SORT OUT

                                                       SORT  OUT

Tinha levantado com os dois pés esquerdos como costumava dizer, quando mal abria os olhos se lembrando como seria seu dia.  A primeira coisa que pensou, vai ser uma merda.

Sua tia, fazia questão de todos os anos, mandar rezar uma missa por sua mãe, que já tinha morrido a mais de 10 anos.             Isso incluía aguentar um sermão do padre, que adorava falar complicado para parecer importante, ao que passados cinco minutos ele deixava de escutar, a plateia como ele chamava estava escassa, as velhas estavam todas morrendo pensou. Olhou diretamente na cara do padre, quando esse o olhou, fez um sinal, colocou o dedo sobre o relógio, este ficou vermelho, cortou rapidamente o sermão, afinal não mais que dez gatos pingados ali.

Teria que esperar sua tia se despedir das outras mulheres que iriam lhe perguntar quando se casava.   Estava já a estas alturas fartos, colocou dinheiro na mão de sua tia, disse que pegasse um taxi.

Ela colocou as mãos na cadeira, soltou, é que tua mãe, não te ensinou a ser cortes com as mulheres. 

Sim, respondeu de mau humor, mas não com as chatas que não tem nada que fazer no seu dia a dia, tenho pressa, tenho que trabalhar.

Entrou no escritório furioso, sua secretária de muitos anos, riu, cuidado teus cabelos estão pegando fogo.  Acabou rindo, pois usava a cabeça raspada.

Me fizeste imaginar a cena, quem é a primeira vítima, foi tudo o que perguntou, quando ela entrou enquanto ele tirava o casaco, colocou o café na frete de sua mesa.

Pelo visto o sermão esse ano foi curto?

Ele contou as gargalhadas o que tinha feito.   Agora era a vez dela rir, eu quando tenho que levar minha mãe a missa aos domingos, antes com a desculpa que tenho que falar com o padre, lhe digo se não faz um sermão curto, vou me levantar mandado tomar no cu na frente de todo mundo.              Faz uns sermões de uns 10 minutos, mas ao final me olha, faz um sinal para mim. Embora saiba que quer me mandar a puta que pariu.

Bom vamos as vitimas da quarta-feira, era o dia que ele recebia os escritores, ou para dizer que iam publicar seu livro, ou para mandar reescrever quase tudo, ou dizer que a ideia era boa mas que refizesse o texto inteiro, ou por último que era uma merda.

Nem sempre era agradável, o primeiro era um escritor pedante, que achava que todos seus livros seriam best sellers, normalmente a ideia original podia ser boa, mas ele não queria ter trabalho, vinha com um papel na frente, essa ideia foi usada num filme de Classe B, uma merda.

Sabia quem tinha lido o mesmo, era seu braço direito, nunca poupava a linguagem.  Tinha uma cabeça fantástica, se lembrava dos textos, se eram cópias ou não.

O sujeito entrou na sala com um sorriso falso em toda sua cara, lhe apertou a mão, depois esfregou uma na outra, quando vamos publicar essa maravilha.   Sem uma palavra, para não ter que discutir, lhe entregou o mesmo.   Sua cara mudou totalmente, quase espumava, a ideia pode ser do filme, mas eu a melhorei muito.

Sinto muito, ou mudas a ideia original, ou começas outra vez desde a primeira página. Não posso fazer nada, se um leitor diz isso, sinal que tem razão, ainda mais se tratando do Bradford.

Essa maricona velha, sempre faz tudo para amargar o dia.

Respeito, primeiro Bradford é mais jovem que tu, pelo menos uns dez anos, ou mais, além de que confio totalmente nele.

O outro se levantou, pegou o manuscrito, levantou os ombros, jogou ele mesmo na lixeira. Mais um sonho inalcançável.

Teve que ficar rindo, quando o via descer pelo corredor.   Era um embusteiro de muito cuidado, tinha escrito realmente em sua vida um livro bom, o primeiro, depois jamais foi capaz de escrever outro.   Vivia ainda das vendas do primeiro.

Apertou o interfone, avisou a secretária que estava livre.              O segundo era um rapaz jovem, estava nervoso, mas seu texto era muito interessante, ele mesmo o tinha lido por  recomendação do Bradford.   Apertou sua mão, perguntou se queria um café ou água.

Água por favor, estou nervoso, depois que vi esse senhor sair furioso, dizendo que ninguém o entende, fiquei pensando meu texto é uma merda.

Não meu caro, olhe aonde ele jogou o dele, ele mesmo o considerava assim, o teu pelo contrário é interessante, Bradford anotou as páginas, que gostaria que revisasse, bem como melhorar o texto, peça depois a minha secretária, para marcar uma hora com ele, mas recomendo não chegue atrasado, ele odeia.

O sorriso do rapaz iluminou a sua cara.  Obrigado, muito obrigado.

Assim foi toda a manhã, agora teria que ir almoçar com um amigo do Bradford, que vinha tentando publicar um livro com a historia da família, escrito por uma tia, solteirona que não tinha o que fazer, mas que glorificava a família.

Teria que ir com tato, porque essa família possuía ações da empresa.   Isso lhe incomodava uma merda, mas estava em suas obrigações.   Ele mesmo tinha lido o tal escrito, mais tonto era impossível, talvez tivesse algum fundo de verdade no que falava, mas iria interessar mais ou menos meia dúzia de leitores, com certeza amigos dessa família WASP, White Anglo-Saxon Protestant, normalmente todos metidos a besta como ele dizia.

Estava entrando no restaurante, o garçom que o conhecia, sabia qual mesa deveria lhe oferecer, dali poderia olhar o restaurante inteiro, se aparecia alguém, que ia ser um saco, ele saia pela cozinha, dali a porta dos fundos.

Mal se sentou, chegou o homem, vestido no estilo inglês perfeito, estendeu a mão como se fosse um beija mão papal.  Se sentou lhe entregou o envelope, gostava de ir direto ao assunto, assim poupava ter indigestão.  A cara do outro era curiosa.

Assim, antes do aperitivo, da comida.

O senhor me desculpe, mas é minha maneira de trabalhar, infelizmente o texto não merece uma publicação, nos daria prejuízo, o senhor como possuidor de ações da empresa sabe disso.  Acredito que lhe possa oferecer uma outra opção, indicar uma empresa que imprime, encaderna um livro assim, muito bem, para que o senhor possa oferecer aos seus amigos, seria a melhor opção.

Só então notou que tinha uma pessoa em pé.  Era uma cópia melhorada do outro, com uma roupa informal, passou por detrás deste, se sentou sem cerimonia nenhuma, me desculpe ao meu irmão, tão cheio de protocolo, mas eu lhe avisei que o texto era uma merda, uma quantidade de mentiras dessa bruxa solteirona.  Tinha dinheiro, não tinha o que fazer foi para a Inglaterra, inventou que estava pesquisando por la, quando o que mais fez foi gastar dinheiro.

Agradeço sua gentileza, eu também prefiro soltar a verdade, antes de comer, porque pode dar uma azia muito forte.

O outro se levantou, filho da puta, sempre estragando tudo que eu queira fazer.

Virou as costas, foi embora sem se despedir. 

O outro lhe estendeu a mão outra vez, Richard Brakstone, odeio todas essas mentiras, creio mesmo que os nossos antepassados vieram para cá, algemados na galera, por serem bandidos ou coisa parecida.  Mas meu bisavô inventou essas bobagens todas ao respeito da família, para entrar na sociedade, quando ficou milionário.

Meu irmão nunca trabalhou na vida, só me faz essas merdas, ora quer ser produtor da Broadway, ou de cinema, patrocinar qualquer artista que acha que será um sucesso, gastar dinheiro.    Eu sou pelo menos honesto, sou um sem vergonha de muito cuidado, gasto minha parte da fortuna sim, pois sou gay, não penso em me casar, então antes que acabe na mão desse idiota, vou gastando.

O olhou bem, não me eres estranho, fez um sinal para o garçom, lhe perguntou vinho tinto ou branco.

Me desculpe, não bebo,  no almoço só tomo água, porque depois tenho uma tarde horrível hoje. Podemos pedir se queres comer comigo.

Nem pensar, acabei de levantar-me, acabo de tomar o café da manhã.  Daqui irei jogar tênis para manter a forma.

Já sei de aonde te conheço, te vi uma vez numa festa na casa de alguém ou um jantar não é.

Ia concordar, mas nunca o tinha visto, não frequentava esse tipo de ambiente, suas saídas estavam com seus amigos de sempre.

Creio que não, basicamente odeio festas fúteis, como lhe disse, não bebo, não fumo, odeio ficar escutando besteiras superficiais, desculpe se sou franco.

Eu gosto, no nosso meio, tudo que escuto é isso, tens razão, tens razão.  Se levantou, com educação, estendeu a mão, espero não ter estragado o seu almoço.  Bom apetite.

Foi embora, realmente era uma bela figura de homem, mas todos os dois estavam fora da sua lista, odiava esse tipo de comportamento, tanto de um como de outro.

Pediu finalmente seu prato predileto das quartas-feiras, para alguns um gosto um pouco tonto, pois era uma comida leve. 

Acabou de comer, pagou, saiu, foi direto para a editora, na sua sala, estava esperando o Bradford, rindo.    Pela sua cara queria saber como tinha se saído.  Ao contrário dele, ele adorava essas festas, para depois sacanear todo mundo.  Na verdade, o convidavam, pois, pensavam que ele ainda tinha o dinheiro de sua família, nada disso, trabalhava porque não tinha muito dinheiro.

Bom fiz como sempre fui direto ao assunto, mas apareceu o irmão.

O Richard é muito louco, as festas que ele dá, são as melhores, dizem que na cama é uma fera, com um apetite insaciável.

Sim me deu essa impressão.  Mas não faz o meu tipo.

No final do dia, fazia um calor infernal, antes de sair, tirou a gravata, arregaçou as mangas, ia se encontrar com os amigos para uma cerveja.   Se surpreendeu em ver o Richard lhe esperando.

Estava te esperando, não pudemos nos conhecer direito.  Podemos tomar uma cerveja pelo menos. 

Ia dizer que o estavam esperando, mas resolveu aceitar.                 Falaram de mil assuntos, ficou intrigado, ele sabia tudo sobre ele.

Pelo visto fizeste uma investigação ao meu respeito, verdade?

Sim, nunca faço isso, mas achei interessante alguém que plantasse cara ao meu irmão, ele sempre se mete com gente que não deve, os esfolam depois o mandam a merda.

Porque essa curiosidade ao meu respeito, eu mesmo poderia te contar melhor a minha vida, sem problemas.    Não tenho nada que esconder, ao contrário, para não ser chantageado por ninguém procuro ser reto.

Quase soltou, que a pouco tempo um editor tinha ido para a rua, por ter misturado sua vida particular com a profissional, se encantou com um escritor, esqueceu que era casado com filhos, foi chantageado pelo outro que queria quer fosse editado seu livro.  Quando se negou, fez um escândalo.   Resultado o outro perdeu o emprego.    Mas não disse nada.

Bom o que gostas de fazer, já sei que não te posso convidar para nenhuma festa, pois não gosta, como é a tua vida?

Trabalho, amo os livros, ia agora tomar uma cerveja com meus amigos, depois iria para casa, pois comecei o dia com mau humor, me tocava uma missa, pela alma da minha mãe, que sua irmã faz questão de fazer todos os anos.   Ela ia odiar, pois nunca ia a igreja.   Mas para me livrar durante meses da minha tia, vou, depois a quarta-feira é o dia que vejo os escritores, para dizer sim ou não, julgamento como Salomão.

Agora o que quero é ir para casa, tomar um banho, escutar uma música, talvez até cochilar um pouco, depois trabalhar outro tanto.

Uma vida sem emoção nenhuma como pode ver.

Não tens namorado, ou alguma aventura.

Não, tenho paciência, as pessoas são absorventes, te querem possuir, minhas experiencias foram desastrosas.   Então prefiro ficar na minha, tenho claro aventuras sem compromisso.

Hum, acho que gostaria de ter uma aventura contigo.  Ficaram rindo, mas um olhando para o outro.   Ele acabou na sua casa, entrou olhando tudo, não acredito numa sala de visita com tantos livros, não cabem na biblioteca?

Está lotada, preciso de espaço para trabalhar, acendeu a luz da mesma, ele disse, caramba podias vender isso, já sei, colocas uma banca ali na quinta avenida, vou vender para ti.

Gostava desse jeito dele irreverente, em contraste com seu humor severo.

Mas na cama, foi uma loucura, ele era um furacão, ele quando tocado também, era insaciáveis os dois.   Ao final estavam exausto.

Richard soltou, porque não te encontrei a mais tempo.

Acabou dormindo, quando o despertador tocou as 7 da manhã resmungou, virou para o lado, seguiu dormindo, ele se levantou, fez a barba, tomou banho, se vestiu, ele não se mexia.  Deixou um bilhete, com seu número de celular, quando desperte, é só bater a porta que se fecha por dentro.

Teve pelo menos três reuniões, na qual a norma era, celulares, sem som, não atender nenhuma chamada.

Ao final do dia, viu que estava exausto, um amigo lhe chamou para tomar uma cerveja, mas disse que era impossível, estava morto.

Quando abriu a porta, sentiu cheiro de comida, o Richard na cozinha nu, preparava comida, estou te esperando, vá tomar um banho enquanto coloco a mesa, depois de jantar, lhe perguntou como tinha feito as compras, se não tinha saído. 

Oras por telefone, eles existem para alguma coisa.  Gosto de cozinhar para alguém, não quero te perder de vista.

Richard, hoje tive um dia  cansativo, se fizer o que fizemos ontem a noite, amanhã, não consigo trabalhar.

Entendi, não queres mais me ver?

Não é isso, eu levanto cedo, minha cabeça precisa funcionar, para tomar decisões, quiça no final de semana, sim podemos passar juntos.

Merda, esse é o problema, tenho uma festa na casa de praia em Los Hamptons, com alguns amigos, começou a rir, ias odiar, pelo menos umas 200 pessoas.

Realmente, nem pensar.

Bom, posso cancelar se for para ficar aqui contigo.

Não creio que você possa gostar, pois pretendo trabalhar.  Veja isso diz logo de cara que temos vidas completamente opostas.  Nada daria certo.

Mas a verdade, foi que ele cancelou para ficar com ele, o deixou trabalhar, jogado numa poltrona lendo um livro.

Saíram para jantar, fizeram sexo muitas vezes, lhe dizia ao seu ouvido, não posso ver o seu caralho que o quero para mim.

De repente de uma hora para outra, mudou, encontrou o que fazer, mas chegava na sua casa no horário, o apresentou para seus amigos, caiu bem a todos, se interessou pelo que fazia cada um, quando lhe perguntava, o que fazia, ele dizia sou um vagabundo, cheio de dinheiro, não escondia o que era.

Meus amigos diziam, Henry, ele não é nada do que parece, ouvi dizer que esta agora indo as reuniões da empresas da família, se interessa pelas coisas.

Se acostumou, de chegar em casa, o encontrar nu, andando por ela, ou fazendo algo especial para ele, se interessar como tinha sido seu dia.  Assim foi durante dois anos, um dia lhe perguntou se queria se casar com ele.   Levou um susto, ficou olhando para ele, agora sabia quando falava sério.

Eres a melhor coisa que me aconteceu na vida Henry, quero viver contigo, o resto de minha vida.

Ficou olhando para ele, estamos bem assim, para que complicar.  Mas tanto fez que acabou concordando.   Estava acostumado a ele.    Um belo dia o foi buscar na hora do almoço, foram ao fórum, se casaram.

Queria que ele fosse viver na sua mansão.   Disse que nem pensar, gostava de sua casa, foi um dia com ele até lá, achou um absurdo uma pessoa viver sozinha numa casa como aquela.

Depois queria dar uma festa para comemorar que tinham se casado, se negou, mas ele agora mostrava suas garras, fez a festa sem ele.

Apareceu três dias depois bêbado, drogado. Foi o começo do fim, se comportava uma semana, depois desaparecia.  Lhe disse que queria o divórcio. 

Nem pensar, gosto de estar casado contigo.

Cuidado, foi fazer um exame, completo, tinha medo de ficar com Aids, embora desde o primeiro dia tinha se cuidado.

Estava irritado, pois isso o impedia de se concentrar no seu trabalho.  Tomou uma resolução, lhe disse que não queria mais vê-lo, que assim não queria estar com ele.

Sua reação o surpreendeu, ninguém me deixa, sou eu que deixo as pessoas.  Saiu batendo a porta.   Ele prudentemente, mandou trocar a fechadura da porta, avisou o porteiro que não o deixasse entrar mais.  Se fosse o caso, inclusive falou com seu advogado pedindo uma ordem de que ele não podia se aproximar dele, até que considerasse o divórcio.

Uma semana depois, acordou com a campainha da porta, levantou de mal humor, pensando que era ele.    Era um policial.

Lhe perguntou se era casado com Richard Brakstone, ao dizer que sim, lhe pediu que o acompanhasse a sua mansão.    Tinha sido assassinado.

Quando entrou, aquilo parecia o inferno, gente bêbada, drogada, caída pelos cantos, sendo atendida por enfermeiros, o fizeram subir, ele estava numa cama imensa com dois garotos ao lado, cada um com um tiro na cabeça.

Quem fez isso?

Não conseguia passar da porta.  Quem fez isso perguntou de novo.  Ali aos pés da cama estava o irmão dele, com uma aparência horrível.   Foi ele, diz que estava farto dessas orgias que não o deixavam dormir.

Não posso ficar aqui, sem conseguir se controlar, começou a vomitar.  Merda, foi tudo o que pode dizer, além de agradecer o inspetor que o ajudou.

Sabemos que o senhor pediu divórcio, como o irmão esta incapacitado, tinha que ser o senhor.

Ok. Posso ir embora.  Depois o senhor sabe aonde me encontrar.

O sorriso do inspetor era amargo, a pergunta que o senhor está se fazendo é aonde eu fui me meter, verdade?

Sim, sem dúvida nenhuma, viveu comigo dois anos, maravilhosos, insistiu que nos casássemos, em seguida voltou a sua vida de antes.  Pedi o divórcio,  me disse que não, que era ele que deixava as pessoas.  Depois desapareceu.   Segui com minha vida, trabalhando, esperando que aceitasse, me deixasse em paz.

Bom, como o senhor já reconheceu o cadáver, não tem que ir ao necrotério, não sabemos quando liberaram os corpos, primeiro teremos que analisar tudo aqui.  Pode ser que tenhamos que falar outra vez com o senhor.

Foi para casa, avisou que não podia ir trabalhar, ficou primeiro andando pela casa, feito um louco, que idiota, com tudo que tinha podia ter feito algo de útil com sua vida.

Depois chorou, mas chorou muito, estava assim, quando tocaram de novo a campainha, foi atender, era o inspetor outra, vez,  posso entrar.

Já falei com o porteiro da noite, me disse que horas o senhor chegou, que não saiu de casa a noite inteira, me desculpa, mas tenho que descartar todas as possibilidades.  O irmão não é coerente.

O senhor aceita um café, eu necessito de um bem forte, fez café se sentaram na sala, pode perguntar o que queira.

O senhor sabia que quando ele começou o relacionamento consigo, tinha saído de uma clínica de desintoxicação?

Não, mas ele sabia, que eu não bebo, não fumo, não tomo drogas, eu lhe disse isso no primeiro dia.  Necessito minha cabeça limpa para pensar, para trabalhar.

Pelo que sei nesse tempo se manteve limpo, queria fazer um casamento por todo o alto, me neguei, só estive uma vez nessa mansão, queria que fossemos viver ali, eu acho um desperdício, quando chegou o verão queria ir para a casa de Los Hamptons, tampouco fui pois tenho que trabalhar.   Não só é o meu ganha pão, como amo o que faço.

Sim eu sei, o senhor é muito respeitado no meio, já tinha essa informação, quando vim busca-lo de manhã.

Mas a que hora aconteceu isso?

Pelo que vimos aconteceu de madrugada, ninguém na festa viu nada, só quando o irmão apareceu na escada, com o revolver dando dois tiros no ar, mas estavam acostumado que ele fazia isso, realmente o teto esta cheio de buracos de bala.

Os conheci ao mesmo tempo, o irmão queria publicar um livro escrito por uma tia, muitas mentiras a respeito da família, dizendo que eram nobres essas besteiras Wasp.

Me neguei a publicar, ele chegou justo quando eu dizia isso ao irmão.  Nesse dia me foi buscar para conversar, sem me dar conta, me apaixonei por ele.   Mas me neguei a sair de minha casa, ir a qualquer festa com ele, tampouco proibi.

Pode ser que  tenha visto no senhor um lugar seguro, para viver.  

Sim viveu aqui comigo dois anos, estávamos bem, por isso não queria me casar.   Mas ele era uma pessoa envolvente, nunca desistia de nada.   Quando vi tinha me casado.   Quando voltou a beber, drogar-se essas coisas, desaparecia, depois pedia desculpas.  Mas cortei pelo sano, pedi o divórcio, disse que em sua família isso não acontecia.  Lhe disse que não queria nada dele, só que me deixasse em paz.  Acionei meu advogado, dei ordem que não entrasse mais aqui, troquei a fechadura da porta.   Enfim, passei levar uma vida mais segregada do que levava antes.

Só assim podia ter paz para trabalhar.

As pessoas dizem que fui um privilegiado, mas para nada, primeiro sou filho adotivo, minha mãe, era uma pessoa fabulosa, nunca quis se casar, mas queria um filho, me viu num orfanato me adotou,  da para perceber que não sou branco, sou um mulato claro.  Mas a adorei com todas minhas forças, me deu um futuro.   A única coisa que discuti com ela, foi que comprou ações da editora, para que me deixassem trabalhar lá, por isso tive que ser melhor que os outros, não ia deixar ninguém me pisar, me chamar de protegido.

Mas não sou o dono, vivíamos nesse apartamento, o reformei, pois precisava de lugar para meus livros.

Agora se me pergunta, me sinto perdido, eu o amava, acreditei nele, agora me sinto perdido, mais do que antes, quando tudo acabou.   Se o visse agora, lhe daria uma surra, dessas que os pais davam antigamente nos filhos quando eram desobedientes.

O senhor me faz um favor, pois conhecendo meus amigos, dentro em breve todos vão querer vir aqui. Diga ao porteiro que eu não posso receber visitas, preciso ficar sozinho.

O inspetor lhe apertou a mão, depois passo para saber como está, meu nome é Duke Almagro, lhe deixo meu cartão se precisa falar com alguém.

Tirou toda roupa, entrou embaixo do chuveiro, ficou pelo menos meia hora ali. Tinha a sensação de que precisava limpar-se de toda essa merda.

Depois se sentou na mesa de trabalho, apoiou a cabeça nas mãos, algo lhe chamou a atenção num texto, começou a ler, acabou dormindo cansado, com a cabeça encostada na mesa.

Não sabia quanto tempo tinha estado ali, dormindo.   Mas pelo menos se relaxou.

Pediu comida pelo telefone de noite, viu a quantidade de mensagens que tinha no celular, borrou tudo, não queria conforto de ninguém.   Ia começar a comer, quando o inspetor Duke chegou outra vez.  Trazia comida também.  Se sentaram os dois na cozinha comendo em silencio.

Acredita que não acabamos de interrogar todo mundo que estava lá.  A maioria tinha uma alta dose de drogas.     Pela autopsia, ele morreu no ato, mas a alta concentração de drogas, estimulantes, além de esperma anal, a cama era uma verdadeira sujeira.  Me perdoe contar isso, mas o senhor tem que saber, pois isso acaba nos jornais.

Pare de me chamar de senhor, meu nome é Henry, nada mais.   Sim, creio que é bom saber tudo, assim não me assusto.

O advogado já me mandou um e-mail, dizendo que o enterro é amanhã.  Mas nem sei se irei, não conheço toda a família, odeio essa coisa dos pêsames.

Queres que te leve?

Duke, porque estas fazendo tudo isso por mim, me achas culpado de alguma coisa, ou tem alguma coisa que não sei?

Não te lembras de mim, não é?

No momento, com minha cabeça como está, não.

Estivemos juntos no orfanato, dormíamos em camas pegadas, Henry o tonto te chamava, a mim me chamavam de Duke el chicano.

Agora sim, sorriu, claro, me lembro, chegamos no mesmo dia no orfanato, cada um de um lado, estávamos mortos de medo, você me deu a mão, entramos de mãos dadas.  Mas você foi adotado antes, não é?

Sim fui adotado por um policial, que não tinha filhos, como era de ascendência mexicana, me adotou, foram uns pais maravilhosos para mim.

Quando fiquei maior, fui te procurar, queria saber quem tinha te adotado, quando vi aonde morava, pensei, ele está bem.

Ok, se podes amanha irei contigo ao enterro, é melhor estar com amigos.  Mas aviso, ficarei afastado, não quero nada dessa gente.

Assim, foi, veio busca-lo cedo, ele se vestiu todo de negro, com uns óculos negros também, ficou afastado, tinha muita gente, mas ele não se aproximou de nenhum, na verdade não conhecia os outros.

Um senhor se aproximou, perguntando se ele queria dizer algumas palavras, disse que não, não conhecia essa gente.  Sou o advogado do Richard, amanhã o senhor tem que ir a leitura do testamento, antes, enfiou a mão no bolso, isso ele deixou para o senhor.  Mas é necessário ir a leitura do testamento, pois vocês se casaram com comunhão de bens. 

Fez cara de surpresa, perdão, mas não sabia disso.

Lhe deu o cartão, disse a hora que devia estar, era perto de aonde trabalhava, pensava em voltar a trabalhar no dia seguinte.   Iria depois disso.

Viu que todos iam embora, um senhor já maior, com uniforme de chofer se aproximou, dizendo, eu o conheci desde criança, o tempo que esteve com o senhor, foram os melhores de sua vida.

De uma pessoa simples ele podia entender.

Ficou de contar ao Duke, depois como sairia da leitura, depois nos falamos.

Ficou em casa trabalhando, falou com sua secretária, ela ia dizer algo, mas ele cortou, não diga nada, não suporto isso de pêsames, diga ao pessoal que nem se atreva.

Amanhã chego mais tarde que tenho que ir ao advogado, depois irei trabalhar.

No dia seguinte se arrumou como outro dia qualquer para ir trabalhar, antes passou no escritório do advogado, aquilo parecia um jardim zoológico.   Se sentou nos fundos, mas o advogado foi busca-lo, o senhor é o viúvo, tem que estar na frente.  Viu que a família toda o olhava com desprezo.    Leu a carta que lhe entreguei ontem. Fez que não com a cabeça.

Sentou-se sem olhar a ninguém.

Ele leu as formalidades.   Quando leu o testamento, só escutava murmúrios de raiva, ele não tinha entendido nada, só escutava arrastar de cadeiras, em seguida a sala ficava vazia.
Perdão não entendi nada!

Ele deixou tudo para o senhor, pelos melhores anos da vida dele.  Tudo que tinha no banco, bem como a renda do fideicomisso que tinha da família, a mansão, a casa da praia, tudo é seu.

Que vou fazer com essa merda.

O senhor faz uma coisa, coloque tudo a venda, quando estiver vendido me fala, como vamos distribuir esse dinheiro.  Não quero nada.

Se alguém da família quiser comprar, posso vender para eles?

Me importa um caralho quem compre, desde que seja um preço de mercado. Depois darei uma parte ao orfanato aonde fui criado, obra da igreja que minha mãe ia. Depois resolvo isso.

Saiu dali tonto, o homem ainda correu atrás dele, com um envelope, aqui tem as contas de bancos, para saber quanto existe.

Estava furioso, como podia ter feito isso com ele, pensar que ele queria seu dinheiro.  Não disse bom dia a ninguém, foi direto a sua sala, fechou a porta, chamou o Duke.  Estou farto dessa merda que me meti.  Contou para ele tudo.  Já disse que uma parte vai para o orfanato de aonde saímos, vou distribuir o dinheiro dessa canalhada toda. Filhos da puta.

Posso passar por tua casa de noite?

Sim, pode, preciso falar com alguém, que me possa clarear a cabeça.

Sua secretária, abriu a porta, colocou a cabeça para dentro, lhe disse reunião da diretoria, tome um copo de água, pois as coisas por aqui andam quentes.

Entrou na sala, todos fizeram menção de lhe dar os pêsames, mas ele cortou rapidamente, não façam isso.

Bom qual o problema.  Ele na verdade tinha uma ninharia de ações, seu voto não valia para nada, que não fosse decidir o que devia ser transformado em livro ou não.  

Acabam de lançar uma OPA, para comprar a editora, vamos aceitar, pois estamos com o barco furado, os lucros são uma merda, preferimos ficar com o nome bem alto.

Ele perguntou e os funcionários?

Os que quiserem ficam, os outros podem fazer acordos para saírem.

Ok, eu vou embora, preciso de uns dias para refletir.  Podem me considerar na rua.

Saiu, pediu a sua secretária que mandasse, chamar o Bradford, quando este chegou, a chamou também.  Contou a situação, creio que montarei uma pequena editora, para fazer o que eu quiser.   Já os aviso, se quiserem seguir trabalhando comigo, façam um acordo com a empresa, peçam para sair.

Os abraçou, lhe pediu para recolher as coisas que eram dele, bem como sua lista de escritores que ele representava, essa ele enfiou em sua pasta,  por enquanto trabalharemos da minha casa ok.

Amanha os espero as 10 da manhã, tenho uma coisa para fazer antes.

Quando Duke chegou de noite, lhe contou tudo. Não abriste a carta?

Não tive coragem, porque se tem besteiras escritas, ficarei furioso, preciso ter a cabeça fria.

Amanhã preciso de um advogado para consultar, alguém honesto, em quem eu possa confiar.

Ele riu, eu sou advogado, mas quem ia querer um advogado mexicano, a não ser os das drogas por isso entrei na polícia.  Posso tirar férias que tenho vencidas, como já entreguei o relatório do caso, estou livre.

Se abraçaram na hora da despedida.

Tens família Duke?

Só meus pais, estão velhos, mas firmes, falei de ti para eles, mandaram abraços para ti.

Então amanhã podes vir tomar café comigo, assim discutimos tudo isso, nem abri o envelope do banco, mas não quero fazer isso sozinho.

Sentou-se sozinho na sala, com a carta do Richard nas mãos, só pode dizer, filho da puta, eu te amei tanto, como pudeste fazer isso comigo.

As lagrimas caiam pela sua cara, sentia como se todas as portas estivessem fechando em sua volta, mas se lembro de sua mãe, quando ele sentia isso ela, dizia.  Não importa, se fecham, meta o pé numa delas, que abre.  Mas o fazia literalmente, levantava uma das pernas como dando uma patada na porta.

Acabou dormindo, ali no sofá, a carta escorregou ficando em pé em cima do tapete.

Não sabia quanto tempo ficou ali, despertou com um ruído, no andar de baixo.  Se sentou no sofá recolheu a carta, vamos fazer isso de uma vez.

Perdão, era a primeira palavra, mas fiz merda, nunca consigo me livrar de minhas merdas, pensei que nunca mais depois de dois anos, pudesse recair outra vez nas drogas, mas não sou como tu, que tens uma fortaleza invejável.

Pensei que me escondendo atrás de ti, superaria qualquer coisa na minha vida inútil, mas nada deu certo, na empresa riem de mim, pois não entendo de nada, acabaram pedindo que eu fosse para casa, pois só faço merda.

Minha primeira recaída, fiquei furioso, pensou vou provar que posso fazer tudo que fazia depois sair como se nada.  Mentira.

Mas já tinha estragado tudo contigo, sabia que não ias me perdoar, nunca encontrei ninguém como tu.   Tinhas razão em não querer se casar, mas eu te amei, como nunca tinha amado ninguém, por isso deixo tudo para ti.   Esses merdas que se fodam.

Me criticaram por ter casado com um mestiço, isso nunca me importou, dei o rabo para muito negro, quando estava totalmente drogado.

Mas me aceitaste assim com esse passado negro, nunca me perguntaste nada.

Sei que me querias, como eu te quis.  Por isso aproveite faça alguma coisa boa com tudo isso que te deixo.

Um beijo imenso, não podia te dar o divórcio, pois ele não existe na minha família.  

Mereces o melhor.

Richard.

Não irei mais te molestar, só saberás disso quando eu morra.

Soltou um grito tremendo, sentiu que ia arrebentar, filho da puta, podia estar com ele, levar uma vida normal.  Ao mesmo instante se perguntou o que era normal, desde logo sua vida cotidiana de trabalho, não era a vida que Richard estava acostumado.

Tinha se escondido atrás dele, ou mesmo o tinha usado como uma balsa salva vida, por ter medo de encarar seu lado mais negro.   Nunca saberia o que teria levado a isso.  Pela rigidez que se comportavam todos, viviam de aparências.

Nessa noite dormir foi um desastre, até que acabou se levantando, tomou um banho, se sentou em frente a mesa, começou anotar coisas.        Caiu dormido em cima do que estava escrevendo, que na verdade eram seus planos.

Escutou a campainha tocando, se levantou, espreguiçou, foi abrir a porta, nem se tocou que estava nu. 

Isso lá são maneiras de receber teu advogado, Henry, que vou pensar, que estas te oferecendo.

Saiu correndo, voltou vestido, Duke já estava fazendo café, disse rindo, trouxe croissants, para tomarmos com café.

Mas tampouco precisava sair correndo, o máximo que iria fazer, era te jogar no chão te ensinar a fazer sexo direito.   Tinha um sorriso de troça na cara.

Deixa de zombar de mim, dormi mal a noite, me levantei tomei banho, me coloquei a escrever tudo que queria falar contigo hoje.

Foram os dois com as canecas de café, o saco de croissant para o escritório.  Sentaram-se na mesa, me diga tudo que pensaste, depois, voltamos atrás analisando cada coisa.

A primeira coisa é, quero que vás ao advogado da família, busque todos os papeis, tanto da mansão daqui, bem como da casa de Los Hamptons, pois não confio nesse homem, é capaz de querer vender a própria família por um preço mais baixo do mercado.  Desconfio dessa gente como do diabo.

Segundo, devemos analisar o que existe no banco, não tenho ideia disso, não abri o envelope ainda.

O que quero fazer é o seguinte, primeiro, ontem sai da empresa, convidei minha secretária, bem como Bradford para virem trabalhar comigo, quero montar uma editora, seria, que faça livros que eu tenha orgulho de publicar.

Temos que encontrar um local para isso.   Eu trouxe comigo a lista dos escritores que edito, o que necessito saber é se é honesto, tipo conectar com eles, dizendo que sai da empresa, que monto a minha própria. Mas claro vou escolher só alguns.

Temos que montar uma empresa, eu ficaria com 51%, o resto divido com quem queria trabalhar comigo.  Não quero ser o dono absoluto de nada.

Quero um ritmo mais tranquilo, em que possa ter uma vida mais relaxada.

Da venda das casas, quero que uma parte seja para o orfanato, pois estão sempre precisando de dinheiro, todos anos, reservo uma parte para lá, isso minha mãe sempre fez.  Depois vamos olhar aonde tem gente que precise de dinheiro.  Vou gastar o dinheiro dessa gente em coisa realmente boa.

Que te parece?

Me parece genial, se fosse outra pessoa, estaria já de mala e cuia, se mudando para a mansão, mas sei que tu eres diferente.

Vamos abrir o envelope, antes que chegue o Richard e a Marie, eles sempre trabalharam comigo, assim posso ter gente de confiança em minha volta.

Quando abriram o envelope, viram que havia contas em mais de um banco, os saldos eram grandes, pois a maioria era dinheiro aplicado, tirando as festas ele não gastava muito dinheiro.

Olhando o extrato, Duke disse, ele tinha coragem de pagar com cartão aos das drogas, isso será um prato cheio para a polícia, tirarei uma cópia.

Mas era muito dinheiro, pois foram anotando, significavam muitos milhões,  caralho, viu os depósitos do fideicomisso,  era como se fosse um salário de um grande executivo, do qual ele gastava pouco, pelo visto transferia isso para as contas.

Outra coisa, disse que tenho direito a esse fideicomisso, se é assim, esse dinheiro dá para ir tocando a editora, 

O resto, devo transferir para uma conta minha, ou abrir no próprio banco, preciso de um documento do advogado para isso não é, sei por que tive que fazer isso com o da minha mãe. Terei que procurar alguém que controle tudo isso.   Alias você poderia fazer isso como advogado, cuidaria dos contratos dos escritores, além da parte contabilidade.

Quando chegaram os outros dois, estavam ali discutindo o que fazer.   Fizeram mais café, sentaram-se todos a volta da grande mesa, os apresentou ao Duke, que já conheciam, pois tinha ido na editora investigar.

Explicou que Duke na verdade era um amigo seu de infância, vivemos juntos no orfanato, dai que nos conhecemos bem.

Ele será meu advogado.  Como estão vocês com a empresa?

Esperando ouvir tua proposta, nos ofereceram para ficar, mas claro trabalhar contigo é outra coisa.

Contou o que tinha pensado em fazer, os dois disseram que não tinham dinheiro para montar a sociedade.

Sem problemas, eu tenho o dinheiro, a princípio será apertado, mas penso em só editar o que realmente gostamos.  

Bradford, tu sempre estas reclamando, que tem que ter um pé fora do círculo, pois alguém te obriga a publicar o que não queres.     Isso acabaria, farias o meu papel, trabalharíamos juntos lado a lado, contratarias, uma ou duas pessoas como leitoras, mas pessoas que confies tu, de principio Marie iria controlar o escritório, precisamos de gente de confiança para controlar as empresas  que imprimem, encadernem, o Duke, além de administrar os contratos, ficaria com o controle de gastos.

Cada um pode ter não mais de dois funcionários a princípio.   Agora o mais importante, nada mais de trabalhar aos sábados, domingos, precisamos de tempo para nossas vidas.

Minha ideia é que eu teria 51% das ações, o resto dividido entre os três.   O que acham, já estavam rindo antes.    Trato feito.

Ele repetiu o que já tinha falado com o Duke, o dinheiro dessa gente finalmente servira para algo útil. 

Só vamos fazer livros que sejam bons.   Quero também entrar num mercado novo, livros através da informática, esse era o problema da editora, estava defasada, muita gente hoje não lê os livros em papel.

Agora temos que procurar um local, pois não quero nada aqui na minha casa.

Por enquanto nos reunimos aqui, mas depois temos que ter um local.

Marie disse que sabia de um em frente a outra editora, o espaço é menor, mas vi pela janela que o reformaram inteiro, vou bisbilhotar, depois aviso.

Bradford, que não parava de anotar, já tenho as pessoas, creio que basta telefonar, elas aceitaram.  

O Duke precisa dos documentos de todos, para montarmos a empresa.  Estava tão empolgado com tudo, que por pouco se esquecia do Richard.

Vamos chamar a editora, de Stone,  se não existe outra com esse nome, uma homenagem ao homem que está fazendo com que isso seja possível, o Richard.

As coisas começaram a correr, ao mesmo tempo que recebeu uma chamada de uma pessoa da família, perguntando pelas joias.

Joias, eu não sei nada de joias, falem com o advogado do Richard, nem tenho ideia do assunto.

Caso existam, nos gostaria comprar essa parte, bem como a mansão.

Tudo isso vocês deverão falar com meu advogado, o senhor Duke Almagro, ele sabe que as casas serão vendidas, o dinheiro ira para um orfanato e beneficência.

As casas estão fechadas, o advogado tinha mandado fazer uma avaliação de tudo que tinha dentro,  a maioria eram quadros que de valor não tinham muita coisa, mas os moveis sim.

Duke ficou sabendo através do advogado, já que não estava mais no caso, que o irmão estava em dificuldades financeiras, para pagar um advogado bom.  Estava internado num hospital, os outros parentes não querem o ajudar.

Contrate um criminalista bom para ele, creio que ele não é muito certo da cabeça, mas não quero de maneira nenhuma estar envolvido nisso.

Realmente num dos bancos tinham uma caixa de segurança, cheia de joias da família.

Mandou tudo para um especialista, riram muito pois descobriram que a maioria eram falsas, essas entregaram a família. O resto colocaram a venda. Se queriam comprar, teriam que pagar o preço do mercado. 

O que tinha telefonado já tinha feito contato, queria pagar um preço baixo, mas a estas alturas, Duke já tinha contatado um agente imobiliário da zona que lhe devia favores, sabia o preço justo. Disse que teriam que negociar com a imobiliária.

Bradford, de gozação disse que ele deveria manter Los Hamptons para fazer uma grandes festas.  Mas disse isso rindo.

Foram ver os 4 o local que Marie tinha falado, gostaram.  Só duas salas seriam fechadas, a de reuniões, é a que usariam para atender os escritores, o resto seria tudo aberto.

Bradford, já tinha feito contato com as impressoras de livros, a maioria o conhecia, então bastava mover.

Contrataram uma empresa para comprar os moveis, eram todos iguais, sem distinção de chefe, mesmo para ele, na sala de atender os escritores, uma mesa como as que tinha em casa.

Ao mesmo tempo, foram fazendo contatos com os escritores,  Bradford, colocou um cartaz nos cursos de escritura, nas faculdades de filologia, falando de novos escritores, como deviam mandar os textos.

Todos estavam trabalhando a pleno vapor, se mudaram para o escritório novo, pode por fim recuperar sua casa.

Duke disse que ia sentir falta de estar lá, talvez por inveja, nunca tive uma casa minha, meus pais, sempre vieram em primeiro lugar.

Falar nisso, querem organizar uma festa em sua casa, para comemorar nosso novo negócio, mas aconselho que venhas comigo até lá, para que não façam uma festa tipicamente mexicana com gente saindo pelas janelas.

Henry foi num final de semana com o Duke, se sentia a vontade com ele, podiam conversar qualquer assunto.

No carro foi lhe perguntando se nunca tinha tido um relacionamento sério. 

Queres me explicar como?    Um policial, agarrado a família, o que já por si só gera muita gozação, na minha idade viver com meus pais.  Ainda por cima gay.

Não sabia que eras gay.  Nunca falamos nisso.

Bom essa é a verdade, não pensava ser grosseiro contigo.

Mas a verdade é que sou aquela pessoa, que vai para cama com alguém, não me relaxo, saio correndo em seguida, antes mesmo que me convidem para dormir.  Uns dizem que pareço uma ratazana, que foge depois do coito.   Mas é uma verdade.

Nunca amaste ninguém?

Além de ti, não.    Tinha consciência embora fossemos crianças, que te queria.  Te procurei muito,  mas quando vi como vivia, pensei, nada para o meu bico.

Pois te enganaste, vivíamos muito simplesmente, minha mãe não gostava de luxos, veja o apartamento como é tirado a fachada o edifício, a localização, tudo dentro de casa sempre foi normal.   Nunca tivemos empregados, ela mesma fazia a limpeza, cozinhava, fazia tudo.

Dizia que uma pessoa ociosa era um merda para a sociedade. Tinha maneiras muito particulares de se expressar, contou como era quando dizia o da porta fechada.

Sempre te animava seguir em frente, dizia se ficássemos olhando para trás era mais difícil seguir em frente.   Procuro seguir seus exemplos, seriamente.

Foi uma comida em família, sabia que o estavam examinando, quando sem querer soltou que os dois tinham entrado no mesmo dia no orfanato.  A mãe ficou olhando para ele.  O raro é que nos olhamos, os dois com medo, em frente a porta tinha um espelho grande, até hoje quando me lembro imagino isso, dois garotos sem eira nem beira, de mãos dadas entrando por aquela porta, até vocês o adotarem, foi meu companheiro, único amigo.   Fui adotado logo em seguida, minha mãe era uma pessoa especial.

Duke, contou o que ele tinha falado da sua mãe. 

Ela tem uma irmã ainda viva, essa é o extremo oposto de minha mãe, vive de chás de caridade, enterros,  igreja, mas no fundo não faz nada por ninguém.

Quando soube que tinha me casado com um homem, deixou de falar comigo.  O que no fundo me veio bem, não aguento tanta besteira.

Minha mãe era uma mulher diferente, no enterro dela, fiquei surpreso com a quantidade de gente que não conhecia, inclusive gente da rua que ela ajudava.  Eu segui fazendo o mesmo, sempre tinha uma palavra para qualquer pessoa, para dar força.

Pois é escutávamos falar de ti, pelo Duke, nunca deixou de pensar em ti.  Estudou, poderia ter sido alguém se não fosse essa besteira da sociedade, dele ser e ter seus pais mexicanos.

Sempre nos ajudou quando começou a trabalhar.

Quem perguntou foi o pai, ele nos disse que vais abrir uma editora, que distribuiu uma parte entre ele, mais dois sócios?

Sim é verdade, contou do dinheiro, o senhor não acha que o dinheiro dessa gente ociosa deve servir para alguma coisa.    O orfanato os meninos sempre precisam de roupa, comida, eu dou dinheiro todos os anos, mas nunca é o suficiente, com uma parte, as freiras poderão se relaxar um pouco.

Quero que esses meninos possam estudar, como nos dois pudemos.  Alguns não são adotados, tudo que podem fazer é ou entram para o exército, para serem balas de canhão, pois ninguém se interessa por eles, ou traficantes de drogas.

Se espantou quando Manuel o pai do Duke, colocou a mão sobre a sua.  Gosto da ideia.  Nos também sempre ajudamos, pois nos deram um filho maravilhoso.

Vamos falar de coisas alegres, vamos falar da festa, faremos um churrasco mexicano.

Olha senhor Manuel, não sou muito de festa, muita gente me assusta, o Duke sabe disso, mas confio nos senhores.  Posso convidar os outros sócios.

Claro que sim, deixe tudo por nossa conta.

No sábado foram a festa, para surpresa de Henry, quem estava era a irmã Giovana, ou Giovi como a chamavam de criança, lhe fez a maior festa.  Ficaram sentados lado a lado conversando, o maior prazer era se lembrar de coisas da infância.  Irmã Giovi, reconhecia que tinha um pecado a gula, pois além de muito alta, era gorda, mas quando eles passavam por ela, tirava do bolso dois biscoitos um para cada um, depois colocava a um dedo na frente da boca, fazendo sinal de silencio.   Isso era um grande segredo, até que descobriram que fazia isso com todos os meninos que cuidava.

Estavam rindo muito dessa época, quando se aproximou um garoto em cadeira de rodas, meu novo protegido disse ela,  Jesse, venha aqui conhecer o Henry, esteve lá no orfanato também, o garoto o olhava com adoração, a irmã sempre fala em vocês dois, diz que um dia vou ter a sorte que tiveram vocês dois.   Mas quem vai querer um garoto em cadeira de rodas.  Alguém o veio buscar para comer.

Não tem solução seu problema?

Tem, ele levou uma surra do seu padrasto, caiu por uma escada, lesionou a coluna, depois o deixaram na porta do orfanato, evidentemente só pudemos fazer o essencial.  Tu sabes que só temos uma pessoa, uma enfermeira, só contamos com hospitais públicos, nenhum se interessa em fazer nenhuma operação.

Acredito que o orfanato devia ter um serviço médico, Duke passava por ali, o agarrou, sente-se aqui um momento, estou falando com a irmã Giovi, que o orfanato devia ter um serviço médico, não achas?

Claro que sim, um médico, enfermeira, dentista, tudo que os meninos precisam, verdade. 

Vocês dois estão fora da realidade, mal recolhemos roupas, para esses meninos, comida, contamos com ajuda, vocês dois são dos poucos que ajudam todos esses anos.  Mas precisamos de muito dinheiro.

Sabe irmã, disse Henry, tenho um amigo muito rico, vou falar com ele, quem sabe.

Seria o máximo, um médico que visite o orfanato pelo menos três vezes por semana já seria alguma coisa.  Dentista, esse ficaria louco com as bocas que temos.

Bradford, vinha empurrando a cadeira de rodas do Jesse, sabem da maior, ele me disse que escreve história, as desenha ao mesmo tempo, vamos recolher uma em sua mochila, verdade amigo.  Bradford tinha uma facilidade incrível para falar com as pessoas, se relacionava bem com todo mundo.  Os escritores eram capazes de lhe contar as coisas mais intimas, para ele, mas tinha uma vantagem, nunca comentava nada com ninguém.

Voltaram, sentou-se ao lado deles, começou a ver um caderno. Sua cara era de concentração total, isso se sabia quando tinha alguma coisa que lhe interessava.

Mas essa historia precisa de  continuação.   Jesse rindo bateu na sua cabeça, disse que estava tudo ali, mas que seu caderno tinha terminado.   Teria que esperar quando sobrasse algum no orfanato para ele desenhar.

Bradford passou o caderno para o Henry, dê uma olhada, isso seria genial, para atingirmos um publico jovem.   Quanto anos tens Jesse?

Sou velho tenho 12 anos, mas nunca ninguém quer me adotar.

Vou deixar você aqui com o pessoal, já volto.  O viram falando com um jovem dali, saíram rapidamente, em que vai se meter esse perguntou o Henry.

Segunda-feira, tenho a manha livre, Duke, podemos ir no orfanato, fazer uma lista do que precisam para pedir ao nosso amigo rico.

Jesse ficou ali ao seu lado, o senhor gostou do que eu faço.  

Sim muito, mas se o Bradford gostou eu tenho certeza de que serás bom com esse livro.

Daqui a pouco o Bradford, apareceu com um pacote, cheio de cadernos, lápis, lápis de cor, tudo para ele, o garoto, chorou de emoção, agradeceu muito.   Prometo colocar tudo que tenho na cabeça nessa história, agora já de brincadeira perguntou, com final feliz como nos filmes, ou a realidade.

Bradford muito sério respondeu, a realidade é o que faz as pessoas enfrentando a vida.

Bradford, lhe arrastou Henry pela manga, não conheces nenhum amigo teu médico, que seja especialista em problemas de coluna?

Espera, tenho um amigo que é uma enciclopédia, em se tratando da profissão dos amigos, me deixa perguntar para ele.

Estavam comendo a sobremesa, quando seu celular tocou,  falou com a pessoa, fez sinal positivo para o Henry.  Essa agora vai ser difícil, me fez lembrar que tive um romance com um médico, só que estraguei tudo, no dia seguinte sai de fininho, o sujeito não gostou, mas mesmo assim vou falar com ele.

No caminho de volta, ele perguntou ao Duke, em que pé estavam a venda das joias.

Bom mandei avaliar na Soteby’s, me deram o valor, a colocaram para venda dentro de pouco.

Qual o valor mais ou menos, daria para montar um ambulatório no orfanato?

Daria inclusive para pagar durante muito tempo um médico, enfermeira além do dentista, isso tenho certeza. 

Vamos fazer o seguinte, tiramos isso do dinheiro que está no banco, depois repomos com a venda.  Quando chegou em casa, disse foi ótimo reencontrar a irmã Giovi, minha mãe tinha verdadeira paixão por ela, quando alguém falava que não tinha filhos, ela dizia que devia visitar a irmã Giovi.

Quando você foi embora, eu fiquei chateado, para não dizer deprimido, um dia estava sentado no jardim, agora não tinha com quem jogar, quando uma senhora linda, apareceu, se sentou ao meu lado começou a conversar comigo, perguntar o que eu gostava, acabou virando minha mãe, os dois gostávamos de livros, isso foi o fio que nos uniu.

Então sentiste falta de mim?

Sempre, durante muitos anos, conversei contigo no meu quarto, arrumei um boneco, então parecia que estava falando com ele, mas na verdade estava jogando contigo.

Alias meu primeiro namorado se parecia contigo.

Caralho vou ficar com ciúmes, não preferes um ao vivo.

Estavam no elevador quando falavam nisso, ficaram um olhando ao outro, quando o elevador, chegou no andar que ele morava.

Entras, tinha trazido algumas sobras da festa, cortesia da mãe do Duke. 

Vou deixar essas coisas na cozinha, depois me piro, estava arrependido de ter falado dos seus sentimentos.  Mas desde que tinham se encontrado, tinha começado a amar seu amigo de infância, sabia que ele estava num momento complicado, podia não ser bom momento.

Estava distraído, quando Henry, o cercou, continuamos com nossa conversa. Mas já o beijando, fique comigo essa noite.

Posso ficar Henry, mas temos que pensar seriamente nisso, não sou uma pessoa de aventuras, quero que tenhas  certeza de que me queres em tua vida.          Não quero ter que sair de fininho amanhã, por isso é melhor pensar muito antes de tomar qualquer caminho. Pode estragar tudo que estamos construindo.

Se sentaram na sala, Henry sorriu tristemente, é que estas sempre presente em minha vida, mas tens razão ainda não sei o que quero, tudo isso me deixou confuso, posso estar misturando as estações, mas adorei beijar-te.

Duke foi embora, depois de abraçar o seu amigo, saiu excitado do apartamento, mas ele era assim, talvez por isso estava sozinho, era muito sério.

O namorado que tinha durado mais tempo, disse que ele apesar de jovem, parecia um velho, ele entendia isso, mas tinha como modelo o relacionamento de seus pais, acreditava num amor duradouro.  Queria isso para ele.

Sabia que nesse momento representaria a tabua de salvação de Henry, isso seria horrível, ter alguém dependente dele.

Parou o carro estava confuso com seu próprio antagonismo.    Será que amor justamente não era isso, apoiar alguém a quem amava.   Mas claro iria ter sempre a dúvida que a recíproca era verdadeira.   Conhecia muita gente que rompia com uma pessoa, simplesmente a substituía por outra, mas não resolvia seus problemas.

Preferia preservar a amizade que tinha por ele a criar barreiras.   Tinha uma nova oportunidade em sua vida, queria aproveitar.

Quando chegou em casa telefonou para Henry, pediu desculpas de ter saído de fininho, falou tudo o que tinha pensado.   Henry concordou, creio que isso iria acontecer, também prefiro ir devagar.   Estou aqui trabalhando, estou com o livro do garoto na cabeça.  Pode ser interessante como pensou o Bradford, estarmos abertos a coisas novas.

Segunda-feira foram ao orfanato, conversaram com a chefa de todas, bem como a irmã Giovi, afinal era ela o elo deles com tudo.

Vamos trazer um engenheiro ou arquiteto, temos que ver um espaço disponível, para fazer a clínica ou como se chame, vamos contratar um  médico, uma ajudante, além do dentista, assim os garotos ficam cobertos.  Já falei com minha secretária, ela é excelente resolvendo os problemas.

Quanto ao Jesse, Bradford, esta localizando um especialista para examina-lo, a fundação de dirigimos, cuidara dos gastos todos. Ok

Ah se todos que saíram daqui fossem iguais a vocês.   Eles sabiam que isso era um mantra que elas usavam com todos que ajudavam.  Mas dava igual.

Jesse, lhes entregou mais um caderno para passarem para o Bradford, agora ele tinha cores para colocar no desenho, seguia desenvolvendo a história com texto, que completavam o desenho.

Quando chegaram no escritório, Marie, ria, essa historia dos cartazes nos cursos de escritura criativa, tiveram efeito, olha a mesa do centro.   Tem um rapaz te esperando, na sala de reuniões, disse que você o conhece.

Era um dos sobrinhos do Richard, que ele tinha conhecido num encontro na rua.  Se via que estava nervoso.    Lhe apertou a mão, desculpe, mas não me lembro seu nome,  Robert Brakstone, mas todo mundo me conhece por Bob Brak.

Ninguém sabe que estou aqui, mas queria conversar contigo, estou fazendo um curso escondido da minha família, vi o cartaz, quando cheguei aqui para trazer o texto que escrevi, imaginei que você esta fazendo algo teu.   Gostaria de saber se eu poderia trabalhar aqui em alguma coisa, não suporto essa vida vazia que leva minha família.  Estou terminando a faculdade de filologia, fazendo esse curso ao mesmo tempo.   Escrevo desde criança.

No momento, estamos abrindo para tudo, vou te passar para meu braço direito, não diga quem es, se apresente somente com esse nome, Bob Brak, explique que gostarias de trabalhar, não fale nada a respeito de tua família ok.

Fique aqui, já o vou trazer para conversar contigo. Vá até a mesa, busque teu texto, assim mostra para ele.

Voltou com o Bradford, lhe apresentou o rapaz, este estendeu a mão muito tímido, começaram a conversar, ele foi para sua mesa.   Como sempre que mergulhava em alguma coisa, estava ali analisando, tudo que queriam fazer, tinha marcado um encontro com um grupo de representantes de livrarias, queria apresentar as ideias deles, sabia que o melhor que fazia era deixar Bradford expor a questão, desenvolver a ideia, ele era ótimo nisso, ele faria a abertura, passaria para ele desenvolver a ideia.

Viu que ele saia da sala, que o rapaz sorria feliz, lhe abanou a mão, o escutou dizer, amanhã as 9 esteja aqui, aquela mesa pode ser tua.   Era uma mesa ao lado dele.

Veio até a sua mesa, disse, está cru, mas tem uma vantagem, é aberto, conhece literatura profundamente, parece que passou sua vida inteira fechado num quarto lendo.  Vamos ver se o posso doutrinar.  Lhe dei o primeiro caderno do garoto para ele, achou sensacional, inclusive sugeriu como podemos editar.  Gostei da ideia.

Olhe, te mandou outro, disse que já tem o terceiro em execução.   Falaste com o médico?

Me chamou de filho da puta para baixo, lhe expliquei a situação, me disse que o levasse até lá, amanhã, tens o telefone do orfanato, para falar com a irmã, estou literalmente vidrado com a cabeça desse garoto.   Ficou rindo, o mais interessante, que o Médico, é uma pessoa que ficou na minha cabeça, mas naquele momento, não estava preparado, seria como substituir um namorado por outro, preferi guardar distância, devia ter dito isso a ele.                      Saia de um relacionamento daqueles que pensas que a pessoa te quer, mas nada, achava que eu tinha dinheiro, quando descobriu que eu apesar do meu nome era um pobre assalariado, caiu fora.

Veio depois contar que estava tudo combinado, amanhã, deixarei que Marie explique ao Bob, como trabalhar, tem muito texto para ler.   Terei que arrumar mais uma pessoa.

Marie antes de sair, lhe mostrou a mesa, estou fazendo uma coisa, terei que contratar uma pessoa, para fazer isso, receber o texto, criar no computador um número com os dados do autor, todo inerente.

Mas como o Bradford, prefiro uma pessoa sem experiencia a quem eu possa ensinar como quero que trabalhe. Achas que estou certa?

Marie, o departamento é teu, faça como achar melhor, sabe aquele chefe chato que tinha, acho que desapareceu no mapa.

Foi para casa, sabia que Duke tinha estado trabalhando, mas não tinham conversado, ele tinha saído para resolver coisas com o advogado, não tinha voltado.

Em casa tomou um banho, estava lendo um texto de um bom escritor, já tinha editado dois livros dele, esse estava difícil de se concentrar, era daqueles, que as vezes é difícil passar da 10 página, pois o começo é descritivo demais.  Anotou de chama-lo para conhecer a nova editora, falar com ele para revisar isso.   Acreditava que seus livros anteriores era mais interessantes, devia estar com crise de criatividade.  Tinha assinado um contrato com a editora anterior, que o obrigava a ter um livro por ano.   Achava isso uma merda, já tinham conversado a respeito, podia ser que estivessem errado, que o seguinte, outra editora se interessasse antes, mas era um risco a correr, porque normalmente o segundo livro, sempre era uma merda.

Estava anotando uma série de coisas, quando chamaram na porta, era seu fiel escudeiro Duke, não te vi a tarde inteira.

Estive com esse puto advogado, ele quer me forçar a vender a mansão para a família, por um preço baixo, o escutei bem, mas lhe disse na cara, que já estava em mãos de uma imobiliária, pedi as chaves da mansão me disse que estava com a família. Que estavam fazendo um inventario da casa.

Ele não sabia que eu era policial, lhe disse que ia acionar a polícia rapidamente, fui com ela até lá expulsei todo mundo, estavam separando coisas para levar. Fechei a casa, peguei a chave, o que estava comandando a família é um idiota, queria dar dinheiro a polícia para fazer vista gorda.

Mandei lacrar todas as portas, para não levarem nada.

Já comeste alguma coisa?    Eu estou morto de fome, que tal sairmos para jantar, acabo de ler o começo de um livro maçante, um bom escritor, creio que tem problema do famoso segundo livro.  

Pegou uma jaqueta, foram saindo, conversando, o levou a um restaurante que as vezes ia jantar com os amigos.   Estes estavam lá.  Os apresentou ao Duke, contou que no meio da confusão toda tinha encontrado um amigo da infância dele.   Estamos colocando as notícias em dia, outro dia comemos juntos.

Um deles soltou, não é porque agora estas milionário, que vai esquecer dos teus amigos não é.

Respondeu, desculpa, mas sou um milionário que trabalha muito.

Sentaram-se numa mesa ao fundo do restaurante, lhe contou a mania que tinha, com isso, ficaram rindo.

Bom voltando ao assunto que estava falando, temos que pensar no que já conversamos a respeito dos contratos, sei que alguns escritores ficam ansiosos por estes contratos, pois dependem do adiantamento que a editora possa lhe dar, para aguentar mais um ano só escrevendo,   creio que devemos analisar os casos.               Pois a maioria acaba como este, não consegue seguir em frente, pior, as editoras publicam um segundo livro que normalmente é um fracasso.

Ele ia anotando o que ele ia falando, enquanto comiam.   Do grupo de amigos, um deles era o mais próximo a ele, veio se despedir, desculpa o comentário, foi fora de lugar.

Apertou a mão do Duke, ficou olhando para ele, já sei quem eres, uma vez a muito tempo atrás nos conhecemos num cinema.  Estivemos juntos, mas quando me dei conta tinhas desaparecido.

Sim é verdade, não foi um bom momento.

Eu entendo, as vezes acontece comigo o mesmo, esperamos uma coisa, a pessoa vai em outra direção.    Mas se eres amigo do Henry, desde infância, sinal que deves ser uma pessoa boa.

Nos vemos por aí.

Uau, descobrindo o lado escuro do meu amigo Duke.

Na verdade, não aconteceu nada, nos conhecemos no cinema, começamos a comentar o filme, saímos para tomar uma cerveja, quando ele foi ao banheiro eu fui embora, como ele mesmo disse não era o momento, estava chateado com uma série de coisas.

Caramba, as vezes te vejo fechado demais em ti mesmo, nunca colocas para fora teus sentimentos.

Só contigo consigo falar, o que aconteceu, foi que estava estudando direito, conheci um rapaz que não me era estranho, estivemos juntos umas quantas vezes, depois fui descobrir que era namorado de uma sobrinha de minha mãe, mas ele sabia quem eu era.

Me colocou numa situação difícil, pois numa festa na casa dos meus pais, apareceu com ele, quis fazer sexo no meu quarto. Isso lhe excitava.  O mandei a merda.  Ameaçou contar para ela, eu saí na frente, contei tudo a ela, ficou furiosa, explodiu na frente de todo mundo.   Por isso a festa lá em casa não tinha tanta gente, são preconceituosos, imagina um chicano fazendo sexo com outro homem.

Saíram caminhando, falando dos fracassos sentimentais de cada um, como se isso fosse uma maneira de se conhecerem.

Porque não vens viver aqui comigo, tem um quarto, o que era meu, já dormiste nele outro dia, assim evita de ires para tão longe.

Não quero ver você trazer outra pessoa para casa, isso acabaria comigo, não estou preparado para encarar que tens direito a recomeçar a vida com qualquer pessoa.

Acho que me entendeste mal outro dia, realmente queria fazer sexo contigo, não como tabua de salvação, mas por medo de te perder outra vez.

Mas respeito tua decisão, vamos ir devagar ok.  Contou o do Bradford, que ia levar o garoto junto com a irmã Giovi ao médico no dia seguinte.   Precisamos ver como vamos fazer com o ambulatório.

Ah como tenho as chaves inclusive da casa de Los Hamptons, o da imobiliária diz que lá é fácil de vender.   Nunca foste até lá?

Não, porque sabia como eram essas festas, depois meu casamento com ele já estava acabado, não queria ver o pior.

Pode ser que me arrependa, mas não gosto desses lugares assim, em que as pessoas estão fazendo pose o tempo todo.

Duke riu dizendo que uma vez tinha ido com um namorado, a Fire Island, me dei mal, encontrei um conhecido da academia de polícia.   Mas gosto mais dali, tem umas casas fantásticas, eu aproveitei muito a praia.

Eu imagino, ficaste se exibindo para todo mundo, dizia isso rindo, se tivéssemos alguma coisa, eu ia te prender nos pés da cama.

Se despediram como sempre, amanhã nos vemos no escritório.

Subiu pensando nisso, realmente no outro dia, tinha vontade de fazer sexo com ele, mas havia que esperar para não ser só uma noite, disse para si mesmo, foste com pressa com o Richard olha o que aconteceu.

Era uma verdade, tinha sido tudo por instinto, se parasse para pensar, não tinham nada em comum, a não ser o sexo.    Quando o resto foi posto a prova, ele preferiu defender sua vida, do que o relacionamento de sexo.

Eu também tenho culpa do relacionamento não ter dado certo, eu sempre tão metido no meu trabalho, não percebi que ele talvez necessitasse de atenção.   Não vi os indícios que ele estava de novo nas drogas.

Foi olhar a gaveta que ele usava no banheiro, encontrou um plástico com cocaína, jogou rapidamente na privada, além de dois cigarros de Canabis, disse merda, aproveitou tirou tudo da gaveta, colocou numa bolsa, para colocar no lixo.  Encontrou uma caixa no fundo, com um anel, muito masculino.   Olhou dentro, era uma joia de família, a daria ao Bob, assim ele teria uma coisa do tio.  Mas ao colocar a gaveta outra vez para dentro não entrava, a retirou completamente, embaixo tinha mais cocaína, presa com fita adesiva.  Filho da puta, imaginou a polícia entrando na sua casa, examinando isso.         Deu uma olhada na outra gaveta, examinou todo o banheiro, bem como um troço do armário que ele usava.          Quando ele tinha estado a última vez, tinha levado suas coisas dali.  Que lastima pensou, precisar disso para viver, para ter emoções.      Será que tinha feito sexo com ele, com a cabeça cheia de cocaína, as últimas vezes, as vezes era agressivo.   Jogou tudo na privada, deu uma boa descarga, repetiu várias vezes.

Foi para cama, furioso, mas estava cansado, desmaiou afinal.   Não foi uma noite agradável, sim cheia de pesadelos, principalmente se lembrando das últimas vezes que tinha estado juntos, a ânsia que ele tinha de sexo.     Queria sempre mais, ele achava que era porque o amava, agora sabia que era por vicio.   Despertou molhado de suor, tomou um banho, abriu a janela, ficou olhando a noite.  Como fui tão idiota pensou.

No dia seguinte, Bob Brak, apareceu com uma cara de fazer gosto, num primeiro momento hesitou em entrar, desculpe, fiquei sabendo o que aconteceu ontem, meu pai, sempre o primeiro em criar confusões.          Discuti com ele, acabei indo dormir na casa de um colega de faculdade.     Ainda me soltou na cara, que sou um viado como meu tio, louco por um caralho no cu, desculpe, mas nunca me senti tão ofendido com tudo isso.  Vou arrumar um lugar pequeno para morar, não suporto mais a família.   

Vamos te ajudar, olha ontem encontrei esse anel, devia ser de teu tio, porque não ficas com ele, até podes vender, para arrumar o apartamento. Se precisas de dinheiro, posso te adiantar alguma coisa. 

Meu amigo disse que posso ficar uns dias com ele, pois seu companheiro está viajando, mas vou ver se vale muito esse anel, pode ser que o use para isso.

Foi almoçar com Duke, Marie,  Bradford chegou justo quando iam pedir a comida, tinha um sorriso na cara.    Há possibilidades, o meu conhecido vai completar todos os exames, ele ficou no hospital com a irmã Giovi, depois voltarei até lá para lhe levar cadernos, lápis.               Estou literalmente encantado com esse garoto, era o filho que gostaria de ter. 

Não seja por isso, pense em adota-lo.

Tenho medo, de não ser um bom pai, imagina fui um filho da puta a vida inteira, não tenho boas coisas para ensinar a uma criança.

Deixe de besteira homem, soltou Duke, garanto que serias um pai fenomenal.

Quando saíram do restaurante, deram uma corrida até o hospital que não estava longe, Jesse, sorriu de orelha a orelha, estava feliz, ele foi com Duke, além do Bradford falar com o médico, disse que se responsabilizava por todas as despesas.

O médico sorria, ok, mas tenho que agradecer ao garoto, fez certa pessoa que foge no meio da noite, voltar.

Foram trabalhar, Bradford avisou que ia sair mais cedo, para ir em casa, tomar um banho, trocar de roupa para ficar no hospital com o garoto.  Assim a irmã pode descansar também.

Bradford, no dia seguinte confessou que nunca tinha se imaginado fazendo isso, ficar cuidando de alguém, o bom foi que o médico apareceu antes de ir embora, conversamos mais.

Os exames são positivos, fiquei sabendo da historia real dele, é uma lastima.  Nos primeiros meses terá que fazer fisioterapia no hospital, mas pode ficar em minha casa.

Ele ria da cara dele, fale com a irmã que queres adotar, afinal não eres um homem de ir pelas discotecas todas as noites, não te metes em drogas nada no gênero.

Converse com a Marie, ela sempre tem uma cabeça ótima para isso.   Outra coisa  como vai o Bob Brak?

Olha excelente aquisição, entendeu como é o trabalho, me apresentou uma análise de um texto que deixei para ele dar uma olhada, vou te passar?

Falar em texto, comentou do autor, que tinha lido na noite anterior,  creio que está com a síndrome do segundo livro.                    Deixei o mesmo na tua mesa, para dares uma olhada, ok

Pegou o texto que o Bob tinha analisado, foi vendo suas anotações, para um jovem até que tinha uma cabeça madura.   Olhou os dados da pessoa que tinha escrito, era um rapaz de 16 anos,  levou o texto para casa, leu, concordou com todas as anotações do Bob, tinha um bom olho.

No dia seguinte, chamou o Bradford, achei interessante, a partir que é de um rapaz de 16, anos, vamos fazer uma experiencia, manda ele chamar o rapaz,  vamos ver como ele conversa com o mesmo, tu o orientas como tem que ser a coisa.

Como vai o livro do Jesse, dormiste a noite no hospital.  O operam hoje no final do dia, quero estar lá, ok.

Sim eu irei na hora que saia daqui, creio que o Duke também.  No dia anterior não tinham estados juntos. 

Na hora do almoço, Bob veio falar com ele, mandei avaliar o anel, vale uma fortuna, não posso ficar com ele, eles vão descobrir, porque o joalheiro é conhecido da família, se isso chega na rua, vai dar no que falar.

Quer ver uma coisa, me diga aonde é o joalheiro, me dê a caixa do anel, vou lá tento vender, para saber o que ele diz.

Ficas aqui no restaurante, depois volto.  Entrou na joalheria, explicou quem era, meu marido me deu esse anel de presente, mas eu não uso joias, gostaria de vender, queria uma avaliação, bem como vender o mesmo.    Acha que tem algum problema?

Não, sei que o senhor é seu viúvo, portanto natural que esteja em seu poder o mesmo, se ele lhe deu de presente mais ainda.   Consultou, disse o valor, que era muito superior ao que quem tinha avaliado para o rapaz tinha dito.

Podemos fazer duas coisas, eu posso desmontar a peça, lhe compro o diamante que esta nela, que vale, disse um valor superior.

Muito bem, pode me dar um recibo disso,  com o ouro do anel o senhor pode fazer uma cruz?

Simples sem muito exagero ok.   O valor da pedra o senhor deposita na minha conta, lhe deu o número da conta.   Saiu sorrindo do joalheiro, atravessou a rua, sentou-se no restaurante com o Bob, estas rico garoto, lhe estendeu a nota do homem, ele vai depositar na minha conta, assim não te envolve. Comprou a pedra de volta, vai fazer uma cruz com o ouro.  Mas tudo será teu, depois te dou um cheque, tens conta num banco?

Não, antes tinha do meu pai, um cartão de crédito com um limite para gastar, mas ele suspendeu quando sai de casa, como uma maneira de me forçar a voltar.  

Fales com a Marie, no final do mês terão que te depositar dinheiro do teu salário, abra uma conta com esse cheque, mas aprenda a administrar esse dinheiro, pode render bastante, busque um apartamento jeitoso para uma pessoa.    Marie é a pessoa indicada, diga que procuras um apartamento pequeno para viver, ela vai conseguir, sempre consegue tudo.

Por que estás me ajudando assim?

Teu tio, reclamava da família, de como tinha sido criado, mas não fez nada para escapar dela, construir sua vida, talvez nos dois anos que viveu comigo sim, mas fora isso não.  Tudo isso o destruiu, acredito que queres outra vida, pelo menos me disseste isso. 

Bradford me mandou chamar o rapaz do livro que revisei, diz que tenho que conversar com ele, nem sei com vou fazer.  Não se preocupe, li o texto, bem como tuas anotações, esse foi meu serviço durante anos, ainda o faço.  Converse normalmente com ele, faça as sugestões que fizeste nas anotações, tire uma cópia de tudo antes, assim marque um dia com ele, para ir revisando o texto inteiro.   Use a sala de reuniões para isso, avise somente a Marie, dos horários. Ok.

As lagrimas corriam na sua cara, obrigado por acreditar em mim, me ajudar, tentarei me manter o mais escondido possível, da família.   Sei que me procuraram na universidade, mas lá estou de férias.  Não conhecem meu amigo.   Por enquanto estou livre deles.  

Não sentes falta da família?

Não, sempre foram frios comigo, dizem que sou o tonto da família, porque sempre fiquei na minha, odeio as festas que fazem.  Tudo é uma grande falsidade.

Bom um dia escreva sobre isso, quando estiveres bem longe, com uma nova vida, desde outra perspectiva.

Entraram juntos no escritório,  Bradford avisou que o autor do livro estava ali, devolvi o texto a tua mesa, está na sala de reuniões te esperando, quer falar contigo.

Nada disso, venha junto comigo, Bob, venha para aprender.

Falou com o escritor amavelmente, como vão as coisas? As conversas protocolarias. Lhe serviu água pois notou que estava nervoso.  Ainda tens o contrato com a editora antiga?  Pagaram adiantamento por esse livro?

Sim, me pagaram, mas devolvi, pois queria ficar livre da pressão.

Estas com a famosa síndrome do segundo livro, não é verdade.  Vou ser honesto, não consegui passar da 10 primeiras páginas, parece um manual de como descrever uma paisagem.  A ação é monótona.  Sabes que se não cativas o leitor nas dez primeiras páginas, fudeu.   Não vai ler o resto, ainda vai falar mal do livro.

Portanto, acho que devias, com calma, tentar analisar o livro, se quiseres, o Bob é excelente nisso, darei para ele ler o livro.

Mas ele é uma criança, não vai entender do assunto?

Talvez isso seja uma vantagem, tens que pensar que os velhos morrem, não compram livros, um jovem sim.  Acho que tua linguagem, do primeiro para este ficou de uma pessoa amarga, talvez por isso a obrigação de escrever um livro que faça tanto sucesso como o primeiro.

O que achas, queres tentar?

Ele ficou olhando para o Bob, soltou de repente, queres ajudar esse velho ranzinza, que odeia que o critiquem?

Bob deu um sorriso maravilhoso, ninguém gosta de ser criticado, principalmente por uma ideia ou pelo que escreveu, lhe prometo, analisar aonde está o problema, podemos discutir as ideias. Eu tenho um tempo agora, leio as dez primeiras páginas, conforme minhas anotações, em seguida falamos.

Viu que ele lia, rápido, ao mesmo tempo que ia anotando coisas numa folha de papel, não no texto como alguns faziam.

O deixaram falando com o escritor, foram trabalhar, este saiu com um sorriso na cara, esse menino vai longe disse ao Bradford.

A cara do Bob, era melhor, nem acredito que fui capaz de fazer isso, analisar, basicamente cada palavra das dez primeira páginas.

Diz que vai rever tudo, marcara para falar comigo.  Ufa.

Bradford, disse a queima roupa, estas roubando o meu emprego, vou te denunciar ao chefe, se matou de rir, sempre tive vontade de dizer isso,   diga a Marie que teu contrato é definitivo. Mas amanha tens a prova com o rapaz.

Saíram do escritório, foram para o hospital, ali na sala de espera estava Bradford, a irmã Giovi a superiora, tranquilamente rezando o terço.  

Uma hora depois o médico saiu, piscou o olho para o Bradford, disse que a operação tinha saído bem, agora a fisioterapia será importante. Ficara um mês aqui no hospital, depois terá que andar um tempo com um bastão, mas creio que em breve estará correndo.

A superiora, ficou nervosa, não temos dinheiro para pagar o hospital, nem a fisioterapia?

Já esta paga senhora, não se preocupe, quem tem amigos, tem Deus do seu lado.

Mas quem pagou tudo isso?

Segredo de estado, o médico era como o Bradford, tinha humor, realmente se voltassem a se conhecer daria certo.

Deu um cutucão no Bradford,  ele ficou vermelho, a senhora acha que eu posso o adotar?

Claro que sim.

É que sou gay? Tenho medo de que me neguem isso.

Deixa comigo soltou a irmã Giovi. Eu sempre resolvo qualquer problema. 

Posso ir ver o garoto doutor, pediu ele. 

Sim, já que serás o pai, creio que vou ser o tio. Venha comigo.

A preocupação do Bradford era que como ia ficar com o garoto esse tempo, tenho que trabalhar, conversava isso com o Jules o médico, estavam em seu consultório sentados frente a frente.

Primeiro me responda uma pergunta.    Por que fugiste de mim?

Embora sendo só uma noite, gostei de ti, mas vinha de um relacionamento que foi uma merda, me deu medo, sai de fininho, mas nunca te esqueci.  Descobri que tinha que ficar sozinho para resolver o problema.  Me fechei, até hoje, agora já levo uma vida discreta, aonde o trabalho impera, conheço muita gente essa é a verdade, mas amigos só tenho o Henry, Marie, agora o Duke com quem se pode falar de tudo.

Eu tampouco esqueci de ti, fiquei frustrado por teres fugido, quando perguntava por ti, diziam que tinhas desaparecido do mercado.   Uma vez fui até a editora que trabalhavas, estavas furioso com alguma coisa, discutia com um homem.   Com o dedo apontava a porta da rua.

Ele começou a rir, justamente a pessoa que me causou problemas, era um escritor medíocre, acreditou que se eu me apaixonasse por ele, arriscaria publicar seu livro, quando eu disse que lhe faltava muito, aprontou um escândalo, ameaçando contar a todo mundo que eu era Gay, tive que rir, pois todo mundo sabia.   Não tenho família com que me preocupar quanto a isso.

Tai, talvez seja a solução, minha mãe veio viver comigo, agora que ficou viúva, lhe falta ocupação, vou traze-la para conhecer o Jesse, pode ser que gostem um do outro.   Mas só farei isso se me das um beijo.  Quando viram estavam no chão do consultório.

Ficaram rindo, não tem jeito, não é?

Sim melhor parar de fugir.

A entrevista do Bob com o rapaz foi excelente, ao fundo da grande mesa se sentaram Henry com Bradford, na outra ponta estavam os dois jovens conversando,   Bob, foi mostrando os pontos aonde o livro fugia pelas ramas.   Quando tocou num assunto do terceiro capítulo, viu que o rapaz ficava tenso.    Aqui falas de amor não correspondido do personagem, mas nos capítulos anteriores ele não fala de romance com ninguém.  Creio que aqui falavas de ti mesmo, não podes confundir o personagem contigo.

A cara do outro era ótima, não pensei que as pessoas fossem descobrir isso, talvez tenha usado nesse momento minha frustação para falar disso.  Se queres manter isso, tens que no capítulo anterior falar dessa paixão por alguém.   Veja, somos jovens, creio que passaremos por muitas  desilusões amorosas, principalmente por não termos prática no assunto.  Tens duas opções ou mudas o capítulo, ou inventas algo no capítulo posterior, no seguinte, tampouco mencionas essa ruptura.  Creio que deverias pensar nesse capítulo do livro.   Podemos encontrar a solução juntos, o que te parece,  disponho de uma hora, para começarmos.  Ficaram se olhando, o rapaz soltou, mãos à obra.

Henry e Bradford, saíram de fininho, para trabalharem em outras coisas.

Duke veio falar com ele, disse que já tinha a casa de Los Hamptons vendida, o problema era a mansão.  Um grupo imobiliário queria comprar, para demolir, construir um prédio. Mandei verificarem com a prefeitura se podiam fazer isso. 

Mande uma pessoa verificar tudo que tem de valor naquela casa, mande vender.

Não se preocupe, já fiz isso.  Ali, quase tudo é cópia de alguma coisa, como se o importante fosse gastar dinheiro.

Meus pais te convidaram para almoçar no sábado em casa, tens algum compromisso?

Nenhum, gostaria de ir, pois me senti muito bem lá, de uma certa maneira te invejo, ter alguém que se preocupe por ti.

Eles estão com muita idade, por isso nunca os deixo sozinhos.

A mim me deixaste sozinho todos esses dias?

Tinha que me afastar um pouco para analisar meus sentimentos, perto de ti, fico confuso, quero fazer muita coisa ao mesmo tempo.

Estás feliz aqui trabalhando?

Sim, muito, tenho que resolver se continuo, para pedir primeiro uma licença sem remuneração da polícia, depois a demissão.

Acho bem, tens uma cabeça privilegiada.   Mas não te afaste muito, eu tenho pensado como tu no nosso relacionamento.   Quero experimentar.

Me pegas de surpresa, ia dizer a mesma coisa.

Nessa noite ficaram conversando, até tarde, quando viram estavam na cama, nus, se sentiam bem assim. Mas não fizeram sexo.

Em breve teriam três livros para lançar, fizeram então uma reunião, com as principais livrarias, distribuidores, os convidaram para um coquetel,  primeiro falou Henry, que passou a palavra para Bradford, esse foi explicando o conceito que queriam desenvolver,  que era arriscado, uma nova linguagem para atrair os jovens.  Mostrou um vídeo do Jesse, trabalhando seu livro, um jovem de pouca idade, mas com um conceito próprio para contar uma história.

Depois o velho, conversando com o Bob, procurando uma nova linguagem, para seu livro, atualizar em um contexto novo, a sociedade muda muito rapidamente.  O terceiro de novo o Bob, conversando com o rapaz, montando o final do livro.

Como vêm de simples leitor, esse rapaz jovem passou a editor, tem um conceito muito próprio do trabalho, uma nova safra vem por aí, como se fosse uma onda nova, temos que subir na nossa velha prancha de surf para segui-los.

Iam sendo colocados na frente de cada um embrulho com os três livros, tudo tinha sido muito bem pensado, desde a capa, tipo de letra, um conceito novo.

Os preços, estava apertados, pois Duke, tinha negociado com os impressores ao máximo.

Numa mesa, Marie, tomava  junto com Duke, nota dos pedidos, os distribuidores, queriam levar para o resto do pais a ideia.      Podemos trabalhar em cima dos vídeos para enviar uma amostra para as principais livrarias.  Todos pareciam gostar da ideia dos vídeos.

Finalmente saiam com lucros do investimento.

Já estavam trabalhando os outros textos, Bob apareceu com um na mão na reunião que tiveram, essa escritora, é justamente a professora com quem fiz o curso.  Antes fui verificar quem era, ela editou um livro a muitos anos atrás, depois sumiu do mapa.

Esse agora é interessante, mas algo me perturba, é como se já tivesse visto algo parecido.

Me lembro do livro dela, eu me recusei a publica-lo por ser muito complicado à primeira vista, tive que ler pelo menos duas vezes para entender.   Quem acabou publicando foi outra editora.

Posso tomar informações a respeito.  Tire uma cópia para mim do texto lhe pediu Henry.

Nessa noite sentou-se para ler, ele tinha uma memória prodígio para isso, leu uma passagem, veio na cabeça de quem era o texto.  Ela na verdade citava vários grandes autores, embora não disse de quem era o original, usava essas citações para contar uma história.

Não sabia se isso era valido,  teria que consultar o Duke.    Por ele, teriam uma anotação dizendo de quem era a frase original.

Quem a chamou foi ele, pois se tinha sido professora do Bob, isso seria complicado.

Conversaram sobre isso, imediatamente se colocou em defesa, mas ele estava ali com todos os livros citados em volta.   Talvez ao ler esses livros, essas frases ficaram na tua cabeça, isso é normal, mas se escreves a partir disso tua historia há que mencionar o fato, dizer quem é o dono da frase.

Isso não quero, pois os leitores podem entender que o resto do texto é uma cópia de uma das ideias.

Consultei nosso advogado, disse que isso pode virar um grande problema, pois a editoras donas desses textos podem reclamar.   Como está não podemos editar.

Ela se levantou, pegou o texto, foi embora.

No dia seguinte, Bob, veio lhe contar logo de manhã que tinha entrevistado um dos alunos, com um texto brilhante, que ela tinha dito em aula, que essa editorar não era boa.

Conversei com o rapaz a respeito do que aconteceu, disse que não mencionou nada.

O livro dele é interessante, mas do meio para o final, fica morno, falei com ele a respeito, disse que queria outra opinião, está na sala de reuniões, podes falar com ele.

Entrou, era um homem de uns trinta anos.  Olá, se apresentou, qual o problema?

Não quero que um rapaz de vinte e picos anos, análise meu livro, não foi escrito para jovens, quero atingir a faixa etária de  homens da minha idade.

Muito bem, pedirei ao Bradford que leia, ele te dirá alguma coisa a respeito.

Mas creio que erras, pois isso de escrever só para uma faixa etária, perde-se porque escrevemos para que os livros sejam sempre atuais, porque todas faixas etárias evoluem, os da minha idade a uma década atrás, pensavam de outra maneira, os que vem atrás, já vem com os problemas resolvidos.   Então estas escrevendo um livro efêmero, só servira para esta geração, para as próximas não servira.

Quanto ao Bob, ele acaba de editar um livro de um escritor, que já escreveu um livro de sucesso, mas reconheceu que sua linguagem não evoluiu, o jovem Bob como tu dizes, conseguiu que ele entendesse, atualizando sua linguagem num conceito mais amplo.

Acho que estas fechando uma porta antes de mais nada.  Gostaria que pensasse, de qualquer maneira passarei o livro para o Bradford, em seguida ele passara a mim, nos reuniremos os três para ver a que conclusão chegamos.

Se despediu cordialmente do homem.

Comentou com o Bob, acho esse homem um pouco tonto.            Fizeste aulas com ele na mesma turma?

Não, ele era de uma anterior a minha, mas vai sempre para assistir os debates.          Diz que não entendemos seu conceito.   O livro fala mais de conceitos de choques de gerações, isso sempre existiu, porque  como você disse, cada geração nova, já trás uma parte mastigada, é logico que considere a anterior ultrapassada.                           Não entende que o mundo muda cada vez mais rapidamente, que os conceitos também, se não estamos abertos, fica difícil.

Gostava de ver a maturidade do Bob, como ele funcionava, sua linha de pensamento.        Estava contente com ele.

Como vai no teu novo apartamento perguntou?

Uau, super bem, é como estar no paraíso, tem um parque em frente, sem muito ruído, é pequeno, mas me basta.

Fico contente contigo.

Ah, Marie me ensinou como administrar meu dinheiro, lá em casa ninguém pensa nisso, simplesmente gasta dinheiro, pois as empresas da família continuam gerando dinheiro.

Assim fica fácil, verdade?

Sim, mas para quem ficou confinado toda a vida, num quarto, para não participar, é duro, eu com uns 12 anos, tomei consciência que não queria ser como eles, ir pela vida como iam, as reuniões de família era um suplício,  creio que tio Richard se rebelou da maneira errada, tinha tudo para dar certo, mas deixou que as drogas governassem sua vida.  Olha como está o irmão, nem pode ser julgado, pois continua internado.   Não pense que os outros tem pena, pois como não pode gastar dinheiro, gastam eles.

Meu irmão mais velho, está indo pelo mesmo caminho, tentei falar com ele, é um tipo brilhante, mas largou a universidade, porque não gosta que o critiquem, como se ele fosse o dono da verdade.  Deixou tudo, esta a meses na Europa, frequentando festas.  Com certeza com muitas drogas.

De noite conversou com o Duke sobre isso, se para analisar, ficam dois contextos diferentes, um autor que só quer atingir uma faixa etária que acho que nem ele mesmo entende, do outro lado uma família disfuncional que acha que pode tudo.   Esse menino Bob, conseguiu escapar, mas como ele diz, Richard, tentou, mas se escorou no mais fácil.

É verdade Henry, os jovens que entram na droga, tem duas pontas, os pobres, que a vendem e consume vão presos, mas os ricos se livram facilmente.  Como existem mais pobres que ricos, o papel que representam os pobres sempre se multiplica.  Se um vai preso, logo tem outro para substitui-lo, é a máquina não para.

Agora namoravam todas as noites, existia paixão, mas também companheirismo, conversavam trocavam ideia, não era só sexo.

Um dia conversando com Bradford, via que este estava mais relaxado, dormia quase todas as noites no hospital com Jesse.  Comentou da recuperação.  Com Jules a coisa vai bem, durante o dia sua mãe fica com o Jesse, que considera como seu neto, outro dia ele soltou, para quem não tinha família, agora tinha uma completa.

Está escrevendo outra história, falando de sua própria recuperação, agora os desenhos são mais coloridos, diz que quer estudar belas artes mais tarde.

Como vai a adoção?

Complicada, pois sabemos que os pais verdadeiros existem, mas aonde não se sabe, primeiro porque Jesse não é seu nome verdadeiro, esse quem colocou foi a irmã Giovi, pois ele simplesmente estava jogado na porta do orfanato.   Inclusive pensaram que estava morto.

Ele era muito pequeno para se lembrar de alguma coisa, além é claro do trauma.

Mas por enquanto tenho a guarda dele.

As obras do ambulatório do Orfanato estão quase no final, falei com Jules, para conseguirmos um médico, ele se ofereceu para abrir mão de seu trabalho no hospital uma vez por semana, mas acredita que vai conseguir um que possa cuidar das crianças.

Estivemos olhando com o Duke, vamos começar a entrevistar pessoas.  Jules está participando nisso.

Indicou um médico especialista em administrar financeiramente um local, embora só se vai ter gastos, esses precisam ser administrado. Em breve as coisas estarão no seu devido lugar.

Vocês dois deviam pensar nisso, em ter uma família.

Nenhum dos dois disse nada, a respeito.

Ele leu o livro do sujeito, não gostou, era muito retórico, disse ao Bob que desistisse, esse é daqueles livros que ficam para os saldos, as pessoas compram, pelas primeiras dez páginas, depois se cansam da repetição.

Bradford foi da mesma opinião, se queres falamos como da outra vez os três com ele.  

Mas nunca mais voltou.  Tinham agora mais cinco livros para lançar.  A editora ia para frente, já tinham recolhido basicamente o investimento.

O verão estava no seu pico, foram passar um final de semana na casa de praia de Jules em Fire Island, com sua mãe incluída, ela conhecia todo mundo, na praia vinham todos falar com ela.

Foram olhar uma casa ao lado da dele, gostaram demais, estava a venda.  Teus pais não gostariam de vir?

Duke respondeu que achava que nunca tinham ido à praia.  Pediram para experimentar a casa, ele trouxe seus pais, se deram logo bem com a mãe de Jules, apesar da diferença social, era como velhos conhecidos, se sentavam na praia com o Jesse, que entrava na agua acompanhado do Bradford ou do Jules.   A mãe deste estava feliz, imagina, sempre me preocupou que meu filho ficasse velho sem companhia, mas esses dois conseguiram formar inclusive uma família, o que me deixa tranquila.

A mãe do Duke disse que poderia ficar vivendo naquela casa, era um sonho, talvez no inverno fosse mais frio, Henry comentou que as vezes nevava na praia, mas a casa tinha um sistema bom de calor, pois os antigos proprietários viviam ali o ano inteiro.

Acabaram comprando a casa, Duke estava feliz, disse um dia ao Henry, tenho medo de que essa felicidade acabe.  Não vejo por que, estamos bem um com o outro, isso é que importa.

Era uma verdade, iam agora aos finais de semana a casa de praia, os pais o recebiam felizes, conversavam, tomavam banhos de mar.  Melhor era impossível.

A editora ia bem, estavam trabalhando seriamente.   Ele criou uma fundação com o dinheiro todo do Richard, com seu nome, ia ajudando a quem precisava.  A Família nunca mais o procurou, mas apesar do nome da fundação, faziam tudo sem publicidade.

Bob um dia veio rindo contar, como tinha saído na televisão junto com um autor novo, falando de livros, de linguagem, que seu irmão mais velho o tinha contatado.

Estava tentando refazer sua vida mais uma vez.   O aconselhei a voltar a universidade, terminar o que tinha começado, levar a vida a sério, deixar as drogas, se ele não queria acabar como o Richard.

Me perguntou como eu podia viver sem o dinheiro do Fideicomisso, lhe disse, que por isso trabalhava, que isso tinha me salvado.   Mas não creio que ele se esforce muito para isso, queria ir a minha casa, mas marquei com ele num restaurante, chegou bêbado.  Simplesmente me levantei, fui embora, não disse nenhuma palavra.  Quando começou depois a se desculpar, disse que esse era o problema, a palavra desculpas normalmente é fácil de dizer, mas difícil de se acreditar, quando parece vazia.

Não disse nenhuma coisa a respeito de meus pais. Tampouco perguntei.

Tinham contratado um novo leitor, mas durou pouco, disse que era uma enxurrada de livros para ler.  Em seguida apareceu uma jovem, filha de japoneses, essa deu certo, se encaixou rapidamente no trabalho.

Definitivamente Bob era o mais jovem editor da empresa.

Se consolidaram, como uma editora de novos escritores, novas ideias, funcionava, bem como a fundação, conseguiam ajudar as pessoas, a clínica do orfanato funcionava, montaram uma outra num orfanato feminino.   La aconteceu o inevitável,  Duke se apaixonou por uma menina que estava lá, os dois acabaram adotando a mesma.  Passava claro a maior parte do tempo com os avós que babavam em cima da garota.

Viveram felizes comeram perdizes, isso não existe, mas aprenderam a contornar os problemas do dia a dia.

MEMPHIS BOY

                                                              

Jerome, iria guardar na sua cabeça para sempre a cena que acabava de ver, seu melhor amigo, morto, embora ele tivesse matado o homem também.  Empurrou o homem que estava em cima do amigo, o filho da puta ainda respirava, com o canivete enfiado no peito, nem pensou, por instinto, enfiou aonde tinha visto fazerem antes, cortando a jugular.

Ainda tentou reviver o amigo, mas nada.  As lagrima escorriam pela sua cara, não havia como conter.  Ficou pensando o que fazer, se o deixasse ali, ainda iriam dizer que era um negro assassino, o iriam chamar de viado, outras coisas.  Estavam à beira do Mississipi, melhor era pensar que tinha morrido afogado, como os dois estavam sempre tomando banho no rio, quiça para além de tirar a sujeira, limpar dos abusos que sofriam.

Arrastou o amigo, estava exausto, mas tirou a força do seu interior.                O levou até o rio, o empurrando, no seu peito, pediu a esse Deus que já que não o protegia, que pelo menos levasse o amigo para algum lugar bom.

A tristeza apertava seu peito, vontade de gritar, mas se fizesse isso podia chamar a atenção, voltou pegou o canivete que estava no pescoço do homem, voltou ao rio, lavou o mesmo, bem como suas mãos do sangue dos dois.   Fechou o mesmo, enfiando no bolso.  A cabana que estavam, caia de velha, era ali que iam fumar os cigarros que roubavam de seus pais, quando estes estavam totalmente drogados.  Achou a caixa de fosforo, juntou papeis velhos que estavam por ali,  tocou fogo, saiu rapidamente, se escondeu, ficando ver como o casebre rapidamente se consumia.

Tudo por culpa desses dois filhos da puta, se referia ao seu pai, bem como o pai do amigo.  Viviam nas drogas mais pesadas, para conseguir alguma coisa, não pensavam, vendiam os dois ao melhor postor.   Ele tinha sido abusado a primeira vez com 8 anos de idade, mal morreu sua mãe de overdose.   Desde então quando o pai não conseguia dinheiro cantando, tocando sua guitarra pelos bares, ele era quem tinha que ganhar dinheiro.  A primeira vez, tinha sido um inferno, o pai tinha sumido, mal colocou a mão no dinheiro do homem.  Ele ficou ali atirado, vendo o homem abaixar suas calças, sorrindo, dizendo rindo, um cuzinho virgem sempre é bom.

Foi a primeira vez que tinha tido vontade de matar o pai.  Quando se negava, esse o enchia de porrada, mas na cara não lhe batia, seu pai era um mulato claro, sua mãe branca,  ele era claro, com olhos como os delas castanhos, quase verdes, era magro, a desnutrição, o fato de viver comendo o que encontrava nos lixos, não ajudava muito.

Agora com 14 anos, era alto, mas claro, lhe faltava alimento para o corpo crescer, bem como ter força nesse seu corpo.

Voltou para o barraco que compartia com o pai, estava até a alma de cocaína, buscou nos seus bolso algo de dinheiro, para comprar comida, nada, procurou nos esconderijos que sabia que tinha nada.  O jeito porque a barriga roncava, foi ir fuçar as lixeiras dos restaurantes a margem do rio.

Pensou triste, pelo menos seu amigo, Tom Bradley, quem sabe aonde estava agora, deixaria de ter fome.

Os dois filhos da puta tinham ficado amigos, tinham se conhecido justamente fazendo isso, oferecendo seus filhos como prostitutos.

Os dois se protegiam. Mas nem sempre conseguiam como hoje.   Hoje iria dormir o mais longe possível de seu pai, pois era capaz de mata-lo.

Depois de comer os restos todos que tinha encontrado, subiu numa arvore imensa ali perto do Rio, sempre subiam ali, quando queriam se esconder, só desciam para buscar comida, uma vez tinham passado ali dois dias.   Desde então ali era o esconderijo preferido dos dois.

De manhã despertou com um alarido, gritos,  era o pai de Tom, gritando que seu filho estava morto, apurou o ouvido, ele dizia ao seu pai, como ia fazer agora para conseguir dinheiro para comprar drogas.   A resposta de seu pai, foi aterradora, ainda temos meu filho.  Mas não se preocupe, ainda tenho dinheiro escondido, hoje a noite faremos os dois uma farra.

Filho da puta, tinha dinheiro escondido.    Não devia ser grande coisa, mas ajudaria pelo menos para comprar um pão, um copo de leite.  Ficou todo o tempo dizendo filho da puta.

Ninguém tinha ido fuçar no barraco queimado, isso era uma coisa normal ali, todos estavam para cair aos pedaços, escorados por algum troço de madeira.   Se fico aqui estou fudido, esses dois vão me oferecer a mais de um, para poder comprar drogas para eles.

Não tinha escapatória, ou era ele ou os dois.   Pensou tem que ser essa noite.  A tempos tinha roubado roupa num varal de uma casa, mais ou menos do seu tamanho, a tinha escondida numa mochila, quase no ramal de trem, bem como uns tênis, eram velhos, mas estavam lavados, lhe faltava uma camiseta limpa.    Viu de onde seu pai tirava mais tarde o dinheiro.  Sabia que levariam um tempo para voltar,  foi buscando alguma casa que tivesse roupa estendida no varal, até que encontrou uma camisa azul de quadros, perto da cerca, com cuidado a retirou,  arrumou alguma coisa para comer,   Subiu de novo na árvore, seu pai só o procurava, quando precisava dele para o trocar por dinheiro.

Esperou ali, só observando, cantando mentalmente, a música era sua salvação, cantava uma música que sua mãe, lhe cantava para dormir, quando não estava cheia de drogas.  Sabia que tinha uma irmã que vivia em NYC, tinha que descobrir aonde.

Viu os dois voltando, se sentaram na frente da cabana, acabando uma garrafa de Whisky que deviam ter comprado, depois entraram.  Sabia que agora iriam compartir seringas, dois idiotas, seu pai, quando muito tinha uns 35 anos, mas parecia um velho de 60.  Era pele e osso, o odiava tanto, como odiava agora o pai do Tom.  Olha esses dois, nem remorsos tem.

Esperou, sabia o tempo que a droga faria efeito.   Desceu rapidamente da árvore, correu para a cabana, a noite lhe ajudava, era escura.   Entrou por detrás da cabana,   viu que os dois estavam atirados no chão.   Primeiro foi até o pai do Tom, pensou, pelo teu filho. Lhe cortou a jugular, viu que ele se engasgava com o sangue, mas rapidamente deixou de se mover, depois foi ao seu pai, obrigado por tudo seu filho da puta, que tua alma apodreça no inferno.  Fez a mesma coisa, mas seu pai ainda despertou por segundos, vendo a sua cara de ódio junto dele.  Para que nunca me esqueça no inferno.      Limpou o canivete na camisa do pai, foi até aonde tinha visto esconder a lata.               Estranhou, pois ali tinha um rolo de dinheiro, junto com algumas cartas. Enfiou tudo no bolso, saiu correndo na escuridão, tropeçou,  mas se levantou, sabia o rumo em sua cabeça.   Foi caminhando mais tranquilamente, para não chamar atenção.  Quando chegou aonde tinha escondido suas coisas, tomou um banho no rio, limpando-se da sujeira, do sangue, vestiu a roupa limpa, a camisa ficava folgada, mas todas ficavam.  Depois na luz da estação contou quanto dinheiro tinha, não era muito talvez desse para uma passagem de ônibus, alguma coisa para comer.  Tinha era que começar o movimento de ir embora.

Alguém tinha esquecido uma guitarra numa embalagem ali, porque esteve bastante tempo esperando.  Viu na escuridão um homem atirado, quando chegou perto, viu que estava morto, avisou o policial que estava ali na estação.  Antes que ele perguntasse se tinha visto alguma coisa se mandou, passou rapidamente pela maleta da guitarra, recolheu a mesma, saiu rapidamente sábia a direção da estação de ônibus.

Olhou num mapa de linhas, como fazia para ir para NYC,  não tinha estudado muito, mas sabia ler, escrever.  Fez um roteiro, que podia seguir, nada de ir direto pensou.  Tampouco sabia como procurar sua tia na cidade.

Tampouco o dinheiro dava para muito, dava para ir até Nashville, não teve dúvida nenhum minuto.  Comprou o bilhete.  Um sanduiche grande, pois a fome lhe corroía o estomago, ia comprar uma coca cola, mas tinha que economizar, para a próxima fome.

Pegou nas cartas, eram todas dirigidas a sua mãe, numa delas ainda fechada, se via que era de pouco tempo atrás.  Todas na direção da última casa que tinham vivido.   Tinha mais um pouco de dinheiro, talvez para a etapa seguinte.   Na carta, pedia desculpas por não mandar mais dinheiro, mas tinha despesas.   Perguntava por ele, por Nelson.

Quem porra era Nelson?   Não sabia a resposta, o nome de seu pai era Andrew, ou pelo menos isso pensava.    Quando quiseres venha com o menino para minha casa, é pequena, mas poderei te ajudar mais.

Pelo menos agora já sabia que direção tomar, guardou bem as duas cartas, uma era velha, mas esta de pelo menos um ano atrás.   Então ela não sabia que sua irmã tinha morrido já pelo menos a muito tempo.   O Filha da puta, ficou quieto esperando mais dinheiro.

Quando chamaram para o ônibus, conseguiu entrar com a guitarra, colocou na parte de cima, a vigiando.   Um tempo depois dormiu, sentia que o mesmo parava umas duas vezes, mas tinha tanto sono, que não tinha se movido.   Quando chegou a Nashville, desceu do ônibus, contou o dinheiro que tinha, daria para comer alguns dias, olhou o preço de um ônibus até NYC, não tinha para tanto.  Daria para ir até Indianapolis,  comprou mais esse tramo, o maior sanduiche que encontrou.  Estava ali sentado esperando, quando viu um homem lhe fazendo sinal para ir ao banheiro.  Nem se moveu.  Este abriu a carteira.  Continuou quieto,  viu que ele ia em direção a outro jovem,  este se levantou, mudando de lugar.  Pior agora tinha vontade de mijar, mas tinha medo de que o homem o atacasse. Quando não pode mais foi, lhe faltava pouco para o seu ônibus sair.    Estava ali mijando, o homem se colocou do lado dele, disse, espera que te ajudo, segurou seu piru, soltando para quem tem um corpo tão magro, até que tens grande.

Escutou a chamada do ônibus, disse que tinha que ir.  O homem tirou dinheiro da carteira, lhe deu duas notas.

Correu, entrou no ônibus, tinha pensado como estava acostumado que o queriam para enrabar.  Realmente tinha o piru grande, mas como sempre o atiravam no chão, pensava que sexo era só isso.    Pior, tinha gostado do que o homem tinha feito.

Tornou a dormir, quando chegou a Indianapolis, a fome rugia em seu estomago, tinha que ganhar algo mais para comer alguma coisa que mantivesse seu estomago a raia.   Só sanduiche não resolvia.   Além de que o dinheiro que o homem tinha dado não era muito.  De qualquer maneira, foi ao banheiro da estação, queria cagar,  ainda lhe doía o cu, da última vez que tinham abusado dele.  Sangrou um pouco, se lavou como pode ali, pois estava vazio, lavou bem a cara. Saiu a rua, viu logo que estava cheio de bares.   Podia tocar a guitarra, tinha aprendido com sua mãe,  abriu a maleta, tirou a mesma, começou a dedilhar, uma música que os dois gostavam, Moon River.  Começou a cantar junto, se acompanhava bem, pois se lembrava da música inteira, viu que as pessoas passavam, jogavam moedas na caixa da guitarra.  Quando parou viu que tinha bastante.  Começou a tocar outra, depois mais outra, recolheu, contou as moedas, já podia comer.    Entrou num restaurante, tinha visto o que ofereciam fora, ao passar numa mesa, viu um homem comendo um pedaço de carne grande, com um ovo em cima, batata frita, perguntou quanto era, contou as moedas, pediu um igual.   A senhora que o atendia, lhe trouxe, bem como uma coca cola, lhe disse que não tinha pedido.

Cortesia da casa, riu para ele.  Venha coma antes que esfrie.

Se sentia vivo, comeu devagar para demorar em acabar, a carne era suculenta, a última vez que tinha comido um troço de carne, tinha encontrado a mesma numa lixeira de um restaurante, estava cheia de nervos, mas nem por isso menos saborosa.

Comeu as batatas fritas uma a uma, na sua frente tinha um cesto com pão, perguntou a mulher que  passava se estava incluído na comida.  Ela balançou a cabeça que sim.  Foi molhando o mesmo no ovo, comendo feliz.

Pagou foi embora, ainda deixou uma moeda que sobrava em cima da mesa.  Ela tinha sido gentil com ele.   Sentou-se numa praça, tirou de novo a guitarra voltando a cantar, mas ia ficando tarde, já tinha poucas pessoas na rua.   Buscou ali algum lugar que pudesse dormir, tudo muito aberto, com certeza lhe roubariam a guitarra.  Voltou, passou pela lateral do restaurante, foi para o fundos do mesmo.   A mulher, estava ali fumando um cigarro, lhe perguntou o que estava buscando.  Ele muito honesto disse que um lugar para dormir.

O sorriso dela era muito triste.  Venha, o mandou seguir, abriu uma porta, era como um armazém, deixo a chave aqui, para poderes sair amanhã.   Não vale a pena levantar cedo, pois nessa região não tem muita  gente pela manhã, ou fundo tem uma cama que usava o senhor que fazia a segurança do restaurante.

A cama não cheirava muito bem, mas não dormia numa a muito tempo.  Até que chegou o momento que tinha medo de cair dela, arrastou o colchão para o chão, dormiu como uma pedra.

Despertou de manhã, com a mulher lhe trazendo um copo de leite, pão com manteiga. Para ele era um luxo.    Podes vir dormir aqui, enquanto esteja na cidade.  O restaurante é meu, venha comer depois das 4 que não tem muita gente, assim economizas.

Passou a manhã inteira, cantando aonde ela tinha lhe dito para ir cantar, realmente logo tinha muitas moedas,  quando voltou as 4 da tarde, contou as moedas, ela trocou por dinheiro.  Lhe deu a indicação de um outro lugar em frente a uma igreja.  Ganhou dinheiro, mas não muito.

Não sabia se ir dormir no mesmo lugar.  A senhora, estava arrumando a cozinha, lhe disse para entrar, guardei sopa para ti.   Perguntou o nome dele?

Jerome Bradley,  sem querer usou o sobrenome do amigo, ficava mais sonoro o seu.   Vejo que serás um dia um artista, com esse nome tão sonoro.   Deixei umas roupas para ti, no quartinho.

Amanhã é sábado, de noite tenho um bom movimento, melhor que ficar pelas ruas, se queres pode cantar aqui no restaurante, ganharas as propinas.

Lhe disse que atrás havia uma mangueira, que ele podia tomar banho ali. Lhe deu um sabão de cozinha mesmo, uma toalha, era pequena, mas ajudava a secar.

Depois foi para o quartinho dormir, viu que ela tinha trocado a roupa de cama, era mais limpa, cheirava bem.  Mesmo assim, por força do hábito dormiu no chão.  Despertou tarde, tinha tido um pesadelo durante a noite, com o homem que tinha tirado de cima do Tom.  Nem sabia como o Tom tinha conseguido enfiar o canivete no sujeito.

Viu que em cima de um barril de cerveja, estava uma bandeja, com leite e o sanduiche. Comeu vorazmente.  Quando passou, viu que estava atarefada, mas enfiou a cara na cozinha disse obrigado.   Voltou a mesma rua, cantou todo seu reportório, repetindo duas vezes, talvez por ser sábado, tinha maior audiência.

Todos passavam diziam que tinha uma voz muito bonita.  Pensava quem tinha uma voz bonita era sua mãe.  Ela cantava nos bares, algumas vezes fazia um show acompanhada de um homem que ele nunca via direito a cara, pois estava atrás de um piano.          Mas isso fazia muito tempo, depois esse homem desapareceu, ela caiu nas drogas.            Só se lembrava de seu pai, a partir dessa época.

Se lembrou de uma música, que ela sempre cantava no show, Over de Rainbow, a cantou baixinho primeiro,  quando levantou a cabeça, em volta dele, tinha um grupo de pessoas paradas assistindo, lhe aplaudiram, todos colocaram moedas, alguns notas.   Voltou na hora de sempre ao restaurante.  A senhora comentou que alguns clientes o tinha visto na rua cantando, coma, vá descansar, se lave bem, troque de roupa, deixei outras para ti, depois te chamo.

Dormiu, sonhou com sua mãe cantando, foi guardando todas as músicas na cabeça.  A tinha visto tantas vezes cantar quando era pequeno, que foi se lembrando de tudo.  Ela dizia que ele tinha ouvido musical, pois mal sabia falar, já cantava.

Antes que a senhora o chama se, se lavou todo, passou os dedos pelos dentes, sorriu para um pedaço de espelho que estava ali.  Contou todo o dinheiro, guardou bem escondido.

Quando ela chamou, lhe disse para sentar num pedaço da barra que não era usado, ficava virado para todo restaurante.   Assim todos poderão ver.   Meus queridos clientes, vocês que são assíduos aqui, quero apresentar essa noite, um jovem que escutei cantar outro dia, tem uma voz maravilhosa.  Jerome Bradley.   Um garçom o ajudou a subir, lhe deu a guitarra, ele começou a cantar, foi desfiando seu repertorio, algumas músicas que tinha escutado em seu sonho, até que no final uma senhora disse, canta o de hoje na rua.   Ele começou a cantar Over de Rainbow outra vez.  Teve que cantar mais duas vezes.

O resultado foi bom, perguntou para a senhora se esse dinheiro dava para ir até NYC,  ela disse que não sabia, que ia se informar.

No dia seguinte lhe despertou, lhe disse que tinha duas horas para estar na estação de trem, lhe estendeu o bilhete.  Que vais fazer em NYC?

Vou procurar a irmã de minha mãe,  sei que ela dava aula de canto numa escola, só tenho o endereço.

Vá com deus meu filho. Muito cuidado, porque NYC, é uma cidade difícil ok.

Disse que levasse a roupa que lhe tinha dado, era de seu filho que tinha morrido na guerra.

Lhe agradeceu muito. Ela o abraçou, apertando contra o peito, seja feliz.

Pegou o dinheiro que tinha escondido, tomou o leite com o sanduiche, mas ela lhe tinha preparado um grande para comer no trem.

Se sentou, esperando o trem, viu que um homem jovem fazia sinal para ele, outra vez em direção ao banheiro.  Ficou rindo para o homem. Agora já sabia o que significava, não ia se meter em confusão, pois já estava quase no seu destino.  Justo nesse momento, chamaram para o trem, abanou a mão para o homem, que sorriu para ele.

Quando encontrou seu lugar, se sentou, guardou a mochila entre suas pernas, pois ali tinha o dinheiro que ganhara cantando,  a guitarra em cima.  Ficou observando a paisagem, até que alguém perguntou se podia sentar-se ao seu lado.  Quando olhou era o homem.

Este riu, fico imaginando se tivesses aceitado, os dois perderíamos o trem.  Riu para ele, tinha os dentes muito brancos.  Estou numa cabine reservada, queres ir comigo lá.

Ficou com vergonha, não estou acostumado a isso, me desculpe, mas prefiro ficar aqui.

O homem inspirava confiança, disse que era dentista em NYC, que quando precisasse procura-se por ele.

Foram conversando maior parte do tempo.  Quando viu que ali não ia acontecer nada, foi para sua cabine.

Quando chegou a Central Station, procurou saber aonde era a casa da tia.  Se informou com um policial, este lhe acompanhou até uma parada de ônibus, mostrou o itinerário.

Quando chegou, chamou, mas ninguém atendia.  Se sentou nos degraus esperando. Ia entrando uma senhora, perguntou se a conhecia.

Ah ela não mora mais aqui.  A podes encontrar na Julliard School, lhe ensinou aonde era.   Ela passa o dia inteiro lá.

Lá foi ele outra vez, quando chegou, viu muitos jovens de sua idade ou maiores, perguntou pela tia. Lhe disseram que estava em aula, disse que era seu sobrinho, que tinha vindo de Memphis, veio uma senhora, o levou até a entrada da sala dos professores.  Ali sentado, confuso por tanto vai e vem de gente. Fechou os olhos, pegou a guitarra, começou a cantar Home sweet Home, logo tinha um grupo parado perto dele.  Estava cantando baixinho.   Parou na frente dele um senhor negro de uma certa idade.   Quando viu sua tia, chorou sentido, ela era igual a sua mãe.

Ela o abraçou, ficaram os dois ali parados, abraçados um ao outro.  O senhor foi dispersando todo mundo, dizendo todo mundo para as classes, vamos estão ouvindo.

Ela pediu o resto do dia livre, ele lhe explicou que tinha ido ao endereço que tinha nas cartas, quando soube de sua mãe chorou muito, mas muito mesmo.

Ela vivia num apartamento relativamente perto da escola,  foram caminhando, de mãos dadas, conversando.   Ele não ia contar suas desgraças assim de cara.

Ela disse, tua mãe, foi especial, mas tinha uma cabeça dura, eu disse para ela não largar os estudos, ir atrás desse pianistas, sei que é teu pai, mas louco, nunca mais soube dele.

Chegou a parar, o pianista é o meu pai?

Eu pensei que sabias, ficou gravida, foi com ele embora.  Uma tournée pelo sul.  Depois desse endereço que tinha em Memphis, nunca mais soube dela.  Ele não podia se mexer do lugar, respirou fundo, o homem que tinha matado não era seu pai, por isso se aproveitava dele.    Respirou fundo, ela depois foi viver com outro homem, viviam os dois na droga, quando não estava cantando, se metia todas as drogas possíveis.  Depois que morreu, fiquei com ele, só agora descobri numa caixa suas cartas, um pouco de dinheiro.

Essa guitarra era dela?

Não ele a vendeu, para comprar drogas.  A cara dela era de horror.  Imagino o quanto não deves ter sofrido tu.

Como vieste até aqui, contou o trajeto que tinha feito, que tinha cantado nas ruas, no restaurante, que o bilhete de trem lhe deu a dona do mesmo.  Essas roupas são de seu filho, que morreu na guerra, eu não tinha nem o que vestir.

Seu apartamento não era grande, mas tinha dois quartos, banheiro, um salão com um piano, bem como uma cozinha pequena.  Quase não faço comida aqui.  Venha tomas um banho, coloque roupa limpa, saímos para comer.

Ela contou a vida dela, da irmã, tinha tudo para ser uma grande cantora.   Era melhor do que eu nisso.  Tinha essa voz como tu tens, mas justo quando ia sendo mais conhecida, conheceu o pianista, se foi com ele. 

Só te conheci pelo nome de Jerome, mas o sobrenome, não conhecia.

Juntei o meu com o de um amigo, meu melhor amigo que morreu.  Uma homenagem a ele, uma maneira de não esquecer dele.

Ficaram o resto do dia conversando.   Sorriu, finalmente estava com alguém que o queria, ela o avisou que o problema dela com a irmã era justamente esse, era estrita, não suportava vícios, ela estava sempre fumando, bebendo demais, provando drogas.    Não era fácil controlar isso.  Lhe perguntou se usava drogas, bastou a cara de horror dele, para entender que não.   Depois de tudo que vi as pessoas fazendo, não posso querer.

Perguntou o que ele queria fazer?

Quero estudar música, ela me salvou.   Tocas piano?

Sim, sou professora de voz, normalmente pela tarde, dou consultas a cantores de opera, ou qualquer tipo de cantores que necessitam de ajuda.  Para isso uso o piano.

