazia a barba, outro tomava banho.
Se vestiram, saíram. Vou te mostrar uma zona que gostei muito quando aqui estive.
Pegaram um mapa na recepção do hotel, aproveitaram para trocar dinheiro.
Foram para Saint Germain de Prés, ficaram vagabundeando o dia inteiro, acabaram encontrando o que queriam comprar. Já tinham roupa para ir a vernissage.
No dia seguinte, foram fazer os lugares turísticos, riam como duas crianças, ele tinha ido com o Henry, mas era diferente.
Do hotel falou com o filho, ele passaria para pega-los, o esperaram na recepção, ele chegou acompanhado de uma garota linda, apresentou como sua namorada.
Ele rindo apresentou o Jack como seu namorado. A cara do filho era ótima.
Quando chegaram, os apresentou ao dono da galeria, imediatamente alguém ofereceu champagne, mas eles dois disseram que não bebiam. Foram olhando os quadros, estava feliz, o trabalho de seu filho era ótimo. Ficou parado na frente de um que era ele quando jovem, justamente quando o filho tinha ido embora. As lagrimas rolava na sua cara, sentiu que o filho estava atrás dele. Lhe disse, quando fui embora, essa era a imagem que ficou na minha cabeça, tu me dizendo para ter coragem.
Que pena que foi vendido, já tinha uma marca vermelha no mesmo.
Não está a venda papai, é para o senhor.
Se virou, abraçou o filho, estou emocionado, teu trabalho realmente é super, como dizem os franceses.
Depois aquilo foi enchendo, percebeu que se começava a vender.
Lá pelas tantas estava aturdido, viu a cara do Jack, saíram de fininho, na porta falou com o filho, ele lhe disse, depois vamos jantar, lhe indicou um bar na esquina, me espere lá.
Ficaram conversando, sobre o que o quadro tinha significado para ele.
Fico imaginando a cabeça do meu filho ao longo desses anos, sua mãe falando mal de mim, essas merdas que acontece, primeiro porque foi um casamento arrumando entre famílias, depois ela não encaixava em San Francisco, ou não queria encaixar. Erámos dois estranho vivendo na mesma casa, eu adorava meu filho, ela tinha ciúmes disso.
Estou muito feliz que estas aqui comigo, Jack, muito mesmo.
Ele sorria, mais feliz estou eu.
Seu filho chegou sozinho, disse que a namorada tinha ido embora com seus pais, assim podemos conversar. Olhou para o Jack, então eres o namorado do meu pai?
Si nos conhecemos, ele me comprou uma casa ao lado da minha, aí foi um passo.
Ele contou para o filho o que estava fazendo na casa, quando quiseres podes vir, sei que vais gostar do lugar. Por tua culpa, voltei a desenhar, mostrou no celular o retrato do Jack, nada como tu, pois estou enferrujado, pois faz muitos anos que não fazia isso.
Trouxe um presente para ti, amanhã te entrego, pensei que ias sair com teus amigos.
Na verdade pai, não tenho muitos, alguns vieram a vernissage, alias a garota, não é minha namorada, mas sim uma colega de Belas Artes, sou como o senhor gay, por isso fiquei surpreso.
Ele abraçou o filho, espero que encontres alguém de quem gostar meu filho, eu passei muitos anos sozinho, meio amargado, sentia tua falta, o fato de não poder me comunicar contigo direito me afetava muito, mas quando te vi no hospital, pensei, ainda sou importante para ele.
Porque não vens conosco, se o studio estiver pronto, podes trabalhar lá também.
Já vi que como eu, gostas de trabalhar no papel, alias aonde posso ir comprar material, depois mandar para lá.
Amanhã levo vocês lá.
Ficaram conversando até tarde, tomaram um taxi para o hotel, o filho ia caminhando a pé para seu studio.
Nessa noite fazendo sexo com Jack, era como se ele brilhasse, na penumbra do quarto.
Estavam felizes, isso lhe dava um pouco de medo, mas queria aproveitar esses momentos.
No dia seguinte, foram tomar café com Major, este estava feliz, o dono da galeria, tinha lhe telefonado, tinham vendido 80 por cento da exposição.
Lhe disse que ia a Africa do Sul, com o senhor, para buscar novas inspirações. Lhe entregou a pequena escultura do Brad, lhe disse que tinha comprado várias, um rapaz sem oportunidades, penso em ajuda-lo.
Mal entraram na loja que ele levou, disse que ir ali, era melhor que ir a Disney. Lembra-se quando fomos os dois. Major ria, nunca me esqueci, como nos divertíamos.
Ele tinha uma lista do que queria, comprou tudo além de pigmentos, em embalagem grandes, tinha perguntado se podiam despachar para ele. Deu endereço, lhe deram um cartão se quando quisesse encomendar, lhe mandariam.
Saíram dali felizes, ficaram passeando, Major, lhe foi mostrar os lugares que gostava de Paris, eram lugares simples, entraram numa livraria, comprou alguns livros, dois de esculturas modernas.
Comprou também uma câmera de fotografia, com um bom zoom, assim podia registrar o que queria.
Depois foram ver bilhete para o Major, voltar com eles.
Jack tinha falado com o irmão, que na obra a parte de cima já estava basicamente terminada, estava era secando o local. Quando chegarem já estará tudo em ordem.
Acabou-se a semana, tinham comprado presente para todos.
Quando chegaram, Jack retirou seu Jeep do estacionamento, Major disse que adorava o jeep, o melhor é quando tenho a capota arriada, com o vento na cabeça.
Quando foram chegando, Major, se deliciou com a praia.
Quando chegaram em casa, ele disse que podia ficar no que seria seu quarto, que ele dormia na casa do Jack normalmente. Aliás nunca dormi aí.
Não tinham roupas de cama, mas Jack resolveu o problema. Seja bem-vindo, garoto.
Sabia que os dois tinha conversado durante o voo, pois ele estava cansado, tinha dormido.
Logo apareceu a Daisy com as crianças, correram para os dois, apresentou seu filho, um dos garotos virou-se para o outro, que pensa, pensávamos que era da nossa idade, que ia brincar com a gente.
Jack soltou, vocês vão ter que lhe ensinar a fazer surf, se animaram.
De noite dariam o presente para todo mundo. Mais tarde apareceu a Baby, que arrumou a cama para o Major. Se surpreendeu, que ele trazia a escultura pequena que lhe tinha dado, colocou na mesa de cabeceira.
Depois andou pela sala, olhando cada uma, são geniais pai.
A parte de cima da casa, lhe encantou, ufa, realmente devia ter trazido material.
Esqueça tem esses, depois chegam o que comprei, podemos compartir.
Depois apareceu o Peter com o Brad, lhe entregou os livros que ele abraçou, mas não tirava o olho do Major, este dele, falou que tinha gostado do seu trabalho, eres muito bom, desenhas também.
Sim, fico contente com isso, mas disponho de pouco material.
Bom teremos material de sobra, podes vir trabalhar aqui também.
Depois foram comer com o André, que abraçou o irmão, estava sentido sua falta, embora seja baixa temporada, teremos mais alunos.
Depois ficaram sentados na praia olhando o mar. Ao final caíram todos n’agua para um banho.
Isso sim é vida disse o Major, em Paris não se pode fazer nada disso.
No dia seguinte, depois de despertar com o homem que amava em seus braços, tomou banho foi trabalhar, Jack apareceu depois com uma taça de café, precisava comprar tudo isso, daria dinheiro a Baby para isso, ele era terrível com essas coisas.
Estava de costa, quando entrou o filho, ah são essas cabanas que está projetando, na verdade serão todas iguais, essas pequenas serão para alugar aos surfistas. Não sei aonde anda o Henry, pois foi de viagem, não voltou ainda.
Depois começou a desenhar, como sempre a figura do Jack estava em sua cabeça, era como seu tronco emergindo d’água, mas na verdade o estava era penetrando, a cara de prazer que tinha era imensa.
Pai o senhor está ficando erótico.
Gostei do rapaz o Brad, muito simpático, realmente agora vendo seus trabalhos aqui na sua casa, a grande então é perfeita, imaginando que ele se supera com o que tem a mão.
Escutaram ruido, desceram, era a Baby, se apresentou, esse é seu menino, regula com o Brad, verdade. Ele não parou de falar de ti, imaginava que ia encontrar um desses franceses chatos, mas ficou encantado com os livros, a conversa. Infelizmente ele como foi o último pegou o tempo das vacas magras.
Aproveitou para falar com ela, para fazer uma lista do que faltava ali na cozinha, cafeteira ele sabia, pois teve que ir a casa do Jack para fazer café.
Podemos fazer uma lista, depois vou com o senhor para comprar.
Tínhamos que comprar um carro, verdade que começa fazer falta.
Um de segunda mão como o que tenho em Paris, todo mundo pensou que eu ia comprar um desses modernos, mas pensei, se vai ficar a maior parte do tempo na garagem.
É o que penso, nada de luxo, para que ostentar. Somos assim é pronto.
Brad veio com a caminhonete, trazer os bancos que tinha feito para ficarem na frente da janela, se ofereceu para ir de compras com eles.
Melhor ires tu Major, com a Baby, use meu cartão de visa.
Quando ficou sozinho, queria ver como ia se desenvolver o romance dos dois. Sentia que a atração era forte.
Seguiu seu trabalho, colocou na parede forrada um papel, o maior que tinha encontrado, estava louco que chegassem os próprios para pintar, começou a esboçar o desenho que tinha feito. Jack quando entrou, disse que era uma coisa pornográfica.
Ficou ali agarrado com ele, dizendo ao seu ouvido, nunca me imaginei assim com ninguém, primeiro porque era tímido, depois me aconteceram coisas que me fecharam.
Nessa noite contou o que tinha lhe acontecido, num dos muitos lugares que tinha estado, na Austrália, competindo, tinha uns 18 anos, imagina, fui a uma festa, estavam todos bêbados, quando sai, uns homens que não sei de aonde saíram, me agarraram, abusaram de mim, fiquei muitos anos com vergonha, bem como fechado a qualquer coisa, o único que sabe disso é o meu irmão, pois ele me encontrou depois desacordado.
Agora contigo as coisas são diferentes.
Perguntou se ele se incomodaria em posar para ele.
Sim, posso.
Para algumas ideias, gostaria que fossem fotografias.
No dia seguinte o acompanhou a praia, o fotografou em cima da prancha, sentado na mesma, outras numa pedras, horas depois disse que tinha o suficiente.
Depois de colocar no computador foi a uma loja, imprimiu todas em tamanho A3, já tinha material para trabalhar.
Eram três trabalhando no studio, seu filho, Brad que aprendia com ele desenho, ele, tinham combinado uma coisa, não falar alto, que os celulares estivessem em vibração, nada de música.
Viu que uma duas vezes seu filho parava para olhar o imenso desenho que estava fazendo do Jack em cima da prancha, ali estavam todos os detalhes, era uma foto que ele estava com os braços abertos, ele como desenhista gostava dos detalhes, esses estava todos ali, ele sabia de cabeça todos os traços do rosto do amado.
Pintou finalmente o mesmo, encontrando o tom de pele do Jack, bem como as ondas, a cor do mar, tudo.
O Tapou com um lençol, começou o segundo que era o da pedra, o fez como se fosse um sereio, com a parte de baixo como se imagina um peixe, os detalhes do rosto era impressionante, com esse sorriso quando tinha seu orgasmo.
Um outro que fez, mas aí usando sua imaginação, era ele nu deitado em cima da prancha, em diagonal.
Esse quando o Jack viu, disse, vais me mostrar assim, todo mundo vira atrás de mim, terás que me defender.
Tinha o projeto do Henry, pronto, mas cada vez que perguntava por ele, diziam está viajando.
Quando finalmente apareceu, levou um susto, estava magro, olhos fundos. Lhe contou que tinha estado numa clínica, por vontade própria, tentando se encontrar, mal sai da clínica, meu pai ficou doente, estive cuidando dele esse tempo todo.
Depois cuidando de seus negócios, tornei a recair, voltei para a clínica, agora descobri que tenho Aids, estou fazendo o tratamento, mas creem que descobri muito tarde, sinto muito, mas vim só para assinar papeis, vendi tudo do meu pai, o daqui, vou passar a propriedade para os empregados, pois não vale a pena ter esse dinheiro. Estão fazendo uma cooperativa, divido com os empregados que acreditaram em mim.
Quando soube que ele estava vivendo com o Jack, teve um sorriso triste, uma vez o convidei para uma das minhas festas, me olhou com horror, nunca apareceu.
Os dois são boas pessoas fico contente por ti.
Contou que estava fazendo, estou todos esses meses pintando, meu filho veio para cá, estamos trabalhando no mesmo studio, além de um rapaz que está aprendendo, mas em breve será um grande artista daqui.
Não pensas em voltar?
Não, já não saberia viver sem o Jack, encontrei o amor de minha vida, graças a ti que me arrastou para cá. Obrigado.
Pelo menos fiz algo bom na vida.
Eu doei todo o dinheiro que tinha meu pai, para fundações de assistência a doentes de Aids, ele que odiava isso, paga seu preço.
Foi embora sem se despedir de ninguém.
Conseguiu que o dono da melhor galeria de Cidade do Cabo, viesse ver os trabalhos dos três, nada podia ser mais diferente, eram três pessoas trabalhando no mesmo lugar.
Ficou impressionado, um dos quadros de seu filho, ele não tinha visto, era ele pintando, se via um pedaço do que fazia, mas o importante era o rosto dele, sério, observando os detalhes que acabava de pintar.
O trabalho do Brad, era completamente diferente, um em si impressionava, era uma pessoa emergindo do mar, com os cabelos largos, abertos pela água, cercado de peixes. De imediato identificou o Major. Era como uma declaração de amor.
Vocês combinem entre vocês como querem expor.
No dia seguinte quando entrou na casa, tudo estava em silencio, escutou duas pessoas conversando, quando entrou no quarto, estavam os dois nus na cama. Começou a rir, bem que eu desconfiava.
Se sentou ao pés da cama, como se nada, fizeram a reunião ali. Pai honestamente gostaria que fosse uma exposição única, mandei as fotos de tudo para Paris, o de lá nos oferece sua galeria, lembra-se como era grande.
Mas o daqui quer um contrato, que nos prenderia a ele, isso nem pensar, se expomos um de cada vez, o trabalho não terá logica.
Chamaram o André, Daisy, Jack para conversarem, eles viram todos os trabalhos, concordavam que tinha que ser expostos ao mesmo tempo.
André ainda brincava com o irmão, ser muso de um artista, isso é amor demais. Nessa noite, ele ofereceu ao Paul, um anel, para selar definitivamente o amor dos dois.
Nunca se cansavam um do outro.
Levaram uma surpresa, na semana seguinte chegou o dono da galeria de Paris, olhou tudo, conheço uma pessoa que gostaria de expor aqui, depois eu levaria para Paris, ou vice versa.
Telefonou, logo apareceu, um homem que parecia um leão, uns cabelos imensos crespos, faziam uma juba. Se conheciam a muitos anos de feiras de arte pelo mundo inteiro.
Não sou o mais famoso da cidade, mas minha galeria trabalho com gente jovem.
Quando viu todos os quadros, de vez em quando batia as mãos nas pernas. Fantástico.
Minha galeria, tem a mesma forma deste studio, podemos fazer igual, colocar em ordem como vocês queiram, depois usarmos painéis nas laterais.
Quando Jack entrou, ele ria, eu fico com o original, apesar de ser uma brincadeira, ele rosnou, eu sou do Paul de mais ninguém.
Quase correu para se esconder atrás dele.
Foram olhar a galeria, Jack pediu desculpas, mas não queria ir à inauguração, vão me olhar como um objeto. Me perdoa.
Claro que sim, eu quis demonstrar meu amor por ti, com estas dentro da minha cabeça. Farei o seguinte os quadros vão, mas eu fico contigo aqui, eles que brilhem sozinhos.
Os outros foram a vernissage, mas ele ficou com o Jack.
Seu seguinte trabalho, foi ajudado por ele, bem como Baby, ia pela zona que viviam os negros, ia retratando as pessoas, pedia antes licença educadamente, mas por estarem com ela, serem conhecidos, era fácil.
Foi um dia numa obra que fazia o Peter, com todos os homens suados pelo calor trabalhando, fotografou cada um depois o conjunto de todos juntos.
Major foi com Brad a Paris, para fechar seu apartamento, ao mesmo tempo comprar material, aproveitou, fez contatos em Berlin, Londres, foram os dois a muitos museus.
Quando chegaram contaram que tinham se casado em Paris, ali não valia, mas tudo bem.
Ver seu filho feliz era o que lhe importava.
Já tinha o trabalho bem adiantado, estava trabalhando de uma maneira diferente, todos os quadros eram em sépia, como se fosse fotografias de antigamente.
Fez uns cinquenta quadros, Major de novo mandou tudo para Paris, mas antes fez a exposição na mesma galeria, deste vez foram os dois. Metade se vendeu ali, ele encaixou mais uns quantos que foram para Paris.
Todo o dinheiro foi dado para a escola da vila ao lado, bem como montar um centro de saúde, o dinheiro era administrado por uma associação presidida pela Baby. Ele não ficou com nenhum tostão, explicou ao Jack que não precisava.
Estava se sentindo muito cansado, foi a um médico, depois dos exames, não eram muito entusiasta, teria que fazer um transplante, esperavam um doador que fosse compatível com ele.
Mas faleceu dormindo nos braços do Jack.
O advogado tinha a distribuição de sua fortuna. A casa além do studio, eram de seu filho, para o Brad uma soma em dinheiro para que ele continuasse aprendo sempre. Seu filho não precisava, uma parte era para o Jack, mas a maior parte era para a fundação da Baby.
Deixou uma carta ao Jack, pedindo desculpas por ir embora, mas tinham sido os melhores anos de sua vida, nunca deixarei de te amar.
Este esteve fechado em si mesmo muito tempo. Um dia de temporal, desapareceu com sua prancha. Deixou uma carta dizendo que para ele era impossível viver sem o Paul, sentia muito, mas era o melhor.
Foi encontrado dias depois deitado em cima de sua prancha, em alto mar, por um navio.
Paul tinha sido cremado, suas cinzas no mar, ele pedia igual fim.
Na cerimônia o André dizia que seu irmão só tinha sido feliz, desde o dia que encontrou o Paul, esses anos deles juntos foram fantásticos, recuperei meu irmão, com alegria de viver. Mas entendo o que fez, só se é feliz junto a pessoas que amas.
Major que tinha ficado abalado com a morte do pai, que tinha recuperado, seguiu vivendo ali para sempre com o Brad, estava feliz.

SUPPORT

                                                

Tinha um nome meio idiota, North Smith, as vezes dizia que seu nome devia ser Lost North, pois as vezes estava literalmente perdido.

Quem o visse, ali trabalhando em Urgências de um grande hospital, nunca ia acreditar nisso, pois era rápido no que fazia, tomava decisões, apoiado em seu instinto.

Talvez tivesse a medicina de uma coisa hereditária, pois seus pais eram médicos, a única coisa era que não tinha planejado ter filhos, queriam ir pelo mundo salvando as pessoas.

Quando ele nasceu, ainda se aguentaram uns dois anos na cidade, depois o largaram com os avôs maternos, que eram mais jovens, com a desculpa, vamos até Africa fazer uma experiência de trabalhar com uma ONG, de médicos, nunca mais voltaram.

Ah anos foram dados como sequestrados com algum grupo de Islamistas, seus avôs ficaram furiosos, porque ele era um garoto cabeça dura, quando metia uma coisa na cabeça ia até o fundo.

Era alto, magro, para sua idade na escola, quando começaram os Bullying ele se defendia, mas era fraco.   Um dia entrou no ginásio, se encantou com o trabalho que fazia um professor, com ginástica, perguntou se podia se inscrever?

O professor olhou bem para ele, perguntou se sabia que iam fazer bullying.

Mas isso já fazem, vim aqui, para pedir o que podia fazer, para fazer as barras paralelas, há que ter força verdade?

Se apontou nas classes, os avôs foram contra, mas ele insistiu, fazia natação também, no que era bom.  Não se importou muito com as gozação, lhe chamava de marica, coisas do gênero.

Mas foi adquirindo um corpo fantástico, criando músculos, ganhando força.

Para ele a barra paralela, era uma coisa que fazia para se relaxar, era capaz de ficar horas ali, era muito bom, treinava até conseguir a perfeição, seguindo seu exemplo, um rapaz novo na escola um chines, começou a fazer, mais tarde mais dois entraram para a equipe.

Representavam a escola em muitas competições, ele tinha em seu quarto medalhas, taças, coisas assim.   Na natação era igual.   Mas os avôs jamais iam as competições.  Quando se sentiram velhos demais para cuidar dele, no que entrava a adolescência, o internaram numa escola moderna.

Isso foi um castigo, para alguém que adorava andar pela cidade, descobrindo coisas novas, falar com as pessoas.

Era uma escola masculina, ele fazia os exercícios que tinha aprendido sozinho, ali só podia fazer natação.  Tinha um corpo espetacular, quadris estreito, ombros largos, cabelos compridos como todo adolescente complicado.

Mas tinha em mente o que queria fazer, queria ser médico, nunca tinha entendido seus pais, se no pais os pobres necessitavam de médicos, porque tinham que ir para longe.

Basicamente falava com os professores, os outros alunos de sua idade, lhe pareciam infantis, estudava porque queria conseguir uma bolsa para estudar medicina.

Um dia de noite, que estava treinando para uma competição, um grupo o cercou, só conseguiram o jogar no chão, quando um deles, deu com um pau na sua cabeça, ali abusaram dele, mas ele criou uma confusão tremenda, pois os denunciou a todos.  Mesmo o diretor da escola querendo tapar isso, chamou o advogado da família, esse disse que ele ficaria com fama, mas seu alegado foi, ficarei de qualquer maneira com o rotulo de gay.

Mas eles vão pagar caro. Denunciou inclusive o diretor que tinha gravado dizendo de deixasse passar, que os pais desses alunos eram ricos.

Moveu uma ação contra eles, ganhou, o juiz disse que ele era um jovem de muita coragem, quando muitos ficam quietos.

O que não quero senhor é guardar isso dentro de mim, para que futuramente tenha a cabeça retorcida.

Tiveram que lhe pagar uma indenização gorda, bem como foram expulsos da escola, constando nas suas fichas a agressão.

Pois ele continuou lá, quando alguém se atrevia a fazer uma brincadeira, ele se plantava, tirava o pau para fora, queres provar isso.

Saiu da escola com as notas mais altas, conseguiu entrar para a universidade de medicina com uma bolsa de estudos.   Seus avôs preferiram conseguir um apartamento pequeno, para que ele vivesse sua vida.

Era considerado o melhor aluno, desde o primeiro ano, nas férias arrumava alguma coisa para fazer, trabalhar com homeless, ajudar alguma ONG, que cuidava desses homens que voltavam destroçados da guerra.

Não tinha vergonha de dar banho em algum, que não podia, por lhe faltar os braços, ou as pernas, quando começou a trabalhar como interno no hospital, para as práticas, pediu logo para trabalhar em Urgências, quando todo mundo queria escapar.

Ele era sempre o primeiro em chegar, o último a sair. Ajudava todos os médicos, aprendendo, prestando atenção.

As enfermeiras eram loucas por ele, mas era educado com todas, só uma ficou sua amiga, com ela saia para tomar alguma coisa, não gostava de bebidas, tampouco fumava.

A escutava com seus problemas, também tinha feito a universidade com uma bolsa de estudos, primeiro porque era negra, as outras negras, quando muito chegavam a enfermeiras.

Era cardiologa, tinham trabalhado juntos em Urgências, mas ele preferiu ficar.

As vezes saia exausto, depois de 24 horas trabalhando, chegava em casa, tomava um banho, caia na cama.

Nesse dia, estava chateado, pois tinha aparecido uma garota, em pleno parto, não devia ter 16 anos, estava de drogas até a alma.   Sua agressividade era impressionante, não queria deixar a criança sair, pois o mundo era cruel.

Concordava com ela, tiveram que dopa-la para fazer uma cesárea, mas era tarde o feto estava morto, a dose de cocaína que encontraram no bebê, era impressionante.

A tinham atada a cama, conseguiram interna-la em um hospital, para tratamento psiquiátrico.

Ele tinha segurado o feto nos braços, tentou reanima-lo porque era sua obrigação, mas sabia que não teria futuro.

Não queria ir para casa, pois sua cabeça não o deixaria em paz.

Sentou-se numa praça, colocou a cara entre as mãos, sem querer deixou suas emoções aflorarem, começou a chorar, viu que alguém sentava ao seu lado, colocava a mão no seu ombro, lhe perguntando se precisava de ajuda.

Obrigado, só estou me desabafando, vi coisas feias hoje.

Quando levantou a cabeça, viu ao lado dele, um negro imenso, de sua mesma altura, mas com uma cara linda de bebê chorão.

Viu que tinha um ferimento no braço, perguntou o que tinha acontecido.

Fui aparta um briga, me feriram, mas não importa, para quem esteve na guerra, isso não é nada.

Estavam do lado da sua casa, venha, moro aqui do lado, sou médico, tenho material em casa, limpo, costuro a ferida para ti.

Foi contando para ele o que tinha visto hoje, imagino que na guerra viste coisas piores?

Sim, algumas vezes não me deixam dormir, crianças mortas, nos braços das mães, tudo é um horror.

Quando chegou a sua casa, perguntou se antes podia tomar um banho, pois fazia dois dias que não tinha conseguido chegar ao albergue para isso.   Por enquanto vivo na rua, até que encontre o que fazer.

Para ele era uma coisa natural, tinha lidado tanto tempo com homeless, que sabia, que a maioria eram boas pessoas, apenas atravessavam um mal momento.

Tinham mais ou menos o mesmo tamanho, as calças que seriam um problema.

Pegou a roupa dele, colocou na máquina de lavar roupa, depois as secaria.

Sem querer tirou as suas também, colocou junto, ficou ali olhando as dois tipos de roupa, como que se abraçando.

Ah estás lavando a minha roupa.

Lhe estendeu a camiseta, que ficava apertada, mas servia, as cuecas ficavam pequenas, o jeito era ele ficar com a toalha.

Vou tomar um banho, já lhe faço o curativo.

Como no apartamento, ele tinha mandado tirar as portas, se via a pessoa tomando banho, quando saiu viu que ele estava excitado.

Fingiu que não via. Sentou-se preparou o curativo.   Pediu uma pizza gigante para os dois, assim esperamos tua roupa secar na máquina.

Ficaram conversando, o outro disse como fazes isso, nem sabe meu nome, de aonde venho, nada.

Isso não importa, outra pessoa teria passado por ali, sequer parando para perguntar se eu estava bem.  Tens cara de honesto, confio em ti.

Ele disse obrigado, colocando suas mãos imensas em cima da deles.

Ficaram se olhando, foram se aproximando, aquele homem imenso, era tremendamente carinhoso, segurou sua cara entre suas mãos, foi lhe beijando os olhos, o nariz a boca, ah foi um sentimento único.

Quando se deram conta, estavam os dois excitados.  Nisso chegou à pizza que rompeu o momento magico. Ficaram rindo, quase não posso abrir a porta.

Em seguida estavam os dois na cama, que era pequena para eles, acabaram no chão, lhe colocou uma camisinha, deixou que ele o penetrasse, o fez com tamanha delicadeza que ele sentiu um prazer imenso.

Depois pararam para comer, ele estendeu sua mão, sou Paul Ander, eu North Smith.

Ficaram se olhando outra vez, tinham colocado o colchão no chão, voltaram outra vez a fazer sexo.   Nunca tinha se sentido assim.

Lhe disse, tenho dois dias de folga, fique aqui comigo.

Tens certeza, eu as vezes tenho pesadelos de noite, podes te assustar.

Tenho experiencias, contou que sempre tinha ajudado uma ONG que cuidava dos que estavam nas ruas.

Quando foram dormir, quem se sentiu protegido foi ele, pois o outro era mais forte, maior do que ele.

Despertaram de manhã os dois excitados, fizeram sexo, um olhando na cara do outro.

Desta vez, ele pediu que o penetrasse, o levou a loucura, tiveram orgasmo os dois, um agarrado ao outro.

Tomaram banho juntos, um lavando o outro rindo.

Pelo menos meu irmão, lhe dizia Paul, fui feliz uma noite, uma manhã, saíram para tomar um café, ele lhe perguntou se não tinha vergonha de andar com ele.

Não vejo por que, não sou melhor do que tu, além de que, me fizeste imensamente feliz.

Mas claro no dia seguinte de noite teria que ir trabalhar, queria lhe deixar a chave do apartamento, assim tens aonde ficar.

Nada disso, vou procurar emprego, de noite te espero na saída do hospital.

De fato de noite estava lá, ele tinha saído num momento, comprado roupas no tamanho dele.

Estas me acostumando mal, nunca ninguém cuidou de mim.

Ficaram assim uma semana, ele sempre voltava chateado, pois não conseguia emprego.

Disse que era advogado, que tinha servido no posto de Policia Militar, mas nem para policial me querem.

Mas saia todos os dias, ele lhe dava dinheiro para comer durante o dia.

Um dia estava em urgência, quando avisaram que iam chegar ambulâncias com alguns manifestantes feridos.

Um dos primeiros era o Paul.  Lhe contou que tinha parado para ver a manifestação, que um policial, o tinha confundido com um deles, desceram o cacete em cima de mim, creio que rompeu uma perna.

Quando começou a examinar o mesmo, viu que nada, levaste também um tiro no quadril.

Ah então foi por isso que cai.  Um policial que estava ali, disse que isso podia ter acontecido. No que olharam tinha destroçado o quadril dele, seria necessário colocar uma prótese.

Mas não tenho dinheiro North.

Não se preocupe, subiu com ele, falou com a diretora do hospital, disse que era seu amigo, que ele pagaria tudo.

Lhe fizeram a operação.

Estava esperando fora, depois o acompanhou a reanimação, quando viu um negro parecido com ele, muito bem vestido, se apresentou como fiscal, vi o nome do meu irmão na lista dos que a polícia agrediu.

Creio que na confusão, lhe deram um tiro no quadril, pois tiveram que colocar uma prótese.

Quem é o senhor, ele se apresentou, North Smith, sou amigo do Paul.

Ele sorriu, esse menino não tem jeito.

Não entendo por que não me procurou, podia ter arrumando um emprego para ele, mas não, sempre foi orgulhoso.  Podia ter ficado na minha casa, mas não apareceu.

Estendeu sua mão, imensa como a de Paul, Robert ou Rob Ander.

Ficaram os dois ali conversando, esperando que ele se despertasse.

Não viram que estava com os olhos abertos, escutando a conversa deles.  Riu muito, já estão planejado toda minha vida.

O irmão se jogou em cima dele, filho da puta, sempre tenho que saber depois que as coisas acontecem.

Não se preocupe, tenho um anjo de guarda bom, ele cuida de mim.

Aonde tens dormido, espero que na rua não?

Sim dormi muitas vezes na rua desde que cheguei, mas agora durmo em sua casa, ele me ajuda.

Vieram lhe dar uma medicação para dormir.

Tenho que voltar ao trabalho, avisei que estaria aqui em cima, mas meu horário não acabou ainda.

Pode deixar, eu cuido dele.

Depois subo outra vez.

Quando voltou, era tarde, tinha acabado seu horário, estavam os dois conversando, pode deixar passo com ele a noite, estou acostumado.

Eu agradeço tenho um julgamento complicado amanhã.  Sou um dos fiscais do estado.

Ele nem se preocupou que o pessoal do hospital, os vissem de mãos dadas.

No dia seguinte, tomou um banho no próprio, sempre tinha roupa limpa no seu armário.

Desceu para trabalhar, todos comentavam de seu amigo.  Ele antes que a fofoca se estendesse, é meu amante também.

Ninguém falou mais nada.   Só sua amiga, que soltou na cara dele, que desperdício eu me casava com os dois, mas rindo.

Escutei um dos rapazes falando com o outro, que os imaginava na cama, que devia ser fantástico.

Quando Paul se restabeleceu, seu irmão lhe arrumou um lugar para ser polícia especial no fórum, estava feliz da vida, viviam os dois juntos, North nunca tinha imaginado nada semelhante, nunca tinha vivido com ninguém.

Seguia seu trabalho, que dividia em duas frentes, ajudar a ONG que já fazia antes, com Urgência um dos médicos disse que ele devia se especializar em operar, pois já o tinha visto fazer isso na urgências.

Acabou aceitando depois de conversar muito com Paul, mas quando não estava operando, estava lá ajudando os companheiros.

Um dia as notícias correram rápido, avisaram que chegariam ambulâncias, tinha havido um tiroteio do Fórum, alguém de uma banda ia ser julgado, não parava de chegar ambulâncias, com pessoas feridas.   Ele ia ajudando, menos mal que Paul não aparecia, sinal que devia estar bem.  Quando encontrou um policial conhecido, lhe perguntou o que tinha acontecido, esse sem saber de nada, disse que o Paul tinha sido o primeiro a ser atingido, que tinha morrido no ato.  Mas que seu irmão estava a salvo.

Sentiu que lhe tinham puxado o tapete, se veio abaixo, justo quando chegava o Robert, correu para ele, com o policial, o levaram para dentro.

Não sentia nada, apenas as lagrimas corriam pela sua cara, nem as sentia, era como se o mundo tivesse parado, que Paul do outro lado dissesse, desce daí, vem ficar comigo.

Ele era seu bem mais precioso, em sua cabeça, era como se a felicidade fosse algo proibido para ele.

Encostou a cabeça no peito do Robert, não conseguia controlar suas lagrimas.

Sua amiga avisada, veio correndo, confundiu o Robert com o Paul, mas ele se identificou, contou o que tinha acontecido.  Pensei que nesse trabalho meu irmão estaria seguro, nem estava armado, vinha de tomar um café, quando saiu o tiroteio, ele foi o primeiro atingido.

Ninguém sabe ainda como as duas bandas entraram ao mesmo tempo no edifício, uma de cada lado.   Conseguimos evacuar a sala de julgamentos, eu pensava menos mal que a cinco minutos tinha falado com ele, que me perguntava se queria que trouxesse um café.

Já volto me disse, agora o perdi para sempre.

Agora chorava ele, North o consolou, eram duas pessoas se consolando mutuamente.

O enterro foi emotivo, alguns amigos do hospital foram, sua melhor amiga Mel Ambrosium, foi, não tinha saído nenhum dia de seu lado.

Ele não podia se concentrar para fazer nenhuma operação, mas pouco a pouco, voltou a trabalhar, as pessoas lhe cuidavam bem.

Trabalhava tudo que podia para se ocupar.  Meses depois encontrou Mel, bem vestida que saia, uau, foi o que lhe disse, aonde vais assim?

Vou jantar com Robert, estamos saindo já ah algumas semanas.   Ele é impressionante, esta saindo da baixa que foi a morte do irmão para ele.

Boa sorte aos dois, se ele for como o Paul, tens sorte.

Só tinha sobrado uma foto dos dois, abraçados no mesmo banco do parque aonde tinham se conhecido.

Chegava em casa, olhava para a foto, tinha vontade de sumir.

Nessa mesma época a empregada de seus avôs, o chamou, os dois estavam com princípio de Alzheimer, ela dizia que não conseguia controlar os dois.  Quando foi visita-los com um médico do hospital, ele disse que o melhor era internar os dois.

Para isso, precisava de uma autorização do Juiz, pois tinha que entrar nas economias dos dois para pagar um lugar bom.

Robert o ajudou, ficou pasmo, pois tinha muito dinheiro guardado no banco, a senhora que os cuidava, pagava ele, pois alegavam não ter dinheiro.

Não duraram muito, quando foi a leitura do testamento, ele herdava tudo deles, dois apartamentos, uma cabana perto de um lago, que ele nem sabia que existia, bem como o dinheiro do banco.

Vendeu o que eles viviam que era muito grande, ficou com o outro, não entendia, ele vivia de aluguel, os dois sempre reclamavam que não tinham dinheiro, tanto que teve que fazer a universidade com bolsa de estudos, agora tinham tudo isso guardado?

Mandou reformar o outro apartamento, se mudou para lá, só levou sua roupa, a fotografia dos dois juntos.

Mobiliou o apartamento simplesmente, podia ir a pé para o hospital.

Procurou com o advogado saber sobre a cabana, ele a localizou, estava numa cidadezinha perto, mas estava alugado.

Um final de semana que não tinha o que fazer, tirou seu carro da garagem, foi até lá.

Ficou pasmo com o lugar, era de uma beleza impressionante.  Uma voz atrás dele disse, imagine o por do sol, é melhor ainda.

Quando se virou, deu de cara com um homem de sua altura.

Disse quem era, queria saber que cabana era essa, pois nunca me falaram nela, viviam reclamando que não tinham dinheiro.

Nick Sanders, se apresentou o homem, eu a alugo, diretamente da imobiliária, não vivo aqui, nunca venho no inverno, aqui tenho paz para escrever.

Venha tomar um café na varanda, que é uma maravilha.

Quando a aluguei a primeira vez, tudo estava sujo, mandei fazer uma limpeza, mas os moveis são os mesmo.

Mostrou a cabana inteira para ele, tinha a sala com uma lareira, atrás da lareira ficava um quarto, depois o banheiro, uma cozinha mínima.

Não preciso de mais, quando estou aqui.

Espero que não queiras roubar meu remanso de paz.

Imagina eu trabalho em Urgências, bem como opero também, herdei dois apartamentos deles, um aonde viviam, o vendi, o outro nem sabia que existia, eu vivendo de aluguel.  Reformei este outro porque fica perto do hospital.

Já sei quem eres, sou amigo do Robert Ander, eres o namorado de seu irmão.  Que merda o que aconteceu.

É verdade, agora estou entrando nos eixos outra vez, o trabalho me distrai disso.

Imagina, nem me lembro como era a cara dos meus pais, me deixaram com os velhos quando tinha dois anos, desapareceram na Africa.

Por isso herdei, porque senão tudo seria da minha mãe.  Mas escutei sempre a mesma ladainha, que eram velhos, pobres, etc.  Estudei interno, porque meus avôs paternos pagavam, depois fui a universidade com bolsa de estudos, porque não havia dinheiro.

Nunca falavam sobre a vida deles, antes, agora ultimamente que soltavam alguma coisa, pois não se lembravam do que tinham comido, mas algumas coisas do passado sim.

Acredito que fugiram da parte comunista da Alemanha, por isso, se chamavam Smith, eu sempre usei esse nome, pois meus pais não eram casados.

Estava ficando tarde para voltar para a cidade, o Nick o convidou para ficar para dormir, esse sofá que estas sentado é uma cama, podes ficar aqui.   Eu estarei uma semana mais, quando acabe esse artigo que estou escrevendo vou embora.

Acabou aceitando, comendo dois bons sanduiches, tomando coca cola, os dois não bebiam.

Ficaram vendo o pôr do sol, que realmente era maravilhoso.  Sentiu uma paz interior impressionante.

Fazia muito tempo que não dormia assim.

No dia seguinte quando viu Nick saindo do banheiro, ficou impressionado com a quantidade de cicatrizes que tinha nas costas. 

Fui jornalista de guerras.  Efeitos colaterais.

Teve que se controlar, queria passar a mão sobre as cicatrizes, passar a mão em seu peito.

Mas se conteve.  Tomou um banho também, Nick o acompanhou a pequena cidade para conversarem com o homem que administrava a cabana.

Esse disse que sabia quem ele era, não te lembras de mim, mas a primeira vez que te vi, eras um bebê, vieste com teus pais.   Depois teus avôs ainda apareceram algumas vezes, essa cabana na verdade não era deles, mas sim de teus pais.

O velho reclamava, que não gostava daqui, ficar sentado olhando tanta água, não era com ele, me deram a liberdade de cuidar do lugar, o Nick quando alugou a primeira vez, estava uma merda, anos demais fechada.

Na verdade só alugo para ele, um acordo de cavalheiros.

Eu avisarei se venho, tenho que conseguir encaixar como aconteceu esse final de semana, os meus plantões em Urgências, com o de operações.

Ah, eres médico, aqui falta um pelo menos, temos que ir até a cidade mais próxima para isso, só temos um ambulatório com uma enfermeira, que é muito velha por sinal, está sempre mal humorada.

Almoçaram num pequeno restaurante que tinha ali, depois ele foi embora.

Estava relaxado no dia seguinte, quando foi trabalhar, sua casa nova, o deixava contente.

Conseguiu mudar umas datas, queria passar uns dias na cabana, tinha se sentido bem lá, Nick lhe telefonou, num dia livre seu foram almoçar, depois foi mostrar se novo apartamento, pela primeira vez comprei um quadro para minha casa.  Nunca tive tempo para essas coisas.

Quando tentava mudar datas para ter dias livres a responsável disse que ele tinha duas férias para tirar, nem se lembrava disso.   Nunca as tinha tirado, normalmente as vendia, seguia trabalhando.

Pensou, antes que o inverno chegue, posso passa umas duas semanas lá.

Avisou ao homem da imobiliária, que estaria lá uns 15 dias.

Um dia encontrou na saída o Robert, tinha vindo buscar Mel, que bom que te encontro, tem um assunto que queria falar contigo.   Na autopsia do Paul, descobriram um tumor na cabeça, acreditam que inoperável, que ele não viveria muito tempo.

Isso não o consolava, mas que importava agora.

No dia seguinte, foi para a cabana, tinha parado no meio do caminho, quando Nick chamou, disse que precisava ir até a cabana, pois tinha deixado lá um texto que estava trabalhando.

Vou ficar 15 dias lá, mas apareças, gostava de estar com ele.

Os primeiros dias esteve sozinho, o por do sol cada vez era mais bonito, porque as árvores também estavam mudando de cor.   Ficava ali sentado, perdia a noção do tempo.

Estava assim um dia quando Nick apareceu, tinha preparado uma sopa, para o jantar, os dois comeram depois ficaram sentados na sala.

Começaram falando do que estava escrevendo, para muitos pode ser a história de alguém, mas no fundo é a minha.

Numa das últimas vezes que estive na frente, ia num carro que sofreu uma explosão, eu voei longe, só me dei conta que sangrava, do pessoal, do meu carro, fui o único a sobreviver, o resto morreram todos, me chamava de avô, pois era muito mais velho do que eles.   Me levaram para um hospital militar, embora eu dissesse que não o era, apenas estava num veículo militar.

Me operaram várias vezes.  O pior foi saber que tinha perdido meus ovos.  Isso acontece muito com os militares que tem seu veículo, que passam por uma bomba.

Não tenho esperma, mas em contra partida, tenho ereções monumentais.  Posso levar horas excitado. Mas fiz uma coisa, me neguei a tomar medicinas para a dor, todo o tempo, nada de remédios para dormir, ou para qualquer outra coisa.  Fui sim a um psicólogo para poder enfrentar isso, mas ele se surpreendeu que eu não me importasse que não poderia ter filhos, lhe soltei, que depois de tudo que tinha visto no mundo, nunca teria filhos.

Ele contou a história da garota que o bebe tinha nascido morto, por causa das drogas.

Eu também não os teria, pois o mundo está cada vez pior.

Sem querer suas mãos se tocaram, ficaram olhando um para o outro, não sabia dizer quem puxou o outro, logo estava se beijando.

Em seguida na cama, realmente fazer sexo com ele, não tinha fim, depois de ter-lhe penetrado, pediu que fizesse isso com ele, pois era uma das poucas formas que podia sentir prazer.

Sempre tenho medo, lhe disse, pois as pessoas não entendem muito disso.

Nas minha entrevistas para escrever esse artigo, conheci um que era sargento, lhe aconteceu a mesma coisa, só tem prazer, se muita gente lhe penetra seguidamente, toma muitas drogas, pois perdeu a mulher e os filhos nessa história.

Vai a esses clubes aonde as pessoas estão vestidas de couro, se oferece a todo mundo, eu o acompanhei para ver como fazia, fiquei literalmente horrorizado, ele grita de prazer quando são duas pessoas ao mesmo tempo.

Fora disso, é uma pessoa séria, faz trabalhos juntos aos ex-combatentes, mas esconde que usa drogas para se controlar.

Dormiram abraçados, despertou com ele fazendo café. O levou para a cama, começaram a brincar, voltaram a fazer sexo.

Depois foram nadar na água fria do lago, riam como duas crianças.

Iria embora nesse dia, lhe perguntou por que não ficava, ele estava de férias.

Foi ficando, nem prestou a atenção nos dias passando.

Um dia muito sério lhe perguntou se o satisfazia como ele necessitava?

O olhou sério, sim adoro estar contigo na cama, sinto muito prazer quando estou contigo.

Mas sou honesto de dizer que tenho medo.

Não creio que seja a pessoa indicada para ficar, construir uma relação contigo, aqui estou relaxado, mas na cidade, entro em neura.

Querem que vá para a Síria, mas ainda não resolvi.    Necessito dessa adrenalina toda, por mais que me resulte perigoso, quero ir.

Mesmo que eu peça para ficares?

Sim, mesmo assim eu nunca fiquei com ninguém por isso, necessito dessa adrenalina como do

ar.

Entendeu, era como ele sentia nas Urgências, gostava de estar ali, sem saber o que aconteceria no momento seguinte, tudo sempre era assim, não era como uma consulta, era o aqui te pego, aqui te mato.

Mas antes dele partir, lançava seu livro em NYC, o convidou para ir, mas tinha operações agendadas, se despediram, me procure quando volte.

Mas na verdade sabia que nunca o faria.

Mas desta vez, pelo menos sabia o que ia acontecer.

Foi levando a vida, um dia atendeu um paciente em urgência, bem podia ser irmão do Paul, era grande como ele, trabalhava num banco, houve um assalto, lhe feriram.

Tinha duas balas do corpo, uma era complicada de extrair, mas ele conseguiu.

Quando o foi olhar em recuperação, tinha uma sensação estranha, como se o conhecesse de muito.  Dias depois quando voltou, viu que estava bem, ele perguntou North, não me reconheces verdade?

Outro dia tive a sensação que sim. Ele soltou erámos vizinhos do teu avô, eu cheguei a entrar nas classe de ginásticas por tua causa, se você podia eu também podia.

Estava literalmente apaixonado por ti, mas nessa época teus avós diziam que estava rebelde, logo te internaram, numa mais te vi, a não ser algum tempo atrás quando foste visitar teu avôs.

Mas não me viste, te achei bonito como sempre.

O examinou, como vai tua vida?

Bom como sempre, sozinho, as pessoa olham para todo esse meu tamanho, esperam uma pessoa agressiva, mas não sou.

Ele ia, outra vez para a cabana, queria ver como era estar lá no inverno.

Lhe iam dar alta no dia seguinte, perguntou se não queria ir com ele, nesses dias tinham conversado muito, lhe contou do Paul, o que tinha acontecido.

Minha mãe falou a respeito, até prefiro ir contigo, pois vai querer que vá para sua casa.

O que fazes no Banco?

Sou advogado do mesmo, sabe aquela história de estar no lugar errado na hora errada, foi o que aconteceu comigo, fui até lá para resolver o problema de uma cliente, quando entrei, levei o primeiro tiro, em seguida o segundo.

Pelo que soube essa cliente que ia atender, levou um tiro na cabeça, nem sei do que se tratava.

Mas foi com ele, Roger, se lembrava de detalhes das competições que tinham participado, que em sua cabeça tinha borrado.

Passaram uns cinco dias, rindo muito, ele agradeceu, me livraste de ter que aguentar minha mãe, me dizendo que tenho que conseguir uma família.  Mas nunca me apaixonei por ninguém, quem sabe um dia.

O deixou na sua casa, riu muito com sua mãe, reclamando que isso não se fazia, ela preparada para cuidar dele, ele escapava.

Agora iam sempre que podiam para a cabana, podiam ficar horas conversando.  Quando finalmente se encontraram na cama, foi como um embate de dois homens, tinha a mesma altura, força, temperamento.

O sexo foi o melhor que lhe tinha acontecido, despertou no dia seguinte com ele lhe olhando.  Pensar que nunca te pude tirar da minha cabeça.

Do meu quarto podia ver o teu, chegavas tiravas toda a roupa ficavas nu, eu como um louco me masturbava, mas não tinha coragem de chegar perto de ti.

Só na equipe, conversávamos, mas sempre eras muito sério.

Segurou sua cara, começaram a se beijar com gosto de ontem, foi ótimo.

Conseguiram tirar férias juntos, passaram o tempo todo lá, quando chegou a primavera, adoravam ver tudo brotando, estavam sempre juntos, agora ele viviam no mesmo apartamento, sua mãe, não gostou, pois, se ia a merda o sonho de ser avó.

Mas o mundo sempre escreve tudo por linhas tortas, estavam na cabana, o xerife apareceu quase pega os dois nus, no lago.

Precisamos da sua ajuda, apareceu na vila uma garota, está parindo, o médico não está, tampouco a enfermeira.

Foram para lá, ele usou o ambulatório para ajudar a garota, examinou bem, disse que teria que fazer uma cessaria pois não tinha suficiente abertura, além da criança ser grande.

Improvisou uma maneira dela dormir com clorofórmio, pois ali nunca faziam operações.

A criança estava bem, era um garoto, mulato, a menina era branca. Mas não importava.

Depois que voltou a si, ela disse que não podia ficar com a criança, pois seus pais a matariam, pensavam que estava na casa de uma prima.  Terei que voltar, pois sou menor de idade, meus pais muito religiosos.

Num impulso, perguntou se queria dar em adoção para ele, afinal a tinha ajudado, ela concordou imediatamente, o xerife, bem como o juiz da cidade mais próxima, concordaram, pois, senão a criança entraria numa larga lista para adoção, ali ele era conhecido.

Perguntou se podia ser em nome dos dois, o juiz perguntou se eram casados, não, mas se o senhor quiser nos casar, perfeito.   Os dois riram, era a pedida em casamento mais desastradas das conhecidas.

Assim começaram a vida de casados, já com um filho. Não saberia dizer quem era o mais paizão.  A mãe do Roger, logo queria que a criança ficasse na sua casa, se negaram, nada disso ficará conosco.  Então o jeito era ela ir quase todos os dias para ficar uma parte do dia lá com a baba, uma enfermeira aposentada do hospital, que adorava crianças.

Menos mal que se deram bem, pois assim não tinham que aguentar fofocas.

Chegavam em casa, corriam para perto do garoto, lhe deram o nome North Roger Smith Snaith, assim teria o nome dos dois, todo mundo dizia que coitado do garoto.

Mas eles se adoravam, compartiam tudo, ver o garoto crescer, os finais de semana que passavam na cabana, lá o ensinaram a nadar, logo tinham um cachorro que não se desgrudava do mesmo, era impressionante.

Quando chegou a época de ir para a escola, ia de manhã, ficava até a hora que Roger ia busca-lo, ele nos dias que estava de folga também ia.

Fazia exames periódicos no garoto, numa souberam de aonde tinha saído a garota, nem como tinha acontecido sua gravidez, ela se negou a falar.

Os dois foram envelhecendo juntos, iam em todas as coisas para comemorar a vida do filho, quando ele finalmente entrou para universidade, Roger se aposentou, ele lhe faltava pouco, mas já não estava em urgência, pois se cansava muito, já não tinha idade.

Fez um acordo com o hospital, le liberam, para trabalhar na vila, assim passaram a viver na cabana.  O filho vivia na cidade, mas estava sempre com eles.

 Quando se formou em medicina, foi uma comemoração por todo o alto, a mãe do Roger tinha falecido uns anos antes, com o sonho cumprido, de ver seu neto na universidade.

Ele que a adorava, ficou chateado, mas claro a vida segue em frente.

Ele agora de manhã, atendia no consultório da vila, qualquer coisa o chamavam em casa.   Adoravam estar ali, tinham passado os melhores anos de suas vidas ali.

O filho, sempre que podia estava ali.

Agora era ele que cada vez que vinha, examinava os pais, por um lado eles adoravam, saber-se cuidados.

Quando ele trouxe uma namorada, acharam graça, pois ele sempre estava falando num companheiro.

Na vez seguinte, veio com o mesmo, riram outra vez, pois os dois encaixavam.  Acabou se confessando a eles, adorava o amigo, mas tinha vergonha de falar qualquer coisa.

Não faça isso, olha o que aconteceu comigo, soltava o Roger, não me declarei na nossa juventude, tive que esperar muitos anos para o reencontrar.

Ele se declarou, o outro só respondeu, não era sem tempo, estou esperando a muito isso.

Agora sempre vinha os dois para estarem com eles.

Tinha aumentado a cabana, assim se podia alojar à vontade.

Nunca esconderam do filho que o tinha adotado ali na vila.

Numa época de sua adolescência, fez muitas perguntas a respeito, mas depois desistiu.

Tenho os melhores pais do mundo.

LALO TITUS

                                        

Esse meu nome me deu muitos problemas ao longo da vida, tinha tudo a ver com meu pai, ele foi pai muito tarde, era policial, mas só depois que se aposentou precocemente por um tiro que levou, que lhe impediu de ter uma mobilidade a 100 %, se casou, sentou a cabeça como diziam suas irmãs, mas na época já tinha quase cinquenta anos, quando nasci.

Era uma apaixonado de uma série da época Mission Impossible, mas amava a música, que era de Lalo Schifrin, como descobriu através desta, Night in Tunísia, foi quando começou a gostar do Jazz.

Então quando nasci, me deu esse nome, bem como Titus porque gostava de Titus Andronicus, de Shakespeare, foi ao teatro para ver essa peça, quando era namorado de minha mãe, ela era louca por teatro, o arrastou, ele foi pensando em dormir, mas adorou a trama, leu depois tudo que tinha escrito Shakespeare.

Evidentemente me obrigou a ler todos, diziam que eram como novelas policiais, se aprendes a analisar cada personagem, o trazes para a atualidade, tens um caso de polícia.

Todos os casos de polícia estão baseados em alguma tragedia alheia a nossa vontade, se não tomamos cuidado a nossa própria é.

Quando entrei para a academia de polícia sofri muito bullying por causa disso, diziam que era um nome estranho, como a minha figura, imaginem um mulato, como meu pai, casado com uma porto riquenha, de olhos claros, para alguns eu podia ser um mulato sarará, mas tinha cabelos lisos castanhos, bem como claro os olhos dela.

Ele me adorava, foi meu pai, meu avô ao mesmo tempo, minha mãe reclamava muito disso, ela dizia não, mas qual ele já estava me satisfazendo dentro das possibilidades.   Se não podia, me explicava detalhadamente por que não podia.  

Usava tantos argumentos que eu acabava aceitando, segundo ela, era um jogo feroz de vontades contrárias uma a outra.  Mas ele sempre ganhava.

Isso era quase um exercício me dizia a ele de argumentos.  Quando interrogas a um criminoso ou culpado de algo, tens que observar bem a pessoa, argumentar de tal maneira que ela acabe confessando.   Nada de ir pela violência.

Fui aprendendo desde criança isso, por exemplo, analisávamos Hamlet ou Macbeth, me fazia enxergar cada nuance dos personagens, minha mãe, ficava sentada ao lado em sua poltrona preferida, fazendo tricô, crochê ou mesmo bordando, ou remendando umas calças velhas minhas, pois estava sempre raladas nos joelhos.

Podíamos discutir horas, uma página do livro, ele sabia o texto todo, argumentava comigo, não podes ir a cegas num interrogatório, ou senão uma coisa muito importante.

Embora eu soubesse da resposta, sabia que ele gostava de falar nisso, “intuição, observação”.

Tens que observar o comportamento do sujeito, se ele for violento, ele não controla as vezes seu próprio corpo, observe como imaginas que ele cometeu o crime, se estava controlado ou descontrolado.   Mesmo as pessoas frias, tem comportamentos que não percebem.

Isso para minha carreira serviu muito, mal sai da academia com as notas mais altas, fui trabalhar numa delegacia conflitiva, era calado, observava os comportamentos dos companheiros, os que falavam muito, dos que arrotavam que eram machos alfas, como se comportavam nos interrogatórios, muito colocavam tudo a perder nesse momento.

Quanto tocou a mim o primeiro interrogatório, era um caso complicado, um sargento quis me fuder, pois eu era para ele um tonto, pois não falava muito.

Simplesmente entrei na sala, já tinha visto o sujeito, o seu comportamento, me sentei em frente a ele, fiquei quieto, não disse uma palavra, até que ele ficou nervoso com isso, eu simplesmente o olhava nos olhos, quando ficou completamente desconcertado, pois esperava que eu lhe fizesse as acusações, sem querer, querendo, fui colocando na frente dele as fotos do crime que tinha acabado de cometer.

Eu seguia quieto, esperando o momento para atacar, quando escutou minha voz, que pensou agora vai gritar, falei calmamente com ele, o que tinha feito a garota para que ele fizesse isso.

Estranhou, ficou me olhando, olha a cara de anjo que a menina tem, ele ficou furioso, soltou tudo, que a tinha matado justamente por isso, por ter essa cara de menina boa, mas quando ele se aproximou dela, se assustou, me disse que via na minha cara sexo, asco, cuspiu nos meus olhos, deixei de ver qualquer coisa, quando a vi a tinha matado.

Nunca senti tanto prazer em minha vida como acabar com essa filha da puta que pensava que era uma santa, a penetrei mil vezes depois de morta, para ela saber quem mandava.

Todo mundo imaginava que em seguida ele pediria um advogado, o caso não tinha muita provas conclusivas, ele acabou dando o detalhe de tudo, como a tinha obrigado a subir no seu carro a força, aonde a tinha levado, como a tinha enterrado depois.

Quando sai da sala, todo mundo me elogiou, o puto sargento soltou, sorte de principiante.

Com o tempo todos me pediam ajudas nos interrogatórios.

Um daqueles famosos, que te perguntam primeiro “sabe quem sou”, eu desarmava, dizendo não tenho a menor ideia, deixava o cara dizer tudo que queria, ficava escutando em silencio, ao final lhe perguntava, isso tem alguma coisa a ver por que prenderam o senhor?

Como, ficavam intrigado, pois eu não acusava diretamente.

Veja bem soltava, lhe prenderam em fragrante, mas o senhor está dizendo que é uma pessoa importante, me explique o que estava fazendo nesse lugar, que não condiz com sua classe de pessoa, ia enrolando usando o argumento que ele dizia que era importante.

Até que tentava ele me convencer que tinha cometido o assassinato ou o que fosse.

Segundo meu chefe o que deixava as pessoas desarmadas, era que minha cara ficava imutável, nenhum musculo se mexia.

Isso foi um treinamento com meu pai, ele tinha que me fazer emocionar com alguma coisa, me provocava ao máximo, eu tinha que conseguir não mostrar se sentia raiva, ódio, tinha que ter uma cara sem movimento.

Depois de anos treinando com ele consegui.

Quando ele morreu, as pessoas me esperavam ver destroçado, ele tinha me dito dias antes no hospital, nunca mostre a estas pessoas o que sempre sentes por mim, nem o que eu sinto por ti, pois querem te ver arrasado para te consolar, pense bem meu filho, não podemos ser fracos, somos mais fortes que estas emoções.           Depois em particular, chore tudo o que queiras, mas no momento, não, de essa vantagem a ninguém.

No dia que morreu eu cheguei ao hospital, tinha sido promovido, fui correndo para contar para ele, já estava com quase 90 anos, nunca soube sua idade verdadeira.

Foi um choque tremendo, respirei fundo, em seguida fui tratar dos seus últimos desejos, queria ser enterrado ao lado da minha mãe, que não houvesse missas, nada disso, ele odiava a igreja, os padres, todas essas coisas.

Queria que somente fossem avisados seus poucos amigos, que ainda tivessem vivos, que o velório fosse muito rápido, pois tinha pressa de ir-se encontrar com minha mãe.  Fiz tudo como ele mandou, embora minhas tias que era carolas, ficaram furiosas, mostrei o papel de suas vontades.  Uma delas se atreveu a trazer um padre, o coloquei de porta para fora, como ele dizia.

Apesar disso, a polícia lhe rendeu uma homenagem, foi interessante, mas foi tudo no cemitério, nada de igrejas.

Quando voltei para casa, me sentei no salão, se alguém entrasse, iria dizer, coitado ficou louco, lhe contei mentalmente que tinha sido promovido.  Como ele iria reagir, que me abraçaria como um louco, me diria, eu te ensinei melhor que nessa porra de academia de polícia, não deixava de ser uma verdade.

Fui para um delegacia, de Hollywood, fui subindo, até a chegar a ser capitão, a inveja era muita, quando me chamaram para ser chefe de polícia, eu na verdade estava de saco cheio de tudo, como ele, estava seco.   Mal tinha uma vida particular, não podia ter relacionamentos, ele me dizia sempre não tenhas filhos, pois terás medo de te arriscar, por isso só te tive depois.

Quando eu tinha uns 15 anos, me apaixonei por um colega de turma, contei para ele, pois se minha mãe soubesse, iria logo dizer, aonde foi que eu errei.

Estávamos sentados no degraus em frente de casa, ele colocou a mão nos meus joelhos, me falou tudo que conhecia sobre isso, que eu tivesse certeza de que o outro também me queria, pois eu poderia ter entendido errado os sinais.   Analise como te ensinei, não te arrisque que façam de tua vida um inferno, sem ter certeza de que a outra pessoa te quer.

Não escutei nenhuma recriminação, nada como podia esperar, no final, me abraçou, me disse que me queria de qualquer maneira, que me amava.

Realmente fui observar os sinais, achei estranho pois o fulano, me olhava, lançava sinais, mas fiquei quieto, depois escutei ele falando com seus companheiros, creio que vocês estão errados ele não é gay, pois não entendeu os sinais de que vocês me disseram para fazer.

Queria comprovar se eu era gay ou não, pois era um dos únicos que não tinha namorada.

Anos depois o encontrei numa discoteca gay, aos beijos com um desses garotos de programas, lhe disse para ter cuidado, pois eram tipos de pessoas que podia ser perigosas.

Me olhou de cima a baixo, como dizendo, quem é você para me falar sobre isso.

Dias depois fui visita-lo num hospital, tinham lhe dado uma surra tremenda, além de roubarem tudo que tinha de valor na sua casa.

Ficamos amigos, ele sempre depois disso confiou em mim.  Lhe disse para não viver escondido que isso sempre atrairia pessoas como as que lhe tinha causado problemas.

Seja tu mesmo, não precisas levantar bandeiras, tampouco sair gritando aos 4 ventos que eres gay, a tua vida é só tua.

Eu não gostava dos ambientes de nenhuma classe, não gostava de guetos, nada do gênero, quando me perguntavam alguma coisa da minha vida pessoal, eu olhava a pessoa nos olhos, lhe respondia com outra pergunta, “eu pergunto sobre tua vida”.

Nunca mais me enchiam o saco. 

Tive um companheiro nessa delegacia, durante quase oito anos, um dia infelizmente levou um tiro que o deixou atirado em cima de uma cama para sempre como um vegetal, sua mulher, que era muito bonita, a princípio fez um drama impressionante, até ver a pensão que lhe tocava, quando ele se recuperou um pouco, o deixou numa dessas casas de repouso, que obrigou a polícia pagar, mas nunca ia até lá, quem ia era eu, pelo menos a cada 15 dias, as vezes me sentava conversava com ele, como fazíamos no carro, debatendo alguma coisa que tivéssemos investigando, ele tinha uma maneira de olhar o problema, eu outro, mas eu fazia um exercício, juntava sua opinião com a minha, encontrava um meio termo nisso tudo.

Sentia falta disso, o meu novo companheiro era um idiota renomado.  Um dia me enfureci pois estragou todo processo que estávamos levando, por querer parecer mais importante do que era.   Falei com o chefe, prefiro ir sozinho nisso, ele permitiu.

Um dia cheguei na clínica, ele tinha morrido durante a noite, sua viúva já estava vivendo com outro, mas sem casar-se para não perder a pensão.

Fui ao enterro porque tinha a pantomina da polícia, a salva de tiros, essas merdas todas.  Mas sai dali rapidamente com asco.

Dias depois levei um tiro, numa emergência que tinha ido atender com outros companheiros, me vi no meio de um fogo cruzado, só pude me deitar no chão, esperar que tudo acabasse, mas já era tarde, tinha levado um tiro, com a adrenalina, nem tinha sentido.

Tinham me destroçado o ombro inteiro, teriam que colocar uma prótese, já não poderia ser inspetor, me queriam de chefe em algum lugar, dando ordens, ou que eu me aposentasse.

Preferi a segunda, pois já estava farto.

Quando fiquei bom, reuni minhas poucas coisas na delegacia, coloquei numa caixa todas as cadernetas que usava para anotar os casos, para depois o passar para o computador.

Um dos motivos que todos riam de mim, era que eu ainda vivia na casa que tinha sido dos meus pais a vida inteira, não tinha sequer mudado os moveis de lugar, usava o mesmo quarto que tinha usado desde garoto.

Uma imobiliária, me ofereceu uma fortuna, pois, precisavam da casa, como tinha comprado as outras dos vizinhos, queria construir um enorme edifício residencial ali.

Nada mais era como no meu tempo de garoto, nem os amigos antigos, viviam mais por lá. Cheguei à conclusão que era hora de enfrentar uma vida nova.   Coloquei todo esse dinheiro num banco, bem como o que tinha recebido da polícia, teria a garantia de meu salário sempre.

Uma vez tinha ido atender junto com um grupo um caso em Venice Beach, me apaixonei pelas casas do canal.

Fui até lá dar uma olhada, por um acaso, vagabundeando por ali, vi justamente o momento que uma senhora, colocava uma placa de aluga-se numa casa.

Uau, soltou ela, mais rápido impossível, me disse o valor, me mostrou a casa toda, inclusive os problemas que tinha, tinha herdado de um irmão que tinha morrido na guerra do Golfo, os bens dele estavam enrolados num processo, pois tínhamos que dividir entre todos a herança de meus pais, a mim acabou me tocando essa casa.

Ficamos amigos rapidamente, Esther logo quando escutou meu nome, soltou, Jesus, não me diga que teus pais de deram esse nome por causa do Lalo Schifrin?

Eu balancei a cabeça concordando, falei de Shakespeare, ela riu muito, sempre fui muito fraca em dramaturgia.

Aluguei a casa, o duro foi desmontar a casa dos meus pais, acabei me enfurecendo, chamei uma empresa dessas que recolhem para a caridade, só levei minha roupa, nada mais.

Acabei comprando tudo novo, o que mais gostei da casa, era que tinha uma varanda, aonde podia me sentar, posteriormente, a fechei, para poder trabalhar, como ficava nos fundos era perfeita para isso.

Ia todos os dias a praia, logo tinha cor, comecei a conhecer o pessoal da praia, quando me chamava para jogar vôlei, ou basquete, tinha a desculpa que o ombro não me permitia, mas aprendi a fazer surf, pois via o pessoal fazendo, achava o máximo.

Era meu relax, me levantava cedo como sempre tinha feito na vida, ia fazer surf, com sol, chuva, tempo feio, frio, estava uma hora na água, estava pronto para o meu dia.

Primeiro como uma distração, comecei a analisar o meu primeiro caso, o do que o sujeito não esperava que eu ficasse quieto.

Analisei como tínhamos chegado até ele, inventei um personagem, pois na verdade se tratava de um caso, em que o bandido ainda estava vivo.  Consegui uma licença, fui falar com ele na cadeia.

A pose de abusador que tinha antes, tinha trocado, agora abusavam dele, fiquei num primeiro momento com pena.  Me contou sua vida antes de tudo que tinha acontecido, sempre tinha se sentido renegado, nem seus pais pareciam gostar dele, só na época do julgamento, tinha descoberto depois que o condenaram, que ele era na verdade filho de uma parente.

Nunca ninguém me quis, por isso quando as mulheres, as jovens se negavam a fazer sexo comigo, as matava, mas essa em particular, pela sua cara, seu jeito de anjo, de menina comportada, quando a abordei, vi que usava isso como uma desculpa para fazer o que queria, quando entrou no carro, embora eu a forçasse, ria, isso eu tinha visto no vídeo, mas não tinha explicação.   O primeiro que fiz foi lhe dar uma bofetada.

Virou uma fera, perdi a cabeça, o resto já sabes como foi.

Mas aqui dentro, imagine quando cheguei, carne fresca no pedaço, preso por ter abusado de uma ou mais garotas, virei pasto de todo mundo.

Agora, já não me querem, pois sempre chega carne fresca, comparto cela com um predicador que era pédofilo, esse diz que tem asco de mim.

Posso me oferecer para todo mundo, ninguém me quer, estou ficando velho, feio, quando saia daqui, se é que vou sair um dia, não saberei o que fazer da minha vida.

Contei que tinha saído da polícia, que não podia mais mover o braço com que atirava, que estava revendo meus casos, escrevendo uma história, queria saber se podia usar a dele, construiria um personagem em cima.

Assinou o papel me autorizando, mas me disse uma coisa que queria que eu incluise, queria que eu falasse também do que tinha acontecido com ele na prisão.   Vou escrever, te mandarei.

Realmente chegou, mas o tinham assassinado na prisão, o predicador o tinha assassinado por ser gay.

Como o que tinha escrito estava num envelope com meu nome, me mandaram.

Realmente usei, depois de ter o texto todo escrito, cheguei à conclusão que me faltava saber fazer melhor, descobri um curso de escritura na universidade, consegui me inscrever, fiz o curso, depois um seguinte, até me sentir capacitado para fazer bem.

Revisei o que tinha escrito inteiramente. Quando a primeira editora que tinha mandado aceitou me entrevistar, na semana seguinte me chamaram de mais duas, recebi o contrato de todas, fiquei confuso, o melhor foi procurar um advogado, para ler os mesmo, me dizer o que era melhor, me mostrou todas as letras pequenas.

A maioria queria o direito de vender o mesmo para fazer filmes, eu era um mero escritor os outros se lucravam.

Tinha mandado por mandar para uma grande em NYC, mas claro agora já tinha experiencia, fui até lá, nem conhecia a cidade. Aproveitei para passear, conhecer a mesma, fui a entrevista, com uma mulher que com os anos se tornou uma grande amiga, conselheira.

Antes de falar sequer em contrato, pegou o texto, com uma série de folhas marcadas.  Me disse olhando na cara, se queres podemos produzir como está, mas olhe estas sugestões que te faço.

Me deu o contrato para ler, disse, olhe tudo, depois marcamos de nos falarmos.

Fui para o hotel, tinham se acabado os passeios, li tudo que ela tinha anotado, tinha achado interessante que eu tinha escrito a máquina, me sugeriu escrever num laptop, que eu podia guardar melhor o que escrevia.

Fiz justamente todas as mudanças como tinha me pedido, li alguns detalhes para meu advogado do contrato que era diferente dos outros.   Mandei uma cópia para ele, me disse que só tinha que negociar a história do texto servir para filme.

Ela tinha sugerido, depois de saber da minha história, se vais continuar a escrever sobre todos esses casos, o mais interessante, crie um personagem, parecido contigo, construa uma história para ele.

Foi o que fiz, construí o personagem como uma homenagem ao meu pai, Franciskus Andronicus, que abreviei para Frank Andrus, ela gostou da ideia, revisamos juntos mais uma vez todas as modificações, negociei o contrato caso o cinema se interessasse.

Eles entraram em fase de produção, voltei para minha casa.  Estava já trabalhando o meu segundo texto, já conhecendo a cabeça dela, segui em frente com o personagem, a cada vez, aumentava um pouco a história de meu pai.

A maneira como ele pensava, depois como eu tinha usado para resolver os casos que trabalhei.

Agora quando levava o texto, me dizia rindo, já conheces um pouco a minha cabeça, minha maneira de pensar.

Saia para comer com ela, falávamos nesses momentos da vida em geral.

Eu tinha uma franca dificuldade de até ter uma pessoa para fazer sexo, pois num primeiro momento ficava observando como essa pessoa se comportava.

Um dia disse que queria que eu conhecesse uma pessoa, escreveu a história de sua vida, pensei em encontrar uma pessoa dramática.

Me dei de cara com um homem de quase 1,90 metro de altura, forte, cabelos compridos, tinha trabalhando muito tempo em shows noturnos, fazendo papel de travesti.

Quando resolveu por uma série de dúvidas em sua cabeça fazer uma operação de cambio se sexo, descobriu que por causa de uma série de problemas físico, tinha acabado agora de fazer uma tratamento contra um câncer de pulmão, já não poderia fazer nada.

Ficamos conversando, ela disse que tinha que voltar para o trabalho, ele me deu o texto para ler, anotou seu número de celular.  Lhe disse o hotel que estava hospedado.

A primeira coisa que fiz, foi ler o texto, o li de cabo a rabo, fazendo o que tinha aprendido, num caderno a parte, fui escrevendo todas as observações do que pensava.

Tinha é claro analisado a postura dele, que não era nada afeminada, não entendia certas coisas que falava, lhe chamei, marcamos de nos encontrar, ele vivia no Village.   Marcamos num bar, quando me viu chegar com tantas folhas de papel, riu.

Começamos a conversar, mas claro a cada instante éramos interrompidos, por alguém que vinha falar com ele.

 Lhe perguntei se não podíamos ir a outro lugar, pois ali era impossível conversar, na verdade morava relativamente perto, por isso as pessoas o conheciam.

Subimos a sua casa, eu esperava uma casa de bonecas, era tão limpa de tudo como a minha.

Ficamos falando horas, quando lhe disse que não entendia por que queria ser mulher.

Me contou sua história, que até ir para a escola, tinha pensado que era uma menina, pois sua mãe o vestia assim, ela queria uma filha, por isso o vestia de mulher.

Quando descobri que era um menino, que fisicamente era diferente de uma menina, meus problemas começaram, depois cresci muito, acabou que uma assistente social descobriu isso, pois eu quando escrevia, fazia os textos em feminino, uma professora a alertou.

Quando chegou em casa, deu com a minha mãe, me tratando de menina, foi uma merda total, eu fui tirado de casa, levado para outro lugar.

Descobri ao mesmo tempo que tinha sido adotado, então fui passando de casa de menores uma atrás de outro, o que me salvou, era que era grande, aprendi a me defender logo, pois senão teria sido vítima de abusos.   Mas claro tinha sempre o famoso bullying, pois eu era grande mais tinha um piru, o mais normal possível, com meu tamanho, sempre imaginam que o tenho imenso.

Mas ao mesmo tempo sempre me senti atraído por homens, me confundia, pois por causas de tantos romances que minha mãe me lia, esperava o príncipe encantado, me fudia direto, pois ninguém era.    Fiz uma experiencia de me apresentar num café concerto que tinha shows de travesti, me senti em casa, todos tinham essa coisa da mulher.

O mais interessante é que normalmente quase todos tinham piru grande, os homens queria isso deles, que fossem femininas, mas que ao final o possuíssem.

Comigo se decepcionavam, pois eu era como eles, normal, só era grande no tamanho, sabia conversar, tinha uma certa cultura que adquiri sozinho.   Mas claro não encaixava aí também.

Quando acabei a universidade, consegui um emprego numa biblioteca, pois era um mundo que me fascinava.

Nunca nenhum relacionamento meu deu certo, um dia um sujeito que acabou virando um quase amigo, pois desapareceu, me disse que eu errava ao final do primeiro encontro imaginar que estava apaixonado, que o romance entre os dois ia ser eterno.

Apertei sua mão, lhe dando força, olhe pelo que li do texto, acho que devias começar a partir de tua infância, se queres contar como chegaste aonde estas agora, tens que começar desse ponto, aonde te confundiram.

Me agradeceu muito, iria escrever novamente, eu tinha que ir embora, num rompante, lhe perguntei por que não vinha passar uns dias comigo, assim ele ia escrevendo, iriamos falando sobre o mesmo.

Ele aceitou, se encantou como nossas casas na verdade se pareciam.

Um dia na praia, notei que tinha ciúmes, como alguns se aproximavam dele, pelo seu físico, ele no fundo era muito atrativo.

Quando comentei com ele a respeito, riu, é porque não percebes como te olham, alguns te devoram com os olhos.

Sem querer um dia fizemos sexo, foi fantástico, nunca tinha me sentido a vontade, com ele era diferente, fomos procurando os pontos aonde o outro sentia maior prazer, encaixamos.

Eu tampouco tinha um piru fora do normal. Rimos com isso.

Todos os dias, um lia o que o outro tinha escrito, ele conhecia meu primeiro livro, contei que o personagem que tinha construído, estava em cima do meu pai.  Eu acho que como tu, minha primeira paixão foi meu pai, pois sempre procurei alguém que fosse como ele.

Mas claro tinha que voltar a NYC, seu trabalho lhe esperava.  Foi uma despedida boa, ficamos conversando até tarde, de como nós tínhamos liberado um com o outro.

Não sabia com certeza se era um relacionamento, nunca tinha tido nenhum.  Voltei me dedicar ao que fazia simplesmente bem.   O primeiro livro, depois do sucesso do primeiro, o queriam comprar para montar uma serie, me entrevistaram para saber se continuaria a usar o personagem, se fosse assim, me comprariam com a ideia da série, que era o que dava dinheiro atualmente.

Escutei falar de um curso de roteirista para cinema, serie, me informei, comecei a estudar, tinha facilidade, pois ao momento que pegava o bloco, tinha uma maneira de escrever muito típica.

O nome a frase que a pessoa que interrogava tinha dito, então ficava mais fácil.

O terceiro livro, foi sobre um crime que peguei o bonde andando, pois o detetive que acompanhava o mesmo, teve um enfarte justo no decimo dia de investigação, tive que me colocar ao dia, anotando tudo que ele tinha visto, interrogado, suas dúvidas, quando tentei falar com ele, a coisa se torceu, como não lhe caia bem, não gostou que me tivessem dado o caso, se negou a falar o que pensava.

Mas talvez tenha sido o melhor, pois tive que voltar ao ponto zero, examinar de novo a cena do crime, acabei descobrindo coisas que tinham passado por alto, chamei de novo a equipe de provas, para examinar o que tinha descoberto.   Tinha vistoriado a casa inteira, mas no corredor tinha um tapete ao longo do mesmo, ninguém levantou o dito cujo, no meio tinha uma tampa para um sótão que ninguém tinha visto, ali se descobriu muita coisa. Que o assassinado, usava o lugar para abusar de menores, tinha com certeza sido um deles que o tinha assassinado.

