MARCONDES

                                                            

Estava martelando, sem parar a mesma peça de metal, estava completamente disforme da ideia original.  Tudo porque não podia se concentrar.  Repetia sem parar a palavra “MERDA”, desta vez fui longe demais.

As vezes fazia isso, por impulso, não por maldade, já sabendo quem era o garoto, porque tinha levado ao seu pseudo quarto, que não passava de umas cortinas velhas, aonde escondia sua cama, uma arara com roupas, nada mais.  Sabia que ele veria em seguida a foto do Carlos.  A princípio quando pegou sua mão, ficou intrigado, porque via um Oxóssi, cercado de orixás mulheres, todas da água.  Nem sempre se via isso.  Mas ele estava com o André Fontoura, que ele sabia que era irmão do Carlos.

O André na verdade não sabia quem ele era, como o garoto, só entendeu na hora que viu a fotografia do irmão, quando jovem.   Mas a merda estava feita.

Mesmo que tivesse oferecido a escultura do Oxóssi, sabia que o garoto, não voltaria para buscar. 

Agora tinha vontade de dar com o martelo na própria cabeça.  Sempre fazia essas cagadas monumentais, como dizia uma conhecida sua.

Marcondes, parece que tens o prazer de cagar justo da entrada.  Será possível, não me admira que estejas sempre sozinho.   Ninguém pode aguentar uma coisa desta.

Nunca tinha podido se perdoar o que tinha feito com o Carlos.  Tinha sido o único homem que ele tinha amado.  Fez tantas merdas, mas tantas, que esse acabou se largando, não só dele, mas da cidade.

Depois ficou como um louco procurando, mas já era tarde.  Tinham se passado mais de 10 anos, ele continuava sozinho.   Tinha um método infalível para afastar as pessoas de cara.  Chegava depois de um tempo paquerando, colocava sua mão, que na verdade eram imensas, no ombro da vítima, com ele dizia perguntava, “pode ser ou está difícil”,  as pessoas se assustavam, davam no pé.   Só algum louco, que ao tocar ele percebia que lhe dariam problemas aceitavam, mas era ele que saia em disparada.

Desde criança seu pai lhe dizia, garoto, “malandro que é malandro não bobeia”.

Ele era filho único, seu pai tinha uma oficina mecânica, justo aonde agora ele tinha seu atelier de escultura.  Sua mãe, era costureira,  uma parte do ano, se dedicava as suas clientes, mas quando se aproximava o carnaval, pedia desculpas, mas tinha que preparar as baianas da sua escola de toda vida.  O Salgueiro, a vermelha e branco do seu coração.  Já seu pai, era da ala dos compositores.   Ele para complicar, não sabia sambar.  Alguns dizia, com esse tamanho todo, era impossível.  Tinha dois metros e dez de altura, um puta corpo, parecia que tinha ido ao ginásio o dia inteiro.  Mas não, era do seu trabalho, passar o dia marretando metal para dar forma.   Se alguém entrasse no atelier, veria sua pele negra brilhando.  No carnaval, aceitava era sair em algum carro, com alguma fantasia que representasse algum orixá. Mas na verdade os carnavalescos queriam que ele fosse semi nu, para chamar a atenção, nos primeiros anos, isso lhe fazia graça, porque depois era assediado.  Isso na época ele gostava.

Mas claro se metia em cada confusão de fazer gosto,  não entendia, escolhia as pessoas, mas eram sempre as erradas.  Mas não lhe importava muito, porque ele não se apaixonava.  Sua única paixão verdadeira era seu trabalho.

Quando era criança, era magro, podia comer o que quisesse, mas continuava magro, algumas mulheres diziam a sua mãe, leva no médico, que com certeza é lombriga.   Ela ia, mas os mesmos diziam que ele não tinha nada.

O que gostava era de ficar na oficina mecânica do pai, juntando parafusos, porcas, tudo que era jogado fora, para montar figuras.     Em vez de pedir brinquedos, pediu ao pai, uma soldadora, já que ele não o deixava usar a da oficina.   Foi o melhor presente que ganhou.  Estava sempre por ali, depois das aulas, montando coisas.   sua primeira obra de arte, sem dúvida nenhuma, depois de uma bronca fantástica do pai,  foi ter roubado uma parte do motor, criando um Don Quixote, estavam estudando sobre ele na escola.  Montar um cavalo, com o homem em cima.

Seu pai, viu que os funcionários, estavam todos olhando o que ele fazia.  Quando se aproximou, viu que a peça que estava procurando, estava na figura que ele tinha montado.  Na hora ficou furioso, mas um cliente viu, perguntou o preço.   O pai vendeu para comprar a mesma peça.

Não lhe interessava nenhum instrumento da bateria da escola de samba.  As aulas de desenho da escola ele era o fodão.  Seus desenhos eram disputados pelos professores.   Sua professora preferida, um dia quando ele estava para terminar a escola, foi falar com seu pai.  O senhor me desculpe me intrometer, mas acho que seu filho devia estudar Belas Artes.   É um artista nato.

Seu pai ficou olhando para essa mulher, sua única pergunta foi.  Dá dinheiro isso?

Se ele for bom, ganhará muito dinheiro.   Essa era um verdade que se confirmou.  Cada exposição sua, vendia tudo.   No momento, estava na última figura que tinha que fazer para uma exposição que aconteceria dentro de pouco.   Mas não conseguia se concentrar.

Quando foi para a Faculdade de Belas Artes, ele inicialmente destoava de todo mundo, era negro como a noite, dentes brancos, tinha mais de dois metros de altura, magro, as calças sempre eram de pescador, ou seja, sempre estavam curtas, por mais que sua mãe arrumasse, não dava certo.  As camisetas ficavam sobrando no seu corpo, curtas ao mesmo tempo.  A turma se dividia entre uma maioria de alunos da Zona Sul, todos tinham cabelos compridos, se vestiam como hippies, mas viviam em belos apartamentos.  Alguns da Zona norte, tijuca principalmente.