No dia seguinte, foi com ela a escola, se aborreceu de ficar ali esperando, entrou numa sala que tinha vários pianos, se sentou num deles, em sua cabeça, se viu sentado no colo de um homem, este lhe ensinava tocar  Clair de Lune, sem saber porque a musica foi brotando em sua cabeça, abaixou a cabeça, fechou os olhos, sentia a mão de quem agora sabia que era seu pai lhe ensinando que tecla tocar.

As lagrimas caiam pela sua cara, como podia ter-se esquecido dele, embora sequer soubesse seu nome, se lembrou de tardes sentados no colo dele, na antiga casa.  Foi como que uma enxurrada de lembranças, que deviam estar guardadas no fundo da sua cabeça.

Quando acabou, se debruçou em cima da teclas, continuou chorando.  Sentiu a mão do homem negro do dia anterior.   Isso meu filho chore, é sempre um remédio salutar.

Levantou a cabeça, te vi tocando guitarra, agora descubro que tocas pianos, te falta técnica, mas fazes bem.

Entre soluços, lhe explicou que tinha aprendido essa música com seu pai, a quem ele tinha esquecido completamente que existia, passei anos pensando que meu pai era um filho da puta, asqueroso, drogado.  Agora vejo que estava errado.

A vida, é dura, nunca é um mar de rosas, temos sempre que estar lutando contra o vento, contra a maré que muda o tempo todo.  A vida é como tentar se equilibrar na ponta de um alfinete.

Se escutou uma voz da porta o velho Ron Poter filosofando.  Quando se viraram, ele viu um homem de imediatamente achou asqueroso.

Se quiseres podes fazer aulas comigo, porque esse velho, já não tem nada para ensinar.

Seu instinto falou mais forte, pois eu prefiro fazer aula com ele que contigo, tens uma cara asquerosa.

Ron Poter ria a não mais poder.  Finalmente alguém te diz na cara o que es, um sujeito asqueroso.

Felizmente já é meu aluno. O sujeito saiu batendo a porta.   Ficaram rindo os dois.  Então eres o sobrinho da Emily, ela te buscou a muito tempo, mas ninguém te encontrava.

Alias eres totalmente parecido com ela.

Ela entrou pela porta adentro, que foi que disseste para o outro professor, diz que é inadmissível que se fale assim com ele.

O chamou de asqueroso, porque já queria me roubar o aluno.

Tia me lembrei de coisas da minha infância, meu pai me colocava no seu colo, me ensinava a tocar piano, por isso sabia a música que toquei aqui.

Toque outra vez.

Ele recomeçou a tocar,  ela chorava muito, essa música era a preferida de tua mãe. Me dizia que ele a tinha conquistado tocando essa música.  Por isso me fazia olhar para ela deitada numa rede, perto da janela, mas o que via não me agradava, estava sempre com um cachimbo com drogas.   Se ele lhe chamava atenção por isso, chorava.

Não sei se foi por isso que foi embora.

O Ron Porter, lhe perguntou se sabia ler partitura?

Foi franco, sei muito mal, ler, escrever, nunca vi uma partitura na minha vida, mas se escuto, sou capaz de tocar.

Então vou conseguir classes para ti de leitura de partitura, assim aprendes, ao mesmo tempo te irei ensinando técnicas de piano.   Se não quiseres ficar aqui, posso de dar aulas na minha casa, vivo no mesmo prédio da tua tia.

Diga a verdade Ron, sou tua inquilina, ele me aluga a parte de cima da sua casa.

Podes ir dar aulas Emily, que eu hoje não tenho nenhum desses alunos incompetentes, prefiro ficar aqui falando com meu novo aluno.  Pegou outro banco, sentou-se ao seu lado, foi lhe ensinando o nome de cada tecla, como se faz com uma criança, ficou surpreso, pois ele aprendeu de primeira mão.  A partir desse dia o velho Ron, virou seu mentor para tudo.  Logo conseguia tocar no piano todo seu repertorio.

Quando contou ao Ron, que tinha tocado guitarra nas ruas para juntar dinheiro para chegar até lá, ele se emocionou.   Eu saí de minha cidade, New Orleans, vim até aqui fazendo a mesma coisa.  Levei anos tocando em todos os bares, boates dessa cidade, até poder tocar piano como queria.  Mas claro já era tarde para um carreira de música clássica, mas teve uma coisa de bom, aprendi todas as técnicas, sei cada toque cada dedo pousado numa tecla.

Colocou uma música, um exercício para piano, lhe perguntou se conseguia, escutar, quais as notas aonde estavam no piano.  Se concentrou, prestou atenção, se evadiu de tudo. Como quando escutava sua mãe cantando.   Pediu para repetir,  fez a mesma coisa outra vez.

Se sentou no piano, tocou o exercício inteiro sem errar.  A cara do Ron era demais, tinha encontrado seu aluno predileto.

Este brigou com a escola, conseguiu que ele fosse seu aluno, a tempo parcial, o dividindo com as aula para aprender a ler, escrever partituras. 

Tinha até medo de tanta felicidade, ficava esperando que em alguma volta da esquina alguém o violasse.   Nos dias que estava nervoso, tinha pesadelos.

Emily, falou com o Ron sobre isso, as vezes desperto, escuto ruídos, é ele no meio de algum pesadelo.  Creio que teve uma infância difícil.   O levei outro dia ao médico, este disse que ele não era mais alto, pois estava seriamente desnutrido.  Que mais algum tempo assim teria problemas de pulmão, ou outro tipo de doenças.   Recomendou que ele visitasse a um psicólogo para colocar as coisas para fora, quando lhe falei isso com ele, me perguntou o que era um psicólogo, vi que ficou com medo.

Deixa comigo, sempre falamos como duas pessoas adultas.  Ele tem um discernimento muito grande de tudo.

Estava estudando uma música de Debussy, de Peleas e Melisande, entendia melhor a música porque Ron tinha paciência de explicar. Como devia tocar a tecla, qual emoção, o que significava a música.  

Quando lhe falava em emoção, Ron notava que Jerome ficava quieto.  Um dia lhe disse, te quero como meu filho, por isso irei direto ao assunto.   Se amas tanto a música, tens que pensar que a emoção é necessária.   Mas estas bloqueado pelas coisas que te aconteceram no passado.  Se não queres ir a um psicólogo, posso escutar.   A única diferença é que um psicólogo, tem que guardar segredo de tudo que falares, eu posso contar para todo mundo.   Vou te apresentar um amigo, ele é professor de psicologia da universidade, fomos amantes quando jovens, já falei com ele a teu respeito.   Posso marcar de tomarmos um café, assim o conheces, decide se queres falar com ele.

No dia seguinte depois de uma aula sobre partituras, a professora lhe elogiou, pois tinha aprendido tudo que ela podia levar um ano ensinando aos outros alunos.  Siga em frente meu filho, contou isso contente ao Ron.

Então vamos comemorar, vamos almoçar aqui perto, num restaurante judeu, que gosto muito, avisaram a Emily, que ele percebeu que queria ir junto, mas um gesto do Ron a brecou.

Foram andando conversando, entraram no restaurante, como tinha reservado uma mesa, mais afastada de tanta gente, pediram bebidas,  estavam os dois lendo o menu, Jerome já ia pedir que lhe escolhesse a comida, pois não entendia nada.  Quando escutou uma voz, fantástica, dura, mas diferente ao mesmo tempo.

Filho da puta, só assim te vejo, queres é me matar de saudade, meu velho amigo.

Quando levantou deu de cara com um homem, de uma estatura de 1,70metros, se via que fazia esporte, com uma cabeleira leonina, toda branca, a barba era igual, mas os olhos azuis era desafiantes.  Esse é o teu garoto, falou isso, agitando os cabelos do Jerome.

Jerome, este é meu amigo, Josep Goldstein, mais conhecido como Jo Gold, um sem vergonha de muito cuidado, me enganou durante anos, tenho chifres até hoje.

Ficou rindo quando os dois se beijaram na boca.   Ah velho amigo, que saudades tenho de ti, meu tempo anda curto com a Universidade, senão aparecia mais pela tua casa.

Deves estar mais é te atirando a algum aluno?

Ron, nunca vi uma quantidade tão grande de idiotas na minha vida, passam o tempo todo, no puto celular,  creio que cagam, mijam com eles na mão.   Como pode ser isso.  As vezes creio que estou falando para as paredes.  Mando fazer um trabalho, copiam dos livros, como se eu não já tivesse lido todos.  Sou capaz de citar até a página que usaram.           Creio que será meu último semestre na universidade, estou literalmente farto.    Prefiro ficar com meus clientes, que pelo menos procuro ajudar.

Jerome, este é o amigo que te falei que podias consultar como psicólogo.  Fomos amantes, hoje creio que somos além de amigos, uma família, não tenho ninguém, ele tampouco.

Deixe o garoto em paz, vamos pedir pois estou morto de fome, a quanto tempo não venho aqui, fez uma sinal, saiu um homem detrás do balcão, veio até ele, o abraçou, bem como ao Ron, que bom vê-los aqui.  Que querem comer?

Como parece que o garoto não entende lufas desse teu cardápio louco, sabe aquilo que gosto, uma degustação de todos os pratos, que venham três peças de cada.

Vai te encantar disse se virando para o Jerome, pois assim provas de tudo da cozinha judia, eu mesmo as vezes venho comprar para levar para casa.  

Tens ido a sinagoga Jo?

Na verdade é que não,  o rabino me enche o saco, mas outro dia, tu me conheces quando estou de mal humor, me parou na rua para me cobrar isso, lhe disse que enfiasse seu puto deus pelo cu, aonde está ele que nunca ajuda os que precisam tanto dele.   Foi embora furioso.

Se espantaram com o Jerome, verbalizando, eu penso igual, aonde estava esse filho da puta, quando mataram meu amigo, aonde estava, porque nos deixou sofrer tanto.

Graças a Deus, nem sei rezar, porque senão seria uma serie de palavrões, o mandaria tomar no cu literalmente.

Calma, Jo colocou a mão em cima da sua.   Nunca tinha sentido isso, sua mão transmitia tranquilidade, paz.

Vieram umas toalhas quentes, para lavar a mão, ele fez como os outros dois, olhando, aprendendo.  Comeremos com as mãos.

Isso eu estou acostumado, porque quando se come a comida do lixo, não existe garfo, nem faca, nem porcelana para colocar a mesma.

Os dois ficaram calados, olhando para ele.

Comeu com vontade, uau o sabor é impressionante, provou de tudo, fazia comentário de cada coisa.  Depois de limpar as mãos, colocou as suas em cima da dos dois, obrigando por essa comida amigos.

Ron ficou tranquilo, se chamava o Jo de amigo, era bom sinal, quando foram pedir as sobremesa, ele disse que estava satisfeito, não podia comer mais, tenho o estomago cheio, creio que agora ele terá que se esticar, pois estou acostumado a comer pouco.

Ron desviou a conversa, dizendo que hoje ele tinha terminado o curso de leitura de partituras, pois tinha feito o que os outros faziam em um ano, em quase um mês.   Esse menino tem uma memória visual incrível.  Além de auditiva, contou ao Jo, como ele fazia com a música.

Que tipo de música, pensas a te dedicar?

Ainda é cedo, verdade Ron, pois só agora tenho acesso a um piano, bem como a guitarra.  As vezes passo pelo corredor da escola, outro dia estava um jovem como eu tocando o Fagote, quase entrei para pedir que me ensinasse.   Mas claro não tenho dinheiro para comprar nada.

Quando saíram, Jo lhe convidou para ir conhecer seu consultório.  Venha assim batemos um papo preliminar. 

Ele se virou para o Ron, tu eres um malandro, com todo meu respeito, armou isso de tal maneira que ele me caísse simpático.

Realmente estava a volta da esquina.

Era uma sala aconchegante, com uma parede toda cheia de livros,  duas poltronas confortáveis com uma mesinha entre elas, luz indireta.  Embora tivesse ali uma chaise-longue, indicou que se sentasse numa das poltronas.

A chaise-longue é para as pessoas que veem muitos filmes, insistem em conversar sem me ver, como se fosse um confessionário.

Ron me disse que o que eu fale aqui, ficará somente entre nós dois, é verdade?

Sim, posso até conversar sobre ti, se não consigo te ajudar, com um outro psicólogo, que atende a mim como cliente, mas isso acontece raramente.

Temos tempo para isso, pelo que sei, fizeste um trajeto largo para chegar aqui, para encontrar tua tia.

Sim o pior foi descobrir que o homem que pensava que era meu pai, ao qual odiava, não passava de alguém que me enganou durante anos.   Só quando cheguei aqui que minha tia falou do meu pai, foi que me lembrei do mesmo, me ensinando a tocar piano quando devia ter uns dois anos.

Por que odiavas esse homem que pensava que era teu pai?

Lhe contou tudo, como o prostituia, a troca de dinheiro para as drogas, depois que sua mãe tinha morrido.  Que ele tinha que comer comida do lixo, a miséria que vivia.  Que seu único paliativo era seu amigo, mas o mataram.  O pai fazia a mesma coisa com ele, o prostituia.

Sabes o que é ter oito anos de idade, ter em cima de ti um homem maduro, enfiando o pau no teu cu.  Não poder sentar durante dias, estar sangrando continuamente.  Colocou as mãos na cara, começou a chorar baixinho.   

Jo o deixou chorar, até que se acalmou.  Lhe deu um lenço de papel, para enxugar as lagrimas. Quero que saiba que em momento algum, farei um gesto de compaixão, pois perderia a distância necessária para te escutar.   Não pense que não me assusta, ao mesmo tempo me dá raiva, ódio ao te escutar, mas minha profissão exige que esteja a parte. 

Não tinha se dado conta que tinha falado mais de uma hora, quando soou uma sineta, avisando que tinha alguém esperando na  outra sala.

Quando queres voltar?       Mas nem lhe deu tempo para responder, lhe passou uma coisa pela cabeça, estava acostumado a seguir seu instinto, lhe fez um sinal com a mão, saiu da sala, ficou fora uns minutos, voltou.      Perguntou, quando foi a última vez que abusaram de ti?

Ele falou gaguejando,  antes de sair de Memphis.

Espero que confies em mim, vou te levar agora mesmo a um médico, muito meu amigo, tem uma clínica aqui ao lado,  espero que lhe deixe fazer um exame de teu corpo, pois creio que é melhor prevenir do que remediar.     Venha comigo, fechou a consulta, mas antes colocou um papel que dizia que as consultas do dia estavam canceladas por motivo de força maior.

Não se preocupe, meus clientes me entendem bem.

Quando entraram no consultório, entrava pela outra porta um senhor mais ou menos da mesma idade dele, vindo ao que parecia de uma garagem.

Falou com ele, pediu que fizesse um exame rigoroso no Jerome.  Explicou a situação, para acalmar Jerome disse, ele tem obrigação de guardar segredo de tudo que acontece aqui.

Foram a uma sala, o Jo ia sair, mas Jerome pediu que ficasse.   O médico, lhe estendeu uma bata, pedindo que tirasse toda a roupa.  Quando ele tirou a camiseta ficaram de boca aberta, as costas eram cheia de cicatrizes,  quem te fez essas coisas?

O que pensei que era meu pai, quando eu negava a me prostituir, então me pegava para que o obedecesse, pois senão claro não podia comprar drogas.   Só não me batia na cara, pois dizia que estragava a mercadoria.

Quem cuidava de ti depois, lhe faziam curativos?

Não ninguém, eu ia depois com o Tom lavar nosso corpo cheio de sangue no rio, era a única coisa que fazíamos,  depois dessas surras, nos escondíamos em cima de uma árvore, só abaixávamos para buscar comida nos lixos dos restaurantes.

O exame foi exaustivo, scanners, lhe apalpou a barriga, fez uma série de coletas de sangue para análise, inclusive de HIV,  por último, lhe disse vestindo uma luva, vou procurar fazer de uma maneira que não te doa muito.

A resposta o deixou gelado, sempre dói muito, porque são homens grandes, negros na maioria. Jo ficou parado, pela sua cara, se via que estava com uma irá contida. 

O médico disse que achava que seria melhor fazer depois uma colonoscopia. Para ter certeza de que tudo estava bem.  Ainda perguntou se sangrava muito. 

Desta última vez, nem tive tempo de cuidar, pois mataram meu amigo, estava muito nervoso, porque sabia que podia acontecer comigo, que tinha que fugir.

O médico, mostrou ao Jo, sem que Jerome visse sua luva cheia de sangue.  Vou te dar uma medicação a primeira tomaras justo agora, lhe trouxe água, vais  tomar outra antes de dormir, amanhã viras para fazer o outro exame, não deves comer nada esta noite, lhe deu um outro remédio,   amanha venha logo cedo, te preparamos aqui para o exame.

Acho melhor assim, pois teremos que lhe lavar o reto, para o exame, faço isso aqui.  Apertou a mão dos dois, colocou a mão sobre o ombro de Jerome,  de graças a Deus ter escapado.

Voltaram ao consultório, Jerome percebeu que Jo estava alterado.  Ia começar a falar, quando este soltou, se esse filho da puta estivesse aqui, eu o mataria com minhas próprias mãos.

Eu o matei Jo, não se preocupe. Contou o que tinha acontecido, que encontraram Tom embaixo do sujeito, até hoje não entendi como ele conseguiu enfiar o canivete no sujeito.          Que tinha cortado a jugular do sujeito, levei meu amigo até o rio, o soltei corrente abaixo.  Depois queimei a casebre com o sujeito dentro, isso acontecia todos os dias.   Me escondi, esperei que meu pai, bem como o pai do Tom, fossem buscar drogas, contou o que tinha feito depois, foi ai que encontrei o endereço antigo de minha tia.   Fiz um caminho mais comprido, para ninguém vir atrás de mim.

A cara do Jo era espetacular.   Tiveste uma coragem imensa meu filho, imensa.  Nunca tenhas vergonha disso.   Eu quanto tinha 10 anos, fui abusado semanalmente pelo irmão de minha mãe, um rabino, cheio de filhos.   A primeira vez, disse que a culpa era minha por ser bonito.  Depois virou hábito, no dia que reclamei com meus pais, não me acreditaram.   Um dia me armei de coragem,  ele sempre vinha quando meus pais estavam trabalhando, peguei duas facas pontiagudas da gaveta, esperei. Ele tentou me capturar em volta de uma mesa na cozinha, quando se apoiou nela cravei a primeira faca, depois apoiou a outra, coloquei a outra faca, peguei um martelo, bati com todas as forças em cima das facas.  Ele ficou preso na mesa, abaixei suas calças, as cortei com uma tesoura, num acesso de loucura, cortei seus ovos, assim não fazia mais filhos, pois quando a mulher estava gravida, vinha atrás de mim.

Chamei meus pais, que só assim acreditaram.   Ele quase morreu, mas minha mãe, como era seu irmão, tinha 8 filhos, ficou com pena dele.  Em vez de me defenderem, me mandaram estudar em Israel.    Na minha escola tinha um psicólogo, conversei muito com ele.  Nunca mais voltei a falar com meus pais, eles escreviam, mas não respondia,  me formei em Psicologia, voltei para cá, vieram me procurar em busca de perdão, lhes disse que falassem isso com seu deus, que me deixassem em paz.   Me deixaram uma fortuna, que só uso para ajudar as pessoas, nunca comigo.     Não pense que o filho da puta parou, foi acusado por um dos seus filhos de seus abusos.  Mas fizeram de conta que era um exagero do garoto.    Anos mais tarde, o filho se suicidou.

Monstros existem tem todos os lugares, religiões, em cada canto do mundo.   Por isso não tenha dúvida, não te culpo, eu faria pior hoje em dia.  Não teria somente lhe cortado os ovos, teria cortado seu piru, além de deixar que morresse.

 Levei muitos anos, para entender, perdoar a mim mesmo, a ele nunca perdoei, mas perdoar os erros que cometi depois, pois nunca mais confiei em ninguém.  Ron foi meu amigo, amante, o perdi por minha culpa.   Mas até hoje o amo.

Venha vou te levar para casa, será necessário que ele saiba do exame de amanhã, pois precisam de uma pessoa responsável.

Ele ia falar que não queria que sua tia soubesse.  Jo entendeu imediatamente, vamos falar com ele, porque assim ela não precisa saber.

Acho melhor tomarmos um taxi, pois não tenho condições de dirigir.   Sem querer teus problemas me fizeram reviver os meus.

Temos sim que aprender a conviver com eles.

Quando chegaram, Ron estava terminando de dar uma aula.  Se escutava sua voz um pouco irritada.   Falava que essa peça exigia leveza da mão.  

Jo, ficou impressionado, como Jerome, ao escutar o piano, se relaxava, prestava atenção, mesmo com a porta fechada na música.   Não percebia que seus dedos contavam o compasso, justo o que dizia o Ron, que faltava ao outro isso, seguir o compasso.

Quando o rapaz saiu, acreditas, é um dos melhores, vai dar um concerto dentro de 10 dias, até agora, está distraído porque encontrou uma namorada, não consegue mentalizar o compasso, disse que a música era complicada para ele, mas nem pensar.

Pois ele estava marcando o compasso, creio que certo.

Sente-se no piano, assim te relaxas.  Jerome nem precisou escutar a segunda vez, sentou-se tocou a música ou pelo menos o pedaço que tinha escutado, no compasso certo.

Jo só disse, impressionante, para alguém que nunca foi a aula de piano.

Temos que falar contigo, amanhã Jerome tem que fazer um exame, não quer que sua tia saiba, pois começara a fazer perguntas sobre sua vida anterior, ele no momento não está em condições de explicar.  Preciso que tu o leves ao médico como seu responsável, pois eu não posso, já fui hoje, irei junto, mas para os papeis tem que ser você.

Podes contar para ele Jo, eu confio no Ron, se ele sabe das tuas coisas, pode saber das minhas.

Ele entende Jerome, porque com ele também aconteceu, isso lhe marcou por toda sua vida.

A cara do Ron, era fechada, como Jo não começava, ele contou tudo.  Ficou preocupado pois Ron, estava andando de um lado a outro da sala, como procurando se relaxar.   Depois de escutar só dizia filho da puta, malditos filhos da puta que só pensam nisso, abusar.

Depois se sentou com a cara escondidas nas mãos, ficou ali chorando, depois se levantou deu um abraço de urso no Jerome.  Cuidarei de ti, por mim tua tia não vai saber de nada.

Quando esta chegou, ele desceu disse que estava estudando uma música com o Ron,  comeram Jo lhe tinha dado um pequeno comprimido, corte pela metade, tome antes de dormir.

Jo essa noite dormiu na casa do Ron, pois ficaram falando até tarde, lambendo suas feridas, foram dormir juntos, como velhos amigos, de mãos dadas, tinham resolvido que cuidariam dele como se fosse filho dos dois.

Foram cedo para a clínica, ele não comeu nada como tinham dito, quando a tia perguntou, ele disse que tinha comido antes dela.

O prepararam para o exame, estavam os dois homens na sala com ele.  O médico depois disse que sim havia desgarros antigos, não sei como não infecionaram  se ele não foi medicado, nem se cuidou.  Mandei fazer os exames urgente ontem, deu negativo em tudo.  Graças a Deus.  Ele tem um sistema imunológico excelente, impressionante para quem tem desnutrição.

Receitou uma série de remédios que ele deveria tomar em seguida.   Os três agradeceram ao médico, foram dali a casa do Jo.

Ele viu que Ron estava muito nervoso, Jo cuidou dele.   Pareciam um casal de velhos se cuidando. 

Filho, resolvemos ontem a noite, que te vamos cuidar como se fosse nosso filho.  Não tire nunca sua camisa na frente de tua tia, pois ela tem uma saúde frágil, não entenderia. Ok.

Umas semanas depois viu que ela estava um pouco nervosa, perguntou o que era.  Venha vamos conversar com o Ron, ele pode me orientar.

Ficou preocupado, pensando que era alguma coisa com ele.

Suspirou quando descobriu que não era.   Ela tinha vários alunos do teatro de Opera de Paris, a convidavam para cuidar da voz de todos, durante a temporada.  Era uma oportunidade de ouro, mas estaria fora durante pelo menos seis meses.   Não o posso levar comigo, não quero que perca as aulas aqui.

Ron, riu, sem problemas, ele fica comigo, só tem uma coisa, o outro quarto da casa, uso para dar aulas, mas voltamos a usar a casa como uma coisa só.   Ele continua dormindo no seu quarto, mas toma café da manhã comigo, depois vamos para a escola, na volta tem aulas comigo outra vez mesmo.

Jo nos convidou agora no verão para irmos aos fins de semana para sua casa em Fire Island, podemos aproveitar para relaxar. 

Você acha que esse ambiente, não será pesado para ele?

Não se preocupe,  sempre que vamos, você inclusive já foi com a gente, aproveitamos a praia, depois estamos em casa, falando de música, nada mais.

Bom assim fico tranquila,  me perdoas meu filho, mas é uma oportunidade única, se fosse alugar uma casa, te levaria, mas creio que seria complicado, pois ficarias o dia inteiro sozinho.

Não queria mencionar que estava com problemas para conseguir uma documentação para ele, pois tudo que tinha conseguido era uma certidão de nascimento. Nada mais.

Como era menor de idade, não tinha nenhum documento dizendo que ela era a responsável por ele.  Teriam que primeiro encontrar seu pai.

Depois explicou ao Ron que tinha uma agência de detetives procurando o mesmo. Deixou tudo como tinha combinado.  Chorou um pouco quando teve que partir.

De uma certa maneira conviver com Ron tinha uma vantagem, depois das aulas sempre conversavam.   Agora que já tinha colocado para fora tudo que tinha passado, estava um pouco mais relaxado.

Só se sentia confuso, conversou com o Jo, sobre como tinha acontecido na estação, depois o que tinha acontecido no trem.

Sentiste vontade de ir com esse homem?

Sim porque foi simpático, creio que ele queria outra coisa, como o outro que só fez uma  coisa, diferente do que acontecia antes.   Esse eram negros a maioria, simplesmente me abaixavam as calças, metiam dentro, depois iam embora, não havia mais nada.

Na verdade, carinho, só recebi de meu pai, na época que ele vivia conosco.   Minha mãe estava sempre discutindo com ele, não sei por que na verdade.  Ele sempre falava disso, apontava para as drogas.  Que isso ia acabar com ela.  Na verdade, não me lembro dele usando nada.

Depois tenho um grande vazio, mais ou menos até irmos viver nesse barraco.  De encontra-la morta.  Eu mesmo tendo 8 anos, sabia que estava morta, pois estava gelada, devia ter passado a noite inteira ali jogada.   O homem me mandou esconder, quando chegou a polícia, dois dias depois me vendeu a um homem.  Na hora não entendi nada, só que me atirou no chão, arrancou minhas calças, passou a mão pela minha bunda, me penetrou, segurava minha boca, porque eu gritava, doía demais.  Creio que quando acabou, me disse nada como um cuzinho virgem, arrumou suas calças se foi, fiquei ali jogado horas.  Não tinha ideia do que era isso, até que a coisa passou a ser constante.   Ou quando passava na rua com o Tom, que nos diziam os prostitutos dos vigaristas.   Começo a acreditar que o Tom tampouco era filho do outro. Quando acabou de falar isso tremia um pouco.

Um dia vais gostar de alguém, será diferente.  Já veras, quando conheci um rapaz em Israel, primeiro eu era muito tímido, estava servido o exército porque era obrigatório, ele era meu companheiro, percebeu que eu não saia com os outros, ele tampouco saia, um dia me convidou para uma cerveja.  Conversamos, fiquei com medo, disse que achava que não estava preparado.   Passamos a sair nos dias livres, ora para um cinema, eu vivia num pequeno apartamento, ele ainda com os pais, passou a dormir lá comigo, ficávamos abraçados, com muita vontade, mas me respeitava.   Um dia sem querer aconteceu.

Quando voltei conheci o Ron, ele estava meio perdido, falávamos muito, o conheci numa festa que nem ele, nem eu encaixávamos, todo mundo usando drogas, bebendo demais, fomos para uma praça conversar.  Ele me disse que era músico, começamos a falar dos compositores que gostávamos, fomos a minha casa, só nos deixamos muitos anos depois, por culpa de minha cabeça.    Cometi uma serie de asneiras.         Voltamos outra vez, mas resolvemos que cada um viveria em sua casa.  É o meu melhor amigo além de tudo.

A convivência das pessoas nunca é fácil.

Porque achas que de repente as pessoas descobriram que tenho um piru bonito, que lhes interessa?

Pode ser porque estavas sendo vendido como uma coisa, para determinadas pessoas.  Talvez essas pessoas estivessem atrás desse estímulo, um garoto, porque ainda tens corpo de garoto, alguns homens gostam disso.    Já quando andavas rumo a tua nova vida, talvez tenhas mudado tua postura, agora eras o senhor de tua vida.

Com o Tom, como tinha a mesma idade, não aconteceu nada?

Não era como meu irmão, tomávamos banhos no rio, pois era a única opção que tínhamos de nos limpar de toda merda, lavávamos nossa roupa, ficávamos em cima dessa árvore nus, mas nunca nos passou pela cabeça outra coisa, pelo menos pela minha.   Falávamos sim de como podíamos escapar disso tudo.   Ele sempre dizia, só conseguimos se os matamos, como eu tinha um ódio pelo homem que o vendia,  um dia encontrou esse canivete, treinava como usá-lo.  Na verdade, nem sei como conseguiu cravar no sujeito que estava em cima dele, tinha o dobro de tamanho.

A pouco tempo comecei a ver a televisão para me distrair, mas as historias dos filmes me parece as vezes irreal.   Por mais que sofram, não convencem quando vivem na miséria.  Queria ver um deles realmente comer comida do lixo, como tínhamos que comer.   Pior era achar que estava bem, pois forrava o estomago.

Hoje quando como, começo a perceber os sabores, pois normalmente queria era comer, não importava o que.

Tinham voltado várias vezes no restaurante judio, pelo visto tinham frequentado muito quando viviam juntos.   Agora, já sabia pedir o que mais gostava, gozavam dele, porque pedia sempre a mesma coisa.  De tudo, foi o que mais gostei.

A tia o chamava toda semana.  No primeiro final de semana que foram para a casa de praia do Jo, encontrou um piano armário na sala.  Ron esclareceu que era dele.  Aqui ensaiei muitos concertos.  Precisava dessa paz para ensaiar.

Ele agora tocava a peça inteira que o aluno que ia dar um concerto tocava.  Ron lhe ensinava cada passo da música.  Veja a podes tocar inteira de cabo a rabo, mas cada momento dela, é composto de uma emoção diferente, como se fossem história que se cruzam.

Era como decompor a música,  esse trecho, toque, vamos gravar, vais escutar, depois conversamos para ver se entendes, repetimos.   Começou a notar, que realmente era diferente, sentia quando fazia isso, que podia encontrar a emoção daquele momento.

Agora entendia que fazia bem, mas que  faltava algo, que aos poucos ia encontrando.  Ron batia sempre na mesma tecla.  As vezes um músico não tem tempo de aprender de memória uma música, por com a vontade dele ou de seu agente de ganhar dinheiro, aceita concertos demais, não se dá o prazer de encontrar-se com a música.   Para muitos pode parecer perfeita, pois ele domina a técnica, mas falha na emoção.   A técnica é a base de tudo.  Isso tens quando capta a música ao instante, depois é necessário trabalhar a mesma até entender.           Quando tocas as músicas de tua mãe, ou o que teu pai ensinou, tens outro tipo de emoção, porque são lembranças tuas, fazem parte de uma época feliz na tua vida.

Agora ele conseguia tocar a música inteira.   Um dia Ron lhe disse, que precisava de um favor dele, um diretor de orquestra amigo dele, precisava de um pianista para ensaiar esse concerto com sua orquestra, me pediu alguém que conhecesse a música.   Para ti será interessante, pois ensaiaras com a orquestra. Que te parece?

Se é para ajudar, tudo bem.

Foram ao teatro, ficou emocionado, vendo a orquestra ensaiar uma música, depois o diretor, lhe agradeceu o favor.   Ajustou o banco, lhe avisou que lhe daria um sinal quando devia entrar, ele tinha treinado junto com o Ron, escutando um cd, com o piano junto com a orquestra.

Foi tudo como esperava, nem sabia que o diretor podia parar a orquestra para consertar alguma coisa, mudar um pouco o andamento nada disse, nunca tinha visto isso antes.

Mas tocou até o final.  A orquestra o aplaudiu. Ele não entendia, estava ali para fazer um favor.

Nos salvaste, pois o pianista desistiu da peça, diz que é muito difícil.  Mas vejo que o Ron não se enganou, o fazes magistralmente.

Amanhã ensaiamos outra vez pela manhã, nos apresentamos de noite. Ok. Ficou preocupado, como ia ser.  Ron assinou o contrato como seu agente.

No dia seguinte de manhã ao entrar no teatro, viu o cartaz, dizia Debut de Jerome Bradley, riu, mas se comportou normalmente durante o ensaio.

Depois foi com os dois a comprar um smoking, não gostou muito, lhe incomodava os movimentos.  Mas lhe disseram que tinha que usar.

De noite, lhe parecia normal, tinha tocado no restaurante para muita gente simpática, continuou reclamando do smoking, lhe impedia os movimentos.  Quando lhe disseram para entrar entrou, escutou aplausos, mas a luz não lhe deixava ver direito.  Quando se sentou, sentiu que seria impossível tocar com aquela roupa lhe incomodando, simplesmente tirou o casaco, a gravata, o maestro olhou lhe deu sinal, começou a tocar, foram até o final sem parar.   Os aplausos eram impressionantes, faziam muito barulho, foi quando viu finalmente a plateia, era imensa, todos de traje a rigor.  Fiz uma cagada.

Quando lhe perguntaram por que tinha tirado o casaco, disse que incomodava, que lhe impediria de tocar direito.   Muitos músicos o aplaudiram por isso.  Só então se deu conta que teria que tocar mais dois dias a mesma música.

Saiu ele sozinho, comprou uma blusa negra de gola alta, esse seria sua roupa nos dias seguintes.  Quando saiu a critica o elogiando pela apresentação, a simplicidade de se comportar, um dos críticos, dizia nasce uma estrela.  Sua tia lhe telefonou contente da vida.

Ron lhe veio perguntar se queria tocar a mesma música com a orquestra de San Francisco.

Nem pensar, quero aprender, trabalhar outra, fica muito sem graça sempre tocar a mesma música, mesmo quando lhe disseram o valor, disse que não, tenho dinheiro para comer durante muito tempo.   Era essa sua preocupação ter dinheiro para comer.

No último dia no teatro, recebeu uma visita no camarim.                 O dentista, não sabia que tinha conhecido uma estrela no trem.

Não sou uma estrela, apenas fiz um favor ao maestro, nada mais.  Como vai o senhor?

Bem, decepcionado porque não tive a chance de te conhecer melhor, tens ainda meu cartão?

Sim um dia te telefono, podemos almoçar?

Nisso entrou o Ron, ele o apresentou, mas quando entrou o Jo, a coisa esfriou, só disse são teus amigos?

Sim, devo tudo a eles, por quê?

Depois que foi embora, quando chegaram em casa perguntou o que foi que fez esse sujeito.

Ele gosta de jovens, é um bom filho da puta.  Os engana com promessas, depois abandona, um dos meus clientes se apaixonou por ele, depois de conseguir o que queria, o abandonou sem explicação, resultado o rapaz tentou suicídio.

Quando fui pedir, que fosse vê-lo se negou redondamente, dizendo que não passava de uma simples aventura sexual.

Bom saber disso.  Se eu tivesse experiencia, iria vingar esse rapaz, o faria se apaixonar por mim, depois o abandonaria.

Na semana seguinte foi com outros alunos, a um concerto de jazz.  Ficou louco com o que escutou.  Quando o piano começo a improvisar, quase teve um enfarte, ficou com o coração em suspenso.  Se lembrou de seu pai fazendo isso.   Improvisando uma música.

Experimentou fazer isso, tocar Moon River, depois acelerar, trocar ao contrário, estava na casa de sua tia, ficou um bom tempo fazendo isso, fez também com Over de Rainbow, com essa gostou mais, mudou o andamento, acelerando, como tinha visto fazer.  Sem querer começou a cantar junto, quando começou a improvisar, também o fez cantando.  Escutou um aplauso quando terminou.   Era Ron, na porta com seu aluno.

Caramba disse o outro rapaz, foi demais.  Outro dia fui te assistir, fazendo o concerto que não consegui tocar, por isso voltei as aulas com o Ron, ele tinha razão, eu não entendia a música.

Mas isso que fazes é sensacional, pensei outro dia, nasceu uma estrela, nada disso, isso sim é uma estrela.

Ron, sorria. Depois falamos.

Mas tarde conversando, como chegaste a isso, contou que tinha saído com outros alunos da escola, tinha ido a uma sessão de Jazz, que tinha ficado eletrizado, se lembrando de seu pai fazer isso.   Creio que sempre me levavam com eles as suas apresentações.   Porque sempre me lembro que não o via direito atrás do piano, quando muito via seus pés marcando ritmo.

Amanhã vou te apresentar uma pessoa, apenas toque não diga nada.

Nessa noite, sonhou, primeiro via o pé marcando o ritmo, depois como ele estivesse esticando o pescoço via o pai de olhos fechados, improvisando, era como se sua alma saísse de seu corpo, pelos dedos.

Acordou rindo da imagem.  Conseguia pela primeira vez, se lembrar de detalhes do rosto do pai.

Saíram logo cedo, Ron disse que iam ao Bronx, vais gostar ou odiar a pessoa que vou te apresentar, não se incomode com o jeito dele.  Tem dificuldade para se movimentar, isso o deixa frustrado.

Era um edifício antigo, com elevadores velhos, mas quando abriram a porta do apartamento, viu que era grande,  cheio de estantes com LP dos antigos, depois mais caixas de cd.  Uma senhora avisou, ainda está se levantando, lhes trouxe café.

Filho da puta, porque me fazes levantar tão cedo.  Mas quando viu Jerome, parou, quem é esse, algum protegido seu, para me encher o saco.

Ron disse, este senhor mal humorado se chama Gregori Malta

Ron disse baixinho ao Jerome, faça aquilo que fizeste com Over de Rainbow.  Apesar do mal humor do outro, tinha gostado do sujeito,  era um mulato que quando andava devia ser alto, tinha um tronco musculoso, se sentiu atraído por ele.

Sentou-se num piano de cola que estava perto da janela, olhou para fora, o dia estava estupendo, se esqueceu do resto, nem escutou o outro dizendo, na desafine meu piano.

Começou a tocar no ritmo que tinha feito da última vez, quando começou a improvisar, fechou completamente os olhos, se lembrou de seu pai, soltou a voz, cantou de traz para frente a música, ao mesmo tempo que tocava num ritmo completamente diferente.

Estava chorando quando acabou, enxugou as lagrimas com a costa da mão, se levantou apesar do silencio completo, foi se sentar com eles.

Quem te ensinou a fazer isso?

Creio que vi meu pai fazer, não tenho certeza, era uma criança.

Bem, o que queres?

Eu nada, o Ron me disse que vinha visitar alguém que queria me apresentar.  Falava olhando na cara dele, os olhos eram duros, mas sentia que atrás de tudo isso havia algo diferente.   O ficou encarando, até que o outro abaixou a vista.

Filho da puta, vieste aqui para mostrar alguém melhor do que eu não é.  Sei que errei, isso me lembro todos os dias que não posso me levantar sair correndo, fazer loucuras no piano, tenho que me contentar a dar aulas para idiotas.   Esse garoto não necessita de aulas, precisa só escutar grandes pianistas de jazz.   Porque não vais dar uma volta, enquanto converso com ele.

Ele não conhece nenhum grande pianista de jazz, te adianto.

Fora daqui de uma vez, segurando um pedaço de pão com uma mão, depois só com a boca, se dirigiu a uma estante.  

Jerome se levantou sem saber o que fazer.  Mas ele sorriu, disse, venha se sentar perto de mim, ficaram os dois escutando, músicas.   Parecia que se conheciam de toda vida.  Agora escute esse música, vê o que ele faz com essa nota, faz toda a improvisação em cima de uma nota só, depois passava para um músico completamente diferente.  Disse todos eles, amam a música de maneiras diferentes, seu piano é seu mundo.   Sem saber por que, se virou para ele, ficaram com o rosto muito próximo um do outro, se beijaram, nunca tinha beijado ninguém, foi uma coisa suave.  Foram interrompidos pelo barulho da porta se abrindo.

Jerome só teve tempo de dizer obrigado.  Quero voltar para escutar música contigo.

Era Ron, estava sentado fora na escada, mostraste para o garoto os músicos mais complicados desse pais.  Assim vai assustar o garoto.

Não acredito que ele se assuste com nada. Colocou uma música, escute bem, veja o sentimento que ele usa para tocar.

Sem se dar conta, começou a chorar, já tinha escutado aquilo, talvez tenha sido um dos últimos concertos de seu pai, estava trabalhando essa música, foi para o piano, começou a tocar junto como se estivesse fazendo um dueto.

Quem é esse?

Nelson Jameson Cruz, era filho de uma cubana com um trompetista de jazz, mas ele gostava do piano.  Lhe passou a caixa do cd.  

Ele ficou ali, alisando a caixa do cd, com a cara do seu pai, agora podia colocar cara ao homem que via sempre.

Ele só gravou esse cd, depois um outro no final de sua carreira, depois desapareceu no mapa, ninguém sabe aonde foi parar.

Podia conseguir para mim uma cópia disso.

Podes levar, depois volte para trazer, que vou te ensinar uns truques.

Quando se levantaram para ir embora, segurou sua mão, disse só não venha tão cedo pois gosto de ficar na cama até tarde, durmo muito mal a noite, falta alguém ao meu lado.

Ron se despediu, lhe dando dois beijos, ele fez o mesmo, ao sentir a pele de seu rosto junto ao seu, pensou, sei que vou amar esse homem.

Sabia que ele iria querer dar aulas para ti.  No seu momento foi um dos maiores, ganhou muito dinheiro, ficou como louco,  realizou seu sonho de ter um carro ultimo modelo, uma noite voltando para casa, um caminhão passou o sinal fechado, acabou com o carro, o homem que estava com ele, ele ficou preso no carro, até chegar a ambulância, bombeiros, foi tarde.  Desde então não se apresenta.   Gravou um outro CD que fez sucesso, mas só nas rádios.

Ele escutou tudo sem dizer uma palavra, queria era escutar o CDs de seu pai.  Passou o resto do dia fechado em casa, na segunda caixa, viu que tinha um papel com um número de celular, ligou.

Do outro lado, escutou, sou Gregori, sabia que ias me chamar.   Me enfeitiçaste, não consigo te tirar da minha cabeça. 

Nem eu de pensar em ti. Posso ir até aí.

Melhor não, posso me emocionar muito, isso não seria bom, depois tu eres um garoto, vamos separar as coisas.

Venha amanhã as 10 horas ok, mas venha sozinho, pois quero poder trabalhar contigo a vontade.

Anotou o endereço, no dia seguinte disse ao Ron que ia a casa do Malta, tinham se falado.

Hoje eu não posso ir.

Eu quero ir lá sozinho, tenho que enfrentar esse monstro.  Riu, piscando o olho para o Ron.

Quando chegou, tinha um enfermeiro lhe dando banho, sem pensar muito, ajudou o homem a fazer isso, secou suas costas, viu que ele ficava de piru duro, mas fez como se nada.  O enfermeiro riu, xi a coisa tá feia.

O ajudou a vesti-lo, sem fazer comentário nenhum.

Tomaram café juntos, depois que a senhora se retirou, foram para o piano. 

Toque alguma coisa que escutaste dos CD de teu pai.

Ele tocou a música mais complicada,  eu o ouvi tocar essa música milhões de vezes, nem sempre entendia o que queria dizer.  Uma vez ele fez isso, misturou essa música, com  esta, era a música que me ensinava a tocar  fazia assim começou tocando a composição, misturando depois com a de Debussy.  

Caramba, dizem que ele fazia isso nos shows.  Qual a tua idade?

Sorriu, vais rir, não sei direito, não cresci direito, tenho problemas de nutrição, sem querer contou toda sua história para ele.

Então porque me beijaste, por caridade?

Jamais, me senti atraído por ti, independente de tudo.  Se levantou foi empurrando a cadeira de rodas para o quarto, Malta reclamou, não faça isso, podes te arrepender. 

Jerome sorriu, eu necessito de amor, tu também, não faremos sexo, só vamos estar juntos.

Fechou a porta do quarto o ajudou a deitar-se na cama, tirou sua camisa, ele quando viu suas costas, não disse nada, ficaram abraçados um longo tempo, era como se estivessem em paz.

Bateram na porta para avisar que o almoço estava pronto. 

Já vamos.  Esta senhora cuida de mim a muito tempo, não se preocupe, é muito discreta.

Foram almoçar, ela lhe deu medicamentos, dizendo, não se esqueças que tens que descansar agora a tarde duas horas, eu vou embora, o garoto cuida de ti.

Foram escutar música outra vez, ele se sentou no chão com a cabeça nas pernas dele.

Sabes qual o problema Jerome,  posso me apaixonar por ti, se é que já não estou, isso seria horrível que você depois me abandonasse, não sei se ia aguentar.

Não sei Malta, alguma coisa em ti me atrai.  Quero escutar você tocando.

Faz muito tempo que não toco nada.

Vais negar tocar alguma coisa para mim, se levantou, segurou seu rosto, ficou beijando suavemente aquele homem que por algum motivo o atraia.

Ok, vou tocar, porque estou muito excitado, se tivesse o uso das minhas pernas te arrastava para a cama.

Tocou uma melodia diferente, não era jazz,  Venha tocar comigo, colocou a banqueta ao lado ficaram tocando juntos a música, de vez em quando seus dedos se roçavam.

Se viraram um para o outro, voltaram a se beijar.  Eu não tenho nada para te ensinar Jerome, queria somente te ver.

Acho que está na hora de descansar, o levou para o quarto, o ajudou a tirar as calças, tirou toda sua roupa, lhe disse baixinho, não sei fazer sexo, sempre fui abusado, me ensina.  Depois só podia pensar que tinha sido algo glorioso.

Viu que ele dormia, passou um pano húmido pelo seu corpo que suava, deitou-se ao seu lado, logo viu que tinha um pesadelo.  Ele deve ser como eu, muita coisa guardada.

Ficou segurando sua mão, viu que ele passava a dormir tranquilo.

Não estava acostumado a dormir de tarde, se levantou, com a música que ele tinha tocado na cabeça.  Sentou-se ao piano, a ficou tocando baixinho.  Em sua cabeça, pensou essa música parece mais uma sinfonia.

O escutou lhe chamando, queria levantar-se.  Enquanto o ajudava, lhe perguntou se não tinha tentado melhorar?

Vem todas as semanas um fisioterapeuta, mas teria que fazer uma operação muito cara, não tenho dinheiro.  Guardou aquilo na cabeça.

Perguntou se a música que tinha tocado antes, se tinha escrito partitura?

Não, não sei escrever partituras, o Ron insistia, mas me dava preguiça.

Pois então teremos um largo caminho por diante, vejo isso como uma sinfonia, riu dizendo que era um termo que tinha aprendido a pouco tempo.

Telefonou ao Ron, perguntando se ele estaria no final da tarde em sua casa. Ok, tenho que ir buscar alguma coisa de roupa, para dormir aqui com o Malta, mas falo contigo antes.  O ok do Ron era de preocupação.

O que estas tramando garoto?

Só farei uma pergunta, parecia mais adulto do que antes, confias em mim?

Sim, mas olhe lá o que estas tramando.

Escute como vou tocar tua música, vê como sente em tua cabeça.

Foi decompondo a mesma, uma abertura, a tocou, repetiu uma parte para finalizar.  Olhou para ele sentado ali ao lado, com a cabeça caída para frente, mas sabia que estava prestando atenção, ei lhe chamou.

Malta levantou a cabeça, corriam lagrimas pela sua cara.         Como pudeste captar o que sentia nesse momento?

Deduzi que essa música escreveste para o homem que estava contigo no carro.

Sim, eu o amava em segredo, era meu melhor amigo, vinhamos de um concerto, ele ia se encontrar com a namorada, mas claro, nunca chegou.   Tudo por culpa minha.

Não creio que tenha sido tua culpa, eu também quando abusavam de mim, pensava que era culpa minha, mas hoje entendo que não, estava era no lugar errado.

Posso tocar a segunda parte, como a dividi em minha cabeça?

Sim, mas se me emociono muito não pare, fico feliz em saber que me entendes. 

Foi até ele lhe dando um beijo.  Quero que saibas que nunca beijei ninguém na minha vida, eres o primeiro, espero que seja o último.

Tocou a segunda parte como a via.  Depois comentou, veja, aqui falta um pedaço, creio que poderias incluir alguma coisa.  Teremos que colocar em partitura, para poder arrumar isso.

O viu pensando, lhe disse, vou até em casa buscar uma roupa para dormir aqui contigo, tenho também que tranquilizar o Ron, depois volto.

Lhe beijou, tens que entender que não sei o que é amor, sou jovem demais para isso. Mas aprenderei contigo.

Quando chegou Ron, parecia um leão enjaulado.  Não lhe deixou falar.  A decisão de ir até ele foi tua.   Agora aguente as consequências.  Antes que pergunte fiz sexo com ele sim, mas sem essa coisa de penetração, os dois, estamos numa fase de namoro, permita que eu sinta isso por ele, essa atração é muito forte, nunca me senti bem com ninguém.

Nisso, ao virar-se viu Jo na porta.  Concordo com ele Ron, é um direito seu.

Bom que querias falar comigo?

Hoje escutei uma música dele, não é jazz, é mais uma sinfonia, precisa ser trabalhada, ele não sabe escrever partituras, diz que foi um erro não seguir teus conselhos, eu em contra partida aprendi graças a ti.  Queria trabalhar essa música, escrever, fazer algumas modificações.

Outra coisa, perguntei se o problema dele não tem solução, diz que sim, mas que é uma operação muito cara.  Podias verificar isso, se o dinheiro que ganhei não dá, podia fazer mais concertos para conseguir dinheiro.

Segundo preciso de outro piano na casa dele.  Não muito grande por causa do espaço. Além de precisar da tua ajuda para gravar a música.   Creio que depois tu podias transcrever para orquestra.   Nas tuas tardes livres iria até lá, nos ajudaria.  Em vez de ficar pensando besteira, como o que estou fazendo.

Virou-se para o Jo, perguntou quanto custa uma cadeiras dessas de rodas que a pessoa dirige, não sei como se chama, assim ele poderia se mover melhor.  Se pode alugar uma.

Jo ria da cara do Ron, o menino está crescendo a toque de caixa, para se incorporar ao rol dos homens, deixe de ser panaca.

Ron disse, posso alugar um piano, mando entregar lá.  

Eu me encarrego da cadeira de rodas, posso ir até lá para levar um amigo especialista, foi meu cliente, mas é especialista na área, para o examinar, bem como  ver os exames anteriores.

Ok. Os espero amanhã.  Desceu pegou suas coisas, muitos lápis, todas as partituras vazias que encontrou.

Viu que ele estava ansioso, quando chegou.   Pensou que eu não voltava mais, para disfrutar desse corpo.   Riu da cara dele, estou ficando sem vergonha.

Foi até ele o beijou, não vai ser fácil te livrares de mim, acabo de invadir teu espaço, tua vida, agora serás meu.   A senhora tinha deixado um jantar feito.

Ele sem graça disse que tinha que ir ao banheiro, tenho que tocar de cadeira.

Não se preocupe, te ajudo, não tenha vergonha de mim. O levou ao banheiro, passou para a outra cadeira, que encaixava na privada, antes o levantou, abaixou suas calças.  Vou te deixar tranquilo, quando acabes me avise.

Quando entrou, foi dizendo de brincadeira, comeste rosas, mas estavam estragadas, por deus, isso cheira mal. Mas não lhe dava tempo para falar, o limpou, como tinha visto o enfermeiro fazer.  Tinha dado descarga.  O levantou, passou para a outra cadeira, vou ficar musculoso de te levantar.  Arrumou suas calças, viu como não é difícil, o tirou dali, ficou de joelhos na frente dele, beijando seu rosto.

Menino, estas brincando com fogo.

Já me queimei, não tenha dúvida.   Venha, vamos trabalhar.

Colocou a cadeira ao lado do piano. Colocou partituras na frente, lápis, borracha, foi registrando cada nota da música.  Tocou essa primeira parte, seguindo a partitura,  vê aqui falta alguma coisa. Torno a repassar.  Quando se toca, não se nota essa nota, esta a mais.

Ficou ali, olhava para a cara dele.  Sabia que estava tocando mentalmente.  Ficaram horas nesse pedaço de música. 

Ao final reconheceu que nunca tinha trabalhado assim.  Aonde aprendeste isso?

Uma parte com o Ron, outra com a professora que me ensinou sobre partituras, outra vendo minha tia trabalhar com cantores, pois engolem notas.

Quando viram já era tarde,  Perguntou se queria ir ao banheiro outra vez.

O levou para mijar, mas fez uma coisa, eu te pego por detrás, tu vais mijar em pé como sempre fizeste. Ficou colado nas costas dele, os dois tinham a mesma altura.

Assim nunca vou acabar de mijar, só para ficares assim comigo.

Perguntou se queria dormir com roupa ou sem roupa.

Sem roupa se dormes ao meu lado. O colocou na cama, depois fez ele sua higiene, tirou toda a roupa.   Ele lhe perguntou baixinho sobre as cicatrizes.

Contou sem preocupação nenhuma, não tenhas medo, eu já coloquei para fora tudo isso, não tenho vergonha, não sabia me defender, tinha medo.   Pensava que o homem que fazia isso era meu pai.

Ficaram abraçados, ficaram excitados, um masturbou o outro se beijando, era delicioso  disse ao final.  Depois o limpou, voltou a ficar ao seu lado abraçado, perguntou como gostava de dormir, eu só posso dormir de barriga para cima, ele se encaixou ao seu lado.  Riu dizendo, nunca dormi com ninguém na minha vida, eres o primeiro em tudo, primeiro beijo, primeiro gozo, tudo se refere a ti.

No dia seguinte, se levantou antes, tomou banho, quando saiu a senhora lhe fez um sinal, disse que tinham uns homens na porta com um piano, ele abriu a porta de cuecas, disse aonde tinham que colocar.  Era de cola, mas pequeno, que fique encaixado ao outro.

Tinha fechado a porta do quarto, fazendo sinal para falarem baixo. Quando foram embora, a senhora estava de boca aberta, vendo as cicatrizes da sua costa.  Não se preocupe, isso foram maldades que me fizeram.

Nisso chegou o enfermeiro, o ajudou a dar banho, o colocar na privada, ajudou a limpar, pediu que lhe ensinasse a melhor maneira, depois ficou vendo como fazia exercícios com ele.

É um cabeça dura, devia estar fazendo fisioterapia no hospital, mas não, tenho que vir, fazer como posso.  Um dia me aborreço, como esse teu cu sujo, não vai poder se defender.

Sinto muito chegas tarde, ele é todo meu, respondeu o Jerome.

Já vi que a cama foi usada.  O ajudou a trocar os lençóis, abrir as janelas, contra a vontade do Malta, coloque na tua cabeça, meu homem que tua vida mudou desde ontem.

Ele ria, um garoto para revolucionar minha vida.

Quando viu os dois pianos, tinha um envelope em cima de um deles.  Cortesia de Ron Porter.

Para podermos trabalhar, foi um pedido meu.   Não te preocupe, é alugado.

Depois de comer, recomeçaram a trabalhar.  Cada um num piano, Malta comentou, olha se assim fica bom, esse pedaço ficou a noite inteira na minha cabeça.

Tocou, Jerome lhe deu ordem para tocar devagar, foi registrando nota por nota.

Depois do almoço, lhe disse creio que hoje não teremos cama, nem sexo, justo nisso bateram na porta.

Ron seu filho da puta, trouxeste esse demônio para me dar ordens não é, ia continuar quando viu o Jo, além de um homem negro de uma certa idade.

Que é isso um complô contra mim.

Jerome, o levou dali, pois viu que tinha ficado irritado com a entrada das pessoas.

Faça isso por mim, fui eu que pedi que viesse.  

Sabes quanto custa a consulta desse homem?

Não sei nem me interessa, quero saber se podemos te colocar em pé, para podemos fazer concertos juntos.  Te adoro, não estrague os meus sonhos.

Ele acabou concordando, depois de muitos beijos.

Vejo que o demônio faz milagres, foi o único comentário do Ron.

Deixou que o médico o examinasse, sei que tenho os teus resultados no hospital, amanhã te espero para fazer uma ressonância magnética para vermos como estamos.

Depois que ele foi embora, foi franco não tenho dinheiro para uma operação.

Jo tomou a palavra, admiro sua música, o Jerome é como meu filho, antes de mais nada sou psicólogo que o atendeu quando chegou aqui.  Ele sabe da minha vida também.  Recebi uma herança que me nego a usar comigo, a dispus de tal maneira, para ajudar as pessoas, no teu caso será uma honra que me permita te ajudar.

Ron, cortou, esse não tem jeito.   Sabe quem ele é?   Vais te lembrar, pois me escutaste falar dele, o amor de minha vida.  Pode confiar nele, agora o tenho baixo meu controle.  Ria a bessa.

Os dois estavam sentados, Malta perguntou o que eram umas caixas no chão.

Eu só obedeço ordens, é um aparelho para gravar o trabalho de vocês, pedido do Jerome, consultei aonde compro coisas, me disseram que é de última geração.

Agora enquanto monto com o Jo, toquem os dois essa música que ele não para de falar.

Malta ia para o piano novo, mas viu que ele já tinha colocado as partituras ali.  Foi para o seu, Os dois tocaram a música se olhando um no outro.  Quando terminaram, Jo estava boquiaberto, nunca imaginei tal entrosamento em duas pessoas que se conhecem recentemente.

Aliás a música é linda demais, o que achas Ron.

A cara do Ron, era indecifrável, realmente como falaste Jerome, está mais para um sinfonia, mas faltam coisas.

Veja estamos trabalhando a primeira parte, já escrevi as modificações que fizemos, me diga o que acha. 

Espera vou ligar isso, assim gravamos.  O rapaz me disse que se pode falar ao mesmo tempo, me ensinara depois a retirar coisas que não me interessam.  Tenho que aprender, ser mais moderno.

Toque tu primeiro Jerome.

Ele seguiu a partitura.  Não achas que fica melhor.

Talvez, experimente mudar para dois tons mais abaixo, no princípio, depois vais subindo.

Experimentou, ficava bem.   Agora vamos escutar como foi a primeira vez, depois com a mudança.

A cara do Malta era fantástica, estar rodeado de amigos, trabalhando lhe fazia bem.

Gosto disso, parece realmente uma abertura, sem perder nenhum contexto. 

Teremos que montar inteira, para depois pensar como seria como uma orquestra.

Estas louco, isso custaria uma fortuna que não tenho.  

Olha garoto, vocês estão tirando um velho com o pé no lodo, que está farto de atender músicos medíocres para passar a tarde, pois não tem nada o que fazer. Portanto não encha o meu saco, me escute por favor, me deixa fazer isso, salvaras minha vida.  O falou com tanta veemência que até o Jo se surpreendeu.

Jo, eu dou aulas de tarde para não me aborrecer, não pensar besteiras, mas as vezes acho que estou perdendo tempo, pois tenho que aguentar músicos medíocres.   Isso para mim seria viver outra vez.

No dia seguinte foram ao médico, Jo veio busca-los de carro, o acomodaram foram para o hospital.  Fizeram a ressonância, o médico o examinou melhor, aproveitaram para fazer todos os outros exames.

Daqui dois dias nos falamos.  Quando chegaram em casa, tinha chegado a outra cadeira de rodas, ele ia reclamar, mas quando viu já estava sentado,  O rapaz carregou mal entrou aqui, disse que podes usar tranquilamente.  Deves carregar a bateria todas as noites.

Gente não posso pa……não terminou de falar, pois o beijo que o Jerome lhe deu, na frente de todo mundo, bastou.

Bom vamos trabalhar.   A senhora avisou que tinha feito almoço para todo mundo.

Jo no almoço estava dizendo que tinha voltado a tocar clarinete, pois uma parte da música lhe fazia na cabeça como o clarinete.  Estive trabalhando a noite inteira nele.  Podem me escutar depois.

Nem sabias que tocava o Clarinete?   

Aprendi com o Ron, ele me ensinou, pois era o único instrumento que gostava.  Fiz aulas muito tempo, cheguei a tocar num grupo.  Mas claro foi quando me desencaminhei.    Mas agora estou entre amigos posso fazer.

Depois do café, tocou para eles como tinha sentido, tinha memorizado a música, toquei até de madrugada, tive que colocar o despertador, pois senão ia perder a hora.

O que achas Ron, fica interessante.

Vamos escutar, realmente fica interessante, os dois no piano, tu no clarinete.   O som ficava diferente porque engrossava.    Acho que tem uma parte que ficava legal no clarinete, ainda não escrevi a partitura, mas escute, disse qual o pedaço para o Malta, tocaram os dois.

Jo estava com os olhos fechados.  Quando pararam, viram que o Ron escrevia a partitura, podem tocar desde, fez o sonido do pedaço, pegaram daí.   Ok, já tenho, veja se é isso, passou para o Jo a partitura.  Ele colocou em cima do piano, foi tocando.

Suba um tom a mais, da segunda parte para o final. Tocou outra vez, depois ouviram as duas versões.  Ficava genial.  Tente tocar isso junto com o piano no início, deixando a partir de tal parte, para um solo de clarinete.

Malta aplaudia, fica ótimo.

O médico levou uma semana, para voltar a contatar, mas nesse tempo tinham trabalhado diariamente.  Jo tinha pedido um tempo na universidade, só atendia de manhã, trabalhavam todos os dias, chegavam na hora do almoço.   A senhora fazia uma lista de compras, eles traziam tudo que ela pedia, agora a comida era mais farta.

Malta estava diferente, de noite, se abraçava ao seu Jerome, dizendo, quando te vi, no primeiro momento fiquei com raiva, mas depois me senti tão atraído por ti, que me esqueci.

Espero que não me esqueças, quando voltares a andar.

Imagina, quero fazer sexo contigo inteiro, um dia pediu ao Jerome se podia penetra-lo, ele disse que nunca tinha feito isso, mas com jeito encontraram uma posição.  Os dois ficaram agarrados no final, sem querer se separar.  Contínuas, excitado dentro de mim, comece outra vez.   Depois pediu que o levasse ao banheiro, tomaram um banho juntos. Rindo como duas crianças.   Já não tomava tantos remédios, dizia que dormir com ele tinha melhorado sua vida.

Quando já estavam quase na metade da música, agora mais completa, mais dividida, registrada no papel, além da gravação.   O médico disse que tinha um espaço na agenda, que se queria operar tinha que ser agora.

Jerome convenceu o Malta a não deixar para mais adiante,  conseguiram um quarto isolado, trabalhariam com teclados, fariam ali o trabalho.

A operação foi um sucesso, devia começar em seguida a fisioterapia.  Saiu quase um mês depois do hospital, de muletas. Teria que usar a mesma durante um ano pelo menos.

A melhor surpresa foi que um dos enfermeiros tinha tocado saxofone em várias bandas, se juntou a eles.  Agora a coisa ia tomando corpo.

O processo da música já está quase acabado, faltava percussão, mas isso o Ron conseguiu, um jovem Africano tinha aparecido na escola, estava vivendo na rua, mas conseguiram um lugar para ele viver.  O levou um dia, se encaixou rapidamente no grupo.  Começou a trazer mais coisas para usar como som.

Quando terminaram, fizeram uma seção inteira, tocando a música completamente, inclusive com uma parte só de percussão.

Ron levou a gravação, mostrou para seu amigo maestro.  Esse disse que estavam ensaiando um concerto, os músicos, estão fartos, porque entra ano sai ano, poucas músicas novas temos para tocar.   Venha com teu pessoal, quem sabe como vão reagir.

Pisar num palco outra vez, mesmo que fosse de muletas, para o Malta foi sensacional, vibrava.

Tocaram como tinham imaginado.  Quando acabaram, ele deixou que Jerome, explicasse todo o processo.  Vocês são músicos profissionais, eu só um iniciante, mas quando escutei a música desde o começo me pareceu uma sinfonia.

Escrevemos para os instrumentos que tínhamos, mas podemos trabalhar, incluindo os outros.

Todos se levantaram, mostrando claramente que interessava.

Foram dois meses de trabalho.  

As noites agora, eram fantásticas, Jerome ainda tinha medo de que lhe penetrasse, mas um dia venceu, permitiu que o fizesse, nada a ver com o que tinha sofrido. O prazer que nunca tinha sentido agora era completo.  Agora eram completos um com o outro.

Sua tia o avisou que ficaria pelo menos mais dois anos na França, tinha assinado um contrato, mais largo, pois agora atendia a todos da Opera de Paris, tinha alugado uma casa, perguntou se queria vir.   Embora soubesse pelo Ron tudo que acontecia.  Estava tentando encaixar a estreia com uma ida a NYC.

Estava emocionada, bem como todos, o maestro tinha cedido a regência da peça para o Ron, era sua estreia como maestro.

Tocaram uma musica na primeira parte, antes de sair do palco, contou que tudo o que veriam em seguida era uma belíssima experiencia, um grupo tocaria com a orquestra, uma musica, com a adaptação feita por um jovem brilhante pianista, que foi aglutinando uma série de pessoas em sua volta para fazer ressurgir um musico excepcional.  Espero que gostem.

A orquestra estava vestida de negro, mas de camiseta com o nome da composição, eles também.  Quando abriu a cortina estavam todos já em cena, assim não viam o Malta entrar de muletas.

Ron deu início a música, parecia que no ar houvesse eletricidade, porque estavam não só eles entusiasmado, bem como os músicos da própria orquestra.

Fariam quatro apresentações, cada uma num final de semana seguinte. O final da apresentação foi apoteótico.

Aplaudiam em pé.   Pediram um bis, tinham ensaiado a música de seu pai, só que incluía o que ele tinha feito a Suíte Bergamasque, de Debussy,  quando terminou, disse que tinha aprendido essa música assim, que era de seu pai, Nelson Jameson Cruz.  O publico de novo aplaudiu de pé.

No dia seguinte a crítica não tinha qualificativo, dizia que a orquestra finalmente tinha se aberto ao novo.   Que a música era impressionante, que esperavam logo a ver no mercado, as companhias de Streaming logo queriam lançar ao mundo.

Contrataram um advogado para gerir os contratos, as seguintes apresentações foram um sucesso, pois com a crítica se venderam todas as entradas.

Sua tia sugeriu, porque eles não se mudavam para ficar junto com o Ron, aceitou o relacionamento dos dois muito bem, quando quisessem fossem a Paris.

Havia entre os dois, um estranho relacionamento, como se um completasse o outro, mas em tudo, se entendia em todos os sentidos.

Tinham dado ordens ao agente que os representava, no caso o Ron, que só tocariam juntos, nunca em separado.  Inclusive agora Malta se atrevia a tocar música clássica.

Quando Jerome, começou a compor ele mesmo, Malta o ajudava, agora tinha aprendido a escrever partituras,  era um trabalho dos dois.

Criaram o grupo para tocar jazz, prepararam um cd, com as músicas de todos, incluindo o Ron que tinha algumas escondidas.   O africano, conseguiu documentação, uma casa, mas se negava a sair do grupo.  Segundo o Jo, era um grupo que tinha se salvado uns aos outros.

No lançamento do cd de Jazz,  deram uma entrevista na televisão.  Era interessante, num sofá ele com o Malta, noutro, Jo junto como Ron, no outro os outros dois.  Eles pediram para ficar para o final.  O que tinha sido enfermeiro, dizia que tinha sido salvo no hospital, o africano, pelo Ron.       Depois a pergunta ao Ron, foi como fazia para ir descobrindo as pessoas.  Ele apontou ao ouvido, o entrevistador pensou que era surdo.  Riram muito, não quero dizer, ouvido para ouvir música nas pessoas.  Porque se a música não está na pessoa, essa pode ter a maior técnica do mundo, mas a música não emociona.

Jo respondeu que estava farto de dar aulas para quem não queria aprender, pois tinha sido salvos por eles.

Malta falou primeiro, ele me salvou, estava amargado em casa paralitico, Ron entrou casa adentro, com esse jovem arrastado, me empurrou para que escutasse ele tocar.  Foi amor à primeira vista.  Nunca mais nos separamos.  Não posso conceber minha vida sem ele.

Uau, disse o entrevistador, isso é uma declaração de amor.

Bom ele é correspondido, tive uma infância miserável, sem saber o que era amor, encontrei nos meus amigos, mas nele encontrei um pouso cheio de amor.   Nos entendemos, estamos agora trabalhando minha primeira composição.   Parto da composição de meu pai, uma que descobri no seu último CD.

Quem é seu pai?

Nelson Jameson Cruz, alias se alguém sabe aonde está, me avise por favor, gostaria muito de saber dele.

Os quatro tocaram a música do Nelson, em seguida choviam telefonemas, cada um dizia uma coisa.  Seria difícil separar tudo.

Dias depois o advogado, finalmente depois de fazer uma triagem nas pistas falsas, falou com uma mulher, que o tinha conhecido.  Viveu anos num asilo na florida, sofria de Alzheimer,  talvez devido a bebida.  Que tinha morrido há dois anos atrás.

Mandou uma foto de seu tumulo, ali mesmo no lugar que vivia.  Uma foto sua já acabado pela doença.

Na cabeça do Jerome, apesar de nunca ter tido esperança, brotou um turbilhão de emoções, que desembocou numa música composta por ele.

Inclusive cantava junto.  Malta fez o arranjo.  Quando surgiu a oportunidade de fazerem uma viagem, fizeram apresentação em vários lugares.  Um dia por surpresa num concerto apareceu a senhora do restaurante.  O abraçou, dizendo, eu sabia que tinhas futuro.   Fico contente em ter participado disso.

Depois foram pela Europa, Berlin, Madrid, acabaram em Paris, sua tia tinha conhecido um maestro, estavam vivendo juntos.   Pela primeira vez tinha uma pessoa firme em sua vida.

Continuaram compondo juntos, cada qual criando coisas novas.

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Essa bendita música de Bach, ele detestava, perguntou ao monitor, se não podia colocar outra, a desculpa era que essa música relaxava.

Pois a mim me faz ficar tenso, pois me irrita muito, esse violino, é muito chato, alcança meu celular, escolherei a música que quero para fazer fisioterapia.                        Escolheu a música, o fisioterapeuta ficou alucinado, como gostas desse tipo de música?

Necessito de energia, essa música me dá isso, vontade de lutar, era sua música preferida, Tannhaüser de Wagner, era vibrante, deixou de escutar o homem falando, sabia todos os exercícios que tinha que fazer.  Só falou quando pediu que o pusesse na barra paralela, queria experimentar, para ver se podia se colocar em pé.

Fazia isso numa base militar, graças a sua tia.  Ela era comandante da Marinha, médica, no momento estava de viagem a uma base militar, para dar orientação, sobre um novo sistema de amputação aos médicos que trabalhavam ali.   Esse novo sistema, fazia com que fosse mais fácil depois o uso da prótese.   Era uma mulher respeitada.

Ele tinha tido sorte, quando a avisaram o que tinha acontecido, foi o mais rápido possível a cidade aonde vivia com sua mãe, seu pai.  A tragédia estava consumada.

Ele tinha sido gestado para salvar sua irmã,  seria o doador de medula óssea,  para ela, era a paixão dos pais, uma garota linda,  o único jeito de salva-la era ter um irmão compatível com ela, depois de todas as pesquisas para encontrar um compatível.  Por azar, ela morreu antes de ele nascer, tinham feito contas erradas, ele nasceu quase um mês depois dela partir.

Seus pais nunca o perdoaram, como se culpa fosse dele.  Era quando pequeno, duas pessoas complicadas, bebiam muito, tinham brigas homéricas, um acusando o outro, era um inferno, ele ao contrario era um garoto tranquilo.  Inteligente desde pequeno, quando percebia o que ia acontecer, se escondia, por mais que o procurassem não eram capaz de encontra-lo.  Só aparecia depois da tormenta passar, ou seja, quando caiam na cama, bêbados de tudo.

Tudo foi a pior com o passar dos anos, a polícia chegar diante da casa, chamada pelos vizinhos que escutavam os gritos, coisas quebradas, já era uma coisa habitual.  Ele aprendeu a chamar a mesma, sabia inclusive com quem falava.   Infelizmente não tinham serviços sociais da cidade.

Quando entrou na secundaria, era um bom atleta, estudioso, seus trabalhos que fazia na biblioteca era sempre os melhores, mas amigos nenhum, quem queria ser amigo de um sujeito que os pais viviam indo presos, estavam sempre bêbados.

Na frente de sua casa vivia a melhor amiga de sua tia, avisava a esta do que estava acontecendo, mas ela não interferia, pois seu cunhado não a suportava, tampouco sua irmã, porque era lesbiana.   Militar ainda por cima.

Seus dias, eram sair para a escola, tomando café que ele mesmo preparava desde os 10 anos, um pedaço de pão que normalmente estava velho, mas tinha que forrar o estomago, quando saia, a amiga de sua tia, o estava esperando na esquina, com um lanche para a escola, ela trabalhava na biblioteca.   O deixava ficar ali, todo o tempo possível.  Depois de treinar natação que adorava, pois na água se relaxava.  Podia ficar horas na piscina, depois das classes, comia as sobras do lanche, ia para a biblioteca.  Estudava, fazia as tarefas, conseguia sempre aprovar com louvor.   Como as vezes não tinha o que fazer, passava a pesquisar os trabalhos do ano seguinte.   Se adiantou tanto, que com 16 anos, estava pronto para ir a Universidade.   Sua situação era precária, se sua tia não mandasse dinheiro para ele, pela amiga, ele não sabia o que faria.   Escondia esse dinheiro.  Ela sempre lhe mandava uma carta junto, pedia desculpas, mas no momento estava fora do pais.  Assim foram passando os anos até que a situação chegou ao limite.    Não havia semana que os pais não fossem parar na cadeia, era ele que chamava a polícia quando a coisa passava dos limites.

Chegou em casa, ia se esgueirar para seu quarto, quando sentiu que o pegavam por detrás, desta vez, não vais escapar.  Seu pai era tremendamente forte, quando estava nessa situação era incontrolável.   O jogou no chão da cozinha que estava cheia de sangue.   Ali estava sua mãe, cheia de marcas na cara, pelo visto tinham brigado antes dele chegar.

Ai estão os dois culpados de minha menina ter morrido, agora irão pagar caro, começou a gritar a ela, que era uma idiota, que não sabia nem contar, era sempre a mesmas acusações, que o tinha enganado, os tiros ele sabia por aonde iam, se esgueirou até o telefone, quando viu o revolver em cima da mesa, ficou apavorado, quando a mulher atendeu, ele disse do revolver, que estava descontrolado, mas já era tarde o primeiro tiro foi na cabeça de sua mãe, o segundo em direção a ele, tentou escapar, mas foi pior, o tiro o atingiu, tudo ficou negro.   Segundo soube depois, o terceiro tiro foi para ele mesmo, colocou a arma debaixo do queixo disparou. Quando a polícia chegou tudo era um mar de sangue.    Um policial viu que ele ainda tinha pulso, foi para o hospital, mal chegou ao fazerem um scanner, viram que a bala estava alojada na coluna, que teriam que operar, mas não havia nenhum médico especialista nessa área.

A amiga de sua tia, a chamou, contou o que tinha acontecido, como ele estava esperando por alguém que o pudesse operar.  Sua única resposta, a cavalaria, vai chegar.   Na pequena cidade, não estavam acostumado que um helicóptero do exército descesse ao lado do hospital, dele saíram várias pessoas, direta para a sala de operações, estavam contendo uma hemorragia.   Nita, ou Anita, sua tia, tomou rapidamente conta da situação, tinha trazido com ela uma enfermeira especializada, bem como um médico amigo dela, treinado especialmente para esses casos, ele olhou rapidamente os scanners, tomou providências.

Abriu sua maleta de cirurgia de emergências,  sabia que os hospitais dessas cidades lhes faltava de tudo, teriam que opera-lo de lado, pois a hemorragia era na parte da frente por aonde tinham entrado a bala.  Viu que a coluna estava inchada, com sumo cuidado, muita paciência, numa operação de horas, conseguiu retirar a bala, bem como parar a hemorragia, mas claro, nada era perfeito, nesse tipo de operações, sempre se afetava os nervos em volta.

Quando ele saiu de coma dias depois, a pessoa que viu ao seu lado, foi sua tia, segurando sua mão.  

Olá meu garoto, agora já estas fora de perigo.  Avisou a enfermeira, para chamar o médico, eles estavam aproveitando esses dias para atenderem todos os casos que haviam no hospital, que no momento não contava com médicos para operação.

Quando esse saiu da sala de operações, foi dar uma olhada no paciente.  Ele olhou ao médico, pensou, parece um deus.  Alto, com os cabelos loiros imensos, rebeldes, uns olhos azuis cristalinos.

Me olhas assustado, por quê?

Pensei que estava no céu, que tinha morrido. Pareces a imagem de um santo.

Sua tia riu, como sempre fazia, sua risada era um escândalo, esse senhor é o maior pecador que conheço.   Estas em terra firme, marujo.

O médico se sentou, primeiro se espreguiçou, estou morto de cansaço, primeiro olhou os aparelhos,  que eram velhos,  bom, já podemos ir embora, o preparam para levar para a base em San Francisco.

Ela o tranquilizou, mandei enterrar teus pais, aos lados dos avôs, embora não merecessem estar ali.  Esse dois nunca foram certos da cabeça.

Ele não fez, nenhum comentário.  Nunca tinha recebido carinho, um gesto sequer, tinha sido o filho que chegou tarde demais para salvar sua irmã.

O transportaram numa maca, até o helicóptero, foi para o outro hospital.   Lá o médico, lhe contou como ele estava, quando comentou que não sentia as pernas.  

Se tivéssemos sabido ao momento, não como aconteceu, quando cheguei, os tendões, os nervos estavam todos inflamados, pode levar pelo menos uns dois anos, para que possas outra vez andar.  Mas isso não te impedira de estudar, de viver.  Nesse tempo terás que usar cadeira de rodas, fazer fisioterapia, mas chegaras ao porto.

A princípio foi duro, o que como sempre gostava, era quando o colocavam na piscina para fazer exercícios, aprendeu rapidamente a sobreviver a sensação que ia se afogar.

Agora que sua tia estava fora, ele se movia pela base, diretamente a fisioterapia, em cadeiras de rodas especiais, ia falando com as pessoas, todo mundo o tinha recebido bem.

Sua tia teve que mover os papeis, conseguir que o juiz lhe desse a guarda dele, bem como a adoção por parte dela, para que ele pudesse seguir usando o sistema médico da marinha.

Convivia com os soldados que voltavam da guerra, mutilados, com problemas maiores que o dele.    Com isso entendeu que ele estava em melhor situação.  O que ajudava era que ninguém sentia pena dele, estavam preocupados mais com seus problemas para não ficarem em cima dele.     Fazia terapia, seu psicólogo dizia que pelo menos com ele escutava outros problemas que não fosse os complicados, como dos rapazes que voltavam da guerra.

Um em particular lhe chamava atenção, era um soldado que tinha voltado sem as duas pernas, mas era fortíssimo, da mesma maneira que era violento.  As vezes os enfermeiros tinham que usar força com ele.   A primeira vez que o encontrou na piscina, o olhou com indiferença, ele fez o mesmo, fez seus exercícios do outro lado, sem se importar com a presença dele, num determinado momento se voltou, viu que o mesmo estava no fundo, se afogando, nadou até lá mergulhou o trouxe a tona, ajudado pelos enfermeiros que tinham se distraído, o colocaram para fora da piscina.

Na vez seguinte, o olhou com um olhar dolorido, dizendo por que não me deixaste morrer?

Porque tua vida é importante, deves superar toda tua dor, seguir em frente, poderás andar antes de mim.

Mas tens tuas pernas?

Mas não me servem muito, pois estão mortas.

Lhe estendeu a mão, Howard, o meu é Bruce, como o homem morcego.

Ficaram rindo disso.  Levaram um tempo para falarem do que lhes tinha acontecido.  Quando disse a Howard que seu pai tinha atirado nele, que tinha tido uma infância horrorosa, deixou de reclamar.  

Em breve Howard, estava experimentando próteses, realmente começou a andar antes dele, ele continuava não sentindo as pernas, mas não se importava, ia a universidade, tinha hesitado muito que carreira queria seguir.   Tinha pensado em medicina, mas viu que seria difícil, por isso optou por outras das coisas que gostava, matemática pura, física.   Mas o que mais lhe apaixonava era a matemática.

Nos primeiros dias de aula, o professor foi colocando um teorema no quadro, quando terminou, ele já tinha a resposta, pois tinha feito o mesmo.  Pediu para falar, o senhor cometeu um erro de proposito para que os alunos não encontrem a solução. 

Levante-se venha até aqui, corrija o meu erro.  Ele foi em cadeiras de rodas, o outro não tinha percebido, como havia um estrado o professor pensou que ele não iria subir, mas nem por isso, seus braços eram fortíssimos pelos exercícios que fazia.  Inclinou a cadeira, deu um impulso, foi até aonde estava o erro, mostrou,  pediu a um colega, venha aqui, me ajude, não tinha vergonha de pedir ajuda.  Indicou como tinha que seguir, bem como a resposta.

O professor disse que tinha ganhado dois pontos, pois tinha percebido o raciocínio, bem aonde estava o erro proposital.

Quando ele disse ao professor, que já tinha resolvido todos os teoremas, as teorias que seriam a classe esse ano.   Lhe fez um exame, ele acertou tudo, inclusive um que o professor, tinha escrito errado, ele consertou, foi aprovado,   Acabou terminando a Universidade em dois anos, agora com 23 anos, se questionava o que fazer.  Continuava não sentindo as pernas, o médico no último exame, lhe tinha dito que suas reações eram normais, mas que talvez fosse uma coisa psicológica.

Por isso hoje queria tentar a barra. Ficar em pé para ele era fundamental.  Dois enfermeiros o ajudaram a se colocar na barra.  A sensação de estar em pé, com sua música preferida de fundo, eram fantástico, sentia vontade de vencer.  Apoiou  os braços na barra, tinha força suficiente, seu corpo musculoso, era impressionante.  Levou o direito para frente, depois o esquerdo, nem que se arrastasse iria até o final.  Qualquer coisa o distraiu, retirou o braço direito da barra, mas continuava em pé, a perna se deslizou para frente.  Tinha dado o primeiro passo. 

Semanas depois já conseguia mover as pernas na piscina.  Até mesmo sair dela sozinho, se sentar na beira da mesma, conversar com seu amigo Howard, que disse que o psicólogo lhe daria alta em breve.   Estava louco para voltar para sua cidade no interior do Texas.   Nada me segura aqui.

Ia dizer para ficar, mas não se atrevia, ia perder um amigo, talvez seu primeiro amigo na vida.

Howard riu, dizendo, precisas ver tua cara, não queres que vá embora, diga, mas tens que dizer por quê?

Vou perder o primeiro amigo que tenho na minha vida, vai ser difícil, vou sentir muito tua falta.

A resposta tampouco esperava.

Eu de ver esse corpo incrível que tens, estavam só os dois na piscina, sentados lado a lado, caramba vou ter que tomar iniciativa de tudo. O puxou para ele, lhe deu um beijo na boca, sem ti, não sei o que faria.  

Foi melhor do que pensou, mas ainda era difícil se manter em pé, a não ser com muletas, o médico tinha lhe falado que em breve ele poderia usar bengalas.

Estava sozinho em casa, o convidou para ir até lá, teve a primeira relação sexual de sua vida, mas de qualquer maneira Howard foi embora, de um dia para outro disse que tinha que partir, pois sua família necessitava dele.   Foi uma despedida cruel.

Ele precisava encontrar um emprego, mas claro, tinha escolhido uma profissão difícil, se candidatou uma pós graduação no MIT, Massachusetts Institute of Technology, mandou todos os trabalhos, esperou ansiosamente.

Sua tia nessa época voltava de uma viagem, em que tinha estado mais de seis meses fora, o apoiou para conseguir o que queria.   Em breve estarás andando normalmente, nada mais natural que sigas tua vida.   Eu poderia me aposentar daqui uns três anos, mas penso em seguir trabalhando, afinal foi o que fiz a vida inteira.

Ele foi aceito, isso encheu seu coração de esperança, lá continuaria sua reabilitação, bem como podia usar a piscina da universidade.

Se dedicou com afinco, buscou uma coisa que fosse interessante para a pós graduação, embora num primeiro momento ficasse decepcionado com os professores, esses mantinham uma distância considerável com os alunos.  As perguntas, as dúvidas, eram tudo com hora marcada, com antecipação.                 As vezes quando chegava seu momento de falar com o professor, ele mesmo tinha resolvido sua dúvida,  mas nem assim recebia uma felicitação, finalmente entendeu que esse era um procedimento de todos.           Aproveitou seus momentos livres para fazer cursos de língua, para ajudar nas suas pesquisas.          Viu num quadro, um chamamento a uma análise matemática de alto rango para o exército, por curiosidade foi, era para a agência espacial.   O salario era bom, mas falou antes com sua tia.  Ela lhe disse para pensar muito era uma vida sacrificada, isolada, continuaria tendo poucos amigos, lhe passou um número de celular, levou dois dias para conseguir falar com a pessoa.   O homem que o atendeu, um amigo dela, lhe disse que depois o chamava, pois vinha de dois dias sem descanso, estou muito cansado, preciso dormir.

Realmente devolveu a chamada, quando lhe fez a pergunta que o preocupava, o outro foi claro, viveras num gueto, estou aqui a cinco anos, mal sei os nomes dos meus  companheiros, embora passemos o dia inteiro fechados numa sala.  As vezes como ontem, quando me chamaste, faziam dois dias que não dormia, estou esperando acabar o meu contrato para cair fora, estou totalmente isolado, os outros tem família, eu não, chego a uma casa vazia, como comida congeladas, ou sanduiches.  Pode ser interessante a nível intelectual, mas chegas a uma idade que o nível intelectual só não compensa.

Quando pediram sua resposta, declinou, tinha vivido toda sua infância e juventude fechado em si mesmo, precisava de gente para viver, nem ali no MIT, tinha feito amizades,  começou sim a sair, procurar viver.   Mas como as pessoas estavam todas viradas para seu mundo particular, era os famosos romances de uma noite, depois era capaz de encontrar a pessoa, esse sequer dizer bom dia.

Recebeu uma oferta para a Universidade de Nova York, aceitou, era um contrato de dois anos, para substituir um professor que fazia pós-graduação na Alemanha.

Seu primeiro dia de aula, foi um desastre, todos alunos, ali com um celular na mão, esperando tudo de mão beijada, fez o que seu professor tinha feito, colocou no quadro um teorema com dois erros,  ficaram desesperados, mas não encontraram a solução.    Ele parou no meio da sala, fez a pergunta, vocês analisaram tudo que está no quadro.  Todos responderam que sim.

Nada estranho, silencio, levaram até o final da aula para descobrirem os dois erros.  Um dos alunos reclamou que isso era ter que pensar muito.   Que o professor anterior, lhes dizia o exercício do livro, nada mais. 

Bom eu como não sou o professor antigo, aviso, minha aulas são para pensar, não quero ver nenhum celular, em cima das mesas.   Estão aqui para pensar, não para passar o tempo.

Com alguns funcionou, ele ficou surpreso, pois pensava que os que escolhiam essa matéria, era porque gostavam de matemática.   Deu um exame surpresa, só dois podiam dizer que teriam sido aprovados.   Abriu sua sala para consultas, nenhum aluno.

A única vantagem que tinha, era que começava a ter vida social, saia para jantar, conheceu gente nos bares, teve aventuras, ia aos museus pela primeira vez, a aprender arte.  Enfim tinha seu lado bom.

Agora as turmas que tinham três aulas na semana, um dia usava para dar uma prova.  Resolveu fazer uma coisa, colocava a teoria inteira, com final, tinham descobrir um erro colocado ali de propósito.  A maioria começou a mexer a bunda como ele dizia, um deles, que se achava um sabe-tudo, disse que isso não era motivação.   Então o desafiou a encontrar os erros.  Esse por mais que revisava não encontrava.  Mostrou que eram duas besteiras, uma virgula, uma letra mal posta.  Se vais te dedicar a pesquisa, um pequeno erro será uma tragédia.

A que pensas em te dedicar. O rapaz disse que pensava em entrar para a Nasa.

Bom eu fiz o teste de seleção da Nasa,  não aceitei por muitos motivos pessoais, me lembro perfeitamente do exercício principal, vou colocar no quadro, todos tem uma semana para resolver, podem vir me consultar para qualquer dúvida.

Pela primeira vez, alguns alunos foram a sua sala.  Aproveitou para conversar com eles, para saber a meta de cada um.  A maioria era ambiciosa, mas desmotivada.  Procurou saber aonde estava o problema.   Não foi difícil, a maioria era de família rica, na verdade eram inteligentes, mas não tinham problemas a curto prazo.

Entendeu, aonde estava o problema, a muito custo, buscando motivar os alunos, aguentou os dois anos de contrato.   Quando o professor voltou, conversou com ele, como fazia.

Não me preocupo muito, tenho meu trabalho a parte, o que quiser aprender que se esforce, os que não, deixo irem ver a vida.

Se sentia frustrado com a vida de professor.   Um conhecido, com quem tinha saído duas vezes, lhe disse que ele vinha do sul, de Georgia.

Pensou muito, mandou seu curriculum, para o Instituto de Tecnologia de Georgia, foi aceito para o semestre seguinte.  Nesse tempo o contratavam para ser um professor com a obrigação de consultas para os alunos.   Decepcionado com o de NYC, quase não aceitou, mas depois pensou, esse tempo eu poderia ir me adaptando a cidade.   Lhe ofereceram um alojamento, num edifício para professores, ele era o único que não tinha família.

Foi interessante.  Ele tinha que assistir aulas com os alunos, depois os recebia, sabendo o que o professor tinha proposto.   A ânsia de aprender, principalmente dos bolsistas, a maioria eram negros, era diferente.  Tinha paciência de reexplicar numa linguagem coloquial, a teoria, dizia sempre vocês tem uma arma excepcional, a cabeça, façam com que funcione, questione o porquê, recomessem o exercício quantas vezes façam falta.  Descobriu no meio deles um de uma inteligência impressionante, mas cometia falhas por sua ansiedade.

Conversou muito com ele, era um mulato sarará, levou um tempo para entender, pois não o via em nenhum grupo.  Este lhe explicou, para os brancos, sou negro, para os negros sou branco, então não sei aonde me situar.

Contou a ele, seu exemplo, eu fui em minha época de estudante um paira na escola, meus pais eram alcoólicos, volta e meia o carro de polícia estava em frente a minha casa, os alunos recebiam ordens dos pais para não se misturarem comigo.  Passei todo esse período em silencio, passava meu dia na biblioteca estudando.  Hoje até agradeço essa gente não se aproximar de mim, pois eu fui em frente, eles ficaram para trás.

Se precisas falar com alguém, fale comigo, estarei aqui pronto para tirar dúvidas, conversar contigo.  Tinha uma aluna, negra, muito especial, era inteligente, agora vinha sempre tirar dúvidas, disse que sentia uma pressão impressionante, pois tinha que ser a melhor, sou a primeira da minha família a ir a uma universidade.

Tens que pensar que isso é uma carga fútil.   Es a primeira, mas nem por isso a única, quantas outras mulheres fora a primeira a dar um passo em alguma direção.  Também sofreram dúvidas, angústias, tudo ao mesmo tempo.   Não tinham ninguém em quem se apoiar, mas você tem, suas amigas, faça amigos.

A resposta foi que a maioria das mulheres que estavam ali, procuravam um casamento, com algum homem que tivesse futuro, quanto aos homens, o primeiro que queriam era se aproveitar para fazer sexo. 

Ele foi juntando um grupo de pessoas que tinham um objetivo, mas tinha um problema, não eram práticas.   Os reunia uma vez por semana, para conversarem, trocarem ideias, as vezes ria muito, porque avançavam o sinal, agressivamente.    Isso ele cortava rapidamente, voltando ao raciocínio que não tinham que provar nada a ninguém, a não ser a eles mesmos.

Sempre falava com a tia, volta é meia, falavam dos problemas que encontrava, nunca deixava de perguntar pelo médico que o tinha operado.  Estava sempre pelo mundo.

Estava corrigindo os últimos exames, teria agora 3 meses de férias, quando foi chamando dizendo que sua tia tinha sofrido um enfarte muito perigoso.         Pegou o primeiro voo para San Francisco, foi direto ao hospital, foi cumprimentando enfermeiras, seguranças, todo pessoal que tinha conhecido em sua estadia ali.   Caminhava bem, apoiado numa bengala.    Quando chegou ao quarto aonde estava a tia, lá estava o médico.                      Agora, com muitos cabelos brancos misturados com os loiros.  Se abraçaram, meu salvador, meu herói, foi dizendo de brincadeira, como está a paciente.

Rebelde como sempre, mas já está melhor, um pequeno contratempo com o braço direito, mas com fisioterapia vai melhorar.

Foi ficando cuidando dela, fazia a comida, conversavam, as vezes o médico vinha vê-la, o que para ele era um prazer.  Escutava o que dizia, reclamava que não aguentava mais ver as merdas que via nos hospitais de campanha.   Esses meninos não têm culpa dos governantes que temos que por qualquer motivo provocam uma guerra.

Tenho dinheiro guardado, vou tirar uma licença sem vencimento.  Não sei como consegues seguir trabalhando?  

Ela respondeu que era o que gostava.

Se virou para ele, por que ficas sempre me olhando desse jeito?   Nunca falas nada, estás satisfeito com tua carreira.

Bom a primeira, eu quando acordei da operação, quando te vi, pensei que estava no céu, que eras um anjo que vinha me ajudar, por isso não me canso de te olhar.

Segundo, estou tão frustrado como tu, tive que inventar sistemas para incentivar a gente jovem a pensar, a querer alguma coisa.               Cheguei a conclusão que os que sofreram, os que tem problemas são os que vão a luta, os jovens de hoje estão mal acostumados, tem tudo de bandeja, com seu celular pensam que são reis do mundo, não fazem um esforço para usar a cabeça, perceber nada em sua volta.             Então reúno os poucos que querem ir à luta, a eles ensino realmente como buscar algo.   No último semestre, esse grupo se resumia a 3 pessoas, é muito frustrante.       Creio que procuram que sejam como eu.

Nunca tinham se dado a mão, quando o acompanhou até a porta, ao apertarem a mão, sentiu algo, não sabia explicar, ficaram os dois ali, um olhando para o outro, foram se aproximando, acabaram se beijando.    Bob disse que voltava no dia seguinte para ver a paciente.

Mas no dia seguinte a paciente estava morta,  tinha morrido durante a noite, um outro enfarte fulminante a levou.   Ele pela primeira vez sentia a dor real de pena de perder alguém, quando soube que seus pais tinha morrido, a sensação foi de alívio, não de pena.

Bob o ajudou a resolver tudo, disse depois que tinha alugado uma casa na praia, que iria passar uns dias ali, se ele queria ir junto.

Tinha vontade de dizer, contigo, vou até o inferno.

Bob, falou muito da amizade dele com sua tia, nem sei como ela sobreviveu nesse mundo cheio de homens com preconceito, mas nunca a escutei reclamar de nada.   Sempre foi batalhadora, a pessoas a seguiam no trabalho, como uma messias.

Pois é eu pensei em estudar medicina por causa dela, por ti também é claro, mas estava numa cadeira de rodas, ficava me imaginando numa sala de operações, não me convencia.

Bob disse que o mar tinha sempre lhe fascinado, venho de uma família de pescadores, fui o primeiro ir a universidade, na minha área de especialização, só no exercito encontrei uma saída, foi quando conheci tua tia.                Virei seu escudeiro, íamos a lugares terríveis, quando voltava necessitava de um psicólogo para colocar tudo para fora.    Ela ao contrário, guardava  tudo, dizia que em sua juventude tinha visto merdas também, que podia aguentar.

Quanto a sua vida pessoal, era como bater contra um escudo de aço puro, nunca ouvi falar de relação nenhuma, nada.

Eu ao contrário, a romance frustrado, corria para contar para ela.  Ela percebeu que tu gostava de mim, me disse que eras uma criança, que eu não me aproximasse.   Mas te vigiei todos esses anos, ela me contava todas vossas conversas, algumas vezes estava na casa dela, te escutava falando de tua vida.  Ela me dizia para participar, mas achava que não tinha esse direito.  Mas nosso beijo de outro dia, me fez ver, que apesar da diferença de idade, eu também me sinto atraído por ti.

Sempre serás meu anjo, isso tenho certeza, pois as vezes sonho com isso, principalmente se me lembro alguma coisa do meu passado, apareces no final para me ajudar.

Nessa noite na casa da praia, tiveram seu primeiro encontro sexual.   Nunca tinha acontecido nada com ele a esse nível.  Foi emocionante.    Passaram os dois rápidos demais, pois falavam sem parar.  O que vais fazer afinal, não quero te perder.

Nem eu a ti.   Creio que aceitarei qualquer convite para ser médico num hospital aonde tu vivas.

Isso não vale, eu ia dizer a mesma coisa, ficaram as gargalhadas.   A universidade de Georgia queria que seguisse dando aulas, mas ele queria ter a liberdade de dar aulas de outra maneira.

Bob disse que mandaria um curriculum seu ao hospital da cidade.  Foi aceito, mas antes foram até lá para ver.  

Ele propôs a universidade, fazer uma coisa diferente, daria um teste aos alunos, escolheria os mesmo, para um curso de como pensar a matemática, que isso pudesse fazer com que esses alunos pudessem ir em frente.

Concordaram, dizendo que seu tempo ali, tinha aumentado o número de alunos, interessados, que ele podia fazer como queria.

Colocou um anúncio,  pelo menos cinquenta alunos se inscreveram, ele elaborou os exercícios como pensava, tinham não só que procurar os erros, mas como pensar.   Os que passassem teriam uma entrevista.

No dia do teste, um aluno chegou alucinado, tinha tido um problema na sua comunidade, chegava 10 minutos atrasados, era um mulato com os cabelos Black Power, parecia a juba de um leão, lhe disse que teria que correr.   Foi o melhor teste, estava perfeito.

Dos cinquenta, selecionou, 30 que tinham mais ou menos resolvido as questões, as entrevistas nem tanto, a maioria das respostas eram, queriam fazer o curso com ele, pois lhes daria prestígios.  Os que lhe diziam isso, os mandava para casa, para trabalhar no campo, porque prestígio se ganha trabalhando, não porque o professor tem um curriculum bom.

O tal aluno, disse que em primeiro lugar, precisava escapar do gueto que vivia, preciso ser alguém, amo a matemática, as vezes dormindo resolvo as questões que não pude durante o dia pois tenho que trabalhar.   Lhe lançou um teorema complicado, terás que pensar, resolver  mentalmente, se fazer cálculos, usando somente a tua cabeça.   O rapaz fechou os olhos, 10 minutos depois deu a resposta certa.

Não te candidates-te a nenhuma bolsa de estudos?

Não tive nenhum professor para me apoiar, aqui se necessita disso. 

Pediu o curriculum dele, discutiu com o reitor, até que conseguiu uma bolsa de estudo completa para ele.

O problema dele, era aonde morar.  Ele dividia seu apartamento com o  Bob, embora ele sempre estivesse em urgência dos hospital, pois era aonde gostava de trabalhar, disse que precisava de adrenalina.

Fale com ele, explique que vivemos juntos, se ele quiser um quarto, o outro está vazio.

Foi o que fez com, chamou o aluno para conversar, ele não escondia que vivia com o Bob, ninguém tinha nada a ver com sua vida.

Disse que só podia lhe ajudar dessa maneira, lhe oferecer o quarto que sobrava de sua casa, contou que vivia com o Bob, mas que era uma casa diferente,  a maior parte da sala, esta ocupada com meu lugar de trabalho, um pequeno espaço, com um sofá, para ver televisão quando preciso sair da minha cabeça, tudo muito simples, não preciso de nada mais que isso, Bob é igual, vive para trabalhar na Urgência do hospital, passou a vida viajando de hospital em hospital do exército, de guerra em guerra.  É uma pessoal especial.

Se quiseres amanhã, ele está livre, venha jantar, conversar com a gente. Se aceitares, pode ficar lá em casa.

Foi um jantar descontraído, riram muito, pois gostavam de coisas parecidas, quando contou aos dois a música que gostava, apesar que quando estava em casa, pouco escutava música.

Geo, ou Geoffrey, amava o Jazz, sempre que posso vou a algum lugar escutar.   Um dia se quiserem podemos ir juntos.

Na semana antes de começar as aulas, trouxe suas poucas coisas, disse que até esse momento vivia na casa de sua tia.  Ela deve estar contente em se ver livre de mim, ao mesmo tempo vai sentir minha falta, pois apesar de ter filhos da minha idade, eu era o único que levava dinheiro para casa.    Os dois estão metidos com bandas.

A convivência, não foi difícil, gostava de escutar os dois conversando, debatendo algum assunto, as vezes entrava na discussão com um ponto de vista diferente.

Começou as aulas, desta vez, avisou ao reitorado, a matéria, levei meses preparando, não admito interferências. Quero que eles sejam os alunos mais brilhantes da universidade.

Só uma pessoa desistiu no meio do caminho, o resto seguiu em frente, quando acabaram o curso todos puderam optar por excelentes pós graduações.   Geo, disse que preferia que ele o orientasse na tese que pensava fazer.  Se o aceitasse, seria a primeira tese em matemática pura na universidade.

Logo outras universidades se interessaram no seu método de trabalho.  No ano seguinte, uma série de professores se interessaram de assistir ou mesmo receber aulas com ele de como dar o curso.    Começou a escrever sobre isso.   Agora seu tempo estava quase todo ocupado, menos para o Bob, este disse que tinha perdido tempo, antes tivesse te procurado antes, mas eras muito jovem, tinha medo.

Estava fora dando um curso para professores em San Francisco, quando Geo lhe chamou, Bob tinha tido problemas no trabalho, tinha sido raptado por uma banda, para tratar de um chefe que tinha levado tiros.    Apareceu duas semanas depois, o tinham ameaçado de todas as maneiras.   Eu achava que na guerra era pior, mas a guerra aqui da cidades é horrenda.

O pior foi que a polícia o passou a pressionar, para dizer aonde tinha estado, ao mesmo tempo que uma outra banda queria saber a mesma coisa.   Um dia saindo do hospital, se viu no meio de um tiroteio entre a polícia, uma banda, morreu no mesmo instante que uma bala perfurou sua cabeça.

Foi enterrado ali mesmo na cidade, com honras militares.

Ficou lhe faltando uma parte dele, Geo se preocupava, as vezes o via respirando com dificuldade.    Lhe dizia que era a pressão que sentia pela falta do Bob.           Mas foi levando sua vida em frente, agora era convidado para dar seminários.    Chegou a conclusão, que isso pouco funcionava, pois encontrava sempre a maioria dos professores desmotivados.             Alguns não estavam preparados para dar aulas, buscavam um porto seguro para suas vidas, se conformavam com isso.

O duro era chegar a conclusão dos conflitos de gerações, o mundo andava rápido demais, muitas novas tecnologias, que a maioria nem entendia, usava sem fazer um esforço para pensar, para discutir.   Quando se sentava no campus da universidade, o que notava era isso, a maioria nem conversava entre si.

No ano seguinte quando entrevistava os alunos, falava disso, que não permitia o uso de acessórios.  Quando perguntavam o que era acessórios, lhes indicava o celular que tinham na mão, estas numa entrevista que vai definir tua vida, ao mesmo tempo, esperas que esse animal viva um segundo para ti.  Isso não é permitido.

Agora estava preparado, exigia que os alunos, apresentassem propostas, análises de como eram escritos os algoritmos, que eram desenvolvidos matematicamente para fazerem os computadores funcionar, bem como os celulares.  Fazia os exercícios de matemática pura em cima disso.   Ele mesmo teve que ler uma quantidade imensa de textos, livros, junto com Geo para entender tudo, colocou na sala de sua casa, um quadro aonde desenvolvia as questões, voltava a vibrar com a matemática.

Os alunos ficavam loucos.         Quando alguém ousava a consultar o celular, ele exigia ver qual programa estava usando.               O aluno devia decifrar o  algoritmos do mesmo, com pena de suspensão.  

Convidava gênios dessa nova safra de homens de computadores, de aplicações, embora a maioria nem soubesse desenvolver um trabalho matemático em cima do tinha construído, analisavam o programa, aonde por não ter usado a matemática, a coisa deixava passar segurança.    Muitos desses novos gênios agora vinha fazer aulas com ele.

Conseguiu que as companhia dessem bolsas de estudos para esses jovens, depois fariam estágios nas empresas.   A maioria voltava frustrada, pois tudo era feito nas cochas como ele dizia, havia uma necessidade de alimentar a fome do ser humano em novas tecnologias  que eles jamais saberiam usar em profundidade.

Geo um dia lhe disse que se prepara-se que iam sair de noite, pensou que era para ir a um concerto de Jazz em algum bar.  Já tinha uma desculpa na ponta da língua, quando Geo lhe disse ao ouvido, pois estavam na universidade.  Vamos a um encontro de hackers da internet profunda, a negra.

Foi um amor à primeira vista, todos ali eram jovens, por si só tinham desenvolvido processos de trabalho, através da intuição, ali encontrou alunos que realmente gostavam de matemática na informática.  Ele mesmo aprendeu a trabalhar.    Se reunia com eles duas vezes por semana, cada lado trazendo uma informação diferente.

Entravam nos espaços livres dos programas do governo, isso o divertia, pois não tinham ideia de que esses buracos eram criados por não saberem usar a matemática.

Escreveu um livro, sobre os buracos justamente num programa usado por uma das grandes empresas, essa o tentou de todas as maneiras o fazer calar-se.  Estava sendo vigiado em sua casa, se sentiu jovem outra vez, se escapou, se reuniu com o grupo, bloquearam todo o programa, fizeram a empresa reconhecer as falhas, que nunca eram testadas, embora os usuários reclamassem.

No porão do edifício, descobriu um lugar longe de tudo, ali criou sua internet profunda, já que o estavam sempre vigiando.   Divulgou por ali, o dia que o FBI, entrou em sua casa, que reviraram sua mesa de trabalho, no dia seguinte todos os jornais de internet divulgavam o fato, a Corte suprema foi chamada para se pronunciar a respeito.  Um dos jovens tinha gravado as escutas que os juízes tinha sido ameaçados pelas agências do governo, em nome da santa pátria.

A confusão foi grande, ninguém sabia aonde ele estava.  Ficou desaparecido dois meses, mas estando ali mesmo, nunca tinha saído do edifício de sua casa.

Quando o FBI, encontrou o local da rede profunda dos jovens, ele que estava interligado, conseguiu borrar tudo antes que conseguissem alguma informação, fez aparecer como se fosse um lugar de encontro de jovens para jogar, nada mais.

Conseguia ver os agentes furiosos, pois não tinham conseguido nada.

No momento, ele desviava tudo, através de China, Índia, outros países vulneráveis.  Mas claro, sabia que chegaria sua hora.  Se dedicou simplesmente a trabalhar o conceito matemático dos programas, aonde não se conseguia entrar.   Testava sempre o sistema, para ver se havia alguma lacuna.   Descobriu que um deslizamento dos próprio uso dos programas causava isso, quando chamou Geo para ver como tinha descoberto, este lhe trouxe comida, como fazia todo dia.   A única observação que fez, você já se olhou num espelho?

Realmente não.  Tudo que fazia era trabalhar, ir dormir, tomar comprimidos, porque lhe doía a coluna.  Precisava de movimento. 

Depois do achado, passou a informação a todos os hackers do mundo oculto.  A matemática não tinha nada a ver com os buracos ocasionados, sim o sistema de energia, bem como o uso sucessivo de programas, como esses se moviam na rede, causava isso.

Combinou com Geo, este o retirou de seu esconderijo uma noite muito escura, o levou para um novo lugar.   Só levava um disco duro externo, com todos seus descobrimentos.

Numa casa de praia, afastada do centro urbano, se dedicou a escrever um livro sobre isso, Geo o ajudava.  Discutiam as conclusões.  Agora era encontrar um meio de lançar isso nas redes, resolveu que primeiro faria uma edição digital, ao mesmo tempo que negociava com uma editora.

Foi uma bomba no mercado, algumas grandes empresa quiseram tomar para si o achado, mas claro, tinham medo da reação.  Já que tinha sido divulgado antes digitalmente na internet.

Deu por terminado essa etapa.   Resolveu fazer um exame médico, se constatou que devido a falta de exercícios, justamente aonde tinha se operado, formava uma espécie de tumor, fizeram uma biopsia, não dava como canceroso, coletaram material para mais biopsia.   Teria que ser operado, mas claro,  o risco de ficar outra vez em cadeira de rodas era grande.

Pensou muito a respeito, conversou com os médicos, afinal já estava numa idade, na qual importava a qualidade de vida, voltar a cadeira de rodas, cortava isso, bem como a possibilidade que ir perdendo os movimentos.

Decidiu que não.   Voltou para a casa de praia, ficou ali retirado, escrevendo seu livro de memorias.  Entregou tudo ao Geo, um belo dia, a praia estava vazia, fazia um dia horrível, cinzento, ondas altas, saiu para caminhar, ao longe avistou carros negros do FBI, tinham descoberto sua localização,  como quem não quer nada, foi entrando no mar, sabia que se desta vez o pegavam, ficaria muito tempo sem liberdade.

Isso ligado a qualidade de vida, era essencial, liberdade.  Foi entrando, deixando-se levar pelas correntes.  Quando os homens que estavam em sua casa se deram conta, já era tarde demais, ele um exímio nadador, se deixou levar.

MORALES

                 Eram conhecidos os irmãos Morales, eram os heróis da garotada do bairro, quando entravam numa quadra de basquete, ninguém podia com eles. O mais interessante se olhassem seus pais, que eram de estatura mediana, ninguém ia imaginar esses dois homens de dois metros de altura.  Eram fantásticos. Tinha nascido com uma diferença de poucos minutos um do outro.

Na altura Jeronimo ou Gero, nem Maria, tinham ido ao médico pois não tinham dinheiro para isso, ela só foi a uma clínica aonde lhe fizeram os exames periódicos.  A parteira se assustou, pois no momento do parto, como era prematuro, chamou uma ambulância a levou para o Hospital.    Lá nasceram os dois.   Ninguém daria os vendo agora, que tinham sido dois meninos pequenos, mas o fato que chamou a atenção, era que vinham de mãos dadas.  A posição do segundo quase mata Maria, mas conseguiram inverter sua posição, soltar as mãos, assim Marco nasceu berrando como um louco, só ficou quieto na hora que o puseram ao lado de Ricardo. Os nomes dos dois, eram os de seus avôs.  Maria não dava abasto para dar de mamar, logo tiveram que passar para a mamadeira.  Tinham uma fome de fazer gosto.  As pessoas vinha olhar os dois no berçário, pois se fossem separados, berravam, choravam, o jeito era os ter juntos.  Um adivinhava o que o outro fazia.  Eram tão iguais que era difícil identifica-los, mas Maria o sabia, um tinha uma pequena marca no braço era uma coisa ínfima, mas por ali, ela os identificava.

O pai, que babava pelos dois, seu maior prazer era chegar em casa da oficina mecânica que trabalhava, se lavar, sentar-se no sofá, ficar com um em cada braço, conversando, foi assim a infância deles inteira, juventude, sempre que o pai chegava, estavam em casa o esperando para ver um telejornal, ou um jogo de futebol.   Nenhum dos dois gostava de futebol, gostava de nadar, algo de beisebol, mas amavam jogar basquete.  Quando a primeira vez que viram um partido, ficaram alucinados, no dia seguinte com uma bola pequena, começaram a treinar passar bola um para o outro.    

Por mais que um tentasse enganar o outro, era impossível.  Era como se o outro lesse no movimento do corpo do irmão, o que este ia fazer.

Quando queriam uma coisa, eram capazes de levar os pais a loucura.  Antes de tudo, sabiam todos os truques, para convencer o pai, tinham que saber a utilidade do que queriam, nada que fosse uma besteira.   Tinha que servir para alguma coisa.

Com dez anos, de uma hora para outra, começaram a esticar, a mãe não dava abasto de aumentar o comprimento das calças, as camisetas ficavam pequenas em seguida.  Por sorte Maria tinha uma família imensa, todos seus parentes tinham filhos homens, então as roupas usadas eram sempre benvindas.               Eles só pediam no natal, um tênis próprio para jogar basquete.  Nunca pediam brinquedos, nada eletrônico.          Mas esse tênis era sagrado, só o colocavam na hora de jogar, depois voltava para a mochila, tinham um pé imenso.  Com 17 anos já tinham 1,90 de altura, o jogo era tudo para eles, mas eram além disso uns estudantes impressionantes.   Os professores os amavam, pois eram fascinados por aprender, nada de obriga-los a estudar.  Chegavam em casa, sabiam que antes de sair para jogar uma partida nos fundos da casa, teriam que ter a tarefa pronta.   Um ensinava o que o outro não sabia, a única diferença estava nisso, um era apaixonado por matemática, outro por geografia, botânica.  Voltavam todos os dias com livros da biblioteca. 

O mais interessante como dizia a bibliotecária, eram os únicos alunos que procuravam livros de física, biologia, matemática, nada de besteira, romance coisas assim.                Isso eles levavam sempre um para sua mãe, esta adorava romances.

Os dois economizavam tudo que podia, seu preocupação era como os poderiam mandar a universidade?   Era um sonho que eles tiveram que abandonar no meio do caminho.

A partir dos 15 anos, quando chegava o verão os dois arrumavam um trabalho, mas tinha que ser juntos.  Trabalhavam em algum que pagasse bem, davam todo o dinheiro para a mãe, para o futuro diziam eles, sabia que ela tinha um conta no banco para isso.

Faziam parte da equipe de basquete do instituto, não arrumavam namoradas, como estavam todo momento juntos, os companheiros até gozavam os Morales, devem inclusive cagar juntos, o que no fundo era uma verdade.  A casa tinha dois banheiros, Gero teve que fazer outro fora, pois os dois queriam ir ao mesmo tempo.    Ele dizia agora, quem chegasse primeiro no banheiro de dentro ganhava.  Quase sempre empatavam.

Essa união dos dois, fazia felizes seus pais, ver os dois conversando, já com 17 anos, eram incrível, tinham metido na cabeça que teriam que conseguir uma bolsa de estudo para serem jogadores de basquetes para irem juntos a universidade, mas nenhum dos dois sabia ainda o que queria.   Eram as notas máximas em todas as matérias.  Nunca sofreram bullying porque quem ia buscar uma briga com os dois.  Ninguém era tonto.

Quando os olheiros das universidades, começaram a procurar em Santa Fé, possíveis jogadores, deram com eles.  O que era difícil, nas equipes tinham normalmente negros, principalmente pela costa oeste, mas por ali, procuravam alunos brancos, deram com os dois jogando.   Um inclusive, quando percebeu, estava torcendo pelos dois, como só existissem eles na quadra.

Foi quando brigaram pela primeira vez.  Tiveram uma discussão monumental, cada um queria ir para um lugar diferente.   Um queria estudar, matemática, física, o outro queria estudar o que lhe entusiasmava Botânica,  biomédicas.    Um queria ir para MIT Massachusetts Institute of Tecnology, o outro ali em Santa Fé mesmo, na cidade deles.   A bronca dos dois foi imensa, com direito a chantagens inclusive.  Depois de tanto tempo vais me deixar sozinho, era o que perguntava um ao outro.    Os pais não se intrometeram, estavam contentes, pois tinha bolsas de estudos, não só na área de esportes, como no educativo, visto os dois terem excelentes notas, nada abaixo do notável.

Inclusive tinham ganho sempre juntos os concursos da escola, eram sempre juntos que ganhavam.   Nas provas os professores os colocava cada um num extremo da sala de aula, depois comparavam as provas, era basicamente idênticas, inclusive no uso das palavras.

Afinal chegaram um acordo, que sim iriam, mas se falariam todos os dias por celulares, as pessoas riam, pois podiam passar uma ou duas horas falando um com o outro, falando sobre o que tinham feito.

No MIT, Marc como o chamavam os da faculdade, dividia quarto com um ao extremo contrário dele, filhinho de papai, que estava ali para gozar da vida.  Basicamente não se viam, o outro chegavam, quando ele se levantava.  No fundo riam dizendo que isso era bom, pois não atrapalhava o Marc estudando.

Seu grande problema estava nas quadras, sentia falta do seu irmão, disse ao entrenador, prefiro ficar na retranca, do que jogar na frente, vai ser difícil encontrar em outro jogador o que eu tinha com meu irmão.  Passou a treinar, jogar a bola de muito longe, todo tempo livre, ele estava na quadra sozinho, lançando a bola do outro extremo da quadra.  O que era Capitão não gostava, pois dizia que não jogava em equipe, porque na posição que estava, capturava a bola, a atirava na cesta do outro lado da quadra, ganhando pontos duplos ou triplos.   Isso faziam com que os outros não brilhassem como ele.  Queriam ir jogar na NBA, mas claro os olheiros vinha olhar a ele.

Na verdade, o odiavam,  quando faziam festas ele nunca comparecia, pois era a hora da noite, que estaria falando com o irmão, entre uma festa, falar com o irmão ganhava sem dúvida, depois não bebia, não fumava, não tinha vícios.