Numa estante, tinha como um registro de tudo, vídeos que tinha feito, o duro era descobrir se estes garotos ainda estavam vivos.   Alguns tinha uma anotação, que queria dizer, alugado pelos pais.  Eram muitas, coloquei o serviço de menores para ajudar, mas claro não funcionava, consegui uma ordem do juiz para levar gente treinada a este departamento, se descobriu muita merda.   Alguns estavam envolvidos com a rede de pederastas, por isso não cooperavam.

A maioria dos garotos tinham desaparecido no mapa.

Mas mesmo assim, consegui localizar uns quantos, eu que tinha sido amado pelo meu pai, quando conversava com esses hoje rapazes, ficava abalado, a cada entrevista, depois tinha que tomar um banho, como se essa sujeira que tinha escutado, ficasse pegada ao meu corpo.

Talvez tenha sido um dos trabalhos mais sujos, cruéis que tinha feito.

Me chamaram da morgue, um dos garotos que tinha sido abusado, tinha sido encontrado, como se tivesse cometido o suicídio, mas examinar seus pertences, vi que não, tinha sido barbaramente assassinado.   O tinham dopado antes, os exames confirmaram minha desconfiança, tinham feito uma coisa para incrimina-lo, colocado uma arma em sua mão, para que tivesse vestígio de pólvora.    Isso seria impossível, pois o assassinato tinha ocorrido a mais tempo.  Alguém queria jogar a culpa nele.   Levantar sua vida, foi como estar num labirinto.

Afinal descobri que um dos que tinham sido abusados, era agora um abusador, ele tinha feito tudo.

Era um tipo complicado, quando o olhava de uma determinada maneira, era quase um figura frágil, mas se o examinavas detalhadamente, por menos que não tivesse músculos, tinha os braços duros, como de exercícios, ele fazia uma coisa, atraia jovens para formar uma corte, ele organizava tudo, era como uma madame.   Todos de uma maneira ou outra tinham sido vítimas, agora abusava dos outros mentalmente, os manobrando para fazer o que queira.  Dizia a sua corte, se abusaram de nós grátis, agora tem que pagar.

Nas entrevistas, sem querer soltou uma observação, fui verificar nos vídeos da vítima, nos mais antigos, se via que tinha passado anos nas mãos desse pédofilo.   Tinha conseguido escapar, entre suas vítimas contavam seus próprios pais, que o tinham vendido ao pédofilo, os encontrou, lhes deu uma dose massiva de drogas, os atirou no meio de um lugar cheio de porcos para que se alimentassem.   Era um crime sem resolver, quando descobri a identidade dessas vítimas, liguei com seu nome original.   

Tentava ser o mais racional possível.

Vivia agora num hospital psiquiátrico, isolado dos outros pacientes, pois se o deixavam junto, tentava manipular as pessoas.

Conversei com seu psiquiatra, que disse que as seções com ele, era gravadas, pois ele sempre tentava manipular as pessoas.   Me mostrou os vídeos, a postura que se colocava era evidente, ainda era um tipo bonito, tentava primeiro o jogo de sedução, se esse falhava, passava para o de manobra com as palavras, se fazendo de vítima, sempre era o coitado.

Pedi ao psiquiatra que gravasse uma conversa minha com ele.   Quando me viu, levou um tempo para me reconhecer, mas quando isso aconteceu, mudou de comportamento totalmente, pois tinha tentando comigo todas suas manobras, não tinha funcionado.

Se tornou agressivo, me chamou de filho da puta para baixo.  Se levantou, com a força que tinha, de frágil que aparentava, levantou a mesa de aço a que estava preso, tentando me alcançar para me matar com suas próprias mãos, pois tinha interrompido sua vingança.

Na segunda entrevista, lhe disse que estava escrevendo um livro sobre ele, ficou lisonjeado, perguntou se eu compraria uma roupa nova para ele dar entrevistas para a televisão, eu lhe disse que isso nunca aconteceria, pois ele vivia uma cadeia perpetua, isolado dos outros.

Nada disso mudaria.  A cena era dantesca, se lamuriou, me chantageou, fez mil coisas todas gravadas, o que ele não sabia era isso que tudo era sempre gravado.

Mas em momento algum cedi, acabou me contando seriamente seu começo, como os pais jovens o tinham alugado com seis anos de idade, para comprar drogas, seu corpo tinha virado um comercio.

Como fazia para suplantar as dores, o depois, se escutava o nome da pessoa, depois anotava, já pensando numa vingança.    Acabou soltando aonde tinha algumas pessoas que não tinha confessado antes, matado, detalhe por detalhe, me dizia sorrindo, isso fará com que fique famoso, virão aqui pedir entrevistas.  Passei esses detalhes das pessoas que ele tinha falado, a localização, a polícia descobriu as vítimas, iam desde pédofilos, a garotos que depois ele mesmo tinha abusado, torturado, se a vítima não conseguia suportar as matava, com elas enterrava a arma do crime.

Escrever o livro, foi duro, acabou sendo um livro duplo, pois de uma lado analisei desde o ponto de vista do detetive que era, depois o segundo a vida do próprio.

Os diretores da série ficaram como loucos, queriam entrevista-lo, mas eu tinha trocado o nome do mesmo, bem como aonde estava.  Pelo menos não o acharam.

Fiz uma série de exigências com respeito a ceder os direitos desse livro, exigia acompanhar a filmagem, a montagem dos capítulos.  Claro queriam fazer de outra maneira, não aceitei, como tinha assinado um contrato, em que eu vendia o que queria, ficaram furiosos.

De uma certa maneira, tinha mais dinheiro que podia ter.

Resolvi, fiz uma viagem longa, pedi que retrasassem o lançamento do livro, os produtores da série, localizaram o detetive inicial, que inventou uma história sem pé nem cabeça.

A coisa não funcionou, quiseram me processar, mas eu sempre consultava os advogados antes de firmar qualquer coisa.  A clausula que dizia que eu só cederia os títulos que queria, funcionou, inclusive falei com o juiz o que queriam fazer.  No fundo era colocar o assassino como vitima todo o tempo, criticar o poder judicial, etc.

Nesse meio tempo, quando voltei, o psiquiatra me chamou, pediu se podia ir até lá, ele não sabia como, da minha negativa de vender os títulos, tinha tentado escapar, tinha matado dois guardas, acabou sendo eliminado por um deles em legitima defesa.

Tudo claro era gravado, o mais impressionante era sua máscara de ódio quando tentava matar o último guarda, depois quando morto, como se sua cara fosse se transformando numa mascara aonde só ficava a beleza, não o retorcido que era.

Eu tinha pesado muito o texto, pois saber da sua história, o quanto tinha fundo de verdade, o quanto era fantasia, o tirava por seu comportamento físico.   Acabou que desisti de editar o livro, guardei o mesmo num cofre, proibindo sua publicação.

Sabia que era como uma bomba de relógio, pois de um lado o apoiariam, por outro não passaria de um assassino normal, deixaria muitas frente abertas.

Fiquei meses sem escrever, matutando o que faria a seguir.  Tinha uma segurança financeira grande, por levar de uma certa maneira uma vida simples.  Mas claro ficar sem fazer nada era duro, examinei minha cadernetas todas para saltar para uma interessante, mas no fundo era como dizer, mas essa foi tão pesada como a outra.

Segui em frente escrevendo, mas já fazia o roteiro de serie junto, trocaram o produtor que tinha me enchido o saco por causa da anterior.   Ninguém me perguntava mais sobre o assunto, o enterrei.

A série apesar do tempo parado fazia sucesso, o ator que encarnava o personagem ia bem no papel.

Um dia lendo o jornal, vi uma notícia que me interessou, um ex-convicto, voltava a assustar as pessoas.  Eu tinha levado o primeiro caso desse rapaz, na época predisse como acabaria, tinha um ódio guardado dentro dele extremo, quando o prenderam consegui entrevistar.  Quando o prendi, se esqueceram de uma das provas básicas do caso, por isso teve uma pena leve, o juiz não aceitou depois mais a mesma.

A culpa tinha sido dos analistas de provas, deram como perdida a mesma, para depois descobrir que estava guardada errada.

Quando me viu riu, disse que eu como ele estávamos ficando velhos, não deixava de ser uma verdade.   Comentei com ele o que tinha visto quando o tinha interrogado a primeira vez.

Foste o único em todo esse tempo que viu quem eu era.  Tinha sido abandonado em pequeno, do orfanato passou por uma série de adoções com abusos, depois no reformatório, porque tinha matado um agressor, foi novamente vítima de abusos, até que conseguiu uma maneira de se defender, ameaçava todos que estavam em volta dele, se vingava na calada da noite, sem que ninguém o visse, nisso tinha matado dois agressores.

Quando o prendi, tinha escapado do reformatório, tinha uma maneira muito própria de caminhar, como quisesse afirmar, atreva-se a se aproximar que dou o cabo de ti.    Tinha conversado com ele muito a respeito, desse ódio visceral que tinha.

Me disse uma coisa que uma certa maneira me fez pensar, nunca ninguém chegou perto de mim para fazer um carinho, nem que fosse passar a mão sobre a minha, sempre tinha outra coisa por detrás.   Acabei me acostumando com os abusos, mas a cada um eu procurava me vingar.

Me perguntou se me lembrava da monja do orfanato que eu tinha entrevistado, eu não me lembrava o nome dela, mas como aparecia no caso, guardei, era ela quem me dava em adoção, a troco de dinheiro.  Quando sai a sequestrei, fiz com ele todos os tipos de abusos, ao final pedia mais. A enterrei bem enterrada, com tudo que usei, assim nunca mais faria isso.

Procurei saber do assunto, claro a igreja tinha colocado um véu sobre o assunto, mas conversando com alguém da congregação a que pertencia, me contou horrores sobre a mesma.

Voltei a conversar com ele, tinha levado uma surra de fazer gosto, tinha sido provocado por um dos guardas do presidio, tinha reagido.

Denunciei o fato ao advogado, fiz uma coisa que nunca tinha feito, lhe tocava um advogado de oficio, contratei um dos melhores, um com uma equipe, contei tudo que sabia, foram desentranhar tudo.  Sua pena seria capital, mas como não encontravam a freira, o único que sabia da história que a tinha assassinado era eu.

Mas quando soube que passaria o resto de seus dias na prisão, me mandou uma carta, quando eu a recebi, pois tinha estado viajando fazendo palestra, já era tarde, tinha se suicidado num descuido dos guardas.

Quando abri a carta, era uma letra de criança, miúda, como se quisesse economizar no papel, para me contar muitas coisas, realmente me contou aonde estava a freira do orfanato, bem como outros pédofilos que tinha assassinado.   Dois nem tinha sido com ele a história, tinham sido dois que tinham se livrado da justiça, ele dizia, eu fiz a justiça em nome dos garotos que eles tinham abusados, detalhava tudo.

O que me surpreendeu, foi ele confessar que morria de medo de se tornar um abusador, não queria fazer os outros passarem pelo que tinha passado.

Comecei o livro através de tudo que me falava na carta, quando a polícia desenterrou a freira, encontraram vários papeis que ele tinha roubado do orfanato, aonde ela anotava os negócios que tinha feito, as crianças com nome próprio, mas sem sobrenomes, a quem tinha alugado ou vendido.   Não se encontrou vestígio dessas crianças.

Os dois pédofilos que ele tinha mencionado, a mesma coisa, tinha descoberto que eles tinham anotações do que faziam, vídeos coisas no gênero.   Tudo estava enterrado junto com eles, protegidos, por se acaso o corpo fosse encontrado.

Mesmo vendo a cara dos garotos abusados, era difícil saber se seguiam vivos ou não, pois a maioria nem passava dos dez anos de idade.

Alguns, os mais bonitos tinha sido vendidos pela freira.  O que espantava era descobrir um comercio oculto de pessoas que eram passadas de um para o outro.

Pois entre esses dois, quando se comparava os vídeos, as vezes se via o mesmo garoto, em distintos lugares.

O departamento encarregado das adoções, sempre alegava que estava transbordados, que nunca fazia seguimento dos casos, faltava gente para isso.

Quando a série começou, porque tivemos muitos problemas com a justiça, que não queria que se levantasse esses assuntos, mas os advogados conseguira seguir em frente.

Os jornalistas assediaram o departamento, revelando quem eram as pessoas que trabalhavam ali.  Se eram corruptas ou não, o orfanato teve que fechar, pois as quantidades de adoções irregulares era imensa.   Sempre os responsáveis lavavam as mãos sobre o assunto.

O ator que fez o papel, ganhou um prêmio pela interpretação, eu ganhei pelo roteiro, mas aproveitei para reclamar do descaso da sociedade sobre o assunto.

Um dia conversando com uma pessoa numa entrevista, essa me disse que tinha visto a serie como uma história de terror, nada mais, comendo pipoca, tentando estar o mais afastada mentalmente de todo o relatado.  Só me preocupei em analisar a representação, como tinha sido filmada, nada mais.  Os fatos reais não deixei que me atingisse.   Me fez uma pergunta banal, me neguei a responder, soltei, por isso esse pais anda assim, soltei como uma ameaça que ia verificar sua vida, pois ele poderia ter tido um orgasmo com o que via.

Nunca mais se atreveram a me fazer perguntas idiotas.

Pensei inicialmente em doar todo dinheiro que tinha ganho com a série, para algum orfanato, foi difícil encontrar algum sério, um amigo advogado foi quem me alertou, tens que saber se o dinheiro está mesmo sendo usado, ou levado para a diocese.

O que fiz, foi falar com a superiora, que me agradeceu muito, mas todo o dinheiro, foi para comprar camas decentes, tudo o que eles precisavam, dinheiro vivo não dei nenhum.

Foi lá que conheci meu filho.   Um dos garotos, muito sério se aproximou, veio me agradecer, já não tinha que dormir no chão.   Perguntei seu nome, me disse que o chamavam de Tom, mas ele não sabia se era o verdadeiro.

Falei com a superiora, o adotei, a primeira coisa que fiz, foi leva-lo a um médico, para fazer um exame exaustivo, estava muito desnutrido, colocá-lo numa escola, aonde se revelou com uma surpreendente madures para tudo.  Não era um gênio, comecei a lhe ensinar as coisas que meu pai tinha me ensinado.   Me dizia sempre que o avô devia ter sido uma pessoa especial.

Sim meu filho, foi, me ensinou a ser como sou.  Pois quando te vi, soube que eras para ser meu filho.   Eu dava graças a deus dele nunca ter sofrido nenhum abuso.

O criei como meu pai tinha feito comigo, procurei escrever histórias sobre outros assuntos, coisas que tirava como um fio dos jornais, ia entrevistar as pessoas, levantar todo o passado da mesma, para poder criar uma história real.

Guardamos tantas coisas embaixo do tapete que as vezes é impossível saber depois o que foi real ou não, basta olhar, escutar a pessoa falando, para saber que está fantasiando em cima de uma realidade mais brutal.   Algumas encontram dessa maneira uma forma de melhorar suas vidas, tentando esquecer do passado.

Mas sempre uma caixa de segredo, num dado momento abre sem querer, por algo que a pessoa vê, ou lê.

Escrevi uma história sobre isso, que depois virou um filme.  Não estava baseada em nenhum fato real, mas sim num personagem que criei, que num dado momento uma das caixas abre, mostrando todo o horror do seu passado, destruindo o presente.

Tom já com mais idade, um dia me perguntou se eu nunca tinha amado ninguém.  Lhe contei a verdade, tinha tido um pai tão fantástico que queria que se alguém me amasse fosse como ele, mas isso nunca tinha encontrado.   Tinha amantes, que acabavam virando meus amigos, ou então nunca mais falando comigo, mas seguia em frente, agora tinha um filho.

Quando ele se formou na universidade, me agradeceu por tudo que eu tinha lhe ensinado, como o tinha amado como filho, graças ao meu avô, meu pai foi uma pessoa excepcional, acabou sendo se revelando um pai igual ou melhor que o seu.

Agora trabalha num dos melhores escritórios de advogados, é considerado o melhor, interrogando alguém, usa tudo que lhe ensinei.

Em breve se casa, com uma garota que conheceu na escola, sua melhor amiga, espero o dia de ser avô, serei aquele avô que velho demais, contara histórias para seus netos.  Mas nenhuma das quais tenha escrito, seria muita maldade.

Um dia antes que fosse tarde demais, retirei o texto, com todas as cópias que tinha do livro que só me tinha dado dor de cabeça, o queimei, assim depois que morresse, ninguém poderia cair na tentação de publicar.

BAIANO

                                                 

Sou Marco Capibiribe Alcântara, nasci em São Paulo, mas fui criado em Salvador, com muito orgulho de ser baiano.   Dizem que falo assim pois pareço um soteropolitano.  

Não me importo, meu pai na verdade é baiano, minha finada mãe também era, só voltei para cá, pois ela morreu num acidente de carro, tempos depois ele se juntou um uma paulistana, que não gostava de criança, ele me mandou para viver com minha tia.

Hoje dou graças a Deus, mas quando era pequeno não entendia.

A família da minha mãe, é imensa, o velho teve muitos filhos dentro, fora do casamento, mas sempre reconhecia todos.

Ele tinha negócios em todo interior, cada cidade tinha uma loja dele, vendiam de tudo um pouco, os antigos armazém de secos e molhados, uma coisa portuguesa.

Casava suas filhas com ajudantes, as ensinava primeiro a trabalhar, para controlar os maridos, que esse não lhe roubassem.

Minha tia foi a única, que disse não, foi para Salvador, estudou como uma louca, hoje é professora da Universidade.

Nunca se casou, nem queria ninguém que lhe cortasse a liberdade que tinha conseguido, sei que pagarei por isso quando for velha, mas me importa uma merda.

Me acolheu em sua casa, um belo apartamento perto do Farol da Barra, quando vi o mar, me apaixonei, nunca mais pude pensar em outra vida, em que não tivesse o mar por perto.

Era conhecida como Doutora Neide Capibiribe, mas dizia logo, que a chamassem de Neide.

Era sempre convidada para simpósios, congressos pelo mundo inteiro, era uma sumidade em se tratando de misturas de raças, de negritude.

Era amiga de todos os pais de santo de Salvador, se perguntassem se era do Santo, ria, dizendo que não, não me quiseram, sou Católica, Apostólica Romana, mas não colocava o pé numa igreja nem a porrete.  Quando muito se tinha algum amigo de fora, ia a lavagem do Bonfim, nada mais, em casa nenhum santo, mas muitas coisas Africanas, mascaras, esculturas, tudo que lhe davam de presente quando ia pelos países Africanos.

Quando algum irmão, reclamava dizendo esse seu interesse no assunto, iam pensar que éramos descendentes de africanos, ela ria muito alto dizendo que tínhamos um pé na cozinha sim senhor.

Me dizia ficam querendo passar por brancos, não pegam sol, nada de praia, para ficarem pensando que são brancos, olha teu avô, com o cabelo crespo que tem, ele mesmo diz que sua avô tinha sido escrava, que seu pai, era filho dela com o coronel.

Adorava sua filha, pois era a única como ele, não tinha papas na língua, falava o que pensava o mundo que se fudesse.

Quando cheguei a sua casa, pela mão do meu pai, chorei porque sabia que ia embora, mas ele me disse que estava em boas mãos, como viajava muito, não tinha como cuidar ele só de um filho pequeno.

Ela ao contrário, tinha um filho sem fazer esforço.

Primeiro me traçou as regras da casa, nada de coisas fora do lugar, imagina isso para um garoto de cinco anos de idade, no mesmo dia saímos para arrumar uma escola para mim, me perguntou se eu sabia ler, escrever.   Lhe disse que tinha aprendido com a televisão. Pois me deixavam basicamente o dia inteiro na frente de uma.

Me mostrou dois colégios, ficamos observando de longe, eu tinha que escolher, assim seria minha vida, ela jamais interferia, eu tinha que escolher, saber o que queria da vida.

Olhei para um, que era de gente rica, o outro me parecia mais divertido, com gente de todas as cores possíveis, esse era público.   Bom, se não gostas da experiencia, mudamos de escola, pois errar faz parte da vida.

Não me enganei, adorava minha escola, logo fiz amigos, alguns para toda a vida.

Uma vez por ano, íamos a Ilhéus, aonde vivia meu avô, com as filhas que tinha ficado solteironas, reclamava delas, imagina vão todos os dias a missa, para rezar para ver se casam, não se olham no espelho.

Realmente eram feias, quando eu chegava, o velho que era magro, alto, sempre de terno de linho, gravata, me levantava no ar, me dava mil beijos, dizia que suas filhas tinham alguma coisa errada, pois só faziam filhas.   Eu era seu único neto.

Em seguida saia comigo, para tomar algo com seus amigos, ia falando sem parar, com um sotaque muito carregado, dizendo olha como esse sem vergonha cresceu desde a última vez, ria muito, pagava uma rodada aos amigos em honra de seu neto, me fazia sentar ao lado dele, com alguns começava a falar do preço do cacau, pois além de seu negócio, tinha uma plantação de cacau, eu adorava ir até lá com ele, adorava o cheiro da terra, dos frutos recém abertos, lhe perguntava quando viravam bombons.

Uma parte da produção ele entregava para uma cooperativa, outra mandava para uma fábrica em Vitória no Espirito Santo.

Me dizia ao ouvido, espero que tu estudes, para aprender a elaborar tu mesmo nosso chocolate.

Eu ria, me imaginando na cozinha de sua casa, que ainda se usava fogão a lenha, preparando chocolate.

De tarde se sentava com minha tia, que desde logo era sua preferida, ela lhe contava como eu tinha ido na escola durante o ano, passávamos o natal ali, no ano novo íamos a praia, para ver a saída de barcos para saudar Iemanjá, isso ele não perdia, ele dizia a suas filhas solteironas, vou fazer uma oferenda, para ver se algum jagunço as vem para levar para aonde Judas perdeu as botas, assim me livro delas, isso as gargalhadas, elas ficavam se benzendo, dizendo “Deus nos Livre”, mas no fundo bem que queiram.

Uma delas, um dia desapareceu realmente com um jagunço.   Nesse ano ele dizia que faltavam duas, que Iemanjá, tinha que lhe ajudar.

No dia 3 de janeiro íamos para Salvador.  Quando ele ficou sozinho na casa, minha tia o trouxe para Salvador, de lá ela dirigia a empresa do velho, os cunhados diziam que ela era pior que ele, pois exigia as contas limpas.

Eu começava a sair de noite, ele me dizia, aproveite a vida meu filho, é curta, quando pensamos que estamos em cima da onda, na verdade já estamos embaixo.  Aproveite, saia com teus amigos, divirta-se, sempre me colocava um dinheiro na mão.

Mal sabia que eu tinha um namorado na verdade, quando chegava o verão a maioria dos amigos arrumavam algum turista, eu só não gostava de carnaval, trio Elétricos, essas coisas, aglomeração de gente, suada, fedendo, isso eu era diferente dos outros, o que era meu namorado desaparecia, um dia o vi de beijos, abraços com um gringo, o mandei catar coquinhos.

Na verdade como dizia minha tinha eu era demasiado Paulista para Salvador, era muito sério, levava tudo como deve ser.   Nunca gostei de preguiça.

Meu avô achava que eu estava certo, se tivesse preguiça não teria levantado os negócios que tenho. Por culpa dele, comecei a ler tudo referente ao cacau, queria saber antes mesmo de entra na universidade as possibilidades, como se devia plantar, colher, usar essa produção. Vi que a maioria das empresas hoje começava a ter sua própria plantação, seja na Africa, ou outro lugar.

Um dia lendo um artigo muito interessante, pedi licença para ele, para experimentar o que diziam no artigo, em um pedaço de terra, para ele voltar até o lugar que adorava, foi ótimo, inspirava o ar, dizia que isso sim era viver.

Chamou seu capataz, lhe disse o que eu queria, analisei a terra como dizia o artigo, escolhi só um pedaço de terra para isso, limpamos tudo, normalmente deixavam tudo, as folhas se acumulando, para servir de adubo.

Fiz tudo ao contrário, as antigas maneiras de cuidar das árvores, limpamos tudo, podamos as que precisavam disso, quando chegou a época de saírem frutos, para susto do pessoal, saíram maiores do que normal, quando chegou a época da colheita, o pessoal dizia que era mais fácil de colher, de abrir, como se fruto estivesse esperando.  Quando mandei essas amostras para uma fábrica moderna, essa logo se interessou.  Para o ano seguinte, limpamos tudo, fizemos da mesma maneira, fiz um contato com a pessoa que tinha escrito o artigo, o convidei para vir nos explicar.

Pensava que chegaria uma homem branco, tipo um especialistas, nada era um mulato, jovem, disse que tinha feito isso para um proprietário, ele tinha estudado agronomia, fora do Brasil, estivemos analisando a terra mais profundamente, primeiro a cada quinhentos metros, extraímos terra para analisar, ele tinha trazido um mini laboratório, fomos nos adequando conforme as terras, ficou contente em dizer, que 80 por cento das terras eram de primeira qualidade.   Meu avô acompanhava isso tudo com extrema curiosidade, nos autorizou a fazer o que queríamos.   Seus filhos e filhas, não gostaram muito, mas era tarde ele tinha feito uma coisa que ninguém sabia, tinha passado as terras para meu nome.

Agora é tudo por tua conta, o dinheiro que ganhamos, com a colheita do que eu tinha feito, colocou no meu nome no banco.

Convidei o Alcides Silva para ficar, lhe disse que pensava eu mesmo usar o produto, começamos a procurar uma maquina de tostar para os grãos, como era o processo de fazer um chocolate artesanal, o primeiro cobaia era o velho, ria muito dizia, sempre imaginei isso, poder provar meu próprio chocolate, já posso morrer, me beijava dizendo esse meu neto.

Fizemos acompanhando as tendencias da Europa, para saber como ficava, minha tia levou para a universidade, para fazer provas, entregava aos professores, pedia que escrevesse o que gostavam, também o que não gostavam.

As críticas eram boas, começamos a preparar vários tipos, fizemos uma embalagem simples, as mulheres de Ilhéus adoraram a novidade, mal sabia que estavam sendo nossas cobaias.

Esse ano quando procurados pela fábrica, sobrava pouco para vender.

Mas com o dinheiro, compramos de um herdeiro que não queria nada disso, as sua terra, mas antes pedimos para analisar a mesma, era da boa, esse sujeito não sabe o que esta fazendo, fizemos a mesma coisa, limpar tudo, preparar para a próxima colheita, não seriam iguais, mas essas venderíamos para a fábrica, o capataz sabia que não devia misturar as duas colheitas.

A casa que pertencia a essa plantação, a reformamos, para fazer ali a fábrica, contratamos mais mulheres para trabalhar.

Minha tia que se aposentava, arrumou uma lojinha ali perto do farol da Barra, começou a vender com uma amiga, o que produzíamos.  Os vizinhos todos apareceram para aprender.

Contratamos em São Paulo uma jovem que tinha ideias fantásticas com o chocolate, a produção aumentou, meu velho dizia que eu realizava o sonho dele, sempre pensei nisso porque não produzir aqui.

Na surdina, ele foi comprando mais terra por ali, já em meu nome, quando me dei conta, lhe disse, avô eu não posso com tanto material.

Os meus tios e tias, achavam que eu estava roubando seu herança.  Mas o velho foi esperto, dividiu em vida, toda sua fortuna, para ninguém botar defeito, mas mesmo assim ele dizia, quando souberem o que fazes, sempre ficaram com inveja, portanto muito cuidado, as terras novas estavam todas no meu nome desde o princípio, algumas em nome dos dois, minha e do Alcides. Muita gente pensava que tínhamos alguma coisa a mais, mas eu tinha encontrado uma pessoa em quem confiar, além de ser meu amigo.

Começamos a ensinar os outros a cuidarem de suas terras, a prepararem um bom cacau, mas alguns claro a terra era pobre, não entendiam isso, que nem toda a terra é rica em minerais, esse preferiam o método antigo.

Alcides como era, começou a estudar como enriquecer essas terras, sem tirar as árvores.

Fizemos a experiencia, num troço de terra que tinha o mesmo problema que essas dos vizinhos, os convidamos para acompanhar o desenvolvimento.  

Mas como dizia Alcides, a maioria reclamava que dava trabalho.  Isso não é só um mal do baiano, mas do brasileiro, querem tudo sem muito trabalho.

Os que acompanharam, ao mesmo tempo, prepararam uma parte de suas terras dessa maneira, ficaram encantados, pois produziam mais e melhor.

Seus produtos valiam mais no mercado.   Os que tiveram preguiça falavam mal do que fazíamos, romper a tradição de tantos anos.

Com tradição ou sem tradição, mal dávamos abasto para as lojas que já tínhamos, não só em Salvador, como em Ilhéus, procuramos alguém para desenhar um logo, embalagens, meu avô sempre aplaudindo.   Quando ele fez 100 anos, disse que agora podia descansar, sonho realizado.     

Tive que enfrentar na justiça, com meus parentes, que queriam reclamar parte dos lucros, menos mal que tinha tudo no papel, ninguém podia reclamar.

Os dois, minha tia como eu, não tínhamos recebido nada da parte das lojas, do armazém, ela só tinha uma parte com suas irmãs solteiras, da casa de Ilhéus.

Se quiséssemos, podíamos simplesmente ficar só plantando e colhendo, pois as fabricas pareciam abelhas em cima da gente.

Queriam saber como tínhamos plantado, quantas tínhamos tirado para plantar outra vez, mas não acreditavam que eram as árvores velhas que estavam produzindo isso, devido ao tratamento da terra.

Meu pai depois de anos sem dar a cara apareceu, mas desconfiei logo, queria me pedir dinheiro emprestado, pois tinha a noção que agora eu estava rico.

Lhe perguntei por que, depois desses anos todos, eram quase 20 anos, ele aparecia, se nunca telefonava, ou mandava dinheiro para meu sustento.

Quando soltou que sua nova família era grande, não lhe sobrava tempo para essas pieguices fiquei furioso, pois não me sobra tempo, nem dinheiro para emprestar, eu dou um duro desgraçado, além de que sua proposta de negócio era um pouco utópica.

Quando falou com minha tia, ela foi pior, ele nunca chamava para saber de nada, nunca tinha ajudado, que queria agora, que déssemos beijos abraços, como se nada tivéssemos passado.

Finalmente foi embora, com as mãos abanando.

Mais um malandro para o Brasil aguentar.

O que me chateava, contei ao Alcides, era que sequer podia sentir nada por ele, pois nunca tinha convivido com ele ou sua família.  Se tornou um belo desconhecido para mim.

Ele me contou que com ele tinha passado isso, tinham feito cozação com ele quando resolveu estudar agronomia, agora pediam dinheiro para alguma loucura que lhes passava a cabeça.

Ao mesmo tempo consegui acabar a universidade de Agronomia, um sonho do velho, minha tese foi sobre as coisas que discutia com o Alcides.

Meus parentes cansados de discutirem na justiça, resolveram fazer valer a velha maneira dos jagunços, mandaram me matar.   Já que não conseguiam por bem, seria à velha maneira.

Quem saiu mal parado foi o Alcides, eu estava de costa quando apareceu o homem com um revolver nas minhas costas, ele me empurrou ao mesmo tempo que o homem atirava, foi ele quem levou o tiro.

Morreu no ato.  Consegui pegar o homem, saber qual dos parente o tinha mandado me matar, quando ele disse todos, o entreguei a justiça.

Enterrei o Alcides, ao ler seu testamento, tínhamos feito juntos, por nossos sonhos, ele era meu herdeiro, como eu dele.

Estava cansando disso tudo, falei com minha tia, tomei uma resolução drásticas.

As terras que davam um bom cacau, que usávamos, fizemos uma cooperativa, os empregados, eram donos também, assim iam trabalhar melhor, continuariam fazendo o que vinhamos fazendo para vender, as outras terras vendi a fábrica que nos comprava o cacau.

Assim os parentes não podiam reclamar nada, pois deixavam de existir.

Quanto ao convite, pedi para primeiro olhar o que queriam, me levaram a Africa, a vários países, quando vi o que faziam, era como quando comecei a trabalhar nas terras do meu avô, os coitados dos trabalhadores eram explorados por todos.  Viviam ainda na miséria, mesmo sendo eles que faziam um trabalho pesado.

Não aceitei o convite, pensava em fazer outra coisa.

Fui olhar umas terras em volta de Salvador, rica pelo chão negro.  Dei de cara com o que me queriam vender era uma coisa falsa, ali era um terreiro de Candomblé, muito antigo, mais antigo que os que se falavam na atualidade.

Quando pisei o portão, parei, fiquei quieto, escutando as vozes todas em minha cabeça, lamentos dos escravos, pedi licença fui entrando, saiu um velho, sem idade definida, veio até chegar bem perto, vi que não via bem, devia estar quase cego.

Finalmente vieste tomar meu lugar.

Fiquei olhando para ele sem saber a que se referia.

Talvez ali, estivesse tudo preservado como era antigamente, pois estava já quase na fronteira com outros municípios, era como se fosse terra de ninguém.

Me pegou pela mão, era como segurar em brasas, venha, me acompanhe.

Você, devia estar morto, mas o amor de teu amigo por ti te salvou, mas agora tens uma sina, viveras muito, superara várias mortes, seguira aqui muito tempo.

Nos sentamos em uns banquinhos de madeira, como eu tinha visto na África, era quase como estar sentado no chão.

Veio correndo um menino, negro como um tição, o abraçou, beijou suas mãos, esse será teu futuro meu filho.

Foram chegando gente de todos os lugares, me sentia como se estivesse em alguma aldeia africana.

Raros dos meus filhos vão embora daqui, preferem ficar aqui, plantando cuidado da mata, do que ir para a cidade grande, os que vão, voltam cheios de vícios, de coisas más no coração, eu os curo, mas não adianta o veneno da cidade grande já chegou ao fundo de suas almas.

Não via nada ali que se parecesse um terreiro de Candomblé, como eu os conhecia.

Ele fez um sinal para um homem grande, o leve para ver a floresta.

Poderia ter dito, o leve para a floresta, de cabo dele.

Segui o homem como um cordeiro, ele foi falando, meu pai é muito sábio, disse que virias, que te encantaria o que temos aqui.

Entramos na floresta, o que se via de longe era como uma ilusão ótica, pois em seguida que se passava a um bloco de árvores, se estava numa aldeia como as que tinha visto na África, depois uma plantação de cacau.   Comecei a olhar, ele me disse, seguimos aqui, o que você escreveu, bem como seu amigo, limpamos tudo, agora produzimos um cacau melhor, mas é como ter uma plantação invisível, pois aqui ninguém sabe que existe esse cacau.

Não queremos que venham as grandes empresas, precisamos que o senhor compre esses documentos que o homem que o procurou tem, ele é o real proprietário, mas qualquer um que chegue aqui, nos expulsará, ficaremos todos na miséria.

Entendi, finalmente, o que me queria vender as terras, era um filho de coronel, como se tinha antigamente, vivia numa bela casa em Salvador, mas seu dinheiro acabava, precisava vender essas terras para seguir sua vida de vagabundo rico.

Mais além, seguindo o homem, finalmente dei com um claro, aonde estava uma imensa árvore, que era a única que já não produzia nada, era como se estivesse ali a mil anos, seu troco era imenso, era como se tivesse crescido ao contrário, demorei para entender que era um Baobá, achei estranho, nunca tinha visto uma dessas no brasil.

Perguntei ao homem como ele se chamava, pois se dirigia a mim pelo meu nome, mas eu não sabia o seu.

Riu, quando digo as pessoas ficam rindo, Macário Sete Vidas, assim estou registrado.

Realmente era algo diferente.

Por que vocês não conseguiram o usucapião destas terras?

Porque quando entramos na justiça esse filho da puta, vem morar nas cabanas da entrada, ai não tem jeito.

Ele sabe do cacau?

Não senhor, nunca tiramos a produção pela frente.

Chegamos a um barraco imenso, me fez entrar, lá estava o velho da entrada sentado num trono.

Me fez levar até ele, duas mulheres vestidas de branco se aproximaram, o pai mandou o senhor tomar um banho de limpeza antes, venha.

Eu as segui como tinha feito até agora, não sabia se por curiosidade, ou pela sensação de paz que sentia.

Me ajudaram tirar a roupa, me deram o banho com ervas, mas senti um cheiro especial, lhe perguntei que era, ela disse que eram uma mistura de canela com cacau que faziam.

Me senti super bem, parecia que a tormenta que tinha dentro do meu peito, desde a morte do Alcides, se transformavam em nuvens passageiras.

Me enrolaram num pano, me levaram de novo para frente do homem.

No mesmo momento devo ter incorporado algum espirito, tudo que sabia era que tinha um negro imenso ao meu lado, só com um taparabos, foi me levando por um túnel imenso, levava uma tocha na mão que ia iluminando o caminho.

Foi como retroceder no tempo, fui vendo as muitas vidas que tinha tido, que ele sempre esteve comigo, até chegarmos a sermos capturados em África, trazido como escravos para salvador.

Entendi, isso era com um reduto de descendentes diretos de escravos, a semente que tinha brotado o Baobá, era uma que eu trazia no pescoço.

Num dia de batalha com os senhores das terras, a tirei do pescoço, como sabia que ia morrer, a enterrei, com ela nasceu essa árvore imensa.

Voltei a mim tonto.

Entendeste meu filho, porque esperávamos por ti.

Vais mudar nossa vida.

Me trouxeram água, no Iroco, é tão grande, porque estão todos os espíritos de nossos antepassados.

Me explicou, que eu devia comprar as terras, veja bem esse homem está num apuro muito grande, deve muito dinheiro, se você regateia um pouco, poderá comprar por um preço irrisório, ele nem sabe o que tem aqui.

Isso farei meu pai, faz muito tempo que não tenho essa paz comigo, mas ele continuou, a falar por mim.

A morte de teu amigo, te afetou mais do que querias, essa gente não se preocupe, está perdendo tudo o que tem, o que teu avô construiu, eles destruíram.  Os tempos modernos avançam, isso precisamos aqui, que as crianças tenham futuro, que não vivam escondidas, tampouco depois tenham que ir para Salvador.

Serás o guia desse gente.

O senhor acha que conseguirei isso?

Sim já fizeste isso com esse de Ilhéus, agora cuidam da terra com amor, carinho, produzem um bom cacau.

Se ensinas os daqui, poderão ir em frente, chegar ao novo século.

Concordei, procuraria fazer, mas queria que me orientasse, colocou a mão direita em minha cabeça, fui vendo tudo que ia acontecer.

Dito e feito, voltei a Salvador, minha tia disse que eu estava diferente, sorri triste para ela.

No dia seguinte fui visitar o homem, num casarão daqueles da época da escravidão, em que as terras ali em volta, deviam ser todas de sua propriedade, mas que tinham ido vendendo para seguir levando a vida de senhores.

Estava jogado numa rede, com uma negra balançando a mesma, parecia um desenho de Debret, pensei comigo, esse homem vive fora de uma realidade.

Me sentei no muro da varanda, disse que estava interessado, quando ele me disse o preço, comecei a rir, fica no cu do judas, teria que mandar fazer uma estrada, aquilo é mato puro, teria que derrubar tudo para plantar, esse preço é muito caro, melhor o senhor procurar alguém que tenha mais dinheiro. 

Ele foi se sentando lentamente na rede, tinha os olhos muito abertos, olhava atrás de mim, esse homem que o acompanha, quem é?

Eu vi o mesmo homem que tinha me levado pelo túnel.

Um amigo meu, meu conselheiro, pois agora não estava de taparabos, mas sim com um terno de linho branco.

Ah, pensei que era um espirito, pois cada vez que vou até lá, esses espíritos me acompanham me assustando.

Tudo bem, fazemos negócio.

Lhe pedi os documentos pois precisava levar ao meu advogado para saber se eram autênticos.

Claro que sim, estão em minha família, desde que isso era uma capitania geral.

Fez uma sinal para a mulher, que foi correndo, voltou com um envelope, como ele já tinha me mostrado antes.

Queres um deposito de dinheiro, ou posso simplesmente levar.

Enquanto isso não tiver minha assinatura como último herdeiro dessa merda, não vale nada.

O levei para meu advogado, ele riu, dizendo que nunca tinha visto papeis tão velhos, que iria examinar, ia nos registro de terras na parte da tarde, que no dia seguinte, me daria a resposta se eram autênticos ou não.

Fui para casa, olhei para trás o homem continuava atrás de mim, lhe perguntei seu nome mentalmente.

Exu Bara, meu senhor.

Quando cheguei em casa, minha tia, estava jogada na sua poltrona cismando.

Estava pensando em passar seus negócios para sua sócia na história, porque hoje uma das suas irmãs, que estavam com os maridos todos presos, tinha vindo lhe pedir dinheiro.

Acham que sou milionária, o pior é que não reconhecem a culpa delas terem incentivado os maridos a te matar.    Queriam saber aonde andavas, eu disse que na África, com nossos antepassados, riram dizendo que nada disso era verdade, eram brancas.

Quem é esse senhor que esta contigo, virei para trás lhe perguntei se todo mundo o via, me disse que não só as pessoas que ele queria.

É um Exu Bara minha tia, me protege.

Não me falaste nada ainda dessas terras que te ofereceram?

Amanhã saberei se esses papeis valem o que pedem por eles, se for assim, mudarei minha vida outra vez.

Ela riu, você nunca vai descansar não é verdade?

Nisso rimos porque o Exu, entrava numa escultura que eu tinha trazido a África, que me tinha apaixonado, quando a vi.

Não queria falar do lugar, queria leva-la até lá.

No dia seguinte o advogado me chamou logo de manhã, os do registro civil, disseram que esses papeis claro que valem, mas que nunca tinham visto nada parecido assim, que deviam estar num museu.

É como se estas terras não pertencem-se ao estado, mas sim são como terras livres de tudo.

Vão preparar papeis novos, assim poderás fazer negócio.  Eles mesmo vão preparar tudo, reconhecer o documento em cartório de registo tudo isso, hoje à tarde fecharemos negócio.

Foi o que fez, pagou uma parte em dinheiro que tinha guardado, que era a parte do Alcides no negócio, a outra seria por banco.

Imaginava que o sujeito conseguiria viver um bom tempo como gostava.

Quando foram de tarde falar com ele, ele queria os papeis velhos, o Exu disse que não, que era dele.   O homem assinou junto com seu advogado os papeis novos, bem como os velhos, lhe perguntou se queria aquela casa, pois ele pensavam ir embora de salvador.

Tinha parentes no interior, pensava ir para lá, assim pelo menos seria respeitado.

Não preciso de casa aqui em Salvador, tenho a minha.

Depois de tudo registrado no cartório, pagou o homem com uma parte em dinheiro, além de um cheque correspondente de sua parte, os olhos dele, pareciam saltar em orbita.

Finalmente consegui me livrar dessas terras, devem ser amaldiçoadas, pois todo mundo que ia lá olhar, voltava correndo, me dizia que nem pensar, que nem de graça queriam aquele lugar, que lhes dava medo.

No dia seguinte com os papeis velhos, obriguei a minha tia sair de casa, vais conhecer o lugar que vamos viver.

Quando chegamos lá, ela fez como eu, ficou parada no portão, até que o velho apareceu, com o Macário do lado.

Seja bem vindo meu filho, minha filha Neide, pode entrar em sua casa, mas claro o que ela via era uns casebres, caindo aos pedaços, com uma floresta por detrás.

Eu a peguei pelo braço, venha conhecer nossas novas casas.

Quando atravessamos a barreira, ela ficou deslumbrada, ria com as crianças em volta dela, que lugar magico é esse.

Ai lhe contei a história, eles se preservaram durante muitos anos, os que vão para Salvador, os orixás querem que ensinemos eles a se cuidarem, para irem em frente, chegarem ao século XXI.

Ela riu, vamos ter muito trabalho.

Entreguei ao pai, os documentos velhos, venha me disse ele, parecia entrar na árvore, mas era como se no tronco houvesse uma abertura, que as próprias ramas escondiam.

Ali era como um arquivo secreto, fomos recuperando todos os documentos de propriedade desse lugar, tudo que corresponde a essas crianças para o futuro.

Do outro lado, existia uma casa de madeira, antiga mais limpa, essa agora é a tua casa, de sua tia.    Era como um jardim muito bonito, exótico, com uma passarela de palmeiras, ele foi nos levando até lá, era como uma casa grande preservada no meio da mata.

Aqui viveu o que foi o último grande Babalaô, que foi o melhor de todos, o que avisou da tua vinda, preservamos a casa para ti.   Parecia encantada, pois dava gosto estar nela.

Logo uma mulher se aproximou com um garoto nos braços, pediu que eu o olhasse, minha tia ficou de boca aberta quando incorporei o exu, ele sabia que eu via o que estava fazendo, rezou a criança, pediu ao menino de outro dia, que trouxesse, umas quantas ervas, as triturou até vivarem uma pasta, fez como um unguento, que passou pelo peito da criança.

Essa agora será tua vida, me disse depois o velho, cuidar dessa gente, eu já estou muito cansado, a magia, que tenho está gasta, precisam de uma magia nova.

Fui ficando, minha tia foi com o Macário, fechar o apartamento de Salvador, ao mesmo tempo pedi que trouxesse a imagem do exu.

Passei a viver ali, ela organizou uma escola para os garotos todos, comecei a ensinar realmente os homens a cuidar das arvores de cacau, elas como se tivessem tido um arranque cresceram mais, descobri um riacho, fiz um sistema de irrigação, destinei uma outra área para plantar milho, as margem do mesmo plantamos arroz,

O Macário me levou seguindo o riacho, tudo isso é teu, foi dizendo, saímos numa clareira, que não se via pois era mata pura, ali estava o mar. Tirei a roupa, deu um mergulho agradecendo o povo do mar.

O duro foi conseguir melhorar a estrada para escoar o cacau, mas nunca dizíamos aonde era a plantação.   O que nos comprava, ficava encantado, pois diziam que esses eram diferentes, pareciam os que compravam na Africa, ensinei a plantarem muda, para irmos plantando no meio da floresta, como tinha visto em África, mas mantendo sempre a terra em volta limpa, era o que dava mais trabalho.

Minha tia, conseguiu uma professora, para os meninos, com o dinheiro que tinha montou uma escola ali.   A levava sempre para tomar um banho de mar, ficava encantada, agora tinha um dia que ia com as mulheres todas, nenhum homem podia se aproximar.  Se escutava sim muita música, cantos para as orixás mulheres, a quem veneravam.

Eu dividia meu tempo entre cuidar dos meus, da plantação, em breve produzíamos mais do que antes, agora o bom era, ensinei o Macário a selecionar os melhores graus, para replantamos as árvores cansadas.

Abríamos caminhos na floresta, plantando no meio delas.

Basicamente nos valíamos, as hortas comunitárias, feita pelas mulheres, a nossa colheita do arroz era boa, limpamos uma área aonde estavam as velhas cabanas, já não era necessário nos esconder, pois a terra nos pertenciam.  Plantamos mandioca, diversificamos com abobora, outras coisas.

Segundo minha tia, as crianças eram inteligentes, ela que tinha ido a muitos terreiros de candomblé, dizia que ali nada era assim.  Todos na verdade veneravam o imenso Baobá, mas nada de matanças, ou coisa assim, quando alguém precisava, o exu incorporava, atendia as pessoas.

Pela primeira vez na minha vida me sentia feliz.  Quando minha tia levou para a amiga as primeiras coisas feita com nosso cacau, essa ficou deslumbrada, mas minha tia não lhe contou nada, o segredo era nossa maior arma.

Com todo o dinheiro ganho nas duas primeiras colheitas, melhoramos a vida de todo mundo, comprei um caminhão de segunda mão, desenhei uma marca, que que todo mundo perguntava o que era, eu dizia que era um tributo a nossas raízes africanas.

Os fabricantes ficavam loucos com nosso cacau, da última vez que fui com o Macário levar a colheita, na segunda entrega, seu representante no Brasil estava ali, ele tinha comprado as terras de Ilhéus, me perguntou se queria vender essas também, só lhe respondi que por enquanto não.

Depois para verificar se não no seguiam, paramos para tomar alguma coisa, contei para o Macário o que tinha visto nas terras que tinham em Africa, é como voltar no tempo da escravidão, o pessoal ganha o mínimo, não quero isso para minha gente.

Ele ria quando eu dizia minha gente.  Um dia me disse que eu estava ficando mais escuro.

Era verdade, talvez fosse de tanta praia.

Nunca deixamos ninguém ir até nossas plantações para ver aonde eram, abri um novo caminho na floresta, plantando lado a lado canela e cacau, assim através da terras se misturavam os sabores.  Quando fizemos a colheita, tirei uma parte para minha tia e suas mulheres, o resto, levamos em separado.  Quando sentiram o cheiro da canela, queriam saber como tinha feito, lhe disse que isso era uma coisa ancestral.

Mas que sem duvida esse cacau, custava o dobro, ele começou a regatear, Macário depois me dizia, que ele venderia por qualquer preço, que aquele homem o deixava zonzo. 

Isso Macário é o trabalho dele, te fazer pensar que esta pagando um preço justo, pois ele vai levar esse cacau ao chefe dele dizendo que fez uma grande descoberta, revendera pelo dobro do preço, lhe contei como fazia, os intermediários, fazem isso, te fazem sentir, que eres tu que os esta explorando, mas por dentro estão rindo de ti, pois estão te enganando.

Consegui com um importador, mais mudas de canela, plantamos, em fila na divisão da terra por aonde se entrava antigamente, assim despistaríamos, não poderiam seguir nos.

Atendia quando aparecia alguém, numa casa que construiu logo a entrada, assim a pessoa não tinha que ir até o interior.

Sua função era sempre de curar, nada mais, para o resto estavam os terreiros de candomblé, que eram muitos em Salvador.

Sentia-se em casa, era como se todos fossem uma grande família.  Agora raros eram os jovens que iam para Salvador tentar a vida, os que iam estavam preparados.

Alguns já tinha feito universidade, para orgulho de sua tia.

Nesse momento, ela estava com 94 anos, lucida, controlando a produção de seus produtos, eram muito requisitados.

Ele seguia indo com Macário, vender o que produziam, agora vendiam também canela, as pessoas nunca entendiam, tinham também uma produção boa de chocolate com pimenta vermelha que eles mesmos plantava, eram sempre autossuficientes em toda sua produção.

Quando alguém perguntava quem seriam seus herdeiros, ele sorria, eram todos de sua família.

Já tinha deixado os papeis, prontos, sobre sua herança, mas pelo que se dizia, se fosse como o avô e sua tia, viveria muitos anos.

Sua afinidade com Macário era excelente, era o mais próximo que poderia pedir de um romance, mas com respeito, cada um vivia à sua maneira.

OH LORD

                                             

Tinha acabado de desembarcar em Londres, quando colocou seu celular no ar, em seguida entraram muitas mensagens repetidas da governanta da casa de sua tia.

Quando ele chamou, estava nervosa, disse que sua tia estava mal, na mansão familiar, voltou correndo para dentro do aeroporto, pegou a próximo voo para Plymouth, que era o aeroporto mais perto da mansão.

Voltava de uma larga temporada na Índia, agora entendia por que sua tia insistiu que fizesse um curso de administração de empresas, seu avô tinha terras em vários lugares, quase tudo herança familiar, em três lugares da Índia tinha plantações de chá.  Vinha sendo administrada a distância por ele, que já não tinha idade.   

Evidentemente sem o olho do patrão em cima, isso não dava certo, sua tia acabava na época de receber o título, bem como a herança familiar, mas claro isso a pegava já com uma idade, seu avô tinha morrido as vésperas dos 100 anos, lúcidos com uma maneira de olhar feroz.

Quando criança quando o viu a primeira vez, ficou com tanto medo que se mijou nas calças.

Mas no fundo era uma boa pessoa, agora sabia que até boa demais, pois confiava nos homens que administravam suas terras.   Claro não podia dar certo.

Sua tia quis avisar aos administradores que ele ia, mas disse a ela que não, queria chegar de surpresa.

Passou primeiro uns dias se informando, como se fosse um comprador de terras, como passava um tempo na praia, sua pele como sempre ficou mais escura, além dos cabelos crespos, negros, nunca passaria por um inglês.

Seu pai, tinha ido administrar as propriedades do seu avô na Jamaica, ficou louco pela minha mãe, uma mulata para ninguém botar defeito.

Quando morreram num acidente de carro, seu avô materno que era o administrador das terras o trouxe para a Inglaterra.  Foi quando viu seu avô pela primeira vez.

A casa de Londres, era suntuosa, ficava num dos melhores lugares da capital, sempre aparecia em filmes de época.   Ali vivia sua tia, seu avô quando ia a Londres se hospedava ali.

Olhou para ele, foi quando se mijou nas calças de medo.   Mas sua tia se apaixonou por ele no mesmo momento.  Ela foi sua tia, sua mãe, tudo na sua vida.

Bom deixo o garoto contigo, mas quero que tenha uma educação de primeira, afinal, quer queira quer não, ele será no futuro o herdeiro de tudo, já que não tens filho.

Ali ficou ele, quando chegou a idade escolar, de brincar com tia Millie, só descobriu mais tarde que era a amante de sua tia, aprendeu a ler, escrever antes do tempo.

Quando entrou para uma dessas escolas da elite, não gostou, um dia disse que esses garotos eram muito chatos, ficavam implicando com ele, por ser mais moreno do que eles.

Um dia passaram perto de sua casa, numa escolas dessas mistas, disse para a tia, quero estudar aqui.   Não houve jeito, ele quando metia uma coisa na cabeça era difícil de convence-lo. Entrou num acordo com ela, terminava aonde estava fazendo o curso, no ano seguinte estudaria ali.

Sua tia conversou com a diretora, de quem ficou amiga, não queria que o sobrenome pesasse, então usou uma parte de seu nome, para todos os efeitos ele era Angus Sheridan.

Foi uma época feliz, ali se sentia bem, era um aluno exemplar, suas notas eram as melhores, pois se tinha uma coisa que gostava, essa era aprender.   Amava Geografia, mas também era o melhor aluno em matemática.    Com o tempo conheceu o avô, ele quando soube da mudança de escola, não gostou, mas teve uma conversa franca com o velho, se ele não fosse o melhor da escola, podia voltar para a outra.

Depois na secundaria foi igual, o avô o queria colocar interno, mas sua tia não permitiu, mandou o avô passar um dia com ele, o velho ficou de boca aberta, ele nos seus momentos livres, passeava cachorro para ganhar dinheiro.  Os cachorros quando o viam ficavam loucos, nisso era como o avô, que amava os animais.

O velho perguntou que fazia com o dinheiro, ele respondia sério, guardar para o futuro, preciso ir à universidade, para aprender a administrar suas terras, repetia isso, pois escutava sempre sua tia falando nisso.

Sua tia tinha sempre uma desculpa para não ir até a mansão, dizia que tinha sido muito infeliz ali, obrigava o pai a vir passar o Natal e ano novo em Londres.

Quando ele ficou muito velho, foi que começaram a ir.   Ele se divertia horrores, com os cachorros do avô, os levava para correr, mas cobrava do velho o mesmo que cobrava em Londres, esse ria dizendo que o ia levar a falência.  Os cavalos quando ele entrava nas cavalariças, ficavam como loucos, pois sabia que ele escolheria um para ir pelo campo, era como se disputassem o privilégio.  Ia com todos os cachorros juntos, passeavam pela vila que na verdade pertencia ao avô, dizia bom dia para todo mundo, parava sempre numa fruteira para comprar cenouras para os cavalos.

Todo mundo ria com ele, a maioria pensava que era o novo rapaz das cavalariças, ele não desmentia, pois sabia que se o fizesse o iam tratar com cerimonia.

Depois chegou o tempo de ir a Universidade, poderia ir com uma bolsa de estudos, sua tia disse que assim ele tirava o privilégio de algum outro estudante.

Foi estudar administração de empresas, que saiu com louvor, foi a última vez que seu avô veio a Londres, logo em seguida morreu.

Foi então que na vila se deram conta que aquele jovem, moreno, de cabelos compridos amarados num rabo de cavalo, seria o futuro herdeiro de tudo.

Alguns não gostavam pelo fato dele ser moreno, sabiam de sua mãe.

Ele comentava com sua tia, como podiam ser preconceituosos.

Em seguida foi para a Índia, aonde ficou três anos, colocando tudo em ordem, arrumando novos administradores, ensinando como queria que fosse a coisa, ao final os empregados o adoravam, tinha mandado construir uma escola na vila, aonde ficavam as terras, para que as crianças aprendessem a ler, escrever, os administradores achavam que sem saber, era melhor para conduzir as pessoas, como se fossem gados.

Mandou melhorar as casas, colocou uma bomba de água no poço para levar água até as casas, comprou cabras, ovelhas para que os homens pudessem ter com que alimentar a família, que cada um tivesse uma horta no fundo de suas casas.   Teve uma briga imensa com o velho advogado, pois insistiu que cada um fosse proprietário de suas casas, assim nunca iriam embora. A produção aumentou, um dos senhores mais antigo como administrador, ajudado pelo seu neto.

Agora voltava, sabia que em breve teria que ir a Jamaica, para fazer o mesmo.  Mas lá não tinha tantos problemas.    Se mantinha informado com as propriedades da Inglaterra, só ficou triste nesse tempo, com a morte de Millie, pois imaginava como devia isso ter pesado para sua tia.

O avião foi jogando muito, pois o tempo como sempre estava horrível, já sentia falta do calor, do sol da Índia.

Alugou um carro no aeroporto, a mansão ficava perto do mar, junto com uma vila que ficava mais abaixo, justo ao lado do mar.

Chegou tarde da noite, o mordomo o velho Jones, lhe abriu a porta, o abraçou o levou para cima, para o quarto de sua tia, ali estava o velho médico, lhe apresentou o outro que era seu filho, médico também, balançou a cabeça como dizendo que não havia muito que fazer.

Ele se sentou na beira da cama, falou baixinho Tia Bertie, ela se chama Alberta, esse era o diminutivo que sempre a tinha chamado, estou aqui.

Ela abriu os olhos devagar, como para se situar, estava te esperando, não podia ir embora sem me despedir do meu filho.  Ele a abraçou como pode, ficou segurando sua mão, os outros saíram do quarto.  Ela começou a falar baixinho, não confie no advogado, este vem roubando a muito tempo, foi falando tudo o que ele devia fazer, que ela não tinha tido forças depois da morte de Millie.    Que confiasse no Jones, que era quem administrava tudo com mãos de ferro.

Quero ser cremada, que uma parte fique ao lado da Millie em Londres, a outra podes trazer para cá, odeio o cemitério, bem como o mausoléu familiar.  Ainda riu disso, pois era o normal a cerimônia na igreja da vila, o velho pároco vai ficar furioso, ela e o mesmo viviam às turras.

Em seguida parou de respirar, ele ficou ali ainda um tempo segurando sua mão. Depois chamou o médico, quando esse entrou já trazia seu atestado da morte dela.

Pediu ao Jones, tu vens comigo, disse tudo que tinha que fazer, conseguir um caixão como ela gostaria, que o mesmo fosse para Londres, ele ia alugar um avião para isso, que ela como queria ser cremada, seria lá.   Na verdade era aonde tinha amigos.

Avisou a governanta da casa, que colocasse uma nota na coluna fúnebre, que marcasse uma cerimônia, na igreja que ela ia com a Millie.

Jones, soltou o pessoal da vila não vai gostar.

Eu sei Jones, mas era a vontade dela, depois trago as cinzas para cá, faremos uma outra cerimônia aqui.   Avise o advogado, só depois que tivermos saído daqui, assim não enche o saco.

Saíram na calada da noite, se despediu do Jones, como sempre com um abraço, ele ficava sempre desajeitado com isso, mas tinha feito isso desde jovem.

Já nos vemos meu velho, pois sei que terei que passar aqui muito tempo.

Um avião pequeno os esperava, chegou a Londres, morto de cansado, a levou para a funerária aonde seria feita a cerimônia, falou com o senhor, queria que as cinzas fossem divididas em duas urnas iguais, escolheu uma que achou que ela gostaria.

Quando chegou em casa, a governanta, tinha lagrimas nos olhos, estava ali a muitos anos, lhe disse que o advogado da vila, não parava de chamar.

Se chama de novo diz que estou dormindo, estou muito cansado, me chame umas duas horas antes da cerimônia, lhe contou que não tinha parado, tomou um banho, caiu na cama, só acordou quando ela lhe chamou.

Ela tinha ajudado a cria-lo, já estava vestida para ir com ele.  Ainda soltou chamei um mecânico, pois creio que teu carro devia estar sem bateria, esses três anos fechado na garagem, ele colocou gasolina também.

Ele se vestiu, prendeu os cabelos num rabo de cavalo, colocou um traje que tinha usado na sua formatura, que agora estava um pouco apertado, mas não tinha tempo para sair comprar outro.

Ela lhe trouxe um que era de seu pai, experimente esse, ficava perfeito nele.

Na verdade, nem se lembrava da cara do pai, nem da mãe, a não ser por uma fotografia que tinha em sua mesa de estudos.

Saíram, quando ele comprou esse carro com suas economias, todo mundo ria dele, pois era um carro normal, tinha escolhido bem, nada de luxo.

Quando chegaram a funerária, estava lotada, sua tia tinha muitos amigos, inclusive os irmãos da Millie estavam lá.  Abraçou a todos, lhes deu os pêsames, sentiu lagrimas nos olhos, pois ela tinha sido fantástica com ele, falou com o irmão mais velho, do desejo de sua tia, este disse que sem problema, que quando tivesse as cinzas o chamasse que iriam todos lá com ele.

Depois foi apertando a mão daquela multidão de pessoas, a casa de sua tia, sempre estava aberta para todos, encontrou a diretora da escola que tinha estudado, que o beijou, como estas bonito meu filho, do lado dela, estava o rapaz que tinha ficado com a bolsa de estudos que tinha tocado para ele.   Perguntou como ia, se estava trabalhando.   Esse riu, que escritório de Londres, quer um advogado Negro retinto como eu?

Preciso falar contigo, podes ir para a casa depois, preciso de ti.

A cerimônia foi muito bonita, pois vários amigos dela falaram.  Ele se emocionou muito.  O homem lhe avisou depois que lhe chamaria, mas que dariam pressa na cremação.

Foi para casa, com Madie a Madeleine, a governanta.   Se sentaram na biblioteca, para conversar.   Sabia que esta sempre estava em contato com sua tia.

Na casa só viviam ela, além de uma senhora que cuidava da limpeza.

Creio que vou precisar de ti lá na mansão, o Jones está velho, preciso de alguém para dividir as tarefas com ele.

Depois foram ao advogado da família, que tinha o testamento, tudo era dele, as propriedades, bem como dinheiro no banco tudo isso.

Ele avisou que havia problemas na vila, bem como na mansão, pois desde que tua tia estava doente, as coisas não iam bem.

Jones já me avisou disso.

Tomou posse de tudo.  Mais tarde veio o Abidiel, que era o rapaz com quem tinha falado, o levou a biblioteca, se sentaram, perguntou por sua família.

Bom eu me casei com uma das nossas companheiras da escola, não pode ir a cerimônia porque trabalha no hospital.

Perguntou se eles queriam ir para a vila, preciso de um advogado lá, para administrar tudo, posso pedir para o médico local contratar tua mulher, ou eu mesmo pago o salário dela.

Conversem, depois me diga alguma coisa.

Eu ia adorar, sempre estamos falando nisso, como criar uma filho aqui em Londres, está cada vez mais violento.

Quando ficou sozinho, começou a dar uma olhada nos documentos todos que o advogado tinha lhe passado.   Depois fez uma chamada a um irmão de sua mãe, na Jamaica, avisando que já tinha tomado posse de tudo, que em breve iria para lá.  Tinha conversado muitas vezes com ele, sobre o que tinha feito na Índia, o outro não gostava muito, pois lhe tirava uma série de privilégios, com isso sabia que teria problemas por lá.

Tinha outra conta no banco numa cidade perto da vila, essa estava muito confusa.

Achou melhor ir diretamente para a vila, depois Madie, levaria as cinzas da sua tia.

Resolveu ir no seu carro, assim poderia ir pensando.  Mas em momento algum atendeu as chamadas do advogado de lá.

Parou de noite para dormir numa cidade do caminho, tinha aprendido a não se preocupar com luxos, aliás não era muito propenso a isso.

Quando jovem, nas escolas, mesmo depois na faculdade, quando via os que se diziam de sua classe, ou filhos de alguém com algum título, os achava uns idiotas, pois estava sempre como pavões.

No dia seguinte de manhã, atendeu uma chamada de Jones, que dizia que tinha tentado entrar na biblioteca, mas como os cachorros dormiam ali, tinha afugentado quem quer que seja, inclusive mordeu a pessoa, pois há sangue no chão, o avisou que chegaria ao meio-dia.

Na cidade ao lado, passou na delegacia de polícia, o chefe que ele conhecia, desde garoto, pois ia caçar com seu avô estava doente, o atendeu um inspetor.

Era mais ou menos da idade dele, ou talvez um pouco mais velho.

Lhe contou o que tinha passado, desconfio do advogado da família, pois minha tia já tinha me avisado a respeito, bem como o advogado de Londres.

Este falou com o chefe, que disse que devia ir.

Se apresentou, o outro também, André Stuart.

Lhe perguntou por que estava trabalhando ali, já que normalmente a academia era em Londres, os mais jovens ficavam por lá.

Vou ser honesto contigo, sou sempre muito franco na hora de falar, ninguém me queria por ser gay, não escondo de ninguém isso, depois tinha um relacionamento que foi a merda, por isso aceitei o convite do chefe para vir para cá.

Gosto mais, posso ter a oportunidade de um dia ficar no lugar dele.

Ele sorriu, não sabia que tinha esses tipos de preconceito ainda, contou para ele, que agora na Índia tinha tido esse problema, na plantação, tinha um jovem, que todo mundo tratava mal, descobriu que o rapaz era gay, tinham abusado dele, conversei muito com ele.  O mandei estudar na capital, futuramente será o administrador de tudo lá.

É mais inteligente que o resto do pessoal que tenho por lá.  Me seguia depois da nossa conversa como um cachorro sem dono.   Deixei com o advogado de lá uma ordem, quando ele acabe esses estudos, que possa ir a Universidade.  Todos tem direito a uma oportunidade.

O outro o olhava sério.

Chegaram na vila, chamavam a atenção, pois era um carro diferente.  O André tinha comentado que ele tinha feito uma boa compra, o motor desse carro era excelente.

Odeio esses carros que os jovens que têm dinheiro usam para se mostrarem, ou esses carros antigos dos proprietários, que parecem dizer, quem manda aqui sou eu.

Pararam justo na porta do advogado, esse abriu a porta reclamando que há dias tentava falar com ele, que precisavam se sentar.   Ele perguntou por que tinha a mão enfaixada?

Me cortei.

Ou foste mordido por um dos cachorros da mansão?

O inspetor, segurou sua mão, se identificou, soltou as ataduras, realmente era mordida de cachorros.   Saiu a mulher de dentro de casa, dizendo, eu te avisei, que estavas passando do limite.  Aonde já se viu querer entrar na casa de noite.

O que querias na biblioteca?

As documentações que escondia teu avô, pois prejudica a muita gente.

O André já tinha pedido um carro de polícia, foi um show, ver o advogado saindo algemado, de sua casa.   O Pároco, veio falar com ele, começou a falar como dedo em riste, que ele começava muito mal, tinha levado sua tia dali, sem deixar que ele fizesse a cerimônia, que isso era uma tradição, ele segurou o dedo do outro, mas não a vontade dela.  Quando suas cinzas venham para cá, ou fazes a cerimônia, ou peço a arquidiocese que mande outra pessoa para cá.

Comigo o buraco é mais embaixo.   Em vez de ficar tomando pintas no pub com os homens devias estar fazendo alguma coisa pelo pessoal da vila.

Todos que escutavam bateram palmas, principalmente as mulheres.

Este meteu o rabo entre as pernas saiu resmungando.

Senhoras, eu ficarei muito honrado que quando cheguem as cinzas de minha tia, que as senhoras, organizem uma cerimônia bonita.

Se despediu do André, nos falamos, creio que vou precisar muito de ti.

Os homens da vila não se aproximaram.

Quando chegou a mansão, foi com o Jones para a biblioteca, lhe perguntou se ali tinha algum cofre para que o outro quisesse abrir?

Não creio teu avô usava sempre essa chave para a mesa que está atrás de ti. A Tirou do pescoço, no dia seguinte da morte de tua tia, ele queria de qualquer maneira a mesma, me neguei a dar, foi nessa noite que entrou.

Ele abriu a gaveta central, viu alguns papeis, nada demais, abriu as outra, pareciam estar todas enferrujadas, pois abriam mal, depois não conseguia fechar outra vez, foi quando viu que na parte de baixo de cada uma tinha um envelope preso.

Foi tirando um a um, tinham seis no total.

Abriu o primeiro, era sobre o advogado, todas suas falcatruas, uma a uma anotada ali, os valores tudo. Era um bom dinheiro.

Depois todos os outros eram de gente que devia dinheiro ao velho, os que tinham terras alugadas, que estavam dando dinheiro ao advogado, para pagarem menos.

Uau, o Abidiel vai ter muitos problemas.   Perguntou ao Jones, se os quartos estavam todos prontos, queria conversar com ele em particular sobre a organização de tudo.

Bom as coisas aqui vão mal, o pessoal quando tua tia ficou doente, aproveitou se encostou, só pude contar com a cozinheira que o senhor conhece, que foi que nos ajudou quando o senhor veio buscar tua tia.

Vou dar uma volta a cavalo, assim levo os cachorros para correrem um pouco.

Quando chegou as cavalariças, ficou horrorizado, tudo estava uma merda, ainda pegou o responsável, nu, com uma das moças da casa.

Ficou uma fera, saia da minha cavalariça agora, estão despedidos os dois.

Jones que vinha atrás dele, ria a não mais poder, entendeu o que acontece aqui.

Arrume um homem para colocar tudo isso em ordem.

Os cavalos estavam abandonados, foi ao que ele mais gostava, que veio colocar a cabeça no seu ombro.  O limpou com palha, tinha passado pela cozinha, para pegar cenouras, ele comeu com gosto.

Colocou a cela, montou no mesmo, os cachorros ficaram como loucos, foram dar um passeio, no meio do caminho viu gente indo em direção a vila.

Perguntou por que, tinha uma reunião com o pároco, ele como quem não quer nada, passou a mão no bolso, tirou o celular, ligou para a arquidiocese, sabia que agora era uma mulher a chefe, se identificou, pediu se podia vir até a vila, tenho problemas com o pároco.

Deu uma volta, parou justo na entrada da igreja, já tinham entrado todos.

O homem falava contra ele, que o tinha destratado, que ia voltar a época do velho, que tratava todo mundo mal.   Imaginem prender o advogado, esse que tinha ajudado todo mundo.

Ele foi se adiantando, o pároco com a boca aberta sem falar.

O tirou da tribuna, vá arrumar suas malas, eu não o quero aqui na vila.

Bom, é verdade se acabou a boa vida de alguns, que junto com o advogado, roubavam a minha família, a maioria não está aqui, mas eu já passei os documentos que encontrei, motivo pelo qual o advogado foi preso, tentou invadir a mansão a noite passada, mas os cachorros o morderam, quase teve que rir, pois os cachorros estavam todos ali no corredor, prestando atenção nele.

Sim as coisas vão mudar na vila, mas muito mesmo, acabo de chegar das terras do meu avô na Índia, que fiz muitas mudanças, é para melhor.  Depois irei falando com cada um, mas já pedi a senhoras que preparem a cerimônia para quando chegue as cinzas de minha tia.

Nisso olhou para o fundo, estava a archobispa da região, quero apresentar para vocês quem manda aqui na igreja, ela estava com uma outra mulher ao lado.  Desceu foi cumprimenta-la, o velho estava ali, só faltava babar de raiva.  Ela tinha uma série de reclamações a respeito dele.

Ela subiu na tribuna, venho acompanhando o que acontece nessa paroquia, não estou contente, por isso, trouxe a nova párroca, creio que como aqui as mulheres dão um duro desgraçado para tirarem suas famílias para frente, merecem uma mulher que as guie.

Depois desceu, disse ao homem que arrumasse suas coisas, pegasse o ônibus a esperasse na diocese.

Estou como tu, modernizando aos poucos tudo.

Dali foi com ela a escola, que ficava justo ao lado, as crianças estavam em classe, nunca tinha entrado ali, tinha cara de faltar tudo, se apresentou a professora.

Como tinha chovido durante a noite, viu que tinha goteiras, tirou uma caderneta que tinha sempre no bolso de seu casaco, foi anotando tudo que via, perguntou como era no inverno, a professora levantou as mãos para o céu.    Faça uma lista, de tudo que falta, vamos mudar tudo.

Perguntou a ela de quem era o terreno todo para trás, ela riu, é do senhor.

Ficou olhando para aquilo.

Porra tenho muita coisa que fazer.

Perguntou a uma das mulheres que fazia os consertos de telhado ali na vila.  Riram, esses sem vergonhas não querem nada com nada, passam o dia inteiro no pub.

Eu se fosse as senhoras, iam até lá os traziam aqui, pelas orelhas, essas se mataram de rir, mas duas foram, voltaram arrastando dois homens gordos.

Qual dos dois podem arrumar telhados, um apontou para o outro.

Não seja por isso, vou trazer de fora, mas também vou examinar a casa de vocês, se não trabalham, não cobram, assim terão que ir embora da vila, vou trazer quem queira trabalhar, por isso estão gordos como porcos, sugiro senhora que nãos lhes de mais comida.  Perguntou a uma que estava ao seu lado, de quem era o pub.   Do advogado, lá ele fazia essas merdas.

Foi sendo seguido por todas, abriu a porta do pub, perguntou pelo encarregado, apareceu outro homem gordo, pediu a chave do local, mandou colocar todo mundo para fora, fechou a porta, eu sou o dono do local, só vai abrir no final do dia, durante o dia, é hora de trabalhar, a boa vida acabou, ou trabalham, ou terão que irem embora da vila.

Uma das mulheres, perguntou se queremos ficar, eles que saiam daqui, só querem fazer filhos, viver na boa vida.

As mulheres que trabalhem podem ficar. Se os homens amanhã, não estão trabalhando, limpos, com cabelos e barbas feitas, arrumem suas malas.

Nisso chegava o carro do policial que tinha levado o André bem como o advogado.

Era gordo como os outros, lhe avisou, escute minhas ordens, vou pedir ao inspetor André que mande mais efetivos para cá, pois vou começar a mandar todo mundo para a rua, quem não trabalhe, incluído o senhor.

Passou a mão no celular, começou a falar com o André se ele podia vir, tinha papeis que ver com ele, venha até a Mansão, por favor traga um substituto para seu homem aqui, esse não serve, está gordo, com certeza ajudava o advogado.

O médico que estava parado do outro lado da rua ria muito.

Eu avisei, as coisas vão mudar, perguntou se podia falar com ele.

Venha tomar um café, uma água, deve estar com a garganta seca.

Bom o pároco já foi para a merda, agora será uma mulher, eu queria fazer uma pergunta ao senhor.  Não precisas de uma enfermeira?

Caramba, a muito tempo, mas nunca consegui ninguém.   Como também pedi essa casa vazia aqui ao lado, para montar como uma enfermaria.

Ele passou a mão no celular, André conheces por aí, algum arquiteto ou engenheiro, peça para vir contigo.

Assunto resolvido, vamos reformar essa casa para teres a enfermaria, comentou com ele da mulher do novo advogado, que era enfermeira.   Só um aviso, é negra.

Sem problema nenhum, assim até é melhor.

E teu filho?

Esse trabalha no hospital da cidade, aquele dia só estava me ajudando.

Porque o senhor não vem almoçar, vou precisar da sua ajuda, pois o senhor conhece todo mundo.

Vou buscar meu carro, ele voltou até a escola, convidou a professora, bem como a pároco, para irem almoçar na mansão, preciso de vocês duas.

Avisou o Jones, subiu no cavalo, escutou ele rindo, o que foi, aqui já se sabe de tudo, da revolução.

Avisou quantas pessoas iam almoçar, queria ele na mesa também.

Os cachorros estavam famintos, só assim vão emagrecer, disse a cozinheira.

Mando arrumar a mesa a rigor?

Nada disso, acabou-se essa pantomina, tudo muito simples, uma boa sopa, comida boa, é o que todos necessitam.

Ah, Jones, você sabe que eu não bebo, tampouco fumo.

Entrou na casa, mas antes limpou bem as botas, pediu para uma moça que estava ali, que fosse ao seu quarto buscar sapatos para ele, tirou as botas, entrou com as meia pela casa inteira.

Viu que seu as mesmas ficavam sujas imediatamente.

Telefonou para a Madie, perguntou como estavam as coisas por lá.

Já tenho as cinzas, vou visitar minha família uns dois dias, depois estou pronta para ir.

Assim vou te buscar.

Depois ligou para o Abidiel, perguntou se tinha convencido a sua mulher?

Este riu, mas disse que sim.

Já tenho emprego para ela aqui.  Vou para Londres daqui dois, dias, queria comprar um furgão aí, assim volto trazendo umas coisas que quero.

Pediu ao Jones, para preparar um carrinho com cervejas, refrigerantes, aguas para as senhoras.

Foram chegando aos poucos.

Quando o André com um outro senhor chegou, este o apresentou como um engenheiro da cidade.

Foram se apresentando um a um, dizendo o que faziam

Bom falta o advogado novo, que virá dentro em breve com sua esposa, que será a enfermeira do ambulatório.

Mas primeiro vamos almoçar, com a barriga cheia falamos melhor.

Jonas se colocou na figura de mordomo, dando ordens, ele disse que ele se sentasse na mesa com eles. A partir de agora acabou essa frescura.

Comendo foi falando, tive uma bela experiencia agora durante os três anos que estive fora na Índia reformando ou mudando a maneira de pensar do pessoal que cuida da plantação de chá que é propriedade da família.   Espero que funcione, pois com tudo de lá, aprendi a ter o pé no chão, não me comportar como um grande senhor, mas sim uma pessoa para dirigir uma comunidade.

Hoje chegou a nova pároco, espero que todos e todas a recebam bem.

Muita coisa esteve parada no tempo por aqui, acredito que devemos pular para o século XXI, assim será melhor.

Evidentemente depois conversarei com cada pessoa em particular, para saber como melhorar as coisas.

Tinham acabado de almoçar, estavam tomando café, pediu que deixassem a mesa vazia, vamos continuar aqui, como numa mesa redonda.  Perdão eu não sou Arthur, riram com isso.

