OURO

                                                                  

Tinha esperado este dia com ansiedade, chegado sua hora de partir.  Levava anos planejando, mas ao mesmo tempo cuidando de sua mãe.

A vila já quase não tinha ninguém.  Tirando o dono do bar, a Marialva a dona do putero, que hoje vivia com ele, uns quantos velhos, que se negavam a entregar seus sonhos de encontrar ouro.  Já não sobrava muita coisa.

Sua mãe tinha tido um final doloroso, se negou desde o princípio a fazer qualquer tratamento, dizia para que?  Não me restam mais ilusões, desde que teu pai morreu, uma parte de mim morreu com ele.

Ele tinha nascido ali, naquela vila que nem nome tinha, as margens do rio Tocantins. Para chegar à estrada mais próxima, eram necessários andar quase cinquenta quilômetros. O que fazia tudo mais difícil.  Na época das chuvas ficava intransitável. Depois muita poeira, terra de chão batido.   Eles tinham um pedaço de terra, justo perto do rio, ali tinham a horta de sua mãe, da qual tinham se mantido todos esses anos.   O armazém do pai, ficava justo na frente da casa. Hoje, de mantimentos quase nada.  As vezes ficava imaginando, porque o pai, tinha defendido uma caixa que tinha uns míseros reais.  Quando surgiu a quadrilha, como chamar de quadrilha dois gatos pingados.  Entraram com a escopeta, pediram o dinheiro da caixa.   Seu pai se negou, vai trabalhar vagabundo, vá procurar sua pepita de ouro como todo mundo.  O sujeito não teve dúvida, lhe acertou um tiro em pleno coração.   Mas quando saíram deram de cara com o capanga da Marialva, que sabia, em seguida saqueariam o putero.  Ali não havia lei nenhuma.

Este deu dois tiros acabou com os bandidos.   Dois garotos que nem tinham 18 anos.  Queriam dinheiro para voltarem para suas casas.  Ele ficou sem pai, sua mãe se negou a ir embora, como ia deixar o tumulo de seu pai, embaixo da mangueira, solitário.   Anos depois se sentiu mal, a rezadeira que vivia à margem do rio, do outro lado, atravessou, passou a mão pelo lugar que lhe doía.   Filha tens um puto tumor no estomago. Melhor é ires embora, se tratar.

Todos gostavam de sua mãe, era educada, se via que tinha educação, embora nunca tinham falado, nem ela, nem seu pai, de aonde tinham vindo.

O único amigo que tinha, já tinha ido embora, quando eles fizeram 15 anos.  Tinham nascido na mesma época.  Seu pai era comprador de ouro para uma empresa americana.

Os dois aprenderam a nadar juntos no rio, subir em árvores,  comer fruta tiradas do pé. Fizeram a primeira punheta um para o outro, se beijavam, mas sexo na verdade nunca fizeram.

Sentia uma falta do maldito Bento, as vezes chegava a escutar lhe chamando desde a porta do armazém.    Ei Zé, vamos nadar que está fazendo muito calor.   Ou Zé vamos tomar banho de cachoeira, na verdade era o próprio rio, que tinha pedras em alguns lugares. Depois que ele partiu, a única professora também foi embora, deixou seus livros para ele.  Ele gostava mesmo de Demian de Hermann Hesse.  Já tinha lido tantas vezes, que sabia trechos palavra por palavra.

Todos os livros já estava amarelos de velhos que eram, mas esse era seu preferido.  Com sua mãe, tinha aprendido geografia num livro que a professora tinha deixado para atrás.  Ela falava sempre no Rio de Janeiro, detalhava lugares como fosse o quintal da casa.   Depois que seu pai morreu ela se soltou mais.  Disse que tinha nascido no Rio, em Copacabana.  Aonde tinha conhecido seu pai.  Mas quando ele começava a fazer muitas perguntas, mudava de assunto.

Quando sentiu que a morte se aproximava, detalhou para ele o que deveria fazer.  Quando ele fez 18 anos, foram a cidade mais próxima, para tirarem seu bilhete de identidade, depois foram ao banco aonde ela colocou que era uma conta conjunta, em caso de lhe passar algo, ele podia tirar ou usar o dinheiro como bem quisesse.  Foi a última viagem da Van que levava o pessoal a essa cidade.   Depois o homem desapareceu.   Lhe fez memorizar todo um roteiro de como sair dali ir até a estrada caminhando, retirar o dinheiro do banco, ir até a capital, de lá até Goiana, desta para o Rio de janeiro.  Lhe deu um envelope, aqui tens um endereço em Copacabana, vá até essa casa, fale com os donos.  No terreno, estavam escondidas três latas, esvazie cada uma, muito cuidado, pois tem muito ladrão por aqui.  Embaixo do caixa, tem um revolver e munição, vá para longe todos os dias, melhore sua pontaria.  Já perto de morrer, tirou de uma caixa de madeira bem escondida, uma certidão de nascimento dele, com o nome dela, do seu pai.

Teu nome inteiro é José Eduardo Costa Dunkerque, naquele endereço que te dei, está a família Costa, são meus pais, se é que estão vivos.  Cuidado, gostam muito de manipular a vida dos outros.  Nunca me perdoaram porque me casei com teu pai.  Esperavam que eu os cuidasse quando ficassem velhos.   Mas escapei com teu pai.

Ele tinha encontrado numa das casas abandonadas, uma mochila que ela consertou com cuidado.  Tinha uma etiqueta enorme de Company,  essa foi uma marca que teve sua época na minha juventude, todo mundo queria ter uma camiseta, ou uma mochila como está.

Faça um fundo para colocar as bolsas com pepitas de ouro.  Quando alguém perguntava pelo ouro que seu pai recebia vendendo mercadorias, ela dizia que tinha trocado por dinheiro no banco.  Tinha na época alguém que sempre trazia o valor do ouro.  Ele aprendeu a pesar, calcular o valor.  As pessoas nunca pareciam muito interessadas, queriam era a comida.

Sabia que nas caixas escondidas, tinha uma série de bolsas de pano feitas por ela, cheia de pepitas.  Quando mataram seu pai, ele levava dias falando em ir embora.  Aqui o tempo parou, chegou a hora de ir embora.  Cada vez havia menos gente para trocar pepitas de ouro, por coisas do armazém.

Há uma outra caixa, mas esta tens que fazer força para chegar a ela, está embaixo da  caixa registradora, creio que teu pai pensou que os bandidos sabiam disso.

Agora estava ele, preparando sua partida. Tinha forrado a parte debaixo da mochila com o livro de geografia, daria uma parte plana para as bolsas de pepitas.  Quando abriu a primeira caixa a luz de velas, viu que além das bolsas, dinheiro enrolados atados com um barbante, coisas de sua mãe,  contou quanto havia ali, para ele era uma barbaridade.  Na segunda caixa a mesma coisa, foi arrumando os sacos no fundo da mochila, na terceira era a mais velha, viu que as pepitas eram maiores, as notas estavam meio mofadas, mas as limpou.  Perdeu a conta de quantos rolos tinha.  Agora tocava o mais difícil, na última noite, com muito esforço, embora tivesse força, pois nos últimos ano e meio tinha sido ele que cuidava da horta.  Isso lhe fez ficar com músculos, forte.  Estava queimado do sol.   Marialva dizia que parecia um bugre, com aqueles cabelos compridos, que amarava com um trapo velho, as bermudas de calças velhas, mas antes de ir almoçar, sempre tomava um banho no rio. 

Quando alcançou a caixa, ficou pasmo, tudo eram pepitas de ouro, sacos e mais sacos, não eram grandes, cada um tinha pelo menos dez pepitas grandes, muitas pequenas. Na frente de cada uma dizia o peso total das pepitas.

Arrumou a mochila, só tinha uma calça, nem boa, nem má, usada a muito tempo atrás pelo seu pai, um tênis que tinha sido dele, uma cueca, nada mais.  Nesta noite, saiu no escuro de sua casa, foi até quase um quilometro dali, escondeu a mochila, voltou para casa.

No dia seguinte, ainda levou verduras para a Marialva fazer uma sopa para o pessoal.  Ela piscou o olho, o chamou na cozinha.  Se fazes, isto é, porque vais partir.  Toma meu lindo, tua mãe sempre um encanto de mulher, era a única aqui que me dirigia a palavra.  Cuidou de mim quando fiquei doente. O resto era escoria.  Tu sempre me chamaste de Marialva, com respeito, esconda bem isso, que sirva para começares a vida.  Levantou uma tabua da mesa da cozinha, tirou um saquinho, com ouro.  Não te deixes enganar, quando fores a uma loja destas que comprem ouro, escute bem o valor que dizem, visite todas que possas, veras, que todas querem te enganar.  Venda pelo valor mais alto.

Lhe deu um beijo na cabeça, vai meu lindo, vá viver a vida. Quando tiveres dinheiro, corte os cabelos, faça uma limpeza na cara dessas penugens que te fazem parecer já um homem, compre roupa, uns tênis novos.  Vá a vida.

Saia pela porta detrás, eu vou distrair essa gente, pois podem querer te seguir.

Não olhou quanto tinha ali de ouro.   Fez o primeiro quilometro correndo, pois sabia que os velhos não corriam nada.  Recolheu sua mochila, viu se tudo estava ali.  O peso era grande, mas sabia que não podia chamar a atenção.  A cada dez quilômetros, parava, saia da estrada, se escondia na floresta, ficava descansando, observando se não vinha ninguém.  Quando chegou a estrada que ia para a cidade, se escondeu, tirou todos seus trapos, se vestiu, ficou esperando algum carro, ou um caminhão.   Esperou horas, embora não tivesse nenhum relógio para saber do tempo, sabia, pelo sol.  Quando por fim parou um caminhão, pediu uma carona até a cidade, tinha que comprar remédios para sua mãe.

O homem tentou puxar conversa fiada, finalmente desistiu, colocou uma música caipira na rádio.   A muito tempo ele não escutava um, o da casa tinha se fudido.  Quando chegaram na praça, o homem indicou aonde está a farmácia, ele agradeceu, daqui eu me viro senhor, muito obrigado pela carona.

Mas foi para o banco, falou com o gerente que já conhecia, que sua mãe finalmente tinha descansado.  Que lastima, uma das poucas senhoras que dava gosto falar, tinha cultura, educada, nunca quis me dizer como veio parar aqui.  Aliás ela, dona Marialva, era dois opostos na vida, mas todas as duas se via que tinham educação.

Perguntou ao homem se esse banco tinha agência no Rio de Janeiro.  Tenho que ir para lá encontrar uns parentes da minha mãe, a mentira saiu espontaneamente.  Claro que sim, é a nossa central.   Tenho aqui guardado desde que vocês vieram um cartão visa para você, foi o que ela me pediu.  Além de te entregar essa carta que me pediu que guardasse quando viesses.

Então se tenho dinheiro aqui, depois posso transferir para o Rio de Janeiro?

Sim, sem problema nenhum,  olha vou dar uma direção do Banco em Copacabana, meu irmão trabalha lá.  Procura por ele, diga que queres transferir teu dinheiro para lá.  Vamos agora ativar seu cartão, podes comprar nas lojas, comprar bilhete de avião, tudo o mais.

Vocês compram ouro também, dona Marialva me deu uma bolsinha com pepitas.

Não meu filho, mas posso te indicar um comprador de outro.  Vou lhe dar a cotação assim ele não pode te enganar.

Antes queria depositar dinheiro,  como os rolos estavam por cima, retirou, seus livros, o homem ficou admirado, estas lendo Demian?

Olha eu sei quase que cada página de cabeça,  já li tantas vezes que sei tudo.

Ler faz bem a cabeça.  Eu também tenho uma edição velha desse livro.

Foi colocando os rolos de dinheiro em cima da mesa, ele chamou uma funcionária, mandou ela contar o dinheiro.  Esta trouxe uma máquina que contava o dinheiro.  Recontou tudo, separando por notas, por valores.

Ufa, tens um bom capital, mais o que tua mãe tinha aqui no banco, dá para qualquer um começar a vida no Rio de Janeiro.  Quando lhe deu o total do saldo, não conseguia imaginar esse valor.   Será que dá para alugar um lugar pequeno para viver em Copacabana.

Por muitos anos meu filho, ah bons tempos de Copacabana, eu vivi na  Prado Junior, nos meus tempos de faculdade.  Me esbaldava, meu irmão diz que não é mais nada daquilo.   Ali só viviam putas e viados.

Ia perguntar se ele era, mas não disse nada. Lhe perguntou como fazia, teria que ir até a capital para pegar um avião.  Bom podes ir amanhã de ônibus, mas acho que não conseguiras mais nenhum hoje.  Ou se quiseres amanhã tenho uma reunião por lá, te levo, ajudo a comprar bilhete de avião.

Agora tenho que trocar esse saquinho de pepitas.

Espere.  Passou a mão no telefone, ligou um número,  ele nunca tinha visto ninguém falando por um. La na vila não tinha.   Manuel, vou te mandar um cliente, é jovem, mas não é idiota, ele sabe a contação do dia.   Pediu a moça que o acompanhasse a loja do Manuel.   Esse quando viu a bolsa, ele não tinha percebido tinha uma marca.  

Uma bolsa da Marialva, sem dúvida nenhuma.  Viu anotado o peso, pesou todas as pepitas para conferir.  Disse um valor.

Moço, por quem me tomas, eu sei matemática. Já fiz o cálculo de cabeça, o senhor tá me mangando dinheiro.

Este riu, bem que meu amigo do banco me avisou.  Olha se tiveres mais, eu compro, por um valor superior ao que ele te disse, aqui do lado tem outra loja, podes ir olhar o preço.

Tá bem vou comparar.   No que entrou na outra loja, tinha um homem vendendo pepitas, o preço era inferior.  Quando o homem saiu, fez um comentário com o outro que estava dentro, ou o sujeito é um otário, ou roubou essas pepitas, porque nem discutiu o preço.

Como quem não quer nada saiu.  

Manuel disse, não gostou desses dois não é. Dois grandes filhos da puta.  Como te disse, se me vendes mais, posso comprar, tenho que cobrir a minha cota, que está baixa.

Ele tirou uma parte dos sacos. Viu que todos tinham peso, mas os repesou todos.  Ele foi calculando mentalmente pelo valor que lhe tinha falado o do banco.  Por isso tudo te acrescento mais 50%.  Se tens mais guardado, te pago o dobro.  Era muito dinheiro.

Colocou tudo em cima da mesa, o outro esfregava as mão, uau garoto, me salvas a vida, o emprego nesta merda de buraco.

Coloque tudo na mochila, vamos ao banco, transfiro o dinheiro todo para sua conta.  Assim é mais seguro.

O Banco estava para fechar, sua barriga roncava, não comia desde manhã.  Posso aguentar.

Na frente do gerente, fez um cheque no valor, esse garoto me salvou o pescoço, lhe paguei o dobro do valor.   Era uma soma absurda de dinheiro.

Zé vamos fazer uma coisa, tens dinheiro para seus primeiros dias, leva um valor baixo, mas lembre-se tens o cartão de crédito para usar, já o ativei.  Espera, vou ver se pego meu irmão ainda no banco, que este é louco por praia.

Telefonou, lhe falou que mandava uma pessoa lhe procurar, lhe disse seu nome, ele vai pedir que lhe transfira o dinheiro que tem aqui. É um jovem milionário.  Ajude o mesmo no que for preciso, será um bom cliente para ti.

Depois que o Manuel foi embora disse, tiveste sorte, o mês passado ele não fechou a cota, quase perde o emprego.  Por isso te pagou muito mais. Tens aonde dormir está noite, eu penso sair logo cedo para Palmas. O que acha?

Por mim tudo bem, estou é morto de fome. Não como nada desde manhã.  Preciso comprar alguma coisa de roupa.  Só tenho o que estou vestindo, meus livros nada mais.

Espere, vou fechar o banco, te levo para comer.   Se preferes podes ficar na minha casa, assim amanhã saímos cedo.   Não é qualquer dia que posso hospedar um jovem milionário.

Comeram um sanduiche ao lado do banco de pão com carne acebolada, com a fome que tinha, quase pediu outro.  Tomou uma coca cola, sem querer arrotou.  O outro ria.  Podes me chamar pelo meu nome, é igual ao teu Zé Carlos.

Depois o levou em duas lojas, comprou outra calças jeans, duas camisetas e cuecas, viu uma mochila parecida a que tinha, mas só que nova. A comprou, pagou tudo com o cartão.

Vês como é fácil, só tem que depois controlar teus gastos, inicialmente guarde esses recibos, anote num caderno, até teres um Laptop.

O que é um Laptop?  

Te mostro o meu quando chegarmos na minha casa.

Ele queria tomar um banho, colocar a roupa nova, limpa.   A casa era muito simples, pequena, mas limpa.  Vives aqui sozinho?

Sim tenho mais um ano de contrato, ninguém quer vir para cá, então te dobram o salário, conta como um ano a mais para aposentadoria.  Teve que explicar o que era isso.  Mas ele entendia logo o que era.

Lhe mostrou o Laptop.  Quando abriu, saiu logo de cara, uma página gay.  Perdão essa é a minha distração.  Mas ele quis ver.   Eu, meu amigo Bento, nos masturbávamos, nos beijamos, mas nunca fizemos sexo.

O deixou ver um filme, viu que ele ficava de pau duro.  Eita garoto. Gostas disso não é.

Tenho que aprender, nunca fiz.

Aqui tens um professor a tua disposição.   O levou para a cama, lhe ensinou muita coisa, mas não deixou que ele le penetrasse.   Isso não quero.  O outro sim. 

Caramba é bom não é mesmo?

Sim gostei, mas nem sabia como era.  Obrigado por me ensinar.

Olha Zé tens que tomar cuidado, lá no Rio, Copacabana principalmente, que é conhecida como Copacabana me engana.  Tem muito malandro solto.  Não vá fazendo sexo com qualquer um, nunca fale de dinheiro na frente de ninguém.  Estão sempre dispostos a dar um golpe.

O outro Zé o provocou novamente, fizeram novamente.  Caramba, podias ficar morando aqui comigo, ia ser o máximo.

Eu estou esperando a muito tempo para ir embora, seu Zé,  tenho que recuperar o tempo que estive cuidando de minha mãe, estudar, recuperar uma vida inteira.