Resolveram fazer uma maldade com ele, a festa estava rolando, o capitão mais dois, saíram de fininho da festa,  o encontraram dormindo em cima de um livro, o dominaram dando-lhe uma pancada na cabeça, abusaram dele, lhe encheram de porradas, o mesmo tinha cheirado cocaína, estava totalmente fora de controle, pegou uma cadeira, rompendo a perna dele.

Quando o companheiro de quarto chegou de manhã de uma festa, levou um susto, pois ele mal tinha pulso, chamou imediatamente a ambulância,  por pouco ele não morre, os pais vieram como loucos.   A universidade tentou abafar o caso, afinal o capitão da equipe era de uma família que doava dinheiro a universidade, o outro não passava de filho de mexicanos.

O pai ficou uma fera, a polícia da universidade, recebeu ordem de abafar o caso.  Depois de quase uma semana em coma, finalmente Marco abriu os olhos, a primeira coisa que viu foi o irmão com uns cabelos imensos, cheio de caracóis, de óculos, riu, estas diferente, mal te reconheci.  Recebeu abraços dos pais, mas queria mesmo era ficar de mãos dadas com o irmão.

Quando soube que a Universidade não faria nada, ficou uma fera, se descontrolou totalmente, voltou a estar em coma.    O irmão, se aproximou do seu ouvido, lhe dizendo, não se preocupe, eu me vingarei.

Maria tinha um irmão com quem quase não se falava.  Vivia no tráfico de drogas, com bandas de chicanos.   Os deixou tomando conta do irmão disse que precisava tomar ar.   Os dois sempre tinham sido os queridos do tio, nunca o marginaram, quando ele aparecia numa festa, corriam para ele, quando ficaram altos, o levantavam do chão, pois não era muito alto.

Falou com o tio o que tinha acontecido, que a Universidade, tentavam tapar o sol com a peneira, mas que ele queria vingança, já que a justiça não fazia nada.

Tinha ido a delegacia, mas diziam que se a polícia da Universidade tinha fechado o caso, era porque não era importante.  Um ainda soltou, um mexicano falando de justiça, aonde pensa que está.

O tio ficou uma fera, espera, vou falar com um amigo que tenho aí, sempre mando coisas para ele.  Coisas ele queria dizer drogas, mas não se preocupou.  Tinha um plano em mente, chamou um colega, com o qual desenvolvia um projeto, com relação, as plantas alucinógenas,  lhe pediu que lhe enviassem um extrato delas, que as queria mostra nos laboratórios dali.   Ao que tinham chegado, era que bastava uma quantidade mínima, para que a pessoa entrasse num estado paranoico, contando toda a verdade, bem como depois tinha espasmos, babando, entrando em estado paranoico.

O tio, perguntou aonde ele estava, espere aí, um furgão negro, ira até você, farão o que você queira.   Foi o que ele fez, pediu que sequestrassem os três, que conseguissem um lugar que não pudesse ser encontrados.  Pediu homens que se atrevessem a currar todos os três, deviam não ter tatuagem nenhuma, que fossem negros, pois ele ia filmar tudo.

Por sorte os três, saiam ao mesmo tempo da universidade, como se nada tivesse acontecido, sequestra-los foi fácil.  Todos estavam de negro, mascarados, sem tatuagem que o pudessem ligar com nenhuma banda.

Os levaram a um velho armazém, primeiro com uma agulha, molhou no líquido, lhes picou na base da coluna. Colocou o celular de tal maneira, que se vissem que lhe estavam fudendo, mas não quem.

Na hora pensou, até hoje fomos bons,  agora vão ver a parte negra de nossa personalidade.

Com a droga, eles ficaram loucos, o que era o capitão, pedia que todos o fudessem, que ele gostava disso de levar no cu.  Gritava de prazer.   Quando foi perguntado, porque tinham feito maldade com seu irmão, respondeu, que ele não passava de um mexicano, que tinha aprendido com seu pai, que eram uma sub-raça, como o outro se atrevia a querer ser melhor do que eles que eram brancos, ricos, que devia morrer por isso.

Em seguida, foram levados para um hospital, aonde foram jogados na calçada, sem documentos, sem nada, nus,  um desses de subúrbio que os médicos estão vendo merdas todos os dias.  Os levaram a emergência.

Ao mesmo tempo ele subia os vídeos na internet, para que escutassem as confissões, bem como sendo fudidos, as cena que o capitão da equipe, pedia sempre mais, um lhe colocava o pau na boca, ele chupava com gosto, pedia sempre mais.

Claro finalmente a polícia tomou conta do caso, foram até o hospital, lá estava ele com a família, em volta do irmão em coma.    Lhe pediram o celular.   Não tinha nada, tinha usado um de pré-pago, fornecido pelo traficante.

O mesmo tinha sido destroçado bem como qualquer vestígio que o pudesse ligar a qualquer coisa.

Como sempre estavam os três no quarto, as enfermeiras disseram que ele sempre tinha estado ali.

Quando a polícia foi embora, ele disse ao ouvido do irmão, nossa vingança foi consumada.  Agora vamos exigir da universidade uma fortuna por ter tentado acobertar tudo isso.  Arrumou imediatamente um advogado, as provas estavam no ar, um dos criminalista da cidade aceitou o caso, acusavam a Universidade de acobertar tudo, bem como proteger os alunos criminosos.

Esses quando foram finalmente encontrados, pois uma das enfermeiras viu o vídeo, chamou a polícia.  Eles tomaram alguma droga, que não aparece nos exames de drogas, não conseguimos encontrar nada.  Mas estão ainda em estado de alucinação, tudo que encontramos, é que os três tem uma picada na base da coluna.  Algo foi administrado via venosa.   Mas não sabemos o que.

Quando Marco saiu do estado de coma, foi melhorando, lhe contou o que tinha feito, que estava movendo uma ação contra a Universidade por não ter feito nada, ter escondido o assunto embaixo do tapete.   Agora o assunto é nacional, esses filhos da puta, estão fudidos, todo mundo sabe, saiu nos jornais, o caso está no tribunal, nem precisamos mover um dedo.  Quanto queres pedir por tudo isso?

A resposta do Marco o surpreendeu, pensou que ia negar pedir dinheiro.   Quanto precisamos para terminar na melhor universidade do pais, pagando,  uma pós graduação, tudo incluído para os dois. Esse é o valor exato.

Falaram com o advogado, esse disse que tinham tentado tirar o vídeo do ar, quanto mais tentavam mais se divulgava.  Os três rapazes continuam internado.  Terão que ir a julgamento, embora no vídeo estão soltos, inclusive o capitão esta sentado em cima de um negro, ao qual não se vê a cara, ou seja, eles fizeram porque quiseram, o argumento que foram coagidos não funciona.   Alegam que alguém injetou alguma droga, mas a policia descobriu que são clientes de um traficante de drogas da cidade, clientes regulares, algumas vezes inclusive pagam em cartão de crédito.    Nesse dia tinham comprado uma quantidade grande de pastilhas que liberam o libido, isso estava no sangue deles.

O pior é que o juiz é amigo do pai do capitão, inclusive desses de jogarem golfe juntos, toda semana, o fiscal também é amigo, ai está o problema.  

Não podemos fazer nada, todos os sábados, se reúnem num clube para almoçar.   Neste sábado agora, inclusive podem tramar como vão fazer.

Teria que descobrir qual o clube, falou de novo com o traficante, esse disse que devia muito ao seu tio.   

Preciso estar na cozinha na hora que forem servidos o pedido desses três homens.

Sem problema nenhum, uma das minhas empresas fornece coisas para o restaurante.

Estavam os três confabulando quando ele passou por perto, anotou o pedido dos três, mal levantaram a cabeça, como dizendo quem é esse merda que ousa interromper nossa conversa, sequer o olharam na cara, um outro serviu a bebida, cada uma continha uma micro gota do produto dele.

O escândalo foi monumental,  primeiro tiraram a jaqueta que usavam, depois os tênis, depois as calças, as camisas, cuecas, ficaram inteiramente nus, quando foram chamados a ordem, subiram em cima da mesa, falando mal de todos que estavam ali, nos somos a raça pura de América, fulano tem negros na família, assim foram falando de todos que estavam ali, claro sendo filmados ao mesmo tempo por todos os celulares dos presentes, ao mesmo tempo subidos na internet, inclusive quando a policia chegou, o juiz agrediu um policial negro.  Gritando que odiava os negros, por isso os condenava sempre, o fiscal balançava o pau na direção de todas as mulheres, todas as mulheres são putas, o pai do capitão, gritava a plenos pulmões que ele como o filho gostava muito de um caralho grande, tentava pegar o do fiscal.

No final do dia, o advogado apareceu no hospital,  não sei o que aconteceu, a polícia está fudida, os três, ingeriram cocaína, creio que através da comida, por isso ficaram desse jeito, o juiz é conhecido, por condenar qualquer um que tenha qualquer coisa de drogas,  prejudica todo mundo.  Contou para a policia todos os subornos que recebeu para prender pessoas, o mesmo fez o fiscal, ao escutar o outro falando, um queria contar mais coisas que o outro, o empresário, contava como subornava todo mundo do governo.

Pior já está nos telejornais, de qualquer maneira, o caso será julgado por uma juíza negra, muito séria.   Inclusive sua filha estuda na universidade.

Vamos ver como nos saímos.  Quanto vocês querem pedir, estivemos conversando sobre o assunto, queremos dinheiro que nos sirvam para estudar na melhor universidade do pais, bem como pós graduação,  que paguem os seus direitos de advogado.

O julgamento não durou nem dois dias, o advogado dos três, aconselhou que se reconhecessem culpados,  para aliviar a pena.  Mas se deram mal, pois isso os condenava ao presidio, a juíza ficou de dizer por quanto tempo.  Quanto a Universidade, concordou em pagar o que pediam sem dizer nem um pio, mas o advogado que tinha inflado o valor que eles tinham pedido, pensando que teria que negociar para chegar ao acordo, ficou rindo, era muito dinheiro.

Ao mesmo tempo que o reitor, perdia seu cargo, bem como o juiz, o fiscal, o empresário viu de uma hora para a outra, fecharem as portas da sociedade para ele e sua família.  Além do pedido de divórcio de sua mulher.

Isso diziam os irmãos, para nunca mais ninguém fazer qualquer sacanagem com um Morales.

Ricky de qualquer maneira destruiu todo seus estudos do produto, por saber agora que se caísse em mãos de quem não devia seria uma catástrofe.

Com o dinheiro, como sobrava, compraram uma oficina para o pai, que adorava sua profissão, assim poderia trabalhar mais à vontade.

Os dois, sabiam que o ano na universidade estava perdido, resolveram fazer uma viagem para tentar esquecer do que tinha acontecido.

Na verdade, não foram longe, alugaram um rancho, perto do deserto, enquanto Ricky pesquisava sobre as plantas da região, ele se preparava para já chegar preparado a universidade.   Iriam agora os dois a mesma, mas na França, ao mesmo tempo estudavam francês para se saírem bem.

A Sorbonne os recebeu de braços abertos, visto os dois estarem preparados no que queriam.

Os pais vinham sempre visita-los, cobravam dos dois que se casassem, queriam netos.  Mas isso nem passava pela cabeça deles.

CAIXA DE PANDORA

                                                                

Porra, despertar numa cama desconhecida, despertou resmungando, odiava isso, ter ido parar depois de uma bebedeira na cama de alguém.

Olhou em volta, escutou barulho de alguém tomando banho de chuveiro, se levantou meio tonto, recolheu sua roupa, sapatos, saiu de fininho, a chave estava na porta, no corredor se vestiu rapidamente, pois podia aparecer algum vizinho.  Apalpando suas calças, viu que tinha a chave, carteira, mas porra aonde estava o celular.  Tinha esquecido dentro, voltou, abriu a porta bem devagar, quando estava no meio do corredor já chegando ao quarto alguém saiu do banheiro.

Quando se virou, era um homem do seu tamanho, com o peito todo cabeludo, com uns cabelos, imensos negros, com a cara mais bonita que podia imaginar.

O outro riu, dizendo, feche a boca, dormiste comigo essa noite, não podes negar.

Ele se encostou na parede, estava zonzo, a dois dias atrás, véspera de seu casamento, sua noiva tinha rompido com ele, dizendo que ele não estava preparado para ter uma família, que era um homem infantil. Agora isso, estava dormindo com homens quando bebia.

Não te lembras de nada de ontem à noite?

Não, só que estava puto da vida, sai para beber com meus amigos, me abandonaram dizendo que estava chato demais.  Pode ser, mas como te encontrei.

Pois eu estava com umas amigas que trabalham para mim, te aproximaste, começaste a conversar, contando para elas tua tragédia.  Elas foram embora, tu mal te aguentavas em pé, perguntei se querias dormir na minha casa, disseste que sim.   Chegaste aqui, vomitaste horrores, te deitei na cama, fui limpar o banheiro, quando voltei dormias, tirei tua roupa, só isso, depois me deitei do teu lado para dormir, te agarraste a mim.

Realmente de noite, sentiu que estava abraçado a alguém que lhe fazia sentir-se como num porto seguro.

Mas não aconteceu nada, não te preocupes.  Quando perguntei se querias que te levasse para tua casa, disseste que não.

Bom, agora estava mais relaxado em saber que não tinha acontecido nada, talvez porque o apartamento está montado como a casa que íamos viver.  Odeio o lugar, estou esperando um apartamento que aluguei, mas estão pintando ainda.  O que estou agora, ela vai ficar com ele.

Desculpe a curiosidade, mas o que aconteceu realmente, porque contaste para as meninas uma baboseira, aliás era difícil de te entender.    Elas aguentaram porque disse que te conhecia.

Porra, são duas coisas diferentes, faltando dois dias me disse que não queria mais se casar comigo, porque na cama eu era como uma criança, que tinha me traído com um amigo seu, esse sim era um homem na cama.

A segunda coisa, como diz que me conhecias?

Não me reconheceste ainda?      Se levantou foi até uma estante, tirou um álbum de fotografia, olha estas fotos, fazem pelo menos uns 15 anos delas, mas podes te reconhecer.

Eram fotos quando tinha uns 14 ou 15 anos, umas férias com um grupo de amigos da escola.  Realmente havia uma foto dos dois abraçados.  Nesse dia os dois perdemos a virgindade, transamos no rio, não te lembras.

Foi como uma bolha que estourasse na sua cabeça.   Eres o Igor Boaventura, caramba como mudaste tanto assim.  

Bom a vida passa, mudamos, sobrevivemos, enfim mil coisas.  Nessa época os dois vivíamos em Niterói, claro os outros começaram a falar do que tinham visto, meu pai me tirou dessa escola, me mandou estudar interno em Friburgo,  nunca mais soube de ti, quando ia de férias te procurava na praia. Mas nunca mais te vi.

Bom pelo mesmo motivo, mudamos aqui para o Rio, meus pais já trabalhavam aqui, nos mudamos para a Tijuca que era perto do trabalho dos dois, passei a estudar no Colégio Militar, segundo meu pai para me colocar no meu devido lugar.   Fiz faculdade, me formei, comecei a trabalhar em seguida numa companhia na parte de informática.  Primeiro fiz substituindo uma pessoa, depois fiquei como fixo.  Estou farto disso, outro problema porque é a repetição da repetição, apesar de ganhar bem.   E tu.

Antes de continuarmos a relembrar o passado, vou fazer um café, nos sentamos na varanda, podemos tomar café conversando.

Enquanto Igor fazia soltou sem pensar, eras bonito, mas realmente estas lindíssimo.

Ele riu, dizendo um grande problema, pois querem ir comigo para cama por isso, depois quando me conhecem realmente dão no pé.

Por quê?  Sempre foste uma pessoa inteligente demais, eras tímido, com aqueles óculos de grau, tinhas sempre o nariz marcado, por causa disso.  Eu sentava atrás de ti na escola, vivia puxando teus cabelos, me fascinavam, porque eu sempre tive cabelos crespos curtos, tu não, levavas imenso, não tanto quanto agora.

Sabes que fizeste isso essa noite, passaste a mão pelos meus cabelos como fazias naquela época.

Sentaram-se na pequena varanda que dava para a praia do Flamengo,  ficaram uns instantes olhando a paisagem, era muito bonito, quase em frente ao Museu Carmen Miranda, com vista para o Pão de Açúcar, com a Urca embaixo.

Caramba, deve ser fantástico viver aqui, só está vista.

Quase não tenho tempo para me sentar aqui, o comprei por isso.

Me conta que fizeste tu?

Bom depois do internato, meu pai que trabalhava numa companhia américana, foi transferido, fomos viver no meio do nada, aonde estava a fábrica, tive que ir estudar em Dallas, embora não gostasse muito, muito provinciana.   De uma certa maneira, por não gostar muito dali, estudei como um louco, porque os da minha idade eram muito tontos, me viam como um garoto bonito para uma foda, depois adeus.  Me toquei rapidamente disso, cortei vamos dizer assim.   Se é para isso, bato uma punheta, basta.   Me formei também em informática, fui fazer um estágio na Microsoft,  depois me contrataram, fui passando por vários departamentos, alguns me achavam um louco por não ficar em nenhum, subir na escala de chefes, mas eu queria aprender tudo, não queria ficar lá, tinha isso definido desde o primeiro dia.   Fui sim juntando dinheiro.   Meus pais se divorciaram, minha mãe, resolveu voltar, com a desculpa de vir com ela, voltei para cá.   Esperava uma mudança, mas minha vida continuou a mesma.   Montei uma empresa, vou bem.   Mas quanto aos romances, sigo igual, quando percebo que me querem porque sou bonito, não pela minha cabeça, corto pela raiz.

Por isso, pelo nosso passado me trouxeste para tua casa.

Bom eu sempre te considerei meu amigo, me lembro que depois que voltamos dessa viagem, todo mundo vinha encher meu saco, o único que me defendia eras tu.  Mas claro diziam que éramos namorados.  Não sei se hoje em dia seria diferente.   Mas nunca te esqueci, foste meu primeiro amor.

Tu falas nisso, mas na época livrava uma batalha imensa comigo mesmo, por causa disso, não conseguia te tirar da minha cabeça.  Quando me olhavas, sempre tinhas um sorriso.  Em comparação, a ti sou feio, nunca fui uma pessoa que se possa dizer bonita.  Até hoje meus cabelos são o mesmo.  Normalmente ia comer com eles todos os finais de semana , mas agora estou evitando, pois ficaram preocupados comigo.  Querem falar no assunto.

Nunca mais tiveste relação nenhuma com outro homem?

Não, naquela época, depois eu me masturbava pensando em ti.  Tive que ir a um psicólogo porque era uma obsessão.               O jeito foi começar a sair com garotas, ter namoradas, meus amigos são todos metidos a machões,  a maioria está casada, mas os vejo infelizes.  De uma certa maneira penso que me livrei de ficar como eles.

Bom já colocamos o papo em dia, podemos nos ver, vou te dar um cartão com meu celular, assim me chamas se quiseres falar mais.

Quando se levantaram, para passar na porta, ficaram frente a frente, tomei a dianteira, segurei sua cara com as minhas mãos, o beijei como tinha sonhado fazer durante muitos anos.

Por sorte ele retribuiu.   Se darmos conta, estávamos na cama.  Minha ânsia era tão grande, que acabei tendo uma ejaculação precoce.   Fiquei sem graça, pedi desculpa, estou muito emocionado.

Fique tranquilo, eu fiquei me controlando, mas estou legal.  Ficaram ali abraçados, lhe soltei, eu te achava bonito, mas o que gostava, era que me tratavas bem, as vezes me ensinava coisas que eu não entendia, mas sem aquela, sou mais inteligente que você.  Te via diferente, às vezes, em que vi você sem camisa, ou só de cuecas antes da aula de ginastica, não pensava na tua cara, queria teu corpo perto de mim.  Comecei a rir, deve ser por isso que minha noiva dizia que não era bom de cama. 

Quando fomos aquela viagem, todo mundo gozava pois estávamos sempre falando, conversando coisas que a eles não interessavam,  quando fomos tomar aquele banho de rio, quando te vi só de sunga, não aguentei, tinha que me aproximar de ti, te tocar, perdi o controle, como agora.   Não adiantava por exemplo olhar revistas pornográficas, só pensava em ti.   Não posso dizer que fosse amor, ou era, não sei, mas quando nos separaram, pensei que ia morrer.

Bom posso dizer a mesma coisa, apesar de ter tido aventuras, aquele momento ficou na minha cabeça, quando chegaste ontem perto na mesa, perguntando se podias sentar, pois estavas abandonado, essas foram tuas palavras, te reconheci imediatamente.   Estavas bêbado, mas eu consegui que as meninas te aceitassem.  Mas fiquei te escutando, o que falaste do teu casamente não me interessava, sentia si em ti  uma solidão muito grande como a minha.

Passei a mão pelo seu rosto num gesto de agradecimento, começamos a nos beijar novamente, então fizemos um sexo gostoso, mesmo naquela época não tínhamos nos penetrado, nem pensávamos nisso, tínhamos sim nos masturbado dentro da água.

Desta vez chegamos juntos ao final.

Tomamos um banho junto, fiquei abraçado a ele, como querendo recuperar todo esse tempo, num dado momento chorei como tinha chorado o dia que meus pais falaram comigo, que isso não era possível, que tínhamos que ir embora, pois todos falavam de nos dois.  A dor que tinha sentido era muito grande.

Ele ficou preocupado, me ajudou a me secar, nos sentamos na cama, lhe contei o que tinha sentido, como tinha chorado por tê-lo perdido.

Eu também chorei, mas o pior foi estudar numa escola tremendamente católica em Friburgo, não encaixava em nada, a primeira coisa que me fizeram foi cortar meus cabelos, foi como podar minha personalidade, só voltei a ter cabelos grandes já quando era independente, meu pai dizia que por culpa dos meus cabelos, por ser bonito, atraia coisas erradas.    Escrevi cartas que nunca mandei, mas não dizia teu nome nunca, sonhava contigo.

Estavam agora os dois sentados um frente ao outro chorando, se abraçaram, vamos tentar não nos separar mais.

Agora estavam com fome, teria que ir em casa trocar de roupa, pois esta está cheirando mal, a cigarros, bebida, suor.

Queres que te leve, pois depois tenho que ir à casa do rapaz com quem estou saindo, tenho que cortar com ele, pois agora não poderei mais fazer sexo com ele.  Embora nem perguntei se queres seguir me vendo.

Temos que ir com calma, pois  senão nunca mais sairemos dessa cama.                       Tens razão, resolva teu compromisso, trocamos o número de celular, farei uma coisa que estou adiando a dias tirar minha roupa do apartamento, embora 80% esteja dentro de malas,  amanhã é domingo,  pensava em fazer isso.

Queres que te ajude?

Não porque ficaremos o tempo todo na cama.  Só de pensar estou excitado de novo.  Se jogou em cima dele rindo, começaram de novo a brincar.

Ele o levou até o apartamento que deixava, na Lagoa, na verdade o apartamento era do pai de sua noiva que o queria de volta.   Nada ali era seu na verdade, tudo era presente de casamento, ficaria tudo para ela, ali só tinha sua roupa. Tomou um banho por causa da roupa suja, colocou numa bolsa de plástico, guardou o resto, resolveu fazer uma coisa, levar para o apartamento que iria viver agora, um studio em Copacabana, estavam terminando de pintar, mas o quarto estava pronto.   Antes chamou o Igor, estava com voz de chateado, disse que iria levar suas duas maletas para Copacabana, depois se falavam.

Espere passo para te pegar assim falamos. Ok

Ficou nervoso, será que eram más notícias, depois de tanto tempo, agora que iam estar juntos outra vez, não conseguia pensar em outra coisa, será que o puto destino os separaria de novo.  Isso era uma maldade.

Voltou no tempo, se lembrando do dia que tinham se conhecido,  Igor se sentou na carteira em frente a sua, quando o viu entrar, ficou deslumbrado, não só porque era bonito, mas sentia que ele tinha personalidade, o professor falou de um livro que teriam que ler.  Ele ofereceu espontaneamente, pois já tinha lido o mesmo, sabia a história de cabo a rabo.  Quando no começo do ano, recebiam a lista dos livros que tinham que ler, comprava todos, os ia lendo sem parar.                Era um dos seus prazeres,  nunca tinha tido uma turma, nem amigos, tinha os colegas da escola, nada mais.   Na praia sempre  ia sozinho, ou com seu pai, mas acabava ficando sozinho, pois seu pai encontrava com seus amigos, iam para a cerveja, ele ficava ali olhando os outros jogarem futebol, ou jogando vôlei, era um horror nos esporte, fazia um esforço imenso de ver jogo de futebol com seu pai pela televisão, odiava isso.   Seu pai ria dele por ser tão tímido.    Mas era seu jeito, não gostava de sair muito, cinema isso todos os filmes novos.   Mal estreavam no Cine Icaraí, ele ia, ganhava uma mesada que dava, ainda sobrava para comprar seus livros.       Sua mãe reclamava, pois como não gostava de ler, sempre dizia, não sei a quem saiu esse garoto.                  Tinha saído a seu avô paterno, que vivia sozinho, enfurnado com seus livros, discos de jazz, foi com ele que aprendeu a gostar de música, lastima que tinha morrido.    Quando o apartamento tivesse pronto, iria buscar seus livros, discos na casa de seus pais.   Estes quando soubesse que tinha encontrado o Igor, não iam gostar muito.      Tinha pensado em passar um tempo na casa dos pais na Tijuca, mas quando seu pai soube que sua noiva o tinha mandado a merda, seu único comentário foi, sempre foste um frouxo.   Não disse viado, porque ia criar uma briga com sua mãe.

Não pensava mais esconder nada.  Agora teria que dar graças a deus a ex-noiva, por tê-lo deixado, isso tinha feito que encontrasse com o Igor.   Riu pensando no momento que estiveram nus na cama, tinha ejaculado, só do prazer de se encostar nele.  

Estava na calçada parado com as duas malas, quando parou o carro dele.  Estavas rindo sozinho, mal sinal.

Estava pensando no primeiro dia que te vi, soltou tudo de uma vez, como sempre fazia quando se emocionava.      Que o entendia era seu avô, tinha ficado contra seus pais, pôr o terem afastado do Igor, lhe contou isso.   Ele ficou uma fera, disse que não era direito fazerem isso.   Anos depois me contou que tinha tido um grande amor por um homem, quem sabe eu te transmiti isso.

Perdão falei demais, como foi teu encontro?

Pesado, não é má pessoa, mas está em outra onda,  é surfista, fechado dentro de um armário com sete chaves, morre de medo que saibam que é gay.   Seus amigos são todos machotes, tem inclusive namorada, mas gosta de dar seu cuzinho.  Ficou bravo comigo, depois pediu perdão porque só nos vemos a escondidas.

Lhe disse que isso não ia comigo a tempo, pois estou sozinho de qualquer maneira, sempre vou a um cinema sozinho, tudo, imagina ontem poderia estar comigo, mas tinha uma festa na casa de um amigo.  Nem sei como cheguei a ter algo com ele.   Talvez carência.      Mas o que me deixa chateado, é que não quer assumir que é gay, um dia acabara se casando, sendo infeliz.

Isso pensava agora mesmo, talvez por isso ria, teria que agradecer a minha ex-noiva por ter dado o pé na minha bunda.  Senão não iria nunca te reencontrar.

Já que fizeste tudo que tinha que fazer, não queres passar o final de semana comigo.   Podíamos ir Icaraí, para recordar os velhos tempos.    Ficamos rindo os dois.

Acho melhor é recuperar o tempo perdido, Igor quando viu o apartamento que tinha alugado, disse que era pequeno. 

No momento com as dívidas que fiz com esse puto casamento, é o que posso pagar, mas adiante quando esteja tudo bem, poderei ir para um melhor.

A cama foi a única coisa que comprei, o resto está tudo na casa de meus pais, quando puder vou buscar, assim poderei montar o apartamento como quero.  Na verdade, só venho dormir em casa, trabalho o dia inteiro, quando saio, venho para casa ler, escutar minhas velhas músicas.   Você se lembra quando ias la em casa, ficávamos no quarto escutando música, primeiro me chamaste de antigo, mas depois começaste a gostar de jazz.

É verdade, duas coisas que me deixaste foram isso, livros, jazz, ninguém entende como sou apaixonado, mas não ia dizer que escutava as músicas que tínhamos escutado juntos para me lembrar de ti.

Mal chegaram em casa do Igor, foram de novo para a cama, ficaram deitados um ao lado do outro, lhe disse o que tinha pensado esperando por ele.   Que se o puto destino não os ia afastar outra vez.

Acho que não, somos adultos, agora podemos decidir os dois. Igor falou baixinho no ouvido dele, quero que me penetres, nunca fizemos isso, sonho sempre com isso. Foi uma sensação incrível, principalmente porque tiveram um orgasmo juntos.   Puta merda, tivemos que esperar todo esse tempo por uma coisa tão boa.

Dormiram, mais tarde a mãe do Igor telefonou para dizer que o tinha esperado, ele disse que depois contaria por quê.

Segunda-feira era dia de retornar a rotina de ir trabalhar, esteve no trabalho cismando, que se estava estagnado por culpa dele mesmo,  ao passar no corredor, viu na parede um curso de designer informática.

Não teve dúvida, conversou com o Igor, acho que estou estagnado por minha culpa, devia ter ido à luta, mas me faltava estímulo.   Meu trabalho é chato, mas porque fiquei parado.

Se queres fazer um curso posso te indicar, tenho um amigo que dá aulas, ele é excelente, já trabalhou comigo, mas sempre quis ir por livre, trabalha de free Lancer, mas dá aula também.           Tenha paciência, porque quando me pega no telefone, fala sem parar.    Falou um bom tempo com o amigo, anotou um número num papel.    Ele disse que quando queiras, mas cuidado, vai querer fazer sexo, me afastei dele por isso, confundia, trabalhar comigo, com oportunidade de fazer sexo.   Mas nunca quis.

E se faço, disse rindo?

Te corto o piru, segurou o mesmo, fazendo o gesto de cortar.

Começaram a falar da família, Igor contou que sua mãe tinha se casado outra vez, com um viúvo, com filhos, mas cada um num lugar diferente, fazem companhia um ao outro, agora ela me apoia, me da força, sempre diz que como ela, encontrarei um companheiro  para o resto de minha vida.

Eu ao contrário tenho um irmão, um garoto genial, com uma personalidade forte. 

Um filho temporão?

Nada disso, filho de uma aventura de meu pai, que não durou nada, mas ele mantinha ela com o garoto, ela morreu, ele confessou tudo a minha mãe, ela o cria como seu filho.  As vezes contra vontade de meu pai, ele vem se encontrar comigo.  É um garoto fantástico.   Quando acabarem de pintar o apartamento, vou trazer para um fim de semana, depois é claro de uma batalha.

Meu pai, não é capaz de me chamar de viado ou coisa parecida, me chama de fresco, como meus namoros nunca duravam muito, diz que sou um frouxo, um fresco.   Nunca me perdoou, por isso nossa conversa é sempre nervosa, se irrita por qualquer coisa, creio que pelo fato de estar no exército tanto tempo, o deixou neurótico, com isso de ser macho, acusa sempre a minha mãe por ter me criado mal.  Nem sei como ela aguenta,  Pedro, o filho dele, a quer com loucura, acho que por isso ela não manda ele a merda.

Tenho que ir um dia destes buscar minhas coisas, nem me atrevo a falar muito nada de minha vida pessoal, pois sempre sai discussão.     Com ela sim falo, se ele não está em casa, aprendeu a ficar calada, não suporta nossas discussões.

Quando queiras ir buscar tuas coisas, te ajudo ok.

Sim são umas quantas caixas nada mais.  Os livros que amo, bem como os LPS, antigos do meu avô, todos de jazz é claro.  Um velho aparelho de disco, duas caixas de som, está tudo no quarto de empregada.

Os meses passavam, na verdade estavam sempre juntos, cinema, teatro, adorava sair com as amigas do Igor, pois o queriam muito, primeiro pediu desculpas pela bebedeira.   Disse simplesmente que esse bendita bebedeira o tinha feito reencontrar com seu melhor amigo.

O curso que fazia com o amigo do Igor tinha saído bem, ele lhe passou um exercício, montar uma capa de um livro.  Ele conhecia o livro, tinha lido em inglês,  então desenhou várias opções em cima do texto.   Muito bem disse o professor,  dias depois chegou para ele com um envelope, vendi o teu trabalho, era um pedido que me tinham feito, mas queria saber como te saias.  Tive que inventar no final uma assinatura, pois não o fizeste, mostrou o que tinha feito, era uns lábios negros, embaixo em pequeno, S.Bocanegra. gostaram do trabalho, mas lhes disse que fazes questão de ler os livros antes.           Semana que vem vão mandar 3 mais, lhes disse que era teu agente.   Por enquanto passaram para mim os trabalhos.   Os pode realizar aqui, não pense que vou te cobrar nenhuma coisa.   O Igor fez igual por mim, nem vou cobrar em carne, disse rindo, pois já entendi como falas dele, que o ama.   Ele me mataria.

Quando contou ao Igor, este riu, tinha visto os trabalhos, analisou cada detalhe com ele, o que podia melhorar.   Bom agora, tens duas opções, ou vens trabalhar comigo, ou te transforma num free Lancer, tu é que sabes.    

Por enquanto me gostaria a segunda opção, ainda não sei muito bem separar as coisas,  apesar desses meses nem sei o que somos, amigos de cama e mesa, amantes, ou o que?

Nada de rótulos, quando tivermos certeza de tudo, nos casaremos, isso sim.   Te quero como sempre quis, mas tu tens que ter certeza de que queres isso, poderemos viver juntos definitivamente.

Comecei a rir, viver juntos, se não saio daqui, venho todos os dias dormir contigo, só vou ao meu apartamento para buscar roupa, colocar a suja para lavar, dormir sem ti, para mim é um castigo.

Nunca se separavam, contou o que se lembrava do dia da bebedeira, creio que quando te abracei, me senti como num porto seguro.   

Teu professor não se insinuou para ti?

Sim, mas disse que não queria morrer tão jovem, que desde o primeiro dia, quando mencionei teu nome, sentiu que eu falava de maneira diferente, perguntou a uma amiga que vocês tem em comum, ela confirmou que vivíamos praticamente juntos.   Nunca mais tocou no assunto.

Podemos montar no quarto da televisão, um lugar para poderes trabalhar,  se quiseres é claro, ou então o montas em teu apartamento, um lugar de trabalho, assim não ficas tão fechado em casa.  Poderei passar trabalhos para ti, meu pessoal esta sempre cheio de trabalhos, mas terás que ir até o escritório, para conversar com a responsável.   Nunca me mostre nada, só o faça a ela diretamente.

Com o do livro, tinha sido bom, preparou os outros três, agora passariam o trabalho diretamente para ele, deu para montar o seu studio como queria,  comprou novo computador, com tudo que podia de especial, assim poderia fazer o que queria,  Usou para isso o sala que tinha uma luz especial.   Quando viu o volume de trabalho que a garota que trabalhava para o Igor lhe passou, viu que podia viver disso, se arriscou, pediu demissão do emprego.   Estavam contentes com ele, fizeram um acordo, rescendiam seu contrato, se precisassem de seu trabalho externo, ele seguiria fazendo.  Isso lhe dava uma boa margem, ganharia mais que como empregado.   Se fez de autônomo, para seguir pagando impostos para sua aposentadoria.

Nesse tempo, Pedro veio passar um final de semana com eles, no ônibus quando foi busca-lo, contou a verdade para ele.  Vivo com a pessoa que sempre amei, mais ou menos quando tinha a tua idade, teu avô, bem como meu pai, nos separaram.  Agora nos reencontramos por acaso.

Pedro, colocou a mão sobre a sua, se ele gosta de ti como mereces, fico contente, será meu outro irmão, mas não se preocupe, não vou comentar nunca com o velho, pois nunca mais ia deixar que estivesse contigo.

Era um garoto fácil de manejar, foram ao cinema, saíram para comer, foram a praia na barra, ele estava extasiado.

O velho não me permite nada, nem que tenha amigos, as vezes me convidam para uma festa, ou para um encontro  de todos da turma da escola, diz que não, que isso é perigoso.   Agora entendo porque ele pensa assim. 

Quando foram leva-lo em casa, já que estava de carro, resolveu descer suas coisas para colocar no carro, Pedro o foi ajudando.   Seu pai perguntou quem era que estava no carro, só lhe respondeu que um amigo. Ficou olhando pela janela, observando.  Voltou para a última leva de caixas, o velho o parou, não me diga que esse do carro é o Igor, aquele com quem fizeste sexo em garoto.

Resolveu encarar a situação pela primeira vez.   O senhor me chamou tanto de frouxo, de fresco, que acreditei, sim é ele, por minha sorte o reencontrei.  Vou viver com ele.

Levaste teu irmão para esse tipo de ambiente?

Que ambiente pai, que é melhor que essa casa, aonde controlas tudo, como se estivesse no exército, sem perguntar nada a ninguém.  Olha minha mãe, tem sorte ter aceitado teu filho, mal exemplo eres tu que tinhas amantes.  Ela nunca reclamou. 

Ele saiu da sala, estava abraçado a sua mãe, quando ele voltou com um revolver.  Filho meu não fala assim comigo, não sou um frouxo como era meu pai.

Sua mãe se colocou na frente dele, lhe deu um tiro certeiro no coração, a ele disparou três vezes, depois colocou o revolver na boca, deu um tiro. 

Igor ao ouvir os tiros, subiu junto com o Pedro, da porta parou, chamou uma ambulância, bem como a polícia. Teve que segurar o Pedro que queria abraçar a sua mãe postiça.  Ficou ali com o garoto de um lado, do outro segurando a mão do Sergio.    Rezando mentalmente, não me separem dele agora por favor.

Quando chegou a polícia junto com os da ambulância, levaram logo o Sergio, disseram ao hospital, ele disse que os dois não tinham visto nada, só escutaram os tiros, subiram correndo, mas já era tarde, teriam que esperar o Sergio melhorar para saber.

Agarrou o menino, foi com ele ao hospital.  Quando chegaram, Sergio estava na sala de cirurgia. Não sabia quando acabaria, tinha três balas no corpo, segundo a enfermeira, por sorte nenhuma atingiu nenhum órgão vital.

Agora era esperar, nesse tempo se encarregou do Pedro, que começava a se sentir culpado.  Nada disso, não sabemos o que aconteceu, não eres culpado de nada.  Estas comigo, agora sou tua família também.

Quando Sergio foi para o quarto, puderam estar com ele, chegou um inspetor de polícia que os médicos tinham avisado.

Ele disse que seu pai não estava bem, era ex-militar, estava muito neurótico,  começou a discutir sem mais, saiu da sala voltou, deu um tiro em minha mãe, menos mal que cai, porque senão estaria morto, depois escutei um último disparo, pensei agora vou morrer.

Pelo que soubemos pelos vizinhos, teu pai, estava muito complicado, tinha conseguido brigas com quase todos os vizinhos, inclusive há várias reclamações a respeito dele na delegacia do bairro.  Dizem que por qualquer coisa começava a brigar, que não permitia que tua mãe saísse a rua de maneira nenhuma, nem ao garoto.   Que a meses atrás tua mãe, esteve no hospital com hematomas.

Pois não me contou nada, chamou para perto o Pedro, esse confirmou que sim, mas que ela tinha feito ele prometer que não contaria nada.  Por qualquer coisa, até uma notícia na televisão, ficava furioso, se os senhores olharam a casa, devem ter visto no salão a televisão quebrada, foi alguma noticia sobre militares, ele arrancou a televisão da mesa aonde estava, a atirou no chão.  Disse que na casa não entrariam mais mentiras.   Mas comprava jornais todos os dias, depois  quando não gostava rasgava o jornal inteiro. Levantou a manga da camisa, não queria que eu passasse o final de semana com meu irmão, queria me pegar, minha mãe se colocou no meio, levou a pior.   Foi quando foi para o hospital.

Bom o senhor terá que se fazer responsável pelo seu irmão menor de idade, deve depois ir até o juiz para retificar.

Obrigado por tudo inspetor.

Pedro, se deitou sobre seu peito, como pode fazer isso com nossa mãe, ela procurava obedecer em tudo a ele para evitar esses problemas,  ficava agressivo, quando sem querer eu não obedecia, me chamava de filho da puta, era isso tua mãe verdadeira, ai ela me defendia, não fale assim com meu filho.  Nunca dizia a ele teu filho, eu era só filho dela.

Ela sempre te quis muito Pedro, não se esqueça disso.

Agora teria que preparar o enterro dos dois, nem sabia a quem chamar.   Não conhecia nenhum parente, apareceu um homem do exército, dizendo que de seu pai, pelo rango que tinha se encarregavam eles. Mas sua mãe não estava incluída.

Me lembrei o cemitério que estava o avô, lá pros lados de Charitas, vou ver se posso enterrar ela lá.  Deu as dicas ao Igor, que disse que ia verificar tudo.

Vou levar essas coisas para o teu apartamento, o Pedro fica comigo lá em casa.  Vou ver se minha mãe pode vir dormir com ele, assim posso ficar contigo aqui,  nem isso vai me separar de ti.  Chorava dizendo, quando pensei que te perdia, quase tive um enfarte.

Estava me despedindo de minha mãe, abraçado a ela quando ele voltou, sem uma palavra apontou o revolver, ela se colocou diante de mim, por isso morreu, como eu estava com as caixas, elas creio que me protegeram.  Eram as coisas do meu avô, nunca pensei que ele odiasse seu pai tanto assim.  Me disse que seu pai era gay.  Imagine o velho estava sempre sozinho, só minha mãe e eu que o visitávamos, ele não ia nunca.  Uma vez me lembro, ela disse que ele mandava lembranças, ele respondeu, minha filha, não minta por esse sem vergonha.   Morreu sozinho, foi enterrado nesse cemitério, ele tampouco foi ao enterro que tinha uns quantos gatos pingados.

Pedro vem, comigo, vamos resolver esse assunto, assim teu irmão descansa.

No carro, o garoto soltou, como gosto de ver vocês dois juntos, se gostam de verdade.  Meu pai dizia que era impossível isso, dois homens se gostarem, quando aparecia alguma notícia de gais na televisão, apagava a mesma, dizia que bastava um naquela casa.   Levei muito tempo para entender que falava do Sergio.  Mas desde que me viu, me tratava como seu irmão, me dizia que eu não tinha culpa dos erros dos outros.

Uma grande verdade, não temos a culpa dos erros de nossos pais, ou dos demais, temos sim que ter consciência do que somos capazes, seguir em frente, lutar.  A partir de agora, volto a te repetir, não estas sozinho, tem a nós dois.

Por sua cabeça rondava, agora creio que devemos nos casar.   Quando entrou na cozinha viu o corpo do Sergio coberto de sangue, a dor que sentiu no peito, quase o deixa sem raciocínio para chamar ambulância além da polícia.

Falou com sua mãe, ela não vivia muito longe dele, quando contou o sucedido, porque não trazes o garoto para cá, José vivia antes nessa zona, pode conhecer alguém para te ajudar.   Venha para cá quando possa, esse garoto deve ter fome.    Contou ao Pedro, que para sua mãe tudo se revolvia comendo, eu falando assim parece que é imensa de gorda, ao contrário é magra como eu.

Creio que lá estarás bem, pois os dois são gente fina.  

Ele não é teu pai?

Não, meu pai vive até hoje nos Estados Unidos, gosta da vida lá,  a fábrica para qual trabalhava, lhe paga bem, apesar de estar aposentado, para orientar os mais jovens.   Um lugar aonde judas perdeu a bota, nem voltou para buscar a mesma.

Depois de fazer tudo, foi a casa da sua mãe que esperava com a mesa posta, se sentaram com eles, volta e meia olhava o garoto, segurava sua mão.  Igor piscava para ele.   Depois antes de sair com o Jose, lhe disse ao ouvido, esse menino pode virar teu neto.   O sorriso da cara dela, era imenso.

Resolveram tudo, José conhecia todo mundo, conseguiu liberar o corpo da polícia, que uma funerária fosse buscar, além de manter até Sergio poder ficar em pé.   Na hora que foi deixa-lo, quando entraram em casa, sua mãe, mostrava um álbum de fotos dele na mesma idade.  Riu, pensou, já assumiu que é avó.

Pelo menos Pedro estava tranquilo, lhe disse que ia para o hospital, vou passar em casa agora, tomarei um banho, irei para o hospital.   Quando chegou levou um susto, Sergio não estava no quarto, quando perguntou lhe disseram que estava outra vez em cirurgia, tinha tido um problema.

Ficou aterrado, chegou à conclusão de que se ele morresse ia ser difícil seguir em frente.  Todos esses anos, tive aventuras, mas nada como o que tenho agora com ele.             Sabia que se contasse a alguém diriam que ele estava vendo filmes românticos demais.   

Quando ele voltou para o quarto, riu da sua cara, o que passa?  

O que aconteceu digo eu?

Nada, foram fazer o curativo, um dos pontos tinha saído, bem como uma grapa que usam agora, então me levaram para fazer outra vez.

Puta merda, cheguei aqui não te vi, levei um susto de morte. 

Como está o Pedro?

Bem, na casa da minha mãe, fui com o José que conhece todo mundo, resolvemos tudo, trouxe uns papeis que tens que assinar, nada mais.

Eu disse ao ouvido da minha mãe, que Pedro pode vir a ser seu neto, ficou como louca, quando voltei estava mostrando um álbum de fotos minhas quando garoto.

Como seu neto?

Ora Sergio, se nos casamos, podemos adotar o Pedro, só isso, só por isso me caso contigo.

Sem vergonha, isso lá é maneira de me pedir em matrimonio?

Inovadora é.   Só de pensar em te perder de novo, fico alucinado.  Ficou ali segurando sua mão, até que mais tarde ele dormiu.   Acabou dormindo, encostou a cabeça na cama, acordou muito mais tarde com Sergio passando a mão nos seus cabelos como ele gostava.

Mais tarde veio o médico, explicou, teria que usar uma faixa no tórax, até quase o quadril, pois duas balas tinha entrado e saído. A terceira que era a perigosa, tinham retirado.  Mas precisavam da pressão da faixa para manter as costuras fechadas.  Tiveste sorte, pois essa terceira podia ter sido a final.  Dentro de dois dias poderás sair, desde que prometa não fazer esforço.

Mais tarde, sua mãe com o José, trouxeram Pedro para ver o irmão, tiveram que o conter pois se queria jogar em cima do mesmo.             Sergio ficou alisando seus cabelos, fique tranquilo, vou sair daqui dois dias, vamos ficar juntos ok.

Igor avisou seu advogado, que veio falar com eles, para justamente Sergio conseguir a guarda do irmão, não se preocupe, conheço um juiz da vara de menores, resolvo tudo para ti. Já falamos.

Um momento que Lindalva, a mãe do Igor ficou sozinha com ele, disse, não sabe o quanto me arrependo de ter ficado quieta quando devia ter defendido que os deixássemos em paz naquela época, mas meu marido era um cabeça dura.    Menos mal que vocês se reencontraram, tudo que quero é ver meu filho feliz, sei que está pela maneira que olha a ti.  Esta mais relaxado, até conversa mais com o José.    Pode deixar que cuido esses dias do teu irmão, é um bom garoto, me contou tudo que aconteceu.  Talvez mais tarde devas leva-lo a um psicólogo, pois essas coisas marcam muito.

Ficou ali segurando sua mão,  Igor parou na porta, ficou sorrindo, pode largar a mão dele, é minha.  Depois a senhora tem que me ajudar a encontrar um anel de compromisso, não posso deixar que escape, quero me casar com ele.

O enterro de sua mãe, eram só eles, tinham removido os ossos de seu avô, encontraram sua carteira de documentos junto ao corpo.    Ninguém entendeu, creio que meu pai o mandou enterrar como estava, não trocaram suas roupas, não houve velório, nada disso.  Só viemos, eu e minha mãe.

Achou tudo muito estranho, ficou com a pulga atrás da orelha, pois quando olhou os documentos, seu avô aparecia como solteiro.   Resolveu fuçar, buscou na casa da sua mãe, os documentos do pai, só constava como família seu pai, não aparecia o nome de uma mãe.  Rebuscou mais numa caixa de metal, fechada com chave, ali encontrou um documento de adoção, uma coisa rara na época.   Então a raiva deve ter sido esta, seu avô tinha adotado seu pai.   Nessa caixa havia fotos dos dois sempre juntos, mas uma lhe chamou a atenção, pois era de seu pai abraçado com o avô, o beijando no rosto.  Noutra, uma reunião na casa dele, mas não havia nenhuma mulher, só homens.   Bem no fundo encontrou um pequeno caderno, escrito primeiro em letra infantil, primeiro contente que esse homem o tivesse adotado, o retirando do orfanato que estava, aonde passava fome.   Depois um comentário o deixou surpreso, mas que não gostava de dormir na mesma cama que ele, que este o agarrava muito.

Já anos mais tarde, dizia que iria fugir, que finalmente tinha descoberto que o que os dois faziam era pecado, não sabia que fazer sexo com o próprio pai era errado.   Ou seja, agora entendia o horror que tinha ao avô, tinha abusado dele.   Ele me diz que se sente só, que sou a única pessoa que ama, por isso dorme comigo.

Que coisa mais complicada, ficou com esses papeis na mão, fechou a caixa, separou com as outras coisas, o de sua mãe era fácil de explicar,  foi criada num orfanato, talvez por isso tivesse dificuldade de o abandonar.    Separou as coisas do Pedro para levar, o resto doou tudo para que viesse buscar, o apartamento era alugado.   Batalhou para conseguir que a pensão que seu pai tinha, ficasse com o Pedro, para fazer um fundo para que um dia pudesse ir à universidade.

Quando comentou, mostrando as anotações,  bem como os documentos ao Igor, o porquê seu pai era tão retorcido, tão fechado em si mesmo, o escândalo que tinha feito quando tinha descoberto o que passava entre eles.   Tinha tudo sobre isso muito  confuso em sua cabeça.  Foi falar com um psicólogo que conhecia, lhe mostrou tudo.   Na minha infância, tudo que me lembro, é que nunca tive um carinho dele, como se tivesse medo de se aproximar, será que isso lhe provocava.   Perguntei ao meu irmão, ele disse o mesmo que nosso pai nunca tinha lhe feito um carinho.

Busquei seu registo no exército, aonde ele tinha entrado com 18 anos, para poder fugir do meu avô, mas quando ia a casa deste eu só escutava música, falávamos de livros, era uma pessoa totalmente tranquila.

Bom o melhor era deixar esse passado, pois agora entendia o que lhe passava pela cabeça, era uma coisa totalmente distorcionada, não faria bem a mim, nem que Pedro soubesse disso.   Ele sentia realmente era a morte de minha mãe, pois o tinha cuidado com amor.   Tampouco tinha ideia de quem seria sua mãe , verdadeira, porque ele tinha sido registrado como filhos dos meus pais.   Que confusão.

Mas segui meu trabalho.  Conseguimos uma transferência do Pedro para perto de casa, quando o juiz me deu a custódia dele, lhe perguntei, se pela diferença de idade eu poderia adota-lo.  Fizemos o papel rapidamente.

Igor um dia cheio de mistério, era meu aniversário, logo de manhã, fazíamos sexo, ele sentado em cima de mim, se abaixou tirou do travesseiro uma caixa com um anel, queres te casar comigo.  Não sei por que fiquei alucinado, fizemos um sexo mais selvagem, lhe disse, peça outra vez quando esteja dentro de mim.  Foi o que ele fez.   Agora entendia o que era sexo de verdade.  Eu lhe disse que sim, se essas seções não acabassem nunca.     Pedro as vezes passava o final de semana com Lindalva, essa o enchia de mimos, tinha tempo de sobra para curtir o neto.

Eles aproveitavam para estar sos.  Quando Pedro se formou na Universidade, foi interessante, falava dos avós que o tinham feito ir em frente, Lindalva, Jose, e seus pais que amava acima de tudo Sergio e Igor.

Os dois agora tinham os primeiros cabelos brancos,  mas felizes. Tinha valido o tempo de espera.

BLACK IS BEAUTIFUL

                                        

Hoje cedo na rua do Ouvidor, quantos brancos horríveis eu vi.

Eu quero, preciso de Amor, dos negros do Congo ou daqui.

Quando lhe pediram para cantar a mesma música que era seu carro chefe, abaixou a cabeça, seus cabelos brancos imensos, caíram cobrindo totalmente sua cara.  Começou a dedilhar no piano sua música, sem querer tinha transformado em sua, uma música que muita gente antes tinha cantado.

Era o ano de 1980, Rio de Janeiro, a princípio considerou como seu ano maldito, era um domingo, voltava da praia com seu namorado, fazia um bom tipo, magro, alto 1,90 metro, cabelos imensos, queimados do sol, tinham estado falando, falando, se sentia esgotado de tanto falar.  A relação tinha ido para o caralho.  Depois de tudo que tinha feito, pensava, tinha largado tudo por esse amor, renunciado a uma carreira no teatro, começavam a lhe chamar para outros trabalhos, mas claro, pensou que amava. 

Este avisava, que ia de férias, quando voltasse, não queria mais nada dele em seu apartamento, sentia muito, mas o que pensava que era amor, tinha se acabado, queria novas experiencias.

Ficou puto da vida, nem casa, teria dentro de um mês.  Chegou, tomou um banho, tinha comprado dois ingressos para assistir o último dia do show de um cantor que amava, seu amigo de longa data, tinham começado na mesma época sua trajetória pelo Rio de Janeiro.  Nenhum dos dois era dali.

Ele tinha desistido de cantar, pois, tinha a voz de baixo, adorava os musicais, passava nos testes de dança, pois era bom nisso, mas quando abria a boca, diziam que não tinham nenhum papel para este tipo de voz.   Uma grande atriz ainda lhe disse, com todo seu tamanho, irias tapar o ator principal. Foi ele que disse que não, mas não desista, eres bom.

O jeito foi montar ele mesmo um espetáculo completamente maluco, primeiro tinha que passar na censura.  Com muito jeito, conseguiu enganar para os dias da estreia o censor, compartia palco com um amigo.  Ele tinha escrito o roteiro.  A cena mais importante, era o amigo contando a historia de como se tinha descoberto gay, vestindo a roupa da mãe, escondido.  Enquanto isso ele fazia a mesma cena de costa.                             No final do monologo, ele se virava lentamente, transformado no outro, soltava toda sua voz, num grito profundo, começava a cantar uma música composta pelos dois, o público não esperava isso, uma pessoa travestida, cantando com aquela voz de baixo, fazendo falsetes em jazz.

Fizeram uma temporada inteira, com a crítica falando dos dois.  Alguns falavam mais dele, o que ocasionou um choque entre os dois, de amigos, passaram a ser dois inimigos em cena.  Mas as pessoas diziam que o espetáculo tinha ficado melhor.  Nunca mais se falaram quando acabou a temporada.

Logo o chamaram para mais trabalhos, mas nunca nada interessante, como tinha um trabalho fixo, foi levando.     A paixão bateu em sua porta, num dia de chuva, quando saia da academia de dança.   Tinha feito uma aula de Jazz.   A professora teve que sair, como sempre lhe disse que seguisse com a aula.  Ele era bom.   Na época quando estudava, os momentos livres era para isso, aprender todos os tipos de dança, aulas de canto. 

Seu corpo era de fazer inveja, segundo diziam no banheiro depois da aula quando tomava banho, de costa para os outros, lhe dava vergonha ficar nu na frente dos outros.  Nunca conseguiu se livrar disso.

Chovia a mares nunca dantes navegados, como ele gostava de dizer, das chuvas de verão no Rio de Janeiro.  Nada que se esperasse um pouco, logo acabaria.   Saia um aluno, que já tinha falado com ele antes, tinha visto seu trabalho, as vezes ele substituía a professora que estava cheia de problemas no momento, era uma maneira de ganhar algo de dinheiro.

Lhe ofereceu uma carona. 

Vais para aonde? 

A resposta lhe deu uma surpresa, para aonde queiras, desde que acabe na cama contigo.

Acabaram realmente na cama, embora nessa época tivesse, entre aspas, relacionamento com um homem casado, se encontravam quando podiam.  Mas isso para ele era ótimo, levava sua vida.

Se deram bem em tudo, despertou nele um sentimento, que tinha pensado não ser capaz, por esse sentimento, começou a trabalhar período integral para poder conviver no apartamento do outro.   Foi uma má decisão, agora o colocava para fora.

Quando ia se vestir para sair, o outro fumava um baseado, entraram seus amigos, sem sequer lhe dizer boa tarde, cada um foi deixando um baseado numa taça de barro que tinha em cima da cômoda, não teve conversa, passou a mão em meia dúzia.

Vestiu uma camiseta justa branca, uma calça boca de sino, desenho dele mesmo, enrolou na cintura um  tela indiana, misturada com lantejoulas, por cima uma camisa imensa branca, uns sapatos brancos que ele também tinha desenhado, com mais cinco centímetros de sola de cortiça, assim ficava mais alto ainda.

Foi duro conseguir um taxi, quando chegou no teatro, já tinha fumado 3 baseados, fumou mais dois de raiva antes de entrar.  O show já estava começando, seu amigo já estava em cena, ele estava tão tonto que não sabia aonde se sentar, o amigo do palco lhe disse para sentar na primeira fila pois tinha um lugar vazio.

Adorava a voz do amigo, era um tom mais baixo que a dele. Conhecia todo seu repertorio, mas quando ele disse, vou cantar uma música que sei que meu amigo adora, começou a cantar Black is Beautiful.  Sem se dar conta, estava eletrizado começou a cantar junto.  O amigo parou, de cantar, gente, esse sujeito tem uma puta voz, mas nunca lhe deixam cantar direito, faz milhões de casting, mas como é alto, quase não chama a atenção, a plateia riu a bessa.  Suba, cante tu dessa tua maneira a música.   A princípio ficou com vergonha, mas tinha aprendido a falar com os músicos seu tom, lhes disse que da segunda parte para o final, subiria dois tons.

Tirou a camisa, deixando que todo seu bronzeado, no seu corpo extremamente branco aparecesse.  Abaixou a cabeça, deixando que seus cabelos caíssem sobre sua cara, começou a cantar.

Hoje cedo na rua do Ouvidor, quantos brancos horríveis eu vi,  eu quero e preciso de amor, dos negros do congo ou daqui.  Abriu seu vozeirão, que até ele mesmo se surpreendeu, depois entendeu que estava incorporado por um Exu.   Foi subindo cada vez mais, quando foi chegando ao final, fez um sinal aos músicos, esse pararam de tocar, cantou o resto a capela, o público aplaudiu em pé.

Seu amigo, rindo falou, nasceu uma estrela, lastima que no céu dessa santa pátria, nenhum cantor com esse tipo de voz, faz milagres.   Lhe disse, depois vá até o camarim.

Desceu do palco, esperando que o amigo cantasse uma outra música que finalizava o show.

A doidera ainda rodava sua cabeça, riu para si mesmo, só mesmo eu, para transformar um momento de merda, numa coisa assim.   Sempre tinha sido assim, quando uma porta se fechava ele pulava uma janela, ou se atirava do balcão, buscando outra chance.

Esperou que os fans falassem com o amigo, encostado numa parede fumando um cigarro, ao seu lado se encostou um negro da sua altura, lhe disse que tinha amado sua parte no show, mas falava em inglês.   Se se preocupar muito começou a conversar com ele em Inglês, sua segunda língua.    Estava ali conversando, seu amigo saiu já pronto do camarim, dizendo, uau, nem preciso apresentar os dois. 

Jacobo Magstein,  um produtor de New York, veio assistir pela segunda vez meu show, ficou deslumbrado contigo.

Tu parecias incorporado, meu amigo, que espetáculo, te digo sempre és uma bomba pronta para explodir.

Sem saber como, no outro dia despertou na cama do Jacobo.                      Não se lembrava de absolutamente nada.               Este disse, não se preocupe, não fizemos nada do que possas te arrepender.

Riu, me arrependo de muitas coisas, não podia tirar os olhos do corpo dele, enrolado numa toalha, vem vá tomar um banho, porque dançaste ontem como um louco.  Ninguém podia contigo.

Ia pegar sua roupa, mas sentiu o cheiro que vinha dela, cigarro, bebida, tudo que se pode sentir depois de uma discoteca.

Acho melhor deixar para tomar um banho em casa.

Nada disso, pedi café para os dois,  tirou do armário umas bermudas, uma camiseta, ficaram bem nele.  Tomou um banho demorado, ainda em cinco minutos se lembrou porque tinha saído de casa na noite anterior. 

Se sentaram tomaram café, contou ao Jacobo, quando ele lhe perguntou por que seu amigo tinha feito um comentário a respeito de sua voz.    Falou de todos os casting que tinha feito, depois te mostro um vídeo de um espetáculo que acabei montando para poder ser alguém nesse pais.            Mas o incrível, era que não podia deixar de olhar aquele homem, porque se interessava por ele.

Jacobo foi honesto quando lhe perguntou por quê?   Fiquei alucinado quando te vi subir no palco, como se estivesse na sala de tua casa, soltar a voz daquela maneira, cheguei a ficar excitado, queria subir fazer sexo contigo ali mesmo.

Agora quem estava de boca aberta era ele.   Replicou dizendo, pelo que vi, o teatro estava cheio de gente bonita.

Nada como tu, tens energia, magia, essa tua voz.  Te imagino cantando jazz.

Quando colocou a sua mão sobre a dele para lhe agradecer, sentiu uma vibração diferente.

Acabaram finalmente na cama, fazendo o que não tinham feito.  Na hora do orgasmo, soltou um urro.   Estava colocando para fora tudo que sentia, mas agora tinha um prazer que tinha confundido, pela pessoa que o tinha deixado.

Jacobo tremia, caralho, nunca pensei que ia acontecer isso no Brasil.

Ele riu, Jacobo, não sou brasileiro, nasci em Paris a séculos atrás, meu pai é francês, minha mãe alemã, vieram para cá esperando ficarem ricos, vivem no sul, numa casa de madeira, que cai aos pedaços, numa terra imensa.   Eu escapei.

Passaram todo o domingo juntos, no quarto tinha um piano, cantou várias músicas que gostava, inclusive uma da Billie Holiday que amava.   Claro tinha transposto a mesma para sua voz. 

Não queres vir comigo para New York?

Como ir contigo, não tenho dinheiro para isso, mas para fazer o que?

Posso te lançar no teatro por lá, sou produtor.   Estou de férias para esquecer um amor mal resolvido.

Então estas como eu, amor mal resolvido.

Mas nunca senti o que senti hoje de manhã contigo na cama.

Tens certeza de que queres me levar?

Sim, tenho, corro o risco.

Na segunda feira pediu demissão de seu emprego, tirou passaporte, na terça, foi com ele ao consulado americano, conseguiu um visto de trabalho, uma coisa difícil de conseguir.

Seu amigo vibrava, sabia que ia acontecer isso, quando ele te viu, seus olhos se escancararam, depois na discoteca, quando encontraste teus amigos da escola de dança, improvisaste uma coreografia com eles, ele não fechava a boca.  Me disse que tudo teu era espontâneo.

Bom de qualquer maneira tinha que me pirar daqui, pois me colocaram para fora do apartamento.

Eu sei me contaste ontem.   O melhor não sabes, enquanto estavas dançando, vieste até o Jacobo, lhe deste um puta beijo na boca, nesse momento entravam teu ex com seus amigos ricos.  Parou ficou de olhos abertos, virou as costas foi embora.  Fica na minha casa, até ires embora.

Não, fico no hotel com ele, adoramos fazer sexo, ficar abraçados.  Agora entendo o que sentia pelo outro, um simples reflexo de mim mesmo, querendo ser amado.

Já tinha retirado toda sua roupa da casa do Ex como dizia seu amigo.   Inclusive sua máquina de costura. 

Jacobo perguntou para que queria uma máquina?

Eu aprendi a costurar, com minha mãe, a roupa que usava ontem, quase todas minhas roupas, faço eu, é muito difícil encontrar roupa para o meu tamanho.

Jacobo já tinha comprado o bilhete de avião para ele, trocou o pouco dinheiro que tinha por dólares,   ainda pensou, deve dar para comprar um palito, para tirar o resto de um hot Dog dos dentes.

Iam em classe turística,  mas estava feliz, Jacobo dormiu no avião ele ficou olhando para o rosto do outro.  Era um homem extremamente bonito.

O apartamento era bom, nem grande nem pequeno, mas podia se acomodar com ele.  Abriu um armário, estava cheio de trajes de homem sério.    

Jacobo ficou puto da vida, passou a mão no telefone, disse para alguém que se não viesse recolher sua roupa, jogava tudo pela janela.     Meia hora depois bateu na porta um rapaz, um mulato, mais baixo do que ele, sem dizer uma palavra, me olhou de cima a baixo, bom proveito, recolheu suas coisas foi embora.

Esse filho da puta tem muita cara, o peguei na minha cama com outro, ainda se faz de vítima, diz que nunca o soube satisfazer na cama.  Soube depois que me colocou o chifre com muita gente.

Ele foi honesto, pois eu me sinto fantástico contigo na cama, basta ver esses dias todos.

Eu sei, também me sinto assim, mais agora que me sinto livre.  Amanhã vou te levar a um lugar, para cantares, mas te digo é só o começo, pois tem muito que brilhar.

Não lhe disse aonde era, só disse coloque uma das tuas roupas de fechar o comercio.  Ele colocou uma camiseta de lantejoulas negra, uma calça negra, que era uma cópia dos marinheiros americanos, boca de sino, uma sandália alta, com a sandália ficava mais alto que o Jacobo.

Este ria, já não chamarei mais atenção, mas todo mundo vai saber que sou teu amante.

Tomaram um taxi, pararam num lugar com porta dupla, só dizia Club.  Quando entraram viu que todo mundo falava com Jacobo, a grande maioria eram negros.  Se sentiu como uma galinha branca num terreiro de galinhas negras, vão me matar. 

Ao contrário, todos o olhavam com curiosidade.    No momento cantava um grupo de garotas jovens todas negras.  Lhes faltava algo.

Jacobo disse, em seguida vão de apresentar.

De fato, o apresentador, fez colocarem um piano em cena, soltou que nome difícil, Louis Daguerre.  Ele se levantou, Jacobo disse, canta Black.  Ele entendeu.

Se sentou no piano, inclinou a cabeça, começou a cantar, quando estavam as meninas cantando, se escutava a voz de pessoas falando.  Tudo era silencio, primeiro cantava em português, quando chegou na parte alta, passou a cantar em inglês.  Terminou com a cabeça jogada para traz, com seus cabelos fazendo uma cascata.   Todo mundo aplaudia muito.  Lhe entregaram um papel, era do Jacobo, canta Billie.

Porra na terra dela, cantar até era uma ofensa.   Pegou no microfone, falou, me pediram para cantar uma música, de uma cantora que admiro muito.  Mas claro não tenho a voz dela, fiz uma versão para minha voz, The Man I Love.  Mudava o ritmo um pouco, baixou o tom de voz, como se estivesse rouco.   Se imaginou se arrastando bêbado pelas ruas, atrás do homem perfeito.

Quando terminou, os aplausos era imensos, com todo mundo em pé.

O apresentador, disse one big star Louis Daguerre.  Mas pediam para continuar, outra em português, não se fez de rogado, cantou a música do seu espetáculo, mas o fez a capela, em pé no meio do foco, em cima dele.    Sabia que Jacobo tinha amado o vídeo.  Depois cantou a mesma em Inglês.  Soltou-se como fazia no espetáculo, dançando, cantando, desceu a plateia, mexeu com alguns homens que estava ali, como fazia.

Quando chegou perto do Jacobo, viu que estava enciumado, como o foco estava neles, disse my man.

Nunca mais faça isso, morri de ciúmes, todo mundo te devorava.

Mas quem me leva para cama es tu.

Se amaram essa noite como loucos, ele porque estava se sentindo fantástico, o outro porque tinha ciúmes, viu que todos o tinha devorado.

Passou se apresentar no Club, todos os finais de semana, aumentaram inclusive o que lhe pagavam, pois vinham de outros clubes para vê-lo cantar.   Ele gostava disso, do contato direto com o público, nunca mais cantou a música que deixava o Jacobo com ciúmes.

Agora tinha dinheiro para alugar uma sala na Broadway para fazer aulas de dança ele só.

Estava ali um dia, quando apareceu na porta um homem que ficou olhando ele dançar com uma música tremendamente sensual. 

Se apresentou com André Croix, disse que era produtor da Broadway, que estava selecionando gente para fazer um casting.  Ele disse que lhe daria o cartão ao seu agente para marcar alguma coisa.  Disse aonde cantava nos finais de semana.

Falou com Jacobo, este não gostou, agora percebia que era um pouco controlador, lhe disse isso, não gostava que o controlassem.  Já perdi demais na minha vida por quererem controlar minha vida.  Lhe disse que eras meu agente.  Tu que sabes, ou posso chamar, ir sozinho.

A contra gosto Jacobo chamou, o André disse que iria nessa noite assistir o show que fazia no Club, agora cantava mais músicas, uma parte em português outra em inglês. Se atrevia inclusive com uma da Carmen Miranda.

Depois André Croix disse que gostava da sua versatilidade, em colocar a voz.

Foram anos trabalhando duro, não ia contar dos casting no Brasil, quando sempre o colocavam para fora.

Deixou que os dois negociassem,  era para um segundo papel numa obra.  Já sabia que ele cantava, dançava, agora teria apenas de fazer um teste para falar o texto.

Quando leu o mesmo, esperando a vez de se apresentar.  Leu, que o personagem era de Puerto Rico, tinha conversado com vários deles no camarim, sabia como falavam, carregando em algumas frases.      Assim fez o texto, tinha decorado o mesmo, ficou com o papel. Mas poderia manter o espetáculo que fazia no Club.    Inclusive André Croix, conseguiu um cartão de residente permanente, a princípio teria que voltar ao Brasil, mas Jacobo conseguiu que ele fizesse show um final de semana em Toronto. 

Quando voltou, já estava como residente.  Percebia que Jacobo cada vez o vigiava mais, pois pensava que estava interessado no André.   Nem tinha lhe passado pela cabeça isso, era um tipo que não lhe interessava o mais mínimo.

Quando começaram os ensaios, ele gravava de primeira as modificações que o diretor fazia, o texto era uma coisa inovadora na época, um musical, com fundo gay.                  Se saia bem na coreografias, bem como cantando, ou falando com sotaque de Puerto Rico.  Muitos pensavam realmente que ele era de lá.   Lhe chamavam de branquinho de Puerto Rico, falavam com ele em castelhano das ilhas.  Ele respondia igual.

Convidou os companheiros para assistirem o show, depois do espetáculo.

Depois de meses em cartaz, já estava chegando a conclusão que gostava mais do show do Club, mas claro queria o dinheiro para sua independência.   Notava que as coisas com o Jacobo iam cada vez pior.   Tentou por duas vezes conversar com ele a respeito.                Aceitava que tinha ciúmes, que como não ia ter ciúmes com um pedaço de homem como ele.

Lhe explicou mil vezes que não se via assim, como ele dizia.  Se saio do teatro contigo, vou ao show contigo, como vou ter amantes.

Jacobo foi fazer um contato fora, voltou dias depois, sem querer soltou depois de terem se amado com saudades, do corpo um do outro, que o tinha mandado seguir, para saber aonde andava.    Foi a gota d’água.   Ficou furioso, te agradeço ter chegado aonde cheguei, mas isso está passando dos limites.  Não estou gostando nada do rumo que está tomando tudo isso, se descubro mais uma coisa desta, vou embora.

Mas não precisou muito, o espetáculo ia começar uma tournée, ele ia cair fora, pois não queria sair de New York, apesar de odiar o inverno, estava aguentando bem.  O diretor do espetáculo, o chamou, lhe ofereceram para fazer o papel principal, durante os dois últimos meses que ficaria na cidade.    Aceitou, as pessoas se surpreenderam, de repente deixou de ter o sotaque de Puerto Rico, para ter o sotaque de um sulista. Como estava mais branco do que nunca, pois aonde ir para se queimar ao sol.    A crítica elogiou seu trabalho dizendo que esse papel lhe caia como uma luva. Que realmente ele bordava fazer o personagem.   Numa entrevista, lhe perguntaram como o fazia.

Observo as pessoas falando, apesar de já saber falar inglês, procuro estar sempre falando melhor, falou do seu show no Club, o convidou para ir, ver outra faceta dele.  Sabia que ele adorava Dinah Washington, ensaiou para cantar Cry me a River, como estava tão branco, passou a só usar roupas negras, nesse dia pediu ao pianista da orquestra que ensaiasse com ele.   Tinha feito uma roupa que era um escândalo, mais parecia uma saia.  Quando viu que o entrevistador entrava na sala, avisou o pianista que era a primeira música.  Já tinha ensaiado com a iluminação.   Era o piano, ele, nada mais.   Acendeu a luz, estava de costa, quando se virou, a cara do outro era ótima, quando soltou a voz, cantando quase num sussurro,  sentiu que estava provocando o mesmo, era o mais famosos dos entrevistadores da televisão.

Não se atreveu a olhar o Jacobo, pois sabia que estaria furioso, não gostava que mudasse o show.  Os aplausos foram imensos. Agradeceu ao pianista, longe de querer competir com a deusa de alguns, aprendi a gostar dela também,  mais uma para ver se aprendi direito a lição da diva.  Cantou Ain’t Misbehavin, mas ele tocando o piano, desta vez mudou a voz rouca, de quem canta na orelha do amado.

O público veio abaixo. Quando desceu do palco todos vinham falar com ele, André disse, se segues dessa maneira, perderei para alguma grande casa de show.  Nunca disse ao André que não tinha nenhum contrato assinado com o Jacobo. 

Quando o entrevistador veio falar com ele, tens que voltar ao programa, para fazer isso, amei, lhe deu o cartão, se podes podíamos gravar na sexta-feira aqui, para apresentar no programa de domingo, no horário nobre.   Lhe deu dois beijos no rosto de despedida.

O escândalo do Jacobo, foi imenso. Queria pegar o cartão para rasgar.   Estas falando da minha carreira que está se levantando, nem pensar.  Sei que tudo devo a ti, mas não se esqueça que ganhas dinheiro a minhas custas, além de que não tenho na realidade nenhum contrato contigo.

Por um acaso pensaste em convidar o mesmo para o show?   Não, quem fez o contato com o André Croix, fui eu não tu,  a única coisa que fizeste, amo de paixão esse trabalho é no Club, ouvi dizer que querias que cancelassem o meu show, tiveste a coragem de dizer ao dono, que não quer os homens olhando para mim.

Acho uma besteira, porque eu não olho para eles, mas eu te avisei que aquele último escândalo teu era o último.  Eu nunca esqueço nada. Amanhã vou embora, nos seguiremos vendo, mas vou viver sozinho.

Não posso ter você o dia inteiro atrás de mim.    Estas deixando atrás teus outros representados, acorda de uma vez. 

No dia seguinte, procurou encontrou um studio, não precisava de mais nesse momento.  Seguiu fazendo o espetáculo de teatro, bem como o Show do Club, tinha se esquecido de chamar o apresentador, foi esse que o procurou outra vez no Club.  Lhe pediu que falasse com o proprietário do local, ele não queria problemas.   O outro concordou imediatamente.

Estava sempre com o Jacobo, as vezes dormia em sua casa, outras ele na dele. Mas não tinha a chave.   Não gostou quando soube que seria gravado com convidados do apresentador.  Muita gente do mundo da música, do teatro.   Ficou anunciando diariamente nos programas anteriores. Um especial que faria com um artista brasileiro que era como o filho mais novo da cidade, que tinha vencido por ele mesmo. 

No princípio da entrevista ele disse, não venci sozinho, fui descoberto no Brasil, por Jacobo, depois aqui ainda tive outro padrinho o André Croix.  Foi encaixando música com entrevista. Ele perguntou como tinha conhecido o Jacobo no Brasil.  Fui ao show de um grande amigo, disse seu nome, um grande cantor, começamos juntos.  Estava chateado por um problema amoroso,  me tinham colocado no olho da rua.  Vi vários baseados, não tive conversa, roubei, fumei todos.  Quando cheguei ao show, um pouco atrasado meu amigo me fez sentar na primeira fila,  ele começou a cantar uma música que adoro.  Já fez parte do show, se quiseres posso fazer para ti.  No camarim, tinha várias roupas dele.   Se vestiu como nesse dia, pediu a pequena banda do Club tocar,   Subiu ao palco, todo de branco, quando retirou a camisa disse, a diferença era que estava moreno de praia.                      Se soltou no palco, parecia que estava incorporado.  

Houve um intervalo, viu que Jacobo estava no camarim.  Trocou outra vez de roupa, agora todo de negro.  

Ele disse com uma cara triste, estas conquistando o mundo com isso tudo, eu ficarei para trás. Nada disso, sabes que te quero.  Realmente o queria muito, afinal tudo devia a ele.

O show para a televisão durou mais uma hora, quando saiu, não viu ninguém lhe esperando, perguntou ao porteiro pelo Jacobo.   Foi embora daqui acompanhado por um rapaz.

Filho da puta, foi a casa dele, abriu a porta nu.   Já me abandonaste, estou procurando alguém para me dar prazer. Viu um rapaz que não devia ter nem 18 anos.   Mas Jacobo é um menor de idade.

É um puto, estou pagando para que me dê prazer.

Foi embora, no dia seguinte acordou com a polícia batendo na sua porta.   Os atendeu, sim estive na casa dele ontem, mas estava com um rapaz.

Pois o mesmo além de o roubar o matou.

Ele caiu no chão com todo seu tamanho.            Puta merda, ficou totalmente desconsolado, como pode uma pessoa fazer isso, foi tudo que pensou.   Avisou o André, pois tinha que ir a delegacia, para ver se reconhecia quem estava na casa.   Quando disse quem era, pois o tinha visto bem, soube que tinha 16 anos.   Puta merda.         O rapaz alegou que o André depois que ele tinha ido embora, não quis mais fazer sexo, tampouco pagar, que só estava fazendo uma cena de ciúmes.

Que idiota, ficou furioso, prometeu que nunca mais ia querer alguém o controlando.

Quando André quis que ele fechasse um contrato com ele, como agente, se negou, a partir de agora, ele só faria o que queria.    O enterro foi muito triste, poucas pessoas, pensou, deixas de brilhar as pessoas desaparecem.

Em vez de ir de tournée com o teatro, lhe apareceu outra oportunidade, com o André, agora tinha fácil o trabalho, estava conhecido pela entrevista.   Era um musical, muito interessante, mas assinou contrato por seis meses, com o compromisso de avisar no quinto mês se continuava ou não.  Fez o mesmo durante um ano, ao mesmo tempo que o show no Club.  Mas ao final estava cansadíssimo.   O musical ia para San Francisco, aceitou só porque precisava de sol, todo dinheiro que ganhava, mal tinha tempo para gastar, tudo estava no banco investido, para quem não tinha um puto quando chegou, agora até tinha demais.

Adorou San Francisco, por recomendação de um que atuava no Club, foi a uma casa noturna assistir ao show.  Se apresentou ao dono, esse disse que tinha visto a entrevista com o show, que gostava muito.

Estou farto desse show que tenho, o contrato acaba agora, se queres de deixo montar alguma coisa, repartimos lucros, bem como eres livres para o trabalho.   Já conhecia os americanos, exigiu um contrato com tudo isso, levou a um advogado, para saber se tinha letras pequenas.

Ele disse que se qualquer coisa ele não gostasse, viesse falar com ele.  Era um cara super bonito, vi teu show, com meu namorado da época, quando fui a New York, diziam que era o que havia de melhor, fui a contra gosto, mas gostei demais.

O convidou um dia que tivesse livre para jantar.   Mas acabou não acontecendo nada, ficaram amigos, Ruby Carrasco, era descendente de mexicanos, mas não entendiam os dois, porque, se sentiam atraídos, mas não funcionavam na cama.   Ficavam nervosos os dois, daí ficarem amigos.

Fez um casting, com os que já estavam trabalhando, só ficou com um jovem que estava iniciando, os outros tinham vícios demais, só sabiam fazer uma coisa.

Quando começou a entrevistar primeiro as pessoas, foi encontrando gente que buscava uma saída para seu talento, foi separando essas pessoas.  No novo grupo, quem mais se destacava era um japonês, diferente dos outros pois tinha a mesma altura dele.  Experimentou fazer uma dupla com ele.  Funcionou.                      Montou um espetáculo, primeiro arrumou um pequeno apartamento, foi a NYC, buscar suas coisas.   se despediu dos poucos amigos que tinha, seguiu em frente.

Nesse local ficou mais de 10 anos, até que foi convidado para montar um show em Las Vegas, lá encontrou o que buscava, como sempre procurou uma casa pequena, fora do centro da cidade, as pessoas se impressionavam, pois se movia de ônibus, ou quando muito de taxi.  Só levou com ele Ken Takano, muitos pensavam que tinham algum romance, mas nada mais longe da verdade.

Se davam bem no palco.          Montou dessa vez partes exclusiva para ele,  apesar do show fazer sucesso, sentia falta de uma coisa, como tinha no Club.   Procurou um lugar, mas estava difícil, um dia vagabundeando durante seu dia de folga, viu um anúncio de venda de um bar.  Entrou para ver, era uma cópia do Club, talvez um pouco melhor, examinou o local com o dono, precisava de uma reforma geral.  Ficou interessado, o que fez foi chamar o Ruby Carrasco, para vir até lá, revisar tudo, contratos, contabilidade do local, não queria se encontrar com nada escuro demais.

Depois de um exaustivo trabalho, fecharam negócio, fez uma puta reforma, lhe recomendaram uma pessoa para cuidar da obra.  Amor à primeira vista,  começaram a discutir o que ele queria, acabaram na cama.  Além de fazer obras, era polícia, viveu com ele, mais de 10 anos, se adoravam.               Agora tinha seu próprio Club, foi deixando os shows grandes,  seu clube era indicado pelos hotéis, quando procuravam um lugar especial.  Era como ele sonhava, mesmo depois de tanto tempo juntos, todo momento livre estavam juntos.   Artho era mistura de muitas raças, era um tipo completamente diferente, alto como ele, moreno, cabelos super negros, os dois juntos faziam um casal diferente.  Não se escondiam de ninguém, ao contrário, foi viver na casa dele, fora do centro, aonde tinha piscina, lá podia tomar banho de sol que tanto amava, longe de olhares curiosos.  Podia fazer sexo na piscina, sem problema nenhum.  Quando ele passou a inspetor, dois anos depois levou um tiro, correu como um louco para o hospital, mas só pode se despedir.  Artho só lhe disse, siga em frente, foste o amor de minha vida, isso nada nem ninguém vai poder tirar.   Herdou a casa dele, ficou vivendo lá, os primeiros meses foram uma tragédia, pois cada troço da casa tinham escolhidos juntos.  Mas superou, cantando toda as noites, agora entendia as grandes do Jazz.   Descobriu numa loja de jazz, disco de Sam Cooke, ficou encantado com sua voz.  Ele não tinha o mesmo tom, mas transferiu para sua voz, algumas coisas que ele cantava.  Durante a semana quando não tinha nenhum cantor ou artista convidado, se sentava ao piano, podia ficar horas desfiando canções.    Mas gostava mesmo do final de semanas quando a casa estava cheia.               Continuava fazendo suas próprias roupas, ideando os shows.    

Pediu a Ruby, que viesse como sempre verificar suas contas, queria que olhasse se ia tudo bem, tinha dinheiro, mas não aproveitava muito.  Levava uma vida simples, seu luxo era fazer seus shows como queria.   Mas sabia que algum momento, seria ultrapassado, pois, as novidades em termos de música não paravam.  Queria conversar com alguém que confiasse.

Quando viu Ruby ficou preocupado.  Nunca o tinha visto tão em baixa, quando perguntou o que passava, não esperava a resposta que recebeu.

Nunca me entendo sexualmente com as pessoas, elas se cansam de mim rapidamente, veja conosco, nem chegamos direito a cama.

Ora Ruby, nem sabias beijar direito.              Venha vou te ensinar, dessa brincadeira de ensinar, encontrou uma parte dele mesmo no outro.   Tu eres como eu, quando cheguei a cidade, mas porque deixaste o tempo passar.  

Sempre fui apaixonado por ti, mas tinha medo de ser rejeitado novamente, sempre fui desajeitado quando se tratava de sexo.  Nunca soube me comportar, se devia ser um machão na cama ou ser frágil.   Contigo descobri que tenho que ser eu mesmo.

Se mudou para Las Vegas, estavam juntos até hoje.  Hoje segundo  Louis, faziam quarenta anos que tinha saído do Brasil.

Quem sabe seja hora de fazer uma visita ao teu pais. Visitar tua família?

Nem sei ir aonde vivem. Olha a figura que sou hoje em dia, mais pareço um americano, mal sei falar português, além das músicas que canto, que hoje já devem estar todas no passado.

Ruby estava tão saído, que adorava ver o corpo dos dois, apertados um ao outro no espelho, seja se ele estivesse na frente ou atrás.    Deixou o clube com o Ken, que já estava farto de fazer musicais nos cassinos.   Queria paz.

Foram os dois, via Los Angeles.  Quando chegaram ao Rio de Janeiro, quem os esperava era seu amigo, com que tinha sempre mantido contato.   Estava mais gordo, para Ruby foi como encontrar uma pessoa conhecia, de tanto que escutava falar dele.

Rapidamente descobriu que já não era brasileiro, todos só falavam com ele em inglês, quando tentava falar em português tinha que ficar buscando na memória palavras, já não sou daqui.

Ficaram num hotel, bom em Copacabana, seu amigo arrumou uma pessoa para passear com eles pela cidade.  Um dia o levou a Rua do Ouvidor que tinha escutado quando ele cantava, ficou decepcionado,  teve que lhe explicar que era uma música nada mais, ou será que ele queria encontrar algum negro.  Ruby ficou furioso, tinha a ele, isso bastava.

Mas na verdade ficou rememorando a Rua do Ouvidor de sua época, não era tão suja, nem estava abandonada como agora.  O centro da cidade, aonde tinha trabalhado em vários lugares, agora parecia nada mais que uma imensa lixeira.  Chegou a uma conclusão triste, realmente ele já não era dali.  Quarenta anos pesavam na balança.

Quando voltaram, gostavam da vida que tinha agora, quarenta anos tinham passado, chegou a conclusão que tinha vivido bem.  Ken tomava conta do Clube, eles tinham todo o tempo para eles.  Viajavam mais agora.   Aproveitavam a vida.

Ele tinha chegado à conclusão de que não tinham dado certo a primeira vez, porque não se souberam explorar como deviam.                Pois não se cansavam de fazer sexo, estarem juntos, compartir coisas, enfim viver a vida.

TRAVIS FAR

                                                     TRAVIS  FAR

Muita gente me conhece por esse nome artístico, mas verdade meu nome é Brow Crow, que era o mesmo do meu pai, um cowboy de rodeos.  Nunca soube direito a história, ele me contou várias versões, nunca pude acreditar em nenhuma porque não correspondiam entre si.

Só posso dizer que era um homem bonito, sem muita sorte na vida, ninguém sabia de aonde tinha saído, num rodeio em Mesa, no Arizona, fraturou ambas as pernas, só lhe restou seu cavalo que ele chamava de Crow, como seu sobrenome.

Arrumou um emprego como domador de cavalos, num rancho, entre o deserto de Sonora, e Reserva índia de O’Odham Nation,  um dia apareceu uma mulher muito bonita, segundo me contavam, desceu de um cadilacc, parou na sua frente, lhe perguntou se lembrava dela, do Rodeio de Mesa.   Ele tinha fudido com tantas garotas que não se lembrava.   Estendeu um fardo, lhe entregou, teu filho, virou as costas, foi embora.

Como ele não tinha ideia de quem era, ficou com a criança, me registrou como Brow Crow, que era seu nome.  Todos me chamava de Junior Crow. Ficou muito amigo do dono do Rancho, os dois as vezes desapareciam voltando dias depois ainda cheirando a álcool.  Que me criou foi Maria, junto com seu filho Raphael.   Os dois, fomos amamentados ao mesmo tempo, brincamos juntos, fomos a escola elementar que era a única que havia por ali, para aprender a ler, escrever.   

Éramos os dois loucos pelos cavalos, Mister Hanburry, mais conhecido por Burry, esse era nosso segundo pai, severo, duro na queda, sua ordem era indiscutível.  Todos os outros empregados, eram mexicanos,  Maria era viúva de um vaqueiro que trabalhou muitos anos para Burry.  Cuidava da casa, da comida para todos, era baixinha, meia gordinha.  Nada a ver com Raphael, que era alto, não tanto como eu,  tinha os cabelos negros largos, olhos negros, uma pele azeitonada que me fascinava.  Eu ficava comparando com a minha, que era branca cheia de sardas.   Eu ao contrário, tinha cabelos castanhos, queimados do sol, rebeldes, olhos azuis, os dois tínhamos bom corpos, pelo trabalho pesado do rancho.   Pois mal tivemos idade, Burry nos colocou a trabalhar, dizia que se queríamos comer tínhamos que trabalhar.

Aprendi todos os truques com meu pai, de domar cavalos selvagens.  Ele ficava furioso, porque eu entrava no cercado, sem proteção nenhuma, deixava me cheirarem para saber quem eu era, nos dois tínhamos o hábito de ir tomar banho num pequeno lago, na ravina, aonde se criavam os cavalos selvagens.   Eles conheciam nosso cheiro.  Então ao menor descuido do cavalo, dava um salto, agarrava sua crina, ficava em cima do mesmo, até ficar quieto, ficava comigo, mas quando qualquer outra pessoa tentava fazer isso, se colocavam como loucos.  

Os engana, tudo bem, mas isso não é domar.   Um dia que fui sozinho a ravina, estava chateado, pois Raphael, com quem descobri o sexo, já não queria nada comigo, dizia que tinha escutado dizer que era pecado.   Mas eu era louco pelo corpo dele, deixava me penetrar quantas vezes quisesse.  Me disse que iria embora com sua mãe, pois tinham encontrado alguns parentes em San Francisco.    

Nesse dia despertei, não escutei barulho na cozinha, achei estranho.  Quando entrei Burry fazia café.  Olhou para minha cara, te acostume, acabou tua boa vida, Maria já não esta mais aqui, teu pai foi leva-la a Mesa para pegar um ônibus para San Francisco.

Fiquei como louco,  o único lugar que tinha paz era na ravina, quando cheguei lá, vi que alguma coisa passava.   Um coiote tinha atacado uma égua, que tinha parido a pouco tempo, um belo potro, marrom escuro.  Voltei correndo ao Rancho, avisei ao Burry,  voltamos com mais homens, ele queria matar o potro, pois não tinha nenhuma égua tinha parido ao mesmo tempo.   Eu me agarrei ao potro, tinha 15 anos, disse que não que eu o cuidaria.  Realmente assim fiz, pelas boas ou pela força.   Meu pai e Burry, estavam sempre em cima de mim.  Me obrigando a fazer tudo pelo potro.  Cresceu se tornando um belo cavalo, me seguia a todas as partes, tinha uma crina impressionante, eu o montava a pelo, ensinei uma serie de truques.  Quando fiz 17 anos, meu pai me deu uma cela com acabamentos em prata que tinha ganho num jogo.

Era de longe o cavalo mais bem cuidado, também meu único bem.  Logo em seguida meu pai morreu.   Primeiro ficou furioso comigo, pois me viu beijando um vaqueiro mexicano, mal sabia que tínhamos acabado de fazer sexo.  Me deu uma surra de fazer gosto.  Eu não quero meu filho assim, mas sabia que já tinha feito sexo com vários deles. 

No dia seguinte, amanheceu morto.  Burry dizia que de desgosto,  foi enterrado num lugar que gostava muito.  Quando fiz 18 anos, fui a Mesa tirar documentos, me queriam mandar para o exército, me neguei, pois isso me obrigaria a me separar de meu cavalo.   Por nada no mundo o faria.  

De qualquer maneira a coisa se torceu, pois Burry me pegou com um cowboy novo que tinha contratado para ajudar na doma.   Para assim dizer, me pegou de quatro no ato.  Ficou furioso, me disse que tinha que ir embora, pois era um mal exemplo para todos. Mandou também outro embora.  Não queria esse tipo de gente ali.

De qualquer maneira, eu sabia que ele estava vendendo o Rancho, estava velho demais segundo ele, ia viver com sua filha em San Diego.            Me pagou, me entregou uma caixa, com dinheiro, meus documentos.     Apontou a porta dizendo, rua seu viado sem vergonha.

Montei meu cavalo, com uma mochila, com as poucas roupas que tinha,  nesse dia dormi na ravina,  ali tinha uma pequena gruta, aonde eu com Raphael, iniciamos nossos descobrimentos sexuais.  Mas nunca levei ali, nenhum dos outros.

Burry dizia que não podia entender, como um homem de 1,90metro, forte, curtido do sol, domador de cavalos, podia gostar de dar o cu, para esses mexicanos sujos. 

Eu na verdade não sabia explicar, procurava em todos eles o Raphael, mas claro era um romântico.

Fui seguindo em frente, bordeando o Deserto de Sonora, não tinha muita ideia aonde deveria ir. No terceiro dia, quando o pouco de alimento se acabava, parei num poço para aliviar a sede, estava dando água para o meu cavalo, quando escutei uma voz atrás de mim.  Chegas muito tarde, estamos de esperando a dois dias.

Me virei, vi um outro tipo, mas notei que mais parecia estar fantasiado de Cowboy.  Ele percebeu que tinha se enganado.

Explicou que estavam esperando o doublé do ator principal, esse já deveria ter chegado, ele tinha saído procurando, achando que o sujeito estava perdido.   Não viste, nenhuma camionete, com trailer para cavalo.

Lhe respondi que não, que estava andando por ali a uns dois dias, não tinha visto ninguém.

Me olhou de cima a baixo, me fez ficar de costa, acho que se sabes lidar com cavalo, pode fazer esse trabalho.   Tens mais ou menos o tipo do Ator principal.

Me levou com ele, até aonde estavam as filmagens.  O diretor, me pediu para fazer uma demonstração, chamei meu cavalo, que veio a trote, colocou a cabeça no meu ombro, quando era garoto, brincava de fazer o que faziam os índios, montar a pelo, cavalgar, deitado de lado no cavalo, mudar de posição, coisas assim.

Me disse, como era a cena, o que deveria fazer, por sorte meu cavalo, era quase igual ao do ator principal.  Quando o vi, era impressionante, parecia uma cópia do meu pai. Já tinha sua idade, fazia filmes a muitos anos.  Mas não gostava dos cavalos. Iam me filmar de costa caminhando, até o cavalo, deveria subir de um pulo, sair em disparada, pela rua poeirenta da vila.   Pedi que ele andasse um pouco, para observar como fazia.  Em seguida consegui fazer igual. O diretor me deu as instruções finais.

Fiz exatamente o que ele disse, comecei a andar de costas para a câmera, me sem me apoiar no cavalo, dei um salto, fiz um som, que deveria ir a trote, não a galope, ele me obedeceu, fomos saindo da vila, com o sol nos iluminando de frente.   Essa foi a foto do cartaz do filme.

Depois fiz todas as cenas de cavalo que já tinha feito antes, que segundo o diretor estavam mal feitas.   O que lhe gostava era que eu entendia imediatamente o que queria.  Afinal tinha brincado toda minha infância de cowboy.

Quando terminaram a filmagem, me pagaram, era um bom dinheiro.  Tom, o homem que me tinha encontrado, era o encarregado dos extras, dos doublés, de contratar gente.   Me perguntou se queria ir com eles, já que estava sem destino.

Arrumou um lugar no caminhão que levava os cavalos, para o meu, lá fui eu com ele na cabine, conversando.  Naquela época devia estar beirando os 50 anos, mas era um homem curtido do sol.

Tinha um rancho só para cavalos, treinados, atendia Hollywood, para todos os filmes de cowboys, mesmo de outras modalidades.   Lá aprendi muitos truques de como me comportar, de me atirar de algum lugar alto, essas coisas.

Fiquei com ele durante dois anos, quando queria um homem, procurava fazer discretamente, nunca com ninguém com quem trabalhasse.

Fomos para uma filmagem,  aonde minha sorte se torceu.   O ator secundário, era um pouco mais baixo que eu, ficava histérico em ter que subir em um cavalo.  Mas a história, era sobre dois homens que levam um rebanho para vender, durante a guerra da civil americana.

O diretor estava farto do sujeito.  Olhou para minha cara, me disse que vestisse a roupa do mesmo, ficava um pouco pequena, apertada, fazendo que meu peito musculoso, ficasse mais aparente.  Mandou fazer um close,  gostou do que viu.  Perguntou se eu sabia a história?

Tom tinha me contado do que ia o roteiro, pois tinha que conseguir os doublés, para se atirarem no chão, várias coisas. 

Lhe disse que sim, que sabia do que ia.  Havia umas quantas vacas soltas por ali, me pediu que eu as agrupasse.  Porra tinha feito isso minha vida inteira, só me deu ordens como, não abaixe demais a cabeça, coloque o chapéu para trás, deixe aparecer tua cara.  Vi um homem sentado ao lado dele, este lá pelas tantas, disse que agitasse os cavalos, imagina que você esta sendo perseguido por bandidos, como faria, agitei as vacas, fui a meio galope ao lado delas, me deitei no cavalo como se fosse um índio.

Quando me perguntou quem era meu agente, sinalizei o Tom, tinha um contrato de trabalho com ele.   Ele negociou meu primeiro contrato, meu nome devia aparecer em segundo lugar, coisas assim.  Nasceu o Travis Far, pois Brow Crow, lhes parecia vulgar.

Descobri que o sujeito que estava ao lado do diretor, era o ator principal.  Fizemos um par excelente durante a rodagem, avisou ao Tom que quase em seguida começaria rodar outro filme, que eu fosse ao casting. Tinha gostado de trabalhar comigo.

O diretor era um filho da puta, mas a filmagem foi excelente. Logo consegui um contrato fixo, não gostei muito, mas o Tom me convenceu.  Achou que eu deveria morar na cidade, eu lhe disse que de maneira nenhuma ia abandonar meu cavalo.

Continuei vivendo em seu Rancho.  Quando o primeiro filme estreou, apareceram jornalista para me fotografar no Rancho, criou a minha fama, de um ator que não está preocupado com a fama.

O filme seguinte,  não gostei de fazer, pois, era um de detetive, era obrigado a fazer por causa do contrato que ele tinha me obrigado a assinar.   Inventei uma cena, que ao fugir de uns mafiosos, o mocinho, não encontrava seu carro, lá estava meu cavalo, amarrado, tipo um cavalo de policial.   Corria, pulava no cavalo, saia a galope.   O público adorou.  Os homens da empresa entenderam que o meu era fazer filmes de cowboy.   Ao contrário do outro atores que vão ganhando dinheiro, comprando carros de luxo, eu ia guardando tudo no Banco, meu amigo o primeiro ator com quem contracenei me orientou.   Um dia fui a sua casa, vivia numa mansão luxuosa, disse que era do studio, que ele não gastava dinheiro em casas assim.  Tinha um apartamento na cidade, pequeno, quando não estava fazendo nada ia para lá.

Me convidou para tomar um banho de piscina, simplesmente tirou a roupa, mergulhou, fiquei sem graça, ele era famoso.  Da água me convidou a entrar.  Não se preocupe, dispensei todo os empregados.

Fizemos muito sexo essa noite.   Sabia que eu guardaria segredo.  Era casado com uma atriz também famosa que nesse momento estava fazendo um filme em Londres.   Passamos a nos encontrar no apartamento que tinha na  cidade.  Não me apaixonei por ele, apenas, era um sexo sem compromisso, seguro conforme as regras da cidade.  Eu tinha uma chave da entrada dos fundos, entrava por aí.   Até que um dia o encontrei dando o cu para um negro imenso.   Estava até a alma de cocaína.   O negro quando me viu, se vestiu, desapareceu.  Eu ainda fiquei ali, esperando que despertasse.   Estava tão colocado que nem sabia que tinha feito sexo, isso dizia ele.

Não se preocupe, lhe disse, mas ao sair, deixei as chaves que tinha na mesa da cozinha.  Só voltei a vê-lo num filme de guerra que fizemos juntos.  

Minha vida deu outra volta, numa filmagem, tinha que cair de uma altura considerável, não queria doublé, fiz eu mesmo a cena, ao mesmo tempo deveriam estourar uma janelas, um troço de vidro, cortou a minha cara, nem me dei conta. Segui gravando.  O diretor ficou maravilhado. Mas claro fiquei com uma cicatriz imensa na cara.  Essa de cara de bonitão, virou cara de bandido.   Passei a fazer papel secundário de bandido, de mafioso, de detetives frustrados, coisas assim, não reclamava, pois pelo menos não me ofereciam papel de personagens idiotas.

Quando Tom morreu, num acidente, passei eu mesmo a negociar meus contratos, porque ia pagar para alguém negociar por mim.   Comprei uma casa, que tinha um estabulo, um parque imenso aonde podia sair com meu cavalo.  Tinha uma entrada separada da entrada principal, ninguém sabia da sua existência.   Por aí, passaram a entrar meus homens.  Normalmente eram mexicanos, a procura de trabalho.  Os contratava para cuidar do jardim, dai era um passo para a cama.

Me chamaram para fazer um papel de mafioso numa serie de televisão.  Era uma das primeiras que se faziam, toda uma experiencia, uma coisa nova no mercado.  Era baseada num livro de um italiano.    Seria filmado na Itália,  estava em dúvida, como faria com o meu cavalo, já era velho, não podia deixa-lo para trás.  Por azar, um dia o mexicano atual, correu ao quarto para me avisar que algo tinha passado durante a noite, corri, mas já era tarde, quando chegou o veterinário, só para atestar sua morte.     Era proibido, mas o fiz enterrar lá mesmo.  Um dia voltaria para a casa.

Fui para Roma, a parte dos set seriam na Cinnecitta, os exteriores, pelas vilas antigas, essa série durou sete anos, se filmava capítulos para um ano, depois estava livre para voltar para casa, para fazer qualquer outra coisa.  Gostei de fazer a série, porque tinha uma historia bem contada, tempo no mesmo lugar, trabalho quase todos os dias, não ficava pensando besteiras em casa.

Me ofereceram para fazer uma séria que seria filmada justo no Deserto de Sonora, ali se faziam os exteriores.  Precisavam de um rancho como localização, me lembrei do rancho do Burry, sem dizer nada, fui de carro até lá.    A casa estava no chão, tudo abandonado, o celeiro tinha queimado inteiro, bem como aonde ficavam os cavalos.

Mandei meu advogado bisbilhotar, o que tinha acontecido, se estava a venda.

Fizemos a série, usando um outro rancho, do outro lado disso tudo.  Me divertia, fazendo o papel do rancheiro mal caráter, que cria sempre confusões.  Fiquei famoso por uma cena que fazia.  Quase no final da série, meu personagem se dava mal, eu saia do saloon, com um tiro, tinha que caminhar até o cavalo, subir sair da cidade.   Queriam que um doublé fizesse a cena, não permiti.  O Diretor disse que eu não era jovem para isso.  Experimento, se fica mal, tu me dizes.  Ensaiei a cena duas vezes, na terceira quando ele disse ação, sai do saloon, fui caminhando até o cavalo, com dificuldade subia nele, soltava as rédeas, dizia ao cavalo, vamos, ele saia a trote lento, me levando meio caído por cima dele.

Na verdade, no final da cena, tive meu primeiro enfarte.   Foram me encontrar mais adiante caído no chão, desacordado.

Brincado depois disse, meu personagem morreu com toda certeza.

Ainda voltei a Roma para fazer a última temporada da série,  um dia na rua, fui parado por um homem que me disse que seu chefe adorava ver a série.

Quem é seu chefe?      Me disse o nome, fui me informar, era um chefão da Máfia.  Na Itália tomava cuidado com os romances, porque sabia que podia me dar mal.  Eram enganosos os italianos.  

Quando terminei, voltei para casa.   Meu advogado finalmente tinha conseguido saber quem era  o dono do Rancho.   Havia uma disputa de dois herdeiros.  Esperamos que terminasse o litígio, ele ofereceu um bom preço para o que tinha ficado com tudo.

Mas ainda, podia trabalhar, me chamaram para fazer um papel num filme, era de um médico, com muitos filhos.  Estudei o papel, não gostei. Disse que não me interessavam, ofereceram o papel para outro da mesma idade que a minha.  O filme foi uma merda, mas ao vê-lo fazer o papel, vi que estava ficando velho, que dentro de pouco, só me tocariam papeis de pais, avôs, coisas assim.

Ainda aceitei fazer um último filme, a historia de três cowboys que foram amigos na juventude, agora se encontravam anos depois para ajudarem o filho de um deles.   Ficaram horrorizados, quando descobriram que tinha ido para a cama com o jovem que fazia o papel de filho.

Ri muito da hipocrisia, estava farto disso.  Acabei o filme, brigado com o diretor, os outros atores.  Agora como iam vender o filme, se tinham encontrado o mocinho embaixo de mim.

Me fechei em casa, contratei um engenheiro, começamos a reconstruir o rancho, não queria nada demais, minha ideia era recuperar o lugar.  Saiu  uma reportagem a respeito. Voltava ao meu lugar da infância, ninguém sabia isso da minha vida.

Quando me perguntaram se eu iria continuar a fazer filmes, se fez um silencio, pois fiquei quieto pensando.  Estava cansado dessa vida, de não ter ninguém comigo, de estar sempre sozinho, andando pelas ramas.   Disse que não, que Hollywood, não era lugar para um cowboy gay.  Foi um escândalo.   Eu ao contrário ri muito.

Vendi a casa, mas nunca disse a ninguém que tinha o meu cavalo lá.  Me mudei com minha pequena bagagem, agora só tinha livros, roteiros de cinema, que fui ordenando por épocas, a histórias de cada filmagem, que ia escrevendo a parte.  Contratei gente para trabalhar, os que apareciam não me interessavam muito, contratei só mexicanos, queria a minha juventude de volta.     Um dia fui com dois dos meus verificar como estava a ravina,  para minha surpresa, havia um grupo de cavalos sobreviventes por lá.  Quando entrei, eles, riam, fui andando tranquilamente, tirei minha roupa toda, mergulhei no pequeno lago, aonde bebiam água, um deles depois diria que tinha sido o momento magico de sua vida.

  Sai perto dos cavalos, os deixei virem me cheirar.   Estava feliz.   Passei a cuidar deles, como meus filhos.  Mas não queria que fossem domados.

Um dia estava sentado na varanda, no meu lugar preferido, era aonde se sentavam meu pai, Burry para conversarem no final da tarde.   Vi um carro chegando, levantando poeira.  Saíram dois homens do carro.   Um da minha idade, outro mais jovem.  Conforme foram caminhando até aonde estava, lancei um grito.      Pelo andar era o Raphael, me levantei, o esperei de braços abertos.  Nos abraçamos, ficamos ali como dois velhos amigos, com lagrimas nos olhos.

O mais jovem era seu filho.   Me contou que tinha visto a reportagem, tinha mostrado ao seu filho, falou da nossa infância.   Ele era viúvo, o filho o convenceu de vir me ver.  Tinha muito medo como eu ia reagir, pois tinha me abandonado, sabendo que eu o amava.

Eu tinha pensado milhões de vezes no que tinha acontecido.   Comentei isso com ele, ruminei como uma vaca, depois botei para fora.

Por tua culpa sempre tive amantes mexicanos, mas nenhum era como tu.  Mandei a empregada arrumar um quarto para eles.  Fiquem o tempo que quiserem.

No dia que chegou eu o achei muito sério, mas depois foi se relaxando, se sentou comigo nos dias seguintes na varanda, disse que nunca tinha me esquecido, mas que sua mãe tinha descoberto o que fazíamos, por isso tinha saído na surdina.  Perguntei se ainda aguentava andar a cavalo, no dia seguinte fomos até a ravina.  Contei ao filho, o que fazíamos, para estar com os cavalos.  Desci do meu, tirei toda a roupa, fui andando tranquilamente, até o lago, entrei na água, um potro novo, veio direto até aonde eu estava.    Raphael, estava parado ali, me olhando com os olhos abertos, fiz um sinal para ele vir.  Tirou sua roupa, ainda tinha um corpo estupendo.  Nos abraçamos na água.  Me disse nunca esqueci disso, nunca.   Mas tampouco estive com outro homem jamais.   Isso eu não podia dizer ao meu respeito.

O filho se matava de rir.  Jamais imaginei ver meu pai em pelotas, num riacho, cercado de cavalos, tenho que fazer um vídeo disso.

Conversando, perguntei o que fazia, ele escrevia, tinha estudado, dava classes numa escola, porque não tinha conseguido nenhum posto na universidade.   Perguntei se queria escrever sobre o material que tinha separado.   Ele era casado tinha dois filhos, experimenta traze-los até aqui.   No dia seguinte nos filmou, na ravina.  Quando vimos o vídeo, ficamos rindo.

Ah se ele tivesse nos visto quando jovens, com aquele corpo que tínhamos, verdade Raphael.

Nessa noite ele entrou no meu quarto, se deitou ao meu lado, me abraçou, me cheirou, disse que eu tinha um cheiro inconfundível. Fizemos um sexo de pessoas que se amam a vida inteira, já não estávamos para arroubos.

Quando o filho despertou, nos viu abraçados na cama, entendeu realmente o que nos ligava.

Quando disse que tinha que ir embora, disse ao Raphael, porque não ficas, aqui, ele depois trás teus netos.  Assim ele volta.

Falavam sempre por telefone, dizia que os meninos tinham ficado fascinado, de ver o avô, em pelotas entrar no riacho.  Vieram passar as férias,  achavam normal o avô dormir comigo, afinal erámos amigos.

A vida ficou mais fácil.  Acabaram vindo morar conosco, contei toda minha vida, minhas aventuras para seu filho, que foi escrevendo.  Quando foi apresentar o livro a uma editora, não acreditavam na história, mas ele mostrou o vídeo dos dois no riacho.

Os meninos agora, iam sempre conosco na ravina.  Era nosso lugar sagrado, combinamos deixando por escrito, que quando nossa vida chegasse ao fim queríamos ser enterrados ali, um ao lado do outro.

WÉSTERN

                                                FAROESTE

Genaro bem como Maria, os dois descendentes de italianos, tinham um restaurante, basicamente desde que se casaram.  Tinham sonhado em ter muitos filhos, mas os anos passavam, nada acontecia.  

Genaro, meu pai, então resolveu finalmente pedir ajuda a uma tia distante, que trabalhava justamente no departamento que recebia crianças abandonadas.  Eles queriam bebês, mas queriam criar desde pequeno.

O primeiro que conseguiram foi Genaro, ou Junior, pois tinha levado o nome de meu pai, era loiro de olhos verdes, muito branco, nesse ponto como minha mãe, Maria, que tinha a pele que parecia de papel branco.   Era uma delícia ficar deitado nos seus braços.

Um dia receberam um chamado da prima, essa dizia que tinha outro bebê que ninguém queria, porque devia ter alguma mistura de raças complexa.  Esse era eu, nunca se soube direito de que raça ou raças tinha no meu sangue.  Era moreno, cabelos negros, segundo as fotos, estavam em pé como um porco espinho.                     Mas Genaro, pai, mal me viu se apaixonou, Maria lhe argumento que seu outro filho era muito branco, mas ele não quis escutar. 

Olha parece um porco espinho, com esse cabelo, eu era assim quando nasci, de uma certa maneira fui seu filho querido toda a vida.             Me deu o nome de seu avô, que tinha chegado a América, atrás do sonho de ficar rico, mas nunca mais voltou a sua Sicília natal.  Fiquei com seu nome, Guiseppe, dizia também que era o nome de um grande compositor de ópera italiano, mas a ópera nunca foi o meu forte.

Os dois tínhamos a mesma paixão, os filmes de cowboys,  ele era fã de John Wayne, eu ao contrário era fã dos índios que apareciam nos filmes, não podia entender por que sempre perdiam.    Mas ficava quieto, porque a única vez que ousei a falar no assunto me olhou feio, como podia querer que os índios ganhassem de John Wayne.   Via seus filmes milhões de vezes, mas só gostava dos que ele fazia montado num cavalos.  Os filmes de guerra, romance, essas coisas não lhe interessavam.  

Eu comprava todas os gibis, dos heróis dos filmes, Zorro com o Tonto, Don Chicote, por ai vai, já meu irmão era mais moderno, gostava de coisas espaciais, Flash Gordon, coisas do gênero.

Então tinha meu momento predileto, na hora que ele me chamava para sentarmos no sofá para ver algum filme que passava de tarde, quando estava livre do restaurante.    Eu ficava ali ao seu lado, vendo pela milionésima vez  por exemplo Centauros do Deserto, em que o personagem dele busca sem cessar sua sobrinha raptada pelos comanches.   Eu achava que ela devia ficar com eles, porque o resto da família era muito chatos, viviam brigando.   Mas ficava quieto, me maravilhando com a paisagem que mostrava o filme.   Meu irmão nesse momento saia da sala, zombando dizendo, esses que vivem no passado.

Eu em silencio, num momento de alguma luta, torcia para que o índio ganhasse a luta, mas mesmo assim, quem sempre ganhava era o mocinho, meu pai dizia que ganhava, porque era amigo do diretor do filme.  Riamos muito com isso.   Outras vezes, de tanto ver, dizia, tentando me enganar, vamos fazer uma aposta, ele vai lutar, cair na água do rio, mas vai sair seco, com o chapéu na cabeça.   Apostava com ele, porque sabia que adorava ganhar.    O amei desde que tive consciência disto.  Era recíproco, me queria muito, me dava uns abraços apertados, beijos em ambos lados da cara.  Eu adorava, meu irmão ao contrário, em seguida, limpava a cara, anos mais tardes dizia que nosso pai era um beijoqueiro nato.

Mamãe, tentava equilibrar tudo.  Estava sempre rindo, dizia ao Genaro, um dia os dois vão entrar casa adentro, montados em cavalos, vestidos de Cowboy, soltando tiros, vão sujar a sala inteira.

Eu já imaginava o cavalo, soltado uma bela cagada no seu tapete mais querido, ria com a imagem.  Ela me olhava feio, mas quando lhe contava, acabava rindo, meu irmão ao contrário, levantava os ombros, como dizendo quanta besteira.

Mas tudo isso se acabava, quando sentávamos na mesa para comer um belo espaguete, raviólis, ou qualquer prato italiano feito por ela.

Quando fiz 12 anos, me perguntou o que queria de aniversário?

Lhe disse que queria ir numa festa, no Arizona, em que se reunião muitas tribos, a cara do meu irmão que estava sempre pedindo o último relógio, ou alguma coisa muito moderna.  Até eu ri dele, me chamou de maluco, era a oportunidade me disse de pedir alguma coisa cara.

Meu pai, alugou um motorhome, lá fomos os dois, a tal reserva.   Foi fantástico, ele logo se entrosou com pessoas que iriam ser posteriormente amigos seus até o final de sua vida, eu passava o tempo todo correndo com os outros garotos não me importava a que tribo pertencessem, me sentia em casa.  Podia me aproximar dos cavalos,  quando me ofereceram montar um, corri para pedir a autorização a ele.   Foi o momento mais emocionante da minha vida, foi quando decidi ser veterinário.     No final do dia estava moído, me doíam as pernas, mas feliz.

O dono dos cavalos, ficou amigo do meu pai, disse que tinha um rancho, em que recebia pessoas que vinham passar férias, ficava perto do Vale dos monumentos, já deserto, antes de voltar para casa, passamos para conhecer.   Foi amor à primeira vista.

Quando voltamos, passávamos o tempo todo falando no que tínhamos vivido, a partir de então todos os anos íamos a esse encontro de tribos.   Algumas vezes minha mãe se atreveu a vir, eu já então lia tudo o que me caia nas mãos.   Um dia com muito tato, enquanto víamos um filme 7 homens e um destino, lhe perguntei, se ele achava que eu tinha sangue índio nas veias também.

Não sei filho, mas sei por que estas perguntando isso, quando estas lá, te sentes em casa, verdade?

Sim pai, adoro estar no deserto, é como se por minhas veias essa parte de sangue corresse mais rápido.   Meu irmão que sonhava ser médico, disse que realmente meu sangue devia ser diferente, sangue de algum louco cowboy tonto.

Por incrível que pareça, não fiquei ofendido.   Ele desapontado, porque não reagi, como ele esperava.

Ele foi para a Universidade, realizar seu sonho.  Nossos pais tinham economizado a vida inteira para isso.   Creio que para ele, foi como se liberar de uma carga do passado, que ele não queria, porque quase não, escrevia ou chamava por telefone.   Minha mãe ficava triste, eu ao contrário  não pensava ir embora,  queria estudar veterinária.   Estava para me decidir, quando fomos por última vez todos juntos, menos claro meu irmão, ao festival Navajo.  Sentado entre as pessoas, escutei dois índios falando, se os brancos não tinham vergonha, colocavam nos filmes duas pessoas índias falando, quem escuta, deve pensar que estão falando nossa língua, mas pode ser chinês, japonês ou qualquer outra merda.   Se não tomamos providência, nossa cultura vai morrer.

Me aproximei, lhes perguntei, se não existia livros com o idioma, maneiras de como falar, eu ia adorar ler.

Me disseram que havia poucas coisas sobre o assunto. Pouca gente se interessava nisso, teria que procurar os velhos que ainda falavam o idioma para registrar.  Tomei a decisão que tentaria fazer isso.