Já pedi ao André um novo policial para o posto de polícia daqui, já descobri que o mesmo estava conivente com o advogado.  Tudo isso acabou, depois te passo os papeis que tenho para ver como podes agir.

Virou-se para o homem que acompanhava o André, o senhor, perdão não guardei seu nome?

Joseph Dinard, tenho uma empresa de construção na cidade.

Começamos pelo senhor, preciso rapidamente mandar arrumar o telhado da escola, fazer tudo que a professora necessite.

Ela me disse que as terras atrás são minhas, portanto, quero um orçamento, vamos construir uma escola moderna, com um pátio para as crianças jogarem, biblioteca, tudo que uma escola deve ter, teremos que arrumar mais um ou mais uma professora, que entenda de informática pelo menos, essas crianças precisam de um futuro.

A mulher tinha a cara impressionante, secava os olhos.  A senhora fará uma lista, de tudo que precisa o mais urgente.  Logo vai chegar o inverno, essas crianças não podem passar frio.

O médico, já conversamos, tem uma casa vazia ao lado dele, vamos montar um ambulatório, aonde uma enfermeira poderá atender, ajudar as mulheres da vila.

Depois quero que o senhor visite a escola, depois essa casa, para ver como dever ser montada.

Terá que ser reformada, se a parte de cima pode ser transformada na casa do advogado, bem como da senhora enfermeira, foi colega minha na escola secundária.   Um aviso, os dois são negros, espero que não seja um problema, pois ele é um grande amigo meu.

O pub, ficará fechado até novas ordens, irei de casa em casa, escutando as pessoas, para saber o que necessitam, e o porquê esses homens não trabalham.

A professora soltou que isso era coisa do advogado, como ele conseguiu que teu avô lhe desse o local, quanto mais vendesse mais dinheiro fazia.

Tai, isso é uma coisa dele, meu avô não lhe deu nada, estava usando sem ordens de ninguém.

A senhora que conhece bem o pessoal da vila, preciso de um rapaz para cuidar dos cavalos, pois acabado de mandar o sem vergonha que estava aqui, fazendo sexo lá com as moças da casa.

Queria que todos anotassem tudo, inclusive tu Jones, para arrumarmos tudo isso.

Todos foram embora, menos o André.

Esse ria, dizendo vais fazer uma revolução, isso sim.

Olhe todos esses papeis, o advogado estava forjando documentos como se ele fosse o proprietário das terras, para vender aos homens da vila, os idiotas estavam lhe dando dinheiro, há que embargar suas contas no banco imediatamente.

Ele não tinha poderes para fazer isso, minha tia estava doente, eu na Índia, por isso se aproveitou.

Mas tudo vai mudar, espero que para bem.

Lástima que não queiras vir para cá tu.   Já te conheço, confio em ti.

Ia me oferecer para ser o moço da cavalariça, para poder usar o local para fazer sexo.

Não faça gozação, imagina a cena, chego na cavalariça o dito cujo com a bunda para cima, tudo mal cuidado, eu amo os cavalos, imagina como fiquei.

Tem uma coisa André, não gosto da pose de grande senhor, acho que tudo tem que ter harmonia, que todos possam viver bem, quero que esses meninos possam ir em frente.

Venho de uma mistura, meu pai filho do grande senhor, minha mãe, mulata, filha do administrador das terras da Jamaica.  Quando meu avô me colocou num desses colégios de elite, eu não quis, queria ir à escola como todas as pessoas normais.

Inclusive ganhei uma bolsa de estudos, mas abri mão para o Abidiel, que é o advogado que vem para cá, que tem problemas para conseguir emprego, porque é negro.  Foi meu companheiro até irmos para a Universidade.

De repente vou experimentar passar um tempo aqui, pois parece que o senhor advogado aprontou muito, preciso tirar tudo a limpo.

Podes ficar aqui em casa, mando preparar um quarto para ti.

Chamou o Jones, perguntou quantos quartos tinham desocupados na casa.

Mandou preparar dois por enquanto ou tivessem banheiro, ou fossem próximos de um.

Um será para o inspetor André o outro para o advogado Abidiel.

Telefonou para este em seguida, disse que lhe necessitava urgentemente, muita coisa em jogo, se ele podia estar no dia seguinte, enquanto isso tua mulher pode pedir demissão do hospital, ao mesmo tempo arrumamos uma casa para ti.

Teria que conseguir uma ordem do juiz para embargar o dinheiro do advogado anterior no banco, até verificarem tudo o que ele tinha feito.

André foi para a vila, ele disse que desceria em seguida, sentou-se com Jones, perguntou quantas pessoas tinha, se queria ficar com elas, ou buscar outras na vila?

Lhe avisou que Madie, viria para lhe ajudar a administrar a casa, não podes levar tudo sozinho, creio que deverias ficar como meu braço direito, pois conheces tudo, me ajudando a colocar isso em ordem.

Ele só faltou inchar o peito.

Preciso de pelo menos mais três pessoas, a casa esta suja, precisamos manter a partir de agora a casa inteira, elas relaxaram porque tua tia só usava seu quarto, bem como uma saleta que fica ao lado do mesmo.

Eu acho que devíamos preparar o quarto do seu avô, para o senhor.

Sabe Jones, pelo que me lembro, era imenso, tinha uma lareira, mas cheio de moveis antigos, que ocupam muito espaço, por enquanto fico no que estou, já arrumaremos isso.

Desceu para a vila, se encontrou com o dono da empresa de obras, já tinha olhado tudo com relação a escola, agora estava com o médico, tinha era um bando de mulheres atrás dele, queriam saber das novidades.  Examinaram a casa inteira, tinha um bom apartamento em cima,

Ele não sabia por enquanto se valia para o Abidiel, mas mandou reformar tudo, já sabia como fariam com a escola.

Tinha uma mulher que sempre estava do lado dele, perguntou aonde morava, ela sinalizou uma casa, me ofereces um chá.

A cara dela era ótima, o senhor tomando um chá na sua casa.  Levou com ele a pároco, se sentaram, logo apareceram as crianças.  Ele tirou um bloco, anotou o nome dela, quantos filhos tinha, quantos estavam na escola, dois tinham ido embora para trabalhar em outro lugar.

Perguntou o que faziam, ela disse o que podem.

Vê o que eu digo, virou-se para a pároco, saem daqui sem experiencia nenhuma de vida, sem possibilidades de ir em frente.  Vamos mudar isso.

Ela ria, na hora que me ofereceram vir para cá fiquei em dúvida, mas acho agora que vou viver aqui contente.

E o seu marido?  Bom esse filho da puta, vive no pub, o advogado o convenceu de assinar um papel, mas ele não viu nem um tostão do dinheiro que prometeu a ele.  Aonde está?

No campo, trazendo as vacas para ordenar, perdeu a manhã inteira com esses idiotas que mal se levantam vão para o pub, com se lá fosse o umbigo do mundo.

Mandou o maior dos meninos chamar o pai.

Este entrou com o gorro na mão, de cabeça baixa. 

Boa tarde, lhe disse, quero saber o que queres de tua vida?

Ele mal conseguia falar, até que sua mulher lhe empurrou com uma cotovelada, fale homem.

O advogado disse que as terras seriam minhas se assinasse um documento, que nunca mais precisaria trabalhar.

Ele olhou pela janela, André estava por ali, mandou chama-lo, enquanto se servia de chá, mandou que os dois se sentassem. Conte agora para o inspetor André, como se passou tudo, enquanto vou olhar sua casa.

Estava mal cuidada, cheia de fendas, infiltrações, ele perguntou a mulher por quê?

Essa casa é da tua família, os homens acham besteiras conservar uma casa que não é sua, eu vou apanhando como posso.

Mandou chamar o engenheiro, acredito que por essa podemos analisar as outras casas, embora pretenda visitar uma por uma, gostaria que o senhor, mandasse por exemplo, dois homens, que arrumassem o que pudessem, perguntou aonde era o banheiro, era um desastre, disse o que queria fazer.

A mulher estava emocionada, a fez sentar-se, respirar fundo, escutou uma criança chorando, era um bebe de quase um ano, ele pegou a criança no colo, que sorria para ele.

Ele está molhado, vai sujar o senhor, ele mesmo trocou a fralda da criança como tinha aprendido na Índia, limpou a criança, pergunto por que usava fraldas de pano, se as crianças tomavam leite,

Vendemos todo o leite para o homem do armazém, que manda para a cidade, ficamos com muito pouco, porque temos uma cota.

Se levantou, abrigou a criança com um chalé que viu ali, fez um sinal a Charlotte, a pároco, que fosse com ele, foi dizendo para ela, tens que conversar com essas mulheres, precisam tomar ante conceptivo porque são muitas crianças para alimentar, educar.

Todo mundo o ia seguindo, não era com ele, viu que André fazia uma foto dele.

Entrou no armazém, era escuro, fedia a ranço, mal iluminado.

O senhor tem a concessão do armazém?

Sim uma que me deu o advogado, tenho que lhe pagar metade do que faturo.

Bom isso se acabou, tem fraldas descartáveis?

Não senhor, aqui ninguém compra, mas espere minha mulher tem pois temos crianças pequenas, foi olhando tudo, viu que as crianças estavam todas ali, viu uma coisa de vidro, com caramelos dentro, abriu foi dando um para cada um, riam, diziam obrigado, tirou dinheiro pagou o homem, este não queria cobrar, como ia fazer isso, o advogado disse que esses cinquenta por cento era para o dono de tudo.

Isso se acabou, a partir da amanhã se apanhe, pinte as paredes, limpe tudo, jogue fora as coisas velhas, tirou dinheiro do bolso, separou umas quantas notas grandes, vá a cidade, compre produtos que os meninos precisem. 

Me disseram que o senhor era o encarregado do leite, sim todos trazem aqui, vem os da cooperativa para levar.

Quem fica com o dinheiro?

O advogado, eu não ganho nada com isso, é um acerto dele com a cooperativa.

Mais um problema.  O André já estava falando com o Juiz, uma ordem para revisar a casa do mesmo, pois devia anotar alguma coisa, bem como bloquear a sua conta no banco da cidade.

Disse ainda para o homem, colocar um vidro na frente, pois as mercadorias precisavam de luz.

Esse sorria, de triste que estava quando entrou estava contente.   Anotou compre fraldas para as crianças.

Se deu conta que o Jones, nunca tinha feito isso, por isso o advogado se aproveitava.

Precisava de um administrador de tudo, ele nem sabia direito o que possuía de terras, quantas estavam ocupadas, quantas não.

Precisavam de um homem que levasse tudo isso, além do advogado, ou que os dois trabalhassem juntos.

Porra era muita coisa.

Abidiel chamou, dizendo que ele, com sua mulher estavam indo para o aeroporto, se podiam mandar alguém buscar, que se ele podia reservar um quarto no hotel.

Ele riu, mando alguém buscar vocês.

Deu um suspiro tão alto que todos riram.

Tinha milhões de ideias na cabeça, não podia parar.

Agora que tinha arrancado o carro, o jeito era seguir em frente.

Não entendo não vejo hortas atrás da casa, nem na casa do meu avô vejo.

Contou para ela da Horta comunitária que tinha mandado fazer, na Índia.  Algumas mulheres quando não estavam na colheita limpavam cuidavam.  Mas tudo era dividido conforme quantas pessoas tivesse a família, assim as crianças se alimentavam melhor, comiam bem.

O mesmo teria que resolver, porque em vez de vender o leite, não faziam queijos, manteiga ali mesmo para alimentar o pessoal.

Ia anotando tudo isso.

André veio se despedir, pois tinha que levar o homem, além de verificar o processo a seguir. Voltaria no dia seguinte com as ordens para olharem a documentação de tudo.  Mas antes iria ao banco.

Lhe perguntou baixinho, se ele não queria vir trabalhar ali, administrando tudo.

No momento não, mas podemos nos falar daqui um tempo.

Nem notou que seguia com o garoto no colo, esse cada vez que ele olhava, sorria, preciso ter uma família minha pensou.

Nunca tinha pensado nisso, nem tinha se apaixonado jamais, tinha aventuras com homens, mas nunca tinha pensado nisso.

Perguntou a senhora como ela podia ter filho tão pequeno?

Não é meu, sim de minha filha mais velha, que fugiu de casa, deixando esse garoto para trás.

Posso levar comigo?

Ela riu, teria que fazer uma reunião de família para isso, na vila temos mais crianças assim.

Ele o levou até o consultório do médico, o mandou examinar.

Que história é essa, que temos mais crianças assim?

Muitas garotas ficam adultas, vão para a cidade trabalhar, voltam com alguma criança, pois não se cuidaram, deixam com os pais.

Eu fui o único que não cai na conversa do advogado, avisei tua tia, mas ela já estava muito doente, então fiquei quieto, pois este podia me mandar embora daqui.

Vou precisar muito da sua ajuda, tem alguma outra casa, para montarmos um lugar para as crianças assim pequenas ficarem durante o dia.

Ele prestou atenção, o garoto não estava muito limpo, foi limpando a criança como fazia lá na aldeia, limpou seu nariz, trocou por uma fralda que o homem da loja tinha dado, pois estava molhado outra vez, pediu um pouco de leite para o médico, em seguida a mulher dele trouxe.

Ficou ali dando mamadeira para o garoto, que ria, olhando para ele.

Pensei que fosse filho da senhora, mas disse que é seu neto.

Antes de ir embora, foi entregar o garoto a senhora, que estava ali com outras.

Perguntou quantas tinha filhos assim pequeno, umas cinco tinham.  Perguntou o que pensavam de uma creche?

Elas não sabiam o que eram, ele explicou, disseram que se fosse assim, podia tomar conta do campo, mandar os maridos a merda.  Riram muito.

Na hora de passar o garoto para a avô ele não queria, queria ficar grudado com ele.

Bom, já é meu, disse brincando, olhou para o garoto, vamos ver, um dia ficas comigo.

Isso era um trabalho que teria que ver com a mulher do Abidiel.

Jones tinha mandado o carro grande busca-los em Plymouth, escreveu numa placa, o nome Abidiel, ele avisou para preparar um quarto grande pois este vinha com a mulher.

Começou a andar pela casa inteira, quase todos os quartos precisavam de pintura, de uma limpeza profunda, ah de Madie estivesse ali.

Mandou preparar uma sopa boa, isso Madie era experta, ele adorava chegar de noite em casa depois da universidade, principalmente no inverno, sempre tinha uma sopa quente para tomar.

A ordem funcionava, a cozinha estava impoluta, a cozinheira, disse agora resolveram obedecer com medo de perder o emprego.

Disse como queria o café da manhã, eu me levanto muito cedo, perguntou ao Jones se tinha arrumado alguém para cuidar dos cavalos.

Sim tem um garoto novo, ainda está lá limpando tudo.

Foi até lá, viu que era um garoto de uns 15 anos, começou a ajudar também, o mesmo virou para ele, disse faça direito, porque o patrão é uma fera.

Ele se matou de rir.   Lhe disse quero o estabulo impoluto. Teve que explicar o que era isso, lhe perguntou se ia a escola, aqui já não tenho o que estudar, aprendi a ler, escrever, pouco mais.

Ajudo o que posso em casa, porque o velho agora despertou, o advogado enganou ele também, aliás todos os idiotas da vila.

Depois ajudou o garoto, a escovar todos os cavalos, amanhã de manhã as sete, saímos os dois, com os cavalos.   Gostas deles?

Sim, adoro, me entendem mais que as pessoas.

 Penso em criar cavalos, queres aprender?

O menino sorria, claro que sim.

Aonde dormes?

Posso dormir aqui mesmo.

Nada disso, venha comigo, em casa falou com Jones se sobrava quartos dos empregados, depois a senhora lhe de um jantar, o estabulo estava como queria.

Trouxeste roupa?

Não senhor, então vá em casa buscar, passas a viver aqui, mas cuidado com as garotas da casa, não quero brincadeiras entendeu.

Vamos que estas esperando, vá até tua casa, depois volte, vou ver como será teu salário.

Jones ria, me estou sentido jovem outra vez, apesar dos achaques de velho que tenho, essa força que o senhor tem é impressionante.

O Abidiel chegou, sua mulher era tão grande como ele, a olhando bem, lhe soltou Cristine, verdade.   Ela riu o abraçou, o pessoal da casa ficava olhando, não estavam acostumados a isso.

Ajudou a levar a bagagem para cima, tinham preparado o quarto grande com banheiro.

Mesmo assim chamou a atenção da garota, podia estar melhor, amanhã limpe isso a fundo.

Os deixou se prepararem para o jantar, antes perguntou o que acostumavam comer de noite.

Cristine se matou de rir, eu uma salada, mas o senhor necessita de uma bom filete de carne.

Passou pela cozinha, disse que preparassem isso, que a mesa fosse preparada como no almoço, perguntou a cozinheira se ela não fazia pães, estava agora preparando a massa para amanhã.

Esse menino, não sabia o nome dele, precisa de alimentar, se vai cuidar dos cavalos.

Tem cavalos aqui, entrou Abidiel na cozinha, a senhora riu para ele, por ser tão grande, ele só disse para ela, um grande amigo desde a escola, ele se aproximou, ela estendeu a mão, mas ele a abraçou, tens que ser minha amiga, essa gente quer me matar de fome, ela ria muito.

Quando viu Cristine, soltou os filhos dos dois serão gigantes.

Os levou para a biblioteca, pedindo que avisassem quando tudo estivesse pronto.

Contou tudo ao Abidiel, o que tinha feito o advogado, o filho da puta, pensando que eu não voltava mais da Índia, estava se preparando para ficar com toda a propriedade, mas André conseguiu uma ordem para amanhã poderem vocês dois darem uma olhada nos papeis de seu escritório, bem como bloquear a conta no banco.  Acho que ele se preparava para fugir.

O rapaz que nos foi buscar, veio contando da revolução que estas fazendo.

Meus amigos, nem tenho ideia da dimensão disso tudo, a família sempre foi proprietária disso tudo, não sei quanto tenho de campo, nem o que está alugado, nada. Preciso colocar isso para andar.   Comentou a história do leite.  Me parece uma coisa absurda.

Bom Cristine, a ti te toca, também muitos problemas, além do local para atender as primeiras necessidades, teria que montar uma creche, pois descobri que tem muita criança pequena, que estão mal cuidadas, contou do garoto, essas crianças ainda usam fraldas de pano, o menino estava cheio de crostas, sou honesto que nunca pensei em ter filhos, mas o garoto não sai da minha cabeça.

Imagine na escola, nem é inverno, está cheia de goteiras. Temos muito trabalho, temos que sentar para pensar num salário para vocês.   Outra coisa meu amigo, se veres que é muita coisa para administrares, podemos colocar alguém contigo, ok.

Logo conseguimos uma casa para vocês, amanhã quero que conheças o médico, acho que está aqui desde sempre.

Depois de tudo assentado, podemos pensar em mais melhorias, o importante agora, é conseguir fazer o barco andar.

Ele adorava escutar as gargalhadas da Cristine, pareciam as da Millie, quando comentou, ela disse que lembrava dela, ia te levar a escola as vezes.   Minha mãe sempre falava dela, dizia assim imitava a mãe.   Essa mulher da sociedade, fala comigo, como se tomássemos chá, que se aonde compro minhas roupas, pois gosta da cor delas.

Eu a adorava, me ensinou a ler, escrever antes mesmo de eu ir à escola.

Contou aos dois o que tinha feito na Índia, não fiz mais, porque não me deu tempo, foram quase três anos, um dia terá que ir até lá Abidiel.

Ficaram depois conversando na biblioteca, como ele fazia em Londres com a tia e Millie. Deu um suspiro por causa disso.

Bons tempos pensou, fomos uma família, agora toca fazer outra.

Havia coisas que ele não entendia, porque a vila estava tão atrasada em tudo, será que esse pessoal tinha ficado esperando algo, ou parado no tempo por algum motivo, quando a cidade estava literalmente perto.

Ficou pensando nisso, seria a acomodação, porque os lugares ou mesmo as pessoas eram diferente, a Índia tinha a mesma coisa, de um ponto de vista informático, era avançada, mas quando se saia das grandes cidades, para o campo, era as vezes como voltar no tempo.

Havia uma falta de equilíbrio nisso.

Será que aos grandes proprietários, interessava isso, que as vilas que estavam sobre sua jurisdição, a falta de cultura, o analfabetismo, era primordial para poderem mandar, manipular como tinha feito o advogado.

No dia seguinte de manhã, quando saiu a cavalo, acompanhado do rapaz, que parecia ter outra cara, lhe perguntou se tinha dormido bem.   Disse que sim que em sua casa era tudo apertado, somos muitos, tudo é pequeno.

Perguntou se não tinha pensado em ir embora, disse que sim, mas que tinha estudado pouco, lhe perguntou por quê?

Meu pai precisava que todos ficássemos no campo, não temos maquinários para tocar em frente.

Ah, isso era uma coisa a pensar.

Perguntou como aravam, quando ele consegue bom dinheiro, alugamos um trator, mas caso contrário fazemos nós mesmos.

O que o tinha com a pulga atrás da orelha, era essa história do cinquenta por cento, não via isso nos livros que tinha visto.

Voltaram justo na hora que estavam tomando café.   Comentou o que tinha pensado durante a noite com Abidiel, como era possível isso, estamos relativamente perto da cidade maior, ou será que lá era a mesma coisa.  Será porque estamos longe de Londres, não consigo entender.

A verdade, talvez é que todos esses anos estive longe, quando vinha aqui, era quando muito para passar uma semana, saia a cavalo, para passear com os cachorros, nada mais.

Nunca convivi com o pessoal da vila, não tinha curiosidade ou não me permitiam estar próximo.

Falou da plantação de chá, que as mulheres tiravam água do poço, ninguém tinha pensado ou sabia que podia ter um motor para extrair a mesma de uma maneira fácil.

Quando falei da caixa d’agua, me olharam como se estivesse falando grego.  Talvez na Jamaica seja igual o problema, mas aqui, fico abismado, quando entrei no banheiro da casa que estivemos, era como entrar num desses filmes antigos.

Mesmo aqui, sei que meu avô mandou modernizar os banheiros, mas mesmo assim são antiquados.  Mesmo na casa de Londres, não são modernos.

Isso me desnortea um pouco. É como estivemos em alguns lugares no século XIX, outros no XXI, parece ter uma lacuna nesse tempo.

Por exemplo não vi nenhuma senhora com celular, temos que saber como as crianças poderão aprender informática, se não temos sinal Hi-Fi.

Não temos, disse Abidiel, pois tentei acessar ontem à noite, não consegui.

Mais um trabalho para ti, teremos que pedir uma torre, para que atinja para todo mundo.

Jones disse que na casa sempre tiveram o telefone normal, ninguém tinha um celular.

Foram para a vila, claro andar com eles por ali, ela como andar com um elefante, tinha visto negros na televisão, mas não assim pessoalmente.

Deixaram Cristine com o médico, esperaram na frente da casa do advogado por André, que chegou rindo.

O que foi, ele tentou dar uma ordem ontem para sua mulher a queimar tudo, mas ninguém atendia o telefone, segundo parece, no dia seguinte ela arrumou as malas, foi embora, tentou sim tirar dinheiro da conta do banco, mas já estava interditada.

Entraram na casa, pareciam ter revirado tudo, mas o escritório estava fechado, abriram a porta, tudo em seus lugares, deixou os dois, ali trabalhando.

Foi quando viu entrarem os caminhões da construtora na vila, eram enormes, subiram em direção a escola.   O engenheiro Dinard, desceu de um deles, se cumprimentaram, foram subindo a rua, ele comentando, iam construir uma estrutura pelo lado de fora, da escola, colocar um telhado mais alto, enquanto revisavam as telhas, pois ouvi dizer que essa semana vai chover muito.

Tinha estudado, iam colocar uma estufa na sala de aula para aguentar o inverno, na outra obra isso já estaria dentro, quando tiver pronto o projeto, podemos ir em frente. Depois te apresento no novo advogado para combinar os pagamentos.

Na escola os meninos estavam alvoroçados, a curiosidade era grande.

As mães estavam ali para olhar, a senhora com o menino no colo, este quando o viu, se atirou para ele.  Estava usando a mesma fralda, ela disse que tinha limpado a mesma.

Caralho, foi descendo com o garoto até o consultório do médico, o menino quando viu a Cristine abriu um sorriso imenso, abriu os braços para ela.

Ele falou da história das fraldas.

Foi até a loja, já estava pintada de branco, tinha mercadorias exposta do lado de fora em saldos, já tinha ido à cidade a um distribuidor, trazia caixas de leite, pacotes de fraldas, deu um pacote a Cristine para que ensinasse a senhora como fazia.

Quando ele se virou para ir embora o garoto começou a chorar, que queria ir com ele. Mas Cristine o acalmou, ali mesmo no balcão, tirou de sua bolsa papel húmido, começou a limpar o garoto que ria, ao mesmo tempo que explicava, que depois de suja, com o coco, se atirava no lixo.

Cristine disse aonde poderiam fazer a creche, do outro lado da rua, em frente a escola, tinha uma casa abandonada.  Podia ser lá.

Pediu que Dinard desse uma olhada.

Com o garoto pendurado nele, foi a outra casa, ao lado da anterior, talvez sabendo a casa estava mais arrumada, mas os dois examinaram tudo, ela quando viu o banheiro soltou, nem na merda de apartamento que vivi quando era criança era assim.

Levaria tempo para colocarem tudo em ordem.

André tinha pedido um contabilista para vir ajudar, este estava horrorizado, esse homem é um estafador, menos mal que tem tudo anotado.

De uma mesma pessoa, todos os lucros estavam ali anotados.

Perguntou ao Abidiel, se era normal o proprietário ficar com cinquenta por cento de tudo, pois se era assim, as pessoas nunca sairiam do buraco.

Ele disse que sim, que havia uma jurisdição que favorecia isso.

Puta que pariu, eu pensando mal da Índia, mas aqui também se explora.

Convidou Dinard para comer em sua casa. Subiram todos, ele estava quieto, sua cabeça não parava de funcionar.  

André soltou que pela sua cara, tinha medo de que daqui a pouco começasse a soltar fumaça.

Dinard fez um comentário que todos concordaram, não poderás fazer tudo ao mesmo tempo, temos que criar prioridades, como fizeste com a escola, telhado, um sistema de calor para o inverno, o ambulatório, depois iria fazendo as outras coisas.

O bom disso tudo, é que temos cada um, o nome de quem ele estafou, os valores, podes usar isso para fazer alguma coisa pelo mesmo.

Ou seja esse dinheiro aplicar na própria casa.  Depois de arrumada, lhes dá em propriedade.

Isso eu gosto, soltou ele.

Ele quase tinha trazido o garoto com ele, ia entrando no carro com a criança nos braços, se a avó não viesse buscar.

Então vamos nos centrar nisso, assim que o juiz nos der acesso a esse dinheiro, como estafou em nome de minha família, vamos dizer que o dinheiro é meu, aí faço um acordo com eles,

Mas queria pensar numa coisa que o rapaz me disse hoje, os que trabalham no campo, que estão alugados, quando não tem lucro, não podem contratar um trator para fazer o trabalho pesado.    Agora é hora de me chamarem de comunista, é se criamos uma associação, tudo é reunido no mesmo lugar, temos que ver o que planta, essa associação tem tratores, aram depois fazem a colheita, de uma forma organizada, depois fazemos um sistema de como se mantem.

Tampouco sei se alguém lavra as terras da mansão, nem tudo está alugado, o que se planta, para que, como e porquê?    Como um grande senhor espero respostas, urgente, para saber o que fazer.

Ou será melhor arrumar a mansão, deixar que vivam a vida deles, que eles me mantenham?

Ficaram olhando para ele.

Como ninguém diz nada, ficarei com a segunda opção.

Epa, mas não foi para isso que me chamaste, soltou Abidiel?

Não, queria ver como vocês ia reagir, esse filho da puta, nos enganou a todos.

Agora em sério. Terei que ir a Londres, para deixar as cinzas da minha tia, junto a Millie, a outra parte vou trazer para cá como ela pediu, faremos a cerimônia, depois marcamos uma reunião com as famílias, faremos a proposta para ver como saímos.

Preciso saber, de quem vence o contrato de aluguel das terras, se querem seguir ou não, vamos melhorar a vida de todos.

O que me impressionou hoje na casa que visitamos, foi, tem uma cama imensa, os lençóis não estavam tão limpos, as crianças dormem todas juntas, podia ter pelo menos beliches, em casa erámos quarto, cada um tinha sua cama, isso que meus pais eram pobres.

Tocava agora organizar tudo.

Dois dias depois foi para Londres, fez o que tinha prometido, comprou um furgão grande, colocou as coisas da casa de lá que lhe interessavam ter na mansão, veio com Madie, veio conversando com ela, sobretudo.

Quando falou na coisa do tempo, ela se matou de rir, eu fiquei impressionada, fazia tempo que não estava com minha família, a maior parte do tempo vejo que as mulheres é que perdem mais, mas se preocupam pelas novelas, os problemas dos membros da família real, esquecem dos seus.   Os filhos anseiam o mais moderno, que para eles não parece importante, um dos meninos estuda informática, mas só tem computador na escola, os pais se negam a comprar, pois para eles é superficial.

Ou seja como é uma vila, talvez um pouco maior andam assim.   Uma das minhas irmãs vive numa cidade turística, seus filhos têm de tudo, pois vivem outra existência, mas observa que quando estão juntos, há uma distância imensa entre uma família e outra.

Preciso que coloques essa casa num sistema atual, precisa de uma reforma programada geral, o Jones, sabe de tudo, mas já não tem força para impulsionar.  Limparam o quarto que estão os dois amigos, mas olhei bem, não estão limpo profundamente, quando reclamei, pensei amanhã isso tá feito, nada de nada.

Devem se espantar que eu mesmo arrume minha cama, como tu me ensinaste, mas necessito tirar tudo de velho que tem nesse quarto, tu sabes como eu gosto do meu aqui de Londres, por isso te pedi que viesses, a casa é imensa, nem sei o que fazer com tudo isso.

Não se preocupe, olharei desde o telhado até o sótão para saber o que fazer.

Ele riu, pois ela estava anotando tudo.     Lembra-se foi você que me ensinou a fazer isso, anotar as coisas, para não me perder.   Minha tia tinha outra educação, achava normal que cuidassem dela, isso tinha a Millie que fazia por ela.   Por isso quando deve ter chegado aqui, se fechou na mansão, quando muito ia a alguma cerimônia, sem a Millie se sentia perdida.

Depois eu estive fora 3 anos, deve ter sido um horror para ela.

Não pararam de falar nenhum momento, foram dormir no mesmo lugar que ele tinha parado antes, no dia seguinte, chegaram na vila.

Parou o furgão ao lado da escola, já tinha a estrutura, estava verificando as telhas, o faziam em silencio porque os meninos estavam em aulas, viu que trabalhavam no ambulatório, também, foi até lá ficou impressionado com a Cristine, que estava de calças compridas, ajudando os homens. 

Ela saiu para abraça-los, estamos colocando aos poucos as coisas nos eixos.

Levou Madie para conhecer a pároco, se abraçaram, beijaram, as senhoras que estavam ali, comentaram de fazer a cerimônia dentro de dois dias, comentou com ela, sobre a reunião.

Depois foi falar com Abidiel, o contabilista continuava lá, já tinha uma lista de tudo.

Estava agora analisando como montar a formação de uma cooperativa, as leis, as licenças, tudo isso.

Perguntou pelo André?

Bom já conseguiu que o Juiz autorizasse a devolução desse dinheiro todo, o filho da puta era um safado de outras estafas anteriores, tinha feito isso em outro lugar.

Não contava contigo, nem que teu avô tivesse desconfiado dele.

Ah o que cuidava do pub, veio um dia de noite, levou tudo que estava dentro embora, fez um grande favor, pois tudo precisa de uma reforma.

O local é imenso, pois só usava a parte da frente, podemos fazer ali a cooperativa, bem como por detrás o armazém para os tratores.

Verificamos a história dos cinquenta por cento, quando teu avô estava ativo, ele cobrava 30 por cento, esse homem foi quem aumentou, ficava ele com 20 por cento de tudo.

Já levantamos quantas terras estão alugadas, das terras da mansão todas estão improdutivas, ninguém planta nada por lá.

Ficou literalmente horrorizado, como era possível isso.

Essa parte parou quando seu avô ficou doente, depois se negava a sair, quando tua tia veio para cá, tampouco se interessou, como se estivesse esperando por ti.

Rindo disse, vou criar cavalos, que sempre foi meu sonho.

Terras para isto tens.   Já sei quem será meu sócio.

Sócio?

Não disse mais nada, na casa da mansão tinha preparado um quarto para a Madie, que já estava na cozinha olhando tudo.   Quando Jones falou do bloco, ele riu dizendo, agora sabes quem me ensinou a fazer isso.

O senhor quer que eu vá embora?

Nem pensar Jones, a quanto anos estás aqui?

Ele sorriu, toda minha vida.

Então pertences a casa, como ela pertence a ti.

Ele comentou com a Madie, ao lado da cozinha tem um salão, prefiro comer lá que nesse salão imenso, de festas, veja como podes arrumar.

Perguntou ao Abidiel como estava fazendo o contador para trabalhar, aonde vivia, se tinha combinado um pagamento.

Bom ele está desempregado, mas tem mulher com dois filhos pequenos. Vamos olhar uma das casas que estão vazia para ele, que te parece.

Perfeito, veja quanto ganha um como ele na cidade, nada de pagar menos porque aqui é uma vila.

Depois os dois podem prestar serviço para essa gente toda.

Foi dormir, pensando no garoto, tinha a sensação de que o fazia por ele também. Ele precisava de um futuro.

No dia seguinte levantou muito cedo, quando chegou na cavalariça, o rapaz, estava escovando os cavalos, sabia que o senhor ia querer sair.

Com tanta confusão, me esqueci teu nome, meu filho.

Bob senhor, pode me chamar de Bob. Os cachorros estavam inquietos, os cavalos também, temos que pensar que todos precisam de exercícios, alguns estão velhos,

Andei consertando o cercado que fica aqui ao lado, ontem os soltei todos lá, estavam como loucos.

Saíram a trote, vejo que os cachorros de seguem, estranhou que ele estivesse andando um pouco atrás dele.  

Por que não estas ao meu lado?

Por que o senhor é o patrão?  

Quem disse essa merda, venha coloque-se ao meu lado.  Preciso falar contigo.

Estou pensando em comprar cavalos, aumentar a cavalariça, fazer uma coisa mais moderna, o que achas?

A cara do rapaz era incrível, por si só tinha ganho o dia. Mas terás que fazer um sacrifício, vou ver se consigo que durante esse tempo que estruturo tudo, estejas uma parte do dia com um veterinário como aprendiz.

Mas como vou ir e voltar para cá.

Sabes andar de bicicleta? 

Sim.   Mas é muito longe para ir com uma.

Bom na garagem temos que ver quantos carros ainda estão sem uso, podes aprender a conduzir, ir e voltar, o que achas.

Ele não podia responder.

Serás meu companheiro nesse novo negócio topas, parou o cavalo, estendeu a mão, ele limpou a sua na camisa, sim senhor.

Voltou todo o caminho de volta, rindo, mas lhe disse, bico fechado, ainda é cedo para comentar.

Nem para teus pais, pois aqui ficam todos sabendo.

Falar nisso acertaste teu salario com o Abidiel?

Não falei com o Jones, ele me disse, lhe deu o valor.  Era pouco, não os salários quem resolve é o Abidiel, eu falo com ele.

Sim senhor.

Sabe não me acostumei a isso, sou jovem demais para ser um senhor, meu nome é Angus. Que acho horrível, normalmente meus amigos me chamam de Sheridan.

Sim senhor Sheridan.

Não tinha jeito.

A cerimônia foi bonita, estavam todos na igreja, inclusive as crianças, quando ele entrou o garoto se jogou para ele, o levou para se sentar no lugar reservado a família. Quando subiu para falar, o deixou com Madie.

Minha tia, foi muitas coisas para mim, tia, mãe, amiga, eu imagino que quando ela veio para cá, deve ter-se sentido abrumada com tanta responsabilidades, que não estava acostumada, nem tampouco tinha idade para mover nada, por isso tudo ficou parado,

Eu passei três anos ordenando os negócios da família na Índia, cheguei justo no dia de sua morte, conversei com ela, lhe prometi arrumar tudo.

Uma parte dela, está com a pessoa que amou a vida inteira, a outra parte ficará aqui no Mausoléu da família.

Mas agora, vou aproveitar essa cerimonia, para conversar com vocês, quero que escutem o meu grande amigo de juventude Abidiel, depois as mulheres fiquem para escutar a Cristine, temos muitas coisas para fazer, mas precisamos de tempo.   Escutem todas as propostas, depois se quiserem conversamos com cada um em particular.

A voz de Abidiel, era imponente.

Não vou fazer como o anterior advogado, está preso, o dinheiro que vocês deram para ele, com falsas esperanças de que já sabemos o que é, ele estava se preparando para desaparecer, deve ter-se aproveitado que o avô do Sheridan estava velho para fazer isso.  Não contava que este não era um tonto, foi reunindo provas contra ele.  Usou documentos falsos com todos, mas conseguimos bloquear o dinheiro todo no banco.

De um lado, ele não poderia vender as terras, porque há pelos testamentos um problema, as terras da família nunca poderão ser vendidas.

Mas temos várias propostas as escutem.

Esse dinheiro, sabemos quanto cada um deu para ele, o louco fazia um sistema de anotações cada vez que vocês lhes davam dinheiro.

A primeira proposta, com o dinheiro que cada um deu, aproveitamos que temos a empresa de engenharia aqui arrumando a escola, começaríamos arrumando as casas todas, melhorando todo o possível, dentro desse valor, quando se acabe de fazer cada uma, será entregue ao morador o título de propriedade, passa a ser de sua família para sempre.

Por isso pensem, podemos também devolver o dinheiro, mas não dar a propriedade, queremos que a família tenha todo o conforto possível.   Como as casas são basicamente iguais, já temos o projeto para que vejam como ficariam.

Segundo, quanto as terras que vocês exploram, essa história do leite, ele estava lesando todo mundo, ele ficava com todo o lucro para ele.

A ideia é montar uma cooperativa, podemos depois analisar isso, necessitamos sim saber o que cada um planta, essa cooperativa seria dotada de tratores, para arar, outros para fazer a colheita, cada um só pagaria o diesel usado.

A colheita seria feita, os lucros divididos entre todos, conforme a quantidade de quilos ou de produtos entregues.  Assim os jovens também teriam trabalho, não iam precisar ir embora.

A escola está sendo reformada, para aguentar esse inverno, na primavera, se construirá uma nova, para que as crianças tenham melhores condições, bem como façam esportes, vamos conseguir mais professores, para que tenham aulas separadas.

As senhoras que hoje mal podem trabalhar, teremos uma creche, aonde poderão deixar as crianças de manhã, até a parte da tarde, estará ligada ao ambulatório, depois a Cristine explicará como vai funcionar.

Agora o mais importante, descobrimos essa história que deixou o Sheridan com a pulga atrás da orelha, que seu avô cobrava atualmente 50 por cento dos benefícios, isso não era verdade, ele só recebia sempre 30, mas isso agora iremos fazer assim. Volta tudo como era antes, os 30 por cento, esses vinte que esse sem vergonha guardou no banco, vamos usar, para comprar os tratores que serão sempre da cooperativa, que prestaram serviços a todos.

O silencio era grande, quem começou a aplaudir foi o doutor.

Um dos gordos, perguntou pelo pub.

Isso já veremos mais a frente, uma das mulheres disse, quando realmente trabalharem para perder essa barriga.

Todos aplaudiram.  Os homens saíram, ficaram do lado de fora, a Cristine começou a falar com as mulheres.

Ele saiu, pois era uma assunto de mulheres, Abidiel estava distribuindo folhetos explicando tudo, a cada um dizia, o senhor passe pelo escritório, que analisaremos seu caso. Ok.

O mesmo gordo reclamou, que isso se fazia tomando uma cerveja, o que estava ao lado dele, disse cale a boca idiota, por isso ele te enganou.

Tinham um largo caminho pela frente.

Seu tio o contatou para dizer que tinham duas empresas interessadas em comprar a plantação de chá.

Deus os nomes, se informou a respeito, colocou Abidiel no meio, analisaram as propostas, eram muito baixas, no que fizeram contato, era mais alto, o tio queria embolsar uma parte do dinheiro.

Fizeram contato com a empresa que comprava toda a produção de Índia, essa ofereceu quatro vezes o valor, não pensou duas vezes, assim se livrava da família.  Quando o tio chamou para cobrar uma posição dele, avisou que dentro em breve os novos proprietários fariam contato.

O chamou de filho da puta para baixo, como podia fazer isso com ele.

Soltou na cara do tio o que ele estava fazendo, ficou mudo.  Me crês com cara de tonto.

Depois conversando com Abidiel, disse que tinha sido a melhor coisa que tinha feito, suspeitava que a muito tempo o tio embolsava uma parte do dinheiro, assim se livrava de complicações.

O trabalho na vila era lento, mas estava funcionando, a maioria tinha aceitado a cooperativa, já tinha inclusive comprado os tratores, o gordo quando viu a transformação do pub em lugar para a cooperativa, ficou furioso. Agora para beber tinha que ir à cidade.

Suas terras eram as piores, estavam basicamente abandonadas.  Conversou com a família, tinha dois filhos maiores, que viviam na cidade, se queriam manter o campo, teriam que fazer um novo contrato, pois o pai devia muito dinheiro.

Fizeram uma proposta para eles, plantariam feno para os cavalos, um deles ia trabalhar na cavalariça, assim o Bob podia estudar enquanto isso veterinária.

Os meninos pequenos iriam à escola.

O furgão, agora levava os maiores a escola na cidade, ao mesmo tempo, levava uma lista de compras para as pessoas da vila, escolheram uma mulher para fazer isso, depois a mesma recolhia os garotos.

Era a primeira vez que as crianças dali, seguiam em frente.

Ele começou a ampliação planejada da criação, primeiro fez uma viagem com o Bob, aos haras dos Estados Unidos, o rapaz estava deslumbrado, foi junto o veterinário aonde fazia práticas.

Assim estariam bem assessorados, o negocio era como criar, foram traçando o projeto, a ampliação das cavalariças, mas ao modelo americano, com espaço suficiente para os cavalos, o campo para que pudessem fazer exercícios, compraram numa feira agrícola que foram com um produtor americano, quatro cavalos Mustang, que iriam criar a parte, um garanhão, três fêmeas, vieram de avião, custou caro, mas valeu a pena, já sabiam que tipo de cavalos queriam.

Deixavam os Mustang soltos a maior parte do tempo, em breve tinham vários potros.  Os novos espaços para os cavalos ficou pronto, os mais velhos, ficavam soltos, o negro que ele amava ainda cruzou pela última vez uma égua Mustang, saiu um potro malhado de negro, lindo, era o preferido do Bob.

O outro rapaz, obedecia o Bob em tudo, ele era pior que o próprio patrão tem termos de limpeza, logo contrataram mais jovens que começavam a voltar para a vila.

O filho do homem do armazém, também voltou, fizeram um projeto para o mesmo, com uma janela imensa que dava luz ao interior, agora tinham produtos melhores.

As mulheres, algumas foram tomando frente aos negócios, da cooperativa, agora tinham renegociado sobre o leite, uma parte voltava em forma de manteiga, yogurt para as crianças, que examinadas constantemente pelo médico, junto com a Cristine, estavam mais fortes, quando começaram a construção da nova escola, a professora sinalizou um aluno para ele, esse menino é incrível, é dos menores, mas como a classe é conjunta, já aprendeu o que devia para sua idade, como sabe os dos outros anos.

Um dia trouxe um psicólogo para fazer um teste com o garoto, tinha um QI extraordinário, passou a ir com os maiores a escola da cidade. 

Uma das senhoras abriu uma loja, com roupas para as crianças, bem como adultos, era assessorada pela mulher do que levava a contabilidade de tudo agora.

As casas estavam quase todas ocupadas.  Quando Abidiel arrumou a deles, a mansão ficou quase vazia.

Chamou o engenheiro Dinard, reservou uma parte para ele, junto com Madie, resolveram transformar o resto numa pousada para finais de semana, foram reformando os quartos, transformando todos com banheiro, nova fiação elétrica.  Suítes para recém-casados no quarto imenso do avô.

Dinard trouxe um decorador, que começou a recuperar alguns moveis para decorar esses quartos, o salão de jantar, agora invés da mesa imensa, tinha mesas menores, para os hospedes, entre as mulheres da vila ela selecionou algumas para aprenderem confeitaria.  Assim tinha para o café da manhã, a cavalariça, tinha cavalos para passeios, montou um parque para as crianças como tinha feito na vila.

Já só restavam duas casas na vila para reforma, a cara era outra, inclusive o pessoal tinha mais ocupações.

Ele passou a habitar, uma parte da mansão que tinha estado fechada muito tempo, criou ali um apartamento para ele, os empregados estavam contentes.   Jones, dizia que estava velho demais para ficar ali, que só atrapalhava.  Mas não permitiu que fosse embora, usava agora um quarto mais quente, sem escadas para subir.

Começou a usar a biblioteca, abrindo os armários, olhando os livros, contratou uma bibliotecária, pois entendeu que tudo estava misturado.   No meio disso, encontraram livros que valiam verdadeira fortuna.

Tinham duas estanteria, com livros mais modernos que os hospedes pudessem usar.

Sobretudo ele estava feliz, ria muito quando ia a vila, pois o menino, continuava o seguindo por aonde ia. Um dia o levou com ele até a mansão, ele ficou de boca aberta, mas foi direto para a biblioteca, abriu um armário, aonde estava uma bíblia, mostrou um nome, disse que era ele.

Ficou impressionado com isso.

Ele só tinha 4 anos, como podia saber disso.

Tanto falou com a avô, que conseguiu guarda do garoto.   Esse o acompanhava pela manhã, a andar a cavalo, primeiro o levou com ele, depois Bob o ensinou a montar sozinho, conseguiu uma sela que eles tinham comprado para as pessoas menores.

Os cavalos bem os cachorros não o podiam ver, o seguiam por todas as partes.

Usava um quarto ao lado do seu, com seis anos, lia corretamente, era bom aluno na escola, segundo a professora muito inteligente, todos os dias ia ver a avô.

Era o querido da Madie, da cozinheira, bem como do Jones, pois ia sempre ao seu quarto falar com ele, o beijava, o chamando de avô, esse ficava todo bobo.

André sempre aparecia, entre os dois rolava algo, mas nada que fosse de compromisso.

Se gostavam, os dois tinham a sensação de que era mais por comodidade, porque se relacionavam bem.

Conversou com Abidiel, que agora ia ser pai em breve, que 10% dos lucros devia ser guardado numa conta a parte, para que os meninos pudessem ir a Universidade.

Um dia André, disse que ia ser transferido para outro lugar, que ali, estava desperdiçado.

Na verdade, o caso do advogado que foram levantando ramificações em todos os lugares que ele tinha estado, o levou a ser conhecido.

Ia trabalhar em Londres.  Se despediram.

Um final de semana, apareceu um escritor, perguntou se podia ficar um tempo maior, pois precisava dessa tranquilidade para escrever.

De noite se sentavam na biblioteca conversando, falava dos livros que ele estava lendo no momento.  Seu menino, tinha trocado de nome, agora chamava como ele Angus Sheridan, se sentava junto, algumas vezes comentava o livro também o escritor estranhava que ele se interessasse por isso.

Um dia começou a discutir com ele uma obra de Shakespeare.  Que estava lendo na escola, tinham comprado um pequeno ônibus, pois agora eram mais alunos a irem estudar.

Tinha bons argumentos, o escritor estava bobo, ele tinha transpassado a obra para a atualidade, analisando os políticos. 

Esse menino vai longe, o que ele gostava era de ver a relação pai e filho que tinham.

Todos os dias se levantava muito cedo, no verão as cinco da manhã para irem dar um passeio a cavalo.

Tinham agora na escola da vila, inclusive um professor de educação física que vinha três vezes por semana, para ensinar jogos aos meninos, ginastica as meninas.

Ele se sentia contente.  

Um dia estava analisando com Madie, a possibilidade de vender a casa de Londres, pois era raro ir até lá, tinha uma cadeia de hotel boutique que estava interessado, depois de conversar muito com ela, falou com Abidiel, podia ser também um lugar para os jovens da vila viverem enquanto faziam universidade, mas todos preferiam não ir muito longe.

Acabou vendendo, apesar de ser um patrimônio da família, o dinheiro ficou investido, assim renderia.  Como sempre ele ia engordado o dinheiro para bolsas de estudos.

O primeiro a usar, foi o rapaz mais inteligente, com a bolsa foi estudar o que queria, Bob também usou para estudar veterinária.

Se especializou em cavalos. Quando o cruzamento do cavalo negro, com a égua Mustang, ganhou a primeira carreira de cavalos, foi uma comemoração fantástica.

Imagina, isso não acontecia a muitos e muitos anos.

Agora iam aprimorando mais esses cruzamentos.   Um homem apareceu com um cavalo puro sangue árabe que já não corria mais.  Queria vende-lo, Bob o examinou, achou estranho pois o cavalo estava bem.  Descobriram depois que o mesmo tinha sido roubado, falaram com o proprietário original que tinha já recebido o seguro do mesmo.

Ficou como reprodutor, a mistura dele com uma égua Mustang, deu com um cavalo de porte médio que corria como uma flecha.

Numa dessas corridas, conheceu uma pessoa, que acabaria sendo seu companheiro.   Era um treinador, junto como Bob, começaram a treinar os cavalos para grandes competições.  Ampliaram mais ainda o lugar, agora tinha lugares para treinar os cavalos fosse verão ou inverno.

Muitos traziam seus cavalos para serem cuidados ali.

Quando tinha começado, não tinha imaginado isso.  Bob a princípio tinha um pouco de ciúmes do Paul Bert, mas com o tempo passou a respeita-lo.

Abidiel, já tinha 4 filhos, estavam super felizes lá.   Comentou um dia com o Angus, que uma sobrinha de Cristine, com 14 anos estava gravida, queria dar a criança em adoção, ele disse que queria.  

Foi mais um para ficar com ele, Paul Bert não gostava muito, mas isso não lhe incomodava.

No ano seguinte foi a Índia com Abidiel, agora tudo lá seguia funcionando bem. Vendiam toda a produção para a mesma empresa.

Trouxe de lá uma garota de uns dois anos, que estava abandonada, agora tinha como filhos dois meninos, uma menina.

Paul Bert era muito ciumento, não gostava de compartir, um dia disse que isso lhe estava incomodando, não tinha nascido para ser pai de ninguém, arrumou suas coisas foi embora, ficou chateado um tempo, mas pensou diabo, eu gosto das crianças, são meus filhos, se tiver que escolher entre eles, ou alguém, escolho eles.

Angus era o primeiro aluno já na escola da cidade.  Quando saiam todos juntos na vila, era interessante, um filho inglês, outro negro, a menina também de pele escura.

Mas isso para ele, era a coisa mais normal do mundo.

Um dia Bob, andando a cavalo com ele tinham indo ver a manada grande que já tinham de Mustang, ele perguntou se não tinha nenhuma namorada, ele o olhou nos olhos lhe disse, sempre amei só uma pessoa, um dia quem sabe me veja.

Eu te vejo Bob, mas sou mais velho que você, acha que daria certo, sabes que meus filhos estão em primeiro lugar.  Não podia falar nada, ele sempre tinha cuidado de Angus quando era pequeno, agora ensinava os dois menores a amar os cavalos, a montarem, a treinarem os mesmo.    Angus adorava um bom galope junto com o pai.

Começaram a conversar, as conversas que eram sobre cavalos, acabava se derivando em largos papos sobre livro, ele nem sabia que Bob os adorava, as discussões deles, era sempre interessante, sempre um dos meninos estava sentado ao lado dele, ou do Bob.

Sem querer tinha uma família, como tinha sonhado.

Ninguém na vila se atrevia a criticar, pois ele tinha melhorado a vida de todo mundo, tinha saído do atraso para um mundo novo.

Inclusive as senhoras, tinham melhorado suas vidas, com auxílio da Cristine.

Já tinham vários bolsistas, inclusive dois estudando agronomia, vinham nas férias ajudar na cooperativa, ensinando técnicas modernas ao pessoal que tinha campo.

As vezes sonhava com sua tia, que lhe passava a mão pela cabeça, que ele tinha feito o que ela não tinha tido coragem de fazer.

Quando Jones morreu, já com quase 95 anos, foi enterrado no panteão da família, afinal ele tinha passado a vida inteira ali.   Era como o avô dos garotos.

Madie, tinha com duas senhoras, uma linha de produtos de confeitaria, que vendiam aos que vinham passar o final de semana, bem como uma pequena loja na vila.

Nada como fazer a vida seguir adiante.

DOMINGO

                                                   

Veja, meu bem

Que hoje é domingo

Domingo eu não choro

Domingo eu não sofro

Domingo eu sou de paz e alegria

Se o amor quer me deixar

Me deixe num domingo

Eu não vou reclamar

E posso até achar

Que ficar só é lindo.

Estava inquieto, acho que aqui cheguei ao máximo, daqui para frente esse que se acham ótimos vão fazer da minha vida um inferno, menos mal que era sexta-feira, tinha o final de semana para pensar.

Saiu da puta reunião furioso.

Sua secretária lhe avisou que tinha uma pessoa lhe esperando.

Olhou para ela, o conhecia bem eram cinco anos trabalhando juntos, pela cara dele, sabia que não estava para atender ninguém.

Sinto muito que volte na segunda, amanhã, peça a Doris que faça a reunião no meu lugar, tenho que pensar em muitas coisas.  Hoje já não quero ver ninguém na minha frente.

Pegou o casaco, afrouxou a gravata, nem sua pasta pegou, queria era ir embora, desceu com a cabeça em outro lugar, as pessoas diziam até logo, ele nem sabia quem era.

Só escutou uma voz perguntando que era ele.

Foi andando, o escritório central ficava ali perto da Cinelândia.  Tinha poucas opções, se fosse tomar um chopps, logo se sentaria algum conhecido para fazer fofocas ou contar lorotas, não estava para isso, na verdade a fúria que sentia interna, era o que o movia, anos atrás anos.

Não tinha chegado aonde estava só pela sua estampa, ou pelo seu nome, que no fundo enganava muito, Carlos Alberto Alcântara Vasconcelos.   Para muita gente nesse pais, esses nome duplos, sobre nomes que parecem importante, no fundo tudo é a mesma merda.

Quando lhe perguntavam se era parente de fulano de tal, Alcântara Vasconcelos, de não sei aonde, ele tinha vontade de dizer, não moço sai ali de Caxias mesmo, dos subúrbios, mas chegarei ao mais alto disso tudo.

Era diretor de criação de uma grande empresa, tinha a capacidade de descobrir gente, aglutinar pessoas criativas, as ensinar a trabalhar, a serem práticas, a inventarem produtos para essa empresa.   Tinha chegado, por convite de um outro diretor, mas esse acabava de pedir demissão, pois também já estava de saco cheio.   O novo presidente da empresa, era um jumento, que tinha subido à custa de puxar saco de todo mundo, não entendia nada de nada.

Passou na frente de um cinema, passava um filme desses de muita pancada, era o que ele precisava no momento, ver pancadaria, não gostava do gênero, mas com isso colocava para fora o que estava sentindo.

Comprou uma entrada, foi sentar na ultima fila, bem escondido, não queria que ninguém o visse, sabia que nesse cinema tinha muita pegação, mas ele queria se soltar.

Nem bem quinze minutos depois, um homem veio, pediu para passar, ele estava na primeira poltrona, quase ao lado da parede, olhou para o outro lado não tinha ninguém mais nessa fila, ia dizer, por que não entras para o outro lado.  Viu que era um tipão, contra a vontade se levantou, o homem passou por ele roçando a mão no seu caralho.

Sentou-se justo ao seu lado, ele se inclinou para frente, pois justo nessa hora o mochinho do filme começava da dar porradas.   Se imaginou fazendo isso na reunião, sua cara saiu um sorriso, como gostaria de fazer isso, a coisa estava feia, com a saída do amigo, ele estava fadado a cair fora também, tinha uma meta, tudo bem tinha chegado ao mais alto que podia na empresa, mas acreditava que lhe faltavam convites para ir para outro lugar, os últimos eram para lugares longe, fabricas no cu do mundo, isso ele não estava disposto.

Sentiu que a mão do sujeito, deslizava pela sua perna, com ligeiros apertos, deixou, mal não ia fazer.

Quando agarrou o seu caralho, sentiu um corrente subindo pela virilha, olhou para o mesmo, era muito bonito.

Bom programa para uma sexta-feira pensou, mas não ia dar gosto de algum conhecido o ver ali no cinema sovando um sujeito.

Com a voz rouca, perguntou se o outro queria algo mais forte, podemos sair daqui.

A voz do outro também estava rouca, disse que sim.

Arrumou seu caralho para cima, assim não chamava atenção, perguntou ao outro se ele tinha algum lugar para irem, ele nunca levava ninguém para seu apartamento, ali era seu santuário, nem os amigos convidava.

Ele na verdade estava atravessando a Cinelândia, para ir buscar seu carro no estacionamento, foram para lá, vamos para um motel, tinha um que levava os homens com que queria fazer sexo.

Viu que o outro estava nervoso, não se preocupe, é tudo bem feito.

Não era longe, parou o carro ao lado, justo nesse momento saia um carro dali, era um hotel barato, mas limpo, só para homens.

Pegou a mão do outro, estava suada de nervoso.

Pagou, mas chegaram ao quarto, foram um tirando a roupa do outro, tinha um corpo como o dele, magro, mas musculoso, transaram uma, duas vezes, queria mais, fizeram uma pausa, o outro soltou, porra estar contigo é como estar numa montanha russa, dessas que queres gritar.

Ficou rindo, menos mal que o outro não fumava, odiava isso, alguém ter que fumar depois de fazer sexo.

Tinha sede isso sim, numa pequena geladeira, tinha garrafinhas de água gelada, estava incluída no preço.

Levou uma para o outro, só uma luz na cabeceira da cama, iluminava seu corpo perfeito, sem pensar duas vezes, começou a provoca-lo.  Depois disso, uma luz se acendeu, ou vamos embora, ou pagamos a noite inteira.

Vamos embora, porque senão vamos nos matar de fazer sexo.

Trocaram de telefone o levou até a Cinelândia, o outro o convidou para tomar alguma coisa, sinto muito, tive um dia de merda, não seria boa companhia para conversar.

Foi para casa, vivia em Santa Tereza, num belo apartamento, com uma vista maravilhosa, ali tinha seu studio de pintura, tinha acabado de fazer uma exposição, a dois meses atrás, mas já estava numa nova fase, se apresentava com seu nome artístico de Duda Vasconcelos.

Que homem, pensou, tinha guardado o cartão que o outro tinha dado, mas não olhou, tinha na verdade se desafogado, o homem era nota deis, bom de cama, além de bonito, bem seu tipo.

Tinha que tomar uma resolução, se serviu de um copo de whisky que era a única bebida que tinha em casa, com um cubo de gelo, se sentou na varanda, olhando lá para longe o Museu de Arte Moderna, o Pão de Açúcar, sempre pensava um dia terei um apartamento que fique em frente ao Pão de Açúcar.   Riu, quem tinha saído da puta que pariu, isso seria o máximo.

As coisas com ele nunca aconteciam por um acaso.   Seu pai era um bom filho da puta, desde garoto, olhava para o velho, como dizendo o que esse faz pela vida.  Quem dava um duro ali era sua mãe, sua irmã mais velha que tinha deixado de estudar para trabalhar na fábrica que ficava perto de casa.

A irmã de sua mãe, era solteira, odiava seu pai, trabalhava na fábrica também, mas tinha um cargo importante, era coordenadora de moda, bem como desenhava as estampas.

Conversou com ela, pois agora lhe tocava, ou ir trabalhar na fábrica, ou estudar alguma coisa, levou desenhos que tinha feito para ela.  Examinou um a um, esses dois, compro para a fábrica, estou montando uma linha de camisetas com estampas nesse sentido, será algum dinheiro para ti, mas esconda, teu pai é capaz de roubar para tomar cachaça.   Isso era verdade.

Mas voltando, eu fiz vários cursos no Senai Cetiqt, explicou para ele o que era, podes aprender de tudo, tendo em conta se vais trabalhar com moda.  Posso te ajudar, mas saiba que na hora que teu pai, escute que vais trabalhar com moda, vai de dar uma puta surra.

Falo com tua mãe, vens viver aqui em casa.   Só tem um problema, domingo é meu único dia de descanso, não se fala em trabalho, romances, merdas nenhuma, quando muito escuto uma música, leio, penso, mas é raro falar, isso eu faço para chegar na segunda feira com as baterias recarregada.    Algumas pessoas, vão a praia, outras se metem a encher a cara, mas eu quero chegar à diretora da fábrica, por isso necessito desse espaço.  Se souberes me respeitar bem.

Ele achou a ideia interessante, topo, pode deixar no domingo, eu fico no meu quarto desenhando.

Quando falaram com a mãe e sua irmã, as duas apoiaram, se a tia dizia que ia ajudar, era porque ia.

No dia que se mudava, seu pai o pegou no ato, quando disse que ia embora, logo agora que ele pensava mais um para me soltar dinheiro, lhe deu uma bofetada que o jogou no chão, pela primeira vez, se levantou, lhe deu um murro na barriga de bebedor, um soco na cara, o atirou no chão, a próxima vez, lhe darei uma surra de fazer gosto, velho bêbado.

Foi embora.

Foi fazendo cursos, a tia o trouxe para trabalhar, meio-dia na fábrica, lhe explicou o melhor que fazes, eres ir aprendendo tudo, desde como se faz uma estampa, como se imprime, vai começar lá última fila, tens que saber como se faz tudo, desde preparar pigmentos, tudo, entendeu.

Ela ainda pensou, esse garoto não vai aguentar dois dias nesse lugar.

Mas se enganou, ele prestava atenção, uma semana depois o chefe disse para ela, ele já sabe fazer o serviço, é melhor do que qualquer um que eu tenho lá, uma pena que passe para outro departamento.

Assim foi subindo, quando chegou na parte que ele adorou, ela preparar os desenhos para enquadrar na estamparia, já era o braço direito dela. Tinha feito vários cursos, a cada um novo, aprendia o que lhe interessava justamente para ir em frente.   Uma empresa tinha pedido para sua tia desenvolver uma coleção de estampas, baseada nas antigas chitas que se usava desde a época da escravatura, eram em tecidos baratos.

Ela mostrou para ele, aqui copiar não vale, a ideia e recriar em cima disso, essa empresa vende roupas para uma gama de pessoas de dinheiro, ele levou o livro para casa, passou o sábado e domingo fechado no seu quarto, desenhando, sua tia tinha razão, o domingo era um dia, para pensar, limpar a cabeça.

Ele tinha feito os desenhos, já pensando na estampa para tecidos, para cortar, como montar os modelos.  Era uma coisa super tropical, sem querer começou a desenhar modelos, em que usar isso, inclusive em camisetas, com detalhes da estampa.

Na segunda-feira, apesar de ter uma aula, que não lhe interessava muito, na verdade queria era o diploma disso, pois a prática já tinha da fábrica.

Apresentou os desenhos para a tia, essa falou, você entendeu perfeitamente a ideia.

Telefonou para seu contato na empresa, lhe disse que poderia ir levando algumas ideias de estampas, falava isso com um sorriso na cara, olhando os desenhos das roupas.

Pegou tudo, avisou sua secretária, que ia atender um cliente, o arrastou com ela.

O apresentou ao diretor da empresa, Duda Vasconcelos, não disse que era seu sobrinho, disse apenas que era seu braço direito na fábrica, na sexta-feira, lhe falei da ideia que vocês tinham me pedido, hoje me trouxe tudo pronto, primeiro mostrou as estampas, o sorriso na cara do sujeito era imenso.   Pensou consigo mesmo, se eu estivesse no lugar dele, não demonstraria nada, assim ninguém saberia se gostei ou não, ficaria mais fácil para negociar.

Quando acabou, ele esfregava as mãos.               Ela mostrou as ideias das roupas, o homem só faltava babar, esse é um departamento que falta aqui na empresa, alguém que cuide da criação de tudo.   Quantos anos tens meu rapaz?

Acabo de fazer 21 senhor.

Queres trabalhar comigo?

Depende, tinha escutado uma conversa entre dois professores, que reclamavam que quando contratavam os jovens esses não estavam preparados, para saber ler nenhum contrato de trabalho, depois ficavam sem saber como se virar, pois as empresas sugavam os mesmos, depois atiravam na rua como resto de uma fruta podre.

Depende de que?

Se eu puder ver a oferta, o contrato de trabalho, tem que ser à minha maneira. Quero saber tudo que a empresa oferece, bem como meus próprios benefícios nela.

A cara da tia, do homem era impressionante como dizendo o que diz esse fedelho.

Eu compro os desenhos das roupas.

Ele disse que não, como funcionário da fábrica, tinha desenvolvido os desenhos para a mesma, então ela tinha que fabricar tudo.   Foi catando os desenhos das estampas, das roupas, viu que um estava na mão do homem, que com uma cara de sem vergonha, esse fica para mim, como prova de que ninguém vai copiar.

O senhor não soltou nem um tostão, tudo bem a ideia é sua, mas eu sempre tenho uma cópia de tudo, que está na fábrica, nesse momento a secretária da minha chefe, está registrando os mesmo, então seria roubo.

Menina, de aonde sacaste esse garoto, para a idade dele, é bom, muito bom mesmo.

Ainda teve a petulância de dizer, o senhor tem certeza de que sabe dirigir essa empresa, veja, foi apontando todos os erros do homem, que estava de boca aberta, se fosse trabalhar aqui, ia proibir o senhor de fazer isso com as pessoas que fossem trabalhar comigo.

Há que manter uma hierarquia. O senhor é o chefe, não pode se comportar dessa maneira.

Ele se sentou atrás da mesa, em vez de ficar furioso, ria muito.  Tens toda a razão, herdei essa empresa, todo mundo me puxa o saco, ninguém diz a verdade, eu com medo de errar faço exatamente isso que dizes.

A tia inclusive tinha se sentado, estava com a boca aberta. Só soltou uma coisa “cria Cuervos”.

Ele chamou uma pessoa do departamento pessoal, ele não gostou da mulher imediatamente, lhe disse para trazer um contrato, para o rapaz olhar como era.

Ele quando o teve na sua frente, foi riscando tudo que tinha escutado dos professores.

Perguntou quanto ganhava essa senhora que não sabe trabalhar?

Pois quero cinco vezes o salário dela, não quero que escolha nenhuma pessoa que vá trabalhar comigo, só eu escolho as pessoas, quero uma carta firmada pelo senhor, para isso.

Ele só balançava a cabeça.

Ok. Vou mandar redigir um novo contrato, quando falou com a mulher, essa soltou de jeito nenhum, aqui quem escolhe quem vai trabalhar, sou eu.   Ficou com a boca aberta, quando o diretor disse, o dono sou eu, estás despedida.

Ele mesmo foi buscar outra pessoa do departamento.

Amanhã podes vir de manhã, assistir uma reunião com o resto do pessoa, te sentas ao meu lado, assim saberão que a partir de agora serás meu braço direito.

No carro a tia se matava de rir, aonde aprendeste tudo isso?

Eu, vendo a senhora trabalhar, dá um duro desgraçado para manter seu lugar.  Sei o quanto é difícil, principalmente com os homens todos querendo o seu cargo.

Cria Cuervos, soltou ela de novo.

O que quer dizer isso?

Lhe disse para ver um filme, como ela fazia, alugava filmes para ver no domingo, sozinha.   Disse que na verdade o filme era interessante, mas que ela usava isso, para ter a cabeça dividida, fico prestando atenção no filme, mas faço o resto da minha cabeça funcionar em outra sintonia, assim quando me reúno com alguém sei tudo que passa em minha volta.   Mas hoje me surpreendeste.

Eu é que tenho que agradecer a senhora de me ter dado todas essas oportunidades, imagina, eu vou a maioria das aulas para ter um diploma, mas a maior parte do tempo, tudo eu já aprendi na prática na fábrica.

Antes de pedires demissão, amanhã assista essa reunião, ele espera que seja honesto com ele.

Vamos comprar uma roupa boa para ti ir nessa reunião.

Não esperava o que ia dizer, como esse homem que trabalha numa empresa voltada para a moda pode se vestir tão mal.

Ela caiu na gargalhada.  Talvez tenha uma mulher que lhe faça isso.  Ele assumiu a empresa a pouco tempo, esteve fora do pais, o pai faleceu, junto com seu irmão mais velho que levava a empresa, teve que voltar para assumir tudo.

No outro dia, foi vestido com uma calça jeans escura, com uma camiseta escura mas de boa qualidade que se fabricava na fábrica para exportação, uma jaqueta da mesma coleção, cortou o cabelo, num corte mais moderno em Ipanema.

Chegou antes da hora, disse que seu nome era Duda Vasconcelos, que o chefe o esperava.

Ah, sim, mas ele não chegou ainda, o levaram para uma sala, a segunda senhora, chegou com o contrato para ele ver se estava bom, foi riscando uma série de coisas, eu disse que nada disso podia constar no contrato.  Por isso a que era tua chefe foi para a rua.

Ninguém me orientou.  A fez sentar-se, falou com ela francamente, como ele funcionava, ele sabia como se comportar, pois seu último trabalho na fábrica tinha sido exatamente esse, montar uma equipe.   Esse contrato dessa maneira funciona para todos que vão trabalhar comigo, não quero ninguém ao meu lado pensando que é um funcionário público.

Ela riu, eu me sinto assim, venho trabalhar de mau humor, pois essa mulher não deixava ninguém ir para a frente.

Quando o chefe chegou, vejo que já estas dirigindo a empresa.

Não, apenas por falta de orientação, ela me apresentou o mesmo contrato que a outra.

Ele riu a bessa, erro meu, não tenho nenhuma experiencia nessa área.

Fui diretor de ações de um banco em Londres, só sei pensar assim, gostei de ti, pois me colocaste com os pés no chão.

Ao entrar na sala, parecia, uma reunião de professores de uma escola pública, que todos contam tempo para se aposentar. O examinaram de cima a baixo, ficou horrorizado como podia trabalhar com moda se todos se vestiam mal.

Primeiro ele passou os desenhos para todo mundo, a maioria não disse nada, só uma que aparentemente era a mais jovem que disse, foi o que eu lhe disse senhor, essas estampas em sua época eram lindas, mas retirando todos os detalhes em volta, fica excelente.

Ele passou os desenhos das roupas que ele tinha feito. Foi a mesma coisa, a única que se deliciou com tudo foi ela.   Isso numa vitrine vai ficar espetacular, a muito precisamos dessa renovação, estamos ficando com clientes velhos demais.

Bom agora eu apresento, ia dizer Duda, ele soltou Carlos Alberto Alcântara Vasconcelos, as pessoas me conhecem com Alberto Vasconcelos, ou só pelo sobrenome.

Ele será a partir de agora, o diretor de criação.  Os outros não gostaram.

Senhor me permite, gostaria que as pessoas aqui dessa sala dessem o exemplo, todos se vestem muito mal, parecem velhos a beira de ir para um asilo.  Só a senhora, embora esteja comedida, parece entender de moda, pois citou como ficaria numa vitrine.

Todos estava com cara de ofendidos.

Já escutaram, apresentou a que tinha gostado de tudo, Dejanira Machado, ela riu, aqui me chamam de Maria Machadão, por causa de uma novela.

Realmente já tinha falado com o chefe, essa gente está fora do mercado.

Foi até a sala do chefe, aonde vou trabalhar, ele indicou uma sala ao lado, daqui posso te ver.

Senhor outra coisa, ontem a primeira coisa que reparei, é que o senhor é o culpado disso, se veste muito mal.  Nem parece alguém que trabalha com moda.

Isso lá é verdade, imagina, eu estou usando as roupas do meu irmão, pois não tenho trajes de verão para usar aqui.   Gosto na verdade como você se apresentou hoje.

Foi uma coleção que fiz com minha tia, pela cara dele, viu que não sabia, sim ela é minha tia, mas sei tudo como funciona numa fábrica, pois aprendi desde baixo, quando tinha 16 anos, trabalhei em tudo na fábrica.

Bom como eu dizia, essa coleção era para exportação, mas os vendedores internacionais, estão acostumados com coisas não tão finas.

Gostaria de ir à loja mais importante que vocês tem.

Venha, chamou a Dejanira, eu a descobri justamente nessa loja, brigando com uma chefe, que fazia uma combinação horrível das roupas.   Agora é meu braço esquerdo, você será o direito.

Entraram no carro, ele pediu desculpas, mas esse carro era do meu pai, acho uma merda, tem cara de velho, imagine um Mercedes para mostrar que é importante.

Dejanira foi mostrando tudo na loja que ficava no centro da cidade, ele tirou uma caderneta, foi anotando tudo, entrou na loja, as chefes de departamento já sabiam que tinha acontecido na reunião, só faltaram abrir suas calças para lamber seus ovos.

Estavam numa parte, veio a chefe, com uma roupa antiga, com os cabelos presos, num coque antigo.  Dejanira foi mostrando as roupas novas que ela tinha introduzido, ele separou duas roupas, uma saia, uma blusa, arrastou a chefe para o vestidor, a mandou vestir, quando ela saiu era outra pessoa, ele foi lhe soltou o coque, viu uma tesoura por ali, cortou metade de seus cabelos, num corte Chanel, assim fica melhor, a partir de amanhã quero todas vestidas assim com roupas mais soltas, mais modernas, tinha notado que todas usavam um coque.

Quem inventou isso?

Fui eu, ele olhou para trás, estava a que era gerente da loja, com uma cara de azeda.

Ele soltou sem querer, temos uma memeia aqui.

Quem é memeia?

Uma bruxa de história de quadrinhos, senhora.

Temos que ter compostura para atender os clientes.

A senhora ou veio de um orfanato de irmãs de caridade, ou estudou numa escola assim, nada disso, os clientes querem ser bem atendidos, se vão comprar temos que ser agradáveis, eu só compro com um vendedor que me agrade, se ele não está vou embora.

O importante é isso, saber atender.

Quantos anos a senhora tem?

Ela disse baixinho.

Mas muito pouco para estar assim tão amargada, sugiro que a senhora tire a tarde livre, vá primeiro a um cabelereiro, solte essas melenas, depois a uma ótica, procure um óculos mais jovem para alegrar a cara, quero todas as vendedoras maquiladas para trabalhar, nada com essa cara de xuxu murcho na cerca.   As vendedoras que estava por ali, riam, aplaudiam.

Bom disse o diretor que estava em silencio, já viram quem vai cuidar de vocês a partir de hoje.

Saiu dali as gargalhadas, memeia, caramba tens um vocabulário, impressionante.

Vamos voltar para a central.  

Nada disso, foram a uma loja ali perto, disse ao vendedor, que o conhecia lá do bairro, te estou trazendo um cliente, quero disse a roupa como queria, um traje azul, mas nada de escuro, camisas brancas, azuis, mandou o chefe para o vestidor, o arrumou,

Ajustava uma casaco no seu corpo quando ele disse, pare. Estava sério, veja o que você fez, estava de pau duro.

Perdão, eu deixo o senhor se vestir sozinho.

Ele comprou toda as roupas que ele tinha separado.

Que carro vocês acham que eu devia comprar?

Ele soltou, eu não entendo nada de carros, só sei que tem um motor, quatro rodas.

Dejanira soltou o verbo, uma das minhas paixões, mas acho que o senhor devia fazer através de um banco, assim pode ir trocando de carro, quase todos os anos. Leasing se chama isso.

Estou perdido nas mãos dos dois.

Quando entraram na central viram o chefe sorrindo com outro tipo de roupa, mais jovem, mais moderno, entenderam que tinham que mudar ou caiam fora.

Já sabiam também o que tinha acontecido na loja.

Sergio Andrade, o dono da empresa depois lhe chamou para olhar o contrato novo, ele riscou duas coisas.

Espera fui eu que coloquei isso.

Chefe, imagina, daqui seis anos, estarei pensando quanto tempo falta para me aposentar, quero um contrato de cinco anos, se no final disso, o departamento estiver funcionando, com certeza irei embora.

O mesmo deve fazer com a Dejanira, a deves ir passando de departamento em departamento para modernizar tudo.

O que tanto anotaste?

Isso, eu vou trazer depois de assinar o contrato, mas antes tenho que ir até a Fábrica, pedir demissão.

Esta semana tenho que arrumar um apartamento mais ou menos perto, para poder me mover melhor, eu moro com minha tia, perto da Fábrica.

Diga para ela vir amanhã fechar o contrato da coleção, é dela.    Me chame de Sergio ou de Andrade.

Nada disso, temos que ter essa distância, porque senão dentro em breve eu não o respeitaria.

Bom vou embora fiz muita confusão hoje, começou a rir, te acostume sou assim mesmo.

Sergio ficou rindo com ele.

Chegou na fábrica como sempre, foi falando com todo mundo, depois foi para o escritório da tia, mostrou o contrato para ela.

Espera chamou o advogado da empresa.

Quando esse leu o contrato, ficou de boca aberta, que grande coisa conseguiste.

Depois a tia mandou chamar sua mãe, bem como sua irmã.

Disse para elas o menino, vai voar.    Vai trabalhar com uns grandes clientes que temos, vendeu toda uma coleção para eles, temos trabalho muito trabalho.

A mãe, sua irmã chorava, bendita hora que saíste de casa.   Temos boa novas, a mãe, colocou o sem vergonha para fora de casa.  Disse basta.

Ele só disse cuidado, ele pode ser perigoso. 

Vamos ficar um tempo na casa da tia.

No dia seguinte foi trabalhar, o chefe estava todo vestido com a roupa azul que ele tinha escolhido.

Que tal estou, lhe perguntou.

Perfeito chefe.

Vamos para a sala de reunião, as pessoas parecem que tinham recebido o recado, estavam melhor vestidos, as mulheres com o cabelo cortado, os homens de barba feita.

Quero avisar, que a partir de amanhã, Dejanira vai passar um tempo em cada departamento, temos que modernizar tudo.  A cara foi ótima, de quem essa ideia, perguntaram?

Minha porque, disse o chefe, afinal a trouxe para cá por isso.

Depois ficaram os três, creio que em breve vamos ter muita gente pedindo as contas ou aposentadoria.