Isso lá é verdade. Tens uma vida inteira pela frente. Mas sempre se lembre de mim, tenha cuidado, use camisinha.  Lhe mostrou uma, veja, vou colocar no seu piru, viu é fácil isso te protege de doenças venéreas.   Disse isso, se sentou em cima provocando uma sensação fantástica no garoto.

Dormiram abraçados um com o outro.  Ele despertou como sempre estava acostumado, escutou o outro tomando banho.  Esperou que saísse do banheiro. Da porta o outro disse, venha, te dou um banho.  Foi a melhor coisa que tinha experimentado. 

Não vou esquecer do senhor nunca, foram umas aulas muito boas.  Os dois riram.

Tomaram café, Entraram no carro, saíram pela estrada.  Andei pesquisando, creio que o melhor é que pegues um avião até Goiana, de lá outro até o Rio de janeiro.  Vamos passar no aeroporto, pode ser que tenhas que dormir hoje em Palmas.  Se quiseres posso continuar com as lições de sexo.  Você gostou?

Sim muito, nunca tinha feito, me trataste bem, é bom receber carinho junto não é, além do Bento, nunca tinha beijado mais ninguém.

O outro ria.  Quando chegaram ao aeroporto, foram os dois olhar para comprar bilhete, numa agência, a garoto explicou se fosse no dia seguinte, ele pegaria o primeiro voo, depois em seguida outro direto até o Rio de Janeiro. Comprou o bilhete com o cartão de crédito.  Vou telefonar ao meu irmão, para ele conseguir um pequeno hotel para ti, depois alugas um apartamento.  Ele deve ter muitos clientes que tem apartamentos de temporada.  Se gostares de algum inclusive podes comprar. Mas isso depois conversas com ele.

Ele é mais velho que você?

Nada, ele é o caçula da família, temos uma diferença de idade de pelo menos 10 anos.  No meio tem um bando de mulheres, todas casadas, cheias de filho.

Eu acho que ele gosta do mesmo que a gente, mas é muito fechado.

Agora vou para minha reunião, te deixo no shopping se queres comprar alguma coisa, mas lembre-se aqui sempre é mais caro que no Rio.

Se saio cedo da reunião, me encontro contigo lá.  O que ele ficou louco foi por uma livraria, nunca tinha entrado em nenhuma, se distraiu tanto, olhando os assuntos, perguntou a um vendedor se tinha mais livros de Hermann Hesse?

Sim creio que temos uma coleção.   Mas o mais vendido é esse Sidarta, fala muito no espírito.

Comprou esse, assim tinha alguma coisa nova para ler.  Sentou-se num banco ficou lendo até que o Zé apareceu.   Foram almoçar, depois ele arrumou um hotel para passarem a noite.  Eu disse que tinha que aproveitar para ir ao médico.  Lhe ensinou muitas coisas.

Eres um bom professor Zé. 

Olha outro Zé, se eu fosse esperto mesmo, tinha te convencido de ficar aqui comigo esse ano que falta, mas sou muito velho para ti.  É certo que ganharei mais anos para aposentadoria, ganho o dobro, mas me sinto terrivelmente sozinho aqui.  A solidão é uma coisa difícil de controlar, essa sensação, me faz ver os vídeos pornográficos que viste ontem em minha casa.

Posso te aconselhar muitas coisas.   Uma vá devagar com a coisa, não fale para ninguém do teu dinheiro.  Procure levar uma vida que goste.  Já vi que gostas de ler.  Estude o que não pudeste aqui. Já falei com meu irmão para te ajudar.  Quando chegares ao Rio, ele me disse que vai te esperar, lhe passo o número do voo, a hora que chega.  Já conseguiu quando falei com ele, um hotel perto do banco aonde trabalha.  Só te digo uma coisa, vá com cuidado, pois te tomaram por um caipira.   Olhe observe, aprenda a se comportar como mais um deles.  Aproveite a praia, mas sempre com cuidado. Faça um corte nesse seu cabelo tão bonito. Dizia isso passando a mão por eles, lastima não ter te conhecido antes.  Ficaria mais anos aqui.

Mesmo com meu irmão, primeiro observe para ver se confias nele.  Sempre atenção, pois o carioca sempre faz muita festa, mas no fundo não passa disto uma festa.

Espero que realmente sejas feliz por lá.  Qualquer coisa não te esqueça, aqui tens um amigo, um professor disse rindo.   Quando tenhas um celular, me chama sempre que quiseres ok.

Gostava do cheiro daquele homem maduro, viu que os cabelos brancos começavam a aparecer em sua cabeça.  Estavam abraçado, ele por detrás, ele meio dormido, sentiu uma ternura incrível por esse homem.  O que tinha tido com seu amigo Bento, realmente era uma coisa de criança.

Sem se dar conta ficou excitado, quando viu o tinha penetrado, este estava alucinado, acordar assim, é maravilhoso.  Ah meu garoto bonito.   Logo esqueceras desse seu amigo.

Acredito que não, Carlos, pela primeira vez não o chamava de Zé.  Assim não nos confundimos. Tomaram banho rápido de manhã, saíram para o aeroporto.   Como não tinha bagagem, somente a mochila, tudo foi rápido.   Carlos lhe deu o número do seu celular, me chame de noite quando estiveres livre.

Até Goiana, o vou foi rápido, desceram, foram guiados a outro terminal, de lá embarcou para o Rio.  Quando o avião chegou, fez como um voo rasante por cima da cidade, ficou sem folego pelo tamanho da mesma.   Sentiu um certo medo, se comparo isso com a vila, é como um peido rápido.  Desceu do avião, seguiu o resto dos passageiros.   Quando saiu, meio tonto, viu um homem alto com uma placa, José Eduardo Dunkerque, levou um tempo olhando a placa, era ele, não estava acostumado a isso,  bateu no ombro do homem, uma versão mais jovem do Carlos.

Sou eu, perdão, mas não estou acostumado a tanta confusão de gente.  O outro riu, meu irmão sempre diz isso quando vem de férias.   Meu nome é André Fontoura, como ele. Venha meu carro está no estacionamento.

Foi o tempo todo falando, descrevendo os lugares por aonde iam passando, a Universidade Federal do Fundão, depois disse que vamos cortar caminho, passando pelos tuneis.  No primeiro ficou assustado, nunca tinha passado em nenhum, no seguinte já ria.

De que estas rindo?

No primeiro túnel me deu medo, mas nos outros achei engraçado, isso de ter um pedaço da cidade entre um e outro.

Pois é tudo para cortar caminho.  Agora imagine isso num horários de Rush.

O que é hora do Rush?

Ah é a hora que as pessoas ou vão, ou voltam para casa.  Nos finais de semana os tuneis são uma loucura.

Não sei ainda aonde queres viver, mas Copacabana e Ipanema, estas no centro do Rio de Janeiro.  Meu irmão Zé que foi o primeiro a sair de casa, o resto da família vive na Tijuca, que é conhecida como zona norte.  Imagina quando eu ia visita-lo para ir à praia, era uma festa.  Ele é super boa gente.   Teve o azar de se meter com homens errados. 

Ele foi bacana comigo.  Conhecia minha mãe que era sua cliente, ela morreu há uns dias, eu a enterrei junto ao meu pai, ali ao lado do rio, aonde gostavam de se sentar no final do dia.

Tu mesmo enterraste tua mãe?

Sim, senão quem ia fazer isso.   Eu a enrolei em vários lençóis velhos que tínhamos em casa, a Marialva me ajudo.

Quem é a Marialva?

Ela era a dona do Putero da vila, quando todo mundo foi embora, porque não se achava mais ouro, ela fechou, ficou vivendo com o dono do bar.  Acho que ela nunca vai sair de lá.

Tinha uma vida num Paraiso, trocaste por isso daqui.

Não fala assim, pois teu irmão está louco para voltar.

Lhe falta pouco para se aposentar, com esse tempo lá, lhe concedem aposentadoria rápido.

Pelo visto conversaram bastante?

O que queres saber se dormi com ele?

Mais uma para aprender, eres franco.  

Estou acostumado a falar o que penso, minha mãe me ensinou a falar assim.  Dizia que quando comedimos as palavras, as pessoas se enganam a respeito da gente.

Sim dormi com ele, me ensinou a fazer sexo.  Por mais um pouco fico com ele por lá.  Mas quero estudar, recuperar o tempo que perdi. Por exemplo falaste uma palavra em inglês,  eu não sei nada.

Trouxe os papeis que me deram da escola, minha mãe os tinha guardado, mas não sei se valem aqui.  Tenho que arrumar um emprego também, gosto de trabalhar.

Como arrumar um emprego, se tens dinheiro a bessa. 

Não sei ficar à toa, la eu cuidava da horta, levava legumes ao Bar para a comida, fazia comida para minha mãe.  Fazia uma coisa que amo, mas o Carlos disse que tenho que tomar cuidado, gosto de nadar. Claro não tenho ideia da diferença de um rio para uma praia.

Depois te mostro, moro perto desse hotel, depois do trabalho, sempre vou à praia, mesmo que seja inverno.   Vou andar pelo calçadão.

O que é isso.  

Ao largo de toda praia, ou orla marítima, tem um calçadão famoso pelo seu desenho, nunca viste desenho animado em criança.

Ele começou a rir.  Se a única coisa que tinha na vila era radio, um na casa da Marialva, outra na nossa. Quando estragou, até gostei, pois não gosto de música caipira.

Nem eu, um verdadeiro horror, sou do samba.  No sábado vou ao samba com uns amigos, se quiseres podes vir conosco.

Nem imagino como seja. Vamos ver se me assento primeiro.

Preciso encontrar um apartamento pequeno para viver, tudo o que tenho está nessa mochila.  Necessito de tudo, roupa, embora gosto disso, calças jeans, camiseta, tênis.  Eu andava todo o tempo de calças curtas, de velhas calças cortadas, a maior parte do tempo sem camisa. Perto do rio é muito húmido.

Tomavas banho no rio nu?

Eu, como havia de ser?

Aqui não podes ir à praia assim.  Terás que comprar uma sunga.  Falar contigo é como sentir um bafo de inocência na cara.  Mas cuidado aqui no Rio pode ser perigoso.

Teu irmão já me disse mil coisas.

Que disse de mim?

Ué, pergunte para ele, não vou ficar no meio de uma conversa que acho que os irmão deviam ter.

Tinhas irmãos?

Nada, só meu amigo Bento, mas não tenho ideia do que foi feito dele.  Era meu companheiro para tudo, nascemos na mesma época lá na vila,  Mas ele foi embora, quando acabou o ouro.

Fico imaginando uma pessoa sair do Rio de Janeiro, ou São Paulo, se meter num lugar desse, sem conforto nenhum, tudo por ouro.  Há louco para tudo.

O meu irmão Zé, já viveu em Manaus, no Mato Grosso,  não entendo como ele lida com a solidão.  

Ah ele me disse para conseguir um celular, para ligar para ele. Eu o quero ter como amigo.

Mas ele é muito velho para ti.

André, vivi todo esse tempo no meio de velhos, tirando o Bento, todos eram muito mais velhos do que eu.  Tudo que sei, aprendi escutando as conversas deles.

Do que gostaste do meu irmão.  

O cheiro dele, o contato da pele, nunca tinha dormido com ninguém.  

Caramba, parece que estas apaixonado pelo meu irmão.

Isso eu não sei, porque só amei a minha mãe.   Fiquei para trás porque não podia imaginar deixa-la por lá sozinha.   Ela várias vezes me disse para vir para cá.  Mas me neguei.

Agora pelo menos terás uma lembrança para guardar, do meu irmão.  Quem sabe ele vem para o carnaval.

Isso deve ser uma loucura, uma vez escutei no rádio o locutor falando do carnaval do Rio, não conseguia imaginar como seria.

Bom estamos chegando ao hotel, já sei que não tens sunga de praia, fazemos o seguinte, te levo a recepção, deixamos tua mochila no quarto, aqui perto tem uma loja, vamos a minha casa, trocamos de roupa, vamos a praia, lá deve estar meus amigos. Cuidado, ficam loucos quando vem carne fresca no pedaço.

O que quer dizer isso?

Vamos combinar uma coisa, tudo que não souberes, venha ao meu lado, pergunta, assim não vão rir de ti.   Carne fresca no pedaço significa uma pessoa nova para fazer sexo.

Ah, entendi, não significa que eu quero fazer sexo com todos eles, nem penso. 

Parou na frente do hotel, André foi dizendo que era antigo, mas que os quartos eram bons. Se registrou, o levaram ao quarto, deixou a mochila, desceu outra vez. 

André o levou a uma loja, compraram um celular de carga, não tenho ninguém ainda com quem falar, quanto devo colocar de carga.

Ponha uns cinquenta reais, a não ser que queiras falar muito com meu irmão?

Claro que quero falar com ele.  Depois necessito do teu, para marcarmos as coisas do banco,  das pessoas que for conhecendo. 

Cada vez que for necessário colocas um valor maior.  Até saber como vai ser.

Mas terá que carregar primeiro a bateria.  Na praia te passo o meu, falas com o Zé. Ok

Comprou uma sunga negra.  Quando mostrou ao André, caramba garoto, que corpo tens, a cor está ótima.

Depois podes comprar bermudas no shopping, lhe explicou como ir até lá.

Quando viu o mar, ficou alucinado, mas se controlou para que não rissem dele, aliás tinha tido uma ideia desde o avião.  Um grupo de homens acenou para o André.

Ele apresentou a todo mundo.

Me desculpem se não guardar os nomes,  tenho muita informação na cabeça agora.

Sentaram-se na areia, tomando cerveja.  Ele disse que estava  de estomago vazio para beber. Só tinha comido no avião. 

André lhe apresentou um dos homens, esse pode te ajudar, Miguel tem uma imobiliária, diga o que queres.

Apertaram as mãos, o outro lhe comia com os olhos. 

Ele riu, sou carne fresca na praia, não é?

O outro soltou uma gargalhada, o garoto tem humor.

Olha Miguel, gostaria de um apartamento pequeno,  para uma pessoa sozinha.  Nada muito grande. Não tenho moveis.  Agora vendo o mar, não sei se é muito caro, um que esteja de frente para o mar.   Tampouco tenho noção de quanto custa um aluguel.

Veja, tenho um de um cliente, que me pediu uma pessoa de confiança, pois ele vai passar quase um ano fora trabalhando, para a empresa que tem filiais pelo mundo.  Não é grande, mas tem de tudo, fica de lateral para a praia.  Podemos ir amanhã se quiseres, vou te dizer o meu número de celular, colocas no teu.

O dele ainda tem que se carregar Miguel.   Espera, chamou um garoto que vendia cerveja numa barraca, perguntou se podia emprestar o carregador para seu amigo.  Claro Miguel, você manda.

Olha quando vieres a praia fica aqui na barraca do Carlinhos.

Ele se levantou apertou a mão do Carlinhos, obrigado por me emprestar seu carregador.

Uau, vê se vocês aprendem um pouco de educação com esse garoto.  Eu estou cansado de escutar ei, psiu, me traz uma cerveja.  Psiu, eu lá sou passarinho por um acaso.

Todos riram.  Ele não entendeu, mas achou engraçado.  Queres beber alguma coisa. 

Tenho que comer alguma coisa.

Espera, garoto, chamou um menino que estava ali perto, vai até a barraca da tia Eulalia, vê o que ela tem ainda para comer.

O menino voltou correndo, ela tem pasteis de camarão, de queijo que acabou de fazer. 

Diga que mande uma boa ração aqui para meu novo amigo.

E os outros não querem comer?

Vejam, esses marmanjos, não se preocuparam se tinhas fome ou não, eles que levantem essas bundas gordas da areia, vão eles mesmo buscar.

Olha só disseram todos, o Zé já conquistou o coração do Carlinhos.

Deixa de me encherem o saco, cambada de sem vergonhas, estão todos de olho no piru do garoto que eu sei.  Mas só de olhar nos olhos dele, os digo, vocês não fazem o tipo dele.

Carlinhos vou ficar louco, se for assim.  Lá de onde eu venho, eu era como se fosse uma criança pequena no meio de muitos velhos.  Não estou acostumado a ser “carne fresca” para ninguém.

Eu escolho com quem fazer sexo.

André soltou, ele está apaixonado pelo meu irmão mais velho.  Creio que faz seu tipo.

Não é verdade André, ele foi uma pessoa genial comigo. Falar nisso liga para ele, prometi, sempre cumpro o que prometo.

Mano, teu menino está aqui na praia com um bando que esta babando por ele.

Agora que já tinha comido, estava tomando uma coca cola.  Olá Carlos, como está, a viagem foi tranquila, mas quando o avião fez como um passeio por cima do Rio, fiquei deslumbrado.

Se levantou, ficou andado por ali falando com ele.

Garoto já sinto tua falta. 

Ele riu, pois esses daqui pensam que sou carne fresca no mercado.  Segundo teu irmão estão babando por mim.   Mas eu preferia estar contigo.  Anote o número do meu celular, está carregando, assim de noite eu falo mais contigo.

Eu não disse, viram o tom como ele fala com meu irmão.  Isso é paixão na certa.

Ele riu, nem sei o que é paixão, amor nada disso, sou jovem demais para saber dessas coisas.

Quando disse sua idade, ficaram de boca aberta.  Vou fazer vinte anos, daqui uma semana.

Temos que fazer uma festa.

Neste sábado quem vai ao samba.

Que pergunta idiota, todo mundo né.   Vamos tirar a virgindade desse garoto no samba.

Foi até a agua, acompanhado por todos.  Como se faz para nadar aqui?  Num rio é fácil, buscamos lugares que não tem corrente.

Aqui as pessoas na verdade se molham, dão um mergulho, ou ficam aonde dá pé. Explicou o que estava falando. Viu como mergulhavam, era o mesmo que estar no barranco como fazia com o Bento,  viu que esperavam uma onda , mergulhavam por cima dela.   Experimentou, achou ótimo, sem querer engoliu um pouco de água, era um sabor diferente.  Viu que algumas pessoas nadavam não no sentido das ondas, mas entre elas. Experimentou, dava certo.

Quando saiu os amigos do André o olhavam rindo.

O que foi?

Tens que apertar a sunga, quase ficas de bunda de fora na hora do mergulho. Eles aqui estavam admirando seu corpo.