Fui quando tive uma experiencia a princípio traumática.  Estava ajudando nas cocheiras, alimentar os cavalos com forragem, quando um homem, me agarrou por detrás, não conseguia ver sua cara, segurava os meus braços, me chamando de seu franguinho, abaixou as minhas calças, me atirou no chão, abusando de mim.   Fiquei ali desacordado muito tempo, até que escutei a voz de meu pai, angustiada me procurando.  Quando me encontrou ficou furioso, me abraçou, subiu minhas calças, me levou para a Motorhome, me limpou me tranquilizando, com o tempo vais esquecer disso.   Mas foi falar com os responsáveis.   Esses reclamavam o mesmo, todos os anos, tinham um ou dois casos, nunca resolvidos, pois as vítimas, nunca viam o agressor.    Eu tinha visto, uma tatuagem, meio colocada embaixo de um relógio com pulseiras negras, nada mais.   Mas sabia que um dia me vingaria.

Quando chegou o momento de escolher o que queria estudar, claro em primeiro lugar, estava veterinária,  comecei a procurar se em algum lugar tinha cursos sobre a língua dos nativos, foi difícil encontrar.   Na própria universidade tinha um único professor, fui descobrir depois que era o amigo de meu pai, com quem ele estava sempre falando.

Riu quando me apresentei em seu gabinete,  agora que querem me colocar para fora da universidade, pois no semestre passado não consegui nenhum aluno, agora me apareces tu. Preciso de mais um.  Fiquei rezando, comentei com meu pai.  Ele foi se inscrever para fazer o curso.  Talvez isso o tenha ajudado a suplantar a morte de minha mãe,  pois eu pensei que ele iria enlouquecer.  Ficava horas com o retrato dela nas mãos, algumas vezes ouvi chama-la para fazer algum comentário.  Tinha vendido o restaurante, disse que estava velho demais para tanto trabalho.  Não se preocupava por mim, pois eu tinha uma bolsa de estudos muito boa, por ter sido um excelente aluno.

Mas nada o magoou mais que a negativa de meu irmão, em vir ao enterro de nossa mãe, acho que para ele foi como se livrar de um lastre.    Eu iria estudar na cidade, portanto não precisava ir-me de casa.   Ele ficou feliz da vida.  Agora tínhamos mais um para assistir os filmes, o professor.  Ele dizia que agora estava em desvantagem, pois era dois contra um, torcendo pelos índios.

Um dia o professor, me trouxe um livro, que se tornou meu livro de cabeceira, “Bury my heart at wounded Knee” , traduzido, Enterrem meu coração na curva do rio, de Dee Brown  depois consegui todos seus livros, os guardo até hoje.  Foi talvez o livro mais importante da minha vida.

Além de meu pai, conseguimos outro aluno, um dos meus companheiros de jogos, tínhamos discussões imensas.  Compaginava meu curso de veterinária com o de línguas.  As pessoas diziam que eu estava louco.   Para contrariar todo mundo dizia que o fazia, para poder falar com os cavalos selvagens.  Riam mais ainda.

Mas tudo tem um fundo de verdade, essa era minha loucura desde criança, nos filmes que apareciam os índios, subindo a um cavalo sem cela nenhuma , quando muito com um troço de pele ou manta de caribu.   Estava tão vidrado nisso, que no ano seguinte, quando fomos todos ao festival Navajo, resolvi montar a pelo numa carreira, só não sabia que havia que colocar os ovos para cima, cheguei a final, mas mal podia andar.  Meu amigo índio ria horrores de mim.   Só mesmo tu para fazer uma loucura desta.   No dia seguinte, nos apresentamos os dois vestidos com roupas que tínhamos conseguido, de peito nu, com uma pluma de águia na cabeça, todo mundo me confundia com um deles. Fiquei imensamente feliz.  Meu pai quando voltamos ainda quis contatar sua parente para saber se podíamos descobrir quem eram meus pais verdadeiros.

Ela já tinha morrido a tempos,  nada de nada.  Tomei a consciência falando com meu amigo, que também tinha sido criado por outras pessoas, que na verdade nossos pais verdadeiros, eram os que nos tinham criado, nos dado amor.

Isso eu tinha de sobra.  Agora meu grande prazer quando íamos ao festival, era me sentar com os velhos, conversar.  Se riam, diziam que os jovens queriam falar inglês, que ninguém queria essa língua.   Comecei a botar palavras no papel, procurava encontrar sentido nas palavras, nas frases.  Não sabia aonde ia chegar.

Quando acabei o curso de veterinária fui fazer um curso de especialização.  Queria aprender a lidar com cavalos.  Convenci meu pai de me acompanhar.  Fiz inclusive uma chantagem, como ia seguir em frente sem meu grande apoio.   Ele cedeu.   Justo no meio dessa etapa, um professor me convidou para ir para o Dubai, um Sheik Árabe tinha uma bela coleção de cavalos, esse professor, cuidava do hospital que este tinha montado, me convidou para ir junto.   Lhe disse o de meu pai.  Não seja por isso, ele pode vir também.

Convence-lo foi uma barra.  Tive que encosta-lo na parede, se eu fosse, quem ia cuidar de mim, ou como poderia ficar despreocupado.   Ele sabia que não podia contar com meu irmão, quando muito mandava um cartão no natal.  Em carne e osso nunca mais o vi.

Foi comigo.  Os dois adorávamos explorar o deserto, inclusive ele fez muitos amigos por lá, quando estava livre, os dois acampávamos no deserto, ficávamos deitados em cima de um belo tapete, olhando as estrelas, eram diferentes das que havia na  América.

Quando voltamos, soube que meu amigo, estava em Taos, trabalhando com um homem que fazia esculturas em ferro.   Fomos até lá.   Nos apaixonamos os dois pelo lugar.   Começamos a procurar um  rancho para viver.  Mas nunca queriam nos vender, até que o professor foi até lá, interferiu. Dizendo que meu pai era mais índio que muitos deles.

Um dia fui visitar meu amigo para lhe dar a boa notícia, o vi beijando o homem com quem trabalhava.  Pela primeira vez na minha vida senti ciúmes.  Mas depois entendi por que, sempre estivera  pensando nele, mas nunca tinha me decidido a dar o primeiro passo.

Talvez por medo de ofender meu pai, ou de ser rechaçado, não sei.

Quando falei com ele, lhe disse que estava contente que tivesse encontrado alguém.

Encontrado alguém, não sei do que falas!

Te vi beijando o homem para quem trabalhas.

Ah, ele apenas me felicitava pelo primeira escultura completa que fiz.  Já vendeu inclusive, fiquei tão contente, que o abracei,  ele achou que isso queria dizer outra coisa, me beijou, mas não gostei.  Sempre amei outra pessoa.  Ficou me olhando demoradamente.

Não sabia o que fazer, até que ele me agarrou pelos meus cabelos, me beijando. Bert, me disse que sempre tinha me amado, desde criança, mas eu também o queria desde essa época.

Estávamos começando a escolher cavalos, tinha comprados uns quantos cavalos antes selvagens, como eu gostava, falava com eles, os acariciava.   Mas no fundo estava preocupado, como diria ao meu pai, que gostava de outro homem.

Mas foi ele quem entrou no assunto.  Dizendo que se preocupava, pois já estava velho demais para cuidar de mim.   Que pouco poderia me ajudar com os cavalos, pois já não conseguia se manter em cima de um deles como devia.   

Porque não chamas o Bert para vir viver aqui, a quantos anos vocês são amigos, os dois nunca tiveram uma namorada, achas que sou cego. Até posso ser, mas tonto não.  Não perca tempo meu filho, a vida é curta.

Bert veio viver lá em casa, montamos numa parte do celeiro, um lugar para ele trabalhar nas suas coisas quando quisesse.

O Sheik para quem tinha trabalhado, veio para conhecer os cavalos, numa visita que fazia aos Estados Unidos, fizemos um acordo, ele escolhia um cavalo, em troca me mandava um puro sangue.   Eu sabia que iria me mandar um que nunca serviria para uma corrida, mas nem por isso deixaria de ser um garanhão.   Concordei.   Mandou um avião buscar, disse o nome do cavalo.   Me lembrei, era um que tinha salvado da morte.  O cavalo, quando me viu, relinchou, logo estava misturado com uma manada de éguas.   Sheik Ibrahim, me disse que a primeira cria seria dele, queria ver o que saia.

Se ele percebeu se havia alguma coisa entre mim e Bert, nunca disse, pois depois viajamos os dois para visitar seu harem de éguas de criação.  Ele ficava louco, quando me via entrar no círculo de cavalos, ir falando com eles, os mesmo se aproximando, encostando a cabeça no meu ombro.  Ele tentava, mas nenhum chegava perto, a não ser claro se ele oferecesse alguma coisa.

Nos deu duas éguas, para ver como elas se saiam no meio dos meus cavalos, assim começamos uma sociedade.             O governo americano não gostou muito, mas para mim era uma besteira, porque quando queriam conseguir algum contrato com os Sheik, me procuravam primeiro.

Com o dinheiro, fui comprando mais terrenos, justo detrás do rancho, havia uma ravina com água, acabei comprando,  os novos potros, soltava por la, assim tinham como correr, agua corrente,  viveriam livres.   Sempre aparecia algum índio procurando trabalho, os contratava, alguns rancheiros brancos não entendiam.  A mim me importava um caralho.  Depois de algum tempo diziam, apesar de teu pai ser italiano, eres um índio nato.

Quando começavam a trabalhar para mim, tinha que assinar um contrato, que nunca beberiam em serviço, pois isso me permitiria o colocar na rua.  Sabia que a bebida, as drogas, acabavam com eles.

Um que tinha trabalhado para mim,  um dia chegou me dizendo, que ia embora, não conseguia viver sem a bebida nem as drogas.  Eu já sabia, pois desaparecia um dia ou dois.   Tempos depois soube que estava preso, pediu que fosse vê-lo na cadeia.   Fui, estava acabado, tinha matado sua mulher num ataque de ira.  Me pediu que criasse seu filho, pois seus pais tinham muita idade.   Já os tinha avisado, quando cheguei com os papeis que me davam a guarda da criança.  Quando cheguei em casa, com o bebê no colo, meu pai me disse, finalmente um neto, creio que foi assim que ele fez quando cheguei em sua casa, mal largava o garoto.  Falava o tempo todo com ele, na língua que tínhamos aprendido.

A família foi crescendo, pois sempre aparecia alguém que não podia criar mais um filho, sabiam que ali teríamos amor para dar.  Bert se revelou um paizão.   Foi o primeiro a ensinar o garoto a estar em cima de um cavalo.   Meu pai da varanda, ria muito, batia com as mãos no joelho.

Já estava nessa alturas, com 95 anos.  Um dia fomos procurados por um advogado.  Veio nos contar que meu irmão, sua mulher, tinham morrido num acidente de carro.  Até a pouco tempo não sabia que teu irmão tinha uma família.  Nunca mencionava nada.  Sua mulher era órfã, foi quando descobrimos em seus documentos, sua certidão de nascimento.  A guarde poderá ser de vocês.  Fez um sinal para o carro, desceram duas crianças, que eram a cópia exata do meu irmão.  Meu pai como sempre os acolheu, agora a família crescia.

Teríamos que criar mais filhos, trabalhar mais.  Bert se encarregou de encontrar escolas para eles,  o negócio com o Sheik prosperou.    Agora tínhamos um cavalo selvagem que corriam como loucos, o duro era doma-los, pois eram mais arisco que os outros.

Riam comigo, quando eu entrava na ravina, cantando alguma música que tinha aprendido nos Festivais Navajos, ficavam todos ao meu lado, então como se nada, montava num deles segurando sua crina, dávamos bons galopes.

Meu pai faleceu com quase 100 anos, o fez a sua maneira, rindo como um louco vendo seus netos brincarem de cowboys, montados em cavalos.  Como sempre uma batalha de índios, só que queriam ser todos índios.      Estava sentado na varanda, com Bert, rindo como um louco, quando teve um enfarte.   Morreu com um sorriso na cara.

Seu enterro foi muito concorrido.  Mas seu desejo foram obedecidos.   Na ravina, construímos uma plataforma, como tínhamos visto nos filmes, nos livros, ele com sua melhor roupa, deitado em cima.  Ia sempre olhar como estava.  Até um dia que já só havia um esqueleto, juntei todos os ossos, então enterrei junto com os de minha mãe.   Já os podia ver do outro lado conversando como sempre.    Mas nunca pude perdoar meu irmão o fato de termos abandonado.  Levei anos para entender por quê.  Um dia, vimos que o quarto do meu pai tinha que ser liberado, os meninos estavam grandes, precisavam repartir os quartos.  Já eram grandes demais para dormirem em beliches.   Encontrei uma caixa com as coisas que tinha ficado para trás quando meu irmão foi embora.

Num caderno normal, que nas primeiras páginas, tinha uns exercícios de matemática, ao folear, vi que da metade para trás estava escrito com as letras dele alguma coisa.  Separei, nessa noite depois que os garotos foram para a cama.  Me sentei na poltrona que era de meu pai, ali comecei a ler, a entender. 

Dizia que não conseguia ter essa sintonia que eu tinha com meu pai.   Lhe parecia uma coisa idiota essa idolatria com  John Wayne, filmes de cowboys,  não conseguia gostar do assunto, mais adiante depois de termos voltado da primeira vez do festival, dizia que os dois devíamos ter sido índios ignorantes no passado.  Como um italiano podia gostar dessas coisas, a mim ele entendia, pois estava na cara que tinha sangue índio.

Que por isso, em vez de fazer um curso sério, só pensava em trabalhar com cavalos, que ele tampouco gostava muito.   Ele queria um futuro numa grande cidade, aonde pudesse ser um médico respeitado.  Que nem nossa mãe o entendia, pois estava sempre nos defendendo, olhe são como duas crianças,  mas são felizes.

Eu não posso dizer nada, amei meus pais com loucura,  principalmente ele, que me acompanhou anos, sempre me deu conselhos seguros.   Sempre esteve do meu lado quando precisei.  Sentia pena por ele ter perdido tudo isso.   Mas não importava, se ele soubesse que seu filho amava nas brincadeiras fazer papel de índio.  Estava sempre com uma pena de águia enfiada nos cabelos, que o mesmo montava cavalo a pelo, como eu o fazia.    Não sei se será médico algum dia, mas que de momento é feliz, eu podia garantir.  Que chamavam de pai, a mim e ao Bert.   Quando foi oficializado o matrimonio gay, não tivemos dúvida, nosso padrinho foi o professor, no alto dos seus 90 anos.   Agora quando íamos ao festival Navajo, íamos com toda a família, mais um caminhão com cavalos.

Melhor era impossível, era tudo que tinha sonhado para minha vida.

ZAZOU

                                                               

Olhando o espelho, examinava sua cara, realmente para sua idade não tinha tantas rugas, mas cicatrizes sim.   Não era aparentes, mas era como se visse cada coisa que tinha acontecido em sua vida desde que tinha consciência das coisas.

Hoje poderia ser um homem amargo, mas sempre tinha sido consciente do que tinha feito na vida, o preço pago por cada coisa que tinha logrado.    Algumas pessoas, poderiam dizer que deveria ter vergonha do seu passado, mas não tinha nenhuma, ao contrário, achava se tivesse que fazer o faria tudo outra vez.

Uma época que estava literalmente desgastado, pela morte de seu então companheiro Jean, foi a um psicólogo para buscar apoio, quando lhe contou quem tinha sido, este lhe perguntou se não tinha problemas em lidar com as coisas de seu passado.

Quando temos que subsistir, não podemos ter esse luxo, ou seguimos em frente, ou ficamos pelo caminho.

Passou a mão lentamente pela cara.   Sabia que tinha seus dias contados, acabava de fazer um exame exaustivo, o câncer que tinha era irreversível.   Não tinha inclusive tratamento a estas alturas.               Se hoje tivesse que ir a um confessionário, poderia dizer que tinha a consciência tranquila.    Alias acreditava que deixaria o padre furioso, pois lhe diria que tinha vivido sempre pecando a cada instante de sua vida.                Não podia culpar a Deus, pois não acreditava nele, nem em qualquer ser superior.  Tinha se desencantado da vida muito cedo.

Alias de Deus, como numa explosão, se lembrou quantas vezes tinha sido expulso de uma igreja para ter-se escondido, ou estar num canto, procurando um pouco de calor para dormir.         Não podia acreditar, nisso, as pessoas pregavam uma coisa, as vezes escutava o sermão de alguma missa, quando o padre falava em perdão, pecado, pregava o bem.   Quase em seguida o mesmo o vinha expulsar da igreja, pois estava sujo.    Ele mesmo se assustava, quando olhava em algum vidro de uma vitrine, o que via lhe assustava.  Nada a ver com a figura que tinha agora diante do espelho.   Soltou um sorriso amargo, que lastima na época não ter tamanho, nem músculos para dar uma porrada naquele hipócrita.      Sabia que de noite escolhia os garotos, para irem até a sacristia para fazer sexo com ele.   Hoje estariam fazendo um escândalo a respeito, mas naquele tempo, quem ia ficar do lado deles.

Olhou seu corpo enxuto, musculoso, nada exagerado, mas ainda era atrativo, apesar da idade. Teve noção disso, na primeira casa de pessoas que o queria adotar.

Sua mãe o tinha deixado no orfanato, porque não tinha meios para o criar, afinal tinha mais sete filhos, quando viu que não tinha saída, foi distribuindo os filhos aonde podia.  Ele era o menor, o mais bonito deles todos.  Ainda ficou com ele mais tempo.  Ele a ajudava a pedir dinheiro na rua, ir ao final das feiras, buscar algo de comida, frutas que tinha uma parte estragada, tomates que estavam meio podres, depois se cortava essas parte, se comia como nada, ou se a fome fosse muita, comiam essas partes de qualquer maneira.   Assim tinha vivido, até que ela já não tinha forças.   O deixou para adoção.

Fez logo sucesso, pois era loiro, branco, olhos azuis, com boca de querubim, as mulheres que vinham olhar as crianças para adoção logo passavam as mãos pela sua cara, como querendo ver se era de verdade ou um bibelô.   Mas no final, não ficavam com ele.  Quando descobriam que tinha vivido nas ruas com sua mãe, que fazia um tratamento complicado, pelos vermes que tinha, era asmático.    Em seguida perdiam o interesse.

Ou quando se interessavam com tudo isso, o vinham devolver no dia seguinte, pois notavam que seus maridos ficavam alucinados com o garoto.    A segunda vez que o devolveram, já não era o mesmo, o marido tinha abusado dele durante a noite.    Apesar que tinha falado ao seu ouvido não grite, a dor que sentiu, o grito que solto a mulher veio correndo, encontrando o marido em cima dele.    No dia seguinte o devolveu.

A mãe, sempre o chamou de Zazou,  mas sem sobrenome, esse nome ficou, apesar que os que dirigiam o orfanato não sabiam o que significava.

A partir daí, até respirava aliviado, quando desistiam dele.  Aprendeu com um companheiro que não queria ser adotado, no momento que o olhava, tremia, tinha arcadas, se jogava no chão. Depois é claro, riam do que faziam.  Nem havia muita malicia nisso, pois era mais para se defenderem.

Um dia seu amigo, partiu, um casal o levou, nunca mais soube dele, esperou ardentemente sua volta, mas isso não aconteceu.   Estava com 12 para 13 anos, ou isso pensava.  Nunca havia festas de aniversário.    Esperava a próxima saída, para poder escapar.  Sabia que nada aconteceria se ele não se movesse.   Apareceu um casal já de uma certa idade.   Concordou em ir com eles, moravam no Grajau.   Segundo a mulher com cara de sofredora, dizia, tinha tentado de todas as maneiras ter filhos, nunca tinha conseguido.

Mal chegaram a sua casa, ele ficou olhando o apartamento, era perfeito, mas o levaram para dormir no quarto de empregada, ela o olhou bem dizendo que ele podia ter pulgas, sarnas ou mesmo carrapatos.   No dia seguinte raspou seus cabelos, que estava grandes, quiça depois de lavados, seriam bons para fazerem uma peruca para ela.

Quando ele quis dizer que não queria, ela lhe deu uma bofetada forte, que ficou com a marca na cara.   Levou a segunda a seguir, primeiro porque não reclamou, segundo porque a olhava desafiante.  O marido não estava em casa, ele lhe deu um empurrão com toda força, viu as chaves em cima da mesa, abriu a porta, foi embora.  Viviam ali na Av. Engenheiro Richard, foi andando rápido, até chegar a Vila Isabel, pegou a rua Teodoro da Silva, sabia ler , escrever, foi lendo as placas, já era noite fechada quando chegou ao Maracanã,  ali numa das dobras do estádio, arrumou um lugar para dormir.    Estava tão cansado, que apesar da barriga roncar, dormiu.  De manhã, seguiu seu caminho, tinha aprendido quando estava com a mãe, pedir dinheiro na rua.  Sua cara ajudava, dizia que sua mãe estava doente, que tinha fome, sempre lhe davam uns trocados.  Comprou um café com leite, um pão.   Apesar do buraco na barriga ser grande, aguentou.  Seguiu seu instinto, foi andando, até chegar quase noite no Campo de Santana, ali se embrenhou no meio de um mato, fez suas necessidades, andou por ali revisando o lixo, encontrando troços de pão, restos de coisas, teve sorte nesse dia de encontrar um meio pacote de biscoitos meio mofados,  dormiu num banco de jardim meio escondido, antes de dormir, pensou, menos mal que era verão.   Mas acordou de madrugada, com uma correria, era a polícia, caçando os viados que estavam fazendo sexo por ali.   Se escondeu bem, para não o levarem, estava decidido não voltar ao Orfanato.   No dia seguinte andando no sentido da av. Presidente Vargas, num lugar olhou seu cabelo, tosado pela mulher, até nisso a filha da puta era ruim, parecia um louco com o que ela tinha feito.

Foi pedindo dinheiro, descendo a avenida.  Um senhor muito maior lhe perguntou para que queria o dinheiro, tenho fome.  O fez entrar num bar ali perto, mandou lhe darem café com leite, um sanduiche de mortadela.  Comeu tão depressa com a fome, ao mesmo tempo com medo de que o homem não o deixasse comer. Ao contrário viu sua fome, lhe pediu outro.  Agradeceu educadamente.      Isso tinha aprendido com a mãe, agradeça sempre, pois as pessoas ficam contentes.   Antes que o homem tivesse alguma oportunidade, saiu agradecendo, desapareceu no meio do formigueiro que era essa hora,  as pessoas saiam do trabalho, era um caos total, foi prestando atenção em algum desavisado com a carteira, sua cara de inocente ajudava, na verdade as pessoas estavam prestando atenção na quantidade de ônibus que passavam.  Conseguiu roubar duas carteiras, em duas paradas distintas.   Entrou para a Rua Uruguaiana, olhou o que tinha de dinheiro, moedas, jogou as carteiras na primeira lixeira que viu. Pelo menos tinha dinheiro para comer alguma coisa mais tarde.  Decidiu não forçar a sorte, subiu pela rua da Alfandega, que era um confusão de gente em ambos os sentidos, uma senhora estava parada na frente de uma loja, abriu a bolsa, para pegar o óculos, para olhar uma vitrine horrorosa, ele passou, enfiou a mão, pegou a carteira, seguiu andando como se nada.  Depois pensou tanta pose para nada, a carteira só tinha moedas, nada mais.  Agora tinha arrumar um lugar para dormir.

Na traseira, do que depois iria descobrir era o Banco do Brasil, arrumou um lugar, uma porta que pelo visto não se abria, a rua era mal iluminada,  tirou o dinheiro, olhou para um lado, para o outro, enfiou numa fresta da porta, pois podia ser  que alguém tentasse roubar enquanto dormia.  A partir desse dia sempre faria isso.

Acordou de madrugada, sendo sacudido por um bêbado, que perguntava se tinha dinheiro, ele esvaziou o bolso, para fora para mostrar que nenhum.   O homem saiu resmungando, se o tivesse forçado, não teria como resistir, o homem era grande, forte.

A partir desse dia, fez de tudo, dormia em qualquer lugar, mas sempre escondendo antes o dinheiro que por acaso tivesse roubado, ou ganhado.  Quando o cabelo ficou grande outra vez, fez tudo o que lhe pediram, mas claro, pedia o dinheiro adiantado.  Chupou, deu o cu, enfim se prostituiu.

Descobriu eu o forte era pelo lado da Praça XV,  pela rua Santa Luzia, se lavou o melhor que pode numa fonte na praça, foi seguindo, vendo que os carros paravam, os rapazes entravam, mas viu que todos estavam com roupas limpas, tinha que aprender aonde faziam isso, viu um garoto de seu mesmo tamanho, entrar num carro, tirou a roupa, a colocou na janela do carro, ele passou rapidamente, roubou as calças, pelo menos tinha melhor aparência com elas, ficou escutando os garotos negociarem.  A maioria vinha de longe, para fazerem isso, ganharem um dinheiro.  Quanto cobravam para chupar, ou para fazerem sexo completo.  Quando parou um carro, ele parecia já um profissional.   O Sujeito o levou a um hotel no centro da cidade, pediu várias coisas, antes ele disse que tomaria um banho.  Foi uma delícia, ficar embaixo do chuveiro, apesar da água fria, lavou os cabelos,  consciência.

Mas o sujeito reclamou no final, porque quando colocou o pau no seu cu, ele ficou estático, pensava em outra coisa para não sentir a dor.   Precisas aprender a mover-se.   Lhe mostrou, o provocando para que ficasse de pau duro, uau tens um bom instrumento.     Viu como era para fazer. O outro gemia, fazia sons.  Teria que aprender a fazer isso.

No dia seguinte ficou vagabundando pelo centro da cidade, Cinelândia, foi conhecendo as ruas, para saber mover-se.    Sabia que muitos garotos dormiam ali perto nos terrenos do Museu de Arte moderna, quando leu o letreiro, ficou pensando o que seria isso. Aquele prédio enorme.

De noite, um velho o levou até sua garçonniere,  um pequeno apartamento para fazer sexo, o homem lhe ofereceu uma bebida, agradeceu, pediu se podia tomar um banho, agora sabia que tinha que aproveitar as oportunidade.   O homem era do mesmo tamanho que ele, viu que ali havia um armário com roupas.   Fudeu com o sujeito, que em seguida caiu para o lado dormindo. Abriu um armário, pegou roupas novas, outras colocou na mochila, o dinheiro que o homem tinha pagado, saiu de mansinho.  Se deu conta que estava em outro lugar, fora de seu costume.  Olhou a primeira placa que viu, Rua Men de Sá, foi descendo a rua, nem tinha andado dois quarteirões quando parou um carro ao seu lado, viu que era um rapaz jovem, perguntou se queria fazer um programa.   Agora já sabia o que queria dizer isso.  O levou para Copacabana, antes de sair do apartamento tinha se lavado num bidê.

Opa ia ganhar dinheiro, disse que cobrava.

Então és um michê, perguntou o outro.

Não sei o que é isso, preciso de dinheiro para viver, o outro olhou para ele, parou o carro, pediu para ele descer.  Não pago para fazer sexo. Se fosse um velho talvez, mas sou jovem posso conseguir alguém que queira fazer sexo.

Foi embora,   sem seguida passou outro carro, era um homem que devia ter uns cinquenta anos, fez a mesma pergunta, antes de entrar no carro, disse que cobrava.  O outro pediu que pusesse para fora seu instrumento de trabalho, ficou meio confuso, até entender o que era o instrumento de trabalho, ia aprendendo coisas novas.   Colocou o pau na janela do carro, o outro só disse opa.   O levou para seu apartamento em Copacabana, pela lógica pensou, por estes lados aparecem os que vivem em Copacabana.

O outro não parava de falar, desculpe estou nervoso, é minha primeira vez, acabo de me divorciar.   Nada em minha vida dava certo.  Não queria filhos, foi contando toda sua história, ele quase lhe perguntou o que era divórcio, mas tinha aprendido a balançar a cabeça, como que concordando.    Era um apartamento que se via, que antes havia uma mulher.   O outro estava ansioso, chegou a gozar antes do tempo.  Ofereceu para ele dormir ali.  Queria dormir abraçado.  Mas isso lhe dava nervoso, sentia que lhe queriam fazer prisioneiro.

Lá pelas tantas, enquanto o outro dormia, se vestiu em silencio na sala, pois tinham deixado as calças por lá.    Abriu a carteira do outro, pegou o que tinha de dinheiro, se mandou de fininho. Foi andando até a praia, tinha roubado um casaco que tinha visto numa cadeira da sala, o colocou, ficava um pouco grande para ele.  Se encostou numa elevação de areia, dormiu até o sol sair.

Andou o dia seguinte todo o tempo, fazia calor, num pedaço de praia, viu que tinha vários grupos de homens, a maioria estrangeiros, que o olhava, como se tirassem sua roupa, ao seu lado apareceu um rapaz de uns trinta anos, lhe disse baixinho, tire a roupa fique se sunga, estão de devorando.

Eu só tenho cueca, não tenho sunga. O outro fez sinal que o seguisse, de uma mochila, tirou uma sunga, coloque tua roupa na mochila, assim fica guardado.

Apontou um grupo, de homens muito brancos, disse alguns gostam de negros, outros de mulatos como eu, outros preferem os brancos como tu.   O que te falta é cuidado, mas se quiseres te ajudo.  A cada homem que levares para cama, antes que falem comigo, arrumo lugar para fazerem sexo, pois não podem te levar para o hotel que se hospedam.  Eu fico com uma parte do dinheiro, mas te dou casa, comida, um lugar para dormir.

Viria descobrir mais tarde que o que fazia esse rapaz, ele era cafetão de um grupo de rapazes, ele também se prostituia, mas estava preparando para um futuro, já não fazia tanto sucesso.

Logo lhe arrumou um cliente, entre esse grupo, era um sujeito diferente, pois era o único no grupo que era moreno.  Os outros todos queriam os negros, mulatos, não entendia nada do que falavam, só então viu que eram todos estrangeiros, quando se insinuou, apontou o Jeronimo, este se aproximou, falou com o outro, este estava num apartamento alugado, disse quanto custava, entregou um pacote de camisinhas, ele na hora não entendeu.  Não sabes usar isso, é muito importante.  Falou com o outro, que este tinha sorte, ia fazer sexo, com um garoto virgem, se ele te penetrar faça muito ruído, muitos gemidos.

Te espero aqui.   O outro lhe ensinou a colocar a camisinha, mas queria na verdade seu instrumento, ficou imaginando que esse homem era o Jeronimo, que lhe tinha atraído, de qualquer maneira, prestou atenção no que o outro falava, os gemidos, para aprender. Fez duas vezes com o homem.   Este perguntou se queria voltar de noite.

Quando voltou o Jeronimo, lhe entregou sua parte, estavam os meninos se preparando para ir embora, tens aonde tomar um banho para se preparar para a noite?

Disse que não, que estava vivendo na rua.  Então venha comigo.   Este tinha um apartamento, já quase no túnel Alaor Prata, se via que era velho, não tinha quase nada, uma cozinha meio suja, fogão, geladeira, uma mesa para quatro pessoas.   Aqui não trazemos ninguém, pois dormimos assim, todos dormiam em colchões no chão.   Esperou sua vez para tomar um banho, Jeronimo, lhe deu uma escova de dentes, nunca se esqueça disso. Escovar bem os dentes,  pois podem querer olhar os teus.

O ensinou a se arrumar, por enquanto deixe essa penugem que tens, assim os homens vão pensar que eres mais jovem, lhe perguntou sua idade.   Disse que não sabia, como tampouco seu nome completo. 

Já vejo que vens da mesma escola que eu venho, abandonado.  O apartamento pertence a uma velha eu vive aqui embaixo, nos deixa viver aqui, por um preço barato. As vezes aparece alguma barata, mas sei que estas acostumado a dormir na rua.   Lhe ensinou como usar seu cabelo para ficar bonito, viu as roupas que tinha roubado, as examinou, pareciam bem.

Hoje vamos a uma sauna, mas faço o que te disse, está cheia de estrangeiros, mande falar comigo, não deixem fazer nada antes de falar comigo.    Repetiu isso umas quantas vezes pelo caminho.  Era ele, mais quatro, dois eram negros, um mulato, ele branco.  Jeronimo era um mulato muito bonito, com um corpo bem forte.

Quando chegaram, ele soltou um dinheiro para o porteiro, que fez um sinal para a porta lateral.

Deixem a roupa toda nesse armário, deu uma toalha a cada um.  Circulem, quando alguém se aproximar, olhe, sorria, repetiu de novo.  Disse que prestasse atenção, ao negro, que se chamava Miguel.  Veja como ele faz, aprenda.   Ficou observando, viu que o Miguel, volta e meia se metia nos chuveiros, ficava nu, com o caralho, já meio duro.  Lhe fez um sinal que fizesse mais afastado dele.  Logo viu como fazia o Miguel, quando apareceu um alemão imenso, ficou olhando ele chupar o caralho do outro.  Assim foi aprendendo. 

Segunda, terça, ficavam livres, podiam fazer o que quisessem.  Uns iam de compras,  ele aproveitava para lavar sua roupa, se cuidar, tinha aprendido isso com o Jeronimo.  Este lhe falou das doenças venéreas, como tinha que evitar quando os homens lhe pedisse para fazer sexo sem camisinha.  Não abra mão disso.   Ali pelo menos, tinha aonde dormir, ele era um dos poucos que lavava o lençol, comer direito, dormir tranquilo.

Um dia Jeronimo lhe disse que um cliente tinha reclamado, que ele não sabia se mexer direito, esta noite vou dormir contigo para te ensinar como fazer, venha para o meu quarto quando todos forem dormir.   Ele era o único que tinha um quarto só para ele.   Teve um verdadeiro curso do que deveria fazer, para deixar os clientes loucos, bem como se excitar a si mesmo.

Em que pensas quando estas com um homem mais velho.

Deu um sorriso encabulado, penso em ti Jeronimo, já te vi sem roupa,  fico excitado rápido, como estou agora.

Fez sexo pela primeira vez, por prazer, nada de dinheiro.  Gostou.              Agora como os outros diziam era o querido do chefe, dormia todas as noites com o Jeronimo.          Mas lhe disse que não gostava que lhe abraçassem, pois se sentia prisioneiro.   Levou seu colchão para o quarto, bem como suas coisas.  Se faziam sexo, depois ia dormir no seu canto.

Se passaram dois anos, agora estava forte, se vestia bem, alguns, iam embora, com algum homem mais velho,  mas antes escutavam o Jeronimo, lhes orientando,  este cobrava para liberar o rapaz.

Dois homens velhos, tinham querido que ele fosse embora com eles, depois de passarem 15 dias fazendo todas as noites sexo com eles, os acompanhando para jantar.   Já sabia algumas palavras em inglês, mas não suficiente para ir à luta.   Os dois por acaso era alemães, ele não entendia nada do que falavam.

Quando falaram com o Jeronimo, este lhe perguntou se queria ir?

Disse que nem pensar, o que ia fazer num lugar que não ia aprender nunca a falar a língua.

Jeronimo, tampouco fez nenhum esforço para isso, gostava dele.

Um inverno, já não havia trabalho na praia, saiam para andar nos shopping, Jeronimo lhe avisou que tinha um homem o seguindo, vá ao banheiro, vou ver se ele vai atrás, depois entro.

Era um homem até bonito, de uns 65 anos. Cabelos brancos, bem penteado, da mesma altura que ele.

O homem falou com ele, mas não entendeu.     Jeronimo, lhe disse que era francês, começou a conversar com o homem.  Saíram os três, o homem tinha um apartamento alugado no princípio de Ipanema.  Tinha um trato especial.         Falou com o Jeronimo, quanto cobrava para ele passar esses dias todos com ele, ficaria 10 dias no Rio.          Passou esses dias todos com François, era educado, lhe foi ensinando palavras em francês,  saiam para passear, foi com ele a todos os lugares turísticos, que nem ele conhecia, saiam para comer, jantavam sempre com o Jeronimo, que reclamava que a temporada do inverno era uma merda.

Cinco dias depois o homem perguntou se ele queria ir com ele a Paris.        Lhe disse fale com o Jeronimo.  O problema estava que ele não tinha documentos, disse ao homem que precisava dele para tirar os documentos, passaporte.            O levou consigo para falar com um policial que ele conhecia.   O homem logo se engraçou para seu lado.      Já sabes o meu preço Jeronimo, gosto de provar a mercadoria.  Antes anotou o seu nome, quando perguntou o sobrenome, ele disse que não sabia.      Inventou, Zazou Gamez, fica diferente do que Silva, Santos ou mesmo Gomes, fica parecendo estrangeiro.       Tiraram fotografia,  enquanto um outro preparava os documentos, o levou para uma cela, que mais parecia um quarto de hotel barato.         Mandou que ele tirasse a roupa, o alisou inteiro, quando abaixou as suas, ele levou um susto, tinha um caralho imenso, fez um sinal com o dedo, depois falou no seu ouvido, diga depois que era imenso, mas o que eu quero é o seu.            Diga que doeu muito.   Fudeu o homem a vontade, ele era gostoso.   Se não fosses embora, ficava contigo para mim.

Agora já tinha bilhete de identidade, passaporte, já era uma pessoa como dizia o Jeronimo, mas o policial, pediu mais uma visita, tinha gostado demais do cuzinho dele.    Jeronimo ainda disse, assim vai embora arrombado. 

Deixa comigo só uma noite, nem podia comparar o policial com o francês.      Pela primeira vez estava relaxado, além do Jeronimo, estava aprendendo a sentir prazer a fundo.

No dia seguinte o francês, estava nervoso, pensei que tivesse sumido,  Jeronimo lhe explicou que tinham ido tirar o passaporte, depois que Zazou tinha ido visitar sua família, para deixar algo de dinheiro, etc.

Vamos comprar um bilhete para ele.               François chegou a pagar mais caro, só para que ele fosse sentado ao lado dele no avião.       Jeronimo, lhe deu suas últimas instruções, se ele se torna pesado, arrume uma maneira de escapar.             Peça sempre que ele regularize tua situação de estrangeiro.     Ainda saíram para  comprar alguma coisa de inverno, pois na Europa era final do inverno, mas nada comparada com o inverno do Rio.  François pagou tudo.

Embarcaram, ele morto de medo, quando muito tinha andado de ônibus, nem de trem tinha andado, andar de avião ia ser um horror.       Mas François foi previdente lhe deu duas pastilhas, foi dormindo até chegar a Paris.

Quando o avião chegou, deu uma volta por cima da cidade, ele estava extasiado, pensou nessa cidade “ vou me realizar, ser famoso”.     Mas não estava pensando, em sexo, sua intuição lhe dizia que poderia ser alguém ali.

A princípio foi um mar de rosas, François, o apresentou aos seus amigos, mas nas reuniões, todos falavam depressa demais para ele entender.                          Pediu para fazer um curso, com conversação, se adaptar, a contra gosto François pagou, mas claro, depois cobrava os favores. Quando viu, tinha se transformado numa doméstica do outro.               Lavava a roupa, cozinhava, limpava a casa.         Não que isso lhe desgostasse, mas sempre havia alguma reclamação que as coisas não estavam bem feitas.   As vezes explodia, com um então faça você.   Não sabia direito porque ele não dava explicações, em que trabalhava o François.   O pior era que mal tinham chegado, François, sem que ele visse, pegou seu passaporte, fechou numa gaveta, para que ele não perdesse.   Meses depois resolveu seu problema de documentação, mas claro tudo fechado nessa bendita gaveta.  Começou a prestar atenção, qual era a chave, aonde ficava guardada, sempre estava num chaveiro da calça que ele usava.  Eram muitas chaves, faziam ruído até quando ele andava.

Lhe dava dinheiro para ir as compras de supermercado ou farmácia, dizia fica com o troco para tomar um café.   Mas ele guardava tudo, andou roubando na rua umas duas carteiras, para poder ter mais dinheiro, tudo escondido.

Como ficava sozinho o dia inteiro, roubou um guia que viu numa banca de jornais, agora ia explorando a cidade, conhecendo os lugares, mas sempre voltava antes para casa porque senão François lhe dava uma bronca colossal.  Queria saber detalhes de aonde tinha estado.

Não o levava mais a reuniões com seus amigos, pois todos ficavam prendados dele.  Estava cada vez mais bonito, segundo diziam todos.

Tinha vontade de ir ao Louvre, mas quando muito chegou a olhar a Pirâmide, por fora, imaginou que fosse imenso.   Escutou dois brasileiros falando, é muito grande, na segunda sala, já não se lembra da primeira, melhor ir ao Museu d’Orsay, buscou no mapa, na próxima escapada foi até lá.

Quando viu o imenso touro na entrada, ficou embasbacado, era uma escultura maravilhosa, ele nunca tinha tido tempo para ver arte.  Pagou a entrada, foi passando. Quando entrou, ficou parado na parte alta, sem saber muito bem aonde ir, estava fascinado.  Viu o guarda chamando atenção de uns garotos que passavam a mão nas esculturas.   Era o que ele tinha vontade de fazer.  Foi olhando todas, sem perceber que ficava parado com a boca aberta, os olhos como que querendo absorver tudo, amou  “Hercules Arqueiro, de Emile-Antoine Bourdelle”, ele lia o nome do criador, ficou ali parado, andou por todos os ângulos, para se impregnar dos detalhes, voltava a olhar de perto, depois se afastava, queria de alguma maneira botar essa imagem na sua cabeça.  Era uma perfeição, o movimento, a forma, não saberia talvez se expressar com palavras o que estava vendo, mas amava.

Ficou alucinado quando parou na frente da “Porta do Inferno de August Rodin”, estava de novo mergulhado nos detalhes, se pudesse se erguer para ver direito a parte alta, fez como da outra vez, olhava de perto, se afastava, achava graça que as pessoas vinham com um fone de ouvido ou um papel, olhavam iam embora sem ver a obra que era impressionante.

Estava tão concentrado nisso, querendo ver com detalhe uma figura que estava em cima, como que sentado com o cotovelo apoiado no joelhos, com o queixo na mão.  Quando escutou uma voz atrás dele dizer, é uma repetição de uma das obras mais famosas de Rodin, “O pensador”, está em outro museu.

Olhou o homem que sorria para ele.  Seus cabelos brancos se misturavam com os loiros, lhe dando um aspecto de leão, com os cabelos crespos imenso. Eu entrei junto contigo, venho te seguindo, venho aqui milhões de vezes com meus alunos, eles passam tudo por alto, queria que observassem as coisas como tu fazes.          Seria um balsamo para um professor de arte, que os alunos se interessassem.

É a primeira vez que entro num museu, nunca tive essa oportunidade, as vezes via esculturas nas praças, mas mal cuidadas, creio que as colocam ali para serem admiradas, mas as pessoas que passam não tem tempo para parar admirar.             Não tenho uma cultura artística, mas até gostaria de aprender.

Pelo sotaque vejo que não eres daqui?

Não sou do Brasil, vivo a pouco tempo aqui, aproveito meu tempo livre para ir conhecendo a cidade.  E o senhor é daqui?

Sim, mas nasci perto de Marseille, trabalho aqui perto, na École des Beaux Arts, estou aqui para olhar um quadro, que estou fazendo um estudo para transformar numa grande escultura.     Quer ver o quadro?

Ele balançou a cabeça, estava encantado que um artista lhe prestasse atenção,  O quadro era imenso, lhe impressionou, se sentia pequeno diante dele.  Ficou de novo de boca, aberta, esqueceu que o outro estava ali, começou de novo, a se afastar, observar detalhes de algum personagem que estava no quadro, depois passava para outro, se afastava para ver como funcionava o conjunto, mudava de figura.  

O professor estava com a mão no queixo, observando como ele fazia, sabia que tudo era intuitivo, já que lhe tinha falado que era a primeira vez que entrava num museu.           Quando acabou, fico imaginando como vais transformar isso numa escultura, curioso ao mesmo tempo, para saber como se faz.  Nunca vi ninguém trabalhando.

O professor estendeu a mão, Jean-Pierre Lascau, ao teu inteiro dispor.

Ele riu, meu nome até a pouco tempo era só Zazou, agora sou Zazou Gamez, lhe copiou, ao seu inteiro dispor.

Queres tomar um café para conversar Zazou?

Fez que sim com a cabeça.

Se sentaram num café, logo depois da saída do museu, ficava justo na esquina de Port Royal, a primeira pergunta ele demorou a responder, mas queria ser honesto com esse homem, não sabia por quê.

Queria saber como ele tinha vindo viver em Paris?

Olha Jean-Pierre, eu era um prostituto no Rio de Janeiro, um francês, gostou de mim, me convidou para vir, mas na verdade dei com os burros n’água, pois me trata como se eu fosse a mulher da casa, mas chega de noite o que quer é sentar em cima do meu pau.

Jean-Pierre, riu, me desculpe, mas normalmente as pessoas mentem ao responder essa pergunta, contam uma historia imensa.   Gosto como te comportas, vais direto ao assunto sem rodeio.    Eu também me prostitui quando cheguei aqui, não tinha dinheiro para estudar, posava para outros artistas, depois te mostro em alguns lugares, figuras em quadros que sou eu quando jovem.                 Mas nunca tive vergonha, tampouco escondi isso de ninguém, até que um velho professor me tomou sobre suas asas, me ensinou tudo que sabia, ficamos amigos, ele não tinha filhos, me transformei em seu filho.     Mas nunca fiz sexo com ele, era heterossexual, gostava de uma boa farra com mulheres, mas nunca me criticou porque eu gostasse de homens.    Dizia que cada um tinha que viver a vida como quisesse.

Eu vivia num orfanato minha mãe, não podia cuidar de mim, tinha outros irmãos, mas não sei aonde foram parar, fiz de tudo, roubei, dormi muito na rua, sonhando sempre com outra vida, me prostitui pelas ruas, até que encontrei um homem que cuidou de mim, claro ficava com uma parte do dinheiro, mas me protegia, me deu uma casa.

Agora estou aqui, sem saber o que fazer da minha vida, o tempo esta passando, sei que estou perdendo algo, mas ainda não descobri o que.

Venha, vou te ensinar aonde é a Escola de Belas Artes, no caminho sinalizou uma loja de material de pintura. Quando olhou o relógio viu que era tarde, teria novamente uma discussão com François.  Perdão, mas tenho que ir embora, é muito tarde, o senhor com quem vivo vai aprontar um novo escândalo, se chego tarde.

Jean-Pierre, lhe estendeu um cartão, atrás colocou o número do seu celular, qualquer coisa, me chame, não importa a hora, quero te conhecer direito.

O metro estava lotado, mas chegou em casa tarde.  François, perguntou aonde tinha estado?

Estava num museu, porque, nunca me levas as estes lugares!

Não gosto de perder tempo, chego à comida não está feita, estou enojado de comer todos os dias a mesma coisa, devias sim, fazer um curso de cozinha francesa, para me agradar, afinal paguei para isso.  Não penses tu que teu querido amigo Jeronimo, te liberou sem que eu soltasse um bom dinheiro.

Ele sem pensar muito, apertou seu pau com a mão, dizendo, mas que usufrui bastante, verdade.

Se tens fome peça uma pizza, que eu já não tenho vontade de comer, ou vá comer com teus queridos amigos, aos que me escondes.  Tens medo de que, que eu fuja com algum deles.

Ele riu irônico, não podes fugir, tenho todos teus documentos comigo, em seguida serias preso, expulso do país.

Ele foi para seu quarto, batendo a porta, então era por isso que tinha seus documentos escondidos naquela gaveta.   Já veria ele com quantos paus se faz uma canoa.   Tempo depois o outro entrou no quarto, lhe pedindo perdão, venha me fazer companhia na sala.

Quis fazer sexo com ele, mas agora lhe dava asco.  Filho da puta, tudo bem que ele era um prostituto, mas dai querer se aproveitar dele, isso não.

Como todas as noites, tinha que preparar um comprimido para ele dormir.   Esmagava a mesma, dissolvendo na água, pois senão o François não dormia, nesse dia, fez isso com quatro comprimidos, colocou um pouco de açúcar, lhe entregou, na hora que ele estava distraído com alguma coisa, tomou dizendo que estava um pouco amargo. 

Todos os dias dizes a mesma coisa François, que esta amargo, não podes pelo menos agradece que faça isso para ti. 

O olhou de cima a baixo, estas aqui para isso, servir ao teu senhor.

Filho da puta o tomava por seu escravo, ele não tinha pedido que desse dinheiro para o Jeronimo, o fez porque queria desfrutar de seu caralho. Filho da puta repetiu na sua cabeça.

Ficou observando quando ele caiu num sono profundo, o levantou, levou para sua cama, tirou as calças, com cuidado, fez de proposito barulho com as chaves, para ver se ele despertava, nada.

Foi para o escritório, abriu a famosa gaveta, só teve que experimentar com duas chaves, na segunda funcionou.  Achou seu passaporte, todos os documentos franceses, enfiou no bolso, o que mais lhe chamou a atenção, a quantidade de rolos de dinheiro que tinha ali,  caramba foi tudo o que disse, abriu um para ver qual o valor de cada rolo.  Cada um tinha mais ou menos mil euros. Deixou a gaveta aberta, foi até seu quarto, encheu a mochila, colocou as roupas que gostava na parte de cima, vestiu um tênis novo que lhe deu de presente.   Foi até seu quarto, colocou as chaves na calça, assim ele levaria um tempo para descobrir.  Ele saia todos os dias de manhã para ir comprar croissants fresco para o café da manhã.   Olhou para o relógio, eram as duas da manhã.  Não vou conseguir dormir, o melhor é dar no pé agora.

Saiu para a rua, tomou um taxi que passava, disse Châtelet, de lá telefonaria para o Jean-Pierre, podia ir para um hotel, mas com certeza François iria procurar em todos hotéis baratos da cidade.

Escutou que o outro despertava, falava sonolento no celular.  Claro que sei quem eres, anote meu endereço.   A estás horas não sei se tem algum ônibus para cá.  

Vou de taxi, fica mais fácil. 

Saio agora de casa, te espero na Place Monge.

Foi rindo do taxi, como esse homem que nem o conhecia, o recebia assim, o certo era lhe dizer que o veria no outro dia perto de seu trabalho, fazer sexo com ele, desaparecer.

Realmente estava ali de camiseta, calças jeans, chinelos, riu para ele, sei que queres falar, mas estou com frio, vamos para casa.

Foram rápido, era realmente perto da praça, mas ele não iria encontrar, era um edifício antigo, que tinha cara de ter sido reformado.   Foram subindo as escadas, é no último andar, menos mal que era um edifício de três andares.   

Ufa, que frio, eu as vezes no inverno escapo para Marseille, na verdade perto dali, tenho uma casa pequena na praia.  Gosto de estar ali no inverno, pois não tem muito turista.

Imagino que tens muita coisa para falar, se queres conversamos agora, ou se prefere, falamos amanhã.

Ficou imaginando que o arrastaria para a cama, nada mais longe da realidade, o levou até um quarto, esse antigamente era meu quarto,  podes ficar tranquilo, mostrou que tinha um banheiro bem diante do quarto, no meu tem um dentro, o edifício foi reformado.   Meu Studio é no andar de cima, amanhã poderás ver.

Queres que te chame amanhã, eu costumo levantar muito cedo, para poder trabalhar um pouco antes de ir para a Escola, desenhar um pouco, manias que tenho.

O deixo se arrumar para dormir, ah, no banheiro acabo de colocar uma escova de dentes, bem como pasta para usares.  Tem toalhas para banho, tudo o que precisas.

O ajudou a arrumar a cama, não se preocupe por nada, eu já passei por isso, amanhã, conversamos.   Depois, buscou um lugar para esconder o dinheiro, mas não encontrou nada, tudo tinha sido reformado.   Tirou a roupa, se jogou na cama só de cuecas, ficou imaginando no dia seguinte o François, despertando, não iria encontra-lo, talvez demorasse a entender.  Sabia que ele não aceitaria bem.  Se lembrou de uma vez que um amigo dele lhe fez uma desfeita, explodiu, ajudei esse filho da puta, tem mais é que obedecer o que lhe digo para fazer.   Foi a primeira vez que o via fazer isso, ficou de sobreaviso.  Um dia seria com ele, com certeza, sabia que gostava disso, cobrar os favores.                  Tinha feito isso com ele, o transformando em sua empregada de cama, mesa.

Nem pensava em queimar as pestanas com isso, tinha pelo visto bastante dinheiro, não tinha menor ideia em que ele trabalhava, sabia que chegava sempre olhando para os lados, agora entendia, era porque andava com muito dinheiro na pasta, se esta gaveta tinha tudo isso, imaginava nas outras, pois todas eram fechadas a chave.

Tentaria agora arrumar algum emprego, quem sabe o que seria de sua vida, mas pela primeira vez dormiu o sono dos justos.

Despertou de manhã, com ruídos na cozinha, que ficava em seguida ao seu quarto, levantou, atravessou o corredor, tomou um banho quente, olhou sua cara no espelho, estava mais relaxada.

Jean-Pierre o esperava na cozinha.  Dormiste bem?

Sim, fiquei ainda um pouco pensando na minha situação, mas depois dormi o sono dos justos, profundamente.

Que bom fico contente, eu as vezes perco horas na cama, pois fico pensando no que estou fazendo, buscando solução para algum trabalho, ou mesmo que caminho seguir.  Mas isso é uma mania que tenho.   Já vês estou ficando velho cheio de manias.

Ele tinha um corpo estupendo, a pele meia morena. Esses cabelos loiros misturados com os brancos, os olhos profundos, essa boca que lhe dava vontade de beijar.

Em que estas pensando, me examinando dessa maneira?

Vejo que nada te escapa, estava guardando tua figura na minha memória.

Como gosta do café, foi lhe servindo, indicando o que havia na mesa para o café da manhã. Eu sempre como muito a essa hora, pois não sei que horas volto a comer.    Hoje por exemplo não dou aula, então aproveito para trabalhar.  No verão, como só trabalho de segunda a quinta-feira, na sexta de manhã, ou mesmo na quinta de noite, pego um trem vou para a praia.  Lá tenho um studio pequeno, mas posso desenhar.  Adoro o mar, sinto falta do seu cheiro,  ficar sentado na varanda olhando o nascer do sol, lembrando as vezes coisas da minha infância.

Minha última exposição foi sobre isso, minhas lembranças da infância. Objetos que tinha consciência que tinha visto ou sonhado.   Fui um sonhador desde criança, com um pai terrível, que me pegava sempre que eu não lhe respondia, se lhe dizia que estava dentro da minha cabeça, pior, pois dizia que estava louco.

Por isso um dia fugi, vim para cá. Tudo que trouxe foi uma mochila cheia de desenhos, mas claro ao apresenta-la na escola de Belas Artes, não tinha nem dinheiro para a matrícula, as vezes dormia escondido no prédio.  Outras vezes fazia sexo com alguém para conseguir dinheiro.   Quando pedia trabalho, ninguém queria um artista como empregado. Fui levando até encontrar meu protetor.

Agora serás o meu protetor?

Quem sabe, mas me conta que te aconteceu ontem.

Contou o que tinha passado no dia anterior, só não falando do dinheiro que tinha.  Se comportou como se eu fosse seu escravo, que tinha obrigação de fazer tudo que me mandasse.        Quando cheguei me apresentou aos amigos, mas quando esses começaram a conversar comigo, ou mesmo me elogiar, nunca mais me levou.  Virei de uma hora para outra, de amante, em uma empregada da casa, que tinha que satisfazer o senhor, na mesa, na cama.  Aliás era ele quem se satisfazia sentando no meu caralho.    Perdão, não quis ser grosseiro.

Jean-Pierre ría, batendo as mãos nas pernas.   Só mesmo tu para me fazeres rir a esta horas da manhã.   Vejo que serás boa companhia para mim.

Arrumaram a cozinha juntos, estava contente, era como um companheiro.               Não lhe disse, arrume a cozinha faça isso ou aquilo, esperava que não fosse só esse momento.

Venha, vamos subir para que tu conheças o studio.  Se pode ir por fora,  ou aqui mesmo da sala.  Subiram uma escada em caracol.   Acendeu a luz, iluminava um espaço imenso, devia ser todo um andar, com mesas de trabalho, um grande desenho preso numa parede, atrás de uma mesa, detalhando um personagem do quadro que tinha lhe mostrado no museu.   Vou só usar a ideia, mas quero fazer uma coisa atual.      As vezes levo muito tempo para realizar o que penso, primeiro porque há dias que me sobra pouco tempo.     Me distraio muito, talvez buscando algo não muito concreto.

Estava fazendo uma maquete do que quero fazer.     

Ficou olhando a maquete, o desenho na parede.   Porque não usas a ideia da emigração hoje, o pessoal tentando entrar na Europa, de barco, quantos morrem, essa coisa, o desespero de quem perdeu um filho, outro alegre porque chegou salvo no que eles acham que é o paraíso.

Vê isso me admirei ontem de ti, essa capacidade de observação.                 Se todos meus alunos tivessem seriam grandes artistas, somente alguns, na verdade uns poucos poderão alcançar isso.

Foi acendendo luzes, uma parte era como um círculo embaixo de uma claraboia, aqui quando preciso de um modelo, o coloco no centro, para poder ver como incide a luz em cada posição. As vezes não entendem que eu me mova tanto, mas a mudança de luz, é importante.  Muitos pensam que os convido para virem aqui, para depois os arrastar para a cama, nada mais longe da verdade.    Mostrou uma foto do seu protetor, com uma mulher lindíssima ao lado.  Esta foi sua última mulher.  Pensou ao se juntar com ela, que ele  morreria antes, mas foi ao contrário, ela foi atropelada em frente à praça.    Para ele foi um problema sério, eu já vivia aqui, fiquei ao lado dele todo esse tempo.      Era apaixonado por ele, mas nunca verbalizei isso, sabia que me queria como um filho.            Imagino que estas pensando exatamente isso, porque ontem não te levei para a cama, já que estas em minha casa.    Se um dia for contigo para a cama, será porque nos conhecemos, queremos a mesma coisa.                            Podes ficar o tempo que queira aqui.             Inclusive podes posar para mim, se queres ganhar algum dinheiro, posso arrumar para que pose na escola, sempre é difícil conseguir alguém.   Poderias ter teu dinheiro, assim ninguém vai te incomodar.

Não ia lhe dizer que tinha dinheiro por um bom tempo, ficou quieto.

Serias capaz, de fazer exatamente o que disseste, uma pessoa, vendo o futuro, depois de tanta coisa amarga, não usarei tua cara, mas sim a expressão.  O colocou da maneira que imaginava, estas em pé em cima da barca, olhando que chegas para uma nova vida.

Ficou ali, imaginando uma nova vida com ele, deixou que seu corpo expressa-se isso, sua cara, seu olhar.

O silencio era tão grande que se podia escutar o ruído do lápis sobre o papel, ou mesmo quando arrancava uma página do bloco que estava desenhando.   Não podia olhar o relógio para saber quanto tempo estava ali em pé na mesma posição.   Se lembrou das vezes que era obrigado a ficar de joelhos, chupando o caralho de outra pessoa, quando os joelhos começavam a doer,  que ia ficando desesperado, mas precisava daquele dinheiro para comer.  Sentiu que as lagrimas começavam a baixar pela sua cara,  outra vez que como não chupava direito, o sujeito tinha lhe dado um murro na cara, ele só tinha uns 15 ou 16 anos, nada mais.

Graças a Deus não tinha espelho para se olhar,  não tinha ainda a força, nem corpo para se defender.   Hoje em dia, se levantaria, lhe daria um bom murro na cara.   Quis se controlar, não demonstrar o ódio que estava sentindo.  

Só escutou a voz do Jean-Pierre dizendo, sei que as lembranças, não são agradáveis, mas siga assim, já estou acabando.

Depois o ajudou a ir colocando os desenhos na parede, estava impressionado, realmente tinha captado o que ele tinha sentido.

Creio Zazou que é isso, a pessoa, estando num momento que chega ao seu destino, ao mesmo tempo que pensa no futuro, também se lembra do passado.

O ajudou a trazer uma quantidade de argila para a mesa, em seguida ficou fascinado ao vê-lo trabalhar.

Sua cara era de concentração total, embora fosse uma pequena escultura, parecia que todo seu corpo participava disso.   Absorveu tudo que podia daquela imagem, viu um pedaço de papel ali, um lápis, começou a desenhar, sem prestar muito atenção no papel, sim em mirar a cara do Jean-Pierre.

Ele de repente de soslaio, olhou o que ele estava fazendo, olhar fixo para ele, ao mesmo tempo o braço, como que obedecendo uma ordem da cabeça, como que funcionava sozinho.  Sorriu, não tinha se enganado.  Tinha um potencial ali guardado naquele jovem.  No mais era medo de se apaixonar por ele.

Se moveu, quebrando a concentração de Zazou, ia buscar mais argila,  mas parou para olhar o desenho.              Uma pessoa que não olhava o papel, devia estar fazendo uns rabiscos.   Ficou surpreso, estava perfeitamente desenhado, viu sua concentração no que estava fazendo. Era um perfil perfeito.  Ficou de boca aberta.

Zazou, olhou para o que tinha feito, não tinha tido consciência disso, fizera tudo automaticamente.         Ele mesmo ficou abismado.  Sorriu como se tivesse descoberto a pólvora.

Fiz tudo sem querer, creio que algum impulso me movia. 

Venha comigo, ali havia uma parte que era como um armazém de material, escolha o que queria, sei que não tens noção de material, já irei te explicando.  Creio que podes realmente fazer algo.   Use o que queira.

Já eram quase duas horas da tarde, sentiu a barriga roncar.  Riram os dois, pois o ruído era alto, venha vamos sair tomar um pouco de ar, comer alguma coisa.        Ou podemos comprar alguma coisa, ir comer no Jardim de Plantes aqui perto, o que achas, assim, nos relaxamos.

Compraram sanduiches de pastrami, num local judio, eram bem grandes, além de refrigerantes, com duas bolsas, caminharam até o Jardim de Plantes.   Zazou não conhecia essa parte da cidade, ficou admirado da Mesquita.   Um dia podemos vir comer aqui, a comida é excelente.

Se sentaram no jardim,  comeram um pouco, Jean viu que a cara do Zazou era muito séria, lhe perguntou o que lhe passava pela cabeça. 

Estou assustado, pois nunca agi assim, como que por instinto, estava te olhando, de repente, senti um impulso, vontade de te retratar, esse papel, estava ao meu lado, bem como o lápis, fui te olhado, nem sei como fiz.  Se tivesse que fazer pensando, creio que não sairia.

Veras, as pinturas mais famosas, como por exemplo “O Grito” de Edward Munch, se olhas para o que se fazia na mesma época, é muito feia.   Mas o seu significado é muito grande, dai talvez seu sucesso.  Existem milhões de exemplos.  O quadro mais famoso de Picasso, “Guernica”, é de uma força brutal, nem por isso bonito. 

Veja bem, Zazou, dizem que arte é isso, um tanto de técnica, mas o resto todo é transpiração, que em resumo, é instinto, impulso.   Se pensas muito, um desenho, uma pintura, será igual a tantas outras.   Uma coisa extremamente perfeita, por vezes é chata.  Depois vou te mostrar isso.

Riram os dois da imagem.

Sem saber muito bem porque, contou para ele toda sua vida, sentia uma confiança no Jean que era além do esperado, se conheciam não tinha nem dois dias, depois pensou, posso me arrepender disso, mas na verdade nunca se arrependeu.

Jean, posou para ele várias vezes,  até que conseguiu faze-lo de corpo inteiro.  No desenho, estava cada dobra, cada arruga da roupa.  Os detalhes mais iluminados pela luz da claraboia, ele só queria ir as aulas da Escola de Belas Artes, a partir que dominasse um pouco o desenho.

Semanas depois foi,  Jean tinha conseguido com o diretor que ele assistisse as aulas, o semestre acabava em breve,  era para ver mais como se sentia em grupo.  Ficou esperando as aulas, sentado na escadaria, alguns alunos fumavam, falando coisas triviais, vivencias que ele não tinha tido tempo de ter.   Alguns falavam de uma festa aonde tinham ido, segundo um dos rapazes, tinha rolado de tudo, drogas, sexo.  Ele mesmo nem sabia com quem tinha tido sexo, se ria desse fato.   Depois outro grupo um pouco mais afastado que ele percebeu que não pertenciam a mesma forma de pensamento, pelas roupas se via que eram mais sérios.

Entrou para a sala de aula com todos,  sentou-se aonde Jean lhe indicou, ficou mais atrás dos outros alunos. No centro, uma modelo completamente nua, esperava a indicação do Jean para posar.   Ele pediu que ela se inclinasse como se fosse deitar, pegou um pedaço de pano fez um drapeado, nos quadris dela, tapando o sexo.   Vocês tem 15 minutos, antes que ela mude de posição para fazer um esboço.   Ele começou a trabalhar, como em transe, deixou de escutar os comentários que faziam duas garotas que estavam sentadas a sua direita.  Quando Jean, disse tempo, parou, na verdade já tinha terminado, estava era fazendo uns retoques no drapeado do tecido. 

Ela a colocou em pé, com um braço esticado, descendo por ele, como se fosse uma serpente, o tecido, seguro pela mão que estava esticada ao alto, meio enrolado no quadril, mas com o sexo descoberto, descendo por detrás dela.

Fez o trabalho, era como se ele não escutasse nada,  fez tão rápido o esboço, que ainda sobrou tempo para imaginar como estava o resto de tecido descendo pelas suas costas, a tinha visto um segundo, de costas para ele, mas era capaz de se lembrar dos cabelos largos, de uma cicatriz nas costas, bem como de sua bunda. 

Deixou um ao lado do outro.

Cada um foi apresentando seu trabalho, ele deixou o seu por último.  Quero apresentar a vocês o Zazou, que assiste pela primeira vez as aulas.  Não tem muita experiencia, na verdade começou a desenhar a alguns dias atrás.  Será vosso companheiro, espero o semestre que vem.

Pediu que ele colocasse os desenhos, na frente, ele meio sem jeito levou.

Estavam perfeitos, se escutava o rum, rum  dos outros alunos comentando.

Um levantou a mão, perguntou ao Jean, estas de brincadeira, que ele só começou a desenhar a alguns dias atrás.

Oras, pergunte diretamente a ele.

Sim, respondeu Zazou, não tenho ainda noção do uso de técnicas, mas por um acaso comecei a desenhar, não sei muito bem se é isso que quero, vejo muitos defeitos no meu trabalho. Começou a sinalizar, aonde poderia ser melhor, agora que via com mais distância.  Perguntou se podia corrigir.  Jean consentiu, esperando ver a cara dos alunos.   Ele foi até os papeis, começou a detalhar algumas coisas que tinha passado por alto.     A cara dos outros era interessante, pois ele se movia pela sala, buscando ângulos para ver seu próprio trabalho, criando perspectivas que de um ângulo só não era fácil.

Um dos alunos que contava da festa, fez sinal aos outros que ele estava louco.

Pronto, creio que assim esta melhor.   Jean não disse nada, esperou que os outros alunos, falassem algo.

Espero que tenham visto como se trabalha um desenho.              Não é só olhar de um ângulo, estático, é necessário imaginar, outras maneiras de ver.     Buscar realmente o que nos inspire, respire.   Vamos fazer um exercício agora, prestem atenção em vossa própria respiração, eu estarei aqui em pé em cima do estrado, vou coordenar as respirações,  quando eu de o sinal, inspirem, segurem a respiração, pois vou encaixar na minha, nesse momento, mudo eu a minha postura, passem a desenhar no mesmo lugar essa postura, em cima da anterior, ou completando a anterior,  quando eu achar que está bem digo cortem ok.  Deu a partida, viu que Zazou estava completamente relaxado, ainda pensou como ele faz isso.   Os outros estavam nervosos, queriam entender ou fazer o que não tinham entendido.

Quando sinalizou que acabava, disse cada um fica no seu lugar, sem olhar o do vizinho, vou dizendo os nomes, venham trazendo aqui para a frente.  Vamos ver quem entendeu o exercício.

Nenhum deles tinha entendido, mas quando viram o trabalho do Zazou, ficaram impressionados, ele tinha feito todos os movimentos, os outros não tinha reparado que Jean, só tinha movimentado realmente o torso,   Ele fez esses movimentos, como se o torso fosse girando, que era o que tinha acontecido.  Vendo o trabalho dele, espero que tenham entendido a ideia, vamos repetir mais vezes, até vocês entenderem o trabalho.

Quando iam sair, viram que o reitor já estava a algum tempo na porta.   Fez um sinal ao Zazou, quero falar consigo.

Quando Jean me falou de ti, não imaginei que tivesses conhecimento de processos anteriores, mas vejo que tens uma base solida.

Senhor, me perdoe, eu não tenho base sólida nenhuma, se eu comecei a desenhar, não faz nem uma semana.  Isso não é possível, pode ser que ao longo do anos de minha juventude, eu tenha desenvolvido um sistema de observação, pois dele dependia minha vida.

O que fazia antes, de que idade estamos falando?

Até semanas atrás poderíamos dizer que minha profissão era de prostituto, nunca tinha entrado num museu, tampouco tinha prestado atenção a quadros, a nada do gênero, apenas necessitava do meu sentido de observação, para saber se devia fazer sexo, com este ou com aquele. Tratava de sobrevivência, de me proteger de algum possível maltrato.

A cara do reitor era ótima, pois não esperava uma resposta dessa.               Talvez esperasse uma resposta mais intelectual, mais erudita.   Isso ele não sabia falar, não tinha vergonha de ter sido o que dizia, era uma verdade, como dois e dois são quatro.   Cada vez mais tinha noção, de que se falasse a verdade, as pessoas o olhariam diferente, pensando que mentia.

Num segundo, abriu o caderno, traçou o rosto do reitor, do espanto dele, do seu movimento de perplexidade, sobre a verdade.  Creio senhor que meu problema é o impulso.              Às vezes, quando vejo já fiz.

Só disse antes de sair, espero que esteja aqui no semestre que vem, vá pensando num projeto.

Ele não entendeu. 

Ele quer dizer, que no semestre que vem, não terás que começar do zero, que te vê na sequência seguinte do curso.   Quer que tu desenvolva um projeto de trabalho.   Depois com calma te explicou.

Estava deixando o cabelo crescer como quando era adolescente.  Como tomava banho, em seguida sacudia o mesmo, ficavam crespos.

Nas férias, foi com Jean, para Cassis, a casa ficava numa pequena enseada, com outras casas, todas mais ou menos no mesmo estilo, a de Jean, estava mais afastada de outras,  na verdade se compunha de duas cabanas interligadas entre sim.    Uma era aonde se dormia, um grande salão com uma lareira, uma pequena cozinha americana, dois sofás-camas, um banheiro simples, na outra estava seu studio, era um espaço apenas dividido por colunas, aonde havia mesas de trabalho, de resto um banheiro, para necessidades .

Estava deslumbrado com a beleza do lugar, como a temporada não tinha começado ainda, basicamente só estavam eles ali.   Nessa noite, de lua cheia, tomaram banhos nus na praia, voltaram rindo para a cabana.   Estava feliz, como nunca tinha estado antes na vida, ficaram conversando, vendo a lua iluminar o mar.  Sem querer, ele segurou a mão do Jean, não soltou mais.    Obrigado por tudo, por me estar fazendo tão feliz.

Quando foram dormir, ele perguntou se podia deitar junto com ele.  Queria estar próximo dele, foi a primeira vez que se sentiu totalmente feliz fazendo sexo.  Até então estava preocupado em satisfazer a pessoa, desta vez fazia isso, mas se sentia satisfeito ele também.

Como era a primeira vez, que ficava beijando, fazendo carinho em outro homem.

As férias foram formidáveis, mesmo com outras pessoas ocupando as cabanas, a deles estava mais afastada.   Passavam o dia trabalhando, tinha comprado material, lápis de cor, lápis aquarela, bem como uns especiais que ele não sabia bem para que serviam.

Tinha ido sozinho várias vezes ao porto, desenhando velhos pescadores, que estavam ali, abstraídos,  esperando que algum peixe desavisado mordesse sua isca.  Jean não se preocupava, pois, quando ele chegava, se sentava na mesa, escolhi um papel maior, se colocava mãos a obra, só voltava a realidade, quando Jean lhe chamava para comer.  Depois do almoço, os dois se deitavam para fazer uma siesta, bem a moda espanhola.  Despertavam para um sessão de sexo.  Não se cansavam um do outro, agora até dormia junto, ele que não suportava isso, era ele quem abraçava o Jean.

Antes de voltarem, Jean muito sério, lhe perguntou o que sentia por ele, pois estavam entrando em um terreno perigoso.   Estamos nos apegando um ao outro.

Lhe disse, honestamente Jean, não sei o que é amor, mas o que sinto por ti, é enorme, nunca quis ninguém com quem fiz sexo.                Mas agora, não só faço coisas que não fazia antes, por exemplo beijar, como me sinto completo estando contigo.     Me abriste um mundo novo, isso eu quero compartilhar contigo, não me vejo me afastando de ti.   A não ser que queiras.

Esta noite foi especial, não fizeram sexo, mas sim ficaram abraçados um ao outro, conversando, beijando-se, rindo de algum comentário.   Dormiram sorrindo.

Voltar a realidade ia ser difícil, na volta vieram conversando, que projeto ele queria desenvolver. 

Jean lhe aconselhou escolher as matérias que queria fazer, aconselho inclusive fazeres coisas do primeiro período que não fizeste.

Quais, por exemplo?

Modelagem em barro, te dará uma ideia em três dimensões, como se diz agora, mas creio mesmo que te orientará a respeito de dimensões.   Por exemplo um crânio, que dimensão tem, para quando desenhares no papel, saber exatamente o que fazes.   Outra forma de criação seria esculturas em metal, no primeiro ano, se faz pequenos trabalhos de composição.  Creio que para ti seria bom.

Um dia no corredor, viu o reitor conversando com um homem que conhecia através do François, ele tinha feito um comentário, a respeito de sua beleza, que não gostou ao outro.

Quando ele passou, o reitor lhe chamou, ia apresentar, mas ele se antecipou, já nos conhecemos, o outro ficou sem graça, mas ele resolveu que tinha que ser franco sempre, senhor, eu fui prostituto de um amigo do senhor.

Esse menino prima pela franqueza.

O outro respondeu, pelo menos, quando for famoso, não terá que esconder tua vida anterior embaixo do tapete como fazem todos.

O reitor, retomou a conversa, este é um dos alunos promessas que te falei, perguntou se tinha sua pasta de desenhos ali na escola.

Sim os que fiz nas férias, que agora espero desenvolver.

Pode nos mostrar?

Claro que sim, senhor.

Os levou até a sala, Jean se aproximou, pois conhecia o homem, olá Marc, como vão as coisas na galeria.

Tudo bem, tens coisas novas que eu possa ver?

Já marcaremos uma data, ainda estou em processo de trabalho.

O próprio reitor foi passando os desenhos, com uma cara surpreendente.         O tal Marc, sorria, vejo que tens talento.

Alguns só desenhos que fiz no local, eles pescando, eu desenhando.   Um grupo em particular, chamava a atenção, um homem muito velho olhando para frente, primeiro da lateral direita, depois da esquerda, depois nas duas diagonais, a última de frente.

Como conseguiste que ele virasse a cara para ti?

Ele não virou, eu fiquei imaginando  a partir dos dois perfis, pois se observa, um lado é um pouco diferente do outro, pois tem uma cicatriz pequena no perfil esquerdo, juntei os dois na minha cabeça o fiz olhando como estava para o horizonte.  Ele não olhava a água, para ver se um peixe mordia, olhava o horizonte, como que esperando algo ou alguém.

Se quiseres eu compro o jogo de desenho, poderia montar uma sequência, expor na galeria?

Ele olhou o Jean, como que consultando.  Já o conhecia bem, sua cara imutável, dizia que não.

Eu não terminei o trabalho, pode ser mais a frente, no momento sou um mero aprendiz, tenho muita coisa por aprender.  Muito obrigado pelo oferecimento.

O sem vergonha além de tudo é educado.  Mas reconheço que fazes bem, há que ir com pés de chumbo na primeira fase, pois o sucesso pode subir a cabeça,  teremos o famoso sucesso dos cinco minutos, pois a pessoa não é capaz de enfrentar ou descobrir novos caminhos.  Tirou um cartão, podes te informar a meu respeito com o Jean, sempre expões na minha galeria.

Alias Jean, no momento não tenho nenhuma escultura tua a venda, sempre aparece alguém querendo algo.   Não terás nada antigo para me oferecer, ou pelo menos me emprestar para  a galeria.

Já te chamo, marcamos de um dia ires ao studio.

Zazou se aproximou do sujeito, espero que não comentes nada disso com o François.

Descuida, ele está desaparecido, tem a polícia atrás dele, negócios mal explicado, fizeste bem em desaparecer.  Ele procurou entre todos amigos, quem tinha roubado seu escravo.  Não se preocupe, seja sempre sincero contigo mesmo, mas o que disse do teu trabalho continua valendo.

Era bom saber que tinha talento, isso lhe dava um respiro, mas quanto a historia do François, ele não queria se meter.

Na volta a casa, pararam para comer alguma coisa, viu que Jean estava quieto.  Em que estas pensando?

Primeiro gostei de como abordaste o contato, realmente o primeiro cuidado em se expor teus trabalhos, tens talento, isso te disse desde o primeiro dia.  Eu por mais que avise os alunos, não escutam, o que ele disse esta certo, fazem a primeira exposição, se sentem o máximo, depois entram numa roda vida de merdas, acabam nem sabendo como seguir.   Isso me preocupa, embora te veja com a cabeça bem posta em cima dos ombros.

Realmente, pense, eu passei fome, miséria, dormi na rua, fui abusado, me prostitui, se tenho que ir em frente, tenho que ir devagar, pois é um mundo totalmente diferente para mim, eu conheci esse homem como amigo do François, numa reunião em que todos me pareciam pessoas superficiais.     No fundo, escutei todos falarem, o assunto era sempre o mesmo, sexo, como fosse a coisa mais importante do mundo.             Quase dormi de aborrecido que estava, o François se vangloriando do escravo loiro que trazia.  Este mesmo me disse, aos olhos de todos era o que aparentavam.  Disse que este desapareceu, assuntos de dinheiro.

Agora, só para que eu tenha uma ideia, quanto achas que esse homem me ofereceria pelos desenhos?

Bom como es iniciante, ele iria te oferecer um valor irrisório, pois eres  um desconhecido, mas depois venderia por um valor alto.  Pelo tamanho, creio que poderia chegar a valer todos juntos quase 800 mil euros.

Caralho, o que iria fazer com esse dinheiro?

Grande incógnita.

Quando iam chegando no studio, um senhor os esperava perto da porta.  Jean o apresentou como filho de um vizinho.

O homem foi direto ao assunto, Jean, conheces a casa,  meu pai já faleceu a meses, não posso ficar vivendo nessa casa imensa. O que me preocupa, é a capela.   A imobiliária, diz que tenho que tentar vender a parte, que talvez o bispado, queira, mas me vão oferecer uma quantia irrisória.   Lembra-se naquela época queria para fazer teu studio de esculturas, porque quando são grandes dizes que pesam para ser um terceiro andar.         Venha dar olhada mais uma vez.

Entraram na casa, imagina, eu atualmente tudo que uso, é uma sala, uma que transformei em quarto aqui embaixo, a cozinha, é um banheiro.   Isso qualquer apartamento pode me oferecer. Mas são mais dois andares cheios de quartos, biblioteca, um pátio central,  Nem sei quanto vale na realidade, vamos, atravessaram a lateral da casa, aonde se via muita poeira, quando chamo alguém para limpar, me pedem um absurdo.    Abriu duas portas imensas, estavam numa capela que era altíssima, nem sei precisar quantos anos tem tudo isso.   Não existia nem uma peça no altar,  ele foi dizendo que seu pai tinha vendido tudo, para pagar as dividas de imposto, tudo que havia por ali, além de poeira, era um busto romano que estava no meio do grande salão, meu pai diz que achou isso, quando fizeram uma reforma no porão, a mil anos atrás.

Apesar de faltar metade da cabeça, era impressionante, faltavam as pernas a partir dos joelhos, bem como uma parte da cabeça, só ia até o queijo.

Quanto queres pelo lugar,  Jean sabia que havia uma escritura em separado do imóvel.

O homem disse que precisava pagar os impostos de três anos atrasados, disse um absurdo, mas se pago dois anos, poderei vender a casa.   

Vou ver como posso fazer. Te dou uma resposta no final do dia, tenho que pensar.

Zazou estava louco pela pedaço de estatua, passava a mão sem se importar se estava suja ou não.  Quanto custa essa pedaço de estatua?

Sei lá, me pagas quanto puderes, tenho que juntar dinheiro.  Se não consigo vender essa casa, terei que ir viver num asilo, pois o governo tomara como sua.

Quando subiram os dois em silencio.  Tudo que perguntou ao Jean, se ele tinha dinheiro para comprar?  O local, é impressionante.

Mas custara pagar o imposto do mesmo.  Imagina isso em plena Paris, quem não ia querer, mas eu me apaixonei pelo local a muitos anos, inclusive tem uma saída pela outra rua.  Na época o pai dele, viu que eu ficava louco pelo local, pediu um absurdo.  Achava que eu era famoso, que tinha dinheiro.   Tenho tudo aplicado, além da herança do Henry, o meu protetor.  Mas sabe aquela história, ficas pensando, não tenho filhos, para que quero isso.   Na verdade, seria bom para poder fazer esculturas grandes, pois quando tenho que fazer, tenho que alugar algum armazém por meses, custam uma fortuna.    Mas a verdade é que poderia trabalhar realmente aqui sem me mover muito.  Estou pensando no trabalho que quero fazer,  nem tenho como subir uma pedra para o andar de cima. Venho quebrando a cabeça  de como fazer.

O que achas?

Zazou riu, tudo que posso pensar nesse momento, seria aceitar a oferta que me faça o homem da galeria, comprar esse pedaço de escultura, fazer um trabalho com ele, minha cabeça não para de dar voltas, mas é o mesmo problema, como subir isso.

Deixamos as coisas em casa, vamos ao banco, falar com o diretor. Ver o que ele sugere.

Saíram quase imediatamente.  Ele nunca tinha tido dinheiro em banco, ficou imaginando se o dinheiro que tinha roubado, não estaria melhor ali aplicado.

O senhor que atendia a conta do Jean, escutou o que ele tinha falado, é um valor alto, mas pense, tens o teu só em aplicação, creio que vale a pena, mas se assegure realmente que existe essa escritura, separada do local, pois senão a Cúria, pode reclamar.   Leve o documento a um advogado, ou melhor podes trazer aqui, nosso advogado pode dar uma olhada.

Dali, mesmo ele telefonou ao homem, que meia hora depois estava ali com a escritura.  Os últimos recibos de imposto do local, já pagos, faltavam pagar desse local, dois anos. Mostrou os recibos, não tenho dinheiro, além de que, pago um imposto mais caro, porque não tem uso nenhum.

O advogado lia atentamente tudo, consultou alguém por telefone.  Ao final disse que tudo estava bem, que ninguém, nem a Cúria podia reclamar, visto nunca ter funcionado com igreja.         Sim como capela particular.

Te dou o dinheiro, com uma condição, vou fechar a ligação da casa para a capela, mandamos fazer um acabamento, para borrar a existência da porta.  Outra, a escultura fica para o meu amigo.

Concordo, contudo, tenho dois dias para pagar os impostos.  O gerente do banco muito experto, lhe perguntou porque não trazia toda a documentação, eles olhariam, fariam um pedido de parcelamento dessa dívida, ele aplicaria o dinheiro, iria pagando aos poucos até liquidar tudo, nesse meio tempo pode ser que vendas, mesmo assim, temos clientes em carteira que vivem investindo em casas assim.

Ali mesmo prepararam o documento,  passaram duas semanas limpando o local, depois Jean, começou a descer todos os equipamentos que estavam no terceiro andar.   O local podia ser separado outra vez do seu apartamento, colocado a venda.  Se apanhariam com a capela que era muito maior.

Acabou tendo que contratar uma empresa que pudesse fazer isso, pois eram coisas pesadas, ele resolveu doar uma parte do material que estava lá, do Henry, para a escola de Belas Artes, vender, ter dinheiro em caixa.

Pelo menos disse, essas obras dele, que não viram a luz, poderão ajudar a Escola sempre precisa de dinheiro.

Ele agora tinha um canto seu para trabalhar,  depois de umas quantas aulas de trabalhar com o barro, colocou na parede, os desenhos do homem velho do cais, começou a trabalhar, como tinha visto o Jean fazer.     O faria até a cintura, para saber como trabalhar.  Se isolou em seu mundo, contava depois para o Jean, que chegava a sentir o sol, do dia que desenhava.

Jean de longe, só olhava, não queria interferir.  Quando o viu cometer o primeiro erro, ia avançar, mas viu que ele rapidamente tinha percebido, feito a correção.   A se meus alunos fossem como ele, teria, imensos artistas novos na praça.   Sabia que a maioria, principalmente os que vinham de fora, retornariam as suas cidades, acabariam dando aulas, nas escolas locais.

Enfrentar as dificuldades, nunca perguntava ao Zazou, como ele tinha dinheiro.  Se surpreendeu no dia que ele pagou um almoço com um cartão do banco.  

Não lhe tinha dito, que voltou ao banco, depositou todo dinheiro que tinha na mochila, imediatamente colocou mais da metade para render, bem como gastava pouco dinheiro.  Comprou sim dois macacões de trabalho, um para o Studio, outro para a escola.

As vezes nem queria subir para comer.  Agora tinham o hábito de comer num pequeno restaurante familiar ali perto, dizia que assim não perderia tempo em fazer comida.  Seu negócio era trabalhar.   Quando a cabeça ficou pronta, foi que Jean chegou perto para ver, era impressionante o que ele tinha feito, era como ver uma pessoa real, inclusive as roupas do meio busto estava ali, embora fossem na mesma cor.

Venha, vamos colocar para cozer,  colocou o forno para esquentar, como ele tinha peças também para cozer, faria tudo de uma vez só, também estavam testando, pois tinha vindo um homem especialmente para fazer a instalação.

Aproveitou lhe entregou dois livros sobre cerâmica policromada, ele leu tudo, ou melhor devorou, ao lado como o Jean tinha lhe falado, escrevia o que não sabia para procurar depois, este lhe mostrou uma estante, que tinha pertencido ao Henry, com pigmentos, colas, etc.  Lhe ensinou a preparar tudo.    Imediatamente preparou uma outra cabeça, agora mais rápido que a anterior, pois já tinha aprendido dos erros no anterior.  Era mais atrevida, como se a cabeça se projetasse, querendo alcançar o horizonte,  uma estava mais ao estilo clássico, a outra mais moderna.   Experimentou o processo.  Agora aguardaria o dia que pudesse colocar no forno.

Durante uns dias, disse que iria ao Museu D’Orsay, olhar o quadro que Jean estava trabalhando, tinha uma ideia de que queria fazer.

A primeira vez Jean, foi com ele, o apresentou para ter entrada livre, como aluno da Escola de Belas Artes.  Mostrou o personagem que lhe interessava, primeiro estudaria o personagem, depois criaria em cima, a partir de agora não olharia o trabalho do Jean.

Passou pelo menos três dias ali desenhando,  quando finalmente formou uma ideia da figura, foi até ao Magasin Sennelier, ficou olhando os papeis, descobriu o papel sépia, pediu para ver as gramaturas, encomendou um rolo de dois metros de largo,  pagou com seu cartão de credito, comprou pigmento de  sanguina, lápis dos tonos de sépia, sanguina, brancos.  Caixas de cada um.

Jean lhe chamou a atenção que poderia usar o material dele. 

Já vai sendo hora que eu me responsabilize pelas coisas que quero fazer, daqui a pouco vão dizer que sou tua puta.   Pediu perdão não queria ofender.  Já vivo grátis na tua casa, uso teu studio, não quero mal entendidos.  Ao mesmo tempo o abraçou, quero que me cuides sim, mas que me respeites também, se não me dou respeito como vai ser.

Começou depois de colocar o papel na parede, desenhando ou melhor ampliando o que tinha imaginado, o primeiro o peregrino em seu camelo, esse era só para ter uma ideia, pois imaginou o mesmo sem, como um personagem na lateral, mas com uma vestimenta um pouco mais rica, caminhando com um bastão,  depois de joelhos, em cima de um tapete, jogado sobre a areia, rezando a Alá, primeiro sentado sobre os pés dobrado, depois debruçado sobre o tapete, novamente em pé.

Se informou com o Jean, aonde poderia encontrar árabes que pudessem posar para ele, foram ao restaurante da Mesquita.  Ficou horas olhando as pessoas, esperou que Jean falasse um senhor, este os levou a parte,   Ele lhe explicou a ideia que tinha.  Não se tratava de uma critica a religião, mas mostrar o fervor de um crente indo a Meca.

O levou a um salão, chamou vários homens que estavam ali rezando, até que ele encontrou a figura como queria.   Perguntou ao homem, depois de explicar, se poderia posar para ele no Studio.   Lhe pagariam.

O homem olhou desconfiado, mas como o outro conhecia o Jean, concordou.   Iria depois do rezo com eles.

Estaremos comendo no restaurante, acabe o rezo, coma conosco.

O Imã veio conversar com eles, Jean comentou do quadro, disse que na verdade queria fazer uma escultura grande, de peregrinos indo a Meca rezar.  Soltou para o Imã, não esqueça que meu pai era Argelino, mulçumano.   Assim descobria mais alguma coisa do passado do Jean.

Então, basta você me dizer, que consigo pessoas para posarem para ti.  Jean perguntou se conhecia o quadro, lhe disse que não, os convidou para irem ao museu para ver.  Acharam maravilhoso.

O homem que Zazou tinha escolhido, era dócil, fácil de fazer o que ele queria.  Lhe disse, quando cansares, me diga.    Trabalhou bastante rápido.  Lhe pediu se podia voltar dentro de dois dias, para que pudesse incluir detalhes.  Pagou o homem que foi embora todo feliz.

Quando voltou, se viu retratado na parede, ficou emocionado, não sabia que era para isso.

Os detalhes que ele queria, era, pediu que ele pusesse as mãos viradas para dentro sobre sua cara, queria esses detalhes, o que se via num preciso momento.  Desenhou de frente, direita, esquerda.   O mesmo fez com ele ajoelhado no chão, se deitou ao lado para desenhar como ficava o rosto.  Mais uma vez desenhou o rosto.  A cara do homem era magra, quase faminta, barba irregular, olhos fundos.   Quando acabou lhe perguntou em que trabalhava.  Este respondeu que tinha perdido toda a família na travessia para a Europa, que não tinha emprego certo, na Líbia, era professor de literatura.   Ficaram amigos, logo Jean, mostrou o desenho que tinha feito do Zazou, representando a chegada, um pouco de esperança, um troço de perdida, de dor.

Mahamud, chorava ao olhar o desenho.  Senti tudo isso de um vez só.  As vezes vinha consertar alguma coisa, começaram a falar de literatura árabe, lhes indicava escritores, interessantes.

Desta vez, Zazou queria fazer diferente, sonhou uma noite com Mahamud, lhe dizendo que devia fazer o trabalho da frente para trás.  Na hora ele não entendeu, mas depois de passar um dia inteiro quase imóvel, pensando, repensando nisso.  Entendeu. Mas antes foi procurar por ele, o Imã disse que tinha sido deportado, por não ter emprego.  A sensação de que ele tinha morrido era dolorosa.

Começou com uma figura em pé de ombros caídos,  pois assim devia ser la desesperança de chegar ao final de uma viagem, fazer uma pergunta para si mesmo, será que valeu a pena, depois a figura com o rosto quase colado ao tapete, depois ajoelhada com as mãos cobrindo o rosto, de novo em pé no começo da viagem com o cajado.

As figuras altas tinham um metro de altura.  Foi trabalhando, cada dia, não ia a aula, mal se levantava, tomava um banho, comia alguma coisa, descia para trabalhar,  Jean estava preocupado,  um dia como quem não quer nada, levou o reitor para o ver trabalhando, levou um bom tempo para perceber a presença deles.   Estava fazendo os detalhes do rosto do homem ajoelhado, tinham levado um tempo para perceber que estava deitado em cima da mesa fazendo isso. Tinha feito a magreza do Mahamud, como se o tecido que cobria seu corpo, mostrasse todos seus ossos, quando estava de bruços em cima do tapete, se via cada troço de sua coluna vertebral. 

Jean ia chama-lo, mas o reitor, tudo que fez foi um sinal de silencio, puxou uma cadeira, ficou ali mais de uma hora.           Quando os percebeu, o reitor disse que estava preocupado que ele não fosse a aula, por isso tinha vindo até ali.

Estava mais magro, a barba crescida, os cabelos cheios de troços de argila.

Venham  vamos comer todos, pago eu.

Ele olhou o prato de comida, começou a chorar.  Jean o conhecia bastante para saber que estava pensando em Mahamud, quando lhes contou como tinham passado fome.

O contato o tornou mais sereno.   Jean contou a história do Mahamud, não conseguiam descobrir aonde tinha ido parar, nem se estava vivo ou morto.

Quando o trabalho ficou pronto, ele relaxou, foi olhar o que tinha feito o Jean, era impressionante.  Eram diferente em dois detalhes, o do Jean, tinha mais personagens, se referia ao quadro, mas transferido para os dias de hoje quando chegavam os emigrantes.      O Dele era como uma volta.  Chamaram o Marc da galeria, embora faltasse coser as duas esculturas, a sua ele estava preparando alguns já estava policromados.    Nesse meio tempo tinha feito também um busto do Mahamud, era impressionante dos detalhes de sua cara magra, olhos fundos, olheiras a pele como se estivesse manchada de negro, por trabalho, ou mesmo pela travessia.

Ofereceu para eles fazerem a exposição em conjunto, cada um usa uma sala.  Os desenhos podem estar na parede.  O que acham?   Queria também que Zazou assinasse um contrato de exclusividade com ele.  Sem mesmo perguntar ao Jean como funcionava, só de pensar nisso, lhe lembrou seu passado.      Eu só sou exclusivo de uma pessoa, apontou ao Jean, de mais ninguém, me faria sentir prisioneiro.

Jean depois lhe disse que sorte por não cometer o erro de todos os novatos em exposição, isso tentavam todos os donos de galeria, queriam exclusividade,  Ficas preso, para sempre.  Eu caí nessa, pois assinei sem o Henry ver. Depois demorei muito tempo para me ver livre.

Depois das peças cozidas, tinha alguns retoques para fazer. Ele deixaria na galeria, para vender, mas o busto do Mahamud doaria a mesquita.

Quando tudo ficou pronto, vieram especialistas para transportar as duas obras para a galeria.  Ele tinha desenhado uma mesa bruta de madeira, aonde ficaria a sua, a do Jean, ficaria em cima de um estrado.

Quando viu seus desenhos cobrindo toda a parede da sala que lhe tocava, ficou emocionado, para quem saiu da merda não está mal.

Quando vieram entrevistar os dois, lhe perguntaram como um brasileiro, vinha para Paris, virava um sucesso na arte.  Vou responder, como me senti a primeira vez que vi Paris do alto, o avião que eu vinha, fez uma curva sobre a cidade, olhei pela janela, pensei, nessa cidade vou me realizar, ser alguém.     Sempre me senti uma pessoa, embora tenha lutado de maneiras as vezes não muito perfeitas para seguir a diante, não me envergonho do meu passado, mas descobrir que posso criar, que tenho senso de observação, para mim é importante.

Um dos jornalista perguntou como tinha vindo para a França, é uma longa história que nada tem a ver com meu trabalho.  Um dia quiça te conte.

Jean comentou depois, que ele tinha se saído bem com os jornalistas, eu ao contrário fico nervoso, quando perguntaram da ideia dos dois, não sabia o que dizer.  Um jornalista que estava perto, comentou, não respondeste à pergunta.  ^

Zazou, podes responder por ele?

Sim, no dia que nos conhecemos, eu entrava pela primeira vez na minha vida num museu, era um ignorante em termos de arte.   Me deslumbrei com uma série de esculturas, hoje sei os  nomes dos escultores, pois os estudei.   Estava parado deslumbrado com a Porta do Inferno de Auguste Rodin, quando ele me fez uma pergunta, começamos a conversar, ele foi me mostrar o quadro que tinha vindo ver, uma das figuras ficou na minha cabeça.   Não comecei por essa figura.   Quando precisei de um rosto para colocar na figura que queria usar, conheci um emigrante Sírio, que depois sem sabermos foi expulso do pais.  Mahamud, um homem que perdeu tudo, a mulher, o filho, a vida talvez, mas não perdeu a fé em seu Deus.  Esse trabalho dedico a ele.

Esses teus desenhos são fantásticos, alguns colegas teus da Escola de Belas Artes, dizem que quando estas trabalhando, parece que estas possuído, como é essa história?

Na verdade, isso de possuído é um pouco exagerado, eu diria mais concentrado, estou totalmente atento ao que estou fazendo, não escuto nada em volta, gosto do silencio, quero saber quem é a pessoa que estou criando com meus desenhos.  Numa sala menor estava os desenhos do velho pescador.  O jornalista, foi com ele até lá o fotografou junto com os desenhos.

No dia seguinte, saia uma reportagem sobre os dois, numa outra página, uma reportagem com ele.   O cabeçalho do texto era, “le nouvelle enfant terrible” de Paris.

Ele leu, realmente o reporte, tinha escrito exatamente o que ele tinha falado.  No final dizia que um dia desses daria uma entrevista falando dele.

Mas ele já estava fazendo outra coisa, na sua cabeça, tinha ficado uma imagem, não queria perder a oportunidade de explorar.   Queria fazer uma serie de homens posando como o pensador de Rodin.    Alguns ele imaginou.  Mas posaram para ele o reitor da Escola, Jean, um rabino, um Imã da mesquita de Paris, fez também o velho pescador.   A ideia era por exemplo o Jean, como era pintor, escultor, na mão livre tinha essas ferramentas, vestia a roupa que usava para pintar, o rabino, o seu chapéu tradicional, roupa preta, bem como um livro na mão,  não conseguiu que nenhum padre da igreja católica concordasse em posar, não teve dúvida foi a uma igreja, viu um tumulo, de um bispo, captou a imagem de sua vestimenta,  criou uma ideia, pediu a um companheiro de classe para posar para ele.   Depois um grupo de jovens sentados em círculo, cada um de um jeito, branco, negro, asiático.

Primeiro fez grandes desenhos, depois começou com um, logo foi criando todos os outros, os detalhes das roupas, tudo, foi observado a exaustão.  Estava no meio do trabalho, quando soube que sua escultura tinha sido vendida, bem como os desenhos.  Tudo tinha sido o mesmo comprador.  Também quiseram comprar o pescador, mas resolveu que como era seu primeiro trabalho real,  o guardaria.

Quando Marc viu os desenhos, e as duas primeiras esculturas do pensador, ficou louco.  Disse que faria qualquer coisa para ter tudo na galeria. 

Calma ainda estou no começo, quando termine, te aviso.

Este inventava qualquer desculpa para aparecer todas as semanas no studio.  Ele disse que estava bem, faria a apresentação na galeria, mas que desta vez só lhe daria 5% de comissão, viu que ele murchava, pois tinha ganho muito dinheiro com a outra, bem como os quadros.

Jean no momento, estava tentando desenvolver um trabalho com seus alunos, estava irritado pois não funcionava direito.

Quando comentou com ele, que não entendia por que não se motivavam.   A resposta foi uma que não esperava.

Esperas que eles amém como eu, os antigos pintores, escultores, coisas assim.   Olhe a idade deles, são muito jovens.  Tudo o que sonham é fazer um grafite bem feito.   Porque não andamos pelas ruas, buscamos os grafites, ou instalações, arrumas um lugar, consegues uma licença da prefeitura, os motiva para que cada um crie um trabalho.

Passaram 15 dias rastreando, os grafites pelo centro de Paris, pediram para quem soubesse de um interessante avisasse.   Depois fizeram uma programação, final de semana diferente, o próprio papel, era um grafite, com um mapa, a turma ficou imensa.  Depois de verem basicamente todos, os levou a uma praça, que estava rodeada das traseiras de uns edifícios de armazém, disse que 10 alunos, os que apresentassem o melhor projeto, iriam ter um troço inteiramente para ele. Todos estavam atentos, os desenhos foram super interessantes.

O ano que vem, que já estejam mais maduros, visite com eles o museu Picasso, ou monte um vídeo sobre o trabalho dele, desde seu começo, passando pelas várias fases.   O mais interessante, use a própria ideia dele, de ter como base um trabalho de outro artista, no caso Velásquez, lenda do Minotauro, ou as máscaras africanas, de onde ele tirou a ideia de Mademoiselle de Avignon, a base do cubismo.

A cara do Jean, era divertida, aonde aprendeste tudo isso?  

Da minha vontade de aprender, fui lendo todos esses livros que tens em casa, as vezes quando desapareço, vou a um museu olhar os trabalhos.  Me escapo de ti, pois acabamos parados na frente de um quadro, analisando o mesmo até a morte. Gosto disso, mas gosto também de descobrir coisas.

Queria fazer mais duas esculturas para o pensador, da conversa que tinha tido com o Jean, resolveu fazer as que faltavam, uma era Picasso, com sua camiseta de listras, mas sem calças, a outra era uma figura do quadro Mademoiselle, lhe deu vida.

Marc, estava alucinado.  Falou com o jornalista, que agora estava justamente numa revista que tinha tudo para dar certo, ao mesmo tempo que escrevia em duas revistas de arte.

Fez a entrevista, dele, sentado nu, com as esculturas, ele era mais uma delas.

Uma das primeiras perguntas, foi se realmente ele tinha sido um prostituto antes de ser artista.

Riu, sabia que um dia alguém ia me fazer essa pergunta.  Para entenderes isto, te conto uma parte de minha vida, que poucas pessoas conhecem.  Não tenho vergonha nenhuma do meu passado.  Contou tudo.  A cara do outro era impressionante.

Vou reduzir tudo isso, te mando a entrevista antes de publicar, para que concordes  com a publicação.  

Ele quando viu, não aprovou.  Marcou um café com o repórter, você romanceou a verdade, virei uma fantasia tua na entrevista, queres me transformar numa coisa que não sou. Te processo que publicas isso, ou contas a verdade, ou dou uma entrevista para um jornal, falando que mentiste ao público.

Ele publicou a verdade.  Alguns críticos disseram que o trabalho estava agora mais relaxado, ele respondeu, que não, que prestasse atenção, era uma homenagem dele, ao primeiro artista que tinha admirado.  Auguste  Rodin.  Quem seria hoje em dia seu modelo para essa grande obra.

Na verdade, todas foram vendidas, só a do círculo que foi vendida todas juntas.

Jean, conversou duas vezes com ele, sobre seu problema com a entrevista.

Não quero Jean, que as pessoas pense outra coisa de mim, que não seja a verdade.   O mesmo como agora posso dizer que te amo, porque entendi finalmente o que é amor.  Depois de fazer sexo com tanta gente, encontrei em ti, a pessoa que quero estar sempre junto, pois me deste um mundo inteiro, seguro, honesto. 

Foram passar todo o verão em Cassis, estava quieto, não sabia o que iria surgir na sua cabeça.  Um dia teve um pesadelo, estava ali na Candelária, cercado dos garotos que como ele estavam perdidos.  Despertou o Jean, disse, amanhã vamos para o Rio de Janeiro.

Jean, só tinha 15 dias de férias, mas foi mesmo assim. Mal chegou foi procurar pelo Jeronimo, mas recebeu uma triste notícia, tinha morrido, num confronto com um traficante de drogas, que queria usar seus garotos para distribuir.  O único a quem ele poderia pedir ajuda, seria ao policial, que lhe tinha ajudado no passado.   Este sorriu quando o viu.  Caramba, estás estupendo, falou baixinho, espero que esse caralho também.  

Me desculpe te procurar, mas estou fora disso já a muito tempo, se quiser podemos tomar um café, para conversar.  Mostrou seu trabalho para o outro, como vê, sem querer você me ajudou sair da prostituição, lá encontrei meu caminho.   Preciso da tua ajuda, queria desenhar os meninos de rua, mas com a cara que tenho agora, sempre me tomaram por turista, desde que cheguei não paro de ser assediado por todo tipo de gente.   Meu acompanhante, não fala português, esse então não tem respiro.   Queria pedir ajuda, preciso de uma pessoa que o leve para conhecer a cidade, eu ao contrário preciso de uma pessoa que me acompanhe de noite pelos lugares que quero reproduzir.

Como assim?

Tirou um bloco da mochila, um lápis, começou a desenha-lo, o fez nos mínimos detalhas muito rápido, agora com a prática, podia fazer isso em segundos.

Caramba foi tudo o que o outro disse.  Eu mesmo  te acompanho pelas noites, me diga que hotel estás, que vou te recolher.  Quanto ao teu amigo, lhe deu um cartão, meu irmão tem uma empresa que faz passeios turísticos pelo Rio de Janeiro.  Ele poderá levar vocês.

Jean estava deslumbrado com a beleza da cidade, não era capaz de como quase todos turistas, ver a miséria que rodeava essa coisa tão bonita, um cartão postal do Brasil.

Lhe disse que iria acontecer, de noite sairei com um policial, explicou que tinha sido ele que tinha conseguido seus documentos, contou ainda que para conseguir isso, tinha feito sexo com ele.  Mal me viu se insinuou, embora eu tenha cortado.  Queres ver a miséria?

Eu trouxe material para trabalhar,  já no mesmo dia de noite preparou tudo para ir juntos.  Quando chegou o policial, lhe disse ao ouvido, ele sabe tudo sobre mim, inclusive que fiz sexo contigo para conseguir os documentos, por isso eu te pago, mas não te insinues, pois amo esse homem, devo muito a ele.

Ramos, como se chamava o policial, soltou, estou contente em saber que uma pessoa que ajudei pode seguir em frente, a maioria volta com AIDS, ou se gabando de ter conquistado todos os pirus europeus, mas não tem nada na cabeça, não podem ir em frente.

Te ajudarei, não sou tão filho da puta como podem pensar os demais.  Você guardou nosso segredo isso eu sei, porque depois perguntei para o Jeronimo.   Uma pena o que aconteceu com ele, porque protegia a sua maneira seus meninos.  Hoje todos acabam no vicio.

Lhe explicou o que queria, contou mais ou menos sua vida.   Ele os levou para um lugar aonde estavam os meninos se banhando numa fonte, roupas sujas, eles mesmos entravam na agua, para tentar tirar a sujeira que tinham.   Diga a eles que lhes darei comida, um pouco de dinheiro, tinha conseguido no hotel, trocar dinheiro miúdo.  Sabia que se desse muito, seria um inferno.

Jean, preparou a câmera para fazer fotos com má iluminação, assim seria uma garantia.  Os meninos ficaram felizes.  Ele começou a desenhar cada um,  como estavam, os detalhes estariam em sua mente, bem como nas fotografias.  Ficaram até de madrugada ali, Ramos só se afastou, para ir até a Praça XV, no Angu do Gomes, trazendo quentinhas para os garotos. Comeram como loucos.  Tinha um garoto que ele se viu refletido, lhe perguntou a quantos dias estava nas ruas.  Era muito pequeno junto aos outros.  

Olhou com uns olhos tristes, minha mãe morreu de parto do ultimo a nascer, meu pai foi distribuindo os maiores, aonde pudessem trabalhar, a mim, não sei porque, disse que eu não era seu filho, parou o carro me botou para fora.

Como é teu nome, meu filho?

Asdrúbal, mas só sei isso. 

Ramos ficou olhando para ele, como se estivesse entendendo o que se passava.   

Ramos, vais pensar que sou louco, mas estávamos de férias, sonhei com esse garoto, por isso vim até aqui.  Será que consegues fazer o que fizeste por mim.   Posso te pagar.

Não me pagues somente para te acompanhar. Levamos o garoto, essa noite o levo para dormir na minha casa, minha mulher adora crianças.  Amanhã cedo, trocas de hotel, eu te levo o garoto já de banho tomado, com certeza minha mulher tem roupa de criança que sirva nele.

Vi o teu olhar ao garoto, sei que não tem sacanagem no meio.  Estas te vendo nele, verdade, não se preocupe. 

Perguntou ao Asdrúbal, se queria ir viver com eles, eu não moro aqui, moro muito longe daqui, mas se quiseres, eu posso te criar.

A cara do garoto, foi ótima, eu já vi o senhor, no dia que dormi na Kombi, sonhei contigo, vinhas me buscar.  Ela diz que devo ir com o senhor. 

Quem? Asdrúbal, quem?

Ele sinalizou uma imagem que tinha no meio da fonte, era de uma mulher que parecia uma santa.  O garoto não saiu mais do lado dele, nem do Jean.

Quando foram embora, entrou no carro com eles.   Agora vais com o Ramos para a casa dele, ele vai providenciar papeis para ti, assim poderás ir comigo.

O Ramos crescia no seu conceito de pessoa.  Achou estranho ele ser casado, com família, policial, gostar de homens, mas não fez nenhum comentário.

Na noite seguinte, os levou aonde ficavam os travestis,  que se prostituiam na noite, todos quiseram posar para ele, alguns logo queriam fazer sexo com o Jean, mas este ria, dizendo que seu homem era o Zazou.

Ele conseguia ver mais além do brilho das roupas, conseguia ver uma roupa remendada, mas que de longe parecia bonita.  Ficou a noite inteira ali, via chegarem clientes, os rapazes desaparecerem, outros ocuparem seus lugares, policiais que paravam, para falar com o Ramos.

Já tinham mudado de hotel, registraram o Asdrúbal, que agora era Gamez como ele, constava como pai, viúvo.   Uma autorização para a viagem do garoto.

Como ele fazia isso, não queria saber.

Foram dias produtivos, compraram roupa para o Asdrúbal, uma maleta pequena, que ele levava com orgulho.  Ramos fez questão de os levar ao aeroporto, pois se acontecia algum problema ao embarcar, ele conhecia todo mundo.

Ao se despedir, só lamento uma coisa disse no seu ouvido, não ter pertencido mais uma vez a ti, nunca te esqueci.  Lhe deu o endereço, um número de celular, qualquer coisa, me avisa ok. Quem sabe um dia não vou visitar vocês.

Passaram todo o controle tranquilamente, agora seria como chegar a Paris, o garoto foi sentado no meio dos dois.  Olhava ao Jean, com amor, lhe perguntou como ia chamar os dois?

De pai é claro Asdrúbal, a partir de agora os dois somos teus pais.  Achavam que o garoto não tinha mais do que 5 anos, mas ele disse que não que já tinha 7 anos, agora eu iria para a escola.

O controle foi normal, ele usou seu passaporte brasileiro, que tinha renovado, quando lhe perguntaram disse, que ia a Disney com o garoto.

Agora viria o mais complicado, que ele aprendesse francês, para poder ir a escola, conseguir documentos para ele, tudo isso.   Pediu ajuda ao Marc, esse depois de ver o garoto, tomou a peito isso.

Asdrúbal estava deslumbrado com o studio, em casa por ter um quarto só para ele, mas procuravam ser normais com ele, pois queria que fosse um garoto normal.

Um dia sentado ao lado do Zazou na mesa, perguntou por que seu pai o tinha abandonado assim, sua resposta foi, para que eu te encontrasse, me tornei teu pai.   O que preferes.

A ti, é claro, lá em casa nunca tinha muita comida, depois ele chegava bêbado, metia a mão em quem não lhe obedecia.  

O levaram aos médicos, para uma bateria de exames.      Tinha desnutrição, por isso aparentava menos idade.          Ficou imaginando esse menino, nas mão de algum louco, que abusasse dele. Graças a Deus sonhei com ele.

Jean, adorava o garoto, estavam sempre ensinando palavras novas em francês, tinha conseguido uma professora,  como o semestre já tinha começado, ela achou melhor ele entrar numa escola que ele pudesse fazer adaptação, conviver com outros garotos, assim aprenderia mais facilmente.

Desta vez, ele talvez não fizesse nenhuma escultura, tinha resolvido, pintar sobre papel, todos de tamanho natural.  Com as fotografias prontas, ele começou a juntar as mesmas aos seus desenhos.  A primeira, que fez, foi da praça, os garotos lavando roupas, uma lavando o outro.

Resolveu que iria ser de um realismo total, com a fotografia para acompanhar, foi criando todo o ambiente.  Asdrúbal quando viu, disse, a lagoa da senhora. Sinalizou a imagem que estava ali.

Ia dizendo os nome dos garotos que ele sabia.   Chorou um pouco de saudade, abraçado ao Jean.    Este se apanhava, para leva-lo a escola de manhã, ir busca-lo depois.

Com a alimentação, remédios, ele começou a crescer, mas nunca seria muito alto, dizia a médica.

Descobriu indicado por um vendedor de Sennelier, um lugar aonde poderia encomendar um papel muito grosso sépia, pediu em placas de um tamanho especial, Jean tinha que ajuda-lo a colocar na parede.

Já tinha uns quinze quadros prontos, quando Marc apareceu um dia, tinha conseguido com um amigo, cliente na certa, resolver os papeis do Asdrúbal.  Ele tem um trabalho seu. Gosta muito do que fazer.  Vai ficar louco quando veja estes.   Desta vez não vais fazer nenhuma escultura?

Não, somente pinturas, posso te dizer que é uma fase de transição, ainda não sei como será a próxima, nem tenho ideia.   Mas ao ver uma foto, resolveu fazer uma escultura.  Era de uma mulher, andrajosa, cercada de crianças, pedindo dinheiro numa esquina.  Ramos inclusive tinha dito, que acreditava que essas crianças nem era filhos dela, mas não tinha como provar.  O que ele fez, foi usar sua memória, chorou muito, teve inclusive pesadelos, por buscar essas lembranças, a transformou em sua mãe, ele com seus irmãos na rua pedindo dinheiro.

Jean, por mais que ele explicasse, demorou para entender, porque lhe tocava tanto.  Mas afinal compreendeu, não tinha essa experiencia, mas entendeu.

Depois que colocou tudo para fora, elaborou a escultura de tal maneira para que ficasse no meio de uma possível exposição.

Marc, já tinha começado a preparar um catálogo, impressionante, era feito em papel sépia, pois assim ficava conforme a exposição, lutou até o último momento, para que ficasse pronto, pelo menos 10 dias antes, mandou para todos os jornalistas.  Ele só não tinha feito nenhum do Asdrúbal, pois não o queria ligar aos mesmos.

Recebeu um dia antes os jornalistas na galeria, sentado ao pé da única escultura.  Quando lhe perguntaram se tinha um nome para ela, ele explicou, que se tinha baseado numa foto que o Jean tinha feito, mas que num esforço de memoria tinha transformado na sua família.  Eu tinha muitos irmãos, ela foi procurando pessoas que pudesse adotar meus irmãos, a mim me deixou num orfanato.   Lhe perguntaram se estava a venda, ele ainda não sabia, embora tivesse feito outra menor em terracota, esmaltada.

Os preços dos quadros eram altíssimos.  No dia a inauguração, Marc lhe apresentou um homem, que escapava das referências.  Se via que era educado, culto, tinha um título, pois Marc o apresentou assim, George, soltou um nome imenso. 

Ele riu, prefiro ficar só com o George, pois amanhã não me lembrarei do resto.  Obrigado por ter me ajudado. 

Ele perguntou pelo garoto.  Respondeu que estava bem, que já tinha um raciocínio em francês,  se adaptou bem a escola.

Tens que me contar essa história?

Não seja por isso, venha um dia ao Studio, terei o maior prazer em te receber lá.

Marc depois disse que ele tinha comprado o quadro da praça, ficou apaixonado pelo mesmo. Não tens ideia quem ele é, não é verdade?

Não, sei que parece importante, mas não sei quem é.

Ele é ministro do governo atual. Vem de uma larga estirpe francesa, é o último da família que esta vivo.  Sem filhos, nunca se casou, dizem que é gay, mas nunca o vi com ninguém.

Logo depois da exposição, um dia subia tarde para a casa, o Asdrúbal, vinha descendo as escadas correndo, disse que pai Jean, estava dormido, não havia maneira de desperta-lo. Subiu como um louco, mas quando chegou a ambulância, já era tarde.  Tinha tido um infarto.

Telefonou ao Marc, não sabia com quem contar, avisou ao reitor da escola de Belas Artes, o que tinha acontecido, todos os dois correram para lá para ajudar organizar.   Marc, era o único que sabia que ele tinha um advogado, pois era este que revisava os contratos.

Quem estava inconsolável era o  Asdrúbal, nessa noite, veio chorando para seu quarto, disse que tinha feito xixi na cama, que tinha pesadelos.  Não quero te perder também.  O fez trocar de pijama, o deitou ao seu lado, ficou mais tranquilo, dormiu segurando sua mão.

Sonhou com Jean, este agradecia os últimos anos felizes de sua vida, nada podia ser mais maravilhoso.

Depois do enterro, inclusive apareceu o George, ele pensou, o Marc o avisou.

Não tive nem tempo de avisar ninguém.  Acho que ele leu nos jornais, pois não tive tempo de nada.

Depois do corpo cremado, como era seu desejo, guardou as cinzas para levar para Cassis, foram assistir a leitura do testamento, ele, Marc, o reitor da Escola de Belas artes.  Deixava os dois edifícios para o Zazou, mas todas suas obras que estava no Studio, Marc devia avaliar, colocar a venda, que o dinheiro iria para a Escola.  Tinha uma carta para ele. O advogado o alertou que os bens incluíam a casa de Cassis.   Mas talvez ele tivesse que se desprender de alguma coisa para poder pagar os impostos que isso iria gerar.