Eu era do Andaraí, da rua Silva Teles, ali perto do Salgueiro. Todos os garotos da rua, me sacaneavam, pois de samba não sabia nada.  Cantavam “ quem não gosta de samba, ou é ruim da cabeça ou doente do pé”.    Se encaixava comigo.  Agora que ia a Faculdade, que estava sempre com uma pasta cheia de desenhos, a coisa ficava feia.  Achavam que eu pensava que era bacana.  Mas o pior era não encaixar nem em um lado, tampouco em outro.   Meu pai agora deixava que ocupasse um pedaço do galpão, para fazer minhas esculturas.   As desenhava, colocava o papel na parede, começava a executar.   Podiam me chamar, gritar, tudo o mais, mas eu estava no meu mundo.

Oitenta por cento dos estudantes eram gays.  Eu um idiota que não sabia de nada, sem experiencia nenhuma em sexo, pois era tímido.  Me convidavam para ir a alguma discoteca na zona sul.   Inventava desculpas para não ir.   Um dia meu pai me chamou de lado, olhou bem na minha cara.   Não podes passar o dia inteiro, batendo metal, tens que sair, se divertir.  Não gosta de samba, não passa nada.  Nem por isso vou brigar contigo.  O mesmo, não gosta de mulheres, tampouco passa nada, eu simplesmente te amo meu filho.  Só não quero que te mistures com os meus empregados, pois senão perco o respeito.           Nem olhava para eles. 

Um belo dia, aceitei o convite de um grupo da Tijuca, para ir a Copacabana no final de semana, ir as discotecas, sei lá fazer um programa.  Eu bebia pouco, quanto muito uma cerveja.  Tinha vendido uma escultura, tinha dinheiro meu para sair.

Mas de cara, bateu que eu destoava de todos.   Eram brancos, se juntavam com outros brancos, o que fazia eu ali no meio.  A conversa deles, sobre os homens com quem tinham feito sexo, me incomodava.    Estávamos num bar da avenida Atlântica, o Bierhause, já não existe mais.  Vi um homem me olhando muito sério.  Me chamou a atenção, estava cercado por outros que estavam rindo o tempo todo, como meus amigos, mas ele estava sério me olhando.

Fomos embora, venham diziam alto, vamos ao Sótão, uma discoteca gay, que nem sei se existe.

Lá fomos nós, eu desengonçado no meio daquela turma toda, era o mais alto, sentia que meus braços apesar de fortes, me pareciam compridos, não sabia o que fazer com eles.  Se metia no bolso, ficava parecendo um idiota, se os deixava caídos sem se moverem, parecia um retardado.  Sem querer olhei para trás, o outro grupo como que nos seguia.  O homem não parava de me olhar.  Quando entramos na discoteca, todo mundo foi buscar bebida, eu pedi só uma garrafinha de água.  Já tinha bebido o suficiente.  Eles ao contrário não paravam. Riam se divertia, eu ao contrário não sabia o que fazer.

O homem se aproximou, sorriu timidamente, começou a puxar conversa.  Saímos dali, fomos nos sentar na praia.  Sem querer pela primeira vez, conseguia conversar com alguém.  Me disse na cara que eu parecia desenturmado.

Sim, são companheiros da faculdade, nunca sai com eles, não gosto dessa confusão, nem sei o que estou fazendo aqui. 

O que gosta de fazer?

A minha resposta me pareceu idiota.  Trabalhar, criar coisas, estar sempre ocupado.

A conversa virou-se para o lado da arte, ele também gostava de esculturas, mas não tenho dinheiro para comprar.  Tive que ir trabalhar num banco, porque meu pai me expulsou de casa, me viu dando um beijo num garoto vizinho.  Tenho três irmãs, um irmão menor.  Temos uma diferença de idade grande.  Me disse na cara que não queria mais uma mulher com o piru entre as pernas, que eu seria mal exemplo para ele.

Moro na Prado Junior com um dos meus amigos do banco.  Estou esperando um apartamento no mesmo edifício, agora estou ganhando mais, posso pagar.  Não sou burro, já que não podia fazer uma faculdade, fui estudando para subir dentro do banco.  Só não gosto de ficar contando dinheiro dos outros.

Quando vimos o dia começava a amanhecer, não tínhamos parado de falar, nenhum tinha perguntado o nome do outro.  Finalmente me perguntou como me chamava, Marcondes, o teu?

Jose Carlos, mas todo mundo me chama ou de Zé, ou de Carlos, prefiro o segundo, tem muito Zé nesse mundo.

Teus amigos já devem ter ido embora, queres ir dormir lá em casa, meu companheiro de apartamento, nos finais de semana fica na casa da namorada.

Não sabia o que fazer, ele viu minha dúvida, se não quiseres fazer sexo, não me incomodo, gosto de ir devagar.   Concordei, eu tremia como vara verde, tudo o que ele fez foi me dar um beijo, meio prolongado.  Nunca tinha beijado ninguém.  Mas despertei abraçado com ele. Ele encaixado em mim.  Ele me olhou, estava excitado, eu também,  muito lentamente me foi ensinado o que fazer.  Quando vi estávamos fazendo sexo.  Eu como um louco, adorando tudo.

Não queria sair daquela cama nunca mais.  Telefonei para casa, contei uma mentira que tinha ficado tarde, que tinha dormido na casa de um amigo.   Que ia almoçar com a turma toda.

Ficamos ali falando, mas eu só queria beijar, nunca tinha gostado de ninguém.  Nos despedimos, marcando de nos ver no sábado seguinte.  Ele me deu seu telefone, ficamos de nos falar a noite.   Eu passava o tempo todo pensando nele.  Durante as aulas, desenhava seu rosto várias vezes seguida, buscando a perfeição.   Minha mãe foi a primeira em desconfiar, o que estava acontecendo, tens cara de quem estas apaixonado.   Ficas horas no telefone, falando baixinho.

Meu pai, cortava logo, deixa o menino em paz.  Se está apaixonado, isso é com ele.  Não temos nada com isso.  Minha mãe como todas, era aquela cega, que via, mas fazia questão de não ver, nem saber de nada.   Meu velho nesse sentido era porreta,  só me disse no ouvido, use proteção para não pegar nenhuma doença venérea.