Esperem eu não sou uma mercadoria, não gostei disso não. Olhou um por um, sou uma pessoa que fala o que pensa.  Não quero fazer sexo com nenhum de vocês ok.

Ficaram com a boca aberta, não estavam acostumados a escutar uma pessoa que falasse assim.

Miguel, amanhã te telefono, a que horas abre a imobiliária.

As 10 da manhã.

Ele sem querer soltou, que era muito tarde, estava acostumado a se levantar as 7 da manhã.

Espera, meu amigo que quer alugar o apartamento se levanta cedo, vou falar com ele, assim caio da cama fazendo negócios logo cedo.

Falou com o outro.  Só o escutava dizer ok, ok,  ok.

Perfeito amanhã as oito passo no hotel para te buscar, vamos ver o apartamento, assim ele te conhece.

Se despediu de todos apertando a mão, André foi com ele até o outro lado da avenida.  Sempre falas assim com as pessoas.  

Já te disse André, falo como fui educado.  Não gostei muito de ser examinado como um peixe que acabam de tirar de um rio.  Não sou uma mercadoria.  Honestamente fiquei chateado, é mais fácil que eu faça sexo com o Carlinhos, que com qualquer um deles.

Carlinhos brinca, mas é casado, tem 4 filhos.  Hoje a mulher não estava na praia, mas não permite que ninguém toque no que é dela.  Acabaram rindo.

Ele aproveita para se engraçar com o pessoal, porque a mulher não estava ali.  Aquele garoto que foi buscar os pasteis, é filho dele.

Caramba, vim embora sem pagar.  Virou-se esperou o sinal fechar, viu que faziam assim, foi até o Carlinhos, me desculpa amigo, me esqueci de te pagar, tirou dinheiro da calça, perguntou quanto era, lhe pagou, chamou o garoto lhe deu 10 reais.  Obrigado por ir buscar os pasteis, diga a senhora que estavam fantásticos.

Abanou a mão para o pessoal outra vez, foi embora, antes disse para o André sei que gostas de ficar na praia. Já sei aonde está o hotel, basta atravessar a rua, seguir em frente, no meio do quarteirão.

Isso, mas fico mais tranquilo se vou contigo. 

Ok André, mas se me proteges muito, não aprendo a me virar.

Mesmo assim foi com ele.  Não viste a cara do pessoal, tem uns dois que são malandro, tomam cerveja, vão embora, como se tivessem esquecido de pagar, que fica por último na praia, acaba pagando por todos.  Às vezes é foda isso.  Mas por hábito nos calamos.   Tenho que aprender ser como tu, falar.

Aliás teu irmão não sabes que é gay?

Não sei?  Por quê?

Se você não conversa com ele, como ele vai saber?     Imagina como ele se sente sozinho por lá sem ter com quem falar.

Na porta do hotel se despediu, agradeceu a atenção.  Amanhã vejo o apartamento, depois peço para o Miguel, me dizer aonde é o banco, para pedirmos a transferência do dinheiro.

Eu já olhei tudo, só terás que assinar os papeis pedindo a transferência, o número da conta continua o mesmo. 

Subiu, tomou um banho, se vestiu outra vez, desceu, perguntou aonde poderia comer, depois passou por uma farmácia, para comprar pasta de dente, escova, tudo o que precisava.

Estava cansando, ver tanta gente junta o tinha feito se sentir invadido.

Quando voltou, o celular estava já carregado, inaugurou o mesmo chamando o Carlos.

Caramba, não esperava que me chamasse de novo.  Estava rodeados de gente sarada, chamas um velho.

Pois prefiro a ti, que todos eles, teu irmão sabe que fizemos sexo, porque lhe disse que preferia a ti, do que todos eles.  Não estão muito acostumados que se diga a verdade.  Achei uma merda que me ficassem olhando como uma mercadoria.

Acabei vindo embora, tanta gente me faz sentir invadido.  Teu irmão me disse que talvez venhas para o carnaval?

Sim pode ser.  As vezes vou para encontrar velhos amigos.  Mas na farra não caio, nunca gostei muito disso.

Me convidaram para ir ao samba com eles no sábado, irei para ver, mas se não gosto, venho para o hotel.             Amanhã vou ver um apartamento, um dos menos chatos do grupo tem uma imobiliária, me falou de um amigo dele, que vai passar fora um ano, é que o apartamento, está bem, fica de lateral para a praia.  Vou ver amanhã as 8 da manhã, depois vou ao banco ver as coisas com teu irmão.

Estou falando contigo, me lembrando do cheiro do teu corpo.

Olha garoto não fique falando assim, nossa diferença de idade é muito grande para ficarmos fazendo fantasias.

Então queres que te minta?

Não, eu sei como eres, duas noites contigo, tive mais que com todos os homens que conheci.

Bom se eu conseguir um apartamento, quando se vieres para o carnaval ficas comigo, assim podemos nos conhecer melhor.

Não queria desligar, sentiu que o Carlos também.  Uma última pergunta, acreditas que tudo dará certo?   Teu irmão ficou rindo, quando lhe disse que ia procurar um emprego.

Pensas em trabalhar?

Claro, não imaginas, que vou ficar todo dia na praia, sem fazer nada.  Tenho que fazer uma lista do que quero fazer com a minha vida.  Amanhã leio para ti, tudo ok.

Vais me chamar amanhã?

Claro, com quem vou falar, a não ser contigo.   Não sabia por que, mas gostava de falar com ele, se sentia bem.

Um beijo lhe disse o Carlos, durma bem.

Tu também, vou sentir tua falta na cama.

Para garoto, senão sou capaz de largar tudo aqui, ir correndo para o Rio.

Durma bem.

Agora sim, se sentia sozinho pela primeira vez na vida.             Na vila, sempre ia ao bar ficar escutando a conversa dos velhos.    Não bebia, as vezes ajudava a limpar o balcão. Depois ia para casa ficar com sua mãe.   Contava o que tinha escutado.

Começou a ficar com sono, se lembrou que ainda não tinha aberto o envelope que sua mãe tinha deixado com o Carlos.  Farei isso amanhã.

Tinha dormido com as cortinas abertas, não estava acostumado, gostava de ver o sol entrar pela casa adentro.     Viu que era cedo, mas se levantou, tomou um banho, limpou a cara como dizia a Marialva, pois tinha penugens, de barba nada.         Não sabia por que sempre se lembrava dela. Pois talvez porque fosse a pessoa que sabia o que ele era, nunca o criticou.      Um dia disse, que outro teria partido deixando a mãe para trás.   Vá se entender a cabeça dos homens.

Deixou a carta do lado de fora, queria ler com calma.  Não podia imaginar o que sua mãe queria lhe dizer.  Depois de tantas conversas que tinha tido.

Desceu para tomar café, era o único por ali.  O garçom disse que era muito cedo, os hospedes gostam de dormir até tarde.

Logo chegou Miguel com uma cara de sono de fazer gosto.  Fui dormir tarde, ficamos tomando cerveja, depois fomos jantar.  Tu foste o assunto das conversas.

Não fez nenhuma pergunta sobre isso.

Não sentes curiosidade sobre o que falamos?

Não.  Olha Miguel, ontem fiquei ofendido, entendo que entre vocês existe essa coisa de carne fresca no pedaço, mas eu assim me sinto uma mercadoria.  Gosto do Carlos, o irmão do André, foi o primeiro homem com quem fiz sexo, além de sentir por ele uma coisa que não sei explicar. Estivemos ontem a noite falando horas.  Uma grande pessoa.

Sim ontem todos se surpreenderam com o André, te defendeu quase saindo no tapas com um do grupo que já foi seu namorado.  Este dizia que estava apaixonado por ti.

Nos conhecemos ontem, Carlos lhe pediu que me ajudasse.

Pois é, o André é uma pessoa difícil.  Disse a todos que gostaria de ser como tu, que falas tudo o que pensa, sem se importar se ofende.  No nosso grupo, sempre há certa mentira piedosa.  Nem sempre se fala tudo.  Eu gostei disso.  Ah, antes que me esqueça, o dono do apartamento é uma pessoa famosa, acha que todo mundo quer transar com ele. 

Realmente o tipo era um pedaço de homem,  mas ao entrar no apartamento, se sentiu oprimido, as paredes estavam cheias  de quadros, por aonde se olhasse havia obras de arte.  O apartamento ele gostava, mas havia coisas demais para seu gosto.  Se lembrou da casa dos seus pais, a única coisa que havia na parede era um calendário velho.  Ele sempre tinha visto o mesmo ali.

Depois de ver o apartamento inteiro, o homem virou-se para ele, perguntou o que achava?

Gosto, mas me sentirei invadindo um espaço que não é o meu.           Agradeço ter acedido a me  mostrar o apartamento, mas não é o que quero.        Como lhe dizer, só gosto que as paredes são brancas.   Necessito de um apartamento que possa me sentir meu.

Lastima, gostei da sua cara. Quiça poderíamos conversar a respeito.

Ele entendeu imediatamente a mensagem.  Não obrigado, tenho um dia complicado hoje, daqui tenho que ir ao Banco, tenho que trazer meu dinheiro para cá.

Bom se é assim, sinto muito, falem com o porteiro, tem um senhor alugando ou vendendo um no sexto andar, igual de tamanho que o meu, mas está em mau estado.

Falaram com o porteiro, esperem o proprietário também mora aqui. Vamos subindo que ele nos encontra lá.

O apartamento dava lastima, paredes com muitas cores, mas com uma vista impressionante, menos barulho talvez.  Não tinha nenhum moveis.  As portas dos armários do quarto estavam no chão, alguém tinha destroçado o interior do mesmo.  Os da cozinha iguais, mas tudo precisava de uma limpeza, arrumação. 

O que aconteceu aqui?

Quem respondeu foi um senhor de cabelos brancos desde a porta.       O último inquilino era um filho da puta, se foi levando todos os moveis, fez isso de madrugada, quando não estava o nosso amigo aqui o porteiro.  Verdade José?

Ainda destroçou tudo, nem sabia que tinha pintado as paredes assim.

Uma merda total, estou mais para vender o mesmo que para alugar.

Ele foi até perto da janela, viu que a beleza da praia, com o sol que já tinha subido um pouco fazia como a marcação de um largo caminho.

Eu alugo com direito a compra, se o senhor for vender, tenho direito a compra antes que qualquer um.

Interessante.  Mas já pensou que vais ter que reformar inteiro? Comentou Miguel.

Sim, mas eu gosto da vista. Olha o Carlinhos montando a barraca.  Como ele conhece todo mundo pode ser que saiba quem pode fazer isso para mim.

Fico com o apartamento, o senhor combina tudo com o Miguel, eu posso pagar os meses de adiantado que o senhor pedir.

Mas você nem perguntou o preço do aluguel.          Isso é contigo Miguel, um bom preço sempre discute o dono de uma imobiliária, sabendo que vou ter que reformar o apartamento. Se preciso voltar com alguém quem tem a chave?

Eu, disse o porteiro.

Já volto.   Desceu até a praia, foi falar com o Carlinhos.  Lhe deu bom dia, a cara do garoto era de sono.  Dormimos tarde ontem.  Ele está morto de sono. 

Carlinhos, podem hoje fazer gozação contigo, pois ontem eu disse que preferia fazer sexo contigo, do que com aqueles que estavam comigo.            Me senti muito ofendido, parecia que olhavam uma mercadoria.

Eles são assim mesmo, mas no fundo estão sempre sozinhos, porque não sabem amar, nem ser amados.

Vamos ao que me traz aqui, mostrou Miguel que estava na janela.                 Estou alugando este apartamento, precisa de uma boa pintura, limpeza, uma pessoa que coloque as portas dos armários no lugar, vocês conhece alguém que possa fazer isso.

As portas essas coisas posso fazer eu, a limpeza, pintura minha mulher faz.  Bem como uma boa limpeza em tudo.   Acho que ela está justamente fazendo a limpeza num apartamento daí.

Tico, fica aqui com as coisas que eu já volto, vou com nosso amigo, ver esse apartamento, foi atravessando a rua, falando pelo celular.   Perguntou que andar era.  Sim, sim, te esperamos lá.

Quando chegaram o Carlinhos disse, que merda fizeram aqui.  Nisso entrou pela porta uma mulher que mais parecia um homem.      Ele entendeu, Carlinhos era o frágil da relação.  Ela se parecia até certo ponto com a Marialva.

Lhe apertou a mão.  Carlinhos disse que podes arrumar o apartamento para mim.

Ela andou tudo com as mãos no bolso, parecia um homem, só dizia, que merda, como podem fazer isso.

Posso arrumar sim senhor, posso pintar, limpar tudo, as portas ajudo o Carlinhos, passou a mão pela cara dele, como um carinho. Essa cozinha está um nojo.    Agora se fosse o senhor, trocava, as lâmpadas, essa luz amarelada, dá uma cara pior ao lugar.      O banheiro, tinha uma banheira, um chuveiro a parte.  Aqui tem que esfregar de cima a baixo.    Podemos pintar o teto de branco para clarear.   Trato feito.  Basta me dizer quando podem começar.      Hoje mesmo a tarde posso colocar as portas no lugar, terei que comprar dobradiças novas, agora o melhor, retirar tudo do interior, pintar de branco.

Carlinhos, eu nunca tive armário na vida, nem sei se tenho roupa para colocar dentro. Começou a rir.  Viu que eles não entendiam.

Eu vivia num casebre, que deve ser como essas casas na montanha, toda feita de pau a pique, na beira do Tocantins.  Não tínhamos nem portas, as janelas, se tapavam com um troço de pano.

Minha cama Carlinhos era um colchão no chão,  essa noite despertei várias vezes, com a sensação que estava no alto.  A única cama era a da minha mãe.

Como é seu nome, perguntou à mulher do Carlinhos?

Dejanira seu Zé, foi como tinha visto seu marido lhe chamar.

Ótimo, tirou dinheiro do bolso, quanto precisas para comprar tudo?

Mais fácil o senhor me pagar depois,  aqui não se faz isso, muita gente pega o dinheiro, desaparece. 

Bom o Carlinhos me cobra então tudo depois.  Vou fazer o seguinte, tenho que ir ao banco, para transferir meu dinheiro para cá.  Depois vou comprar uma cama, lençóis, travesseiros, pode ser que o Carlos venha ficar comigo no carnaval.

Você conhece o Carlos irmão do André, Carlinhos?

Sim o vi um dia na praia, é muito sério.

Pois é um grande amigo meu, talvez seja por isso, gosto de gente séria.

Fez tudo o que tinha dito, foi ao banco, falou com o André, Miguel foi junto, ria muito, esse garoto promete, conseguiu que um velho gostasse dele, sabe quanto vai cobrar de aluguel, a metade que o outro ia cobrar. 

Me esqueci, Zé, melhor pedir ao Carlinhos para trocar a fechadura da porta, porque está meio velha.

Miguel estava tentando ver o valor que ele tinha no Banco, mas ele entregou rapidamente o papel para o André. 

Este lhe disse que tinha pedido um cartão de crédito, sem limites para ele.  Tirou do envelope, aqui tens o código.  Fica mais fácil, já que vais ter que comprar os moveis.

Sabe, ontem estive falando com meu irmão, tinhas acabado de desligar.      Senti que ele estava feliz.  Ficamos falando muito, acho realmente que ele vem para o Carnaval.

Creio que descobri por que gosto dele, é honesto comigo, sério, além de que adoro o cheiro da pele dele.  Me tratou como um homem, não como um garoto que todo mundo quer fuder.

Me disse para cuidar de ti, mas respondi que sabias sozinho cuidar de ti mesmo.

Aonde posso comprar móveis?   Miguel disse que o acompanhava, pois tinha gente trabalhando na agência.  O levou a uma loja moderna.   Olhou as camas, acabou escolhendo uma que estava no catálogo, comprou o colchão.  Ficaram de entregar em dois dias.       Na mesma loja comprou vários jogos de lençóis, almofada para a cama.  Viu uma mesa para a sala, cadeiras, tudo muito simples.  Mas gostou de dois cadeirões que estavam no catálogo.         Perguntou se aguentavam ficar no sol, pois queria colocar na grande janela, para ver o sol nascer.

Não vais colocar cortina no apartamento?

Miguel, gosto de ver a claridade do dia, a escuridão da noite.  Não tenho vizinhos de frente.

Me lembrei de uma coisa, tinha uma porta fechada, não abrimos, pensei que fosse a saída para empregados, este apartamento tem uma coisa que o outro não tem.              Tem mais um quarto pequeno, outro banheiro, uma pequena área de serviço.     Depois tens que falar para limparem ali também.

Creio que a Dejanira sabe, porque limpa vários apartamentos do edifício.  Começou a rir.

De que estas rindo?

Entendi por que o Carlinhos não é gay, ele tem um macho dentro de casa que é a Dejanira. Ela é como a  Marialva, forte, uma mulher que sabe o que quer.

Miguel não entendeu o que ele queria dizer.

Depois atravessaram a rua, havia um dos mais antigos shopping do Rio.  O Rio Sul,  deram uma volta pelas lojas.  Não precisas de roupas, o André disse que necessitavas de bermudas. 

Mas se eu comprei essas calças novas outro dia, mas acabou aceitando, comprou duas bermudas diferentes, cuecas, camisetas.              Viu uma camiseta que gostou, mas não era seu tamanho.  Para que queres isso perguntou o Miguel.

Ele não disse nada.  Comeram foram embora.  Miguel o deixou no hotel, ele colocou uma das bermudas, realmente era mais confortável andar assim.  Com uma das bolsas foi até a praia, lá estava o Tico chateado.

Cadê teu pai?

Está dando uma mão para minha mãe, hoje a praia está fraca. 

Bom para melhorar teu humor, vi essa camiseta, comprei para ti.

A cara do garoto era demais.  Que lindona seu Zé,  Nisso o Carlinhos vinha chegando, foi logo dando a bronca no garoto, não dizes nada ao Zé.

Obrigado seu Zé, é lindona demais.  Mas tô fedido para colocar isso.

Vou lá no apartamento para ver como está, vens, toma um banho, das um beijo em tua mãe, volta para ajudar teu pai.   Eu sempre ajudei o meu no armazém que tinha.

Carlinhos, ria, lhe deu um abraço, obrigado pela força Zé.