Ele ficou cismando um dia no studio, passava o dia inteiro ali.   O pé direito era altíssimo, podia montar um pequeno apartamento, na parte que ficava em cima da porta da rua.  Vender o outro apartamento, bem como a parte do sótão que estava em desuso desde que tinham o studio novo.  Conseguiu que o mesmo arquiteto, fizesse o que ele queria.  Colocou a venda o apartamento, o preço era altíssimo.  Pagou os impostos,  com dinheiro do Banco, além de que fez uma coisa, colocou uma grande soma, em nome do Asdrúbal, para que futuramente ele tivesse um coisa em que se apoiar.

Um dia recebeu uma chamada, era o George, perguntava se podia ir visita-lo, queria lhe fazer uma encomenda.

O recebeu, num horário que Asdrúbal estava em aula, descobriu logo que a encomenda, não passava de uma maneira de ir até lá.  Foi direto ao assunto, estava interessado nele como pessoa.

Ele como sempre honesto, disse que não podia, no momento ainda não conseguia depois de todos esses anos vivendo com Jean, pensar em mais ninguém.  Sinto muito, mas me é impossível.

Sentiu que o outro não gostava muito da resposta, em seu foro íntimo podia imagina, a pergunta, sabe quem eu sou?

Se quiseres me esperar, sei que es um homem importante, deves ter teu tempo super ocupado, gosto de ti, mas pensa bem, depois de tanto tempo convivendo com a pessoa que foi a mais importante de tua vida, fica difícil começar alguma coisa nova.

Agora mesmo, mal consigo pintar, creio que não vim abaixo pelo meu filho, senão estaria destroçado.

George aceitou de muito mal humor.

Marc, ficou sabendo da história, lhe disse, é um homem com uma personalidade complicada, eu se fosse tu, saia um tempo de Paris.

Ele achou boa a ideia, arrumou sua bagagem, foi com o filho para Cassis, ali passou quase um ano, sem dar as caras por Paris, as despesas iam para sua conta no Banco, tinha conseguido uma escola para o menino ali na vila, sentiu que este ficava mais relaxado lá.

Pensou muito no assunto, esse tempo todo fora, aproveitou para andar pelo sul da França, aprendeu a dirigir, comprou um carro, saia com o filho sempre que possível.  Foi se encantando de novo pelas cores, foi aproveitando todo material que tinha ali em Cassis.  Voltou a se sentar no cais, agora ia muito cedo para observar os barcos voltando da pesca.  Finalmente tomou coragem de se sentar com o velho, perguntar por que olhava sempre o horizonte.   Meu filho, eu olho para frente, antigamente saia de barco para pescar, a idade não me permite, mas o horizonte é minha casa, um dia quando morrer, gostaria de ser cremado como os vikings, que o corpo era colocado no barco da pessoa, solto no mar, com fogo que logo  queimaria tudo, terei que me contentar em ser cremado, que minhas cinzas seja jogadas no mar.

Cada vez que conversava com o velho, falavam de um assunto, ele ia desenhando o mesmo, observando seus gestos,  contou que tinha feito muitos quadros dele, o levou até a cabana que servia de studio, mostrou.                              O velho riu, pintas uma casca, terás que me conhecer profundamente para pintar meu interior.

Acho que isso é a frustração dos artistas, captar a alma das pessoas, a minha por exemplo está cheia de cicatrizes, de histórias que não terminaram bem, frustrações.

Asdrúbal chamava o velho de avô, este o adorava,  agora os três estavam sempre ali conversando, contando histórias.  Ele foi anotando as histórias, criando quadros em cima delas, como sempre usando seu material favorito, o papel.

O que não sabia, era que seu filho, escrevia as historias do velho, as vezes vinha lhe perguntar o que queria dizer certas palavras que usava o velho.  Ele explicava, até que descobriu que ele escrevia.   Incentivou que o filho escrevesse sempre, viu que ele se frustrava, por não conseguir desenhar, um dia lhe explicou, que escrever, descrever as coisas, era como desenhar com palavras.

Marc, veio passar um final de semana com eles, adorou os trabalhos, as pinturas. Tudo girava em torno ao velho.  Acabou o conhecendo pessoalmente quando um dia veio trazer peixes para seu neto.

Um dos quadros, era a história do velho quando jovem, contava que tinha caído dentro de um dos primeiros locais de criação de peixes, os mesmos nadavam em volta dele, num primeiro momento ficou  nervoso, depois dizia que era como se estivesse no céu.

Então o quadro, era como um cardume de peixes, com um homem jovem, ali no meio deles todos, nu.  O tons do peixes eram entre um cinza, vários tons de azuis, o corpo do jovem eram tons terra.

O velho adorou, assim me sentia eu com os peixes.

As histórias eram muitas, Asdrúbal estava sempre pedindo livretos novos para escrever o que ele falava.  Tinha uma memória excepcional para guardar detalhes das mesmas.

Marc acabou contando que tinha encontrado o George acompanhado de um jovem, muito parecido contigo.   Este pelo visto vivia as suas custas. 

Em breve estourou  um escândalo, George teve que sair do governo, pois estava sendo chantageado pelo rapaz, por pessoas que estavam por detrás disso tudo.

Quando soube lhe deu pena, imaginava a solidão que esse homem com tanto poder, devia sentir, ao chegar em casa no final de uma dia complicado, no fundo estar sozinho.  Nunca mais ouviu falar dele.

Um dia ao se aproximarem do velho, viram que tinha um homem com ele. O apresentou, tinha a pele curtida do mar, os olhos pequenos, de quem olha muito o mar.   Esse é meu filho, que passou agora uma larga temporada, trabalhando numa plataforma de petróleo no mar.  Agora vem para ficar comigo.

Jacques, contou que tinha se cansado dessa vida, apesar de estar sempre em cima do mar, sentia falta de muitas coisas.  Os dois tinham a mesma idade, começaram a conversar, sempre aparecia com um peixe, nos dias que a praia estava vazia, iam nadar.  De um companheirismo nasceu um amor.  Viveram juntos anos.  Foram orgulhosos a formatura do Asdrúbal na universidade de Paris.  Logo ao lançamento do seu primeiro livro, contos de um velho pescador, ilustrado pelo Zazou.   Logo se casou, tinha dois filhos, com uma linda mulher argelina, sentia lastima por Jean que tinha perdido isso, ter netos.

Jacques foi seu grande companheiro, agora já não sentia a compulsão de que tenho que acabar esse quadro hoje.  Pintava lentamente, de maneira mais complexa.

Quando Jacques morreu, foi novamente uma pancada na sua vida.  Asdrúbal veio passar uns dias com ele, com toda a família.   Dizia que tinha sempre amado chama-lo de meu filho, mas agora adorava os netos que tinha.

Agora olhando-se no espelho, depois de voltar dos exames todos que tinha feito, tinha pensado ir ao Brasil, mais talvez por inspirar-se.   Mas tudo isso mudava seus planos.  O médico lhe avisou que tinha pouco tempo de vida.   Preparou tudo, embora ao longo dos anos, tinha ido passando tudo para o Asdrúbal, a casa do Jean que nunca foi vendida, ficou para ele, afinal aquela casa grande era para uma família grande.  Vendeu sim a capela, pois raramente ia a Paris. Sua vida estava toda ali em Cassis.

Seguia se olhando no espelho, medindo o longo caminho que tinha percorrido, se lembrou outra vez com um sorriso, no dia que tinha chegado a França, o círculo que tinha feito o avião sobre a cidade, os seus olhos brilhava ao lembrar do que tinha pensado.  Realmente tinha realizado toda sua vida ali.  Breve teria que ir a Paris, para inaugurar uma grande exposição, uma retrospectiva de toda sua obra.   Marc, já mais velho que ele, orientava um sobrinho seu de como conseguir os quadros, esculturas, na mão de qual cliente estava.

O que mais gostava agora de fazer, era ir se sentar aonde sentava-se o velho, ficar olhando o horizonte.   Agora entendia o velho, se podia realmente ver muito mais além do que um simples olhar permitia.

Foi assim que o encontraram, com a cabeça apoiada nas mãos, como o “Pensador” de August Rodin, olhando o horizonte.  Seu último pensamento foi, isso faltou a Rodin, que seu pensador olhasse o horizonte, que pudesse ver o que existe realmente além dele.

D.A.X.

                                                     

Meu nome é Dax, ou David Antonio Xavier Cruz, isso tudo uma vingança de minha mãe contra meu pai, que aliás eu mal conheço.  Sei sim que é um grande filho da puta.  Não estavam casados, iriam se casar depois que eu nascesse, mas ao me ver no berçário, disse a enfermeira que esse menino não poderia ser seu filho.   Apesar do teste de ADN, não me aceitou, infelizmente conheceu também os pais da minha mãe, ele como bom Irlandês, não aceitava muito a mistura de raça.   Resulta ser que minha mãe, depois se tornou fanática por isso, pela árvore genética. 

Foi em busca dos seus ancestrais, descobriu que era uma mistura de inglês, Cheroke, mestiços de negros, japoneses, por aí vai, resultado disso fui eu.  Cabelos loiros, quase brancos, liso, olhos rasgados como os japoneses, azuis quase brancos, uma boca rasgada, mas muito sexi, do alto dos meus 1,90 metros de altura. 

Meus poucos amantes diziam que meus olhos azuis eram frios, quando de tratava de bota-los para correr.  As pessoas complicadas sentiam uma especial atração por mim.   Talvez dado que trabalhava com moda, era informático de uma revista, preparava tudo, desde fotografias, diagramação,  ajudava nas fotos de moda.   Ao mesmo tempo, a parte negra, era um hacker da rede profunda.

Minha maneira de vestir, nada discreta, ou enfeitiçava as pessoas, ou as assustava.  A anos atrás tinha conseguido lançar na moda um companheiro de juventude, era o que fazia toda minha roupa, mas claro desenhada por mim, bem como os padrões.   Alguns diziam que quando eu chegava, com meu corpo grande, músculos os justos, magro, com um cabelo imenso, roupas nada convencionais, todos os olhares se dirigiam a mim.   Os mais íntimos, como esse meu amigo, diziam que ele usava tudo isso, para que as pessoas não olhassem sua cara.  

Não entendo, tens uma cara estupenda, devias estar nas capas das revistas.

Parado ali na frente de uma vitrine de sapatos, com um olho observava a si mesmo, segundo alguns pontos de vista, ele era um escândalo, com o outro olho observava o policial que o seguia, quando passou ao lado do dele, viu que o olhava com a boca aberta, aproveitou a distração para apertar um botão do seu celular especial, tinha construído ele mesmo, imediatamente tinha acesso ao celular do mesmo.

O policial que o seguia, era interessante, devia ser descendente de mexicanos, pois era moreno, tinha os olhos verdes escuro, um corpo de cortar a respiração.   O imaginou nu por um segundo, mas cortou a imagem, para não se distrair do que estava fazendo.

Entrou na loja, o seu vendedor preferido, ele era assim, quando era bem atendido por uma pessoa, que essa não tentasse lhe empurrar nenhuma mercadoria, queria sempre ser atendido pela mesma pessoa.    Pediu para provar um tênis que era muito chamativo, ia combinar perfeitamente com uma roupa que tinha desenhado, pintado ele mesmo o tecido.

O vendedor riu, adoro tua discrição, olhando de cima a baixo a roupa que estava.  Um traje, casaco, calças de um tecido estampado, marrom com as estampas em amarelo, laranja, uns toques de azul especial como ele dizia.    Gostou, pintei eu mesmo o tecido?

É espetacular, espera que vou buscar para ti, na verdade, reservei teu número, mas é tão chamativo que ninguém se interessou por ele.

Quando colocou no pé, ficou perfeito, aproveitou para mostrar o outro pé, para o policial que estava olhando da vitrine.    Mostrou como perguntando, gosta disso?   O outro se desconcertou pois entendeu no momento que ele sabia que estava sendo seguido.

Ele aproveitou essa distração, para enfiar no tênis que estava usando, a bolsa que cocaína que tinha comprado, uma larga história, sempre sorrindo, voltou a colocar o seu tênis que tinha a cor de fundo da sua roupa.   Pagou, foi saindo, resolveu desconcertar totalmente o policial.

Saiu, andou mais um pouco, viu que o estava seguindo, se virou lhe disse na cara, “agora não posso, mas se queres nos vemos essa noite”.

O outro se desarmou totalmente, engoliu em seco, não sabia o que falar.

Ele para o confundir mais ainda, soltou “ te imagino nu, com a porra na cintura, o revolver, botas de montar, vai ser do caralho”

O outro se virou, saiu andando rápido em sentido contrário.

Ele rindo entrou rapidamente no edifício que trabalhava, o mesmo era muito conhecido, tinha sido um lugar de abate de cavalos.   Ele trabalhava no último andar, numa sala estupenda.  Foi direto ao banheiro da sala, tirou a bolsa de cocaína do tênis, tinha medo de que arrebentasse, chamou por celular o amigo para quem tinha ido comprar.       Na verdade, como sua mãe dizia ele tinha um fraco por ajudar aos mais débeis.   Seu amigo em questão era secretário do diretor de uma empresa que usava uma parte do andar de baixo.   Este subiu correndo, entrou na sua sala ofegante.  Seu chefe essa manhã tinha-lhe mandado comprar um pacote de cocaína, daria uma festa em sua casa no dia seguinte, queria estar preparado.   Claro se a polícia pegasse seu secretário ele tiraria o corpo fora.  Era capaz de dizer que não o conhecia.

Seu amigo vivia assustado, pois era um homem dado a ataques, jogar objetos em cima dos empregados.   Mas ele não podia perder seu emprego, sua mulher estava esperando um filho. Correu a pedir ajuda a DAX.         Esse escutou, tudo, lhe disse para ficar calmo, vamos fazer o seguinte.  Eu vou pela rua mais movimentada, tu vais pela rua detrás,  eu compro um pacote, evidentemente o lugar esta sendo observado pela polícia.   Eu distraio o mesmo, tenho certeza de que vai me seguir, enquanto isso, compras o que tens que comprar.

Dax, não sabes como passei mal, cheguei aqui, tive que ir vomitar.

Relaxa, agora vamos nos livrar desse teu chefe mal caráter, se ele for mandado embora, quem fica no seu lugar é uma pessoa que conheço, muito legal. Vais gostar de trabalhar com ele.

Vais fazer o seguinte, como quem não quer nada, deixa cair esse pacotinho no bolso do casaco dele.   Me diga o número da placa de seu  carro, além do modelo.

Gostava dessas coisas, sabia que horas o dito cujo saia do escritório, desceu quebrou uma das sinalizadoras da parte detrás do carro, retirou a placa, o carro estava encostado na parede, imaginava que ele colocaria a droga, embaixo do tapete na frente.

Quando chegou a noite, foi ao seu banheiro se vestiu todo de negro, escondeu seus cabelos, numa peruca curta negra, um casaco com capuz.  Ficou esperando escondido que o filho da puta descesse.

Quando ele desceu a garagem, fez o que ele tinha imaginado, escondeu o pacote de cocaína, embaixo do tapete da frente.   Manobrou para sair.  Ele tinha desenvolvido um sistema, que era fantástico, com a voz de seu pai, ligou a central da polícia, setor narcotráfico,  Deu as dicas, carro, a cor, sem placa traseira, sinalizadora quebrada, examinar o proprietário.

Sabia que esses demoravam um pouco, com mesma rapidez, ligou o celular do policial,  escreveu  um mensagem a respeito,   ele estava num carro justo a saída da garagem do edifício, seguiram o carro, de qualquer maneira infringia uma lei. Sem placa, luz traseira quebrada.  Quando pararam o carro, ele e seu companheiro, mandaram o dito cujo descer do carro, este se negou, com a famosa prepotência que era natural dele.  O famoso “sabe quem sou”?

No bolso do casaco encontraram a cocaína, este tinha já perdido a paciência, começou a gritar, querer agredir os policiais.  No que examinaram o carro encontraram o pacote de cocaína, um verdadeiro tijolo.   Ele gritava que não era dele.

Se liberou um braço das mãos do policial que o segurava, deu um murro no outro. Agora tinha fudido tudo.

Ele escondido na escuridão, ria.    Mais tarde escreveu no celular do Policial, que agora sabia que se chamava Robledo.   Mas escreveu como se fosse seu pai, o chefe da polícia da cidade.  Entrou no celular dele, observou o que estava fazendo com o sistema de vídeo, escreveu a mensagem, se mandou de fininho. 

Seu pai, não o tinha visto crescer, um dia se sentou num restaurante, de costa para ele, estava conversando com uma mulher jovem, mas que conversar, estava cortejando a mesma,  Rapidamente clonou o celular dele.    Nunca tinha escutado alguém falar tanta besteira, destas que falam os heterossexuais, achando que são o máximo.   Viu a mulher já não estava gostando, clonou o celular dela, escreveu, não perca tempo, além de idiota, o piru dele é pequeno, não sabe fuder bem, uma amiga que está aqui no restaurante.  Ele é muito chato na cama.  A mulher leu, riu, se levantou, agradeceu o jantar, mas ia embora, não ia perder tempo com um eunuco.

Ele ficou de boca aberta.   Por isso ele agora podia usar o celular do pai, para escrever para o policial.

Inclusive através do celular do pai, entrava em seu Laptop da delegacia, via tudo que queria ver, volta e meia, roubava alguma informação passando clandestinamente para a rede, através de um sem fim de esconderijo.   Por mais que procurasse, iriam acabar na China.

No dia seguinte seu amigo pelo menos respiraria tranquilo, não sabia dos planos da segunda parte, isso era um segredo só dele.

A confusão foi grande, pois mandei matéria para vários jornais.  A verdade sempre anda como equilibrista em cima de uma lamina muito fina.

No dia seguinte não se falava outra coisa, que não fosse isso no Mata-Cavalos.  Os funcionários davam graças a Deus de terem se livrado desse diretor.

Quando sai para buscar um café, escutei uma voz atrás de mim dizendo, hoje estas menos exagerados.  Começou a descrever minha roupa, calças jeans, tênis Adidas, nada de exageros, quando me virei, o Robledo viu a frente da camiseta.  Cancelado o comentário anterior.

Podemos tomar um café?

Sim, se meus exageros não te incomodam?

Pediram num Track que vendia por ali, se sentaram no Jardim em frente.

Se apresentaram um ao outro.  Dax.

Robledo, alguns me chamam de Zorro, porque acham que sou mexicano.  Nada mais longe da verdade, sou uma mistura de espanhol com marroquino.  Nasci na España, mas minha família se mudou para cá, quando era garoto.

Me informei um pouco a teu respeito, sei que eres editor de moda de uma revista moderna muito importante, que ajudas novos criadores.  Enfim, coisas que aparecem na internet.

Vê, eu não descobri nada a teu respeito Robledo.   Interessante tua mistura, eu também tenho uma mistura explosiva.   Quem é fanática por isso é minha mãe.

Eu ao contrário estava preocupado em me livrar dos de sempre na escola, que fazem bullying, sempre se achando raça pura.   Mas aprendi rápido dar porrada em que me enchia o saco.

Nunca escondi quem sou, como isso de gostar de coisas exageradas.

Como sabias que estava te seguindo?

Te vi ao passar, ficaste com os olhos arregalados, mas não pela minha roupa, sim pela minha cara, um sujeito que parece japonês, mas com os olhos azuis, cabelos loiros.  Tudo verdadeiro.

Sim não tinha te visto de perto?

Ficaste com a boca aberta, eu ao contrário, fiquei te imaginando nu.

Sempre falas tudo que pensa?

Sim, é mais fácil.  Depois também faço tudo que penso, mesmo que me arrependa depois.  Não suporto a hipocrisia.

Soube que eres um experto em Informática de Moda?

Sim dirigimos vários site de moda, além de dar apoio logístico a alguns outros.  Essas minhas saídas para o café, na verdade, são para relaxar.  A internet hoje em dia, é o veículo mais ágil do mercado, as revistas tiveram que correr atrás para poder acompanhar.  Ainda existe pessoas que compram as de papel, pois gostam de passar páginas, como eu digo.  Mas para trabalhar, não resta dúvida que a internet é o veículo do futuro.

A velha história que em moda nada se cria, sim se transforma, na internet, fica tudo registrado, mas o que se fazia antes na surdina, agora se faz a todo descaro.  Se copia, sem vergonha, o que hoje pensas que foi tu que inventaste, nada mais longe da verdade.

Aquela casa que aparece na reportagem é tua.

Dax riu muito a ponto de se engasgar.  Nada, como tudo é mentira, é a casa do dono da empresa, vivo num apartamento que comprei com um bom dinheiro que ganhei.  Mas simples, tem uma bela vista, minha cama fica virada para um panorama excelente, não tenho nenhum edifício na frente, posso andar nu, que ninguém me vê.

Tai, gostaria de conhecer?

Não, estas te oferecendo para fazer sexo comigo.

E se fosse?

Quiça talvez prefira ficar teu amigo, as pessoas, que não são muitas, nunca conseguiram lidar bem com o fato da maneira como me visto, ou então se sentem atraída por uma pessoa que no fundo não sou eu exatamente.   Eu criei um personagem, para ir pela vida, mas não passa de uma fachada.

Isso gosto de ti, a sinceridade, falas abertamente, coisa difícil hoje em dia. Só me decepcionaria em saber que eres viciado em cocaína?

Viciado em cocaína, riu, te enganas, não bebo, não fumo, detesto qualquer tipo de drogas, vi morrerem a maioria das pessoas com quem convivi, por causa disto tudo, passo.

Mas te vi comprado drogas.  Bem como alguma coisa que escondeste dentro do teu tênis.

Ah, já sei, me viste colocar um algodão branco no tênis. Resulta que tenho um problema nos pés, tenho o peito do pé muito alto, a parte da frente curta, espera, literalmente tirou o tênis que vestia, vê, não sei por que nasci com os dedos mais curtos, o algodão uso para equilibrar isso.

Tirou o algodão, vê, deve ter sido isso que viste.

Me fale de ti Robledo, que eres da polícia eu já sei, pois se estavas me seguindo pensando que consumo drogas, só pode ser.

Sim trabalho na polícia, justamente em narcóticos.

Gosta disso, ou foi por aonde conseguiste escapar?

Escapar?

Sim, sem querer por sermos diferentes, vivemos por causa dos nossos pais, como num gueto, queremos sempre nos evadir, ter uma vida diferente, verdade?

Sim, fiz direito, mas claro, aos grandes escritórios, não lhes interessava mais um que escapasse a média, para cumprir o cupão de ter que preencher as vagas com todas as raças, mas os postos principais sempre para os brancos.

Mas gostava mesmo de ser advogado, eu não gosto desse teu mundo.

Eu estudei informática, mas já direcionando para o meu mundo.   Moda, coisas criativas.

Mas se queres, uma coisa posso de ensinar, anote um site que tenho de desenhos muito particulares meus, fotografias, coisas que amo na arte.  Quase ninguém visita, mas normalmente coloco coisas novas todos os dias.

Robledo ficou olhando para ele, por isso me desconcertei contigo ontem, quando te viraste para mim, falaste daquela maneira, mas a tua cara era completamente seria, nem um sorriso. Realmente imaginavas isso?

Não era para te provocar, isso é uma coisa que faço, principalmente para assustar as pessoas que se aproximam de mim procurando sexo.  As olhos, digo uma coisa que não esperam, se desconcertam, vão embora.

Realmente funciona, levei um susto, pois estava te seguindo, porque tinha suspeitado de ti, mas ao me mostrar os tênis, como me perguntando se eu gostava, não esperava, pensei, ele já sabe que o estou seguindo.  Quando falaste o de me ver nu, fiquei imaginando que eu tinha dado essa imagem.

Não, eu já sabia que eras da polícia, sou muito bom observador, ninguém fica espreitando como tu, dia pós dia, ali naquela esquina.

Que queres acabar com o tráfico na região.   A maioria destes chefes, diretores, usam drogas, para serem eficientes, mas não é meu caso.   Eu não sou chefe de nada, nem dono tampouco, sou sim dono do meu trabalho.    O faço sozinho, tentei ter um ajudante, mas depois de despedir uns vinte, desisti, acompanhar minha cabeça é muito difícil.   Pois, imagina que neste momento, em que estamos conversando aqui, as noticias sobre tudo da moda, já passaram páginas, as  que usei antes de sair, já são velhas.

A cara do Robledo era interessante, o olhava seriamente com aqueles olhos verde, diferente das outras pessoas.  A vontade que teve de se aproximar, beijar sua boca, foi muito forte, abaixou a cabeça.

Que foi?

Melhor as vezes não perguntar as coisas Robledo, pois posso falar a verdade, não ias gostar de escutar.

Ah, Dax, para seu conhecimento, sou solteiro, maior de idade, vacinado.

Bom é que me deu uma vontade louca de te beijar, tive que me controlar.  Afinal não sei se estas de trabalho.

Estou no meio de uma enrascada.

Que foi que aconteceu?

Ontem recebi uma mensagem, do chefe superior, para prender um sujeito, ele me disse que não me deu ordem nenhuma, que nem sabia que eu existia, outro sujeito que se acha o maior.

Mas concordou com tudo, porque o sujeito que foi feito prisioneiro é peixe graúdo, denunciou muita gente de seu círculo.   Descobrimos no carro, um tijolo de cocaína, bem como comprimidos de última geração, que misturados com o álcool, provoca muita merda.  Diz ele que era para uma festa em sua casa.  Por isso o chefe fez valer tudo como se fosse verdade.

Isso, o que tem a ver comigo Robledo, sinto muito a enrascada, mas não entendo.

Te vi com um celular, que é diferente dos outros, muito bem poderias ter mandado tu essa mensagem, trabalhas no mesmo edifício.

Nem conheço direito o homem de quem falas, cruzei com ele, nestas festas idiotas que fazem para as pessoas se relacionarem, não me caiu bem.  Fez uma gozação a respeito de minha roupa, que eu respondi com uma coisa, que o deve ter feito me odiar.

Que lhe disseste? Agora tudo isso por curiosidade.

Ele disse que eu deveria ter vergonha de usar esse tipo de roupa.

Eu lhe respondi que vergonha teria, se tivesse um piru tão pequeno como o dele, que precisa de drogas, orgias para que ninguém repare que é um idiota.

Como sabes das festas?

Todo mundo no edifício sabe, ele convida as pessoas mais jovens, um amigo que foi me contou, que ele incentiva todo mundo a se drogar, se mistura com eles na hora do sexo, para não notarem que é mal dotado.

Quando descobriu que meu amigo via tudo, mas não participava, o colocou na rua.

Tudo isso, se sabes perguntar, principalmente na empresa que ele dirigia, todos sabem.  Talvez seja a empresa do edifício, que menos dure os empregados.

Tu a quanto tempo está na que trabalhas?

Desde o começo, tenho uma pequena quantidade de ações, pois no primeiro ano, ou melhor dizendo até que a empresa desse lucro, me pagavam assim.

Não preciso muito para viver, um lugar para dormir, um grande armário, para minhas loucuras, uma grande mesa de trabalho, basta.  Esqueci, um grande detalhe, muito importante, estantes para a quantidade absurda de livros que vou pedindo pelo mundo de assuntos que me interessam.

Cada vez estou mais curioso de te conhecer.   Queres jantar comigo esta noite?

Ficou olhando para o Robledo, pensando no perigo que isso podia ser, mas se sentia terrivelmente atraído.  Acreditava que tudo passaria como os outros.

Já era de noite quando saiu, antes fez uma coisa, talvez por desconfiança, guardou seu celular no cofre, ficando somente um que usava para contactar com as pessoas, de boa marca, nada a ver com o que tinha construído ele mesmo.

Quando saiu, Robledo, o estava esperando. 

Não achas melhor eu ir até em casa mudar de roupa?

Imagina, aonde vou te levar, faras um sucesso impressionante. Venha meu carro está por aqui. É verdade que não tens carro?

Sim, apesar de saber conduzir, nunca achei prático aqui na cidade.   Ou venho de ônibus, ou de metro, venho desfrutando o escândalo que provoco quando vou passando.

Já que falas assim como fizeste comigo.  Gostei muito do volume que faz tua bunda nas calças, cheguei a ficar de pau duro.

Dax, caiu na gargalhada.  Cobro muito caro, sou mais caro que uma boa puta.

Viu que saiam do centro urbano, não estás me sequestrando, verdade?

Por quê?

Estas saindo do centro da cidade, esse caminho faço para ir a casa de minha mãe, vivi muitos anos por esse lado.

Significa, que saberás escapar de mim, falou isso colocando sua mão que era grande, sobre seu joelho.   Dax, vou ser honesto contigo, só tive uma aventura na minha vida, quando servi o exército, ele era meu companheiro, morreu na guerra.   Quando voltei, tentaram me casar por todos os meios até que perdi a paciência, numa festa em que estava várias garotas, que queriam que eu conhecesse para me casar, soltei que era gay, que não pensava nisso.

Mas hoje vamos estar apenas com uns amigos, nada mais.

Chegaram a uma casa normal, desceram, ele chamou, abriu a porta um homem moreno, com uma barba imensa.  Ele apresentou meu tio Ahmed, depois foi apresentando outros homens que estavam ali, alguns eram árabes, outros espanhóis.   O tio explicou que uma vez por semana se reunião para conversar.

Sentou-se quando olhou para o lado, viu uma pilha de revista, eram aonde publicava seus artigos.

O senhor lê essa revista?

Sim, gosto de moda, trabalho na indústria, sempre tive o ofício da família, sou alfaiate, trabalhei muito tempo numa fábrica de roupas de homem, principalmente para fazer casacos.  Depois fecharam aqui em NYC, levaram tudo para a China, queriam que fosse para lá, mas nem pensar. Comecei a fazer o que gostava, faço as roupas dos meus amigos, tenho uma boa clientela.

Por exemplo essa tua roupa, está numa foto da revista, a copio, misturo com alguma ideia minha, assim os jovens daqui podem comprar.

Era verdade o casaco que estava, tinha sido presente do meu amigo, mas o desenho era meu.

Ele riu, olhou para o Robledo, que sorria.  Esse sem vergonha do seu sobrinho, me armou uma arapuca.  Estendeu a mão outra vez, sou D.A.X. veja na página 23 dessa revista. 

Falava do casaco, numa entrevista com seu amigo de juventude, ele dizia que o desenho do casaco era do D.A.X.

O homem se levantou, o abraçou, adoro teu trabalho, hoje em dia ninguém dá trabalho para uma pessoa como eu, emigrante, já na meia idade. 

Gostaria de ver o trabalho do senhor?

Me chame só de Ahmed, sou o irmão caçula do pai dele, não sou tão velho assim.

 O pessoal, se despediu, tinham que trabalhar no dia seguinte. 

Ele se levantou, Robledo disse que não iriam embora, vamos comer com meu tio.   Eu me levantei para pedir que me mostrasse seu trabalho.

Mas primeiro vamos comer, tenho preparada a comida que meu sobrinho adora, uma mistura de comida árabe com espanhola.

Se sentaram numa mesa na cozinha, ele suspirou, menos mal que foram embora, estão sempre com fome, devorariam isso em minutos.

Depois de comer, ajudaram a lavar tudo, me sigam, os levou ao fundo da casa, aonde havia como uma velha garagem que tomava todo o espaço do terreno.  Acendeu as luzes, uma mesa de corte, uma estante cheias de tecidos, três máquinas de costura, uma para cada tipo de coisa. A empresa quando fechou aqui, alegaram que não tinham dinheiro para me pagar, me pagaram com que o que eu quisesse do tailleur de alfaiate, trouxe tudo que cabia no caminhão de um amigo.   Se não fosse isso, não veria dinheiro nenhum.

Tinha um cabide coberto por um lençol velho.  Esse copiei de um trabalho teu, para um jovem daqui que começa a aparecer em filmes, pequenos papeis.

Colocou o casaco em cima da mesa, pediu ao Robledo que buscasse sua bolsa na sala.  Colocou um óculos para ver de perto, bem como uma lente, começou a examinar toda a costura, o corte, no final virou-se para Ahmed, perfeito.

Mas creio que para os jovens podias fazer assim, me dê papel,  pegou um lápis, começou a desenhar. Vê, isso combinado com um simples jeans negros, fica fantásticos.

A cara do Ahmed era ótima.  Virou-se para seu sobrinho, se tivesses me dito que o DAX vinha comer na minha casa, eu a teria arrumado decentemente, bem como teria feito uma comida melhor.

Esqueça Ahmed, gostei demais, no fundo, como disse ao Robledo, pois pensei que me sequestrava, eu fui criado por aqui.   Minha mãe, ainda vive aqui.  Não tenho vergonha das minhas raízes de maneira nenhuma.

Já era tarde, ele trocou número de celular com o Ahmed, tenho uma pulga atrás da orelha, prepara esses desenhos, mostrou dois tecidos, vê esse de risca de giz, o outro era um príncipe de galês, escuro, negro com um azul profundo.  Me telefona, marcamos, para ir aonde trabalho.  

Aonde vais dormir hoje, com tua mãe, ou te levo de volta para tua casa.

Porque não vamos a tua.

No fundo sua cabeça funcionava como uma máquina, não disse uma palavra.

A cara do Robledo era de curiosidade.   Estás quieto por quê

Primeiro porque adorei o trabalho do Ahmed, segundo, porque uma parte de mim, está com medo do que possa acontecer.   Não tenho estofo de sofredor, detestaria sofre por te perder ou coisa parecida.

Ele vivia num prédio de três andares, vivo no térreo, porque todos tem medo de assaltos, infelizmente, é mais barato, mas claro tem um inconveniente, tenho que ter grades nas janelas.

Mas ele não viu nada disso, foram entrando tirando a roupa um do outro, se beijando, sentia uma ânsia por ele, como nunca tinha sentido antes por ninguém.  Quando se deram conta, estavam na cama, um olhando para a cara do outros.   Retornaram agora mais suavemente a se beijar, me sinto contigo no meio de um vendaval de areia, só consigo ver você.

O penetrou suavemente, com ele sentado em cima dele, gosto de fazer sexo olhando para ti DAX.                 Não sabia precisar, mas num determinado momento alcançaram o clímax juntos.

Estavam cansados, dormiram abraçados um ao outro.   Quando despertou, primeiro se assustou, pois demorou a descobrir aonde estava, só quando viu o corpo moreno do Robledo, aí sorriu.

Nunca tinha estado com ninguém assim, agora não sabia o que fazer.  Robledo despertou, sorriu, merda esqueci de uma coisa.

O que?

Da porra, do revolver, das algemas para te prender na cama.  Ficaram os dois rindo, só posso dizer Dax, que foi ótimo.

Uma coisa não descobriste Robledo, meu nome verdadeiro.  David Antonio Xavier Cruz.

Caramba, tudo isso?

Cruz é o sobrenome da minha mãe, meu pai nunca me reconheceu como seu filho. Então ela para sacanear, resolveu que eu deveria ter um nome imenso. Eu abrevei para trabalhar, ficava mais fácil.

Eu sou só Robledo Camargo, um nome raro em espanhol, é da cidade da família do meu pai, Camargo, Cantabria, fica perto de Santander na España.   Estive lá uma vez, com meu pai, antes dele morrer, conhecendo sua família.  Já minha mãe é de Fez no Marrocos.  Ahmed, também é de lá, veio criança, mas seu pai, seu avô todos foram alfaiates.   Lá costuravam basicamente com agulha, linha. Nada de máquinas.

Trabalhas amanhã, podíamos passar o final de semana fora.

Ainda não sei, podemos falar mais tarde. Tenho que ir para casa, para tomar um banho, me vestir, ir trabalhar.

Te convido para esta noite ir dormir na minha casa.  Bem podias trazer roupa, ai se queremos sair, podemos.

Vou te levar.

Não é necessário, vou de taxi, assim descansas mais, mas não paravam de se beijar.

Chegou em casa, voou para o banheiro, pensou duas vezes em entrar embaixo do chuveiro, gostava do cheiro que tinha ficado no seu corpo.

Mas não tinha jeito, tomou banho o mais rápido que podia, fez o de sempre, se vestiu sem pensar, depois não sabia, se tinha sido por causa do Ahmed, uma calça negra, tênis negro, uma camisa branca imensa como ele gostava, por cima um casaco que tinha muitos anos, fora o primeiro que desenhara.

Saiu correndo, encontrou um taxi, quase na esquina.   Quando entrou no escritório, todos olhavam para ele, estava diferente, nada extravagante, mas muito elegante.

Abanou a mão para todo mundo, se dava bem com os de todas as áreas.  Jacob, um velho amigo, era o fotografo de quase todas as reportagens, entrou na sua sala, devias fazer uma foto assim, estas super elegante.    Rindo disse, isso pode ser o amor.

Me deixa trabalhar.  Ia sair para almoçar, quando tocou seu celular, era o Ahmed, já tenho as peças posso ir te mostrar.

Não me diga que trabalhaste a noite inteira?

Sim, sentia como que tu tinhas carregado minhas baterias. 

Aonde estás?

Aqui embaixo do edifício, mas não me deixam subir.   Passe seu celular ao porteiro, ele se identificou, como te atreves a barrar este senhor, é um criador de modas. O acompanhe, carregando o que traz.

O homem entrou primeiro, desculpe, mas não me deixou pegar em nada, como se eu fosse roubar.  

Pode ir.

Quando entrou o Ahmed, ficou de boca aberta para o panorama que se via.

Fecha a boca Ahmed, com o tempo deixamos de olhar para fora, o trabalho não permite.

Tens fome?

Caramba, me dou conta que não como desde ontem a noite.

Colocou os cabides que estavam cobertos, numa arara de roupas, venha comigo, fechou a porta a chave.  Podemos comer aqui embaixo mesmo.

Vamos no meu preferido, é muito simples.    Mal saíram do prédio, entraram num lugar de comida para levar, que tinha duas mesas, uma estava ocupada, se sentaram na outra, Cris, gritou, tenho fome.    Uma mulher negra, colocou a cara para fora da cozinha, já vou até aí.

Quando veio, apresentou Ahmed, um alfaiate de estirpe, coisas que não existem mais hoje em dia.

Nos coloque alguma coisa de comer, desde que não seja carne de porco, porque sabes que detesto.

Ahmed comentou, pareces mulçumano.

É verdade, mas tenho uma digestão horrível, com esse tipo de carne.

Me conta, como pudeste trabalhar a noite inteira. Não tinha tanta pressa assim?

Sou assim Dax, quando tenho uma coisa na cabeça tenho que fazer.  Alias foi uma surpresa, tu apareceres com Robledo, ele é sempre muito fechado, sua família nunca o aceitou direito, nem a mim, viramos pairas das nossas famílias, só quando tem problemas é que procuram.

Ele te olhava de uma maneira como nunca vi.            Tu também, só te peço uma coisa, não o faça sofrer, pois quando ele se assumiu gay, com seu companheiro do exército, quando vieram a primeira vez de licença, estava eufórico.   Quando ele morreu, foi duro demais, seu mundo veio abaixo.   Ele diz que o que gosta de ti, é que falas tudo que pensa.

Comeram, conversando, Ahmed dizendo que ganhava justo para sobreviver, que seus sonhos de jovem, embora não fosse velho, tinham ido para as cucuias, pois nunca encontrou ninguém para tocar nenhum negócio.

Voltaram para o escritório, quando tirou as cobertas dos cabides, as peças estavam exatamente como ele imaginava.   Foi até a porta, gritou pelo Jacob.

Que passa, disse este, aparecendo na porta.   Olhou Ahmed de cima a baixo, não posso acreditar que depois de todos esses anos te reencontre.

Vocês já se conhecem?

Ah, uns 15 anos atrás, mas perdemos contato.

Olhe Jacob, ontem conheci o Ahmed, vi seus trabalhos, desenhei essas duas peças, ele levou a noite inteira executando, queria fotografar, para colocar no meu site, no site da revista. Podes fazer isso agora.

Para o Ahmed faço o impossível, o abraçou, quanto tempo. Ficaram rindo, um olhando para o outro.

Creio que estás perfeito para colocar  esse casaco por cima da tua roupa, só esse com azuis que seria interessante uma gola alta azul profundo.

Mexendo nos cabides, tinha uma ali que tinha usado em uma foto a tempos.

Venham para o Studio.  Não era muito grande, mas perfeito.  Dax o usava muito para as fotos de emergências.

Colocou o de risca de giz, com uma gola alta negra, soltou os cabelos loiros, mas colocou um óculos que estava por ali, de pasta negra.

Se colocou na posição que valorizava o casaco, que ia até quase a altura dos joelhos, um corte assimétrico, era totalmente diferente dos casacos que as pessoas usavam.  Faça também uma foto aproximada do desenho da gola.  O lado direito era diferente do esquerdo.   Mas quando colocou a gola alta azul, com o casaco príncipe de galês, Jacob soltou, caralho, fica sensacional, melhorou a iluminação,  o colocou de tal maneira, que a parte traseira do casaco, que era mais comprida, aparecesse bem, vamos fazer assim,  uma de frente, uma em diagonal para a direita, outra para a esquerda.     Já monto as fotos, envio para teu computador.

Quando na outra sala viram a montagem, Ahmed, caramba, parece feito numa casa de alta costura francesa.   Dax lhe deu uma palmada no ombro.  Ficou sensacional.  Agora toca vender isso.

Como vender?

Ora Ahmed, meu trabalho é lançar as pessoas no mercado.  Algumas vezes me associo, outras somente dou um empurrão. 

Dax, eu sei seguir um desenho, mas criar como fazes tu, não é o meu.   Então nos associamos, ou te procuramos um sócio.

Prefiro fazer alguma coisa contigo. Temos que inventar uma marca.  Começou a desenhar, o que achas. AHDA,  que fica parecendo anda, mova-se, pois, essa roupa tem movimento.

Acho bem.  Mande para o meu celular, assim mando uma cópia ao Robledo.

Abriu um armário,  ali tinha rolos, mais rolos de tecidos, escolhas as que queira, algumas comprei em alguma loja que ia fechar, outras, na última viagem que fiz a moda Paris, também em lojas que iam fechar.  Abriu uma gaveta fechada a chave, toma esses desenhos, vê com que tecidos gostaria de fazer.

Ao já estar na internet, puxou uma cadeira para o Ahmed sentar-se ao seu lado, veja, os comentários.   Mas ficaram surpresos, pois a maioria, perguntava o preço, aonde podia comprar.   Dax imediatamente colocou um texto, falando de uma nova marca que surgia no mercado, que a cabeça que confeccionava era um artista, em que a alfaiataria tinha passado de muitas gerações.

Jacob estava eufórico. Reencontrar alguém, de um momento a outro fazendo sucesso.  Vieste como para cá?

Vim de ônibus é claro.

Não acredito o mesmo de sempre.

Bom Ahmed, veja os tecidos, escolha o que queira, o mesmo com os desenhos, mas uma coisa, devagar com o andor, o santo é de barro.  Temos que pensar como vamos fazer isso ok.

Jacob, se ofereceu, venha eu te levo, porque com esses rolos de tecidos, será impossível ir para casa.

Dax pensou, vou descobrir o que rolou entre esses dois.   Mesmo o pessoal do escritório, queria ver os dois casacos.    Ele olhou os preços que tinham os casacos de dois costureiros franceses, preços é claro de internet.   Viu que Ahmed, tinha colocado o tamanho da mesma. Colocou na internet, subiu o preço, colocando que eram peças únicas, mas que só poderiam ser entregues dentro de uma semana.    Meia hora depois estavam vendidas.  Telefonou para o Ahmed, que não atendia o celular.

Quem lhe chamou foi Robledo, sua voz estava estranha, perguntou o que acontecia?

Depois te comento, achei fantásticas as fotos, já estão na internet?

Sim, o mais incrível, já vendi as duas, mas estou chamando o Ahmed, não atende.

Jacob foi leva-lo em casa, com mais desenhos, rolos de tecidos.

Dizes Jacob, um fotografo?

Sim, por quê?

Foi o grande amor da vida dele.

Ah, creio que do outro também, pois Jacob ficou imensamente feliz de encontra-lo.

Estão ocupados, matando a saudade.   Perdão, a que preço vendeste os casacos?

Lhe disse, escutou um silencio. Depois uma pessoa rindo.  Ele vai ficar louco, cobra nem um terço disso para os que faz copiando teus desenhos.

Vens para conhecer meu apartamento?

Não sei se estou boa companhia hoje.

Bom, vens, podemos conversar a respeito.

Está bem, passo para te buscar na mesma hora de ontem.

Quando olhou de novo, duas cadeias de lojas se interessavam pelos casacos.

Quando conseguiu finalmente falar com Ahmed, ele disse, estou nas nuvens, reencontrei o amor de minha vida, esta aqui comigo, está olhando no Ipad o que você disse, quanta gente interessada.  Ahmed, vendi os casacos, para entregar daqui uma semana.  Disse o preço.

Estas de gozação comigo, nem fazendo uns vinte, consigo vender por esse preço. 

Vou pensar numa solução, pois duas cadeias de lojas estão interessadas.  Amanhã falamos, ok, desfrute do Jacob, nada de trabalhar hoje.  Escutou de fundo a voz do Jacob, ele já tem os tecidos esticados, ia começar a fazer os moldes.

Não faça nada, temos que conversar, pensar.  Aproveitemos o fim de semana.

Quando saiu, a cara do Robledo, estava muito séria.

No carro perguntou o que tinha acontecido.

O filho da puta do chefe, levou toda a glória, sequer mencionou que fui eu que fiz a prisão do sujeito.  Tudo bem ele me chamou, mas quem executou fui eu.   Inventou uma historia sem pé nem cabeça, que não encaixa.  Quando fui falar com ele, me perguntou quem eu era, porra trabalhando a anos ali, ele nem sabe meu nome.

Dax, pensou, bem típico do meu pai.  Mas ele não ia deixar barato.  Isso não ia.

Mostrou o apartamento ao Robledo, este ficou encantado com a vista.  Não era grande, tinha um salão regular, uma pequena cozinha americana, banheiro social, depois ele tinha juntado os dois quartos, quando entrava, se passava por um vestidor, até chegar ao quarto, o banheiro era bom.            Na janela, uma poltrona, com uma mesa pequena cheia de papeis com desenhos em cima.       Aqui me sento, olhando a paisagem, até que de repente começo a desenhar. As vezes durmo sentado aqui, me arrasto depois para a cama.

Bom por que essa cozinha não tem movimento, não é?

Sim, não sei cozinhar, nunca gostei muito, tenho coisas para sanduiches na geladeira, ou peço uma pizza, mas normalmente como algo na rua antes de vir.

O dia hoje foi movimentado, o Ahmed quando viu o Jacob, ficou parado com os olhos esbugalhados, os dois tem a mesma idade, não é?

Creio que sim, se conheceram, na época, Jacob fazia um certo sucesso, ia para Paris fotografar a semana da moda, essas coisas, um belo dia desapareceu, na mesma época que a fábrica fechou, nunca mais se encontraram.   Não existiam os celulares.

Estava nervoso, pois sua cabeça estava fervendo.

O que pensas fazer contra seu chefe, odeio injustiças.

Nada, porque sei que é uma pessoa vingativa, não admite que ninguém o contradiga, me tratou como a merda do cavalo do bandido, nem para dizer, parabéns pelo seu trabalho, eu levo a glória, muito obrigado.

Ele a muitos anos, tinha feito uma montagem, tinha colocado a cara do pai, num corpo de um ator pornô que estava dando o rabo.  Ele tinha horror a qualquer coisa ligada a homossexualidade.   Ia pagar caro por isso.   O pior era o sentimento, como nunca tinha estado aí para ele, não sentia nada, apenas sabia que era um bom filho da puta.

Robledo, disse que queria dormir com ele outra vez, mas que precisava ir para sua casa processar tudo o que tinha acontecido.  Preciso tirar essa raiva do meu corpo.

Ficaram se beijando, deitados na cama. Mas viu que ele não se relaxava.  Permitiu que fosse para casa.  Me chama amanha quando despertes, para ver se fazemos alguma coisa juntos.

Mal ele, saiu, desceu para a garagem do edifício, ali, ele tinha dois armazéns que tinha juntado, ali seu lado escuro saia a toma.   Buscou o tal vídeo, tinha ficado tão perfeito, que tinha conseguido colocar o tom de voz de seu pai, nos gemidos do ator.

Com o seu celular especial, que quando ele chamava, era como se a chamada viesse de lugar nenhum, pois ia pulando de cidade em cidade da Europa.   Ele via seu pai, mas este não o via.

Atendeu o celular a contragosto.   Escutou sua própria voz falando com ele, olá filho da puta, mais uma vez, pisas até o fundo na merda.  Esqueces que não fizeste nada no que fiz eu ontem, te proclamas o herói, quando não passas de uma merda.

Só o escutava dizendo, quem está falando, como podes usar minha voz.

Amanhã se não te retratas,  elogias publicamente  as pessoas que fizeram a detenção, que aconteceu graças a mim, eis o que publicarei em internet.

Colocou o vídeo no ar.

Que merda é essa, parecia que ia ter um enfarte.   Não te atrevas, porque irei por ti, verás sou capaz de te matar.

Cuidado com o que dizes, pois estas sendo gravado ao mesmo tempo.

Agora estas nas tuas mãos, se os jornais de amanhã, não saem com a notícias, tu reconhecendo que não teve nada, que quem fez tudo foi a sua equipe.  Agradece pessoalmente a cada um, ou publicarei nos jornais da internet, bem como mando cópia para os canais de televisão.

Quero tua palavra, embora saiba que ela não vale nada.

Quero saber quem esta falando comigo, com a minha voz.  

Ele soltou uma gargalhada, respondeu, tua consciência.   Resposta Sim ou Não.

Está bem Sim, mas farei isso na segunda-feira.

Nada disso, agora, que  a notícia saia em todos os jornais. ADEUS

Seu pai não sabia que estava ao mesmo tempo sendo gravado.  que ele podia seguir vendo o que estava fazendo.

A quantidade de palavrões que soltou, foi imensa.  Tirou um lenço do bolso traseiro da calça, para enxugar o suor.  Depois deu um soco na mesa, vou fazer porra nenhuma, esse filho da puta não vai ter coragem de fazer isso.

Só mandou uma mensagem, publicou no Youtube, mandou para ele.

Tu escolheste, agora é tarde.

Mandou para todos os jornais, site de notícias.  Apesar de ser seu pai, não tinha sentimento nenhum por ele, só chegava realmente à realidade que era um bom filho da puta.

Fechou tudo, quando saiu, comprou uma pizza, quando chegou lá em cima, Robledo estava sentado diante da porta.  Chamei, mas não atendeste.

Me deu fome, desci pelo elevador de serviço, fui comprar uma pizza, um dia te levo lá, eles não tem entrega, mas é a melhor do mundo. 

Sai daqui, era como se faltasse uma parte de mim, primeiro fiquei assustado com isso.  Mas depois só podia pensar que estaria melhor aqui contigo, que sozinho, por isso voltei.

Fizeram sexo, lentamente, um olhando para o outro, se beijando, depois ficaram abraçados até dormirem.

Despertaram pela manhã, com o celular do Robledo tocando sem parar, eram seus colegas dizendo para olhar as notícias.  Quando olharam as manchetes, dizia, delegado de polícia é obrigado a demitir, por filtrações de um vídeo pornô Gay.   O ator que contracena com ele, já morreu a alguns anos com AIDS, portanto não pode dizer nada.   Delegado se diz vítima de um complô, mas não tem como explicar.

Seu companheiro de trabalho lhe chamou, disse que tinha que ir até a delegacia, pois haveria uma reunião.   Vira o Chefe de Polícia para escolher um substituto.

Robledo tomou um banho, se lembrou que tinha roupa no carro, foi buscar.  Que merda disse, justo o final de semana que pensava passar contigo.

Não faltaram oportunidades. Tenho que ir olhar um local, tenho uma ideia para o Ahmed, mas antes de falar com ele, tenho que ter certeza de que consigo o que quero.

Mas antes de sair, desceu, foi olhar as notícias todas por internet, um dos seus computadores, registrava tudo que ele queria.   As notícias, sobre seu pai, davam volta ao pais inteiro, todo mundo sabia o que tinha acontecido.  Alguns o criticava por ter levado a vida inteira, com a fachada de homófono, é resulta que é um viado dos mais idiotas.  Diziam que tinha sido analisada o vídeo, mas que era perfeito, alguns falavam em manipulação, mas não encontravam aonde se pegar.   Ele tinha escolhido esse vídeo, porque sabia que era caseiro, é que o ator já tinha morrido.

Dali, saiu pela parte detrás do edifício, falando pelo celular com sua mãe.

Esta estava preocupada, espero que não penses ir dar apoio a esse idiota?

Mãe, ele nem sabe quem eu sou, como vou falar com ele, nunca o vi, nem falei com ele, não há de ser agora.   Não tenho dó dele, cada um paga pelas coisas erradas que faz, como eu também pagarei, todos pagamos pelos nossos erros.

O local que ele foi olhar, era uma esquina no Village, um edifício estreito, tinha sido do pai de um conhecido seu.  Ali tinha começado o império familiar.                 Agora tinham boutiques nas principais cidades, principalmente em shoppings, o local estava fechado a muitos anos.  Falou com o dono, não pertencia a família.   Perguntou quanto ele queria de aluguel, mas antes queria ver o local, para saber se precisava de muitas obras.

O proprietário, pedia um valor um tanto absurdo, quando ele olhou, viu que basicamente, estava era para derrubar.  Não valia a pena, saiu andando, para fazer com que sua cabeça funcionasse.   Nem dois quarteirões depois, fora da área mais comercial, encontrou outro lugar similar.   Com a vantagem que esse tinha porão do mesmo tamanho, com pequenas janelas, ai poderia ser o tailleur, Ahmed, podia viver no andar de cima, que era pequeno, mas um pequeno apartamento perfeito.

Depois de conversar com o proprietário, chamou pelo celular o Jacob que imaginou que estaria com o Ahmed, lhe pediu se podia traze-lo até aonde estava.

Em sua cabeça, funcionava a todo vapor.  Tinha dinheiro que tinha ganho com seu trabalho desenhando para todo mundo.  Como também tinha dinheiro que ganhou fazendo trapaças na rede profunda.  Tinha desenhado jogos, sistemas de trabalho para várias empresas.  Esse dinheiro estava todo guardado, acreditava que tinha chegado a hora de realizar um sonho.

Disse ao Ahmed, que  gostava do local, que tinha uma ideia.  O outro o olhava desconfiado.

Ahmed, não nos conhecemos suficiente, mas o Jacob me conhece a muitos anos, fizemos mil trabalhos juntos, me aconselhei inclusive com ele várias vezes, pois sei que tem uma noção excelente do mundo da moda.

Minha ideia, é uma alfaiataria moderna.  A coleção, fazemos nós, sempre um tamanho médio de pessoa, depois atendemos quem queira encomendar um desenho, a execução seria contigo, o mais importante seria, trabalharmos com tecidos diferentes do mercado, recuperar por aí, tecidos antigos.  Isso teríamos que procurar.   Nossa sociedade se formaria de igual para igual. Cinquenta por cento para cada um.

Mas eu não tenho dinheiro Dax.

Quem falou em dinheiro, entro com o capital, posso conseguir algum investidor.  Jacob que estava parado escutando, soltou, eu te ajudo Ahmed, agora que nos reencontramos, não penso em te perder, tenho economias, mas nenhum herdeiro ou família.  Alias basta olhar na minha cara, estou melhor da minha vida.  Hoje me olhei no espelho, meus olhos sorriem de felicidade.

Acredito no Dax, isso pode dar super certo.

Quando Robledo chamou, eles já tinham dado mil voltas no pequeno edifício.  Em qualquer caso podes viver comigo Ahmed, eu vivo aqui perto, ia adorar isso.

Eu posso trabalhar desde aqui, a porta estaria fechada, funcionária conforme uma pessoa viesse com hora marcada.   Será uma loja super exclusiva.  Em que a pessoa tenha uma roupa especial.

Terias que ter uma ou duas pessoas trabalhando para ti.

Quando Robledo chegou, contaram tudo para ele.  Achou a ideia excelente.

Foram almoçar ali perto, Ahmed estava quieto.    De repente soltou, a última vez que fui ao Marrocos levar as cinzas do meu pai, fui a Fez, Marrakesh, Casablanca, andei pelo Zocco, as lojas de tecidos, tem coisas antigas, muito interessantes.  Principalmente lã, tecidas nas próprias aldeias.  Dariam trabalhos interessantes.   Outra coisa, tinha uma companheira que era excelente fazendo calças.  Vou falar com ela.

Como funcionários por encomendas, o importante seria uma parte cobrar adiantado, a outra na hora da entrega.

Teríamos que ter uma cabine de provas.  Vamos anotar cada um o que acha que deve ter, depois chamamos arquitetos para fazerem o projeto.

Robledo estava feliz, olhava seu tio com amor.  Apertou a mão do Ahmed por cima da mesa, que bom te ver outra vez feliz tio. 

Segunda-feira fazemos o contrato do local, bem como cada um venha com as ideias que tenha, aí resolvemos.

Bom, como foi a reunião Robledo?

Os companheiro que estavam de plantão disseram que o delegado fez um puta escândalo, era sempre conhecido, por não saber perder.   Aliás, na última promoção levou meses sendo um filho da puta, pois não alcançou o que queria, para ter uma aposentadoria perfeita.  De qualquer maneira agora, se aposenta, mas com menos dinheiro.   Pior disso tudo, que sai, sem ter amigo nenhum que o console.   Pois o corpo inteiro ficou contente, sempre foi filho da puta com todo mundo.

Bom quem fica no lugar dele. 

Bom o Chefe de polícia, resolveu dividir o cargo. Serão dois inspetores, dividirão, com  os grupos.   Um trabalha de manhã, até o final do dia, outro faz a noite, semana seguinte troca, mas os grupos são sempre os mesmo.

Me ofereceu um dos grupos, tenho que dar resposta segunda-feira.   Poderei trabalhar com os polícias que quero.  Montar o grupo que me toque, como queira.  Teremos um terceiro grupo encarregado da coisas administrativas.  Esse ficará ao cargo da chefa de departamento anterior. Ela sempre funcionou bem.

Mas vou pensar, terei menos tempo para mim.

Robledo, tens que pensar nos teus sonhos, queres ser chefe, bem, aprenda a manejar seu tempo. Depois logo se vê.

O final de semana foi tranquilo, se falaram por telefone.  Na segunda-feira, era um dia de decisão para todos.

Dax, falou com o dono da empresa, poderia seguir trabalhando do local, sem problema nenhum, teria sim que mudar a história, se fosse escrever sobre seu local, teria que ser outra pessoa, mas poderia divulgar no seu site.  Lhes disse ainda que levaria tempo, pois o local precisava de obras.

Robledo logo cedo com o chefe de polícia aceitou o cargo, bem como seu companheiro, sempre tinham se dado bem.  Agora iriam formar os grupos, com liberdade inclusive de trazer pessoas de outra delegacia.   Os dois tinham um ponto em comum, queriam melhorar o sistema informático.

Quando foram se reunir com o proprietário do local, ficaram surpreso com a aparência do Ahmed,  tinha cortado o cabelo, aparado a barba, se vestia muito bem, mostrou as calças, feitas pela sua antiga companheira, esse tecido trouxe do Marrocos.   Acho que enquanto fazem as obras podemos ir até lá.

Assinaram o contrato, se reunirão com os arquitetos, um casal que  Dax, conhecia a muito tempo, tinham feito a reforma de seu apartamento.   Conversou com eles das necessidades, elétricas, a partir que no primeiro andar, estariam muitos computadores, embaixo as máquinas que gastavam muita energia.  A loja teria um aspecto diferente.  Só uma vitrine, uma porta moderna, depois um provador,  somente duas araras para roupas, seriam sempre exclusivas.

A parte de baixo, precisava de muita luz, bem como lugar para a mesa de corte, as maquinas, isso viria tudo da casa do Ahmed.  

Quando começaram as obras, resolveram ir ao Marrocos, primeiro iriam os três, Dax, Ahmed, Jacob, no último  momento, Robledo, conseguiu uns dias de licença para ir também.  Fariam um roteiro ao contrário.   Iriam primeiro a Marrakesh, depois Casablanca, por último a Fez.

Ahmed, reclamou que o Zocco de Marrakesh estava muito desvirtuado, pois existiam verdadeiras boutiques francesas no local.   Mesmo assim, conseguiram contatos para comprar tecidos de lã, de um homem que tinha vendido seu local.   Compraram tudo o que ele tinha de estoque.    Em Casablanca, conseguiram brocados, sedas, muitas coisas diferentes.  Mas foi em Fez que realmente encontraram coisas boas,   ainda tiveram que esperar uns dias, para reunirem tudo, colocarem num só container, viram que a demora seria superior a inauguração da loja.  O jeito foi despachar tudo de avião, aos poucos.  Robledo teve que voltar, Dax, tinha que ver como estavam as coisas, quem ficou para trás foram os dois, um aproveitando para fazer fotos, Ahmed, olhando os alfaiates que trabalhavam a maioria costurando partes da roupas a mão.   Gostou do trabalho de um jovem, perguntou se tinha família, lhe disse que não, era órfão, perguntou se queria ir para NYC, trabalhar com ele.  Disse que sim, mas que não sabia aonde viver lá, falava um pouco de Inglês.   Jacob foi ao consulado americano, resolvendo a situação, ele iria com um contrato de trabalho, de seis meses, depois lutariam para ele poder ficar.

Dax achou excelente a ideia. Assim poderiam produzir coisas a parte.

Como a parte de cima já estava pronta, o trabalho consistia em fazer uma ligação, entre seu local, a revista.  Montou ele mesmo tudo, inclusive, um acesso a rede negra, camuflada.

Robledo que não sabia que ele tinha essa capacidade, ficou impressionado, disse que queriam alguém para trabalhar na delegacia, para modernizar a parte de informática.  A única pessoa que ele conhecia era um Hacker dos melhores, com quem tinha aprendido muitas coisas, mas achou que seria um problema, o Robledo saber coisas dele.

Tinha confiança nele, mas tinha medo de que descobrisse seu lado escuro.

Quando Ahmed voltou, fizeram uma reunião, teriam um mês para montar uma coleção única, peças para colocar na loja, para fazerem propagandas, etc.

Dax, começou a conversar com seus contatos, os convidava para vir ao local, que ainda estava fechado ao público.  Conseguiu uma coisa difícil, que a  diretora de Vogue fosse até lá, olhasse a qualidade da costura, dos desenhos únicos.  Gostou da ideia, sabes que copiaram cada roupa que faças não é.  Embora seja peças únicas. Tens que inventar um sistema para saber quais são as tuas, quais as copias.  Ele já tinha pensado no assunto.  Colocariam um chips nas peças que comprovava a marca, bem como a época de execução da mesma. 

Ela pediu três peças para uma reportagem da revista.   Duas masculinas, uma feminina. No que andaram por Marrocos, viu como as mulheres improvisavam nos mercados, algumas inclusive usavam toalhas de banho, na falta de um tecido diferente, ou mesmo toalhas de mesa.  Resolveu o problema, criando uma roupa que era um verdadeiro Patch Works, o rapaz que tinha vindo de Fez, entendeu imediatamente a ideia, foi recolhendo troços dos tecidos que tinham sobrado, primeiro as uniu com um fio de prata, ou de ouro, fazendo uma composição. Como uma colcha de retalhos.  Ele desenhou um casaco, que um lado era como um fraque, do outro um casaco de três quartos.   Desenhou uma saia, a parte de baixo jeans negro, por cima bordados de tule, criando uma superfície diferente.  Para os homens criaram um traje completo de jeans negro, com risca de giz muito finas, pintadas a mão. A gola era de veludo negro, de um lado, se lembrou de Paco Rabane, pediu a um conhecido, que ele tinha divulgado, que trabalhava com metal, era como um pano feito de alumínio, maleável, que bem podia ser como um lenço que saia do colarinho, podia ser jogado para trás.

A terceira roupa, fizeram de lã, tecida em cru, mas pintada por cima com brochas muito gordas, aonde tinha feito ele mesmo um trabalho muito sutil de pintura abstrata.  Quando ficaram prontas, levaram eles mesmo a Vogue.  Foram muitos oh, ahs, sairia na primeira página, queriam uma entrevista com ele, mas só concordou se incluíssem o Ahmed,  os dois juntos eram um contraste muito grande.

A entrevista saiu dias antes da inauguração, as roupas foram capas da revista, vestidos pelos melhores manequins do momento.  As mesmas estava na vitrine da loja.  Nas araras umas roupas desenhada pelo Dax,  Estavam feitas de tal maneira, que podiam ser aumentadas ou diminuídas conforme o cliente.  Todas levavam o chips.

Quando perguntaram isso, de ser peças únicas, como fariam com as copias chinesas, ou mesmo dos outros costureiros.   As roupas levam um chips, que irei mudando a cada tempo.  Mesmo que consigam reproduzir o chips, teremos nosso seguro, registo de peça por peça, dos detalhes, desde o desenho inicial, organizado pelo Jacob, que tinha saído da revista.   Tinham montado um sistema de monitorização da loja, viam as pessoas que entravam, examinavam as roupas.  Riam sempre, quando olhavam uma ideia de preço.   Na etiqueta constava assim, o preço é a partir de………. peça única.

Sua revista, fez uma reportagem com eles dois, posando para o Jacob, era engraçado a ideia, os três sócios juntos.  O rapaz do Marrocos vivia na casa do Ahmed.   Estava se desenvolvendo, algumas vezes sugeria uma ideia, para o corte, ou mesmo a maneira de costurar.

Um ator famoso, queria uma roupa para um gala, gostava do exagero das coisas do Dax, ele tinha comprado um dos primeiros casacos da marca.  Foi até a loja, tiraram as medidas, ele escolheu o tecido.  Acabou fazendo a maior propaganda da roupa.

Foram convidados para participar da semana da Moda em Paris, patrocinados pela Vogue, tiveram que parar para conversar, isso seria crescer em demasia.  Ir além de sua proposta inicial, não teriam tempo para nada, além da pressão de competir.   Agradeceram o convite, mas escapava de sua produtividade.   Só de pensar em contratar mais gente, ficar com um espaço mínimo para trabalho, era demais.

Tinham muito trabalho, mas seguiam regras, por mais que o cliente dissesse que queria para o dia seguinte.  Antes de nada lhe era mostrado o calendário, as possibilidades que tinha, a partir do impossível, Dax, procurava para a pessoa, trabalhos de outros profissionais.  Dali nunca saiam de mãos abanando.

Queria ter tempo para viverem suas vidas em paz.

Mas essa bendita “PAZ”, nunca dura muito.

Um belo dia estava trabalhando, no andar de cima, tinha atendido um cliente que queria forçar a barra, dizendo inclusive que colocaria na internet se não fizessem o que ele queria. Se escutou a si mesmo ameaçando, Dax, virou o corpo do computador, mostrando que o mesmo estava sendo gravado.   Tu podes falar o que quiser na internet, nos não enganamos os clientes, desde o primeiro momento, avisamos que para está época é impossível, temos outros clientes em lista de espera.  Sinto muito, mas agora nem nessa lista de espera, queremos ter você como cliente.

O outro viu se publicava uma mentira, sairia perdendo.

Estava furioso com isso, alguns famosos ou pseudo famoso, sempre estavam ameaçando quando sabiam da fila de espera, se negava a deixar a chantagem ganhar.  Avisou ao Ahmed, podem fazer o que queira, desde que entram na loja, estão sendo gravados.

Na semana anterior, um cliente, enquanto estava provando sua roupa, parou para cheirar cocaína.  Se interrompeu o trabalho imediatamente, pediram que se vestisse, saísse da loja, quando os ameaçou, ele mostrou o vídeo dele cheirando, sendo avisado que não o fizesse.

Seu humor hoje estava de rebentar, conversava com o Jacob disso, essa gente é idiota, pensa que a fama é eterna, mal sabem que dura cinco minutos.

Nisso levou um susto, viu que seu pai entrava na loja.

Gostaria de falar com o senhor Dax.

Me acompanhe por favor, o levou para o andar de cima.

Ah claro, tu eres o Dax. Que aspecto estranho tens, não podes te vestir normalmente como as outras pessoas.

Primeiro lugar, esse é meu lugar de trabalho, posso saber o que o senhor quer aqui.

Falar contigo, tentar recuperar o tempo perdido.

Ele começou a rir, para recuperar o tempo perdido, entras, vai logo me criticando.  Sabia também que sou gay.

A cara do pai era impressionante. Estava confuso, esperava outra coisa, ou tinha imaginado que este se jogaria nos seus braços.

Ainda não me disseste o que queres?  Comigo há que ir direto ao assunto, não tenho tempo a perder.

Bom necessito de um transplante de medula óssea, como eres o único filho que tenho, vim pedir se podias fazer o favor de ser examinado, para ver se somos compatíveis.

Dax, ficou de boca aberta.   Essa visita, não é para recuperar porra nenhuma o filho que nunca reconheceste, tampouco quiseste, por ser diferente.  Mas não abaixas do teu pedestal, chega criticando como eu sou.  Sinto muito, o senhor não existe para mim, me nego redondamente fazer isso.

Mas se morro, ficaras com um peso na consciência.

Não esperava a resposta, consciência, custa muito caro ter consciência, vindo de um tipo como tu.    Gostaria inclusive que o senhor saísse imediatamente de meu escritório.  Antes que faça alguma ameaça, aviso, que tudo aqui é gravado, sua conversa está gravada.  Por favor se retire.

Quando ficou sozinho, colocou a cara entre as mãos, queria urrar de raiva, o filho da puta, tinha a pachorra de aparecer, com conversa mole, ainda pedir uma doação de medula óssea.  Nunca o tinha visto na vida, tanto que não o reconheceu.

Falou com sua mãe, está já sabia da história, ele apareceu aqui, pediu o teu endereço, confesso que fui má pessoa, pois sabia exatamente o que iria acontecer.

Como uma pessoa pode ser tão má.   Pior me senti, quando nos disse que não nos queria em sua vida.  Eu com você nos braços, coloquei o rabo entre as pernas, fui à luta, trabalhei em tudo o possível para te criar, educar.

Sou honesta filho, que eu não lhe daria nem um cuspe de minha vida.  Se ele já estava morto, acaba de se enterrar para mim.  O resto é contigo.

Robledo tinha chegado justamente na hora que seu pai saia, mas nem reconheceu o mesmo, passou por ele como se nada.

Quando subiu, ele estava falando com sua mãe.  Lhe fez um sinal de ter paciência.

Depois lhe contou tudo, que o tinha rejeitado ao vê-lo no berçário, nunca mais o tinha visto, na verdade nunca o tinha conhecido pessoalmente.  Ele tampouco me conhecia, pois entrou perguntando por Dax, nem me disse bom dia, foi me criticando.  Lhe explicou da medula óssea, evidentemente que me nego a doar.

Passaram-se meses, já tinha esquecido disso tudo, o dia para ele faltavam horas,  um dia lhe chamaram do hospital, seu pai queria se despedir dele.   Respondeu a enfermeira, que lhe desculpasse, creio que é um engano, não tenho pai.  Este morreu no dia que nasci.

As notícias que saíram no jornal pela sua morte, o deixou de boca aberta, como a sociedade podia ser tão hipócrita.   A jornalista falava do enterro com honras da polícia, etc.

Tinha vontade de escrever um artigo sobre isso, mas pensou muito, conversou com Jacob, que tinha uma cabeça muito pratica.

Não perca teu tempo, não vai mudar nada, os que homenagearam sem dúvida nenhuma, antes o condenaram, sempre foi, sempre será assim.

Lembra-se quando outro dia falávamos da gloria de cinco minutos, isso é igual, se escreves um artigo, criaram uma grande confusão, ele será glorificado, mas se ficas quieto, logo esqueceram dele.                     Tu não porque infelizmente eras seu filho, um pai que nunca conviveste, que te abandonou mal tinhas nascido, mas só te procurou, porque talvez fosses a única chance que tinha de viver.

Deixa para lá.   Eu estou farto da hipocrisia também.  As vezes escuto os que veem aqui, ajudo atender, falam barbaridades de outros lugares, mas quando escutam nosso preço, saem correndo como ratazanas de esgoto.  Não sem antes nos fazer perder tempo, achando porque tem no momento alguma chance de serem famosos.

Lhe lembrou de um ator que iria a entrega do Oscar, até o momento que lhe cobraram 50%, ele os elogiava, pensou que o fato dele usar uma roupa feita especialmente para ele, isso os faria oferecer a roupa.  Mas ao ser cobrado, achou um absurdo.  Pela primeira vez, vi  Ahmed ficar bravo, disse que o que ele queria, custava, tempo, dinheiro, horas de trabalho, que aqui não era uma empresa de beneficência.   O outro lhe disse que isso lhes trairia publicidade.   Não precisamos, olha nossa lista de espera,   O que faziam agora, ao ter a lista de espera, era com um mês de antecedência, confirmar que a pessoa seguia interessada, remarcar uma data, para o atendimento pessoal.

Pouco tempo depois, foram chamados para uma entrevista num dos programas noturnos, mais concorridos em termos de audiência.

Quando lhe perguntaram sobre isso, Dax, replicou, antigamente os alfaiates trabalhavam assim, os mais famosos, tinham sua lista de clientes preferenciais, estes era atendidos primeiro, porque sempre voltavam, pois sabiam que teriam um trabalho de primeira qualidade.  Segundo, revisamos sempre com antecipação se a pessoa esta interessada.  Marcamos o dia para o atendimento personalizado, tirar medidas, escolher o que quer a pessoa.   Nunca temos modelos repetidos,  sabemos que depois alguma fábrica chinesa cópia mais ou menos o modelo, mas cada peça teu seu chips de identificação, para certificar que é peça única. De resto alguns famosos, ou pseudo famoso, acham que tem todo direito a cortar a lista de espera. De maneira nenhuma fazemos isso.  Depois o preço as vezes assusta, mas algumas parte são feitas a mão, mostraram os da costura trabalhando, como toda casa de moda, isso custa caro.  Fomos convidados várias vezes para participar de semana da moda de algum lugar, declinamos o convite, não porque somos os melhores do mundo.   Mas porque não temos uma empresa enorme, que possa arcar com a repercussão, seria contratar muita gente, ao mesmo tempo perder em qualidade.            Seriamos caros porque temos que pagar os empregados, mas com pressa, já não iriamos oferecer o que gosta nosso cliente, exclusividade.

A matéria foi comentada nos outros jornais no outro dia.            A maioria dos jornalista lhes dava razão, porque realmente entendia do assunto.          Outros os criticavam por venderem caro seu trabalho.

Bom vamos seguir enquanto tivermos trabalho.  Seguiram como se nada, 

Semanas depois foi procurado por uma garota, devia ter uns 16 ou 17 anos.  Se apresentou a ele dizendo, que era sua irmã por parte de pai.          Ele quando me procurou, me neguei a lhe fazer a doação de medula óssea,  minha mãe, é extremamente religiosa, pois foi o que lhe aguentou depois que ele a abandonasse.   Me tratou a princípio como um bibelô, no momento depois do exame, em que minha medula óssea não lhe servia, não me disse sequer obrigado.   

Furiosa fui procurar a ele, foi extremamente desagradável, disse que realmente não tinha me reconhecido como filha por isso, que ter uma filha mulher que não servia para nada, a não ser fornicar, lhe dava igual meu futuro.   Ele tinha esperança de que tu o fizesse, de última hora, com remorso.   Lhe disse que na verdade ele iria morrer sozinho, que ninguém ia lhe salvar, foi realmente o que aconteceu.   A cada doador que o hospital conseguia, ele ficava furioso, porque não servia, tratava todo mundo mal.                 Acreditava realmente que tinham obrigação de lhe encontrar um doador fiável, já que esses filhos que tinha tido, eram pessoas de baixa categoria.

Como sou pesquisadora, estou fazendo universidade nessa área, pelo nome dele fui pesquisar sobre sua família, seu passado.  Para não ir muito longe, sempre foram gente muito má, complicados, ladrões, ele entrou pera a polícia, quando saiu de um reformatório, por ter assaltado uma senhora armado. A partir disso fez tudo para subir na polícia, pisando na cabeça de cada um que estivesse pela frente.           Se notas  no enterro dele, os que estão são policiais acusados de alguma coisa errada.       Vim aqui porque fiquei curiosa ao teu respeito, não quero nada, nem tampouco preciso de nada.                Estou fazendo a universidade, com uma bolsa de estudo, pelas notas que tirei.         Vejo que não me enganei, saímos as nossas mães, que lutaram para nos educar.  Esse sem vergonha não merecia ajuda nenhuma.

Embora não estivesse se culpando da morte dele, agora sabia que realmente não tinha mudado nada.

Robledo, estava cansado do trabalho, um dia chegou em casa, dizendo, nada funciona direito, tenho que estar atento a tudo, pois sempre tem um que escorrega no dinheiro para ocultar alguma coisa.

Não vejo possibilidade de ensinar a essa gente que bandido é bandido, pronto, nada mais que isso.

Estou pensando em deixar o posto, me concentra somente em ser um bom policial, ou buscar outra coisa.

Que outra coisa, que foi que deixaste para trás?     Porque quando falamos assim, deixamos para trás alguma opção que não seria fácil de encarar.           Ou por problemas outros, entramos num caminho que não nos completa no fundo.              Eu engoli muito sapo antes de ser Dax, tive que aguentar saber que meu pai não me queria, bullying na escola, mas persisti num caminho difícil, pode ser por isso que hoje não aceito certas coisas.          As pessoas ditas normais, olham para o outro lado, como não se passasse nada, dormem como os anjos.            Só passa uma coisa quando tudo isso acontece contigo, não perdoas.         Uma vez escutei alguém falando, que essa historia de perdoar, dar o outro lado da cara, era uma manipulação de alguém que sacaneou muito outra pessoa.          Infelizmente sou assim, não perdoo, essa pessoa que espere chegar do outro lado para reclamar do senhor Deus.

Quanto anos achas que levei para chegar aqui, ou o Ahmed, quantas injustiças teve que aguentar, a sensação de que fracassou, quando é um excelente profissional, não só isso, hoje em dia não existe gente que trabalhe como ele.   Se vais dizer que eu o ajudei, te enganas, ele é quem me ajuda a realizar um sonho.                Apenas encontrei uma pessoa que gosta das coisas perfeitas como eu.

Agora temos esse legião de invejosos, gente que se acha melhor que os outros, para sacanear, um filosofo chinês já dizia “ melhor arma de defesa, é o ataque”.   Eu tenho um lado negro que não conheces. Mas deixa prá lá.  Temos que encontrar uma saída para ti, tem que haver alguma coisa que gostaria de fazer.

Sim é verdade, mas tenho que pensar muito nisso.          Eu sou uma pessoa ruminante, necessito como que pensar, analisar, pensar, analisar.  Ao fazer isso gradativamente vou rompendo minha inercia, quem sabe explodo de uma vez.

Quando fiz a faculdade de direito, fiz junto um curso que escritura, gostava de contar historias que tinha visto na minha comunidade.    Tu sabes o quanto eu gosto de ler, se o escritor não faz com que eu veja o personagem como uma pessoa, tá ferrado, deixo o livro de lado.

Tens alguma coisa escrita?

Sim, coisas antigas, mas tenho.   Antes de te conhecer quando não tinha nada que fazer, pegava esses textos, os corrigia, atualizava, colocava o personagem na pele de hoje.  Tem um texto que gosto muito, porque o que fiz foi deixar o que tinha escrito antes, depois criei duas sequencias em épocas diferentes, em que a informação mudou, vou atualizando o personagem.

Uau, acho isso interessante, se confias em mim, me deixa ler.

Robledo, lhe deu uma cópia do texto, começou a ler, achando desde o primeiro momento, claro que o personagem tinha muitos pontos autobiográficos.   Mas não falou nada, até terminar as quatro épocas distintas da história.   Comentou com ele, que a única coisa que faltava, era um elo entre elas, como falar de assuntos do mundo nesse intervalo. Criar um elo de ligação com cada época, como que historiando, o fato.  O que aconteceu entre esses espaços de tempo no mundo.  Inclua isso no personagem.

Quando comecei a estudar, assistia aulas de escenografia que não fazia parte do meu curriculum, cada vez que escutava falar num estilo, ia pesquisar, até que cheguei em consideração do que se fala.  “Que em moda nada se cria, se copia, transformando”.  Hoje os tecidos já não são os de antigamente.   Para cada coisa há um substituto.  Mas a moda, pode surgir do nada, por exemplo, hoje não tenho o que vestir, simplesmente faço uns buracos numa roupa, bordo isso, coloco aplicações, uma roupa que usei mil vezes, vira nova.   Saio com ela, alguém gosta, é começa a procurar alguma coisa parecida, de tanto falar, ou de ter uma fotografia do que viu, alguém esta copiando para fazer, para ganhar dinheiro.

As vezes numa peça que desenho, são troços de alguma coisa que vi.   Como um patch Works mental.  Escrever é a mesma coisa, temos que insertar o que aconteceu no mundo, entre uma época é hoje.            O telefone, virou celular, o velho computador de torre, substituído por um Laptop como me mover a qualquer lugar, existem milhões de exemplos disso.

Tens razão, vou tentar, tenho uma semana para tirar, pois se não uso essas horas, as borram, mas ficarei em casa escrevendo.

Agora com Robledo basicamente vivendo com ele, ficava difícil descer para seu esconderijo de Hacker, mas teria que chegar a hora que isso aconteceria.

Estava ele trabalhando em casa, quando vieram avisar, que a parte que pertencia ao Dax na garagem cheirava a queimado.

Largou tudo que estava fazendo, foi correndo para casa.   Quando abriu a porta, viu que um circuito tinha se queimado, desligou a luz, para fazer o reparo.  Robledo olhava tudo aquilo com os olhos bem abertos.

Quando acabou, este estava sentado na única cadeira sobressalente dali o olhando fixamente, como dizendo vai me explicar isso.

Vê, esse é o meu lado negro.  Talvez tenhas que me prender, sou hacker.  Aqui faço coisas que talvez a sociedade acredite erradas, mas a minha maneira tento consertar coisas erradas.

Bom saber desse lado negro. Estive analisando mentalmente, deixaste de usar aquele celular estranho, construído por ti.   Creio que se não exagero, ele tem esse sistema que copia o de outro celular, só por encostar, ou por estar perto.   Foste tu, não teu pai quem deu aquela ordem de prender o cara com a cocaína, verdade?

Também foste tu, sabendo como ele era, aquele vídeo dele dando o cu.  Pois o colocou em evidência, por isso gravas os clientes, reclamando, ou tentando abusar de vocês.  Ou fazendo como o sujeito que queria cheirar cocaína durante a prova.

Agora entendo, de uma certa maneira me protegeste contra teu pai.

Sim, eu conseguia entrar no celular dele, ver como ele planejava depois do ocorrido, além de se apropriar do que você, os outros fizeram, em seu próprio benefício.  Não era uma vingança de minha parte, mas sim que não prejudicasse a ti, aos outros.  Ele pensava em mandar vocês para uma delegacia mais longe possível, para não reclamarem as glorias.

Vingar dele eu fiz de várias maneiras.  Contou a historia da mulher, além de outras coisas que fiz, porque tinha uma fonte privilegiada, ele mesmo.  Não tens ideias das coisas que ele planejava, muitas consegui abortar.   Ele ficava furioso, porque não conseguia descobrir quem lhe atrapalhava.  Essa foi minha vingança.  Mas também era justo com as outras pessoas.

Tento equilibrar meu lado negro, com o outro. Mas posso te dizer uma coisa, são esses dois lados que te amam.  Eu só existo se tiver esses dois lados.

A cara do Robledo era uma incógnita, não saberia dizer se lhe condenava ou, esse ou era a incógnita.

Se levantou devagar, foi se aproximando, eu desconfiei, quando te vi, tiveste a falta de pudor, de passar me olhar na cara, creio que esses segundos de me desconcertei, me apaixonando por ti, entraste em meu celular, verdade?

Sim, mas eu também me apaixonei por ti,  quando te vi me olhando provar sapatos,  te provoquei pedindo tua aprovação, quando sai, queria realmente ir para cama contigo.

Me conta como, o porquê fizeste prender o sujeito da cocaína?

Lhe contou toda a história, todos odiavam o dito sujeito, as maldades que ele fazia com os empregados, foi um ajuste de contas com ele, nada mais.  Quem rompeu a lanterna traseira fui eu, bem como tirei a placa.

Mas eu não te vi, por  perto.

Estava totalmente vestido de negro, escondido na escuridão.

Quanto ao meu pai, veja isso, acendeu um laptop que estava ali, buscou um arquivo, mostrou ele conversando com o pai.  Pedindo que compensasse quem tinha realmente feito o trabalho, mesmo com a ameaça, ele ignorando.  Se ele fosse uma pessoa honesta, teria retificado imediatamente que não teve participação nenhuma, daria os méritos aos outros, mas sua sede de ser o mais importante, lhe venceu.    Não era ser o melhor, porque ele sabia que não era, por isso tratava todos assim, uma pessoa vai pisando nas outras para subir, até o momento, que ela acredita que isso é o correto.  Eu provei para ele que não era.  Mas veja bem, os iguais a ele, transformaram sua morte numa coisa gloriosa, só faltaram dizer que tinha morrido para salvar a pátria.   Vemos isso todos os dias.  As notícias hoje, são manipuladas constantemente, qual é a verdade. Caralho , nesse vai e vem, certo ou errado, Nunca mais vamos acreditar numa notícia, ela virou lixo puro.

Robledo, chegou perto dele, pegou sua cara com as duas mãos, o beijou, acredito em ti,  sei que tens um código de conduta, posso as vezes discordar, mas uma coisa vejo importante, eres honesto consigo mesmo.

Quando o livro do Robledo ficou pronto, leu a consciência, já tinha levado uma parte a um editor que tinha conhecido através da revista.  Este gostou do livro, disse que inclusive se estivesse sido escrito como roteiro de filme seria interessante.

De qualquer maneira iam publicar.  Fizeram o contrato, com a opção de venda para filme.  O livro logo foi um sucesso.  Ele tinha aconselhado ao Robledo fazer um curso de roteirista, aproveitou o curso para escrever uma ideia que tinha, de um caso que tinha resolvido a tempo.

Levou todas suas anotações para casa. Como tinha feito da vez anterior, escreveu de uma maneira diferente, foi a cadeia, conseguiu falar com o rapaz, o entrevistou, para saber como tinha chegado até o momento do crime.  Esse não tinha nada a perder, lhe contou sua história.

A vítima, ao contrário não tinha família nenhuma, mas mesmo assim pesquisou sobre ela. Criou a historia de ambos os lados, até chegar o momento do crime.

Apresentou o texto no final do curso, todos gostaram, o professor fez duas ressalvas, que ele corrigiu imediatamente.

Depois de conversarem, pediu demissão da polícia.   Tinha chegado à conclusão que não gostava do trabalho.            O fazia bem, mas isso fazia parte de sua personalidade, fazer bem as coisas.  

Depois de muito conversar com  Dax para entender como pensava, como usava a internet profunda, aprendeu tudo sobre o assunto, escreveu um livro inspirado no Dax, sobre a parte negra de uma personalidade.   Aprendeu ao mesmo tempo ir transformando os livros em roteiro de filme.

Os dois seguiam vivendo da mesma maneira, não precisavam de muito.

A AHDA, seguia funcionando como sempre, tinham uma lista de espera de muitos meses, mas isso as pessoas sabiam desde o momento que faziam contato.   Não iriam de maneira nenhuma aumentar a empresa,  fugia de seus critérios.

DENTRO DO PADRÃO

                            

Despertar no horário de sempre, tinha ido para o beleleu, depois de tantos meses no hospital, aonde lhe davam remédio para dormir, relaxantes, para a dor.   Num determinado momento foi consciente que se seguia assim, se tornaria um viciado, com tanta medicação. 

Pediu para falar com o médico, este tentou argumentar, mas foi irredutível, nesse dia por acaso estava seu companheiro na polícia.

Desista doutor, esse quando coloca uma coisa na cabeça, não há quem faça mudar de opinião.

Tudo o que quero doutor, embora possa ser cedo demais para isso, é começar a reabilitação, tenho que voltar a andar outra vez, voltar ao trabalho, porque senão sairei daqui direto para um psiquiátrico.    

Seu companheiro ria horrores, estou imaginando a cena, pois tu num psiquiátrico, ia deixar todos loucos.  Sou o único que o aguenta, ele é impulsivo, por isso aconteceu tudo isso.

Tinha sido atirado de um 10 andar, por sorte tinha caído em cima de um toldo, que amorteceu a queda.  Rompeu as duas pernas, uma em vários lugares, um braço, além do tiro que tinha levado, ninguém tinha entendido como tinha caído em pé, se estava desacordado.

Alguém teve tempo de roubar sua arma, tirar toda sua roupa, pois quando chegou embaixo estava completamente nu.   

Tinha ido atender uma chamada de emergência, uma voz de um jovem pedia auxílio, estavam querendo lhe matar, falava de um banheiro.

Chegaram 10 minutos depois, seu companheiro atendia uma chamada da central, ele foi em frente, mal abriu a porta, a imagem que tinha era de um jovem, de uns 18 anos, sem calças, com sangue escorrendo pelas suas pernas, com um revolver na mão.  Levou uma pancada na cabeça, caindo desmaiado, o tiro tinha levado depois.   Outro detalhe que se fizesse um esforço se lembrava era a cara do rapaz, distorcionada, pelo ódio, raiva, mais alguma coisa que não saberia dizer.   Depois tudo era uma escuridão.

Ficou sabendo que o rapaz tinha levado um tiro com sua arma, mas que tinha passado de raspão, ele não se lembrava ter atirado, sabia quando fazia isso, pelo cheiro da pólvora, pelo movimento.  Isso ele não tinha feito.

Quando lhe pediram para depor, contra o jovem, disse que o faria, somente depois de ler os documentos, bem como falar com ele pessoalmente.    Não queriam permitir, como era teimoso, ficou irredutível.  

Seu companheiro conseguiu copia dos documentos.  Comentou o que tinha visto, porque os interrogatórios não foram feitos por ele.   Quando chegou no apartamento, o jovem estava jogado no chão, no meio de um charco de sangue, tanto do ferimento a bala, como anal. Tinham abusado dele muitas vezes.

O fiscal que levava o caso, tentou de todos os meios que ele fosse fazer um depoimento, se negou, quero falar com ele antes, algo está errado nisso tudo.   Perguntou quem era o juiz. Quando o outro respondeu, deu um sorriso matreiro.   Pediu ao seu companheiro que o ajudasse a vestir-se, uma cadeira de rodas especial, que apoiava seus pés, foram para o tribunal, o juiz o atendeu a contragosto.   Mas estava chamando muito a atenção aquele homem numa cadeira de rodas.

Disse que antes do julgamento queria falar com o rapaz.  Este tentou negar.

O chamou pelo seu nome  Chaz, era o diminutivo que ele usava com o Juiz, tinham sido amantes anos atrás.  Não vou permitir que prejudiquem esse rapaz.  Aqui tem algo errado, sei que o homem que foi encontrado morto, era uma pessoa importante, sei que o caso terá muita atenção mediática,  mas tenho certeza de que não atirei nele, além de que, se olhas o meu atendimento, verás que tenho uma ferida na cabeça por detrás, isso ele não podia fazer, pois estava na minha frente.

A contragosto Chaz, aceitou o pedido.

Quando entrou na cela que o rapaz estava, o mesmo lhe perguntou se tinha vindo para assusta-lo, vai me ameaçar de mais um processo?                     Já estou fudido mesmo, que mais pode me acontecer.

Sorriu, um hábito que não tinha.  Não se preocupe, eu não fiz nenhuma queixa contra ti, porque sei que não atirei em ti, como tampouco atiraste em mim.   Só quero saber o que aconteceu, que fazias nesse apartamento, quero saber a tua versão dos fatos.  Quem sabe posso te ajudar.

Ficou olhando para ele, como procurando saber se podia confiar nele.

Não podia ser você, pelo seguinte, alguém me acertou na cabeça por detrás, estavas alterado demais, para me retirar toda a roupa, me jogar pela janela.   Olha o teu tamanho, uma pessoa desacordada é um peso morto,  não terias força suficiente para isso.  A não ser que tivesses um cumplice, o que não acredito, pois quando meu companheiro chegou lá em cima, estavas atirado no chão, com um tiro da minha pistola.

Outro detalhe que não sai da minha cabeça, tinhas a cara desencaixada, um olhar de ódio, raiva, os olhos dilatados que quem foi drogado, tua arma não apontava para mim, tinhas sangue descendo pelas pernas,  então quem sabe me contas o que aconteceu.

O outro olhou para ele, porque não foste tu que me interrogaste, nem me deixaram falar, só me acusaram.  Eu não abri a boca para nada, estava muito mal para falar, ainda hoje acordo com pesadelos de tudo que aconteceu.  Não tinha nenhum advogado presente, nada.   Nem meu pai apareceu aqui, esse escândalo todo, o deve ter deixado furioso.  Imagina o filho dele abusado numa orgia gay.    Ah meu pai, é um pastor protestante, nunca me deu atenção.  Quem me cria são meus avós.

Ele conhecia bem os dois policiais que tinham feito o interrogatório, eram dois filhos da puta de muito cuidado, não estranharia que estivesse manipulado tudo.

Não constava que tivessem recuperado sua arma, tampouco suas roupas.

Bom, tenho vários amigos de universidade gays, era a primeira vez que saia com eles, fomos jantar, depois a uma discoteca.   Não sei dançar, gosto de música, mas de outro estilo, estava com dor de cabeça.  Me encostei na barra, tinham dois homens cada um de um lado, pedi água, riram, um deles puxou conversa, enquanto olhava para ele, o outro deve ter feito alguma coisa, porque em seguida, me senti tonto, enjoado, como se fosse vomitar.  Me levaram pela saída de emergência, porque me lembro do cartaz luminoso.

Depois já não me lembro de nada.  Quando acordei, estava amarrado na cama, com os dois homens nus, esfregando seus caralhos na minha bunda.  Tentei gritar, mas a voz não me saia, riram, não perca seu tempo, lhe demos uma droga para relaxar, assim seu cuzinho virgem vai aguentar muita coisa.  Então vi numa mesa lateral, todos tipos de caralhos de plástico.  Me fizeram cheirar alguma coisa que não sei o que é.   Em seguida, começaram a brincar segundo eles era isso, vamos brincar.  Se intercalava, colocavam alguma coisa em mim, em seguida me penetravam.  Não sei quanto tempo durou isso, me pareceu uma eternidade.   Quando me soltaram, porque diziam que eu iria cagar toda a cama, um deles me levou ao banheiro, era o tipo mais forte, alto, musculoso, com a cabeça raspada, uma tatuagem que faço força para me lembrar, me parece algo militar.  Me levou até o banheiro, me sentou na privada, o outro o chamou,  disse que tinha olhado minha carteira, que eu era menor de idade.   Merda, disse o outro.

Com todas minhas forças, consegui fechar a porta do banheiro, chamei emergência de um celular que estava ali.  Não sei de quem era.  Desmaiei.   Acordei estavam batendo na porta, não abri, o homem arrebentou a fechadura, era o careca outra vez. Me levantou do chão, me levou ao quarto. O outro homem estava esticado na cama, sangrando, não entendi por que, se o rastro de sangue em cima do tapete era do meu rabo.  O homem que me segurava, sem dizer uma palavra, colocou a arma na minha mão, apertou meus dedos, para mais um disparo.

Me soltou no chão, aonde fiquei chorando,   acho que a roupa dele, estava no chão da sala, pois saiu nu do quarto, procurava alguma coisa, fui tomando consciência do que tinha acontecido, porque me doía toda a parte de baixo do meu corpo.  Me levantei apoiado na parede, fui pelo corredor, até chegar na sala.   Nisso você entrou, ele estava atrás de ti, olhavas para mim como se não entendesse o que tinha me acontecido.  Queria te avisar, mas ele foi mais rápido.

Te bateu com alguma coisa na cabeça,  viu que eu tinha uma arma na mão, se abaixou, fez a mesma coisa que tinha feito antes, segurou tua mão, me deu um tiro, cai para trás no corredor, fiquei de lado, a dor era muita, mas vi que te tirava a roupa toda, tem mais o menos o mesmo tamanho que o senhor.  Vestia com muita pressa, enfiou o revolver na parte detrás das calças, o arrastou até a varanda, depois não vi mais nada, porque ele voltou me deu uma patada na cabeça, desmaiei, só despertei no hospital.

Apareceram esses dois, fizeram um interrogatório, em que eu não falei nada. Deveria ter um advogado, não leram meus direitos, afinal sou um estudante de direito, sei como funciona a coisa.  Quando fiquei melhor, me trouxeram para cá.   Ontem apareceu um advogado, desses nomeados pelo juiz, me disse que o melhor que fazia era aceitar minha culpa. Tampouco abri a boca, me deixou um cartão, foi embora.

Tens, esse cartão?

Sim, tirou das calças, estou aterrado desde ontem, nem esses meus conhecidos apareceram para perguntar por mim.   Estou sozinho nisso tudo, já sei que vou me ferrar.

Como te chamas, pois até isso creio que esta errado. 

Sim eu usei uma bilhete de identidade que me deu um amigo, para poder entrar na discoteca, meu nome é Ray Mendez.

O meu é Higth Smith, mas todo mundo me chama de Brother, porque diziam que ele falo isso o tempo todo como se fosse negro.  Culpa de um companheiro que tive, que falava muito isso, eu repetia.

Me dê o endereço dos teus avós, que devem estar preocupados com teu sumiço.

Anotou, num papel.  Irei visita-los.  Vou conseguir um bom advogado para ti, não se preocupe, volto em seguida, pois temos que adiar essa previa, porque faltam muitos documentos no processo.

Quando recuperou seu celular,  chamou um advogado, muito amigo, que lhe devia favores, pediu, tenho urgência que venha até o tribunal, o outro disse que nesse momento não podia.

Agora, eu disse agora, antes que seja tarde, nunca te peço nada, estou te esperando no hall.

Ficou ali, sentado na sua cadeira, olhou de novo todos os papeis que tinha, faltavam os exames do hospital, nada constava que o rapaz tinha sido abusado.  Não diziam que tinham feito contato com a família, claro o nome era falso.

Seu amigo, chegou ofegante, isso que seu escritório, estava do outro lado da avenida.  Soltou, Robert, estas ficando gordo, precisas de fazer exercício.

Preciso que defendas esse rapaz,  uma grande manipulação de provas, venha vamos pedir para falar outra vez com ele.  O Juiz estava irritado, foi direto ao assunto, creio que tudo isso está errado, houve manipulação das provas, esse rapaz foi abusado, porque eu quando o vi, me fixei que pelas pernas dele, escorriam sangue.   Não existe no processo nenhum exame médico, nada, nem do tiro que supostamente lhe dei.  Nem é seu nome verdadeiro, esses filhos da puta, trabalharam tão mal, que nem tiveram o trabalho de verificar.

A cara do juiz era de raiva,  ou das um atraso na vista, ou sabes que farei um escândalo.  Tu sabes do que sou capaz. 

O juiz morria de medo de escândalos, principalmente se falassem que era gay.  O relacionamento deles tinha sido embaixo do maior segredo.

Deu autorização para ele descer com o Robert, quando chegaram na cela, estavam os dois policiais, um tinha acabado de dar um murro na cara do rapaz.   As chaves, estava do lado de fora da cela, disse ao  Ray, para sair, fechou os dois dentro.  Robert, vá faça com que o Juiz abaixe agora mesmo, ameace fazer um escândalo.

Quando o Juiz chegou , o rapaz estava sentado no chão, os dois policiais, estavam fazendo o maior escândalo.   Expliquem agora ao juiz, porque estavam dando murros no rapaz, além de exigir imediatamente um exame médico.

Eu se fosse o senhor, os manteria aí, pois vou apresentar uma denúncia de mala práxis dos dois, são uma vergonha do corpo policial desta cidade.   Um policial que tinha vindo com o juiz, apresentou um papel.  Era de seu gabinete.   Mas eu não autorizei nada disso. Essa assinatura tampouco é minha.  Coloque algemas nos dois, retirem tudo, os deixem nus, para passar vergonha.  Me arrume uma cadeira, pois farei um interrogatório aqui mesmo. Chamou alguém pelo celular.   Ah essa cabrona,  minha secretária deve ter falsificado o papel, me chamem uma taquigrafa, qualquer uma serve.

A taquigrafa riu quando viu os dois policiais pelados.  Soltou estão sempre se insinuando para a gente, olha o tamanho do piru deles.  Tanto músculos para nada.

Primeira pergunta, por que estavam batendo no rapaz?

Um olhou para o outro, levantou os ombros, já não tinha nada a perder. O que parecia levar  as coisas disse, que a secretária do Juiz os tinha avisado que o Higth ia falar com ele.  Isso seria um aviso para confirmar o que escrevemos no depoimento.

Pelo que acabo de saber, foi tudo irregular, o interrogaram no hospital, não aqui?

Sim é verdade, quando nos passaram o caso, foi o que fizemos.

Sem advogado, sem nenhum parente, nada.  É um menor de idade, sabem disso?

Não, estamos cobrindo um companheiro de outra delegacia, foi ele que nos disse o que fazer.

Podem ir soltando o nome do dito cujo.

Nem pensar, ele nos mataria, foi ele quem armou a confusão toda.  Fodia com esse homem rico por dinheiro.  A coisa saiu dos eixo, por isso acabou assim.

Não estou brincando, ou me dão o nome, ou soltarei que denunciaram um companheiro, imagina a confusão.   Um olhou para o outro, deram o nome.

Higth pensou, pior elemento não podia ser, uma vez sai no braço com ele quando trabalhei nessa outra delegacia.   Era um corrupto, mas apadrinhado do chefe.   Pensou a coisa vai feder. Chamou seu companheiro, disse que fosse aonde estavam, o juiz ditou a taquigrafa uma ordem de prisão do mesmo.

Agora me falem, porque falta a parte do exame médico do rapaz, não se fala no tiro que levou, nada disso. Creio mais que ele é uma vítima, não um agressor.

Quando chegamos, estava desacordado no corredor, com uma arma na mão.   Sabíamos que tinham atirado o Higth pela janela, ainda comentei, esse menino, não poderia ter feito isso, aí vimos uma roupa no chão da sala, descobrimos quem era.  Falamos com ele, nos disse para não mencionar nada.   Que o rapaz fosse para o hospital, que ele daria um jeito em tudo.

Mas pelo visto não aconteceu isso, pois depois descobrimos, que o rapaz não foi para o hospital que mandamos.  Talvez isso tenha salvado sua vida.

Nisso chegou um médico,  levou o rapaz para outro lugar, o examinou, voltou falou no ouvido do juiz, que se afastou, chamando o Robert, para escutar.  A cara deste era de fúria.

Seu companheiro lhe chamou, dizendo que o outro estava foragido, que fazia dois dias que não aparecia na delegacia.  Fomos a sua casa, a mesma está fechada, ninguém abre a porta, uma vizinha disse que ele saiu com duas malas, ontem.  Tenho o número da matrícula, mas seria interessante entrar na casa.  Como estavam falando em viva voz,  o Juiz que já estava furioso, estou mandando a ordem por celular, podem entrar.

Isto esta uma loucura, melhor mandar um forense, tem uma pessoa morta aqui.  Lhe destroçaram a cara.  Mas pelo tamanho, não é o policial, tem corpo de garoto.  Mas deixou para trás o computador.  Vamos examinar tudo.

Bom, disse a taquigrafa, vou ditar a ordem de prisão desses dois, bem como ordem de captura internacional do mesmo.

O rapaz pode sair, mas terá que ficar sobre a guarda de alguém.

Higth, que não pensava voltar para o hospital,  chamaria um enfermeiro seu amigo, para lhe ajudar em casa, ele pode ficar sob minha guarda na minha casa.  

Avisou ao Juiz que o outro tinha sua arma regulamentar, que não tinha sido encontrada.

Um deles, disse que estava com eles.  Nos disse para ficar com ela, caso tu recobrasse a consciência.

Aonde está, o filho da puta, diga aonde estava escondida!

Bom que seja anexada ao processo.

Ele iria pedir ao seu companheiro que o ajudasse nisso, afinal eram amigos de longa data.

O médico, deu uma lista de medicamentos para o rapaz.  Creio que ele na verdade deveria ir para o hospital, pois creio que tem uma infecção no reto.

Vou com ele, disse o Higth, não me faz graça voltar a um hospital, mas fico com ele.  Robert, por favor, arrume de um jeito que possamos ficar no mesmo quarto.  O médico era do mesmo hospital que ele tinha sido operado, vieram duas ambulâncias, para levar os dois.

Quando seu companheiro chegou, soltou, o que gosto de trabalhar contigo, é toda a loucura que podes mover. Parece que jogar merda no ventilador, é o que fazes melhor.

Quero que descubra quem é o médico que atendeu o rapaz, encontre pode traze-lo aqui.

Robert que entrava nesse momento, rindo, acabo de perder um contrato milionário por tua culpa, vou comer esse teu cu, grátis uma década.  Os dois riam, se conheciam a muitos anos.

Aonde está o rapaz?

Na sala de cirurgia, pelo visto teve uma hemorragia, na ambulância, chegou mal aqui.  Ficaram de nos avisar. 

Brad, ou melhor Bradford, seu companheiro, vinha arrastando um médico, o homem devia ter 1,60 metros, magro.   Explicaram a situação.

Eles vieram aqui, no mesmo dia que interrogaram o garoto, me ameaçaram, queriam os informes, tirei uma cópia, mas fiz que o original caísse por detrás da impressora.  Depois o recolhi, tenho tudo guardado.  Bom, precisamos de duas cópias, uma para seu advogado, outra para o Juiz.   Brad, proteja o doutor.  Brad tinha 1,90 metros, parecia um armário,  o outro olhava para cima, pode deixar, cuido dele com mimo.

Robert soltou o Brad tem razão, estar contigo é o mesmo que estar no meio de um furacão.

Uma enfermeira, veio trocar suas as bandagens do seus ferimentos. Quando retirou as da perna que tinha rompido em 3 lugares, Robert viu que tinha pedaços de metal.

Vais ficar ai de boca aberta, olhando para isso?

A enfermeira disse que ele devia ter ficado na cama.

Nem pensar, basta, quando esse menino estiver bom, vou para casa, quero ver alguém me segurar.   Rindo passou o endereço dos avós para o Robert, vá visita-los, pode ser que pensem que está desaparecido.

Ele ficou sozinho matutando,  chegou à conclusão de que os dois iam matar o garoto, ou droga-lo suficiente para que morresse na rua.   Devem ter mais coisas escondidas na manga desses dois.

Quando Brad voltou, enquanto lia o relatório original do médico, pediu que descobrisse com os forenses, que era o rapaz encontrado na casa do outro.

Só o escutava dizer hum, ok, hum, ok.  Tinha a cara de fúria, quando se voltou para ele, é  um menor de idade, ainda não se sabe quem é.  Vivia com ele, segundo é o que parece, pois tinha um quarto na casa.  Lá também tinha uma serie de objetos eróticos.  Na parte baixa da casa, tem um quarto que parece de um bordel.   Tinha sangue por todas as partes.  Recolheram tudo.

O policial, devia ser um pédofilo, deveria estar ligado a alguma rede.

Já temos ordens do juiz, para entrarmos na rede do celular dele, para ver o que continha, a companhia telefônica não gostou, mas teve que engolir em seco, parece que o juiz perdeu a calma com eles.

A coisa é maior do que pensamos.  O que achas de tudo isso?

Creio que tinha alguma coisa com esse homem rico, lhe devia arrumar rapazes jovens para fazerem orgias.   No informe o médico diz que ele tinha uma taxa altíssima de drogas, tanto para um tipo de relaxamento anal, bem como drogas pesadas, para ficar sem vontade nenhuma.

O Ray, estava no lugar errado, na hora errada.  Puta que pariu, imagina que confusão tudo isso. Por sorte dele, a ambulância o levou para um hospital que eles não esperavam, senão estaria morto.

Nisso entraram no quarto trazendo o Ray.  Estava num sono profundo.   O médico foi falando, que bem que vieram para cá.  Todos os pontos da sutura interior se romperam, ou lhe deram um chute, pois tem essa região marcada.    Mais um pouco tinha morrido.

Nisso chegava o Robert, vinha furioso.  O pai não deixa os avós vir para ver o neto, disse que não quer o nome da família ligado ao um gay.   Tanta benevolência vinda de um pastor de igreja é horrível.    O sujeito é a pompa e circunstância juntos, se acha acima do bem, do mal, de todas as coisas.  Perdi a paciência, lhe disse que Deus já lhe daria a resposta que merece.  Ele não sabe que gravei tudo, pois ao entrar na sala, nos tratou muitíssimo mal.   Se o menino me permitir, irei a igreja, mostrarei o vídeo do filho da puta.  Quando tentei argumentar que seu filho apenas era uma vítima, que estava no lugar errado, na hora errada, riu na minha cara.

Os homossexuais como meu filho, como o senhor, sempre estão se defendendo entre si, não ia me admirar que o senhor não tenha relações com ele.

Tive que me controlar, lhe disse que era seu advogado, sabe o que foi que me disse?

Que não ia pagar nada, pois esse filho já não existia para ele.  A cara dos avós era de desespero, pois tem muita idade.  Voltarei para falar com eles quando o mesmo não esteja em casa.

Nisso entrava o delegado da sua delegacia,  menino, quando jogas merda no ventilador, jogas numa quantidade tão grande, que o cheiro pode atravessar o pais inteiro.

Não sabem o que estava no computador, a coisa é asquerosa, inclusive dois juízes no meio, a coisa esta feia.   O chefe desse mafioso, já está bem preso.  Nos que temos sempre problemas em conseguir ordens com os juízes, agora pelo menos temos um juiz do nosso lado, o teu amigo, esta na delegacia, vendo o vídeo, assim que cada um é identificado, ele dá a ordem de prisão do mesmo, bem como revistar a casa do sujeito.

É uma rede de pédofilos, imensa, atravessa o pais.  Os que não forem daqui, vamos passar para o FBI, mas os daqui, hoje a prisão vai estar cheia.    Agora o do delegado, fazendo sexo com garotos, a maldade que fazia com cada um, tudo registrado em vídeo, vai dar muito que falar.

Tivemos que pedir forenses emprestados ao FBI, porque é muita coisa para ver.

Viram que Ray começava a despertar, todos se despediram, só ficando o Robert, ele o rapaz, chamaram imediatamente o médico, pois ele despertava.

Olhou para o lado, quando viu o Higth na outra cama, sorriu, obrigado.

Higth, lhe fez um sinal para ficar quieto, fale o menos possível, descanse.  Essa noite teriam dois policiais na porta do quarto, mesmo assim, antes do Brad ir embora, pediu uma arma, nunca se sabe foi o argumento.

Despertou de madrugada, com o Ray olhando para ele, o que foi perguntou, não consegues dormir?

Tive um pesadelo, por isso acordei.  A principio fiquei desesperado, só de imaginar o que me aconteceu,  imagino que não fui o único na mão desses filhos da puta, mas jamais imaginei isso acontecendo comigo.

O que me doeu mesmo, foi as maldades que fizeram comigo, não podia me defender.  Imagina, nunca tinha feito sexo com outro homem, agora, estarei em guarda o resto dos meus dias.

Ele chamou a enfermeira, pediu que aproximasse sua cama da outra, agradeceu, ficou segurando a mão do Ray.    Sei o quanto isso é traumático, mas um dia encontraras alguém a quem amar.  Ai será melhor.

Tu encontraste alguém para amar?

Bom tive vários amores, que acabaram ficando meus amigos.  Mas com a vida de levo, é muito difícil, lidas com brutalidade todos os dias, chegas em casa exausto, tudo que te passa na cabeça, queres borrar,  fica difícil, desligar, vamos dizer, cortar os cabos.    A pessoa que te espera, quer uma cabeça livre de problemas.   Mas isso não é possível.     Procuro, entrar em casa, me esquecer de tudo.   Quando saio mais cedo do trabalho, ou se passei a noite trabalhando, o que faço é ir a uma piscina, ficar nadando, até me relaxar, tomo um bom banho, vou para casa, caio na cama, durmo.   Mas se não faço isso, fica difícil.  Primeiro porque não bebo, a maioria da polícia sim, por isso quase todos que são casados, se divorciam, as mulheres não aguentam.  

Venham tenta dormir, ficarei aqui segurando tua mão, dormiram os dois de mãos dadas.  Despertou com o Brad, do outro lado da cama, estava rindo, a imagem dos dois de mãos dadas, não podia ser a melhor, quase fiz uma foto, para colocar na internet. 

Ray despertou quando ele se moveu.   Só disse obrigado, creio que segurar tua mão, me fez sentir num porto seguro. Consegui finalmente dormir.

Ia dizer ao Brad o que tinha acontecido, ele fez um gesto, não importa, te conheço.   Quais são as novidades?

Passei pela delegacia, o pessoal, não pregou o olho a noite inteira, o FBI, trouxe gente, vão separando os dos outros estados.  Descobrimos que dopam os rapazes, os mandam como mercadorias de um estado a outro, deixando nas mãos de pédofilos.  Se sobrevivem ou  não sabemos.  Isso levará meses de investigação.  Aqui um dos imputados, era professor numa escola de crianças pequenas, tinha fotos de todos seus alunos sem roupa.   Quando o prendemos disse que lhe pagavam mal na escola, mas que nunca tinha abusado de nenhum aluno.

O chefe me disse para assumir um grupo.  Tu nem penses, disse ao notar o movimento do Higth, tens que te recuperar.   A única maneira será, ficares no escritório controlando tudo.

Pois eu prefiro isso a ficar em casa. Não aguentarei, posso me suicidar, ai vocês ficaram com remorsos.

Olha o chantagista, remorsos, vamos é ficar contente de estar livre de ti, meu amigo.  Admiro muito tua coragem nisso tudo, não sei o que farei sem a tua intuição ao meu lado.

A cara do Ray escutando a conversa era ótima.  Vocês dois parecem aquele casal que discute, mas ao mesmo tempo ama o outro. 

Deus me livre Ray, o meu companheiro é como estar no meio de uma tormenta de neve, misturada com uma de areia, tudo ao mesmo tempo.   Podes imaginar isso.

Posso, o vi atuar ontem, fiquei literalmente impressionado.   Sinto não ter podido avisar que o outro estava atrás dele, não conseguia falar, meu grito ficou grudado na garganta.

O médico veio examinar os dois.  Vamos transferir os dois para um apartamento, paga a polícia, porque esse movimento de entra sai gente, dois policiais na porta esta causando problemas no andar.   O delegado pediu, fizemos uma concessão, vamos te deixar trabalhar desde a cama. Vão instalar um sistema de internet aqui, diretamente para ti.

Os enfermeiros foram levando as camas, parecia uma procissão, seguidos, pelos policiais armados.

Era um quarto bom, grande, com poltronas, lá estava um grande amigo do  Higth, instalando um computador no quarto, nem assim fico livre de ti.   Era uma pessoa graciosa, loiro, olhos azuis como agua, os cabelos compridos, bem proporcionado.  Viu que Ray olhava para ele, com curiosidade.  Dependendo do ponto de vista, James era bonito.  Mas estava sempre calado, nunca ria demasiado.   Tinha sido hacker, Higth, o prendeu numa redada sobre a internet profunda, o protegeu, na época ele tinha 16 para 17 anos,  depois de insistir muito, o convenceu de fazer faculdade.  O argumento tinha sido, sei que sabes mais que os professores, mas assista algumas aulas, faças a provas, tenha um diploma.  Depois arrumo um emprego para ti.

Ele vivia num apartamento ao lado do Higth, muita gente falava que os dois tinham um romance, mas claro nunca se atreviam a falar abertamente na cara dos dois.   Higth, nunca misturava as estações.   Quando Brad veio trabalhar com ele, foi a mesma coisa, um dia os dois tomando uma cerveja, comentou isso com ele, olha Brother, vão falar muito que vais comigo para a cama, não me importaria, mas trabalho é trabalho.

Brad o olhou de cima a baixo, que dizer que não te importaria que eu comesse teu cu.  Bom um dia que não tenha nada que fazer, se estiver chovendo canivetes abertos, farei um esforço supremo, pois teu cu deve ser fedido.  Se mataram de rir, nunca mais tocaram no assunto.

Se entendiam com um simples olhar.   Um dia o Brad estava tomando banho, depois do serviço, não lhe dava tempo de ir para casa fazer isso, quando alguém entrou no banheiro, comentou sobre sua bunda, ele soltou, acho que não deves ficar olhando, isso é propriedade do Brother, o outro saiu de fininho.   Ele ficou as gargalhadas, quando lhe contou, riram muito, o pior foi o que fizeram com o outro.   Ia saindo, Brother o segurou, encostou na parede, que historia é essa de ficar querendo minha propriedade, tens o piru muito pequeno para aquela coisa mimosa.

Bom o sujeito passou a ser chamado de mimosa pelos dois.   Quando descobriu que era tudo gozação deles, acabou rindo, lhe obrigaram a pagar uma cerveja.  Se minha mulher descobre isso, é capaz de cortar meu piru fora. 

Não sabes quem será meu companheiro, a mimosa. 

Uau, cuidado, vai te agarrar no carro.   A cara do Ray era de curiosidade.  James, rindo lhe disse, cuidado esses dois estão sempre assim, na brincadeira, contou a historia do mimosa. Ray até riu.  O pior que o coitado, tem três filhos, trabalha como um condenado.  Diz que não pode ir para casa, porque podem vir mais um.