Comecei a fazer uma escultura com o rosto dele, dizendo que era um trabalho da Faculdade, queria lhe dar de presente.   Ele quando viu os desenhos, me beijou, pegou minhas mãos, disse que nunca tinha gostado assim de ninguém.  Contigo posso falar.  Os outros, só querem fuder, adeus, nunca mais sei deles.  Sempre achei que era um chato, por isso me abandonavam.

Nos víamos todo final de semana, saiamos, ir ao cinema, que havia embaixo de sua casa, filmes de arte, ficar abraçados na cama, comer no Cervantes.  Para mim era o céu.

Trazia os desenhos dos trabalhos que tinha feito na escola.  Me incentivava. Contei que um dos colegas me disse que fizesse as esculturas em pequeno, que eram fáceis de vender na Feira Hippie da General Osorio em Ipanema.  Fomos um domingo lá olhar, meu colega tinha uma banca, me apresentou a organizadora, essa me disse que levasse alguma peça, os desenhos.

Carlos me disse, tens que começar por algum lugar.  Por que não tentas?

Preparei as peças, os desenhos em separado, telefonei para a senhora, fui lá levar, gostou de tudo, me disse quanto custava, ter uma banca.   Falei com o meu pai, foi logo me ajudando, tens que ter uma banca ou mesa que seja fácil de levar.  Ficamos os dois lado a lado, como pai, filho, construindo algo.   Ficou uma mesa espetacular.   Depois ele começou a fazer para todo mundo que gostava.

No primeiro dia Carlos foi comigo.   Lá pelas tantas apareceu meu pai, os apresentei.  O olhou de cima a baixo, Carlos como sempre muito sério.  Estas em boa companhia, me disse, não tinha gostado do pessoal de Belas Artes.   Nesse dia vendi 80% das peças, todo mundo dizia que era sorte de principiante.   Carlos que tinha andado pela feira inteira me disse, claro tens um material diferente de todos.  Tens que fazer uma coisa, criar sempre coisas novas, porque na semana que vem alguns já viram teu trabalho, vão fazer igual.

Não acreditei muito, mas era verdade, na semana seguinte, tinham dois com obras quase iguais as minhas, mais baratas.  Vendi menos.

Carlos me disse, acredite em mim, quando falo as coisas, sei o que estou falando.

Meu pai agora, perguntava sempre por ele, se tudo ia bem.

Gostava disso, poder me abrir com meu velho.  Ele passava a mão na minha cabeça como fazia o Carlos.   Não fale com sua mãe, é tão devota que não entenderia.

Passei a ter peças diferentes a cada domingo, sempre vendendo bem.  Disse ao Carlos que juntava dinheiro se por acaso um dia quisesse dividir apartamento comigo.  Mas eu precisava de um lugar aonde pudesse trabalhar.

Um domingo que chovia, portanto, zero feira.  Vou te levar para ver um lugar, que um companheiro tem para alugar.   Fomos a Santa Teresa, o bairro dos artistas.   Quando vi o apartamento fiquei como uma criança.   Era perfeito, podia ter o meu studio, vivermos os dois, ele tinha sido transferido para o centro da cidade para seguir sua trajetória no Banco.

Nos mudamos, meu pai entendeu, minha mãe nem pensar.  Ficou furiosa, como eu me atrevia deixar para trás sua família.  Eu ia quase todos os dias lá almoçar.  Carlos não me deixava levar a roupa para lavar.   Quando se sai de casa, há que assumir todas as consequências.

Um dia na feira, apareceu uma mulher, baixinha, gorda, mas muito bem vestida, olhou meu trabalho, um a um.  Perguntou preços.  Fez milhões de perguntas, se eu fazia grandes também, coisas dos gêneros.  Olhou meus desenhos, peças que eu não tinha feito, porque precisavam ter tamanhos.   Tirou um cartão da bolsa, me estendeu, li, fiquei de boca aberta, passei para o Carlos.  Era uma das melhores galerias de Ipanema.  Se tens uma grande que eu possa ver, podemos marcar uma exposição.   Mesclando peças, grandes, como medianas, até algumas pequenas.  Os desenhos eu mandaria emoldurar. Porque são excelentes.

Eu quase dava pulos de alegria.  Carlos, me jogou um balde de água fria.  Primeiro tens que executar o que ela te disse.   Depois negociar preço, pois ela terá uma porcentagem em cima do que possas vender.  Normalmente as galerias ficam um uma boa peça.

Como sabes tudo isso?

Eu já me informei antes bobo, fui até lá falei com ela, levei fotos que fiz sem você ver, disse que viesse aqui ver teu trabalho.  Por isso me perguntou se eu era teu agente.

O beijei ali na frente de todo mundo.  Ele ficou sem graça, não faça isso, estamos num lugar público.

Mas eu nem queria saber, estava feliz, tão feliz, que liguei para o meu pai para contar as novidades, sempre chamava a ele em primeiro lugar.   Só me disse, estou orgulhoso de ti filho.

Se precisas da oficina para fazer as peças grandes, eu te arrumo uma parte maior.

Agora me dividia entre nossa casa, a oficina.   Fiz a peça que ela tinha pedido, a revisei mil vezes, alguma coisa falhava, mas demorei para encontrar o defeito.  O arrumei, avisei a senhora, ela veio olhar.   Imagina, venho sempre no Salgueiro, mas nunca te vi por lá.

Meu pai lhe respondeu, que eu era doente do pé.  Que não sabia sambar.

Ela, ria dizendo que tinha um pai fantástico.  Andou em volta da peça, se afastava, se aproximava, pediu que colocássemos embaixo de uma luz forte.  Me mostrou um defeito mínimo, mas defeito.   Tens que ser perfeccionista, não para os outros, mas para ti mesmo, nenhum colecionista, veria esse pequeno defeito.  Mas pode ser que algum sim.

