ZAZOU

                                                               

Olhando o espelho, examinava sua cara, realmente para sua idade não tinha tantas rugas, mas cicatrizes sim.   Não era aparentes, mas era como se visse cada coisa que tinha acontecido em sua vida desde que tinha consciência das coisas.

Hoje poderia ser um homem amargo, mas sempre tinha sido consciente do que tinha feito na vida, o preço pago por cada coisa que tinha logrado.    Algumas pessoas, poderiam dizer que deveria ter vergonha do seu passado, mas não tinha nenhuma, ao contrário, achava se tivesse que fazer o faria tudo outra vez.

Uma época que estava literalmente desgastado, pela morte de seu então companheiro Jean, foi a um psicólogo para buscar apoio, quando lhe contou quem tinha sido, este lhe perguntou se não tinha problemas em lidar com as coisas de seu passado.

Quando temos que subsistir, não podemos ter esse luxo, ou seguimos em frente, ou ficamos pelo caminho.

Passou a mão lentamente pela cara.   Sabia que tinha seus dias contados, acabava de fazer um exame exaustivo, o câncer que tinha era irreversível.   Não tinha inclusive tratamento a estas alturas.               Se hoje tivesse que ir a um confessionário, poderia dizer que tinha a consciência tranquila.    Alias acreditava que deixaria o padre furioso, pois lhe diria que tinha vivido sempre pecando a cada instante de sua vida.                Não podia culpar a Deus, pois não acreditava nele, nem em qualquer ser superior.  Tinha se desencantado da vida muito cedo.

Alias de Deus, como numa explosão, se lembrou quantas vezes tinha sido expulso de uma igreja para ter-se escondido, ou estar num canto, procurando um pouco de calor para dormir.         Não podia acreditar, nisso, as pessoas pregavam uma coisa, as vezes escutava o sermão de alguma missa, quando o padre falava em perdão, pecado, pregava o bem.   Quase em seguida o mesmo o vinha expulsar da igreja, pois estava sujo.    Ele mesmo se assustava, quando olhava em algum vidro de uma vitrine, o que via lhe assustava.  Nada a ver com a figura que tinha agora diante do espelho.   Soltou um sorriso amargo, que lastima na época não ter tamanho, nem músculos para dar uma porrada naquele hipócrita.      Sabia que de noite escolhia os garotos, para irem até a sacristia para fazer sexo com ele.   Hoje estariam fazendo um escândalo a respeito, mas naquele tempo, quem ia ficar do lado deles.

Olhou seu corpo enxuto, musculoso, nada exagerado, mas ainda era atrativo, apesar da idade. Teve noção disso, na primeira casa de pessoas que o queria adotar.

Sua mãe o tinha deixado no orfanato, porque não tinha meios para o criar, afinal tinha mais sete filhos, quando viu que não tinha saída, foi distribuindo os filhos aonde podia.  Ele era o menor, o mais bonito deles todos.  Ainda ficou com ele mais tempo.  Ele a ajudava a pedir dinheiro na rua, ir ao final das feiras, buscar algo de comida, frutas que tinha uma parte estragada, tomates que estavam meio podres, depois se cortava essas parte, se comia como nada, ou se a fome fosse muita, comiam essas partes de qualquer maneira.   Assim tinha vivido, até que ela já não tinha forças.   O deixou para adoção.

Fez logo sucesso, pois era loiro, branco, olhos azuis, com boca de querubim, as mulheres que vinham olhar as crianças para adoção logo passavam as mãos pela sua cara, como querendo ver se era de verdade ou um bibelô.   Mas no final, não ficavam com ele.  Quando descobriam que tinha vivido nas ruas com sua mãe, que fazia um tratamento complicado, pelos vermes que tinha, era asmático.    Em seguida perdiam o interesse.

Ou quando se interessavam com tudo isso, o vinham devolver no dia seguinte, pois notavam que seus maridos ficavam alucinados com o garoto.    A segunda vez que o devolveram, já não era o mesmo, o marido tinha abusado dele durante a noite.    Apesar que tinha falado ao seu ouvido não grite, a dor que sentiu, o grito que solto a mulher veio correndo, encontrando o marido em cima dele.    No dia seguinte o devolveu.