Força nada, as pessoas estão para isso, ajudar as outras.   Esse menino não vai à escola?

Não gosta de estudar, é malandro.

Bom vamos embora Tico que tenho coisas para fazer hoje?  Quando chegaram ao apartamento, o Tico deu um beijo na mãe.  Está o olhou, o que estas querendo garoto?

Uai foi o Zé que disse que tenho sempre que beijar minha mãe, para ela saber que gosto dela.

Seu Zé, isso vai dar trabalho, já esfreguei o banheiro uma duas vezes, quem vivia aqui era porco.  Amanhã começo logo cedo a pintar as paredes.  Os armários já estão com as portas nos lugares.  Limpei também a área de serviço, o quartinho, estava cheio de merdas, o porteiro me ajudou a jogar tudo fora.  Mostrou a área de serviço.  Não tinha visto isso, vais pintar tudo isso também, não é?

Uma coisa seu Zé, essa louças que esta ai, é do proprietário, já disse para ele que está para jogar fora.  Muito velha, se fosse o senhor, comprava uma nova.  Tem uma loja aqui na rua, que tem umas simples e baratas. Dê uma olhada.

O garoto tinha encontrado uma toalha no banheiro, saiu enrolado nela. Vou ter que colocar a mesma cueca que já uso a três dias, a bermuda engana, mas com a camiseta nova, cueca velha.

Eu nunca usei cueca Tico, nunca tive nenhuma até sair da vila.  Além de que tinha um buraco.

Ficaram rindo.  Tico olhou sério para ele, não acredito nessa histórias que conta, se não tinhas nada, como agora podes alugar esse lugar.

Ouro Tico, ouro, tudo escondido.  Ali na vila, não podias aparentar, pois senão te roubavam.

Voltou para o hotel, sentou-se na pequena varanda que tinha, abriu a carta de sua mãe.  Dentro havia outra carta, estava escrito em cima Marilena Costa.

Num outro papel, explicava, que era sua mãe.  Vá até aquele endereço que te dei, entregue a ela, não deixe ele colocar a mão em cima.  Cuidado com ele, é um tipo realmente mau.

Pegou o papel com o endereço, perguntou na portaria, como fazia para ir até lá.

O rapaz lhe ensinou. Vás até a estação de Metro, esse rua fica subindo por detrás.

Foi perguntando até que encontrou a rua, foi subindo para encontrar o endereço, no meio dos edifícios tinha algumas casas.   Tocou a campainha várias vezes, ninguém atendia, melhor volto outra hora.   Desceu as escadas do jardim mal cuidado, viu subindo uma senhora arrastando um carrinho de compras.  Foi até ela ofereceu ajuda. 

Que fazias saindo da minha casa?

Vim entregar uma carta para a senhora Marilena Costa.

Sou eu, tua cara me parece de alguém conhecido.

Sou filho de Maria Costa.

Ela parou, as lagrimas caiam pela sua cara. Você é meu neto?

Acho que sou sim. Venha, vamos entrar em casa.   No salão estava sentado um homem de costas, não se moveu em momento algum.        Ela se colocou na frente dele, lhe disse bem alto, está aqui uma pessoa para nos conhecer.

O homem se levantou, era alto, tinha os cabelos num corte militar.  O olhou de cima a baixo, se veio pedir dinheiro, não tenho.

Amador, é nosso neto, filho de Maria.

Eu não tenho filhos, tampouco netos, desapareçam das minhas vistas.

Além de tudo mal educado, bem que minha mãe falava do senhor.            Creio que merece uma patada dos ovos para deixar de ser tão filho da puta.   Fale direito com minha avó.

Ele tornou a olha de cima a baixo.  Ela não era minha filha.      Deixou de ser, no dia que saiu por esta porta com aquele filho da puta.

A senhora, fez um sinal para ele.   Já que estas de mal humor, vou sair com meu neto para tomar um café ou chá.   Estou farta do seu mal humor.

Venha, lhe pegou pelo braço, quando voltar guardo as frutas, tem um café ali perto do Copacabana Palace, que passo sempre, me dá vontade de entrar, me sentar, conversar com alguém.

Foram os dois conversando, contou como tinha morrido seu pai, quando falou da mãe, ela ficou triste.  Bem ela mesmo, odiava os médicos.  Mas aonde a enterraste. 

Ele contou o que tinha feito, ela apertava tanto sua mão, que chegava a doer, mas não reclamou.

Quando entraram no lugar, ela olhava tudo maravilhada.  Não sei se estou bem vestida para esse lugar, se via que sua roupa era velha.

Faz tanto tempo que não compro nada para mim.  Mas o que importa é que estas aqui.  Como vieste até o Rio.  Ele contou sua viagem.  Acabo de alugar um apartamento com vista para o mar. 

Tens dinheiro?

Sabe avó, não entendi, tinham tanto dinheiro, vivíamos simplesmente, nunca morri de fome, mas ela podia ter-se tratado, mas perdeu a vontade de viver quando meu pai morreu.

Mas te prometo que cuidei dela até que morreu.       Me deixou uma fortuna em ouro, nem sei o que fazer com tudo isso.  Mas quero estudar, arrumar minha vida.

Vou te contar uma das verdades, escondidas debaixo de muitas mentiras, isso fez ela partir. Ela não era nossa filha, seu avô era estéril.                  Odiava as crianças.   Uma sobrinha minha, ficou gravida, pensou em abortar, eu lhe disse que queria a criança.        Nunca soube quem era o pai, ela morreu ao dar à luz, era muito jovem, tinha somente 16 anos.             A enterrei como se fosse minha filha, nunca mais voltei a falar com ninguém da minha família.          Criei tua mãe como se fosse minha filha.             Esse velho filho da puta, era militar, estava sempre implicando com ela, quando chegou a adolescência, chegou as resposta.              O mandava a merda de início, se ele insistia, saia de casa batendo a porta.       Um dia conheceu o chofer do teu avô, militar como ele, se apaixonaram.  Ai a casa veio abaixo, como ela ia se casar com seu chofer.   Tanto fez que eles foram embora.  Depois disso só a amargura.    Ele pensou que quando se aposentasse seria com máximas honrarias, mas fez muita merda, simplesmente lhe aposentaram.    Desde então não sai de casa.   Nos oferecem agora uma fortuna pela casa, para construir algum desses monstros.

Ele se nega, diz que quer morrer aqui.   Eu preferia ir para uma residência. Podíamos pagar uma muito boa, mas ele se nega a gastar dinheiro, fala num futuro.          Mas não sei que futuro é esse.  

Ficaram conversando, ele contando como era a vida lá na vila.  Me deixou esta carta para a senhora.                Lhe entregou, ela apertou contra o coração, com as lagrimas caindo pela cara. 

Leia para mim.  Estou ficando cada dia mais cega, depois esqueci os óculos em casa.

Ela agradecia, a sua mãe Marilena, ter cuidado dela todos esses anos,  eu sabia que não era sua filha, esse velho é malvado, toda vez que saias ele me dizia que não era sua filha.     Ria na minha cara, embora ela faça tudo por ti.  Não passas da filha de uma rapariga.        Um dia não aguentei mais lhe apontei seu próprio revolver.       Mas pensei para que vou sujar minhas mãos com esse velho amargado.      Lhe disse poucas e boas, que claro ele não tinha filhos, porque seu revolver não funcionava.  Com certeza era gay.

Quis me pegar, mas sai desta casa, com a roupa do corpo, fui embora com o homem que me queria, o amei todos os dias da minha vida.nnn   Sempre falei de ti para a Marialva, ela dizia que sim tu eras a minha mãe, o resto não importava.

Eu sempre acreditei que sim.   Um dia esta carta te chegará das mãos do meu filho, ele vem me cuidando, junto com a Marialva que sempre encontra um tempo para estar ao lado da minha cama.  Espero que tenhas me perdoado.  Que tenhas resolvido de uma vez, cuidar de ti mesma. Beijos de sua filha Maria.

Ela se abraçou a ele, estou dando um vexame. Chorando assim.

Nada minha avó, chorar é bom.   Pediu um copo de água com açúcar, para ela, pediu chá, para os dois, bolos.    Por que a senhora não vai para essa residência?

Porque todo o dinheiro está no nome dele, assim de simples.  Aonde é esse lugar.

Lá prós lados de Jacarepaguá, vou lá sempre visitar minha melhor amiga. 

Eu sou um homem que nunca deixa para depois o que vai fazer agora.        Vamos até sua casa, comigo ele não vai se atrever.  Arrumas uma maleta, com tuas coisas.  Chamo um Uber, vamos até lá.  Eu pago para a senhora ter um final de vida, melhor, ao lado de sua amiga.  Quer?

Ia adorar, mas e ele?

Terá que reconhecer seus erros, se tiver um mínimo de inteligência, irá atrás da senhora.

Voltaram de braços dados, pode deixar que irei visita-la sempre.  Arrumarei um tempo para ir lá conversar com a senhora.

Eles entraram na casa, o velho continuava na mesma poltrona, quando ela voltou com a maleta, lhe avisou, meu neto vai me levar para a residência.  Tudo o que ele disse foi, “quem vai cuidar de mim, é tua obrigação” .

Minha obrigação já acabou a muito tempo.  Arrume alguém, pague com o dinheiro que não gastas.

Minha herança não vai ficar para o filho desta.

Ele não precisa, é milionário, coisa que tu não es.

Quando saíram o carro já estava esperando.  Ela disse aonde ia.             Só tive coragem porque estavas ali.  Encostou a cabeça no ombro dele, quanto tempo perdido meu deus. Quanto tempo.

Quando chegaram, ele chamou o André para perguntar como domiciliar uma cobrança na sua conta, lhe explicou o que era.  Você me passa a pessoa responsável, eu explico.

Ela poderia dividir quarto com sua amiga de toda vida.  Olha meu neto, me tirou da escravidão. Eu não dizia que um dia minha filha voltaria, mas veio meu neto. 

Quando o administrador preencheu todos os papeis, ele ligou para o banco, André lhe deu o número que devia cobrar todos os meses.  

O senhor faz uma coisa, cobra três meses adiantados.  Se ela precisar de medicamentos pode comprar, debitar na minha conta.        Ela não vê direito, diz que não sabe aonde tem os óculos, creio que o velho nunca quis comprar nenhum para ela.

Antes de ir, esteve sentado horas com as duas senhoras, inclusive almoçou com elas, quando chegou a hora de descansar, ele se despediu, abriu a bolsa dela, enfiou dinheiro dentro, para qualquer necessidade,  o administrador tem meu número de celular, pode pedir que eu pago. Ela o beijava muito, como fazem as avós.           Antes de sair, lhe disse, diga a Marialva que eu agradeço ter cuidado da minha filha. Que Deus te proteja meu filho.

Bom esse assunto estava resolvido, mas nem pensava em ir ver o velho, afinal, não era seu avô mesmo.

Voltou ao apartamento, já tinha outra cara, o colchão tinha chegado primeiro que a cama.  Dejanira disse que tinha assinado o recebimento.  Disseram que a cama estará amanhã aqui.

Obrigado, que tarde bonita.  Estou quase pensando em dar um mergulho.          Bom está tudo lavado, esfregado,  Amanha dou outra passada de tinta, estará pronto.  Quer que eu vá com o senhor para ver o que lhe disse da louça.  Foi com ela.

Te vejo triste?

Pois é Dejanira, hoje descobrir por que minha mãe foi embora daqui.         Encontrei minha avó, arrumei um lugar para ela viver lá prós lados de Jacarepaguá.  Uma residência aonde vive uma amiga sua.   O velho, não é meu avô, ficou na casa, explicou aonde era. Um dia terá que vender.

Fizeste bem, as vezes os homens são uns idiotas.          Veja meu Carlinhos, eu o tirei das drogas, tudo bem o tenho atado com mãos de ferro, quem ia aceitar uma mulher como eu, que pareço um homem.   Adoro meus meninos, o Tico é o mais velho.  Mas não sei o que fazer com ele.

Chegaram à loja, ela foi mostrando o que ele precisava. Comprou tudo, viu que ela olhava disfarçadamente o conjunto de pratos.  Comprou outro.

Ela lhe disse, para que dois, a não ser que o senhor vá precisar para dar festas.

Nada Dejanira, detesto festas, esse outro é para tua casa.  Vamos combinar, que três vezes por semana venha limpar o apartamento.         Começou a rir, se lembrou do comentário do Miguel, quando ele disse que não tinha roupas para um armário tão grande.

Imagina, tinha uma bermuda, de uma calça jeans que foi de meu pai. Antes de nadar, a tirava, lavava, deixava secando, para voltar a vestir.  Quando disse ao André que nadava nu, ele não acreditou.      Quando fui embora, fui com as bermudas, até a estrada, tive que andar cinquenta quilômetros até chegar a ela.     As pessoas ainda pensam que tenho tempo para besteira. Tudo tem que ser agora, senão não aproveitarei a minha vida.

Ela ficou olhando para ele, como dizendo não acredito.

Acho que as pessoas pensam que sou mentiroso. Começou a rir.  Já dizia a Marialva, a verdade as vezes mais parece uma mentira gorda.

Quem é a Marialva?

Sem querer sempre falo nela, me ajudou muito com a minha mãe.          Ela foi a dona do putero, quando as mulheres foram embora, ela ficou no bar.  Você me faz me lembrar dela.  Me deu na hora de vir embora um saco cheio de pepitas gordas de ouro.  Valiam uma fortuna.

Como ela me ajudou, acho que tenho que ajudar aos outros.       Na verdade, quando morremos, não levamos nada.      Meu pai, morreu porque pensou que os bandidos sabiam que embaixo do caixa estava uma fortuna.   Para nada, eu fiquei sem pai, ele tampouco levou esse dinheiro para o outro lado.

Mas vamos deixar de tristezas.   Terei que me acostumar a tomar café no bar, pois em casa fazíamos aquele de coador.  Gostava mais assim, dos bares não gosto.

Na entrada do edifício, ela abaixou a caixa, colocou dois dedos na boca, deu um assobio, em seguida o Tico estava ali.

Leva essa caixa, diga ao teu pai que é presente do seu Zé.   Que ele leve depois para casa.

La de cima, viu que o grupo estava lá na praia. Tico mostrava que ele estava na janela.  Fez um aceno, em seguida a metade do grupo estava ali.

Miguel soltou um assobio, caramba já tem outra cara. 

Obra da Dejanira, do Carlinhos.          Que tal a água, quero dar um mergulho, estou precisando limpar minha alma.  O dia foi difícil. Vou até o hotel colocar minha sunga, uma bermuda e volto.

Quando chegou, foi dizendo ao Carlinhos, depois de um abraço, que todo mundo ficou olhando, ah Carlinhos a Dejanira, disse que posso fazer sexo contigo em dias alternados.         O que você acha. 

Claro, contigo faço, com prazer.

Os outros não entendiam nada.  André, Miguel riam até não poder mais.  Esse garoto, está virando carioca.

Ficou só de sunga, saiu correndo com o Tico atrás dele, deram um belo mergulho.  Tens que aprender a nadar Tico.  Só sabes furar onda.  Ficou ensinando o garoto.

A praia estava ficando deserta, ele contava ao Tico que lá no rio Tocantins ele, seu amigo Bento, nadavam pelados.                      Estavam todos na beira da água, ele tirou a sunga, o tico também, mergulharam.  Quando olharam para trás, estava o grupo de boca aberta.            Vá lá Tico, traz minha sunga, porque eles vão querer chupar minha rola aqui mesmo.       O garoto ria, se vestiu, lhe levou a sunga.

André foi logo dizendo, ainda bem que não tem ninguém no pedaço, podes ir preso.

Assim André eles viram tudo que nunca vão ter.   Falaste com teu irmão hoje.  Estou preocupado com ele, não sei por quê?

Achas que está passando alguma coisa?

Um pressentimento.  Mas vou para o hotel, amanhã me mudo, queres jantar comigo?

Já tinha combinado com o Miguel.

Bom então posso ir com vocês dois?

Claro que sim. Imagina, vamos comer uma pizza.

Ia perguntar o que era, mas já tinha visto um cartaz no shopping.

Mal chegou no hotel, viu que no celular tinha uma chamada do Carlos.        Ligou, estava falando com teu irmão que estava preocupado contigo. O que passa.

Eu resolvi que volto para o Rio.  Queres mesmo que fique contigo?

Sim o apartamento estará pronto amanhã. 

Ótimo, chego dentro de dois dias.                 Já mandaram meu substituto desde Goiânia, você revolucionou a minha vida.

Estou louco para que chegues.   Contou o da praia.  Sei que fui mal, aproveitei para lhes dizer que já viram tudo, mas que eles nesse corpo não colocam as mãos, pois tem dono.

Ele ria, só você para me fazer rir.     Vão me dar até depois do carnaval para me reincorporar. Devem me mandar para trabalhar no subúrbios, mas não importa.

Carlos foi a melhor notícia do dia.  Quando chegares, te contarei daquela carta que minha mãe deixou contigo.   Foi outra coisa boa que fiz hoje.

Carlos ficou falando que estava ansioso para chegar.  Avisa meu irmão, ele vai estranhar, mas diga que estou apaixonado.

Eu não sei analisar ainda esses sentimentos Carlos, mas estou feliz contigo.

Tomou banho se vestiu, riu porque pela primeira vez tinha dúvida qual camiseta vestir, mas não ia comentar isso com eles.

O esperavam embaixo, vinham os dois de cabelos molhados.  Foram andando, contou ao André a notícia.

Realmente deves ter revolucionado a vida do Carlos, ele sempre foi quieto.  Se você gosta realmente dele, fico feliz.

Eu as vezes falo o que parece besteira para vocês.  Eu o conheci, uma vez que fui ao Banco com minha mãe, tinha feito 18 anos, tinha ido tirar carteira de identidade.         Ele foi super educado, gentil com ela.               Eu olhava seus olhos, via tristeza,  me deu vontade de dar-lhe um abraço apertado, foi o que eu fiz quando fomos embora.  Ele ficou me olhando, como se nunca ninguém o tivesse abraçado.           Só o voltei a ver no dia que resolvi vir embora.     Foi educado comigo. Não riu de mim, quando lhe contei que tinha vindo com a única bermuda que tinha, além da camiseta em farrapos até a estrada, que depois tinha trocado de roupa ali, para pedir carona. Que tudo que tinha nesse momento, era aquelas calças que eram do meu pai, a camiseta que era velha, mas estava limpa. Que a cueca era herança também, além dos tênis, tudo era do meu pai.   Pois ele me levou para comprar roupa, tudo o que eu precisava.  Fiquei na casa dele.  Me mostrou o que era um Laptop.   Nem sei como, quando vi estávamos na cama. Ele me ensinou a fazer sexo.  Fiquei deslumbrado, o cuidado dele comigo era imenso, por isso gosto dele.   Não me olhou como uma mercadoria de usar e tirar.