Essa peça poderíamos vender por,   deu um valor absurdo para um garoto do Andaraí, ia saltar de alegria, mas me lembrei dos conselhos do Carlos. Olhei a meu pai, com lagrimas nos olhos, era mais que ele ganhava num mês arrumando carros.

Essa fica separada,  abrimos sobre uma mesa, todos os desenhos, ela foi dizendo os tamanhos que queria.  Para teres dinheiro para o material, posso comprar essa, mas descontando minha parte.   

Meu pai se adiantou, como bom comerciante, não é necessário, ele tem dinheiro para isso, para quando é a exposição.

Dentro de um mês, durante 15 dias, temos que vender tudo para ter um bom lucro.  Nas vésperas da exposição, faremos a divulgação, fotografias para jornal, entrevistas, televisão.

Eu não acreditei muito nisso, estava era louco para trabalhar.

Carlos ficou feliz, mas me dizia sempre, tenha os pés no chão.  Agora nos víamos menos, eu passava mais tempo no Andaraí.  Fui fazendo todas as peças, meu pai revisava todas, fazia o que ela tinha feito, andava em volta, se afastava, a colocava no sol para olhar.  Minha mãe ao contrário dizia que eram obscenas.  Nunca entendi por quê.

 Fiz a parte uma grande do meu pai sentado, como se fosse o pensador de Rodin,  a pintei de negro com uma tinta para carros.   Ele me beijou, sei quanto gostas de mim meu filho. Eu também te amo.  Falou justamente o que o Carlos me dizia, mas tenha os pés no chão sempre.

Falar era fácil. Mas quando chegou a hora das entrevistas, eu suava como um condenado, pois nunca tinha conversado com nenhum jornalistas.   Mas foi bem.  Dei entrevista para todos os jornais, saia na parte Cultural.   Eu ainda estava no segundo ano da Escola de Belas Artes, tinha que ter uma opção, ou trabalhava ou ia as aulas.  Preferi trabalhar.

Cada jornal que saia, meu pai comprava, para guardar.  Minha mãe, olhava, levantava os ombros dizendo que isso não era trabalho.  Nunca entendi por quê?

A entrevista saiu no melhor canal da cidade, ele pediu para alguém gravar o vídeo, depois colocava no bar aonde ia tomar cerveja com os amigos.   Tinha orgulho de mim.

Na inauguração, Carlos foi comigo comprar uma roupa, me deu de presente.  Antes de sair de casa me beijou, dizendo eu acredito em ti, te amo.

Eu sentia tudo, dor de barriga, suava como um condenado, queria sair correndo, para não ver as críticas. Ela me avisou, cada venda, coloco um adesivo vermelho.  Eu estava como louco, meu pai foi, tinha arrumado um terno, depois descobrir que Carlos tinha ido com ele comprar.

Em  duas horas, vi que todas as peças tinham sido vendidas.  A mulher sorria, só me disse, tens que seguir trabalhando, pois, as pessoas querem levar as peças, mas de maneira nenhuma faça repetidas, pois eu sempre garanto a exclusividade.

No dia que foi me pagando as peças vendidas, na minha frente retirava sua parte.  Me colocou um papel na minha frente, dizendo, nunca faço isso com ninguém, eres o primeiro. Um contrato de exclusividade.  Me comprometo, fazer duas exposições por ano, ou uma conforme o volume de trabalho.   Leia com atenção, mostre para um advogado.   Eu queria assinar nesse momento, mas ela disse que não, que fizesse o que estava dizendo.   Primeiro mostrei para o Carlo, simplesmente fez uma coisa que não deixei ninguém mais fazer, segurou minha cara com as duas mãos, me beijou os olhos, o nariz a boca.  Boa sorte, artista.   Já podes dizer que eres um artista.   Mas pés no chão.   Ele leu o contrato mil vezes, depois levou para um conhecido que era advogado do banco.

Este me explicou tudo.   Durante cinco anos, nunca poderia expor em nenhuma outra galeria. Deveria ter sempre uma peça em exposição.  Não poderia negociar por fora com ninguém, nem tampouco vender alguma peça a não ser através da galeria.

Assim mesmo assinei. Mas claro como sou, depois caguei no último ano. Pois estava louco de pedra, precisava dinheiro para as drogas.

Com todo dinheiro que ganhei, comprei a oficina para meu pai.  O comentário da minha mãe foi, mas se dentro de um tempo ele vai se aposentar.   Mas ficou contente, que eu aplicasse o dinheiro em alguma coisa.   Mas adiante, podes ocupar a oficina inteira.  Essa era realmente minha intenção.

Outros artistas começaram a visitar o atelier em Santa Teresa, alguém levava um baseado, outro uma fila de cocaína.   Pensei se eles podem, isso abre minha criatividade que mal tem.  Carlos ficava uma fera quando chegava me via jogado na cama sem trabalhar. 

Fiz uma nova exposição com o mesmo sucesso.  Desta vez, ela vendeu até os desenhos da exposição anterior.

Foi quando caguei, o que pensava que me daria criatividade, me tirou a mesma.  Vi um trabalho do Mario Cravo sobre os Orixás, resolvi fazer.   Quando disse a ela, me avisou, muito cuidado,      pois ele é o rei do pedaço nessa parte.                Mas eu tinha uma ideia, fiz uma mostrei para ela, gostou.   Me disse, tens que primeiro ir a um pai de santo, pedir licença aos orixás.    Caguei geral.   Na minha cabeça era, se a ideia é minha, porque tenho que pedir licença.  Fui fazendo, o pessoal agora se dizia meus amigos, alguns depois de cheirar, fazíamos sexo.  Quando o Carlos sabia, eu não mentia.          Ficava furioso, eu chorava pedia desculpas.  Tens que deixar isso, vai estragar tua vida.

Mas na minha cabeça eu era o melhor.  Fiz a exposição, não puderam me comparar com o Mario Cravo, pois o trabalho era diferente,  mas vendeu menos.   Não quis escutar as críticas.