A mãe, sempre o chamou de Zazou,  mas sem sobrenome, esse nome ficou, apesar que os que dirigiam o orfanato não sabiam o que significava.

A partir daí, até respirava aliviado, quando desistiam dele.  Aprendeu com um companheiro que não queria ser adotado, no momento que o olhava, tremia, tinha arcadas, se jogava no chão. Depois é claro, riam do que faziam.  Nem havia muita malicia nisso, pois era mais para se defenderem.

Um dia seu amigo, partiu, um casal o levou, nunca mais soube dele, esperou ardentemente sua volta, mas isso não aconteceu.   Estava com 12 para 13 anos, ou isso pensava.  Nunca havia festas de aniversário.    Esperava a próxima saída, para poder escapar.  Sabia que nada aconteceria se ele não se movesse.   Apareceu um casal já de uma certa idade.   Concordou em ir com eles, moravam no Grajau.   Segundo a mulher com cara de sofredora, dizia, tinha tentado de todas as maneiras ter filhos, nunca tinha conseguido.

Mal chegaram a sua casa, ele ficou olhando o apartamento, era perfeito, mas o levaram para dormir no quarto de empregada, ela o olhou bem dizendo que ele podia ter pulgas, sarnas ou mesmo carrapatos.   No dia seguinte raspou seus cabelos, que estava grandes, quiça depois de lavados, seriam bons para fazerem uma peruca para ela.

Quando ele quis dizer que não queria, ela lhe deu uma bofetada forte, que ficou com a marca na cara.   Levou a segunda a seguir, primeiro porque não reclamou, segundo porque a olhava desafiante.  O marido não estava em casa, ele lhe deu um empurrão com toda força, viu as chaves em cima da mesa, abriu a porta, foi embora.  Viviam ali na Av. Engenheiro Richard, foi andando rápido, até chegar a Vila Isabel, pegou a rua Teodoro da Silva, sabia ler , escrever, foi lendo as placas, já era noite fechada quando chegou ao Maracanã,  ali numa das dobras do estádio, arrumou um lugar para dormir.    Estava tão cansado, que apesar da barriga roncar, dormiu.  De manhã, seguiu seu caminho, tinha aprendido quando estava com a mãe, pedir dinheiro na rua.  Sua cara ajudava, dizia que sua mãe estava doente, que tinha fome, sempre lhe davam uns trocados.  Comprou um café com leite, um pão.   Apesar do buraco na barriga ser grande, aguentou.  Seguiu seu instinto, foi andando, até chegar quase noite no Campo de Santana, ali se embrenhou no meio de um mato, fez suas necessidades, andou por ali revisando o lixo, encontrando troços de pão, restos de coisas, teve sorte nesse dia de encontrar um meio pacote de biscoitos meio mofados,  dormiu num banco de jardim meio escondido, antes de dormir, pensou, menos mal que era verão.   Mas acordou de madrugada, com uma correria, era a polícia, caçando os viados que estavam fazendo sexo por ali.   Se escondeu bem, para não o levarem, estava decidido não voltar ao Orfanato.   No dia seguinte andando no sentido da av. Presidente Vargas, num lugar olhou seu cabelo, tosado pela mulher, até nisso a filha da puta era ruim, parecia um louco com o que ela tinha feito.