Bom vamos ao que você tanto escreveu ontem.

Vais pensar que sou louco.  A marca, está consolidada, verdade?

Isso fizeram teu pai, teu irmão, pois agora chegou a hora de sacudir essa poeira.

Veja, pelo que anotei, todas as clientes, são de uma idade x, sempre se vestiram ali, mas vamos manter isso, mas introduzindo coisas novas, como a loja que fomos ontem é a principal, creio que se deveria começar por lá.   Primeiro mudar o letreiro, que é velho, dá pena, precisa de aposentadoria, segundo fazer uma reforma geral, agora vai pensar, vou perder dinheiro, mas eu digo, ganhar mais em seguida.   Fechar a loja, reformar inteira, tudo, tirar essa coisa velha que é esse chão de alcatifa, colocar um chão de madeira moderna, iluminar os provadores, novas maneiras de expor, fazer uma reciclagem com os vitrinistas, já vi que todos são velhos também, sempre tiveram só esse emprego, sugiro que eu tenha no departamento alguém que os oriente.

Tenho um conhecido, que dá aulas no Senai Cetiqt, trabalhou um tempo na Europa, podemos começar pedindo que treine esse pessoal, que aprenda a olhar a loja de outra maneira.

Dejanira, podia selecionar todo o pessoal que está lá, não digo mandar ninguém embora, mas receber um treinamento.    Devíamos ter setor de perfumaria, que vendesse perfumes, creio que qualquer marca gostaria de entrar, que tenha uma linha de maquilagem para senhoras, com pessoas para ensinar as mesmas a se maquilar.

A cara do Sergio era incrível.   Menino vou para casa, tu, Dejanira, levam isso em frente. 

Nada disso, você entende de cifras, precisamos alguém para nos parar os pés quando voarmos alto. Para encontrar outra solução.

A partir dessa semana, irei a cada loja com ela, vamos olhar tudo, anotar, mas veja, essa primeira é a cobaia, as outras podemos fazer reformas com as mesmas abertas, ou trabalhando de noite, principalmente já vi que temos várias nos shoppings, eles permitem isso.

O senhor terá que negociar isso, teremos que chamar uma empresa que faça, isso, negociar com ela, ajudamos, mas tem que ter tua figura na frente.

Quando foram cada um para sua sala o Sergio, lhe apertou a mão, eu estava perdido, a Dejanira me mostrou um caminho, mas tu, entrou como um furacão, me sacudiu, eu já pensava em vender tudo voltar para Londres, aonde estava minha vida, aborrecido como aqui, obrigado.

Não te dou um beijo, porque iria chamar a atenção.

Um ano depois as vendas eram fantásticas, ele tinha montado um departamento, tinha reciclado o pessoal das lojas, os velhos realmente tinham ido embora, Dejanira tinha conseguido outras pessoas para o lugar delas, mas usando seu contrato, de cinco anos.  Se a pessoa não se acomodasse, ficava.  Inventaram inclusive, que a cada x tempo, todos trocavam de departamentos, para mudar tudo.

Agora a loja tinha um departamento masculino que funcionava bem.

Sergio Andrade, fez uma festa na empresa, para comemorar as mudanças.

Ele agora, a cada fornecedor, exigia conhecer a fábrica, queria ver como funcionava cada uma, se valia a pena trabalhar, se fossem fazer uma coleção, queria saber aonde estavam pisando, se ninguém ia copiar o que tinha feito.

No dia dessa festa o Sergio, disse que o levava para casa, mas o levou para a sua, não posso mais esperar.  Começaram um relacionamento, que ele como no seu contrato, incluiu clausulas, nunca viveriam juntos, os domingos eram dele, que não queria ser apresentado a ninguém como seu namorado.  Na empresa sou um empregado como todos os outros, senão perderam o respeito por ti.

Ele sempre dava um jeito de o arrastar para sua casa. Mas viver juntos não, adorava fazer sexo com ele, mas nada de romance, ele tinha um objetivo a conseguir.

Quase cinco anos depois, estava com Dejanira num shopping comentando uma coleção que estava mal exposta.   Isso não pode acontecer Dejanira, o meu departamento, mandou como devia estar exposto, se falo com a gerente, estarei passando por cima de ti.

Vinha os dois de braços dados, andando pelo corredor, se encontraram com uns senhores bem vestidos, todos a cumprimentaram, ela o apresentou.

Ah, o rapaz que revolucionou a marca.  Queríamos falar com os dois.  Quando podemos marcar uma hora.

Entregou um cartão a cada um, foram embora, ele lhe perguntou quem são esses?

Donos da competência, estão atrás de mim a tempo, mas querem os dois.  Teu contrato acaba dentro de meses, mas o meu, não.

Ele cortou rápido, por que a gerente dessa loja não obedece as orientações do meu departamento?

Porque é minha namorada, soltou Dejanira.

Isso não importa nada, diga a ela que se não se comporta, eu a coloco no olho da rua.  Que ela olhe direito o contrato novo, eu posso fazer isso.

Ou arrumas o problema ou faço eu.

Ela ria, já usei esse argumento, mas se acha acima de todos os outros gerentes, diz que se a pressiono contara nosso relacionamento.

Voltaram, ele entrou na sala da gerente, que estava fumando.  Ele parou na porta, curioso tem um aviso aqui, dizendo que é proibido fumar.  Você devia dar o exemplo.

Mas sou curto e grosso, estás despedidas, pegue suas coisas, vá até a central, para tratar de seus papeis.

Ela olhou para a Dejanira, essa só disse, eu te avisei.

Amanhã, quero que as regras aqui sejam obedecidas.

A mulher foi falar logo com quem, com o Sergio Andrade.   Querendo caluniar a Dejanira, disse que esta tinha se aproveitado dela.

Eu duvido muito, teve sim o mau gosto de se meter com uma fulana.  Estas despedida.

Ela ventilou para quem quisesse escutar a história.

Ele ficou duas semanas sem ver o Sergio Andrade, um domingo ele apareceu no seu apartamento, era muito simples ali no centro da cidade, perto relativamente do escritórios.

Abriu a porta o convidou para entrar, viu que ele estava só de bermuda.

Quis passar a mão no seu corpo.

Sergio, aqui é meu santuário, te disse que os domingos eram meus.

Quero que vás viver comigo, nos outros dias fico imaginando que tens outra pessoa.

Ele riu, como seria possível, trabalho como uma besta, estou morto de cansado quando chego em casa, preciso parar para pensar.

Nada disso Sergio, temos um romance, mas não estamos casados, nem quero isso, sou jovem, tenho sonhos ambições, você me abriu as portas disso tudo, isso jamais esquecerei, mas dai a querer me controlar, nem pensar.

Eu vivo recebendo convites para trabalhar pelas fabricas que vou conhecendo, querem se modernizar, me convidam, me oferecem inclusive mais dinheiro, mas nunca aceito, porque tenho um contrato contigo para cumprir.

Sim eu sei, sempre foste a única pessoa honesta comigo, mas estou numa enrascada, de um lado minha mãe, querendo que me case, que tenha herdeiros, sempre soubeste que tenho uma noiva, se vais morar comigo, posso romper tudo isso.

Ou seja, me queres para isso, usar de aríete para romper teus compromissos.

Nem pensar.

Eu te adoro, tu sabes disso.

Sim sei que na cama, nos damos bem, trabalhamos bem juntos, mas dai dar esse passo, seria cortar todos meus planos.

Vinha economizando dinheiro, tinha ajudado sua mãe, bem como sua irmã, pagava cursos para ela, melhorar sua vida.

Sergio queria fazer sexo, ele se negou, é meu domingo, não abro mão.

Então tudo está terminado entre nós.

Quando ele saiu, cantou um pedaço de uma música que sua tia gostava.

Se o amor me deixar

Me deixe num domingo

Eu não vou reclamar

E posso até achar

Que ficar só é lindo.

De uma certa maneira, era o melhor, pois Sergio nunca se controlava, as vezes o queria beijar no escritório, isso ia contra todas suas regras.

Duas semanas depois trouxe sua noiva para trabalhar com eles, a coisa se torceu, pois ela não gostava nem da Dejanira, nem dele.

Tinham ido ao shopping para ver como ia a nova gerente, a loja estava perfeita.  Foram almoçar, quando apareceu o que ela tinha dito que era o diretor presidente da companhia.

Quando vamos ter a tal entrevista, disse o homem.

Ele cortou, porque não agora, já acabamos de almoçar, se sua loja tiver uma sala podemos conversar.

O homem se apresentou novamente Rodrigo Sintra.

Foi direto ao assunto, gosto de como vocês dois mudaram tudo, renovaram todo um conceito de loja, as nossas são maiores.

Mas o que o senhor nos oferece?

Ele começou a desfiar um papo de cerca tonto.

Pare, primeiro, não somos tontos, temos nossas regras de trabalho, o meu contrato redigo eu, se não se cumprem me dá direito a uma indenização grande, isso primeiro, a minha maneira de trabalhar, não admito interferências de ninguém, analisaremos vossas lojas, aí pensaremos no assunto, de qualquer maneira mando uma cópia do nosso contrato de trabalho, através do meu advogado.

Nós não trabalhamos assim.

Então nada feito, temos outras ofertas muito boas de trabalho, citou uma série de fábricas que ele visitava com ela, aceitam qualquer termo de nosso contrato, lhe estendeu o cartão com seu número de telefone.  Ah uma coisa, o senhor é o presidente, mas só negocio como dono da empresa.

Essa fez uma sorriso de mofa, esse não entende de nada. Que dirige tudo sou eu.

Que filho da puta, não daria certo Dejanira, ele gosta de andar com esse grupo de homens, lambendo seus ovos.

Eu conheço a filha do dono, estudamos juntas num curso agora a pouco tempo, ela está se preparando para dirigir a empresa.

Ligue para ela, vamos bater um papo com ela.

Assim foi começaram na nova empresa, colocando para fora o presidente da companhia, com carta branca, junto a filha do dono.

Agora ela se tinha casado com um idiota, que tudo que pensava era em vender a empresa.

Tava na hora de mudar.

Seu celular tocou várias vezes, mas nem pensar em atender. Tinha que pensar.

Na segunda-feira, já tinha uma decisão, o senhor que tinha hora marcada contigo, está aí na sala ao lado, como disseste para vir hoje, acho bom atender porque é de São Paulo.

Ok, o leve para minha sala de reuniões.  Depois quando acabar quero falar com todos.

Dejanira falou com ele, quando se cruzaram no corredor, recebi uma oferta, vou para outra empresa, uma cadeia de boutiques, desculpe não falar antes, mas tanta confusão, agora preciso voar sozinha, me entendes.  

Sim, acho que tens razão.

Quando entrou na sala, ficou parado na porta, sentado na mesa, estava o homem de sexta-feira.

Vê o que dá não se apresentar.  Se levantou estendeu a mão.

Pior, olhou para sua mão, viu uma aliança.

Foi direto ao assunto, tentei falar muitas vezes contigo, mas nunca consegui.  A tempos atrás eu não estava, estiveste em nossas duas fábricas em São Paulo, estiveram com minha irmã, vocês não quiseram fazer negócios, pois acharam a empresa antiquada.

Disse o nome da empresa, ele se lembrou imediatamente da mulher.  Ela disse que estava assumindo a empresa, que seu irmão estava fora, nosso pai morreu a questão de um mês meu irmão trabalha em Paris, está lá pedindo demissão, sabemos que isso aqui necessita de uma modernização, os dois saímos do pais, agora retornamos, meu pai ficou à mercê dos diretores, como sempre acontece nesse pais.    Quase levaram a empresa a falência, mas pagamos todas as dívidas, agora toca renovar tudo.

Ele disse que o maquinário era excelente, mas o que necessitavam era de uma equipe de criação, para modernizar o produto.   Explicou para ela tudo.

Por isso vim aqui, para te convidar para trabalhar conosco, conheço tua fama, além da carta branca que exiges, mas veja bem, eu trabalhava em Paris, na Printemps, mas na parte administrativa, fui para lá fazer um estágio, acabei ficando, me casei por lá.

Minha mulher ficou, eu voltei, não viram durante um bom tempo, tenho dois filhos.

Era como se estivesse colocando os pingos nos I.

Bom qual a tua proposta?

Queremos que nos ajude a modernizar as duas empresas, sabemos de tua forma de contrato, nos informamos a respeito de ti, eres jovem, mas tem uma maneira especial de trabalhar, se for nessas condições, pagamos o dobro do que ganhas aqui.

Ele era o salário mais alto da empresa.  Por isso o queriam fora, para poderem negociar a venda.

Faz uma coisa, tenho uma reunião com meu pessoal, me espere, lhe deu a direção de um restaurante, ou melhor, sabes aonde fica meu carro, me dê uma hora, te dou a respostas, bem o que quero para ir para São Paulo.

Fez a reunião com seu pessoal, avisou Doris, sua mão direita, que iria para São Paulo, morar lá, trabalhar em uma empresa, começar do zero, perguntou se queria ir.

Contigo vou ao inferno.

Ok, agora o pior, ou o melhor, vou falar com o novo manda mais, pedirei as contas, ele não sabe que se me mandar embora, tem que pagar uma multa.

Foi se encontrar com o mesmo, disse que não concordava como rumo da empresa, que ele estava destruindo todo seu trabalho.  Me importa uma merda, o melhor preciso me desfazer de ti para poder vender a empresa.   Estas despedido.

Assina aqui, que me estas despedindo.

O idiota assinou, como papel na mão, disse adeus, passou pelo departamento pessoal, o diretor levou as mãos a cabeça, essa multa vai acabar de afundar tudo.

Telefonou para o outro, esse confirmou que o tinha despedido, o próximo serás tu.

Vê, é um idiota, porque se veste bem, tem boa pinta, não quer é trabalhar, mal sabe que o dinheiro acaba num dias destes.   Eu a avisei para casar com separação de bens, mas ele acha que metendo a mão no dinheiro da empresa é dele. Nada mais longe da verdade.

Ok, pagamos a multa, a culpa é dele.

Autorizou o pagamento, bem como avisou o banco.

Ele foi rapidamente com o novo amigo o seguindo, desculpa, mas tenho que ir ao banco imediatamente.    Mal tinham acabado de lhe transferir o dinheiro para sua conta, o idiota, estava chamando porque tinha descoberto que tinha sido enganado.

O diretor do banco, disse foste esperto, porque se ele cancela o cheque não íamos te pagar, isso seria uma longa batalha judicial, como anda a empresa, ias perder.

Venha, vamos almoçar, o convido eu, o levou, num largo passeio, atravessaram a ponte, foi para Charitas, num restaurante que a anos tinha descoberto como Sergio Andrade.

Logo o reconheceram, o levaram para um sala, com vista para a praia.

Um dia virei viver aqui, nesse remanso de paz.

Bom, me conta o que acabaste de fazer, ele contou a história, remodelei a empresa inteira, agora ela vale mais, mas a filha do dono casou com um idiota, que não sabe trabalhar, é o novo presidente da companhia, para vender bem tinha que me colocar na rua, por causa do meu salário.   O que ele não sabia que se me mandasse embora, teria que me pagar 20 vezes minha indenização, é uma clausula do meu contrato.

Quem me contrata, tem que me engolir, resta saber se vocês estão dispostos a isso.

Se me contrata agora, não gostam da minha maneira de trabalhar, mas assinaram que tenho carta branca, eu saio ganhando.

É uma coisa para se pensar.

A merda é que estou apaixonado por você Alberto Vasconcelos.

Pode parar o carro, eu não misturo alhos com bugalhos.  Gostei de fazer sexo contigo, mas isso de me apaixonar nunca.

Tenho normas, uma você já conheceu, pois vi que me chamou todo o final de semana.  O domingo é meu dia, não trabalho, é um dia totalmente meu, não admito interferências nesse dia, não quero ninguém por perto, nem um amante, nada.

Depois tu eres casado, tudo bem tua mulher não esta aqui agora, mas não tenho pinta de ser o amante.   Portanto podes pensar se me queres realmente na empresa.

Aviso, não rompo nunca minhas promessas, posso fuder contigo quanto queiras, mas no trabalho, nem um olhar, nada.   Eres o Patrão, te respeitarei como tal, discutiremos, mas nada de romance.   Pense bem.

Na volta, pararam num motel, ficaram fazendo sexo o resto do dia, o celular dele não parava, mas não atendeu, tirou o som.

Ah, um detalhe, não sei teu nome.

Caralho te dei um cartão.

Se levantou nu, lhe estendeu a mão Joseph Stein, judeu, já viste meu piru cortado, por isso é gostoso, mas será só teu.

Mais algum detalhe?

Sim, minha assistente pessoal tem que vir junto, além de que quero a casa paga pela empresa, o que não te permite entrar.  Já disse minha casa é meu santuário, nunca permito a entrada de ninguém.

Como vamos fazer para ter isso.

Ah não conheço São Paulo, nunca sai com ninguém de lá.  Ah aviso, nunca faço sexo com outra pessoa, se estou contigo.

De noite o levou ao hotel, para buscar sua bagagem, lhe deu um beijo, antes de chegar ao aeroporto, nos falamos, conversarei com minha irmã.

Depois ele olhou as chamadas, tinha de todos que trabalhavam com ele, tinham sido todos despedidos.  Mas ele não podia fazer nada, escreveu para todos, ele não sabe do contrato, exijam que pague.

Uma que entrou em seguida, era da proprietária verdadeira, essa ria, eu sabia que ias aprontar, bom, o pior é que o idiota não sabe que não pode vender a empresa, eu já a vendi a uma firma americana, o dinheiro já esta na minha conta.  Somos casados com separações de bens.

Dejanira fica dirigindo a nova empresa.

Ah essa era a ideia, coisa de mulheres, deixaram ele fazer o serviço sujo, agora dirigem as duas a empresa.   Boa jogada Dejanira, esperava que ela soubesse levantar a empresa, o pai da nova proprietária tinha feito muita merda.

Eles levantavam de um lado, ele destruía do outro.

Com o dinheiro ganho, falou rapidamente com um bom amigo, advogado, disse que queria um lugar para guardar suas coisas, que era possível que se mudasse para São Paulo.

Pagas tão pouco de aluguel, que acho que vale a pena deixares aí.

Ele tinha bom gosto, com o dinheiro de suas exposições, tinha comprado obras de artes de outros artistas, coisas que ele gostava.

Bom ia esperar, avisou a Doris que estivesse pronta, pois os podiam chamar de São Paulo, significa muita coisa.   A tinha preparado como tinha feito sua tia, a tinha feito ir as melhores empresas, aprender desde zero dentro delas para saber como funcionavam.

Esta noite, recebeu uma chamada do Joseph, isso posso fazer, foi o primeiro que perguntou?

Sim, desde que não seja domingo, nesse dia pode acabar o mundo, que não me importo.

Pior é que gostava dele, mas casado não sabia, nunca tinha sentido essa sensação de quero mais. Querer estar com ele.

Mas me conta?

Falei com minha irmã do seu contrato, ficou assustada, mas é isso ou temos que vender a empresa, tudo bem é muito dinheiro, mas o velho nos fez ir para fora para isso.

Afinal somos Judeus, vou conversar com ela, pode ser que te chame antes que eu.

Como tinha uns trabalhos para acabar, tinha que entregar mais quatro quadros para uma exposição.  Se dedicou a isso, olhou bem o apartamento, vivia ali a tempos, podia ser negocio deixar tudo ali, ou levar tudo para São paulo.

Dois dias depois a irmã ligou, perguntou se podia ir esse final de semana a São Paulo, ele só disse, fale com teu irmão, domingo, não trabalho jamais.

Ela riu, ele me disse, mas tinha que tentar.

Olhe, segunda as nove da manhã estarei na fábrica, levo meu braço direito.  Reserve um hotel simples, nada de luxo, para os dois, quartos separados.

Avisou a Doris, a esperava no Santos Dumont, para o primeiro voo para São Paulo na segunda-feira.

Durante três anos, foi uma maravilha, refizeram basicamente tudo na fábrica, voltaram a ter clientes, grandes empresas, inclusive a que ele trabalhava antes.

Uma vez foi ao Rio para falar com o Sergio Andrade, ficou horrorizado, estava gordo, como quem esta no fundo de um poço.  Só lhe perguntou cadê aquele homem maravilhoso que conheci?

Morreu quando me deixaste.

Conversou muito com ele, tens que te amar primeiro, se não deu certo teu casamento, peça o divórcio, sabia que ele também tinha casado com separação de bens, refaça tua vida.

Mesmo com tudo isso, nunca deixaste de ser honesto comigo. Foste o única pessoa que amei na minha vida.  Mas tem razão vou tentar, faremos negócios, assim te vejo, mas um detalhe que seja sempre você, assim vais vendo se supero tudo isso.

Ok, prometido.

Vejo que precisas de uma coleção bomba, posso fazer para ti.

Em um mês lhe apresentou a coleção, o convidou para conhecer a fábrica, quando o apresentou ao Joseph, disse, foi esse homem que me descobriu, me deu a primeira chance na vida.

Depois Joseph comentaria, ele te ama muito. 

Sim é verdade, mas me queria seu prisioneiro, isso não pode ser, tenho sonhos ainda por realizar.

Um dia tens que me falar em teus sonhos.

Não me falaste de tua exposição no Rio, mas consegui comprar um quadro para minha coleção, fiquei apaixonado.

Qual compraste?

Ele tirou o celular, mostrou a foto, Duda começou a rir, sabem que é essa figura.

Sim, sou eu.

Não seja sem vergonha.

Dormiram juntos essa noite, no apartamento que Joseph tinha alugado para esses encontros, de manhã passou pelo seu, para trocar de roupa, chegou antes dele ainda na fábrica.

Avisou sua irmã que tinha fechado negócios no Rio, que a coleção da loja era deles, toca a funcionar.

Tinha não só recuperado antigos clientes, Doris agora, preparava a segunda fábrica para fazer coisas novas.  A equipe era maior que a do Rio, mas ela a dirigia com mãos de ferro.

Mas claro nem tudo era perfeito, quando chegou a mulher do Joseph, com os meninos, ele agora tinha pouco tempo.

Não reclamava, pois sabia que teria isso desde o começo. Nos finais de semana, se fechava no seu studio, para pintar, tinha escolhido um apartamento, bem perto da fábrica, no Belém, era um último andar, mas tinha um quarto, banheiro, uma cozinha pequena, o resto era um imenso salão, aonde trabalhava.  Nunca admitia ninguém lá, nem a Doris sabia aonde era.

Muito tempo depois estava trabalhando, quando escutou a companhia da porta, achou estranho, quando abriu a porta, estava a mulher do Joseph.

Entrou procurando por ele.

Aonde está?

Não sei do que esta falando, a senhora esta rompendo um detalhe do contrato que tenho com a empresa, aqui não pode entrar ninguém, principalmente num domingo que não atendo ninguém.

Não vejo por que o Joseph devia estar aqui.

Hoje me contou a história dos dois, quer o divórcio para ficar contigo.

Perdão, mas não sei nada disso, além de que, isso jamais aconteceria, não me permitiria isso.

Não tinha contado ao Joseph, que quando um dos diretores do Printemps tinha vindo a São Paulo para conhecer a fábrica, tinha ficado impressionado com ele.   Tinha lhe feito uma oferta, para trabalhar em Paris.   Isso seria seu sonho.

A senhora me desculpe, mas estou trabalhando, olhe o que quiser, mas amanhã irei a empresa por rompimento de contrato, irei com meu advogado.

Ela foi embora, depois mais tarde viu as chamadas do Joseph, mas não atendeu nenhuma como sempre.

Segunda quando saiu, estava esperando embaixo. Desesperado, não faça isso, já arrumei a situação, sem querer caguei tudo.   Estou loucamente apaixonado por ti, mas tenho os meninos, que adoro.

Olha Joseph, vou cumprir o final do contrato que acaba em Dezembro, faltam dois meses, por favor vamos nos limitar ao profissional.   A tempos te disse que não quero estar preso a ninguém, foste a única pessoa que cheguei a dizer que te quero, mas não estrague tua vida por mim.

Quando acabou o contrato, foi com Doris para Paris, era todo um outro conceito de trabalho, fez um contrato curto, só de dois anos, queriam apenas que montasse uma equipe de criação, ele teve algumas aventuras, como tinha antigamente, mas nunca mais quis sequer encontrar a pessoa no dia seguinte.

Ninguém era como o Joseph, quando foi embora, realmente descobriu que o tinha amado, mas não se achava capaz de arruinar sua família.

De Paris, passaram dois anos trabalhando em Amsterdam, para uma cadeia de Boutiques, foi quando perdeu Doris que se apaixonou por um dos que trabalhavam com ela, quando ficou gravida, disse aqui fico.

Ele de lá foi para NYC, fazer a mesma coisa, mas chegou à conclusão que não funcionava, a anos tinha conhecido uma manager, que fazia uma coisa, preparava as coleções, vendia as grandes cadeias, mas mandava fabricar na China, era um negócio redondo.

Ele disse que isso acabaria com a indústria americana, a largo prazo foi o que aconteceu.

Ao longo dos anos, ele ganhou muito dinheiro, era conhecido também como Duda Vasconcelos, tinha feito várias exposições em Paris, inclusive com obras nos museus.

Ele dizia quando falava com Doris, NYC, é fake, tudo tenho que ir a China olhar as fábricas, me da nojo, é uma exploração do ser humano total.

Menos mal que aprendi a assinar contratos curtos, estou farto.

Falava agora muito com seu amigo advogado no Rio, tinha muito dinheiro aplicado lá, bem como o que tinha em Paris, tinha mandado para lá, com a diferença em cambio, valia muito, podia ter uma vida tranquila, tinha perdido a vontade de trabalhar, mas cumpriu seu contrato até o final.   Lhe chamaram de novo para Paris, ia ter uma exposição sua lá.   Levou um susto, pois o dono da galeria, disse que um quadro tinha sido vendido para o Brasil, um cliente que viveu aqui, sempre compra um dos teus quadros.

Perguntou se era Joseph Stein.

Sim ele mesmo.

Depois do vernissage, saiu andando pela laterais do Sena, pensando na vida, nunca mais tinha tido um homem como ele.   Puta merda, caguei tudo.

No dia seguinte foi ao Printemps, para saber o que queriam, queriam que ele fosse o intermediario em criação com as fabricas chinesas.

Ele disse que isso era um absurdo, iam matar as fabricas francesas, que eram excelentes.

Sinto muito, me retiro do mercado.

Passou pela galeria, depositariam o dinheiro em Luxemburgo, aonde ele tinha uma conta.

Passou o dia andando pelas ruas sem direção, agora estava livre, riu pensando no garoto ambicioso de Caxias, que tinha chegado aonde queria, mas estava sozinho, além de tudo, triste, louco para chegar um domingo.

Tomou um avião para o Rio, ficou primeiro num hotel, foi visitar sua tia, sua mãe, a irmã tinha se casado indo viver no interior.

Sua tia lhe disse o mesmo, que as empresas agora compravam da China, poucas eram as que conseguiam seguir trabalhando.

As duas estavam aposentadas.  Perguntaram aonde ele ia viver.

Estou olhando algum apartamento para comprar, aonde todos os dias serão domingo.

Sua tia lhe pegou pelo braço, seguiste um mal conselho meu, pois veja aonde estou agora, sozinha, se não fosse a companhia de tua mãe, nem sei o que seria de mim.

Deixe os domingos de lado, viva a tua vida.

Tinha todas suas coisas no antigo apartamento que tinha seguido pagando todos os meses, o que estava vindo dos Estados Unidos, iria, para um armazém, até ele comprar uma casa.

Estava melancólico. Quando escutou tocarem a companhia, olhou pelo visor, viu um rapaz jovem, deve ter errado de apartamento.  Quando abriu a porta, atrás do rapaz estava o Joseph, sem querer abriu um sorriso imenso, fez os dois entrarem, que bom te ver, soube que compraste mais um quadro meu.

O rapaz se apresentou, sou filho dele, ele queria te ver, por isso o trouxe.

Parece contigo quando te conheci, ele agora tinha os cabelos brancos, os dele também começavam a ficar.

Que pensas em fazer da tua vida?

Joseph, pela primeira ver não sei te dizer.  Estou decepcionado com tudo, principalmente dessa minha etapa Americana, pois tudo é feito na China, cada vez que tinha que ir até lá me revoltava com a exploração do homem pelo homem.

Desisti, me convidaram de novo para Paris, mas para fazer a mesma coisa, ser um negociador em criatividade com a China.

Chega, tenho dinheiro suficiente.   Imagina nem toquei ainda no dinheiro que ganhei com vocês, tudo está aplicado num banco, agora me pergunto para que domingos, se estou sozinho.

Te perdi, o único homem que amei, agora é tarde eu sei.

Nada disso, te espero todos esses anos.   Me divorciei, ela voltou para França faz tempo, meu outro filho está lá, mas esse gosta da fábrica.   O ensinei a trabalhar como tu me ensinaste.

Agora o timão está com ele. Esta levando lambadas nas costas.

Mas antes que fales com ele, quero te dizer, que continuo te amando, te esperando.

Começaram a se beijar, ficaram abraçados como gostavam, puta merda que perda de tempo.

Desceram os dois de mãos dadas.  O filho ficou rindo.

Venham vamos comer alguma coisa, vamos conversar.

Como descobriste meu endereço?

Eu sempre soube de ti, pelo teu advogado.

Ele sabia que eu era apaixonado por ti, por isso me avisava das exposições, da última vez que fomos a Paris, fui olhar os quadros que tem no museu. Chegaste aonde querias.

Mas estou sozinho, meu amigo. Sozinho.

O rapaz no almoço, num restaurante na barra, falou que queria que o orientasse, as coisas estão indo a merda, todo mundo compra na China, o que farias.

Ainda tens as duas fabricas funcionando?

Sim, por quê?

Eu fecharia uma, vendes aquele terreno que deve valer uma fortuna, com esse dinheiro, começava a fabricar para ti mesmo, abra uma cadeia de boutiques, fabrique tudo você mesmo, em pequeno para começar, com coleções, rápidas, começou a desenhar como pensava. A muito tempo aprendi isso, lojas pequenas, preços nem caros, nem baratos, não tens intermediários.

A coleção entra, na primeira semana está na vitrine, depois passa para o meio da loja, quando chega na terceira semana está em saldos.  Assim sempre em sequência, nada de grandes quantidades.  Sempre coisas rápidas, se um cliente, não compra de imediato, não saberá se o tamanho que quer, estará na loja na terceira semana.

Comece com o shoppings em São Paulo, depois faça uma expansão para o Rio, mas coisas que possas controlar.

Tua tia ainda trabalha com vocês?

Não se casou, voltou a viver em NYC, te viu uma vez numa exposição, foi quando descobriu que tu era os Duda Vasconcelos.

Por que não vens para São Paulo?

Só vou com uma condição.

Não me diga dos malditos domingos, que eu ficava desesperado.

Não, que a gente possa viver juntos, mas numa casa que eu possa seguir pintando.

O beijou na frente do filho, esse de brincadeira, tapou a cara, dizendo papai, me respeite.

Ele sempre fala nesses malditos domingo, que não sabia que fazer, pois queria estar contigo.

Eu sei, mas era quando podia pintar, achava que isso era sagrado para mim.

Agora sei que errei.

Estavam os dois de mãos dadas em cima da mesa.

Joseph, queres te casar comigo?

Claro que sim.

Mas com uma condição, nada de separações de bens.

Caíram na gargalhada.

Os domingos passaremos sempre juntos.

Agora entendo o amor de meu pai por ti, soltou o filho do Joseph.  Nunca te esqueceu, falava de ti na frente da minha mãe, pois foi ela que acabou com o que vocês tinham.  Mas no fundo não amava meu pai, gostava de controlar como todas as mulheres judias.

Teremos que arrumar um apartamento que possa caber tudo, isso que tenho aqui, fora o que vai chegar, minhas obras de artes, que fui comprando ao longo desse largo viagem.

Logo o filho do Joseph casou, com uma moça que gostava desde que tinha chegado a São Paulo, que não era judia.

O ajudou a montar o negócio, como tinha sugerido, o ensinou a gerenciar isso, mas ele com o Joseph, viviam agora sua lua de mel.

Iam de viagem sempre que podia, passavam alguns meses do ano no apartamento que esse tinha em Paris.

Quando alguém olhava para o Joseph, era ele que tinha ciúmes.

Esse ria muito com ele, quando conheceu seu filho pequeno, que era um homem de 1,90 de altura, viu que o coitado estava perdido, uma mãe castradora.

Conversando com eles, se abriu, sou gay, mas não sei o que fazer da minha vida, o levaram com eles para São Paulo, logo estava trabalhando com o irmão.  Ia se livrando aos poucos dos anos complicados de sua vida.

Mas os dois estavam ali para ajudar. Vinham de outra época que isso não era tão as claras.

BORIS

                                              

Boris era o nome que o velho Nicolau tinha dado para ele, pois quando nasceu era loiro de olhos azuis, muito branco.  Tinha nascido no ferro-velho do velho, perto da estrada de Seropédica, perto da estrada de Rio a São Paulo.

Sua mãe, era conhecida como à Loira, uma garota de idade indefinida, podia ter entre 16 e 18 anos, apareceu um dia por ali, ninguém sabe saída de onde, dormia nos carros abandonados do ferro velho.    A velha Maria foi quem a descobriu, para ganhar dinheiro, uns trocados, se prostituia num posto de gasolina que paravam caminhões para um café.

Foi ficando, o velho lhe gostava que fizesse uma mamada, a velha deixava pois assim não tinha trabalho, podia cuidar da contabilidade.  Quando alguém comentava, dizia, eu prefiro olhar papeis que olhar esse piru velho, murcho que já não serve para nada.

A velha a deixava tomar banho no banheiro que tinham ali, de vez em quando fazia uma ronda por lugares, aonde sabiam que davam roupas velhas, as que encontrava, que pareciam roupas de puta, levava para a garota.

Um dia chegou vomitando muito, passou dias mal, vomitando sem parar, a velha com seu olho clínico disse que estava gravida, te disse para pedir que usem camisinha, mas não me escutas. Até que a garota não ficou com uma barriga imensa, não parou de passar a noite na estrada, atendendo os homens a troco de alguns trocados, nem sabia seu nome.  A velha achava que tinha escapado de algum orfanato, de Campo Grande, ou de Santa Cruz.   Mas eles não se metiam em problemas, porque de noite o velho que tinha insônia vendia drogas aos que apareciam por ali, isso seria chamar a atenção da polícia, não interessava.

Vivam do justo, comida a menor quantidade, quando serviam os pratos, o mais cheio era do velho Nicolau, ela lhe dizia assim,” filho da puta, tá aqui teu prato”.  Nem sabia quantos anos estava junto com ele.

Tinha chegado como a Loira, só que ela sabia contas, ler, escrever, foi ficando, na época, por uma foto dos dois se viam que eram duas pessoas interessantes.

Quando a Loira pariu, dentro de um carro, ela correu para ajudar, pois tinha manha, quando chegou perto a mesma já tinha parido, riu dizendo não custou nada.   Saiu um bebê, pequeno, com muito cabelos, loiro, cacheados, rindo, não chorava.

A velha se encantou, dizia que ele parecia um bibelô, desses de anjo barrocos, se ela tivesse peito o daria para ele, a Loira não tinha leite, mas a velha cuidou dele.

O velho Nicolau reclamou que era mais um para comer. 

Ela soltou, para de reclamar, se não comesse tanto, não terias essa barriga imensa de não fazer porra nenhuma.

Na verdade, ali viviam os dois, a Loira, o rapaz que manuseava a Máquina imensa que comprimia os carros, para fazer um cubo, para venderem para as indústrias, atrás do armazém, tinham uma quantidade imensa, de vez em quando aparecia um caminhão que levava tudo.

O rapaz, não vivia lá, vivia num barraco, depois do posto de gasolina com sua família, tava sempre reclamando que ganhava pouco.

O velho Nicolau era um muquirana de fazer gosto, quando o que lhe subministrava as drogas, já tinha retirado sua parte, que escondia ninguém sabia aonde.

A velha cuidava dele, tinha conseguido um carrinho desses de bebê, aonde ia buscar roupas, não disse para quem era.    A loira mal se recuperou, voltou para seu trabalho.

Um dia meses depois desapareceu, um dia a polícia apareceu por lá, perguntando se morava ali, disseram que não, por quê?

Porque algum tarado a matou, deve ter usado e abusado dela, a deixou jogada na beira da estrada, quando a encontraram, já tinha dois urubus comendo a coitada.

Nenhum dos dois fez nenhum comentário.

Mal começou a andar, já estava trabalhando, trás isso para cá, leva isso para lá, com dez anos, já tinha um corpo forte, não sabia nem ler, nem escrever.  Tinha uns cabelos imensos loiros, cacheados, um corpo forte, mas era a inocência personificada.   O velho o ensinou a usar a máquina, para mandar o empregado embora.

Mas ele continuava sendo protegido pela velha, por duas vezes apareceram clientes, quando viam aquele garoto com o corpo todo modelado como se fosse a uma academia, perguntavam ao velho, quanto queria por ele, mas ele estava esperando o mesmo crescer mais um pouco, para usar ele primeiro.

A velha Maria, percebia tudo, um dia viu que o velho, passava a mão pelo corpo do garoto, apertava sua bunda, cada vez que ele passava.  Fazia uma cara de velho safado.

Quando reclamou com ele, soltou que ela estava velha, com tudo caído, que nem uma punheta sabia bater direito.  Começara os dois a discutir, ali perto aonde se colocava os carros para compactar.   Ele ficou furioso, lhe deu um empurrão, ela caiu em cima do carro, um dos vidros já estava partido, lhe atravessou o corpo.  Deve ter morrido, em seguida.

O velho com dificuldade, subiu até a parte de cima da máquina, a prensou junto com o mesmo, ele viu tudo, ficou horrorizado, seu único pensamento foi, já não tenho quem cuide de mim.

Para escapar do velho, pois sabia que não o podia pegar, subia para dormir nas pilhas de carros que estavam por ali, mas nunca no mesmo.  O velho nunca o achava.  Para comer, ia de noite atrás do posto de gasolina, comia resto de comida, do restaurante, tudo lhe parecia uma maravilha, em comparação com a comida que a velha fazia.

Pela primeira vez comeu carne, apesar que já estava mastigada, ele gostou, comia com a mão, arrumava um saco de plástico, se escondia, comia o que podia, até o estomago estufar.

Mas durante o dia, trabalhava, andava com um pé de cabra, agora sabia o que o velho queria, quando ele aparecia, o ameaçava, faço meu trabalho, mas não se aproxime.

Com o tempo passou a dormir lá em cima, pois sabia que o velho já não conseguia subir as escadas, tinha tentado várias vezes, mas estava gordo demais, além de velho.

Um dia tinha acabado de colocar um carro na prensa quando o velho o chamou, dizia que tinha caído que o necessitava para se levantar.

Quando chegou perto, o mesmo o agarrou, abaixou suas calças, a primeira coisa que fez, foi enfiar seus dedos gordos no seu cu.  Gritou de dor.

Mas o velho só queria passar a mão pelo seu corpo, na verdade o pau, já não funcionava, andava usando as drogas que vendia para ver se acontecia alguma coisa, mas só piorava.

Ele conseguiu escapar, queria ir embora dali, mas não sabia para aonde.

Um dia estava no alto da máquina, viu que o velho negociava, com um homem, ria alto dizendo, que este conseguia pega-lo podia levar.

Ele escapou, só voltando de noite, sabia que o velho ia vende-lo, a velha Maria tinha lhe explicado que o que iria acontecer se isso passasse.

Viu que o velho nesse dia não tinha droga para vender, o chamou para fora.

Nicolau, saiu agressivo, me fizeste perder um bom dinheiro, ia me aposentar em seguida com isso.   Estava justamente com a caixa de metal que guardava dinheiro, saiu atrás dele, mas se escondeu. Quando ele estava justo ao lado do poço aonde se colocava os carros para prensar, saiu correndo lhe deu com o pé de cabra na cabeça umas quantas vezes, fez o que o velho tinha feito com a velha Maria.

O jogou em cima do carro, o prensou com o mesmo, com o imã, recolheu o cubo, o levou justo aonde estava o da velha, mas levou cada um para junto dos outros, assim quando viessem buscar, levariam os dois para muito longe.

Um negro alto, que sempre aparecia nos seus sonhos, lhe disse, pegue o dinheiro, coloque num saco com tua roupa, pé na tábua.

Saiu andando pela estrada depois disso, não sabia ler as placas, sabia que tinha dois sentidos, cada um ia para uma das cidades ali perto.

Passou um carro, ele fez sinal, o carro parou, o homem que estava dentro lhe perguntou para aonde ia, ele só fez sinal que ia para a cidade mais perto.

Mal o homem olhou para ele, pensou, que puta preciosidade, passou a mão pela sua perna, apertou seus peitos, o negro que estava sentado atrás, quando viu a proximidade de umas mata, lhe disse solte o cinto de segurança, abra a porta, aperte contra ti o saco, se jogue fora.

O homem, foi olhar porque o mesmo olhava para trás, levou um puta susto, ali estava um negro imenso, que abriu a boca, com uns dentes que não paravam de crescer, com isso diminuiu a velocidade, ele abriu a porta se jogou. Mas teve azar, ao cair bateu a cabeça numa pedra, ficou ali atontado.

O homem estava cada vez mais assustado, pois o negro estava falando dentro da sua cabeça, arrancou o carro com tudo.

Ainda viu o negro gritando coisas que ele não entendia, mas cada vez que olhava o espelho retrovisor, o negro estava ali, as gargalhadas.

Uns quilômetros mais a frente, estava tão nervoso que não viu um caminhão imenso desses que nunca param, pois pensam que são os donos da estrada, jogou seu carro do outro lado da via, no sentido contrário, vinha outro, que acabou de fuder tudo.  Não sobrou nada para contar história.

Ele estava tonto, o negro disse, Boris, agora tens que ser forte, o ajudou a caminhar, mas estava perdendo muito sangue pela cabeça. Foi seguindo com o negro, um caminho de terra batida, que ia subindo, estava tonto, vomitou uma duas vezes, mas água pura, não tinha nada no estomago para vomitar.

Se sentou ali, colocou o saco no meio das pernas, apoiou a cabeça no joelho, dormiu, tinha sido muito para ele.   O negro ficou ali de guarda.

Uns quantos quilômetros mais abaixo Nestor de Oliveira, um delegado boa gente, como não era desonesto, foi sendo transferido de delegacia em delegacia, ou melhor sendo degradado, estava agora num posto policial ali na estrada, não acontecia muita coisa por ali, a não ser algum acidente, como o do carro que tinha ficado embaixo de um caminhão, o outro tinha seguido seu caminho, não ia perder tempo.

O motorista, disse que um caminhão tinha atirado o carro do outro lado, mas que não tinha visto se era de uma empresa, tinha ficado nervoso, pois era um desses caminhões com ar refrigerado, ia levando carne para um supermercado do Rio de Janeiro.   Nesse momento chamava a empresa que mandasse outro, para pegar o reboque, senão a carne ia se estragar.

Se fosse de dia, ia aparecer gente para abrir o caminhão, roubar o que estava dentro.

Viu que não tinha nada que fazer, ficaram vários policiais ali.

Teve uma sensação rara, pensou comigo, vou conversar um pouco com meu velho pai de santo, ele frequentava um terreiro de candomblé, de um senhor entrado nos anos, que vivia numa estrada estreita, tinha o terreiro mais em cima.

Quando conheceu Pai Ambrósio, ou Pai Brosio, como lhe chamava o pessoal, esse contou por que tinha o terreiro ali.  Disse que antes tinha um em Santa Cruz, mas estava farto de dar consultas daqueles que vinham para pedir uma matança contra alguém, ou queria saber o número da loteria, ou então segurar um marido que estava com alguma serigaita, estava farto disso, assim os filhos que realmente queriam fazer alguma coisa, ou se realmente a pessoa tinha algum problema, para vir de longe, conseguir subir até aonde estava o terreiro, tudo bem.

Ficaram amigos, tinha longos bate papos. 

Tinha feito muitas obrigações ali, o Pai Brosio, lhe perguntava por que seguia na polícia, se estava farto disso.

Tenho que pagar a pensão do meu filho, o ano que vem termina a faculdade, estarei livre.

Mas se teu filho, sequer fala contigo, cada vez que tentas se aproximar dele, te chama de filho da puta, essas coisas todas.

Porque sua mãe o tenha colocado contra mim, não significa que vou sacanear a vida dele, um dia quem sabe, ele entenderá tudo.

Nem sabia por que viviam juntos, se sentia sozinho na época, trabalhava numa delegacia no posto 11 em Copacabana, a conheceu ali, trabalhando de garçonete numa lanchonete, começara a se falar.  Nos dias de folga ele ia busca-la para ir a um cinema, ou bater um papo em algum bar.   Um dia acabaram na cama, mas não gostou muito, ela era agressiva, ele queria outra coisa.  Ainda soltou para ele, caramba, você é difícil, para dar uma foda precisava de tudo isso, dois meses depois disse que estava gravida.  Ele a ajudou com tudo, mas não queria se casar, pois a achava agressiva.  Mas registrou o garoto com seu nome, Nestor Oliveira.  Pagava mensalmente uma pensão que um juiz lhe disse para o garoto, mas fazia questão dele mesmo pagar um colégio para o mesmo, porque sabia que ela ia se encostar na história, fez isso duas vezes, mas ele descobriu.  Então seu filho, passou a comer na escola, ele mesmo ia com o garoto comprar roupas, essas coisas, mas ela sempre falava mal dele para todo mundo.

Filho da puta era o de menos, começava por esse palavrão, ia desfiando muitos, como um rosário, até que arrumou um trouxa que casou com ela.  Ele queria adotar o garoto, mas ele nunca concordou.   Um dia ela soltou na cara dele, que nem sabia se ele era realmente seu filho.

Um dia fez um teste de ADN, comprovou que o garoto era filho dele.

Pediu a guarda mil vezes, mas não conseguia por causa do seu trabalho.

Agora ele estava na universidade, mas cada vez que o pai chamava, nem dizia bom dia ou boa noite, simplesmente perguntava o que ele queria.

Nestor nesse ponto era franco, só saber como andam as coisas contigo, como estás.

Normalmente levava pela cara um, a ti que importa.

Ia pensando nisso tudo, quando entrou na estrada que levava ao terreiro do Pai Brosio, viu um negro fazendo sinal para parar.  Parou perto dele, quando viu um rapaz, agarrado a uma bolsa, com sangue saindo da cabeça.

Nestor, esse será teu filho de verdade, o leve para Pai Brosio, que ele saberá que fazer, o que o assustava, era que estava falando na sua cabeça.  Pegou o rapaz, o colocou na parte traseira do carro, seguiu subindo, o negro tinha desaparecido.

Quando chegou no terreiro, deu as buzinadas, como fazia sempre, para dizer que era ele, pois o Pai Brosio de vez em quando tinha a visita de algum drogado que errava o caminho.  Foi assim que tinham se conhecido, um drogado que chegou quase morto lá em cima, o Pai Brosio chamou a delegacia, ensinou como ir até lá.

Quando ele abriu a porta, pediu ajuda.

Retiraram Boris do carro, o levaram para a parte que Pai Brosio vivia, o encontrei na estrada subindo para cá, um negro, semi nu, me fez parar.

Nestor meu filho, nunca vais aprender, um Exu, esse garoto, tem um Exu fortíssimo, estou sentindo, o deitaram numa cama, que ele sempre tinha a mais, limparam a ferida, pai Brosio tinha sido enfermeiro, costurou sua cabeça da pancada, os dois o limparam puseram as calças de um pijama velho, o deitaram mas ele não soltava o saco.  O cobriram.

Mas o que vieste fazer aqui, nisso Pai Brosio, começou a falar em yoruba com o exu do garoto, eu trouxe meu menino para cá, pois ele precisa de proteção, hoje o quiseram vender para um pédofilo, ele escapou, mas ia caindo nas garras de outro.  Diga ao Nestor, que o outro do carro era um pédofilo, que tirem impressões digitais do que sobrou, verá que era procurado.

O garoto saltou do carro, bateu a cabeça, o ajudei a subir o caminho para tua casa, pois sei que vais o ajudar.

Sim meu pai, vou ajudar, mas me conte, de uma maneira muito sutil, o Exu, colocou na sua cabeça tudo que podia.  

Nestor só o viu balançando a cabeça, dizendo sim várias vezes, pode deixar eu cuido.

Estava aqui falando com o Exu do garoto, me contou por tudo que ele vinha passando.

Estavam os dois sentados um de cada lado da cama, Pai Brosio, soltou, parece um santo assim dormindo.   Mas já sofreu muito.

Ficou ali rezando, viu que Nestor, dormia ali sentado, colocou uma manta nas suas pernas, sempre era assim, vinha conversar com ele, acabava dormindo ali sentado.

Havia uma ligação forte dele de outras vidas com o garoto.

Sabia que o Exu dos dois era o mesmo, apenas Nestor não tinha a capacidade de ver os Orixás.

Ele dormia, pouco, quando eles tinham chegado, estava terminando de colocar água nas quartinhas dos santos, sempre tinha algum de seus filhos de santo que esqueciam.  Mas ele sempre verificava, não gostava que os Orixás ficassem desatendidos.

Dormia pouco essa era a verdade, deu uma duas cabeçadas, quando o garoto começou a se mover, abriu os olhos, ele colocou a mão nos seus ombros, disse, descanse, estás entre amigos, viu que o Exu estava do outro lado, que o garoto podia vê-lo, pois olhou para ele, para ver se concordava.

Ele voltou a dormir agarrado a bolsa, o cobriu outra vez, nunca tinha sido pai, mas sentia por esse menino, este instinto.

Coitado, essa primeira fase de sua vida, foi dura, mas sei que ajudado, o que vem pela frente será duro, mas terá em quem se apoiar.

Nestor despertou com o cheiro de café, Brosio disse que o menino, estava no banheiro, tinha ido cagar no mato, pois devia fazer isso sempre.

Mas quando voltou, se via que bolsa estava menor.

Tinha se lavado a cara, era de uma beleza impressionante.  Nestor ainda pensou, esse vai arrasar muitos corações.

Ele olhou para o Nestor, disse, vou não senhor, isso não se faz, arrasar corações.

Nestor levou um susto.   Mas viu que o garoto estava com os olhos fechados, quem falava pela sua boca era outro.

Meu pai, deixa o garoto tomar um café como deve, depois teremos tempo de com jeito ir arrumando a situação.

Caramba, sabe quem era esse?

Menor ideia soltou o Nestor, que tinha ficado assustado.

Oxumaré, quando despertei, andei jogando para ver quem eram seus protetores, pois passou muita merda, mas se não fosse os Orixás teria sido pior.

Ele tem uma conjunção forte, de cabeça tem Oxumaré, bem como seu protetor Exu Akesan, do outro lado tem Nanã, Orumila, pois será um grande do Ifá, segurando o final Xangó, com Exu Bara, para fechar.

Ele já está quase pronto, verdade meu pai Oxumaré?

Sim, mas precisa de outras coisas antes, vem comendo lixo, pode ter lombrigas, outras merdas, o coitado vem se defendendo de tudo, de todos.

Virou-se para Nestor, vou te contar na tua cabeça tudo, porque sei que não farás nada que possa complicar mais a vida dele.

Mostrou na cabeça do Nestor de aonde tinha vindo, viu o velho vendendo drogas, usando também, o ferro velho, os dois cubos, um com a mulher dentro, outra com o velho dentro.  Ela o defendia, por isso o homem a matou, para poder vender o menino para algum pédofilo, quando tentou o garoto entendeu que tinha que escapar, por isso se defendeu.

A cara do Nestor, era impressionante, quando tiver alguma coisa meu pai, pode falar na minha cabeça, prometo não me assustar.

A cabeça do Boris, foi abaixando, até encostar na mesa, deu um suspiro, viu na frente dele, pão, o café, tomou com ânsia, espere disse o Nestor, sabia que atrás tinha um galinheiro, foi até lá trouxe ovos, fez para eles todos tomarem com pão.

A fome do Boris era imensa, comia com ganas.  Pai Brosio, colocou a mão no seu braço, disse, tranquilamente, meu filho, podes ficar tranquilo, coma devagar, senão vais passar mal.

Quando acabou de comer, ele se enroscou na mesa, começando a dormir outra vez, entre os dois o levaram para cama, ele sorria.

O deixaram dormindo.

Nestor colocou a bolsa nos pés da cama, seu instinto dizia que não devia abrir.

Avisou a delegacia, que hoje não ia trabalhar, que iria ao médico.

Pai o senhor podia me preparar um banho daqueles que gosto tanto, com as ervas da floresta, assim posso ir cuidar dos meus santos.

Claro meu filho, tome um banho primeiro, depois te levo o banho que vou preparar.

Quando Boris, despertou, saiu da casa, viu que os dois estavam prostado em frente a uma árvore imensa, cheia de gente olhando.  Os da árvore falavam com ele, seja bem-vindo Boris, riu como sabiam seu nome.

Estavam ali colocando algumas coisas, ele sem querer soltou, estão dizendo que depois isso fica cheio de moscas, que não gostam disso, que deveriam simplesmente colocar quartinhas com água, nada mais. Assim alimentam a árvore também.

Quem disse isso, falou Pai Brosio se levantando?

Essa gente toda que está aí, diz que seus filhos depois não retiram o que colocam, que o senhor não tem mais idade, para ficar fazendo o serviço dos preguiçosos, que coloquem só uma quartinha pequena, mas que rezem realmente, pois algum colocam isso, ficam pensando no que pedir.

Ele se matava de rir, eu também penso assim.

O homem negro, está dizendo que ao mesmo tempo é meu protetor, como do Nestor, que menos mal que tenho outro exu, para me cuidar.

Como sabes de tudo isso?

Bom pelas noites, como o velho queria ficar passando a mão em mim, me escapulia, ia dormir no alto de alguma pilha de carro, ele, apontou para o Exu que estava ali, ficava conversando comigo.    Me protegia, pois vinha muita gente comprar drogas, não queria que me vissem, pois poderiam querer abusar de mim.   Bastou a vez que o velho, conseguiu me enganar, dizendo que estava passando mal, me agarrou, enfiou aquele dedo enorme, sujo de graxa no meu cu.

Filho da puta, menos mal que a velha Maria, foi me avisando disso, me dizia que eu era bonito, por isso a gente ia querer se aproveitar de mim, mas que eu nunca permitisse.  Quando ele quis me vender da primeira vez, brigou com ele, ele a atirou na prensa de carros, a deixando presa no cubo, repetiu, filho da puta.   Eu vi tudo, mas ele me dizia fica em silencio, assim não te descobre.   Mas eu fiz o mesmo com ele.

Nestor nesse momento pensava, não posso mandar prender esse garoto, pois ele seria pasto de todos os homens aonde fosse.

Ele nesse momento fez uma coisa, foi até a parte da mata, trouxe folhas grandes, fez como uma vassoura, começou a retirar as comidas que estava ali, cheias de moscas, ia limpando a parte de aonde tirava, levava tudo para um cubo de lixo grande que estava encostado na casa. Depois levava o alguidar para um tanque desse antigos de lavar roupa, ia lavando cada um, colocando de boca para baixo.  Quando acabou, foi outra vez, buscar mais folhas, foi limpando toda a sujeira que estava ali em volta da árvore.

Sorriu quando acabou, assim eles não vão mais reclamar, verdade pai Ambrósio?

Como sabes meu nome?

Ele me disse.

Olhou para o Iroco, lá estava seu pai de cabeça, rindo, com os braços cruzados, precisas de mais de filhos de santo como esse garoto.

Converse agora com o Nestor, como ele pode fazer.

Nisso o celular do Nestor começou a tocar, ele atendeu, na delegacia tinha recebido uma chamada anônima, que o caminhão que ia buscar os cubos tinha encontrado, um com uma pessoa em decomposição, no outro o velho.   Vou para lá, não se preocupem.

O Pai Ambrósio, disse, o exu vai te acompanhar, preste atenção no que ele vai fazer, borre a presença do garoto de lá.  Assim não haverá problemas, diga que como ele vendia drogas, que deve ter sido um ajuste de contas.

Na verdade o homem do caminhão nunca tinha visto ninguém por lá a não ser a velha, quando ele era pequeno, era outro que vinha.    Do posto de gasolina, diziam que muitos carros durante a noite faziam manobra ali, para irem ao ferro velho comprar drogas, era gente de Campo Grande, Santa Cruz, Seropédica, dessa região toda.

Antes tinha a Loira que dormia lá, mas a mataram, mas isso vocês já sabem.

Entendeu que a Loira era a mãe do Boris.

Voltou só de noite, Boris, estava todo vestido de branco, pai Ambrósio tinha arrumando alguma roupa que algum filho de santo tinha deixado para trás para ele.

Achou estranho, pois estava ensinando o alfabeto para ele.  Fez um sinal, para ficar quieto, espere vamos preparar algo para comer.

No almoço depois ao lado do Nestor, tive que o controlar outra vez, pois tem uma fome impressionante.  Disse que depois que a velha morreu, ele ia buscar comida na lixeira do posto de gasolina, que nunca tinha comido carne, que algumas estavam mastigadas, mas que ele não se importava, pois estavam bem.    O posto de gasolina tinha um pequeno restaurante, mas disse que ninguém o via, pois ia bem tarde, algumas coisas guardava para comer de manhã, que o exu ficava vigiando para ele fazer isso.

Nestor de imaginar estava chorando.

Ele não sabe ler, nem escrever, nunca lhe ensinaram, sabe sim os números porque a velha lhe ensinou.   Mas tem uma facilidade para aprender incrível.

Veja, olharam para a mesa, ele estava escrevendo várias vezes o alfabeto, segurando com dificuldade um lápis que estava por ali.

Nestor perguntou a ele, se sabia quem era a Loira?

Não me lembro dela, mas a velha sempre falava nela, que era minha mãe, que a tinham matado, o velho dizia que era uma puta.  Por isso não sabiam quem era meu pai.

Não sei se isso tem importância, a velha dizia que isso não importava, pois se fosse outra tinha me colocado fora do seu corpo rapidamente.

Na sua maneira de entender, isso não importava.

Como vamos fazer Nestor?

Estavam os dois sentados na varanda atrás da casa que dava para a floresta.

Nada, ficar quietos, vou conseguir documentos para ele, lhe darei o meu sobrenome, assim quando o pessoal aparecer, dizemos que é meu filho.  Ninguém sabe da minha vida mesmo.

Olha o que ele está fazendo, nunca está parado, estava com uma vassoura de piaçava varrendo todo o terreiro.

O chamaram, lhe perguntaram se tinha documento de identidade?

O que é isso?

Nestor mostrou o seu, vê aqui tem meu nome, o Oliveira é meu sobrenome.

Tenho nada disso não, é importante?

Sim meu filho, falava aqui com Pai Ambrósio, que vou fazer para ti, serás como meu filho, ficarás com meu sobrenome.

Ele ficou olhando para o Nestor, depois levantou os olhos, ele estava falando com Exu, ele disse que posso confiar no senhor, que será como o pai que nunca tive.

Isso meu filho.

Ele estava chorando, Nestor foi até ele o abraço, nada disso, sei que não vais me decepcionar.

Dias depois apareceu com os documentos.

Agora quando a todo mundo que aparecer aqui, dirás que é meu filho ok.

Sim senhor.

Dois sábados depois, os filhos de santo subiram deram com aquele garoto loiro, ficaram impressionados, quando perguntavam quem era, ele respondia que era filho do Nestor.

Ninguém se atrevia a menor brincadeira pois sabiam que Nestor era delegado ali na região.

O que estranharam foi de ver o terreiro super limpo, nenhuma oferenda embaixo do Iroco.

Alias ali estava super limpo.

Um dos filhos de santo disse ao Pai Ambrósio que queria fazer uma oferenda ao seu santo, queria fazer uma comida.

Ele aproveitou para dizer que os Orixás tinha reclamado que se colocava as oferendas, mas que depois ninguém tirava, que ficavam cheio de porcarias em volta da árvore, agora tocava, a quem colocasse, voltar três dias depois para retirar, ou simplesmente colocar ali uma quartinha com água, rezando pelo seu santo, mas uma coisa importante, nada de ficar pedindo besteira, tipo, me arruma uma namorada, ou quero ganhar na loteria.

Sabem que não suporto isso. Por isso vim para longe.

Já conhecem o Boris, filho do Nestor, ele ficará um tempo aqui comigo, estamos preparando seu bori, ele ficaram um tempo como uma espécie de Yao, para me ajudar, mas quando acabem as férias terá que ir à escola.

Em um mês ele já conseguia ler os jornais, Pai Ambrósio, tinha arrumado num dos quartos vazios da casa um quarto para ele, Nestor tinha comprado cama, roupa de cama, roupas normais, um tênis para ele.

Quando viu tudo isso, deu um sorriso imenso, nunca tive nada disso, abraçou o Nestor, obrigado pai.

A parte Nestor contou que tudo no ferro velho tinha dado uma rebordosa desgraçada, pois o velho era procurado a muito tempo pela polícia, bem como sua companheira, faziam muitos trapicheiros, além de vender drogas pelas noites, já conseguiram descobrir para quem ele vendia.

Nestor perguntou se ele queria ir viver na sua casa, assim poderia ir à escola.

Mas já estou aprendendo tudo com Pai Ambrósio, aqui eu estou bem, mas o senhor como meu pai, deve saber o que é melhor para mim.

Vou arrumar uma professora, para te ensinar, tem uma que me deve uma série de favores.

Ah aquela que o marido tentou matar?

Essa, mas nunca deve dizer as pessoas os que vês, pergunte para Pai Ambrósio, podes assustar as pessoas, pergunte ao Akesan, ele te dirá quando falar alguma coisa, não soltes por aí, tudo o que vejas ok.

O que o senhor mandar.

Vou arrumar um quarto na minha casa para ti, depois sempre dirás que é meu filho.  Viremos aqui sempre que querias.

Fico com pena do Pai Ambrósio ficar sozinho.

Eu também vou sentir tua falta, mas poderás vir sempre que queira.

Temos que encontrar uma maneira meu filho de tirar esse velho de vez em quando daqui.

No domingo como estou livre, vamos todos comer em Barra de Guaratiba, mas primeiro vamos a praia. O que achas.

Sempre tudo estava bem para ele.

A professora falou com Nestor, esse menino é uma esponja, já consegui situa-lo como que num curso mais adiantado, é bom em matemática, gosta de ler, aliás tem ânsia disso, lhe dei dois livros para ler, depois veio conversar comigo a respeito, lhe dei um romance, disse que não gostou muito, pois não representa a vida real.

Gosta mais dos que falam de coisas sérias.   Acho que para daqui alguém tempo podemos apresentar para ver se o colocamos na escola.

Ele confessou tempos depois que já tinha lido todos os livros da casa do Nestor, como podia conseguir mais.    Fez um cartão para ele, na biblioteca, assim podia levar para casa.  Mas lhe disse, não escreva no livro ok.   Lhe comprou uma cadernetas, escreva aqui as perguntas que me queira fazer.

Dois anos depois, ele se aborrecia na escola, pois diziam que os outros estava sempre de brincadeira, que não aprendiam nada.  Ninguém se atrevia provocar briga com ele, pois ele tinha um corpo forte, além de que agora estava realmente crescendo.  O levava ao médico regularmente, tinha tomado um remédio para vermes que lhe preparou Pai Ambrósio, que agora descia mais vezes, para irem à praia, ou comer num restaurante.

Lhe ensinou como entrar no mar, lhe falava dos orixás do mar, ele escutava com respeito.

Um dia seu filho ligou, ele não estava em casa, quando perguntou quem era que atendia, ele disse que Boris, filho do Nestor, mas falou isso, porque sabia o que ia acontecer.

No dia seguinte o filho apareceu, furioso, ele tinha outro filho, como era isso.

Nestor lhe explicou que o tinha adotado, seu filho olhava desconfiado.

Mas ao conversar com Boris, ficava observando tudo, mas esse falava com calma com ele, que Nestor era uma pessoa fantástica, perguntou gostas de ler.

Ficaram conversando sobre livros, quando viu já era tarde, Nestor estava feliz, pois seu filho nunca ficava mais que uma hora com ele, tinha passado o tempo todo ali, Boris o incluía na conversa sobre livros.

Amanhã vamos a praia, com o Pai Ambrósio, vens conosco.

Nas não trouxe roupa de praia.

Eu te empresto meu filho, soltou o Nestor, estava feliz do filho estar ali.

Depois saíram para jantar numa pizzaria, deixou os dois discutirem o que queriam comer, voltaram a falar de livros, do curso que ele tinha acabado de fazer na faculdade.

O pior Boris, agora é descobrir que escolhi uma merda, só posso ser funcionário público, não serve para muita coisa, meu pai me disse para não fazer, mas para contrariar o fiz, agora tô fudido.

Sempre se pode dar uma volta nisso tudo, verdade Nestor.

Ficaram conversando o que realmente gostava o Antônio, esse se soltou, venho fazendo cursos de desenho de informática, adoro isso, minha mãe, fica me enchendo o saco, aonde quero chegar com isso, porque ela acha que devo fazer algum concurso para ser funcionário público.

Seu marido é, está louco para se aposentar, porque não aguenta mais, diz que eu não faça essa besteira, ela odeia ser contrariada, o manda calar a boca, que o filho não é dele.

Mas para fazer o que quero, teria que sair de casa.    Ir para aonde, não tenho dinheiro, devia ter guardado uma parte do que meu pai me dava, ela me botou na cabeça que devia gastar tudo, para ele aprender.

Hoje penso, aprender o que, se ele sempre fez de boa vontade, num movimento, colocou a sua mão sobre a do Nestor, obrigado pai.

Sei que aonde vivo é longe, mas podes vir ficar aqui se quiser, temos mais um quarto, podes montar teus computadores lá, assim ensina ao Boris.

Ficaram rindo.

Dois meses depois ele já estava instalado lá, inclusive ia ao terreiro, pois tinha sido bem recebido pelo Pai Ambrósio.

Um dia ele estava chateado por alguma coisa, Boris, tinha aprendido com o Exu a ler as mãos das pessoas, além de ler o Ifá.

Estas chateado, porque a pessoas que esperavas que te chamasse, quando soube que vinhas viver com teu pai, passou a te ignorar?

Esse rapaz pode ser bom na cama contigo, mas gosta de boa vida, não trabalha, vive a custas dos pais, crês que poderás construir alguma coisa com ele, que futuro espera de tua vida.

Foi falando uma porção de coisas que ele nunca tinha verbalizado com ninguém.

Como sabes tudo isso?

Não sei nada, quem está falando contigo não sou eu, é o Akesan, meu exu.

Foste criado, só olhando para teu umbigo, desprezando teu pai, agora o vês como ele é, veja te aceitou feliz da vida, não te cobra nada, agora chegou a hora de o incentivares a se aposentar.

É verdade, ele nunca reclamou de me depositar dinheiro, quando fiz quinze anos, porque sabia que minha mãe usava o dinheiro que ele me dava, conseguiu com um juiz, que ele pudesse dar diretamente a mim, nunca deixou de depositar religiosamente o valor que o Juiz disse.

Tenho que encontrar uma maneira de trabalhar rápido, para ser mais independente.

Boris, lhe indicou um senhor que estava ali, acompanhando sua mulher que era filha de Santo do pai Ambrósio, ele precisa de alguém de informática para seu escritório, vais tirar de letra, ainda poderás usar tudo que sabes.

Nestor apresentou seu outro filho ao senhor, dizendo ele é muito bom em informática. 

O homem disse que precisava de alguém no escritório, tenho uma fábrica aqui, agora tudo é desenhado, preciso de alguém eu possa montar isso, queres vir a uma entrevista, para conversarmos?

Antonio ria feliz, puxa Boris, obrigada, eu nem mereço isso, depois que tratei tão mal meu pai.

Tens razão, quanto a esse namorado, ele que vá a merda, vou mais é cuidar da minha vida.

Tempos depois, este senhor apareceu com a mulher no terreiro, ela estava muito mal, a levei aos médicos, não sabem o que tem.

Pai Ambrósio a colocou numa cama. Daqui vais a casa do Nestor, pede para o Boris vir contigo, preciso da ajuda dele.

O homem foi numa velocidade espantosa, sua esposa era sua companheira desde jovem, gostava de aventuras, mas com ela vivia bem.

Quando Boris, sentou-se no carro, alguns quilômetros depois disse para ele parar, pois precisavam conversar.

Sabe essa aventura que tens com tua secretária, a coisa começa por aí, ela é amante do teu chefe de oficina, os dois tramam ficar com tudo que é teu.  Pediu que você se divorciasse de tua mulher, ele só balançava a cabeça, como não o fizeste, resolveu buscar outra saída, o negocio era tirar tua mulher da frente casar contigo, depois te liquidar, ficar com tudo que é teu.

Filha da puta.

Isso que dá um velho não ter o piru dentro das calças, agora vamos resolver isso, quem faz essas coisas não tem ideia de que tudo volta para ele.

Chegou lá em cima, estava desesperado em perder sua companheira de toda a vida.

Boris, cobriu uma mesa grande que tinha na cozinha, com um lençol branco, a deitaram ali, ele colocou a mão sobre sua cabeça, ela dormiu. Os dois impuseram suas mãos em cima do estomago dela, ele disse para o homem, segurar um saco de lixo, perto da boca da senhora, começou a sair uma gosma negra, quando terminou, o cheiro era horrível, ele deu um nó, esse coloque na mesa de tua secretária.  Voltou-se para a senhor, lhe estendeu outro saco de lixo, ela começou a soltar uma gosma cinzenta pela vagina.  Ele fez a mesma coisa, esse entregue ao seu ajudante, na hora que o despedir.

Despertou a senhora, ficou sentada, tonta, pai Ambrósio, preparou um banho para ela, viu que ela chorava mansinho, abraçada ao Boris.   Depois do banho, a mandou cuidar de suas quartinhas, que estavam negras de queimadas, Boris a foi ajudar, conversou muito com ela.

Depois que ficaram sozinho, disse ao Pai Ambrósio, quem fez isso tudo, foi um filho de santo do senhor, que quando vieste para cá, montou uma casa de santo, mas só faz merdas.

Disse o nome do sujeito.  Espera, tenho seu celular, o chamou, pediu se podia subir.

Este chegou, achou estranho o Iroco estar vazio.

Disse ao Ambrósio, subi com uma sensação estranha, como se tivesse mais alguém no carro.

Boris, lhe disse, teu exu, está furioso contigo, foi ele que subiu no carro contigo.

Vou te mostrar a merda que fizeste. Colocou a mão na sua cabeça, ele via a cena toda de todas as merdas que tinha feito.

Mas foi o Ifá que me mandou fazer.

Mentira, pois nem sabes entender o Ifá, viu que ele tinha amarado na cintura de qualquer maneira suas coisas de jogo.

Lhe disse para jogar, as pedras caiam todas juntas, grudadas umas a outras. 

Se negam a dizer alguma coisa para ti, pois não entende de nada, eres uma vergonha.

Pai Ambrósio, falou com ele, te disse que era imaturo, abrires uma casa de santo, ainda não estavas pronto.

O que o senhor não queria era que eu ganhasse dinheiro.

Sim fazes tudo por dinheiro, mas o melhor seria que virasse um bispo destes da Igreja do Reino de Deus, assim roubavas tranquilamente aos teus fieis.   Mas não fizeste todas essas merdas, elas virão atrás de ti, pois mexeste com quem não devia, teus Orixás dizem eu não farão nada, pois te avisaram, mas como não entendes de jogo, ficou por isso mesmo, agora aguente.

O homem saiu apavorado, dias depois souberam que estava no hospital, tinha tido um acidente, bem como estava sendo considerado como louco, pois dizia que tinha gente atrás dele para o matar.

O senhor, procurou Boris em casa, disse que tinha feito o que ele tinha dito, deixei a bolsa de lixo na mesa dela, curiosa abriu, a coisa negra entrou pelo nariz dela.

A despedi, bem como ao seu amante, esse ainda me disse que mais um pouco a fábrica seria dele.  Lhe dei seu saco, ele deu um chute, tudo que estava ali, se colou nele, saiu gritando desesperado.

O senhor fica de olho, vamos até o terreiro, que vou fazer um banho para o senhor, bem como uma segurança.

Quando chegaram lá, ele foi preparar um banho para o senhor, pai Ambrósio, não sei por que, mas gostaria que o senhor estivesse junto na hora que for jogar para esse senhor, pode ser.

Depois do banho tomado, o homem se sentou em frente aos dois.

Imediatamente a cabeça do Boris caiu para a frente.    Exu Akesan, se incorporou, pela primeira vez vou fazer com que meu menino não escute.

O senhor tinha uma filha, verdade, quando olhas o meu menino, a vês verdade.

Ela saiu de casa, porque gostava de estar com homens, era menor de idade, um dia desapareceu, vocês procuraram mas não acharam. O nome dela era Jerusa.

A cara do homem era espantosa.

Pois meu menino, é filho dela, mas não devem falar nada com ele por enquanto, isso o deixaria meio perdido.   Faça a prova de ADN, mas tudo com cuidado, conte a tua mulher, mas que ela se aproxime com cuidado, perfeito.

O velho pediu se podia pelo menos dar um abraço nele, passar as mãos pelos seus cabelos.

Pode, mas lembre-se esse menino sofreu muito, sua vida é aqui, podem vir sempre para estar com ele, mas ele nunca vai viver com vocês, pois já escolheu seu caminho.

Nunca soubemos por que Jerusa saiu desse jeito, a levei a muitos médicos, mas diziam que ela tinha um problema neurológico, depois um dia saiu de casa, nunca mais a encontramos, um dia um homem que faz transporte da fábrica disse que a tinha visto se prostituindo num posto de gasolina, fui até lá, mas não a encontrei, disse que estava com uma barriga grande como se estivesse gravida, fui a hospitais, mas nada.

Ela vivia no ferro velho ali ao lado, foi por essa época que pariu o garoto.

Ele só sabia que o nome dele era Boris, mas não porque o chamavam assim, nada mais, o Nestor o adotou, agora é seu filho.  Por isso cuidado, não o desestabilizem.

Pai Ambrósio, o que aconteceu, me senti mal, acho que desmaiei.

Espere vou tirar um pouco de sangue o Senhor Manuel, vai levar para mandar fazer um exame para saber se tens alguma coisa, o deitou.

Vou avisar ao teu pai, que vais ficar aqui em cima uns dias ok.

O Manuel foi embora, agradecendo, deu um abraço no Pai Ambrósio, mas um bem apertado no seu neto.

Pai Ambrósio, sinto falta de estar aqui o tempo todo, o Nestor quer que eu faça uma faculdade, mas meu sonho é estar aqui, tenho paz, amo estar com os Orixás, eles me protegem.

Venha vá dormir um pouco, vou preparar um jantar, pois Nestor, bem como o Antonio sobem para te ver.

De noite o Pai Ambrósio falou com o Nestor, contou o que tinha acontecido, de quem ele era neto, mas que ele queria ficar ali em cima.  Ele é muito grato pelo que fizeste por ele, mas sente que é aqui seu lugar, está mais a vontade.  Graças a ti, aprendeu muita coisa.

Sabe Pai Ambrósio, não sei se poderia me afastar dele, foi meu filho durante todo esse tempo, eu aprendi mais com ele, que ele comigo.

Sabe essa parte aqui ao lado que não se usa, se o senhor permite, gostaria de construir ai uma casa, deixo a minha para o Antonio, assim não me afasto nem do senhor, nem do Boris, o quero como se fosse meu filho.

Quando contaram aos dois, Antonio soltou, então faça mais um quarto, que creio que venho viver aqui, não quero ficar longe dos dois.

O casal vinha sempre ao terreiro, se sentavam com o Boris, uma dia ele soltou ao Pai Ambrósio, eles se comportam como se fossem meus avôs.  O senhor acha isso possível.

Quem lhe explicou foi o Nestor, pois estava por ali pintando a casa nova.   Um dia reclamou que tudo era caro, que seu dinheiro estava acabando.

Boris foi até o fundo, entrou pela floresta, trouxe um saco.  Disse que tinha visto tudo isso em cima da mesa do velho Nicolau, mas que nunca tinha usado nada.

Era muito dinheiro, o senhor usa para o que for necessário, podíamos aproveitar esses homens que estão aqui trabalhando, para melhorar o terreiro, que esse dinheiro sirva para alguma coisa boa.

Nestor fez o que ele tinha pedido, mas foi com ele a um banco, abriu uma conta para ele.

Ele só tocava nesse dinheiro para ajudar alguma família que necessitava de alguma coisa.

Tinha arrumado todo o terreiro, aumentara as casas dos Orixás, agora mais protegidas, pois a maioria tinha goteiras.

Boris, só aceitava sair dali, se era para ir a Praia, para um banho de mar, dizia sempre ao Antonio, isso ajuda descarregar as coisa más que ficam aqui penduradas, ao mesmo tempo carregar baterias.

A amizade dos dois era impressionante. Um dia Boris falou com ele, porque não tinha ninguém em sua vida.

Como não tenho ninguém em minha vida, tenho a ti, tenho meu pai, Pai Ambrósio, que mais quero.

Quero dizer um amigo íntimo.

Boris, segurou sua mão, ficou rindo, viu que o irmão postiço era apaixonado por ele.

Vais por um caminho errado, eu nunca terei sexo com ninguém, não me está permitido, nem eu quero, posso me desestabilizar.    Quando me salvaram foi para servir aqui.

Acho que tem uma pessoa que fica sempre trabalhando contigo na fábrica, que gosta muito de ti, creio mesmo que serias feliz com ele.

Porque não o convidas para vir aqui, assim posso conhece-lo, te direi se vai dar certo ou não.

A casa ficou pronta, Nestor aproveitou que assim podiam ficar todos lá, aumentaram com a parte que o Pai Ambrósio usava, para aumentar o terreiro, pois vinha muita gente nova.

Os mais jovens tentavam seguir o exemplo do Boris.

Os avós do Boris, sempre vinha, arrumavam um jeito de ficarem perto dele, o olhavam com adoração.    Quando chegou o Natal, vieram trazer presentes para todos, Nestor lhes perguntou se iam passar o Natal com alguém.

Não sempre passamos os dois sozinhos.

Não seja por isso, venham passar o Natal, conosco, pois estaremos só nós, isso será como uma família.