Vendo o James contar a história, os dois ficaram olhando, olha só o garoto, contando nossos podres, o que vai pensar o Ray da gente.

Quando tudo funcionava, Higth começou a trabalhar.   James perguntou ao Ray, se ele queria um laptop, para se distrair, mas aviso, desde aqui estará censurado, não podes falar nada do assunto.   

Prefiro livros,  se alguém puder ir até a casa dos meus avos, faço uma lista dos livros, eu preciso estudar, tenho que manter as notas, para avançar no curso.

Por que foste escolher logo direito para estudar?

Pensei que meu pai ia gostar, mas eu não existo para ele.  Quando minha mãe morreu, logo em seguida se casou outra vez, sua mulher não pode me ver, é muito ciumenta, logo tiveram dois filhos, está o vigia como um bulldog.

Por isso fui viver com meus avôs.   Ela é muito boa comigo, o velho é meio ranzinza, mas nunca me tratou mal.

Irei até lá disse o Brad, assim vou ver se consigo que venham te ver.

Meu pai deve ter ameaçado os dois, não tem muito dinheiro, vivem da pensão do meu avô, sempre ameaça com dinheiro.   Eu quando entrei para a Universidade, consegui uma bolsa de estudos, pelas minhas notas.   Agora me arrependo, gostaria de fazer outra coisa, mas ainda não me decidi.

Brad, lhe deu papel, caneta, ele fez uma lista dos livros que queria.   Eu também gosto demais de ler.

A casa do Brad, parece um labirinto, é livro por todos os lados.

Ora a tua não fica atrás, o bom é que gostamos das mesmas coisas, um vai passando para o outro os livros que compra.

James soltou, Ray, cuidado, esses dois quando estão juntos não param de falar, parecem dois papagaios.

Olha o chefe mandou esses aqui para verificares tudo que possas encontrar sobre eles.

Ray, estava olhando pela janela, viu que as lagrimas caiam pela sua cara.   Que isso rapaz, James se sentou ao lado dele na cama.   Calma, tudo vai se resolver.

Estou chorando de inveja, nunca tive amigos assim. Com os que sai, os conheço da faculdade, mas não somos amigos, eu desapareci, nem sequer procuraram saber o que tinha acontecido.

Bom agora esta no meio de amigos.  Eu virei aqui duas vezes por dia, iremos conversando.

Na cabeça do Higth, isso era bom, pois James, tampouco encaixava com o resto dos policiais, era muito jovem, devia ter no máximo três a quatro anos mais que o Ray.  Teve uma infância infeliz, uma mãe alcoólatra, que gastava tudo que ganhava com bebida.  Agora andava sempre atrás dele, por pensar que ganhava uma fortuna na polícia.  Tanto que nem sabia aonde ele morava.   Seu apartamento era justo ao lado do Higth, era menor, quando ficou vago, ele o avisou, ficou como seu fiador.

Uma semana depois, saíram do hospital, Higth, tinha conseguido que a reabilitação fosse a primeira do dia, chegava no hospital as 7 da manhã, as oito Brad passava para leva-lo para a delegacia.  Ray estava usando o outro quarto do apartamento, ia acompanhado a faculdade fazer os exames.  Depois entraria em férias.

Não tinha conseguido capturar o polícia que tinha fugido, por isso, estavam sempre de sobre aviso.   Tinham encontrado em sua casa, vários passaportes numa gaveta.   O idiota não era muito criativo, os nomes, variavam em cima de seu próprio nome.   Agora tinha a Interpol bem como a CIA, atrás dele.

O caso do Ray, nem foi levado a julgamento, o juiz concordava com o Higth que ele era a vítima, não o outro.   Um dia conversando com o Higth, disse que idiota fui pensando que podias prejudicar minha carreira.  Agora vivo sozinho, amargurado, não sabes como esse caso mexeu com a minha cabeça.  Sabia que existia gente assim, mas claro, como juiz mantenho distância para analisar.    Mas desta vez trabalhei de cabeça no caso.              Posso te dizer que ver esses vídeos, me deu vontade de mandar todos esses filhos da puta para um paredão.

Agora que acaba a instrução, consegui vários juízes para estudarem a sentença de cada um.  Eu vou mais é sair de férias, tomar novos ares.   Olhou sério o Higth, queres vir comigo.

Higth, ficou sério, adoraria, mas nosso tempo já passou, agora que já ando normalmente, pretendo voltar a trabalhar nas ruas.

Um dia chegou para trabalhar, viu que Brad, conversava com Mimosa no carro, chegou devagar, foi dizendo, pode soltar o piru do meu namorado, mas parou, viu que mimosa, estava com os olhos cheio d’agua.  O que aconteceu?

Minha mulher me pediu o divórcio, diz que não aguenta mais meus pesadelos, que meus gritos de noite assustam as crianças, vai embora com elas para a casa de seus pais em Miami.   Não sei o que fazer.  

O que tens que fazer Mimosa, é procurar um psicólogo, teu problema, é que ficas com tudo guardado dentro de ti,  temos que colocar para fora tudo isso.

No dia seguinte, voltou a trabalhar com o Brad, este disse que desconfiava que o Mimosa tinha se apaixonado por ele.  As vezes no carro, olhava para o lado, ele estava me olhando fixamente.

Não sei se sou gay ou não, tive romances, mas estou a muito tempo sozinho, entendi que ter alguém é problemático.

Se ele está apaixonado por ti, ira conversar contigo, deixe que ele coloque para fora isso, é uma boa pessoa.  Mas realmente é uma maldade da mulher o separar dos filhos.

Me disse que ela não quer nada com ele a meses, que já fez de tudo para se reaproximarem, mas ela sempre diz não, que tem medo de ter mais filhos, ficar viúva, essas coisas todas.

Ele vai ficar  fudido, tendo que pagar pensão de três crianças.  Diz que vai ter que viver outra vez na casa de seus pais.

O departamento de polícia, devia ter apartamentos, para a quantidade de homens que perdem suas famílias por culpa do trabalho.

Higth se sentia vivo outra vez,  Ray, agora estava dividindo apartamento com o James, tinha arrumado um emprego na biblioteca da universidade.  Tinha sorte, de que seu caso não tinha saído nos jornais.   Quando estourou o caso, a única pessoa que apareceu, foi o Higth, por ter sido jogado do edifício, mas dele não falaram nada, afinal era menor de idade.

O do Mimosa, foi a pior, sua mulher foi embora com as crianças, bebia demais, os dois tentaram ajudar, mas não funcionava.   A coisa piorou quando o Chefe queria com a cara que tinha, se infiltrasse numa banda que estava distribuindo drogas.   Brad, Higth foram contra, porque sabia de sua situação.

Sabiam que o chefe tinha perdido uma promoção que queria muito, não se dava conta, mas agora quando dava ordens gritava, não admitia de maneira nenhuma ser contrariado.

Um dia tomando cerveja com o James, comentou, teríamos que começar a gravar todas esses gritos, essas ordens absurdas, porque um dia isso se vai virar contra nós.   Depois se esqueceu do assunto.

Mas quando deu a ordem ao Mimosa para se infiltrar, quase saiu nos muros com Higth, pois esse disse claramente que o outro não tinha condição psicológica para enfrentar um caso assim.  Por mais que argumentasse o chefe era irredutível.  Acabou o Higth dizendo que ele acabaria com o peso na consciência da morte do Mimosa.

Tentaram argumentar diretamente com este, mas ele disse que precisava desesperadamente de dinheiro para mandar para a mulher. Vai se o último que faça, o chefe me prometeu que se faço isso, me conseguirá uma aposentadoria antecipada.    Isso era impossível, a menos que ele saísse ferido no caso.     Não houve maneira, eles ficaram como elo de ligação do Mimosa, com a polícia.

Chegou duas vezes ao encontro, totalmente drogado, discutiram com ele sobre isso.  Tudo o que fez, foi falar alguma coisa no ouvido do Brad, este não quis contar o que era ao Higth.

Tentaram argumentar com o chefe outra vez, falaram que ele estava se drogando, mas nada, estavam desesperado, ninguém os escutava.

Uma semana sem dar notícias, acabaram encontrando o Mimosa morto.  Ficaram os dois arrasados, Higth perdeu o controle, entrou na sala do chefe, com o dedo em riste.   Te disse que o acabarias matando, pela autopsia, devem ter descoberto, pois ele tem picadas de agulhas por todo o corpo, isso não é normal, além da quantidade de drogas, encontrada no corpo, passa de uma overdose.

A única resposta ele estava fazendo seu trabalho.

Devias conseguir para sua viúva, um salário fantástico por isso.

Eu não prometi nada a ele.  Era um idiota, estava fazendo merdas aqui, arrumei esse caso para ele, mas meteu o pé na merda.

Quando comentou que o tinha avisado que ele estava se drogando, o chefe nem quis escutar.

Montou uma operação, para prender o bando.  Tudo muito mal planejado, os dois reclamaram outra vez.   No tiroteio, Brad levou dois tiros, uma em cada perna.  Higth teve o ombro esquerdo estilhaçado, teria que colocar uma prótese.

Estava furioso, depois da operação, ficou dias sentado ao lado da cama do Brad, resmungando.

Se vamos fazer alguma coisa, temos que ir a um juiz, poucos nos darão atenção, se trata de subordinados, contra seu chefe.   Não temos nada para provar.

Da porta James, perguntou, provar o que?

Comentaram, como podemos pedir a um juiz uma ordem contra nosso chefe, se não temos provas de nada.   Ele é culpado da morte do Mimosa, bem como uma operação mal planejada, temos aqui no hospital, mais três homens feridos.

Quero saber, se realmente querem ir contra ele.   Eu de qualquer maneira depois disso tudo, resolvi sair da polícia, vou montar uma empresa de proteção de dados, com o Ray.  Tem trabalhado comigo, só nos falta financiamento.

Higth sorriu, estamos falando de quanto, posso financiar, mas quem sabe preciso de emprego.

Bom, assim que pudermos falar, vamos fazer uma reunião em casa, mostro umas coisas.

Quinze dias depois saíram do hospital, o chefe não tinha visitado, nenhum dos feridos.

Na casa do James, já faltava espaço, para tantos computadores.  Higth ainda tinha o braço no cabresto, tinha perdido basicamente 50% da mobilidade.   Brad, levaria menos tempo em reabilitação.

Bom vocês disseram que não temos provas.   Higth, lembra que conversamos tomando uma cerveja?   Que me disseste que um dia tudo viraria contra vocês, porque ele não escutava.

Escutem isso, eram as discussões do Higth com o chefe, tudo o que esse tinha falado, os gritos, ameaças aos outros do departamento, tudo estava ali.    Mesmo suas conversas particulares, ele falando com um amigo, dizendo que esses idiotas mereciam morrer por discutir com ele, afinal ele era chefe para isso, dar ordens, certas ou erradas não importava.

Higth, perguntou ao Chaz, se ele tinha tempo para conversar com eles.   Depois do caso do Ray, tudo o que ele tinha ajudado a destapar, junto com a CIA e o FBI, tinha sido promovido, era coordenador de grandes casos.

Se vocês me chamam é por algum caso especial, claro que vou.

Quando viu o apartamento do James, disse, não estas outra vez trabalhando de Hacker?

Não, o senhor pode ficar tranquilo, tomou rédeas do assunto.   Depois da primeira discussão do Higth com o chefe, disse que nós íamos fuder, com o descontrole que este estava.  Eram contra o Mimosa infiltrar-se numa banda, devido seus problemas particulares, estava bebendo muito, já talvez nas drogas.     Depois tentaram que o chefe os escutasse, pois Mimosa apareceu para render contas, completamente drogado.   Posteriormente foi encontrado morto, com muitas picaduras de drogas.   A quantidade em seu corpo dava para provocar overdose em vários elefantes.  Posteriormente o chefe promoveu uma redada, sem preparação nenhuma, sem ajuda da SWAT,  que acabou com vários feridos, inclusive o Brad, destroçou o ombro do Higth.

Escute até o fim tudo.  A cara dele era espetacular, num determinado momento, abriu a boca, não a fechou mais.

Bom teremos que fazer um escândalo, pois ele tem apoio em altas esferas.  O jeito seria fazer esses ficarem contra ele.

Vocês façam a denúncia, vou aceitar, me deem uma cópia desse material.  Terei reuniões com essas pessoas que lhe cobrem, para ver quem vai apoia-lo, para poder montar nosso caso.  Mas seria importante James que instalasses um sistema desse no meu escritório.  Quero registrar a reação desses filhos da puta.  Vamos ver como saímos do caso.

Com tudo pronto, gravariam inclusive em vídeo os encontros.  Nenhuma câmera, dava mostrar de estar acesa. Instalaram um controle na sala ao lado.

Chaz, começou a conversar com o primeiro, quero que saibas, que o que vou te mostrar é um material altamente secreto, necessito que assines um termo de compromisso, que esta de acordo com o fato de ser confidencial.   Se vaza algo, saberei quem divulgou o assunto.

O deixou escutando a conversa.  A cara do outro era fantástica, o primeiro que soltou, era que não sabia nada disso.  Que podia contar com ele.

Deixou para último, justamente com quem o chefe tinha falado por telefone.  Este disse que de maneira nenhuma ia trair seu amigo, antigo companheiro.  Queria pegar o papel da confidencialidade para rasgar.  

Tu até podes rasgar, mas escute mais isso, era a chamada do chefe para ele, inclusive o que lhe tinha respondido.  Se isso vai a juízo, estarás no meio do furacão, te faltam menos de dois anos para aposentar.  Vai queimar isso, apoiando um louco?   Tens dois filhos na universidade, se lanço isso, ficaras sem aposentadoria, como vais fazer?

Não podes fazer isso comigo, arruinaria minha vida.

Teu amigo arruinou a vida de um oficial que estava sobre seu mando, o mandou a morte, depois que lhe foi negado o ascenso, virou outra pessoa, totalmente desequilibrada, não podemos ter como chefe de polícia, um sujeito assim.

Esse dois que vão apresentar a denúncia, são gays, além de dormirem juntos, usou na verdade a palavra fornicar.

Sim o Higth é gay, como eu também, queres que eu faça a listas dos comandantes gays da polícia?

A cara do outro era fantástica, acabou assinando.   Mas mal saiu as sala, tentou chamar o chefe por celular, o mesmo foi interferido pelo James imediatamente, cercado por policiais que vigiavam os corredores.

Foi preso em seguida, tinha rompido o compromisso de confidencialidade.   O Chaz, disse na sua cara, quem cagou tua aposentadoria, a vida de teus filhos na universidade foste tu.  Eles gostaram de saber que seu pai, dá mais valor apoiar um homem desequilibrado, do que a eles.

Deu a ordem de prisão, quando os homens da polícia judicial, entraram na delegacia, foram direto a sala do chefe, este saiu algemado, por ter resistido a ordem de prisão.   Quando o processo foi levado a cargo por outro juiz, ele inclusive ameaçou o próprio, dizendo que era mais poderoso que todos dali.   Perdeu seu cargo, todos os direitos de polícia, seu amigo idem, inclusive foi divulgado num processo a parte, toda a sequência em vídeo, em que ele assinava os papeis, em seguida sua chamada ao chefe, tentando lhe alertar do perigo.   Outro que apesar de ter costas largas, como o caso era mediático, ninguém quis apoia-lo, perdeu tudo também.  Ao mesmo tempo, conseguiram uma pensão robusta para a mulher do Mimosa.

Os dois pediram demissão da polícia iam trabalhar com o James, levar uma vida mais tranquila. Foram os quatro depois da firma montada, passar um final de semana numa praia, pois queriam relaxar-se antes de oficialmente abrirem um negócio.

Os dois dividiam quarto.   Enquanto esperava que Brad tomasse banho, tirou sua roupa, ficou só de cuecas, caiu na cama, adormeceu.  Só sentiu, uma mão lhe fazendo carinho na cabeça. Quando abriu os olhos, lá estava o Brad fazendo isso.  Sonhei muito com isso, agora que já não estamos na polícia eu posso fazer.  Os dois se gostavam, mas impunham limites.  Agora os limites tinha indo para a casa do caralho.  Ficaram depois abraçados na cama, sempre sonhei com isso.  Cada vez que tentava ter um relacionamento, buscava alguém parecido contigo, mas claro não era, desisti.    O que foi que o Mimosa falou na tua orelha aquela vez que o encontramos drogado.

Me disse para não perder tempo, que eu me declarasse para ti, ele sabia que eu gostava de ti. Podem me chamar de Mimosa, realmente fiquei louco quando vi o teu corpo, mas já sabia que amavas o Higth, como sei o quanto ele gosta de ti.  Um dia vocês estão velhos, amargados, pois deixaram a pele como polícias, chegarão à conclusão que não valeu a pena.

A empresa funcionou, não queriam ser uma grande empresa, apenas uma que podia atender os clientes honestamente.   Brad que tinha uma presença impressionante, fazia os contatos, eles o resto.

Um dia apareceram numa reportagem do Times, com dois jovens empreendedores na área de segurança de internet, podia fazer sucesso.  Na capa, James, Ray abraçados.   O pai deste veio falar com ele, que estava orgulhoso do filho.  Mas ele, simplesmente respondeu, que ele ao contrário não tinha orgulho nenhum de um pai que pregava uma coisa, se comportava de outra, não tenho nada para falar consigo.  Tenho uma família, que me cuida, não preciso de ti.

Quando viu que o pai ia falar merdas, lhe avisou, o senhor está sendo gravado, posso usar tudo que diga contra o senhor em qualquer processo.

O homem colocou o rabo entre as pernas, desapareceu da vida dele.

Ele tinha o Higth como um pai para ele, bem como o Brad, amava profundamente o James, era correspondido, o passado, sempre estaria em sua cabeça, apesar de todo tratamento que tinha feito.  Mas tinha superado tudo, graças a eles.

SLOANE

                                                          

Me despertei na minha tenda de campanha do exército, embaixo de um viaduto, quase fora da cidade, em Los Angeles.  Ah muito tempo vivia ali, com meus colegas deserdados do mundo, havia de tudo, mas principalmente ex-soldados  tanto do exército, como alguns da marinha. Me perguntei sempre por que quase não se via soldados da aeronáutica.   Minha cabeça explicava que eles não viam as vítimas que faziam.

Nasci numa cidade pequena perto de Tucson, durante toda minha vida só usei o sobrenome de minha mãe, Sloane, meu nome é Archibald, ou Archy, o Ben, atendo por qualquer  nome que  me chamem.  Não vou complicar a vida por culpa disso.   Quando nasci, meu pai que tinha uma fazenda perto dessa cidade, mantinha uma relação amorosa com minha mãe, ela era garçonete num restaurante.   Sua mulher se estava morrendo, como ele dizia, que se estava morrendo a vida inteira, porque sua chantagem era essa.  Queria ir embora dali para uma cidade grande, não suportava a vida no campo.  Então estava sempre doente.  Ele para se defender, teve várias amantes.  Minha mãe era a última.   Justo quando sua mulher verdadeira morreu, eu nasci.

Ele levou minha mãe para sua casa, assim cuidava do filho de 10 anos que tinha.  Mas quando nasci, ele ficou louco por mim, segundo ele éramos iguais.   Em compensação, meu meio irmão me odiou desde o momento que passei a respirar.   Quando era pequeno, fazia de tudo para que eu me desse mal.  Se estava passando, esticava o pé, para que eu tropeçasse.  Mas nesse ponto sempre fui inteligente, quando vi o que ia acontecer toda minha vida, o evitava o máximo, meu pai, fazia que não via nada.    Minha mãe morreu quando eu tinha 15 anos, a partir desse momento minha vida virou um inferno, como sempre meu pai defendia em primeiro lugar seu filho mais velho, um vagabundo.   Vivia na boa vida, eu ao contrário, depois das aulas, o ajudava em tudo que podia, sem reclamar.  Minhas notas na escola eram as melhores, meus dois amigos eram como eu, queriam estudar, sair desta cidade o mais rápido possível.  Estávamos sempre juntos, nunca estávamos jogando bola, ou basquete, nada, nosso negócio era estudar, passar a maior parte do tempo debatendo algum assunto, que em aula não tivesse ficado bem explicado.

Muita gente não entendia, eu era o mais alto, o mais forte, claro fazia todos os trabalhos duros da fazenda, o que comandava, além de proteger os outros dois.   Um deles, Ben era filho do xerife, desde criança tinha tido problemas de asma, bronquite, coisas do gênero, o outro Max era filho do dono do supermercado, um chinês.  Nunca permiti que abusassem deles.  No último ano, estava mais relaxado porque meu irmão estava fora estudando na universidade, com um certo atraso, pois era mal estudante.  Fazia direito, porque era o que permitiam suas notas, isso numa Universidade de pouca monta.

Nos ao contrário, tínhamos notas excelentes, podíamos nos candidatar a qualquer uma, pensava em fazer ou medicina ou veterinária.  Amava os animais.   Nas tudo foi para a casa do caralho, justo no dia do baile de formatura.  Desde que meu irmão não estava, meu pai permitia que eu usasse seu carro.  Os três íamos juntos, porque nenhuma garota tinha aceitado nossos convites para ir ao baile.   A única que aceitou o meu, me soltou na cara, que ia comigo, desde que eu não levasse meus amigos.  Claro preferi ir com eles, sempre nos divertíamos juntos.  Estudávamos juntos desde a primaria, não ia ser agora que eu os abandonasse só porque uma garota idiota me pedisse.   Éramos raros, reconheço, em comparação com os outros, nunca fumamos, nem bebíamos, drogas nem pensar, não podíamos imaginar fazer nada disso, que pudesse atrapalhar nossos planos.   Ben queria estudar Belas Artes, Max queria fazer Administração de Empresas.  Lá pelas tantas, ficamos de saco cheio do baile, no momento que iam coroar o Rei e Rainha do mesmo, saímos.   Entramos no carro rindo, comentando que realmente tinha sido uma perda de tempo, pois aquilo não era para nossas cabeças.  De soslaio vi uma pessoa se esgueirando pelo jardim, de longe parecia meu irmão mais velho, sempre terei essa dúvida na minha cabeça.

Estávamos comentando que eram nossos últimos dias ali, na segunda-feira iriamos todos embora, quando de repente, apareceu um carro negro, do meu lado, alguém que eu não via, jogou o carro contra o meu, controlei o mais que pude, enquanto os dois gritavam, quem é esse louco.  O carro acelerou, se adiantou, respiramos aliviados, mais adiante, havia uma curva muito pronunciada, com um barranco daqueles de filmes de bandidos.  O carro negro, saiu da lateral, nos jogando ribanceira abaixo.

Levei um bom tempo desacordado, o carro estava virado, como tínhamos os vidros abaixados, olhei meus amigos, todos os dois estavam desacordados, sai me arrastando, consegui tirar o Ben, que vi que respirava lentamente,  voltei por Max.   Mal sentia seu pulso, foi justo no momento, quando já estávamos uns cinco metros do veículo, ele explodiu.  Tentei reanimar o Max, pois tinha aprendido nas aulas como fazer.  Mas não tinha jeito, já não tinha mais pulso, me arrastei até o Ben, respirava muito lento,  justamente nesse momento chegou o xerife, com a ambulância.  Sentado com a cabeça do Ben nas minhas pernas, lhe expliquei o que tinha acontecido.   Ninguém tinha visto nada.  Me fizeram prova de alcoolismo, tiraram sangue, para ver se eu tinha drogas no corpo.  Disse ao Mark que ele sabia que a gente não usava nada, porque daquilo.    Ele me explicou que tinha que ser feito, pela morte do Max.  Seu pai quando me viu no hospital, me disse que tinha assassinado seu único filho.  Aquilo doeu, mas resolvi abaixar a cabeça.  Seria a primeira de muitas vezes que abaixaria a cabeça em minha vida.  Disse que ia me processar.

Meu pai não se moveu de casa, achei estranho isso, tampouco me defendeu, mais raro ainda. Só depois entendi que meu irmão tinha envenenado meu pai contra mim.

Por causa da denúncia, iria a julgamento.   Por sorte Ben, saiu do coma, contou ao seu pai o que tinha acontecido,  ele tinha examinado o carro, mas com o fogo, qualquer vestígio tinha sido apagado.  Era nossa história, contra a manipulação dos outros.  O advogado que iria me defender era o pior da cidade.   Meu pai não foi me ver nenhum dia em prisão.  Por minha sorte, Ben, convenceu ao seu pai de me proteger.  Seu argumento foi que eu o tinha protegido a vida inteira, que devia sua vida a mim, pois se não lhe tivesse retirado do carro, estaria morto. Embora iria viver sua vida inteira numa cadeira de rodas.

O juiz desestimou o caso, desde que eu fosse servir o exército, para aprender a me controlar, os boatos sobre mim, eram impressionantes.  O xerife dizia que quem espalhava era meu irmão.

Abaixei a cabeça, aceitei o veredicto, quem me levou foi o Mark, pois meu pai se negava falar comigo.   Mark com meu pai, tinham sido amigos a muitos anos atrás, não sabia por que  não se falavam.  Alguma coisa tinha acontecido nessa época.

Na viagem foi falando todo o tempo comigo, que não tinha acreditado em nada do que se falava, pois me conhecia, que me queria como seu filho.  Falou da minha mãe, da pessoa que era, então entendi que ele tinha estado apaixonado por ela.   Teu pai a levou para sua casa, para ser sua empregada doméstica, de cama e mesa, como ele dizia.  Os dois tinham ficados viúvos quase ao mesmo tempo.     Ben, tinha sido basicamente criado, pela irmã de sua mãe, que vivia com eles até hoje.  Eu chorando disse ao Mark, que maldita hora que tínhamos ido a esse puto baile.

Meu filho, quem fez isso, não se importava o mais mínimo, queria acabar com vocês de qualquer maneira.

Tentei várias vezes falar com meu pai, mas nunca atendeu o telefone.  Na véspera de embarcar para o Paquistão, telefonei outra vez.  Não sei se por causa da hora, ele atendeu o telefone, falava baixo, como se tivesse medo.  Vá com Deus meu filho, me perdoe se for capaz, eu te amo muito.   Lhe pedi que falasse com o Mark, que era o único que acreditava em mim.

Fiquei sabendo que tinha morrido, quase seis meses depois, através do Ben,  sempre nos escrevíamos.

Não sei por que, ou porque tinha madeira para ser um líder, me colocaram com um grupo além de multirracial, de pessoas obviamente com problemas.  Mas eu os levava bem.  Não permitia que ninguém fizesse maldade com eles, nem que se aproximassem para vender drogas.

Uma noite vinha de uma reunião com o comandante, quando fui atacado, eram três, mais altos, mais fortes do que eu.  Me deram uma surra de fazer gosto, ao final, abaixaram minhas calças, me penetraram um a um. Um deles disse, assim esse filho da puta, só porque é bonito, além de dar o cu para o comandante vai aprender, vai ser seu eunuco.   A voz ficou gravada na minha cabeça.

Um dos meus homens me encontrou, pensou que eu estava morto, foi correndo chamar o comandante, este veio com um médico, enfermeiros.    Passei muitos dias entre a vida e a morte na enfermaria.   O problema não tinha sido só o abuso sexual, tinham me cortado os ovos fora, só depois entendi o do eunuco.  Mas o comandante, fez o médico ficar quieto, pois poderia ser um grande escândalo.

Meus homens vinha me visitar sempre que possível.  Estavam agora ao mando de outra pessoa, fiquei uns 20 dias ali, quando voltei a mim, vi que a bolsa de urina, estava sempre cheia de sangue.   O médico me contou o que tinha acontecido.  Levará um bom tempo, até que deixes de mijar sangue.   Perguntou se eu sabia quem tinha feito isso.  Disse que não tinha visto os agressores, que só sabia que eram três, mas que não falaram em momento algum.   Em minha cabeça, seguiria escutando a voz, iria descobrir quem era, ajustaria contas.

O comandante me perguntou se eu queria dar baixa, eu disse de maneira nenhuma, já tinha consciência que não tinha para aonde ir.  Se saísse dali, iria fazer o que?   No exército pelo menos tinha um salario de sargento, com o tempo poderia subir mais.  Nos dias que estive de recuperação, fui aprendendo com o médico como tratar os pacientes.  Disse que faziam falta assistentes, enfermeiros, se eu não queria me candidatar.   Lhe disse que não.

Quando voltei para ficar com meus homens, nunca mencionei nada para eles, sempre se aproximavam de mim, dizendo, que se eu descobria quem tinha sido, eles me ajudariam a me vingar.   Eu tinha certeza que sim.

Fomos designados para mudar de local, iriamos para a frente.   Começaram as batalhas mais cruéis,  sempre estávamos como boi de piranha,  erámos os primeiros a enfrentar o perigo.  Treinava meus homens para aprenderem a observar, fiquem sempre atentos, não percam nada de vista.  Isso nos tornou mais fortes, estávamos sempre vigilantes.

Um dia no refeitório, tinha chegado um outro batalhão que tinham estado no mesmo lugar anterior que nosotros, foi quando escutei a voz, que soava sempre nos meus pesadelos. Com muito cuidado, observei quem era.  O sujeito estava falando uma série de besteiras, todos seus companheiros aplaudiam.  Levava a cabeça raspada, era muito forte,  eu não poderia com ele sozinho, mas tampouco queria usar meus homens.  Comecei a caça do rato contra o gato, o seguia sempre a distância.  Observei que era uma pessoa distraída, que usava drogas, por duas vezes vi seus companheiros, o ajudando a entrar na tenda, mas depois saiam.  Roubei na enfermaria, luvas, uma seringa com anestesia, bem como um estilete de médico.   Esperei a oportunidade, uma noite que estavam todos bêbados, mas o dito cujo drogado. Depois que o deixaram, entrei na tenda por detrás.  Tinham tirado sua roupa, ele estava só de cuecas, com a mão esquerda segurando seu pau.   Lhe dei a anestesia uma dose impressionante, depois descobri que tinha exagerado. Tinha colocado as luvas, assim não haveria impressões digitais.  Não só lhe cortei os ovos, mas todo o pau. Coloquei na mão esquerda, a que estava segurando antes, na outra mão coloquei o estilete.  Sabia que tinha cortado os meus ovos, com um igual.   Tudo isso não durou nem 15 minutos.  Voltei a minha tenda,  entrando por detrás.   Quando apareceu a polícia militar de manhã, me encontraram dormindo tranquilamente.   Quando o comandante me perguntou, disse a hora que tinha ido dormir, bem como todos meus subordinados concordaram.  Depois se descobriu que o mesmo, sempre maltratava os prisioneiros fazendo isso, cortando os ovos, para que não se reproduzissem.   Dizia as gargalhadas, que ele sozinho ia acabar com a ameaça de terroristas.

O levaram embora dali, nunca mais soube dele, seus companheiros também foram mandados para outros batalhões.  Mas tinha me vingado dele, pois ele comandava os que me tinham feito essa barbaridade.   No julgamento, um deles reconheceu que tinha sido ele que tinha me castrado, dizia que o mundo estaria melhor sem homens como eu.

Como não podia provar nada contra mim, segui a diante.  Fomos sim transferido para bases no Afeganistão, junto com o comandante.  Ele tinha especial trato comigo, um dia me chamou, me apresentou um rapaz, muito maltratado, dizendo que ele seria meu tradutor de Pastún, a língua local.  Apesar de que eu eram muito branco, no meu grupo tínhamos negros, descendentes de mexicanos, japoneses, como dizia um ajudante do comandante, toda a escoria americana.   Se sentiu  logo à vontade conosco, lhe conseguiram roupas limpas, o fizeram tomar banho, comer direito.  Ele não podia ir ao refeitório, mas sempre traziam comida para ele, deixou de ter a aparência horrível que tinha quando chegou.   Nos foi ensinando a língua, eu aprendi rapidamente, um dia descobri por que institivamente nos dávamos bem, ele tinha sido castrado como eu.  Quando viu minha cicatriz, me perguntou quem tinha feito isso, se eram milicianos  talibãs.  Foi quando me contou sua história.   Em garoto tinha sido vendido, porque era o menor, o mais frágil de uma família numerosa.  Foi treinado para se tornar a mulher, tinha que aprender a dançar, fazer sexo com os que pagavam mais.  Por isso lhe cortaram os ovos, para que tivesse uma voz frágil.    Tinha sido encontrado num lugar massacrado pelo talibãs, que antes tinham abusado dele.  O Comandante o mandou cuidar.   Este contou ao comandante o que era na verdade.   Tinha algum estudo, por isso podia ler as mensagens, bem como traduzir o que se falava.

Ficamos amigos, sempre nos acompanhava nas inspeções.  Eu sempre dizia aos meus homens que tivesse cuidado com as bombas terrestres.  Íamos sempre com cautela.    

O pior que aconteceu com o meu batalhão, estávamos no alto de um morro, quando vimos dois homens com um bando de garotos, colocando minas, um dos homens vigiavam, o outro ia dizendo aos garotos como colocar.           Massoud, me disse que quando os garotos acabassem, com certeza os matariam, sempre fazem isso.  Me mandou observar os garotos com o binóculos, são todos muito frágeis, era verdade, eram muito magros, mal aguentava o peso das bombas.  Mas um deles, se via que era o maior, o homem não saia de perto.               Massoud, me chamou atenção para as calças do mesmo.  Esse filho da puta abusou desse garoto.  Falou isso com a voz cheia de ira.

Dei ordem para os homens se dividirem em dois grupos, iriamos por cima dos morros que cercavam a estrada, só assim podíamos pegar os dois, sem atingir muito as crianças.  Estavam tão atentos no que faziam os garotos, que não os viram se aproximar.  Seu melhor franco atirador, atirou no que vigiavam, pois, sua arma era a mais perigosa.  O outro simplesmente pegou o garoto que estava manchado de sangue, pelo pescoço se escondendo atrás dele. Gritei aos garotos que colocassem as bombas terrestres tranquilamente no chão, que corressem a se abrigar.  Claro falando em Pastún.     O homem ameaçava em matar o garoto que tinha seguro pelo pescoço.  Massoud, gritou alguma coisa que não entendi, o garoto soltou a bomba que tinha na mão, fazendo com que os dois fossem despedaçados.

Ganhamos todos uma condecoração, pois por aquele lugar, passaria mais tarde um comboio com um general.     Só quando tive a oportunidade, foi que perguntei ao Massoud o que ele tinha gritado.  Ele me olhou muito sério, lhe disse para se vingar, que soltasse a bomba que tinha na mão.  Se eu estivesse no lugar dele, depois de um abuso era o que faria.

Meus homens de uma maneira ou de outra, vinham todos de lugares complicados, outros de orfanatos, alguns tinham sido abusados na sua juventude.

Não disse nada ao comandante, nenhum deles mencionou que o Massoud tinha gritado alguma coisa ao garoto.

Meses depois nos vimos na mesma situação, agora era um grupo de meninos, que quando muito deviam ter uns 7 ou 8 anos.  Mal conseguiam carregar as bombas terrestres, desta vez eram três, um vigiava, os outros dois iam fazendo buracos para colocarem as bombas.  Desta vez não havia morros para nos proteger.    Alguns dos garotos, tinham as calças manchadas atrás, sinal de que tinham sofrido abusos.  Foi difícil nos aproximar, quando dei a ordem os garotos foram metralhados pelo que fazia a guarda, dos adultos foi o primeiro eliminado. O segundo pegou um garoto pelo pescoço, o segurando no alto, com uma arma na cabeça, o outro tinha dois garotos presos pelo pescoço.  Tentei me aproximar, procurando um ângulo para atingi-lo, mas os dois garotos, já estavam a muito tempo segurando as bombas, ao verem seus companheiros mortos, soltaram as mesmas,  recebi em pleno rosto alguma coisa que não sabia o que era, morreram dois homens do grupo, quando me atenderam, viram que tinha um pedaço do revestimento da bomba encravado na cara.  Me disseram não tire, pois poderias dessangrar.

Voltamos ao acampamento, levando nossos mortos, só um dos garotos tinha sobrevivido.  Massoud disse que o melhor seria se ele tivesse morrido com os outros, dois traumas, ter sido abusado, ver como esses filhos da puta massacravam seus amigos.

Tinha que concordar com ele, pois eu já sabia, que teria pesadelos com tudo que tinha visto.  O Médico me disse que tinha tido sorte, com muito cuidado, retirou o pedaço que estava na minha cara.  Brincando comigo, disse que eu deixaria de ser bonito.  Ao retirar a peça entendi, pois comecei a sangrar muito, até conseguir controlar a hemorragia, dar os pontos, foi muito tempo, depois tive uma infecção, uma espécie de rejeição a sutura.  O jeito foi usar grapas, minha cara ficou um verdadeiro carnaval.

Enquanto isso, um outro sargento, levou meus homens diretamente a tumba, pois não tinha muita experiência, nem o Massoud, escapou.  Só sobrou um, porque pensaram que estava morto.  Foi ele quem contou tudo depois.

Eu resolvi, pedir a baixa, de qualquer maneira teria que ir para um hospital na Alemanha para refazerem a parte da minha cara que tinha tido rejeição.  Acabei ficando com uma cicatriz que travessava todo meu lado esquerdo, como um zig-zag.              Poderia ter pedido uma cirurgia estética, mas essa cicatriz era como minha alma, andava em zig-zag.   Fiquei quase três meses na Alemanha, de lá chamei Mark, o vi desanimado, me disse que Ben, estava numa fase complicada.  Consegui que pagassem minha viagem até Tucson, ele foi me buscar no aeroporto.   Eu o vi muito envelhecido, vamos ver se com tua companhia Ben, melhora, está internado.  Não sabemos quem lhe fez isso.

Lhe perguntei isso o que?

Pois lhe atropelaram, fugindo em seguida, o deixaram atirado na rua, ele tinha o hábito de sair tomar uma cerveja para se relaxar, não me deixava acompanha-lo.   Está em coma, já mais de 15 dias.

Por isso, resolvi traze-lo para cá, esta longe da nossa cidade.  Disse a ele que o queria ver, ao mesmo tempo tive que lhe contar por que tinha essa cicatriz na cara. 

Me disse que meu irmão depois de ter vendido a fazenda, acabou voltando depois de gastar tudo, comprou uma terras que não servem para nada, tampouco as trabalha, vive de fazer merdas.

Quando chegamos ao hospital, ao ver Ben, fiquei impressionado, quem poderia fazer mal a ele, parecia menor do que eu me lembrava.  Tinham sido os anos numa cadeira de rodas, segundo seu pai, passava todo tempo desenhando. Com muito custo consegui que fizesse reabilitação, agora andava de muletas, quem fez isso , fez de proposito, pois teve que subir na calçada para atropelar meu filho.

Eu intuía que tinha sido meu irmão, como alguém podia ser tão mal assim.

Dois dias depois, Ben despertou, ao me ver, ficou contente, me confirmou que tinha sido meu irmão.    Lhe disse que ficasse quieto, eu ia nos vingar, não fale com teu pai, porque ele vai me fazer tentar desistir.  Já nos fez isso uma vez.

Aproveitei que meu irmão não sabia que eu tinha voltado, pedi o carro do Mark emprestado, me escondi, fiquei observando, dia trás dia, Massoud dizia que a vingança não resolve, mas que ajuda, ajuda.

Descobri aonde era sua casa, seus hábitos.             Tomei uma decisão, ele ia se arrepender amargamente de ter  destroçado nossas vidas.     Fui o mais longe possível, comprei o que necessitava.  Cheguei sorrateiramente a sua casa.   Estava sentado na frente da televisão, completamente bêbado, se masturbava, vendo um filme pornográfico, para minha surpresa de homens.   Gritava, vamos enfia no cu desse bastardo todo seu caralho.  É o que merecem, eu fiquei um segundo impressionado, ao notar o ódio de sua voz.

Me arrastei atrás do sofá, lhe injetei um produto que o faria ficar imóvel, mas consciente.  Quando me viu seu olhar era de ódio, quando viu a cicatriz da minha cara, sua boca fez como um esgar, como dizendo, bem feito filho da puta.   Lhe perguntei se fora ele que tinha nos jogado fora da estrada, pisque duas vezes.  Piscou, lhe fiz a mesma pergunta a respeito do Ben, piscou outra vez.  Eu agora era muito forte, o levei a uma mesa da cozinha, daquelas imensas de madeira, tirei toda sua roupa, lhe disse vais sentir na pele, o que é fazer maldade.

Lhe cortei abaixo da mão a pele, fiz como os índios, das historias que lia quando criança, retirei a pele até o cotovelo, depois cortei, fiz o mesmo quando ele recuperou os sentidos, com o outro braço, depois fiz nas pernas. Sabia que sofrimento era atroz, mas tinha tanto ódio por esse idiota, que já sequer me importava porque tinha feito tudo isso. Não o matei, como faria com qualquer outro inimigo.   Juntei todos os moveis de madeira, coloquei as cadeiras embaixo da mesa, tudo isso usando luvas, tirei o avental que tinha usado, derramei gasolina que tinha encontrado no seu carro. Isso tudo ele estava vivo, me olhando horrorizado.  Ao final lhe disse, isso tudo por tua maldade.  Olho por Olho. Acendi um fosforo, atirei na gasolina.   Sai pelas traseiras que dava para um bosque, fiquei lá observando.  A casa era pequena, foi rapidamente devorada pelo fogo.   Caminhei até aonde tinha deixado o carro.  Voltei para o hospital, disse ao ouvido do Ben, tudo resolvido, já não vai mais nos incomodar.

Quando seu pai veio no dia seguinte, nos contou o que tinha acontecido. Nem sabemos se é ele que esta morto, pois o fogo devorou tudo.   Virou-se para mim, me perguntando aonde eu tinha indo no dia anterior.   Estive aqui com o Ben,  ajudava as enfermeiras a cuidar dele.  Dormi aqui.  Ben, disse que era verdade.

Virão por ti, me disse o Mark, agora sabem que estas aqui, melhor ires embora rapidamente, me estendeu as chaves de um carro.   Esse carro era de minha mulher, o conservei porque ela adorava o mesmo, para que um dia o Ben, pudesse ir a universidade com ele.  A mim não me importa se foi tu ou não quem matou teu irmão.  Era um bom filho da puta.  Disse aonde estava o carro, tem o tanque cheio, cortesia da casa.   Peguei o meu macuto, fui embora.  Entrei na clandestinidade, pois havia uma busca da minha pessoa.  Deixei o carro num estacionamento de Hollywood, telefonei ao Mark que viesse buscar.   Não te preocupe, limpei tudo, nunca saberão que fui eu que o usei.

A partir desse momento, não poderia mais receber meu dinheiro do exército,  meu último ato, foi sim retirar o dinheiro que tinha no banco.  Consegui novos documentos, com o nome de Ben Harper, um músico que admirava.   Desde então vivo nas ruas, mas sem me drogar, beber, nada disso.   Estou contando isso, porque ontem encontrei um dos poucos sobreviventes do meu batalhão.   Ele me reconheceu, a cicatriz confirmou.   Sentou-se ao meu lado na praça aonde estava tomando sol.  Te procurei, me disseram que tinhas morrido, que teu irmão tinha te matado.

Quem disse isso?

Mark, o xerife da tua cidade.  Disse que o prazer do teu irmão tinha sido tentar destruir tua vida anos após anos, que era o culpado de tudo.  Que o ADN, do cadáver encontrado na casa dele, era o teu.  Que depois tinha desaparecido.   Perguntou aonde eu vivia, lhe respondi que nas ruas.

Este me disse que graças a mim, tinha consertado sua vida, que sempre se lembrava dos companheiros. Você nos protegeu todo o tempo que foi nosso encarregado.  Eu levei anos em tratamento, agora estou estudando novamente.  Disse que estava em Los Angeles de passagem, que ia para Vancouver aonde tinha outros amigos.   Ainda me convidou para ir com ele, lhe agradeci, mas estava farto de ver as pessoas que gostava sofrerem por minha causa.

Tarde da noite, chamei a casa do Mark, atendeu sonolento, lhe disse quem era.   Meu filho, eu convenci o juiz que quem morreu foste tu.  Estas livre, podes sair a luz aonde queiras.   Perguntei pelo Ben, me disse que já estava andando outra vez.   Fala muito de ti, alguma coisa na sua cabeça ficou abalada pela sua caída.   As vezes fala contigo durante a noite, vamos nos mudar, comprei uma casa na praia, mais abaixo de San Francisco.  Mas conservarei esse celular para escutar tua voz.   Só lhe disse, diga ao Ben, que sinto muito tudo isso.

Já não estava seguro ali, duas pessoas sabiam aonde eu estava.  Como quem não quer nada, arrumei minha mochila, nunca precisei de muita coisa.  Fui atravessando o pais, até chegar a New York.  Ia ganhando a vida, fazendo pequenos trabalhos, fui me especializando em ser enfermeiro de pessoas com problemas decorrentes da guerra.   Finalmente arrumei um emprego num hospital em Washington para combatentes.  Me candidatei ao emprego, embora tivesse medo de encontrar alguém.  Quem encontrei anos depois, pois a família o internou, por problemas psicológicos decorrentes da guerra, foi o comandante.  Ele em seus momentos de lucidez, me reconhecia, me olhava nos olhos, mandei tanta gente a morte, quando quem deviam ir as batalhas, eram os quem as causavam.

Pedi para cuidar desse paciente, um dia um filho dele veio visitar, tinha a mesma idade que eu tenho.   Me olhou diretamente nos olhos, agradecendo que cuidasse de seu pai.  Quando voltou, falava muito nos seus soldados, se culpava por tê-los mandado a morte.               Eu e meu irmão, rompemos a tradição da família, todos os filhos homens tinham que servir ao exército.        A nos disse que não, que não queria que fossemos iguais a ele.   Ele era o único que visitava o pai, um dia que ele estava bem da cabeça, conversando comigo, este apareceu.            Seu pai lhe disse, lembra-se do soldado que te falava, que era inteligente, protegia seus soldados, é este, em seguida, voltou ao seu estado catatônico.

Não se preocupe, eu nunca fui soldado, mas deixo que faça essa confusão nos seus momentos de lucidez.

Um dia me convidou para sair, se eu gostaria de ir jantar com ele.  Tentei negar, não queria me meter em confusões.   Um dia desses lhe respondi.  Todas as vezes que vinha ver o pai, sorria, dizendo, estou esperando.

Um dia, aceitei, coloquei a melhor roupa que tinha, mas lhe disse, vamos a um lugar simples, não estou acostumado a lugares com muitas pessoas. Na verdade, só tomava o café da manhã no pequeno apartamento que tinha.  O resto do dia como estava no hospital, comia lá, embora a comida fosse horrível, para mim era comida.

Eu ia te levar para comer na minha casa, mas depois pensei que podia te assustar, pois eres muito arrisco.  Fomos a uma dessas lanchonetes tradicionais, com seus hamburguês, com batatas fritas.   Lhe disse que tinha comido bem, pois comia sempre as do hospital.  Foi me levar em casa, lhe convidei para subir.  Ficou impressionado, pois meu apartamento era minúsculo, mas limpo. Tudo estava nos seus lugares, pilhas de livros, lhe disse que sempre estava lendo, para me relaxar.  Acabamos fazendo sexo, quando viu que eu não tinha os ovos, já sei quem é você, meu pai falou de ti, mas contou que tinhas morrido. 

Sim, morri a muito tempo atrás, mas não quero falar nesse assunto ainda não.  Pois no momento que fale dele, terei que ir embora, é isso que queres?

Na vez seguinte, me convidou para ir a sua casa.  Vivo no apartamento que foi de meus pais, meu irmão mais velho, tem carreira diplomática, se casou, atualmente está servindo em Moscou, que ele odeia.

Lhe disse que preferia fazer sexo com ele, no meu apartamento, que não tinha luxos, mas era o meu lugar.  Todos meus dias livres passava com ele.   Um dia que seu pai, estava melhor, nos olhou um ao outro, sorriu, disse ao filho, já não estas sozinho não é. Agarrou nossas mãos, te deixarei em boa companhia.

Quando ele morreu,  deixou para os filhos, uma boa herança, sua mulher tinha muito dinheiro, ele nunca tinha tocado na fortuna dela.  Todos seus bens eram para serem divididos.

John o meu amante, disse que assim poderia deixar de trabalhar numa coisa que não gostava, era advogado do congresso.   O que achas de irmos viver num lugar que me tocou da herança, uma cabana a beira de um lago, aonde ele nos levava em criança.

Fomos a primeira vez para olhar.  A cabana estava mal conservada, mas entre os dois a consertamos, passamos a viver ali.  Só íamos a cidade para fazer compras, tirar algum dinheiro do banco, nada mais. 

Depois de dez anos vivendo juntos, um dia fazendo isso, quando entramos no banco, o mesmo estava sendo assaltado, ele me disse, vamos escapar, lhe disse para se deitar no chão como os outros. Mas alguém fez soar o alarma do Banco, os bandidos começaram a matar um a um, quando o mataram, perdi a cabeça, me apossei da arma de um deles, matei os outros.  Com isso acabaram descobrindo quem eu era.  Mas nada me importava mais, pois tinha perdido a pessoa que amava.  Mas um descuido, escapei, pensaram que eu estaria na Cabana, mas nessas alturas eu já estava longe.   Tinha sobrevivido a muitas coisas, mas agora me sentia sem forças.  Me lembrei das historias da minha infância, que falavam dos índios,  como morriam.  Foi o que eu fiz, construí uma armação como a deles no meio de uma floresta,  vesti minhas roupas militares, com todas suas medalhas que me tinha acompanhado a vida inteira, subi, me deitei, com minha navalha, que estava bem afiada, cortei minha jugular, agora iria descansar, pois estava realmente muito cansado.   Estive ali embaixo, vendo meu corpo se desmanchar, dia a dia, até que John, veio me buscar.   Creio que levaram muito tempo para descobrir meu final, mas isso já não importa mais.  Estou em paz.

MARCONDES

                                                            

Estava martelando, sem parar a mesma peça de metal, estava completamente disforme da ideia original.  Tudo porque não podia se concentrar.  Repetia sem parar a palavra “MERDA”, desta vez fui longe demais.

As vezes fazia isso, por impulso, não por maldade, já sabendo quem era o garoto, porque tinha levado ao seu pseudo quarto, que não passava de umas cortinas velhas, aonde escondia sua cama, uma arara com roupas, nada mais.  Sabia que ele veria em seguida a foto do Carlos.  A princípio quando pegou sua mão, ficou intrigado, porque via um Oxóssi, cercado de orixás mulheres, todas da água.  Nem sempre se via isso.  Mas ele estava com o André Fontoura, que ele sabia que era irmão do Carlos.

O André na verdade não sabia quem ele era, como o garoto, só entendeu na hora que viu a fotografia do irmão, quando jovem.   Mas a merda estava feita.

Mesmo que tivesse oferecido a escultura do Oxóssi, sabia que o garoto, não voltaria para buscar. 

Agora tinha vontade de dar com o martelo na própria cabeça.  Sempre fazia essas cagadas monumentais, como dizia uma conhecida sua.

Marcondes, parece que tens o prazer de cagar justo da entrada.  Será possível, não me admira que estejas sempre sozinho.   Ninguém pode aguentar uma coisa desta.

Nunca tinha podido se perdoar o que tinha feito com o Carlos.  Tinha sido o único homem que ele tinha amado.  Fez tantas merdas, mas tantas, que esse acabou se largando, não só dele, mas da cidade.

Depois ficou como um louco procurando, mas já era tarde.  Tinham se passado mais de 10 anos, ele continuava sozinho.   Tinha um método infalível para afastar as pessoas de cara.  Chegava depois de um tempo paquerando, colocava sua mão, que na verdade eram imensas, no ombro da vítima, com ele dizia perguntava, “pode ser ou está difícil”,  as pessoas se assustavam, davam no pé.   Só algum louco, que ao tocar ele percebia que lhe dariam problemas aceitavam, mas era ele que saia em disparada.

Desde criança seu pai lhe dizia, garoto, “malandro que é malandro não bobeia”.

Ele era filho único, seu pai tinha uma oficina mecânica, justo aonde agora ele tinha seu atelier de escultura.  Sua mãe, era costureira,  uma parte do ano, se dedicava as suas clientes, mas quando se aproximava o carnaval, pedia desculpas, mas tinha que preparar as baianas da sua escola de toda vida.  O Salgueiro, a vermelha e branco do seu coração.  Já seu pai, era da ala dos compositores.   Ele para complicar, não sabia sambar.  Alguns dizia, com esse tamanho todo, era impossível.  Tinha dois metros e dez de altura, um puta corpo, parecia que tinha ido ao ginásio o dia inteiro.  Mas não, era do seu trabalho, passar o dia marretando metal para dar forma.   Se alguém entrasse no atelier, veria sua pele negra brilhando.  No carnaval, aceitava era sair em algum carro, com alguma fantasia que representasse algum orixá. Mas na verdade os carnavalescos queriam que ele fosse semi nu, para chamar a atenção, nos primeiros anos, isso lhe fazia graça, porque depois era assediado.  Isso na época ele gostava.

Mas claro se metia em cada confusão de fazer gosto,  não entendia, escolhia as pessoas, mas eram sempre as erradas.  Mas não lhe importava muito, porque ele não se apaixonava.  Sua única paixão verdadeira era seu trabalho.

Quando era criança, era magro, podia comer o que quisesse, mas continuava magro, algumas mulheres diziam a sua mãe, leva no médico, que com certeza é lombriga.   Ela ia, mas os mesmos diziam que ele não tinha nada.

O que gostava era de ficar na oficina mecânica do pai, juntando parafusos, porcas, tudo que era jogado fora, para montar figuras.     Em vez de pedir brinquedos, pediu ao pai, uma soldadora, já que ele não o deixava usar a da oficina.   Foi o melhor presente que ganhou.  Estava sempre por ali, depois das aulas, montando coisas.   sua primeira obra de arte, sem dúvida nenhuma, depois de uma bronca fantástica do pai,  foi ter roubado uma parte do motor, criando um Don Quixote, estavam estudando sobre ele na escola.  Montar um cavalo, com o homem em cima.

Seu pai, viu que os funcionários, estavam todos olhando o que ele fazia.  Quando se aproximou, viu que a peça que estava procurando, estava na figura que ele tinha montado.  Na hora ficou furioso, mas um cliente viu, perguntou o preço.   O pai vendeu para comprar a mesma peça.

Não lhe interessava nenhum instrumento da bateria da escola de samba.  As aulas de desenho da escola ele era o fodão.  Seus desenhos eram disputados pelos professores.   Sua professora preferida, um dia quando ele estava para terminar a escola, foi falar com seu pai.  O senhor me desculpe me intrometer, mas acho que seu filho devia estudar Belas Artes.   É um artista nato.

Seu pai ficou olhando para essa mulher, sua única pergunta foi.  Dá dinheiro isso?

Se ele for bom, ganhará muito dinheiro.   Essa era um verdade que se confirmou.  Cada exposição sua, vendia tudo.   No momento, estava na última figura que tinha que fazer para uma exposição que aconteceria dentro de pouco.   Mas não conseguia se concentrar.

Quando foi para a Faculdade de Belas Artes, ele inicialmente destoava de todo mundo, era negro como a noite, dentes brancos, tinha mais de dois metros de altura, magro, as calças sempre eram de pescador, ou seja, sempre estavam curtas, por mais que sua mãe arrumasse, não dava certo.  As camisetas ficavam sobrando no seu corpo, curtas ao mesmo tempo.  A turma se dividia entre uma maioria de alunos da Zona Sul, todos tinham cabelos compridos, se vestiam como hippies, mas viviam em belos apartamentos.  Alguns da Zona norte, tijuca principalmente.

Eu era do Andaraí, da rua Silva Teles, ali perto do Salgueiro. Todos os garotos da rua, me sacaneavam, pois de samba não sabia nada.  Cantavam “ quem não gosta de samba, ou é ruim da cabeça ou doente do pé”.    Se encaixava comigo.  Agora que ia a Faculdade, que estava sempre com uma pasta cheia de desenhos, a coisa ficava feia.  Achavam que eu pensava que era bacana.  Mas o pior era não encaixar nem em um lado, tampouco em outro.   Meu pai agora deixava que ocupasse um pedaço do galpão, para fazer minhas esculturas.   As desenhava, colocava o papel na parede, começava a executar.   Podiam me chamar, gritar, tudo o mais, mas eu estava no meu mundo.

Oitenta por cento dos estudantes eram gays.  Eu um idiota que não sabia de nada, sem experiencia nenhuma em sexo, pois era tímido.  Me convidavam para ir a alguma discoteca na zona sul.   Inventava desculpas para não ir.   Um dia meu pai me chamou de lado, olhou bem na minha cara.   Não podes passar o dia inteiro, batendo metal, tens que sair, se divertir.  Não gosta de samba, não passa nada.  Nem por isso vou brigar contigo.  O mesmo, não gosta de mulheres, tampouco passa nada, eu simplesmente te amo meu filho.  Só não quero que te mistures com os meus empregados, pois senão perco o respeito.           Nem olhava para eles. 

Um belo dia, aceitei o convite de um grupo da Tijuca, para ir a Copacabana no final de semana, ir as discotecas, sei lá fazer um programa.  Eu bebia pouco, quanto muito uma cerveja.  Tinha vendido uma escultura, tinha dinheiro meu para sair.

Mas de cara, bateu que eu destoava de todos.   Eram brancos, se juntavam com outros brancos, o que fazia eu ali no meio.  A conversa deles, sobre os homens com quem tinham feito sexo, me incomodava.    Estávamos num bar da avenida Atlântica, o Bierhause, já não existe mais.  Vi um homem me olhando muito sério.  Me chamou a atenção, estava cercado por outros que estavam rindo o tempo todo, como meus amigos, mas ele estava sério me olhando.

Fomos embora, venham diziam alto, vamos ao Sótão, uma discoteca gay, que nem sei se existe.

Lá fomos nós, eu desengonçado no meio daquela turma toda, era o mais alto, sentia que meus braços apesar de fortes, me pareciam compridos, não sabia o que fazer com eles.  Se metia no bolso, ficava parecendo um idiota, se os deixava caídos sem se moverem, parecia um retardado.  Sem querer olhei para trás, o outro grupo como que nos seguia.  O homem não parava de me olhar.  Quando entramos na discoteca, todo mundo foi buscar bebida, eu pedi só uma garrafinha de água.  Já tinha bebido o suficiente.  Eles ao contrário não paravam. Riam se divertia, eu ao contrário não sabia o que fazer.

O homem se aproximou, sorriu timidamente, começou a puxar conversa.  Saímos dali, fomos nos sentar na praia.  Sem querer pela primeira vez, conseguia conversar com alguém.  Me disse na cara que eu parecia desenturmado.

Sim, são companheiros da faculdade, nunca sai com eles, não gosto dessa confusão, nem sei o que estou fazendo aqui. 

O que gosta de fazer?

A minha resposta me pareceu idiota.  Trabalhar, criar coisas, estar sempre ocupado.

A conversa virou-se para o lado da arte, ele também gostava de esculturas, mas não tenho dinheiro para comprar.  Tive que ir trabalhar num banco, porque meu pai me expulsou de casa, me viu dando um beijo num garoto vizinho.  Tenho três irmãs, um irmão menor.  Temos uma diferença de idade grande.  Me disse na cara que não queria mais uma mulher com o piru entre as pernas, que eu seria mal exemplo para ele.

Moro na Prado Junior com um dos meus amigos do banco.  Estou esperando um apartamento no mesmo edifício, agora estou ganhando mais, posso pagar.  Não sou burro, já que não podia fazer uma faculdade, fui estudando para subir dentro do banco.  Só não gosto de ficar contando dinheiro dos outros.

Quando vimos o dia começava a amanhecer, não tínhamos parado de falar, nenhum tinha perguntado o nome do outro.  Finalmente me perguntou como me chamava, Marcondes, o teu?

Jose Carlos, mas todo mundo me chama ou de Zé, ou de Carlos, prefiro o segundo, tem muito Zé nesse mundo.

Teus amigos já devem ter ido embora, queres ir dormir lá em casa, meu companheiro de apartamento, nos finais de semana fica na casa da namorada.

Não sabia o que fazer, ele viu minha dúvida, se não quiseres fazer sexo, não me incomodo, gosto de ir devagar.   Concordei, eu tremia como vara verde, tudo o que ele fez foi me dar um beijo, meio prolongado.  Nunca tinha beijado ninguém.  Mas despertei abraçado com ele. Ele encaixado em mim.  Ele me olhou, estava excitado, eu também,  muito lentamente me foi ensinado o que fazer.  Quando vi estávamos fazendo sexo.  Eu como um louco, adorando tudo.

Não queria sair daquela cama nunca mais.  Telefonei para casa, contei uma mentira que tinha ficado tarde, que tinha dormido na casa de um amigo.   Que ia almoçar com a turma toda.

Ficamos ali falando, mas eu só queria beijar, nunca tinha gostado de ninguém.  Nos despedimos, marcando de nos ver no sábado seguinte.  Ele me deu seu telefone, ficamos de nos falar a noite.   Eu passava o tempo todo pensando nele.  Durante as aulas, desenhava seu rosto várias vezes seguida, buscando a perfeição.   Minha mãe foi a primeira em desconfiar, o que estava acontecendo, tens cara de quem estas apaixonado.   Ficas horas no telefone, falando baixinho.

Meu pai, cortava logo, deixa o menino em paz.  Se está apaixonado, isso é com ele.  Não temos nada com isso.  Minha mãe como todas, era aquela cega, que via, mas fazia questão de não ver, nem saber de nada.   Meu velho nesse sentido era porreta,  só me disse no ouvido, use proteção para não pegar nenhuma doença venérea.

Comecei a fazer uma escultura com o rosto dele, dizendo que era um trabalho da Faculdade, queria lhe dar de presente.   Ele quando viu os desenhos, me beijou, pegou minhas mãos, disse que nunca tinha gostado assim de ninguém.  Contigo posso falar.  Os outros, só querem fuder, adeus, nunca mais sei deles.  Sempre achei que era um chato, por isso me abandonavam.

Nos víamos todo final de semana, saiamos, ir ao cinema, que havia embaixo de sua casa, filmes de arte, ficar abraçados na cama, comer no Cervantes.  Para mim era o céu.

Trazia os desenhos dos trabalhos que tinha feito na escola.  Me incentivava. Contei que um dos colegas me disse que fizesse as esculturas em pequeno, que eram fáceis de vender na Feira Hippie da General Osorio em Ipanema.  Fomos um domingo lá olhar, meu colega tinha uma banca, me apresentou a organizadora, essa me disse que levasse alguma peça, os desenhos.

Carlos me disse, tens que começar por algum lugar.  Por que não tentas?

Preparei as peças, os desenhos em separado, telefonei para a senhora, fui lá levar, gostou de tudo, me disse quanto custava, ter uma banca.   Falei com o meu pai, foi logo me ajudando, tens que ter uma banca ou mesa que seja fácil de levar.  Ficamos os dois lado a lado, como pai, filho, construindo algo.   Ficou uma mesa espetacular.   Depois ele começou a fazer para todo mundo que gostava.

No primeiro dia Carlos foi comigo.   Lá pelas tantas apareceu meu pai, os apresentei.  O olhou de cima a baixo, Carlos como sempre muito sério.  Estas em boa companhia, me disse, não tinha gostado do pessoal de Belas Artes.   Nesse dia vendi 80% das peças, todo mundo dizia que era sorte de principiante.   Carlos que tinha andado pela feira inteira me disse, claro tens um material diferente de todos.  Tens que fazer uma coisa, criar sempre coisas novas, porque na semana que vem alguns já viram teu trabalho, vão fazer igual.

Não acreditei muito, mas era verdade, na semana seguinte, tinham dois com obras quase iguais as minhas, mais baratas.  Vendi menos.

Carlos me disse, acredite em mim, quando falo as coisas, sei o que estou falando.

Meu pai agora, perguntava sempre por ele, se tudo ia bem.

Gostava disso, poder me abrir com meu velho.  Ele passava a mão na minha cabeça como fazia o Carlos.   Não fale com sua mãe, é tão devota que não entenderia.

Passei a ter peças diferentes a cada domingo, sempre vendendo bem.  Disse ao Carlos que juntava dinheiro se por acaso um dia quisesse dividir apartamento comigo.  Mas eu precisava de um lugar aonde pudesse trabalhar.

Um domingo que chovia, portanto, zero feira.  Vou te levar para ver um lugar, que um companheiro tem para alugar.   Fomos a Santa Teresa, o bairro dos artistas.   Quando vi o apartamento fiquei como uma criança.   Era perfeito, podia ter o meu studio, vivermos os dois, ele tinha sido transferido para o centro da cidade para seguir sua trajetória no Banco.

Nos mudamos, meu pai entendeu, minha mãe nem pensar.  Ficou furiosa, como eu me atrevia deixar para trás sua família.  Eu ia quase todos os dias lá almoçar.  Carlos não me deixava levar a roupa para lavar.   Quando se sai de casa, há que assumir todas as consequências.

Um dia na feira, apareceu uma mulher, baixinha, gorda, mas muito bem vestida, olhou meu trabalho, um a um.  Perguntou preços.  Fez milhões de perguntas, se eu fazia grandes também, coisas dos gêneros.  Olhou meus desenhos, peças que eu não tinha feito, porque precisavam ter tamanhos.   Tirou um cartão da bolsa, me estendeu, li, fiquei de boca aberta, passei para o Carlos.  Era uma das melhores galerias de Ipanema.  Se tens uma grande que eu possa ver, podemos marcar uma exposição.   Mesclando peças, grandes, como medianas, até algumas pequenas.  Os desenhos eu mandaria emoldurar. Porque são excelentes.

Eu quase dava pulos de alegria.  Carlos, me jogou um balde de água fria.  Primeiro tens que executar o que ela te disse.   Depois negociar preço, pois ela terá uma porcentagem em cima do que possas vender.  Normalmente as galerias ficam um uma boa peça.

Como sabes tudo isso?

Eu já me informei antes bobo, fui até lá falei com ela, levei fotos que fiz sem você ver, disse que viesse aqui ver teu trabalho.  Por isso me perguntou se eu era teu agente.

O beijei ali na frente de todo mundo.  Ele ficou sem graça, não faça isso, estamos num lugar público.

Mas eu nem queria saber, estava feliz, tão feliz, que liguei para o meu pai para contar as novidades, sempre chamava a ele em primeiro lugar.   Só me disse, estou orgulhoso de ti filho.

Se precisas da oficina para fazer as peças grandes, eu te arrumo uma parte maior.

Agora me dividia entre nossa casa, a oficina.   Fiz a peça que ela tinha pedido, a revisei mil vezes, alguma coisa falhava, mas demorei para encontrar o defeito.  O arrumei, avisei a senhora, ela veio olhar.   Imagina, venho sempre no Salgueiro, mas nunca te vi por lá.

Meu pai lhe respondeu, que eu era doente do pé.  Que não sabia sambar.

Ela, ria dizendo que tinha um pai fantástico.  Andou em volta da peça, se afastava, se aproximava, pediu que colocássemos embaixo de uma luz forte.  Me mostrou um defeito mínimo, mas defeito.   Tens que ser perfeccionista, não para os outros, mas para ti mesmo, nenhum colecionista, veria esse pequeno defeito.  Mas pode ser que algum sim.

Essa peça poderíamos vender por,   deu um valor absurdo para um garoto do Andaraí, ia saltar de alegria, mas me lembrei dos conselhos do Carlos. Olhei a meu pai, com lagrimas nos olhos, era mais que ele ganhava num mês arrumando carros.

Essa fica separada,  abrimos sobre uma mesa, todos os desenhos, ela foi dizendo os tamanhos que queria.  Para teres dinheiro para o material, posso comprar essa, mas descontando minha parte.   

Meu pai se adiantou, como bom comerciante, não é necessário, ele tem dinheiro para isso, para quando é a exposição.

Dentro de um mês, durante 15 dias, temos que vender tudo para ter um bom lucro.  Nas vésperas da exposição, faremos a divulgação, fotografias para jornal, entrevistas, televisão.

Eu não acreditei muito nisso, estava era louco para trabalhar.

Carlos ficou feliz, mas me dizia sempre, tenha os pés no chão.  Agora nos víamos menos, eu passava mais tempo no Andaraí.  Fui fazendo todas as peças, meu pai revisava todas, fazia o que ela tinha feito, andava em volta, se afastava, a colocava no sol para olhar.  Minha mãe ao contrário dizia que eram obscenas.  Nunca entendi por quê.

 Fiz a parte uma grande do meu pai sentado, como se fosse o pensador de Rodin,  a pintei de negro com uma tinta para carros.   Ele me beijou, sei quanto gostas de mim meu filho. Eu também te amo.  Falou justamente o que o Carlos me dizia, mas tenha os pés no chão sempre.

Falar era fácil. Mas quando chegou a hora das entrevistas, eu suava como um condenado, pois nunca tinha conversado com nenhum jornalistas.   Mas foi bem.  Dei entrevista para todos os jornais, saia na parte Cultural.   Eu ainda estava no segundo ano da Escola de Belas Artes, tinha que ter uma opção, ou trabalhava ou ia as aulas.  Preferi trabalhar.

Cada jornal que saia, meu pai comprava, para guardar.  Minha mãe, olhava, levantava os ombros dizendo que isso não era trabalho.  Nunca entendi por quê?

A entrevista saiu no melhor canal da cidade, ele pediu para alguém gravar o vídeo, depois colocava no bar aonde ia tomar cerveja com os amigos.   Tinha orgulho de mim.

Na inauguração, Carlos foi comigo comprar uma roupa, me deu de presente.  Antes de sair de casa me beijou, dizendo eu acredito em ti, te amo.

Eu sentia tudo, dor de barriga, suava como um condenado, queria sair correndo, para não ver as críticas. Ela me avisou, cada venda, coloco um adesivo vermelho.  Eu estava como louco, meu pai foi, tinha arrumado um terno, depois descobrir que Carlos tinha ido com ele comprar.

Em  duas horas, vi que todas as peças tinham sido vendidas.  A mulher sorria, só me disse, tens que seguir trabalhando, pois, as pessoas querem levar as peças, mas de maneira nenhuma faça repetidas, pois eu sempre garanto a exclusividade.

No dia que foi me pagando as peças vendidas, na minha frente retirava sua parte.  Me colocou um papel na minha frente, dizendo, nunca faço isso com ninguém, eres o primeiro. Um contrato de exclusividade.  Me comprometo, fazer duas exposições por ano, ou uma conforme o volume de trabalho.   Leia com atenção, mostre para um advogado.   Eu queria assinar nesse momento, mas ela disse que não, que fizesse o que estava dizendo.   Primeiro mostrei para o Carlo, simplesmente fez uma coisa que não deixei ninguém mais fazer, segurou minha cara com as duas mãos, me beijou os olhos, o nariz a boca.  Boa sorte, artista.   Já podes dizer que eres um artista.   Mas pés no chão.   Ele leu o contrato mil vezes, depois levou para um conhecido que era advogado do banco.

Este me explicou tudo.   Durante cinco anos, nunca poderia expor em nenhuma outra galeria. Deveria ter sempre uma peça em exposição.  Não poderia negociar por fora com ninguém, nem tampouco vender alguma peça a não ser através da galeria.

Assim mesmo assinei. Mas claro como sou, depois caguei no último ano. Pois estava louco de pedra, precisava dinheiro para as drogas.

Com todo dinheiro que ganhei, comprei a oficina para meu pai.  O comentário da minha mãe foi, mas se dentro de um tempo ele vai se aposentar.   Mas ficou contente, que eu aplicasse o dinheiro em alguma coisa.   Mas adiante, podes ocupar a oficina inteira.  Essa era realmente minha intenção.

Outros artistas começaram a visitar o atelier em Santa Teresa, alguém levava um baseado, outro uma fila de cocaína.   Pensei se eles podem, isso abre minha criatividade que mal tem.  Carlos ficava uma fera quando chegava me via jogado na cama sem trabalhar. 

Fiz uma nova exposição com o mesmo sucesso.  Desta vez, ela vendeu até os desenhos da exposição anterior.

Foi quando caguei, o que pensava que me daria criatividade, me tirou a mesma.  Vi um trabalho do Mario Cravo sobre os Orixás, resolvi fazer.   Quando disse a ela, me avisou, muito cuidado,      pois ele é o rei do pedaço nessa parte.                Mas eu tinha uma ideia, fiz uma mostrei para ela, gostou.   Me disse, tens que primeiro ir a um pai de santo, pedir licença aos orixás.    Caguei geral.   Na minha cabeça era, se a ideia é minha, porque tenho que pedir licença.  Fui fazendo, o pessoal agora se dizia meus amigos, alguns depois de cheirar, fazíamos sexo.  Quando o Carlos sabia, eu não mentia.          Ficava furioso, eu chorava pedia desculpas.  Tens que deixar isso, vai estragar tua vida.

Mas na minha cabeça eu era o melhor.  Fiz a exposição, não puderam me comparar com o Mario Cravo, pois o trabalho era diferente,  mas vendeu menos.   Não quis escutar as críticas.

Um dia vinha subindo a noite para Santa Tereza, um homem com um terno branco, uma gravata borboleta vermelha, me parou.  Ficou olhando na minha cara.  Estas cagando tudo que tens pela frente.          Estas cagando tua arte, o amor do homem que queres, tua família.  Se não paras vais perder tudo.         Essa minha amiga, veio morar em Santa Teresa.  Um dia foi tomar café comigo, ficou louca da vida, como eu podia botar tudo a perder.  Estava na cama com outro homem que não era o Carlos, nem sabia de onde tinha saído esse homem.

Ela botou o homem para fora de casa, arrumou a cama. Mas quando Carlos chegou, viu logo que alguma coisa tinha passado.           Lhe contei que essa enxerida tinha colocado para fora um homem que estava lá comigo.        Ele ficou uma fera, primeiro porque eu estava drogado. Desta vez quem chorou foi ele.         Estas colocando tudo a perder.   Não quis mais dormir comigo, me olhava como um estranho.          Um dia ele chegou em casa, me pegou na cama, tampouco sabia quem era o sujeito, estava num bar ali no largo do Guimarães, disse que tinha drogas, eu aceitei.

Carlos, arrumou a mala sem dizer nada, não confio mais em ti, não posso sequer encostar a mão em ti, pois tenho vontade de te bater.

Foi embora, eu pensei, amanhã ele estará aqui.          Nada, fui atrás dele no banco, me disseram que estava de férias em Arraial do Cabo.  Não me atrevia porque sabia que lá estaria alguém de sua família.

Chorava sem parar, tinha afastado o homem que queria, os outros não significavam nada.    Para paliar, consumia mais drogas.             Um dia meu pai chegou na oficina me encontrou jogado no chão, cheio de vômitos por cima.   Chamou a ambulância, foi minha primeira overdose. Minha mãe, se negava a falar comigo.

Ele ao contrário, só me dizia, te disse tanto, para ter os pés no chão, esse era meu medo.

Fiquei dois meses internado, um dia contei para ele que Carlos tinha desaparecido, por isso estava desesperado, lhe contei toda a merda que tinha feito.

Meu filho, como quer que uma pessoa confie em ti, se não podes te controlar.

A minha amiga, falei do homem de roupa branca, tudo que me disse precisas ir a um pai de santo.   Eu não queria saber dessas coisas.

Fui a um terreiro de umbanda, a mãe de santo, disse que eu me comportasse, que sabia da minha vida.  Que não queria nada de drogas ali.  Acabou me expulsando.        Um dia estava me vestindo, o filho dela entrou, era casado pai de dois filhos, quando me viu meio nu, me agarrou, a mãe o pegou chupando meu caralho.  A ele não disse nada, mas a mim, me expulsou na frente de todo mundo.   Nesse dia, bebi, fumei todas, cheirei. Por minha sorte, cai na rua, o homem de branco, parou me olhou, te disse, só fazes merda.         Em seguida tinha uma ambulância, ele se sentou ao meu lado, ficou segurando minha mão.             Estive muitos dias em coma, sentia duas pessoas segurando minha mão, uma era o homem de branco, do outro lado estava meu pai, este passava a mão na minha cabeça, filho como vais fazer agora, não estou mais aqui para te cuidar.

Não fazia sentido, eu o tinha visto no dia anterior.  Quando sai do coma, me disseram com muito cuidado que meu pai tinha falecido, tinha tido um derrame cerebral, morreu no ato.

A única que não me abandonou foi minha amiga de infância.        Com o dedo em riste, me dizia, tens que tomar jeito.        Se te pego outra vez, nas drogas, vais ver com quantos paus se faz uma canoa.

Quando sai do hospital, fiquei sabendo que minha mãe tinha ido morar com uma irmã sua em São Gonçalo, que eu não aparecesse por lá, pois não perdoava.  Eu tinha matado meu pai de desgostos.

Tomei jeito, pois na primeira vez que minha amiga entrou no atelier, a antiga oficina, eu estava fumando um baseado.             O tirou da minha boca, me deu um tapa tão forte, que cai no chão. Levante seu idiota, me deitou nas suas pernas, vou lhe dar uma surra, que seu pai devia ter dado a muito tempo. Assim fez, eu chorava sem parar, mas não por isso, por ter perdido meu pai, o Carlos, tudo isso doía tanto que mal conseguia respirar.

Me tirou toda roupa, me enfiou embaixo do chuveiro, abriu a água fria, me fez sentar no chão.  Ficas de castigo por todas essas merdas. Volta e meia me dava um cascudo.

Quando parei de chorar, me mandou me vestir. Agora vens comigo, o velho carro dela estava na frente do Atelier, fechou ela mesmo a porta, me enfiou no carro, fomos embora.  No primeiro dia nem sabia aonde estava.  Só via uma janela pequena em cima.  O homem de branco sentado ali, fumando tranquilamente um cigarro, quando eu lhe pedia, se negava.          Não eres homem para fumar o meu tabaco.  Não parava de dizer que eu era um frouxo, que não sabia me colocar no meu lugar.  Aonde já se viu, um negro desse tamanho, não ter força de vontade.  Não paras de jogar merda no ventilador.

Perdi a noção do tempo.  Quando abriram a porta, parecia que estava ali no escuro, muitos dias.

O homem que abriu estava todo de branco, na hora confundi com o outro.           Ele riu dizendo, como passaste com teu Exu.          Está furioso contigo, diz que não quer ficar ao teu lado, porque eres um frouxo.

O homem era baixinho, estava todo de branco, com uma guia atravessada no peito.  Sou João de Xangó.            Venham comigo que tens que comer alguma coisa.  Me fez sentar embaixo de uma árvore, mas a primeira comida, botei tudo para fora, tinha fome, mas de alguma coisa que não sabia o que era.  Ainda são os efeitos da merdas que tens no corpo.  Te aceitei aqui, só porque tua amiga que é minha filha me pediu.                Senão acabarias, numa sarjeta, com um cachorro lambendo teu cu.

Me deu um chá, me levou a um quarto, duas mulheres antes me ajudaram a tomar um banho, todo nu, me deitei naquela cama.  Não sei quanto tempo dormir.  Acordei chorando, chamando por Carlos, mas ele claro não estava ali.        Rezei, eu que nunca tinha rezado, pedindo que ele pudesse voltar.   Mas não voltou.

Quando fiquei bom.  Ele me fez sentar diante dele.  Acendeu um incenso, uma mescla de canela com alguma outra coisa.  Passou pela minha cabeça.        Foi rezando, de repente soltou, se vês a ele porque nunca lhe fizeste caso.

Ele quem?

Oras, teu Exu, ele está aqui do teu lado.           Chateado porque não lhes fazes caso. Te avisa das coisas, mas as paredes lhe escutam, mas tu não.  Quando ele olhou para o lado, estava o homem de branco. Tá vendo ele está aqui, bem como Xangó, teu pai de cabeça.          Ele é um dos raros Exus de Xangó que se deixam ver.

É verdade, esse senhor me avisou, mas não fiz caso, como não fiz caso do meu pai, do Carlos, enfim da gente que me queria.   Só não entendi, porque minha mãe, me deixou de lado.

Porque não eres filho dela, eras filho do teu pai, com uma mulher que morreu.  Quando ele se casou com tua mãe, tu eras um bebê.   Fazia força para te aceitar, mas ele te adorava, por isso tinha um certo ciúmes de ti.

Ele ao contrário, te aceitou como eres, nunca disse que não podia aceitar um filho gay.

Era ele quem em criança, te embalava, limpava teu ranho, te dava banho, enfim foi teu pai tua mãe. Por isso sempre estavas na oficina.   Para te ter por perto.

Agora ele entendia muita coisa, mas era tarde como tudo.

Nunca é tarde para refazer tua vida.

Mas o Carlos nunca mais vai voltar?

Vai, mas não consigo, ele agora está no Mato Grosso, cumprindo sua pena, como ele diz, depois irá para um outro lugar, vai encontrar o Bugre de sua vida.

Um Bugre, o que é isso.

Uma palavra, que bem poderia descrever um Oxóssi, dos rios, das matas do interior do Brasil, se conheceram, será o grande amor da sua vida.  O amara, mais do que a ti, pois a inocência, a boa vontade desse garoto, o vai fascinar.  Ele vai cuidar do Carlos, que será o único homem da sua vida, perdeste a chance a muito tempo.       Escreva o que estou dizendo, tu vais conhece-lo, vais provocar, mas apenas fará que ele ame mais ainda o outro.

Os sentimentos dele são imensos, Oxóssi, Exu, todas as mulheres d’água o protegem.  Quando vires isso na palma da mão saberás que é ele.

Mas quando será isso.  

Ah meu filho, deixa o tempo correr suavemente por debaixo da ponte, porque as coisas não são no aqui agora.    Mas um dia, por causa dele, conheceras alguém.

Bom, tens que fazer uma série de coisas, creio que deverás ficar aqui um tempo.  Tu nunca serás um pai de santo da regra, nunca terás uma casa de santo.    Mas teu Exu que é do Ifá, te mostrara sempre através do jogo, as coisas.  Mas um aviso, nunca misture as estações.   Ele não gosta quando misturas os homens que estão sempre atrás de ti. Com isso tudo.

Verás que um bom tempo sem fazer sexo, te fará mais feliz.

Ele foi ficando ali, fazia esculturas com barro, as cozia numa fogueira no campo, era como tivesse voltado a época de seus ancestrais.               Cavava um buraco no chão, enchia de lenha, colocava as peças, cobria outra vez de lenha, tocava fogo.   Eram umas peças quase infantis, que recordavam sua infância, na oficina.  As pessoas, homens mulheres, adoravam vê-lo trabalhar, fazia alguidares para a casa de santo, tudo da mesma maneira.            Depois se lembrou de uma técnica japonesa, pediu se alguém podia comprar material para ele, inventou uma maneira só dele de trabalhar.        Quando as peças ficaram prontas, pediu para sua amiga, levar na galeria, mas que não dissesse que eram suas.

A senhora olhou as peças, soltou, ele mudou muito sua maneira de trabalhar, mas não sou uma idiota.   Diga que lhe perdoou ter rompido ao contrato, se me faz uma coleção inteira dessas peças, de todos os tamanhos.

Agora ele pagava para os garotos trazerem lenhas para ele,  Algumas vezes aparecia alguém com uma carroça carregada.

Foi ficando ali, procurando a paz a tanto tempo perdida.  Um dia o pai de santo disse, já podes sair. Saberás sempre que os homens que estão atrás de ti, não servem.  É tua a escolha de fazer sexo ou não, nenhum santo vai interferir.   Mas olhe lá. Não faça mais merdas.  Eu vou fechar a casa de santo, pois vou para a Africa.

Aliás, porque não vens comigo?  Lá foi ele com o pai de Santo, a única que sabia sempre dele, era sua amiga, se escreviam.         Na Nigéria, ele era mais um, estava sempre ao lado do pai de santo absorvendo tudo que podia.

Quando viu as máscaras, esculturas dali ficou como louco,  foi  apresentado lá no interior do pais, aos artesões que ainda as faziam.             Aprendeu a fundir o bronze,  fazer as máscaras do mesmo material.              A trabalhar com barro, cozer os mesmos a altas temperaturas.  Quando chegavam algum estrangeiros, ficavam loucos com aquele deus de Ébano, banhado de suor, entregue totalmente ao seu trabalho.  Foi fotografado assim para muitas revista.

Lhe fizeram uma reportagem no Times, ele com seus objetos, máscaras, esculturas. Logo alguém de algum jornal cultural do Rio descobriu, saiu uma reportagem entrevistando a dona da galeria, sua amiga lhe mandou uma cópia.          O desaparecido escultor brasileiro, aonde foi parar.  Está junto com seus Ancestrais, pesquisando como se trabalhava antigamente.

Justo nessa época o pai de santo morreu.  Era o sonho de sua vida, morrer na terra dos Orixás. Foi enterrado com todo cerimonial que tinha seu rango, ele chamava atenção, aquele homem imenso, chorando como um bezerro desmamado.  Tinha perdido um segundo pai.  Esse homem sem lhe ter cobrado nunca nada, tinha cuidado dele ano atrás anos.

Revolveu voltar, tinha contas atrasadas de seu atelier no Rio.              Ficou ansioso, pois teve que embarcar suas peças produzidas todos esses anos, num container lotado.        Sua amiga que era advogada, teve que lutar para liberar as peças.

A maioria, foi para a galeria, que fez uma exposição, como na época que ele era alguém.  Ele agora pouco falava nas entrevistas, diziam que tinha se tornado mais fechado. Tinha na fronte uma ruga, que mais parecia uma cicatriz,  ele dizia que era a cicatriz que ia até seu coração.

Lhe convidavam para sair de destaque nos carros, mas ele dizia que não.       Que já não era um garoto.  As vezes ia ao samba, para ver algum amigo.   Mas saia sozinho.  No fundo muita gente tinha medo dele.   Uns dizia que ele andava com Exu de guarda Costa.   Sempre que se interessava por alguém olhava para o lado, se fosse negativo, podia ser a maior beleza, mas ele ia embora.

Uns o chamavam de metido a besta.        Outros, diziam que tinha um rei na barriga, porque suas peças vendiam como água.  Pediu licença, fez uma série que foi comprada inteira por um museu na Europa.       Eram todas as Orixás da água, com seu séquito de Yaôs, da galeria foi direta para esse museu.     Tinha comprado um forno industrial, agora podia fazer as peças em ferro, depois pintar cada detalhe, numa técnica que tinha aprendido na Nigéria, ficavam espetaculares.  Só não vendeu, as mesmas em terracota.  Estavam guardadas.  No dia que ele morresse, queria que guardassem suas cinzas.

Agora quando se entrava no atelier, se via de um lado Xangô, do outro Exu, todos os dois de mais de 2 metros de altura. Teve que os fazer por partes, depois montar tudo fora.  Pouca gente via, mas existia, uma máscara imensa, que era Carlos com um cocar de bugre.      Era como uma homenagem ao futuro dele.    Ao lado de sua cama, tudo que havia de decoração era a única foto que tinha do Carlos.  Rezava todas as noites para que ele encontrasse seu Bugre, fosse feliz.

Fez amizade com André, sem dizer quem era, sabia que se um dia Carlos voltasse, seria através dele que o saberia.            Ia a quadra, tomava uma cerveja com ele, jogava conversa fora, ficava esperando para saber alguma coisa.                   Quando alguém se aproximava procurando sexo, dissimuladamente ia embora.               Os amigos do André diziam, que coisa mais estranha, esse homem está doente, sempre que alguém se aproxima, vai embora.

Há muitas histórias sobre ele, mas ninguém sabe a verdade.  Tudo que se sabe e que depois da época louca que teve, desapareceu.   O descobriram na Nigéria, aprendendo a fazer esculturas, a reportagem do Times, fez com que seu trabalho desse volta ao mundo.  André que tinha visto as esculturas compradas pelo museu, soltou uma vez.       Eu fiquei parado na porta, chorei como um menino.  Uma das coisas mais bonitas que vi, parecia que todos os Orixás dançavam. Era um primor, lastima que nenhum museu do Brasil se interessasse.  Ele disse que só vendia se fossem todas juntas.  Saiu no Times, no dia seguinte estava vendida a coleção toda.  Tenho uma lá em casa das pequenas em barro cozido, cruas, sem cor nenhuma.      Acendo sempre um incenso na frente como devoção.

Por isso André estranhou, no dia que levaram o Zé, que aquele homem fosse direto a ele, o viu segurando suas mãos, falando no seu ouvido.              Que o outro estava assustado, falou para o Miguel, melhor ficarmos juntos, o Zé não está acostumado a isso.   Foram com eles até o atelier, ficaram olhando como o Zé foi direto a escultura de Oxóssi, imensa que estava ali.       Está é tua disse Marcondes, teu pai de Cabeça, esse índio que te acompanha, desde as margens do Tocantins, né bugre.   Não entendiam isso, porque chamava o Zé de bugre.  Mas entendeu tudo  quando viu a foto do Carlos na mesa de cabeceira.           Por causa do Marcondes o Carlos tinha desaparecido.        Entendia agora, porque ele aparecia na escola de samba vinha falar com ele, perguntava pelas novidades, depois ia embora.

Ficou furioso, a vontade de meter a mão na cara dele.  Tudo que disse, foi imperdoável, como pudeste fazer isso com o Carlos, comigo, com o Zé.

Muito sério, eu precisava ver se esse menino realmente ama o Carlos, agora sei que sim, que não tem jeito mesmo.  Ele será feliz com esse menino, sei que ele vai chegar amanhã ou depois.

Se eu puder falar com ele, para pedir desculpas, agradeço. Quando voltavam para sair, ele segurou o braço do Zé, espere. Acendeu uma luz, olhe para cima.  A cara do Zé era de pura devoção.           É ele o amor de minha vida, até posso sentir o cheiro dele, vindo dali. Os outros olhavam, sem saber o que via aquele garoto.  Fez uma coisa que os outros não esperavam, abraçou o Marcondes pela cintura, porque era muito mais baixo do que ele.  Sei o que sentes, o que sentiste.  Um dia nos encontraremos.

Foi embora, sem olhar para trás.

Por isso o tempo passava, Marcondes estava amargado, o Exu lhe dizia, tenha paciência, tudo se resolvera.  

Ah meu pai, por que só faço merda?

Não fale assim, se você não tivesse perdido o Carlos, esse garoto o bugre, nunca o teria encontrado.             Se ele não tivesse encontrado o Carlos, este seria infeliz contigo de qualquer maneira. Pois não eras a pessoa destinada a ele.

Um dia, perdeu a paciência consigo mesmo, foi ao banco falar com o André.     Lhe disseram ele agora vive em Arraial do Cabo com o irmão.  Trabalha no banco de Cabo Frio.

Se lembrou que o bugre tinha lhe dado o número do celular.       Pediu a Exu, tenho que resolver isso que me mata.            Ele mostrou aonde tinha guardado o papel, embaixo do que usava para jogar.  Telefonou.  O bugre atendeu, disse quem era, me perdoe por te chamar, mas não posso mais tenho que falar com o Carlos, tenho que seguir minha vida em frente.     Preciso que ele me perdoe.

Só respondeu, um minuto.  Sim podes vir, lhe deu a direção.  Vou levar teu Oxóssi.  Viu que o Bugre mudava de tom, falava mais baixo.        Se puderes, trazer o Carlos, sei que ele vai adorar, como eu o adorei. Deixe para o último momento.

Estava tão alucinado, que Exu lhe parou os pés.        O jogou de bruços no chão.  Devagar que o santo é de barro.  Não vais recuperar o Carlos, tire seu cavalo da chuva.          Ele já te perdoou, porque esse menino falou bem de ti para ele.      Vais conhecer é o teu futuro.  Vou junto, assim posso tomar banho de mar com meus irmãos.

Lembre-se posso te parar os pés a qualquer momento.

Ele carregou sua caminhonete, com o Oxóssi desmontado, porque era muito alto, Abaixou a escultura do Carlos com os penachos de bugre na cabeça.   Embalou tudo, pegou duas mudas de roupa, foi embora.

Quando chegou, quem abriu a porta, foi uma mulher de cabelos brancos com um coque como uma senhora fora de época.           Olá meu filho, virou-se para o Exu, seja bem-vindo meu pai.

Ah, sou Marialva, incorporada à família.  Virou-se para trás gritou eles chegaram, venham recebe-los.  Quase caiu de joelhos quando viu o Carlos, o abraçou, chorando, meu amigo que bom te ver. Virou-se para o Zé, bugre, só mesmo tu para operar milagres. Abraçou a todos, levantou os meninos no ar. Estes riam, André comentou com o Miguel, mais um para a família.

Desceram a escultura, a do Carlos ele não deixou abrir, montaram o Oxóssi, o bugre gritou, Tico, vá buscar água do mar para nosso pai.  O menino espigado disparou, voltou com a quartinha cheia.  Em segundos estava seca.     Traz mais meu filho disse o Carlos, ele tem sede.

Saíram todos para um banho de mar.          Bugre virou-se para os dois, dizendo, passeiem pelo borda do mar, para falarem de vocês.

André depois perguntou a ele Zé, não tens medo de que te roube meu irmão.  

Imagina, o que temos nós dois, não se desfaz assim.  Isso será bom para os dois. Poderão seguir seus caminhos em frente sem magoas.

Dito é feito, voltaram rindo, conversando como velhos amigos.             O bugre saia d’água nesse instante.               Carlos se virou para Marcondes, ele me salvou a vida, me deu tudo o que tinha perdido, valeu a pena esperar.  É o meu mundo inteiro nessa pessoa.

Eu sei.  Depois do almoço tenho um presente para os dois.

Iam se sentar para comer, quando o Tico disse, eu convidei nossos amigos.  Justo nesse instante se abria a porta detrás, entrava correndo um menino loiro, parecia um anjo, se jogou nos braços do Tico.  Carlos disse, são namorados.        Entrou aquele homem, loiro quase transparente, com uns olhos que parecia que tinha o mar dentro dele. Tão alto como ele.

Estendeu a mão, porque era o único que ele não conhecia, olhando diretamente nos seus olhos disse, sou Joseph, amigo da casa.         Os dois se olhavam sem soltar-se as mãos.  Ali estava seu outro lado.     Todos riam dos dois ali, parados um em frente ao outro sem se soltarem das mãos.

Exu deu um empurrão nele, se abraçaram. Sentiu o que bugre dizia, o cheiro do homem que lhe pertencia.

Marialva ria, esse teu Exu, é uma figura.  Os meninos, soltaram, hoje estava o seu Oxóssi, com todos ali tomando banho.   Joseph queria saber o que era, Marcondes com paciência explicou.

Eles veem os espíritos, porque não tem a maldade que temos, que nos impede de ver.

Depois quando todos acabaram, mandou que Carlos ficasse sentado no salão, que quando ele dissesse fechasse os olhos.  Foram até la fora, ele desembalou o que tinha trazido para ele.

Marialva dizia, impressionante.  Os meninos batiam palmas. Ele olhou para o Tico de mãos dadas com seu namorado.   Preciso fazer uma escultura dos dois.

Quando Carlos abriu os olhos, o que viu, foi ele mesmo como era de jovem, com um penacho de plumas como tinha o Oxóssi.         Eres tu e o Bugre.  Para ele trouxe isso, tirou de um tubo, o desenho que tinha feito do Zé, como um bugre, nas margens do Tocantins.  Como sabias que eu usava uma bermudas assim, esfarrapadas.  

Ele me disse como era.   Esse vai ficar no nosso quarto, é só para mim, falou o Carlos, beijando seu bugre, abraçado a ele.

André tinha razão, virou da família.         Ele agora vivia com o Joseph, seu filho que no fundo era dele também. Quando alguém perguntava no atelier que tinha ali  perto da casa que viviam, ele dizia é meu filho Viking.   Em casa tinha uma escultura do Joseph, como se fosse um Viking.

Os dois se amavam com loucura.  Os outros riam, menos mal que daí não sai uma criança, pois já nasceria com 3 metros de altura.

Ele estava sempre de conversa com o bugre, valeu a pena esperar, obrigado por tudo.   https://sodreau.wordpress.com/https://sodreau.wordpress.com/https://sodreau.wordpress.com/ Eram grandes amigos.  As vezes Carlos dizia, que sentia ciúmes dos dois.

Eu é que devia ter ciúmes, eu desse tamanho, mas te apanhaste bem com esse homem de dois metros de altura.

Agora sua amiga vinha sempre passar temporadas com eles, se integrou ao grupo das mulheres, se dava maravilhosamente bem com a Dejanira.  Eles torciam que entre elas saísse alguma coisa.  Quem sabe no futuro.

Naquela casa havia paz, porque estavam cercados pelos Orixás que os protegiam.

OURO

                                                                  

Tinha esperado este dia com ansiedade, chegado sua hora de partir.  Levava anos planejando, mas ao mesmo tempo cuidando de sua mãe.

A vila já quase não tinha ninguém.  Tirando o dono do bar, a Marialva a dona do putero, que hoje vivia com ele, uns quantos velhos, que se negavam a entregar seus sonhos de encontrar ouro.  Já não sobrava muita coisa.

Sua mãe tinha tido um final doloroso, se negou desde o princípio a fazer qualquer tratamento, dizia para que?  Não me restam mais ilusões, desde que teu pai morreu, uma parte de mim morreu com ele.

Ele tinha nascido ali, naquela vila que nem nome tinha, as margens do rio Tocantins. Para chegar à estrada mais próxima, eram necessários andar quase cinquenta quilômetros. O que fazia tudo mais difícil.  Na época das chuvas ficava intransitável. Depois muita poeira, terra de chão batido.   Eles tinham um pedaço de terra, justo perto do rio, ali tinham a horta de sua mãe, da qual tinham se mantido todos esses anos.   O armazém do pai, ficava justo na frente da casa. Hoje, de mantimentos quase nada.  As vezes ficava imaginando, porque o pai, tinha defendido uma caixa que tinha uns míseros reais.  Quando surgiu a quadrilha, como chamar de quadrilha dois gatos pingados.  Entraram com a escopeta, pediram o dinheiro da caixa.   Seu pai se negou, vai trabalhar vagabundo, vá procurar sua pepita de ouro como todo mundo.  O sujeito não teve dúvida, lhe acertou um tiro em pleno coração.   Mas quando saíram deram de cara com o capanga da Marialva, que sabia, em seguida saqueariam o putero.  Ali não havia lei nenhuma.

Este deu dois tiros acabou com os bandidos.   Dois garotos que nem tinham 18 anos.  Queriam dinheiro para voltarem para suas casas.  Ele ficou sem pai, sua mãe se negou a ir embora, como ia deixar o tumulo de seu pai, embaixo da mangueira, solitário.   Anos depois se sentiu mal, a rezadeira que vivia à margem do rio, do outro lado, atravessou, passou a mão pelo lugar que lhe doía.   Filha tens um puto tumor no estomago. Melhor é ires embora, se tratar.

Todos gostavam de sua mãe, era educada, se via que tinha educação, embora nunca tinham falado, nem ela, nem seu pai, de aonde tinham vindo.

O único amigo que tinha, já tinha ido embora, quando eles fizeram 15 anos.  Tinham nascido na mesma época.  Seu pai era comprador de ouro para uma empresa americana.

Os dois aprenderam a nadar juntos no rio, subir em árvores,  comer fruta tiradas do pé. Fizeram a primeira punheta um para o outro, se beijavam, mas sexo na verdade nunca fizeram.

Sentia uma falta do maldito Bento, as vezes chegava a escutar lhe chamando desde a porta do armazém.    Ei Zé, vamos nadar que está fazendo muito calor.   Ou Zé vamos tomar banho de cachoeira, na verdade era o próprio rio, que tinha pedras em alguns lugares. Depois que ele partiu, a única professora também foi embora, deixou seus livros para ele.  Ele gostava mesmo de Demian de Hermann Hesse.  Já tinha lido tantas vezes, que sabia trechos palavra por palavra.

Todos os livros já estava amarelos de velhos que eram, mas esse era seu preferido.  Com sua mãe, tinha aprendido geografia num livro que a professora tinha deixado para atrás.  Ela falava sempre no Rio de Janeiro, detalhava lugares como fosse o quintal da casa.   Depois que seu pai morreu ela se soltou mais.  Disse que tinha nascido no Rio, em Copacabana.  Aonde tinha conhecido seu pai.  Mas quando ele começava a fazer muitas perguntas, mudava de assunto.

Quando sentiu que a morte se aproximava, detalhou para ele o que deveria fazer.  Quando ele fez 18 anos, foram a cidade mais próxima, para tirarem seu bilhete de identidade, depois foram ao banco aonde ela colocou que era uma conta conjunta, em caso de lhe passar algo, ele podia tirar ou usar o dinheiro como bem quisesse.  Foi a última viagem da Van que levava o pessoal a essa cidade.   Depois o homem desapareceu.   Lhe fez memorizar todo um roteiro de como sair dali ir até a estrada caminhando, retirar o dinheiro do banco, ir até a capital, de lá até Goiana, desta para o Rio de janeiro.  Lhe deu um envelope, aqui tens um endereço em Copacabana, vá até essa casa, fale com os donos.  No terreno, estavam escondidas três latas, esvazie cada uma, muito cuidado, pois tem muito ladrão por aqui.  Embaixo do caixa, tem um revolver e munição, vá para longe todos os dias, melhore sua pontaria.  Já perto de morrer, tirou de uma caixa de madeira bem escondida, uma certidão de nascimento dele, com o nome dela, do seu pai.

Teu nome inteiro é José Eduardo Costa Dunkerque, naquele endereço que te dei, está a família Costa, são meus pais, se é que estão vivos.  Cuidado, gostam muito de manipular a vida dos outros.  Nunca me perdoaram porque me casei com teu pai.  Esperavam que eu os cuidasse quando ficassem velhos.   Mas escapei com teu pai.

Ele tinha encontrado numa das casas abandonadas, uma mochila que ela consertou com cuidado.  Tinha uma etiqueta enorme de Company,  essa foi uma marca que teve sua época na minha juventude, todo mundo queria ter uma camiseta, ou uma mochila como está.

Faça um fundo para colocar as bolsas com pepitas de ouro.  Quando alguém perguntava pelo ouro que seu pai recebia vendendo mercadorias, ela dizia que tinha trocado por dinheiro no banco.  Tinha na época alguém que sempre trazia o valor do ouro.  Ele aprendeu a pesar, calcular o valor.  As pessoas nunca pareciam muito interessadas, queriam era a comida.

Sabia que nas caixas escondidas, tinha uma série de bolsas de pano feitas por ela, cheia de pepitas.  Quando mataram seu pai, ele levava dias falando em ir embora.  Aqui o tempo parou, chegou a hora de ir embora.  Cada vez havia menos gente para trocar pepitas de ouro, por coisas do armazém.

Há uma outra caixa, mas esta tens que fazer força para chegar a ela, está embaixo da  caixa registradora, creio que teu pai pensou que os bandidos sabiam disso.

Agora estava ele, preparando sua partida. Tinha forrado a parte debaixo da mochila com o livro de geografia, daria uma parte plana para as bolsas de pepitas.  Quando abriu a primeira caixa a luz de velas, viu que além das bolsas, dinheiro enrolados atados com um barbante, coisas de sua mãe,  contou quanto havia ali, para ele era uma barbaridade.  Na segunda caixa a mesma coisa, foi arrumando os sacos no fundo da mochila, na terceira era a mais velha, viu que as pepitas eram maiores, as notas estavam meio mofadas, mas as limpou.  Perdeu a conta de quantos rolos tinha.  Agora tocava o mais difícil, na última noite, com muito esforço, embora tivesse força, pois nos últimos ano e meio tinha sido ele que cuidava da horta.  Isso lhe fez ficar com músculos, forte.  Estava queimado do sol.   Marialva dizia que parecia um bugre, com aqueles cabelos compridos, que amarava com um trapo velho, as bermudas de calças velhas, mas antes de ir almoçar, sempre tomava um banho no rio. 

Quando alcançou a caixa, ficou pasmo, tudo eram pepitas de ouro, sacos e mais sacos, não eram grandes, cada um tinha pelo menos dez pepitas grandes, muitas pequenas. Na frente de cada uma dizia o peso total das pepitas.

Arrumou a mochila, só tinha uma calça, nem boa, nem má, usada a muito tempo atrás pelo seu pai, um tênis que tinha sido dele, uma cueca, nada mais.  Nesta noite, saiu no escuro de sua casa, foi até quase um quilometro dali, escondeu a mochila, voltou para casa.

No dia seguinte, ainda levou verduras para a Marialva fazer uma sopa para o pessoal.  Ela piscou o olho, o chamou na cozinha.  Se fazes, isto é, porque vais partir.  Toma meu lindo, tua mãe sempre um encanto de mulher, era a única aqui que me dirigia a palavra.  Cuidou de mim quando fiquei doente. O resto era escoria.  Tu sempre me chamaste de Marialva, com respeito, esconda bem isso, que sirva para começares a vida.  Levantou uma tabua da mesa da cozinha, tirou um saquinho, com ouro.  Não te deixes enganar, quando fores a uma loja destas que comprem ouro, escute bem o valor que dizem, visite todas que possas, veras, que todas querem te enganar.  Venda pelo valor mais alto.

Lhe deu um beijo na cabeça, vai meu lindo, vá viver a vida. Quando tiveres dinheiro, corte os cabelos, faça uma limpeza na cara dessas penugens que te fazem parecer já um homem, compre roupa, uns tênis novos.  Vá a vida.

Saia pela porta detrás, eu vou distrair essa gente, pois podem querer te seguir.

Não olhou quanto tinha ali de ouro.   Fez o primeiro quilometro correndo, pois sabia que os velhos não corriam nada.  Recolheu sua mochila, viu se tudo estava ali.  O peso era grande, mas sabia que não podia chamar a atenção.  A cada dez quilômetros, parava, saia da estrada, se escondia na floresta, ficava descansando, observando se não vinha ninguém.  Quando chegou a estrada que ia para a cidade, se escondeu, tirou todos seus trapos, se vestiu, ficou esperando algum carro, ou um caminhão.   Esperou horas, embora não tivesse nenhum relógio para saber do tempo, sabia, pelo sol.  Quando por fim parou um caminhão, pediu uma carona até a cidade, tinha que comprar remédios para sua mãe.

O homem tentou puxar conversa fiada, finalmente desistiu, colocou uma música caipira na rádio.   A muito tempo ele não escutava um, o da casa tinha se fudido.  Quando chegaram na praça, o homem indicou aonde está a farmácia, ele agradeceu, daqui eu me viro senhor, muito obrigado pela carona.

Mas foi para o banco, falou com o gerente que já conhecia, que sua mãe finalmente tinha descansado.  Que lastima, uma das poucas senhoras que dava gosto falar, tinha cultura, educada, nunca quis me dizer como veio parar aqui.  Aliás ela, dona Marialva, era dois opostos na vida, mas todas as duas se via que tinham educação.

Perguntou ao homem se esse banco tinha agência no Rio de Janeiro.  Tenho que ir para lá encontrar uns parentes da minha mãe, a mentira saiu espontaneamente.  Claro que sim, é a nossa central.   Tenho aqui guardado desde que vocês vieram um cartão visa para você, foi o que ela me pediu.  Além de te entregar essa carta que me pediu que guardasse quando viesses.

Então se tenho dinheiro aqui, depois posso transferir para o Rio de Janeiro?

Sim, sem problema nenhum,  olha vou dar uma direção do Banco em Copacabana, meu irmão trabalha lá.  Procura por ele, diga que queres transferir teu dinheiro para lá.  Vamos agora ativar seu cartão, podes comprar nas lojas, comprar bilhete de avião, tudo o mais.

Vocês compram ouro também, dona Marialva me deu uma bolsinha com pepitas.

Não meu filho, mas posso te indicar um comprador de outro.  Vou lhe dar a cotação assim ele não pode te enganar.

Antes queria depositar dinheiro,  como os rolos estavam por cima, retirou, seus livros, o homem ficou admirado, estas lendo Demian?

Olha eu sei quase que cada página de cabeça,  já li tantas vezes que sei tudo.

Ler faz bem a cabeça.  Eu também tenho uma edição velha desse livro.

Foi colocando os rolos de dinheiro em cima da mesa, ele chamou uma funcionária, mandou ela contar o dinheiro.  Esta trouxe uma máquina que contava o dinheiro.  Recontou tudo, separando por notas, por valores.

Ufa, tens um bom capital, mais o que tua mãe tinha aqui no banco, dá para qualquer um começar a vida no Rio de Janeiro.  Quando lhe deu o total do saldo, não conseguia imaginar esse valor.   Será que dá para alugar um lugar pequeno para viver em Copacabana.

Por muitos anos meu filho, ah bons tempos de Copacabana, eu vivi na  Prado Junior, nos meus tempos de faculdade.  Me esbaldava, meu irmão diz que não é mais nada daquilo.   Ali só viviam putas e viados.

Ia perguntar se ele era, mas não disse nada. Lhe perguntou como fazia, teria que ir até a capital para pegar um avião.  Bom podes ir amanhã de ônibus, mas acho que não conseguiras mais nenhum hoje.  Ou se quiseres amanhã tenho uma reunião por lá, te levo, ajudo a comprar bilhete de avião.

Agora tenho que trocar esse saquinho de pepitas.

Espere.  Passou a mão no telefone, ligou um número,  ele nunca tinha visto ninguém falando por um. La na vila não tinha.   Manuel, vou te mandar um cliente, é jovem, mas não é idiota, ele sabe a contação do dia.   Pediu a moça que o acompanhasse a loja do Manuel.   Esse quando viu a bolsa, ele não tinha percebido tinha uma marca.  

Uma bolsa da Marialva, sem dúvida nenhuma.  Viu anotado o peso, pesou todas as pepitas para conferir.  Disse um valor.

Moço, por quem me tomas, eu sei matemática. Já fiz o cálculo de cabeça, o senhor tá me mangando dinheiro.

Este riu, bem que meu amigo do banco me avisou.  Olha se tiveres mais, eu compro, por um valor superior ao que ele te disse, aqui do lado tem outra loja, podes ir olhar o preço.

Tá bem vou comparar.   No que entrou na outra loja, tinha um homem vendendo pepitas, o preço era inferior.  Quando o homem saiu, fez um comentário com o outro que estava dentro, ou o sujeito é um otário, ou roubou essas pepitas, porque nem discutiu o preço.

Como quem não quer nada saiu.  

Manuel disse, não gostou desses dois não é. Dois grandes filhos da puta.  Como te disse, se me vendes mais, posso comprar, tenho que cobrir a minha cota, que está baixa.

Ele tirou uma parte dos sacos. Viu que todos tinham peso, mas os repesou todos.  Ele foi calculando mentalmente pelo valor que lhe tinha falado o do banco.  Por isso tudo te acrescento mais 50%.  Se tens mais guardado, te pago o dobro.  Era muito dinheiro.

Colocou tudo em cima da mesa, o outro esfregava as mão, uau garoto, me salvas a vida, o emprego nesta merda de buraco.

Coloque tudo na mochila, vamos ao banco, transfiro o dinheiro todo para sua conta.  Assim é mais seguro.

O Banco estava para fechar, sua barriga roncava, não comia desde manhã.  Posso aguentar.

Na frente do gerente, fez um cheque no valor, esse garoto me salvou o pescoço, lhe paguei o dobro do valor.   Era uma soma absurda de dinheiro.

Zé vamos fazer uma coisa, tens dinheiro para seus primeiros dias, leva um valor baixo, mas lembre-se tens o cartão de crédito para usar, já o ativei.  Espera, vou ver se pego meu irmão ainda no banco, que este é louco por praia.

Telefonou, lhe falou que mandava uma pessoa lhe procurar, lhe disse seu nome, ele vai pedir que lhe transfira o dinheiro que tem aqui. É um jovem milionário.  Ajude o mesmo no que for preciso, será um bom cliente para ti.

Depois que o Manuel foi embora disse, tiveste sorte, o mês passado ele não fechou a cota, quase perde o emprego.  Por isso te pagou muito mais. Tens aonde dormir está noite, eu penso sair logo cedo para Palmas. O que acha?

Por mim tudo bem, estou é morto de fome. Não como nada desde manhã.  Preciso comprar alguma coisa de roupa.  Só tenho o que estou vestindo, meus livros nada mais.

Espere, vou fechar o banco, te levo para comer.   Se preferes podes ficar na minha casa, assim amanhã saímos cedo.   Não é qualquer dia que posso hospedar um jovem milionário.

Comeram um sanduiche ao lado do banco de pão com carne acebolada, com a fome que tinha, quase pediu outro.  Tomou uma coca cola, sem querer arrotou.  O outro ria.  Podes me chamar pelo meu nome, é igual ao teu Zé Carlos.

Depois o levou em duas lojas, comprou outra calças jeans, duas camisetas e cuecas, viu uma mochila parecida a que tinha, mas só que nova. A comprou, pagou tudo com o cartão.

Vês como é fácil, só tem que depois controlar teus gastos, inicialmente guarde esses recibos, anote num caderno, até teres um Laptop.

O que é um Laptop?  

Te mostro o meu quando chegarmos na minha casa.

Ele queria tomar um banho, colocar a roupa nova, limpa.   A casa era muito simples, pequena, mas limpa.  Vives aqui sozinho?

Sim tenho mais um ano de contrato, ninguém quer vir para cá, então te dobram o salário, conta como um ano a mais para aposentadoria.  Teve que explicar o que era isso.  Mas ele entendia logo o que era.

Lhe mostrou o Laptop.  Quando abriu, saiu logo de cara, uma página gay.  Perdão essa é a minha distração.  Mas ele quis ver.   Eu, meu amigo Bento, nos masturbávamos, nos beijamos, mas nunca fizemos sexo.

O deixou ver um filme, viu que ele ficava de pau duro.  Eita garoto. Gostas disso não é.

Tenho que aprender, nunca fiz.

Aqui tens um professor a tua disposição.   O levou para a cama, lhe ensinou muita coisa, mas não deixou que ele le penetrasse.   Isso não quero.  O outro sim. 

Caramba é bom não é mesmo?

Sim gostei, mas nem sabia como era.  Obrigado por me ensinar.

Olha Zé tens que tomar cuidado, lá no Rio, Copacabana principalmente, que é conhecida como Copacabana me engana.  Tem muito malandro solto.  Não vá fazendo sexo com qualquer um, nunca fale de dinheiro na frente de ninguém.  Estão sempre dispostos a dar um golpe.

O outro Zé o provocou novamente, fizeram novamente.  Caramba, podias ficar morando aqui comigo, ia ser o máximo.

Eu estou esperando a muito tempo para ir embora, seu Zé,  tenho que recuperar o tempo que estive cuidando de minha mãe, estudar, recuperar uma vida inteira.

Isso lá é verdade. Tens uma vida inteira pela frente. Mas sempre se lembre de mim, tenha cuidado, use camisinha.  Lhe mostrou uma, veja, vou colocar no seu piru, viu é fácil isso te protege de doenças venéreas.   Disse isso, se sentou em cima provocando uma sensação fantástica no garoto.

Dormiram abraçados um com o outro.  Ele despertou como sempre estava acostumado, escutou o outro tomando banho.  Esperou que saísse do banheiro. Da porta o outro disse, venha, te dou um banho.  Foi a melhor coisa que tinha experimentado. 

Não vou esquecer do senhor nunca, foram umas aulas muito boas.  Os dois riram.

Tomaram café, Entraram no carro, saíram pela estrada.  Andei pesquisando, creio que o melhor é que pegues um avião até Goiana, de lá outro até o Rio de janeiro.  Vamos passar no aeroporto, pode ser que tenhas que dormir hoje em Palmas.  Se quiseres posso continuar com as lições de sexo.  Você gostou?

Sim muito, nunca tinha feito, me trataste bem, é bom receber carinho junto não é, além do Bento, nunca tinha beijado mais ninguém.

O outro ria.  Quando chegaram ao aeroporto, foram os dois olhar para comprar bilhete, numa agência, a garoto explicou se fosse no dia seguinte, ele pegaria o primeiro voo, depois em seguida outro direto até o Rio de Janeiro. Comprou o bilhete com o cartão de crédito.  Vou telefonar ao meu irmão, para ele conseguir um pequeno hotel para ti, depois alugas um apartamento.  Ele deve ter muitos clientes que tem apartamentos de temporada.  Se gostares de algum inclusive podes comprar. Mas isso depois conversas com ele.

Ele é mais velho que você?

Nada, ele é o caçula da família, temos uma diferença de idade de pelo menos 10 anos.  No meio tem um bando de mulheres, todas casadas, cheias de filho.

Eu acho que ele gosta do mesmo que a gente, mas é muito fechado.

Agora vou para minha reunião, te deixo no shopping se queres comprar alguma coisa, mas lembre-se aqui sempre é mais caro que no Rio.

Se saio cedo da reunião, me encontro contigo lá.  O que ele ficou louco foi por uma livraria, nunca tinha entrado em nenhuma, se distraiu tanto, olhando os assuntos, perguntou a um vendedor se tinha mais livros de Hermann Hesse?

Sim creio que temos uma coleção.   Mas o mais vendido é esse Sidarta, fala muito no espírito.

Comprou esse, assim tinha alguma coisa nova para ler.  Sentou-se num banco ficou lendo até que o Zé apareceu.   Foram almoçar, depois ele arrumou um hotel para passarem a noite.  Eu disse que tinha que aproveitar para ir ao médico.  Lhe ensinou muitas coisas.

Eres um bom professor Zé. 

Olha outro Zé, se eu fosse esperto mesmo, tinha te convencido de ficar aqui comigo esse ano que falta, mas sou muito velho para ti.  É certo que ganharei mais anos para aposentadoria, ganho o dobro, mas me sinto terrivelmente sozinho aqui.  A solidão é uma coisa difícil de controlar, essa sensação, me faz ver os vídeos pornográficos que viste ontem em minha casa.