Um dia vinha subindo a noite para Santa Tereza, um homem com um terno branco, uma gravata borboleta vermelha, me parou.  Ficou olhando na minha cara.  Estas cagando tudo que tens pela frente.          Estas cagando tua arte, o amor do homem que queres, tua família.  Se não paras vais perder tudo.         Essa minha amiga, veio morar em Santa Teresa.  Um dia foi tomar café comigo, ficou louca da vida, como eu podia botar tudo a perder.  Estava na cama com outro homem que não era o Carlos, nem sabia de onde tinha saído esse homem.

Ela botou o homem para fora de casa, arrumou a cama. Mas quando Carlos chegou, viu logo que alguma coisa tinha passado.           Lhe contei que essa enxerida tinha colocado para fora um homem que estava lá comigo.        Ele ficou uma fera, primeiro porque eu estava drogado. Desta vez quem chorou foi ele.         Estas colocando tudo a perder.   Não quis mais dormir comigo, me olhava como um estranho.          Um dia ele chegou em casa, me pegou na cama, tampouco sabia quem era o sujeito, estava num bar ali no largo do Guimarães, disse que tinha drogas, eu aceitei.

Carlos, arrumou a mala sem dizer nada, não confio mais em ti, não posso sequer encostar a mão em ti, pois tenho vontade de te bater.

Foi embora, eu pensei, amanhã ele estará aqui.          Nada, fui atrás dele no banco, me disseram que estava de férias em Arraial do Cabo.  Não me atrevia porque sabia que lá estaria alguém de sua família.

Chorava sem parar, tinha afastado o homem que queria, os outros não significavam nada.    Para paliar, consumia mais drogas.             Um dia meu pai chegou na oficina me encontrou jogado no chão, cheio de vômitos por cima.   Chamou a ambulância, foi minha primeira overdose. Minha mãe, se negava a falar comigo.

Ele ao contrário, só me dizia, te disse tanto, para ter os pés no chão, esse era meu medo.

Fiquei dois meses internado, um dia contei para ele que Carlos tinha desaparecido, por isso estava desesperado, lhe contei toda a merda que tinha feito.

Meu filho, como quer que uma pessoa confie em ti, se não podes te controlar.

A minha amiga, falei do homem de roupa branca, tudo que me disse precisas ir a um pai de santo.   Eu não queria saber dessas coisas.

Fui a um terreiro de umbanda, a mãe de santo, disse que eu me comportasse, que sabia da minha vida.  Que não queria nada de drogas ali.  Acabou me expulsando.        Um dia estava me vestindo, o filho dela entrou, era casado pai de dois filhos, quando me viu meio nu, me agarrou, a mãe o pegou chupando meu caralho.  A ele não disse nada, mas a mim, me expulsou na frente de todo mundo.   Nesse dia, bebi, fumei todas, cheirei. Por minha sorte, cai na rua, o homem de branco, parou me olhou, te disse, só fazes merda.         Em seguida tinha uma ambulância, ele se sentou ao meu lado, ficou segurando minha mão.             Estive muitos dias em coma, sentia duas pessoas segurando minha mão, uma era o homem de branco, do outro lado estava meu pai, este passava a mão na minha cabeça, filho como vais fazer agora, não estou mais aqui para te cuidar.

Não fazia sentido, eu o tinha visto no dia anterior.  Quando sai do coma, me disseram com muito cuidado que meu pai tinha falecido, tinha tido um derrame cerebral, morreu no ato.

A única que não me abandonou foi minha amiga de infância.        Com o dedo em riste, me dizia, tens que tomar jeito.        Se te pego outra vez, nas drogas, vais ver com quantos paus se faz uma canoa.

Quando sai do hospital, fiquei sabendo que minha mãe tinha ido morar com uma irmã sua em São Gonçalo, que eu não aparecesse por lá, pois não perdoava.  Eu tinha matado meu pai de desgostos.

Tomei jeito, pois na primeira vez que minha amiga entrou no atelier, a antiga oficina, eu estava fumando um baseado.             O tirou da minha boca, me deu um tapa tão forte, que cai no chão. Levante seu idiota, me deitou nas suas pernas, vou lhe dar uma surra, que seu pai devia ter dado a muito tempo. Assim fez, eu chorava sem parar, mas não por isso, por ter perdido meu pai, o Carlos, tudo isso doía tanto que mal conseguia respirar.

Me tirou toda roupa, me enfiou embaixo do chuveiro, abriu a água fria, me fez sentar no chão.  Ficas de castigo por todas essas merdas. Volta e meia me dava um cascudo.

Quando parei de chorar, me mandou me vestir. Agora vens comigo, o velho carro dela estava na frente do Atelier, fechou ela mesmo a porta, me enfiou no carro, fomos embora.  No primeiro dia nem sabia aonde estava.  Só via uma janela pequena em cima.  O homem de branco sentado ali, fumando tranquilamente um cigarro, quando eu lhe pedia, se negava.          Não eres homem para fumar o meu tabaco.  Não parava de dizer que eu era um frouxo, que não sabia me colocar no meu lugar.  Aonde já se viu, um negro desse tamanho, não ter força de vontade.  Não paras de jogar merda no ventilador.

Perdi a noção do tempo.  Quando abriram a porta, parecia que estava ali no escuro, muitos dias.

O homem que abriu estava todo de branco, na hora confundi com o outro.           Ele riu dizendo, como passaste com teu Exu.          Está furioso contigo, diz que não quer ficar ao teu lado, porque eres um frouxo.

O homem era baixinho, estava todo de branco, com uma guia atravessada no peito.  Sou João de Xangó.            Venham comigo que tens que comer alguma coisa.  Me fez sentar embaixo de uma árvore, mas a primeira comida, botei tudo para fora, tinha fome, mas de alguma coisa que não sabia o que era.  Ainda são os efeitos da merdas que tens no corpo.  Te aceitei aqui, só porque tua amiga que é minha filha me pediu.                Senão acabarias, numa sarjeta, com um cachorro lambendo teu cu.

Me deu um chá, me levou a um quarto, duas mulheres antes me ajudaram a tomar um banho, todo nu, me deitei naquela cama.  Não sei quanto tempo dormir.  Acordei chorando, chamando por Carlos, mas ele claro não estava ali.        Rezei, eu que nunca tinha rezado, pedindo que ele pudesse voltar.   Mas não voltou.