Sorriram para o Nestor, obrigado, o senhor é muito gentil, mas ficar perto do Boris, é um prazer.

Vieram a senhora Maria, ajudou em tudo, na cozinha, foi um jantar simples, depois se sentaram na varanda que o Nestor tinha mandado fazer, olhando as estrelas.

Nessa noite, apareceu uma garota, com uma menina nos braços, estava ferida, disse que vivia com um traficante, que tinha tido uma briga entre grupos diferentes, tinham matado seu homem, não tinha para aonde ir.

Ambrósio, fez tudo por ela, mas o jeito foi levar para um hospital.   A criança ficou com a senhora Maria, está encantada.

Mas a garota morreu no hospital, Nestor conseguiu que os senhores adotassem a garota. Mas ela não podia ver anos depois quando começou a andar e correr, mal via o Boris, corria para ele, abraçava sua perna.

Ele sabia que era sua mãe, por isso tinha dito ao Nestor para ajudar o casal.

A erguia no alto, jogava com ele, fez coisas que não tinha feito em sua infância, brincar com alguém.

Quando Pai Ambrósio ficou doente, Boris cuidou dele, com todo o carinho, como o mesmo tinha feito com ele.

Antonio tinha trazido o rapaz com ele, bastava olhar ao rapaz para ver que adorava o outro, ele disse, tente, acho que vai dar certo.

Antonio se preocupava o que o pai ia dizer, mas isso não era um problema para o Nestor, desde que seu filho estivesse perto dele, estava tudo bem.

A mãe do Antonio apareceu umas duas vezes, acabou desistindo, porque viu que não podia mais controlar o filho.

Pai Ambrósio se restabeleceu, foi preparando Boris para ficar no lugar dele, embora dissesse que ele era mais completo, pode ver tudo que vai acontecer em sua volta, toca a pessoa que vem consultar, sabe tudo sobre a mesma.   Contou ao Nestor, que tinha aparecido uma mulher querendo prender o marido, ele se virou para ela, dizendo que se queria prender o marido, porque o tratava mal, o que a senhora quer é mandar, fazer chantagem, mas no fundo a senhora não ama seu marido, quer é a boa vida que ele lhe dá.  A senhora veio num lugar errado, mas lhe aviso, se faz alguma coisa destas que está pensando, virara contra a senhora, meu exu vai proteger seu marido, por isso cuidado.

Ela saiu reclamando que casa de santo era esse, se os espíritos estavam ali, para fazer essas coisas, Boris se virou para mim, me soltou, tem gente que não vai aprender nunca.  Tem que levar lambada nas costas para aprender.

YENIER

                                                      

Meu nome é Yenier Shalan, mas todo mundo me conhece por Yen, como o nome de uma moeda, pois no fundo é isso, como uma moeda tenho duas caras.

Uma de um professor de universidade, competente, estudioso, educado, muito inteligente, de outro lado sou adepto ao Leather, de noite gosto de sair, para ir a ambientes pesados, todo mundo vestido de couro, sexo bruto.

Hoje antes de sair para a universidade, enquanto despedia na porta, um cara forte, também da equipe como eu dizia, cabeça raspada, peito imenso peludo, calças apertadas de couro, tínhamos tido uma seção em minha cama muito pesada.

Meu irmão entrou apartamento adentro furioso, como eu podia ser assim, o deixei falar como sempre, tipo “se nosso pai fosse vivo morreria de desgosto”, para frente todo os tipos de chantagem.

O mesmo poderia eu fazer com ele, que nunca tinha tido ambição nenhuma, a não ser levar o armazém de comidas árabes de nosso pai.  Vivia na casa que tinha sido dos nossos pais, em Belleville, tinha herdado tudo, o armazém o apartamento que tínhamos sido criados em cima dele, agora vivia sozinho com dois filhos adolescentes que lhe davam muitos problemas, sua mulher tinha se mandando com outro, pois dizia que ele era um idiota.  O desmoralizava na frente de todo mundo.  Ainda chorava por ela.

Já sabia por que vinha visita-lo, precisava de dinheiro para pagar suas contas.

Desta vez, resolveu ser filho da puta, pois ele não tinha aprendido até hoje administrar as contas do armazém.    Sinto muito, estou sem banca, acabo de pagar a este chulo para me comer o cu, então não sobrou nada.   Sabia que isso o escandalizaria, iria dali direto a sinagoga para rezar pelos pecados do irmão.

Era descendentes de argelinos, mas só restavam os dois da família.  Contrate um administrador para o armazém, ou venda o mesmo, tu não serves para isso.

Esperou que ele saísse, para mudar de roupa, se o visse agora, talvez o trata-se melhor, um terno de linho azul celeste, camisa branca, sem gola, mas antes tomou um banho, fez a barba, raspou a cabeça, fez todo um procedimento que ele chamava sua preparação para enfrentar o mundo, colírio pela limpar os olhos, creme para prevenir as arrugas, tinha uma pele fantástica, ninguém diria que tinha já 45 anos.  Dava aulas a mais ou menos 20, tinha sido sempre o primeiro de sua promoção.  Tinha se diplomado Cum Laude na Sorbonne, ficando imediatamente como ajudante em línguas orientais.  Falava perfeitamente o árabe, farsi, dialetos diversos, além de grego, ídiche, e todos os derivados falados hoje em dia em Israel.

Escrevia em todas elas, com facilidade, sempre tinha trabalho extra para traduzir livros, isso o fazia em casa, em seu quarto especial de trabalho, que nunca estava aberto, por causas dos loucos que levava até lá.

Gostaria de ter explicado ao irmão por que gostava esse tipo de sexo.  Tinha abusado dele em garoto duas vezes, seu pai, fez como se não tivesse acontecido nada, passou a mão na sua cabeça, lhe dizendo que Alah o protegeria sempre, mas nunca tinha protegido porra nenhuma.

Da segunda vez gostou, quando ficou mais velho, sabia que gostava de sexo duro, tinha experimentado esse de amor, coisas parecidas, mas não lhe davam o prazer que gostava.

Deu as aulas correspondentes, conversou com dois alunos que faziam doutoramento, hoje atenderia um que vinha dos Estados Unidos.   Quando este entrou na sala, quase deu um pulo na cadeira.   Era o cara com quem tinha dormido esta noite.

Que fazes aqui?

Ora tinha hora marcada com o senhor, estava fazendo como se não o conhecesse.  Sou Yuri Vaslau, seu novo aluno de doutorado.  Começou a rir, na noite anterior, tinha mostrado muito humor ao conversar.  Creio que nem vou precisar fazer aulas, falou mais baixo, se o professor em ensinar tudo na cama.

tinha gostado de fazer sexo com ele, era agressivo, mas controlado, tinham se permitido certas liberdades.

Acabou rindo também, dizem que sou tão mal dando aulas, como fazendo outras coisas.

Queres almoçar, estou morto de fome, assim podemos ir conversando ao mesmo tempo.

Foram almoçar ali perto mesmo, normalmente iria a um restaurante, que estaria cheio de professores, enfurnado em trajes completos com gravata, sapatos brilhantes, etc.

Ficaram conversando, sobre o que Yuri pretendia com o curso, tinha se formado um pouco tarde reconhecia, tive que sair da cidade aonde vivia, lá no cu do judas, no interior dos Estados Unidos, enquanto não cheguei a NYC, não pude realizar meu sonho de estudar línguas.

Sou de uma família polonesa, que viveu baixo os pogroms dos poloneses, depois dos russos, por assim dizer.  Quando chegaram a América, foram para a mais profunda, para se isolar do mundo.   Na escola eu era o diferente, pois falava três línguas, eles muito mal falavam o inglês.

Por isso levava surras todos os dias, na adolescência, abusavam de mim basicamente todos os dias, meu pai dizia que a culpa era minha por ter uma cara de menina.

Mesmo depois que me começaram a nascer pelos pelo corpo, a coisa continuou, pois eram mais altos do que eu.

O resto já imaginas. 

Aonde estas vivendo aqui?

Vivo em um pequeno hotel de estudantes, enquanto meu dinheiro aguente.  Tenho que arrumar um emprego.

Consulte com a secretária, ela sempre sabe de empregos de meio períodos para estudantes.

Mudando de assunto, fazia tempo que não tinha uma noite assim, foi uma coisa completa, tinham feito sexo horas e horas. Tinham começado vestindo seus arnês, mas depois ficaram sem roupa.

Os dois tinham o mesmo tipo de corpo, fortes, peludos, cabeça raspada.

Posso te dizer que gosto como estas vestido, ficas diferente.

Coisas do trabalho, mas mesmo assim sou diferente dos outros professores.

Quem era o homem furioso na saída da tua casa?

Meu irmão, para pedir dinheiro como sempre, não sabe administrar sua vida.

Bom, não tenho que trabalhar agora a tarde, nos vemos quando começarem as aulas.

Yuri soltou, podíamos seguir com o de ontem.

Ficou super excitado, venha vamos para minha casa.

Ele vivia em Marais, tinha aplicado o pouco de dinheiro que seu pai tinha deixado para ele, bem como economizado do seu salário, tinha acabado de pagar a última fase do empréstimo do apartamento.  Agora era seu de direito.   Na época que o tinha comprado Marais, estava cheio de Judeus, o resto era viciados em drogas.   Esse edifício aonde tinha comprado o apartamento, estava em ruinas, quando foi adquirido por uma empresa, o reformaram completamente, dividindo os apartamentos enormes, em mais pequenos.   Tinha se apaixonado por ele, desde o momento que o tinha visto.   Conservava detalhes do grande, a lareira no salão, o teto que era trabalhado, mas o resto todo era moderno, cozinha, seu quarto era como uma suíte, com banheiro, com chuveiro, sem banheira, tinha mais dois quartos, um aonde trabalhava, o outro ainda estava vazio, nunca tinha tempo para fazer nada ali.

Foram tirando a roupa desde a porta, caíram na cama, os dois tinham uma coisa em comum, eram bem dotados, iam se revezando em  penetrações, quando acabaram estavam exausto, ficaram ali atirados na cama.  Caralho soltou o Yuri, precisei vir para cá para encontrar alguém como eu.

Todos os dois tomavam cuidado, usando camisinha, mas estavam exaustos, ficaram ao contrário de muitos, que gozavam, se levantavam iam embora.  Um passando a mão pelo peito cabeludo do outro.

Daí foi um pulo para começarem outra vez, agora mais calmo, quando se deram conta já era quase noite.  Se sentaram no salão conversando, Yenier queria saber o que ele pretendia depois de acabar o curso.

Contou que tinha sido entrevistado pelo FBI bem como CIA, por causa das línguas que estudava, mas não me atrai.  Lhes disse que não, tentaram chantagear-me, dizendo que sabia de minha faceta.   Eu perguntei qual, me falaram das minhas noites, o da CIA, era meio filhinho de papai, não tive conversa, abri minhas calças coloquei o caralho em cima da mesa, perguntei se queria, ficou horrorizado, mas não tirava o olho.   Lhe disse que não estava preocupado com isso.

Quando consegui a bolsa de estudos, pelos meus méritos, aceitei de imediato, mas antes fui ver se não estavam por detrás da mesma.    Um de meus professores, me informou que fazia bem em aceitar, sair do pais, vieram falar comigo que frequentas bares Leather pela noite, que gostas de sadomasoquismo.   Lhes disse que isso era um problema teu.  Que nunca tinha te visto em aula, fazendo sexo.

Por isso estou aqui, mal sabem que logo nos primeiros dias encontrei um igual a mim. Riram os dois.

Melhor eu ir para o meu hotel, assim te deixo em paz, pois sou capaz de querer voltar para a cama, nunca me senti tão bem com ninguém.

Acabaram dormindo juntos. 

Semanas depois, basicamente, dormiam junto quase todos os dias, o sexo para eles os alimentava.   Nem saiam mais de noite para buscar homens, se bastavam.

Três semanas depois, Yenier escutou baterem na porta, estranhou.

Quando abriu estava dois inspetores de polícia.   Primeiro pensou que era reclamação de algum vizinho, mas perguntaram pelo seu irmão. 

Pensei que estava no seu armazém. 

Estamos aqui por uma série de denúncias, ele vendeu o armazém, bem como o apartamento em cima, que já estava bloqueado por um empréstimo de muito valor.  Desapareceu.

Bom eu sabia que precisava de dinheiro, vinha sempre pedir emprestado, mas nunca devolvia, como era da família, perdoava, mas a última vez como era um valor muito alto, pensei bem, o mandei a merda, que aprendesse administrar sua vida.

Então não sabes nada dele, nem de teus sobrinhos?

Nenhuma ideia, já verificaram se não estão com sua mãe, ela vive e Marseille, espera devo ter o endereço dela.

Viu que um dos inspetores não parava de olhar para ele, em seguida rebuscando em sua memória, se lembrou.   Tinha feito sexo com ele, numa ruela, numa noite de lua cheia.

Lhes entregou o endereço, o que parecia ser o chefe, lhe apertou a mão, foi saindo, o outro lhe disse vou voltar.

Porra, Yuri estava no quarto, meia hora depois o outro estava ali, acabou fazendo sexo com os dois.

Agora se encontravam os três, mas sabia que chegaria uma hora, em que isso iria para a casa do caralho como ele bem dizia.

Não deu outra coisa, chegou um momento que viu que Yuri queria sempre o outro junto, insistia nisso, embora ele explicasse que queria trabalhar.  Começou a desconfiar que se encontravam em outra parte, pois o viu aparecer meio drogado.  Daí foi um pulo para ter certeza.  Pensou consigo mesmo, até aqui vou.   Pediu que ele não viesse mais a sua casa, por já não interessava essa situação.

Como era época de férias, fez uma coisa, viajou, pela primeira vez foi a um lugar que imaginava que não existiam Leathers, foi genial a viagem, queria usar a língua.  O Irã o surpreendeu pelas pessoas amistosas, conheceu gente, contratou um guia para viajar, o rapaz tinha carro, fez todo o percurso que ele tinha imaginado, conhecer as cidades antigas, hospedando em pequenos hotéis.   O guia, conhecia bem a história de seu pais.  Isso ele valorizava, pois achava que os ocidentais tinham o hábito de esquecerem seus erros muito rápido, os cometendo uma e outra vez.

Comentou isso com o guia.   Num cento ponto da viagem, viu que numa aldeia os homens olhavam para ele.   Perguntou ao guia, por quê?

Aqui são radicais, não existe a prostituição, então é normal, os homens transarem entre si, como você é de fora, acham que se fazem sexo contigo, não comprometem suas vidas, porque vais embora.  Ficou surpreso.   Ainda pensou, algumas pessoas que conheço fariam uma festa aqui.

Estas interessado em algum?

Nem pensar, sem querer se viu contado ao rapaz por que tinha escapado de Paris, me vi num relacionamento a três, isso nunca funcionou.  Então procurei criar distância.  Vou mandar uns quantos conhecidos para cá, eles só pensam em sexo.

O rapaz ria muito, é complicado, cada pais tem seus hábitos, eu também a tempos me vi numa situação assim.   Tinha um relacionamento muito escondido com um amigo de infância, a família o obrigou a se casar, pois desconfiavam dele.  Mais por sua segurança.  Eu não quis ficar no meio deles.  Me escapei para Teerã, para estudar, tento conjugar as viagens com meus estudos.

Quando lhe perguntou o que estudava, teve que rir.

Agora entendo por que sabes tanto de história.  Estudava a matéria. 

O problema é que a história moderna, foi varrida do mapa.                Hoje só interessa o passado glorioso, mas o mundo não vivem sem ir em frente.  Não que eu tivesse apoiado, pois nasci quase depois da queda do Xá, mas nunca se fala no assunto, a não ser que seja para assustar.

Lhe contou que era filho de Argelinos, veja, além de falar a língua, não sei basicamente nada de sua história.  A da França conheço bem, mas é o mesmo entre o passado, contra o presente, existe o fio de uma navalha.    Pois cultuamos toda a cultura antiga, o novo, os jovens não se interessam, estão presos ao mundo da internet.

Na viagem estavam programadas acampadas no deserto, desta vez, acabaram dormindo junto, foi diferente de tudo que ele tinha tido em termos de sexo.  Nem agressivo, tampouco morno, apenas estava transando com outro homem igual a ele.   Gostou da experiencia.

Quando voltou soube por um conhecido da noite, que Yuri tinha voltado para os Estados Unidos, porque andava no meio da droga.

Nessa noite tomou uma decisão, separou tudo que usava para a noite Leather, colocou numa caixa, jogou no lixo bem distante de sua casa.   Continuaria a usar a cabeça raspada, pois achava confortável, nunca tinha que se preocupar em pentear-se.   Ria sempre dessa imagem.

Ficou sabendo através de uns conhecidos do bairro, que seu irmão estava na Argélia, numa zona de difícil acesso.   Pensou que talvez ele tivesse a razão, nunca tinha se adaptado a vida em Paris.   Se lembrava que ele gostava mais de falar o árabe que o francês, por isso zombava dele que falava línguas mortas.  Se já morreram a deixes em paz.

Se passaram meses, não procurou estar próximo de ninguém, precisava de um afastamento de tudo referente a sexo, para poder centrar-se.

Um dia estava almoçando no restaurante da faculdade, quando viu uma pessoa parada em frente a ele totalmente de branco, foi levantando a cabeça, pois a figura era muito alta, estava com um terno branco de linho, mas na cabeça levava um pano, que parecia ter estado sempre colocado.     Era mais negro que a noite, uns olhos imensos, quando abriu a boca, os dentes eram brancos como a neve.   Estendeu a mão, professor, sou novo aqui na universidade, vim dar aulas de Yoruba e Fula, Yoruba da Nigéria, Fula dos Peul, da etnia Fulani.

Estava cansado de olhar para cima, o convidou para se sentar, ficar em pé com essa bandeja, por favor.

Estendeu sua Manasa, de tão grande que era sua mão.  Meu nome é Osiris Matumkumbe.

Sem querer riu, o outro perguntou por quê?

Como eres diferente, grande, com essa roupa, esse turbante na cabeça, impressiona.

Ficaram conversando, me disseram que eres o professor que mais fala línguas aqui na universidade.  

Não antes de mim, justamente o professor que substitui, que foi quem me ensinou muitas coisas, ele falava mais, pois falava perfeitamente o Japonês, como o Mandarim.

Meu irmão diz que não vê utilidade nenhuma as línguas mortas, mas acabo de voltar do Irã, saber farsi me foi útil.  Pude ler coisas antigas, desfrutar conversando com as pessoas de idade, que o falam perfeitamente.   É como se fosse a primeira língua árabe escrita, mas hoje tem várias adaptações.

Fizeste sozinho a viagem?

Sim, contratei em Teerã um guia, que me maravilhou com a história do pais, depois descobri que era um estudante de história.  Hoje em dia as pessoas preferem não saber de aonde vem.

Eu por exemplo sou descendente de Argelino, falo árabe, mas sequer conheço o pais, em casa falávamos árabe, mas na rua sempre francês.

Me interessa o Yorubá, me fale dele, quem sabe conforme o horário, encontro uma maneira de ser teu aluno.

Yorubá, além de ser a língua tradicional de muitos países africanos, principalmente da Nigéria, é a língua dos deuses.  Que hoje se chocam com a invasão dos muçulmanos, com sua religião tão estrita, eu de certa maneira, dava aula na universidade, mas sou Babalorixá, estava sendo perseguido.  Quando recebi o convite para vir, achei que valia a pena.

Explicou para ele o que era ser Babalorixá.    Por exemplo, percebo que estas em mudança em tua vida particular, deixando coisas que antes talvez apreciasse, para procurar novos sentimentos, foi falando, tudo que estava acontecendo com ele.

Ficou impressionado, teremos que conversar mais a respeito, realmente estou passando por uma fase de mudança completa em minha vida.   Mudando meus valores.   Um dia te conto.

Osiris perguntou se ele gostava de sair para jantar, conheço um lugar, que vou sempre, pois gosto de estar ali, vendo um retalho do Sena, bem como observar as pessoas que passam.

Aonde vives perguntou?

Em Marais, tu?

Ele riu, estou vivendo num pequeno apartamento emprestado na île de Saint Louis, de um conhecido da embaixada da Nigéria.

Mas tenho que procurar um lugar para viver, pois necessito de coisas que não posso ter ali, por não ser minha casa.

Marcaram de se falar no dia seguinte ali, para combinar o jantar.

Ficou com a figura em sua cabeça.   Se lembrou que uma noite perto de Isfahán, que deitado em seu saco de dormir olhava as estrelas, tinha visto o Osiris, falando com ele.

No dia seguinte, quando o encontrou comentou.

Pois é eu já sabia de ti, também sonhei contigo antes de vir para cá, você todo vestido de couro negro, atrás de sexo fácil.

Ficou de boca aberta, ninguém na universidade desconfiava disso.

Não te condeno, sei o que te aconteceu quando jovem, acredito que te deixou confuso sexualmente, mas agora estás procurando outra coisa.  Te entendo, eu também me confundi a princípio quando me descobri gostando de homens.   Mas graças aos Orixás, com o tempo entendi, aceitei.

Foram jantar nesse dia, lhe perguntou como sabia o que tinha acontecido com ele.

Li no Ifá, quando comecei a sonhar contigo.  Um dos motivos que vim para cá, fazes parte do meu destino.

Ficou olhando para ele, que sorriu, com seus dentes brancos iluminados pela luz da rua, não temos pressa nenhuma.

Passaram a se encontrar, para lhe mostrar a cidade, os lugares que ele gostava mais, conversavam como seriam suas aulas.

A princípio, apareceram muitos alunos interessados, principalmente por saberem a língua do Ifá, lhe explicou o que era.

Ele ficou fascinado, principalmente com o que veio depois.

Todo mundo pode aprender, mas na verdade, o fundamento, são poucos os escolhidos que entendem realmente o que um Orixá quer dizer.  Porque como tudo, tem duas explicações, nem sempre todas as linhas são retas.     As pessoas anseiam pelas respostas mais imediatas, tens que saber o que elas na verdade perguntam, bem como a resposta nem sempre é objetiva, pois as coisas superficiais não funcionam com eles.

Um dia que estavam encostado na Pont Louis Philippe, lhe soltou olhando as águas, deixaste atrás a parte negra de tua alma, agora estás a caminho de outra parte de ti, que desconheces completamente.

Um único gesto pode responder a isso Yenier, colocou a mão sobre a sua.

Sim estou encontrando a paz, dentro de mim, busquei isso em outro lugar, mas me perdi, confundi as coisas, pensei que a brutalidade ia me fazer compor minha cordura, minha cabeça, mas não era assim.

Um dia desses estaremos pronto para nosso real encontro lhe disse Osiris.

Já conseguia falar alguma coisa em Yoruba, as palavras soavam em sua cabeça, faziam sentido para ele, sem saber muito o porquê.

Os outros alunos diziam que como ele falava mais línguas, ficava mais fácil, mas o que ele sentia era outra coisa.

Ficou sabendo que o irmão tinha se metido em mais confusões, arrastando seus filhos, mas não tinha menor ideia aonde estava.   Nunca tinham sido próximos um do outro, inclusive os abusos que tinha sofrido, se deviam as brigas que ele arrumava com os outros na escola.  Descarregavam nele que era mais frágil.

Desde pequeno tinha sido relegado pelo irmão, como se não existisse, havia uma grande diferença de idade entre eles, anos mais tarde antes de sua mãe morrer, no meio de uma discussão descobriu que o irmão era filho do primeiro casamento de seu pai, na Argélia, mas sua mãe o tinha sempre tratado como seu.  Quando ele nasceu, ficou com ciúmes, pois deixava de ter toda a atenção dela com ele.    Mas já adulto, sempre estava disposto a alguma maldade, quando sua mulher o deixou, primeiro o agrediu dizendo que o deixava por ter descoberto que seu irmão era gay.     Um dia antes dela partir para sua nova vida em Marseille, lhe disse que ele era um incompetente, mesmo na cama.  Tudo sempre era culpa dos outros, nunca dele, que quando ficava assim a agredia fisicamente.

O advogado um dia apareceu com um documento, o irmão jamais poderia ter colocado o edifico como garantia de um empréstimo, porque só pertencia a ele 50%.  Os bancos, empresários que ele devia dinheiro, tinham visto aí uma oportunidade de recuperar seu dinheiro.   Mas resolveu fincar pé, pelo menos os meninos poderiam quiça no futuro ter algo para eles.   Todos pressionavam para que ele pagasse a dívida do irmão.

A situação era difícil, pensou, a que deixar esse lastre para trás, não posso sempre resolver os problemas dele, se ele mesmo cria mais.

Disse ao advogado que devia vender o edifício pagar as dívidas e que se sobrasse alguma coisa, que ficasse com os garotos.

Um dia pediu ao Osiris que jogasse para ele, para saber como andavam os garotos.  Sua resposta o deixou gelado.  

Perdidos, o vendaval que causou o pai, na Argélia, os deixou atirados, esses meninos estão na mão de traficantes de pessoas.  Se queres recupera-los, tens que agir agora.

Moveu mundos e fundos, até conseguir localizar os garotos numa pocilga estavam para serem vendidos como escravos no Sudan.

Quando os trouxe de volta, os entregou a mãe deles, que prometeu cuidar dos dois, entregou a ela o dinheiro que sobrou do pagamento das dívidas.

Dele não saberia nunca mais.   Ficou com pena dos filhos terem sido arrastado nisso tudo, mas claro com ajuda de psicólogos, talvez encontrassem seus caminhos.

As vezes se despertava pensando nisso, dizia filho da puta, como pode fazer isso com seus próprios filhos.   Se o encontrasse, o encheria de porradas.

Os anos passaram, escreveu dois livros, sobre línguas, a mutação da mesma no mundo moderno, a confusão das mudanças de termos, que se passava a utilizar para designar alguma coisa que não tinha as vezes logicas.    Mas a sociedade moderna exigia isso.

Agora nas suas férias ia a Africa, ao Senegal, depois a Nigéria para se aprofundar no uso do Yoruba, seus significados, suas várias vertentes.

A princípio, tinha pensado que entre eles surgiria alguma coisa, mas com o tempo entendeu o que Osiris dizia, era em outra direção.

Às vésperas de fazer cinquenta anos, tomou uma decisão, comentou a mesma com Osiris, iria em busca de suas raízes.

Osiris aplaudiu sua decisão.

Tinha encontrado entre as coisas de sua mãe, fotos antigas de quando era jovem, sentada na frente de uma casa, depois outra entre ovelhas, uma parte deserta.

Descobriu a muito custo que se tratava de Marssa, hoje tinha um complexo turístico, foi ao embaixada, se identificou, deu o nome de seus pais, queria saber que poderia pedir cidadania, ou viajar com passaporte francês, disse que ia em busca de suas raízes.

O funcionário, disse que a maioria que fazia isso voltava decepcionado, teria que chegar a Orán, de lá alugar ou contratar um carro.   Falou com um conhecido de seu pai, ele iria pedir a um parente seu para localizar parentes, bem como o levar a vila de aonde sua mãe tinha nascido.

Se programou bem, em sua bagagem só levava roupas de linho branco, bem como uma chilaba que tinha encontrado a muitos anos no armário de seu pai.   Levou a lavanderia, pediu para recuperarem a cor natural.  De tanto lavarem para tirar as manchas ficou quase branca. Um tecido muito suave.

Não esqueceu de seus turbantes, tinha um visado de um ano, o funcionário na hora que ele buscar disse, espero que não fique por lá, agora sabemos quem é o senhor.

Chegou a Orán, fazia um calor infernal, mas sua roupa era própria para isso, já no inverno, era complicado.   Ali estava um rapaz, com um cartaz com seu nome, para variar escrito meio errado, lhe perguntou se era parente do francês.  Sim vim te buscar.

Quando saiu, tudo o que viu no estacionamento era um furgão muito velho, cheio de ferrugens, dentro estava limpo, mas o rapaz fez questão de colocar um pano.

Disse que só tinha encontrado seguindo as indicações de seu parente, uma família que vivia perto da Plage de Rachegoun, viviam mais para o interior, criando ovelhas.  A viagem foi longa, pararam duas vezes para beber água, comer.

Finalmente chegaram a Plage de Rachegoun, melhor que o senhor fique no hotel da praia, que está meio vazio agora, fora de temporada explicou.

Lhe perguntou aonde ia dormir, ele disse que no furgão.  Disse ao rapaz nem pensar, me fazes um favor, ainda vais dormir no furgão.  Alugou dois quartos, por 4 dias.   Perguntou se tinha comida, apesar da hora, disseram que podiam preparar uma sopa, ou salada.  Rashid, o rapaz, preferiu a sopa, ele a salada.

Subiu rapidamente para tomar um banho, a água era um pouco escura, mas logo ficou limpa, talvez sujeiras no cano.  Desceu com as calças com a chilaba por cima. O rapaz sorriu, nada mais confortável realmente.

Comeram, ele perguntou se ele vivia por ali.

Riu dizendo que na verdade era pastor de ovelhas, as terras são do meu tio que está na França, vivo na casa que tem aqui. 

Nunca pensaste ir para a França?

Já estive por lá, mas gosto mais daqui.  Vivo numa pequena enseada em cima do mar, uma mistura de verde com um pedaço de deserto.  No inverno não aparece ninguém na praia, então posso tomar banho nu.   Sorriu satisfeito.

Mas deves ter mulher, filhos?

Não, aconteceu algo na minha juventude, não quero família.

Dormiu com a porta da varanda aberta, escutando o ruído do mar.  Isso o relaxou, no dia seguinte, foram a procura da família.  

Era um casebre no meio do nada, viviam ali, uma mulher com dois filhos na idade adulta, ela disse que a casa tinha pertencido ao avô dele, que tinha dispersado todos os filhos pela França, com a tua mãe, fez um grande negócio, um casamento arranjado, com um comerciante de Paris.

Ela não queria ir embora, mas tampouco depois mandou notícias, nunca soubemos dela.

Ela já morreu quando eu era criança.  Descobrir que era daqui, por uma fotografias velhas, mostrou para a mulher.

Vê essa foi feita aqui, mostrou os degraus de uma casa em ruinas, foi dizendo os lugares das outras. 

Uma pergunta, vens reclamar as terras?

Não porque, só queria saber de aonde saiu minha mãe, nada mais.

A mulher respirou aliviada, a casa por dentro era miserável, muito mal cuidada.

Andou por ali, tudo cheirava a abandono, só para provocar, perguntou se ela queria vender as terras.  Olhou para ele de cima a baixo, disse um preço soltou um valor.

Rashid riu, as terras são tuas, basta reclamar.

Mas ele olhou em volta, viu que não tinha nada.

Depois que foram embora, Rashid explicou que ele tinha direitos.

Rashid, teria que construir tudo de novo, não penso viver aqui, não vale a pena, para que, a casa esta para jogar fora, nada vale a pena.  Nem sei se realmente essa mulher é minha parente, pois seu nome é diferente de minha mãe.  Não creio que valha a pena.

Se quiseres ficar aonde vivo, a casa não é minha, mas meu tio disse que eu lhe oferecesse.

Concordou em ir no dia seguinte para conhecer.  Era longe de aonde eles estavam umas duas horas, já era mais mundo como ele pensou, uma pequena vila, que Rashid explicou que viviam mais do verão pois a praia estaria cheia.  Foram subindo para uma parte mais alta, antes passaram por um portão que fechava a estrada, com um cadeado, ele abriu seguiram subindo, aqui tem que fazer isso, para mostrar que tem um proprietário.

Ficava na parte alta, muito verde, viu ovelhas entre as arvores, quando parou o carro, um cachorro veio correndo fazendo festa para ele.  Depois o cheirou, faz isso para saber se eres de confiança.   A casa era muito bonita, ele explicou que tinha sido construída em cima da velha que tinha pertencido a família, antes de emigrar para a França.

Dali se viam duas praias, a da vila, a esquerda uma minúscula enseada, que ele disse que pertencia as terras do tio.   Aqui gosto de tomar banho.

Deixaram as coisas dentro, depois preparo coisas para comermos.

Vamos tomar um banho de mar.  Ele desceu com a Chilaba, pensava só em molhar os pés, mas quando chegaram embaixo, viu que Rachid, tirava toda a roupa, ficando nu, se atirando na água.   Tinha um corpo espetacular.

Da água ficou chamando para que entrasse.  Tirou a chilaba, entrando com a cueca que estava vestido.

A água era realmente ótima, reconfortante, para um dia de calor, ficou ali boiando, até que sentiu a presença do Rashid ao lado dele.

Venha vamos subir para comer.  Ao colocar a chilaba tirou a cueca molhada.  Rashid disse que ali podia tomar banho nu, nunca vinha ninguém.

Sem querer olhou em sua direção, estava meio excitado, mas ficou surpreso por ele não ter ovos.

Que te aconteceu?

Esse é meu trauma, jamais poderei ter filhos.   Abusaram de uma menina no prédio do meu tio, ela disse que o agressor era um tal de Rashid.  Eu sempre que passava por ela, sorria, dizia bom dia.   Acharam que era eu, me pegaram, me deram uma surra, me cortaram os ovos fora.  Por pouco não morro, dois dias depois descobriram quem era o outro Rashid.

Mas já era tarde, não conseguiram implantar de novo em seu lugar.   Fiquei muitos tempo em coma, depois a recuperação.     Eu trabalhava com meu tio, esse achou melhor eu voltar, eu concordei, aqui vivo tranquilo.    As vezes algum da praia sobre para dormir comigo, gosto de fazer sexo com homem.

Sorriu para ele, sinto muito garoto, merecias uma vida melhor.   Sabes ler, escrever?

Sim, fui a escola, gosto muito de escrever.

Nessa noite desceu com Rashid para um banho de mar, tirou a chilaba, estava nu embaixo, entrou na agua, viu que na praia Rashid tinha ficado olhando.

Deixou que ele se aproximasse, ficaram brincando com os sexos.  De noite ele veio para sua cama, ele pensou que fosse impotente, mas nada, sabia fazer sexo como nunca tinha experimentado.

Foi ficando, conseguiu na vila, um sistema de Hi-fi, se dedicava a escrever coisas que pensava e sentia.    Disse ao Rachid, que gostaria de ir para o interior, se podiam comprar uma tenda, ir visitar os lugares do deserto.

Eu fui uma vez com uns amigos do meu tio, ele os trouxe para férias, andamos bastante para o interior, mas este furgão não iria aguentar.

Custa caro alugar um?

Para ti, creio que não, mas vou saber.   No dia seguinte desceram para a vila para fazer compras, as pessoas se surpreendiam com ele, por falar tão bem, inclusive com maneiras da terra.   Tinha se recordado como falava sua mãe, a cadência das palavras.

Sem querer começou anotar coisas que ia se lembrando dela.

Rachid, conseguiu uma de um dois anos atrás, disse que o homem queria vender, pois ia embora para a França.    Perguntou quanto ele queria, era um preço irrisório, lhe deu o dinheiro, compre, assim temos um bom carro.

Rachid levou a um mecânico antes, que vistoriou tudo.

Se prepararam para a viagem, compraram o comida, que não se estragava, se prepararam, na noite antes tomaram um bom banho de mar, fazendo sexo na praia.  Rachid, disse que gostava de fazer sexo com ele.  Não fazes escândalo, aprecias fazer sexo, gosto disso.  Ele disse que gostava muito de fazer sexo com ele.   Eu também gosto estar contigo.

Viajar pelo deserto, noites de lua cheia, vendo as montanhas, as estrelas, lhe fizeram bem a alma, busca nos lugares que passa, livros sobre Albert Camus, os tem em sua casa, mas urge poder ler esse grande escritor.

Numa das paradas numa vila, sentando num bar, escuta duas senhoras tomando chá, na porta de uma casa, falando dos anos que viveram na França.  Se acerca a elas, começa a fazer perguntas, em sua memória prodigiosa, vai guardando retalhos.

As duas viveram em Paris, mas nunca conheceram nenhum lugar famoso do turismo, viveram para sua família, até que ficaram viúvas, filhos dispersos, com vergonha de serem argelinos, netos isso era outra história, as reclamavam que nunca se aproximaram delas, que seus filhos se casaram com francesas.

As duas tinha se casado sem conhecer seus maridos, eles tinham emigrado antes, trabalhavam em alguma fábrica por lá.   A elas, tocava tomar conta deles, criar os filhos, mal aprenderam falar um francês como deus manda.  Todas as duas foram mulheres de limpar edifícios, de joelhos esfregando o chão, mas não sentiam vergonha disso, pois ajudavam assim a pagar escolas que elas não puderam frequentar, para os filhos. 

A única coisa que tinham assimilado, era esse ato de tomar um chá, conversando sobre a vida.

Pediu ao Rashid que lhe introduzisse justamente junto a esses retornados.

Quando voltaram da viagem, de tanto falar em Camus a Rashid, encontrou entre os seus, um  “A Peste”, Rashid leu, ele ficou surpreso com as anotações que ele tinha feito a respeito, principalmente dos argumentos que não concordava.

Quando lhe disse que Albert Camus, era Argelino, passou a idolatra-lo.   Pediu a Paris que lhe mandassem todos os livros.   Agora pelas noites se sentavam discutindo o que ele tinha lido nos momentos de paz do pastoreio da ovelhas.

Lhe apresentou uma mulher que tinha conhecido no mercado, que lhe comprava leite das ovelhas para fazer queijo.

Yenier, foi a sua casa, levou um bloco, lápis, começou a conversar com ela.   Essa mulher tinha a mesma idade que hoje teria sua mãe.   A tinham casado com 14 anos, com um homem que nunca tinha visto na vida.

Tive a sorte de viajar num barco com outra garota na mesma circunstância.  Era muda, mas a entendia perfeitamente, pois tinha paciência de tentar descobrir o que queria dizer.

Meu marido estava me esperando no porto de Marseille, ela também viveria ali, mas o marido não a estava esperando, sim seus sogros.   Não gostei da cara deles de imediato.  Fiz com que meu marido escrevesse a direção de aonde íamos viver, caso ela necessitasse.  Lhe enfiei no bolso do vestido, lhe expliquei que era aonde íamos morar, caso ela necessitasse.

Passaram-se dois anos nunca soube dela.   Um dia apareceu em minha casa, de noite, acompanhada de um policial.  Magra, mal vestida, desnutrida diria eu.   Tinha escapado da casa que vivia com o marido.   Esse era funcionário de um banco.  Disse que a tinha fechada a chave em casa, que quando chegava de noite acompanhado de outro homem, sempre a fechava no quarto.  Escutava o ruído dos dois fazendo sexo.  Quem fazia as compras era sua sogra, segundo ela uma megera.  Tinham escolhido como esposa, justamente porque era muda.

Contei tudo ao meu marido, ele foi tomar satisfação da família.  Fizeram com que a polícia a levasse de volta para casa.   Sua vida seguiu um inferno.  Agora separado do homem com quem fornicava, ele se dedicava a trazer marinheiros, homens que encontrava nas ruas para fazer sexo.     Um dia, escutou muito ruído, depois um silencio total.  No dia seguinte quando a sogra chegou, encontrou o filho morto. Chamou a polícia, querendo incrimina-la.  Mas foi tão idiota que ela a tinha deixado como estava.   Mostrou ao policial o meu endereço, fui até lá para ajudar a se comunicar.   Lhe contei ao mesmo tudo que tinha acontecido da vez anterior.

Logo encontraram o assassino, porque tinha roubado um relógio de grande valor do marido, ela acabou indo viver conosco, foi a tia querida dos meus filhos, a entendiam perfeitamente.

Morreu com uns 35 anos, a enterramos ali em Marseille.  Imagina as duas tínhamos saído daqui com 14 anos, dizia que os anos felizes tinha sido em minha companhia, de minha família.

Quando morreu me senti terrivelmente só.  Sabia da infidelidade de meu marido, com outras mulheres.  Antes não me incomodava, pois assim não tinha que fazer sexo com ele.

Meus filhos apoiavam o pai, achava que estava no direito dele.  Fui me distanciando deles, até que um dia um advogado me procurou, meus irmãos tinham morrido na guerra da independência, me tocava como herança, um pouco de terra, a casa dos meus pais. Tomei uma decisão, conversando mentalmente com minha amiga.  Arrumei minha coisas, disse ao meu marido, tu fica com tuas putas, eu volto para minha terra.

Aqui sou feliz, tenho um dos netos que não encaixava na família lá, que veio morar comigo, cuidamos da terra, reergui minha casa.

Agora imagine o senhor, como nós duas, muitas mulheres saíram daqui, foram para na França, Marseille, Paris, os lugares aonde tinham mais emigrantes argelinos, por causa das fábricas, muitas delas, sequer conheceram direito a cidade que viviam.   Estavam ali, para servir aos seus maridos, para parir, cuidar da casa, fazer pequenos trabalhos que nos tocava por analfabetas como limpeza na casa dos mais ricos.

Sem dúvida enfrentei-me com meus filhos, que se casaram com mulheres francesas sim, mas todas mais ou menos como nós, semi analfabetas, vindas do campo, atrás de uma vida melhor numa cidade maior.  A repetição do mesmo objetivo se repetia.  Mas a terceira geração foi além nos estudos, não se adaptavam a essa vida, meu neto quando veio não sabia falar árabe, aprendeu aqui na escola.   O pai o expulsou de casa, por ser gay.  Aqui vive feliz, principalmente no verão quando a praia está cheia de jovens da sua idade.

Ele tem amizade com Rashid, este agora lhe passa livros que o senhor lhe dá.

Quando voltou para casa, perguntou ao Rashid, se fazia sexo com o rapaz.  Rindo me disse que não, ele gosta de jovens como ele.  Eu tenho a ti, para que ia querer fazer sexo com ele. Apenas conversamos.   Ele no inverno se sente perdido.

Com o relato da senhora, comecei a tentar me lembrar de tudo o que tinha na memória da minha mãe, de vê-la chorar as escondidas, as vezes da brutalidade de meu irmão, de meu pai, com ela, a quem chamavam de mulher burra.   Mas era ela quem via limpando as escadas do pequeno edifício, esfregando o chão do armazém.   Uma vez escondido, vi meu pai fazer uma coisa que talvez tenha ficado na minha memória, ela estava ali de quatro esfregando o chão, ele chegou por detrás, levantou sua saia, abaixou suas roupas intimas, abriu sua braguilha, fez com que seu caralho ficasse duro, enfiou sem contemplação, quando gozou, simplesmente colocou para dentro, seguiu fazendo como se nada tivesse acontecido.  De aonde estava, vi que minha mãe chorava pela humilhação.   Talvez tenha sido quando aprendi a odiar meu pai.

Foi escrevendo tudo isso, criando um personagem.

Teria que voltar a Paris, disse a Rashid, que viesse comigo, não queria me separar dele.  Me disse que fosse tranquilo, que me esperava.

Fui conversei com o dono da casa aonde estive hospedado, me disse que estava velho demais para ir para lá.  Seus filhos odiavam ter que ir passar as férias por lá.   Eram todos casado com francesas que não gostavam de ter as pessoas em sua volta falando árabe.

Me vendeu a tudo por um bom preço.  Fui a universidade, pelos anos que tinha trabalhado, teria direito a uma excedência de quase 10 anos, depois a aposentadoria.

Embalei todos meus livros, tudo que me era querido, fotos de minha mãe, as do meu pai do meu irmão joguei no lixo.

Despachei tudo, avisei a Rashid que viesse me buscar em Orán.

Estava contente com minha volta, contei que a propriedade agora era minha.  Ficou feliz, quer dizer que não vais mais embora.

Não, agora vou trabalhar desde aqui.

Arrumei um dos quartos que ficava no alto, com vista para o mar para ser meu escritório.  Agora passava o dia ali, quando ele subia para me avisar que a comida estava pronta, me abraçava por detrás.

Quando terminei totalmente o livro sobre as mulheres, um capítulo quando tinha ido a Paris, tinha mostrado ao Editor, tinha gostado.

Agora mandava duas cópias.  Fiquei esperando que me chamasse.

Impressionante, se aquele capítulo gostei, imagina o resto do livro, uma justa homenagem as mulheres que contribuíram para o crescimento desse pais.

Quando o livro ficou pronto tive que ir a Paris, desta vez consegui levar Rashid comigo, foi temeroso.   Desta vez gostou, estávamos num bom hotel, por conta da editora, fui a entrevistas em canais de televisão, levei cópias das mesmas para ensinar as mulheres da vila.

A primeira edição voou rapidamente, um produtor se interessou pelo texto para fazer um filme, concordei fizemos um acordo, não deveriam fugir do texto.

Quando voltamos, fui visitar a senhora da vila, estava muito abalada, um grupo de jovens tinha dado uma surra em seu neto.

O levei para minha casa, queria que ele ficasse bem.   Ela adorou o livro, bem como a reportagem.

Vieram filmar aonde vivia, uma reportagem, lhe perguntei se queria participar.  Ela riu dizendo que os filhos, netos iam se surpreender com ela.  Aparecia sentada ao meu lado na entrevista, dizia seu nome.   O meu bom amigo Yenier, um dia apareceu em casa, conversamos, contei a minha história.   Sabia que ele escreveria sobre mim, sobre sua mãe, além das outras mulheres como nós que nos casaram nada mais ter 14 a 16 anos.  Fomos levadas para um pais diferentes para constituir famílias, trabalhar como burras de carga, cuidar de um marido que algumas vezes era bruto, filhos que queriam mais assimilar a outra realidade, netos que ignoram quem fomos na verdade, de aonde saímos.  Nossas história.

Eu ao final só falei da minha mãe, a perdi muito cedo, algumas cenas que podem parecer brutais, como o abuso feito pelo meu pai, é verdade, pois o presenciei escondido.  Não inventei nada em cima das histórias, procurei relatar o melhor possível.

Alguns homens Argelinos não gostaram muito, não os do pais, mas os que viviam em Paris ou qualquer outra cidade.   Quando fizeram críticas, lhes respondi que somente estava falando das mulheres, que eles me interessavam uma merda.   Se tivessem a consciência tranquila, não se chateariam com o que contava.

O filme ficou pronto, foi filmado uma parte em vários lugares da Argélia, de onde tinham saído essas mulheres, vilas pequenas, hoje algumas cidade, sem instruções, sozinhas a sua sorte, esperando encontrar uma família de apoio, o quem nem sempre existia.

Fez um sucesso, principalmente porque foi defendido por associações de mulheres.

Fiquei tranquilo, tinha conseguido um objetivo, render uma homenagem a minha mãe, bem como a essas mulheres.

Escrevi mais um dois livros, um sobre jovens que partiam para serem mão de obra barata nas fabricas francesas.  Sua adaptação, construção de famílias.

Uma entrevista que fiz, mexeu com minha cabeça, era um jovem que tinha ido, com o intuito de escapar de sua família, da pobreza, também por sentir uma forte atração por homens.

O entrevistei num hospital em Paris, durante dois dias, me contou toda sua vida, desde o começo como prostituto, depois com um emprego estável, a solidão, que ele pensava em preencher quando chegasse a grande cidade.  As frustrações de ser sempre um cidadão de segunda.  Lutava agora contra um câncer, ajudei a pagar suas despesas no hospital, quando melhorou o levei comigo para nossa casa, aonde ia crescendo de população. 

Ele se recuperou, dizia que se não tivesse tido que escapar, estaria feliz.

Houve duas invasões nas terras, avisei a polícia que na próxima vez reagiria a força.  Assim fiz, quando começaram a provocações, apareci com todo meu tamanho, com uma espingarda que comecei a disparar.

Os enfrentei, nunca mais voltaram.

Osiris foi a última pessoa a se unir a nossa comunidade.   Estava cansado de suas andanças para cumprir com suas obrigações.

Fico feliz em ver que entendeste teu caminho.

Rashid, ficou com um certo ciúmes do Osiris, mas lhe tranquilizei, podes pensar o que quiser, mas quem dorme comigo todas as noites?

Riu, se agarrando a mim.  Agora dizia que entendia o que significava amor.  As vezes ia dormir com ele no verão, no campo, olhando as estrelas, rodeados de ovelhas.

WHIT OUT

                                                 

Outra vez, desta vez tinha perdido a paciência definitivamente, saiu do cenário, foi para seu camarim, sabia que a garota estava fudendo com o diretor, por isso a tinha escolhido para o papel, chegava todo os dias com cara de sono, sem saber o texto, a voz da mesma o irritava, menos mal que era o último filme do contrato, maldizia ter deixado nas mãos do seu agente assinar o contrato com a companhia.   Na noite anterior, retirou dele seu poder para isso, quando o mesmo lhe fez uma chantagem, lhe deu um murro na frente de todo mundo.

Esse disse que o ia processar, o pegou pelo colarinho, falou bem alto, esse senhor não é de confiança, isso num restaurante que estava lotado de jornalistas, começou a falar todos os podres que tinha o mesmo, quando se fartou dele, contratou um detetive.

O outro ficou branco, atreva-se a entrar com um processo contra mim, contarei mais coisas que sei sobre ti.

Fazia par romântico com a jovem atriz, quando o diretor veio falar com ele, soltou, se paras de fuder a noite inteira com ela, pode ser que consiga representar alguma coisa.  Ou trocas de atriz, prefiro filmar tudo já feito, mas com alguém que chegue aqui sabendo o texto, não uma que cada vez que diz uma frase olha para ti.    Podem me processar, me nego a filmar mais nenhuma cena, estou de saco cheio desse filme, uma merda.

Quem depois veio falar com ele foi um dos produtores, que tinha exigido que ele fizesse o filme.    

Isso é algum castigo, o diretor é uma merda, a garota outra, tudo bem tem o direito de sonhar com o estrelado, mas começa mal, dormindo com esse idiota.   Me nego a seguir filmando, o enredo podia ser interessante se não fosse esse idiota dirigindo.

Isso tudo tinha falado com a porta aberta, mal sabia que um dos jornalista do dia anterior estava do outro lado.

Se o roteirista pega o texto da uma volta por cima no mesmo, não me importo contracenar com uma atriz, mas que a mesma pelo menos tenha talento.   Sei que sou um cara que venceu no cinema pela estampa, pelo meu físico, mas fiz aulas, aprendi a falar, a me caracterizar, enfim já não sou o merda de um canastrão de como comecei, mas tem uma coisa, não fui para a cama com ninguém para subir na vida.

Quando tiverem isso resolvido, falem comigo, ah despedi ontem à noite o meu agente, por isso agora tudo é comigo.

Saiu batendo a porta deixando o produtor dentro, o jornalista o foi acompanhando, se dobrava de rir.

Jackson você é do caralho, quer me dar uma entrevista, público tudo o que você quiser.

Olhou de cima a baixo o sujeito, não era desagradável.  Soltou junte isso com o de ontem, publique, que será como jogar merda no ventilador.   Os atores deviam ter liberdade para poder escolher os seus trabalhos.  Não seus agentes fazerem negociatas com as grandes produtoras, para ganhar dinheiro.

E se não te aparece mais nenhum contrato?

Posso voltar ao meu antigo trabalho, voltarei a ser mecânico de carros como sempre fui desde jovem.

Que me ver trabalhando, siga-me, ele vivia talvez numa das casas mais modestas de Hollywood, odiava ostentação.    O levou até a garagem aonde tinha um carro que tinha comprado num ferro velho.  Lhe disse, esse carro, pertenceu a um ator, seu filho o destroçou, estou remontando o mesmo, pois amo os carros, mostrou o torno aonde refazia uma peça que não tinha encontrado, de fome meu querido não vou morrer.

Tirou a camisa, as calças, com o jornalista o fotografando, vestiu um macacão todo sujo de graxa seguiu trabalhando, na sua cara que até então estava de um homem furioso, surgiu um sorriso, tinha se relaxado.

Realmente foi como jogar merda num ventilador, o texto das duas coisas saia na primeira página do jornal, não parava de receber chamada de outros atores, que ele sequer conhecia, elogiando seu comportamento.   Achou melhor gravar uma mensagem, pois senão não poderia escrever.

Dias depois recebeu uma chamada do produtor, seria como ele quisesse, o diretor tinha sido despedido, bem como a atriz, começariam a rodar o filme outra vez, mudando o texto como ele dizia.

Ele tinha lido o livro antes, estava baseado numa história verdadeira, disse ao produtor, que perguntasse ao roteirista se tinha lido o livro, que ele sim.

Marcaram de se ver dois dias depois.   Nessa mesma noite, chegou o novo roteiro, estava melhorado, mas ainda não era bom.  No final, tinha um número de telefone, chamou, o roteirista se identificou.

Já sei, o que vais dizer, mas não me dão muita margem, fiz outro roteiro, mas acham que não é comercial.

Venha com ele até minha casa, lhe deu o endereço.

Quando esse chegou, ele estava terminando de colocar umas peças no motor.   Só um minuto que já te atendo.

O roteirista estava de boca aberta, pela simplicidade dele.

Colocou uma calças jeans, se limpou da sujeira que tinha, foram se sentar na cozinha da casa, fez um café, pegou o roteiro das mãos dele, um lápis que usava para anotar as compras, começou a ler, a fazer anotações na lateral.

Quando terminou, entregou o texto, se o melhoras nessas coisas até amanhã, faço filme.

O outro começou a ler, vão me matar se apresento isso.

Primeiro vamos comer.

Foi para a geladeira, começou a tirar coisas, preparou uma salada, perguntou se gostava de carne, como queria, preparou um prato para o outro, fez o mesmo para ele.  Sentou-se começou a comer, o outro quis argumentar, colocou um dedo na boca, fazendo silencio, coma.

Quando terminaram ele foi lavar a louça com o outro o olhando.

Só fez uma pergunta, tens algum texto teu bom?

Sim, tenho vários textos.

Pela reforma que fizeste nesse, se vê que sabes escrever, me mande dois que aches o melhor.

Nunca foram aprovados, os acham pesados para o cinema comercial.

Essa gente não sabe de nada.

O acompanhou até a porta.   Amanhã nos vemos.

Chegou ao studio no seu velho jeep como sempre, era outro que ele tinha reconstruído inteiramente, tinha ficado destroçado numa filmagem, ele viu, comprou a sucata.

Sentou-se na sala de reunião, numa ponta da mesa, que normalmente era do presidente da companhia, quando esse entrou, não se levantou, nem mudou de lugar, obrigando o mesmo a sentar-se na outra ponta.

O produtor, começou uma lenga, lenga cheio de palavras bonitas.

Ele se levantou, não vim aqui para escutar essas baboseiras, ontem vi outro roteiro, melhorado, falei como roteirista, se fazem as mudanças volto.

Até logo, da porta disse, podem me processar, alias meu advogado me disse que ganho fácil.

Foram eles que foram a sua casa, dizendo que estavam perdendo muito dinheiro por culpa dele.

Da próxima vez, contratem um iniciante para fazer essa merda, um coitado que ainda não tenha aprendido nada.

Bom vimos o novo roteiro, sabemos que você já leu, vamos fazer dessa maneira, falou quem seria a atriz.

Bom tudo bem, mas quero o roteirista acompanhando a filmagem.

Em dois meses acabaram o filme.   No dia seguinte despediram o roteirista, ele soube, não se preocupe, falou por telefone, aliás você me deve uma, cadê o texto que te pedi.

Te espero em casa, quero um parceiro para dar uma volta no meu carro novo.

Quando ele chegou disse, o carro ficou fantástico.

Deram uma volta, pararam num bar na praia para tomarem alguma coisa, não te preocupe, eu te ajudo.

Olhou diretamente na cara do Andrew, riu, mudaste, já não estás tenso como da primeira vez que te vi.

É que contigo é fácil falar, não ficas perdendo tempo.   Não sei se vais gostar do texto, o personagem principal é gay.

Me importa um caralho isso.

Voltaram para sua casa, ele tinha um pequeno escritório, abarrotado de livros, um dos meus passatempos, desde garoto.  Ler.

Indicou uma das poltronas, se sentou na outra, acendeu o abajur, colocou um óculos, começou a ler, com um lápis suspenso no ar.   Começou a anotar coisas nas laterais, depois pegou um bloco, seguiu fazendo, lhe pediu para se servir de whisky, disse aonde estava, seguiu lendo, as vezes parava para anotar coisas.

Andrew, me desculpe, mas é que andei fazendo um curso de literatura, depois um de escrita de roteiros.

Olha, sente-se aqui do meu lado, nesse pequeno escritório, tinha como mesa, uma que tinha encontrado no lixo, ele mesmo restaurou, devia ter sido uma mesa de cozinha de algum restaurante antigo, passou meses limpando, colocou depois de pronta um vidro por cima, assim protegia a madeira.

Veja, essa parte, falas de uma coisa dura, mas sem usar palavras como uma pessoa falaria, se fosse comigo, eu soltaria de imediato um “caralho”, parece que tens medo de usar palavras que as pessoas quando estão sobre pressão falam.

Veja nesse encontro do personagem, esta caramelizado, como se fosse um romance entre duas pessoas românticas, mas os dois não são, um é ladrão, o outro é um estafador, você acha que eles fariam isso, o mais fácil era que um lutasse contra o outro, para ver quem é o mais forte, quem come o cu de quem.

Andrew, se matava de rir, só podia esperar isso de ti.

Mas agora, nem pagar meu aluguel posso, não terei lugar para escrever.

Essa sala te basta, podes vir fazer isso aqui, porque irei montar esse filme, nem que gaste até o último tostão que tenho.

O levou para a parte de cima da casa, que era simples, mas os dois quartos era como suítes, com banheiros normais, nada de luxo.   Ele tinha comprado essa casa, reformado, com sua cabeça de homem.

Podes ficar aqui se quiseres, depois já veremos.

Venha vamos comer, porque fiz uma salada com peixes, mariscos, que encontrei hoje de madrugada no mercado.

Como de madrugada?

Tenho um problema para dormir, durmo o necessário, depois levanto muito cedo como fiz a minha vida inteira, tenho que trabalhar, fazer alguma coisa, só fico sentado aqui se estiver lendo um roteiro, ou um livro.

Ok, tenho que sair do apartamento que era do studio, até amanhã.

Depois de comermos, iremos até lá, trazes tuas coisas.

Por que fazes isso por mim?

Primeiro porque te meti no meio de uma briga minha, segundo porque gostei do texto.

Depois de comerem foram buscar as coisas do Andrew Nort, eram poucas coisas, para ele a mais importante era seu Laptop, além de uma velha impressora.

A principio pensou que Jackson quisesse alguma coisa com ele, mas viu que ele continuava seu trabalho como se nada tivesse acontecido, um dia lhe perguntou como conseguia tanta calma, respondeu que um dia tinha perdido tudo, por isso nada lhe preocupava.

Não entendeu muito a frase, pois o que sabia dele, era pouco, um ator com certa fama, não se falava de sua vida particular, tinham inventado uma história sobre seu passado, que numa recente entrevista ele tinha desmentido, isso tinha sido coisa do studio.

Agora estava livre para fazer o que quisesse.

Ao final do dia, vinha ver o que ele tinha escrito.  Tornava a fazer anotações que voltava a passar para ele.

Quando terminou o texto, disse, agora espere-me, no dia seguinte, tinha um envelope em cima do balcão da cozinha, para as despesas segundo ele.

Começou a trabalhar um segundo texto, já tinha agora uma linha de pensamento, quando volte vou lhe oferecer esse.

Voltou 15 depois, perguntou se podiam mudar a localização da história.

Claro que sim, isso podia ter acontecido em qualquer lugar.

Ok, vamos filmar em NYC, tens que rever o texto, adaptando para isso.

Tomaram um voo, para lá, ele tinha a chave de um apartamento, simples perto de Chinatown, se instalaram, o avisou que dentro de dois dias, tinham que falar com um diretor de cinema.

Esse quando leu o texto, ficou olhando seriamente a cara de Jackson, vais filmar isso?

Sim, mas tu serás o diretor.

Abaixou a cabeça, começou a ler atentamente o texto, quando acabou, perguntou qual o papel que ia fazer nisso?

Respondeu que o homem que abandona o outro, após um romance, era o segundo papel, não o primeiro.

Então quem vai fazer o papel principal?

Já verás.   Ele foi reunindo pessoas que sabiam que eram gays dentro do armário, que já não podiam mais.

Quando começaram a rodar o filme, na primeira reunião ele avisou que tinham menos de um mês para fazer, pois todos tinham compromissos.

O diretor se surpreendeu com Jackson filmado, metade de suas cenas, ele estava nu na cama, com outro homem, depois aparecia depois de alguns anos, mais gordo, meio calvo, arrependido da sua decisão, na verdade a parte romântica era só os primeiros 15 minutos do filme, depois era a derrocada de um homem que se achava atrativo, que conseguia levar qualquer um para a cama.     O homem pelo qual tinha sido apaixonado, a partir da mudança de época, era um professor da universidade, continuava tão sério como sempre.

Quando volta a aparecer, pois tudo na vida tinha lhe saído como uma merda, já não era a mesma pessoa.   O outro nem lhe reconhece quando o aborda na rua.  A partir desse momento o filme é ele contando para o outro sua degradação.  Um mal marido, homem perdido em si mesmo, que não para em emprego nenhum, pois no fundo nada lhe interessa.  Que tem encontros furtivos com outros homens, até que é rechaçado por já não ter o encanto que tinha antes.   A mulher o abandonou, levando seu filho, a única pessoa que ele no fundo ama.

O professor cuida dele, apesar de ter sida, até o final, tinha sido seu único amor na vida.

Quando viram o copião, o diretor disse, que ele acabava de ter-se construído como ator.

O filme antes passou em vários festivais, chamando muita atenção, conseguiram um distribuidor.   Numa entrevista, lhe perguntaram como tinham sido as cenas de sexo, ele muito sério, disse que reais, realmente tivemos sexo.

A cara do jornalista era de surpresa.

Vê querias que eu dissesse que era tudo uma mentira, cenas técnicas, etc.

Não seja preconceituoso, encare como um filme real, pois o personagem é quase verdadeiro, quantos não passaram por esta situação.

Embora os dois atores tivessem indicados para os Tony’s, ao Oscar, nenhum dos dois ganharam nada.

O Andrew vinha trabalhando sempre na segunda história, como se soubesse tudo que ele escreveria nas margens.   Quando lhe mostrou o texto, ele o leu inteiro, deu uma risada, filho da puta, me tirou o prazer de fazer qualquer comentário.

Já conheço tua cabeça com relação a isso.  O filme tinha dado lucros, ele deu a parte do Andrew, pegou o texto novo, analisou profundamente, as vezes meu amigo, acho que ficaria bem isso sim montar no teatro primeiro, porque todo o filme era simplesmente na mesma localização.  As poucas cenas que eram de exterior, podia ser gravadas passadas no fundo do palco segundo ele.

O mesmo diretor aceitou dirigir no teatro, que era sua formação original.  Alugaram primeiro uma sala para trabalhar o texto, o difícil estava ser conseguir um outro ator.

Tinha que ser uma pessoa mais velha do que ele, terem alguma coisa parecida.

Um dos que vieram fazer casting, era um ator caído em desgraça, tinha perdido toda sua carreira por causa das drogas.   Agora recuperado, queria voltar, mas fazendo teatro.

Os dois em cena, era difícil, ele mais jovem, um corpo fabuloso, o outro uma figura deprimente.

Era o famoso, olha como serás amanhã.

Ensaiaram dois meses, fizeram primeiro off-Broadway, era um tour de force entre os dois em interpretação, o público ao final, aplaudia de pé.

Quando estreou num teatro pequeno na Broadway, foi sucesso durante muitos meses.  Agora estamos prontos para transformar em filme.

O outro ator, pensava que escolheriam outro para fazer seu papel.    Acharam a localização, agora as cenas eram metade numa cidade pequena, a beira de um deserto, no meio do nada, resolveram filmar em branco e negro como antigamente, só no final, era como se a realidade fosse colocando cor nos personagens, tudo se passava num motel na beira de uma estrada que levava a lugar nenhum.

Um crítico dizia que no teatro, era fácil de aguentar, pois havia um distanciamento, não se vida perfeitamente as caras, mas ao ver os closes, era muito forte, recomendava que as pessoas tivessem estomago para ver.

Desta vez, ganharam dois prêmios, principalmente no texto. Os dois foram super aplaudidos no festival de Cannes, no de Berlin.

Ele já não era o ator que fazia filmes românticos.

Tinham estado discutindo vários textos, o Andrew, agora mais conhecido, lhe procuravam, ele foi honesto, se queres podes ir quando queiras.   Inclusive se falava que os dois tinham uma relação homossexual.    Nada mais longe da verdade.   Nunca tinham se tocado.

Quando numa entrevista na televisão, lhe fizeram essa pergunta, cortou o entrevistador, eu te pergunto como levas tua relação, falou o nome de um ator famoso.

Vê, se eu tivesse um relacionamento com ele, diria, mas é um dos meus melhores amigos, os dois fomos repudiados por Hollywood, unimos nossas forças para fazer bons filmes, podemos conversar de qualquer assunto, estudamos ideias, analisamos cada palavra de um texto.

Mas o dia que dormir com ele, vou te telefonar para dizer se foi bom ou não.

Agora uma pergunta, que tal é dormir com teu namorado.

No dia seguinte, as manchetes não eram se ele dormia ou não com o Andrew, mas com quem dormia o entrevistador.

Quase perdeu o programa, além que seu namorado, deu no pé, foi fazer um filme na França.

Discutindo com o Andrew, disse, é se fizéssemos um filme sobre isso, o quanto levar a vida tão escondida, pode afetar uma pessoa.

Estavam escrevendo juntos pela primeira vez, quando um belo dia, lhe chamaram por telefone, Andrew só o escutava dizendo sim, ok.  Vou, pode deixar.

Agora que confio em ti, venha comigo, verás de aonde sai, para ser como eu sou.

Tomaram um voo para Las Vegas, quando chegaram foram a um lugar de luxo, uma casa de prostitutas de luxo.

A cara do Andrew era de surpresa, pois Jackson não disse uma palavra durante o voo, apenas estava sentado com as duas mãos juntas, como se rezasse.

Quando os levaram para um quarto no último andar, tinha uma senhora deitada apoiada em muitos travesseiros, se via que tinha sido uma mulher linda, pois ainda conservava seus traços.

Jackson, correu até ele, perguntando o que tinha acontecido.

Quando a mulher abriu a boca, tiveram que rir.

Esse filho da puta do câncer teve que me pegar, mas o vencerei, nunca o deixarei que me mate, matarei eu a ele.

Era a mãe do Jackson, ele a tratou com todo carinho possível, perguntou se queria ir viver com ele.

Ela soltou uma risada com sua voz rouca, para que vou te dar trabalho, se nunca cuidei de ti.

Porque não vendes tudo isso, podes vir viver comigo em Los Angeles.

Mas filho, as pessoas vão falar.

Me importa uma merda, os dois tinham a mesma maneira de falar.

Ela concordou, vendeu tudo que tinha ali, a um grupo, foi de ambulância para a casa dele nas colinas de Hollywood. 

Era ele quem a levava ao hospital para a quimioterapia, os dois faziam com que se alimentasse direito.   Ela dizia que tinha recuperado dois filhos.

Mas seu corpo foi definhando, um dia sentou-se muito reta na cama, cantei vitória cedo demais, chegou a hora de acertar contas essa é a verdade.

Andrew, disse vou deixar vocês dois conversando.

Ela olhou para o Jackson, ele não sabe de nada?

Não, sempre achei que tinha que ser a senhora para contar.

No dia que disse que tinha recuperado dois filhos, era uma verdade, tu eres irmão do Jackson, de pais diferentes.   O pai do Jackson, conheci quando jovem, numa pequena cidade do interior, daquelas que o diabo esquece de passar.   Mas eu queria mais, era bonita, queria ser famosa, ser artista de cinema.   Um belo dia descobri que estava gravida, o tive, deixei com seu pai, que era o mecânico da cidade, roubei seu carro fui embora.

Oito anos depois te tive, mas não queria ser mãe, essa era a verdade, já sabia que seria uma péssima atriz, pois apesar de ser bonita, haviam mil outras como eu.

Me tornei uma prostituta de classe, sabia me comportar, escutar aos homens, até que resolvi montar um negócio.   Quando tu nasceste te dei em adoção a um casal que se parecia fisicamente com o homem com que tinha tido o relacionamento.

Depois fui para Las Vegas como sócia desse local, meu negócio era conseguir moças bonitas para acompanhar homens solitários, ou que necessitavam aparecer com uma mulher atraente, ou mesmo que fossem putas.

Foi ela quem financiou no nosso primeiro filme, me deu o dinheiro, porque sabia que eu tinha te encontrado.

Andrew tinha aprendido a querer essa mulher, foi franco, nesse momento, num filme trágico, o filho desprezado, sai batendo a porta, mas aprendi a te amar, conversar contigo.

Por isso achei estranho que tivesse perguntado se eu tinha alguma vez feito sexo com Jackson, nunca aconteceu nada entre a gente, ele me ajudou, agora entendo muitas coisas.

Os dois cuidaram dela, nos seus últimos dias, deixou todo o dinheiro que tinha para os dois, fazerem o que gostavam cinema, que ela nunca tinha podido fazer.

Depois do enterro, os dois se sentaram, falaram longamente sobre tudo, ele queria saber como o tinha encontrado.

Foi ela que me disse, teu nome, quem eram teus pais adotivos, nunca deixou de saber de nenhum dos dois.

Eu descobri, porque acabei sendo criado por sua irmã, quando esta morreu, descobrir as cartas que escrevia mandando dinheiro para me cuidar.

Meu pai, era um alcoólatra, eles nunca tinham sido casados, então se casou com uma mulher que apareceu pela cidade, tiveram vários filhos.

Minha tia tinha feito uma coisa, todo o dinheiro que ela mandava, guardava num banco, era uma mulher moralista.  Me deu acesso a esse dinheiro.  Esses anos todos trabalhei para meu pai, que me explorava, sempre me chamando de filho da puta.  Levei muitos anos para entender.

Quando estudava, me apaixonei por um companheiro de classe, sua família era a mais importante da cidade.   Quando ele foi embora para fazer universidade, um grupo de rapazes, me deu uma puta surra, pois eu era o mais bonito deles todos, mas eram muitos, acabaram me deixando desmaiado, então aproveitaram abusaram sexualmente de mim.

Passei vários dias no hospital da cidade ao lado, meu pai, disse que o melhor que eu fazia era ir embora, como minha mãe tinha feito, pois senão acabaria como ela, sendo uma puta.

Quando o advogado de minha tia me procurou, me deixava sua casa, bem como um pacote de cartas, dinheiro no banco.   Na carta me explicava, quem era minha mãe, aonde estava, claro estava nos envelopes, o dinheiro no banco.  Vendi sua casa, retirei o dinheiro do banco, como sabia quem eram os que tinha abusado de mim. Fui abusando de cada um, o que tinha sido o principal, quis me matar, mas eu o matei primeiro, fiz seu corpo desaparecer.

Para todos os efeitos eu já tinha ido embora da cidade, ninguém nunca suspeitou de mim.

Fui para Las Vegas, para conhecer minha mãe.   Você viu como ela era, fiquei deslumbrado com seu glamour, a maneira como tratava os homens que procuravam pelos serviços das mulheres que trabalhavam para ela, cuidava de cada uma como se fosse uma mãe.

Peguei o dinheiro vim para cá, comecei a estudar, a ler, fazer cursos de teatro, pois gostava, ao mesmo tempo trabalhava numa oficina de carros, um dia um desses caçadores de talentos me descobriu, aí foi fácil.

Quando te conheci, levei uma foto tua, para ela, me dizia que eres idêntico ao teu pai verdadeiro.   Foi quando te convidei para ficar aqui em casa.

Só voltei uma vez a cidade que tinha saído, foi para o enterro do meu pai, os caras que abusaram de mim, bem como os que eu abusei, tinham medo de se aproximar, a lastima foi encontrar o amor de minha juventude, casado, gordo, feio, decepcionado com sua própria vida, quando fizemos o nosso primeiro filme, me baseie nele para compor meu personagem.

Sei que ele viu o filme, porque me procurou, mas não representava mais nada para mim.

Se perguntas se tenho aventuras, te digo que não, mas simplesmente porque nunca encontrei uma pessoa que me apaixonasse.  Depois estava involucrado nisso, no nosso trabalho, para sermos respeitados.   Se quiseres agora desfrutar tua parte do dinheiro, escrevendo para outros atores, diretores, isso é contigo.    Por mim ficas aqui.

Estavam cansado dos últimos meses, resolveram fazer uma viagem.  Discutiram como sempre, tinham feito, analisado aonde gostariam de ir.

Acabaram indo para fazer uma grande viagem pelo Canadá, entraram por Vancouver, foram descendo até Toronto.

O diretor que tinha feito os dois filmes, os chamou, tinha comprado os direitos autorais de um livro, queria que eles dessem uma olhada.

Foram para NYC, os dois gostaram do texto.  Mas claro viram que era um livro póstumo, se surpreenderam, o autor do livro tinha morrido de aids a pouco tempo.

Os três começaram a trabalhar no texto, nesse tempo Marc Gregory, tinha deixado a tempo sua relação com um escritor.

Então passava o tempo todo com eles, quando lhe perguntou se queria fazer o papel do rapaz, disse que não tinha mais idade, mas foram conhecer o pai do mesmo James Jameson, que tinha acompanhado toda a doença do filho, era conhecido, por estar sempre presente no hospital aonde o filho tinha passado os últimos dias.

No livro, sempre mencionava o pai, mas ao conhece-lo pediram licença para incluir seu personagem com mais força.  Jackson, sempre se encontrava com ele para ir ao hospital, ou fazer alguma palestra, entre os dois nasceu um relacionamento.

Que ia pensar isso, lhe dizia, primeiro eu era homófono, quando soube que meu filho era gay, me revoltei, depois hoje penso que se o tivesse aceitado, orientado, hoje estaria aqui.

Mas ele me perdoou, pois sabia como tinha sido minha vida.   Agora estou contigo, penso que perdi tempo.

Ele decidiu fazer o papel do pai, o duro foi encontrar um ator que pudesse fazer o papel do filho, foi difícil, mas conseguiram.   

Notou que Marc se aproximava cada vez mais de seu irmão, quando reparou, os quatro era como dois casais.

O filme foi um sucesso, ele ganhou dois prêmios pelo papel de pai, bem como Andrew ganhou um Tony pelo texto.   Mas os Oscar continuavam fechados para esse tipo de filme, mesmo que fosse sério.

Como sempre pensava os relacionamentos era complicados, James um dia lhe soltou em plena cara que necessitava de espaço, voltou para sua antiga casa, para procurar um sentido para sua vida, aos poucos foi se afastando, Andrew lhe perguntou se não ia fazer nada para prendê-lo?

Nem pensar, uma pessoa estar contigo só por isso não vale a pena.

Estiveram os dois escrevendo, cada um, uma história diferente.

Jack escreveu basicamente sua história, desde jovem até que veio para Los Angeles, mas como sempre, depois foi mudando a história, retirando as partes que não interessavam, mas não queria falar do que tinha feito com os abusadores.

Justamente um dia, leu uma noticia nos jornais online, que um jovem tinha feito justamente isso, tinha se vingado dos seus abusadores, um a um, não tinha deixado pedra sobre pedra. Sua pena seria reduzida, pelo agravante do abuso, quando se descobriu que o mesmo grupo tinha feito isso mais vezes.

Conseguiu uma entrevista com ele.  Quando chegou ao presidio, encontrou um jovem extremamente musculoso, este lhe contou sua história, era fraco, um bom estudante, os mesmos, já o maltratavam a saída da escola.

Uma noite o cercaram quando voltava de seu trabalho num supermercado, entre todos abusaram dele, o deixaram pensando que estava morto, graças a uma vizinha, chegou ao hospital, seus pais tinham mais idade.  Tiveram que o operar por causa dos desgarros anal.

Seus pais se mudaram para outra cidade, mas seu ódio era tão grande, que nesse outra cidade, começou a ir ao ginásios a se preparar para sua vingança.    O fez um a um, ninguém conseguia descobrir quem era.  Pois já não vivia lá.  Matou a todos, cortava os genitais, o deixava enfiado na boca.

Um deles era filho do xerife, esse obrigou o filho a ficar na delegacia o dia inteiro, quando ele confessou ao pai, porque sabia que seus amigos estavam sendo assassinados, ficou horrorizado, pois pensava que o filho tinha sido bem educado.

No dia que este saiu para ir para casa de noite, o filho levou um tiro na cabeça.  Foi quando conseguiu capturar o jovem.

Esse confessou tudo, acabei com o último, minha vingança está feita.

Os dois escreveram o roteiro do filme, ele foi várias vezes levar o roteiro para o jovem ler. Quando este aprovou, Jack resolveu ele mesmo produzir, dirigir pela primeira vez um filme.

O duro foi encontrar o elenco, mas conseguiu, ao mesmo tempo o papel principal, era difícil, pois na primeira parte era uma pessoa frágil.

O filme foi considerado como cru demais, passou nos festivais, depois nos cinemas de arte, nenhum distribuidor se atrevia a exibi-lo nos cinemas.

Entrou depois em streaming num canal de televisão que sim atrevia a mostra-lo.  Com tudo isso, foi candidato a um Oscar, pela direção do filme, nem foi a gala, não lhe interessava, mas no último momento resolveu ir, pois o jovem tinha sido assassinado na prisão.  Pela primeira vez deu uma entrevista falando nisso.   Os abusos, os pais que pensavam que os jovens estavam bem educados.  a falta de perspectiva da vida numa cidade do interior, aonde muitos pensam nisso, o poder das classes dominantes.

Acabou ganhando o Oscar, que dedicou ao seu irmão, sua mãe que tinha acreditado nele, depois falou o tempo restante justamente nisso, dos abusos.

Quando o jovem reclama, ninguém o tinha escutado, nem o próprio xerife.  Há que escutar os jovens.

Recebeu uma carta de uma jovem que tinha sofrido coisa igual, agradecendo, finalmente me escutaram.

Receberam um texto de um jovem, que não colocava o nome, tinha deixado o texto na caixa do correio deles.

Quando leram, era estarrecedor, um jovem que tinha sido vendido pelos pais, para terem dinheiro para drogas, a pédofilos, o alugavam, quando chegou a uma idade que podia se defender, matou os pais, fugiu para o outro lado do pais, contava os detalhes de cada abuso, inclusive, quando aprendeu a ler, escrever, falava dos nomes dos homens que tinham abusado dele.   Consultaram um advogado para isso.

Quando consultaram a lista, viram que todas essas pessoas tinham sido assassinadas misteriosamente.   Junto com o texto, tinha uma nota, se puderem faça o filme, não me arrependo de nada.