Foi pedindo dinheiro, descendo a avenida.  Um senhor muito maior lhe perguntou para que queria o dinheiro, tenho fome.  O fez entrar num bar ali perto, mandou lhe darem café com leite, um sanduiche de mortadela.  Comeu tão depressa com a fome, ao mesmo tempo com medo de que o homem não o deixasse comer. Ao contrário viu sua fome, lhe pediu outro.  Agradeceu educadamente.      Isso tinha aprendido com a mãe, agradeça sempre, pois as pessoas ficam contentes.   Antes que o homem tivesse alguma oportunidade, saiu agradecendo, desapareceu no meio do formigueiro que era essa hora,  as pessoas saiam do trabalho, era um caos total, foi prestando atenção em algum desavisado com a carteira, sua cara de inocente ajudava, na verdade as pessoas estavam prestando atenção na quantidade de ônibus que passavam.  Conseguiu roubar duas carteiras, em duas paradas distintas.   Entrou para a Rua Uruguaiana, olhou o que tinha de dinheiro, moedas, jogou as carteiras na primeira lixeira que viu. Pelo menos tinha dinheiro para comer alguma coisa mais tarde.  Decidiu não forçar a sorte, subiu pela rua da Alfandega, que era um confusão de gente em ambos os sentidos, uma senhora estava parada na frente de uma loja, abriu a bolsa, para pegar o óculos, para olhar uma vitrine horrorosa, ele passou, enfiou a mão, pegou a carteira, seguiu andando como se nada.  Depois pensou tanta pose para nada, a carteira só tinha moedas, nada mais.  Agora tinha arrumar um lugar para dormir.

Na traseira, do que depois iria descobrir era o Banco do Brasil, arrumou um lugar, uma porta que pelo visto não se abria, a rua era mal iluminada,  tirou o dinheiro, olhou para um lado, para o outro, enfiou numa fresta da porta, pois podia ser  que alguém tentasse roubar enquanto dormia.  A partir desse dia sempre faria isso.

Acordou de madrugada, sendo sacudido por um bêbado, que perguntava se tinha dinheiro, ele esvaziou o bolso, para fora para mostrar que nenhum.   O homem saiu resmungando, se o tivesse forçado, não teria como resistir, o homem era grande, forte.

A partir desse dia, fez de tudo, dormia em qualquer lugar, mas sempre escondendo antes o dinheiro que por acaso tivesse roubado, ou ganhado.  Quando o cabelo ficou grande outra vez, fez tudo o que lhe pediram, mas claro, pedia o dinheiro adiantado.  Chupou, deu o cu, enfim se prostituiu.

Descobriu eu o forte era pelo lado da Praça XV,  pela rua Santa Luzia, se lavou o melhor que pode numa fonte na praça, foi seguindo, vendo que os carros paravam, os rapazes entravam, mas viu que todos estavam com roupas limpas, tinha que aprender aonde faziam isso, viu um garoto de seu mesmo tamanho, entrar num carro, tirou a roupa, a colocou na janela do carro, ele passou rapidamente, roubou as calças, pelo menos tinha melhor aparência com elas, ficou escutando os garotos negociarem.  A maioria vinha de longe, para fazerem isso, ganharem um dinheiro.  Quanto cobravam para chupar, ou para fazerem sexo completo.  Quando parou um carro, ele parecia já um profissional.   O Sujeito o levou a um hotel no centro da cidade, pediu várias coisas, antes ele disse que tomaria um banho.  Foi uma delícia, ficar embaixo do chuveiro, apesar da água fria, lavou os cabelos,  consciência.

Mas o sujeito reclamou no final, porque quando colocou o pau no seu cu, ele ficou estático, pensava em outra coisa para não sentir a dor.   Precisas aprender a mover-se.   Lhe mostrou, o provocando para que ficasse de pau duro, uau tens um bom instrumento.     Viu como era para fazer. O outro gemia, fazia sons.  Teria que aprender a fazer isso.

No dia seguinte ficou vagabundando pelo centro da cidade, Cinelândia, foi conhecendo as ruas, para saber mover-se.    Sabia que muitos garotos dormiam ali perto nos terrenos do Museu de Arte moderna, quando leu o letreiro, ficou pensando o que seria isso. Aquele prédio enorme.

De noite, um velho o levou até sua garçonniere,  um pequeno apartamento para fazer sexo, o homem lhe ofereceu uma bebida, agradeceu, pediu se podia tomar um banho, agora sabia que tinha que aproveitar as oportunidade.   O homem era do mesmo tamanho que ele, viu que ali havia um armário com roupas.   Fudeu com o sujeito, que em seguida caiu para o lado dormindo. Abriu um armário, pegou roupas novas, outras colocou na mochila, o dinheiro que o homem tinha pagado, saiu de mansinho.  Se deu conta que estava em outro lugar, fora de seu costume.  Olhou a primeira placa que viu, Rua Men de Sá, foi descendo a rua, nem tinha andado dois quarteirões quando parou um carro ao seu lado, viu que era um rapaz jovem, perguntou se queria fazer um programa.   Agora já sabia o que queria dizer isso.  O levou para Copacabana, antes de sair do apartamento tinha se lavado num bidê.