Ah, não se preocupe, ele vai ficar lá no apartamento, comigo.

Miguel perguntou ao André, qual a diferença de idade deles.  

Ele me leva pelo menos 10 anos, está beirando os cinquenta ou mais.             Mas ele quando se descobriu gay, saiu de casa, meu pai dizia que ali já tinha mulher de mais, que mais uma com piru no meio das pernas ele não queria.

Mas Carlos sempre foi muito sério, foi ele quem me arrumou esse emprego no banco.

Bom mesmo assim podes ir ao samba amanhã, não é Zé?

Vocês acham que vou gostar?

Já nos dirá tu. 

Sabes de uma coisa Miguel, quando entrei no apartamento do teu amigo hoje, me senti prisioneiro.   Muita coisa num lugar só. Fiquei imaginando, terei que cuidar disso tudo, respeitar porque não é meu.  O sujeito me olhava com cara de guloso.  Tipo vou te levar para a cama.

Ah ele é assim mesmo, quem sabe dele é o André.

Pelo amor de deus, vais tirar isso da manga sempre.

Falar nisso, vocês dois são namorados?

Não só amigos.

Pois eu acho que deviam experimentar fazer sexo, creio que do grupo todo, vocês dois são os que estão fora de jogo.  Nada melhor que poder confiar numa pessoa para conviver com ela.

Olha o piralho nos dando conselhos. 

Uma verdade, vocês não percebem, mas olham um para o outro com cumplicidade, não vejo vocês fazendo isso com os outros.

Ficaram os dois quietos, ele só disse experimentem quando tiverem vontade.

Miguel mudou de assunto, falando da cara de todo mundo quando ele fez a cena com o Carlinhos.   Eu disse para a  Dejanira que ia fazer.  Ela riu até. Os dois são boas pessoas, o Tico é que precisa de tomar um jeito.          Fica olhando como vocês se comportam, se esbarra que não tem nada do que vocês tem.   Me lembro do Bento, quando ia a sua casa, que era quase igual a nossa, com a diferença, que tinha portas, janelas, cortinas, etc.  Eu pensava por que a minha não tem.  Ele sempre tinha várias camisetas, bermudas, eu só tinha uma.           Mas o que ele gostava mesmo era de tomar banho como veio ao mundo.  Dizia que nada o fazia sentir-se mais livre.

Nunca saberei se sua família veio para o Rio ou para São Paulo.  Foi meu primeiro beijo, fazíamos punhetas juntos.           Riu, imagina, não podíamos imaginar dois homens fazendo sexo. Nem tínhamos ideia como seria.   Imagina, pense nesse garoto escutando as conversas de vocês, sobre o que fez com fulano, etc.  

Então eres moralista?

Nem pensar, fico imaginando a confusão na cabeça dele.  Mas não se preocupe, vou conversar com ele.

Acho que todos tem direito a fazer sexo com quem queira, só não gosto é de fiz isso com fulano, dei o rabo para sicrano. Etc.  Vulgariza tudo.  Querem escutar o que fiz com teu irmão?

Pois jamais direi, porque foi uma coisa entre nós dois.  Por isso gosto dele, não ficou falando banalmente sobre o assunto.  Só posso dizer que adoro o cheiro da pele dele.  Ele talvez nem saiba o que significou para mim.   Não importa, foi algo impressionante.

Se as pessoas se guiassem pelo cheiro da outra, muita gente estava na merda.  Algumas pessoas cheiram terrivelmente mal.

Comeram,  Miguel pediu desculpas ao André pelo comentário, foi ridículo eu sei, mas nunca gostei de te ver como esse sujeito.  Apesar de ter feito negócios com ele, achei interessante o Zé não querer o apartamento.   Ele bancado o anfitrião perfeito, vai um garoto, lhe diz que seu apartamento não interessa.   Deve ter ficado uma fera.  Riram muito disso.

Zé não tinha entendido, pensou coisa deles, deixa para lá.   Só podia pensar que dentro de pouco o Carlos estaria ali.

No dia seguinte era o famoso dia do samba.  André lhe disse que ele devia ir de bermudas, camiseta, por causa do calor.

Passou o dia, colocando as coisas como queria no apartamento.  Num papel ia anotado o que deveria comprar.  

Dejanira apareceu, trazendo uma caixa.   Me  lembrei disso guardado lá em casa, era da minha mãe, mas o Carlinhos reclama que o café fica forte.

Era um antigo bule de metal, com uma estrutura de alumínio, em cima ficava um coador de flanela, tinha inclusive outro de suplemento.   Ela trazia um pacote do melhor café que sua avó dizia que gostava.  Vamos fazer um café, pra brindar o apartamento.

Fizeram café, depois se sentaram nas poltronas, olhando o mar.  O senhor tem razão Zé, a vista é fantástica, olha limpo quase todos apartamentos daqui, nunca parei para olhar.  Ficaram conversando, claro acabaram no Tico.  

Por que ele fica na praia com o Carlinhos?

Carlinhos acha que isso o vai amadurecer, aliás ele não para de falar no seu amigo Zé, esta como um louco por ti, pois conversa segundo ele, não como uma criança idiota, mas como um igual a ele. Depois, falou uma coisa, mãe, ele me trata bem, não é como os outros que me olham como se eu fosse um favelado.  Lhe contei o que o senhor disse, ficou de boca aberta.  Então ele é igual a mim.

Vou usar isso para conversar com ele, um dia desses lá na praia.   Mas tem que ir à escola, eu digo isso, porque não pude estudar muito, quando a professora foi embora, me deixou os livros que tinha, minha mãe continuou ensinando.           Só não gostava de matemática, mas quem me ensinou aplicando no dia a dia foi meu pai.           Me ensinava a pesar a pepita de ouro, calcular quanto valia, o que se podia comprar com esse dinheiro.   Isso foi matemática prática. Quando fui vender as pepitas que tinha, fui mais rápido que o sujeito que fazia cálculos numa máquina.  Pior que  o sujeito tentava me enganar.

O senhor não vai colocar nenhum quadro na parede? 

Institivamente ele se lembrou do apartamento do outro,  foi quando Dejanira me lembrei que lá em casa a única coisa que tinha na parede, era um calendário de propaganda de muitos anos atrás, estava até amarelado de tão velho.            Mas eu sabia os dias da semana, as horas do dia, sabia pelo sol.  Como diria a Marialva eu sou um bugre nato.

Você tá sempre falando nela, acho que ela também deve falar muito em ti.

Pode ser pode ser.  Um dia me disse que eu jamais tivesse vergonha de gostar de ninguém, que o amor não entendia disso de sexo da pessoa.

Caramba Zé isso é muito bonito. 

Bom já resolveu se vai cuidar da minha casa.  

Isso aqui faço numa manhã,  vou me programar, assim começo na semana que vem. 

Ótimo, porque o Carlos chega na segunda. Teremos que conversar como vai ser nossa vida juntos.

Mais tarde se arrumou, foi se encontrar com o André, o carro dele não pegava de jeito nenhum. O Miguel criticava dizendo, não sei para que tens carro, se quando muito usas para nada. Nisso o carro pegou.

Tá vendo Miguel, agora devia ir atrás só de castigo. 

Zé olhou a cara dos dois, disse na lata, experimentaram não é verdade?

Moleque enxerido, sim experimentamos, nos conhecemos tanto, que foi bom. Que mais quer saber?

Nada, só digo uma coisa, não comentem com os outros.  Seja felizes os dois.

Viu que iam de mãos dadas, mas ficou quieto.

Quando viu a quantidade de gente, começou a se assustar, ainda pensou vou voltar para casa, mas verdadeiramente se assustou, quando escutou a bateria tocando, aquilo era impressionante.  Ficou imaginando o Tico ali, ia cair no samba.   O grupo todo tinha uma mesa cativa.  Queres beber alguma coisa Zé, era o Miguel lhe perguntando. 

Só água, tudo aquilo, lhe confundia,  a curiosidade era muita, muitos homens passavam por ele o olhando, mas ficou embasbacado quando um negro de dois  metros de altura se aproximou, beijou todos eles, virou-se dizendo quem é essa criatura.

André o apresentou, Marcondes dos Santos, um grande artista, pintor, escultor, pinta e borda.

O aperto de mão foi firme.  Uma coisa Marcondes, ele tem dono. É namorado do meu irmão.

Que pena, já estava pensando em rapta-lo.  O olhar do homem, impressionava, era negro,  parecia estar lendo sua alma.  Segurou sua mão virou a palma.  É verdade vais amar essa criatura com todas as forças. Mas tem uma coisa, se aproximou por causa do barulho, o que me deixa pasmo, é a tua conjunção,  eres de Exu, Oxóssi, uma falange de mulheres, todas da água. Não tinha soltado a mão dele. Tens razão esse barulho não permite falar nessas coisas. mas tenho uma escultura para essa casa vazia que tens.  Para que não tenhas medo, André podes vir com a gente.

Foram em quatro, pois o Miguel também foi.   Já entendi disse o homem, finalmente se decidira, sempre achei que iam acabar juntos.  Foi esse moleque Marcondes, tanto falou que a gente resolveu experimentar.

Eu vivo aqui perto Zé.   Desceram a rua, ao contrário de muita gente subindo.  Não estou acostumado a tanta gente, fico zonzo.  Gosto do silencio, sabe que lá no sexto andar, não se escuta muito barulho.  Hoje fiquei sentado com a Dejanira, olhando o mar, tomando café, me lembrei de minha mãe, os dois sentados na beira do rio, com nossa caneca de café na mão, falando da vida.

Pelo que vi Zé, foi uma mulher sensacional, verdade.  Essa outra mulher que aparece contigo quem é?

Deve ser a Marialva, uma grande figura.

Ela via em ti o filho que não teve.  Um dia ainda a encontraras outra vez.  Ela está sempre falando em ti.

Entraram na casa, ele viu duas esculturas fantásticas em metal,  o da direita é Xangó, meu pai de cabeça, o da esquerda é Exu, meu guia.

Ele abriu a porta, acendeu a luz, estavam num barracão grande cheios de esculturas, quadros pelas paredes.   Escolha um, ele foi direto a um em metal negro, tinha uma espada na mão, um escudo.           Quando brincávamos de piratas, que não sabia o que era, usávamos um troço de tronco de árvore, para fazer de espada. Ficou rindo, chorando ao mesmo tempo, segurando a mão do guerreiro.   Eu sabia, essa tua conjunção é diferente, nunca tinha visto, um Oxóssi com um Exu do lado.  Depois uma coisa, ele tem todas as mulheres da água. Isso é  fantástico.

O que eu gosto, venha aqui, havia uma mesa, tinha um alguidar com agua ao lado, ele passou agua pela cabeça, pelos braços, a cara dos dois André, Miguel, era de pasmo, nunca tinham estado ali.  

Marcondes arrepanhou tudo que tava no centro da mesa, rezou, pediu desculpas por ter bebido uma cerveja, mas pai, encontrei uma preciosidade.  Jogou. Sem dúvida nenhuma, da pobreza à riqueza.            Mas tua riqueza será maior, pois vais ajudando aos outros sem interesse nenhum.   Olhe esses dois, não sabem que vocês os amarrou para o resto da vida.

Miguel ainda disse, realmente afastar como hoje o André do samba é difícil. 

André comentou que um dia viria para ele jogar os búzio para eles.

Venham conhecer tudo, foi mostrando tudo.  No fundo, tinha muitos panos como uma cortina, para esconder, o meu lugar do pecado. Era uma cama imensa, do lado uma foto.   O único homem que amei. Era uma foto do Carlos.

Esse é meu irmão, o namorado do Zé. 

Eu sei, fiz ele sofrer muito, pois não sabia escolher, é o melhor homem que conheci.  Não o solte de maneira nenhuma Zé.   Ele conseguiu se apaixonar outra vez.     Mas nunca o esqueci.  Se ele quiser me ver, venha com ele aqui.   Será um prazer ver essa pessoa outra vez.

Nunca me disseste que conhecias meu irmão?

Para que, eu o perdi por minha culpa, era um idiota, achava que era gostoso, que podia fuder com todo mundo, ele não aceitou.               Me deixou, levei um tempo para descobrir que estava sozinho no mundo.                Mas, já era tarde.  Me fez me centrar, foi quando comecei finalmente acreditar na minha arte.  Acaba que afinal, fiz sucesso por culpa dele.

Mas deixa isso para lá.  Menos mal que tens dono, senão nãos escapavas hoje daqui, brincou colocando a mão na cara do Zé.   Vais dizer que me viste, não é?  Não tenha medo, foi o amor de minha vida, mas agora é teu.

Quando saíram, Marcondes disse, levem esse garoto para casa, venha depois buscar teu Oxóssi, ou se me das o endereço eu levo até lá.

Zé estava confuso, essa era a dor que ele sentia no Carlos, o porquê de sua solidão.  Iria conversar com ele.

Não disse uma palavra, quando pararam na porta do hotel, ele disse que já se tinha mudado, só tinha uma mochila, uma bolsa de compras.  Querem ver como ficou?

Subiram os três.  Miguel foi o primeiro a falar, caramba a Dejanira tem mãos de fada, ficou outra coisa.  Andou por todo lado, nem uma gota de tinta pelo chão.  Olhe como ficou a cozinha, ela pintou a porta dos armários, ficou outra coisa.   Realmente tenho que contratar essa mulher para me fazer esse tipo de serviços.

Puxaram uma cadeira da mesa, pois só havia duas poltronas. A cara do André sentado ali olhando o mar, era ótima.  Espera, se levantou apagou a luz.   Isso é impressionante. 

Uma coisa Zé, eu não sabia a história do Marcondes com o Carlos,  sabia que alguém o tinha feito sofrer muito, mas não sabia quem.  Conheço o Marcondes aqui do samba, sei que ele é do Santo.

Não se preocupe, fiquei mais é preocupado com o Carlos, pois terei que falar com ele, sobre isso. Mas se ele me quer, tudo ficará em paz.

Tens medo de perde-lo?

Não, sei que ele volta, nada importa.  Isso me fez descobrir o porquê o quero.  Que é um homem de bem.  Quero mais é estar com ele.  Amanhã será outro dia.

Eles foram embora de mãos dadas.   André ainda comentou, caramba depois de tanto tempo vir a descobrir o do  Marcondes.      Tudo acontece gira em torno a esse garoto, fico impressionado. Você não sabe, mas confio em ti.            Esse garoto é milionário, podia estar numa cobertura em qualquer grande edifício.          Viste a simplicidade do apartamento.  Chego à conclusão de que tudo o que ele diz é verdade.  Viveu numa casa de pau a pique até pouco tempo.  No carro quando fui busca-lo no aeroporto, achei que me fazia uma gozação quando disse que necessitava arrumar um emprego.  Eu que já sabia o valor que tem no banco, me perguntei para que esse menino vai trabalhar.  Será um desses idiotas que fica pela praia.

Me enganei redondamente. Com ele. Como perdi tempo, não estando contigo a mais tempo, apertou a mão do Miguel.  

O mesmo digo eu. Mas estamos juntos ou não?

Sim Miguel, mas só se me deres um beijo em plena Atlântica. Zé os olhava de cima, finalmente esses meninos se encontraram.

Depois se sentou na poltrona com a luz apagada, foi se lembrando do que o Marcondes tinha lhe falado.  Sua cabeça, como num filme que vais passando para trás, se lembrou de quando o Bento foi embora, estava no rio se banhando, olhou para o outro lado, aonde havia um grande troço de floresta.  Ali estava um índio, não se preocupe lhe disse, estarei sempre contigo, sou teu amigo.  Depois o mesmo índio apareceu quando caminhava até a estrada.  Estava armado de arco, flecha, lhe dizia podes seguir que eu te cubro.  Agora descobrir isso.      Quando entrou no atelier, foi direto aquela imagem.  Era impressionante o parecido.     Seja o que for, me protege.

As vezes pensava que todos acontecimentos estavam sempre interligados.  Como ele podia saber tudo isso dele.  O mais raro, foi que no momento que Marcondes pegou sua mão, havia dois gestos, o dele pegar sua mão quase a força,  o dele de um retrocesso.        Como quem não quisesse escutar o que ele dizia.    Quando viu a foto do Carlos, no primeiro momento ficou com ciúmes.  Mas depois um sentimento de nostalgia, não sabia o porquê queria tanto esse homem.

Desde a primeira vez que tinha visto o Carlos, notava no seu olhar, uma dor muito grande, mas no dia seguinte que estiveram juntos, não viu mais isso.  Agora gostaria de ter certeza.

Esperava ansioso no aeroporto, porque demorava tanto, a chegada do voo, já tinha sido anunciada a mais de meia hora.  Finalmente ele saiu, lhe procurando, ficou olhando para ele, a ansiedade que notava em seus movimentos.  Quando seus olhares se encontraram era de um sentimento de felicidade.  Ali mesmo na frente de todo mundo o beijou.  Trazia uma bagagem grande, não ia deixar meus livros para trás, me acompanham a tanto tempo.

Subiram no elevador trocando beijos.  Quando viu o apartamento, riu dizendo é a tua cara, simples como tu.  Olhou o mar. 

Ontem estava aqui sentado, no escuro, olhando o mar pensando em você.  Em porque te quero tanto se faz pouco tempo que nos conhecemos.

Em seguida estavam na cama, mas não fazendo sexo, um olhando para o outro, com um olhar de adoração, só depois de muito carinho, fizeram sexo.         Ficaram na cama, Carlos encostado na parede, ele entre suas pernas.            Agora estou tranquilo, finalmente estou ao teu lado.  Pensei comigo, o que adianta eu ficar aqui mais tempo para ter uma aposentadoria melhor, se estou longe de quem eu quero.  Não podia deixar de pensar em ti.