Escreveram mil vezes o roteiro em parceria, a verdade era muito crua, pois ele descrevia os detalhes.   Um dia saíram para caminhar, para irem conversando.  Quando voltaram para casa, sentado no sofá encontraram um jovem.  Por um acaso era muito bonito.

Vi os textos em cima da mesa, li pelos menos os dois últimos, qual o problema?

Não estamos conseguindo jovens para fazer o papel, pois tudo é muito cru.

Se querem eu mesmo faço esse papel, mas o problema era encontrar um que fosse criança.

Como explicar isso a um ator criança?

Mas estamos batalhando. Só lhe perguntaram se tinha sido ele que tinha matado todos os pédofilos?

Sim, um a um, pois a partir de certa idade, memorizava o local, o endereço dos mesmos, nome tudo, anotava num papel, colocava escondido numa caixa, perto do lugar aonde vivíamos.

Meus pais, cheguei a denuncia-los, mas ninguém me fez caso.

Por isso num dia que estavam extremamente drogados, os enforquei, já tinha força suficiente para isso, depois desapareci.

As notícias estiveram uma semana nos jornais, depois ficou tudo por isso mesmo.

Foi quando comecei a me vingar, sempre era a mesma coisa, ninguém fazia nada.

Por isso escrevi a história.

Se levantou, se despediu, sumiu o mapa, eles começaram a buscar as notícias, conforme a época que ele tinha descrito, era uma verdade, foram entrevistar a polícia a respeito, o caso seguia em aberto, mas os pais eram drogados, nunca encontramos indicio que tinham um filho.

Quanto aos pédofilos, nos fez um favor.   Os policiais não sabiam que estavam sendo gravados.

Só um disse que a maioria dos pedófilos tinha sido denunciados, mas que sempre eram gente de dinheiro, que tinham advogados, que sempre conseguiam escapar.

Com o dinheiro que tinham começaram a preparar a produção.   Receberam um bilhete, indicando um jovem ator, quando falaram com este, disse que ele tinha passado pelo mesmo, que acabava de se livrar dos pais, que viviam as custas dele, desde jovem, explorando seu trabalho.  Queria fazer o filme.   Já tinha passado pelo escândalo, de ter que conseguir com 16 aos sua independência, ele mesmo tinha sido abusados várias vezes.

O problema continuava sendo a criança.  Nenhum juiz ia permitir um menor para fazer o papel, foi então que conheceram um desenhista, resolveram misturar ficção com a realidade, o ator falando dos primeiros abusos, imediatamente a cena passava a ser em desenho animado, mas totalmente cru, era como um choque entre a realidade, como imaginava a pessoa do abusos.

Foi um trabalho que era uma catarse.   Foi tremendo, meses de filmagem, em absoluto segredo.

Quando estreou no festival de Sundance, foi um impacto, porque os desenhos quando tomavam conta da tela, era impressionante sua crueza.

Rodou todos os festivais. Numa entrevista um jornalista perguntou por que se dedicava a fazer esse tipo de filme, porque nunca havia romance nos seus filmes.   Os outros jornalista começaram a rir do mesmo.

Não preciso responder verdade, se estão rindo da tua ingenuidade, é sinal de que não estás preparado para fazer perguntas.

Tinha acabado de lançar em circuito comercial o filme, foi um sucesso, mas talvez por ser tão cru, só o ator jovem foi indicado a concorrer, este deu uma entrevista, pedindo que seu trabalho não fosse premiado, pois se tornaria numa coisa banal.

Ganhou um prêmio, mas se negou a recebe-lo.

Ele com seu irmão, seguiram trabalhando, fazendo filmes que denunciavam alguma coisa. Não só a nível de sexo, mas de qualquer tipo de história que chegasse ao conhecimento deles.

Já tinham sua idade, quando leram nos jornais, a história de uma mulher policial, que durante anos tinha se drogado, feito misérias da sua vida pessoal, por não conseguir enfrentar o dia a dia de tanta miséria.

A entrevistaram numa clínica, esta contou como tinha começado, tinha sido ao trabalhar de infiltrada numa gang.  Que a policia depois simples mente bateram no seu ombro, ganhou uma medalha, ficou tudo por isso mesmo.

Mas era excelente no seu trabalho, cabeça dura, ia até resolver o caso.  Tinha visto tantos horrores que precisava de uma ajuda.

Conseguiram uma atriz que estava batalhando um papel interessante, depois de fazer mil vezes papeis românticos.  A transformação da mesma para fazer o papel foi impressionante.  Fez um sucesso absoluto no cinema, mas os críticos não gostavam do seu novo estilo de representar, tão cru.    Mas claro lhe choveram ofertas de trabalhos diferentes, agradeceu aos dois a oportunidade.

Seguiram suas vidas adiante, Jackson nunca mais manteve romances com ninguém, dizia que não se sentia bem, que a realidade sempre era outra.

Andrew depois que perdeu o Marc, para um câncer, que os dois tinham ajudado o outro até o final.  Sentia o mesmo, nunca mais estaria preparado para outro relacionamento.

Escreviam todos os dias, mas lhes faltava uma ponto de partida forte.

Algumas vezes entrevistaram alguém, motivo de alguma reportagem, mas essas pessoas não queriam ver suas vidas retratadas na tela.

Poderiam sim escrever uma história paralela, mas não era o que queriam.  Queriam retratar a realidade.

Foram se afastando disso tudo, Andrew escreveu um livro, contando desde sua infância, ao encontro com o irmão, foi um sucesso.  Depois outros dois.

Jackson, nunca esteve interessado em escrever livros.  Com quase 70 anos, disse que já tinha tido o suficiente.    Quando lhe perguntavam alguma coisa, dizia que estava fora de circuito.

JAGUARIBE

                                      

Agora depois de tantos anos vivendo fora do Brasil, voltava, finalmente os detetives tinha descoberto aonde sua mãe estava.  Queria vê-la, agradecer a saída que tinha dado para ele, uma nova vida.

Viviam no interior do Rio Grande do Sul, no final do país, nas terras de seu avô alemão, como descobriria depois, um fugitivo da justiça da segunda grande guerra, como muitos aliás nesse interior do Brasil.

Ele era o terror dos vizinhos, chegou com a mulher, uma austríaca, um filho pequeno, uma mão na frente, outra atrás, de repente, tinha dinheiro para comprar terras, ninguém sabia de aonde tinha tirado.

Comprou de um alemão, que a família toda tinha ido embora, pela dureza de trabalhar as vinhas.  Cultivavam uvas, a maneira alemã, para fazer vinho branco, mas não tinha muita saída.

Ele insistiu ano atrás ano, enquanto todo mundo passava aperto, ele nunca tinha problemas.

Quando meu pai ficou adulto, mal tinha ido a escola, quem lhe ensinou a ler, escrever foi sua mãe, mas falava um português carregado, como se tivesse chegado no dia anterior da Alemanha.

O obrigou a casar-se com a filha de um vizinho, que era solteira, tinha voltado a pouco tempo de Porto Alegre, para ajudar a família, era professora na vila mais próxima.  Ele queria sim aumentar suas terras, com as do vizinho que criava gado.

Meu pai, era um perfeito boneco nas suas mãos, fazia todas suas vontades.

Quando nasci, o velho ficou satisfeito, dizem que disse, um perfeito exemplar de raça ariana, mal sabia que a mulher do vizinho era uma mulata muito clara, mas claro a mesma já tinha morrido.

Minha avó, era uma mulher que nunca dizia uma palavra, pareciam que lhe tinha cortado a língua, ele a destratava na frente de todo mundo.

Eu escutava em pequeno todo mundo o chamar de filho da puta, quando pediu que eu dissesse avô, lhe disse filho da puta, se matou de rir.

Primeiro aprendi alemão, mas minha mãe só falava comigo em português, ele ficava furioso, mas ela o ignorava para tudo, continuou dando aulas, quando ela foi morar na casa deles, chegou o final do mês, ele pediu o seu salário, o mandou tomar no cu.

Ele começou a gritar, dizendo que meu pai devia dar uma surra nessa mulher que não obedecia, meu pai levantou os ombros, pois tampouco conseguia que ela o obedecesse.

A primeira vez que o velho ousou a levantar a mão para ela, ela estava cortando carne na mesa da cozinha, enfiou a mesma em sua mão apoiada na mesa.

Seu velho filho da puta, experimente outra vez, que lhe corto esses ovos nazistas, exibo em praça pública.

Ele nunca mais ousou nada com ela.   Ela incentivava meu pai se rebelar, mas ele tinha sido treinado pelo velho, para lhe obedecer.

Fui a escola, ia com ela todos os dias, passava pela casa de um vizinho, eram italianos, recolhia o filho deles,  Giovanni, íamos os três na caminhonete Ford que ela usava.  Na casa dele era igual, só falavam italiano, então instituiu, na caminhonete só falaríamos português, que ela ia corrigindo.

Éramos bons alunos, foi meu único amigo na minha infância, logo quando acabamos esse período escolar, ela nos levava até a vila, depois íamos de ônibus com outros garotos até uma cidade maior, a uns 40 quilômetros.  A tarde se não voltávamos de ônibus ela ia nos buscar.

Os dois sempre que podíamos, íamos tomar banho de rio, que passava justo na divisa das terras do velho, com a dos italianos.

Descobri o sexo com ele, adorava segurar meu caralho, colocar na boca, finalmente consegui enfiar aonde devia, ele delirava.    Um dia fui chegando ao rio, não tínhamos combinado, mas minha mãe me liberou, quando cheguei o vi dando o rabo para um peão de seu pai.

Eu fiquei de longe me masturbando, o homem viu.   Já não quis nada com ele, vinha pelo que via pendurado entre as minhas pernas.   Com ele descobri toda a sacanagem.

Mas acabou despedido, porque o pai do Giovanni viu o homem comendo seu cuzinho.

Ainda ficou uns dias ali perto do rio, escondido, eu lhe levava comida, ele me ensinou como fazer as coisas.

Giovanni a partir desse momento deixou de ir a escola, seu pai dizia se tinha tempo para fazer sacanagem, devia trabalhar.  Agora o via raramente, num domingo, quando fazia calor, no Rio tomando um banho, com o tempo ficou com um corpo perfeito, me deliciava dele.

Nunca o mencionava em casa, para não ter problema.

O velho agora ficava sentado na varanda, reclamando ora do calor, ora do frio, alguma coisa acontecia com ele, mas se negava ir ao médico.

Quando acabei o segundo ciclo, tinha 17 anos, minha mãe, vinha a um ano falando com meu pai, que eu deveria ir para Porto Alegre fazer a faculdade, ele como nunca tinha estudado, queria que eu viesse ajudar na fazenda.  Minha mãe dizia, que nem pensar.

Eu queria fazer Engenharia Mecânica, mas isso na época só em São Paulo ou Rio de Janeiro.

Nunca lhe perguntava, mas ela conseguia folhetos para que eu olhasse aonde queria estudar, dizia que tinha amigos em Porto Alegre.

O velho cada vez mais estava inchado, gordo ali sentado, gritando com meu pai, que abaixava a cabeça, ou com ela, mas isso é nada era a mesma coisa.

Um dia começou a gritar que na caixa que guardava dinheiro escondido, tinha desaparecido quase tudo.   Quando falou com ela, fez cara de santa dizendo que nem sabia que ele tinha dinheiro guardado, que deveria estar num banco.

Ele gritou que os bancos era de judeus, esses nunca veriam a cor do seu dinheiro.

Um final de semana que havia festa na vila, ela me disse, te prepare para ir para a universidade, não leve muita, coisa, depois compras o que necessitas.

Avisou meu pai que iriamos ajudar na barraca da escola.   De madrugada a vi se mexendo pela casa, deu uma medicina para o velho, depois saiu por detrás, abriu a caixa que ele tinha escondido, colocou tudo numa mochila que era minha, eu estava na cama, mas vestido para ir embora.

Subimos na velha caminhonete, o velho reclamou quem ia lhe dar o café da manhã, ela respondeu rindo, ao bunda mole do teu filho.

Saiu as gargalhadas, me disse, a vingança, quando é cozinhada em fogo lento, sempre sabe melhor.   Para que nunca te enganes na vida, saiba valer a tua vontade.

Paramos, recolheu uma caixa que tinha enterrado embaixo de uma árvore, me disse rindo mais dinheiro do velho filho da puta.

Me contou quem ele era na verdade, um oficial nazista que tinha se escondido ali, o pai dela também era, pois tinha se casado com uma mulata muito clara, pode ser que algum dia tenhas tu um filho negro.

Eu era loiro, alto, com corpo forte de trabalhar duro no campo, olhos azuis, mas tinha os cabelos loiros crespos.

Nunca poderás usar o nome de teu pai, pois acabaram vindo atrás deles, por isso não queria que fosses a universidade, mas esses filhos da puta não sabem com quem estão lidando, com uma descendente de escravos que sobreviveu a muitos abusos.

Contou de quem descendia sua mãe, de escravos que sempre tinha trabalhado na lavoura, era tinha sido a única que tinha saído para estudar, porque sua mãe, controlava seu pai.

Tinha borogodo, me explicou o que era.

Quando vi, entramos na estrada que ia para Porto Alegre, antes, parou a caminhonete, virou-se para trás dizendo, by, by filhos da puta.

Sabia que nunca mais voltaria para lá.

Chegamos tarde, já quase noite em Porto Alegre, paramos uma vez para colocar gasolina no carro.  Comprou sanduiches, coca cola que era a primeira vez que eu tomava, inclusive dei um arroto, ela riu muito.

Abriu a caixa que tinha recolhido, estava até a borda com dinheiro, depois minha mochila, tinha por cima uma muda de roupa para mim, o resto a todo era dinheiro.

Amanhã vamos a luta, na portaria do pequeno hotel, falou com uma pessoa, um amigo da época que estudava aqui, ele vai nos ajudar.   A tempo venho me comunicando com ele, para isso.

Ela tinha na sua bolsa os documentos da escola, em que eu tinha boas notas, mas me disse se apresentasse isso numa universidade, saberiam logo de quem é neto ou filho.

Seria uma merda, precisas meu filho pensar que agora serás livre para fazer o que quiser.

Talvez ela tenha visto que um dia meu avô me segurou, abaixou as minhas calças, ficou esfregando a mão no meu piru.

Ele fazia isso com meu pai.  Nessa noite ela disse que ele sempre tinha abusado do filho, tu serias a próxima vítima, mas tomei precaução, venho lhe dando a muito a tempo remédio para ratos, ele não vai durar muito tempo, pois esta sendo envenenado aos poucos.

Mas não podia esperar mais.  Conversei com teu pai, ele sabe de tudo, mas foi treinado para isso, fazer as vontades dele, na verdade nem sabe se é filho dele ou não.

Para todos os efeitos os documentos deles de entrada no Brasil, consta como filho, mas se negou a que lhe trocassem o nome, sempre teve orgulho disso.

Mas isso vamos mudar, tu deves ir para o Rio de Janeiro, eu disse ao teu pai que ia te mandar para São Paulo que a universidade era melhor, mas na outra, serás uma pessoa diferente com outro nome.

Me mostrou as cartas de Jarbas Jaguaribe, seu amigo, era professor na universidade, li todas, sempre terminava, dizendo minha querida, venha que eu te ajudo, bem como ao teu filho.

Numa das primeiras falava que agora era viúvo, finalmente minha mulher descansou, agora estou livre para viver minha vida.

Na verdade, eres filho dele, eu quando voltei, estava gravida, ele não podia fazer nada, pois sua mulher estava muito mal, o prendia com os dois filhos que tem.

Não te espante, pois es a viva imagem dele, por isso teu avô as vezes te olhava diferente, procurando de aonde tinhas tu esses traços.  O que te salvou sempre, que eres loiro, olhos azuis, porque senão ia desconfiar.

No dia seguinte de manhã, quando tomávamos café ele apareceu, era como me olhar num espelho, como seria daqui alguns anos.  Foi carinhoso comigo, coisa que o homem que pensava que era meu pai nunca tinha feito.

Nesse dia, fomos a um cartório de um amigo dele, passei a ser George Jaguaribe, no registro constava ele como meu pai, ela Marie Louise Klaus, seu nome de solteira como minha mãe, depois fomos a um lugar que administrava os currículos escolares, ele mudou tudo, manteve o nome das escolas, minhas boas notas, mas mudou o meu nome, assim não terás problemas.

No dia seguinte saímos para comprar uma maleta, bem como roupa para mim, nunca tinha tido roupas assim de boas, não eram de marcas, mas para mim eram excelentes.

Me deu um envelope, é a direção de uma prima, que vive no Rio de Janeiro, ela é enfermeira no Souza Aguiar, ficou viúva a pouco tempo, disse que te pode alugar um quarto, pelo menos para os primeiros tempos tudo bem.

Tinham aumentado minha idade nos documentos, para todos os efeitos eu tinha 18 anos.

Me colocaram num avião, por sorte minha mãe tinha criado um lugar para esconder o dinheiro, tinha repartido meio a meio.   Para a época era muito dinheiro, daria para estudar toda a universidade, ainda me sobraria, mas me disse para arrumar um emprego.

Era ainda o tempo dos aviões da Varig, que hoje em dia nem existe mais.  Tinha me dado dinheiro bem como o endereço, tinha o endereço deles, ficamos de nos escrever, abracei os dois agradeci meu pai o Jarbas Jaguaribe.

Me avisou, nos primeiros meses não nos escreveremos, mas resultou, que nunca iriamos nos comunicar.  Entendi depois por quê.

Fui para o endereço que tinham me dado, a senhora só me esperava para uns dois dias depois, me mostrou duas opções, o apartamento era grande, dos antigos, na rua Esteves Junior, 22 Laranjeiras, me mostrou um quarto, mas teria que compartir banheiro com ela, ou podia usar as dependências de empregados, eram dois quartos pequenos juntos, um banheiro normal, com chuveiro, uma pia, um cagador, melhor que a casa que vivíamos era.

Fiquei com esse, tinha uma entrada independente, uma outra chave se queria entrar para a cozinha, mas no Largo do Machado que estava perto, tinha aonde comer, desde um sanduiche, como uma comida completa, muitos restaurantes, além de um que adorava o Lamas.

Ela só entrava aonde eu vivia, para pendurar roupa lavada.

Mas eu fechava o quarto, tinha meu sistema, sabia se ela tentasse entrar, coisas da minha mãe.

Escondi bem o dinheiro nos primeiros dias, depois abri uma conta num banco, assim teria um talão de cheques, nessa época ainda não existiam os cartões de crédito.

Consegui passar nas provas, entrei na faculdade, era tudo que eu sonhava, era muito bom em matemática, além de um raciocínio especial dizia um dos meus professores.

Como me sobrava parte do dia, arrumei um emprego de meio expediente numa livraria ali no Largo do Machado, chegava em casa só para tomar um banho, descansar, me sentar para estudar, de manhã me levantava cedo, as vezes via a senhora uma ou duas por semana.

Um dia fazia um calor horrível, eu estava estudando, escutei um ruido estranho, resolvi encher uma garrafinha de água, para não tomar agua direto.

Entrei escutei pequenos gritos, quando me aproximei do quarto, ela estava sentada de costa, em cima de um mulato, ele me viu, mas fiz sinal de silencio, ela poderia ficar aborrecida comigo, mas tirei o pau para fora, para me masturbar, ele ficou me olhando sorrindo, senti que lhe dava prazer isso, ela teve seu orgasmo, caiu para o lado, dormiu, eu sai de fininho, ele me alcançou na cozinha, tinha um corpo estupendo, passou a mão pelo meu pau, dizendo garoto tens um instrumento especial.

Disse que tinha que estudar.

Ah eres o estudante que ela aluga a área de serviço, espere, foi buscar suas roupas, eu fechei a porta ficamos conversando, acabamos na cama, ele foi me ensinando coisas novas, adorava que eu mordesse seus mamilos, sentou-se em cima do meu pau, delirou, puta que pariu, eres muito gostoso, mas essa velha não sai do meu pé.   Ele era do parque de bombeiros ali perto do edifício.

Agora ficava me esperando os dias que sabia que ela estava no turno da noite, vinha ficar comigo, eu gostava porque ele era especial.  Foi quem me levou a primeira vez a praia, passou protetor solar nas minhas costas, dizendo que eu era muito branco.   Me apresentou alguns amigos que ficaram examinando, todos eram muitos discretos, mas um em particular me interessava, usava óculos, era diferente, depois me contou que era advogado num escritório no centro da cidade.  Fui conhecendo todo mundo.

Um dia ela o pegou sentado em cima de mim.  Fez um puto escândalo, então era por isso que ele não atendia as chamadas dela, descobri que lhe dava dinheiro para fuder com ela, mas comigo era grátis.   Com este viras uma puta.  Fora da minha casa.  Ele apanhou suas roupas, me fez um sinal que me esperava em baixo.

A mim me deu um prazo de dois dias para desaparecer, quando ela virou as costas, ele disse que me esperava no dia seguinte na praia.

O inverno estava chegando, tinha menos gente na praia, enquanto ele contava para os amigos, seu amigo, Duarte Cavalheiro, me disse que o apartamento ao lado do seu, um studio ali mesmo em Copacabana, me disse o preço, era quase o mesmo que pagava para ela, se conseguisse me transferir para a livraria de Copacabana, poderia pagar o aluguel, além de ter dinheiro para isso no banco, mas tinha sempre receio de usar esse dinheiro, sabe-se lá de aonde tinha saído.

Fui com ele ver o apartamento, gostei, falamos com o porteiro, me disse que o proprietário, uma senhora que vivia no primeiro andar, fomos até lá, paguei 3 meses de aluguel, me disse se quisessem sem moveis, ela mandava tirar, pois tinha outro apartamento vazio.

Fui olhar o outro, esse era especial, ficava de esquina, se podia ver a praia, a diferença era mínima, fiquei com esse.

Duarte me disse que estava de férias, podia me ajudar a conseguir os moveis.

Não se preocupe muito, pois aqui em Copa, tudo se consegue.

Se quiseres podes dormir em casa esses dias até teres tudo. Tenho um sofá cama.

O bombeiro não gostou muito, mas teve que engolir, em seco, pois se sentia culpado de eu ter perdido minha casa.

Mas eu não me preocupava, afinal, tinha um lugar só para mim.  Além de pagar quase a mesma coisa.  Na Barata Ribeiro, tinha um ônibus que me levava até a faculdade.

Duarte me disse, porque não vamos os três até lá, pega as tuas coisas, sai chispando de lá. Foi a melhor coisa que fiz. 

Ribeiro o bombeiro ia entrar de férias, ia para sua cidade visitar sua família.

Peguei minhas coisas, mas não deixei o endereço.  Me despedi do porteiro, esse me disse que mulher escandalosa, se mete com esses homens do corpo de bombeiro dá nisso.

Duarte me levou para sua casa, na verdade nunca dormi no sofá, dormi foi na cama dele, ele era diferente do Ribeiro, gostava de umas preliminares cheias de beijos, carinho, depois sim, esquentava os tamborins, gostava de fazer tudo.

O que eu gostava, era que ele era mais moreno, eu muito branco, parecia ter sempre a pele em chamas.

Me perguntou por que não ficava vivendo com ele?

Fui honesto, gostava de ter um lugar meu, para estudar, pensar, gostava do silencio, essas coisas que as pessoas vão adquirindo quando vivem sozinhas. 

Me ajudou a comprar uma cama para o apartamento, tudo o que eu precisava, seguiria durante um tempo comendo na rua, as vezes ele subia para dormir comigo, antes perguntava se não me incomodava. 

O inverno foi passando, eu adorava os dias de neblina, para caminhar na praia, o Ribeiro também aparecia, nos dias que estava livre, agora era bombeiro no Campo de Santana, ficava mais longe, mas aparecia.  Como eu dizia, estava bem abastecido de homens.

Seguia trabalhando no livraria, lá vendiam jornais, um dia vi numa manchete de O Dia, que na época era um desses jornais que se apertasse saia sangue.

Falava que dois homens tinham entrado na casa da senhora, que ela tinha saltado pela janela.

O porteiro que tinha sido agredido por eles, disse que eram altos, loiros, com uma gabardina, o que ele achava estranho, se não chovia.

Eu sabia, minha mãe tinha me avisado.  Será que o velho não tinha morrido.

Tinha o telefone da casa do Jarbas Jaguaribe, telefonei de um orelhão, a telefonista dizia que esse número não existia mais.  Fui a Biblioteca nacional, pedi jornais de Porto Alegre desde a época que tinha vindo.

Depois de muito procurar, se falava que o professor Jarbas Jaguaribe se tinha enfrentado com dois alemães, que tinha levado um tiro, mas que também tinha ferido os dois.

Que sua mulher tinha desaparecido.  Dias depois se falava de sua morte.

Fiquei chateado, mas não podia fazer nada.

Foi então que na universidade se falava de uma bolsa de estudos, para os Estados Unidos, para a Universidade de Massachusetts, o MIT, começava a dar seus primeiros passos.

Com as notas que tinha foi fácil, a bolsa era americana, eu passei fácil nas provas de língua.

Transformei meu dinheiro todo em dólares, mas nunca comprando no mesmo lugar, me davam inclusive o bilhete de avião.   Não disse nada a ninguém, nesses dias dormi com meus dois amantes, um dia com os dois ao mesmo tempo, foi uma festa.  Deixei uma carta na porta do Duarte, dizendo que por motivos pessoais tinha que ir embora, para o Rio Grande do Sul, o mesmo falei com o porteiro.    Fui para o aeroporto com meu passaporte, bilhete de avião, uma maleta pequena, um casaco de inverno nos braços, o fundo da maleta cheio de dólares.

Dias depois respirei relaxado.

No curriculum descobri, um dos professores tinha sido um físico nazista, mas todo mundo parecia encarar como uma coisa normal.  Melhor estar perto do bandido que longe.  Nunca falei com ele em Alemão, como todos falavam com ele em inglês, resolvi fazer o mesmo.

Três anos depois já fazendo especialização, me decantei por engenharia nuclear, foi um achado, tinha professores de todas as raças.   Levava minha vida sexual, totalmente separada de tudo.  Com uma nova bolsa de estudos, podia me dar o luxo de viver fora da Universidade, mas era discreto, pois sabia que ali todos prestavam atenção em tudo.

Gostava de gente simples, a maioria nem entendia o que eu estudava.  Não gostava de outros estudantes, pois esses falavam demais, bebiam demais, teorizavam muito.

Um dos meus professores, um japonês, me disse que eu tinha uma vantagem além dos outros, era aplicado, não ficava discutindo teorias, trabalhava.

Quando acabei tudo, podia escolher o que queria fazer, não havia no front, nenhum impedimento para fazer o que eu quisesse.  Os convites eram muitos, mas me interessei pela construção de uma usina Nuclear, na Inglaterra.  Pagavam bem, eu tinha um apartamento na cidade mais próxima, além de alojamento na obra.

Os finais de semana passava no meu pequeno apartamento, fiz amizade com um dos trabalhadores, que viria ser meu ajudante, ele era judeu.   Pensava sempre, ah se ele soubesse.

Um dia aconteceu de sairmos pela cidade, ele tinha bebeu muito, eu sempre era comedido nisso.  Não tinha como voltar ao alojamento, lhe ofereci minha casa, quando tirou a roupa, era musculoso, um pouco peludo sim, mas um corpo de fazer inveja a muita gente, ficou de cuecas, o coloquei no sofá cama, me puxou para ele, sempre quis te beijar.

No dia seguinte estava cheio de vergonha, lhe perguntei por quê?

O que eu ia pensar dele?

Nada, um homem com quem fiz sexo, nada mais, foi bom.

Não me lembro direito.

Rindo disse, deixa de ser sem vergonha, queres é mais, fizemos um sexo delicioso, agora ficava todos os finais de semana comigo.  Nunca tocávamos nos assuntos sobre Israel, que no momento sempre era complicado.  Me disse um dia que estavam procurando gente para ir construir uma usina em Israel. 

Vieram me entrevistar, pedi desculpas, mas queria ver o projeto terminado, faltavam vários meses.    Me esperariam.

Sabia que investigavam a fundo as famílias do entrevistado, fiquei esperando para saber o que iam descobrir.

Foi quando vieram falar, que meu pai, o Jarbas Jaguaribe tinha morrido numas circunstâncias estranhas.  Fui honesto, quando nasci, ele só me deu o nome, pois era casado, só estive com ele, antes de ir para a Universidade, depois nunca mais.

Me perguntaram pela minha mãe, lhes contei que era filha de um alemão, com uma mulata, mas que nunca tinha sabido nada da família dela.   Quando nasci, já tinham morrido seus pais.

Ficou por isso mesmo.   Talvez por terem ido investigar, parece que cutucaram um vespeiro, logo notei que estava sendo seguido na rua, não se aproximava, creio que ficaram esperando se eu falasse alemão.  Um dia um sujeito me provocou em alemão, lhe respondi o que queria em inglês.  Que não o entendia.   Me perguntou olhando bem na cara, não falas alemão?

Lhe disse que não, que nem tinha ideia, falava um pouco de Ídiche, por ter antepassado judio, nada mais, claro tinha aprendido alguma palavras com Samuel, meu namorado.

Não os vi mais por algum tempo.  O homem da entrevista, me disse que tinha visto alguns alemães me cercando?

Lhe disse que o cara tinha provocado uma briga comigo, como se estivesse bêbado, falava alemão, quando lhe respondi em inglês, me perguntou se falava alemão, lhe respondi em Ídiche, desapareceu.

Acabei aceitado o emprego, porque concordaram em contratar o Samuel, gostava da companhia dele.

Aprendi a língua, pois iria conviver diariamente com os operários, todos falavam a língua oficial.   Com Samuel, comecei ir a sinagoga de vez em quando, mas nunca me transformei num judeu.

Com os anos, passei a ter nacionalidade do pais, pois desenvolvia todo meu trabalho lá, passei ao mesmo tempo dar aulas de engenharia mecânica, ligada a física nuclear na universidade, a maior parte das aulas, por causa dos termos técnicos, falava em inglês.

Para todos os efeitos dividia apartamento com Samuel, nos completávamos, depois que ele viu que eu não ia me converter, deixou de me convidar, mas ele recuperou a religião de seus pais que não frequentava na Inglaterra.

Depois de 15 anos trabalhando lá, um dia um agente chegou perto de mim, perguntou se podia falar comigo.

Me falou outra vez do Jarbas Jaguaribe, tinha localizado um filho de seu primeiro matrimônio, este falou de minha mãe, que vivia com ele.  A entrevistamos, quando mataram o teu pai, o filho dele a acolheu no Rio de Janeiro, vive agora numa residência de pessoas de idade, em Jacarepaguá.

Agradeci a informação, entrei em contato com o meu irmão que não conhecia, se queres vir tudo bem, mas não vou falar, enquanto não chegares aqui, pois tem uma saúde um pouco delicada.

Me perguntou o que eu fazia?

Quando lhe contei, se interessou, era professor na UFRJ, perguntou se eu podia dar algumas palestras.  Ele percebeu que para mim falar português era complicado, pois tinha perdido muito do vocabulário, me disse que podia ser em inglês.

Embarquei, num voo da Air France, meu dinheiro seguia rendendo, pois levava uma vida modesta.  Quando começou a sobrevoar o Rio de Janeiro, eu parecia um turista que vem a primeira vez, queria ver as coisas que nem me lembrava mais.

Ele estava no aeroporto, éramos bem parecidos um com o outro, meus cabelos brancos agora se misturavam com os loiros, tinha uma juba, como de um cientista louco, mas o corpo forte, pois Samuel me obrigava a fazer exercícios.

Só me disse antes de partir, não arrume um namorado por lá, pois ficarei com ciúmes.

Eu ao contrário achava importante esse afastamento, pois depois de tantos anos juntos, o sexo era praticamente igual.

Meu irmão me abraçou, me levou para sua casa, vivia perto de aonde eu tinha vivido.

Respirar a maresia de um dia de neblina, para mim era fantástico.  Lhe expliquei que passava muito tempo no deserto, quando estava dando aulas, as vezes passava o dia inteiro fechado, mas que ia muito a praia em Tel Aviv, mas claro não tem esse cheiro.

Ele ao contrário detestava.  Vivia sozinho, me contou no caminho que tinha sido casado, mas foi um erro monumental.

Quando tua mãe veio viver comigo, me ajudou bastante, ela é uma pessoa fantástica para se conversar.   Mas agora com a idade, necessita de cuidados, ela mesma escolheu o lugar aonde queria viver.

Perguntei de seu outro irmão?

Bah esse vive pelo mundo, a última notícia dele, era que estava na Austrália, se casou por lá tem família, nunca pensa em voltar, já fui uma vez, fiquei tentado em dar aulas lá, mas gosto do Rio.

Quando minha mãe morreu, viemos os dois viver aqui, para fazer universidade, ele largou na metade, pois queria passar o dia inteiro fazendo surf.

Os dois tínhamos tido os mesmo professores, só que ele estava mais adiantado do que eu, quando lhe ofereceram a Bolsa para o MIT, ia se casar, por isso não foi.

Falamos muito, quando chegamos na sua casa, me apresentou o homem com quem vivia, me descobri muito tarde me disse ele.   Era um mulato alto, forte, também professor, dava aulas de arte na Escola de Belas Artes, viver de arte no Brasil é difícil.

Me perguntou como era em Israel, fui franco, não convivia muito com artistas, não sabia responder.

Depois do almoço fomos visitar minha mãe, era um pouco longe, ele avisou, ela tem princípio de Alzaimer, pode demorar para te reconhecer.

Quando me viu, ficou me examinando, de repente em sua cabeça deu um estalo, me chamou pelo meu nome verdadeiro, Franciskus, me apertou nos seus braços, lhe contei minha vida, mais ou menos, omitindo algumas coisas, quando disse que vivia em Israel, caiu na sua famosa gargalhada.  Todos vieram ver o que era, ela não parava de rir.

Seguiste meus conselhos, a vingança se cozinha devagar.

Voltava quase todos os dias para vê-la, agora já sabia como ir, pegava um taxi, dizia a direção, ficava a tarde inteira com ela, me segurando a mão, mas tinha dias que não me reconhecia em absoluto.  Um dia que estava com a cabeça bem, estávamos sentados no seu quarto, me disse, pegue a maleta em cima do armário, me mostrou recortes de jornais, ela tinha denunciado o velho depois que viu que ele não tinha morrido, vieram por ele, recebeu todo mundo a tiros, teu pai foi ferido, ele como para apagar um arquivo lhe deu um tiro na cabeça, mas um agente da Mossad o acertou.

Se quiseres podes recuperar a fazenda, a mantenho alugada, dou dinheiro para o filho do Jarbas, a irmã dele morreu, porque estava atrás de ti, por ordem do velho.

Lhe contei que antes de ir para Israel, tinham feito contato comigo, me disse que era impossível, pois todas as células daqui, terminaram, me foi mostrando como.

Então tinha sido um jogo da Mossad para que eu aceitasse o trabalho.

Agora ia a praia todos os dias, um dia domingo fui até aonde conhecia o Duarte, ao passar por um bar, escutei sua voz, falando com outra pessoa.

Estava sentado num bar, tinha os cabelos brancos, mas o corpo continuava o mesmo, falava com o garçon do bar, que brincava com ele, como era possível que ainda estivesse sozinho na vida, com a boa pinta que tinha.

Dei a volta, me sentei na frente dele.  As lagrimas corriam pela sua cara, filho da puta me disse, me largaste para trás.   Mas colocou a mão em cima da minha.  Contei tudo o que tinha feito na vida, aonde estava agora.   Sem querer lhe contei a verdade porque tinha ido embora, por medo de causar algum problema para os dois.

Me disse que o Ribeiro tinha morrido a muitos anos atrás de Aids, era um louco, queria estar sempre fazendo sexo, acabou mal.

Eu, como um idiota fiquei esperando, pois no teu bilhete, dizia que voltarias.

Tentei com outras pessoas, é verdade, mas ninguém era como tu.

Almoçamos juntos, lhe contei que tinha um companheiro, mas que com os anos, tinha ficado tudo igual, na verdade tinha um relacionamento com ele para não complicar minha vida.

Nessa noite dormimos juntos, ele agora, aposentado, vivia num apartamento melhor, foi uma coisa fantástica, como eu gostava de fazer sexo com ele, na verdade, sempre me lembrava dele, muitas vezes me masturbando.

Quando acabaram minhas férias tinha pensado muito, o projeto tinha terminado, eu só tinha as aulas na universidade, me faltavam só dois anos para me aposentar.

Fui ao consulado me identifiquei, perguntei se podiam fazer contato com um agente da Mossad, lhe dei seu nome, ficaram consultando vários canais.

Quando consegui falar com o homem que me tinha chamado para trabalhar em Israel, disse que tinha descoberto o que ele tinha feito para me convencer.

Ele riu a bessa, pensava que nunca ias aceitar.

Pois agora terás um trabalho maior, estou no Brasil, acabo de aceitar, trabalhar na Usina de Angra dos Reis, não voltarei, vou dar entrada aqui no consulado, para pedir minha aposentadoria de Israel.   Adeus, passei o telefone para o que me atendia, ele só balançava a cabeça.

Me disse, se eu não te convenço, ele aceita teu pedido.

Então por favor, vamos a papelada.

Escrevi uma carta ao Samuel, creio que a que mandei, cruzou com a que ele me mandava, dizendo que tinha conhecido alguém, que tinha se mudado de casa, para viver com essa pessoa.  Falava da acomodação dos dois, pedia perdão.

Fiquei rindo, comentei com o Duarte, não lhe tinha falado que ficava.

Fomos os dois viver depois de tudo resolvido, na Barra da Tijuca, levei minha mãe para viver seus últimos anos comigo, foi difícil, porque ela foi se apagando, as vezes pensava que Duarte que era seu filho, ele até gostava.

Os dois fazemos largas caminhadas pela praia, vivemos bem desfrutando do dinheiro que tinha aplicado por lá, além da minha aposentadoria.   Às vezes me convidavam para alguma conferência, mas dizia que não podia que tinha um compromisso importante.

Ele me perguntou que compromisso importante era esse?

Tu, não quero me afastar outra vez de ti.  Erámos dois coroas gostosos, conforme diziam quando nos davam uma cantada, mas tirávamos de letra.

Ficávamos rindo, mas não queria ninguém entre a gente.

Agora estamos à beira dos 70 anos, aprendemos inclusive a surfar, para nos ocuparmos, amamos o mar, continuo gostando dos dias de nevoeiro, para sentir o cheiro de maresia.

MOSHÉ

                                         

Sou Abe, Abraham Sian, meu pai, meu irmão mais velho se chamavam Moshé, era tal para qual, pois eram cabeças duras.  Adorava meu irmão, tínhamos uma diferença de idade, ele era quase quatro anos mais velho do que eu, só muito anos depois foi que descobri numa discussão dele com minha mãe, que não era seu filho, sim do primeiro casamento de meu pai, desses arranjados.

Meu pai era francês, minha mãe, alemã, mas os dois eram judeus.  Também foi um casamento arrumado pelo pais dos dois, ambos joalheiros de renome.

Estou escrevendo isso, por sentir que com a minha idade, em breve perderei as faculdades de me lembrar de tudo com detalhes.  Ou acredito que me é mais fácil me lembrar desse passado que do que comi de manhã, brincadeira, sei que foi um café forte como gosto, com croissant que são minha perdição.   Outro dia o médico disse que não deveria comer tantos, o mandei tomar no cu, o que me importa isso, já estou velho mesmo, para que ficar me privando de uma coisa que adoro.

Passamos muitos apertos, mas sobrevivemos, essa é a verdade.

Tinha verdadeira paixão, por duas pessoas que foram muito importantes em minha vida, meu irmão Moshé, bem como meu tio Henry, nunca soube por que tinha um nome que escapava a tudo que era judeu.

Ele como eu, era filho do segundo casamento de meu avô.  Era considerado o ovelha negra da família, segundo meu pai, meu avô acusava sua mulher de ter estragado o filho.  Meu pai dizia que um dia Henry quando fez 18 anos desapareceu, foi para a Palestina, segundo ele para aprender árabe.   Isso deixaria meu avô furioso.

Um dia, apareceu em Berlin, eu adorava abrir a porta de casa, quando chamaram a porta, fui correndo, meu pai gritando, devagar, queria chegar antes do Moshé a porta, sempre disputávamos, ele sempre ganhava, mas desta vez eu cheguei primeiro.

Me apaixonei por ele nesse momento, diante de mim, estava um homem completamente diferente de meu pai, alto, loiro, com imensos cabelos cacheados, não se usava assim naquela época, uma roupa completamente sui generis, nunca tinha visto nada igual.

Fiquei com a boca aberta, me pegou nos braços, dizendo, tu deves ser Abe, a partir desse momento sempre me chamaria assim.

Meu pai correu para ele ao escutar sua voz, se abraçaram, eu achava interessante, meu pai, repetia o abraço, segurava sua cara com as duas mãos, beijava seu rosto varias vezes, me disse, esse é meu irmão pequeno Henry, mas como pronunciava, parecia dizer Enry.

Minha mãe, veio correndo, se jogou nos seus braços.

Quando Moshé chegou da escola, o olhava com desconfiança, pela sua roupa.  Levei anos para descobrir por que se vestia assim, nada combinava com nada.   Quando lhe perguntei, me deu uma explicação que me pareceu logica com o passar dos anos, que ele era assim, não combinava com nada do pré estabelecido.

De noite depois de minha mãe ter posto para dormir os gêmeos, que eram os pequenos da casa, Roger e Rufus, nomes escolhidos por ela.

Fiquei sentado aos pés de meu tio, estava muito sério, irmão, tens que ir embora daqui, a coisa vai ficar feia.  Ou pelo menos mande sua família para Paris.

Meu pai argumentava sobre a loja, como ia fazer.

Henry era enfático, isso tudo vai desaparecer, esses nazistas acabaram com tudo, pode ter certeza do que falo, sabes que tenho minha fontes.

Meu pai não arredava o pé, minha mãe concordava com tio Henry.

Tanto falaram, que no dia seguinte ele tentou negociar a venda da loja para o vizinho, um bom filho da puta diga-se de passagem.

Henry convenceu minha mãe, uma bagagem para cada um para não chamar a atenção, era aquelas malas tipo papelão.

Moshé queria ficar com meu pai, mas esse disse que em breve quando vendesse tudo iria nos encontrar. Mas de qualquer maneira levava uma maleta na mão.   No ultimo momento decidiu ir, mas teria que ir em outro vagão, pois no nosso já não tinha lugar.

Na estação havia imensa confusão, meu tio Henry, levava os meninos nos braços, minha mãe a bagagem deles, além da sua, Moshé me empurrou para subir antes, eu fiquei ali olhando meu pai, lhe disse, te amo pai.  Ele olhou para trás, fez uma coisa que não entendi na hora, trocou minha bagagem pela sua, olhava para trás, o trem começou a se movimentar, ele correu para o vagão que lhe correspondia, eu corri para a janela para olhar, mas ele não subiu no trem, dois homens com o filho da puta do vizinho o pegaram, estava deitado no chão com uma arma na cabeça.

Falei com tio Henry, mas já era tarde o trem tinha saído da estação ganhava velocidade.

Ele foi correndo ao vagão aonde meu pai deveria estar, mas claro, nem tinha entrado no trem.

Quando chegamos a Berna, ele se reuniu com dois tipos estranhos, que ficaram de informar.

Ficamos dois dias esperando, um dia o vi chegar na porta do edifício, ficou parado, quando olhou para cima me viu, estava chorando, limpou a cara, se fechou com minha mãe, ouvi que soltava um grito.

Nesse dia reclamou porque não trocava de roupa, lhe disse que não podia, porque meu pai tinha minha maleta, quando abriu a que me tinha dado, tinha roupa por cima, mas por baixo era muitos saquinhos de diamantes.

Ela mostrou ao Tio Henry, esse me perguntou como meu pai tinha se comportado na plataforma, lhe disse que não parava de olhar para trás, foi quando trocou as maletas.

Ah, então foi por isso, segundo os informantes tinham destruído toda a loja, procurando os diamantes.

Nesse mesmo dia, meu tio saiu comigo, Moshé, para não chamarmos atenção, comprem roupas diferentes, nos deixou escolher.   Eu queria algo como ele, ria muito, escolhi coisas que não se combinavam entre si.   Minha mãe com os pequenos, entrou em outra loja, saiu vestindo calças compridas, nunca mais colocaria saias ou vestidos.  Era como se a partir de agora ela fosse o homem da família.    Me explicou nesse dia o que tinha acontecido.

Quando chegamos a Paris, fomos para o apartamento que era do nosso avô, nunca o tinha visto na vida, sabia que tinha morrido no ano anterior.  Por isso Henry tinha voltado da Palestina, para cuidar do pai.

Quem abriu a porta, foi um homem imenso, de uns dois metros de altura, negro, que levantou Henry nos braços, acabou sendo um homem importante em minha vida. Era músico de Jazz, tocava clarinete, seu nome era igual ao meu Abraham, talvez daí meu tio me chamar sempre Abe.

Ajudou minha mãe com as crianças, lhe deu as boas-vindas, creio que Henry a preparou para isso, viviam os dois juntos.

Eles ficariam nas dependências de empregados, nós como o resto da casa.  Fiquei num quarto com Moshé, o que era um inferno, pois ele não dizia palavra.

Estava furioso com o mundo.

Dias depois, fomos todos a uma sinagoga ali perto do apartamento, em Marais, um desses homens vestidos de negro, nos negou a entrada, ele pediu para falar com o Rabino, Michael, saiu um homem jovem que o abraçou.   Lhe explicou a situação, queriam rezar um Kadish por meu pai.  Mas os velhos não permitiam a entrada dele, nem de minha mãe, pela maneira como estavam vestidos.

Michael, disse, me espere um minuto, voltou com seus paramentos, fomos a Place Les Voges, rezamos ali, me tinha ensinado durante a noite.  Moshé não abriu a boca, mas as lagrimas corriam pela sua cara, minha mãe o abraçava.

Meses depois, tivemos outra reunião, Hitler se preparava para invadir Polônia, Henry dizia, ele não vai parar, nada aqui é seguro para a gente, devemos ir embora.  Lhe deu a opção de ir para NYC, mas ela não queria, vou contigo para Palestina, acho melhor.

Uma noite, ele saiu com Abraham, no dia seguinte tínhamos um carro na frente de casa, era grande, cabíamos todos.

Ele disse, como sempre, leve somente a maleta do Moshé, ele sabia o que fazia.

Fomos descendo a França inteira, mas quando chegamos a Marseille, não conseguíamos nenhum barco para nos levar para a Palestina.  O jeito foi ele convencer um pescador que tinha um barco grande, para nos levar, pagou um bom dinheiro para isso.

Moshé queria ficar para brigar com os alemães, se viessem por terem matado nosso pai.  Foi então que descobri que minha mãe, não era a sua.  Quando ela lhe deu uma ordem, ele não obedeceu dizendo que ela não era a mãe dele, que faria o que queria.

O jeito foi o Abraham, pega-lo, levantar do chão, colocar nos seus ombros, entrar no barco.

Quando ele se livrou, já estávamos longe, além dele não saber nadar.

Henry disse ao homem aonde devia nos deixar, tinha que ser de madrugada, por causa da vigilância britânica.

Desembarcamos numa praia, ele tirou nossos sapatos, meias, amarou os cordões, nos colocou pendurado no pescoço, a maleta tinha que ficar na cabeça.  James desceu com os meninos um em cada braço, Henry levava seu instrumento, de novo Moshé disse que voltava com o homem para a França, desta vez foi o homem que perdeu a paciência, o tirou pela borda, bem como sua maleta.  Merece uns cascudos.

Foi embora, no final o único que acabou molhado foi ele.   Estava furioso, quando ficava assim não falava nada.

Na praia tinham um amigo do Henry nos esperando com um velho ônibus escolar, nos levou a Tel Aviv, num apartamento que o Henry seguia pagando.

Vinham conversando em uma língua diferente, eu adorei ao instante, o homem segundo Abraham era um sabra, me explicou o que era.

O apartamento era menor, mas teríamos que nos apanhar, por enquanto iriamos dormir em dois quartos, eles em um, nos no outro, mas resolvi que podia muito bem dormir na sala, de noite arrumei uma manta, de madrugada me despertei, com Abraham indo ao banheiro nu, tinha uma pele incrível, mas o que me apaixonava nele, era quando ficava pela manhã, ensaiando com o clarinete, o som enchia minha alma.

As vezes saia com ele pelas ruas da cidade, ele parava numa esquina, ficava tocando para ganhar uns trocados, outras lhe chamavam para tocar com algum grupo.

Eu sempre tinha milhões de perguntas para ele. Me contou de aonde era, que lá matavam os negros.  Era do Mississipi, que tinha aprendido música com sua mãe, não sabia quem era seu pai.  Ele tinha conhecido Henry na França, aonde achou melhor viver.  Tocava Jazz nos clubes de Saint Germain de Prés.  Foi aonde se conheceram, ajudou Henry a cuidar do pai, o amava com loucura. 

Foi duro o Henry conseguir documentos, escolas para todos, por isso acabou trabalhando para os Ingleses, pois falava várias línguas, era uma espécie de secretário, que fazia as funções de filtro nas reclamações dos árabes, esses pensavam que ele era um deles, pois falava perfeitamente a língua.

Nos fomos para a escola, era complicado, pois o único lugar que nos aceitou, foi uma escola inglesa.   Os argumentos do Henry sempre batiam contra os de Moshé, assim vocês aprende outra língua, nunca sabemos o dia de amanhã, se vossa mãe tivesse resolvido ir para os Estados Unidos, teriam que aprender.   Moshé ao contrário, queria falar o ídiche, minha mãe o levou para falar com um rabino, era um velho simpático, esse acabou convencendo o Moshé que podia estudar inglês, de tarde ir conversar, estudar com o velho em ídiche.   Foi a solução, mas sempre estava metido em alguma confusão.

Eu ia a escola contente, tinham aulas de música, comecei a tocar piano.

Minha mãe conseguiu um apartamento só para nós, quando conseguiu um emprego, ela também falava várias línguas, então foi fácil.

Agora eu tinha meu quarto, às vezes, tentava entender o Moshé, mas ele sempre me rejeitava, mas quando tinha algum problema, vinha falar comigo.  Achava divertido, pois me contava coisas que lhe afligiam, que eu não entendia, mas escutava.

Um dia me soltou, que não suportava esse relacionamento do Henry com o Abraham, eles dormem juntos, como se fossem marido e mulher.

Não esperava minha resposta, o problema não é teu, é deles, depois uma coisa meu irmão eles se amam, nos ajudaram a escapar, agora com a França invadida, ficávamos sabendo que nos esperava se estivéssemos lá.

Ele queria voltar para lá, para entrar para os Partisans, sempre tinha isso na cabeça.

O amigo de tio Henry, nos levava para o campo para fazer exercícios, nos ensinava a atirar.  A primeira vez, cai sentado de bunda no chão, fazia os exercícios, apesar de não gostar.  Ao contrário Moshé, parece que encontrou seu mundo.

Com 16 anos se engajou num grupo clandestino, desaparecia semanas, minha mãe ficava aflita, mas tinha que cuidar além de trabalhar, dos pequenos, eu ajudava no que podia.

Fui crescendo, ao contrário do Moshé que eram mais moreno, com os cabelos negros, eu era como ela, loiro, olhos azuis, fui esticando.

Em 1947, passamos quase um ano sem ver o Moshé, quando apareceu, foi para avisar minha mãe, que ou ela ia para os Estados Unidos, ou teria que nos proteger direito, pois ia começar a guerra pela emancipação de Israel.   Ela começou a falar com ele, mas como sempre saiu com, você não é minha mãe.

A resposta dela, foi, mas sempre te amei como meu filho, quando teu pai chegou contigo na Alemanha, eu te aceitei como meu filho, sempre te quis assim.  Pare de colocar isso como defesa, para nunca escutar os demais, se teu pai tivesse escutado o Henry como devia, estaria aqui conosco, mas como ele és um cabeça dura.

Ele saiu batendo a porta.  A mim me disse, preciso de ti, não te metas nessa guerra, eres muito jovem.

Mas ela sim se meteu, ajudava nos hospitais, a mim me tocou cuidar dos meninos, que ficavam como loucos para saber de tudo.  Eu os ia levar na escola, tinha que tomar cuidado para não escaparem.   Abraham, com meu tio Henry se meteram direto nessa guerra, mas o pior parado foi Abraham que voltou com um braço a menos, minha mãe o levou para casa, para cuidar dele, as vezes o via chorando, pois nunca mais poderia tocar seu saxofone, sem querer, eu comecei a tocar todas as musicas que o tinha visto tocar, ficou com a boca aberta, com era que eu tinha aprendido.   Lhe disse que lhe ver tocar, começo a me ensinar, desde melhorar minha embocadura, como devia posicionar os braços, cantava uma música americana, eu tinha que conseguir tocar.   Os meninos ficavam sentados quietos escutando, isso os deixava relaxado, mas eu adorava aquele homem por causa disso, da sua música.  Depois começou comigo um outro aprendizado, a emoção, tens que pensar o que significa essa música, o que ela quer dizer, me fazia repetir um cem número de vezes a mesma.

Os meninos como eu, o adorávamos.  Quando Henry finalmente apareceu, tinha dois ferimentos graves, ficou entre a vida e morte muito tempo, quando saiu do hospital, minha mãe fez a mesma coisa, o levou para casa.  Nos dois cuidamos dele, os meninos os dois eram super agitados, mas Rufus tinha uma coisa, adorava ler, se sentava na cama do tio, contando o que estava lendo, inventava as histórias que ele achava que no livro não estavam bem, discutia com Henry os personagens, porque tinha feito, ou deixado de fazer.

Roger era ao contrário, com o rádio sempre pegado a orelha, para saber alguma coisa do que estava acontecendo.

Minha mãe quando chegava em casa morta de cansada, dizia que bem que vivia numa república de homens, pois os meninos lhe tiravam os sapatos, lhe faziam uma massagem nos pés, Abraham, saia da cozinha, com uma caneca de caldo que estivesse fazendo, tinha aprendido a cozinhar com um só braço, queria ser útil.  Ajudávamos meu tio se sentar na sala para conversar com minha mãe.   Quando esta perguntou de Moshé, ele não tinha ideia de aonde estava.

Quando Henry se recuperou, estava diferente, como ter visto a morte de perto o tivesse afetado, logo assumiu um cargo na Mossad, ai a relação com Abraham se foi ao caralho, simplesmente o abandonou, não podia ver o mesmo com um braço só por culpa sua, pois ele tinha insistido que luta-se do lado deles.

Ia fazer 17 anos, quando Abraham que seguia vivendo lá em casa, me perguntou se eu iria servir o exército ou queria ser um músico de verdade.  Viram outras guerras por aí, quero saber se estas disposto a perder como eu um braço, ficar sem poder fazer música.

Ele tinha recebido um convite para trabalhar com jovens músicos na Juilliard em NYC podes vir comigo se quiseres.   Minha mãe na surdina, preparou meus documentos, me emancipou, me deu dois diamantes dos que tinha guardado, deus sabe aonde.    Bem como um contato lá para que pudesse fazer dinheiro com os mesmo, anotou num papel, o peso, os colocou numa pequena bolsa, que eu levava presa nas minhas calças.  Comprou ela mesma o bilhete de avião, no mesmo voo do Abraham.

Minha mãe contou que quando o Henry descobriu, ficou uma fera, como ela podia fazer isso nas costas dele.  Não sabia o quanto ele queria o Abraham.

Se o querias porque o deixaste abandonado.  O teu irmão vivia dizendo que a família estava acima de tudo, mas se não fosse cabeça dura tinha saído com a gente muito antes.

Sempre é muito tarde para chorar o leite derramado.

Ela seguiu em frente com os dois, Rufus não dava problema, estava bem direcionado, queria ser escritor, mas Roger, ah esse era um caso a parte.   Seu deus era o Moshé, ninguém sabe como descobriu aonde estava, foi ficar com ele.

Henry contou a minha mãe, que ele era o braço pesado do Mossad, era como um agente especial encarregado de execuções, ela ficou horrorizada, tira teu sobrinho disse, não se referia ao Moshé, mas sim ao Roger.

Henry conseguiu traze-lo para trabalhar com ele, mas ele queria ação.

Na guerra do Yom Kippur, perdeu a vida de maneira bestial.   Logo em seguida, agora eu participava de atuações com um grupo de jazz, estava entrando em cena, quando me disseram que tinha uma chamada para mim.  Respondi, me que me chamassem dentro de uma hora.

Não suportava que me interrompessem antes de uma atuação, pois gostava de me concentrar, entrei em cena, no fundo do local, estava o Abraham com seu novo namorado, eu morria de ciúmes, pois o queria.  Toquei como se minha alma estivesse destroçada.

Quando acabamos o show, me avisaram da chamada outra vez, era minha mãe para dizer que o Roger estava morto, se arriscou numa batalha, por nada, morreu da maneira mais idiota possível.

Me perguntou se podia ir para rezar o Kadish, eu lhe respondi que pegaria o primeiro voo, falei como Abraham, ele disse que iria junto.

No voo me perguntou por que tinha tocado dessa maneira. 

Fui honesto, lhe disse que não podia suporta vê-lo com um novo namorado.  Que sempre tinha sido apaixonado por ele.

Colocou a mão que lhe sobrava em cima da minha, me disse que podia ser meu pai, que isso era uma honra para ele, mas eu tinha que pensar que entre nós dois isso era impossível, que eu devia procurar alguém que realmente merecesse isso.  Creio que confundes, que estou junto contigo desde criança, te ensinei a tocar, me vês como um pai que orienta um filho.

Talvez fosse isso, pois aquele desabafo me ajudou a encarar de outra maneira. Quando voltasse gravaria meu primeiro disco.  Estava muito nervoso com isso, mas ele estava sempre comigo.

Chegamos a Tel Aviv, fomos direto para o cemitério, rezei o Kadish por meu irmão, maldizendo ter herdado de meu pai, a cabeça dura.

Minha mãe, disse que pensava ir para NYC, por causa do Rufus, queria estudar lá, não quero que outro filho meu morra numa dessas guerras não vou aguentar.

Voltou conosco, foi viver com o Rufus, num pequeno apartamento perto do meu.  Para ele agora eu era seu referencial.  Era quem lia o que escrevia, com quem conversava.

Seu outro referencial era o Abraham, que estava sempre conosco, ele era a única família realmente que tínhamos agora.   Um dia Henry apareceu, tinha vindo a uma conferência na ONU, estava chateado, porque tínhamos vindo embora sem nos despedir dele.

Abraham, me ajudava num trabalho que estava preparando para meu segundo disco, o primeiro tinha ido bem, nesse agora, eu tocava uma música que amava, a Suíte Bergamasque de Debussy, a fazia com uma interpretação toda minha, quando saiu o disco com uma foto minha, Abe Sian, a primeira que recebeu foi minha mãe, me abraçou chorando.

Henry ainda estava por lá, foi assistir a apresentação, nos disse que era hora que voltássemos para lá.

Ficou furioso quando no dia seguinte numa entrevista na televisão, me perguntaram de aonde era, lhes disse que tinha nascido em Berlin, mas que tinha aprendido amar a Paris.

Não falei em momento algum em Tel Aviv, Israel, nada disso.  Sempre me tinha sentido como um estrangeiro por lá.

Me deu um sermão, dizendo que eu não podia renegar meus laços de sangue, soltei na sua cara que laços de sangue eu tinha com o Abraham que sempre tinha estado ao nosso lado quando necessitávamos, que ele só nos queria para dizer que tinha uma família.  Segundo minha mãe, ele foi ao enterro do Roger, porque não teve escapatória.

Tentou falar com o Abraham para convence-lo, este lhe soltou na cara, não sou judeu, perdi um braço lutando uma guerra que não era minha, esse menino, me salvou a vida, tocando meu instrumento, para me dizer que precisava de mim.   Estarei aonde este essa família que agora é minha.

Tínhamos deixado a muito de ir a sinagoga, ele ao contrário agora ia, dizia que precisava disso para poder respirar suas culpas.   Minha mãe perguntou pelo apartamento do meu avô, ele disse que estava alugado, mas o conseguiria para nós.

Quando acabou a temporada, fui chamado para tocar com a orquestra da Opera de Paris, todo meu repertório clássico.  América tampouco era meu lar, tinha sido um lugar de aprendizado.

Minha mãe fez uma reunião, os quatro nos sentamos, falamos no assunto.  Rufus foi o primeiro a dizer que queria ir estudar na Sorbonne, a duvida era o Abraham, ele soltou rindo, que aonde a família dele fosse ele iria.

Nos instalamos num outro apartamento primeiro, enquanto ele com minha mãe, reformavam o do meu avô, que segundo ela era muito escuro, arrancou todos os papeis de paredes, mandou pintar tudo de branco, reformou os banheiros, fez um apartamento para o Abraham, que ele podia entrar por outra porta, se trouxesse um namorado.

Enquanto faziam isso, eu ensaiava com a Orquestra, era um concerto fantástico, me apaixonei, ele me ajudou, ia para lá, anotava as coisas me dizia o que tinha que melhorar.

Na estreia foi um sucesso, tínhamos saído para jantar os quatro para comemorar, quando chegamos em casa, levamos um susto, lá estava Moshé, nos esperando, tinha ido ao concerto, pensou que viríamos diretos para casa.

Era uma outra pessoa, a cara tinha duas cicatrizes feias, de noite no meu quarto quando tirou a camisa, vi várias cicatrizes.

Fiquei olhando a cara dele, se irritou, que queres dizer, podes falar.

Não eu só estou procurando o irmão, que amava, que significava muito para mim, que o ódio, a vingança pelo que fizeram contra nosso pai, arrancou da minha vida.

Ficou me olhando demoradamente, como se estivesse pensando, virou-se de costa, deitou na cama, mas vi que chorava.   Me sentei ao seu lado, fiquei segurando sua mão, finalmente me disse uma coisa, que tinha se emocionado muito me vendo tocar, que pelo menos eu tinha defendido nossa família, mantinha o que sobrava junto, que ele nem sabia hoje em dia quem era, talvez eu seja um mero fantoche nas mãos da Mossad.

Ele ficou fechado em casa conosco, uns quinze dias, ninguém lhe cobrou que saísse, nem nada parecido, quem notou que algo estava errado foi o Abraham, pois tinha visto um carro parado ali perto, vigiando o apartamento.  No dia que a policia francesa, entrou procurando por ele, tinha passado para o pequeno apartamento do Abraham, tínhamos colocado um armário tapando a porta.

Não o encontraram.  Minha mãe, perguntou o que se passava.

Contaram que ele tinha assassinado um homem que pertencia a SS Nazista que estava escondido na França, como ele tinha descoberto não sabiam, pois eles mesmos não sabiam.

Por eles o agradeceriam, mas o governo não queria a Mossad operando em terras francesas sem autorização.

A Mossad disse que não tinha ordenado nada.   Ele foi ficando lá em casa, de vez em quando ficava ao meu lado, me abraçava, chorava como um condenado.

Fui de viagem para fazer uma série de concertos, pela Europa, me sentia seguido o tempo todo, mas ignorei.  Pensavam que de alguma maneira ele entraria em contato comigo.

Achava interessante, pois nas minhas conversas com Abraham, ele ia ao Bar de um amigo para falar comigo, me contava as novidades, mas nunca falava do Moshé, falava do Rufus, como ia na universidade, do Roger, que na verdade era o Moshé, que estava bem.

Quando voltei, os homens que me seguiam, no aeroporto me aproximei deles, muito obrigado por cuidarem de mim toda minha turnê, ficaram surpresos.

Lhes disse na cara que eles eram judeus demais para que eu não desconfiasse.

Mas que perdiam o tempo, eu não via meu irmão, desde que tinha ido de casa para ir lutar no Yom Kippur, portanto estavam perdendo o tempo.

Nunca perguntei como o Abraham conseguiu documentos franceses para ele, com o nome de Roger.   Ele agora usava cabelos muito curtos, óculos de graus, pois dizia que não via as coisas direito.   Uma das primeiras coisas que minha mãe, fez, era que ele sempre saísse com Rufus, tinham a mesma altura, o obrigou a treinar em casa, tinha os ombros muito caídos, ela o maquilava para sair, escondendo suas cicatrizes.

Mais tarde ele fez uma cirurgia estética retirando as mesmas.   Voltou a estudar ou melhor fazer classes de desenho, usava meu quarto como seu studio, nunca deixava ninguém ver o que fazia.

Voltou a ter largas conversas comigo, falava justamente isso, que se ele tivesse força, não tinha podido exigir isso de mim, teria puxado nosso pai para dentro do trem.

Eu lhe disse, que se fizéssemos isso, teriam entrado no trem, levado todo mundo.  Ele se sacrificou pela família, mas mamãe tem razão, foi preciso que Henry ficasse uma semana falando na cabeça dele, que tinha que ir embora, ele não queria se desfazer da loja.  Tua como ele sempre foram teimosos.

É verdade, tinha tanto ódio dentro de mim, queria ter ficado na França para matar os alemães quando chegaram, só matando era capaz de ir retirando a dor que sentia, mas quando passei a matar por matar, minha cabeça foi se enchendo de horror.   Já não suporto mais isso, afinal, se fossemos ter pátria, essa seria a Alemanha, pois nascemos lá.

Nem somos franceses, embora nosso pai fosse daqui, tampouco criamos raízes em Israel, não nos casamos lá, nunca fomos a sinagoga, o único que temos lá é Roger enterrado, nada mais.

Eu lhe passava a maquina na cabeça todas as semanas, o deixava falar tudo que queria, me soltou um dia, eres melhor que um psicólogo, sabes me escutar, não me recrimina, procura que eu veja algo mais à frente.  

Eu agora me apresentava com um grupo de noite nos sótãos do Rive Gauche, tocando jazz, as vezes Abraham o levava com ele, quando os via no fundos, tocava para os dois, tinham sido sempre as pessoas que eu admirava.

Um dia Abraham, me esperou na saída, fomos sentar num bistrô, que ainda estava aberto, chovia, fazia frio, comentou mais um inverno que chega.  Olhei para ele, tinha cabelos brancos começando a aparecer.  Institivamente passei a mão pela sua cabeça.  Apesar de tudo eu o seguia amando.  Tinha aventuras, mas nada era como eu queria.

Riu, sei que me amas de verdade, tive meu coração fechado a muito tempo, mas estou melhor.

Mas o que quero é falar do teu irmão, algo dentro dele se rompeu, está se desequilibrando, tenho medo de que faça alguma coisa contra ele mesmo.  Ele só escuta a ti.

Nessa noite ao chegarmos em casa, me perguntou se queria entrar no seu apartamento, nunca mais tínhamos retirado o armário que separava um do outro.  Sabia que ele nunca trazia ninguém, entrei, nos sentamos, ficamos escutando música, solos de clarinete, que ele tanto amava, um ao lado do outro, encostei minha cabeça no seu ombro, fiquei ali como me sentido num porto seguro.  Comentei das minhas conversas com o Moshé.

Também me preocupava por ele.

Tu estás sempre preocupado pelos outros, as vezes te esquece de ti mesmo.

Me beijou suavemente na boca, quando o vi nu, foi como o tinha visto quando andou naquela noite pela casa, comentei isso com ele.

Puxa faz muito tempo.

Pois eu já gostava de ti, nesse dia, não me pergunte por que me apaixonei.

Foi um sexo perfeito, eu era inexperiente, mas me ajudou.  Me perguntou por que nunca tinha feito sexo com outros.

Lhe disse que tinha tentado, mas que o tinha na minha cabeça.

Não comentamos com ninguém, acredito que minha mãe deve ter percebido.   Eu dava desculpa que como Moshé dormia no meu quarto, ali era seu studio, eu dormia na casa do Abraham para não incomodar.

Moshé foi cada vez se fechando mais, tinha dias que mal falava, passava o dia inteiro escrevendo ou desenhando.

Saia para comprar papel, lapises, voltava para casa, seguia trabalhando, comia mal, era preciso insistir com ele.    Um dia me disse, tens razão, teríamos acabados todos num campo de concentração.

Um dia, sentou-se ao meu lado, respirou fundo, me disse, coloquei tudo para fora, mas só posso mostrar a ti.

Entramos no quarto, me abraçou, me pediu perdão pelo que ia ver.  Ele tinha desenhado tudo que tinha passado com ele, começava conosco na estação de trem, com meu pai atirado ao chão enquanto íamos embora.

Seguia por Paris, nosso embarque clandestino, Israel, foi quando começou a trabalhar para a Mossad, depois de esta na guerra, contava detalhadamente cada pessoa que tinha matado, desenhava perfeitamente a cara da pessoa, ele era um franco atirador, sempre trabalhava sozinho em tudo.  Das famílias que tinha assassinado, sempre cumprindo ordens, as cara das pessoas morrendo, ele executando.  Até a última, que tinha feito sem autorização, um dos homens que prenderam nosso pai, ele descobriu quem era, era o único sobrevivente dos três, dois eram da SS, além do vizinho.   Contava que tinha liquidado todo o resto da família dele, não sobrava nenhum, o da SS que estava vivo, um dos filhos do homem contou que era seu tio, que vivia escondido numa vila na França.   Foi até lá o matou diante de toda sua família.

Tinha se vingado, mas claro tinha contrariado as ordens do Mossad, que queria prender esse homem fazer um julgamento.  Me olhou quando via o desenho, eles não julgaram nosso pai, simplesmente o mataram, porque não tinha mais os diamantes, tinha trocado de bagagem contigo.  Confiou em ti, não em mim, por isso as vezes te odiava.

Lhe disse, já tinhas entrado, quando ele viu alguma coisa, creio que foi um gesto instintivo, como de defesa de nossa família.  Ele não me escolheu por algum motivo, simplesmente estava ali, pois tinhas entrado primeiro.

Eu sei, agora entendo tudo isso.

Me entregou, um maço de papel, guarde bem isso, um dia quem sabe poderás escrever sobre mim.

Dois dias depois desapareceu, tinha se jogado no Sena, lhe enterramos com seu nome verdadeiro, eu rezei o Kadish por mais um.  Henry ficou sabendo, telefonou para minha mãe, mas ela lhe bateu como telefone na cara.

Eu tinha lido o que ele tinha escrito, contava que tinha sido Henry que quando voltou da trabalhar, que o tinha recrutado por saber que era excelente franco atirador, para fazer esses trabalhos.

Depois tentou falar comigo, me neguei, Abraham, tinha ficado horrorizado com o que tinha lido, se apareces por aqui, sou capaz de te matar.  Fique aí escondido porque se te encontro te mato.

Segui vivendo com ele, agora quando ia de viagem ele me acompanhava, trabalhava com vários músicos, os ensinando a colocar a alma na execução de uma peça, dizia a técnica é importante, mas a emoção é vital.  Trabalhava pelas manhãs no conservatório de Paris, pela tarde com a orquestra.

Muitos diretores de orquestra pediam auxilio a ele.  Reclamavam que eu nunca aceitava convites para fora da Europa, o que não deixava de ser uma verdade.

Quando Rufus lançou seu primeiro livro, foi um sucesso imenso.  Era a história de um garoto que inventava histórias para sobreviver ao horror de tudo que via em sua volta.  Era assim que ele tinha superado sua infância.   Na parte final, falava de Israel, nunca tinha se sentido lá como se fosse sua pátria, ao contrario do Roger que fazia tudo para ser aceito.

Lhe passei os desenhos de Moshé, o texto que ele tinha escrito, escreveu mudando os nomes das pessoas, para não ter problemas.  Na verdade Moshé só sabia que tinham jogado nosso pai no chão, para prendê-lo porque Henry tinha contado o que seus informantes disseram.

Ele não tinha visto nada, lhe contei que na hora de subir no trem, ele como sempre tinha que fazer tudo na minha frente, tinha subido, eu fiquei por último, contei como tinha sido a cena, pois as vezes tinha pesadelo com ela.  Meu pai olhando para trás, vendo algo que eu não via, o movimento rápido, trocando nossa bagagem, como eu tinha imaginado anos depois as duas noites que passou na joalheria, desmontando joias, retirando as pedras preciosas para nossa sobrevivência.  As bolsas que tínhamos encontrado, na bagagem que me tocou, que até hoje minha mãe, ainda tinha umas quantas, na caixa forte de um banco.  Vendia alguma quando precisava de dinheiro, podíamos viver anos com o lucro.

Rufus conheceu uma professora como ele, que dava aulas na mesma escola, ela era mulata, se apaixonaram, foi um casamento distinto, os dois não tinha religião, podiam ter se casado por qualquer ritual, mas não, se casaram no civil, depois fizemos uma festa, entre sua família e a nossa ou o que sobrava dela.

Eu oficialmente contei a minha mãe o que acontecia comigo, ela riu, sempre soube, pela maneira como o olhas.  Não se preocupe. 

Rufus veio morar com ela, a família não parava de crescer, pela casa sempre tinha uma criança correndo, o que provocava risadas altíssimas da minha mãe.   Ela ensinava as crianças a falar o ídiche como tinha ensinado para nós.

Há uns dez anos atrás, um dia Henry apareceu, velho, usando um bastão, num carro oficial, veio falar em particular com ela, lhe pediu perdão, mas pela cara que saiu, vi que não o tinha dado, tentou falar com Abraham, mas quando o viu com o braço no meu ombro, desistiu, desceu a escada mais curvado que tinha subido.

Depois ela conversou conosco, chamou o Rufus, sua mulher para escutar, não posso perdoar, ele arrebatou dois dos meus filhos, não eram dele.

Agora tem remorsos, quer se livrar disso tudo, lhe disse que não iria ter ninguém da família para rezar o Kadish pela sua morte, pedi que saísse de nossa casa.

Tempos depois nos informaram de sua morte, mandaram uma fotografia, um grupo de homens ali em pé, na traseira, da foto, ele pediu que ninguém rezasse o Kadish para ele.

Para mim a morte que mais me tocou foi a da minha mãe, um belo dia não se despertou, era interessante nunca se queixava de nada, como odiava ir aos médicos, o que veio testemunhar, disse que tinha tido um enfarte dormindo.

Eu rezei mais um Kadish, agora os meninos do Rufus tinham aprendido, pois eu os tinha ensinado, me acompanharam como num coro.  Mas no seu enterro só fomos nós como ela queria.  Nesse dia lhe disse ao Abraham como estamos ficando velhos.  Ele riu a bessa, nem sabia a idade real que tinha, me contou toda sua infância, até que fugiu das mãos de sua mãe, que era uma cantora de Jazz, para fazer o que queria da vida.  Tocar clarinete. Quando fui tirar documentos, me perguntaram quando tinha nascido, não sabia, porque nunca tinha comemorado nenhum aniversário.  Acreditava que tinha 18 anos, quando procurei por ela para perguntar, ninguém sabia, tinha desaparecido, quando sua carreira começou ir a pique por causa das drogas.

Então resolveram que eu tinha 18 anos, precisava de documentos para poder viajar como grupo que tocava.

Agora devo ter quase noventa anos, ou mais, mas não me importo, tenho alguém que me ama como sou.

Eu estou com quase 85, ele já passou dos 100, mas vivemos bem, no mesmo edifício, com a família imensa do Rufus, que para escrever, escapa para nossa casa.  O livro sobre o Moshé fez muito sucesso, mas impediram sua publicação em Israel, a nós nos dava igual.

Reservei uma bolsa de últimos diamantes para mim, entreguei o resto para ele, pois tinha os meninos para mandar para a universidade.

De qualquer maneira, quando eu morra, será deles da mesma maneira.

De ser músico, passei a professor de músicos, substituindo o Abraham, mas vi que não era o que gostava, passei a me reunir com colegas que gostavam das mesmas músicas, íamos tocar pelas arcadas de Paris, para simplesmente fazer música.

Fizemos um pacto, que queríamos morrer juntos.  Um dia desses terá que ser, pois já só podemos usar o elevador que puseram no edifício, porque subir e descer essas escadas, nem por deus.

Os meninos, agora estão sempre lá em casa, eu ensino o pequeno do Rufus que se chama Abraham ou pequeno Abe, como dizemos, a tocar o clarinete, como diz o Abraham esse tem mais estradas que muitos por esse mundo afora.

Eu concordo, por isso o pequeno é uma sumidade, creio que já nasceu com a alma de músico, pois entende de tudo, isso que é o menor, algumas vezes, vamos ver seus concertos, mas antes toca para os dois, para ver se encontramos algum defeito na sua maneira de tocar.

É como se fossemos seus avôs.  Pelo menos essa parte segue.

O mais velho tem o nome de Moshé, Rufus reclama, que é um cabeça dura, eu lhe digo que a culpa tem o nome, tivesse escolhido outro.

UP

                                                           

Jack foi meu companheiro desde a primaria, vivíamos uma casa na frente da outra, nossos pais trabalhavam no banco da cidade, não era muito grande, mas era um lugar típico americano, com casas bonitas.

Um belo dia como se o mundo tivesse vindo a baixo, meus pais foram de viagem, estavam de férias, antes de voltarem estourou um escândalo, acusavam o pai do Jack de ter desviado dinheiro do banco para roubar os fazendeiros, o pessoal que depositava todo seu dinheiro nesse banco, seu pai, como subgerente convencia os clientes de se arriscar em aplicações, que se esfumaram da noite para o dia.   Enquanto investigavam, ficou fechado em casa, lhe dava vergonha sair na rua. 

Como meus pais estavam de viagem, Jack ficou lá em casa, estava muito abalado, não acreditava de maneira nenhuma que seu pai fosse capaz disso.  Eu concordava com ele, tínhamos ido de acampadas com ele sempre, era um sujeito que podias conversar qualquer coisa, ao contrario da minha casa, que certos assuntos eram tabu.

Com meus pais falar de sexo, era como falar do pecado, falta de educação, ou não era politicamente correto.

Tudo que aprendi de sexo, aprendi com o Jack, nos descobrimos juntos, fizemos sexo desde os 14 anos.   Para os padrões eu era um tipo bonito, sempre iria esbarrar nisso, mas claro usava óculos, não jogava futebol americano, tampouco basquete, só era bom em natação, os dois erámos bom nisso, disputávamos sempre quem ia ganhar.   Na piscina o que gostávamos era de mergulhar de um lado, sair do outro.  As apostas, eram, quem perdia tinha que dar um beijo no outro.