Opa ia ganhar dinheiro, disse que cobrava.

Então és um michê, perguntou o outro.

Não sei o que é isso, preciso de dinheiro para viver, o outro olhou para ele, parou o carro, pediu para ele descer.  Não pago para fazer sexo. Se fosse um velho talvez, mas sou jovem posso conseguir alguém que queira fazer sexo.

Foi embora,   sem seguida passou outro carro, era um homem que devia ter uns cinquenta anos, fez a mesma pergunta, antes de entrar no carro, disse que cobrava.  O outro pediu que pusesse para fora seu instrumento de trabalho, ficou meio confuso, até entender o que era o instrumento de trabalho, ia aprendendo coisas novas.   Colocou o pau na janela do carro, o outro só disse opa.   O levou para seu apartamento em Copacabana, pela lógica pensou, por estes lados aparecem os que vivem em Copacabana.

O outro não parava de falar, desculpe estou nervoso, é minha primeira vez, acabo de me divorciar.   Nada em minha vida dava certo.  Não queria filhos, foi contando toda sua história, ele quase lhe perguntou o que era divórcio, mas tinha aprendido a balançar a cabeça, como que concordando.    Era um apartamento que se via, que antes havia uma mulher.   O outro estava ansioso, chegou a gozar antes do tempo.  Ofereceu para ele dormir ali.  Queria dormir abraçado.  Mas isso lhe dava nervoso, sentia que lhe queriam fazer prisioneiro.

Lá pelas tantas, enquanto o outro dormia, se vestiu em silencio na sala, pois tinham deixado as calças por lá.    Abriu a carteira do outro, pegou o que tinha de dinheiro, se mandou de fininho. Foi andando até a praia, tinha roubado um casaco que tinha visto numa cadeira da sala, o colocou, ficava um pouco grande para ele.  Se encostou numa elevação de areia, dormiu até o sol sair.

Andou o dia seguinte todo o tempo, fazia calor, num pedaço de praia, viu que tinha vários grupos de homens, a maioria estrangeiros, que o olhava, como se tirassem sua roupa, ao seu lado apareceu um rapaz de uns trinta anos, lhe disse baixinho, tire a roupa fique se sunga, estão de devorando.

Eu só tenho cueca, não tenho sunga. O outro fez sinal que o seguisse, de uma mochila, tirou uma sunga, coloque tua roupa na mochila, assim fica guardado.

Apontou um grupo, de homens muito brancos, disse alguns gostam de negros, outros de mulatos como eu, outros preferem os brancos como tu.   O que te falta é cuidado, mas se quiseres te ajudo.  A cada homem que levares para cama, antes que falem comigo, arrumo lugar para fazerem sexo, pois não podem te levar para o hotel que se hospedam.  Eu fico com uma parte do dinheiro, mas te dou casa, comida, um lugar para dormir.

Viria descobrir mais tarde que o que fazia esse rapaz, ele era cafetão de um grupo de rapazes, ele também se prostituia, mas estava preparando para um futuro, já não fazia tanto sucesso.

Logo lhe arrumou um cliente, entre esse grupo, era um sujeito diferente, pois era o único no grupo que era moreno.  Os outros todos queriam os negros, mulatos, não entendia nada do que falavam, só então viu que eram todos estrangeiros, quando se insinuou, apontou o Jeronimo, este se aproximou, falou com o outro, este estava num apartamento alugado, disse quanto custava, entregou um pacote de camisinhas, ele na hora não entendeu.  Não sabes usar isso, é muito importante.  Falou com o outro, que este tinha sorte, ia fazer sexo, com um garoto virgem, se ele te penetrar faça muito ruído, muitos gemidos.