E os meninos dos vídeos que vê. 

Nem me lembrei mais disso.  Só quero você.            Voltaram a fazer sexo outra vez, ele tomou a iniciativa, se tenho que deixar que me penetrem, quero que sejas tu.              Mas por favor com cuidado, foi a coisa mais interessante, a dor passou em seguida, os movimentos lentos que ele fazia, o levavam a loucura. Depois foram tomar banhos juntos.      Nunca poderei esquecer o dia que me deste o banho na tua casa. O carinho que tiveste comigo, um menino ignorante de tudo, mas cuidaste de mim.

Iam sair para jantar com André, Miguel. Mas antes com medo que tocassem em qualquer assunto. Ia falar, mas foi Carlos que puxou o assunto.

Como foi no samba, no sábado?

Olha, para não repetir, fiquei assustado com tanta gente, não estou acostumado, era como comparar quando o bar estava cheio com umas dez pessoas, com essa multidão.  O interessante foi que conheci uma pessoa de teu passado.

Do meu passado, quem?

Marcondes, mas falamos muito.

Nem sabia se estava vivo ou morto.  Nossas vidas juntos me fez tanto mal, que o único jeito foi fugir com essa desculpas de ganhar mais no interior.

Pois saiba que ele é um artista respeitado, bem como pai de santo.  Segurou minha mão, foi me dizendo tudo o que podes imaginar.    Sabia tudo sobre mim.  Quando fomos os quatros ao seu studio, pois ele queria me mostrar uma imagem.  Fiquei pasmo, eu já tinha visto essa imagem nas margens do Tocantins.  Depois na estrada antes de chegar à cidade.

Foi nos mostrando o studio, quando chegou seu quarto, alucinei, ver uma foto tua mais jovem na sua mesa de cabeceira.      Ele reconheceu que fez merda contigo, disse que te pedia desculpas, teu irmão ficou inicialmente furioso.   Pensou que eu ia me ofender.

Na verdade, te lembras quando fui com minha mãe ao banco.   Quando olhei os teus olhos, era um poço de tristeza, te amei em segredo.       Mas no dia seguinte de ter dormido contigo, o teu olhar era outro, havia alegria nele.  Não tenho medo do Marcondes.      Sei que me queres como eu a ti.

Estavam os dois sentados nas poltronas.  Esse será nosso canto para grandes conversas, adoro ver o mar.  O duro é que não podemos nos abraçar.   Não seja por isso, se levantou, sentou-se no seu colo, o abraçou.  Algumas vezes quando andava sozinho pelas ruas, me peguei falando contigo.

Nem fale, pensei que o pessoal do banco ia me tornar como louco.

Sabe o Manuel, foi a vila, porque estava desesperado para comprar ouro, chegou justo no dia que o homem do bar morreu.   Ele ajudou a Marialva enterra-lo, ela veio com ele até a cidade, lhe vendeu todo o ouro.   Ai ele lhe contou que tinhas no mês anterior salvado a vida dele, pois tinhas ouro demais, que tinha reconhecido o saco que ela tinha dado.

Sabes algo desse menino?

A trouxe aqui, era justamente como tu a descrevia, foi direto ao assunto.  Lhe contei que estavas bem, que já tinhas um apartamento, que ainda estava reformando.     Me olhou bem na cara, me disse que estás esperando, que ele venha te buscar.         Homem arrume tuas trouxas se mande, esse menino vale ouro.  É filho de Oxóssi  com todas as mulheres d’água.       Ele é poderoso, um menino forte.  Vai fazer tua vida mais feliz.   Foi quando tomei a decisão.   Te mandou uma coisa, espera, abriu uma das malas, tirou uma carta. 

Ele abriu, já rindo,  já sei de tuas peripécias, não podia esperar outra coisa de ti, primeiro irei a Minas Gerais resolver alguns problemas antigos pendentes.       Dentro de meses irei para o Rio, para te ver.  Abraços sua  Marialva.

As cartas, contou a história da avó.   Ontem fui vê-la, parece outra pessoa, estava com o cabelo arrumado, com uma roupa melhor.           Dei ordem ao administrativo que fizesse tudo o que ela precisasse.    Ele me mostrou os exames médicos dela, está tudo em ordem.          Lhe contei que chegavas hoje, me disse quando pudesse te levasse lá que queria te conhecer.    Lhe perguntei pelo marido, ela disse que não sabia nada, tampouco queria saber.

Como te disse, minha mãe não era filha deles, sim de uma prima dela, uma garota de 16 anos que morreu no parto.   Mas na cabeça dela sempre foi sua filha.

Qualquer dia desses terei que saber o que foi feito do velho.  Um mal humorado, horroroso.

Bom mudemos de assunto, vais ficar vivendo comigo, ou não?

Que pergunta mais idiota, saio lá do Tocantins, no cu do mundo, ainda perguntas isso.  Mas uma coisa não quero, te atrapalhar.

Porque não tomamos um banho de mar.  Hoje na barraca do Carlinhos, estava a família inteira, o Tico veio correndo quando o viu.  Tico esse é Carlos, o irmão do André, meu namorado. O garoto estendeu a mão, mas Carlos o puxou para ele dando um abraço, se eres amigo do Zé, é meu amigo também.  Primeiro o apresentou ao Carlinhos, Dejanira, esses dois em ajudaram com o apartamento.  Tico logo se intrometeu, eu fiz algumas coisas também.  Carlos estendeu o braço mexeu nos cabelos dele.  Tenho certeza de que fizeste mais do que eles, garoto.  Os outros garotos, eram uma escadinha,  Mentalmente  anotou na sua cabeça, camisetas, tênis para todos.   Ia mandar o Tico ver os números.

Os grupo estava na beira do mar,  Carlos foi devagar, chegou por detrás do irmão o agarrou, sua putinha, agora das o rabo pros homens não.             Ele se virou, abraçou, beijou o irmão.  O primeiro que apresentou foi o Miguel.        Um amigo de toda vida, olhou para o outro sussurrou, meu namorado. Olá Miguel, cuide bem do meu mano, senão vai ter. Apertou a mão dos outros dizendo sou Carlos, irmão do André.

Rindo acrescentou namorado do Zé, essa preciosidade que me salvou a vida.

Zé o arrastou, junto com o Tico, vamos tirar o ranço do Tocantins desse homem Tico, se jogaram os três na água.

Depois voltaram para a barraca,  Dejanira, tinha mandado um dos meninos buscar pasteis para eles.  Deu dinheiro ao Tico, vá com teus irmãos, compre para eles também. 

Esses meninos parece que tem um buraco no estomago.  São capazes de comer pedras se tem fome.   Eu sei o que isso Dejanira.   As vezes ia pescar, para ter pelo menos um peixe para fazer sopa para minha mãe, misturava com os legumes da horta, ficava uma delícia.   O duro era fazer ela comer.  As vezes só o caldo.

Tico que já tinha voltado, perguntou como ele pescava.  Ele rindo disse, já te contei que nadava nu, verdade?

Sim, o menino balançou a cabeça. 

Os peixes viam meu piru, diziam, vamos comer isso, mas tinha que ser rápido para pegar eles antes.  Carlos ria horrores.

Mentira né tio Carlos?

Claro que sim, senão o coitado não ia ter piru para mostrar aqui na praia.  Aliás Dejanira, se eles tomam banho pelados outra vez, vamos chamar a polícia para prender os dois.

Conta como fazia Zé.  

Isso agora é verdade, eu tinha uma coisa como uma flecha de índio, que fiz do galho de uma árvore, ficava imóvel, as aguas nessa parte mais mansa ficavam limpas, quando os coitados dos peixes apareciam, eu fisgava um.   Num dia de boa sorte podia pegar dois ou três.   Um ficava lá para casa, os outros levava para a Marialva que me pagava por isso.

Os meninos o escutavam quietos, com os olhos grandes.  Um dia destes vou comprar peixe lá no posto seis, faremos uma moqueca, disse o Carlos.  

Sabes fazer moqueca Carlos, tens que fazer para mim, minha mãe quando estava boa, fazia umas deliciosas.  Um domingo desses vamos todos lá em casa pró Carlos fazer, promessa é dívida não é Dejanira.  Os outros ficavam olhando de longe, como que pensando o que ele vê nessa família.  Lá pelas tantas, o André com o Miguel se juntou a eles.      Miguel foi com o Tico, pois a senhora tinha avisado que faria agora pasteis de Camarão.  Miguel fez com que os outros amigos se juntassem ali.

Voltaram para casa, já estava anoitecendo.   Deu dinheiro ao Tico, dizendo, pega tua mãe, teus irmãos os leva para casa de Taxi, é muito tarde. 

Ela não vai querer ir. Deixa comigo.  Dejanira, obedeça ao Tico que tem ordens minhas. Ela riu.

Vejo que gosta mesmo dessa família?

Ora Carlos, eu fui criado no meio de gente assim, simples, se tivesses visto o apartamento como estava, era de doer.  Ela raspou tudo, pintou, me ajudou.  Outro dia inaugurei os cadeirões com ela, ficamos sentados, conversando.  Ela nunca tinha visto o anoitecer desde daqui de cima, limpa vários apartamentos, nunca tinha tido a curiosidade de ver o mar.  Falamos muito.

Eu me preocupo pelo Tico, que fica escutando as besteiras que falam os amigos do teu irmão, mas ainda não sei o que fazer.

Esse garoto te adora, menos mal que me escolheu para tio. 

Estava pensando, que o quarto pequeno de empregados pode ficar para ele, assim irá a escola aqui perto.  Terá alguém que o vigie para estudar.

Não sabes o quanto lamento não ter podido estudar.  Mas ainda darei um jeito.  Falar nisso já acabei de ler pela segunda vez o Lobo das Estepes do Hermann Hesse.  Gosto de como ele escreve. Sidarta também li mais de uma vez.   Talvez seja uma mania, chegar na última página, reler outra vez, para ver se nada escapou.

Eu li todos eles, depois vou desembalar, os livros, para que escolhas um para ler, depois discutimos.

Quanto ao Carnaval, se queres ficar para ver como é, tudo bem.  Embora você sabe que nunca gostei.   Sempre escapei.  Vou falar com o André, nossa família tinha uma casa em Arraial do Cabo, não sei se existe.  Como a família ia toda para o carnaval, eu me escapava para lá.

Riu dizendo, agora o ciúmes.  Fostes para lá com o Marcondes?

Nunca, ele ficava para o carnaval, eu ia sozinho, quando voltava ficava sabendo das barbaridades que tinha feito.  Isso me amargou a vida, vinha como um cachorro que faz coisas erradas pedindo desculpas.  Até que me fartei disso.

Pensas em ir visita-lo?

Só se para ti for importante, para mim não é, pois são águas passadas, tenho o que sonhei a vida inteira contigo.     Tenho sempre a sensação de que nos conhecemos a séculos.  Nos encaixamos tão bem.   André veio me falar que ficou impressionado contigo.      Que com o dinheiro que tens no banco poderias estar numa cobertura com piscina, indo de festa em festa.   Mas fazes tudo ao contrário.

Sabes o que sinto falta Carlos, tomar banho nu no rio, me sentia livre, como um peixe, quando tinha que pesca-los me dava pena, vê-los tão bonitos ali, mas claro precisava comer.

Tomaram banho juntos, se arrumaram.   Teu irmão ficou surpreso quando lhe disse que não tinha roupa para colocar no armário, pois eu só tinha a bermuda que usava, a camiseta toda rasgada de velha,  que deixei na beira da estrada, a roupa que tinha quando me encontrei contigo, ah claro o mais importante, meus livros.

Não sabes que quando te vi, a calça era grande para ti, bem como a camiseta, eu queria te abraçar, sair comprar um monte de roupas.  Tu vais, compra só o necessário para chegar aqui.

Eu ao contrário, tenho um monte de ternos que adoraria deixar de usar, camisas sociais, gravatas, mas tudo pelo meu trabalho.        Adoro andar de bermuda, chinelos, camiseta, bem relaxado.  Como só tenho que me apresentar depois do carnaval, esse vai ser meu uniforme.

Saíram para se encontrar com o André mais o Miguel.   Estava parados justamente num lugar que ele queria mostrar ao Carlos, vê são poucos os quarteirões lá de casa, se consigo matricular o Tico aqui, ele poderá estudar melhor.

Não seja por isso, a gente vem fala com a diretora, eu a conheço, foi cliente minha quando trabalhava aqui em Copacabana.

Ele deixo que Carlos conversasse com o irmão, pelos menos agora se falavam.   Num determinado momento, Carlos soltou, não sabes com que alegria, depois de ter falado com o Zé, escutei tua voz me chamando para conversar.  Nem me lembro quanto tempo fazia que não falávamos assim.

Chegou à comida, mas viu que o André estava quieto, parou com garfo no ar.   Te telefonei, porque esse garoto tem o dom de me cutucar.  Me cobrou porque eu não te chamava, afinal eu era teu irmão, se estivesse no cu do mundo também gostaria que alguém me chamasse.

Cuidado quando falas no meu garoto.  Realmente André ele tem um dom, que não sei explicar, imagina, passo basicamente dois dias com ele, me apaixono, sou capaz de tentar recuperar minha vida outra vez.   Vai me buscar no aeroporto, me sequestra, me tem prisioneiro nesse apartamento, me explorando sexualmente.  Que mais posso querer.   Além disso, consegue que eu fale do Marcondes, sem me ferir.      Me faz ver que estou curado daquela merda toda. Desde que o vi, esqueci do resto.

A cara dele era um sorriso imenso.  André estendeu a mão pousou sobre a sua, que bom meu irmão.   Mas esse sem vergonha, nos colocou numa situação difícil.  Imagina conheço o Miguel de toda a vida, sempre contamos um para o outro nossas aventuras.  De repente esse garoto pergunta se não enxergamos, se estávamos cegos, pois estava na cara que nós queríamos, a verdade é que vai genial.  Nos completamos.   Hoje a turma percebeu, foi interessante, pois eles fizeram o que o Zé disse, não gostaram.            Com que tendo inveja.  Depois viram vocês com o Carlinhos, a família toda, ali rindo, comendo pasteis, se sentiram excluídos.  Viram que são uns tontos.  Tudo que sabem falar, é com quem dormiram, o tamanho do piru, o que fizeram na cama.

O resto nem sabemos quem são na verdade.

Vamos marcar um almoço dias desses com o Carlinhos a família toda.

Dei uma incumbência ao Tico, amanhã quero ver se me traz, como comprei uma camiseta para ele, sei que os irmãos ficaram de lado.  Lhe pedi que conseguisse o tamanho de cada um, vou comprar tênis, camisetas, bermudas.  O Tico já precisa de cuecas. 

Caramba Zé, pareces um pai de família.

Olha Miguel, família é aquela que escolhes, podem ser dentro dos amigos, das pessoas que conheces.   Tu mesmo ficou encantado com o trabalho dessa mulher.  Ela é genial, hoje contava ao Carlos quando tudo acabou, me sentei com ela olhando o mar, tomando um café.  Ela nunca tinha parado para olhar o mar, não lhe sobra tempo.   Tem que levar a família para frente.

Acho melhor que sejam minha família, do que fiquem jogados no mundo.

Tens razão nos acomodamos no nosso bem estar, esquecemos do resto.

Voltaram passeando pela praia. Era tarde, a rua estava vazia.  Quando passaram viram que o Carlinhos estava arrumando tudo para dormir ali mesmo.  Foram falar com ele, não faturei o suficiente, o homem que me aluga um espaço cobra caro.  Menos mal que Dejanira levou os meninos para casa, senão o Tico tinha que dormir aqui comigo. 

Aonde é esse lugar?   Ali na volta da esquina.  Quanto tens que pagar.  Ele disse com a cabeça baixa.                   Carlinhos somos amigos, não tens que ter vergonha.  Tirou dinheiro do bolso, perguntou se o Carlos podia completar, vá lá pague três meses, assim quando acabar o verão tudo será lucro para ti. Lá foi ele correndo todo alegre.  Carlos ficou abraçado a ele.

Eu quando tive que pagar o trabalho, dei dinheiro para a Dejanira, porque sei que ele teve dependência de drogas, ela morre de medo que recaia, por isso, faço isso, se ele ficar aqui, alguém vai lhe trazer drogas.  Se for para casa não.

Ele voltou sorridente, vinha um homem com ele, dizia tens que controlar teu dinheiro Carlinhos, não posso fiar para ti. Mas se dizes que tem dinheiro eu te ajudo.   Quanto é três meses senhor, lhe perguntou o Zé.  O homem disse, ele estendeu o dinheiro.  O senhor por favor ajude ele a levar as coisas.   Carlinhos escute bem, te ajudo, mas se souber que comprastes drogas meu irmão vou te encher de porrada, me escuta, tens 4 meninos para criar.

Ele olhou assustado, quem é esse que esta ao teu lado me ameaçando, parece um índio.

É um amigo meu, ele está te vigiando.  Não se esqueça do que falei.

Foram embora.  Quem foi que ele viu ao teu lado, perguntaram.

Ué o índio que me acompanha,  Marcondes falou nele, eu o vejo sempre.  Estava ali para que eu falasse dessa maneira.  Mas Carlinhos o viu, quiça isso lhe meta medo.

Carlos a Dejanira não te lembra da Marialva?

Caramba, tens razão são parecidas nessa maneira franca de dizer as coisas.

André ia me esquecendo,  a casa de Arraial do Cabo ainda existe?

Sim, precisa de uma senhora limpeza, ninguém vai por lá a muito tempo, uma pena, você sabe como é, nos finais de semana no verão é um horror o transito.  A chave está comigo, posso perguntar se alguém vai.   Gostaria de passar uma semana lá, emendando o carnaval, quero pensar na minha vida daqui para frente.  Depois comento contigo.

Quando subiam Zé lhe perguntou como era a casa.

Bom é grande, na parte detrás, ainda tem dois quartos, um banheiro.   Na da frente tem três quartos grandes, dois banheiros, um salão imenso que dá para uma varanda, de frente para o mar.  Não fica dentro da cidade, mas no caminho de uma das praias.   A agua é transparente.