Quando fiquei bom.  Ele me fez sentar diante dele.  Acendeu um incenso, uma mescla de canela com alguma outra coisa.  Passou pela minha cabeça.        Foi rezando, de repente soltou, se vês a ele porque nunca lhe fizeste caso.

Ele quem?

Oras, teu Exu, ele está aqui do teu lado.           Chateado porque não lhes fazes caso. Te avisa das coisas, mas as paredes lhe escutam, mas tu não.  Quando ele olhou para o lado, estava o homem de branco. Tá vendo ele está aqui, bem como Xangó, teu pai de cabeça.          Ele é um dos raros Exus de Xangó que se deixam ver.

É verdade, esse senhor me avisou, mas não fiz caso, como não fiz caso do meu pai, do Carlos, enfim da gente que me queria.   Só não entendi, porque minha mãe, me deixou de lado.

Porque não eres filho dela, eras filho do teu pai, com uma mulher que morreu.  Quando ele se casou com tua mãe, tu eras um bebê.   Fazia força para te aceitar, mas ele te adorava, por isso tinha um certo ciúmes de ti.

Ele ao contrário, te aceitou como eres, nunca disse que não podia aceitar um filho gay.

Era ele quem em criança, te embalava, limpava teu ranho, te dava banho, enfim foi teu pai tua mãe. Por isso sempre estavas na oficina.   Para te ter por perto.

Agora ele entendia muita coisa, mas era tarde como tudo.

Nunca é tarde para refazer tua vida.

Mas o Carlos nunca mais vai voltar?

Vai, mas não consigo, ele agora está no Mato Grosso, cumprindo sua pena, como ele diz, depois irá para um outro lugar, vai encontrar o Bugre de sua vida.

Um Bugre, o que é isso.

Uma palavra, que bem poderia descrever um Oxóssi, dos rios, das matas do interior do Brasil, se conheceram, será o grande amor da sua vida.  O amara, mais do que a ti, pois a inocência, a boa vontade desse garoto, o vai fascinar.  Ele vai cuidar do Carlos, que será o único homem da sua vida, perdeste a chance a muito tempo.       Escreva o que estou dizendo, tu vais conhece-lo, vais provocar, mas apenas fará que ele ame mais ainda o outro.

Os sentimentos dele são imensos, Oxóssi, Exu, todas as mulheres d’água o protegem.  Quando vires isso na palma da mão saberás que é ele.

Mas quando será isso.  

Ah meu filho, deixa o tempo correr suavemente por debaixo da ponte, porque as coisas não são no aqui agora.    Mas um dia, por causa dele, conheceras alguém.

Bom, tens que fazer uma série de coisas, creio que deverás ficar aqui um tempo.  Tu nunca serás um pai de santo da regra, nunca terás uma casa de santo.    Mas teu Exu que é do Ifá, te mostrara sempre através do jogo, as coisas.  Mas um aviso, nunca misture as estações.   Ele não gosta quando misturas os homens que estão sempre atrás de ti. Com isso tudo.

Verás que um bom tempo sem fazer sexo, te fará mais feliz.

Ele foi ficando ali, fazia esculturas com barro, as cozia numa fogueira no campo, era como tivesse voltado a época de seus ancestrais.               Cavava um buraco no chão, enchia de lenha, colocava as peças, cobria outra vez de lenha, tocava fogo.   Eram umas peças quase infantis, que recordavam sua infância, na oficina.  As pessoas, homens mulheres, adoravam vê-lo trabalhar, fazia alguidares para a casa de santo, tudo da mesma maneira.            Depois se lembrou de uma técnica japonesa, pediu se alguém podia comprar material para ele, inventou uma maneira só dele de trabalhar.        Quando as peças ficaram prontas, pediu para sua amiga, levar na galeria, mas que não dissesse que eram suas.

A senhora olhou as peças, soltou, ele mudou muito sua maneira de trabalhar, mas não sou uma idiota.   Diga que lhe perdoou ter rompido ao contrato, se me faz uma coleção inteira dessas peças, de todos os tamanhos.

Agora ele pagava para os garotos trazerem lenhas para ele,  Algumas vezes aparecia alguém com uma carroça carregada.

Foi ficando ali, procurando a paz a tanto tempo perdida.  Um dia o pai de santo disse, já podes sair. Saberás sempre que os homens que estão atrás de ti, não servem.  É tua a escolha de fazer sexo ou não, nenhum santo vai interferir.   Mas olhe lá. Não faça mais merdas.  Eu vou fechar a casa de santo, pois vou para a Africa.

Aliás, porque não vens comigo?  Lá foi ele com o pai de Santo, a única que sabia sempre dele, era sua amiga, se escreviam.         Na Nigéria, ele era mais um, estava sempre ao lado do pai de santo absorvendo tudo que podia.

Quando viu as máscaras, esculturas dali ficou como louco,  foi  apresentado lá no interior do pais, aos artesões que ainda as faziam.             Aprendeu a fundir o bronze,  fazer as máscaras do mesmo material.              A trabalhar com barro, cozer os mesmos a altas temperaturas.  Quando chegavam algum estrangeiros, ficavam loucos com aquele deus de Ébano, banhado de suor, entregue totalmente ao seu trabalho.  Foi fotografado assim para muitas revista.

Lhe fizeram uma reportagem no Times, ele com seus objetos, máscaras, esculturas. Logo alguém de algum jornal cultural do Rio descobriu, saiu uma reportagem entrevistando a dona da galeria, sua amiga lhe mandou uma cópia.          O desaparecido escultor brasileiro, aonde foi parar.  Está junto com seus Ancestrais, pesquisando como se trabalhava antigamente.

Justo nessa época o pai de santo morreu.  Era o sonho de sua vida, morrer na terra dos Orixás. Foi enterrado com todo cerimonial que tinha seu rango, ele chamava atenção, aquele homem imenso, chorando como um bezerro desmamado.  Tinha perdido um segundo pai.  Esse homem sem lhe ter cobrado nunca nada, tinha cuidado dele ano atrás anos.