Quando tudo isso aconteceu, eu fiquei protegendo o Jack, afinal era meu amigo, enquanto não se provasse que seu pai efetivamente era o culpado, mas era difícil cidade do interior, as pessoas que pareciam boas se transformavam em feras.

Voltamos para casa, ele sabia que sua mãe que trabalhava no hospital estava dando um duro danado, pois além do ser rechaçada, tinha que trabalhar de qualquer maneira.   A porta estava aberta, se escutava uma discussão tremenda, alguém, reclamava que tinha perdido todo seu dinheiro economizado, para sua aposentadoria.

Escutamos o ruído de uma pessoa caindo, quando chegamos ao salão seu pai estava no chão cheio de sangue, uma pessoa saia pela porta da varanda.  Eu sabia quem era.

Chamei a delegacia, nem cinco minutos, apareceu o xerife, quando se colocou de costa para mim, tirei sua arma, bem como as algemas, o prendi.

Quis reclamar, mas lhe disse, eu te vi matando o pai do meu amigo.

Ele relaxou os ombros, em seguida apareceu um inspetor que estava ali, justamente investigando esse caso.  Ficou admirado, lhe contei que tinha visto o xerife sair pela porta da varanda, levava o objeto com o qual tinha golpeado muitas vezes o homem que estava ali caído, nisso chegou à ambulância, mas já não podiam fazer nada.

Sai com o inspetor, lhe disse que o xerife não tinha tardado nem cinco minutos em chegar, então a arma do crime tinha que estar por ali.   Todas as casas desse quarteirão, tanto de um lado como o outro, ficavam de costa para uma pequena floresta.

Saímos os dois andando, buscando alguma coisa, quem a encontrou fui eu, já quase no final, aonde imaginei que ele tinha recebido o chamado.

Quando voltamos, ele confessou, lhe faltavam pouco tempo para a aposentadoria, o pai do Jack o tinha convencido de aplicar esse dinheiro, agora tinha evaporado.   O dinheiro depositado o banco tinha um seguro, mas esses aplicados não.   Ele ainda estava furioso, o inspetor comentou, mas eu te expliquei a culpa não é dele, ele fazia somente seu trabalho, se olhas esta casa, é uma casa normal, nunca saia da cidade, então se roubou acabas de tirar a possibilidade de descobrirmos aonde está o dinheiro.

Justo nessa hora chegavam meus pais de viagem, se assustaram muito, afinal o inspetor era do FBI, meu pai devia começar a trabalhar no dia seguinte.

Como vi os dois nervosos, perguntei a minha mãe, por quê?

Claro seu pai trabalha no banco, será interrogado, essas coisas deixam qualquer um nervoso.

Nessa noite Jack ficou com sua mãe que estava inconsolável, dormiriam na casa de seus avós maternos que viviam na cidade.

Depois de comer, sentia um cansaço incrível, muito sono, fui para a cama, dormi como uma pedra, então não vi o que acontecia, apenas poderia deduzir depois.  Os dois limparam a casa inteira, levaram num furgão que sempre estava na garagem, tudo que havia de valor na casa, coisas que eu imaginava inúteis, mas que pelo visto tinham valor.   Quando despertei de manhã, tinha um bilhete preso na minha camisa do pijama.  Tudo que tinha escrito era, perdão, um número de telefone, falar com Karen Kingshot, não tinha ideia de quem era.

Desci, a casa estava completamente vazia, com muitas coisas fora de lugar, nem sombra dos dois.  Levei um susto, tive que sentar-me para fazer uma exercício de respiração.

Nisso chegou o Jack, ficou tão assustado como eu.  Em minha cabeça se formava uma ideia, a casa era a ultima da rua, depois fazia uma curva, se saia na estrada principal, nem uns dez quilômetros depois, se estava numa autovia que tanto se podia ir para NYC ou para Chicago.

Ele me disse, telefone.  

Chamei, a voz que atendeu estava sonolenta, disse quem era, Jess Trinyt, bom dia meu filho, o que foi que aprontaram?

Lhe disse que tinham desaparecido.

Chame a polícia, avise que estou a caminho, sou tua tia.

Nem sabia que tinha uma tia, nunca se falava em nada a respeito de família.

Para me distrair, fui arrumar minha cama, embaixo do travesseiro, tinha um envelope só com notas grandes muito dinheiro.   Desci, pedi ao Jack que chamasse o inspetor, fui correndo ao meu esconderijo, guardei esse dinheiro lá.

Quando ele chegou contei o que tinha acontecido.

Merda, cheguei tarde, só hoje verificaram os dados dos dois.   Fazia muitos anos que não davam um golpe.

Eu não me lembrava de nada disso, minha lembrança mais antiga, era chegando a esta cidade, a esta casa, devia ter uns seis ou sete anos, era como se tivesse borrado tudo anteriormente para me proteger.

Lhe disse que minha tia estava a caminho, lhe dei seu número de telefone, bem como seu nome, ele disse a grande Karen é tua tia.

Eu nem sabia quem era, tampouco porque era grande.

Não sabes quem é tua tia, me perguntou o inspetor Klaus?

Menor ideia, nessa casa nunca se falou de família, parentes nada, havia muitos temas tabu, certas coisas não se falava.

Tua tia Karen, é uma grande estrela da Broadway, canta, dança faz coisas incríveis.

Não tinha a menor ideia, de qualquer maneira telefonou, ela disse que estava justo saindo de casa, que chegaria assim que possível.

Ficamos os dois ali sentados.   Ele me perguntou se eu sabia que lugar meus pais tinham ido de férias enquanto acontecia tudo isso.

Minha resposta o deixou impressionado, quando lhe disse que isso era um dos temas tabu, não devia perguntar aonde iam, tampouco depois se falava no assunto.   Cada oportunidade, viajam, mas nunca me levaram com eles.

Temos quase certeza que foi teu pai, que levou todo o dinheiro do banco, ele já fez isso várias vezes, mas depois troca de nome.

Fiquei com o Jack, sentado na varanda, ele poderia agora me odiar, pois meu pai era culpado da morte do seu.

Jamais pensaria algo de ti, como me defendeste dizendo, que eu não sabia que meu pai era culpado, por isso não se podia condenar.

Estava arrasado, eram duas pessoas frias, não me tratavam como via os pais do Jack fazer com ele, carinho, nada a respeito.

O Inspetor Klaus, deixou um guarda conosco, foi ao banco, pois estavam revisando o gabinete de meu pai.

Não entendia por que tinham me deixado para trás, nenhuma família faz isso com seus filhos.

Quando chegou minha tia, numa limusine, ficamos os dois de boca aberta, desceu, quando o chofer abriu a porta para ela, na minha cabeça estalou, agora me lembrava dela, numa reunião em seu apartamento, quando me indicava os que pensava que eram meus pais, dizendo que cuidariam de mim.

Fiquei em pé, sem saber o que fazer, me abraçou me beijou, despenteou meus cabelos, lhe apresentei o Jack.

Ela estendeu a mão para o policial, que estava de boca aberta, diga-se de passagem que era uma mulher especial, não só porque era bonita, mas sabia ser agradável.

Nos sentamos na sala, o policial tinha ido avisar o inspetor.

Lhe contei o que tinha acontecido, que tinham matado o pai do Jack, talvez por culpa do meu.

Ela cortou pelo sano, eles não eram, nem nunca foram teus pais.   Ela é minha irmã, como estava casada, pedi que cuidasse de ti.  Tua verdadeira mãe, era nossa irmã pequena que morreu, quando tinhas 3 para 4 anos.   Foi quando soubemos que existias.

Os dois, nunca foram de confiança, como ia fazer um filme fora, pedi que cuidasse de ti, mas desapareceram.   Quando voltei, não estavam mais, como tudo de valor do meu apartamento tinha desaparecido, te levaram junto, fiz uma denúncia, mas nunca encontraram nada.

Qual o sobrenome que usas?

Lhe disse meu nome, Jess Trinyt.

Claro com esse sobrenome, que não é verdadeiro, teu nome é André Kingshot, como o meu.

Nisso chegava o inspetor Klaus, foi galante com ela, inclusive beijou sua mão, falando que era apesar das circunstâncias um prazer imenso em conhece-la.

Ela lhe contou toda a história, eu não era filho dos dois, inclusive meu nome não era esse, não podia imaginar aonde estavam.

Foi a França fazer um filme, quando voltei, minha casa estava basicamente vazia, venderam tudo, desapareceram, inclusive com o menino, que é filho de minha irmã menor que já morreu.

Me culpei mil vezes por ter confiado neles, fiz a denúncia, mas nunca os encontraram.

Perguntou se podia ficar hospedada na casa.  Estavam nesse momento revistando seu quarto, bem como o resto da casa.
Jack estava assustado, ela o abraçou, coitado, perder seu pai, por culpa desses dois, avise sua mãe que arcarei com todas as despesas do enterro.

Acho que minha mãe, nem tem condições psicológicas disso.

Tia Karen era uma mulher diferente, assumia o mando das coisas, ia delegando tudo.  Perguntou aonde estava o cadáver, chamou seu chofer, disse para ele contatar a funerária da cidade, ver o que se podia fazer.

Depois foi com eles, falar com a mãe do Jack.  A coitada estava meio catatônica, já era duro antes, agora era pior.

Mas seu avô disse que a ajudava a preparar tudo.

Nos dois tínhamos um exame, fomos para a escola, fizemos o exame em sala separada dos outros alunos, pois o diretor temia alguma coisa contra nós dois.

Eram os últimos exames que tínhamos que fazer.  Os dois éramos os alunos mais brilhantes da escola, tínhamos a possibilidade de ir para qualquer universidade, pelas nossas notas, já tínhamos mandado o curriculum para muitas.

Agora teria que pedir para a escola trocar meu nome em tudo, teria que fazer o processo todo outra vez, o inspetor Klaus disse que me ajudaria, o FBI, iria contatar as universidades para saber como proceder.

Jack estava aterrado, não tinha dinheiro para isso, a muito tempo estávamos os dois trabalhando, depois das aulas para conseguir algo de dinheiro para ir, tudo bem teríamos bolsa de estudos, mas necessitávamos dinheiro para o que fosse necessário.

Depois do enterro, parece que a mãe dele entrou em razão, nos sentamos os quatro, ela queria ir para o mais longe possível, pois se já estava difícil, achava que agora seria pior.

Seguiriam considerando que seu pai era culpado, por ter convencido as pessoas, mas esse era seu trabalho.   O banco devolveria o dinheiro depositado, mas não o dinheiro que estavam em aplicações.

Meu pseudo pai tinha limpado o banco, nunca entenderia por que tinha voltado.  Ou será que tinham alguma coisa escondida na casa.

O FBI descobriria depois, que a casa, estava cheia de pequenos cofres, escondidos nas tomadas elétricas nos rodapés, mas tudo tinha desaparecido.

Eu ficaria para conseguir os papeis novos, quando estivesse tudo pronto, iria para NYC, na casa da minha tia, para definir o que iria fazer de minha vida.

A mãe do Jack tinha conseguido um emprego, num hospital da Marinha, em San Francisco, com isso nos separávamos.  Estávamos os dois chateados.  

Minha tia para ajudar, deu um cheque num valor alto para eles começarem a vida lá.  Como Jack tinha bolsa de estudos, a universidade o aceitou.

Eu fiquei para trás sozinho.  Fiquei uns dias hospedado no pequeno hotel ao lado do quarto do Inspetor Klaus.  Ele era super amável comigo.

Quando tudo ficou pronto, nos sentamos, me disse, você tome cuidado, pois podem tentar se aproximar de ti, proteja tua tia, que é uma boa pessoa.   Mas tente borrar tudo isso da tua cabeça, comece vida nova, no final soltou, toda essa baboseira não ajuda muito, mas tente.

Me deu o número de seu telefone particular, qualquer coisa me chame.

Fui buscar minha caixa escondida, mas não a abri, enfiei no fundo da minha maleta, tive que comprar uma, separei a roupa que gostava, para uma nova vida, fotos minhas e do Jack juntos desde garotos, eu já sentia falta dele, me faria falta sempre, pois com ele falava de tudo.

Nunca mais encontrei um amigo como ele.

Dei graças a deus ir embora, pois nos últimos dias, tínhamos sido agredidos verbalmente em todos os lugares que íamos, éramos como dois malditos.

Nos despedimos, iam no carro da sua mãe, com um desse reboques que levavam tudo que podiam de sua casa.  Ficamos abraçados, muito tempo, não podíamos nos beijar.

O inspetor disse que gostava da nossa amizade.

Lhe contei que erámos amigos desde que tinha chegado a cidade, meu único, além de melhor amigo.

Depois avisou minha tia, que mandaria alguém me buscar na estação de ônibus.  Apertou minha mão, gostaria de ter tido uma amizade como a de vocês.    Fiquem em contato.   Nos veríamos anos mais tarde.

No ônibus fui ruminando, ele tinha feito contato com as Universidades, agora eu teria que escolher.

Quando cheguei a NYC, lá estava o fiel escudeiro de minha tinha, Charles Loutgon, a quem eu chamaria as vezes de James.

Abriu a porta detrás do carro, mas me neguei a sentar atrás, queria olhar a cidade, me sentei ao seu lado na frente, ele ria, tua tia as vezes faz isso, diz que quer olhar os lugares.

Ela vivia num edifício enorme, não era o que eu conhecia, o homem que abriu a porta, era seu marido, a quem com os anos, consegui ter um bom relacionamento.

Me apertou a mão dizendo que era bem vindo a sua casa, pode me chamar de Peter, meu nome é Peter Brown.

Tua tia ainda está dormindo, teve uma festa ontem do encerramento do espetáculo que esta fazendo, venha vamos tomar café.   Nos sentamos no que viria ser sempre meu lugar favorito no apartamento, a biblioteca. Ele riu que eu ficasse olhando tanto livros, alguns são falsos, os meus estão deste lado, sinalizou os que eram dele, livros normais, de arquitetura.

Sou arquiteto, o que queres estudar afinal.

Pois pensei em matemática, bem como arquitetura, gosto de imaginar construir coisas.

Então já tenho alguém para trabalhar comigo.   Não me disse para mim, ou meu empregado.

Quando ela se levantou, os empregados ainda estavam acabando de arrumar as coisas fora de lugar da festa da noite anterior.

Peter disse que lá pelas tantas, se fechava no quarto, colocava uma coisa no ouvido, ia dormir, hoje fiquei porque queria te conhecer.

Almoçamos os dois, enquanto ela tomava o café da manhã.   Só me disse, sempre é assim.

Adoro dormir até tarde, há não ser que haja necessidade de um ensaio ou coisa assim.

Tenho que aproveitar, pois dentro de uma semana começo a ensaiar um novo trabalho.

Já vejo que conversaste com o Peter, está contente que goste de arquitetura.

Depois nos sentamos os três na biblioteca, quando pedi que minha irmã cuidasse de ti, foi pelo tipo de vida que levo, levantar tarde, comer em horas diferentes, nada saudável para uma criança.   Podes ficar aqui se quiseres, mas Peter tem uns pequenos apartamentos, pela cidade que aluga, também a partir da universidade que decidas, poderás escolher.

Respondi prontamente, eu gosto da vida simples, gosto de estudar, calma para me concentrar.

Honestamente pensei na Universidade de NYC, tenho a bolsa de estudos, mas terei que arrumar um emprego de meio dia para ganhar algum dinheiro.

Nada disso, quanto muito o Peter pode arrumar para trabalhares no seu escritório.

Venha me disse ele, deixamos tuas coisas no quarto por enquanto, depois saímos por ai, vou te mostrar a Universidade, eu estudei lá, depois fiz pós graduação na Sorbonne, que vale a pena também, amanhã podemos ir a Universidade, para olhares, ali perto tenho dois apartamentos pequenos, que podem te agradar, mas nos domingos te quero aqui, para almoçar, isso eu não abro mão.

Teria que comprar algo de abrigo, pois o meu estava velho, era da mesma altura dele, se quiseres depois olhe meu vestidor, pode ter alguma coisa que te agrade.

Adorei o escritório, me apresentou a todos como seu sobrinho, que se eu gostasse poderia trabalhar ali com eles, me apresentou seu braço direito, um descendente de japonês, estava trabalhando num projeto para um pequeno museu nos palacios de um árabe.  Me mostrou o projeto, fiquei ali com ele, Peter foi para seu escritório.   Tadeus Ado, foi me explicando seu conceito, depois terei que desenhar os moveis de interior, isso é sempre mais complicado.

Me passou os cálculos de estrutura, eu comecei a olhar, a matemática sempre me tinha fascinado, comecei a fazer imediatamente os cálculos mentalmente.   Apontei a um, lhe dizendo creio que aqui tem um erro.  Veja, peguei um papel, comecei a fazer os cálculos com ele me olhando.  Embora não sabia como se pesa os cimentos, há um desequilíbrio entre estás estruturas.

Ele ficou me olhando, chamou um rapaz, de uns trinta anos, venha ver uma coisa aqui no teu cálculo.  Não disse que tinha sido eu que tinha notado, o mesmo me olhou de cima para baixo, como dizendo que faz esse fedelho aqui.

Quando apontou o erro, começou a revisar o que eu tinha feito. Foi buscar seu erro de calculo do projeto, realmente a diferença era forte.

Pelo visto estivestes de festas todo o final de semana, verdade?

Mandou que ele revisasse todos os cálculos.  Fomos a sala do meu tio, este tinha visto a movimentação mas não tinha se aproximado.  Tadeus soltou, não me disseste que esse garoto era um gênio, bastou olhar um calculo para achar um erro.

O filho do teu amigo, vive de festa, depois aqui está sempre como um sonâmbulo.  Tadeus, comentou que eu devia realmente fazer o que tinha pensado, matemática bem como arquitetura, sempre faltam pessoas que gostem de calculo de estrutura, nem sempre todos sabem usar, além é claro de analisar.

Peter pediu se o Tadeus, podia dar uma volta comigo pela Universidade.

Claro, que sim depois que salvou o meu projeto, tudo.  Tinha um sentido de humor, que nos uniu para sempre. 

Tudo é claro me parecia grandioso, pois lhe expliquei que em comparação minha cidade é pequena.  Quando voltamos para o escritório, Peter atendia uns clientes, fiquei olhando com ele o projeto.  Vi um espaço, lhe perguntei o que seria ali?

Ainda não sei, pensei num jardim, mas claro estamos falando em um lugar mais para o deserto.

Pelo que li, as palmeiras de datiles, são as que mais aguentam nesses lugares mais secos, mas creio que terias que abrir um espaço em cima, para que recebam a luz do sol, como uma claraboia.  Contei para ele, que gastava dinheiro nas revistas de arquitetura, desde que tinha pensado em estudar a mesma.

Amanhã te mostro o que vou desenhar a partir da tua ideia.

Quando Peter saiu, foi me mostrar o apartamento.  Ele achava pequeno, mas eu o vi perfeito para mim, era um quarto sala, banheiro uma cozinha americana, o salão poderia montar como um lugar para estudar, trabalhar.

Bom falo com tua tia, mas tome cuidado, ela vai querer decorar para ti, sabes como é.

Não se preocupe, tenho minhas economias, venho trabalhando a tempo, nunca gastei o meu dinheiro a não ser em revistas de arquitetura.

Terei muito que aprender como Tadeus.

Não diga nada a Karen, mas amanhã mesmo começo a mobiliar o apartamento, mas não me disseste o preço do aluguel.

Nada.

Como nada, nada disso faço questão de pagar, pois trabalhando poderei fazer isso, tenho minhas economias.

Peter não sabia o que fazer, me informarei, te pagarei o preço que todos pagam.

No dia seguinte, saiu cedo de casa, ali por perto conseguiu uma cama de segunda mão, um cadeirão para a sala, a mesa de estudos, uma cadeira dessas com rodas, comprou roupa de cama, bem com um edredom para o frio, quando estavam colocando tudo no apartamento, viu um rapaz saindo do apartamento ao lado, se apresentou como novo inquilino, desculpe perguntar mas quanto pagas de aluguel.

O outro disse o preço que pagava, não sei se sabes mas embaixo há maquinas de lavar e secar roupa, venha que lhe mostro.  O outro também estudava na universidade, iam coincidir nas aulas de matemática.  James Crowding, apertaram as mãos ainda não estava acostumado a usar seu nome verdadeiro, André Kingshot.

Teria que perguntar na primeira oportunidade a sua tia, sobre sua verdadeira mãe.

Comprou também roupa que já deixou no armário do apartamento.

Viu um banco ali perto, depositou o dinheiro que sua tia/mãe tinha deixado no envelope, era muito dinheiro, não sabia a origem do mesmo, anotou num caderno, para ficar esse valor sempre guardado, nunca se sabia o dia de amanhã.

De tarde foi para o escritório, Tadeus mostrou a modificação, lhe ensinou como calcular o peso disso, bem como seria construído.   Temos no escritório, depois te apresento, uma equipe de engenheiros, que cuida das construções, mas eu sempre acompanho a mesma.

Foram tomar um café juntos, ficaram conversando.  Tadeus disse que vivia num outro apartamento do Peter, dois depois do dele.

Gostava demais da camaradagem do Tadeus, disse que sentiria muito a falta do seu amigo de toda vida, mas que ele ia estudar do outro lado do pais.

Quando chegou em casa, viu uma correria desgraçada, sua tia dava um jantar, lhe perguntou se não tinha um smoking para isso.

Olhou sério para ela, sinto muito, mas pensava em me mudar agora a noite, um dia virei aqui para uma festa tua como convidado, embora soubesse que estava mentindo.

Pegou suas coisas, encontrou Peter na biblioteca, disse que ia estrear seu apartamento, não estava para festas.   Escreveu num papel, o valor do aluguel, basta me dizeres aonde deposito o dinheiro, depois precisamos conversar quanto vais me pagar para trabalhar no escritório.

Ele, riu, gosto de ti por isso, fazes bem em escapar, eu ia adorar, mas ela me mataria.

Quando saiu cruzou com os primeiros convidados.

Chegou ao apartamento, deixou suas coisas, saiu para comer alguma coisa ali perto, viu Tadeus com um grupo, este lhe acenou, para se juntar a eles.

Preciso de paz, Tadeus, amanhã nos vemos, só vim comprar alguma coisa para comer.

Se despediu educadamente de todos, pegou sua encomenda foi para seu novo lar.

Sentou-se na mesa, escreveu uma carta longa para o Jack.  Falando como sentia a falta dele, perguntava como se estava apanhando.

Assim seriam sempre as cartas semanais que iriam trocar durante anos, até que foram se distanciando, quando o Jack contou que estava com alguém.

Ele ao contrário, tinha percebido que os amigos do Tadeus eram gays, mas não comentou nada no dia seguinte, como ainda ia demorar para começar as aulas, trabalhava o dia inteiro, sempre tinha alguma coisa para fazer, quando não, analisava cada detalhe do projeto do Tadeus.

Este tinha lhe perguntado por que não quis ficar na mesa com eles. 

Uma larga história que ainda estou digerindo, um dia deste te conto. 

Tadeus comentou que Peter tinha mandado ele mesmo combinar o salário, respirou tranquilo, daria para viver.

Sua rotina era sempre a mesma, chegava de manhã, começava a trabalhar, como Tadeus necessitava, começou a desenhar o projeto, para poder apresentar, conforme iam acertado, desenhou em vários ângulos.

Tadeus disse que chegava ao curso com alguma dianteira, mas seja humilde como eres comigo.

As vezes saia para comer com ele, conversavam.

Tadeus lhe perguntou, normalmente uma pessoa como tu, que é sobrinho do patrão, chega achando-se o máximo, mas não tu eres um tipo normal.

Essa é a coisa, eu era um tipo normal até a pouco tempo, se fosse realmente como devia ser, estaria me fartado nas festas da minha tia, chegaria tarde para trabalhar, mas minha vida não era assim até pouco tempo.

Acabou contando para ele, porque tinha confiança, toda sua história, eu na verdade não consigo descobrir ao fundo da questão, pois cada vez que toco no assunto com ela, escapa.

Fale com teu tio, ele é um tipo diferente.

Perguntou ao Peter o que sabia de sua origem?

Bom sei que eram três irmãs, tua tia é a mais velha, foi a que veio para fazer sucesso, a mais bonita, cantava, dançava, etc.  A segunda, que passava por tua mãe, logo se arrumou com esse tipo, aparecia, desaparecia, vivendo por todo o pais.   A pequena, que era a menina dos olhos de tua tia, só sabia dançar.  Foi uma das garotas da Radio City, um dia se enrolou com um sujeito que ninguém sabe quem é, ficou um tempo fora, um dia voltou contigo nos braços, morreu logo em seguida, foi quando a outra reapareceu, pelo que se disse esfregou na cara de sua tia que era casada.   Foi quando necessitou que ficasse contigo, para ir filmar na França, quando voltou tinha desaparecido, te procurou por todos os lados.

Ela não é uma pessoa de mostrar afeto por ninguém, mesmo comigo, as vezes me faz um carinho furtivo como chamo, nem sei por que se casou comigo, podia ter se casado por qualquer um que fosse apaixonado por ela.   Mas diz que fui o único que lhe inspirou confiança.

Na verdade no mundo em que vive, nunca se sabe em quem confiar, muitos se aproximam por interesse.

Na época que desapareceste, pensou que iriam pedir um resgate por ti, mas isso não aconteceu, o inspetor Klaus, crês porque lhes dava um ar distinto, compunham uma família, a quantidade de dinheiro que retiraram desse banco foi enorme, mas localiza-los fica difícil, devem ter mudado de nome viver na surdina.

O tempo passou, sua formatura foi concorrida, pois se formava nas duas que tinha escolhido Cum Laude, era um dos mais promissores.  Agora trabalhava com Tadeus lado a lado, desenvolviam os projetos juntos.

Estavam metido num novo, seguindo seu instinto, tinha visto um documentário sobre a região aonde ia ser construído um centro de lazer.

Perguntou ao Tadeus se tinham pedido uma análise geológica da região, mostrou para ele o vídeo, creio que esse local apesar de ser maravilhoso não se poderia construir.

Foram os dois até lá para darem uma olhada.

A ideia era que ficasse em cima de um penhasco, mas pensavam os dois que isso era uma montanha de pedra, chegaram justamente num dia de tormenta, ficaram observando como as ondas comia o penhasco.

Tens razão prestas mais atenção nas coisas do que eu.   Falaram com Peter, esse com os donos do local, insistiam no local.

Peter se reuniu com eles, aceito sugestões, os dois estavam de acordo que caíssem fora do projeto.

Foi construído no local, anos mais tarde teria que ser fechado por motivo de segurança.

Nessa ocasião Tadeus tentou se aproximar dele.

Pediu desculpas, mas não sentia o mesmo que ele, sinto um respeito por ti imenso, confio em ti, sabes disso, mas não estou preparado para dar nenhum passo a respeito.

Foi nessa altura que reapareceu Klaus.

O encontrou por um acaso na casa de sua tia.  Esteve sentado conversando com todos.

Tinham dado um golpe no Alaska, quase conseguimos pega-los, escaparam por pouco.

Lhe deu um estalo na cabeça, uma vez que foram viajar, quando voltaram ela esvaziando os bolsos, tirou uma caixa de fosforo de algum lugar, jogou no lixo, eu fiquei curioso, guardei a caixa, é de um casino.

Na minha lógica, se ganham tanto dinheiro, porque voltam a fazer o mesmo.  Minha tia não gostou muito da conversa, mudou o rumo.  Quando desci, ele estava me esperando, acho que tua tia de alguma maneira, tenta proteger a irmã.

Eu não, nunca foram pais para mim, me tratavam como se trata uma pessoa desconhecida, nunca nenhum carinho ou afeto, nenhum elogio, nada.

Afinal, conseguiram provocar a morte do pai do Jack, que não tinha nada a ver com o assunto, pelo que entendi, alguém sempre leva a culpa no lugar deles, só depois se descobre que não são culpados.

Desta vez se deram mal, pois o sujeito que ia levar a culpa, desconfiou, faziam muita pressão em cima do mesmo, na verdade foi ele que os denunciou.

Venha comigo, tenho guardado essa caixa de fósforo, é de um casino Índio, ou seja não é tão concorrido com Las Vegas, talvez se sentissem mais seguros por isso.

Na hora de se despedirem, lhe deu vontade de abraçar o Klaus.  Esse percebeu, fez um gesto.

Ainda comentou, temos seguido teu amigo Jack, as coisa não lhe vão bem, creio mesmo que se perdeu.   Tudo isso fez alguma coisa em sua cabeça, que ele mesmo não entende. Meses atrás foi preso com drogas, acabamos sabendo por que se tornou violento.

Jack violento, impossível.

Lhe deu a direção aonde vivia. Tinha férias, antes de embarcar para estudar dois cursos na Sorbonne, um de paisagismo, outro completamente diferente, que era cálculos de estrutura em terrenos perigosos.

Tadeus se ria disso, faz parte da tua personalidade, um lado amável, outro escondido.

Quando chegou a San Francisco, foi procurar o Jack.  Já não vivia nesse endereço, tinha sido expulso por não pagar o aluguel.    Um rapaz que o escutou falando com o porteiro, lhe seguiu, lhe disse aonde podia encontrar.

Lhe deu lastima quando o viu, parecia muito mais velho do que era, ficou olhando para ele, um tempo, até o reconhecer, começou a chorar, estava de ocupa num lugar horrível.

Telefonou para o Klaus, que estava justo em San Francisco organizando uma força tarefa para fiscalizarem os casinos.

O ajudou, internaram o Jack, num centro de recuperação, antes de ir embora, o encontrou mais centrado.  

Te encontro, em seguida te perco, lhe contou que tinha que ir, fazer esses dois cursos. 

Ele lhe perguntou se tinha alguém?

Jamais Jack, foste a única pessoa que amei, não sinto capacidade de amar a muito tempo, tentei essa coisa dos encontros de uma noite, mas não era o mesmo.  Na verdade perdemos o que sentíamos um pelo outro.

Eu fui passando de mão em mão, procurava por ti, pelo meu pai, uma pessoa que pudesse ser minha amiga, veja aonde fui parar.  Minha mãe, conseguiu se recuperar, construir outra família, mas se fartou das minhas confusões, diz que sou um adulto, que tenho que arcar com os meus problemas.

Mas eu volto meu amigo, recupere-se, que eu volto.

Uma última coisa, minha mãe sempre falava da família de vocês, dizia que nunca tinha visto uma família que tratava o filho como se fosse uma estampa, só te abraçavam se tinham alguém na frente deles.

É uma verdade, me usaram para enganar os outros, mas creio que existem coisas que nunca irei descobrir.

Antes de ir embora, pediu um favor ao Klaus, se ele podia descobrir se existiam uma terceira irmã realmente a que diziam que era sua mãe.

Verei o que posso fazer, lhe deu o contato do lugar que ficaria hospedado em Paris, se tiveres tempo ou umas férias venha me ver, com vontade de novo de o abraçar.

Chegar a Paris de uma certa maneira lhe fez bem, era como estar longe de tudo isso, como se não tivesse que olhar para trás.

Começou o curso, eram todos estrangeiros, saiu com alguns, mas queria descobrir a cidade sozinho, não sentar-se num Bistrô encher a cara de vinho.  Gostava do vinho, mas queria absorver a cidade, primeiro o tipo de construções que se faziam na época, depois visitou a parte moderna da cidade La Defense, ali apreciou as modernas construções.

Um dia escutou um dos professores, falando com um grupo de alunos de outra turma, sobre uma empresa dedicada a restauro desses edifícios antigos, alguns os apartamentos era tão grandes que podia de um fazer dois ou três grandes.

Falou com ele, gostaria de trabalhar um tempo com essa gente.

O professor, leu seu curriculum, telefonou para uma pessoa, vais falar com Jean-Marc Ferrét,

Lhe deu a direção, o horário que o esperavam.

Era um edifício antigo, todo remodelado por dentro, transformado em escritórios, na Avenue Foch, ficou com a boca aberta.  Um homem lindíssimo parou ao seu lado, dizendo, fecha porque entra mosca.

Não podia imaginar que esse lugar por fora, uma fachada normal, por dentro um lugar fantástico.

O homem entrou cumprimentado todo mundo, ele se apresentou na portaria, lhe levaram ao último andar, uma sala de espera fantástica, uma mistura de móveis antigos, com coisas modernas por cima.

Quando entrou o homem que tinha falado antes, estava de costas, falando com alguém por telefone, ficou admirando o escritório era a mesma coisa, uma mistura de duas épocas, uma parede de cristal, dava uma um jardim, um lugar para se amar, pensou.

Quando o homem o viu, sorriu, pediu um instante, para terminar a ligação, o escutava dizendo, que faça uma exploração escavando em volta, pode ser que essa entrada que aparece na planta baixa, esteja escondida embaixo disso tudo.

Ele se apresentou, Jean-Marc Ferrét, ele disse seu nome.

O professor me mandou seu curriculum, que é muito bom por sinal, participaste em vários projetos do escritório de Peter Brown, com Tadeus, ele fez um curso comigo a muitos anos atrás.

Como vai ele, tem alguém na sua vida.

Não que eu sabia, fui seu assistente até me formar na universidade, mas eu sou muito fechado quanto a isso, de perguntar pela vida particular dos outros, bem como nunca permiti que ninguém soubesse da minha, coisas traumáticas da minha juventude, problemas de família.

Entendo.   Pelo que vejo no momento estas terminando dois cursos da Sorbonne, o que me chama a atenção, como são completamente dispares.

Riu, sei disso, como fiz arquitetura ao mesmo tempo que matemática pura, depois me especializei em cálculos de estrutura.

Sempre me chamou a atenção, vamos dizer assim, como faziam isso, ou não faziam quando construíam as grandes catedrais, como Notre Dame, os palacios, devo ter sido um turista, que em vez de ficar apreciando realmente o que existia dentro, ficar horas parado, com um caderno na mão, fazendo um calculo do peso do local.  Sei que as colunas tinham seu suporte, mas o que existia por debaixo não.

Por isso me interessei, quando escutei o professor falando da vossa empresa, gostaria de aprender, mais por minha imensa curiosidade.  Quando era garoto, meu brinquedo favorito, em vez de ser os super heróis, era uma caixa que me deu o meu amigo Jack, de construções, hoje em dia creio que nem existem mais, eram de madeira, traziam coisas que estão construídas aqui, por isso meus passeios são diferentes.

A cara do homem, era ao mesmo tempo um sorriso, bem como um será que é verdade?

Estás livre por uma semana?

Sim, tenho que terminar de escrever as teses, mas está tudo aqui, bateu na cabeça. Isso posso fazer em qualquer lugar de noite.

Não sais para conhecer a noite de Paris?

Riu, isso me perguntam todos, prefiro o dia a noite, gosto de cair exausto na cama, dormir nada mais.

Chamou uma senhora, pediu que lhe mostrasse a empresa inteira, ela foi com ele aos mais variados departamentos, mostrou um inclusive que os desenhistas, tentavam reconstruir uma imagem, ele impulsivo, soltou, estás colocando essa peça no lugar errado, é da outra perna, veja, se meteu no meio dos homens, começou ele a montar o que sobrava da escultura.   Ela ria, esse é meu departamento, assim vou te contratar.

Estudaste história da arte?

Não senhora, matemática pura, arquitetura, estou fazendo dois cursos aqui.  No curso de paisagismo, justamente falávamos das épocas, mas nos Estados Unidos, não temos isso, tudo se misturou, quando alguém começava a construir uma mansão para algum novo rico, misturava tudo, creio que isso aconteceu nas américas inteira.   Eram eles que tinha dinheiro, se levou muito tempo para que a cultura na arte se implantasse realmente no pais.

Hoje não, temos pessoas que entendem, mas como arte americana, não é bem assim.

Ela pegou dois livros sobre sua mesa, foram escritos por mim, nesse insano trabalho de restaurar castelos, casas familiares, em que de uma certa maneira quase tudo veio abaixo, as grandes fortunas, as recuperam por que querem o luxo o esplendor, se contentam as vezes com um trabalho medíocre, porque nossa empresa é cara.

Jean-Marc disse que vens amanhã conosco para ver uma obra, verdade?

Sim, me interessa aprender.

Só não te disse aonde, por isso aconselho, compre uma abrigo de plumas, que seja confortável, botas para o frio, vamos para o norte.

Meu nome es Jeane-Marie Fustemberg, podes me chamar como os meninos, Jean, ou simplesmente Fustemberg.

Apertou sua mão, nos vemos amanhã aqui, as 7 da manhã, para tomar um café, discutir algumas coisas.

Se preparou como ela disse, pediu para o porteiro guardar suas coisas, ia somente com uma mochila com roupa para o frio, bem como uma bolsa com papel para desenho, em sua cabeça como tinha três meses para entregar a tese, tudo bem.

Chegou no dia seguinte, vestido mais simplesmente que o resto, pois estavam de jeans, mas com casacos de marca, não era com ele, Jeane lhe apresentou ao resto, André é americano, se interessa por nosso trabalho.  Os rapazes do dia anterior acenaram para ele.

Ontem resolveu um quebra de cabeça, por impulso, creio que será futuramente uma boa aquisição.

Quando saíram, viu que iam para uma estação de trem.  Todos basicamente estavam no mesmo vagão, Jean-Marc, veio falar com ele, soube o que fizeste ontem, como funciona isso na tua cabeça?

Chamou Jeane para escutar sua explicação, isso sempre foi assim comigo, quando comecei a trabalhar com Tadeus, no primeiro dia, estava ali em pé ao seu lado, meu olho caiu sobre um calculo de estrutura, ou seja matemática, vi que estava errado, me sentei, fiz o calculo outra vez desde o início, o erro era grande.

Ele sabe como funciona a minha cabeça, estou sempre prestando atenção em tudo, quero saber das coisas.  O mesmo aconteceu com a escultura, a olhei, foi como fazer uma radiografia da mesma, em seguida sabia que lhes faltava perspectiva que eu tinha nesse momento, por isso sabia que estava do lado errado, nada demais, eles acabariam notando.

O filho da puta, ainda é humilde.

Ontem falei com o Tadeus, me esqueci do fuso horário, o despertei de madrugada, falei de ti, foi só elogios.   Só tem uma coisa, não me falaste que o Peter Brown é teu tio.

Talvez porque isso não me importa, sou um funcionário como os demais, recebo o mesmo salário que os outros.   Os outros gastam em carros, em roupas de marca, nada disso me importa, continuo vivendo no mesmo apartamento que sempre usei, é de Peter, mas lhe pago o aluguel.   Podia viver com eles, mas teria que aguentar as eternas festas de minha tia, ou porque começa um novo espetáculo, ou porque esse termina.

Me mudei no primeiro dia que ia ter uma festa, nesse ponto tenho horror a isso, como Peter chama estar de CORPO PRESENTE, MENTE AUSENTE, concordo com ele.  Porque quando muito molho a boca no champagne, ou no vinho, ver tanta comida, me assusta.

Ele é teu tio, que te criou.

Nenhum dos dois me criou, Karen é minha tia, mas nunca me criou, uma larga história, meio complicada.

Só fui viver perto deles, quando fui para a universidade.  Tenho um único dever social, almoçar com eles aos domingos.   Mas normalmente almoço nesses domingos com o Peter, porque ela só se levanta as duas da tarde.

Ficaram rindo da imagem.  Sua vida começa a essa hora, termina quando acaba o espetáculo que está fazendo no momento.   Peter tem uma paciência imensa com ela.

Talvez por isso, tenha escolhido sempre ser ao contrário, seus presentes de Natal ou aniversário, sempre vou trocar depois por alguma coisa mais simples.  Odeio a ostentação.

É para aonde vamos então.  Passou para ele os dados, esse castelo foi construído no século XIV, sobreviveu a muitas coisas, uma parte que é aonde estamos trabalhando, durante a guerra foi terrivelmente bombardeada, aí se escondiam muitas pessoas da vila próxima.

Começaram a retirar as pedras, sem sequência nenhuma, os acabamentos, as esculturas, todas foram misturadas, estamos tentando colocar em ordem isso tudo.  Justamente em cima, ficava a biblioteca do palácio, foi tudo pelos ares, conseguiram chegar as vítimas, poucas sobreviveram, mesmo o proprietário morreu durante a guerra, agora o governo, quer restaurar, não só como um monumento de sobrevivência, mas também para transformar num hotel de luxo.

Só funciona uma torre, bem como a parte da frente.  Estaremos hospedados no hotel da vila.

Ele repassou todas as plantas baixas, perguntou encontraram a entrada que você dizia para procurar?

Não, escavaram mas não acharam nada.

Veja essa planta, se a colocamos em cima da outra ou por baixo da biblioteca, não encaixa, teremos que ter uma copiadora, fazer isso em papel transparente, mas creio que isso está errado.

A cara dos dois era interessante, era como se ele não os estivesse vendo, começou a medir com os dedos, até que alguém lhe entregou uma régua, respondeu merci automaticamente, sorriu, creio que tenho razão, mas teremos que fazer isso.

Quem fez essas plantas baixas, não se deu conta, ou fez de propósito.

Quando chegaram tinham vários veículos os esperando, ajudou os rapazes a carregar a escultura, esses o olharam surpreendidos, pois ninguém tinha feito o menor movimento para isso.

Foi no carro com eles, me contém sobre essa escultura, toda sua história?

Um deles riu, foi contando, pelo que analisamos do material, é do Século XIV como da construção, tirou uma fotos, atrás vê essas marcas, foi feita por algum escultor judeu, eles faziam isso, deixavam essas marcas nas pedras.    Participavam das construções de castelos, catedrais, tinham um sentido de arquitetura muito bom. Nesses lugares não lhes segregavam em guetos, por isso preferiam posteriormente mudar seus nomes, para serem homens livres, dizem que seguiam sim com sua religião.    Posteriormente, encontramos muitos artistas franceses descendentes desses homens, que foram grandes artistas plásticos, algum com sua parte judia, mas a maioria era uma mistura de muitas coisas.

Ele escutava atentamente, embora o rádio do carro estivesse alto, um dos rapazes pediu ao condutor, podia desligar isso, estamos aqui no meio de uma aula de cultura, por favor.

O homem a contragosto atendeu.

Apesar desse ruído todo entendeste?

Sim, estava prestando atenção, como o outro fez um gesto de dúvida, repetiu palavra por palavra o que ele tinha falado.

Muito bem.  Vejo que não eres dispersos como alguns, riu assinalando um dos rapazes.

Me desculpa, eu quando estou em algum lugar, parecerei disperso, mas é assim que se observam as coisas.

Como essa escultura foi parar no escritório em Paris?

Como você viu, ela é um imenso quebra cabeça, estava numa caixa, que só dizia resto, sinalizou o disperso, foi ele que a encontrou, começou montando a cara.  Mas temos um problema, falta um dedo do pé. 

Pois deve estar em algum lugar.

Tinha achado um elo com o grupo, quando desceram do carro, se juntaram a Jeane, que teve que escutar tudo que tinha conversado.

Jean-Marc, mandou alguém a cidade, fazer todas as plantas baixas em papel transparente.

Mostrou para ele, somente uma aquarela, de como era na época, existem poucas fotos dessa parte, porque ficava mais metida dentro do que seria um bosque, mostrou na aquarela.

Andaram por tudo, viu como o rapaz tinha encontrado, existiam caixas e mais caixas com restos.

Se aproximou do rapaz, se apresentou, o mesmo fez ele Paul Roux, perguntou por exemplo agora que estava reconstruída, se havia alguma maneira de recuperar a mesma?

Eu fiz belas artes, não, o que se pode fazer é um molde, reproduzi-la num material que aguente mais tempo.  Esta feita de uma pedra que é fácil de esculpir, por isso também se partiu em tantos pedaços.

Foram andando os dois, ele lhe foi mostrando tudo que tinha encontrado.

Se afastaram por dentro do bosque para ter uma perspectiva da trabalho, era como se tivessem cortado um bolo de noiva em diagonal, que faltasse todo esse lado.

Pelo que vejo, tinha três andares.

Andamos por essa parte, as plantas baixa dizem que não, porque tem uma que não encaixa.

Depois quando voltaram se uniram ao grupo.  Numa mesa imensa, Jean-Marc com Jeane ao lado disse que André tinha percebido que como essa planta que não encaixava tinha sido feito de propósito ou estavam em posição errada.

Pode montar como imagina isso.  Ele observou todas, colocou a que imaginava que era a parte debaixo aonde estavam as vitimas que ficaram soterradas, depois a que não encaixava, mas virada ao contrário, se encaixava perfeitamente, por último a biblioteca.

Mas soltou sem que os outros esperassem, creio que falta uma planta. Os arrastou com ele, veja se olhamos desde aqui, essa pequena parte que sobrou do bolo de noiva, as bombas que caíram aqui, fizeram como um corte diagonal, pela aquarela, existia uma parte em cima, que poderia ser aonde viviam os empregados, pois se apreciam pequenas janelas, olhem aquela escada que sobrou, sobe não desce, sinal que aqui tinha outra coisa por cima.  Não acredito que iriam construir assim.   Fiz parte do projeto da construção de uma biblioteca, nos emirados árabes, tivemos o cuidado de estudar as grandes bibliotecas antigas, elas normalmente ficava protegidas, como num sanduiche. Para que as infiltrações, mesmo seu acesso fosse mais protegido.

Os rapazes, o cumprimentaram. Acredito que a parte que sobrou aqui, deviam ser a cozinha ou alguma coisa que ocupasse o espaço vazio, o debaixo aonde estavam as pessoas escondidas, era o porão aonde armazenavam vinho, ou mesmo cereais, podia estar em desuso na época.

Acredito por não existir nenhum documento específico que essas esculturas eram todas do teto da biblioteca, vejam na aquarela, aqui parece a ponta de uma claraboia.

O Paul Roux, soltou, tens que vir trabalhar conosco.  A porta que procuravam realmente estava do outro lado, soterrada totalmente, levaram um dia escavando, mas todo momento tendo que parar. 

Ele num determinado momento parou, subiu a uma parte mais elevada, molhou um dedo na boca, ficou ali estático.

Pela projeção, além do que sobrou, as bombas foram lançadas nessa diagonal, acredito que não caiam retas, mas sim em diagonal.

Jean-Marc vive dizendo isso, então vamos com mais cuidado, mandem trazer peneiras, pode ser que encontramos o dedo que falta na escultura.  Todos ficaram rindo.

Jean-Marc voltou para Paris, Jeane ficou, instalavam uma tenda do exercito na parte de cima, fizera como uma rampa, foram escavando.  Com a peneira deram com milhões de partes de esculturas, restos de frescos pintados.

Jeane trouxe um arqueólogo, que ia separado o que encontrava, limpando.

Quando encontraram a porta, tiveram que retira-la inteira, pois do outro lado, também havia mais escombros.

Estava justamente no nível que ele dizia.

Começaram a retirar com cuidado, até que ele todo sujo, avisou, aqui tem cadáveres, creio que somos obrigados a chamar os bombeiros, ou a polícia, não sei como proceder aqui.  Jeane assumiu a situação, menino descanse com teus rapazes um momento.

Logo chegou a polícia, além de bombeiros, eles sim sabiam que nunca tinham retirado todos dali. Traziam bolsas, algumas pessoas, estavam mumificadas, pela terra em cima, foram retirando devagar, chegaram a contar 15 pessoas, entre homens, mulheres, crianças. Uma parecia que estava viva, sua mumificação por instantes foi perfeita, mas ao contato com o ar, perdeu as cores, menos mal que tinham feito fotos no momento.

Levaram muitos dias, retirando livros, até que encontraram como uns pergaminhos, que Jeane mandou para Paris, para serem separados, lhe pareciam as plantas do edifício.

Assim eram, foram reproduzidos, em escala, para terem uma ideia.

Voltou com ela, seu batalhão, agora tinham mais esculturas para reconstruir.

Ele aproveitou para falar com Peter, para dizer que ficava mais um tempo, esse ria, como se não te conhecesse.  Tua tia queria preparar uma festa para te apresentar, o seu sobrinho que voltava com dois títulos da Sorbonne.   Tadeus diz que estas em boas mãos.

Já escrevestes a tese?

Sim, falta o fecho das duas, as escrevia de noite. Antes de dormir.

Ia todos os dias, analisar o que tinham encontrado nos rolos, como dizia Jeanne estavam guardadas mas de uma maneira sem controle, queria que me ajudasse. 

Ele comentou, estou no fecho final das teses, posso chegar as 10 da manhã, para te ajudar.

Ela ria, que a maioria aqui faz isso, está perfeito.

Primeiro vamos separar o que já sabemos, descartamos o resto, seria importante, mandarmos imprimir isso tudo em material transparente para podermos, sobrepor.

Chegaram a conclusão que a parte do porão se repetia na parte da frente, veja, quando colocamos toda a torre, ele foi reconstruída a partir daqui pelas fotos posteriores, mas nas plantas ela continua para baixo sinalizou um ponto no chão, aqui, a escada deve continuar para baixo.   Não deu outra.

Ele entregou a teses, as apresentou, na plateia ao invés da família, estava os novos amigos de seu grupo de escavação, bem como Jean-Marc, Jeane.   Ficou feliz, fizeram uma festa simples para ele, pois sabiam que não gostava.  Seu tio chamou, tinha novidades, chame depois o inspetor Klaus.

Quando falou com ele, dentro dos momentos que um não incomodaria o outro, ele lhe contou, que finalmente tinham colocado a mãos em cima.  Tu tinhas razão, gastam muito dinheiro em jogo, quando apresentamos suas fotos no casino, primeiro não quiseram colaborar, mas tínhamos trunfos na mão, sabiam sempre as datas que eles apareciam.  Tem outros nomes, mas as impressões digitais confirmam.   Tua tia soltou logo que queria falar com a irmã.

Não sei o que disse, mas ela imediatamente contratou um dos melhores advogados do pais.

Quanto ao que me perguntaste, não consta mais nenhuma irmã.   Só existem as duas.

Foi o que ele imaginava.

Perguntou do Jack. 

Aqui só más notícias, mas saiu recaiu logo em seguida, quando falei com ele, disse que tinha estragado totalmente sua vida, não tinha feito como tu, construído uma vida.

Está internado outra vez.

Vens a NYC?

Sim mas não sei se ficarei, tenho um convite para trabalhar aqui, que me interessa. Já te conto tudo.

O que tinha encontrado, saiu numa revista dessas que só interessados veem, mencionavam seu nome, como colaborador.

Andava saindo com Paul Roux, que lhe mostrava coisas interessantes da cidade. Viu que o outro tinha interesse nele, lhe explicou que iria a NYC, para resolver alguns problemas, mas que voltaria, para aceitar a oferta do Jean-Marc.

Paul que o ia levar ao aeroporto, quando viu seu apartamento se surpreendeu, pensei que vivia num apartamento fantástico, mas eres muito pé no chão realmente.

Se aproximou dele, assim posso saber quem eres.  Lhe deu um beijo, pela primeira vez em muito tempo, sentiu-se amado por alguém, além do Jack.

No caminho para o aeroporto foi lhe contando a história do Jack, as condições que estava agora.

Mas vais fazer uma visita não?

Sim claro que irei, resolverei meus problemas, irei em seguida para vê-lo, embarcarei minhas poucas coisas, volta para o mesmo apartamento.

Deixou suas coisas em casa, como era um domingo, entrou no apartamento de seus tios, perguntou por sua tia.  Peter levantou os ombros dormindo como sempre, ele já tinha esperado demais.  Foi até seu quarto, abriu as cortinas, a janela, para que o frio entrasse, levanta que quero falar contigo.

Mais tarde.

Nada disso, lava essa cara, vem para a biblioteca.

O que passa meu filho?

Peter, irei amanhã apresentar minha demissão, sei que estiveste me esperando, mas seguirei trabalhando com Jean-Marc, encontrei meu lugar, creio que deverias colocar o Tadeus como teu sócio, pode ser que num dia remoto eu volte.

Karen entrou com uma cara horrível, de mal humor.  Uma empregada lhe trouxe café.

O que é tão urgente assim, para me despertar?

A verdade, estou tão farto de tanta mentira, já sei que contrataste um advogado caríssimo para tua irmã.   Imagino que ela te fez uma chantagem muito gorda.  Também sei que nunca existiu essa irmã que me pariu.   Vamos enfrentar essa verdade ou vai continuar aceitando que essa mulher que ajudou a matar o pai do meu melhor amigo, um homem que me deu carinho, quando na minha casa não existia, vai me explicar tudo, ou terei que colocar um detetive para escavar tua vida.

É verdade, está me chantageando.  Sabe que tu eres meu filho, foi um descuido de jovem que ainda não é famosa.  Mas a fama chegou logo que nasceste.  Não queria me apresentar com um filho no braço.  Fui realmente fazer esse filme, quando voltei, ela tinha desaparecido contigo, nunca me senti mãe de ninguém, nunca quis ter um filho, por isso fiquei quieta.

Nunca contei ao Peter, que é o meu melhor amigo.

Muito bem, era tudo que eu queria saber. Pode voltar a dormir, mas esqueça de mim, vou voltar para Paris, assim que resolva umas coisas amanhã.  Viu que Peter estava abalado.

Acho que sacrificas muito por ela, devias assumir teu romance com o Tadeus, que te aguenta, te espera todos esses anos.

O Jean-Marc me soltou um dia que tinha se apaixonado por Tadeus quando estudou com ele, mas ele amava outra pessoa na américa, juntei os fatos.  Deixe de te preocupar o que pensam os outros.   Ela te usa, tu a usa, mas no fundo vives sozinho, acredito que só eres tu, quando estás com ele, não é verdade.   Ele balançou a cabeça.

Então não perca tempo, ela pode te tirar o dinheiro que quiser, mas não vale a pena.

Não pode me tirar nada, somos casados com separações de bens.

Amanhã, vou separar as coisas que me interessam no meu apartamento, principalmente livros, depois irei a San Francisco, para ver o Jack, que foi o que mais perdeu nisso tudo.

Irei embora em seguida.

Não quero teu escritório de arquitetura, agradeço muito tudo que fizeste por mim, porque nessa casa, foste o único, que me quis de verdade.  Ela só quer ela mesma.

A convença a não ceder a chantagem, diga que contarei a verdade ao Klaus, o advogado não poderá fazer nada.  Se ela não faz, eu entrarei com uma acusação de sequestro, o escândalo será maior.

Ela estava escutando atrás da porta.  Entrou outra vez, tens razão, mentiras demais.

Ele foi embora, só apertou a mão do Peter lhe deu um abraço, nos vemos amanhã, adeus Tia Karen, passar bem.

Telefonou em seguida para o Klaus, estou em NYC, se quiseres podemos falar, posso te ajudar outra vez.

Se abraçaram quando ele chegou, viu que colocava livros em caixas, suas roupas estavam já na maleta, nunca tinha tido muitas.

Foi ao assunto, a outra esta fazendo chantagem porque Karen é minha mãe, eu sempre desconfiei dessa história da irmã.  Já lhe disse, que se ela não retirar o advogado, enfrenta a verdade, eu moverei uma ação contra os dois por sequestro.

Bom, pelo que tem pela frente, ficaram velhos na prisão.

Como anda o Jack?

Falei no caminho para cá, o médico acha que não deves ir, está muito mal, pode ser que desta vez não sobreviva, tentou o suicídio.

Pegou um casaco, a bolsa com que tinha vindo de Paris, vou para lá agora, vens comigo?

Foram os dois para o aeroporto, ele com seu cartão do FBI, conseguiu dois assentos em primeira classe.

Passou os últimos momentos segurando a mão do seu amigo, que num momento de lucidez, disse sabia que não ia partir sem te ver.  Me perdoe mas não posso ir em frente, não sei de aonde tirar forças, mas não desista siga em frente.

Ficou mais dias para seu enterro, avisou Jean-Marc que se atrasava, pois estava esperando para enterrar seu melhor amigo.

Klaus lhe ajudou em tudo que foi possível, estava com a cabeça inteiramente branca, creio que isso de ser atores, é de família, imagina que ela se fez de vítima, ao acusa-la de cúmplice passou a soltar tudo, como se ele fosse o culpado, quando comentamos isso para ele, vez ao contrário que a maioria das ideia eram dela.   Uma dupla do barulho sem dúvida nenhuma.  Mas terão julgamentos separados.   Ontem me avisaram que tua mãe, retirou o advogado.

Estão presos aqui, queres falar com eles.

Nem pensar, pois sou capaz de os matar, pelo que fizeram com a família do Jack.

Eles alegam que foi um acidente, que não era para acontecer isso.

Depois do enterro, voltou a NYC, com Klaus que disse que tinha sido promovido, que agora era chefe ali.   Perguntou se tinha alguém em Paris?

Creio que agora poderei ter, me livrei de toda a carga do meu passado, veja tenho trinta e dois anos, pareço um garoto que acaba de descobrir a pólvora.

Quando entrou no escritório no dia seguinte, todos lhe aplaudiam.

Mas foi abraçar seu amigo Tadeus, esse lhe disse obrigado, ele agora esta vivendo comigo. Como sabias disso.  

O vi saindo uma noite do teu apartamento.

Sentou-se com Peter, este lhe disse, que ele era o filho que ele queria ter, entendia suas razões, mas não queria perder contato.

Ora Peter, nesse tempo todo que estive fora, foste a única pessoa com quem falei, ela nunca me chamou.   Só contigo pude contar sempre desde o primeiro dia.  Acredito que se fosse por ela, teria me mandado para um internato.

Me confessou que quando voltou de Paris, ia fazer isso, mas tinha desaparecido, nunca te procurou na verdade, sentia como se tivesse livrado de um lastre.

Nosso divórcio, foi de comum acordo, pois ela sabia de Tadeus, mas temos separação de bens, deixei aquele apartamento para ela, só mandarei embalar depois meus livros.

Com Tadeus finalmente viverei bem.

Entregou sua carta de demissão, voltou ao escritório para se despedir dos dois, não te contei agora sou o sócio, não vou te admitir se voltas, se abraçaram, de um abraço no Jean-Marc, na Jeane também uma grande figura.

Nessa noite Klaus o levou ao aeroporto, se abraçaram, se não fosse tão velho, me apaixonaria por ti.

Chegou de manhã em Paris, tinha dormido no avião, tomou um banho trocou de roupa, foi trabalhar, todos vieram apertar sua mão, mas Jeane disse que ele tinha que falar com o patrão além de assinar um contrato.

Tinha abraçado a todos, disse ao ouvido do Paul, comemos juntos mais tarde?

Sim claro.

Subiu para falar com Jean-Marc, Jeane foi junto, contou para eles sua história não entrando em detalhes.  Se me quiserem, adoraria trabalhar e aprender com vocês tudo o que possa, mas uma coisa prometo Jeane, irei estudar história da arte francesa, prometo.

Assinou seu contrato, iria trabalhar direto com ela.

Agora iriam participar da reconstrução do castelo.  Foi almoçar com Paul, segurou sua mão, dizendo agora estou livre de tudo, já te contarei toda esse drama que acompanhou minha vida.

Contou que tinha se atrasado, porque Jack tinha morrido, não podia deixar de estar com ele seus últimos momentos, nem como providenciar seu enterro.

De noite no seu apartamento contou toda sua vida para o Paul.  No final ele só soltou CARALHO, isso dá um filme daqueles bem retorcidos.

Sem dúvida, espero que querias compartir tua vida comigo, não tenho experiência em viver com outra pessoa, mas me esforçarei.

Acabaram encontrado o dedo da estátua.  Pelos desenhos que tinha encontrado, viram que todas essas esculturas estavam justamente na parte debaixo da claraboia, acompanhou para aprender, como se fazia a copia das mesmas, a biblioteca, seria agora um salão de festa, com uma imensa claraboia em cima.

Ele estudou história da arte, com um professor que lhe indicou o Jeane, mas esta lhe disse, não descuide do Paul, não sabes, mas ele é meu filho.

Agora tinha uma família, se divertiam no trabalho, foi levando a vida em frente como tinha lhe dito Jack.

Finalmente dois anos depois saiu a sentença de seus anteriores pais, foram condenados a quarenta anos de prisão, nunca poderiam pedir a liberdade.

Quando Karen morreu quinze anos depois, numa caída do cenário, já uma atriz decadente, lhe deixou toda a fortuna que tinha para ele.  Pediu para o Peter vender o apartamento, bem como autorizou que o dinheiro fosse todo distribuindo por orfanatos.  Não queria nada dela.

Ele entendeu.  Agora os dois vinham passar temporadas em Paris, com eles.  Ele agora na verdade vivia com o Paul, no apartamento que era de sua Jeane no Rive Gauche.

Quando vinham, jamais tocavam em qualquer assunto ligado a Karen, mas sim do escritório, quando lhe cobravam quando voltava, ia mostrar o Castelo que já estava no final, é o próximo que estavam trabalhando.  Agora ele era o braço direito da Jeane, bem como do Jean-Marc.

Klaus também veio passar uma férias com eles, o levou aonde estava agora, fazendo um projeto, disse que precisavam de um detetive para escavar a historia desse castelo.  Ele riu muito, me falta pouco para me aposentar, pode ser que venha.

Ele seguiu sua vida em frente, tinha encontrado um novo rumo, que não lhe era amargo.

FRANC-TIREUR – FRANCO TIRADOR

                                     

          

Jean-Pierre, nunca sabia se o fato de ter aprendido atirar desde criança, tinha sido uma bendição ou maldição.   As vezes sentia que fazia no automático, para poder controlar depois a carga que vinha.  Os objetivos nunca eram escolhidos por ele, mas sim pelos superiores.

Nunca sabia absolutamente nada, da pessoa, se tinha família, se acreditava em Deus ou Maomé, ou qualquer informação a respeito, quando muito lhe dava uma fotografia, seus hábitos, nada mais.

Tinha vivido uma infância feliz no campo com seus pais, eram pessoas fantásticas, uma casa aonde o bom humor, bem como o trabalho eram importantes.  Ia todos os dias a escola da vila mais próxima de bicicleta, depois a secundária, ia de ônibus, ainda hoje em dia, tinha dias que preparava um sanduiche como fazia sua mãe, com carne assada, cortada muito fina, com cebolas por cima, o que mais houvesse na geladeira.    Sempre tinha alguém que passava ficava olhando com olhos grandes sua refeição.   Depois que saia da escola, ia trabalhar, principalmente no inverno, num oficina de carros, aprendeu com os olhos fechados, adorava sentir o cheiro da gasolina,  primeiro escutava o ruído do motor, ia direto aonde estava o problema, dizia que era como sentir o vento quando tinha que atirar.

Atrás da propriedade de seu pai, existia um castelo, com uma imensa floresta, tudo estava abandonado.   Tinha aprendido com seu pai, a esconder-se esperar pelo animal, um javali, ou mesmo um veado, era capaz de ficar sem se mexer muito tempo, raro era o dia que voltava de mãos vazias.

Tinha aprendido tudo com seu pai, o que ele nunca soube foi sobre a vida de seus pais, até que morreram, levou um puta susto.

Os dois morreram num acidente besta, desses que acontecem nas estradas rurais, vinha de uma reunião da cooperativa de produtores, quando numa curva saiu um imenso trator, nem teve tempo, morreram os dois, bem como o que conduzia o trator, pois caiu num desfiladeiro.

Nevava nessa noite, só descobriram os corpos, porque ele estranhou os pais não voltarem, chamou a polícia, mas sabia que com duas pessoas na vila para atender todo mundo, não teve dúvida,   saiu caminhando em direção a estrada, sabia o quanto essa era perigosa no inverno, Foi ele quem encontrou os pais, mortos, congelados pelo frio.

Foi quando descobriu que seu pai era o herdeiro do Castelo, portanto dono de tudo.  O grande problema, era que deviam horrores de impostos ao governo, fazendo as contas, ele achava mais fácil, vender para o mesmo a troco de banana.   Seu pai nunca tinha se interessado em restaurara nem a casa que viviam simplesmente, tampouco o castelo.

Agora pensava, quando era criança, ia brincar no castelo, seu pai dizia que não devia ir, porque era um lugar maldito,  só sobravam os alicerces do mesmo, nada mais.

Como era menor de idade, teve que esperar para resolver a situação, lhe faltavam dias para completar os dezoitos.   Conseguiu com o juiz, que autorizou ele esperar sua maioridade trabalhando, vivendo na casa de seus pais.    Foi até a biblioteca, para se informar a respeito da família, nunca tinha notado que seu apelido casava com o nome do castelo.

Era uma história cheia de intrigas, traições, lutas por causas idiotas para uma mentalidade de hoje em dia.  Ia até seu bisavô, dele tinha herdado o nome Jean-Pierre D’ Anecy,  houve épocas que os vinhedos produziam bastante, mas desde que se lembrava a produção era para uso só da família.

Foi difícil resolver o problema, a dívida era imensa com os atraso a anos de impostos sobre a propriedade.  Nem a casa que viviam estava bem, estava mais para ser demolida.

Tudo que salvou da casa, foi uma caixa que sua mãe tinha muito bem escondida, lhe dizia, nunca deixe teu pai se aproximar do nosso esconderijo.   Nela encontrou documentos que falavam de outra propriedade, nas ilhas Guadalupe, guardou tudo isso no banco aonde depositaram o dinheiro da venda de tudo.

Tirou um pouco para o início de vida em Paris, queria saber como era viver numa cidade grande. Mal chegou, fez um curso, queria ser policial, tinha um corpo estupendo, de quem trabalha no campo, passou nas provas prática, mas nas teóricas, o orientador lhe disse que faltava malicia, vivência.   Era mais fácil ele entrar para o exército, quem sabe depois o poderiam aproveitar.

Com isso, acabou voltando a região aonde vivia antes.  Estavam encantados com ele, pela prática que tinha de tiro, saber conduzir veículos diferentes, como um Peugeot 3008 DKR, pelas dunas de areia.  Quando descobriram sua capacidade de franco atirador, recebeu um treinamento especial para esse tipo de arma.    Como ele dizia era como ir a guerra sozinho, nunca estava acompanhado em suas missões.   Quando o mandaram para o Mali, por causa dos problemas que os soldados de lá enfrentavam, logo se adaptou, rapidamente aprendeu a falar dois ou três dialetos que usavam na região.

Ele mesmo reparou o único carro que poderia usar, normalmente o escondia a quase um quilometro de aonde teria que agir, suas duas primeiras missões foram relativamente fáceis, teria que matar dois chefes de tribos Tuaregs, o que era complicado, pois normalmente estavam cobertos, só com os olhos de fora. 

Achou melhor fazer isso de noite, de dia se escondia, de noite saia para observar.  Usaria uma lente própria para a noite.    Teria que encontrar alguma coisa que identificasse a vitima.

Nas vésperas de executar a primeira ordem, ficou observando que o mesmo, usava um símbolo, pendurado no pescoço, desenhou o mesmo num caderno, para observar os outros homens se usavam o mesmo, viu que não.  Esperou de noite, determinado momento o homem saia de sua tenda, para observar o céu, como procurando alguma coisa.   Na segunda noite ele fez igual, acertou um tiro entre as duas sobrancelhas, nenhum ruído nada, só o homem que caiu de costas, saiu rápido dali, caminhou na escuridão aonde estava seu veículo, se afastou em direção oposta aonde poderiam procurar por ele.    O comandante em pessoa lhe felicitou, depois foi mandado com as forças da OTAN, que estava operando no Sudan, devia liquidar o homem que comandava do tráfico de escravos.     Ele só tinha uma foto como guia, tinha observado que o mesmo tinham uma tatuagem nas costas da mão, se separou do grupo, virou uma sombra do grupo, usava uma chilaba, velha como todos dali, tinha escurecido sua cara,  levou uma semana, até que um dia o viu com o que fazia no negócio final, discutiam os dois, se afastando das tendas, o que lhe deu pena, foram os garotos, mulheres que iam ser vendidos de escravos.  Avisou aos soldados, matou os dois em segundos, os soldados entraram, resgataram os escravos.   O comandante depois lhe dizia que era complicado, pois a maioria dos garotos nem sabiam de aonde tinham vindo.

Assim levou anos, de um lado para outro.  Ora Mali, Sudan ou qualquer outro pais que estivesse em conflito.  Sempre era o mesmo, ver as miséria como eram tratados todos os escravos ou pessoas capturadas.

Quando voltou a Paris, se apresentou na polícia, com recomendações de comandantes que tinha trabalhado.     O colocaram em anti-vicio, alugou um apartamento pequeno, bem jeitoso, que ficava de esquina a margem do Sena, o que era perfeito para ele.  Podia ir andando para a delegacia, mas comprou uma moto, de última geração, assim poderia se mover rapidamente.

Um primeiro caso que atuou, tinham recebido um sopro de um informante sobre uma entrega de drogas, num beco, seria de madrugada.   Localizou o mesmo, conseguiu subir para o telhado, examinou o mesmo detalhadamente, viu que tinham preparado uma arapuca para um dos bandos não sabia quem tinha preparado.  Resolveu ficar quieto, a ordem era pegar somente os que compravam, deixar escapar os traficantes.   Ficou com a pulga atrás da orelha.

Pensou muito, em sua cabeça como tudo estava pronto, pensou, eles não vão atuar amanhã, sim hoje.

Se preparou a consciência, todo vestido de negro, com a arma escondida numa bolsa negra, ficou no lugar mais escuro do telhado.    Não deu outra, horas antes subiu um homem, examinou o que estava ali preparado, pelo que ele tinha visto, o objeto cairia sobre um dos carros ou fecharia a parte traseira da rua estreita.   Os que estava do outro lado poderiam sair.  Entendeu a jogada, faziam a troca, matavam o que vinha pela esquerda, sairiam tranquilamente com as drogas bem como o dinheiro.

Se moveu como uma sombra, escutou o homem que estava ali perto dele, dizendo que estava tudo preparado, hoje forramos a bota, vamos ficar cheios de dinheiro.

Aplicou um golpe na nuca do sujeito, o deixando desacordado, viu que o mesmo era um policial, não de sua delegacia, mas de alguma outra.

Se perco tempo agora tentando avisar, estarei fudido.

Resolveu o usar de contra peso.  O levou para o extremo oposto, estirou a corda que soltaria uma placa de metal em cima do outro carro, ou fecharia a saída.

Esperou, viu primeiro o carro entrando carro da esquerda, viu que a placa cairia na traseira do carro, talvez se estivesse alguém dentro.   Segundos depois escutou o ruído da rádio falando todos a postos.   Um pequeno comentário, nosso homem, avisou a polícia que isso acontecera amanhã, mas todo cuidado é pouco.

Quando desceram os homens para negociar, os que tinham entrado primeiro tinham o carro ao contrário, abriram a traseira, aonde se via pacotes de algo branco.  O da direita abriu uma maleta com dinheiro.

Ele se situou no meio, viu que o que devia ser do grupo dos policiais, dando um sinal para o que estava em cima,  ele fez um movimento, as duas coisas aconteceram ao mesmo tempo, de um lado a placa, de outro o policial, que caiu os quatro andares em cima do capo do carro.

Foi um susto geral, começara a atirar entre eles, observou que todos tinham silenciadores, então o ruído era diferente.  Focou o que parecia chefe do bando policial, atirou acertando como sempre a cabeça, fez o mesmo com o negro do outro lado. Só sobraram dois que estava atrincheirados ao lado do carro, teve um segundo de dúvida, sobre em quem atirar primeiro, mas quem moveu peça foi o do bando dos traficantes, atirou nas pernas do outro, ao mesmo tempo que ele o liquidava.   Desceu, com a mão com luvas, pegou o revolver de um polícia, acabou de executar o que estava vivo.

Já se escutava ao longe a polícia chegando, colocou uma granada no meio das drogas, pegou a maleta, se mandou.  Tinha deixado sua moto estacionada num outro lugar, foi andando calmamente pela rua, contra uma enxurrada de gente, que ou vinha ver o que tinha acontecido ou procurava ir embora.

Montou na sua moto, deu uma volta imensa.  Quando chegou em casa, lhe chamaram, dizendo que tudo tinha sido uma armadilha, nos disseram amanhã, quando devia ser hoje.

Ele não disse nada, tinha inclusive recolhido o casquilho das balas usadas, como tinha usado luvas o tempo todo, não havia como encontrar impressões digitais suas.   Inclusive usava nesses casos um tênis normal.

Tomou um banho calmamente, foi se reunir com seu grupo.   Alguém escapou, pois o dinheiro sumiu.   Não sabe o susto que levamos, quando se levantou o porta-malas, explodiu algo, fazendo com que a cocaína ficasse toda no ar dentro do carro.

Os outros quem eram? 

Aí está o problema, eram policiais de uma delegacia ao sul da cidade.   O que faziam aqui, é um enigma. 

No dia seguinte, guardou todo o dinheiro numa caixa de banco, queria ver o que acontecia, a coisa era esperar.

Sem dúvida nenhuma começou uma guerra de bandas, a delegacia dos policiais mortos, entrou sobre regime de verificação, foram descobertos mais corruptos. Alguns suspendidos, outros expulsos, alguns para a cadeia.   Analisaram como tudo se torceu, eles tinham o sopro para o dia seguinte.   O Informante foi achado no Sena, tinha sido assassinado antes, pelo que ele tinha entendido, por ter escutado a conversa através do rádio, a ideia era desqualificar sua delegacia.  Chegariam talvez encontrassem os que compravam a droga assassinados.

Trabalhou 10 anos nessa delegacia, estava farto, pois os ascensos eram mínimos, os inspetores bem como o pessoal ia se acomodando, tudo ficando no marasmo.

Pediu uma transferência, mas lhe foi denegada.  O jeito foi pedir para outra cidade, o conseguiu para uma cidade pequena no sul, devia ter ido antes, pois o problema era o mesmo, carros velhos, gente da velha guarda, os policiais eram amigos dos que manejavam tudo, enfim.

A única coisa que lhe serviu, retirou o dinheiro guardado na caixa do banco, foi colocando comodamente em vários bancos que tinha conta.  Uma grande parte, guardou junto com a caixa que tinha herdado da mãe.

Pensou, daqui não sai nada.  Estava para pedir as contas, quando foi chamado do palácio de justiça de Paris, o queriam para investigar uma serie de confusões envolvendo policiais, traficantes. 

Nunca tinha muita bagagem, era fácil mudar de pele.

O trabalho, era de observação, sem se envolver, seguir ou perseguir certos policiais.  Conversou com o que comandava essa brigada, podia ser que os policiais se cansassem do trabalho, arriscado por ter um salário de merda, o dinheiro sempre corrompe as pessoas.

Isso não importava aos que mandavam, ficou sim trabalhando com um Fiscal, que em qualquer caso analisaria com ele o material que encontrasse.

Lhe deu uma lista de policiais de uma delegacia, que ficava perto de Notre Dame, na beira do Sena.    Como um simples observador, as vezes sentava-se pescando, tinham autorizado que conseguisse uma moto de grande velocidade.

Começou a seguir os dois primeiros que faziam dupla, na região que trabalhavam tudo bem, mas observou que quando saiam do trabalho, se dirigiam a Belleville, um bairro mais afastado. Ali serviam fora de seu horário a um chefão do tráfico da região.  Era um negro de quase dois metros de altura, puro musculo, frequentava sempre o mesmo ginásio, que ao pesquisar, pertencia ao mesmo.  Subiu a parte de cima do edifício ao lado, verificou que o local era imenso, muito maior que o espaço usado pelo ginásio.  Deu a volta no quarteirão, tinha fazendo frente com os fundos, um Bristô, ficou ali tomando um vinho, observando o movimento, era interessante, pois quando saiam olhava de um lado a outro, para frente faziam sinal a um negro com barbas que estava sempre com um terço mulçumano na mão, com um copo com chá.

Entendeu, este avisava se tinha alguma coisa errada.

Verificou o pessoal que saia, depois de um dia de trabalho, passou a ir em vários horários, usava agora, os cabelos muito curto, com um gorro como o que usava o vigilante, ao entrar o cumprimentava “As Salamu Alaikum”, o outro respondia como um ritual.

Por duas vezes mandou servir chá para o outro, bem como pediu para si mesmo.  Por duas vezes os dois policiais vieram falar com esse homem, usava um sistema de gravação altamente sofisticado.

Entendeu que o mesmo funcionava como um vigia, ao mesmo tempo era ele que pagava aos policiais seu trabalho.  Ficou curioso, pois para todos os efeitos o chefe era o mais jovem, mas quando viu um encontro dos dois, verificou que não o outro lhe dava ordens.    Em voz baixa, inclusive comentou com ele, que não achava interessante esses dois policiais servirem de guarda costas, pois podiam estar fazendo jogo duplo.  

O mais jovem se sentou ao seu lado, ficaram conversando, falando de um carregamento que estava para chegar.  Mostrou ao fiscal todas as gravações, ele passou a informação para o controle de aduanas.  Nome do Navio, container, tudo.

Esses alegaram que não existia esse container no navio.

De novo escutou o mais jovem falando com o mais velho, realmente alguém nos dedurou, por sorte o da Aduana, declarou que não existia esse container.

Ele nem precisou fazer nada, os próprios deram cabo dos dois policiais, pois desconfiavam dele.

O fiscal disse que não era isso que queriam, queriam pegar os mesmos com a mão na massa, quando ele falou do de Aduanas, como sempre passou a informação para frente.

Isso não pode dar certo, foi falar com o juiz que o tinha chamado, a maneira como vocês trabalham está errada, o fiscal escuta as informações, passa para frente, não age, se não fazemos nada, acredita que os outros farão.

Da próxima vez, verifique o que faz o fiscal.  Descobriu que o mesmo levava uma vida acima de sua condição, que seu salário não cobria a mesma.

Foi verificar como ele tinha chegado a esse setor aonde estava.  Tinha sido justamente indicado por uma das pessoas que justamente tinha sido chefe de uma delegacia.   Quando checou os papeis, era uma quantidade de informações incorretas com relação ao mesmo.

Falou de novo com o Juiz.   Este o mandou prender no calabouço da site, que estava sobre sua jurisdição.  Quando interrogado, ele acabou confessando que passava as informações a esse delegado, que mandou que ficasse justamente de olho no Jean-Pierre.

Sentou-se com o Juiz, Marc D’Saint Malo, a quem pediu, como tinha decidido esse trabalho, quem estava na reunião, inclusive os funcionários, como secretárias etc.

Lhe autorizou a arrumar gente para montar um esquadrão.   Ele foi objetivo, se for aqui dentro da Cité, não vai funcionar, pois tudo vaza, sempre se observa qualquer movimento.  Eu mesmo quando passo pelos corredores, sei que sou observado, quando venho falar com o senhor, sei que estão prestando atenção como dizendo o que faz este aqui.