Porque não fazemos o seguinte. Alugamos um carro grande, vamos com a Dejanira, os meninos, limpamos tudo.   Ia adorar ficar num lugar tranquilo contigo.  Os meninos têm a praia para se divertirem.   A Dejanira pode ajudar a limpar, fazer comida, ainda lhe pagamos.   Ela me disse que é a pior quinzena para ela. Que a maioria dos patrões vai para fora, como ganha por dia, não trabalha.

Vamos esperar o que diz o André.  Uma vez pensei em comprar dos meus irmãos essa casa, passar grandes temporadas lá.  Inclusive fiquei várias vezes no inverno por lá.  Não é tão mal assim.   No inverno fica mais fácil de ir, pois o tráfego é melhor.  Como tudo no Brasil só começa depois do carnaval,  resolvo minha vida.

Me diga o que pensas fazer?   Bom eu posso pedir uma aposentadoria antecipada,  manter o salário que tenho agora.  Esses anos que andei trabalhando pelas cidades que ninguém quer ir, contam.   Estou farto desse trabalho, queria encontrar alguma coisa para fazer que me dê prazer.

Mais prazer do que eu?

Garoto não seja sem vergonha.  Mal posso ficar ao teu lado, fico louco para transar contigo.

Mal entraram no apartamento, arrancando a roupa um do outro.  Se amaram com paixão.

Como posso trocar isso que tenho contigo, por qualquer um desses idiotas, que passam o dia inteiro na academia, mas são uns idiotas.  Menos mal que teu irmão mais o Miguel, estão vendo isso agora.

Ficaram depois sentados olhando o mar.   Carlos lhe disse, imagina o mar de Arraial do Cabo, a água chega a ser transparente.

Vai dar tudo certo, tenho certeza.  No dia seguinte amanheceu chovendo. Não havia ninguém na praia.  Ficaram em casa de preguiça.  Saíram de tarde para irem ao supermercado, Zé sempre ria, quando vejo tudo isso, comparo com o armazém do meu pai.  É humilhante, mas imagina que ele fez todo esse dinheiro com isso.  

De tarde, sua avó lhe chamou, tive um sonho com teu avô, estou preocupada.  Chamei a vizinha, disse que faz dias que não o vê.   Podes ir até lá?

Sim avó, eu dou uma chegada lá.

Mas a vizinha já tinha avisado a polícia o corpo de bombeiros.   O encontraram sentado na sala como sempre, sem roupa nenhuma, todo sujo.  O médico examinou, creio que este senhor tem demência senil.  Melhor levar para um hospital.  Ele se identificou, ele é meu avô, corre tudo por minha conta, pode leva-lo para um hospital particular, eu pago as despesas.

Disse aonde a avó estava.   O doutor acha que ele pode ir para lá. 

Melhor o senhor falar com a administração, pois normalmente esses lugares não recebem pessoas nesse estado.   Mas se o senhor diz que ele foi militar, pode ficar no hospital dos militares.  Vamos acionar tudo, lhe deu o número do seu celular. Quando ia sair, o carrinho de compras que ela tinha deixado ali, estava no mesmo lugar, com um cheiro horroroso.  Ainda bem que a tirei daqui antes disso tudo.  Chamaram um Uber, não vou contar para ela por telefone, melhor ir até lá.

Estava sentada na varanda fazendo crochê, junto com a amiga. Quando o viu entrar, se levantou.

Zé disse, esta é a minha avó Carlos, ela beijou os dois, abraçou.  Ele é como você disse, gostei dele.

Foste ver teu avô?    

Vamos nos sentar primeiro, puxaram cadeiras.  Quando eu cheguei a tua vizinha já tinha chamado a Polícia o corpo de bombeiros uma ambulância.  Ele estava sentado no mesmo lugar, nu completamente.  O médico diz que tem demência senil, talvez por isso andasse tão agressivo.  Quando eu disse que ele militar, iam levar para o hospital militar, depois me informaria.  Quando eu volte, telefono antes, vou até lá para vê-lo.  Antes queria saber da senhora, se queres que ele venha para cá.

Eu não, para me infernizar a vida, agora que estou em paz.   Ele fez da minha vida um inferno, afastou a tua mãe de mim.  Agora estou aqui em paz.  Vou te dar um telefone, é de um sobrinho dele que é seu herdeiro.  Ele que cuide do tio, já que vai herdar aquela casa que vale muito dinheiro.

Se despediram dela,  telefonou ao médico, disse que tinha ficado num hospital do exército, deu a direção, é que seu sobrinho já estava lá.  Pois em sua ficha médica dizia que qualquer coisa chamar esse sobrinho.

Ótimo uma coisa a menos para pensar.  O sobrinho que vai herdar que cuide dele, como ela disse que a deixem em paz.

Um amor de pessoa.  Fico imaginando como deve ter sofrido por aguentar uma pessoa assim.

Imagino que minha mãe deve ter passado com ele.  Para fugir assim da cidade.

Bom não vou ficar remoendo isso, temos mais coisas para pensar.  Quando chegaram em casa, estava sentado na porta o Tico,  que passa garoto?   Não sei as coisas do meu pai não estão na praia. Ele não apareceu ontem em casa nem hoje.

Venham o homem fica por ali.  Quando o homem os viu, foi logo dizendo, não tenho culpa, ele tirou uma parte do dinheiro da minha mão saiu correndo.  Disse que o índio estava atrás dele.

Foram a polícia.  O tinha  encontrado como uma overdose.  Merda, fui querer ajudar, mas não adiantou.  Tico, me leva a tua casa. Melhor pedir o carro do André emprestado.  Carlos correu ao banco, pegou a chave, foram para aonde o Tico tinha falado.  Era longe.  Um casebre por cair.  Dejanira quando os viu  não disse nada, mandou o Tico ficar com os irmãos.

Já imagino, desde que o senhor não quis dar o dinheiro para ele de tudo que eu fiz, ficou bravo.  Disse que lhe tocava a metade.  No outro dia na praia, eu estava lá porque desconfiava.  Creio que tem estado outra vez nas drogas.  Não tem jeito,  todo o verão é a mesma coisa.

Mas desta vez eu fui o culpado, quando o vi dormindo na praia, me disse que estava sem dinheiro para pagar aonde guarda as coisas. 

Por isso fiquei desconfiada, olha o movimento da barraca.  Descobri que outro dia teve que pedir dinheiro emprestado para comprar as cervejas.  

Pois é dei dinheiro para o homem para guardar por três meses, o homem disse que ele lhe tirou da mão uma parte, desapareceu.   Fui a polícia o corpo está na morgue.  Sinto muito Dejanira.

O senhor não tem culpa, eu vinha desconfiando a tempos.  O Tico estava lá para vigiar, disse que ele as vezes desaparecia. 

Mas mulher como podes fazer isso, mandar um garoto vigiar um marmanjo.  Mas vou te ajudar não se preocupe.  

Eu paguei o aluguel atrasado aqui do barraco, com o dinheiro que o senhor me pagou, agora terei que arrumar outra coisa.

Carlos disse, espere.   Saiu para a rua, ficou falando ao lado do carro.  

Bom falei com o André, ele me disse que meus irmão não vão usar a casa.   Podemos ir para lá.

Olha o Carlos tem a casa da família dele, em Arraial do Cabo, queremos ir, íamos te chamar para ajudar a limpar a casa, vir com os garotos, passar uns 15 dias por lá.   Mas antes temos que providenciar o enterro.  

Não temos dinheiro para isso não Zé. Que o enterrem como indigente mesmo.  

Nem pensar, com todos os defeitos o Carlinhos foi legal comigo.  Vou me informar, nem que seja longe, o enterramos, esses meninos um dia podem querer saber aonde está o pai, vais dizer que o enterramos como indigente nem pensar.  Basta que tive que enterrar minha mãe na beira do Rio.   Mas porque ela queria assim, meu pai estava ali.  Se amanhã ou depois quero ir chorar, vou até lá.

Quem é prático é o Miguel, deixa eu falar com ele.   Explicou a situação.

Já te chamo.   Dez minutos depois, disse que conseguia no cemitério da Pechincha em Jacarepaguá.    Aonde está o corpo, que mandam buscar.   Colocaram a Dejanira com os meninos no carro, disse para ela, faz um bolsa com as roupas para ficarem num hotel lá perto de casa.

Mas não posso pagar. 

Mulher me escute, já resolveremos isso depois.  Agora toca, tirar os meninos daqui, pois estão assustados.  Vamos para Jacarepaguá, que foram buscar o corpo.

Quando chegaram lá, já estava o Miguel, com o André.  Já escolhemos um caixão de pinho, mais simples.  Tinham até conseguido um padre, que rezou na hora de abaixar o caixão.   Depois levaram os meninos para comer.  Dejanira era forte, mas tinham medo de que viesse abaixo.  Foi até o hotel aonde estava hospedado, os alojou ali,  o Gerente tinha ficado seu amigo.

Explicou a situação.   No dia seguinte de manhã, foi buscar os meninos, Miguel tinha lhe ensinado aonde ir comprar roupa para eles,  no Saara no centro da cidade.   Deixou cada um escolher camisetas, os tênis, as bermudas.  Comprou um moletom para cada um, pois Carlos disse que fazia frio de noite em Arraial.

Enquanto ele fazia isso, Carlos alugou uma van, que era grande para levar todo mundo.  Ele mesmo tinha pouca coisa para levar. O mais importante eram os livros.  Para ler.  Quando voltaram Dejanira agradeceu, assim pude ficar sozinha, chorei um pouco, já me sinto melhor.

Podemos ir quando o senhor quiser.

Primeiro pelo amor de deus Dejanira, me chame de Zé, basta de senhor.   Os meninos pequenos estavam animados,  só o Tico tinha sabido o que tinha realmente acontecido.

Você acha que ele vai pro céu Tio Carlos. Estava mais agarrado agora com o Carlos, talvez por o ver mais velho.

Claro meu filho, vamos sempre todos para o Céu.

A viagem foi tranquila, pararam no meio do caminho para os meninos darem uma mijada, comer um sanduiche.   O pequeno era agarrado com a mãe.  Carlos foi dizendo como iam fazer. Deixariam as coisas em casa, iriam ao supermercado mais próximo para comprar material de limpeza, arejar a casa, pois estava fechada.  Comprar comida.

Foram fazendo uma lista do que havia para comprar.  Quando Zé perguntou o que eles comiam de manhã, quase chorou, a resposta foi, o que tiver. Pão velho com um pouco de leite.

Pediu para parar o carro um momento, que ele precisava andar.   Saiu, ficou chorando sozinho na beira da estrada.  Até que viu o índio.   Meu filho cada um escolhe seu caminho, ele já estava a meses na droga, inclusive tinha feito sexo com um dos homens da praia, para conseguir dinheiro.  Mas não se preocupe, vai tudo acabar bem.    O  Tico foi teu filho em outra vida. Por isso gosta de ti. Olhou para o carro, viu que estavam preocupados.

Me desculpem, mas me lembrei da minha infância, isso mexeu comigo.  Mas não se preocupe Tico, vai dar tudo certo.

Os meninos adoraram a casa, pois havia um pátio no centro.  Abriram as janelas, olha Dejanira, vocês podem usar esses dois quartos.  Um tinha dois beliches, os meninos podem ficar aqui, assim terás espaço para ti.  Ela foi com o Carlos ao supermercado, enquanto ele mais o Tico, iam abrindo as janelas, virando os colchões. 

Sabe Zé, os meninos não entenderam o que aconteceu, eu ia todo dia lá, as vezes dormia na praia para vigiar.   Mas ele ultimamente sempre conseguia um jeito de escapar.  Nunca tinha dinheiro, ficava nervoso à toa.  Me dizia que minha mãe, me mandava, não para ajudar, mas para vigiar.  Era verdade, mas me esforçava para olhar por ele.

Vês, por isso Tico, tens que estudar.  Queres essa vida para ti?

Não senhor, deus me livre.  Vamos dar um jeito de vocês estudarem.  Ok.

Quando eles voltaram, como fazia sol, eles dois tinha estendido os lençóis que estavam guardados ao sol, para tirarem o cheiro.  Amanhã lavo tudo, assim fica mais fácil.

Começaram a limpar tudo.   Um dos meninos veio correndo, vimos peixes na beirada d’água disse.  Tico começou a rir.  Do que estas rindo disse sua mãe.

Agora vamos saber se o Zé é um mentiroso ou não.   Quero ver ele pegar esses peixes.

Zé encontrou um cabo de vassoura velha, afiou a ponta, vou te mostra moleque a não duvidar de mim.  Foram todos olhar.  Ele entrou na água, mergulhou ao lado dos peixes, ficou ali um tempo, depois saiu com dois na mão. Entregou para a Dejanira. Espera, vem Tico, vem comigo.

Tu prendes a respiração, fica junto com eles, moves a mão devagar, até encontrar um.

Segundos depois, ele se saiu com um na mão.   O índio me ensinou como pegar.

Dejanira, esse menino, um Índio, aonde tem um índio?

Dentro d’água mãe.   Carlos disse eu já vou te explicar.

Pegaram mais dois.  Já temos o suficiente para o jantar, nunca se deve pegar mais da conta do que se pode comer.

Ele saiu da água, se virou para as duas mulheres que estavam ali, agradecendo a proteção.

Os meninos estavam felizes, queriam saber do Tico como se fazia.  Não saiam de perto dele, o irmão tinha virado seu herói preferido.

Eu sempre gostei de comer aqui na varanda. Podemos colocar os mosquiteiros, porque senão fica cheio de mosquitos.  Vai ficar nada.  Zé chamou os meninos, peguem uma bolsa, voltaram rindo.   Mãe, o Zé catou todas as bostas de cavalos, vacas que achou ali no campo atrás, estão secas.    Ele achou uma travessas de barro já velhas, que estavam apilhadas no pátio. Verás como não teremos moscas.

De noite, ele colocou tudo aquilo para queimar como se fosse um incenso, não tinha mosquito nenhum.    Mais tarde André telefonou para  saber como estavam as coisas. Te incomoda que a gente suba esse final de semana.  Posso sair na sexta de tarde, chegamos de noite.

Claro vamos preparar um quarto para vocês.  Hoje estamos comendo peixe que o Tico pescou junto com o Zé.  Depois te conto aqui.

Ria a não mais poder.   Isso passará para a história. De noite ele ajudou a Dejanira colocar os meninos na cama.  O pequeno ia dormir com ela.  Ainda perguntou ao Tico, vais dormir em cima, olha lá não vá cair da cama.                    Carlos se lembrou, podemos tirar a parte de cima. Arrumaram o quarto com três camas, assim não cais em cima dos outros.

Deu um beijo na cabeça de cada um, dizendo boa noite.

Até amanhã Dejanira, descanse.

Foram dormir.  Menino que confusão, esses meninos são ótimos.         Não Carlos, tu é que es um paizão.   Fizeram sexo suavemente, dormindo abraçados.  Carlos ainda comentou, que raro isso do André querer vir para cá, tendo samba.

A casa foi ficando com outra cara.  Eu sempre me imaginei aposentado aqui.  Até juntei dinheiro para comprar dos meus irmãos, eles quase não vem.        Que gostava realmente daqui era meus velhos.  Nessa parte aonde estavam os peixes, sempre foi como uma piscina. Viste como a água é limpa.  Depois como os meninos gostaram da história dos peixes.   Falou no ouvido dele, não quero que ninguém escute.   Te amo.

No outro dia de manhã, André tornou a chamar, a princípio pensou vai dizer que não vem, mas o que perguntou se lhes incomodava levar mais uma pessoa.

Nada, temos muita gente na casa, podem vir, arrumamos outro quarto. Dejanira tinha lavado toda a roupa de cama, como o sol estava de rachar, ia secar rápido.

Fuçando nas coisas, Zé encontrou uma espécie rede de limpar piscina.  Limpou bem, disse ao Tico, vamos pescar sardinhas.

Mas Zé num vi nenhum peixe pequeno ontem. 

Não importa, vamos tentar, os meninos vão adorar comer sardinhas fritas, os pescadores dessa casa somos nós dois.  Tinha que comprar óculos de mergulhar, um desses tubos para respirar.

Mergulharam os dois, um pouco além da piscina, viram um banco de peixes pequenos, fez um sinal ao Tico, subiram respiraram, voltaram para baixo, com a rede, pegou umas quantas sardinhas,  Tico com a mão um peixe maior.

Foram até a praia levar, os meninos queriam entrar na água, escutem peçam a tua mãe alguma coisa para colocar os peixes. Hoje temos que pescar muito, pois a noite terá mais gente para comer.

Voltaram a mergulhar, fizeram isso mais umas três vezes.  Tinham uma boa quantidade de sardinhas para o almoço, vários peixes grandes para o jantar.

Levaram tudo para o Carlos que ia limpar as sardinhas para fazer na brasa no pátio,  Zé voltou a praia com os meninos, ficaram na piscina, ensinando a respirar, mergulhar. Os mais pequenos a nadar.  Eles não tinham medo de nada.

Quando voltaram, correram para sua mãe dizendo, daqui alguns dias estaremos pescando melhor do que eles dois.  Dejanira ria, estava mais relaxada.

Carlos estava inquieto.   Que está acontecendo senhor meu?

Quem será que estes dois estão trazendo, espero que não seja nenhum chato do grupo, ou o Marcondes.

Carlos, tens que pensar, que mais dias, menos dias terás que enfrentar isso.  O passado já acabou, ou ainda tens dúvida.  Relaxa que teus meninos daqui a pouco vão ter fome.  Ah de tarde, queria ir a uma loja dessas de material de praia, para comprar óculos de mergulhar para eles, precisam de sungas, não sei como se chama aquele tubo, para respirar embaixo d’água.

Ok, depois de comer vamos.  A Dejanira precisa de um maiô também.

Sentaram para comer na varanda.  Os meninos estavam acostumados a comer sardinhas em lata, nunca tinham comido assim.  Ela tinha feito um arroz delicioso, com um caldo das cabeças dos peixes do dia anterior.

Zé comentava da diferença de sabor dos peixes de rio, para os do mar.           Tico se meteu na conversa dizendo claro Zé o rio é água doce, mar água salgada.  Carlos ria, presidindo a mesa, colocou a mão sobre a do Zé, não sabes como precisava disso, me sentir em família.

Quando formos agora comprar as coisas, sugiro Dejanira que compremos legumes para esses meninos.  Ah temos que comprar leite também, o que compramos já está no final.

Esses meninos bebem leite, como se fosse água.