Posso te aconselhar muitas coisas.   Uma vá devagar com a coisa, não fale para ninguém do teu dinheiro.  Procure levar uma vida que goste.  Já vi que gostas de ler.  Estude o que não pudeste aqui. Já falei com meu irmão para te ajudar.  Quando chegares ao Rio, ele me disse que vai te esperar, lhe passo o número do voo, a hora que chega.  Já conseguiu quando falei com ele, um hotel perto do banco aonde trabalha.  Só te digo uma coisa, vá com cuidado, pois te tomaram por um caipira.   Olhe observe, aprenda a se comportar como mais um deles.  Aproveite a praia, mas sempre com cuidado. Faça um corte nesse seu cabelo tão bonito. Dizia isso passando a mão por eles, lastima não ter te conhecido antes.  Ficaria mais anos aqui.

Mesmo com meu irmão, primeiro observe para ver se confias nele.  Sempre atenção, pois o carioca sempre faz muita festa, mas no fundo não passa disto uma festa.

Espero que realmente sejas feliz por lá.  Qualquer coisa não te esqueça, aqui tens um amigo, um professor disse rindo.   Quando tenhas um celular, me chama sempre que quiseres ok.

Gostava do cheiro daquele homem maduro, viu que os cabelos brancos começavam a aparecer em sua cabeça.  Estavam abraçado, ele por detrás, ele meio dormido, sentiu uma ternura incrível por esse homem.  O que tinha tido com seu amigo Bento, realmente era uma coisa de criança.

Sem se dar conta ficou excitado, quando viu o tinha penetrado, este estava alucinado, acordar assim, é maravilhoso.  Ah meu garoto bonito.   Logo esqueceras desse seu amigo.

Acredito que não, Carlos, pela primeira vez não o chamava de Zé.  Assim não nos confundimos. Tomaram banho rápido de manhã, saíram para o aeroporto.   Como não tinha bagagem, somente a mochila, tudo foi rápido.   Carlos lhe deu o número do seu celular, me chame de noite quando estiveres livre.

Até Goiana, o vou foi rápido, desceram, foram guiados a outro terminal, de lá embarcou para o Rio.  Quando o avião chegou, fez como um voo rasante por cima da cidade, ficou sem folego pelo tamanho da mesma.   Sentiu um certo medo, se comparo isso com a vila, é como um peido rápido.  Desceu do avião, seguiu o resto dos passageiros.   Quando saiu, meio tonto, viu um homem alto com uma placa, José Eduardo Dunkerque, levou um tempo olhando a placa, era ele, não estava acostumado a isso,  bateu no ombro do homem, uma versão mais jovem do Carlos.

Sou eu, perdão, mas não estou acostumado a tanta confusão de gente.  O outro riu, meu irmão sempre diz isso quando vem de férias.   Meu nome é André Fontoura, como ele. Venha meu carro está no estacionamento.

Foi o tempo todo falando, descrevendo os lugares por aonde iam passando, a Universidade Federal do Fundão, depois disse que vamos cortar caminho, passando pelos tuneis.  No primeiro ficou assustado, nunca tinha passado em nenhum, no seguinte já ria.

De que estas rindo?

No primeiro túnel me deu medo, mas nos outros achei engraçado, isso de ter um pedaço da cidade entre um e outro.

Pois é tudo para cortar caminho.  Agora imagine isso num horários de Rush.

O que é hora do Rush?

Ah é a hora que as pessoas ou vão, ou voltam para casa.  Nos finais de semana os tuneis são uma loucura.

Não sei ainda aonde queres viver, mas Copacabana e Ipanema, estas no centro do Rio de Janeiro.  Meu irmão Zé que foi o primeiro a sair de casa, o resto da família vive na Tijuca, que é conhecida como zona norte.  Imagina quando eu ia visita-lo para ir à praia, era uma festa.  Ele é super boa gente.   Teve o azar de se meter com homens errados. 

Ele foi bacana comigo.  Conhecia minha mãe que era sua cliente, ela morreu há uns dias, eu a enterrei junto ao meu pai, ali ao lado do rio, aonde gostavam de se sentar no final do dia.

Tu mesmo enterraste tua mãe?

Sim, senão quem ia fazer isso.   Eu a enrolei em vários lençóis velhos que tínhamos em casa, a Marialva me ajudo.

Quem é a Marialva?

Ela era a dona do Putero da vila, quando todo mundo foi embora, porque não se achava mais ouro, ela fechou, ficou vivendo com o dono do bar.  Acho que ela nunca vai sair de lá.

Tinha uma vida num Paraiso, trocaste por isso daqui.

Não fala assim, pois teu irmão está louco para voltar.

Lhe falta pouco para se aposentar, com esse tempo lá, lhe concedem aposentadoria rápido.

Pelo visto conversaram bastante?

O que queres saber se dormi com ele?

Mais uma para aprender, eres franco.  

Estou acostumado a falar o que penso, minha mãe me ensinou a falar assim.  Dizia que quando comedimos as palavras, as pessoas se enganam a respeito da gente.

Sim dormi com ele, me ensinou a fazer sexo.  Por mais um pouco fico com ele por lá.  Mas quero estudar, recuperar o tempo que perdi. Por exemplo falaste uma palavra em inglês,  eu não sei nada.

Trouxe os papeis que me deram da escola, minha mãe os tinha guardado, mas não sei se valem aqui.  Tenho que arrumar um emprego também, gosto de trabalhar.

Como arrumar um emprego, se tens dinheiro a bessa. 

Não sei ficar à toa, la eu cuidava da horta, levava legumes ao Bar para a comida, fazia comida para minha mãe.  Fazia uma coisa que amo, mas o Carlos disse que tenho que tomar cuidado, gosto de nadar. Claro não tenho ideia da diferença de um rio para uma praia.

Depois te mostro, moro perto desse hotel, depois do trabalho, sempre vou à praia, mesmo que seja inverno.   Vou andar pelo calçadão.

O que é isso.  

Ao largo de toda praia, ou orla marítima, tem um calçadão famoso pelo seu desenho, nunca viste desenho animado em criança.

Ele começou a rir.  Se a única coisa que tinha na vila era radio, um na casa da Marialva, outra na nossa. Quando estragou, até gostei, pois não gosto de música caipira.

Nem eu, um verdadeiro horror, sou do samba.  No sábado vou ao samba com uns amigos, se quiseres podes vir conosco.

Nem imagino como seja. Vamos ver se me assento primeiro.

Preciso encontrar um apartamento pequeno para viver, tudo o que tenho está nessa mochila.  Necessito de tudo, roupa, embora gosto disso, calças jeans, camiseta, tênis.  Eu andava todo o tempo de calças curtas, de velhas calças cortadas, a maior parte do tempo sem camisa. Perto do rio é muito húmido.

Tomavas banho no rio nu?

Eu, como havia de ser?

Aqui não podes ir à praia assim.  Terás que comprar uma sunga.  Falar contigo é como sentir um bafo de inocência na cara.  Mas cuidado aqui no Rio pode ser perigoso.

Teu irmão já me disse mil coisas.

Que disse de mim?

Ué, pergunte para ele, não vou ficar no meio de uma conversa que acho que os irmão deviam ter.

Tinhas irmãos?

Nada, só meu amigo Bento, mas não tenho ideia do que foi feito dele.  Era meu companheiro para tudo, nascemos na mesma época lá na vila,  Mas ele foi embora, quando acabou o ouro.

Fico imaginando uma pessoa sair do Rio de Janeiro, ou São Paulo, se meter num lugar desse, sem conforto nenhum, tudo por ouro.  Há louco para tudo.

O meu irmão Zé, já viveu em Manaus, no Mato Grosso,  não entendo como ele lida com a solidão.  

Ah ele me disse para conseguir um celular, para ligar para ele. Eu o quero ter como amigo.

Mas ele é muito velho para ti.

André, vivi todo esse tempo no meio de velhos, tirando o Bento, todos eram muito mais velhos do que eu.  Tudo que sei, aprendi escutando as conversas deles.

Do que gostaste do meu irmão.  

O cheiro dele, o contato da pele, nunca tinha dormido com ninguém.  

Caramba, parece que estas apaixonado pelo meu irmão.

Isso eu não sei, porque só amei a minha mãe.   Fiquei para trás porque não podia imaginar deixa-la por lá sozinha.   Ela várias vezes me disse para vir para cá.  Mas me neguei.

Agora pelo menos terás uma lembrança para guardar, do meu irmão.  Quem sabe ele vem para o carnaval.

Isso deve ser uma loucura, uma vez escutei no rádio o locutor falando do carnaval do Rio, não conseguia imaginar como seria.

Bom estamos chegando ao hotel, já sei que não tens sunga de praia, fazemos o seguinte, te levo a recepção, deixamos tua mochila no quarto, aqui perto tem uma loja, vamos a minha casa, trocamos de roupa, vamos a praia, lá deve estar meus amigos. Cuidado, ficam loucos quando vem carne fresca no pedaço.

O que quer dizer isso?

Vamos combinar uma coisa, tudo que não souberes, venha ao meu lado, pergunta, assim não vão rir de ti.   Carne fresca no pedaço significa uma pessoa nova para fazer sexo.

Ah, entendi, não significa que eu quero fazer sexo com todos eles, nem penso. 

Parou na frente do hotel, André foi dizendo que era antigo, mas que os quartos eram bons. Se registrou, o levaram ao quarto, deixou a mochila, desceu outra vez. 

André o levou a uma loja, compraram um celular de carga, não tenho ninguém ainda com quem falar, quanto devo colocar de carga.

Ponha uns cinquenta reais, a não ser que queiras falar muito com meu irmão?

Claro que quero falar com ele.  Depois necessito do teu, para marcarmos as coisas do banco,  das pessoas que for conhecendo. 

Cada vez que for necessário colocas um valor maior.  Até saber como vai ser.

Mas terá que carregar primeiro a bateria.  Na praia te passo o meu, falas com o Zé. Ok

Comprou uma sunga negra.  Quando mostrou ao André, caramba garoto, que corpo tens, a cor está ótima.

Depois podes comprar bermudas no shopping, lhe explicou como ir até lá.

Quando viu o mar, ficou alucinado, mas se controlou para que não rissem dele, aliás tinha tido uma ideia desde o avião.  Um grupo de homens acenou para o André.

Ele apresentou a todo mundo.

Me desculpem se não guardar os nomes,  tenho muita informação na cabeça agora.

Sentaram-se na areia, tomando cerveja.  Ele disse que estava  de estomago vazio para beber. Só tinha comido no avião. 

André lhe apresentou um dos homens, esse pode te ajudar, Miguel tem uma imobiliária, diga o que queres.

Apertaram as mãos, o outro lhe comia com os olhos. 

Ele riu, sou carne fresca na praia, não é?

O outro soltou uma gargalhada, o garoto tem humor.

Olha Miguel, gostaria de um apartamento pequeno,  para uma pessoa sozinha.  Nada muito grande. Não tenho moveis.  Agora vendo o mar, não sei se é muito caro, um que esteja de frente para o mar.   Tampouco tenho noção de quanto custa um aluguel.

Veja, tenho um de um cliente, que me pediu uma pessoa de confiança, pois ele vai passar quase um ano fora trabalhando, para a empresa que tem filiais pelo mundo.  Não é grande, mas tem de tudo, fica de lateral para a praia.  Podemos ir amanhã se quiseres, vou te dizer o meu número de celular, colocas no teu.

O dele ainda tem que se carregar Miguel.   Espera, chamou um garoto que vendia cerveja numa barraca, perguntou se podia emprestar o carregador para seu amigo.  Claro Miguel, você manda.

Olha quando vieres a praia fica aqui na barraca do Carlinhos.

Ele se levantou apertou a mão do Carlinhos, obrigado por me emprestar seu carregador.

Uau, vê se vocês aprendem um pouco de educação com esse garoto.  Eu estou cansado de escutar ei, psiu, me traz uma cerveja.  Psiu, eu lá sou passarinho por um acaso.

Todos riram.  Ele não entendeu, mas achou engraçado.  Queres beber alguma coisa. 

Tenho que comer alguma coisa.

Espera, garoto, chamou um menino que estava ali perto, vai até a barraca da tia Eulalia, vê o que ela tem ainda para comer.

O menino voltou correndo, ela tem pasteis de camarão, de queijo que acabou de fazer. 

Diga que mande uma boa ração aqui para meu novo amigo.

E os outros não querem comer?

Vejam, esses marmanjos, não se preocuparam se tinhas fome ou não, eles que levantem essas bundas gordas da areia, vão eles mesmo buscar.

Olha só disseram todos, o Zé já conquistou o coração do Carlinhos.

Deixa de me encherem o saco, cambada de sem vergonhas, estão todos de olho no piru do garoto que eu sei.  Mas só de olhar nos olhos dele, os digo, vocês não fazem o tipo dele.

Carlinhos vou ficar louco, se for assim.  Lá de onde eu venho, eu era como se fosse uma criança pequena no meio de muitos velhos.  Não estou acostumado a ser “carne fresca” para ninguém.

Eu escolho com quem fazer sexo.

André soltou, ele está apaixonado pelo meu irmão mais velho.  Creio que faz seu tipo.

Não é verdade André, ele foi uma pessoa genial comigo. Falar nisso liga para ele, prometi, sempre cumpro o que prometo.

Mano, teu menino está aqui na praia com um bando que esta babando por ele.

Agora que já tinha comido, estava tomando uma coca cola.  Olá Carlos, como está, a viagem foi tranquila, mas quando o avião fez como um passeio por cima do Rio, fiquei deslumbrado.

Se levantou, ficou andado por ali falando com ele.

Garoto já sinto tua falta. 

Ele riu, pois esses daqui pensam que sou carne fresca no mercado.  Segundo teu irmão estão babando por mim.   Mas eu preferia estar contigo.  Anote o número do meu celular, está carregando, assim de noite eu falo mais contigo.

Eu não disse, viram o tom como ele fala com meu irmão.  Isso é paixão na certa.

Ele riu, nem sei o que é paixão, amor nada disso, sou jovem demais para saber dessas coisas.

Quando disse sua idade, ficaram de boca aberta.  Vou fazer vinte anos, daqui uma semana.

Temos que fazer uma festa.

Neste sábado quem vai ao samba.

Que pergunta idiota, todo mundo né.   Vamos tirar a virgindade desse garoto no samba.

Foi até a agua, acompanhado por todos.  Como se faz para nadar aqui?  Num rio é fácil, buscamos lugares que não tem corrente.

Aqui as pessoas na verdade se molham, dão um mergulho, ou ficam aonde dá pé. Explicou o que estava falando. Viu como mergulhavam, era o mesmo que estar no barranco como fazia com o Bento,  viu que esperavam uma onda , mergulhavam por cima dela.   Experimentou, achou ótimo, sem querer engoliu um pouco de água, era um sabor diferente.  Viu que algumas pessoas nadavam não no sentido das ondas, mas entre elas. Experimentou, dava certo.

Quando saiu os amigos do André o olhavam rindo.

O que foi?

Tens que apertar a sunga, quase ficas de bunda de fora na hora do mergulho. Eles aqui estavam admirando seu corpo.

Esperem eu não sou uma mercadoria, não gostei disso não. Olhou um por um, sou uma pessoa que fala o que pensa.  Não quero fazer sexo com nenhum de vocês ok.

Ficaram com a boca aberta, não estavam acostumados a escutar uma pessoa que falasse assim.

Miguel, amanhã te telefono, a que horas abre a imobiliária.

As 10 da manhã.

Ele sem querer soltou, que era muito tarde, estava acostumado a se levantar as 7 da manhã.

Espera, meu amigo que quer alugar o apartamento se levanta cedo, vou falar com ele, assim caio da cama fazendo negócios logo cedo.

Falou com o outro.  Só o escutava dizer ok, ok,  ok.

Perfeito amanhã as oito passo no hotel para te buscar, vamos ver o apartamento, assim ele te conhece.

Se despediu de todos apertando a mão, André foi com ele até o outro lado da avenida.  Sempre falas assim com as pessoas.  

Já te disse André, falo como fui educado.  Não gostei muito de ser examinado como um peixe que acabam de tirar de um rio.  Não sou uma mercadoria.  Honestamente fiquei chateado, é mais fácil que eu faça sexo com o Carlinhos, que com qualquer um deles.

Carlinhos brinca, mas é casado, tem 4 filhos.  Hoje a mulher não estava na praia, mas não permite que ninguém toque no que é dela.  Acabaram rindo.

Ele aproveita para se engraçar com o pessoal, porque a mulher não estava ali.  Aquele garoto que foi buscar os pasteis, é filho dele.

Caramba, vim embora sem pagar.  Virou-se esperou o sinal fechar, viu que faziam assim, foi até o Carlinhos, me desculpa amigo, me esqueci de te pagar, tirou dinheiro da calça, perguntou quanto era, lhe pagou, chamou o garoto lhe deu 10 reais.  Obrigado por ir buscar os pasteis, diga a senhora que estavam fantásticos.

Abanou a mão para o pessoal outra vez, foi embora, antes disse para o André sei que gostas de ficar na praia. Já sei aonde está o hotel, basta atravessar a rua, seguir em frente, no meio do quarteirão.

Isso, mas fico mais tranquilo se vou contigo. 

Ok André, mas se me proteges muito, não aprendo a me virar.

Mesmo assim foi com ele.  Não viste a cara do pessoal, tem uns dois que são malandro, tomam cerveja, vão embora, como se tivessem esquecido de pagar, que fica por último na praia, acaba pagando por todos.  Às vezes é foda isso.  Mas por hábito nos calamos.   Tenho que aprender ser como tu, falar.

Aliás teu irmão não sabes que é gay?

Não sei?  Por quê?

Se você não conversa com ele, como ele vai saber?     Imagina como ele se sente sozinho por lá sem ter com quem falar.

Na porta do hotel se despediu, agradeceu a atenção.  Amanhã vejo o apartamento, depois peço para o Miguel, me dizer aonde é o banco, para pedirmos a transferência do dinheiro.

Eu já olhei tudo, só terás que assinar os papeis pedindo a transferência, o número da conta continua o mesmo. 

Subiu, tomou um banho, se vestiu outra vez, desceu, perguntou aonde poderia comer, depois passou por uma farmácia, para comprar pasta de dente, escova, tudo o que precisava.

Estava cansando, ver tanta gente junta o tinha feito se sentir invadido.

Quando voltou, o celular estava já carregado, inaugurou o mesmo chamando o Carlos.

Caramba, não esperava que me chamasse de novo.  Estava rodeados de gente sarada, chamas um velho.

Pois prefiro a ti, que todos eles, teu irmão sabe que fizemos sexo, porque lhe disse que preferia a ti, do que todos eles.  Não estão muito acostumados que se diga a verdade.  Achei uma merda que me ficassem olhando como uma mercadoria.

Acabei vindo embora, tanta gente me faz sentir invadido.  Teu irmão me disse que talvez venhas para o carnaval?

Sim pode ser.  As vezes vou para encontrar velhos amigos.  Mas na farra não caio, nunca gostei muito disso.

Me convidaram para ir ao samba com eles no sábado, irei para ver, mas se não gosto, venho para o hotel.             Amanhã vou ver um apartamento, um dos menos chatos do grupo tem uma imobiliária, me falou de um amigo dele, que vai passar fora um ano, é que o apartamento, está bem, fica de lateral para a praia.  Vou ver amanhã as 8 da manhã, depois vou ao banco ver as coisas com teu irmão.

Estou falando contigo, me lembrando do cheiro do teu corpo.

Olha garoto não fique falando assim, nossa diferença de idade é muito grande para ficarmos fazendo fantasias.

Então queres que te minta?

Não, eu sei como eres, duas noites contigo, tive mais que com todos os homens que conheci.

Bom se eu conseguir um apartamento, quando se vieres para o carnaval ficas comigo, assim podemos nos conhecer melhor.

Não queria desligar, sentiu que o Carlos também.  Uma última pergunta, acreditas que tudo dará certo?   Teu irmão ficou rindo, quando lhe disse que ia procurar um emprego.

Pensas em trabalhar?

Claro, não imaginas, que vou ficar todo dia na praia, sem fazer nada.  Tenho que fazer uma lista do que quero fazer com a minha vida.  Amanhã leio para ti, tudo ok.

Vais me chamar amanhã?

Claro, com quem vou falar, a não ser contigo.   Não sabia por que, mas gostava de falar com ele, se sentia bem.

Um beijo lhe disse o Carlos, durma bem.

Tu também, vou sentir tua falta na cama.

Para garoto, senão sou capaz de largar tudo aqui, ir correndo para o Rio.

Durma bem.

Agora sim, se sentia sozinho pela primeira vez na vida.             Na vila, sempre ia ao bar ficar escutando a conversa dos velhos.    Não bebia, as vezes ajudava a limpar o balcão. Depois ia para casa ficar com sua mãe.   Contava o que tinha escutado.

Começou a ficar com sono, se lembrou que ainda não tinha aberto o envelope que sua mãe tinha deixado com o Carlos.  Farei isso amanhã.

Tinha dormido com as cortinas abertas, não estava acostumado, gostava de ver o sol entrar pela casa adentro.     Viu que era cedo, mas se levantou, tomou um banho, limpou a cara como dizia a Marialva, pois tinha penugens, de barba nada.         Não sabia por que sempre se lembrava dela. Pois talvez porque fosse a pessoa que sabia o que ele era, nunca o criticou.      Um dia disse, que outro teria partido deixando a mãe para trás.   Vá se entender a cabeça dos homens.

Deixou a carta do lado de fora, queria ler com calma.  Não podia imaginar o que sua mãe queria lhe dizer.  Depois de tantas conversas que tinha tido.

Desceu para tomar café, era o único por ali.  O garçom disse que era muito cedo, os hospedes gostam de dormir até tarde.

Logo chegou Miguel com uma cara de sono de fazer gosto.  Fui dormir tarde, ficamos tomando cerveja, depois fomos jantar.  Tu foste o assunto das conversas.

Não fez nenhuma pergunta sobre isso.

Não sentes curiosidade sobre o que falamos?

Não.  Olha Miguel, ontem fiquei ofendido, entendo que entre vocês existe essa coisa de carne fresca no pedaço, mas eu assim me sinto uma mercadoria.  Gosto do Carlos, o irmão do André, foi o primeiro homem com quem fiz sexo, além de sentir por ele uma coisa que não sei explicar. Estivemos ontem a noite falando horas.  Uma grande pessoa.

Sim ontem todos se surpreenderam com o André, te defendeu quase saindo no tapas com um do grupo que já foi seu namorado.  Este dizia que estava apaixonado por ti.

Nos conhecemos ontem, Carlos lhe pediu que me ajudasse.

Pois é, o André é uma pessoa difícil.  Disse a todos que gostaria de ser como tu, que falas tudo o que pensa, sem se importar se ofende.  No nosso grupo, sempre há certa mentira piedosa.  Nem sempre se fala tudo.  Eu gostei disso.  Ah, antes que me esqueça, o dono do apartamento é uma pessoa famosa, acha que todo mundo quer transar com ele. 

Realmente o tipo era um pedaço de homem,  mas ao entrar no apartamento, se sentiu oprimido, as paredes estavam cheias  de quadros, por aonde se olhasse havia obras de arte.  O apartamento ele gostava, mas havia coisas demais para seu gosto.  Se lembrou da casa dos seus pais, a única coisa que havia na parede era um calendário velho.  Ele sempre tinha visto o mesmo ali.

Depois de ver o apartamento inteiro, o homem virou-se para ele, perguntou o que achava?

Gosto, mas me sentirei invadindo um espaço que não é o meu.           Agradeço ter acedido a me  mostrar o apartamento, mas não é o que quero.        Como lhe dizer, só gosto que as paredes são brancas.   Necessito de um apartamento que possa me sentir meu.

Lastima, gostei da sua cara. Quiça poderíamos conversar a respeito.

Ele entendeu imediatamente a mensagem.  Não obrigado, tenho um dia complicado hoje, daqui tenho que ir ao Banco, tenho que trazer meu dinheiro para cá.

Bom se é assim, sinto muito, falem com o porteiro, tem um senhor alugando ou vendendo um no sexto andar, igual de tamanho que o meu, mas está em mau estado.

Falaram com o porteiro, esperem o proprietário também mora aqui. Vamos subindo que ele nos encontra lá.

O apartamento dava lastima, paredes com muitas cores, mas com uma vista impressionante, menos barulho talvez.  Não tinha nenhum moveis.  As portas dos armários do quarto estavam no chão, alguém tinha destroçado o interior do mesmo.  Os da cozinha iguais, mas tudo precisava de uma limpeza, arrumação. 

O que aconteceu aqui?

Quem respondeu foi um senhor de cabelos brancos desde a porta.       O último inquilino era um filho da puta, se foi levando todos os moveis, fez isso de madrugada, quando não estava o nosso amigo aqui o porteiro.  Verdade José?

Ainda destroçou tudo, nem sabia que tinha pintado as paredes assim.

Uma merda total, estou mais para vender o mesmo que para alugar.

Ele foi até perto da janela, viu que a beleza da praia, com o sol que já tinha subido um pouco fazia como a marcação de um largo caminho.

Eu alugo com direito a compra, se o senhor for vender, tenho direito a compra antes que qualquer um.

Interessante.  Mas já pensou que vais ter que reformar inteiro? Comentou Miguel.

Sim, mas eu gosto da vista. Olha o Carlinhos montando a barraca.  Como ele conhece todo mundo pode ser que saiba quem pode fazer isso para mim.

Fico com o apartamento, o senhor combina tudo com o Miguel, eu posso pagar os meses de adiantado que o senhor pedir.

Mas você nem perguntou o preço do aluguel.          Isso é contigo Miguel, um bom preço sempre discute o dono de uma imobiliária, sabendo que vou ter que reformar o apartamento. Se preciso voltar com alguém quem tem a chave?

Eu, disse o porteiro.

Já volto.   Desceu até a praia, foi falar com o Carlinhos.  Lhe deu bom dia, a cara do garoto era de sono.  Dormimos tarde ontem.  Ele está morto de sono. 

Carlinhos, podem hoje fazer gozação contigo, pois ontem eu disse que preferia fazer sexo contigo, do que com aqueles que estavam comigo.            Me senti muito ofendido, parecia que olhavam uma mercadoria.

Eles são assim mesmo, mas no fundo estão sempre sozinhos, porque não sabem amar, nem ser amados.

Vamos ao que me traz aqui, mostrou Miguel que estava na janela.                 Estou alugando este apartamento, precisa de uma boa pintura, limpeza, uma pessoa que coloque as portas dos armários no lugar, vocês conhece alguém que possa fazer isso.

As portas essas coisas posso fazer eu, a limpeza, pintura minha mulher faz.  Bem como uma boa limpeza em tudo.   Acho que ela está justamente fazendo a limpeza num apartamento daí.

Tico, fica aqui com as coisas que eu já volto, vou com nosso amigo, ver esse apartamento, foi atravessando a rua, falando pelo celular.   Perguntou que andar era.  Sim, sim, te esperamos lá.

Quando chegaram o Carlinhos disse, que merda fizeram aqui.  Nisso entrou pela porta uma mulher que mais parecia um homem.      Ele entendeu, Carlinhos era o frágil da relação.  Ela se parecia até certo ponto com a Marialva.

Lhe apertou a mão.  Carlinhos disse que podes arrumar o apartamento para mim.

Ela andou tudo com as mãos no bolso, parecia um homem, só dizia, que merda, como podem fazer isso.

Posso arrumar sim senhor, posso pintar, limpar tudo, as portas ajudo o Carlinhos, passou a mão pela cara dele, como um carinho. Essa cozinha está um nojo.    Agora se fosse o senhor, trocava, as lâmpadas, essa luz amarelada, dá uma cara pior ao lugar.      O banheiro, tinha uma banheira, um chuveiro a parte.  Aqui tem que esfregar de cima a baixo.    Podemos pintar o teto de branco para clarear.   Trato feito.  Basta me dizer quando podem começar.      Hoje mesmo a tarde posso colocar as portas no lugar, terei que comprar dobradiças novas, agora o melhor, retirar tudo do interior, pintar de branco.

Carlinhos, eu nunca tive armário na vida, nem sei se tenho roupa para colocar dentro. Começou a rir.  Viu que eles não entendiam.

Eu vivia num casebre, que deve ser como essas casas na montanha, toda feita de pau a pique, na beira do Tocantins.  Não tínhamos nem portas, as janelas, se tapavam com um troço de pano.

Minha cama Carlinhos era um colchão no chão,  essa noite despertei várias vezes, com a sensação que estava no alto.  A única cama era a da minha mãe.

Como é seu nome, perguntou à mulher do Carlinhos?

Dejanira seu Zé, foi como tinha visto seu marido lhe chamar.

Ótimo, tirou dinheiro do bolso, quanto precisas para comprar tudo?

Mais fácil o senhor me pagar depois,  aqui não se faz isso, muita gente pega o dinheiro, desaparece. 

Bom o Carlinhos me cobra então tudo depois.  Vou fazer o seguinte, tenho que ir ao banco, para transferir meu dinheiro para cá.  Depois vou comprar uma cama, lençóis, travesseiros, pode ser que o Carlos venha ficar comigo no carnaval.

Você conhece o Carlos irmão do André, Carlinhos?

Sim o vi um dia na praia, é muito sério.

Pois é um grande amigo meu, talvez seja por isso, gosto de gente séria.

Fez tudo o que tinha dito, foi ao banco, falou com o André, Miguel foi junto, ria muito, esse garoto promete, conseguiu que um velho gostasse dele, sabe quanto vai cobrar de aluguel, a metade que o outro ia cobrar. 

Me esqueci, Zé, melhor pedir ao Carlinhos para trocar a fechadura da porta, porque está meio velha.

Miguel estava tentando ver o valor que ele tinha no Banco, mas ele entregou rapidamente o papel para o André. 

Este lhe disse que tinha pedido um cartão de crédito, sem limites para ele.  Tirou do envelope, aqui tens o código.  Fica mais fácil, já que vais ter que comprar os moveis.

Sabe, ontem estive falando com meu irmão, tinhas acabado de desligar.      Senti que ele estava feliz.  Ficamos falando muito, acho realmente que ele vem para o Carnaval.

Creio que descobri por que gosto dele, é honesto comigo, sério, além de que adoro o cheiro da pele dele.  Me tratou como um homem, não como um garoto que todo mundo quer fuder.

Me disse para cuidar de ti, mas respondi que sabias sozinho cuidar de ti mesmo.

Aonde posso comprar móveis?   Miguel disse que o acompanhava, pois tinha gente trabalhando na agência.  O levou a uma loja moderna.   Olhou as camas, acabou escolhendo uma que estava no catálogo, comprou o colchão.  Ficaram de entregar em dois dias.       Na mesma loja comprou vários jogos de lençóis, almofada para a cama.  Viu uma mesa para a sala, cadeiras, tudo muito simples.  Mas gostou de dois cadeirões que estavam no catálogo.         Perguntou se aguentavam ficar no sol, pois queria colocar na grande janela, para ver o sol nascer.

Não vais colocar cortina no apartamento?

Miguel, gosto de ver a claridade do dia, a escuridão da noite.  Não tenho vizinhos de frente.

Me lembrei de uma coisa, tinha uma porta fechada, não abrimos, pensei que fosse a saída para empregados, este apartamento tem uma coisa que o outro não tem.              Tem mais um quarto pequeno, outro banheiro, uma pequena área de serviço.     Depois tens que falar para limparem ali também.

Creio que a Dejanira sabe, porque limpa vários apartamentos do edifício.  Começou a rir.

De que estas rindo?

Entendi por que o Carlinhos não é gay, ele tem um macho dentro de casa que é a Dejanira. Ela é como a  Marialva, forte, uma mulher que sabe o que quer.

Miguel não entendeu o que ele queria dizer.

Depois atravessaram a rua, havia um dos mais antigos shopping do Rio.  O Rio Sul,  deram uma volta pelas lojas.  Não precisas de roupas, o André disse que necessitavas de bermudas. 

Mas se eu comprei essas calças novas outro dia, mas acabou aceitando, comprou duas bermudas diferentes, cuecas, camisetas.              Viu uma camiseta que gostou, mas não era seu tamanho.  Para que queres isso perguntou o Miguel.

Ele não disse nada.  Comeram foram embora.  Miguel o deixou no hotel, ele colocou uma das bermudas, realmente era mais confortável andar assim.  Com uma das bolsas foi até a praia, lá estava o Tico chateado.

Cadê teu pai?

Está dando uma mão para minha mãe, hoje a praia está fraca. 

Bom para melhorar teu humor, vi essa camiseta, comprei para ti.

A cara do garoto era demais.  Que lindona seu Zé,  Nisso o Carlinhos vinha chegando, foi logo dando a bronca no garoto, não dizes nada ao Zé.

Obrigado seu Zé, é lindona demais.  Mas tô fedido para colocar isso.

Vou lá no apartamento para ver como está, vens, toma um banho, das um beijo em tua mãe, volta para ajudar teu pai.   Eu sempre ajudei o meu no armazém que tinha.

Carlinhos, ria, lhe deu um abraço, obrigado pela força Zé.

Força nada, as pessoas estão para isso, ajudar as outras.   Esse menino não vai à escola?

Não gosta de estudar, é malandro.

Bom vamos embora Tico que tenho coisas para fazer hoje?  Quando chegaram ao apartamento, o Tico deu um beijo na mãe.  Está o olhou, o que estas querendo garoto?

Uai foi o Zé que disse que tenho sempre que beijar minha mãe, para ela saber que gosto dela.

Seu Zé, isso vai dar trabalho, já esfreguei o banheiro uma duas vezes, quem vivia aqui era porco.  Amanhã começo logo cedo a pintar as paredes.  Os armários já estão com as portas nos lugares.  Limpei também a área de serviço, o quartinho, estava cheio de merdas, o porteiro me ajudou a jogar tudo fora.  Mostrou a área de serviço.  Não tinha visto isso, vais pintar tudo isso também, não é?

Uma coisa seu Zé, essa louças que esta ai, é do proprietário, já disse para ele que está para jogar fora.  Muito velha, se fosse o senhor, comprava uma nova.  Tem uma loja aqui na rua, que tem umas simples e baratas. Dê uma olhada.

O garoto tinha encontrado uma toalha no banheiro, saiu enrolado nela. Vou ter que colocar a mesma cueca que já uso a três dias, a bermuda engana, mas com a camiseta nova, cueca velha.

Eu nunca usei cueca Tico, nunca tive nenhuma até sair da vila.  Além de que tinha um buraco.

Ficaram rindo.  Tico olhou sério para ele, não acredito nessa histórias que conta, se não tinhas nada, como agora podes alugar esse lugar.

Ouro Tico, ouro, tudo escondido.  Ali na vila, não podias aparentar, pois senão te roubavam.

Voltou para o hotel, sentou-se na pequena varanda que tinha, abriu a carta de sua mãe.  Dentro havia outra carta, estava escrito em cima Marilena Costa.

Num outro papel, explicava, que era sua mãe.  Vá até aquele endereço que te dei, entregue a ela, não deixe ele colocar a mão em cima.  Cuidado com ele, é um tipo realmente mau.

Pegou o papel com o endereço, perguntou na portaria, como fazia para ir até lá.

O rapaz lhe ensinou. Vás até a estação de Metro, esse rua fica subindo por detrás.

Foi perguntando até que encontrou a rua, foi subindo para encontrar o endereço, no meio dos edifícios tinha algumas casas.   Tocou a campainha várias vezes, ninguém atendia, melhor volto outra hora.   Desceu as escadas do jardim mal cuidado, viu subindo uma senhora arrastando um carrinho de compras.  Foi até ela ofereceu ajuda. 

Que fazias saindo da minha casa?

Vim entregar uma carta para a senhora Marilena Costa.

Sou eu, tua cara me parece de alguém conhecido.

Sou filho de Maria Costa.

Ela parou, as lagrimas caiam pela sua cara. Você é meu neto?

Acho que sou sim. Venha, vamos entrar em casa.   No salão estava sentado um homem de costas, não se moveu em momento algum.        Ela se colocou na frente dele, lhe disse bem alto, está aqui uma pessoa para nos conhecer.

O homem se levantou, era alto, tinha os cabelos num corte militar.  O olhou de cima a baixo, se veio pedir dinheiro, não tenho.

Amador, é nosso neto, filho de Maria.

Eu não tenho filhos, tampouco netos, desapareçam das minhas vistas.

Além de tudo mal educado, bem que minha mãe falava do senhor.            Creio que merece uma patada dos ovos para deixar de ser tão filho da puta.   Fale direito com minha avó.

Ele tornou a olha de cima a baixo.  Ela não era minha filha.      Deixou de ser, no dia que saiu por esta porta com aquele filho da puta.

A senhora, fez um sinal para ele.   Já que estas de mal humor, vou sair com meu neto para tomar um café ou chá.   Estou farta do seu mal humor.

Venha, lhe pegou pelo braço, quando voltar guardo as frutas, tem um café ali perto do Copacabana Palace, que passo sempre, me dá vontade de entrar, me sentar, conversar com alguém.

Foram os dois conversando, contou como tinha morrido seu pai, quando falou da mãe, ela ficou triste.  Bem ela mesmo, odiava os médicos.  Mas aonde a enterraste. 

Ele contou o que tinha feito, ela apertava tanto sua mão, que chegava a doer, mas não reclamou.

Quando entraram no lugar, ela olhava tudo maravilhada.  Não sei se estou bem vestida para esse lugar, se via que sua roupa era velha.

Faz tanto tempo que não compro nada para mim.  Mas o que importa é que estas aqui.  Como vieste até o Rio.  Ele contou sua viagem.  Acabo de alugar um apartamento com vista para o mar. 

Tens dinheiro?

Sabe avó, não entendi, tinham tanto dinheiro, vivíamos simplesmente, nunca morri de fome, mas ela podia ter-se tratado, mas perdeu a vontade de viver quando meu pai morreu.

Mas te prometo que cuidei dela até que morreu.       Me deixou uma fortuna em ouro, nem sei o que fazer com tudo isso.  Mas quero estudar, arrumar minha vida.

Vou te contar uma das verdades, escondidas debaixo de muitas mentiras, isso fez ela partir. Ela não era nossa filha, seu avô era estéril.                  Odiava as crianças.   Uma sobrinha minha, ficou gravida, pensou em abortar, eu lhe disse que queria a criança.        Nunca soube quem era o pai, ela morreu ao dar à luz, era muito jovem, tinha somente 16 anos.             A enterrei como se fosse minha filha, nunca mais voltei a falar com ninguém da minha família.          Criei tua mãe como se fosse minha filha.             Esse velho filho da puta, era militar, estava sempre implicando com ela, quando chegou a adolescência, chegou as resposta.              O mandava a merda de início, se ele insistia, saia de casa batendo a porta.       Um dia conheceu o chofer do teu avô, militar como ele, se apaixonaram.  Ai a casa veio abaixo, como ela ia se casar com seu chofer.   Tanto fez que eles foram embora.  Depois disso só a amargura.    Ele pensou que quando se aposentasse seria com máximas honrarias, mas fez muita merda, simplesmente lhe aposentaram.    Desde então não sai de casa.   Nos oferecem agora uma fortuna pela casa, para construir algum desses monstros.

Ele se nega, diz que quer morrer aqui.   Eu preferia ir para uma residência. Podíamos pagar uma muito boa, mas ele se nega a gastar dinheiro, fala num futuro.          Mas não sei que futuro é esse.  

Ficaram conversando, ele contando como era a vida lá na vila.  Me deixou esta carta para a senhora.                Lhe entregou, ela apertou contra o coração, com as lagrimas caindo pela cara. 

Leia para mim.  Estou ficando cada dia mais cega, depois esqueci os óculos em casa.

Ela agradecia, a sua mãe Marilena, ter cuidado dela todos esses anos,  eu sabia que não era sua filha, esse velho é malvado, toda vez que saias ele me dizia que não era sua filha.     Ria na minha cara, embora ela faça tudo por ti.  Não passas da filha de uma rapariga.        Um dia não aguentei mais lhe apontei seu próprio revolver.       Mas pensei para que vou sujar minhas mãos com esse velho amargado.      Lhe disse poucas e boas, que claro ele não tinha filhos, porque seu revolver não funcionava.  Com certeza era gay.

Quis me pegar, mas sai desta casa, com a roupa do corpo, fui embora com o homem que me queria, o amei todos os dias da minha vida.nnn   Sempre falei de ti para a Marialva, ela dizia que sim tu eras a minha mãe, o resto não importava.

Eu sempre acreditei que sim.   Um dia esta carta te chegará das mãos do meu filho, ele vem me cuidando, junto com a Marialva que sempre encontra um tempo para estar ao lado da minha cama.  Espero que tenhas me perdoado.  Que tenhas resolvido de uma vez, cuidar de ti mesma. Beijos de sua filha Maria.

Ela se abraçou a ele, estou dando um vexame. Chorando assim.

Nada minha avó, chorar é bom.   Pediu um copo de água com açúcar, para ela, pediu chá, para os dois, bolos.    Por que a senhora não vai para essa residência?

Porque todo o dinheiro está no nome dele, assim de simples.  Aonde é esse lugar.

Lá prós lados de Jacarepaguá, vou lá sempre visitar minha melhor amiga. 

Eu sou um homem que nunca deixa para depois o que vai fazer agora.        Vamos até sua casa, comigo ele não vai se atrever.  Arrumas uma maleta, com tuas coisas.  Chamo um Uber, vamos até lá.  Eu pago para a senhora ter um final de vida, melhor, ao lado de sua amiga.  Quer?

Ia adorar, mas e ele?

Terá que reconhecer seus erros, se tiver um mínimo de inteligência, irá atrás da senhora.

Voltaram de braços dados, pode deixar que irei visita-la sempre.  Arrumarei um tempo para ir lá conversar com a senhora.

Eles entraram na casa, o velho continuava na mesma poltrona, quando ela voltou com a maleta, lhe avisou, meu neto vai me levar para a residência.  Tudo o que ele disse foi, “quem vai cuidar de mim, é tua obrigação” .

Minha obrigação já acabou a muito tempo.  Arrume alguém, pague com o dinheiro que não gastas.

Minha herança não vai ficar para o filho desta.

Ele não precisa, é milionário, coisa que tu não es.

Quando saíram o carro já estava esperando.  Ela disse aonde ia.             Só tive coragem porque estavas ali.  Encostou a cabeça no ombro dele, quanto tempo perdido meu deus. Quanto tempo.

Quando chegaram, ele chamou o André para perguntar como domiciliar uma cobrança na sua conta, lhe explicou o que era.  Você me passa a pessoa responsável, eu explico.

Ela poderia dividir quarto com sua amiga de toda vida.  Olha meu neto, me tirou da escravidão. Eu não dizia que um dia minha filha voltaria, mas veio meu neto. 

Quando o administrador preencheu todos os papeis, ele ligou para o banco, André lhe deu o número que devia cobrar todos os meses.  

O senhor faz uma coisa, cobra três meses adiantados.  Se ela precisar de medicamentos pode comprar, debitar na minha conta.        Ela não vê direito, diz que não sabe aonde tem os óculos, creio que o velho nunca quis comprar nenhum para ela.

Antes de ir, esteve sentado horas com as duas senhoras, inclusive almoçou com elas, quando chegou a hora de descansar, ele se despediu, abriu a bolsa dela, enfiou dinheiro dentro, para qualquer necessidade,  o administrador tem meu número de celular, pode pedir que eu pago. Ela o beijava muito, como fazem as avós.           Antes de sair, lhe disse, diga a Marialva que eu agradeço ter cuidado da minha filha. Que Deus te proteja meu filho.

Bom esse assunto estava resolvido, mas nem pensava em ir ver o velho, afinal, não era seu avô mesmo.

Voltou ao apartamento, já tinha outra cara, o colchão tinha chegado primeiro que a cama.  Dejanira disse que tinha assinado o recebimento.  Disseram que a cama estará amanhã aqui.

Obrigado, que tarde bonita.  Estou quase pensando em dar um mergulho.          Bom está tudo lavado, esfregado,  Amanha dou outra passada de tinta, estará pronto.  Quer que eu vá com o senhor para ver o que lhe disse da louça.  Foi com ela.

Te vejo triste?

Pois é Dejanira, hoje descobrir por que minha mãe foi embora daqui.         Encontrei minha avó, arrumei um lugar para ela viver lá prós lados de Jacarepaguá.  Uma residência aonde vive uma amiga sua.   O velho, não é meu avô, ficou na casa, explicou aonde era. Um dia terá que vender.

Fizeste bem, as vezes os homens são uns idiotas.          Veja meu Carlinhos, eu o tirei das drogas, tudo bem o tenho atado com mãos de ferro, quem ia aceitar uma mulher como eu, que pareço um homem.   Adoro meus meninos, o Tico é o mais velho.  Mas não sei o que fazer com ele.

Chegaram à loja, ela foi mostrando o que ele precisava. Comprou tudo, viu que ela olhava disfarçadamente o conjunto de pratos.  Comprou outro.

Ela lhe disse, para que dois, a não ser que o senhor vá precisar para dar festas.

Nada Dejanira, detesto festas, esse outro é para tua casa.  Vamos combinar, que três vezes por semana venha limpar o apartamento.         Começou a rir, se lembrou do comentário do Miguel, quando ele disse que não tinha roupas para um armário tão grande.

Imagina, tinha uma bermuda, de uma calça jeans que foi de meu pai. Antes de nadar, a tirava, lavava, deixava secando, para voltar a vestir.  Quando disse ao André que nadava nu, ele não acreditou.      Quando fui embora, fui com as bermudas, até a estrada, tive que andar cinquenta quilômetros até chegar a ela.     As pessoas ainda pensam que tenho tempo para besteira. Tudo tem que ser agora, senão não aproveitarei a minha vida.

Ela ficou olhando para ele, como dizendo não acredito.

Acho que as pessoas pensam que sou mentiroso. Começou a rir.  Já dizia a Marialva, a verdade as vezes mais parece uma mentira gorda.

Quem é a Marialva?

Sem querer sempre falo nela, me ajudou muito com a minha mãe.          Ela foi a dona do putero, quando as mulheres foram embora, ela ficou no bar.  Você me faz me lembrar dela.  Me deu na hora de vir embora um saco cheio de pepitas gordas de ouro.  Valiam uma fortuna.

Como ela me ajudou, acho que tenho que ajudar aos outros.       Na verdade, quando morremos, não levamos nada.      Meu pai, morreu porque pensou que os bandidos sabiam que embaixo do caixa estava uma fortuna.   Para nada, eu fiquei sem pai, ele tampouco levou esse dinheiro para o outro lado.

Mas vamos deixar de tristezas.   Terei que me acostumar a tomar café no bar, pois em casa fazíamos aquele de coador.  Gostava mais assim, dos bares não gosto.

Na entrada do edifício, ela abaixou a caixa, colocou dois dedos na boca, deu um assobio, em seguida o Tico estava ali.

Leva essa caixa, diga ao teu pai que é presente do seu Zé.   Que ele leve depois para casa.

La de cima, viu que o grupo estava lá na praia. Tico mostrava que ele estava na janela.  Fez um aceno, em seguida a metade do grupo estava ali.

Miguel soltou um assobio, caramba já tem outra cara. 

Obra da Dejanira, do Carlinhos.          Que tal a água, quero dar um mergulho, estou precisando limpar minha alma.  O dia foi difícil. Vou até o hotel colocar minha sunga, uma bermuda e volto.

Quando chegou, foi dizendo ao Carlinhos, depois de um abraço, que todo mundo ficou olhando, ah Carlinhos a Dejanira, disse que posso fazer sexo contigo em dias alternados.         O que você acha. 

Claro, contigo faço, com prazer.

Os outros não entendiam nada.  André, Miguel riam até não poder mais.  Esse garoto, está virando carioca.

Ficou só de sunga, saiu correndo com o Tico atrás dele, deram um belo mergulho.  Tens que aprender a nadar Tico.  Só sabes furar onda.  Ficou ensinando o garoto.

A praia estava ficando deserta, ele contava ao Tico que lá no rio Tocantins ele, seu amigo Bento, nadavam pelados.                      Estavam todos na beira da água, ele tirou a sunga, o tico também, mergulharam.  Quando olharam para trás, estava o grupo de boca aberta.            Vá lá Tico, traz minha sunga, porque eles vão querer chupar minha rola aqui mesmo.       O garoto ria, se vestiu, lhe levou a sunga.

André foi logo dizendo, ainda bem que não tem ninguém no pedaço, podes ir preso.

Assim André eles viram tudo que nunca vão ter.   Falaste com teu irmão hoje.  Estou preocupado com ele, não sei por quê?

Achas que está passando alguma coisa?

Um pressentimento.  Mas vou para o hotel, amanhã me mudo, queres jantar comigo?

Já tinha combinado com o Miguel.

Bom então posso ir com vocês dois?

Claro que sim. Imagina, vamos comer uma pizza.

Ia perguntar o que era, mas já tinha visto um cartaz no shopping.

Mal chegou no hotel, viu que no celular tinha uma chamada do Carlos.        Ligou, estava falando com teu irmão que estava preocupado contigo. O que passa.

Eu resolvi que volto para o Rio.  Queres mesmo que fique contigo?

Sim o apartamento estará pronto amanhã. 

Ótimo, chego dentro de dois dias.                 Já mandaram meu substituto desde Goiânia, você revolucionou a minha vida.

Estou louco para que chegues.   Contou o da praia.  Sei que fui mal, aproveitei para lhes dizer que já viram tudo, mas que eles nesse corpo não colocam as mãos, pois tem dono.

Ele ria, só você para me fazer rir.     Vão me dar até depois do carnaval para me reincorporar. Devem me mandar para trabalhar no subúrbios, mas não importa.

Carlos foi a melhor notícia do dia.  Quando chegares, te contarei daquela carta que minha mãe deixou contigo.   Foi outra coisa boa que fiz hoje.

Carlos ficou falando que estava ansioso para chegar.  Avisa meu irmão, ele vai estranhar, mas diga que estou apaixonado.

Eu não sei analisar ainda esses sentimentos Carlos, mas estou feliz contigo.

Tomou banho se vestiu, riu porque pela primeira vez tinha dúvida qual camiseta vestir, mas não ia comentar isso com eles.

O esperavam embaixo, vinham os dois de cabelos molhados.  Foram andando, contou ao André a notícia.

Realmente deves ter revolucionado a vida do Carlos, ele sempre foi quieto.  Se você gosta realmente dele, fico feliz.

Eu as vezes falo o que parece besteira para vocês.  Eu o conheci, uma vez que fui ao Banco com minha mãe, tinha feito 18 anos, tinha ido tirar carteira de identidade.         Ele foi super educado, gentil com ela.               Eu olhava seus olhos, via tristeza,  me deu vontade de dar-lhe um abraço apertado, foi o que eu fiz quando fomos embora.  Ele ficou me olhando, como se nunca ninguém o tivesse abraçado.           Só o voltei a ver no dia que resolvi vir embora.     Foi educado comigo. Não riu de mim, quando lhe contei que tinha vindo com a única bermuda que tinha, além da camiseta em farrapos até a estrada, que depois tinha trocado de roupa ali, para pedir carona. Que tudo que tinha nesse momento, era aquelas calças que eram do meu pai, a camiseta que era velha, mas estava limpa. Que a cueca era herança também, além dos tênis, tudo era do meu pai.   Pois ele me levou para comprar roupa, tudo o que eu precisava.  Fiquei na casa dele.  Me mostrou o que era um Laptop.   Nem sei como, quando vi estávamos na cama. Ele me ensinou a fazer sexo.  Fiquei deslumbrado, o cuidado dele comigo era imenso, por isso gosto dele.   Não me olhou como uma mercadoria de usar e tirar.

Ah, não se preocupe, ele vai ficar lá no apartamento, comigo.

Miguel perguntou ao André, qual a diferença de idade deles.  

Ele me leva pelo menos 10 anos, está beirando os cinquenta ou mais.             Mas ele quando se descobriu gay, saiu de casa, meu pai dizia que ali já tinha mulher de mais, que mais uma com piru no meio das pernas ele não queria.

Mas Carlos sempre foi muito sério, foi ele quem me arrumou esse emprego no banco.

Bom mesmo assim podes ir ao samba amanhã, não é Zé?

Vocês acham que vou gostar?

Já nos dirá tu. 

Sabes de uma coisa Miguel, quando entrei no apartamento do teu amigo hoje, me senti prisioneiro.   Muita coisa num lugar só. Fiquei imaginando, terei que cuidar disso tudo, respeitar porque não é meu.  O sujeito me olhava com cara de guloso.  Tipo vou te levar para a cama.

Ah ele é assim mesmo, quem sabe dele é o André.

Pelo amor de deus, vais tirar isso da manga sempre.

Falar nisso, vocês dois são namorados?

Não só amigos.

Pois eu acho que deviam experimentar fazer sexo, creio que do grupo todo, vocês dois são os que estão fora de jogo.  Nada melhor que poder confiar numa pessoa para conviver com ela.

Olha o piralho nos dando conselhos. 

Uma verdade, vocês não percebem, mas olham um para o outro com cumplicidade, não vejo vocês fazendo isso com os outros.

Ficaram os dois quietos, ele só disse experimentem quando tiverem vontade.

Miguel mudou de assunto, falando da cara de todo mundo quando ele fez a cena com o Carlinhos.   Eu disse para a  Dejanira que ia fazer.  Ela riu até. Os dois são boas pessoas, o Tico é que precisa de tomar um jeito.          Fica olhando como vocês se comportam, se esbarra que não tem nada do que vocês tem.   Me lembro do Bento, quando ia a sua casa, que era quase igual a nossa, com a diferença, que tinha portas, janelas, cortinas, etc.  Eu pensava por que a minha não tem.  Ele sempre tinha várias camisetas, bermudas, eu só tinha uma.           Mas o que ele gostava mesmo era de tomar banho como veio ao mundo.  Dizia que nada o fazia sentir-se mais livre.

Nunca saberei se sua família veio para o Rio ou para São Paulo.  Foi meu primeiro beijo, fazíamos punhetas juntos.           Riu, imagina, não podíamos imaginar dois homens fazendo sexo. Nem tínhamos ideia como seria.   Imagina, pense nesse garoto escutando as conversas de vocês, sobre o que fez com fulano, etc.  

Então eres moralista?

Nem pensar, fico imaginando a confusão na cabeça dele.  Mas não se preocupe, vou conversar com ele.

Acho que todos tem direito a fazer sexo com quem queira, só não gosto é de fiz isso com fulano, dei o rabo para sicrano. Etc.  Vulgariza tudo.  Querem escutar o que fiz com teu irmão?

Pois jamais direi, porque foi uma coisa entre nós dois.  Por isso gosto dele, não ficou falando banalmente sobre o assunto.  Só posso dizer que adoro o cheiro da pele dele.  Ele talvez nem saiba o que significou para mim.   Não importa, foi algo impressionante.

Se as pessoas se guiassem pelo cheiro da outra, muita gente estava na merda.  Algumas pessoas cheiram terrivelmente mal.

Comeram,  Miguel pediu desculpas ao André pelo comentário, foi ridículo eu sei, mas nunca gostei de te ver como esse sujeito.  Apesar de ter feito negócios com ele, achei interessante o Zé não querer o apartamento.   Ele bancado o anfitrião perfeito, vai um garoto, lhe diz que seu apartamento não interessa.   Deve ter ficado uma fera.  Riram muito disso.

Zé não tinha entendido, pensou coisa deles, deixa para lá.   Só podia pensar que dentro de pouco o Carlos estaria ali.

No dia seguinte era o famoso dia do samba.  André lhe disse que ele devia ir de bermudas, camiseta, por causa do calor.

Passou o dia, colocando as coisas como queria no apartamento.  Num papel ia anotado o que deveria comprar.  

Dejanira apareceu, trazendo uma caixa.   Me  lembrei disso guardado lá em casa, era da minha mãe, mas o Carlinhos reclama que o café fica forte.

Era um antigo bule de metal, com uma estrutura de alumínio, em cima ficava um coador de flanela, tinha inclusive outro de suplemento.   Ela trazia um pacote do melhor café que sua avó dizia que gostava.  Vamos fazer um café, pra brindar o apartamento.

Fizeram café, depois se sentaram nas poltronas, olhando o mar.  O senhor tem razão Zé, a vista é fantástica, olha limpo quase todos apartamentos daqui, nunca parei para olhar.  Ficaram conversando, claro acabaram no Tico.  

Por que ele fica na praia com o Carlinhos?

Carlinhos acha que isso o vai amadurecer, aliás ele não para de falar no seu amigo Zé, esta como um louco por ti, pois conversa segundo ele, não como uma criança idiota, mas como um igual a ele. Depois, falou uma coisa, mãe, ele me trata bem, não é como os outros que me olham como se eu fosse um favelado.  Lhe contei o que o senhor disse, ficou de boca aberta.  Então ele é igual a mim.

Vou usar isso para conversar com ele, um dia desses lá na praia.   Mas tem que ir à escola, eu digo isso, porque não pude estudar muito, quando a professora foi embora, me deixou os livros que tinha, minha mãe continuou ensinando.           Só não gostava de matemática, mas quem me ensinou aplicando no dia a dia foi meu pai.           Me ensinava a pesar a pepita de ouro, calcular quanto valia, o que se podia comprar com esse dinheiro.   Isso foi matemática prática. Quando fui vender as pepitas que tinha, fui mais rápido que o sujeito que fazia cálculos numa máquina.  Pior que  o sujeito tentava me enganar.

O senhor não vai colocar nenhum quadro na parede? 

Institivamente ele se lembrou do apartamento do outro,  foi quando Dejanira me lembrei que lá em casa a única coisa que tinha na parede, era um calendário de propaganda de muitos anos atrás, estava até amarelado de tão velho.            Mas eu sabia os dias da semana, as horas do dia, sabia pelo sol.  Como diria a Marialva eu sou um bugre nato.

Você tá sempre falando nela, acho que ela também deve falar muito em ti.

Pode ser pode ser.  Um dia me disse que eu jamais tivesse vergonha de gostar de ninguém, que o amor não entendia disso de sexo da pessoa.

Caramba Zé isso é muito bonito. 

Bom já resolveu se vai cuidar da minha casa.  

Isso aqui faço numa manhã,  vou me programar, assim começo na semana que vem. 

Ótimo, porque o Carlos chega na segunda. Teremos que conversar como vai ser nossa vida juntos.

Mais tarde se arrumou, foi se encontrar com o André, o carro dele não pegava de jeito nenhum. O Miguel criticava dizendo, não sei para que tens carro, se quando muito usas para nada. Nisso o carro pegou.

Tá vendo Miguel, agora devia ir atrás só de castigo. 

Zé olhou a cara dos dois, disse na lata, experimentaram não é verdade?

Moleque enxerido, sim experimentamos, nos conhecemos tanto, que foi bom. Que mais quer saber?

Nada, só digo uma coisa, não comentem com os outros.  Seja felizes os dois.

Viu que iam de mãos dadas, mas ficou quieto.

Quando viu a quantidade de gente, começou a se assustar, ainda pensou vou voltar para casa, mas verdadeiramente se assustou, quando escutou a bateria tocando, aquilo era impressionante.  Ficou imaginando o Tico ali, ia cair no samba.   O grupo todo tinha uma mesa cativa.  Queres beber alguma coisa Zé, era o Miguel lhe perguntando. 

Só água, tudo aquilo, lhe confundia,  a curiosidade era muita, muitos homens passavam por ele o olhando, mas ficou embasbacado quando um negro de dois  metros de altura se aproximou, beijou todos eles, virou-se dizendo quem é essa criatura.

André o apresentou, Marcondes dos Santos, um grande artista, pintor, escultor, pinta e borda.

O aperto de mão foi firme.  Uma coisa Marcondes, ele tem dono. É namorado do meu irmão.

Que pena, já estava pensando em rapta-lo.  O olhar do homem, impressionava, era negro,  parecia estar lendo sua alma.  Segurou sua mão virou a palma.  É verdade vais amar essa criatura com todas as forças. Mas tem uma coisa, se aproximou por causa do barulho, o que me deixa pasmo, é a tua conjunção,  eres de Exu, Oxóssi, uma falange de mulheres, todas da água. Não tinha soltado a mão dele. Tens razão esse barulho não permite falar nessas coisas. mas tenho uma escultura para essa casa vazia que tens.  Para que não tenhas medo, André podes vir com a gente.

Foram em quatro, pois o Miguel também foi.   Já entendi disse o homem, finalmente se decidira, sempre achei que iam acabar juntos.  Foi esse moleque Marcondes, tanto falou que a gente resolveu experimentar.

Eu vivo aqui perto Zé.   Desceram a rua, ao contrário de muita gente subindo.  Não estou acostumado a tanta gente, fico zonzo.  Gosto do silencio, sabe que lá no sexto andar, não se escuta muito barulho.  Hoje fiquei sentado com a Dejanira, olhando o mar, tomando café, me lembrei de minha mãe, os dois sentados na beira do rio, com nossa caneca de café na mão, falando da vida.

Pelo que vi Zé, foi uma mulher sensacional, verdade.  Essa outra mulher que aparece contigo quem é?

Deve ser a Marialva, uma grande figura.

Ela via em ti o filho que não teve.  Um dia ainda a encontraras outra vez.  Ela está sempre falando em ti.

Entraram na casa, ele viu duas esculturas fantásticas em metal,  o da direita é Xangó, meu pai de cabeça, o da esquerda é Exu, meu guia.

Ele abriu a porta, acendeu a luz, estavam num barracão grande cheios de esculturas, quadros pelas paredes.   Escolha um, ele foi direto a um em metal negro, tinha uma espada na mão, um escudo.           Quando brincávamos de piratas, que não sabia o que era, usávamos um troço de tronco de árvore, para fazer de espada. Ficou rindo, chorando ao mesmo tempo, segurando a mão do guerreiro.   Eu sabia, essa tua conjunção é diferente, nunca tinha visto, um Oxóssi com um Exu do lado.  Depois uma coisa, ele tem todas as mulheres da água. Isso é  fantástico.

O que eu gosto, venha aqui, havia uma mesa, tinha um alguidar com agua ao lado, ele passou agua pela cabeça, pelos braços, a cara dos dois André, Miguel, era de pasmo, nunca tinham estado ali.  

Marcondes arrepanhou tudo que tava no centro da mesa, rezou, pediu desculpas por ter bebido uma cerveja, mas pai, encontrei uma preciosidade.  Jogou. Sem dúvida nenhuma, da pobreza à riqueza.            Mas tua riqueza será maior, pois vais ajudando aos outros sem interesse nenhum.   Olhe esses dois, não sabem que vocês os amarrou para o resto da vida.

Miguel ainda disse, realmente afastar como hoje o André do samba é difícil. 

André comentou que um dia viria para ele jogar os búzio para eles.

Venham conhecer tudo, foi mostrando tudo.  No fundo, tinha muitos panos como uma cortina, para esconder, o meu lugar do pecado. Era uma cama imensa, do lado uma foto.   O único homem que amei. Era uma foto do Carlos.

Esse é meu irmão, o namorado do Zé. 

Eu sei, fiz ele sofrer muito, pois não sabia escolher, é o melhor homem que conheci.  Não o solte de maneira nenhuma Zé.   Ele conseguiu se apaixonar outra vez.     Mas nunca o esqueci.  Se ele quiser me ver, venha com ele aqui.   Será um prazer ver essa pessoa outra vez.

Nunca me disseste que conhecias meu irmão?

Para que, eu o perdi por minha culpa, era um idiota, achava que era gostoso, que podia fuder com todo mundo, ele não aceitou.               Me deixou, levei um tempo para descobrir que estava sozinho no mundo.                Mas, já era tarde.  Me fez me centrar, foi quando comecei finalmente acreditar na minha arte.  Acaba que afinal, fiz sucesso por culpa dele.

Mas deixa isso para lá.  Menos mal que tens dono, senão nãos escapavas hoje daqui, brincou colocando a mão na cara do Zé.   Vais dizer que me viste, não é?  Não tenha medo, foi o amor de minha vida, mas agora é teu.

Quando saíram, Marcondes disse, levem esse garoto para casa, venha depois buscar teu Oxóssi, ou se me das o endereço eu levo até lá.

Zé estava confuso, essa era a dor que ele sentia no Carlos, o porquê de sua solidão.  Iria conversar com ele.

Não disse uma palavra, quando pararam na porta do hotel, ele disse que já se tinha mudado, só tinha uma mochila, uma bolsa de compras.  Querem ver como ficou?

Subiram os três.  Miguel foi o primeiro a falar, caramba a Dejanira tem mãos de fada, ficou outra coisa.  Andou por todo lado, nem uma gota de tinta pelo chão.  Olhe como ficou a cozinha, ela pintou a porta dos armários, ficou outra coisa.   Realmente tenho que contratar essa mulher para me fazer esse tipo de serviços.

Puxaram uma cadeira da mesa, pois só havia duas poltronas. A cara do André sentado ali olhando o mar, era ótima.  Espera, se levantou apagou a luz.   Isso é impressionante. 

Uma coisa Zé, eu não sabia a história do Marcondes com o Carlos,  sabia que alguém o tinha feito sofrer muito, mas não sabia quem.  Conheço o Marcondes aqui do samba, sei que ele é do Santo.

Não se preocupe, fiquei mais é preocupado com o Carlos, pois terei que falar com ele, sobre isso. Mas se ele me quer, tudo ficará em paz.

Tens medo de perde-lo?

Não, sei que ele volta, nada importa.  Isso me fez descobrir o porquê o quero.  Que é um homem de bem.  Quero mais é estar com ele.  Amanhã será outro dia.

Eles foram embora de mãos dadas.   André ainda comentou, caramba depois de tanto tempo vir a descobrir o do  Marcondes.      Tudo acontece gira em torno a esse garoto, fico impressionado. Você não sabe, mas confio em ti.            Esse garoto é milionário, podia estar numa cobertura em qualquer grande edifício.          Viste a simplicidade do apartamento.  Chego à conclusão de que tudo o que ele diz é verdade.  Viveu numa casa de pau a pique até pouco tempo.  No carro quando fui busca-lo no aeroporto, achei que me fazia uma gozação quando disse que necessitava arrumar um emprego.  Eu que já sabia o valor que tem no banco, me perguntei para que esse menino vai trabalhar.  Será um desses idiotas que fica pela praia.

Me enganei redondamente. Com ele. Como perdi tempo, não estando contigo a mais tempo, apertou a mão do Miguel.  

O mesmo digo eu. Mas estamos juntos ou não?

Sim Miguel, mas só se me deres um beijo em plena Atlântica. Zé os olhava de cima, finalmente esses meninos se encontraram.

Depois se sentou na poltrona com a luz apagada, foi se lembrando do que o Marcondes tinha lhe falado.  Sua cabeça, como num filme que vais passando para trás, se lembrou de quando o Bento foi embora, estava no rio se banhando, olhou para o outro lado, aonde havia um grande troço de floresta.  Ali estava um índio, não se preocupe lhe disse, estarei sempre contigo, sou teu amigo.  Depois o mesmo índio apareceu quando caminhava até a estrada.  Estava armado de arco, flecha, lhe dizia podes seguir que eu te cubro.  Agora descobrir isso.      Quando entrou no atelier, foi direto aquela imagem.  Era impressionante o parecido.     Seja o que for, me protege.

As vezes pensava que todos acontecimentos estavam sempre interligados.  Como ele podia saber tudo isso dele.  O mais raro, foi que no momento que Marcondes pegou sua mão, havia dois gestos, o dele pegar sua mão quase a força,  o dele de um retrocesso.        Como quem não quisesse escutar o que ele dizia.    Quando viu a foto do Carlos, no primeiro momento ficou com ciúmes.  Mas depois um sentimento de nostalgia, não sabia o porquê queria tanto esse homem.

Desde a primeira vez que tinha visto o Carlos, notava no seu olhar, uma dor muito grande, mas no dia seguinte que estiveram juntos, não viu mais isso.  Agora gostaria de ter certeza.

Esperava ansioso no aeroporto, porque demorava tanto, a chegada do voo, já tinha sido anunciada a mais de meia hora.  Finalmente ele saiu, lhe procurando, ficou olhando para ele, a ansiedade que notava em seus movimentos.  Quando seus olhares se encontraram era de um sentimento de felicidade.  Ali mesmo na frente de todo mundo o beijou.  Trazia uma bagagem grande, não ia deixar meus livros para trás, me acompanham a tanto tempo.

Subiram no elevador trocando beijos.  Quando viu o apartamento, riu dizendo é a tua cara, simples como tu.  Olhou o mar. 

Ontem estava aqui sentado, no escuro, olhando o mar pensando em você.  Em porque te quero tanto se faz pouco tempo que nos conhecemos.

Em seguida estavam na cama, mas não fazendo sexo, um olhando para o outro, com um olhar de adoração, só depois de muito carinho, fizeram sexo.         Ficaram na cama, Carlos encostado na parede, ele entre suas pernas.            Agora estou tranquilo, finalmente estou ao teu lado.  Pensei comigo, o que adianta eu ficar aqui mais tempo para ter uma aposentadoria melhor, se estou longe de quem eu quero.  Não podia deixar de pensar em ti.

E os meninos dos vídeos que vê. 

Nem me lembrei mais disso.  Só quero você.            Voltaram a fazer sexo outra vez, ele tomou a iniciativa, se tenho que deixar que me penetrem, quero que sejas tu.              Mas por favor com cuidado, foi a coisa mais interessante, a dor passou em seguida, os movimentos lentos que ele fazia, o levavam a loucura. Depois foram tomar banhos juntos.      Nunca poderei esquecer o dia que me deste o banho na tua casa. O carinho que tiveste comigo, um menino ignorante de tudo, mas cuidaste de mim.

Iam sair para jantar com André, Miguel. Mas antes com medo que tocassem em qualquer assunto. Ia falar, mas foi Carlos que puxou o assunto.

Como foi no samba, no sábado?

Olha, para não repetir, fiquei assustado com tanta gente, não estou acostumado, era como comparar quando o bar estava cheio com umas dez pessoas, com essa multidão.  O interessante foi que conheci uma pessoa de teu passado.

Do meu passado, quem?

Marcondes, mas falamos muito.

Nem sabia se estava vivo ou morto.  Nossas vidas juntos me fez tanto mal, que o único jeito foi fugir com essa desculpas de ganhar mais no interior.

Pois saiba que ele é um artista respeitado, bem como pai de santo.  Segurou minha mão, foi me dizendo tudo o que podes imaginar.    Sabia tudo sobre mim.  Quando fomos os quatros ao seu studio, pois ele queria me mostrar uma imagem.  Fiquei pasmo, eu já tinha visto essa imagem nas margens do Tocantins.  Depois na estrada antes de chegar à cidade.

Foi nos mostrando o studio, quando chegou seu quarto, alucinei, ver uma foto tua mais jovem na sua mesa de cabeceira.      Ele reconheceu que fez merda contigo, disse que te pedia desculpas, teu irmão ficou inicialmente furioso.   Pensou que eu ia me ofender.

Na verdade, te lembras quando fui com minha mãe ao banco.   Quando olhei os teus olhos, era um poço de tristeza, te amei em segredo.       Mas no dia seguinte de ter dormido contigo, o teu olhar era outro, havia alegria nele.  Não tenho medo do Marcondes.      Sei que me queres como eu a ti.

Estavam os dois sentados nas poltronas.  Esse será nosso canto para grandes conversas, adoro ver o mar.  O duro é que não podemos nos abraçar.   Não seja por isso, se levantou, sentou-se no seu colo, o abraçou.  Algumas vezes quando andava sozinho pelas ruas, me peguei falando contigo.

Nem fale, pensei que o pessoal do banco ia me tornar como louco.

Sabe o Manuel, foi a vila, porque estava desesperado para comprar ouro, chegou justo no dia que o homem do bar morreu.   Ele ajudou a Marialva enterra-lo, ela veio com ele até a cidade, lhe vendeu todo o ouro.   Ai ele lhe contou que tinhas no mês anterior salvado a vida dele, pois tinhas ouro demais, que tinha reconhecido o saco que ela tinha dado.

Sabes algo desse menino?

A trouxe aqui, era justamente como tu a descrevia, foi direto ao assunto.  Lhe contei que estavas bem, que já tinhas um apartamento, que ainda estava reformando.     Me olhou bem na cara, me disse que estás esperando, que ele venha te buscar.         Homem arrume tuas trouxas se mande, esse menino vale ouro.  É filho de Oxóssi  com todas as mulheres d’água.       Ele é poderoso, um menino forte.  Vai fazer tua vida mais feliz.   Foi quando tomei a decisão.   Te mandou uma coisa, espera, abriu uma das malas, tirou uma carta. 

Ele abriu, já rindo,  já sei de tuas peripécias, não podia esperar outra coisa de ti, primeiro irei a Minas Gerais resolver alguns problemas antigos pendentes.       Dentro de meses irei para o Rio, para te ver.  Abraços sua  Marialva.

As cartas, contou a história da avó.   Ontem fui vê-la, parece outra pessoa, estava com o cabelo arrumado, com uma roupa melhor.           Dei ordem ao administrativo que fizesse tudo o que ela precisasse.    Ele me mostrou os exames médicos dela, está tudo em ordem.          Lhe contei que chegavas hoje, me disse quando pudesse te levasse lá que queria te conhecer.    Lhe perguntei pelo marido, ela disse que não sabia nada, tampouco queria saber.

Como te disse, minha mãe não era filha deles, sim de uma prima dela, uma garota de 16 anos que morreu no parto.   Mas na cabeça dela sempre foi sua filha.

Qualquer dia desses terei que saber o que foi feito do velho.  Um mal humorado, horroroso.

Bom mudemos de assunto, vais ficar vivendo comigo, ou não?

Que pergunta mais idiota, saio lá do Tocantins, no cu do mundo, ainda perguntas isso.  Mas uma coisa não quero, te atrapalhar.

Porque não tomamos um banho de mar.  Hoje na barraca do Carlinhos, estava a família inteira, o Tico veio correndo quando o viu.  Tico esse é Carlos, o irmão do André, meu namorado. O garoto estendeu a mão, mas Carlos o puxou para ele dando um abraço, se eres amigo do Zé, é meu amigo também.  Primeiro o apresentou ao Carlinhos, Dejanira, esses dois em ajudaram com o apartamento.  Tico logo se intrometeu, eu fiz algumas coisas também.  Carlos estendeu o braço mexeu nos cabelos dele.  Tenho certeza de que fizeste mais do que eles, garoto.  Os outros garotos, eram uma escadinha,  Mentalmente  anotou na sua cabeça, camisetas, tênis para todos.   Ia mandar o Tico ver os números.

Os grupo estava na beira do mar,  Carlos foi devagar, chegou por detrás do irmão o agarrou, sua putinha, agora das o rabo pros homens não.             Ele se virou, abraçou, beijou o irmão.  O primeiro que apresentou foi o Miguel.        Um amigo de toda vida, olhou para o outro sussurrou, meu namorado. Olá Miguel, cuide bem do meu mano, senão vai ter. Apertou a mão dos outros dizendo sou Carlos, irmão do André.

Rindo acrescentou namorado do Zé, essa preciosidade que me salvou a vida.

Zé o arrastou, junto com o Tico, vamos tirar o ranço do Tocantins desse homem Tico, se jogaram os três na água.

Depois voltaram para a barraca,  Dejanira, tinha mandado um dos meninos buscar pasteis para eles.  Deu dinheiro ao Tico, vá com teus irmãos, compre para eles também. 

Esses meninos parece que tem um buraco no estomago.  São capazes de comer pedras se tem fome.   Eu sei o que isso Dejanira.   As vezes ia pescar, para ter pelo menos um peixe para fazer sopa para minha mãe, misturava com os legumes da horta, ficava uma delícia.   O duro era fazer ela comer.  As vezes só o caldo.

Tico que já tinha voltado, perguntou como ele pescava.  Ele rindo disse, já te contei que nadava nu, verdade?

Sim, o menino balançou a cabeça. 

Os peixes viam meu piru, diziam, vamos comer isso, mas tinha que ser rápido para pegar eles antes.  Carlos ria horrores.

Mentira né tio Carlos?

Claro que sim, senão o coitado não ia ter piru para mostrar aqui na praia.  Aliás Dejanira, se eles tomam banho pelados outra vez, vamos chamar a polícia para prender os dois.

Conta como fazia Zé.  

Isso agora é verdade, eu tinha uma coisa como uma flecha de índio, que fiz do galho de uma árvore, ficava imóvel, as aguas nessa parte mais mansa ficavam limpas, quando os coitados dos peixes apareciam, eu fisgava um.   Num dia de boa sorte podia pegar dois ou três.   Um ficava lá para casa, os outros levava para a Marialva que me pagava por isso.

Os meninos o escutavam quietos, com os olhos grandes.  Um dia destes vou comprar peixe lá no posto seis, faremos uma moqueca, disse o Carlos.  

Sabes fazer moqueca Carlos, tens que fazer para mim, minha mãe quando estava boa, fazia umas deliciosas.  Um domingo desses vamos todos lá em casa pró Carlos fazer, promessa é dívida não é Dejanira.  Os outros ficavam olhando de longe, como que pensando o que ele vê nessa família.  Lá pelas tantas, o André com o Miguel se juntou a eles.      Miguel foi com o Tico, pois a senhora tinha avisado que faria agora pasteis de Camarão.  Miguel fez com que os outros amigos se juntassem ali.

Voltaram para casa, já estava anoitecendo.   Deu dinheiro ao Tico, dizendo, pega tua mãe, teus irmãos os leva para casa de Taxi, é muito tarde. 

Ela não vai querer ir. Deixa comigo.  Dejanira, obedeça ao Tico que tem ordens minhas. Ela riu.

Vejo que gosta mesmo dessa família?

Ora Carlos, eu fui criado no meio de gente assim, simples, se tivesses visto o apartamento como estava, era de doer.  Ela raspou tudo, pintou, me ajudou.  Outro dia inaugurei os cadeirões com ela, ficamos sentados, conversando.  Ela nunca tinha visto o anoitecer desde daqui de cima, limpa vários apartamentos, nunca tinha tido a curiosidade de ver o mar.  Falamos muito.

Eu me preocupo pelo Tico, que fica escutando as besteiras que falam os amigos do teu irmão, mas ainda não sei o que fazer.

Esse garoto te adora, menos mal que me escolheu para tio. 

Estava pensando, que o quarto pequeno de empregados pode ficar para ele, assim irá a escola aqui perto.  Terá alguém que o vigie para estudar.

Não sabes o quanto lamento não ter podido estudar.  Mas ainda darei um jeito.  Falar nisso já acabei de ler pela segunda vez o Lobo das Estepes do Hermann Hesse.  Gosto de como ele escreve. Sidarta também li mais de uma vez.   Talvez seja uma mania, chegar na última página, reler outra vez, para ver se nada escapou.

Eu li todos eles, depois vou desembalar, os livros, para que escolhas um para ler, depois discutimos.

Quanto ao Carnaval, se queres ficar para ver como é, tudo bem.  Embora você sabe que nunca gostei.   Sempre escapei.  Vou falar com o André, nossa família tinha uma casa em Arraial do Cabo, não sei se existe.  Como a família ia toda para o carnaval, eu me escapava para lá.

Riu dizendo, agora o ciúmes.  Fostes para lá com o Marcondes?

Nunca, ele ficava para o carnaval, eu ia sozinho, quando voltava ficava sabendo das barbaridades que tinha feito.  Isso me amargou a vida, vinha como um cachorro que faz coisas erradas pedindo desculpas.  Até que me fartei disso.

Pensas em ir visita-lo?

Só se para ti for importante, para mim não é, pois são águas passadas, tenho o que sonhei a vida inteira contigo.     Tenho sempre a sensação de que nos conhecemos a séculos.  Nos encaixamos tão bem.   André veio me falar que ficou impressionado contigo.      Que com o dinheiro que tens no banco poderias estar numa cobertura com piscina, indo de festa em festa.   Mas fazes tudo ao contrário.

Sabes o que sinto falta Carlos, tomar banho nu no rio, me sentia livre, como um peixe, quando tinha que pesca-los me dava pena, vê-los tão bonitos ali, mas claro precisava comer.

Tomaram banho juntos, se arrumaram.   Teu irmão ficou surpreso quando lhe disse que não tinha roupa para colocar no armário, pois eu só tinha a bermuda que usava, a camiseta toda rasgada de velha,  que deixei na beira da estrada, a roupa que tinha quando me encontrei contigo, ah claro o mais importante, meus livros.

Não sabes que quando te vi, a calça era grande para ti, bem como a camiseta, eu queria te abraçar, sair comprar um monte de roupas.  Tu vais, compra só o necessário para chegar aqui.

Eu ao contrário, tenho um monte de ternos que adoraria deixar de usar, camisas sociais, gravatas, mas tudo pelo meu trabalho.        Adoro andar de bermuda, chinelos, camiseta, bem relaxado.  Como só tenho que me apresentar depois do carnaval, esse vai ser meu uniforme.

Saíram para se encontrar com o André mais o Miguel.   Estava parados justamente num lugar que ele queria mostrar ao Carlos, vê são poucos os quarteirões lá de casa, se consigo matricular o Tico aqui, ele poderá estudar melhor.

Não seja por isso, a gente vem fala com a diretora, eu a conheço, foi cliente minha quando trabalhava aqui em Copacabana.

Ele deixo que Carlos conversasse com o irmão, pelos menos agora se falavam.   Num determinado momento, Carlos soltou, não sabes com que alegria, depois de ter falado com o Zé, escutei tua voz me chamando para conversar.  Nem me lembro quanto tempo fazia que não falávamos assim.

Chegou à comida, mas viu que o André estava quieto, parou com garfo no ar.   Te telefonei, porque esse garoto tem o dom de me cutucar.  Me cobrou porque eu não te chamava, afinal eu era teu irmão, se estivesse no cu do mundo também gostaria que alguém me chamasse.

Cuidado quando falas no meu garoto.  Realmente André ele tem um dom, que não sei explicar, imagina, passo basicamente dois dias com ele, me apaixono, sou capaz de tentar recuperar minha vida outra vez.   Vai me buscar no aeroporto, me sequestra, me tem prisioneiro nesse apartamento, me explorando sexualmente.  Que mais posso querer.   Além disso, consegue que eu fale do Marcondes, sem me ferir.      Me faz ver que estou curado daquela merda toda. Desde que o vi, esqueci do resto.

A cara dele era um sorriso imenso.  André estendeu a mão pousou sobre a sua, que bom meu irmão.   Mas esse sem vergonha, nos colocou numa situação difícil.  Imagina conheço o Miguel de toda a vida, sempre contamos um para o outro nossas aventuras.  De repente esse garoto pergunta se não enxergamos, se estávamos cegos, pois estava na cara que nós queríamos, a verdade é que vai genial.  Nos completamos.   Hoje a turma percebeu, foi interessante, pois eles fizeram o que o Zé disse, não gostaram.            Com que tendo inveja.  Depois viram vocês com o Carlinhos, a família toda, ali rindo, comendo pasteis, se sentiram excluídos.  Viram que são uns tontos.  Tudo que sabem falar, é com quem dormiram, o tamanho do piru, o que fizeram na cama.

O resto nem sabemos quem são na verdade.

Vamos marcar um almoço dias desses com o Carlinhos a família toda.

Dei uma incumbência ao Tico, amanhã quero ver se me traz, como comprei uma camiseta para ele, sei que os irmãos ficaram de lado.  Lhe pedi que conseguisse o tamanho de cada um, vou comprar tênis, camisetas, bermudas.  O Tico já precisa de cuecas. 

Caramba Zé, pareces um pai de família.

Olha Miguel, família é aquela que escolhes, podem ser dentro dos amigos, das pessoas que conheces.   Tu mesmo ficou encantado com o trabalho dessa mulher.  Ela é genial, hoje contava ao Carlos quando tudo acabou, me sentei com ela olhando o mar, tomando um café.  Ela nunca tinha parado para olhar o mar, não lhe sobra tempo.   Tem que levar a família para frente.

Acho melhor que sejam minha família, do que fiquem jogados no mundo.

Tens razão nos acomodamos no nosso bem estar, esquecemos do resto.

Voltaram passeando pela praia. Era tarde, a rua estava vazia.  Quando passaram viram que o Carlinhos estava arrumando tudo para dormir ali mesmo.  Foram falar com ele, não faturei o suficiente, o homem que me aluga um espaço cobra caro.  Menos mal que Dejanira levou os meninos para casa, senão o Tico tinha que dormir aqui comigo. 

Aonde é esse lugar?   Ali na volta da esquina.  Quanto tens que pagar.  Ele disse com a cabeça baixa.                   Carlinhos somos amigos, não tens que ter vergonha.  Tirou dinheiro do bolso, perguntou se o Carlos podia completar, vá lá pague três meses, assim quando acabar o verão tudo será lucro para ti. Lá foi ele correndo todo alegre.  Carlos ficou abraçado a ele.

Eu quando tive que pagar o trabalho, dei dinheiro para a Dejanira, porque sei que ele teve dependência de drogas, ela morre de medo que recaia, por isso, faço isso, se ele ficar aqui, alguém vai lhe trazer drogas.  Se for para casa não.

Ele voltou sorridente, vinha um homem com ele, dizia tens que controlar teu dinheiro Carlinhos, não posso fiar para ti. Mas se dizes que tem dinheiro eu te ajudo.   Quanto é três meses senhor, lhe perguntou o Zé.  O homem disse, ele estendeu o dinheiro.  O senhor por favor ajude ele a levar as coisas.   Carlinhos escute bem, te ajudo, mas se souber que comprastes drogas meu irmão vou te encher de porrada, me escuta, tens 4 meninos para criar.

Ele olhou assustado, quem é esse que esta ao teu lado me ameaçando, parece um índio.

É um amigo meu, ele está te vigiando.  Não se esqueça do que falei.

Foram embora.  Quem foi que ele viu ao teu lado, perguntaram.

Ué o índio que me acompanha,  Marcondes falou nele, eu o vejo sempre.  Estava ali para que eu falasse dessa maneira.  Mas Carlinhos o viu, quiça isso lhe meta medo.

Carlos a Dejanira não te lembra da Marialva?

Caramba, tens razão são parecidas nessa maneira franca de dizer as coisas.

André ia me esquecendo,  a casa de Arraial do Cabo ainda existe?

Sim, precisa de uma senhora limpeza, ninguém vai por lá a muito tempo, uma pena, você sabe como é, nos finais de semana no verão é um horror o transito.  A chave está comigo, posso perguntar se alguém vai.   Gostaria de passar uma semana lá, emendando o carnaval, quero pensar na minha vida daqui para frente.  Depois comento contigo.

Quando subiam Zé lhe perguntou como era a casa.

Bom é grande, na parte detrás, ainda tem dois quartos, um banheiro.   Na da frente tem três quartos grandes, dois banheiros, um salão imenso que dá para uma varanda, de frente para o mar.  Não fica dentro da cidade, mas no caminho de uma das praias.   A agua é transparente.

Porque não fazemos o seguinte. Alugamos um carro grande, vamos com a Dejanira, os meninos, limpamos tudo.   Ia adorar ficar num lugar tranquilo contigo.  Os meninos têm a praia para se divertirem.   A Dejanira pode ajudar a limpar, fazer comida, ainda lhe pagamos.   Ela me disse que é a pior quinzena para ela. Que a maioria dos patrões vai para fora, como ganha por dia, não trabalha.

Vamos esperar o que diz o André.  Uma vez pensei em comprar dos meus irmãos essa casa, passar grandes temporadas lá.  Inclusive fiquei várias vezes no inverno por lá.  Não é tão mal assim.   No inverno fica mais fácil de ir, pois o tráfego é melhor.  Como tudo no Brasil só começa depois do carnaval,  resolvo minha vida.

Me diga o que pensas fazer?   Bom eu posso pedir uma aposentadoria antecipada,  manter o salário que tenho agora.  Esses anos que andei trabalhando pelas cidades que ninguém quer ir, contam.   Estou farto desse trabalho, queria encontrar alguma coisa para fazer que me dê prazer.

Mais prazer do que eu?

Garoto não seja sem vergonha.  Mal posso ficar ao teu lado, fico louco para transar contigo.

Mal entraram no apartamento, arrancando a roupa um do outro.  Se amaram com paixão.

Como posso trocar isso que tenho contigo, por qualquer um desses idiotas, que passam o dia inteiro na academia, mas são uns idiotas.  Menos mal que teu irmão mais o Miguel, estão vendo isso agora.

Ficaram depois sentados olhando o mar.   Carlos lhe disse, imagina o mar de Arraial do Cabo, a água chega a ser transparente.

Vai dar tudo certo, tenho certeza.  No dia seguinte amanheceu chovendo. Não havia ninguém na praia.  Ficaram em casa de preguiça.  Saíram de tarde para irem ao supermercado, Zé sempre ria, quando vejo tudo isso, comparo com o armazém do meu pai.  É humilhante, mas imagina que ele fez todo esse dinheiro com isso.  

De tarde, sua avó lhe chamou, tive um sonho com teu avô, estou preocupada.  Chamei a vizinha, disse que faz dias que não o vê.   Podes ir até lá?

Sim avó, eu dou uma chegada lá.

Mas a vizinha já tinha avisado a polícia o corpo de bombeiros.   O encontraram sentado na sala como sempre, sem roupa nenhuma, todo sujo.  O médico examinou, creio que este senhor tem demência senil.  Melhor levar para um hospital.  Ele se identificou, ele é meu avô, corre tudo por minha conta, pode leva-lo para um hospital particular, eu pago as despesas.

Disse aonde a avó estava.   O doutor acha que ele pode ir para lá. 

Melhor o senhor falar com a administração, pois normalmente esses lugares não recebem pessoas nesse estado.   Mas se o senhor diz que ele foi militar, pode ficar no hospital dos militares.  Vamos acionar tudo, lhe deu o número do seu celular. Quando ia sair, o carrinho de compras que ela tinha deixado ali, estava no mesmo lugar, com um cheiro horroroso.  Ainda bem que a tirei daqui antes disso tudo.  Chamaram um Uber, não vou contar para ela por telefone, melhor ir até lá.

Estava sentada na varanda fazendo crochê, junto com a amiga. Quando o viu entrar, se levantou.

Zé disse, esta é a minha avó Carlos, ela beijou os dois, abraçou.  Ele é como você disse, gostei dele.

Foste ver teu avô?    

Vamos nos sentar primeiro, puxaram cadeiras.  Quando eu cheguei a tua vizinha já tinha chamado a Polícia o corpo de bombeiros uma ambulância.  Ele estava sentado no mesmo lugar, nu completamente.  O médico diz que tem demência senil, talvez por isso andasse tão agressivo.  Quando eu disse que ele militar, iam levar para o hospital militar, depois me informaria.  Quando eu volte, telefono antes, vou até lá para vê-lo.  Antes queria saber da senhora, se queres que ele venha para cá.

Eu não, para me infernizar a vida, agora que estou em paz.   Ele fez da minha vida um inferno, afastou a tua mãe de mim.  Agora estou aqui em paz.  Vou te dar um telefone, é de um sobrinho dele que é seu herdeiro.  Ele que cuide do tio, já que vai herdar aquela casa que vale muito dinheiro.

Se despediram dela,  telefonou ao médico, disse que tinha ficado num hospital do exército, deu a direção, é que seu sobrinho já estava lá.  Pois em sua ficha médica dizia que qualquer coisa chamar esse sobrinho.

Ótimo uma coisa a menos para pensar.  O sobrinho que vai herdar que cuide dele, como ela disse que a deixem em paz.

Um amor de pessoa.  Fico imaginando como deve ter sofrido por aguentar uma pessoa assim.

Imagino que minha mãe deve ter passado com ele.  Para fugir assim da cidade.

Bom não vou ficar remoendo isso, temos mais coisas para pensar.  Quando chegaram em casa, estava sentado na porta o Tico,  que passa garoto?   Não sei as coisas do meu pai não estão na praia. Ele não apareceu ontem em casa nem hoje.

Venham o homem fica por ali.  Quando o homem os viu, foi logo dizendo, não tenho culpa, ele tirou uma parte do dinheiro da minha mão saiu correndo.  Disse que o índio estava atrás dele.

Foram a polícia.  O tinha  encontrado como uma overdose.  Merda, fui querer ajudar, mas não adiantou.  Tico, me leva a tua casa. Melhor pedir o carro do André emprestado.  Carlos correu ao banco, pegou a chave, foram para aonde o Tico tinha falado.  Era longe.  Um casebre por cair.  Dejanira quando os viu  não disse nada, mandou o Tico ficar com os irmãos.

Já imagino, desde que o senhor não quis dar o dinheiro para ele de tudo que eu fiz, ficou bravo.  Disse que lhe tocava a metade.  No outro dia na praia, eu estava lá porque desconfiava.  Creio que tem estado outra vez nas drogas.  Não tem jeito,  todo o verão é a mesma coisa.

Mas desta vez eu fui o culpado, quando o vi dormindo na praia, me disse que estava sem dinheiro para pagar aonde guarda as coisas. 

Por isso fiquei desconfiada, olha o movimento da barraca.  Descobri que outro dia teve que pedir dinheiro emprestado para comprar as cervejas.  

Pois é dei dinheiro para o homem para guardar por três meses, o homem disse que ele lhe tirou da mão uma parte, desapareceu.   Fui a polícia o corpo está na morgue.  Sinto muito Dejanira.

O senhor não tem culpa, eu vinha desconfiando a tempos.  O Tico estava lá para vigiar, disse que ele as vezes desaparecia. 

Mas mulher como podes fazer isso, mandar um garoto vigiar um marmanjo.  Mas vou te ajudar não se preocupe.  

Eu paguei o aluguel atrasado aqui do barraco, com o dinheiro que o senhor me pagou, agora terei que arrumar outra coisa.

Carlos disse, espere.   Saiu para a rua, ficou falando ao lado do carro.  

Bom falei com o André, ele me disse que meus irmão não vão usar a casa.   Podemos ir para lá.

Olha o Carlos tem a casa da família dele, em Arraial do Cabo, queremos ir, íamos te chamar para ajudar a limpar a casa, vir com os garotos, passar uns 15 dias por lá.   Mas antes temos que providenciar o enterro.  

Não temos dinheiro para isso não Zé. Que o enterrem como indigente mesmo.  

Nem pensar, com todos os defeitos o Carlinhos foi legal comigo.  Vou me informar, nem que seja longe, o enterramos, esses meninos um dia podem querer saber aonde está o pai, vais dizer que o enterramos como indigente nem pensar.  Basta que tive que enterrar minha mãe na beira do Rio.   Mas porque ela queria assim, meu pai estava ali.  Se amanhã ou depois quero ir chorar, vou até lá.

Quem é prático é o Miguel, deixa eu falar com ele.   Explicou a situação.

Já te chamo.   Dez minutos depois, disse que conseguia no cemitério da Pechincha em Jacarepaguá.    Aonde está o corpo, que mandam buscar.   Colocaram a Dejanira com os meninos no carro, disse para ela, faz um bolsa com as roupas para ficarem num hotel lá perto de casa.

Mas não posso pagar. 

Mulher me escute, já resolveremos isso depois.  Agora toca, tirar os meninos daqui, pois estão assustados.  Vamos para Jacarepaguá, que foram buscar o corpo.

Quando chegaram lá, já estava o Miguel, com o André.  Já escolhemos um caixão de pinho, mais simples.  Tinham até conseguido um padre, que rezou na hora de abaixar o caixão.   Depois levaram os meninos para comer.  Dejanira era forte, mas tinham medo de que viesse abaixo.  Foi até o hotel aonde estava hospedado, os alojou ali,  o Gerente tinha ficado seu amigo.

Explicou a situação.   No dia seguinte de manhã, foi buscar os meninos, Miguel tinha lhe ensinado aonde ir comprar roupa para eles,  no Saara no centro da cidade.   Deixou cada um escolher camisetas, os tênis, as bermudas.  Comprou um moletom para cada um, pois Carlos disse que fazia frio de noite em Arraial.

Enquanto ele fazia isso, Carlos alugou uma van, que era grande para levar todo mundo.  Ele mesmo tinha pouca coisa para levar. O mais importante eram os livros.  Para ler.  Quando voltaram Dejanira agradeceu, assim pude ficar sozinha, chorei um pouco, já me sinto melhor.

Podemos ir quando o senhor quiser.

Primeiro pelo amor de deus Dejanira, me chame de Zé, basta de senhor.   Os meninos pequenos estavam animados,  só o Tico tinha sabido o que tinha realmente acontecido.

Você acha que ele vai pro céu Tio Carlos. Estava mais agarrado agora com o Carlos, talvez por o ver mais velho.

Claro meu filho, vamos sempre todos para o Céu.

A viagem foi tranquila, pararam no meio do caminho para os meninos darem uma mijada, comer um sanduiche.   O pequeno era agarrado com a mãe.  Carlos foi dizendo como iam fazer. Deixariam as coisas em casa, iriam ao supermercado mais próximo para comprar material de limpeza, arejar a casa, pois estava fechada.  Comprar comida.

Foram fazendo uma lista do que havia para comprar.  Quando Zé perguntou o que eles comiam de manhã, quase chorou, a resposta foi, o que tiver. Pão velho com um pouco de leite.

Pediu para parar o carro um momento, que ele precisava andar.   Saiu, ficou chorando sozinho na beira da estrada.  Até que viu o índio.   Meu filho cada um escolhe seu caminho, ele já estava a meses na droga, inclusive tinha feito sexo com um dos homens da praia, para conseguir dinheiro.  Mas não se preocupe, vai tudo acabar bem.    O  Tico foi teu filho em outra vida. Por isso gosta de ti. Olhou para o carro, viu que estavam preocupados.

Me desculpem, mas me lembrei da minha infância, isso mexeu comigo.  Mas não se preocupe Tico, vai dar tudo certo.

Os meninos adoraram a casa, pois havia um pátio no centro.  Abriram as janelas, olha Dejanira, vocês podem usar esses dois quartos.  Um tinha dois beliches, os meninos podem ficar aqui, assim terás espaço para ti.  Ela foi com o Carlos ao supermercado, enquanto ele mais o Tico, iam abrindo as janelas, virando os colchões. 

Sabe Zé, os meninos não entenderam o que aconteceu, eu ia todo dia lá, as vezes dormia na praia para vigiar.   Mas ele ultimamente sempre conseguia um jeito de escapar.  Nunca tinha dinheiro, ficava nervoso à toa.  Me dizia que minha mãe, me mandava, não para ajudar, mas para vigiar.  Era verdade, mas me esforçava para olhar por ele.

Vês, por isso Tico, tens que estudar.  Queres essa vida para ti?

Não senhor, deus me livre.  Vamos dar um jeito de vocês estudarem.  Ok.

Quando eles voltaram, como fazia sol, eles dois tinha estendido os lençóis que estavam guardados ao sol, para tirarem o cheiro.  Amanhã lavo tudo, assim fica mais fácil.

Começaram a limpar tudo.   Um dos meninos veio correndo, vimos peixes na beirada d’água disse.  Tico começou a rir.  Do que estas rindo disse sua mãe.

Agora vamos saber se o Zé é um mentiroso ou não.   Quero ver ele pegar esses peixes.

Zé encontrou um cabo de vassoura velha, afiou a ponta, vou te mostra moleque a não duvidar de mim.  Foram todos olhar.  Ele entrou na água, mergulhou ao lado dos peixes, ficou ali um tempo, depois saiu com dois na mão. Entregou para a Dejanira. Espera, vem Tico, vem comigo.

Tu prendes a respiração, fica junto com eles, moves a mão devagar, até encontrar um.

Segundos depois, ele se saiu com um na mão.   O índio me ensinou como pegar.

Dejanira, esse menino, um Índio, aonde tem um índio?

Dentro d’água mãe.   Carlos disse eu já vou te explicar.

Pegaram mais dois.  Já temos o suficiente para o jantar, nunca se deve pegar mais da conta do que se pode comer.

Ele saiu da água, se virou para as duas mulheres que estavam ali, agradecendo a proteção.

Os meninos estavam felizes, queriam saber do Tico como se fazia.  Não saiam de perto dele, o irmão tinha virado seu herói preferido.

Eu sempre gostei de comer aqui na varanda. Podemos colocar os mosquiteiros, porque senão fica cheio de mosquitos.  Vai ficar nada.  Zé chamou os meninos, peguem uma bolsa, voltaram rindo.   Mãe, o Zé catou todas as bostas de cavalos, vacas que achou ali no campo atrás, estão secas.    Ele achou uma travessas de barro já velhas, que estavam apilhadas no pátio. Verás como não teremos moscas.

De noite, ele colocou tudo aquilo para queimar como se fosse um incenso, não tinha mosquito nenhum.    Mais tarde André telefonou para  saber como estavam as coisas. Te incomoda que a gente suba esse final de semana.  Posso sair na sexta de tarde, chegamos de noite.

Claro vamos preparar um quarto para vocês.  Hoje estamos comendo peixe que o Tico pescou junto com o Zé.  Depois te conto aqui.

Ria a não mais poder.   Isso passará para a história. De noite ele ajudou a Dejanira colocar os meninos na cama.  O pequeno ia dormir com ela.  Ainda perguntou ao Tico, vais dormir em cima, olha lá não vá cair da cama.                    Carlos se lembrou, podemos tirar a parte de cima. Arrumaram o quarto com três camas, assim não cais em cima dos outros.

Deu um beijo na cabeça de cada um, dizendo boa noite.

Até amanhã Dejanira, descanse.

Foram dormir.  Menino que confusão, esses meninos são ótimos.         Não Carlos, tu é que es um paizão.   Fizeram sexo suavemente, dormindo abraçados.  Carlos ainda comentou, que raro isso do André querer vir para cá, tendo samba.

A casa foi ficando com outra cara.  Eu sempre me imaginei aposentado aqui.  Até juntei dinheiro para comprar dos meus irmãos, eles quase não vem.        Que gostava realmente daqui era meus velhos.  Nessa parte aonde estavam os peixes, sempre foi como uma piscina. Viste como a água é limpa.  Depois como os meninos gostaram da história dos peixes.   Falou no ouvido dele, não quero que ninguém escute.   Te amo.

No outro dia de manhã, André tornou a chamar, a princípio pensou vai dizer que não vem, mas o que perguntou se lhes incomodava levar mais uma pessoa.

Nada, temos muita gente na casa, podem vir, arrumamos outro quarto. Dejanira tinha lavado toda a roupa de cama, como o sol estava de rachar, ia secar rápido.

Fuçando nas coisas, Zé encontrou uma espécie rede de limpar piscina.  Limpou bem, disse ao Tico, vamos pescar sardinhas.

Mas Zé num vi nenhum peixe pequeno ontem. 

Não importa, vamos tentar, os meninos vão adorar comer sardinhas fritas, os pescadores dessa casa somos nós dois.  Tinha que comprar óculos de mergulhar, um desses tubos para respirar.

Mergulharam os dois, um pouco além da piscina, viram um banco de peixes pequenos, fez um sinal ao Tico, subiram respiraram, voltaram para baixo, com a rede, pegou umas quantas sardinhas,  Tico com a mão um peixe maior.

Foram até a praia levar, os meninos queriam entrar na água, escutem peçam a tua mãe alguma coisa para colocar os peixes. Hoje temos que pescar muito, pois a noite terá mais gente para comer.

Voltaram a mergulhar, fizeram isso mais umas três vezes.  Tinham uma boa quantidade de sardinhas para o almoço, vários peixes grandes para o jantar.

Levaram tudo para o Carlos que ia limpar as sardinhas para fazer na brasa no pátio,  Zé voltou a praia com os meninos, ficaram na piscina, ensinando a respirar, mergulhar. Os mais pequenos a nadar.  Eles não tinham medo de nada.

Quando voltaram, correram para sua mãe dizendo, daqui alguns dias estaremos pescando melhor do que eles dois.  Dejanira ria, estava mais relaxada.

Carlos estava inquieto.   Que está acontecendo senhor meu?

Quem será que estes dois estão trazendo, espero que não seja nenhum chato do grupo, ou o Marcondes.

Carlos, tens que pensar, que mais dias, menos dias terás que enfrentar isso.  O passado já acabou, ou ainda tens dúvida.  Relaxa que teus meninos daqui a pouco vão ter fome.  Ah de tarde, queria ir a uma loja dessas de material de praia, para comprar óculos de mergulhar para eles, precisam de sungas, não sei como se chama aquele tubo, para respirar embaixo d’água.

Ok, depois de comer vamos.  A Dejanira precisa de um maiô também.

Sentaram para comer na varanda.  Os meninos estavam acostumados a comer sardinhas em lata, nunca tinham comido assim.  Ela tinha feito um arroz delicioso, com um caldo das cabeças dos peixes do dia anterior.

Zé comentava da diferença de sabor dos peixes de rio, para os do mar.           Tico se meteu na conversa dizendo claro Zé o rio é água doce, mar água salgada.  Carlos ria, presidindo a mesa, colocou a mão sobre a do Zé, não sabes como precisava disso, me sentir em família.

Quando formos agora comprar as coisas, sugiro Dejanira que compremos legumes para esses meninos.  Ah temos que comprar leite também, o que compramos já está no final.

Esses meninos bebem leite, como se fosse água.

Mas claro, estão crescendo, pela conversa realmente pareciam uma família.

Foram fazer as compras, Zé deixou os meninos escolherem cada um sua sunga, seus óculos, diziam ao homem da loja, vamos pescar, pegar peixe com a mão.

A Dejanira não queria comprar o maiô, até que Carlos a convenceu.  Tens que desfrutar da praia também, não é só trabalhar.

Olha Carlos, só de sentar nessa varanda para comer, olhando o mar, já me basta.

Nada disso, queremos te ver desfrutar do mar, ele descarrega as coisas negativas.

Quando voltaram os meninos queriam usar tudo.  Ficaram os maiores sentados na praia, Tico ensinava os irmãos.  Veja Dejanira, ele já está assumindo o papel de homem da casa.

Mas quero que ele estude, os outros também.

Quando chegaram os convidados, a porta detrás do carro estava fechada, disseram ao Zé, abre a porta por favor. Quando ele abriu a porta, quem saiu foi a Marialva.

O grito dele foi tão alto que todos correram para ver.

Ela apareceu lá no banco procurando por ti Carlos, quando escutei o nome, me lembrei que o Zé vive falando nela.   Era a ele que estava procurando.   Por isso a trouxemos.

Meu menino, que saudade.  Estas fantástico.  Se apresentou ao Carlos, quando olhou a Dejanira, era como se estivesse olhando num espelho ela mais nova.  Os meninos imediatamente passaram a chama-la de tia.

Levaram as coisas para dentro.  Estava absolutamente maravilhada com a casa, o panorama.

Antes do jantar, ela foi dar um passeio pela praia, com os garotos correndo na frente.  Que bom meu filho, encontraste uma família, o André me contou o que aconteceu.  Mas assim é a vida, o rio nunca para até desembocar no mar.  Essa é a verdade.

Me conta, como foi o de Minas Gerais.

Bom tinha umas contas pendentes com minha família.  Embora não precise de dinheiro, tinha meu ouro guardado, bem guardado.  Fui reclamar minha parte na herança, pois contratei um advogado.  Meu pai me expulsou de casa, mas se esqueceu de me tirar do testamento.  Tiveram que me dar uma boa quantidade de dinheiro.  Depois os mandei a merda.  Vim para o Rio, me lembrei que o Carlos trabalhava nesse banco, resolvi entrar para perguntar, quando o André apareceu dizendo que tu vivias falando de mim.  Disseram que vinham te visitar, perguntei se podia vir. Aqui estou contigo.

Podes ficar quanto tempo queiras.  Ainda não sabemos do que vamos fazer.  Preciso cuidar dessa família, mostrou os meninos correndo na frente.  

Quando o Manuel, me disse que tinhas muito dinheiro, fez um comentário que não gostei, disse que estarias gastando a rodo em besteiras,  Eu disse que nada disso, que te conhecia, estarias gastando esse dinheiro em coisas importantes.

Que mulher a Dejanira, parece que estou me olhando no espelho, quando era jovem era como ela, muita gente pensava que era sapatão.   Mas nada, cuidava das minhas meninas, quem se atrevesse a desrespeitar dava uma boa surra.   Nunca tive medo de homem nenhum.

Menos mal que tive tempo de comprar um maiô, para vir a praia.

A noite era de lua cheia, todos falavam em nadar na piscina.  Dejanira queria que os meninos comessem na cozinha.

Nem pensar mulher, há muito não tenho essa sensação de família, foi dizendo a Marialva, a minha família na vila, era esse sem vergonha do Zé, sua mãe que em paz descanse.

Antes de ir embora, Zé, plantei umas flores como ela gostava, na sua tumba.

Tico perguntou como era o Zé de garoto.  A Marialva contou várias histórias que nem ele lembrava.  Quando acabaram de comer, ela foi dando ordem, cada um leva seu prato para a cozinha, vamos ajudar sua mãe.

Depois os quatro na varanda escutaram as duas rindo na cozinha.

Que bom que vocês a trouxeram, essa mulher me ajudou muito com minha mãe, as outras mulheres quando a vila tinha gente, não falavam com ela, minha mãe não.  Às vezes me mandava levar encomendas no putero.  Ela me recebia, pagava em dinheiro, sempre enfiava algum no bolso esfarrapada da minha bermuda.  Para que um dia eu pudesse comprar uma melhor.

Quando todos foram embora, as putas inclusive, ela vinha todas as noites se sentar com a gente atrás da casa, para conversar.  É muito boa gente.

Agora, me contém, o que aconteceu, para que os senhores não estejam no samba?

Bom descobrimos quem foi que vinha dando dinheiro ao Carlinhos a troca de sexo, para comprar drogas.         Estava se vangloriando na frente de todo mundo disso.  André perdeu a paciência lhe deu um murro na cara, saltaram dois dentes.       Chamou todos de filhos da puta, para baixo.  Quem estava contando era o Miguel.  Ficou tão furioso, que foi difícil acalma-lo.

O Zé tem toda razão dizia, perdemos nosso tempo com esses tipos fúteis, que não fazem porra nenhuma.           Começou a me contar da infância dele aqui.   Lhe disse por que não vamos, no samba sempre é a mesma coisa.

O que é uma verdade, gosto, mas acaba-se exagerando, como se não houvesse outra coisa no mundo.

Quando as mulheres apareceram, Marialva foi logo dizendo, vamos fazer um rodízio nessa cozinha, senão só as mulheres trabalham.    Estava contando a Dejanira, que lá no meu putero, tudo tinha ordem.  Cada dia tocava a uma lavar os lençóis as toalhas, ferver tudo, nunca se sabia não é mesmo.   Quando aparecia homem sujo, obrigava a tomar banho antes, cobrando é claro.

Vamos tomar um banho de mar ou não.   Os meninos já estavam todos de sunga, nós vamos também.

Temos que comprar uma televisão para esses meninos se distraírem de noite. 

Nada disso, lá na vila não tinha, passávamos tempo contando histórias, verdade Marialva.

E como, as do Zé eram sempre mentiras, dizia que tinha pegado o peixe mais grande, contou exagerando, os meninos riam muito.   Tico, soltou, mas o índio está sempre mostrando os melhores para a gente.

Que história é essa de índio que vives repetindo.

Conta para mãe, que não acredita em mim, Zé, o índio não ajuda a gente?

É um espírito Dejanira, tenho um índio que me ajuda desde criança, lá no rio Tocantins, foi ele que me ensinou a pescar.   Agora aparece aqui, ensinado o Tico a pescar.

Segundo um conhecido, um Oxóssi.

Agora entendi. Pode deixar Tico, agora acredito em ti.

Todos prontos, ficaram nadando brincando com as crianças dentro da água. 

Não me divertia assim desde que era criança, foi o Carlos que me ensinou a nadar aqui, verdade mano?   

Sim, ainda não tinha saído de casa, procurando meu lugar no mundo.   O pai quando me viu beijando um menino vizinho, me botou para fora de casa.   Fui viver na Prado Junior, no meio das putas, viados, famílias, aquela bagunça, que lembra muito o Rio de Janeiro, o próprio Brasil.

Mas precisei ir para o cu do mundo para encontrar essa preciosidade.  A pele do Zé, brilhava como escamas sobre a luz da lua.  Voltaram se sentaram todos na varanda, Carlos foi colocar os meninos na cama, depois voltou com a Dejanira.

Zé tava contando isso aos outros, ele é um puto paizão, vai todos os dias colocar os meninos na cama.

Claro me faz bem fazer isso, faço porque gosto.

André, achas que nossos irmãos concordariam em vender a casa para mim?  Tenho um dinheiro guardado, posso pedir um empréstimo no banco para pagar o resto.

Nada disso, disseram a Marialva, o Zé ao mesmo tempo, te emprestamos com juros altíssimos.

Eu cobrarei em carne viva, o empréstimo.

Sabe o que eu faria, soltou Carlos já sonhando, fecharia essa varanda, com um sistema, que no verão aberta, no inverno, fechada para poder continuar desfrutando de olhar o mar.

No inverno venta muito Carlos, me lembro de uma vez que vim com os velhos por algum motivo, fazia muito vento, frio que não faz lá no Rio de Janeiro.

Depois tem aquele outro lado no pátio,  ali dá para mais dois quartos, com banheiro.  A churrasqueira, está tão velha que quase cai aos pedaços.  Vi uma moderna lá na loja que fomos acho que vou comprar.

Ficaram conversando, André disse que ele levantaria cedo, iria comprar pão quente pra todo mundo.

Foram dormir.  Carlos abraçado ao Zé, falava baixinho, fazia tanto tempo que não tinha essa sensação de família.  Se amaram em silencio, um olhando nos olhos do outro.  Quando a lua bate na tua pele, parece que tem um toque especial para ti.  Isso me deixa louco por ti.

Zé riu baixinho, eu também te amo, Carlos.  O interessante era que desde a primeira vez que tinham dormido juntos, dormiam nus, agarrados um ao outro, como se fosse importante, essa contato de pele. Apesar de fazer calor, ali na beira do mar, era mais suave.

No dia seguinte quando forma tomar café, o cheiro de pão quente, enchia todo espaço, André tinha comprado bastante, pois sabia que os garotos gostavam.  Depois vá até o pátio Carlos.

Quando esse foi, tudo que escutaram foi Filhos da puta.  Tinham comprado a churrasqueira que ele queria.

Ver meu irmão feliz, vale qualquer coisa.  Essa é a verdade.

Estive falando com o Miguel de noite, rindo disse, no intervalo, riram todos, pois entenderam.

Acho melhor dizer que é outra pessoa que está interessada, pois sabes como são nossos irmãos vão fazer cu doce.  Mas se sabem que é outra pessoa, concordarão.

Bom pode usar o meu nome ou da Marialva, sem problemas.

Dejanira, porque não ficas aqui com os garotos, tem escola perto, podem inclusive irem de bicicleta,  podiam todos estudar aqui.  Te pago um salário, registrado em carteira, assim um dia podes te aposentar.  O barraco não é teu. Não tens que pagar aluguel.  Penso em ficar aqui a maior parte do tempo, o Zé não sei o que pensa fazer.

Eu posso estudar em Cabo Frio que está perto.  Vou aprender a dirigir, vou arrumar uma escola que me aceite. 

Quais teus planos Marialva?

Se o Carlos permitir, posso construir o que ele disse do outro lado do pátio, como um apartamento para mim, não tenho ninguém, isso é como uma família que nunca tive.  A não ser que a presença de uma velha puta, incomode.

Na verdade Marialva, só tu lembras, nós nunca pensamos em ti como tal.  Se queres ficar tudo bem.  Cada um cria seu espaço.  Como diz tu, cada qual com sua obrigação.

Tico foi o primeiro a dizer, a minha será ir à escola, alimentar a família com os peixes que possa pescar.   Todos riram, mas Carlos trocou um olhar com o Zé, ele tinha colocado escola primeiro.

Dejanira, tinha os olhos cheios d’água.  Caramba, estava numa merda total, esses que mal me conhecem me acolhem com meus filhos, como se eu fosse de sua família.  Agora a Marialva, me ajuda.

Os dias passaram rápidos, Miguel, serviu de intermediário entre os irmão, levantou quanto valia a casa, fez uma oferta pela mesma, sem dizer quem era o comprador.  Os outros aceitaram, dizendo que teriam que localizar o Carlos, para assinar.   Miguel soltou que o André tinha uma procuração dele para isso.  Fecharam negócio, quando já tinham o dinheiro no bolso, viram que o comprador era o Carlos, queriam voltar atrás, mas o negócio já estava feito.

André desistiu de sua parte, pois pensava em frequentar mais tempo a casa. Ao mesmo tempo andou conversando com os do banco que ele conhecia.  Informou ao irmão como ia a história de uma pré aposentadoria.   Quando voltaram ao Rio, só os homens, as mulheres ficaram na casa.

Carlos se apresentou, pediu a pré aposentadoria, estudaram, concordando em fazer como ele queria. Ficou feliz da vida, pegou todos seus ternos, camisas sociais, gravatas, deu para o porteiro do edifício.   Zé ainda brincou com ele, como ia ser no dia do casamento, não terás mais nenhum terno para usar.  Contigo me caso nu, pois tu eres meu mundo.

Ensinou o Zé a dirigir, tanto que ele passou nos exames de primeira.  Ele comprou uma van, para levar os meninos por enquanto a escola, quando fossem maiores poderiam ir de bicicleta.

Dejanira parecia outra pessoa, mais relaxada, agora os meninos tinham um verdadeiro armário, com suas roupas.  Tico sonhava em andar de calças compridas, mas quando provou, disse logo, prefiro andar de bermudas.   Nas noites de lua cheia, eles nadavam nus na praia vazia.  As vezes se fosse mais tarde, sabiam que os meninos já estavam na cama faziam sexo.