Revolveu voltar, tinha contas atrasadas de seu atelier no Rio.              Ficou ansioso, pois teve que embarcar suas peças produzidas todos esses anos, num container lotado.        Sua amiga que era advogada, teve que lutar para liberar as peças.

A maioria, foi para a galeria, que fez uma exposição, como na época que ele era alguém.  Ele agora pouco falava nas entrevistas, diziam que tinha se tornado mais fechado. Tinha na fronte uma ruga, que mais parecia uma cicatriz,  ele dizia que era a cicatriz que ia até seu coração.

Lhe convidavam para sair de destaque nos carros, mas ele dizia que não.       Que já não era um garoto.  As vezes ia ao samba, para ver algum amigo.   Mas saia sozinho.  No fundo muita gente tinha medo dele.   Uns dizia que ele andava com Exu de guarda Costa.   Sempre que se interessava por alguém olhava para o lado, se fosse negativo, podia ser a maior beleza, mas ele ia embora.

Uns o chamavam de metido a besta.        Outros, diziam que tinha um rei na barriga, porque suas peças vendiam como água.  Pediu licença, fez uma série que foi comprada inteira por um museu na Europa.       Eram todas as Orixás da água, com seu séquito de Yaôs, da galeria foi direta para esse museu.     Tinha comprado um forno industrial, agora podia fazer as peças em ferro, depois pintar cada detalhe, numa técnica que tinha aprendido na Nigéria, ficavam espetaculares.  Só não vendeu, as mesmas em terracota.  Estavam guardadas.  No dia que ele morresse, queria que guardassem suas cinzas.

Agora quando se entrava no atelier, se via de um lado Xangô, do outro Exu, todos os dois de mais de 2 metros de altura. Teve que os fazer por partes, depois montar tudo fora.  Pouca gente via, mas existia, uma máscara imensa, que era Carlos com um cocar de bugre.      Era como uma homenagem ao futuro dele.    Ao lado de sua cama, tudo que havia de decoração era a única foto que tinha do Carlos.  Rezava todas as noites para que ele encontrasse seu Bugre, fosse feliz.

Fez amizade com André, sem dizer quem era, sabia que se um dia Carlos voltasse, seria através dele que o saberia.            Ia a quadra, tomava uma cerveja com ele, jogava conversa fora, ficava esperando para saber alguma coisa.                   Quando alguém se aproximava procurando sexo, dissimuladamente ia embora.               Os amigos do André diziam, que coisa mais estranha, esse homem está doente, sempre que alguém se aproxima, vai embora.

Há muitas histórias sobre ele, mas ninguém sabe a verdade.  Tudo que se sabe e que depois da época louca que teve, desapareceu.   O descobriram na Nigéria, aprendendo a fazer esculturas, a reportagem do Times, fez com que seu trabalho desse volta ao mundo.  André que tinha visto as esculturas compradas pelo museu, soltou uma vez.       Eu fiquei parado na porta, chorei como um menino.  Uma das coisas mais bonitas que vi, parecia que todos os Orixás dançavam. Era um primor, lastima que nenhum museu do Brasil se interessasse.  Ele disse que só vendia se fossem todas juntas.  Saiu no Times, no dia seguinte estava vendida a coleção toda.  Tenho uma lá em casa das pequenas em barro cozido, cruas, sem cor nenhuma.      Acendo sempre um incenso na frente como devoção.

Por isso André estranhou, no dia que levaram o Zé, que aquele homem fosse direto a ele, o viu segurando suas mãos, falando no seu ouvido.              Que o outro estava assustado, falou para o Miguel, melhor ficarmos juntos, o Zé não está acostumado a isso.   Foram com eles até o atelier, ficaram olhando como o Zé foi direto a escultura de Oxóssi, imensa que estava ali.       Está é tua disse Marcondes, teu pai de Cabeça, esse índio que te acompanha, desde as margens do Tocantins, né bugre.   Não entendiam isso, porque chamava o Zé de bugre.  Mas entendeu tudo  quando viu a foto do Carlos na mesa de cabeceira.           Por causa do Marcondes o Carlos tinha desaparecido.        Entendia agora, porque ele aparecia na escola de samba vinha falar com ele, perguntava pelas novidades, depois ia embora.

Ficou furioso, a vontade de meter a mão na cara dele.  Tudo que disse, foi imperdoável, como pudeste fazer isso com o Carlos, comigo, com o Zé.

Muito sério, eu precisava ver se esse menino realmente ama o Carlos, agora sei que sim, que não tem jeito mesmo.  Ele será feliz com esse menino, sei que ele vai chegar amanhã ou depois.

Se eu puder falar com ele, para pedir desculpas, agradeço. Quando voltavam para sair, ele segurou o braço do Zé, espere. Acendeu uma luz, olhe para cima.  A cara do Zé era de pura devoção.           É ele o amor de minha vida, até posso sentir o cheiro dele, vindo dali. Os outros olhavam, sem saber o que via aquele garoto.  Fez uma coisa que os outros não esperavam, abraçou o Marcondes pela cintura, porque era muito mais baixo do que ele.  Sei o que sentes, o que sentiste.  Um dia nos encontraremos.

Foi embora, sem olhar para trás.

Por isso o tempo passava, Marcondes estava amargado, o Exu lhe dizia, tenha paciência, tudo se resolvera.  

Ah meu pai, por que só faço merda?

Não fale assim, se você não tivesse perdido o Carlos, esse garoto o bugre, nunca o teria encontrado.             Se ele não tivesse encontrado o Carlos, este seria infeliz contigo de qualquer maneira. Pois não eras a pessoa destinada a ele.

Um dia, perdeu a paciência consigo mesmo, foi ao banco falar com o André.     Lhe disseram ele agora vive em Arraial do Cabo com o irmão.  Trabalha no banco de Cabo Frio.