Mas claro, estão crescendo, pela conversa realmente pareciam uma família.

Foram fazer as compras, Zé deixou os meninos escolherem cada um sua sunga, seus óculos, diziam ao homem da loja, vamos pescar, pegar peixe com a mão.

A Dejanira não queria comprar o maiô, até que Carlos a convenceu.  Tens que desfrutar da praia também, não é só trabalhar.

Olha Carlos, só de sentar nessa varanda para comer, olhando o mar, já me basta.

Nada disso, queremos te ver desfrutar do mar, ele descarrega as coisas negativas.

Quando voltaram os meninos queriam usar tudo.  Ficaram os maiores sentados na praia, Tico ensinava os irmãos.  Veja Dejanira, ele já está assumindo o papel de homem da casa.

Mas quero que ele estude, os outros também.

Quando chegaram os convidados, a porta detrás do carro estava fechada, disseram ao Zé, abre a porta por favor. Quando ele abriu a porta, quem saiu foi a Marialva.

O grito dele foi tão alto que todos correram para ver.

Ela apareceu lá no banco procurando por ti Carlos, quando escutei o nome, me lembrei que o Zé vive falando nela.   Era a ele que estava procurando.   Por isso a trouxemos.

Meu menino, que saudade.  Estas fantástico.  Se apresentou ao Carlos, quando olhou a Dejanira, era como se estivesse olhando num espelho ela mais nova.  Os meninos imediatamente passaram a chama-la de tia.

Levaram as coisas para dentro.  Estava absolutamente maravilhada com a casa, o panorama.

Antes do jantar, ela foi dar um passeio pela praia, com os garotos correndo na frente.  Que bom meu filho, encontraste uma família, o André me contou o que aconteceu.  Mas assim é a vida, o rio nunca para até desembocar no mar.  Essa é a verdade.

Me conta, como foi o de Minas Gerais.

Bom tinha umas contas pendentes com minha família.  Embora não precise de dinheiro, tinha meu ouro guardado, bem guardado.  Fui reclamar minha parte na herança, pois contratei um advogado.  Meu pai me expulsou de casa, mas se esqueceu de me tirar do testamento.  Tiveram que me dar uma boa quantidade de dinheiro.  Depois os mandei a merda.  Vim para o Rio, me lembrei que o Carlos trabalhava nesse banco, resolvi entrar para perguntar, quando o André apareceu dizendo que tu vivias falando de mim.  Disseram que vinham te visitar, perguntei se podia vir. Aqui estou contigo.

Podes ficar quanto tempo queiras.  Ainda não sabemos do que vamos fazer.  Preciso cuidar dessa família, mostrou os meninos correndo na frente.  

Quando o Manuel, me disse que tinhas muito dinheiro, fez um comentário que não gostei, disse que estarias gastando a rodo em besteiras,  Eu disse que nada disso, que te conhecia, estarias gastando esse dinheiro em coisas importantes.

Que mulher a Dejanira, parece que estou me olhando no espelho, quando era jovem era como ela, muita gente pensava que era sapatão.   Mas nada, cuidava das minhas meninas, quem se atrevesse a desrespeitar dava uma boa surra.   Nunca tive medo de homem nenhum.

Menos mal que tive tempo de comprar um maiô, para vir a praia.

A noite era de lua cheia, todos falavam em nadar na piscina.  Dejanira queria que os meninos comessem na cozinha.

Nem pensar mulher, há muito não tenho essa sensação de família, foi dizendo a Marialva, a minha família na vila, era esse sem vergonha do Zé, sua mãe que em paz descanse.

Antes de ir embora, Zé, plantei umas flores como ela gostava, na sua tumba.

Tico perguntou como era o Zé de garoto.  A Marialva contou várias histórias que nem ele lembrava.  Quando acabaram de comer, ela foi dando ordem, cada um leva seu prato para a cozinha, vamos ajudar sua mãe.

Depois os quatro na varanda escutaram as duas rindo na cozinha.

Que bom que vocês a trouxeram, essa mulher me ajudou muito com minha mãe, as outras mulheres quando a vila tinha gente, não falavam com ela, minha mãe não.  Às vezes me mandava levar encomendas no putero.  Ela me recebia, pagava em dinheiro, sempre enfiava algum no bolso esfarrapada da minha bermuda.  Para que um dia eu pudesse comprar uma melhor.

Quando todos foram embora, as putas inclusive, ela vinha todas as noites se sentar com a gente atrás da casa, para conversar.  É muito boa gente.

Agora, me contém, o que aconteceu, para que os senhores não estejam no samba?

Bom descobrimos quem foi que vinha dando dinheiro ao Carlinhos a troca de sexo, para comprar drogas.         Estava se vangloriando na frente de todo mundo disso.  André perdeu a paciência lhe deu um murro na cara, saltaram dois dentes.       Chamou todos de filhos da puta, para baixo.  Quem estava contando era o Miguel.  Ficou tão furioso, que foi difícil acalma-lo.

O Zé tem toda razão dizia, perdemos nosso tempo com esses tipos fúteis, que não fazem porra nenhuma.           Começou a me contar da infância dele aqui.   Lhe disse por que não vamos, no samba sempre é a mesma coisa.

O que é uma verdade, gosto, mas acaba-se exagerando, como se não houvesse outra coisa no mundo.

Quando as mulheres apareceram, Marialva foi logo dizendo, vamos fazer um rodízio nessa cozinha, senão só as mulheres trabalham.    Estava contando a Dejanira, que lá no meu putero, tudo tinha ordem.  Cada dia tocava a uma lavar os lençóis as toalhas, ferver tudo, nunca se sabia não é mesmo.   Quando aparecia homem sujo, obrigava a tomar banho antes, cobrando é claro.

Vamos tomar um banho de mar ou não.   Os meninos já estavam todos de sunga, nós vamos também.

Temos que comprar uma televisão para esses meninos se distraírem de noite. 

Nada disso, lá na vila não tinha, passávamos tempo contando histórias, verdade Marialva.

E como, as do Zé eram sempre mentiras, dizia que tinha pegado o peixe mais grande, contou exagerando, os meninos riam muito.   Tico, soltou, mas o índio está sempre mostrando os melhores para a gente.

Que história é essa de índio que vives repetindo.

Conta para mãe, que não acredita em mim, Zé, o índio não ajuda a gente?

É um espírito Dejanira, tenho um índio que me ajuda desde criança, lá no rio Tocantins, foi ele que me ensinou a pescar.   Agora aparece aqui, ensinado o Tico a pescar.

Segundo um conhecido, um Oxóssi.

Agora entendi. Pode deixar Tico, agora acredito em ti.

Todos prontos, ficaram nadando brincando com as crianças dentro da água. 

Não me divertia assim desde que era criança, foi o Carlos que me ensinou a nadar aqui, verdade mano?   

Sim, ainda não tinha saído de casa, procurando meu lugar no mundo.   O pai quando me viu beijando um menino vizinho, me botou para fora de casa.   Fui viver na Prado Junior, no meio das putas, viados, famílias, aquela bagunça, que lembra muito o Rio de Janeiro, o próprio Brasil.

Mas precisei ir para o cu do mundo para encontrar essa preciosidade.  A pele do Zé, brilhava como escamas sobre a luz da lua.  Voltaram se sentaram todos na varanda, Carlos foi colocar os meninos na cama, depois voltou com a Dejanira.

Zé tava contando isso aos outros, ele é um puto paizão, vai todos os dias colocar os meninos na cama.

Claro me faz bem fazer isso, faço porque gosto.

André, achas que nossos irmãos concordariam em vender a casa para mim?  Tenho um dinheiro guardado, posso pedir um empréstimo no banco para pagar o resto.

Nada disso, disseram a Marialva, o Zé ao mesmo tempo, te emprestamos com juros altíssimos.

Eu cobrarei em carne viva, o empréstimo.

Sabe o que eu faria, soltou Carlos já sonhando, fecharia essa varanda, com um sistema, que no verão aberta, no inverno, fechada para poder continuar desfrutando de olhar o mar.

No inverno venta muito Carlos, me lembro de uma vez que vim com os velhos por algum motivo, fazia muito vento, frio que não faz lá no Rio de Janeiro.

Depois tem aquele outro lado no pátio,  ali dá para mais dois quartos, com banheiro.  A churrasqueira, está tão velha que quase cai aos pedaços.  Vi uma moderna lá na loja que fomos acho que vou comprar.

Ficaram conversando, André disse que ele levantaria cedo, iria comprar pão quente pra todo mundo.

Foram dormir.  Carlos abraçado ao Zé, falava baixinho, fazia tanto tempo que não tinha essa sensação de família.  Se amaram em silencio, um olhando nos olhos do outro.  Quando a lua bate na tua pele, parece que tem um toque especial para ti.  Isso me deixa louco por ti.

Zé riu baixinho, eu também te amo, Carlos.  O interessante era que desde a primeira vez que tinham dormido juntos, dormiam nus, agarrados um ao outro, como se fosse importante, essa contato de pele. Apesar de fazer calor, ali na beira do mar, era mais suave.

No dia seguinte quando forma tomar café, o cheiro de pão quente, enchia todo espaço, André tinha comprado bastante, pois sabia que os garotos gostavam.  Depois vá até o pátio Carlos.

Quando esse foi, tudo que escutaram foi Filhos da puta.  Tinham comprado a churrasqueira que ele queria.

Ver meu irmão feliz, vale qualquer coisa.  Essa é a verdade.

Estive falando com o Miguel de noite, rindo disse, no intervalo, riram todos, pois entenderam.

Acho melhor dizer que é outra pessoa que está interessada, pois sabes como são nossos irmãos vão fazer cu doce.  Mas se sabem que é outra pessoa, concordarão.

Bom pode usar o meu nome ou da Marialva, sem problemas.

Dejanira, porque não ficas aqui com os garotos, tem escola perto, podem inclusive irem de bicicleta,  podiam todos estudar aqui.  Te pago um salário, registrado em carteira, assim um dia podes te aposentar.  O barraco não é teu. Não tens que pagar aluguel.  Penso em ficar aqui a maior parte do tempo, o Zé não sei o que pensa fazer.

Eu posso estudar em Cabo Frio que está perto.  Vou aprender a dirigir, vou arrumar uma escola que me aceite. 

Quais teus planos Marialva?

Se o Carlos permitir, posso construir o que ele disse do outro lado do pátio, como um apartamento para mim, não tenho ninguém, isso é como uma família que nunca tive.  A não ser que a presença de uma velha puta, incomode.

Na verdade Marialva, só tu lembras, nós nunca pensamos em ti como tal.  Se queres ficar tudo bem.  Cada um cria seu espaço.  Como diz tu, cada qual com sua obrigação.

Tico foi o primeiro a dizer, a minha será ir à escola, alimentar a família com os peixes que possa pescar.   Todos riram, mas Carlos trocou um olhar com o Zé, ele tinha colocado escola primeiro.

Dejanira, tinha os olhos cheios d’água.  Caramba, estava numa merda total, esses que mal me conhecem me acolhem com meus filhos, como se eu fosse de sua família.  Agora a Marialva, me ajuda.

Os dias passaram rápidos, Miguel, serviu de intermediário entre os irmão, levantou quanto valia a casa, fez uma oferta pela mesma, sem dizer quem era o comprador.  Os outros aceitaram, dizendo que teriam que localizar o Carlos, para assinar.   Miguel soltou que o André tinha uma procuração dele para isso.  Fecharam negócio, quando já tinham o dinheiro no bolso, viram que o comprador era o Carlos, queriam voltar atrás, mas o negócio já estava feito.

André desistiu de sua parte, pois pensava em frequentar mais tempo a casa. Ao mesmo tempo andou conversando com os do banco que ele conhecia.  Informou ao irmão como ia a história de uma pré aposentadoria.   Quando voltaram ao Rio, só os homens, as mulheres ficaram na casa.

Carlos se apresentou, pediu a pré aposentadoria, estudaram, concordando em fazer como ele queria. Ficou feliz da vida, pegou todos seus ternos, camisas sociais, gravatas, deu para o porteiro do edifício.   Zé ainda brincou com ele, como ia ser no dia do casamento, não terás mais nenhum terno para usar.  Contigo me caso nu, pois tu eres meu mundo.

Ensinou o Zé a dirigir, tanto que ele passou nos exames de primeira.  Ele comprou uma van, para levar os meninos por enquanto a escola, quando fossem maiores poderiam ir de bicicleta.

Dejanira parecia outra pessoa, mais relaxada, agora os meninos tinham um verdadeiro armário, com suas roupas.  Tico sonhava em andar de calças compridas, mas quando provou, disse logo, prefiro andar de bermudas.   Nas noites de lua cheia, eles nadavam nus na praia vazia.  As vezes se fosse mais tarde, sabiam que os meninos já estavam na cama faziam sexo.

Quase todas as noites, jogavam cartas com eles, até terem sono.  André conseguiu transferência do banco para Cabo Frio, Miguel vendeu a imobiliária.  O que deu pena ao Zé, foi deixar o apartamento do Rio, mas para que manter se não iam nunca.

Zé finalmente realizava seu sonho, estudava de noite com alunos de sua idade, que queriam recuperar o tempo perdido.  Estava sempre com livros na mão.  Conseguiu entrar para a faculdade de Cabo Frio, para estudar meio ambiente.  Não que ele precisasse trabalhar, mas queria saber sempre mais, ajudava os meninos a estudar.  Tico estava crescendo, já tinha quase 15 anos. Começava a se interessar por sexo.

Um dia estavam os dois passeando na praia de noite.  Ele se meteu no meio, pediu se podia conversar com eles.  Se sentaram ali na praia.  O que passa Tico.

Estou interessado num companheiro de classe.  Mas não sei como fazer.

Fazer o que?

Lá no Rio, escutava aqueles sujeitos falando de sexo, que tinham dormido com um, com outro, isso eu não quero.   Quero ser como vocês dois.  Porque vocês são o exemplo que tenho. Se amam, se respeitam, nunca estão falando de sexo com ninguém de uma forma vulgar.

Já conversaste com esse garoto?

Sim, nós demos um beijo outro dia.  Ele vive aqui com o pai.  Este trabalha com sal em Cabo Frio.

Vá devagar, não tem pressa, deixe a coisa andar.  Vá dando seus beijos, o dia que quiserem fazer sexo, tomem cuidado, usem camisinha. Ok.

Posso convidar para ele vir aqui em casa?  

Claro Tico, a casa também é tua. Apenas fale com tua mãe sobre isso. Não deixe nunca ninguém fazer brincadeiras de mal gosto a respeito dos dois.

Um dia trouxe o garoto para almoçar, não podiam ser mais diferentes, O garoto era loiro de olhos azuis. Chegou justo na hora que Zé dava um beijo na cabeça do Carlos, por algum motivo.

Se relaxou, almoçou com eles. Depois soltou, acho que vou trazer meu pai aqui, eu sei que ele é gay, mas vive tão fechado que não é feliz.  Posso o convidar.

Claro que sim. Será um prazer conhece-lo.  No domingo seguinte, Joseph apareceu, era alemão, engenheiro químico.  Meu filho insistiu, por isso vim.  Entre homem, somos uma família grande, mais um não passa nada.   Logo ele se relaxou. Num dado momento, viu quando tomavam café, André de mãos dadas com Miguel, lhes perguntou se eram gays?

Sim os quatro.      O homem se relaxou, tentei arrumar tudo com um casamento que não deu certo, apenas fiquei eu com meu menino.  Daqui um tempo será um homem com vida própria, eu ficarei sozinho.  Tenho aventuras, que não gosto muito de ter, pois acabo sozinho.

Tens a porta da casa aberta para ti.

Um dia André recebeu uma chamada no celular, era o Marcondes.  Disse que queria muito falar com o Carlos.  Não posso ir em frente, sem falar com ele.

Falou com os dois, Carlos foi o primeiro em dizer, claro que sim, é preciso deixar isso para trás de uma vez, já nem me lembro disso tudo.

O convidaram para vir um final de semana.  Ele apareceu com uma caminhonete, trazendo o Oxóssi, para o Zé.  Abraçou a todos, eu disse que era teu,  fiz uma exposição, todo mundo queria, mas não vendi.   A colocaram no salão, imediatamente, Zé colocou uma quartinha na frente da imagem com água do mar.   Tico, soltou, ele é igual o índio que nada com a gente não é.

Que índio, de que fala esse menino?

Marcondes, ele vê o Oxóssi, sempre que vamos pescar, o mesmo aparece, foi ele que ensinou o Tico a pescar.   Além disse quando você me disse, eu já sabia, não sabia o nome, ou como se dizia.   Mas ele também saiu da mata, me ensinou a pescar, sempre cuidou de mim.

De tarde Carlos saiu a caminhar na praia com o Marcondes.  Voltaram rindo. Marcondes, mais relaxado, contou que ia passar um tempo fora. Queria partir livre, limpo como ele dizia.

No dia seguinte Joseph, veio almoçar com o filho.  Os dois se interessaram um  pelo outro, Carlos foi franco, Marcondes, se vais partir, não comece nada com esse homem, já sofreu muito.

Mas foi ao contrário, ficou completamente louco pelo loiro, até se mudou para Arraial, tinha seu studio lá.  No verão vendia muitas peças pequenas.  Atendia as pessoas necessitadas.

Um dia nadando, olhou para o lado, viu o índio, esse sorriu.  Vê Marcondes, tudo pode se ajeitar.

Apesar da diferença de idade, Zé com o Carlos, levaram muitos anos juntos.  Este sempre perguntava, se não se cansava dele.  Carlos deixa de besteira, se eu quisesse outro, ia embora. Não posso viver sem o cheiro da tua pele.   Carlos agora tinha a cabeça inteira branca.  Na formatura do Tico, eles estavam orgulhosos.  Agora iria estudar na universidade.  Dejanira, estava feliz, via futuro para seus filhos.  O que impressionava era o pequeno, tinha uma inteligência nata.  Todos se iam encaminhando.  Marialva agora também de cabelos brancos apanhados num coque, era como a avó deles.

A do Zé quando morreu, eles enterraram no mesmo cemitério que estava o Carlinhos.

A vida seguiu em frente como sempre, Oxóssi olhava por aquela casa com muito cuidado. Tinha seus protegidos.  Cada um ele ensinava a pescar no mar.

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