Dois dias depois conseguiu a autorização para montar como quisesse o seu grupo, bem como usar os meios que necessitasse.

O primeiro que fez, foi contatar com um grupo de soldados que tinham trabalhado com ele, em diversas operações.   Um deles era um puto especialista em Hackear tudo.  O usou como um pretexto, era um negro alto, magro, parecia que tinha sempre fome, entrou com ele algemado na Cité, o levou para falar com o Juiz.  Lhe fez sinal de silencio, quando o outro tirou um aparelho do bolso, começaram a tirar as escutas que estavam na sala.

Por isso sabem do que falamos. Só não sabem como atuo.  Ou seja sabem todos os movimentos do Senhor.

Este ficou uma fúria.  Chamou seu secretário, esse quando viu Jasmim, assim se chamava o soldado com o aparelho na mão, tentou fugir.

Mais um para o porão da Cité.  Confessou que estava sendo obrigado a isso.  Era o mesmo a quem dava ordem ao fiscal.

Está em cólicas, pois para todos os efeitos o fiscal desapareceu, no dia seguinte, Jasmim chegou a trabalhar, muito bem vestido, para todos os efeitos era o novo secretário do Juiz.

Fazia uma varrida na sala antes desse entrar, fizeram uma série de procedimentos, trocar fechaduras, tudo que se podia fazer nesses casos.

Um dia ele saia, do trabalho, foi abordado por um policial, queria saber como tinha conseguido esse emprego.  Com a cara mais simplória do mundo, disse que estava inscrito na lista de desemprego, que lhe tinham chamado para ocupar esse lugar de secretário, pois o anterior tinha desaparecido.

O outro imediatamente lhe perguntou se queria ganhar um dinheiro por fora.  Ele fez cara de dúvida, os que gravavam o vídeo, riam, puta ator esse Jasmim.

Olha não quero perder esse meu emprego, a vida tá difícil, mas isso não sei se é correto.

Lhe ofereceram um bom dinheiro.   Nisso um agente soprou um dardo que colou no pescoço do outro, tudo que o policial escutou, foi “o senhor se sente bem, espera que vou chamar uma ambulância”.

Quando despertou, estava num hospital, ou algum lugar parecido com um hospital.

Lhe interrogaram, com as técnicas que o exército usavam que não era nada politicamente correta.  Mais um que desaparecia.

Dois dias depois Jasmim, saia do trabalho, desta vez, era abordado justo pelo homem que estavam atrás, este lhe perguntou pelo policial.

Estava aqui falando comigo, se sentiu mal, chamei a ambulância, que o levou para o hospital, inclusive deu o número da placa da ambulância.

O outro olhava com cara de interrogação para ele, não parecia acreditar muito, quando Jasmim se afastou deu uma ordem para atirarem nele.

Jasmim escutou, se escondeu atrás de uma parede.  Quando esse delegado agiu, era tarde, um dardo lhe pegou no braço, ainda tentou se livrar dele, mas caiu.

Enquanto isso seus homens capturavam o que estava atirando no Jasmim.

Desta vez o interrogatório, foi mais difícil.

Se negava a falar, dizia que tinha costas quentes.

Depois de três dias desaparecido, uma pessoa foi falar com o Juiz, se ele sabia algo do desaparecimento do delegado. 

Nem sabia que tinha desaparecido, esse homem era um alto mando do ministério de Justiça.

Mais um para ser sequestrado.

Conforme a coisa foi, capturaram todos.

O ministro de Justiça, ficou impressionando, pois o alto mando, justamente era um parente dele.

O notava estranho ultimamente, pois começou a gastar muito dinheiro.

Montaram uma operação, ele voltou a frequentar o bistrô, o homem depois da saudação lhe perguntou aonde tinha andado.   Lhe disse que levava caminhões através de França, para atravessarem para Marrocos.   Estava cansado, pois a viagem desta vez tinha sido complicada, muito controle da polícia.

Foi sentar-se na sua mesa.  Gravou esse falando com o outro, creio que consegui um condutor para tirar o caminhão com o container do porto.

Depois veio falar com ele.

Perguntou se queria ganhar um dinheiro extra, era um trabalho fácil, era só retirar um caminhão do porto, levar até aonde estavam, mas tinha que ser de noite.

De Le Havre para cá.   Ou seja a droga agora entrava por cima.

Lhe perguntou quando?   Esta noite mesmo.

Aceitou, lhe pagavam cinquenta por cento adiantado.  Lhe deram todo o contato, como devia proceder.

Le levaram de carro até o porto, entrou, se apresentou, lhe deram a chave do caminhão.  Mal saiu, seu instinto como sempre saltou, alguma coisa estava errada tudo era muito certo.  Viu que o caminhão estava sendo seguido.    Aqui tem alguma coisa errada, começou a fazer como se o caminhão tivesse algum problema, entrou no primeiro posto de gasolina, abriu o motor do caminhão.   A primeira coisa que descobriu, foi um gps de seguimento, o seguinte é que tinha o cabo de freio cortado, se romperia logo.   O carro que estava a distância, estava ali parado observando.   Entrou com se fosse tomar um café. Saiu pela porta dos fundos, deu uma volta abriu a porta traseira do carro, os dois homens tentaram reagir. Meteu uma bala na cabeça de cada um.

Nem eram policiais, tampouco gente dos árabes.   Voltou, subiu em cima do caminhão, abriu uma parte de cima, estava vazio completamente.   Por isso sentia o caminhão sem peso, essa gente não sabe com quem está lidando.  Voltou ao carro agora abertamente, colocou os dois homens no porta-malas, revisou o carro inteiro.  Viu que os dois tinham seu celular como uma câmera de dentro da cabine.

Que merda é essa?

Revisando o carro, encontrou uma bomba lapa, a usou no próprio carro, viu que a mesma seria acionada pelo celular de um deles.

Justo ao lado do posto de gasolina, tinha um armazém de carros usados, procurou um daqueles que ninguém dá atenção, porque só os pobres o tinham.

Fez uma ligação, mas antes abriu seu celular, para ver se não tinha nenhum sistema ligado, usou seu cartão no telefone do outro homem.  Falou com o homem de seu grupo que mais confiava, que saíssem imediatamente de aonde estavam, que deixassem as portas abertas, para os policiais que estavam ali, marcou um ponto para se encontrarem.  Disse a ele, temos um dentro do grupo.  

Saiu com o carro, quando estava voltando para a estrada central, detonou a bomba. Inclusive o caminhão que dirigia, por não ter peso, virou de lado.

Filhos da puta, entendeu a jogada, era a ele que queriam caçar, o porquê não sabia.

Foi para o ponto aonde tinha marcado, mas antes deixou o carro, entrou pela entrada especial para o lugar que tinha seu rifle escondido.

Chegou muito antes de todo mundo. Acoplou no rifle um sistema que tinha desenvolvido, como uma pequena antena, podia escutar o que falava a uma certa distância.

Quando todos chegaram, inclusive o Jasmim, o que ele estranhou era estar o juiz junto.

Queria saber por que tinham que se reunir ali.

Quando escutou o Juiz falando, entendeu, ele estava limpando o campo para uma investida, sabia que ele reuniria seu grupo.

Desceu tranquilamente, foi ao seu esconderijo, ficou ali uma semana, escutou a conversa muitas vezes, queria entender o que se passava.

Não poderia sair do pais, como se nada tivesse acontecido.  Tampouco entenderia por que seus homens o tinham traído. Ou tem muito dinheiro por detrás disso, ou tem outra coisa que não entendo.

Não acessou nenhum site no seu laptop.  Tudo que fez, foi entrar justamente na sala do Juiz, apesar do Jasmim ter limpado tudo, ele tinha colocado posteriormente uma câmera de vídeo, que passava desapercebida, pois estava no alto, tinha uma visão de 360 graus.

Escutou a conversa dele com o Jasmim.   Como ele pode perceber alguma coisa.

Jasmim ria, você não conhece teu parente, ele tem uma coisa que falta a muita gente, instinto.

Deve ter desconfiado de alguma coisa.  Tua montagem não foi perfeita.

O idiota iria ser condecorado, mas eu ficaria com o titulo que lhe tocava, por parte de nosso avô.   Ficou com a boca aberta, quando o juiz se aproximou do Jasmim, lhe beijando na boca.

Ai, estava.   Mas que merda era essa de título.

Eles tinham perdido tudo, que ele soubesse seu pai era filho único.

Rasurou totalmente a cabeça, chegando a raspar como se faz uma barba, sem pelo nenhum, procurou ali alguma roupa diferente, sempre tinha coisas que tinha comprado em algum lugar, viaja sem nada, mas ali, era como um camarim de um teatro.  Estava tudo que existia em sua casa. 

Saiu, mais parecia um rabino, foi em direção, a cite, apresentou seu documento, ninguém lhe pediu nada, deixou que a câmera de vídeo lhe gravasse tranquilamente, usava um óculos especial desses que parecem fundo de garrafa, mas que no centro ele via perfeitamente, sabia que quando a câmera focava esse óculos, distorcionava o que via.

Passou por todos, entrou num banheiro, montou rapidamente uma arma, com plástico 3D, entrou na sala aonde estava Jasmim, lhe acertou um tiro no meio das sobrancelhas, sabia que essas armas eram como de criança, não faziam ruído.   A bala apesar de ser de plástico, matava.

Abriu a sala do Juiz, estava falando pelo celular, fez um sinal que entrasse.  Esperou um segundo para saber com quem falava, entendeu, fez um gesto com a mão de silencio, apertou o gatilho o Juiz caiu para trás.  Pegou o celular, escutou do outro lado o que tinha sido seu antigo chefe, temos que encontrar aonde está esses milhões que ele roubou.  Ao mesmo tempo estamos limpando o mercado de competidores.

O deixou ali falando, saiu tranquilamente da Cite, se dirigiu aonde estava sua moto, tirou o chapéu de judeu, colocou numa lixeira, colocou um capacete, foi para seu esconderijo.

Ficou escutando a rádio, agora entendia, já tinha descoberto que ele tinha o dinheiro do atentado.  Também porque não o deixavam ascender na delegacia, lhe entregado casos para resolver medíocres, queriam que ele se traísse.

Mas agora envolver juízes, seus amigos, tinha algo mais atrás disso tudo.

Nenhum noticiário, mencionou o assassinato do Juiz.  Acedeu a câmera de vídeo, viu que eles continuavam no mesmo lugar.  Sentado na sua cadeira com um tiro na testa.

Deixou a imagem parada, quando foi de noite, entraram na sala, dois dos seus antigos homens, disfarçados de limpadores, colocou tudo para gravar.  Já traziam o Jasmim da outra sala, colocaram os dois em dois carrinhos da limpeza, para retirarem dali.

Parou para pensar, analisou cada detalhe, a sala do Juiz era a mais escondida, na porta só tinha uma placa Juiz Charles D’Obrey, que tinha isso a ver com seu nome.

Buscou através de um celular, de pré pago, o nome, dizia sua fecha de nascimento, bem como sua morte, no ano anterior.

Rapidamente se desfez de tudo. Esses idiotas não sabiam que ele tinha usado o dinheiro o depositando em vários bancos diferentes, com nomes diferentes, que tinha um acesso com seu cartão de credito.   Todo esse dinheiro, estava como sendo investido continuamente, não em ações, mas em rendimento normais, como eram valores bons, por menor que fosse a aplicação aumentavam consideravelmente.   Nem a conta que tinha no banco com a caixa forte, era em seu nome verdadeiro.

O homem que tinha feito todos esses documentos para ele, lhe devia favores, mas tinha morrido a mais de dez anos.

Cortou a barba mais curta, bem perfilada, ficava parecendo um executivo.

Com um dos cartões de créditos, alugou um furgão, desses de transporte, negro, com vidros tintados, fez um jogo, sabia que só tinha aquele, argumentou que não gostava de vidros tintados, mas o homem fez força para o convencer de ficar com o mesmo.

Passou várias vezes diante do lugar que vivia o seu antigo chefe.  Viu que o edifício estava basicamente cercado, sabia o andar que ele vivia, subiu a uma varanda no edifício diante, ficou observando, por várias vezes ele vinha a janela, olhava para baixo para a rua, mas nunca para cima.  Apesar de ser de noite, ele estar vestido de negro, com um capuz negro, poderia ser descoberto se tivesse alguém em alguma varanda do edifício, vasculhou o mesmo, viu que não tinha.    Era quase meia noite, quando ele se enquadrou na janela, falando com alguém no telefone, estava irritadíssimo.   Como ninguém ainda não sabia aonde estava.

Filho da puta, deve ter saído do pais.  

Foi nesse momento que apertou o gatilho, viu o sujeito ser jogado para trás, seu melhor amigo do tempo do Mali, apareceu no ângulo certo, não teve dúvida, mais um.

Desceu rapidamente, desapareceu no furgão, tinha retirado a placa.  Só voltou a coloca-la antes de devolver o mesmo.

Voltou para seu esconderijo, ficou quieto, só saia cada dia com um disfarce diferente para comprar comida.   Mas nunca no mesmo lugar, que tampouco tivesse câmeras de vídeo na rua.

Passando por uma banca de jornais, viu um jornal sensacionalista, falando por uma gang de policiais que tinha roubado dinheiro do governo, para uma operação, que agora se descobria que esse dinheiro estava outra vez em circulação.

Ah, começou a rir, eu depositei, claro o dinheiro entrou em circulação, mas nunca saberiam de aonde tinha saído.   Isso não se registrava.

Experimento todos os cartões, em lugares diferentes, bem como entrou em sua conta através de cyber café.  Tudo estava intacto.

Se fosse o caso, já teriam tomado posse do mesmo de alguma maneira.

Quando ele tinha dado ordem para que os prisioneiros fossem soltos, não tinham obedecido, aparecia numa manchete de jornal, lugar de limpeza de corruptos da polícia.  O mesmo de seu antigo chefe.

Em momento algum falava em seu nome.

Retirou dinheiro de todos os bancos, usando sua moto, preparou um viagem louco, foi a Luxemburgo, levando esse dinheiro, o colocou tudo num banco que não fariam perguntas, retirou o resto dos bancos que tinham filial lá, colocando em Bancos que tivessem filiais nos Estados Unidos.    De lá, foi para Frankfurt, com um dos seus passaportes, comprou um bilhete para NYC.

Se hospedou com outro documento num hotel, barato, mas limpo, desses que ficam jovens estudantes que fazem viagem sem muito dinheiro.

Se misturou pela cidade.   Dali podia consultar os jornais franceses, nenhum depois do primeiro momento falava muito no assunto.

Trazia com ele, o documento de propriedade da Guadalupe, queria ver como fazia para chegar lá.   Usou uma ideia maluca, um cruzeiro que iria por essas ilhas.  Não era um barco imenso, mas valia a pena tentar.

Quando desembarcou para um passeio desses guiados, visitou os lugares interessantes da cidade, descobriu aonde era a propriedade da família, tinha um cartaz de se vende.

Entrou na agência que dizia que estava a venda.    Pediu informações, o homem lhe disse que no momento seu proprietário estava sendo dado como desaparecido em campo de batalha, mas que o governo local vigiava a mesma.

Embarcou outra vez, seguiu no cruzeiro, precisava de tempo para pensar.

Alguma coisa continuava não lhe cheirando bem, como podiam colocar à venda uma propriedade que pertencia alguém considerado morto.  E que o governo francês estivesse interessado não enquadrava.

Muito para pensar.  O conteúdo da caixa de sua mãe, estava com ele, nesta constava de uma livreta como se fosse um diário.

Sem querer se lembrou de uma coisa que faziam em criança, que ela usava para testar sua inteligência bem como seu raciocínio.  Ela escrevia uma história, que tinha outra história por detrás, ele tinha que descobrir a outra.

Depois havia outro ponto importante, porque seu pai o tinha basicamente treinado para ser um guerreiro, para saber se defender, atirar, tudo como devia.  Se parasse para pensar, tinha sido treinado desde criança a desenvolver sua intuição, saber atirar, se defender em vários tipos de luta, que o exército sem querer tinha aprimorado.

Começou a raciocinar em cima da propriedade, do que eles falavam de maldição.  Se lembrou de tudo que tinha pesquisado sobre a família.  O mais interessante, como ele jovem o tinha fascinado em seu momento, em que uma antepassada tinha se casado com um corsário da Córsega, que durante muitos anos, tinha tido também como propriedade um castelo em Ajaccio, a segunda cidade da ilha.

Como um estalo em sua cabeça, surgiu que tanto o que considerava seu amigo, como os outros que o tinha traído eram da Córsega.

Num Cyber café, pesquisou sobre isso, no período que se falava, os habitantes da ilha, tinham muitos corsários entre eles, que atacavam os navios no mediterrâneo.   Um dos motivos porque França usava mais os portos do norte, apesar de ter os corsários de Saint Malo, mas esses a maioria trabalhavam para o Rei, só assaltando os barcos ingleses.

Todo esse tempo trabalhava sozinho, raras vezes, operava juntos com os outros soldados, mesmo assim era para lhes dar retaguarda.

As missões vinham diretamente do comandante, que recebia alguma informação, ou a pedido dos países.

Voltou a se lembrar de um dos primeiros objetivos, o Tuareg que tinha matado, o identificando com o colar.

Sem o turbante o mesmo parecia um homem europeu.  Se lembrou que no meio do colar tinha alguma coisa que brilhava, quando o focou parecia uma pedra.  Tornou a se concentrar para lembrar-se dos detalhes, no primeiro dia tinha acompanhado o mesmo juntos com alguns homens a uma pista no meio do deserto, chegou um avião pequeno, descarregou alguma coisa ali, que pensou que eram armas, depois voltaram ao meio da dunas que usavam como abrigo.

Normalmente os soldados quando vinham, por essa parte aberta, então eram alvo fácil para eles. Que saiam como morcegos das dunas.

Será que esses Tuaregs faziam tráfico de alguma coisa?  Essa era a questão nunca recebia informação suficiente antes, tampouco depois, como tampouco ficava para observar o que acontecia em seguida.

Voltou a se lembrar do golpe que tinha transformado, ficando com o dinheiro.  No mesmo a maleta tinha uma parte oculta, mas ali só achou um saco com uma numeração qualquer, será que ali estavam escondidos diamantes.   Fez sua memória fotográfica, se lembrar de um assalto a um velho que transportava diamantes.  Todos estavam dentro de pequenos sacos, com inscrições mais ou menos iguais, com o mesmo tipo, o homem lhe explicou que significavam o tipo, o tamanho, bem como o peso.

Agora lhe surgia a dúvida, será que os traficantes deviam ter entregado uma maleta com diamantes, não o fizeram, pois o carro que tinha as drogas era da polícia.   Ou seja, no fundo devia ser isso, buscavam os diamantes não o dinheiro em si, que não seria motivo para tanto.

Só tinha uma maneira de saber, era conseguir falar com o delegado que tinha mandado seus homens fazer isso. 

Quando desceu do barco em Miami, sua cabeça tinha funcionado em várias direções, o comandante do navio, lhe abordou, pois tinha sido um passageiro que tinha ficado o tempo todo sozinho.    Disse que estava fazendo esse viagem para se curar de uma decepção amorosa.

Eu entendo, mas a maioria vem com esse objetivo, mas procura outra pessoa.

Não é o meu caso, sou uma pessoa ruminante, preciso analisar totalmente o que me passa para poder seguir adiante.

Só tinha duas possibilidades, o delegado estava em prisão, se o fosse visitar chamaria atenção, sem querer tinha matado qualquer um que pudesse lhe esclarecer.

Começava a acreditar que talvez esses Tuaregs fossem o meio do caminho de tráfico de diamantes para a Europa.   Se fosse assim teriam trocado de pouso, mas com certeza seguiam fazendo.

O avião que tinha pousado no meio do deserto, era um bimotor, não muito novo, seu piloto era um negro, acompanhado de outro.  Não tinham ficado mais que uns 20 minutos, porque os motores em momento algum pararam.

O jeito era ir a Mali.

Mas teria que encontrar uma maneira de se armar, bem como conseguir informações.

Quando desceu em Bamako, foi como ter voltado a sua casa, alugou logo um jeep, velho que devia ter sido militar, mas exigiu que ele mesmo pudesse revisar o carro.   O homem depois que ele consertou duas coisas, lhe pediu para dar uma olhada em um outro.  Foi como reencontrar um velho amigo, era o que ele usava nas missões, perguntou como tinha conseguido, lhe disse que estava abandonado.   Perguntou se tinha placas por ali, mudou as mesmas, comprou do homem o jeep, ele mesmo tinha preparado o jeep, tinha feito um bom negócio.   Usou uma lógica, se o jeep estava abandonado, quem sabe aonde escondia antigamente suas armas, ainda seguiam lá.

Colocou comida, principalmente barrinhas energéticas no jeep, água que era o mais importante, deu uma volta imensa, para saber se não estava sendo seguido.  O problema hoje em dia eram os Drones, pois o exército o usava muito.

Depois de verificar isso, se dirigiu a um velho caravasar abandonado, escondeu bem o Jeep, ficou ali, quieto comendo, muito bem escondido observando.  De noite quando não apareceu ninguém, foi ao seu esconderijo, achava interessante ninguém ter conseguido encontrar. Mas estava tudo lá.  Estava dentro de uma chaminé aonde se fazia fogo para cozinhar, limpou bem as armas que estavam ali, a munição, foi como encontrar um brinquedo antigo.

Despertou de manhã com um homem sentado aos pés de seu saco de dormir, o olhando fixamente, vestia tão somente um taparabos, nada mais.

Falou com ele em vários dialetos que conhecia, o homem fez um sinal, abriu a boca, mostrou que não tinha língua.  Colocou a mão sobre sua cabeça, como por um passe de mágica passou a entender o mesmo.

Quando te cortam a língua para que não se comunique com as pessoas estranhas, aprendes a falar de outras maneiras, seja pela língua dos signos, bem como pela mente.

Venha comigo.   O homem o guiou até uma parte do Caravasar, começaram a descer uma escada que estava tapada por um tufo de espinhos.  O Levou por um subterrâneo, até uma grande gruta, lhe explicou que ali era um ponto de escape, se o caravasar fosse atacado, que hoje em dia ninguém sabia de sua existência.

Venha, fez uma fogueira, começou a conversar com ele.  Lhe disse que era a reencarnação de seu antepassado pirata.          Ele não acreditava muito nessas coisas, falou do seu instinto de sua maneira de analisar tudo.

Não estás errado aqui era um pouso de uma rota de contrabando de diamantes, mas liquidaste o principal controlador de tudo.     Alguém fora de Africa queria esse controle, mas a partir que liquidaste o mesmo, ninguém mais confiou no teu povo.

Falou da ação que ele tinha ficado com o dinheiro, na maleta devia ter diamantes, disse pedras, mas o chefe desconfiava de uma arapuca, mandou um segundo seu para ver como se saia.

Estão até hoje procurando por isso, pois era uma quantidade muito importante de pedras, mas estão distribuídas pela Europa, quando mencionava isso como que desenhava um mapa.

Mas teu destino é outro. Quando anoitecer, viras comigo, vou te preparar.  Meu povo Dogon, não aceita muito que eu faça essas coisas, por isso vivo a parte.   A muitos anos habito esse lugar.

Mais abaixo, encontraram um lugar que tinha como uma corrente de água subterrânea, os dois se banharam ali, a água era fria, mas cristalina.

Não sabia por que, mas confiava nesse homem.  Acendeu uma pequena fogueira, com as primeiras brasas, que colocou num recipiente de barro, colocou incenso retirado de uma bolsa que levava na cintura.  Soprou em direção a ele, segurou suas mãos, os dois começaram uma viagem por todos os lugares que tinha andado até o final.

Mostrou aonde estavam as confusões.   Em Paris o objetivo era desacredita-lo totalmente para que ele fizesse uso de seu dinheiro.  Achavam que tinham os diamantes.

Acredito que deverias ficar fora de circulação um bom tempo, podes ficar aqui, levamos seu motor, se referia ao Jeep para uma outra entrada.   Assim poderás observar que vem atrás de ti, quem são essas pessoas.

Assim fez, borraram todas suas pisadas por ali.   Um dia depois apareceu um comboio, de jipes militares, examinaram tudo, acamparam ali pela noite, escutou através da chaminé, a conversa de dois que não eram militares.

Se ele não veio aqui, que é era seu pouso aonde estará.   Um outro comentou que a não ser que já tivesse partido, que o homem que lhe tinha vendido o jeep, tinha demorado muito em soltar que ele tinha estado lá.  Agora não venderá mais nada.

Tinham matado o sujeito por sua culpa.   Filhos da puta, se fosse por ele, sairia imediatamente matando todos, mas o mudo, lhe colocou a mão num braço, balançou a cabeça em negativo.

Tinham fechado de tal maneira o acesso para baixo, que por mais que procurassem não iam encontrar a entrada.   Depois camuflado, os seguiu quando observavam tudo em volta, procuravam alguma coisa sua.   O comboio sem querer tinha borrado suas marcas para chegar ali.

Se acusavam um ao outro por isso, se ele esteve aqui, borramos nos mesmos.

Se não está aqui, deve ter ido para Mauritânia, pois trabalhou muito lá, amanhã iremos até lá, mas não, permaneceu ali, recebendo ensinamentos do homem.

Disse que não o podia levar aonde estava sua gente, pois sem querer ele lhes criaria problema.  Teve um dia que escutaram o bimotor passando, continuavam usar a rota do tráfico de diamantes.   Precisava descobrir de aonde vinham.

O jeito era ir até podia ser o novo aeroporto improvisado, ali não era difícil.  Buscou antes aonde podia estar os Tuaregs.    Não precisou ir muito longe.  Viu que tinha havido recentemente um choque entre esses, bem como o grupo que o tinha estado procurando, não eram do mesmo bando ao parecer.

Um dos homens ainda estava vivo, usava justamente um cordão com uma placa como ele tinha visto no outro.  Realmente no centro tinha um diamante.  Tirou o turbante do mesmo, era loiro, o confundiu com alguém, começou a falar em dialeto da Córsega, com ele, que tinha sido traídos pelos de Paris.  Estava preocupado pois hoje chegaria outro avião, colocou a palma da mão sobre sua cabeça, o homem tinha lhe ensinado isso, conseguiu entrar na mente do outro. Mas este não sabia de aonde vinha o carregamento.

Tirou sua roupa, colocou o turbante, sujou a parte que estava com sangue, para disfarçar, colocou de fácil alcance um revolver com silenciador.

Se escondeu entre as dunas, esperando o avião.   Quando este chegou, viu o mesmo homem negro descer com a maleta, quase riu, pensando, devem ter uma fábrica de maletas, ou compram em quantidade, se lembrava da saudação que tinha escutado.

Se aproximou, quando esteve a menos de um metro, lhe atirou no peito, esse não esperava, caiu duro no chão, ele apontou a arma para o piloto, recolheu a maleta, sentou-se atrás do mesmo, lhe dizendo, volte desde aonde vieste.

Ficou impressionado, era uma área a pouco tempo aberta, quando o avião aterrizou, lhe deu um tiro na nuca, saiu pelo lado que não se via ninguém.

Foi um caos total, ao descobrirem que o piloto tinha voltado sozinho ou trazendo alguém que a maleta não estava.

Ficou escondido, no alto de uma árvore, só prestando atenção, determinada hora, saiam de um barracão, um grupo de homens, viu que todos eram pigmeus, entravam numa área aonde deviam estar extraindo os diamantes, ao mesmo tempo traziam um grupo que incluía mulheres, crianças.

Só pode pensar, filhos da puta.  Esperou que todos estivessem dentro do barracão, continuou quieto dois dias, só observando.   Suas barrinhas energéticas estavam terminando, já sabia o que queria, na verdade não eram muitos homens, mas sim bem armados.

De noite, quando saiu um grupo para trabalhar, outro foi dormir.

Esses eram dois os matou durante a noite, os outros estranhavam, que não tivessem saído para trabalhar, quando entraram na cabana ela explodiu, tinha descoberto o deposito de armas, bombas, etc. lhe faltavam cinco para matar, o fez sem dó nem piedade.  Soltou todos os prisioneiros, um deles chorava muito, disse que ao comunicar aos brancos o que tinham achado, pensava que ajudariam seu povo, mas os tinham escravizado.

Lhes disse que deviam desaparecer no mapa, ele iria explodir a mina inteira, esse o ajudou, bem como outros homens, quando se afastaram implodiu tudo, ficava abaixo de uma montanha que se assentou como se nunca houvesse existido nada embaixo.

Colocaram fogo em tudo.  Ele encheu o tanque de gasolina do avião, para poder retornar, menos mal que sabia pilotar, se despediu dessa gente, esperava que conseguissem escapar para longe.   Embora soubesse que se vingariam dos homens brancos que aparecessem agora.

Fez a mesma rota que estava marcada no voo.

Viu antes de aterrizar que ali estavam os homens que o tinham perseguido, atiraram no avião, ele conseguiu levar o avião mais a frente o pousando no meio de dunas, o que dificultaria um uso posterior, se escondeu, ficou esperando.

Chegaram dois jipes, ficou quieto só observando.  Estavam furioso, o chefe deles, disse que era o terceiro carregamento que perdiam.   Disse o nome de uma pessoa que ficaria furiosa, Jean Gaspar.

Estavam todos em volta do avião, para ver se encontravam alguma maleta, o tanque ainda estava cheio, atirou, a explosão matou uns quantos, mas foi liquidando um a um.

Deixou com vida somente o que achava que era o chefe.

O feriu de proposito, depois de verificar que todos estavam mortos, o estendeu ali embaixo do sol, tirou toda sua roupa, quando despertou, levou um susto, um Tuareg o observava.

Começou a falar em dialeto com ele, porque o tinha atacado.

Este respondeu, que seriam os últimos carregamentos, pois o local estava já esgotado, quase riu, iria dizer totalmente, quem é que manda verdadeiramente no assunto.

Ele repetiu que seu contato era Jean Gaspar da livraria.

Ele caçou um escorpião que estava por ali, o colocou no peito do homem, não se mexa lhe disse, pois te matara.  Quem realmente manda, ele disse que o contato sempre tinha sido o Jean, mas que o chefe só ele conhecia.

Lhe deu um movimento, justo quando o escorpião estava na testa do homem, cravou aonde levava o veneno na testa do homem.

Voltou caminhando a gruta, o homem já não estava lá, foi se adentrando a mesma, até aonde sabia que tinha água.    Estava se lavando, quando surgiu um grupo deles.

Um dos homens o de mais idade, lhe disse que sabiam o que tinha feito, libertando os pigmeus, que agora ele tinha que partir, pois ali poderia causar mais problemas.   Mas que não fosse por Bamako, pois seria complicado, um grupo o levaria até a fronteira com o Benin, por aonde devia sair.

Foi uma viagem cheia de imprevisto, mas finalmente conseguiu embarcar, usou um passaporte que estava no fundo de seu saco.   Antes agradeceu ao homem que o acompanhava, este só lhe disse que tinha um batalha dura pela frente.

Em Paris, embarcou num voo quase em seguida para Bastia, chegou de noite, morto de cansado, arrumou um pequeno hotel, limpo, queriam lhe oferecer um de frente para o mar, mas pediu um de fundos. Tinha acertado, por ali, se houvesse um problema podia escapar.

Tinha mudado de roupa, usando roupa já usada antes, cheirava um pouco mas era o que lhe tocava.   No dia seguinte observaria como se vestia a gente dali.

Teve sorte, no dia seguinte saia do hotel uma excursão, que daria a volta a ilha, comprou o pacote todo, ainda teve tempo de comprar roupas novas, comprou duas mudas de roupas iguais, negras.

Quando chegaram a Ajaccio, ficaram num hotel cinco estrelas, saiu com um grupo pela cidade, viu aonde era a tal livraria, tinha um bar na frente, ofereceu uma ronda de cerveja aos novos amigos.  Dali ficou observando, realmente era bem guardada.  Viu que duas senhoras do grupo se aproximaram para entrar, mas os homens diziam que estava fechada.

Ficou surpreso quando viu um homem sair.  O tinha visto um dia, na Cite, ficou observando mais um segundos, quando esse entrava num jeep.

Na escuridão da noite, ficou observando, quando o mesmo voltou, subiu por uma lateral entrando no andar de cima.   No terraça em cima, houve uma troca de homens.

Observou o movimento dentro da casa.  Ele estaria sozinho a noite inteira.

Tinha aprendido com seu amigo Dogon, a usar uns dardos os vermelhos faziam a pessoa dormir, os negros matavam.

Foi o que fez, viu que para subir as escadas, tinha um outro homem, só que dormia ali sentado.

Fez a mesma coisa, pensou consigo mesmo, feliz sonhos.

Subiu as escadas, pisando suavemente os degraus para ver se não faziam barulho, sabia se mover bem no escuro.

Entrou na casa, foi observando bem aonde pisava, bem como tudo que existia em volta, afinal anos de treinamento, viu um vulto na cama, disparou um dardo.  Não podia acender nenhuma luz, pois chamaria atenção, se aproximou da cama, iluminou a cara, era justamente o homem.

O levou com ele, até uma lateral do hotel, roubou um carro ali estacionado, se embrenhou numa parte que era floresta, a uns 30 quilômetros da cidade.

O Jean Gaspar, estava despertando, o amarrou direito, em uma árvore, quando o viu, abriu um olhos imensos.  Soltou um filho da puta, como conseguiu chegar até nós.

Fui me informando aqui, ali, como já não vão existir mais carregamentos, toda a rota de Mali, terminou.

Sim soubemos que deste cabo de todos, ou pelo menos deduzimos que tinha sido tu.  Encontraram meu irmão morto com um escorpião em cima de seu corpo.

Pois foi ele justamente quem me falou de ti.

Mas não sou o chefe dessa merda toda.  Uns idiotas que pensam que com esse dinheiro podemos comprar armas para mandar a França a merda.  Eu acho que é perda de tempo, mas meu irmão me meteu nisso.

Ontem como deveria chegar um carregamento, foi que se descobriu tudo, fui o encarregado de dar notícias ao velho.  Ficou uma fera, quer tua cabeça.

Mas quem é esse homem, perguntou, embora soubesse da resposta.

Um irmão do teu pai, veio aqui para pesquisar suas raízes de corso, foi ficando, você já matou seu filho que esperava ter o título do castelo aonde viviam teus pais.

Nem sabia que tinha um título, o castelo foi vendido ao governo francês para pagar as dívidas de impostos.  Nunca mais voltei lá.

Aonde posso encontra-lo?

No seu castelo, mas te rogo pelo amor de deus, não me faça ir até lá, vai me matar.

Se meu irmão tivesse sobrevivido, o teria matado com suas próprias mãos, apesar de velho tem uma força incrível.

Me diga como ir, o outro lhe explicou. Quando acabou, ele, lhe colocou um dardo negro, morreria dentro de instantes, voltou ao hotel, colocou o carro no estacionamento, entrou rápido, foi ao seu quarto, tomou um banho, guardou a roupa que estava, colocou uma limpa, tirou uma soneca sentado numa poltrona, ele quando tinha que dormir o fazia em qualquer lugar, despertou com a chamada do telefone do quarto avisando que o café da manhã da excursão estava servido.  Escovou os dentes, desceu, comeu, mas muito bem por sinal.

O ônibus, passava justo por diante da libraria, viu que tinha ali, uma confusão tremenda, de entra, sai gente.

Mais adiante, o ônibus parou para mostrar por fora o castelo, o guia avisava que o dono não permitia visitas, um tipo muito raro.

Como ele sentava no último banco, saiu por detrás, muita gente desceu para fazer fotos, ele se esgueirou pelo meio das árvores.

Deu uma volta larga, subiu pela encosta do outro lado da montanha, era como uma floresta fechada, mas foi vendo dispositivos de vigilância, os foi esquivando.

Subiu a uma árvore aonde podia se abrigar, sua copa era tão fechada que podia ficar escondido ali.   Viu que a movimentação era impressionante.   Cercavam o castelo como um exército, deixou passar dois dias, descobriu que podia através do topo de árvore transladar-se a outras.  Foi se aproximando do castelo.  Levou um choque quando viu uma figura através da janela, parecia seu pai.  Quando viu pela segunda vez, teve certeza, ele realmente tinha um irmão, porque nunca falou disso.

Talvez por isso tivesse deixado o castelo francês ficar em ruinas, não lhe interessava esse poder, nunca tinha usado seu título com nenhuma pessoa da vila, todo mundo se dirigia a ele pelo seu nome.

Uns dias depois viu que havia menos guardas, que a coisa fluía melhor, o homem saiu duas vezes para passear pelo jardim, ao contrário de seu pai, que trabalhava duro, esse tinha uma ligeira barriga.   Mas viu o que o da livraria tinha falado de sua força, mas notou que era só de um braço, era como se um tivesse força o outro não.   A observação era importante, já sabia seus hábitos, dormia tarde, ficava horas numa biblioteca sozinho, antes de dormir, pela janela desde cima das árvores se via isso.   Ficava sentado perto do fogo, as vezes falava por telefone com alguém, sempre ficava irritado.

Quando lhe trouxeram o corpo do Jean Gaspar, chorou abraçado ao mesmo, os animais tinha comido parte de seu estomago, bem como de sua cara.   Soltou um grito imenso, gritando filho querido.

Jean Gaspar era filho dele.  Mandou levar para enterrar, o que o escutou o deixou gelado, como fracassou em sua missão o jogue ao mar.   É o que merece, voltava a ser o homem duro.

Dois dias depois já estava dentro do palácio, ninguém o tinha visto entrar, pois procurou o ponto cego de tudo.

Se escondeu na biblioteca, esperou que ele estivesse sentado em sua poltrona, quando se sentou na frente.

Gostaria de saber por que tudo isso.

O homem riu, não te surpreende que me pareça com teu pai.

Não teu filho Jean Gaspar já me tinha falado que vocês eram irmãos.

Que mais te contou meu filho?

Que a tua ideia de tentar separar Córsega da França era ridícula, que querias ser o Rei daqui.

Ele nunca acreditou em mim, por isso o fiz ficar na vila, seu irmão sim, foi te enfrentar.

Se eu soubesse que era meu primo, talvez lhe tivesse proporcionado uma morte melhor, um escorpião, coitado que por acaso andava por ali, mas no fundo lhe alivie o sofrimento, pois nunca voltaria a andar, seria muito difícil sair vivo dali.   A explosão do avião, matou a todos, menos a ele.

Na última vez que falei com ele, achava que estavas com os Dogons, mas creio realmente que não era assim.

Ele não respondeu.

Teu pai te treinou bem, ele foi um grande comandante no exército, por isso sabia que tinha que te preparar, eu ao contrário, fiquei no castelo escavando para ver aonde estava a herança maldita, para afinal não encontrar nada.

Ou talvez não soubesse procurar, porque eu a achei a muitos anos atrás, mas está enterrada em outro lugar.

Agora entendo que tem teu dedo na morte de meus pais.

Ele como o irmão mais velho herdou tudo, fiquei sem nada, me disse se eu encontrasse a herança maldita, seria minha, por isso vim para cá, roubei os documentos daqui e de Guadalupe, mas lá tampouco estava.

Mas alguém fez uma trampa, pois quando foram entregar o dinheiro aos policiais, não havia na maleta nenhum diamante.

Foste tu, ou alguém muito próximo a ti que ficou com isso tudo.

Não eu não fiquei com os diamantes.

Então, começou a rir, eu sabia que tinha alguma coisa estranha, esse velho maldito.

O que é.

O velho que fica no bistrô vigiando para o traficante, tinha um rosário árabe, mas era maior que o normal, as pedras eram transparentes, de vários tamanhos.  Os diamantes ficaram com ele.

A cara do velho ao se sentir enganado era ótima.

Tirou calmamente uma arma do bolso, bom teu trabalho termina aqui, pois terei que resolver esse problema.

Mas era tarde, ele já tinha seu revolver em 3D apontado para sua cabeça.

Ah essa arma de brinquedo não me dá medo.

Quando sentiu a bala na sua cabeça, sua cara era rara, como dizendo, como é possível.

Se levantou rapidamente, saiu como tinha entrado, porque em seguida começou a sentir as pessoas se movendo.

Saiu como tinha entrado, ficou do mesmo lugar observando como as pessoas ficavam em volta dele.   No dia seguinte se escutava os sinos da igreja tocando.

Nessa noite atravessou a floresta toda, saiu numa outra cidade pequena do outro lado, roubou um carro, foi até o aeroporto da ilha, mas antes, comprou uma roupa de turista, embarcou com o mesmo documento que tinha chegado.

Em Paris, foi para o seu esconderijo, se vestiu de uma roupa diferente, com uma peruca loira, óculos escuros, observou o que o velho fazia, seguia fingindo que rezava no seu rosário.

Estava com cara de preocupado, devia saber já do que tinha acontecido na Córsega.

Quando o negro alto veio falar com ele, estava furioso, lhe apontava o dedo como se ele fosse o culpado.

Mal o outro foi embora, saiu levando o rosário na mão, com a sua moto, passou raspando por ele, retirou o rosário de sua mão, quase funcionou lhe disse.

A cara de ódio do homem era impressionante.

No dia seguinte estava estampada sua cara, num jornal.

Pensou agora para aonde, sabia que essa gente tinha milhões de ramificações, que controlavam a polícia bem como outros lugares.

Pensou muito a respeito.  Queria verificar uma coisa, guardou o rosário na caixa forte do banco, com sua moto, foi em direção a sua cidade natal.

O castelo agora era um hotel de luxo, com direito a tudo da floresta, a casa que viviam antes, tinha sido demolida, ali agora tinha quadras de tênis.

Tentou saber a quem pertencia isso.

Quem comprou a propriedade foi um senhor da Córsega, mas nunca veio até aqui.

Seguiu sua viagem, foi atravessando Itália, até dar com um lugar que gostou, um dos muitos castelos italianos, com uma vila fechada dentro, alugou uma casa, ficou vivendo lá anos, deixou o tempo passar, quando precisava de dinheiro, ia o mais longe dali possível para retirar de algum banco.

Fez amigos, lhe cobravam que se casasse, mas nunca iria ter uma família, pois isso a colocaria em perigo.

Morreu como todos ali, de velho, em todos os bancos, ficou dinheiro para trás.  Nunca mais apareceram os donos daquele dinheiro, afinal não lhe importava era roubado, nem tampouco os diamantes, tinha o mesmo sido usado trabalho escravo para isso.

Quando entrou o padre para lhe dar a extrema unção, riu, nem pensar que se eu fosse confessar tudo que errei, ficaríamos mais dias aqui.  Simplesmente fechou os olhos, morreu.  Tinha nessa altura, quase 90 anos.

OUTLIVE – SOBREVIVER

                            OUTLIVE – SOBREVIVER

Com a cabeça apoiada no respaldo de sua cadeira, pensava no passado, queriam lhe nomear para um cargo importante, ninguém entendeu por que se negava, normalmente os jornalistas iam rebuscar a vida inteira do filho da puta que aceitasse.   Simplesmente respondeu que estava no momento de parar sua vida para reflexionar, o que estava fazendo agora, mudar o rumo.

Mudar o rumo, era o que tinha feito a vida inteira.

Um negro como ele, acostumado a que lhe chamassem de negrata imundo, outras coisas piores, mas que tinha sobrevivido, aonde será que estão os outros se perguntava, pois ao longo de sua vida nunca tinha cruzado com nenhum que disse-se te conheço, sei do buraco imundo que saíste, ou sei que foste um dos que comandaram tudo.

Na verdade o comandante tinha sido Abraham, o negro que mais levava chibatadas do diretor do orfanato, porque não se dobrava.

Nesse orfanato no meio de um campo no Louisiana, pouco aparecia gente que quisesse adotar alguma criança, eram 80 por cento garotos negros, que se chegassem à idade de 16 anos quando deviam sair dali, eram muito poucos.   A maioria morria antes, tinham de tudo, desnutrição, doenças simples matava os mais fracos, era como um lugar, ou sobrevives ou morres.    Ele tinha voltado lá, muitos anos depois, já não existia nem sobra do lugar, o encontrou, porque sabia aonde estava.

Quando atingiam a idade de uns 10 anos, ou mesmo se antes já fosse grandes, eram colocados a disposição do melhor postor, para fazer a colheita do algodão, milho, qualquer outra coisa, o diretor do orfanato montado em cima de sua caminhonete, ficava fiscalizando, sempre ia com seu capanga, que levava um fuzil.   Não se podia parar, ao meio-dia lhe serviam um rango, que mataria até uma mosca de ruim que era.   Mas tinham que comer, não havia outra maneira, ou morrer ali mesmo de insolação.  A água que serviam era uma merda, tinha gosto de podre.

A única coisa que isso servia, era para chegar, cair numa cama que nem lençol tinha, dormir morto de cansado.

Um dos últimos lugares da temporada, era sempre o mais cuidado, pois ao lado passava uma linha de trem.  Alguma vezes algum louco se atrevia, a se esconder por ali, para tentar fugir num trem de carga, mas sempre o pegavam na cidade mais próxima aonde o trem parava.

Abraham tinha falado com um dos rapazes que tinha sido recapturado, tinha levado uma surra de fazer gosto para servir de exemplo.

Segundo o rapaz o erro era esse, havia que descer antes, dar a volta na cidade, se esconder, pegar o trem seguinte. Mais adiante.

Esse sonho de fugir era de todos.

Ele achava que nesse ano tinha feito 16 anos, mas quando foi falar com a secretaria do filho da puta, disse que não, que ele tinha 13 anos.  Sabia que mentia, pois quando tinha feito cinco anos, começou a marcar na cabeceira da merda da sua cama, cada ano que passava.

O mesmo acontecia com Abraham, tinha certeza de ter 17 anos, eles mal sabiam ler ou escrever, o professor tinha sido mandado embora pois discordava dos métodos do diretor.

Ali, um ensinava ao outro o pouco que sabia, desenhando na terra.   O pior era o inverno, o frio de rachar, de vez em quando um pequeno amanhecia morto, era enterrado num lugar, que nem uma cruz colocavam.

Esse ano vamos escapar disse o Abraham.  Quando chegaram na última fazenda, o dono tinha comprado um trator, estava ali, para aproveitar, arrancar as pedras que dificultavam a plantação.   Ele disse para o Abraham, se o trator estava ali em cima, fazia uma linha reta aonde estava a caminhonete do diretor com seus dois homens em cima, era uma ribanceira, ele irá em cima deles.

Num determinado momento, Abraham desapareceu do seu lado, quando disfarçadamente olhou para trás, o viu justamente lá em cima, dando um soco no proprietário, o trator não podia estar em melhor sitio, motor ligado, ele só teve que soltar o freio, veio limpando tudo que estava na sua frente, os meninos começaram a fazer ruído, gritando, isso, não deixou que os da caminhonete escutassem o trator que passou por cima deles, o Abraham ainda veio correndo atrás, pegou a primeira espingarda que voou, jogou uma segunda para mim, corremos até aonde estavam, matamos um a um.

Foi uma debandada geral, os meninos não sabiam para que lado correr, nos dois com outros mais velhos, corremos para a via de trem, fomos seguindo, em breve sentimos a terra tremer, era o trem que se aproximava, todos corremos até os vagões, o rapaz que tinha fugido antes, disse, teremos que saltar, assinalou mais ou menos o lugar.

De qualquer maneira, sabíamos que não dariam falta da gente até o anoitecer, que era a hora que eles voltavam para o orfanato.

Mas claro tinha o dono da fazenda.

Fizemos o combinado, saltamos mal o trem começou a se aproximar da cidade.  Mas não podíamos ir em grupo.  Eu fui com dois mais, Abraham foi pelo outro lado.  Fui talvez mais esperto, porque fui marginando a cidade, quando me dei conta de madrugada, tínhamos caminhado muito, um dos que me seguiam ficou para trás, pois tinha cortado o pé, não tínhamos como ajudar, ele fez sinal que seguíssemos.    Nos escondemos embaixo de uma ponte, de noite não aconteceu nada, aproveitamos para nos lavar, como fazia muito calor, lavamos a roupa, as deixamos secando.   Mas de manhã, aquilo parecia uma loucura, mas já estávamos do outro lado, tínhamos feito uma coisa, o rio ali era baixo, descemos o rio mais um pouco aonde se podia atravessar andando, tiramos a roupa toda, assim o fizemos, se escutava ao longe o ruído dos carros, nos embrenhamos numa mata, subimos com dificuldade uma arvore muito alto, para ficar observando.   Passaram muito longe, a barrica roncava de fome, mas aguentamos, a isso estávamos acostumados.

No segundo dia, tínhamos visto desde cima que a linha do trem fazia uma curva, fomos por esse lado.   Ficamos esperando escondidos, Quanto o trem passou subimos.

Esse só foi parar em San Antonio, para carregar lenha, saímos pelo lado contrário, pois vimos que uns controladores verificavam os vagões, mas nem chegaram aonde estávamos, pois era noite, creio que já tinham carregado.   Depois parou outra vez em El Passo, para a mesma coisa, creio que trocaram de pessoal, era um largo caminho, estávamos desesperado para comer,

Vimos que descarregavam caixas de um vagão mais adiante, eram poucas pessoas, me arrisquei, fui correndo peguei uma caixa que estava no chão, voltei correndo.

O trem seguiu, vimos que o pessoal discutia que faltava uma caixa. Rimos, quando abrimos a caixa, eram latas de feijão, passamos a noite comendo aquele feijão, mas controlando, tinham que aguentar. Cada um comeu duas latas, depois tivemos que colocar a bunda para fora do trem para irmos cagando.  Riamos muito pois fazia frio.

Quando ele parou em Tucson, fizemos a mesma coisa, mas desta vez examinaram tudo, encontraram a caixa, falaram muitos palavrões, mas tínhamos feito uma coisa, tínhamos saído pela outra porta, deixado encostada sem fechar, quando o trem começou a andar novamente corremos, abrimos a porta estava um homem armado ali, eu me joguei para trás, mas ele pegou meu companheiro.

Respirando profundamente pois me doíam as costelas, fui me esconder por ali, encontrei um barracão que caia os pedaços, fiquei ali escondido.

Como o trem não parou, fiquei quieto.

De manhã sai pelas redondezas, numa casa vi roupa num varal, eram quase do meu tamanho, só não tinha sapatos, roubei uma calça, uma camiseta, fui embora, joguei a roupa velha, suja numa lixeira.   Mais adiante, tinham um homem dormindo bêbado num beco, vi que seus sapatos davam para mim, com muito cuidado tirei o primeiro, vi que se despertava, arranquei o segundo, sai disparado, quase que um carro me pega.

Olhei numa loja, parecia ter crescido muito, parecia um homem.  Vi que todos os vagabundos iam a uma direção ali perto da estação, davam comida, um lugar para dormir, tomar banho, riram de mim porque não tinha cuecas.

Mas pude comer duas vezes, mas tive que levantar de noite para cagar.  Estava ali cagando, vi um cartaz que li com certa dificuldade, era o famoso carta do Tio Sam, chamando homens para defender a pátria.

Arranquei o mesmo guardei no bolso, o dia começava a amanhecer, dava café com pão, peguei o meu, comi, perguntei aonde era a direção que dizia ali, a mulher riu, disse que duas ruas mais a frente, mal sai, vi que a polícia vinha fiscalizar os homens que estavam ali.

Mas eu já estava mais a frente.  Olhei para trás, o nome que dizia em cima da placa era “Abrigo Dawson”.  

Já tinha um nome, todo mundo me chamava de Carter, acrescentei o Dawson, encaixava perfeitamente, enquanto esperava que abrisse o lugar, fiquei sentado na numa praça em frente, como fazíamos no orfanato, fiquei escrevendo o nome na terra, até saber fazer direito.

Quando abriu, fui um dos primeiros.  Dei meu nome, disse que tinha saído do orfanato, mas que não tinha papeis, isso não pareceu importar, me fizeram exames, eu era forte pelos trabalhos pesados, alto, magro, mas tinha músculos.  Passei no exame, mandaram me raspar a cabeça, logo apareceu um ônibus, vi que todos eram mais ou menos como eu, gente pobre procurando uma oportunidade.

Fomos para uma base da marinha, eu que nem sabia nadar, quando vi o mar em San Diego me deu medo.

Mas no dia seguinte, foi essa mesma pergunta que fizeram, quem sabia nadar, ninguém dali sabia, vinham todos do interior.  Foi nossa primeira lição, gostei, os exercícios não me assustavam, gostava era do rancho, não era uma comida maravilhosa, mas melhor que a do orfanato era.   Viram que não tinha medo de nada, fui trocando de grupos, estava mais alto, como se a desnutrição me tivesse colocado freios para crescer, por sorte aparentemente estávamos em tempo de paz.

Nas primeiras saída, aproveitava para conhecer a cidade, meus companheiros, quase todos iam encher a cara, ir de putas.  Eu queria guardar dinheiro, me informei com o sujeito que nos pagava no final de semana.    Era boa gente, abri uma conta num banco que tinha uma filial ali mesmo no quartel.   Depois comecei a estudar de noite nos cursos que davam ali mesmo, foi um achado, tinha ânsia por aprender, tudo que tinha me sido negado.  De vez em quando tinha pesadelo com o trator vindo para cima do pessoal da caminhonete, no momento que demos os tiros, vi que alguns garotos não tinham corrido, estavam mortos.

Quando começaram as aulas de tiro, me sai bem, não tinha medo da arma, tinha usado uma. Logo era campeão, foram me treinando para atirador, me fizeram exames de vista, pois diziam que eu tinha uma ligeira desvio na retina, passei a usar óculos, minhas notas nas aulas chamaram a atenção de um sargento que falou com seu comandante, nunca tinham visto alguém aprender assim.   Dois anos depois eu era assistente do comandante, quando fomos a primeira vez para a frente, era a guerra do Golfo, agora tinha mais experiencia, tinha ido de putas, sabia como era a coisa, mas não bebia, nem me metia em confusão, estava sempre com o uniforme impecável. Me levantava cedo, para fazer minhas necessidades, tomar um banho tranquilo, quando os outros se levantavam, eu já estava pronto, era um dos primeiros na cantina, para tomar o café, estava recém feito, era melhor, também os outros pratos pareciam melhor, depois era um deus nos acudam.

Da guerra não vi nada, pois estávamos na retaguarda, no quartel general, reparei que eu era um dos poucos negros ali, mas meu comandante era um mulato claro, creio que por isso não se incomodava.  Nossa conversa era normalmente, bom dia senhor, sim senhor, até amanhã senhor.  Não íamos mais longe nisso.

Fazia o meu trabalho com atenção, sabia toda terminologia que usavam ali, quando não entendia, anotava num papel para saber, depois consultava um dicionário.  Entrou um dia depois da reunião, me viu fazendo isso, me perguntou o que estava fazendo.  Lhe expliquei quando alguém usava uma palavra diferente, consultava o dicionário, não queria passar por um idiota.   Ele riu, esse que usou essa palavra, foi porque veio do West Point, se crê mais esperto que os outros, note que ele sempre usa palavras complicadas, a maioria ri dele por isso.

Fiquei com pena do sujeito, mas depois descobri que era filho de um deputado, por isso estava ali, na retaguarda, o que ele falava não se escrevia, como dizia meu comandante, ele se estivesse no campo de batalha, ia ser o primeiro a levar um tiro.

Mas chegou o momento é claro que tive que enfrentar a dura realidade, fui como o comandante visitar os postos avançados, hospitais de campanha, com os rapazes mutilados, algumas vezes, mortos, esperando que alguém o tirasse dali.

Era chocante.  Quando voltávamos, o comboio foi atacado, tive a oportunidade, talvez pelos meus reflexo, salvar o comandante que tinha levado um tiro, o arrastei para fora do carro, o escondi, me preparei para enfrentar o famoso inimigo.

Creio que imaginaram que era um comboio de armas, ao não encontrar nada, foram embora, todos os carros pegavam fogo, o único que não, era um jeep que estava adiante, como estava numa curva, tinham esquecido dele. O motorista estava morto, o coloquei atrás, coloquei o comandante ao meu lado, tinha feito um torniquete como tinha aprendido a fazer em primeiros socorros, peguei estrada, quando cheguei ao quartel, avisei do que tinha acontecido, como tinha sido rápido, acompanhei o comandante até a sala de operações, pois tinha entrado com ele nos braços.

Fiquei esperando, nem vi que sangrava também, quem viu foi uma enfermeira, me arrastou com ela, o herói sempre tem isso, a adrenalina não o deixa sentir dor.

Rasgaram a minha roupa, a bala tinha me atravessado, talvez por isso não sentia dor, mas me levaram para ser operado, a anestesia me fez sentir no céu.  Era isso que pensava, vendo as pessoas desde cima, tinha saído do meu corpo.

Depois fui puxado outra vez para ele, quando me deram choques para voltar ao corpo. Tinha estado morto por segundos.

Quando despertei, estava numa cama ao lado do comandante, queriam me tirar dali, ele não permitiu, esse rapaz quase morre para me salvar, tem que ter o mesmo tratamento que eu tenho.

A partir desse dia, conversávamos.   Os dois voltamos para casa.  Ou seja ele para a dele, eu para o quartel, fui promovido, agora tinha um quarto só para mim.  Ficava num barracão com outros que tinham o mesmo privilegio.  Agora podia retirar livros da biblioteca, enquanto me recuperava, passei a ler jornais, me informar do que existia no mundo.

Escutava falar de protestas contra a guerra, que os governos sempre estava em guerra para ganhar dinheiro, essas coisas, foi quando escutei pela primeira vez falar em “Bucha de Canhão” que eram os jovens como eu, que não tinham aonde cair morto, eram treinados para morrer.

Fiquei chocado, meu comandante quando falei isso com ele, me disse, tiveste sorte, tua ânsia de estudar, aprender, te ajudou.   Me indicou para cursos de carreira.  Não tinha nada a perder, inclusive ostentava uma medalha no uniforme, bem como meu grau.  Na minha turma erámos só dois negros, eu é um sabe tudo, que era filho de um deputado negro.

Mas ele não se enturmava comigo, seu grupo era outro, dos filhos de protegidos, mas não me importava, não queria que me distraíssem do que queria alcançar.

O comandante me elogiou pelas notas, me promoveu a seu ajudante formal. Discutia agora os assuntos comigo, gostava da minha perspectiva.

Voltamos outra vez ao frente, agora já em Bagdá, era como viver numa cidade, dentro de outra cidade.  Quando saia, era sempre para acompanha-lo a alguma coisa.

Quando as coisas ficaram calmas, ele foi designado para Washington, me levou com ele, agora ganhava suficiente, para ter dinheiro para viver fora da base.  Consegui um apartamento pequeno, coisa que era difícil lá, mas chegava rápido no Pentágono. Diziam que eu era sério demais para tudo.  Me convidavam para noitadas, mas sempre tinha uma desculpas, quando estava necessitado, ia a algum puteiro de negras, diziam que eu parecia um bebe na cama, não sabia realmente fazer sexo.

Aprendi informática ali mesmo, nos cursos que davam, fui ascendendo, logo fui trabalhar afastado dele, mas com um coronel, duro de roer, no serviço de informações.   Quando fui designado para a embaixada de Londres, fiquei assustado, falei com meu antigo comandante, que riu, não tenha medo, faça o que te pedem, tens futuro.

Passei dois anos lá, nas minhas folgas ia conhecendo a cidade, mas agora não saia vestido de militar, tinha observado o pessoal da embaixada, comentavam aonde compravam roupas, como ganhava mais podia me dar esse luxo.   Talvez tivesse um gosto inato, pois me vestia bem, olhava a loja aonde tinha comprado, depois procurava pelas outras mais baratas.

Tinha que economizar para o dia que saísse dali.

Agora servia ao embaixador, ele conhecia o comandante, que tinha me recomendado, as vezes me consultava para alguma coisa, mas sabia o que se falava ali, não saia.  Tinha por hábito, trocar de roupa, sair pela saída de empregados, um dia um homem se aproximou, se identificou como jornalista, queria que eu roubasse informação para ele.  Marquei com o sujeito no dia seguinte, mas avisei ao embaixador, creio que me confundiu com algum funcionário normal, montamos uma arapuca.  O MI5 com os agentes da embaixada conseguiram pegar o homem.

Em seguida fui transferido para Paris, uau, foi o máximo.   Tinha visto em filmes pela televisão, mas era mais bonito ali ao vivo.  Passei as primeiras semanas conhecendo a cidade, um dia um dos homens do serviço secreto me chamaram, havia uma fuga de informação na embaixada, queria minha ajuda, que eu ficasse de olho aberto, passei a fazer a mesma coisa, saia pela saída de empregados, ficava observando, notei que uma das funcionárias, saia sempre muito nervosa, que um homem a esperava na esquina, entravam num carro, avisei aos do serviço  secreto, não deu outra.   Logo queria que trabalhasse para eles, mas não era a minha, falei inclusive com o comandante.   Isso vai te desviar do teu caminho.

Ele arrumou um jeito de voltar para Washington, ele depois de um tempo no Pentágono, estava na Casa Branca, não gostava muito, mas me levou como seu assessor, sabia que podia confiar em mim.  Meu salário era alto, mas meus gastos eram mínimos, pois passava todo dia fechado lá dentro, comia grátis, como eu dizia até o papel higiênico era grátis, o melhor dos que tinha usado na vida.   Um dia estava cagando, comecei a rir, pois me lembrei da historia do trem depois que tínhamos comido feijão da lata, tínhamos que nos agarrar a porta, colocar a bunda para fora, a cena agora na distância parecia divertida.  Quando sai, estava um dos funcionários do gabinete do presidente, fiquei esperando para saber o que era divertido.  Aqui dentro nada é divertido.

Me lembrei de uma história da minha infância.  Comentei com ele, o seguinte, que o papel higiênico era de primeira qualidade, que na minha casa era jornal, isso era um fato do orfanato, que muitos limpavam no mesmo papel, ficavas procurando um pedaço que não tivesse sujo, até ele riu da imagem.

Ficamos amigos, por duas vezes coincidimos na hora de sair.  Ele achava interessante eu sair a paisana.  Me convidou para beber alguma coisa, pedi desculpas, mas eu não bebia, nesse dia devido a um contratempo só tinha tido tempo comer um sanduiche.

Então vamos comer alguma coisa.  Ficamos conversando, ele disse que acompanhava o secretário do presidente, mesmo antes das eleições, na universidade me interessei por política, assim foi como comecei.

Eu lhe disse que sentia lastima, mas não tinha podido fazer uma universidade, tudo que tinha aprendido tinha sido no exército.  Inclusive quando vim para cá, aprendi informática, lhe disse que tinha trabalhado nessa área antes de ir para Londres, depois Paris.

Dias depois o comandante me chamou, parece que estão invadindo o sistema da Casa Branca, podes dar uma mão, os ajudei a pegar o hacker.  A merda, era um garoto de uns 15 anos, pensei, este está fudido, lhe mandei um mensagem em código, corra que a polícia vai chegar.

Quando chegaram no armazém que usava, já não tinha ninguém lá.    Dias depois ao sair, foi abordado pelo mesmo, ele tinha me visto, bem como eu a ele.

Por que me avisaste?

Lhe dei uma bronca monumental, sabe o que ia acontecer contigo, ia te mandar para a prisão, lá dentro iam abusar desse seu cuzinho branco até não poder mais, depois te obrigar a trabalhar para eles.   Isso queres para ti.

Ficou parado me olhando, estás falando sério?

Experimente mais uma vez, depois me conta como te viras.

Me contou sua vida, era uma merda, quase lhe contei a minha, pois aproveite essa merda, faça tijolos como os africanos, vá à luta, mas honestamente, não precisa fazer essas coisas para te sentir o maior.

Volta e meia nos víamos.  Lhe disse que parasse com isso, pois podia ser um problema para mim, ele era um menor de idade, eu já tinha trinta e tantos, pelas minhas contas no exército.

Parou, desapareceu no mapa.

Voltei a trabalhar de novo no pentágono.

Agora saia do trabalho, exausto, era como um serviço de vigilância, continuo.  Chegou um momento que estava estressado, pedi ajuda ao comandante que agora tinha um posto clave, me ajudou mais uma vez.   Fui com ele para a China, um trabalho complicado, ele era o adido militar da embaixada, eu seu assessor entre aspas, o trabalho era vigiar se não tínhamos interferências nas comunicações.   Mas isso era continuo, eles tinham hackers invadindo totalmente o sistema.  Por mais que se usasse corta-fogos, era quase impossível, pois era uma coisa continua.

Os funcionários tinham proibido usar celulares dentro da embaixada, um dia peguei um fazendo fotos de um mapa.  Fechei a porta, chamei a segurança, tinham oferecido uma fortuna ao sujeito.   Fiquei com pena dele, mas se aposentava dentro em breve, tinha dois divórcios nas costas, pagar as pensões alimentícias dos filhos tudo isso.

Como não tinha vazado nada, o mandaram para casa.  Era difícil saber como conseguiam se aproximar, resolvi com o comandante, ser a isca, combinamos tudo.  Logo se aproximou um sujeito me convidando para jogar.  Entendi que era uma isca, fui, ganhei horrores, muito dinheiro, no outro dia perdi tudo, me ofereceram muito dinheiro para fazer isso.

Tinha nesse meio tempo colocado, microfones na sala de jogo, bem como na sala aonde tinham me levado para fazer a proposta.   Eram micros.

A coisa agora era como proceder.  Mas isso ficava nas mãos da CIA. Eu fui transferido, me fizeram sair da embaixada algemado, mas no aeroporto, dentro do avião me soltaram, fui promovido outra vez.

Me queriam em dois lugares.  Um dia fui ao banco, para olhar minha conta, o gerente ria, o senhor é um cliente importante, pois é nosso cliente desde que é soldado, gasta um mínimo, aplica o dinheiro me disse quanto tinha.  Fiquei com a boca aberta, nunca tinha dado atenção a isso, quando estava nas embaixadas, meu salário que já por si só era bom, dobrava.

Mas vivia modestamente sempre.  Nada de luxos, roupas caras, carros caros, me movia como o resto das pessoas, ônibus, metro, coisas assim.

Com isso podia fazer uma faculdade.

Fui falar com o meu comandante, lhe contei tudo.   Ele ria, chegou a tua hora, eu estou louco também para deixar tudo. Acabo de me divorciar, minha mulher se fartou de ficar vivendo cada x tempo em um lugar, diz que assim as crianças não têm uma educação como deve.  Mas sei que é uma desculpa, nosso matrimonio foi para o brejo a muito tempo.

Apertou minha mão, ficou segurando mais do normal, obrigado todo esse tempo por estar comigo, bem como por ter-me salvado a vida, nunca te esquecerei.

Pedi a demissão, os cursos todos que tinha feito na marinha, serviam como base para entrar na universidade.   Fui estudar direito, sempre tinha querido fazer isso.

Eu era como o avô da turma, o mais velho, com mais experiencia, segui levando a mesma vida de sempre, o bom foi que a Marinha me deu uma bolsa de estudos pelos excelentes serviços que tinha prestado.   Assim podia estudar confortavelmente.

Quando fui fazer as práticas, fui trabalhar com um fiscal, daqueles que querem subir na vida para fazer política, vi muita coisa errada.   Estava numa sinuca de bico, não sabia o que fazer.

Estava almoçando num restaurante com um advogado que queria me consultar sobre algo, quando vi o comandante sem uniforme almoçado com um rapaz.  Fui até, ele, apertamos as mãos, o rapaz era seu filho.  Disse que tinha que ir para a universidade, já te vi pelo campos, dizem que eres o avô da tua turma.

Veja lá como fala garoto, chamou o pai atenção.

Espere um momento, pedi desculpas ao advogado, mas precisava conversar com esse senhor, era muito importante.

Ficávamos conversando um tempo, me disse que tinha aberto um escritório de advocacia, a pouco tempo, mas que as coisas não iam bem.  Pensei que com meus contatos, seria mais fácil.

Contei o problema que tinha.  A primeira coisa que me perguntou se tinha provas.  Lhe disse que sim.    Peça para sair, porque isso vai explodir, esse sujeito deve estar sendo observado pelo FBI, venha trabalhar comigo.

Nem precisou falar duas vezes, acabei as práticas, disse que não seguia, que iria para uma trabalho fora.   Entreguei os papeis a ele, foi um deus nos acuda, pois tinham uns quantos políticos no meio, mas esses como sempre caem em pé.   O puto fiscal foi para a casa do caralho.

Vi o que tinha errado no seu escritório, ele tinha pensado em atender a seus velhos conhecidos, esses trabalhavam com grandes escritórios, isso nunca ia dar certo.

Tens razão, falou, errei meu direcionamento.

Paramos para analisar, o que podia ser contornado, mas não dava certo.  Na verdade era para passar seu tempo, estava aposentado, inclusive ria dele por estar defasado com as leis.

Mas lhe indicou para um escritório de San Francisco, aonde tinha muito relacionamento.  O melhor foi chegar, me examinaram de cima a baixo, aquele negro retinto, bem vestido, com cara limpa.  Falei com uma secretária, disse meu nome Carter Dawson, tenho uma entrevista com o chefe.   Este saiu, quando me viu, fez a mesma cara, mas num esforço estendeu a mão, eu comentei o comandante não lhe disse que eu era negro, é isso.

Sim, 99% dos nossos clientes são brancos, queres experimentar para saber como funciona, me ofereceu um salário baixíssimo, eu lhe disse que nem pensar, ganhava pelo menos três vezes mais no Pentágonos, além dos convites que tinha da CIA, lhe disse o nome de um agente que vivia me chamando para trabalhar, peça informação a ele, lhe deu meu número de celular, qualquer coisa entre em contato comigo.

Sai pelas ruas, ruminando, ou seja ali a aparência era importante ou melhor dizendo ser branco era importante.  Vi um protesto na rua, fui me aproximando para ver. Me interessei, era uma ONG que protestava por um abuso cometido pela polícia, me aproximei, escutei o que um deles dizia.

Depois me aproximei, me fale do que vocês reclamam.  Ele me contou o caso, eu lhe disse que era advogado.    Me levou a um edifício antigo, que usavam como quartel general, na rua foi dizendo, trabalhamos com todos os tipos de problemas, defendemos, gays, transexuais, qualquer pessoa, branco ou negra que tenha problemas, sem recursos para pagar.

Mas quem banca tudo isso?

Ele riu, uma larga história.  Entramos numa sala, mas o ruído era muito, lhe disse pode fechar a porta para que eu possa ler tranquilamente todos os documentos.

Me indicou uma sala do lado.   Achei estranho, lhe disse, confias em mim assim?

Tens cara de honesto, nunca me engano com as pessoas, só pedi um bloco, lápis.

Fui anotando tudo que via de errado, nem percebi o tempo passando, só parei quando senti meu estomago roncando.  Da porta alguém riu, era ele.

O advogado que conhecemos, não que seja má pessoa, chegou olhou, disse que era uma causa perdida.

Pois eu acho que não.  Veja, se ampliarmos as fotos, podemos ver as placas dos policiais, isso teríamos alguém a quem alcançar, aqui diz que tem um vídeo, aonde está a cópia.  Teriam que ter pedido o mesmo, fui dizendo tudo que estava errado.

Me perguntou se eu tinha emprego.  Lhe contei o que tinha acontecido, vivi muitos anos atrás aqui, mas conheço pouco a cidade.  Estou num hotel, para ficar teria que ter um lugar para viver, um lugar para trabalhar, necessito silêncio.

Lhe entreguei meu curriculum, ficou com a boca aberta.

Se não te incomoda, no meu apartamento tenho um quarto, mas aviso, sou gay, atualmente vivo sozinho.   Quando começaste a falar comigo, pensei que estavas ligando comigo.

Ri, meu amigo, tua vida é tua, como a minha é minha, não me interessa me meter na vida de ninguém.  Preciso sim trabalhar.

Saímos para comer, justo nesse momento, tocou o telefone, era o diretor da firma de advocacia,

Quando escutou seu nome meu companheiro de mesa, Jonatan Schiver, escutou a proposta que me faziam, pediu o telefone, olá papai, vejo que continuas igual, pois esse homem, em segundo destrinchou um processo que vocês preferiram ficar com o outro lado.  Vamos a pôr todas, eu o contratei.

Fiquei rindo. É teu pai?

Sim, um idiota emproado, mas não pode comigo, me expulsou de casa, meu avô me deixou uma herança, me ensinou a administrar a mesma, eu gasto o que ganho nessa ONG, posso pagar o que queres.  Mas aviso, temos batalhas impressionantes.

Aceitei, conseguimos um vídeo que estava trucado, anotei de aonde era o vídeo, eles tinham um hacker, conseguimos o original, se via que o homem, um negro jovem, estava sentado no meio fio.   Tremia, estava mal fisicamente, chegou a polícia, os dois simplesmente lhe desceram porrada.  Anotou o nome e a matricula de cada um.

Preciso de alguém que investigue esses dois, pois tem cara que sempre são violentos.

Fui viver no seu apartamento, era imenso, meu quarto ficava basicamente isolado do seu, com uma vista maravilhosa da Bahia.   

Um mês depois, fomos a julgamento, quem defendia os policiais era seu pai.  Na primeira vista, olhei os dois que estavam ali.  Protestei imediatamente, senhor Juiz, esses dois não são os policiais do vídeo, veja, as caras não correspondem, nem as placas.  O Juiz ficou furioso, a polícia mais uma vez tenta enganar este velho juiz.  Virou-se para o advogado, disse, te dou uma hora para se apresentar esses dois aqui, senão dou ganho de caso o lado contrário.

De fato, uma hora depois os dois estavam ali.   Apresentei a prova do vídeo, comentando que o que nos tinham fornecido estava manipulado, que tínhamos conseguido o original.  O advogado tentou impugnar, mas já tinha o juiz contra ele.

Depois fui apresentando todos os antecedentes dos dois policiais, documentados com vídeos, fotos, reportagens.

O juízo que seria a portas fechadas, com o que tinham feito, o juiz deixou entrar jornalistas, televisão, toda uma maquinaria.

Os dois policiais foram condenados, perderam suas placas, tudo, o juiz me chamou até seu gabinete, me perguntou quem eu era, lhe apresentei meu curriculum.

Preciso de uma pessoa como tu, para trabalhares comigo.  Podes seguir com a ONG, mas assim até posso julgar esses processos sabendo do que estou falando.

 Na saída encontrei pai e filho conversando. O pai ameaçava o filho de cortar o dinheiro que recebia de sua herança, se não parece de besteiras.

A mim me perguntou se queria um cargo de advogado Sênior.

Sinto muito acabo de ter outra oferta de emprego, vou trabalhar com o Juiz.

A cara do homem foi um esgar horroroso, sabes aonde está te metendo, esse juiz é horroroso.

Por isso mesmo aceitei.

Agradeci ao meu amigo, lhe contei depois que assim agora seria mais fácil, pois estaria dentro da máquina.

No seguinte caso, eu já estava numa sala ao lado do juiz, com direito a uma secretária, bem como um detective, para pesquisar o que eu achasse conveniente.

Era como uma suprema corte do estado.  Os julgamentos normalmente não tinha jurado.

Analisei o caso seguinte, apontei todos os erros, ele gostou, que eu não registrasse no computador, era da velha escola, escrevia mão suas decisões.

Era justamente sobre um Hacker, tinha entrado no sistema, justamente porque tinha sido maltratado pela polícia.  Conversei com o rapaz, disfarçadamente me passou um pen drive, aqui encontrarás tudo que descobrir, por isso querem me tirar de circulação.

Os detetives que o tinha interrogado, tinha usado violência, mas não deixaram que fosse analisado por um forense.   Ele sem que os dois soubesse, tinha gravado todo o interrogatório.

Analisou tudo.  Quando chamou os detetives para conversar, se colocaram na defensiva, esperavam encontrar um sujeito branco, quando me viram ali, um negro pomposo, um deles murmurou entre os dentes negrata, não sabia que estavam sendo gravados em vídeo.

Se negaram a falar comigo. Quando saíram, soltaram desde a porta vamos te fuder negrata, bem como esse garoto, verá que a surra que lhe demos, não foi nada como será a próxima.

No julgamento, estava de novo o pai do meu amigo, bem como todo o alto mando do departamento de polícia, convidado pelo juiz.

Meu assistente, atuara como advogado de defensa do rapaz, já que o advogado de oficio, foi espantando pela polícia.    Ali estavam os dois policiais sentados calmamente ao lado do advogado.  Apresentei a primeira prova, que era tudo que tinham feito no interrogatório.

O hacker depois tinha entrado no sistema da delegacia, recuperou em vídeo tudo.

O advogado deles objetou.

O juiz muito calmo, soltou, aqui não estamos num julgamento com júri, sim num de apelação, essas objeções não têm sentido, realmente estamos usando material de um hacker, mas isso não impede sua validez, pois se tivesse pedido na delegacia essa gravação, chegaria adulterada até aqui.   O seguinte foi mostrar o registro do local do Hacker, ele tinha sido gravados destruindo tudo, segundo o hacker, era porque os tinha gravado recebendo suborno.   Pensaram que as provas estavam aí.  O pen drive que me tinha passado era isso.

Depois mostrei pois não sabiam que eu gravava, toda a má vontade da delegacia em ajudar, o alto mando da polícia se mexia desconformemente nas cadeiras.

Por último, mostrei o que tinham feito na minha sala.  O advogado não podia fazer nada, eles mesmo tinham se condenado.

O juiz, chamou o mesmo, com o chefe do alto mando policial, para sua sala junto comigo.

Ou vocês melhoram essas delegacias, ou serão obrigados a ficarem pagando altas somas de dinheiro a todas as pessoas maltratadas, nesse caso, o rapaz pede 20 milhões de dólares, por danos morais, isso porque eu conversei com ele, para ele desistir do resto.

O advogado disse que era um absurdo.

Bom o senhor quando conversou com seus clientes, sabia de alguma coisa destas?

Menor ideia.

Vê, se eu fosse o senhor, entregaria seu diploma imediatamente, mais, penso demandar seu escritório, por negligência. Quando será que o senhor vai entender, que esse departamento de justiça, agora mudou, aqui não tem ninguém que frequente a sociedade, que conviva com seus amigos.  Mais, posso mostrar o vídeo para o departamento da Policia, em que o senhor foi tão relapso que disse a esses homens que não tinha problema nenhum.    Mas os tratou como clientes mafiosos que estas acostumado a defender na justiça comum.   Achando que o dinheiro pode com tudo.   Se fosse o departamento de polícia, retiraria os seguintes casos do seu escritório, para que quando venham aqui, não percam tempo.