Se lembrou que o bugre tinha lhe dado o número do celular.       Pediu a Exu, tenho que resolver isso que me mata.            Ele mostrou aonde tinha guardado o papel, embaixo do que usava para jogar.  Telefonou.  O bugre atendeu, disse quem era, me perdoe por te chamar, mas não posso mais tenho que falar com o Carlos, tenho que seguir minha vida em frente.     Preciso que ele me perdoe.

Só respondeu, um minuto.  Sim podes vir, lhe deu a direção.  Vou levar teu Oxóssi.  Viu que o Bugre mudava de tom, falava mais baixo.        Se puderes, trazer o Carlos, sei que ele vai adorar, como eu o adorei. Deixe para o último momento.

Estava tão alucinado, que Exu lhe parou os pés.        O jogou de bruços no chão.  Devagar que o santo é de barro.  Não vais recuperar o Carlos, tire seu cavalo da chuva.          Ele já te perdoou, porque esse menino falou bem de ti para ele.      Vais conhecer é o teu futuro.  Vou junto, assim posso tomar banho de mar com meus irmãos.

Lembre-se posso te parar os pés a qualquer momento.

Ele carregou sua caminhonete, com o Oxóssi desmontado, porque era muito alto, Abaixou a escultura do Carlos com os penachos de bugre na cabeça.   Embalou tudo, pegou duas mudas de roupa, foi embora.

Quando chegou, quem abriu a porta, foi uma mulher de cabelos brancos com um coque como uma senhora fora de época.           Olá meu filho, virou-se para o Exu, seja bem-vindo meu pai.

Ah, sou Marialva, incorporada à família.  Virou-se para trás gritou eles chegaram, venham recebe-los.  Quase caiu de joelhos quando viu o Carlos, o abraçou, chorando, meu amigo que bom te ver. Virou-se para o Zé, bugre, só mesmo tu para operar milagres. Abraçou a todos, levantou os meninos no ar. Estes riam, André comentou com o Miguel, mais um para a família.

Desceram a escultura, a do Carlos ele não deixou abrir, montaram o Oxóssi, o bugre gritou, Tico, vá buscar água do mar para nosso pai.  O menino espigado disparou, voltou com a quartinha cheia.  Em segundos estava seca.     Traz mais meu filho disse o Carlos, ele tem sede.

Saíram todos para um banho de mar.          Bugre virou-se para os dois, dizendo, passeiem pelo borda do mar, para falarem de vocês.

André depois perguntou a ele Zé, não tens medo de que te roube meu irmão.  

Imagina, o que temos nós dois, não se desfaz assim.  Isso será bom para os dois. Poderão seguir seus caminhos em frente sem magoas.

Dito é feito, voltaram rindo, conversando como velhos amigos.             O bugre saia d’água nesse instante.               Carlos se virou para Marcondes, ele me salvou a vida, me deu tudo o que tinha perdido, valeu a pena esperar.  É o meu mundo inteiro nessa pessoa.

Eu sei.  Depois do almoço tenho um presente para os dois.

Iam se sentar para comer, quando o Tico disse, eu convidei nossos amigos.  Justo nesse instante se abria a porta detrás, entrava correndo um menino loiro, parecia um anjo, se jogou nos braços do Tico.  Carlos disse, são namorados.        Entrou aquele homem, loiro quase transparente, com uns olhos que parecia que tinha o mar dentro dele. Tão alto como ele.

Estendeu a mão, porque era o único que ele não conhecia, olhando diretamente nos seus olhos disse, sou Joseph, amigo da casa.         Os dois se olhavam sem soltar-se as mãos.  Ali estava seu outro lado.     Todos riam dos dois ali, parados um em frente ao outro sem se soltarem das mãos.

Exu deu um empurrão nele, se abraçaram. Sentiu o que bugre dizia, o cheiro do homem que lhe pertencia.

Marialva ria, esse teu Exu, é uma figura.  Os meninos, soltaram, hoje estava o seu Oxóssi, com todos ali tomando banho.   Joseph queria saber o que era, Marcondes com paciência explicou.

Eles veem os espíritos, porque não tem a maldade que temos, que nos impede de ver.

Depois quando todos acabaram, mandou que Carlos ficasse sentado no salão, que quando ele dissesse fechasse os olhos.  Foram até la fora, ele desembalou o que tinha trazido para ele.

Marialva dizia, impressionante.  Os meninos batiam palmas. Ele olhou para o Tico de mãos dadas com seu namorado.   Preciso fazer uma escultura dos dois.

Quando Carlos abriu os olhos, o que viu, foi ele mesmo como era de jovem, com um penacho de plumas como tinha o Oxóssi.         Eres tu e o Bugre.  Para ele trouxe isso, tirou de um tubo, o desenho que tinha feito do Zé, como um bugre, nas margens do Tocantins.  Como sabias que eu usava uma bermudas assim, esfarrapadas.  

Ele me disse como era.   Esse vai ficar no nosso quarto, é só para mim, falou o Carlos, beijando seu bugre, abraçado a ele.

André tinha razão, virou da família.         Ele agora vivia com o Joseph, seu filho que no fundo era dele também. Quando alguém perguntava no atelier que tinha ali  perto da casa que viviam, ele dizia é meu filho Viking.   Em casa tinha uma escultura do Joseph, como se fosse um Viking.

Os dois se amavam com loucura.  Os outros riam, menos mal que daí não sai uma criança, pois já nasceria com 3 metros de altura.

Ele estava sempre de conversa com o bugre, valeu a pena esperar, obrigado por tudo.   https://sodreau.wordpress.com/https://sodreau.wordpress.com/https://sodreau.wordpress.com/ Eram grandes amigos.  As vezes Carlos dizia, que sentia ciúmes dos dois.

Eu é que devia ter ciúmes, eu desse tamanho, mas te apanhaste bem com esse homem de dois metros de altura.

Agora sua amiga vinha sempre passar temporadas com eles, se integrou ao grupo das mulheres, se dava maravilhosamente bem com a Dejanira.  Eles torciam que entre elas saísse alguma coisa.  Quem sabe no futuro.

Naquela casa havia paz, porque estavam cercados pelos Orixás que os protegiam.

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