Quase todas as noites, jogavam cartas com eles, até terem sono.  André conseguiu transferência do banco para Cabo Frio, Miguel vendeu a imobiliária.  O que deu pena ao Zé, foi deixar o apartamento do Rio, mas para que manter se não iam nunca.

Zé finalmente realizava seu sonho, estudava de noite com alunos de sua idade, que queriam recuperar o tempo perdido.  Estava sempre com livros na mão.  Conseguiu entrar para a faculdade de Cabo Frio, para estudar meio ambiente.  Não que ele precisasse trabalhar, mas queria saber sempre mais, ajudava os meninos a estudar.  Tico estava crescendo, já tinha quase 15 anos. Começava a se interessar por sexo.

Um dia estavam os dois passeando na praia de noite.  Ele se meteu no meio, pediu se podia conversar com eles.  Se sentaram ali na praia.  O que passa Tico.

Estou interessado num companheiro de classe.  Mas não sei como fazer.

Fazer o que?

Lá no Rio, escutava aqueles sujeitos falando de sexo, que tinham dormido com um, com outro, isso eu não quero.   Quero ser como vocês dois.  Porque vocês são o exemplo que tenho. Se amam, se respeitam, nunca estão falando de sexo com ninguém de uma forma vulgar.

Já conversaste com esse garoto?

Sim, nós demos um beijo outro dia.  Ele vive aqui com o pai.  Este trabalha com sal em Cabo Frio.

Vá devagar, não tem pressa, deixe a coisa andar.  Vá dando seus beijos, o dia que quiserem fazer sexo, tomem cuidado, usem camisinha. Ok.

Posso convidar para ele vir aqui em casa?  

Claro Tico, a casa também é tua. Apenas fale com tua mãe sobre isso. Não deixe nunca ninguém fazer brincadeiras de mal gosto a respeito dos dois.

Um dia trouxe o garoto para almoçar, não podiam ser mais diferentes, O garoto era loiro de olhos azuis. Chegou justo na hora que Zé dava um beijo na cabeça do Carlos, por algum motivo.

Se relaxou, almoçou com eles. Depois soltou, acho que vou trazer meu pai aqui, eu sei que ele é gay, mas vive tão fechado que não é feliz.  Posso o convidar.

Claro que sim. Será um prazer conhece-lo.  No domingo seguinte, Joseph apareceu, era alemão, engenheiro químico.  Meu filho insistiu, por isso vim.  Entre homem, somos uma família grande, mais um não passa nada.   Logo ele se relaxou. Num dado momento, viu quando tomavam café, André de mãos dadas com Miguel, lhes perguntou se eram gays?

Sim os quatro.      O homem se relaxou, tentei arrumar tudo com um casamento que não deu certo, apenas fiquei eu com meu menino.  Daqui um tempo será um homem com vida própria, eu ficarei sozinho.  Tenho aventuras, que não gosto muito de ter, pois acabo sozinho.

Tens a porta da casa aberta para ti.

Um dia André recebeu uma chamada no celular, era o Marcondes.  Disse que queria muito falar com o Carlos.  Não posso ir em frente, sem falar com ele.

Falou com os dois, Carlos foi o primeiro em dizer, claro que sim, é preciso deixar isso para trás de uma vez, já nem me lembro disso tudo.

O convidaram para vir um final de semana.  Ele apareceu com uma caminhonete, trazendo o Oxóssi, para o Zé.  Abraçou a todos, eu disse que era teu,  fiz uma exposição, todo mundo queria, mas não vendi.   A colocaram no salão, imediatamente, Zé colocou uma quartinha na frente da imagem com água do mar.   Tico, soltou, ele é igual o índio que nada com a gente não é.

Que índio, de que fala esse menino?

Marcondes, ele vê o Oxóssi, sempre que vamos pescar, o mesmo aparece, foi ele que ensinou o Tico a pescar.   Além disse quando você me disse, eu já sabia, não sabia o nome, ou como se dizia.   Mas ele também saiu da mata, me ensinou a pescar, sempre cuidou de mim.

De tarde Carlos saiu a caminhar na praia com o Marcondes.  Voltaram rindo. Marcondes, mais relaxado, contou que ia passar um tempo fora. Queria partir livre, limpo como ele dizia.

No dia seguinte Joseph, veio almoçar com o filho.  Os dois se interessaram um  pelo outro, Carlos foi franco, Marcondes, se vais partir, não comece nada com esse homem, já sofreu muito.

Mas foi ao contrário, ficou completamente louco pelo loiro, até se mudou para Arraial, tinha seu studio lá.  No verão vendia muitas peças pequenas.  Atendia as pessoas necessitadas.

Um dia nadando, olhou para o lado, viu o índio, esse sorriu.  Vê Marcondes, tudo pode se ajeitar.

Apesar da diferença de idade, Zé com o Carlos, levaram muitos anos juntos.  Este sempre perguntava, se não se cansava dele.  Carlos deixa de besteira, se eu quisesse outro, ia embora. Não posso viver sem o cheiro da tua pele.   Carlos agora tinha a cabeça inteira branca.  Na formatura do Tico, eles estavam orgulhosos.  Agora iria estudar na universidade.  Dejanira, estava feliz, via futuro para seus filhos.  O que impressionava era o pequeno, tinha uma inteligência nata.  Todos se iam encaminhando.  Marialva agora também de cabelos brancos apanhados num coque, era como a avó deles.

A do Zé quando morreu, eles enterraram no mesmo cemitério que estava o Carlinhos.

A vida seguiu em frente como sempre, Oxóssi olhava por aquela casa com muito cuidado. Tinha seus protegidos.  Cada um ele ensinava a pescar no mar.

DEPARTED

                                                      

Douglas, ou Dog, desceu na Quantico Station, levava uma bagagem pequena, pouca roupa, um laptop, na mochila os papeis que lhe tinham dado.

Perguntou como podia chegar à escola de Quantico.  Um velho olhou como dizendo mais um, lhe indicou o caminho. Quando saiu, viu um ônibus com uma placa, novos recrutas para Quantico.  Foi até ele, viu que um grupo de jovens como ele que se dirigiam para o mesmo lugar. Apresentou a carta, o motorista, disse que se sentasse aonde quisesse.

Foi se sentar no último lugar do ônibus, assim poderia observar seus novos companheiros.  Alguns deviam vir do mesmo lugar, pois pareciam se conhecer.

Do outro lado do corredor, sentou-se um loiro, alto, muito musculoso, com um sorriso de orelha a orelha. Price, disse estendendo a mão.  Estendeu a sua. A princípio o olhou desconfiado, pois ele era relativamente comum.  

Moreno, com uma mata de cabelos de fazer gosto, tão rebeldes como ele mesmo.  Como se referia seu pai aos filhos, que eram todos um cruze de italianos e puritanos irlandeses.   Ninguém tinha saído a sua mãe que era loira de olhos azuis.  Ele era o mais alto da família.  Tinha 2 metros de altura, um corpo alongado, músculos, suficientemente fortes, para aguentar as brigas com os irmãos que eram quase tão altos como ele.  Mas bastava um grito da mãe, para se comportarem todos.    O difícil, era ir à missa todos os domingos, isso não tinha jeito.  Se destacou nos estudos desde o princípio. Era um esportista medíocre, se comparando com os irmãos.   Então se dedicou a estudar como um louco, pois a única maneira de conseguir uma bolsa de estudos seria por suas notas.

Seu pai era o Xerife da cidade que viviam, perto de Sacramento, ou dentro da área metropolitana da capital, Davis não era pequena. Mas uma vida relativamente tranquila.  Passou a adolescência, juventude, estudando, trabalhava de noite num supermercado, ajudando a descarregar caminhões.  Colocar as mercadorias no lugar.  Isso formou que seu corpo tivesse músculos bem definidos.   Quando entrou para a Universidade, os entrenadores se fixaram nele, deixou que experimentassem de tudo com ele.  Futebol americano, uma nulidade, Basquete, outra nulidade, usava óculos, sem eles não via direito.  Até que desistiram.   A única modalidade que não tinham era arco, tiro.   Nisso na verdade ele era bom.

Dividiu quarto com mais três, que tinham bolsa de estudo como ele.  Todos uns fracassados no esporte.   As garotas os olhavam como dizendo Friki, viravam a cara para o outro lado, queriam os que faziam desporte.

Ele nem se preocupou, queria terminar a Universidade, conseguir um trabalho, fazer a sua vida, sempre tinha sido muito fechado, mesmo com os irmãos.

Era o querido de sua mãe, o único sempre disposto a ajuda-la em alguma coisa.  Com ela inclusive aprendeu a cozinhar, coisa que gostava de fazer.

Quando estava no final do curso, lhe chamaram para uma entrevista, nem sabia para o que eram, como estudava direito, imaginou que fosse algum escritório, selecionando pessoal.

Quando entrou na sala, deu de cara com quatro homens, todos vestidos iguais. Pareciam saídos de um filme.

Teve vontade de rir. Pois ele gostava de vestir-se da maneira mais relaxada possível.  Mas pensou vamos ver o que querem estes.

Não era para um escritório, sim para o FBI.   Achou estranho, inclusive argumentou, que base usaram para me selecionar?

Seu destaque nos estudos, inteligência, sabemos que eres excelente em tiro ao alvo, disso precisamos.  Depois da entrevista, o mandaram com um grupo de alunos já selecionados, para um prova escrita, entrevista com psicólogos.

Segundo soube na prova escrita, tinha tirado a nota mais alta.   Isso que ele não sabia nada como seriam as perguntas.  Mas usou a logica para responder a todas.

Na entrevista com os psicólogos, lhe perguntaram se não tinha namorada.   Ele riu, vê minha cara de Friki, quem dessas garotas quer um cara assim.  Estão loucas pelos que fazem algum desporte.  Querem se amarar o mais rápido possível.   Isso não está nos meus planos, sem querer soltou que seu irmão pequeno, que não gostava de estudar, com 19 anos já estava casado, com um filho.   Caiu na rede cedo demais, que pode esperar da vida, a não ser um trabalhador braçal.

Tenho ambições, quero ser alguém, que possa usar a minha cabeça.  Pensar, resolver problemas.

Quando lhe perguntaram o que mais gostava de fazer.

Gosto as vezes de me sentar nos jardins da Universidade, ficar observando os grupos, analisando aonde vai chegar cada um.  Achei inclusive que invés de Direito, deveria ter feito psicologia.

Dias depois lhe deram uma data, para mais uma entrevista, desta vez em San Francisco.

Só então comentou primeiro com o pai.  Este o abraçou forte, caramba filho, eu não passei nos testes, acabei na polícia daqui.  Mas não diga nada a tua mãe, ainda, espere tudo terminar, quando vieres para o Natal, comentas.  Senão vai se preocupar antes do tempo.  Assim no Natal teus irmão terão um motivo para brigar contigo.

A entrevista em San Francisco, foi excelente, mas o levaram a um campo de tiro.  O fizeram atirar com um rifle, depois com uma arma curta.  Depois o levaram com os outros finalistas, que eram poucos a um ginásio.  Ali havia um imenso tatame, teriam que mostrar suas habilidades lutando corpo a corpo.  Observou todos primeiro, quando chegou a sua vez, escolheu um tipo tão alto como ele, mas super forte.  Em dois segundo o tinha dominado.

O professor o elogiou.  Te defendes bem.

Claro vivas numa casa, em existem cinco rapazes todos com hormonas a gritos, tinha que saber me defender, embora fosse o mais alto.   Porque diziam, como era alto, era fácil de tumbar.

Lhe avisaremos, a data que deves te apresentar em Quantico, para começar os treinamentos.

Acabou o curso, enquanto todos iam ao baile, arrumou sua bagagem, colocou tudo no seu velho carro.  Na hora que ia saindo, um outro estudante, perguntou para aonde ia.  Sacramento.

Posso ir contigo, o amigo que ia me levar, foi para o baile, um minuto que vou buscar minha bagagem.

Fizeram camaradagem logo no princípio.  Quando perguntou ao outro porque nunca o tinha visto. 

Claro impossível, inclusive compartimos mesa na biblioteca, mas estavas com a cabeça dentro dos livros. Eu estudei História da Arte, tu sabes o que significa, além de Friki, gay.  O meu companheiro de quarto, se dedicava ao esporte.  Então volta e meia tinha que deixar o quarto para ele fazer sexo com suas admiradoras.  Mas tampouco nunca me encheu o saco.

Mas eres gay?

Sim por quê?   Nunca tiveste um relacionamento com nenhum.

Nem falamos o nosso nome, pode me chamar de Dog,  tu?

Travis, um nome banal.

Respondendo a tua pergunta, creio que passei a universidade como entrei, virgem.  Como era um Friki, não passei disso.

No meio da viagem pararam para descansar, estirar as pernas, andaram pela lateral da estrada, a noite estava linda, lua cheia.

Pois eu vou ser honesto contigo Dog, sempre estava te olhando com a esperança que me deste uma olhada.

Ele começou a rir, meu pai tinha razão numa coisa, me dizia para relaxar, que tudo correria bem, mas que se eu continuasse enfurnado nos livros, não teria tempo de conhecer ninguém.  Isso aconteceu, não fiz amigos, não me enturmei em nenhum grupo, nem nos dos Friki.  Continuo virgem.

Num determinado momento, se viraram de frente um para o outro, sentiram-se atraídos, se beijaram.  Dog, nunca tinha beijado ninguém, nem imaginava o que sentiria.  Todo seu desejo reprimido todos esses anos, estalaram.

Não lhe importou nenhum momento estar beijando outro homem.  Se adentraram aonde estavam, atrás de uma árvore, fizeram sexo.

Caramba para quem nunca fez sexo, eres bom demais.

Creio que me deixei guiar pelo instinto. Como só os esperavam para o dia seguinte, resolveram parar num motel de estrada, ficaram basicamente fazendo sexo a noite inteira.

Nos intervalos falavam, mais o Travis que contava seus planos, iria estudar história da arte em NYC.   Tinha conseguido um emprego, para trabalhar numa galeria de arte.

Na verdade, conheci o dono, numa discoteca, fizemos sexo, me convidou para ir.  Mas não quero nada mais com ele.

Durante os dias que esteve em sua casa, encontrava sempre algum motivo para sair, chamar o Travis, estar algum momento com ele. Nunca tinha pensado nisso, tampouco tinha sentido atração por outro homem, pensou, isso me passara, estou aproveitando a oportunidade para fazer sexo.

Finalmente recebeu a carta com seu número de inscrição.  Travis já tinha partido para seu novo destino.  Tinham se despedido, passando a noite num motel.

Sua mãe lhe perguntou quem era a garota com quem ele estava saindo.   Enrolou ao responder, que ninguém que importasse.

Agora em Quantico, observou, que havia muitos musculosos, quando designaram seu companheiro de quarto, lhe tocou justamente o do ônibus.  Este disse, pelo menos nos conhecemos.   Como se conhecessem de longa data.

O quarto era bem dividido, sabia que se passasse nas primeiras provas, futuramente teria um só para ele.

Os banhos eram coletivos, aquela quantidade de homens todos nus, tinha medo de ficar excitado, treinou sua cabeça para que fosse a coisa mais normal do mundo.

Voltava do banho, Price, estava de costa vestindo cuecas, tinha uma senhora bunda. Sem querer ficou meio excitado. Mas se vestiu rapidamente, pois tinha que tomar café, as primeiras aulas.

Aulas teóricas, práticas, lutas, exercícios, correr etc.   Era como estar no exército.  Tudo que pensou, vou me fuder nisso tudo, nunca fui bom nos esportes.   Dias antes, tinha ido à um oculista, agora usava lentes de contato.  Isso lhe fazia as coisas mais fáceis.

Mas ao contrário logo se destacou, nas lutas corpo a corpo, nas aulas de tiro, aprender a montar e desmontar uma carabina, ou um revólver.  Fazia tudo com suma precisão.   Alguns lhes fazia graça, pois ele não tinha sentido de humor.   Isso era uma coisa que seu pai sempre lhe chamava atenção, enquanto os irmãos contavam piadas, ele tinha que se esforçar para pelo menos esboçar um sorriso.

Tinha um sentido de observação, elogiado pelos professores.  Nas aulas que tinha sempre alerta,  para perceber qualquer movimento suspeitos, ele era o melhor.

Seu amigo Price lhe perguntou se não gostava de beber, ou fumar.

Estava distraído, lendo um manual.  Levantou a cabeça, não tinha entendido a pergunta.

Este reformulou, que não tinha o visto nenhum dia na cantina, bebendo com os outros. 

Não me faz graça nenhuma, em casa tínhamos liberdade para provar, meu pai sempre tomou suas cervejas,  não gostei do paladar.   Fumar, até tentei com meus irmãos, pois todos fumam.  Isso de ficar engolindo fumaça, soltando pelo nariz, começou a rir ele mesmo, pois tinha se lembrado de um dia que junto com os irmãos, estavam todos experimentado fumar. Ele se engasgou, perdeu o folego, ficou vermelho como um pimentão, pensavam que passava mal.  Se entregaram porque chamaram seu pai imediatamente.  A bronca foi geral.

Como o outro ficou intrigado, contou a história, imagina que meu pai era muito severo, xerife da cidade.  Meus irmãos me acusavam, mas ele não acreditou.

Nunca mais me chamaram para fumar com eles.

Como te vejo sempre enfiando nesses manuais.  Até agora dizem que eres o melhor aluno, mas tens que pensar, quando estiveres fora daqui, terás que atuar com um companheiro, em grupo, nisso é necessário camaradagem.

Tens toda a razão, terei que me esforçar nesse sentido.   Quando fores a cantina, me chame, mas não me coloque nos grupos dos idiotas que ficam rindo à toa.

Saiam juntos, para tomar uma cerveja, embora a sua sempre sobrasse metade, lhe ofereciam cigarro, agradecia, mas não fumava.  Entravam em discussão sobre algum treinamento, ou coisas do manual, Travis logo dizia, ele sabe todos.  Explicava o que os outros não tinham entendido.  Travis logo tomou confiança com ele, andava nu pelo quarto.  Um dia lhe perguntou por que fazia isso.

Para ver se te interesso, porque tu sim me interessa.

Fingiu que não entendia.  Um dia tinham tido treinamento numa piscina, ele tinha descoberto tarde que gostava de nadar, se não tinha nada mais a fazer, perguntava ao professor, se podia ficar mais um pouco.  Claro aproveite. 

O que mais gostava, era mergulhar de um lado, sair do outro, primeiro foi aos poucos, até que um dia já conseguia atravessar a piscina inteira.  Quando saiu do outro lado, Travis estava sentado na beira da piscina, com uma cara triste.

Algum problema, pois viu que este tinha um papel nas mãos.

Acabo de saber que minha mãe morreu.  Só agora me avisaram, foi a mais de uma semana. Coisas do meu pai, diz que era para não me incomodar.  Filho da puta.  Deve estar se sentido livre, leve solto como um pássaro.

Eles viviam pela conveniência, nunca entendi isso. Não se separavam, nem divorciavam porque as pessoas podiam falar no seu círculo de amizades.   Cada um tinha seus romances.  Fui enviado para uma escola interna com 12 anos, só sai para a Universidade.

Final de ano, natal essas coisas, ia para casa, mas ficava sozinho, pois eles tinham compromissos.  Bom pelo menos não tenho que ir a um enterro, fingir que sinto alguma coisa, fazer cara de sofrimento, nada disso.

Joga essa carta no lixo, mude de roupa, venha relaxar, a água está ótima.  Ficaram ali apostando quem mergulhava mais tempo, ou quem conseguia atravessar a piscina de um folego só.  Num dado momento, no meio do mergulho, viu que ele vinha em sua direção, o segurou, lhe beijou a boca.   Foi tremendo. Subiu à tona, ficaram se olhando sério um para o outro.

Sinto muito se te assustei Dog, me desculpa.

Foram embora para o alojamento sem dizer uma palavra.  Dog tinha medo, se descobrissem podiam lhe mandar embora.

Por sorte, acabou-se o curso, só ficaram os que tinham passado nas seleções, agora mudariam de alojamento, cada um teria um quarto só para si.  Mas claro lhe tocou um quarto ao lado, Travis.

Não tinha tentado mais nada.  Mas sempre lhe tocava ele, quando tinham que fazer algum exercício em conjunto.  Quando lutavam, este exibia uma agressividade fora do normal. Um professor lhe chamou atenção.  O exercício está correto, mas tu, estas fora de controle.

Veio lhe pedir desculpas, é que sem querer me deu raiva que não quisesse nada comigo.

Price, aqui todo mundo está nos observando, não creio que devemos querer nada disso, pode nos prejudicar.

Dog, o que acontece é que estou louco por ti, não me pergunte por que, mas talvez porque sei que não me queres.

Não é bem assim, mas se quero fazer uma carreira aqui dentro, não quero que nada estrague, isso poderia ser perigoso para os dois.  Vamos terminar o curso para ver, o que acontece.

Não estas me rechaçando então?

Não, apenas sou precavido.

A merda com isso, entrou no quarto, o beijou desesperadamente, não teve como não corresponder.  Fizeram um sexo com ânsia.

Agora sei que não te sou indiferente.

Passavam mais tempo juntos, embora procurassem fazer exercícios com outros companheiros. Tinha um em especial que se dava bem nos exercícios que fazia com Dog.  Tinha o mesmo tipo de análises dos acontecimentos.   Eram capazes de analisar qualquer situação.   Quando estavam na cantina, estava sempre falando pelo celular com sua namorada.

Um dia se abriu com Dog, ela quer se casar de qualquer jeito, quer filhos, família.   Mas acho que com essa profissão isso seria uma merda.  Não quer me entender.  Quer ficar discutindo isso por celular.  Acho que esta interessada em alguém, mas está nas dúvidas.  Pior do outro lado fica minha mãe que é amiga da sua, uma pressão de merda.  Mas não a amo, estou com ela por comodidade.

Agora conversava mais com Robert, sua cabeça funcionava como um jogo de xadrez.  Uma vez fizeram um exercício, que consistia em movimenta as fichas de xadrez, memorizar o movimento, sem nenhuma peça em cima.  Foi divertido, na final um encarou o outro.  Os outros em silencio observando.   Ele ganhou.  Robert não recebeu de muito bom agrado a derrota.

Depois reconheceu que não sabia perder.

Nessa noite, estava estudando na cama, bateram na porta, pensou que era o Price, se enganou, era Robert.

Tenho que falar contigo.

Pode falar, não estou chateado contigo. 

Depois de muito analisar, porque perdi, cheguei a conclusão, que tinha sido porque fiquei olhando os teus olhos, saberia dizer agora, todos os matizes que tem, fiquei com vontade de te beijar.

Como? Que merda é essa Robert.  Ele não lhe atraia em nada.

Me desculpe, creia que estávamos bem, nossas cabeças são idênticas.

São nada Robert, eu aceito uma derrota, quando perco, já percebi que para ti, é como uma competição tudo, se não ganhas perdes o controle totalmente.  Não gosto muito disso não. Fui educado saber quando ganhar, quando perder. 

A voz do outro foi se levantando de tom, quase gritando, como se atreves a me criticar.

Price saiu do seu quarto, bem como alguns companheiros.  Te peço desculpas, tu me acusas de não saber perder, me ofende. Lhe deu um empurrão, levantou o punho, mas foi segurado por detrás pelo Price.

Mas, já era tarde, o que controlava o grupo todo, apareceu.  Já conhecia a fama do Robert, tinha causado problemas desde o primeiro dia, reclamado de compartir quarto, com outro candidato negro.  Tanto fez que esse pediu para trocar de companheiro.

Já tinha levado várias advertências. Essa agora era demais.  Não sabia perder nas lutas, queria sempre continuar até vencer. Por mais que o professor mandasse parar ele insistia que tinha que ganhar.    Um dia deu um soco no professor, porque não o tinha deixado ganhar a luta.

Agora outra vez com um companheiro.  Alegou que este o tinha distraído de propósito.

Robert, o trabalho é gravado em vídeo, tu te distraíste sozinho.   Deixa de lenga, lenga, peça desculpas de uma vez, depois venha comigo.

Mas ele não se desculpou, sabia que depois de tantas advertências, lhe expulsariam.  O encarregado disse que inicialmente ele não tinha passado nas entrevistas de psicologia, mas seu pai era Senador. Tinha insistido muito.

No dia seguinte um carro oficial, veio busca-lo.   Os grupos agora pareciam trabalhar melhor.

Travis, que tinha escutado o que o outro tinha dito.  Então enganas os outros oferecendo sexo. Ficou extremamente zangado, nunca faria isso.

Tens um defeito como ele, não tens sentido de humor.

Ele foi falar com um psicólogo, por conta própria, explicou sua situação, mesmo em casa me dizem que não tenho sentido de humor. Que estou sempre levando tudo a sério.

Já pensaste no porquê?

Bom a maioria das vezes estou analisando alguma coisa, o fato de uma pessoa querer me distrair com uma bobagem, me irrita.  Embora preste atenção no que ela diga, verifico se tem doble sentido. Mas claro estou tão concentrado nisso, que apenas esboço um sorriso, quando querem uma gargalhada.  Vamos treinar essa gargalhada.

Lhe ensinou como devia fazer, prestar atenção, finja que não entende, então conforme a cara de quem te conta a besteira, ria da cara da pessoa.

Ele começou a praticar isso, nos grupos que se reunião para tomar uma cerveja.  Agora, parecia fazer mais parte do grupo.   Embora no fundo ele não tivesse visto nada divertido.

Com Price, não funcionou, pois este o provocava para o fazer rir. Tentava por todos os meios escapar de fazer sexo com ele.   Seu medo que o descobrisse era grande.

Quando acabaram o curso, alguns estavam namorando alguma companheira, eles não.   Price foi mandado para uma embaixada no exterior.   Ele para o escritório de San Francisco.   Logo se destacou pelo seu senso de observação. Podia observar um vídeo, dizer aonde estava a pessoa que procuravam.

Logo foi ascendido a supervisor de um grupo.  Primeiro pensou que ia sair mal, que teria que sair com este para tomar uma cerveja.   Mas agora tinha seu apartamento, levava uma vida em que não sobrava tempo para muita coisa.

Um dia saia de casa, esbarrou com um vizinho.   Sentiu algo no primeiro momento. Se apresentaram, o outro tinha acabado de mudar-se.  Todos os dias pela manhã, saiam no mesmo horário.   Uma vez se encontraram os dois correndo.   Estás de folga hoje, o outro respondeu que sim.   Ficaram conversando, foram almoçar juntos.

Quando se perguntaram o que cada um fazia, os dois responderam o mesmo. Trabalho para o governo.   O vizinho era de outro departamento do FBI.   Riram muito, não consigo escapar, sempre me cai alguém por perto.

A amizade ficou forte, não trocavam informações, pois era proibido, mas falavam de outras coisas que os dois gostavam.   Corriam juntos, iam nadar, almoçar, jantar.  Um belo dia, este o convidou para sua casa.  Até parece que moramos longe um do outro.   Vou fazer um jantar, assim conheces meu apartamento.   Brincando disse que ele devia ter um alto poder aquisitivo, pois o seu tinha uma vista espetacular.

Podes vir sempre aqui observar.  Sem saber muito bem por que, acabaram na cama, os dois se conjugavam bem.  Gostavam de fazer sexo um com o outro.  As pessoas que conheciam lhes chamavam de DogFred, como se fosse uma coisa só. Frederico era descendente de italianos, tinha um temperamento o oposto do dele.

Mas no departamento, nunca estava juntos.   Dog, agora estava com seus horários complicados, pois estavam seguindo um grupo de traficantes, que tinham assassinado, vários de um grupo rival.  No meio dessa confusão tinham matado gente inocente que estava pelas ruas.   Ele é seu equipo estavam atrás dos chefes, não lhes interessava muito os debaixo.

Ele era o elo de ligação com um agente infiltrado.   Este podia lhe chamar a qualquer hora do dia ou da noite.   O bom disso era que Fred entendia.  As vezes estavam fazendo sexo, interrompiam porque o celular tocava.

A ele nada chamava nunca, não saberia dizer em que parte do departamento ele trabalhava.

Estava realmente apaixonado pela primeira vez. Um dia soube que Price, tinha desaparecido, estava numa embaixada num dos novos países da antiga Rússia, ninguém sabia dele.

Ficou realmente chateado, mas seu dia a dia era realmente complicado.   Quando foram prender finalmente o cabeça do grupo.  Acabou levando um tiro no ombro direito.   Mas seguiu trabalhando no caso, agora com um braço no cabresto.   Lhe doía, mas aguentava, todos comentavam porque ele não tinha acesso de mal humor por causa disso.   Ninguém tem culpa que eu tenha sido ferido.  De noite Fred, se ocupava de fazer curativos, lhe dizia sempre devias fazer fisioterapia.  Porque isso pode afetar o movimento do braço.  Sentiu isso quando foi fazer um exercício de tiro.

Finalmente entrou em razão.  Fazia fisioterapia quase todos dias da semana, até que ficou bem.

Quando pensava, vou apresentar o Fred a minha família, assumir nossa relação, pois falavam de viver juntos.  Fred foi transferido.   Não podia dizer o que ia fazer,  mas era coisa de alto risco.

Nunca tinha se sentido sozinho, agora sim.  As vezes agora, sentia necessidade de sexo, como em San Francisco era relativamente fácil, encontrava algum parceiro.  Mas não deixava passar de uma noite. Na verdade, nem ele, tampouco o Fred, diziam que se amavam.   Não sabia definir.  Com alguns parceiros se saia bem, com outros nem tanto.   Um dia vinha pela rua, subindo para seu apartamento, quando alguém lhe chamou pelo nome. Olhou o sujeito, não lhe era desconhecido.  Rebuscou na sua cabeça, era o dono de um restaurante que ia de vez em quando.   Foram tomar alguma coisa, conversar.  Faz tempo que não vais ao restaurante, ias sempre com teu amigo, o bonitão.

Queres dizer que sou feio?

Rindo lhe disse que não, era sério.  Tu sempre estava prestando atenção em tudo, inclusive uma vez que estiveram lá, soubeste que estava doente, ao sair disseste ao funcionário da caixa que esperava que melhorasse.   Nem sabia que notavas em mim.

Agora, sou eu que vai brincar contigo.  Como ia esquecer um bonitão como tu.  Estas casado?

Não, sabes que sou gay. Por isso me interessei por ti.  Não tenho muitas relações, primeiro não me sobra tempo, depois meus horários.  Nem vai ficar até tarde da noite esperando uma pessoa para fazer sexo. 

Não sei, eu gosto que me despertem para fazer sexo.

Começaram a sair, ou melhor, Guido quando saia do restaurante, passava por sua casa.  Vivia com sua mãe, a um quarteirão da casa do Dog.  Era interessante, ele devia saber algo do seu trabalho, pois jamais perguntava nada.

Um dia lhe questionou sobre isso.  Porque não perguntava.

Já te vi uma vez com o jaleco do FBI, em ação, sei que não podes comentar o que tens entre mãos.   Por isso para que perder tempo.  Sempre trazia comida, ou alguma coisa para o café da manhã.  Talvez por isso se entregou completamente a relação.   Um belo dia Guido chegou muito nervoso.   Preciso de tua ajuda.

O que passou?

Apareceram uns tipos novos no bairro, são uma gang, já tinha escutado falar neles, apareceram hoje de manhã, dizendo que se não pagássemos uma vez por mês uma quantia, a coisa ia ficar preta, mas seriam nossos protetores.    A princípio pensei que eram da máfia, mas é uma mistura, alguns negros, outros sei que são chicanos, não sei te definir o que são.

Vamos fazer o seguinte, instalamos câmeras no restaurante, quando vierem me mostra.  De qualquer jeito vou me informar, com os responsáveis por gangs.

Era um conhecido da época da academia, este disse que sim, não sabiam de aonde tinha saído, acreditavam que eram gente do próprio bairro, aonde estão mesclados. Não conhecemos a cara deles.

Contou que um restaurante que frequentava, o dono tinha sido ameaçado, lhe disse para instalar uma câmera de vídeo, para podermos ver.  Pois diz que aparecem de cara descoberta.

Dito e feito, semanas depois, apareceram para cobrar.  Ele disse ao Guido que pagasse a primeira vez.  Precisavam disso, o que parecia o chefe, disse que da próxima vez, ele devia pagar como os outros.   Voltaremos em cinco dias.

Analisaram a cara dos homens.  Alguns vinham de reformatórios, é o que parecia o chefe, já tinha estado na prisão, por assalto a mão armada.

Cinco dias depois conseguiram prender o grupo.  Com isso conseguiram que os outros comerciantes aceitassem colocar câmeras de vídeo para poderem agir.

Um dia, Guido foi abordado na rua, levava dinheiro ao banco, para pagar uma letra, se negou a entregar o dinheiro, lhe deram um tiro na cabeça.   Ficou dias entre a vida e a morte.

Foi ao seu enterro, sentia sua perda, será que não tenho sorte com as relações.

Sua mãe sempre estava lhe cobrando que se casasse, todos seus irmãos o estavam.

Voltava de ter passado um final de semana livre em Sacramento, quando lhe chamaram para apresentar um novo para seu grupo. Era o Price, me disseram que tinhas morrido. 

Estava de infiltrado numa gang de tráfico de mulheres.

Saíram para comer, então choraste pela minha morte.

Honestamente não, lamentei, isso sim.  Sempre gostei de ti. Então esse sentimento ressentiu-se.

Tens alguém na tua vida?

No momento não, o rapaz com quem tinha alguma coisa, morreu assassinado, um assalto em plena luz do dia.

Que merda.  Posso ir viver contigo. Imagina que todo esse tempo, estive passando por outro.

Achas que isso pode interferir no nosso trabalho?

O apresentou ao grupo, contando que tinham sido companheiros de academia, inclusive tinham compartido quarto.  É um pesado, aviso, mas excelente companheiro, cuidem bem dele.

O bom que os dois nunca levavam o serviço para casa, nunca comentavam nada a respeito do trabalho que faziam. Estavam para fazer quatro anos convivendo, agora tinha certeza que amava o Prince,  este um dia comentou na cama, que o amava desde o dia que o tinha visto no ônibus, sentado na ultima fila.  Pensei que inteligente, sentou-se ao final para observar os que entram, o filho da puta já está trabalhando.  Me apaixonei no ato.

Estavam trabalhando num caso complicado, uma gang que sequestrava garotos, os viciava em drogas, os colocava para se prostituirem ao mesmo tempo vender drogas.  Um conseguiu escapar, este contou tudo.  Era uma testemunha protegida.

A operação foi um sucesso.  Justo no dia que tinham que transferir o garoto para o julgado, Price disse que tinha um problema para resolver.

Na hora que transferiam a testemunha por uma entrada lateral, começaram os disparos, Dog se jogou em cima do garoto para o proteger. Acabou levando uma bala no ombro esquerdo, uma na perna, outra que passou raspando na parte detrás de sua cabeça.  Dali foi direto ao hospital, já muito mal.   Depois das operações correspondente, ficou pelo menos uma semana em coma.

Quando despertou, ao lado da cama estava sua mãe, procurou Travis com o olhar, mas não estava ali.   Quando apareceu um dos seus amigos do grupo, perguntou por ele.  Pensei que sabias foi transferido.

Nem esperar para vê-lo, ficou extremamente magoado.   Dias depois quando já estava sentado na cama, sua mãe trouxe um envelope, ele percebeu imediatamente que ela tinha lido o conteúdo.   Era do Travis, era do mesmo dia, que o tinham baleado.  

Ontem cometi uma besteira, mas o problema resolvido, tenho que partir, porque senão a coisa vai ficar feia, aceitei um trabalho novo, outra camuflagem.  Deixei umas coisas você sabe donde.   Mas nunca se esqueça que te amo.

Eles tinham um lugar secreto no apartamento, aonde escondiam coisas.  Teria que esperar ir para casa para saber o que era.

O único comentário de sua mãe, foi que ele tinha que endireitar sua vida.

Não respondeu.  Que merda deve ter feito para aceitar outro trabalho que não queria.

Quando voltou para casa, seus pais queriam ficar, mas ele não suportava mais, ter que escutar o que sua mãe dizia, formar família, ter filhos.

Um dia explodiu, querida mãe, ainda não entendeste que sou gay, GAY, gritou bem alto, será possível que não possas me deixar em paz.   Jamais me casarei, nunca te darei netos.

Foi como falar com uma parede.  Pediu pelo amor de Deus ao seu pai, que a levasse para Sacramento, o velho entendia.  Colocou a mão no seu ombro, filho, te amo como eres, não se preocupe, temos netos chatos em demasia.

Quando começou a andar, tomou uma resolução, foi a uma Loja imensa, comprou, calças, pretas, camisetas, camisas, gravatas, botas de camurça negra, cuecas, tudo negro, a partir desse dia estava de luto permanente.   Entendeu que não podia amar ninguém, pois o perdia.

Quando se lembrou novamente do esconderijo, foi olhar.  Havia um envelope, cheio de fotos, dos dois em casa, nus, abraçados, se beijando, fazendo sexo.  No final de todo, dizia, olhe de onde fizeram as fotos, do apartamento de frente.  Quem as fez, foi o Robert, pensavam em nos chantagear, mas a coisa saiu mal.

Procurou pela internet, o que tinha acontecido no dia que tinha levado os tiros.  Falava do suicídio do filho de um querido Senador.  Ele é seu amante, tinham se atirado do edifício em frente ao seu.   Merda, com certeza foi ele que os atirou.

Evidentemente se as fotos chegassem as mãos dos diretores, estavam perdidos. Procurou pelos registros policiais o que tinha acontecido.  Estava como uma briga de amantes, um tinha jogado um, depois saltado, mas a autopsia dizia que o mais velho tinha marcas no pescoço, o outro um tiro.

Isso foi coisa do Price.

Voltou a trabalhar, ninguém sabia informar aonde ele estava. Agora todos comentavam porque andava sempre de negro.  Estou de luto permanente por esses garotos que não pudemos salvar. Apesar do testemunho do que tinha escapado, nunca encontraram os outros vivos, os iam encontrando espalhados pela cidade, mortos.

O chefe da gang, acabou assassinado na prisão num ajuste de contas.

Se passaram 10 anos, nunca teve notícias do Price.  Com o tempo, procurou se ocupar em outras coisas. Ocasionalmente tinha um encontro, mas nunca era o mesmo, descobriu que procurava pessoas que se parecessem fisicamente a ele.  Então deixou a coisa para trás.

Estava decidido a deixar o corpo, agora sua paixão era o mar.  Comprou um veleiro, o condicionou junto com um velho marinheiro que fazia esse tipo de serviço.  Isso lhe ocupava todo o tempo livre, depois quando ficou pronto, o velho o ensinou como a manejar, pois riu muito quando ficou pronto, que lhe tivesse dito, que não sabia nada de navegação.

Saiam os dois a pescar, levavam mantimentos, cervejas.  Isso fazia sua alegria.  Era um segredo de estado.  O velho lhe perguntou uma vez porque não tinha nenhuma companheira.  Já não estava mais para se esconder de nada.   Porque sou gay meu amigo.  Mas prefiro ficar sozinho, todas as pessoas que me apaixono, ou me abandonam ou morrem. Então fico sozinho.

Quando aparecia depois de um final de semana, queimado do sol, todos comentavam, como lhe ficava bem.  

Um dia estava esperando para uma reunião, quando escutou através de uma porta fechada, que discutiam os ascensos do pessoal.   Quando mencionaram seu nome.   É excelente no que faz aqui, mas é gay, isso podia ser um problema em qualquer outro lugar.  Apesar de discreto, com a morte do filho do Senador, este nos entregou uma série de fotos dele com o Agente Travis, que ninguém sabe aonde está.   Os de cima dizem que numa missão altamente secreta. Nada mais.

Então era por isso, Travis não tinha resolvido tudo.  Estava pagando o pato por uma coisa que todos sabiam.

Resolveu ir embora, quando lhe chamaram para a reunião, disse que se apanhassem sem ele, estava muito ocupado, e que esta seria o último trabalho que fazia para o FBI.

Tinha direito a uma aposentadoria precoce, com todos os direitos incluídos.

Estava muito distraído,  no meio de um tiroteio, viu que uma mulher saia do edifício com um carrinho de bebe.  Gritou, mas esta parecia não escutar, correu como um louco, se jogou, fazendo com que a mulher, o carrinho, entrassem pela porta outra vez.

Mas sua valentia custou caro,  Um Tiro destroçou seu ombro, outro passou raspando seu coração.  De novo para o hospital.  Tiveram que fazer uma operação de emergência, o médico comunicava a família, que tinha escapado por centímetros da bala.  Ninguém entendia por que não estava com o colete.   Na verdade, ele estava justamente mais atrás, vestindo o mesmo.

Novamente muito tempo em coma, desta vez despertou escutando duas pessoas falando baixinho, uma era sua mãe, o outro demorou para reconhecer a voz.

A senhora sabe que amo seu filho, não me julgue porque tive que ir embora, não me esqueci dele nem um dia nesses 10 anos.  Mas tive que mudar de aparência, inclusive me casar, para conseguir o que o FBI queria.  Mas quando soube do que tinha acontecido, vim correndo, a merda tudo isso. Operação sigilosa, eles que se apanhem.

Abriu os olhos, quase não o reconheceu, cabelos brancos misturados com os loiros, barba totalmente branca, mais magro, olhos fundos. Mas só de escutar sua voz, tinha vontade de gritar.

Abriu os olhos, viu que quem segurava sua mão era ele. Sua mãe só olhava.

Deixou que os médicos o examinassem, retirassem o tubos que lhe impediam de falar. Ai pediu para ficar sozinho com ele.

A primeira coisa que disse foi. FILHO DA PUTA, dez anos, agora apareces como se nada.  Desta vez estas fudido, não adiantou nada a merda que fizeste, eles tem as fotos na mesma, o pai do Travis tinha copias, entregou aos chefes.   Esse foi meu último trabalho, vou cuidar da minha vida.   Acredite ou não, não sei se tenho lugar para ti ao meu lado. Não me toques mais, até ter resolvido tudo.

Consegui trazer a mulher com quem me casei, forçado, terei que esperar para pedir divórcio, isso ela também quer. Recomeçar sua vida aqui.   Estive na Rússia todos esses anos, passando por um agente duplo.  Mas não posso mais, quero estar contigo. Vou resolver, volto.

Apesar da operação ele jamais poderia voltar outra vez a atirar, os movimentos do seu braço direito eram lentos, seria uma recuperação, lentíssima, teria que ficar num posto de chefia, mas sem nada que fazer.   Papeis, mais papeis.

No dia que esteve bem, foi para o FBI, estava sentando em sua sala com o papel em branco na sua frente.  Já tinha colocado suas poucas coisas numa caixa. Quando escutou uma confusão, foi ver o que era.   Na universidade tinha estourado uma protesta, se falava em bomba, seguido por agentes, foram para lá.  Quando chegou, a confusão era muita, não conseguia entender o que gritavam.    As consignas era Coração, é uma bomba.  Porra claro que o coração era uma máquina que bombeava o sangue.

Um bombeiro veio lhe dizer que o que tinha levantado essa confusão estava numa ambulância.

Tem um problema de coração, mas já está estabilizado.

Quando chegou, viu basicamente um garoto de não mais de 16 anos, que ria e chorava ao mesmo tempo.  Repetia sem parar eu consegui, eu consegui.

Sentou-se ao seu lado, segurou a sua mão.   Este olhou para ele surpreso.  Tu, então é verdade?

O que é verdade?

Sonho contigo a tempos, mas pensava que eram sonhos. Pois nunca tinha te visto.

Meu sonho se realizou.

Achou que ele devia estar drogado, negro, jovem, só podia estar drogado.  Perguntou ao enfermeiro, este disse que não.

Pode me contar o que aconteceu.

Não, quero contar com meu irmão na frente, nunca acredita em mim.

Podes andar?

Claro que posso andar, imagina, não estou inútil ainda.

O levou até seu carro, avisou os agentes, que o levava para a central.   Podia tê-lo levado para uma sala de interrogatórios, mas o levou para sua sala.

Agora me conte o que se passou?

Ele ria, deu um número de celular, meu irmão se chama Andrew, pode lhe chamar por favor.

Assim o fez.  Em que ele se meteu desta vez, ele é menor de idade, está na universidade, mas é menor de idade.   Aonde está, estou indo.

Avisou a portaria, que um tal de Andrew chegaria.

Como é o teu nome? 

Como o teu, me chamo Douglas. As lagrimas rolavam pela cara dele.

Foi buscar um pouco d’água, com um tranquilizante.

Só quero a água.   Isso me faria dormir, pois já tomei minha medicinas hoje.

Quando chegou o irmão, num terno mal cortado, mas com gravata. Entrou recriminando o outro. Já temos uma situação difícil, ainda aprontas problemas.  Que mais queres.

Te falei dos meus sonhos, tu não acreditastes, é ele, temos o mesmo nome.

Ele não entendia nada.

O outro que devia ter seus 22 anos, olhou para Dog, assustado. O senhor é Dog, meu pai falava muito no senhor.  Trabalhou contigo no início do senhor aqui.  Depois foi designado para Los Angeles, ele é minha mãe morreram num acidente de carro mal explicado.   Mas sempre nos falava no senhor Dog.   Se alguma coisa me acontecer, procurem o Dog, é a única pessoa honesta que conheço.   Viemos aqui várias vezes, mas não sabíamos seu sobrenome.

Tirou uma foto da carteira.  Se lembrou imediatamente.  Era um negro que fazia tarefas que ninguém queria.  Quando ele chegou, numa reunião aonde todos davam sua opinião, perguntou a ele.  Os outros o olharam estranho.  Mas ignorou, foi a resposta mais inteligente de todos. O colocou como seu assistente.  Se davam bem.  Talvez fosse o único que soubesse que era gay, mas nunca comentava nada.  Quando foi promovido, para Los Angeles, fez questão de vir um dia almoçar com ele.  Sem ti, estaria ainda na merda.  Meu filho pequeno tem o mesmo nome teu. Para que eu nunca me esqueça do que fizeste por mim.

Claro que me lembro dele.  Era um grande agente.  O que passou.

Como não ficou explicado o que tinha acontecido, nunca pagaram sua pensão, tivemos que vir viver com a irmã de minha mãe, que tem quatro filhos, eu cuido desse sem vergonha, só porque tem um Coeficiente de inteligência além do normal.  Sempre faz alguma das suas.

Quer contar o que aconteceu?

Bom estávamos numa aula de filosofia.  A pergunta era, o coração pode sentir amor, ou na realidade o sentimento está em algum lugar do cérebro.

Eu respondi, que o coração era somente uma bomba.  Podia ser uma bomba de emoções, de sangue, sem me dar conta, comecei a gritar, Coração é uma bomba.  Todos da classe me seguiram, fomos pelos corredores gritando isso, foi emocionante, o grupo cada vez aumentava mais, até que chegamos nos jardins, as pessoas corriam para se juntar. Mas creio que entenderam que tínhamos colocado uma bomba na universidade.  Como todos tem medo agora de tudo. Creio que por isso, apareceu a polícia.

Então porque estavas na ambulância.

Porque tem um problema de coração, mas não temos dinheiro para operar nem nada disso.

Nossos tios tampouco podem ajudar.  Então cada vez que passa mal, temos que ir para urgências, que tampouco resolve nada.   Ou se opera, ou daqui alguns anos terá que entrar na fila de transplantes.

Que história é essa que sonhaste comigo?

Bom li a respeito de ti, dos tiros que levaste.  Comecei a rezar por ti, durante uns dias, apareceste em meus sonhos, mas meu irmão não acreditou que estava sonhando contigo, me dizias, vamos resolver tudo.

De repente lhe deu uma fome desgraçada, venha, vamos almoçar, assim continuamos conversando.  Saiu da sala no meio dos dois, todo mundo ficou olhando.

Ele estava cagando para todos, sabem de quem são filhos, adivinhem.

Desceram, foram a um restaurante que ele gostava de ir.  Andrew disse logo, não temos dinheiro para comer nesse lugar.

Vocês são meus convidados.   O maitre o conhecia bem, os levou para um reservado para eu pudessem conversar.  Perguntou sem ver a carta, o que eles gostavam de comer. Quando responderam carne, pediu uma das melhores carnes da casa.  Beber, pediu água para todos. Meu pai dizia que a primeira vez que tomaste cerveja foi com ele. É verdade?   Sim.

Me contém aonde moram, como é a vida de vocês.  Diga-me tu BlackDog, a partir de hoje esse é teu nome. 

Este ria satisfeito.  Bom vivemos na velha garagem que ajudamos meu tio arrumar, pois ele tampouco tem carro mesmo.  Eles tem 4 filhos, a casa é pequena.   Minha tia vem a anos tentando que o FBI nos pague a pensão que deveríamos ter direito.

Os dois, nos esforçamos muito estudando, ele fala do meu QI, mas o dele é igual, conseguiu entrar na faculdade pelas notas que tinha.   Mas escolheu a profissão errada, devia ir fazer belas artes, mas meus tios diziam que tinha que ser advogado, pois era uma profissão honrável.  Para pagar o ingresso na universidade, tivemos que comer mal meses.  Tiveram que fazer um empréstimo.   Minha tia limpa a casa dos outros, meu tio trabalha em obras, podes imaginar como é.

Eu também entrei, faço história,  me apontei algumas aulas de filosofia, para apreender a historia dos filósofos.  A aula é tão chata, que se pode escutar o barulho das moscas batendo asas.

Andrew cortou, essa tua imaginação te leva longe.

Pois eu gosto Andrew, seu pai tinha uma imaginação incrível, conseguia ver o que eu as vezes falava, os outros não entendiam a hipótese, era ele que explicava a ideia.

Não sabia bem por que, mas em sua cabeça se começou a formar uma ideia.  Posso mexer uns pauzinhos.    Querem viver comigo, não sou casado, sou gay, vivo sozinho.  Só tenho uma grande paixão o mar.

Acabaram de comer em silencio.

O que os assusta, morar comigo, ou que sou gay? 

Já sabíamos que eras gay, meu pai nos contou, uma vez lhe dissemos que estavam fazendo bullying na escola com um garoto, porque era gay, nos disse que a pessoa mais honrada que conhecia, eras tu, além de ser gay, eras de confiança.

Venham ver meu apartamento, depois podem se decidir, se querem posso falar com a tia de vocês. Ok

Quando chegaram ao seu carro, um Ranger Rover, negro, em bom estado.   Disse ao Andrew, sabes dirigir, porque para mim está difícil, com esse ombro. Abriu a camisa, mostrou as cicatrizes.

Mas tira esse casaco horrível, essa gravata de limpar o cu dos teus chefes.

Não gostas do que fazes Andrew?

Quem respondeu foi BlackDog, ele odeia, mas  tem que se aguentar. É dinheiro.  Nunca o deixarão subir, como fizeram com nosso pai. É advogado, acabou com louvor, mas não passa de um office boy.   Está lá só para cobrir essa lei que tem dar direitos a todos.

Mostrou como guiar o carro, lhe disse aonde vivia.  Coloque o carro na garagem, apertou um botão, a garagem se abriu.   Subiram desde ali, até o último andar.  Realmente o apartamento era bom.  Nunca mudei os moveis, são velhos,  venham vou mostrar o quarto que poderia ser de vocês, era um quarto grande.   Na época seria o quarto do Price, para todos efeitos, na verdade era um quarto com duas camas, uma mesa de trabalho,  no seu uma de casal imensa, apesar de só usar eternamente a metade.  Esse é meu quarto, tinham dois banheiros no corredor, a cozinha era americana junto com o salão.  Depois uma varanda que se fechava no inverno e estava aberta no verão.

No salão viram uma foto, ele abraçado com o Price.   Quem é este?

O amor da minha vida, levou dez anos desaparecido, agora apareceu quando levei os tiros, para dizer que não pode viver sem mim.   Lhe disse que resolvesse seus problemas, porque vou deixar o FBI.   Tenho dinheiro para viver o resto de meus dias, posso me aposentar, por causas dos ferimentos.

Estava justo escrevendo minha carta de demissão, quando soube do BlackDog. Ficou rindo, mas de qualquer maneira, volto para terminar.

O que acham?

Um olhou para o outro sorrindo.   Mas terás que enfrentar a fera.

Que fera?

Nossa tia. É osso duro de roer.

Desceram, com os dois sorrindo. Jogou a chaves para o Andrew, levas tu.

Um dia me deixaras guiar?  

Claro que sim.

Oba,  viviam numa das cidades que circundavam San Francisco.

Como fazer para ir trabalhar Andrew?

Bom meu tio me deixa na estação de ônibus, que me trás até o centro,  ele tem mais complicado, pois quando chega ao centro tem que tomar outro para a universidade.

Quando estavam chegando na casa dos tios, BlackDog, pediu, podes realizar um sonho meu?

Que?

Liga a sirena, com a luz rodando, quero ver a cara de todo mundo.

Andrew não queria,  Colocou a luzes para fora, ligou a sirena, ele parou o carro na entrada da casa. Na porta estavam garotos que deviam ter entre 10 a 14 anos. Uma escadinha. Todos com a boca aberta, de ver o primo conduzindo um carro da polícia.

A tia, saiu rindo, sabia que isso era coisa do Dog.

Ele se apresentou, Douglas, fui amigo de seu cunhado, os meninos me acharam hoje. Segundo eles, este pediu que me procurassem.  Mas só agora me acharam.

Sim, temos uma carta guardada a muito tempo.  Mas está escrito só Dog.

Sim fomos companheiros no FBI.  Podemos falar dentro, primeiro porque os vizinhos estavam todos olhando.

A primeira coisa que a tia disse foi, Andrew, disseste ao Douglas, que não tens autorização para conduzir?

Não, ele não perguntou?

Não tínhamos dinheiro para isso. Nos desculpe, mas a vida tá difícil.

Nisso chegou o marido assustado, me disseram que a polícia trazia os meninos em casa.

Esta o apresentou.   O pai dos garotos me falava muito no senhor.  Que o tinha ajudado quando não passava de um mequetrefe.

Pois era uma pessoa especial, foi meu braço direito por muito tempo.

A tia lhe entregou a carta.

Ele abriu, não era um texto imenso.  Dizia apenas entregar ao Dog em caso de necessidade, sei que ele cuidará dos meninos.

Bom aqui tem o que vim pedir.  Será que os garotos podem ir viver comigo?

Seu cunhado sabia que sou uma pessoa franca.  Vivo sozinho, sou gay,  minha família toda esta em Sacramento,  meu apartamento é grande, eles já viram, tem lugar para eles, posso cuidar deles, pois vou pedir a aposentadoria, devido aos meus últimos ferimentos. 

Teve que contar, mostrar as cicatrizes, que os garotos quiseram passar a mão.

Talvez, apesar do Andrew ser maior, eu possa adota-los, conheço um juiz que com certeza a daria, isso se vocês concordarem?

Os dois um olhava para o outro, O senhor vê temos 4 filhos, eu trabalho, meu marido também a vida não é fácil.  Agora o Andrew trabalha, mas lhe pagam mal, mas dá para a manutenção dos dois.

Se o senhor quer assumir isso, creio que estaria bem, além de ser a vontade do meu cunhado.

Ótimo, olhou para fora, viu que anoitecia.  Para comemorar isso, vamos fazer o seguinte, vamos jantar fora.  Eu convido todo mundo. 

Os meninos pulavam de alegria.  Ele se virou ao tio, lhe perguntou se gostava do mar?

Sim eu servi na marinha.

Eu tenho um veleiro, um dia desses podíamos levar esses garotos para navegar.

Virou-se para eles, perguntou aonde queriam comer. Um olhava para o outro. Quem deu a solução foi BlackDog.   Eles adorariam ir a um Mcdonalds que tem na entrada daqui. Nunca puderam ir.  Então vamos, temos que caber todo mundo no carro, embora a polícia possa nos parar.

Correram a trocar de roupa, a senhora sorria.

Estamos falando, falando, mas não sei o nome de vocês. 

Eu me chamo Roberta, mas dizem Beta, ele Alfredo, ou Fredo, sua mãe adorava operas cantadas por um tal de Alfredo. Daí o nome. 

A mim podem me chamar de Dog. Como todo mundo me chama, apontou o sobrinho, ele hoje passou a ser BlackDog, para não confundir.

Sentaram-se os três na frente com a família atrás. Fredo comentou, devem estar imaginando que estamos indo presos.  A gargalhada foi geral.

Ele disse para os meninos cada um peça o que queiram ok.  foi até o balcão, disse isso a uma moça, mostrando sua placa. Deixa que vou a mesa anotar, assim fica mais fácil.

Uau, conseguiste que nos atendesse na mesa.  Tia a senhora não imagina o restaurante que fomos comer com ele hoje, o troço de carne era maior que quando a senhora consegue comprar carne para todos.

Os garotos, sorriam no final cada um tomando sorvetes.

Obrigado pelo convite, não estamos acostumados.

Eu cozinho bem, aprendi com minha mãe, agora quando saio de barco, vou sempre com um velho marinheiro, que me ajudou a recuperar o mesmo, levamos mais de cinco anos, para conseguir, coloca-lo no mar outra vez.

Quando tivermos tudo resolvido, vamos passar um final de semana no mar.

Beta foi a única que disse que não. Tenho medo.  Levas tu os garotos Fredo, assim tenho um descanso.

Como queiram.  Ah, amanhã mesmo vamos tratar do BlackDog, tem um médico que me operou recentemente que me deve favores, salvei seu filho num sequestro, chegou a hora de cobrar, vamos tentar resolver o problema dele.  Quanto ao Juiz, tem um que me deve favores também, creio que resolverá pronto os papeis.

Quando chegaram, disse a cada um que arrumasse, uma mochila para irem para casa. 

Andrew, perguntou se podia levar seu material de desenho?

Sim quero ver tudo que tens.

A bagagem deles era uma nada. Segundo BlackDog, os livros ele usava os da biblioteca.

Se despediram dos tios e dos garotos, agradecendo muito o que fizeram por eles.

Sentiam-se triste, eles fizeram o que puderam por nós.  Isso não poderemos esquecer. Podiam ter-nos deixado na rua.

Já devolveremos isso em dobro.

Quando chegaram em casa, lhes mostrou aonde tinha toalhas de banho, sabonete, roupa de cama, quero as camas arrumadas todos os dias, nada de roupa no chão do banheiro, depois explico como lavar a roupa e secar.

Agora vão preparar a cama de vocês, enquanto falo com meus pais. Ok.

Chamou o celular de seu pai, sabia que ele estava acordado a estas horas, vendo algum filme que gostasse.

Olha meu velho, tudo bem?

Sim, como estas.?

Amanhã dou entrada na minha aposentadoria, com ficou meu ombro, não poderei atirar mais, terão que me compensar por isso.   Mas não chamei por isso, primeiro queria contar para ti, pois sei como é minha mãe.

O Price voltou?

Não, o senhor é avô por doze dupla, são filhos de um grande companheiro que eu tive, que ficaram sozinhos, vou adota-los.   Antes de mais nada, sei que o senhor não tem preconceitos, não sei minha mãe.   Eles são negros. Duas pessoas maravilhosas.

Não vejo problema nenhum.  Escutou que ele chamava sua mãe, venha saber das novidades, conta de novo. 

Só lhe disse, eres avó em dose dupla, vou adotar os filhos de um velho amigo.

Não perguntou nada, somente como se chamavam?

Um tem o meu nome Douglas, foi colocado em minha homenagem, o mais velho se chama Andrew.  Como se os tivesse chamado, eles entraram no salão,  vou colocar em viva voz, assim fala com eles.

Meninos apresento teus avôs.  Eles primeiro, disseram boa noite, como estão.

Caramba, que educados, os daqui, entram, vão direto a geladeira, reclamam se não tem os doces de gosta,  nem um beijo, ou abraço.

Amanhã vou tentar marcar uma consulta para o BlackDog, porque tem um problema de coração, precisa ser operado.

Porque o chamas de BlackDog?

Avó, sou negro, fica mais fácil do que WhiteDog, não achas?

O velho deve ter falado alguma coisa, pois ela riu.  Queres que vá para aí. Acomodar os meninos.

Já nos apossamos da casa.

Me falem de vocês, dos doces que gostam, me falem de vocês.   A conversa foi longa, amanhã falamos de como foram os exames. Ok.

Não liguem, ela é assim, mas um doce de pessoa, meu pai era o xerife la da cidade que vivem.

Agora vamos conversar.  Amanhã de manhã, Andrew vais ao teu emprego, peças demissão, é o melhor, nunca feches nenhuma porta diz sempre meu velho.

Eu irei pedir a minha também.  Depois iremos falar com o Juiz, se consigo uma hora com eles, enquanto ao mesmo tempo falo com o médico. Ok.  Tu me mostra agora teus desenhos antes de dormir.

Tinham dois belos retratos de seus pais.  Esses emolduramos para colocar no quarto de vocês. O que parece. Depois de ver tudo, só pode dizer tens talento, meu filho.

Saiu espontaneamente, depois te matriculas na escola de Belas Artes. Ou no que queira fazer.

Na verdade, eu gostaria de apreender a trabalhar com computadores, para fazer isso, mas claro nunca tivemos dinheiro sobrando para isso. 

Ufa, tenho um conhecido, que faz trabalhos para nós, acho que ele poderá te ajudar.

Agora vamos dormir. Encontraram tudo que queriam.   Nada de andar nus pela casa, pois podem se esquecer, o dia que os velhos estiverem aqui ficaram horrorizados.  Temos que comprar roupão para vocês.

Quando viu a roupa pendurada no armário, ficou com pena, ele mesmo só usando roupa negra tinha muita.

Já tinha cada um escolhido sua cama. Faltou pouco para que os fosse arrumar na cama, dar um beijo de boa noite.  Mas isso era querer adiantar as coisas.  Que tal os colchões. 

Não se preocupe, nos dormíamos num velho colchão da minha tia no chão mesmo, isso é como estar num hotel cinco estrelas.

Qualquer coisa, falem comigo.

Foi para a cama, gostaria de ter o celular do Price, para contar a novidade.  Mas não tinha, alias ele não tinha ninguém para contar a emoção dele.

Talvez por isso seu celular tocou. Era seu pai de novo.  Sabia que se ele chamasse a esta hora, era porque sua mãe já estava na cama.

Está feliz da vida meu filho.  Contente porque te aposentas do FBI, diz que não tem idade para mais sustos, dos novos netos, disse que lhe importa um caralho se são negros ou cor de rosas, são seus netos. Foi dormir com um sorriso nos lábios.

Tu como estas, contente?

Sim pai, muito contente? Boa noite para o senhor.   Ah esse final de semana vou sair ao mar com os meninos, seus primos e seu tio, queres vir? Essa canoa vai virar com tanta gente. Já te digo algo.

Sabia que podia sempre contar com ele. Nunca tinha escutado o menor comentário dele, com respeito a ser gay, dizia apenas é a tua vida.

No dia seguinte levantou-se preparou café para eles, não sabia o que acostumavam comer.

Os dois se apresentaram de roupa limpa, com um sorriso na cara.

BlackDog como sempre engraçado, eu quase cai da cama, esqueci que não estou no chão.

O que gostam de comer de manhã.   Normalmente comemos um pedaço de pão, café com leite.

Mais tarde vamos ao supermercado, compramos.  Agora a arrumar nossas vidas.

Viu que o celular do Andrew era velho.   Se lembrou de um que tinham lhe dado de presente, os seus agentes.  Lhe entregou dizendo, tens que colocar para carregar.

Puxa, fantástico, esse que tenho era do meu tio.

O deixaram no escritório, quando acabares me chamas, para marcarmos o que vamos fazer primeiro.

Subiram, um chefe veio falar com ele, como se atrevia sair com uma pessoa que estava para ser interrogada.

O senhor está falando do meu filho, favor um pouco de respeito, entre por favor, entraram na sala, disse ao BlackDog, conta para ele o que aconteceu.  Sentou-se se colocou a escrever de punho e letra seu pedido de aposentadoria.  Alegava que os tiros que tinha levado durante o tempo de serviço o impossibilitavam de seguir prestando serviço ao FBI.  Agradecia, que aceitassem seu pedido de aposentadoria.  Mas que por vários motivos, inclusive por não ter se recuperado bem dos tiros, se retirava do serviço.   Aguardava ser chamado para tratarem do assunto.

Ah, agora entendo, tudo não passou de um mal entendido.

Sim senhor, que faz o coração, bombeia o sangue não é verdade.  Sem ele não existimos.

O homem foi levantar, lhe fez sinal que ficasse sentado.  Lhe estendeu o papel. Leu inteiro sem levantar a cabeça.

Eu imaginei que isso ia acontecer.  Sempre foste muito logico nos teus trabalhos.  Sem poder usar uma arma, fica difícil te defenderes.

Vou encaminhar, é endossar, que te aposentem com louvores.

Saíram, ele com a velha caixa embaixo do braço, o chefe, pediu que todos dessem um minuto de atenção, disse que o Dog se aposentava, pelos motivos que todos podiam imaginar, desde o último trabalho.  Aproveito para apresentar seu filho  Douglas.

Vocês sabem de quem o Douglas é filho, disse o nome do pai dele.  Todos aplaudiram, agora será meu filho.  Qualquer consulta, podem me chamar, mas vou cobrar hem.

Muitos vieram apertar sua mão, abraça-lo. Dizer algumas palavras.  Vais como sempre não é, sem pagar uma cerveja.

Ele aproveitou falou primeiro com o Juiz, se podia recebe-lo.   Para ti sempre tenho tempo Dog.

Dentro de pouco estarei aí.   Sim melhor agora de manhã, porque de tarde tenho um julgamento.

Depois ligou para o médico, disse o mesmo, precisava de um favor dele. 

O que querias Dog, pode ser essa tarde depois do almoço? Se chegas cedo lá pelas duas, podemos comer no café do hospital.

Eu aviso, ok.

Os dois são excelente pessoas.

Justo chamou o Andrew, queriam que eu ficasse, o chefe disse que para aguentar os advogados só eu mesmo.   Mas disse que ia cuidar da minha vida.   Se eu precisasse de referências desse seu nome.

Vamos daqui para o tribunal, te esperamos na porta ok.

Quando se encontraram, BlackDog, foi contando o que tinha acontecido.

Caramba BlackDog, estas sempre metido em confusão.   Nada o tio era boa praça, principalmente por WhiteDog, disse que era seu filho.   Ficaram rindo.

Esperaram nem 15 minutos, a secretária uma negra muito bonita, lhes fez passar.   Eles ficaram surpresos, o Juiz era de um negro azulado.

Quem são esses meninos?

Vão ser meus filhos se você me ajuda.  Contou toda a historia do pai dele, seu velho companheiro de lutas.  Imagina, que esses meninos me procuraram como seu pai tinha dito, como sempre viram dois negrinhos, os mandaram passear.

Já falei com seus tios, estes concordaram.  Andrew, passa o número do celular do teu tio para o Juiz. 

Este perguntou como se chamava,  Andrew, Douglas, este corrigiu, BlackDog para os íntimos.

Que sentido de humor tem seu garoto.  O Dog, é muito conhecido pela sua falta de humor, mas vejo que vai melhorar em boa companhia.

Fredo respondeu imediatamente.  Disse que sim, que ele e sua mulher tinham concordado, explicou que tinha mais 4 filhos para criar.  Não os podíamos deixar na rua não é.

Muito bem, vou mandar preparar os papeis, aviso quando seja preciso que venham assinar.

Saíram contentes.  Eu sempre disse aos meus colegas, que se devia manter sempre a cordialidade com os juízes, fiscais, qualquer pessoa daqui.  Nunca se sabe quando se vai precisar deles.

Bom agora vamos almoçar com meu amigo médico.   Ele me conhece melhor que muita gente, convivemos muitos dias angustiosos, quando sequestraram o filho dele por dinheiro.

Não toquem no assunto, pois não sei como anda o filho, um garoto muito complicado.

Chegaram justamente quando o médico entrava por uma porta.  Pegaram bandejas, se serviram o que quiseram.   Dog, como sempre pegou pouca comida.

O médico observou, contínuas com falta de apetite? 

Mais ou menos, normalmente como mais tarde.

Em que posso te ajudar?

Bem meu garoto, não te apresentei, são meus filhos Andrew e Douglas.   Douglas tem um problema de coração, queria saber tua opinião, se pode ser operado ou outra solução.

Explicou que não tinha nada para apresentar, terá que começar tudo da estaca zero.

Então venham comigo.  Era um hospital para gente rica, chegava a ser meio luxuoso. Acho que por isso sou obrigado a vir muito por aqui, verdade Doutor.

Agora essa, o sujeito virou piadista, antes tinha um humor de cachorro velho.  Esse garotos estão te abrandando.

Chamou a enfermeira que reconheceu Dog, o beijou, uma negra alta, magra, muito bonita.

Lhe disse quais exames ele devia fazer com o BlackDog,  analíticas, scanners, chapas, tudo enfim. Como se fosse um pré- operatório.

BlackDog, acompanhe a senhorita, não chore muito quando vires as seringas.

Dog, estou impressionado com teu novo senso de humor.  Serás um paizão.  Disse ao Andrew para ir buscar agua e café pois teriam que esperar.  Aproveitou, contou tudo ao doutor.

Acho bem, quer dizer que te aposentas?   Já queria eu ter mais tempo para os meus.   Meu filho continua complicado.  Ontem se meteu numa manifestação, que eu não entendi muito bem.

Coração é uma bomba?

Como sabes disso, contou que tinha sido coisa do BlackDog, contou a ideia do garoto.

Realmente, eu ia justamente brigar com meu filho, quando ele comentou como tinha surgido.

Riram, Andrew tinha café para os dois.  O médico agradeceu. Meus putos filhos nunca fazem essas coisas, nem que peças, são capazes de te mandarem para a cozinha fazer para eles.

Foram se sentar no corredor, esperando os resultados.

O médico os chamou, como sabem o que ele tem, não vejo por que, não explicar na frente deles.  A operação é simples, apesar de ser de peito aberto.  Foi mostrando o que faria, trocaremos a válvula defeituosa, por uma em 3D, muito moderna.  Não poderás fazer esforços físicos durante um tempo, nem preparar revoltas.

Como o senhor sabe?

Meu filho participou, ia levar uma bronca hoje por causa disso, mas vou perdoar.

Dog, se queres, ele fica aqui hoje, fazemos todos os pré operatórios, amanhã mesmo de manhã o operamos. Que os parece?

Eles não tem opinião, sem dúvida nenhuma doutor, estou de saco cheio que esse puto coração viva falhando.

Queria que meus pacientes fossem todos como tu.

Doutor, corre tudo por minha conta.

Nem pensar Dog, ele terá o melhor de tudo, afinal estou em dívida contigo a tempo.  Vou mandar minha enfermeira marcar a operação, vamos ver um quarto, para ele. Melhor estar sozinho, pois assim vocês podem ficar juntos.

Os meninos se abraçavam.  Agora temos que chamar tua avó para contar,  Amanha sem falta ela arrastara seu avô prá cá.

Chamou, ela atendeu na primeira.  Então como foi?

Espera que teu neto te explica tudo.

Ele começou perguntando se ela tinha dormido bem.

Claro que sim, durmo como uma pedra, mas me conta, estou esperando desde manhã.  Ele contou tudo ao detalhe.  Que agora ia acabar os exames, depois ficaria internado, que amanhã lhe operavam.

Queria saber a que horas. Bom de qualquer maneira, quando saíres da operação, já estaremos no hospital. Agora toca convencer esse velho cabeça dura para ir.

Falou com seu filho, estaremos logo cedo, nesse momento sempre é bom a família junto.

Mas não faças muitas perguntas como sempre aos meninos.

Eu nunca faço perguntas, disse rindo.

Viu, não escapamos.  O Velho cabeça dura, nem terá margem para dizer nada, lhe dirá assim, a maleta já está feita, vamos para San Francisco, nosso neto vai ser operado.   Pergunta para ele amanhã se não foi assim.   É o jeito dela.

Logo foram para o quarto, era um verdadeiro apartamento.  Caramba, maior que a casa da tia.

Falar nisso Andrew, liga para ela avisando, ok.  diga aonde estamos, o que já aconteceu hoje.

Gostava de ver o Andrew falando, era sério, educado.  Como o pai dele.  Vai ser ótimo ser pai desses garotos. 

Depois passou o celular para ele, ela tornou a fazer perguntas, como ia pagar essas coisas.

Nem se preocupe, esse médico me devia um favor, resgatei o filho de um sequestro, disse que não vai cobrar nada.  Como amanhã, a operação é logo cedo, acredito, que ele estará no quarto depois do almoço. Se queres mando o Andrew de carro para te buscar.

Esse menino não tem carta de conduzir.

Tinha se esquecido completamente, mais uma coisa para resolver.   Mas já sabia como, nada como ter amigos em todos os lugares.   Eram pessoas a quem ele tinha ajudado de uma maneira ou outra.

Pela tua cara, estas tramando algo, BlackDog, já sabia quando ele pensava alguma coisa. Os dois herdaram coisas do teu pai, ele ficaria orgulhoso.  Bastava ele me olhar, não dizia nada, sabia como tinha que fazer, o que fazer,  botar ordem no pedaço.

BlackDog, só não gostou, era que teria só uma sopa rala para comer.

Ele desceu com Andrew para comer.  BlackDog não gostou, mas aceitou.

Quando viemos para cá, era difícil fazer com que ele desgrudasse de mim.  Como irmão mais velho, parecia que eu tinha virado uma  tábua de salvação.  Era na verdade a única pessoa que ele tinha.   Até localizarem minha tia. A coisa foi feia.

Gostei demais de teus desenhos.  Vou falar com esse meu amigo, mas não deixe de usar tuas mãos para fazer desenhos.   Deverias entrar também para aulas de pintura.

Tinham acabado de entrar no quarto, quando se abriu a porta, eram os velhos.

Mamãe, não disse que a operação é só amanhã.

Mas eu tinha que vê-lo antes de entrar para cirurgia. Pegou a cara do Douglas, lhe deu dois beijos estalados como ela fazia.  Vai tudo correr bem meu coração.  O velho abraçava ao Andrew, seja bem-vindo a família meu neto.  Depois que Douglas ficou livres, ele o abraçou também.   Mais tarde disse, Vocês dormem na minha cama, os meninos se apossaram do quarto que vocês ficam.  Andrew, vá com teus avós para casa, lhe deu dinheiro, passe num supermercado antes, para comprar pão, ou melhor deixe tua avó comprar, veras teu café da manhã, se sobreviveres ao exagero, me contas.

Papai levas o carro, o Andrew conduz muito bem, mas não tem carteira ainda. Temos que resolver isso.

Basta ir a casa, resolvemos rapidamente.

Quando ficaram os dois sozinhos.  BlackDog comentou, ela parece um furacão. Sim, sempre é assim, imagina quando estávamos em casa todos, a bagunça que era, meu pai falava, não estávamos nem aí, mas bastava ela dizer chega.  Todo mundo ficava quieto.

Até ele a obedece, sem pestanejar.

Gostei dos dois, mas ele me olhou com uns olhos amorosos, como pode ser xerife. 

Creio que foi o xerife mais simpático que a cidade teve.

Ficaram conversando os dois, até que ele viu que  BlackDog, fechava os olhos para dormir. Ficou ali olhando, por ser quem era já amava seus filhos.

Como estava acostumado com o ruído do hospital, dormiu, sonhou com seu amigo, que agradecia, o via como tinha sido da última vez que o tinha visto.

Despertou com a enfermeira entrando de manhã, lhe trazendo café, ela sabia como ele gostava, nada da água suja que serviam.

Logo entraram os enfermeiros, tens direito a uma última mijada, antes de cortamos fora isso ai que tem pendurado, disse um brincando.

Vou só operar o coração.

Não é o que pões aqui, aqui diz, mudança de sexo.

Entendeu que era brincadeira deles, vou me vingar, vocês vão ver.

Foi ao banheiro mijar. 

A enfermeira disse, seu filho é uma criança interessante.

Ficou orgulhoso. Aonde espero, aqui, ou na sala de espera.

Como já sei que sua mãe esta aqui, melhor na sala de espera.  Ela vai deixar as enfermeiras nervosas como sempre.  Me lembro dela, com os olhos fixos no conta gotas, nas máquinas, vigiando tudo, chamando sem parar as enfermeiras.

Tens razão, mas posso ir com meu filho até a porta da sala de operações.   

Normalmente não pode, mas como es conhecido desses corredores, vou deixar.

Acompanhou BlackDog, até a entrada da sala de cirurgia, se curvou deu-lhe um beijo, não se preocupe, daqui a pouco nos vemos.

Foi para a sala de espera, ao longo dos anos, tinha recuperado rezar, embora fosse mais uma conversa que tinha com os espíritos.   Não queria que os meninos fossem arrebatados dele. Já sentia um profundo afeto pelos dois.  Sentiu uma mão no seu ombro, a princípio pensou que fosse seu pai.  Acabou sua reza, abriu os olhos, levantou a cabeça.   Mas quem estava ali era Price.

Eu disse que voltava, fiz o mesmo que tu, pedi as contas, a merda essa vida, estou farto. Ontem a noite levei um surto tremendo, dei outro nas pessoas que estavam em tua casa.  Não mudaste a fechadura todos esses anos, por quê?

Talvez esperasse que voltasses.

Já sei de tudo, tua mãe me contou, conheci o Andrew. Gostei dele, falou de ti, de seu pai, do irmão que devem estar operando, era por isso que rezavas?

Sim, não os quero perder, agora por pouco tempo que sejam, são partes importantes da minha vida.

Sabe que é por isso que te quero.

Ontem ainda tentaram fazer chantagem comigo com as fotos, pensei caralho, todo mundo tem essas fotos, que mas dá.         Soube que tinhas pedido aposentadoria, sinal que não te importava nada mais.   Pensei, se a ele nada disso importa, vou fazer igual, já estou ficando velho, longe da única pessoa que sempre me importou, deixei que esses filhos da puta manejassem minha vida. Quase morri nessa última operação.  Se não fosse por essa garota com quem me casei, como maneira de me esconder, não sei o que seria de mim.  Creio mesmo que tentaram desfazer-se de mim.   Mas todos os documentos estão muito bem guardados. Isso eles não vão conseguir.

Por culpa disso tudo, me tornei um neurótico. Terei que fazer uma terapia para me livrar disso tudo.

Nesse momento, os dois estavam de mãos dadas, chegaram Beta e Fredo, os apresentou como tio dos garotos.    O acompanhei até a porta da sala de cirurgia.   É um garoto valente, vai sair tudo bem.  Este é Price, foi meu companheiro a muitos anos, veio me dar seu apoio.

Nisso, chegaram sua mãe, seu pai, Andrew, este estava ansioso, recontou que o tinha levado até a porta da sala de operações.   Agora é rezar, esperar, que é a parte mais difícil.

Ele dormiu bem a noite, perguntou Andrew.

Sim estivemos conversando, depois lhe deram um tranquilizante, apagamos os dois.  Eu porque já conheço o ruído do hospital.  Ainda brincou com os enfermeiros hoje de manhã.

Sua mãe, sentou-se ao lado de Beta, passou o braço pelo seu ombro, começaram a conversar baixinho.  Essa era a mãe que ele amava. Que sabia consolar as pessoas.

Andrew que estava mais desportivo, disse que ia buscar café, quem queria. Fredo e seu pai foram com ele.

Sua mãe virou rindo, que susto essa noite. Alguém entrando no quarto, sem acender as luzes, eu já ia gritar, acendi as luzes dei de cara com o fujão.

Pensei que tinhas tirado a chave dele.    Mas sei como eres, sempre perdoas as pessoas que queres.

O que vão fazer agora, formar uma família?

Se ele quiser sim, ainda não conheço o Douglas, mas gostei demais do Andrew, estava hoje de manhã fazendo o café para todos. 

Quando me levantei, nem me deixou aproximar da cozinha.

Eu lhe disse como são teus cafés da manhã?   Não se precisa mais comer ao meio dia.

Sabes que o café da manhã é a refeição mais importante do dia.

Estava dizendo a Beta, para virem passar o final de semana conosco, tem quartos, sobrando naquela casa. As vezes tenho a sensação de que os fantasma passeiam por la.

Beta, educaste muito bem os meninos.

Que nada, só lhes dei responsabilidade, sei que minha irmã, o fazia.  Tento fazer o mesmo com os meus,  mas são como o pai, cabeça dura.

Da porta falaram os dois, essas mulheres, estão falando da gente. Com isso o clima relaxou um pouco.  

Dog, estava ficando ansioso, já tinha passado da hora que o doutor lhe tinha dito que duraria a operação.

Sua enfermeira entrou, desculpe, mas o doutor tinha que entrar em outra operação, me tocou a mim leva-lo a reanimação.  Porque não entram as senhoras primeiro.  Andrew cortou, acho que o pai tem que entrar primeiro, está aqui muito nervoso, lhe vai dar um troço.

Vens comigo, desculpe Beta, procurarei não demorar. 

As duas olharam uma para a outra, ele já assumiu que os meninos são seus filhos, acabamos de formar outra família, eles os pais, vocês os tios, nos os avôs de todos.

Estavam as duas abraçadas.

Ele estava recuperando a respiração, já tinham lhe retirado sondas, estava com boa cara.  A enfermeira disse que a operação tinha corrido perfeitamente. Agora descansar um pouco, mais a tarde, o descemos para aquele quarto.

Melhor colocar mais cadeiras, porque já percebi que certas pessoas não se moverão dali.

Ele segurava a mão do irmão fazendo carinho, em todas suas operações nenhum de seus irmãos o tinha vindo visitar.  Mesmo quando estava com seus pais, era raro aparecerem.  Entendia que o fato de o descobrirem gay, não tinha feito graça a eles que se comportavam como machões.

BlackDog, abriu os olhos, sorriu. Já estou bem, não precisam se preocupar. Virou-se para o irmão dizendo, nossos pais estavam ali cuidando de mim.

Ele agora acreditava nisso, esse encontro tudo parecia planejado.

Não deves te cansar, as matracas, que querem cuidar de ti, não vão deixar você descansar.

Ah, creio que teremos outro pai.

Como assim, sabe o da fotografia,  apareceu durante a noite, deu um baita susto nos velhos, pois ia se metendo na cama com eles.  Ele ia começar a rir. 

Não o faça rir, pois doera as costuras.  Daqui a pouco eu volto filho, agora tua tia, tua avô vão entrar, depois os velhos , depois volto com o Price que quer te conhecer.

Assim fizeram, quando ele entrou com Price, se surpreendeu, o viu passando a mão pela cabeça do BlackDog.  Como estas?

Eu bem é tu, depois do susto?

Nem me fale. Foi tremendo, fiquei foi com  medo de tua avó.  Ela é uma fera.

Também querer se meter na cama com eles foi demais.  Ai, não posso rir, mas imagino a cena.

Não é que esse menino tem humor.

Cada um se sentou de um lado da cama, segurando uma das mãos.

Caralho arrumei duas babas, barbadas.

Nisso o médico entrou para examinar o paciente, só então vira os grampos que seguravam as costelas do peito aberto. 

Olha a cara dos dois doutor, dois barbados, assustados.  Estamos fodidos, não nos deixaram em paz, nem ao senhor, este pobre paciente.

Já vejo que estas bem, com esse humor.

Iam perguntar pelos grampos, ele se adiantou, por dentro são suturas, mas por fora hoje usamos esse tipo de grampo, para  segurar bem as costelas separadas.  Daqui uns dias tiramos, mas vou tirar sem anestesia, para ver se o humor dele passa.

Os chamou para fora, disse que a operação tinha corrido maravilhosamente bem, mas que nos primeiros meses, fariam um seguimento, todos os meses, creio que futuramente não necessitará de outra.

Ah, Dog, meu filho depois vem visita-lo quando ele for para o quarto, quando falei do teu filho, para minha surpresa ele disse que viria vê-lo.  Coisa rara nele.   Os dois devem ter a mesma idade.

Vou contar para os outros, mando o Andrew entrar, assim banca a segurança .

Contou para todo mundo, as notícias,  terá que ficar uma semana por aqui, para a recuperação, ele vai querer assustar as senhoras, mostrando os grampos.  Mas o médico já explicou que é como fazem hoje o fecho das operações.   Preparem-se.

Beta, graças a deus tudo correu bem, ele disse que viu os pais na operação.   Contou para seus  pais.  Sabe quando eu estava aqui, ele leu pelos jornais, disse que sonhou que fui visita-lo, me avisou que eu era que iria encontra-los.

Isso realmente aconteceu, quando vi aquele garoto sentado na ambulância me assustei, me parecia tê-lo visto em algum lugar, sabes que sou bom observador, fiquei procurando na minha cabeça, me lembrei quando estava em coma, que fui a muitos lugares, uma coisa extra sensorial.

Tem uma coisa esses dois, nunca mentem, sempre falam o que pensam, a verdade.  Quando os vi chegando contigo no teu carro, com a sirene posta, quase morri.  Sei que foi uma brincadeira, pois ele sempre dizia que um dia chegaria em casa no carro da polícia.

Graças a ti, foi operado.   O juiz já conversou com a gente.  Talvez fiquemos um pouco mais folgado agora, pois somos seis, com eles oito, numa casa para alimentar todo mundo, mas sobrevivemos.

Beta, agora somos todos uma grande família. Era o senhor Xerife, como sempre acalmando as coisas. já conversei com teu marido, quem sabe não seja mais fácil, ele arrumar emprego aonde vivemos, a vida é mais barata, os meninos poderiam ir a uma boa escola.

Gostas de cozinha, Beta, eu faço doces para fora. Na verdade, mais para me ocupar, naquela casa vazia, quem sabe as duas podemos montar um negócio.

Primeiro eles já estão convidados a nos visitar.  Tem lugar para todo mundo.

Price olhou para Dog, riu dizendo, desta vez não escapas da família. 

Quem disse que não tenho o meu barco.

Que historia é essa de barco, o Andrew comentou hoje de manhã, perguntando que tipo de veleiro era.   Fiquei curioso.

Se não tivesse fugido, saberia.  Deixa para lá.  É um veleiro que comprei, levei anos recuperando nos momentos de folga, com um velho marinheiro que me ajudou, depois me ensinou a navegar.  As vezes vamos pescar, assim sempre temos o que comer.

Eu que o diga, a última vez que ele foi a sacramento, levou uma dessas geladeiras, que vai no carro, cheia de peixes.  Tive que comer peixe semanas.  Eu que gosto de uma carne.

Mas te fez bem, fala a verdade.

Era interessante, ele nunca tinha participado desse tipo de conversa.  Terei que me acostumar pensou.

Fredo comentou que gostava de fazer peixe na brasa, ficam uma delícia.  Seu pai, disse que tinham uma para fazer carne, quando reuniam a família toda, mas agora isso é cada vez mais impossível.  Cada um tem uma vida diferente, nem se veem entre si.  Uma lastima.

Isso tudo por que souberam que eu era gay?

Bom eles sempre tiveram um certo ciúmes de mim, por ter-me destacado mais do que eles, me davam umas surras de fazer gosto.

O Xerife, sempre dizia a verdade.   Em parte, sim, ficaram putos da vida, como tu um agente do FBI podia ser gay, acharam que estávamos mentindo.  Eu soltei que por isso mesmo te amava mais, pois era mais corajoso que os outros.   Tinhas assumido isso, no meio de um setor duro, nem por isso deixavas de cumprir tuas obrigações.   Nesses anos que passaste a nos visitar mais, isso pareceu ofende-los.   Mas a mim não importa, nunca foram respeitosos comigo e com tua mãe.  Foram os que mais ajudamos financeiramente.  Cada um deles deve a estabilidade que tem graças a nós.  Nunca cobramos nada, mas nos ignoram.

A diferença entre teus filhos e os outro netos é impressionante. São respeitosos, imagina que um deles quando estivesse em casa, ia se levantar para fazer café para tua mãe.  Ainda tem que os ficar chamando para saírem da cama.

Isso os meninos sempre fizeram, me ajudaram com os nossos filhos, preparar o café da manhã com o que tivesse, leva-los a escola, ir busca-los, ajudar a estudar, tudo isso faziam eles por nós como uma maneira de ajudar.   Andrew quando recebeu seu primeiro salário, o entregou todo, só pediu uma parte para comprar um terno para ir trabalhar.

Andrew entrou nesse momento, rindo a não mais poder.   O que foi.

Quando eu entrei lhe disse BlackDog, Price, me chamou a atenção, ele rapidamente disse ao Price que ele é que tinha decidido isso, que tu serias WhiteDog.  A cara dele era espetacular.

É que não estou acostumado que Dog tenha sentido de humor.

Pois é em dez anos as pessoas mudam.

Teriam que conversar muito para se entenderem.     Dog, não o esperava ver nunca mais.  Ele já não fazia parte de seus planos de vida.   Mas queria ver no que poderia fazer, talvez em nome do velho amor entre eles.

Nessa noite ficaram os dois no hospital.  Durante o dia, ficariam Andrew, sua mãe, Beta sempre que pudesse escapar.

Nessa noite entendeu o que ele tinha dito.  Pois se despertou assustado, pensando que era BlackDog gritando, mas não era Price.   Levou tempo para despertar, do pesadelo que estava.

BlackDog, tinha tomado uma pastilha para dor, outra para dormir.  Não escutou, Price, segurava a mão de Dog, que este chegou a sentir dor.   Isso era mais sério do que ele tinha dito.

Teriam que conversar a respeito. Quando finalmente despertou, olhou assustado, lhe perguntou o que estas fazendo aqui no inferno.   A enfermeira lhe deu um relaxante, voltou a dormir.

Dog, já não o conseguiu.  De manhã falou com o seu amigo médico, ele recomendou que falasse com o psiquiatra do hospital.  Depois foi uma batalha convence-lo, mas concordou em falar com o psiquiatra. Voltou com a cabeça baixa.   Ele me disse que poderei ter surtos de psicose, que me devo tratar. O que aconteceu ontem à noite?

Me despertei contigo gritando, não havia maneira de te despertar, apertaste tanto minha mão, que chegou a doer.

Olha, vou preparar uns documentos, podemos falar com teu amigo juiz.  Preciso te confiar aonde estão os documentos que tenho comigo. Para te proteger e aos meninos.  Depois me internarei.

O médico o chamou a sua consulta, aonde estava o psiquiatra.   Olha o caso é grave, creio que seu amigo, sofreu torturas.  Está num plano muito sensível.  Me disse que tem sensação de que o estão seguindo, falou de todas suas paranoias.   Pode se perigoso o ter por perto. Mesmo agora com teu filho em estado frágil.

Podes convence-lo ha se internar.  Como ele é do FBI, tem direito a um seguro medico que cobre tudo.  

Me disse que tinha pedido demissão.

Não foi o que nos informaram, dizem que não o veem a meses.  Mas que seu salário é sempre depositado.

Porra mais essa merda.  Price sempre tinha uma tendência a mentir, mas essa agora. Podias arrumar uma sala para conversar com ele.

Vou pedir que ele venha até aqui.

Quando viu os outros dois médicos ali, se desarmou.

Price, como necessitávamos saber do teu sistema médico, falamos com o departamento pessoal do FBI,  nada consta que tenhas pedido demissão, ao contrário, não sabem de ti a meses.

Os ombros foram caindo,  Estive metido de drogas até o pescoço. Eram as únicas coisas que me deixavam calmo. 

Virou-se para o Dog, tu me queres, acha que devo me internar, porque eu o farei por ti, senão vou desaparecer.

Não Price, tem que ser decisão tua, não jogues para cima de mim teus problemas.   Não se esqueça que os meus, a maioria foi causado por ti, que me abandonou mais de uma vez, a última, dois dias antes me dizias que me amava.  Nunca tinhas feito isso. Devia ter desconfiado, pois essa declaração me soava falsa.

Eu te amei, hoje me cobrava isso, como seria, pois eu mudei, fiquei de luto por ti, durante dez anos.  Agora me dou conta, que não fazes parte do meu plano de vida, aprendi a viver sozinho, agora tenho que pensar nos garotos.  Esse amor que tinha por ti, quase me matou.  Não posso me permitir mais isso.

Eu acredito que se tu decidires te internar, acredite, eu virei te visitar, serei teu amigo como sempre fui.  Mas não tem o direito de pedir que eu decida por ti. Isso tem que partir de ti, pois eu nada sei do que aconteceu nesses dez anos.

Foi como ver um balão desinchar.

Ok, fiz muita coisa errada, que me persegue, me atormenta.  O do filho do senador é verdade, fui eu quem o atirou pela janela, bem como o outro.  Queriam me prejudicar por causa de uma coisa que descobrir sobre o pai dele.   Por isso o FBI teve que me esconder.  Outra verdade, é que tive muitos amantes russos, sadomasoquismo, coisas no gênero.   Me perdi nas drogas, desapareci para o próprio FBI.  Não foi uma garota que me salvou, mas sim um homem com quem tenho relações a anos, mas ele não aguenta mais meus problemas.  Por isso corri para ti, sempre me salvastes.   Perdão, necessito do teu perdão.

Price, talvez eu até fosse investigar tudo isso, essa chegada surpresa, sempre mentiste muito bem. Agora a coisa é contigo.

Saiu da sala, com uma vontade de gritar, tudo que verbalizou foi filho da puta.

Depois o médico veio lhe avisar que o tinham internado,  lhe fizemos um exame toxico, a coisa é feia. 

No dia seguinte, o filho do médico veio visitar BlackDog,  quando meu pai me contou, nos conhecemos na faculdade, sempre te vejo pelo jardim.  Sempre tens bom humor para falar com todo mundo.  Também fiquei gritando Coração Bomba. Entendi que querias dizer que não somos uma máquina como o coração.  Mudou a minha cabeça.  Acredito mesmo que muitos que gritaram te entenderam.  Quando se despediu comentou, já nos vemos na universidade.

Durante a semana, ninguém perguntou mais pelo Price, ele simplesmente disse que tinha se internado, porque o tinham torturado em sua última missão. Precisava de um tratamento psicológico.

Nas vésperas de BlackDog ir para casa, o mandaram chamar. Foi até a sala do psiquiatra, lá estava a pessoa com quem ele tinha estado muitos anos.  Era como se olhar num espelho, o homem era parecido com ele. Quando se apresentaram, disse rapidamente eu sei quer é você, sei que estava comigo porque os parecemos. Mas se desequilibrou muito nos últimos anos, nos seus últimos ataques me dizia, tu não é como ele. Ele me queria, tu não.  Desaparecia, voltava dias depois totalmente drogado, pedindo ajuda.  Até que desapareceu, só agora soube que estava aqui.

Querem que ele nos veja junto, podes me fazer esse favor.

Claro que sim.

Quando os viu juntos, vê doutor, um complô contra mim, se uniram para me humilhar.  Mas na verdade eu sou melhor do que eles nas mentiras. Soltou uma gargalhada de arrepiar. Depois começou a chorar, eu amei os dois a minha maneira, juro que os amei.

Quando saíram o outro, Brad Wilton, era um elo de ligação da CIA, com a Casa Branca, disse que ia pedir um afastamento do cargo, do serviço, ficaria na cidade, para qualquer coisa.

Podes contar comigo Brad, sinto muito tudo isso.

Era horrível, ver quem tinha amado tanto nessa situação, mas como sempre o sensato era o Xerife.  Filho não tens culpa disso.  Ao contrário, saíste sempre prejudicado, cada vez que ele estava contigo.  Melhor assim.

No dia que foram para casa, viu Brad pelo corredor, lhe passou seu celular, seu endereço, qualquer coisa conta comigo.   Não estou fazendo por ele, mas por ti.  O sujeito lhe caia bem.

Na verdade, ele não sabia nada do passado do Price, de aonde era, quem era sua família, ele só tinha falado sobre a família, na vez que se beijaram pela primeira vez na piscina.  Contarei isso ao Brad quando o veja.

Quando o BlackDog ficou melhor, saíram de compras, iriam passar um final de semana com seus pais, iriam todos.  Estavam na loja, viu uma roupas modernas, estampadas. Pensou, riu sozinho, disse para os meninos, meu luto acabou.  Estou vivo graças a vocês, comprou roupa para ele também.  Tinham convencido Beta e Fredo para irem com eles.  Sua mãe tinha insistido.   Quando chegaram, enquanto ela colocava todo mundo nos seus quartos, seu pai o chamou de lado, o abraçou muito, filho, não se preocupe, um dia conheceras uma pessoa que te ame.

Ah, convidei seus irmãos para uma churrascada,  lhes avisei que se quisessem vir, seriam benvindos, senão que fossem a puta que os pariu.  Levaram um susto.  Creio que estavam acostumados a levar broncas da tua mãe, não minhas, se passarem contigo, me avisa, meto a mão neles.

Mas só apareceu o pequeno com seus cinco filhos, vivia no campo, com a ajuda dos pais como ele dizia, tinham comprado um campo, as coisas agora estavam melhores.   Os meninos eram da idade dos filhos de Beta. 

No domingo foram todos a Igreja, sua mãe, o apresentou ao Pastor, seu filho, seus netos, seus tios,  que agora faziam parte da sua família.

Sejam bem vindos a nossa comunidade.   

O Xerife, tinha saído com Fredo que não eram os dois muito de igreja, os foi apresentar seus amigos.   Logo lhe ofereceram trabalho.  

Acho que por enquanto vocês podiam ficar em casa.  Ou se quiserem, mas é muito pequeno, tem um apartamento em cima da garagem, que está cheio de traste, mas tem cozinha, banheiro. Os meninos podem dormir em nossa casa.   Até que vocês se estabeleçam.

Andou com eles pela cidade inteira, mostrando tudo, escola, o hospital.

BlackDog, soltou, creio que vamos ter que vir mais vezes visitar os tios, os primos e claro os avos.  Pai ela faz uns doces, que se não tomo cuidado, vou ficar imenso.

Acabou que foi isso mesmo que aconteceu, Beta e Fredo, resolveram aproveitar a oferta, vieram morar ali.

Eles continuavam em San Francisco, Andrew estava aprendendo a usar o computador para desenhar, ao mesmo tempo que fazia aulas de pintura.  Fez um retrato de seu pai, que agora estava na sala.

Cada vez que o via Dog, se emocionava.

Uma vez por semana ia visitar o Price, o notava cada vez pior.  Esteve um dia conversando longamente com Brad no jardim em frente ao hospital.

Acreditas que tem escapatória?

Falar verdade Dog, creio que me estou enganando.  Nunca soube por que estava comigo, mentia tanto que nunca soube em que me apoiar.   Não consigo descobrir em que ele andou metido.   Esta cada vez mais metido em sua cabeça, fala línguas diferentes, o russo eu entendo, as outras não,  grita muito quando estou, normalmente me confunde contigo.

Outro dia tentou agredir dois enfermeiros, foram necessário quatro para pará-lo, teve que passar dias numa cama amarrado.  Não se parece nada com o homem que amei com loucura.

Vamos sair de barco esse final de semana, eu os meninos, o senhor que cuida de tudo para mim, queres vir.

Em serio, eu adoro o mar, tive um barco quando garoto.

No domingo todos embarcaram, iriam até uma praia que ele tinha descoberto, era uma pequena baia, um pouco mais acima de San Francisco.   O tempo ajudou, os meninos adoravam o velho que já conheciam. Ele os ia ensinando o nome de tudo,  Assim, Dog podia conversar com o Brad.   Comentou com ele, o que tinha pensado um dia no hospital.  Que a única vez que Price tinha falado de seus pais, tinha sido no dia que tinha uma carta na mão, na piscina. Foi quando me deu o primeiro beijo.  

Ele me contou esta estratégia, queria saber se descobria que estava mentindo.  Ou seja, o filho da puta mentia para ele desde o começo.  Mas me disse que te amava com loucura.

Descobri na verdade, que ele vinha de um orfanato, que esteve em várias casas de adoção, mas logo criava problema.  Nunca descobri aonde o FBI o recrutou.

Vou ver se consigo descobrir.

Os dois juntos faziam boa companhia, deixaram de falar do Price, falavam do que gostavam. Estiveram mergulhando, ele sempre preocupado com BlackDog.  Esse dizia, não basta meu irmão me proteger, agora tu também.  Abraçava o pai, se acostumou com os beijos dos dois.

Imagina Brad, que mesmo do tamanho que tem, eu ainda os coloco na cama quando não estão por aí com os amigos.

Mas sei que terão que seguir seu próprio caminho, eu ficarei para trás.  Agora Brad, estava sempre na casa deles.  Dizia, eu me repito, mas cada vez que olho esse retrato teu, feito pelo Andrew, vejo que ele conseguiu captar uma coisa nessa tua maneira de olhar, que me fascina.

Agora os finais de semana que os meninos tinha alguma festa ou algo para fazer com os amigos, os dois iram velejar.  Nadavam, pescavam.  O velho agora, arrumava desculpas para não ir.

Quero que você conheça bem esse homem, ele te faz feliz. De uma chance.

Quando comentou isso com Brad, estavam ancorados na Bahia.  Tinha começado a chover, estavam os dois abrigados.  Não sei por que me disse isso, eu realmente me sinto muito a vontade contigo, como nunca antes estive com ninguém.  Brad não disse nada, simplesmente o beijou.   Ficaram os dois se olhando, se beijavam, ficaram segurando a mão um do outro.

Nessa noite tomando um vinho que Brad tinha trazido, a lua tinha saído entre as nuvens, iluminava o mar, fazendo um belo espelho.   Estavam sentados com as pernas penduradas  em cima da água.   Sabe essa semana, conversei com o psiquiatra, ele acredita que o perdemos.

Bom eu fui fazer o que te disse, consegui com um amigo, acesso ao expediente dele.  Alguém que ele conhecia, o colocou lá para espiar os outros estudantes.  Pelo que diz esse meu amigo, esse sujeito já morreu a tempos, era conhecido, por encontrar jovens nas ruas, para ter sexo, de alguma maneira os colocava em pontos estratégicos para conseguir informação.  Acredita que ele entrou por aí, era como um prostituto.

Deram o nome para o psiquiatra, esse disse que ia gravar a reação dele.

Comentou com ele, já escutaste falar de fulano.   Ele parou seus movimentos rapidamente, soltou um filho da puta, acabou com minha vida, virei uma marionete em suas mãos.  Quando queria sexo, me chamava.  Mas eu amava o Dog.  Não podia fazer isso, soluçava, inventei que minha mãe tinha morrido, para conseguir beija-lo, ria, como era inocente meu menino.

Mas a esse filho da puta o matei, nunca descobriram quem foi, tinha tanta merda até o pescoço que até ficaram contentes.

Desandou a falar o nome de todas as pessoas que tinha matado.  Uma vez pensei em matar o Dog, mas se adiantaram. Quase o conseguiram, eu queria seu lugar na agência. Mas eu o amava.  Por isso fui embora, ele representava tudo o que eu não sou.   Mas ele morreu, eu soube que ele morreu, eu vim ao seu enterro.

Ele embaralhava tudo. Parou de repente, olhou para o psiquiatra, riu, foi esse filho da puta do Brad que descobriu isso não é, esse cretino sempre se perguntou por que estava com ele, primeiro porque se parecia em o Dog, mas não sabe trepar como ele.  Depois quando dormia, eu vistoriava seus documentos.  Pude vender muitas informações a troco de drogas.

Olhou de novo ao psiquiatra, ficou parado, de um salto se jogou na sua jugular, foi o tempo exato dos enfermeiros entrarem para o sujeitarem.  Babava, eu vou te matar filho da puta, eu vou te matar.  Nessa noite, conseguiu escapar do seu quarto, entrar na enfermaria, procurou um bisturi, cortou os braços em zig-zag, ficou ali dessangrando até de manhã quando entrou uma enfermeira.

Mas, já era tarde.  Só depois do enterro, foi que o psiquiatra mostrou o vídeo. O desequilíbrio dele é antigo, só que ninguém percebeu. O Primeiro a notar, foi o Dog.

Foram para o barco, ali estavam em paz. Agora tinha se acostumado com ele, a beber um bom vinho branco, ali sentado conversando.

Brad foi o primeiro a falar, esse filho da puta, que descanse em paz, só fez uma coisa boa, eu te conhecer. Contigo vivo em paz. Para que saibas, pedi demissão da CIA, alegando que quero aproveitar minha vida.  Concordaram em me dar uma aposentadoria, pelos anos trabalhados, não preciso de muita coisa.  Queria que tu e os meninos viessem conhecer meus pais.  Sou filho único. Meus pais vivem numa residência, em Los Angeles, aonde nasci.

Ultimamente vinha me obrigando a ir ao hospital, mas não o via, me fazia mal.  Como pude me deixar enganar por ele.

O mesmo penso, perdi 10 anos de minha vida, em luto por ele.  Acho agora mereço estar contigo.  Alias porque não vens viver definitivamente lá em casa.

Queres viver comigo, ou casar comigo?

O que tu queiras, os meninos te adoram, estas sempre conversando, os anima.  Mas terá que ser depois da individual.   A exposição do Andrew, será em breve. Por nada do mundo a perderia.

Alias, esse semana tive uma surpresa.  

Anda conta de uma vez, sabes que sou curioso.

BlackDog veio me dizer que me entende com respeito aos homens, começou de amizade com Peter o filho do médico.  Parece que se enrolaram.  Estão os dois estudando juntos sempre, não dei pela coisa.   O médico veio me dizer que o filho deixou de ser uma preocupação.  Lhe contou tudo.  Era a primeira vez que falava de tudo com o pai.

Como ficou isso com o Andrew,  ele diz que a vida é do irmão, que ele faça o que queira. Está de namoro com uma garota que também pinta, diz que não é nada sério, porque a garota nem pensa em casar.  Ele diz que tem muito que apreender ainda da vida.

Sabe que pediu meu quadro para a exposição, depois tem um vídeo, interessante que fez em homenagem aos pais.

Bom podemos tomar mais uma copa de vinho, ou queres ir para a cama.

Contigo sempre. Falar nisso  o que fizeste com minha mãe?

Porque, nada, gosto de conversar com ela.

Pois não para de perguntar se te vejo, como vamos.  Lhe digo que saímos a velejar, ela sorri.

Vou convida-la para ser minha madrinha de casamento, achas que aceita.

Deixa de falar, vamos para cama de uma vez, quero te explorar mais e mais.

COOKER

                                                                

Hoje o dia tinha sido corrido, a segunda feira era o pior dia da semana, parecia que todo mundo não tinha comido no final de semana, estavam sempre famintos.

Olhou uma garota sentada na barra, lia, relia a carta, mas não se decidia.  Tinha a sensação de conhece-la.  Se aproximou, lhe perguntou novamente se já tinha escolhido.

Ela levantou os ombros, o que é mais barato?

Quando escutou sua voz, recordou de aonde a conhecia, essa voz cantava muito bem.  Lhe respondeu, Beth, para ti, pago eu.

Ela levou um susto, como sabes o meu nome?

Sou Greg, fui companheiro do teu irmão em natação, no basquete.  Só que ele foi para a universidade, eu ainda fiquei um ano para trás, cuidando da minha mãe.

Ah, já me lembro de ti. Dizias sempre que ia embora daquela cidade de merda.

Alguém o chamou de outro lado, viu que ela se levantava, saia arrastando uma mochila, não tinha boa aparência.   Correu até a porta dos fundos, disse ao um garoto que estava descascando batatas, corra para a rua, siga, uma garota loira, com as pontas dos cabelos em azul. Veja para aonde vai.

Continuou trabalhando, pois eram muitos clientes para atender. Duas horas depois o garoto, voltou, demorei porque queria observar o que fazia, está com uma turma da pesada, creio que está se prostituindo.

Tudo que pode dizer foi merda.   Menos mal que agora o movimento estava frouxo. Sentou-se para ajudar o Mike a descascar as batatas, tinha se atrasado por culpa dele.         Uma história,  de amizade nascente, juntava os dois.

Mas antes de pensar nisso fez uma coisa, tirou seu celular, ligou para uma amiga, esta ainda vivia na cidade aonde tinha passado sua juventude.  Perguntou pelo irmão da Beth.

Desde que está desapareceu, está aqui com os pais.  Por quê?  Podes pedir que venha a tua casa, ela vivia ao lado da família da Beth.  Daqui 10 minutos torno a chamar.

Continuou descascando batatas,  Mike, as pessoas para realizarem seus sonhos, as vezes se perdem, depois fica difícil consertar.

Não era o caso dele.  Seus sonhos eram bem pé no chão.  Estava fazendo a faculdade com dificuldade, mas estava.

Dez minutos depois voltou a chamar.  Orson, atendeu, nervoso.  O que esta acontecendo para montares esse número.  Sempre estava dizendo que ele montava números, que devia fazer teatro.

Bom, eu trabalho num restaurante aqui em Los Angeles, hoje apareceu tua irmã, quando a reconheci, se mandou, mas mandei segui-la, esta misturada com gente da pesada.  Não ia dizer que estava se prostituindo na maior.

Tens certeza disso?

Sim, porque como viu que a tinha reconhecido, não tinha dinheiro para pagar a comida, se mandou.  Consegues chegar hoje mesmo, porque creio que esta metida com quem não deve.

Estou saindo agora, só vou avisar meus  pais, em seguida vou.

Ele nos tempos que conviveram juntos, tinha sido apaixonado pelo Orson, mas nunca tinha rolado nada.   Ele tinha ido para San Diego fazer universidade, tudo ligado a esportes. Ele tinha ficado para trás.   Embora nunca reclama-se.   Era filho único, seu pai tinha desaparecido a muito tempo, nem era capaz de reconhece-lo.  Quando terminou o curso, sua mãe ficou doente, o médico disse que não tinha jeito.   Ela tinha protelado demais fazer uma operação, um tratamento. 

O jeito foi ele arrumar um emprego, para poder pagar uma mulher para ficar uma parte do dia, ao mesmo tempo aguentar com as despesas.

Mas graças a isso, aprendeu a cozinhar.  Ela ficava o dia inteiro vendo programas de cozinha. As vezes dizia, deve ser bom.  Ele voltava o vídeo, copiava a receita, fazia para ela, com a doença nunca queria comer.  As vezes por intuição, se não tinha todos os ingredientes, inventava com o que tinha.  Improvisação, dizia um cozinheiro, saiba improvisar, terás o mundo aos seus pés.

Quando ela morreu, ele finalmente pode pensar em sua vida.  Vendeu a pequena casa que tinham, liquidou todas as dívidas, foi para Los Angeles.  Primeiro ficou num hotel, depois quando arrumou o emprego no restaurante, um dia andando por ali, procurando um apartamento, todos eram muito caros, viu em cima de uma garagem, um anúncio velho, já muito queimado do sol.    Perguntou a um dos rapazes, melhor falar com o chefe.

Este lhe explicou por que ninguém queria o apartamento.  Anteriormente era o escritório da oficina mecânica.  Quando fizeram a obra, transformando o mesmo num pequeno apartamento, tinha sido mal feita.   O cheiro que vinha de baixo filtrava pelas paredes.  Mesmo assim pediu para ver.   Era perfeito, perguntou o preço?   Podia pagar.  Entendeu que o negócio eram deixar durante o dia a janelas abertas, nem que fosse um pouco.  O problema era de noite, era fácil de subir por uma tubulação, entrar.   Era um salão grande, que funcionava de quarto ao mesmo tempo, uma cozinha fechada dentro de um armário, banheiro,  inclusive tinha já uma mesa que ele podia usar para estudar.  Ficou com ele.  De manhã quando saia, abria as janelas, deixando uma fresta para entrar ar. De noite quando voltava, acendia um incenso bem forte, que eliminava o cheiro. Se fosse no campo, queimaria bosta de vaca, o cheiro desapareceria.

Tinha conhecido o Mike por isso.  Um dia voltava cansado, reparou que a janela estava aberta mais do normal.  Entrou alguém, ou ainda está dentro.  Tinha um sistema, a que determinada hora se acendia uma luz, como para dizer que tinha alguém ali.   Essa luz estava apagada.

Quando entrou bem devagar, subiu as escadas, viu que a porta do banheiro estava fechada, andou rápido, pechou a janela, abriu a porta do banheiro.   Mike levou um susto tão grande que chegou a cair no chão.   Foi logo dizendo muito nervoso que só queria se lavar. Levava vários dias sem tomar banho.   Realmente sua roupa era uma tragédia.

Perdão vivo na rua, hoje não consegui dinheiro nem para comer, quando vi a janela aberta, pensei, ali deve ter comida, entrei, comi algo que vi na geladeira, por sinal fantástico, nem sei dizer o nome disso. 

Ele teve que rir, era um dos seus pratos inventados.  Abriu a geladeira, ele tinha comido tudo.

Não tens família?

Tive que fugir de casa, meu padrasto além de me bater, queria abusar sexualmente de mim, um filho da puta, falei com minha mãe, mas esta enganchada nas drogas, só riu, não passa nada me disse.

A segunda vez que tentou, dei com uma garrafa na cabeça dele, desde então estou na rua, como o que posso, vou pelos restaurantes vigio o lixo para ver se cai alguma coisa que se possa comer.

Ficou com pena do garoto.  Vou te deixar ficar aqui, porque a noite está gelada, mas tem uma coisa, se me roubas, ou tenta levar alguma dessas merdas que tenho.  Olhou em volta, começou a rir.   Quem ia roubar um livro, ele basicamente não tinha nada.

Olha tomas um banho, me jogas tua roupa para colocar na máquina de lavar, uma das coisas boas do apartamento, podia lavar ao mesmo tempo secar sua roupa. Abriu o pequeno armário de roupas, jogou uma camiseta velha, isso pode te servir de camisão para dormir.  Enquanto isso preparo comida para a gente. Esfrega bem teu corpo, porque está sujo. Use uma das toalhas que esta ai no banho, mas não deixe nada no chão.   Me dá teu tênis também, porque posso lavar junto.   O menino meio desconfiado, lhe deu tudo.

Enquanto ele tomava banho, preparou um omelete de queijo, uma receita francesa que tinha aprendido.  Descongelou duas hamburguesas.  A faria ao momento.

Quando ele saiu do banheiro, era outra coisa.  Ali naquele armário, tem um saco de dormir, vá o abrindo ali ao lado do sofá, que aonde eu durmo.  Enquanto isso vou tomar banho.  Não se preocupou se o menino fosse fugir, porque sua roupa era imensa para ele, a dele estava na máquina de lavar.   Sentaram-se para comer, lhe perguntou de aonde vinha, seu nome?

Me chamo Mike, disse o nome do bairro, era basicamente do outro lado de Los Angeles, um bairro de gente muito pobre.    Só não quero ir para proteção de menores, pois a coisa fica pior, tenho 14 anos, dentro de dois anos posso ser independente.   Agora no inverno podes dormir aqui, eu trabalho no restaurante que fica ali na avenida, dá fundos aqui para o beco. Posso te conseguir pequenos trabalhos, como descascar batatas, lavar panelas, coisas assim, podes ter uns trocado para ti.

Era época de férias, portanto sabia que ele não ia a escola.   Ele sim, porque para diminuir os anos de cursos, adiantava nas férias, tinha que recuperar o tempo perdido.

Quando tinha conseguido aquele emprego, ele avisou o dono, só posso trabalhar de tarde para noite.  A noite era quando tinham mais movimento.  Posso chegar, preparar todas as coisas para o cozinheiro.  Sei cozinhar também, mas teria que aprender a fazer coisas para muita gente.

O cozinheiro simpatizou com ele.   Eram um mexicano que tinha sido lutador dessa luta que os mexicanos adora, usam uma máscara.   Lhe disse tudo o que teria que fazer.  Chegar as três da tarde, cortar cebolas redondas, em juliana, tomates igual, aonde devia colocar.  Junto ao fogão havia como um refrigerador, aonde estavam as coisas já cortadas para montar uma salada ao gosto do cliente.  Teria que descascar batatas, cenouras, o que houvesse nesse dia no mercado, para fazer uma sopa.  O pessoal no inverno gostava de tomar sopa.  Era sempre a mesma de legumes, mas funcionava.    Aprendeu isso tudo rapidamente.  Chegava da faculdade, o cozinheiro Miguel, já tinha um prato preparado para ele, assim comia antes de começar fazer as coisas.  Lavava bem os braços, as mãos, colocava um uniforme de cozinheiro, se concentrava, sequer escutava o rádio que Miguel tinha sempre com músicas mexicanas.  Quando ele se concentrava, seja estudando ou fazendo alguma coisa, não escutava nada em sua volta.

Depois de tudo preparado, se lavava outra vez, agora tocava atender a barra, uma garota, atendia as mesas.  Lhe passava o pedido, que ele entregava ao Miguel.  Este trabalhava sozinho na cozinha.   O Dono, estava sempre sentado no caixa, com um puro sem acender na boca. 

A camaradagem com o Miguel era boa,  quando o movimento estava fraco, tirava um livro, aproveitava para estudar. 

Miguel soltava, ah se meus filhos estudassem, só querem boa vida. 

Falou com o Miguel, contou a história do Mike, podíamos dar esses pequenos trabalhos para ele, convença o patrão.  O que o Miguel não gostava era dos finais de semana, as lojas em volta estavam fechadas, o movimento da rua caia muito.  Só iam jantar, as pessoas que viviam por ali.

Sentia que perdia o seu tempo, quando poderia estar com a família.  Quando chego esses meninos estão dormindo, quando saio de manhã, igual.  Estão crescendo sem pai que os oriente.

De tanto escutar essa ladainha, um dia, depois de ter pensado muito, porque os curso o defraudavam, não era o que ele tinha imaginado.  Disse ao Miguel, eu faço os finais de semana, afinal aprendi fazer tudo o que você faz, mas com uma condição, vou preparar os pratos a minha maneir