Te espero aqui.   O outro lhe ensinou a colocar a camisinha, mas queria na verdade seu instrumento, ficou imaginando que esse homem era o Jeronimo, que lhe tinha atraído, de qualquer maneira, prestou atenção no que o outro falava, os gemidos, para aprender. Fez duas vezes com o homem.   Este perguntou se queria voltar de noite.

Quando voltou o Jeronimo, lhe entregou sua parte, estavam os meninos se preparando para ir embora, tens aonde tomar um banho para se preparar para a noite?

Disse que não, que estava vivendo na rua.  Então venha comigo.   Este tinha um apartamento, já quase no túnel Alaor Prata, se via que era velho, não tinha quase nada, uma cozinha meio suja, fogão, geladeira, uma mesa para quatro pessoas.   Aqui não trazemos ninguém, pois dormimos assim, todos dormiam em colchões no chão.   Esperou sua vez para tomar um banho, Jeronimo, lhe deu uma escova de dentes, nunca se esqueça disso. Escovar bem os dentes,  pois podem querer olhar os teus.

O ensinou a se arrumar, por enquanto deixe essa penugem que tens, assim os homens vão pensar que eres mais jovem, lhe perguntou sua idade.   Disse que não sabia, como tampouco seu nome completo. 

Já vejo que vens da mesma escola que eu venho, abandonado.  O apartamento pertence a uma velha eu vive aqui embaixo, nos deixa viver aqui, por um preço barato. As vezes aparece alguma barata, mas sei que estas acostumado a dormir na rua.   Lhe ensinou como usar seu cabelo para ficar bonito, viu as roupas que tinha roubado, as examinou, pareciam bem.

Hoje vamos a uma sauna, mas faço o que te disse, está cheia de estrangeiros, mande falar comigo, não deixem fazer nada antes de falar comigo.    Repetiu isso umas quantas vezes pelo caminho.  Era ele, mais quatro, dois eram negros, um mulato, ele branco.  Jeronimo era um mulato muito bonito, com um corpo bem forte.

Quando chegaram, ele soltou um dinheiro para o porteiro, que fez um sinal para a porta lateral.

Deixem a roupa toda nesse armário, deu uma toalha a cada um.  Circulem, quando alguém se aproximar, olhe, sorria, repetiu de novo.  Disse que prestasse atenção, ao negro, que se chamava Miguel.  Veja como ele faz, aprenda.   Ficou observando, viu que o Miguel, volta e meia se metia nos chuveiros, ficava nu, com o caralho, já meio duro.  Lhe fez um sinal que fizesse mais afastado dele.  Logo viu como fazia o Miguel, quando apareceu um alemão imenso, ficou olhando ele chupar o caralho do outro.  Assim foi aprendendo. 

Segunda, terça, ficavam livres, podiam fazer o que quisessem.  Uns iam de compras,  ele aproveitava para lavar sua roupa, se cuidar, tinha aprendido isso com o Jeronimo.  Este lhe falou das doenças venéreas, como tinha que evitar quando os homens lhe pedisse para fazer sexo sem camisinha.  Não abra mão disso.   Ali pelo menos, tinha aonde dormir, ele era um dos poucos que lavava o lençol, comer direito, dormir tranquilo.

Um dia Jeronimo lhe disse que um cliente tinha reclamado, que ele não sabia se mexer direito, esta noite vou dormir contigo para te ensinar como fazer, venha para o meu quarto quando todos forem dormir.   Ele era o único que tinha um quarto só para ele.   Teve um verdadeiro curso do que deveria fazer, para deixar os clientes loucos, bem como se excitar a si mesmo.

Em que pensas quando estas com um homem mais velho.

Deu um sorriso encabulado, penso em ti Jeronimo, já te vi sem roupa,  fico excitado rápido, como estou agora.

Fez sexo pela primeira vez, por prazer, nada de dinheiro.  Gostou.              Agora como os outros diziam era o querido do chefe, dormia todas as noites com o Jeronimo.          Mas lhe disse que não gostava que lhe abraçassem, pois se sentia prisioneiro.   Levou seu colchão para o quarto, bem como suas coisas.  Se faziam sexo, depois ia dormir no seu canto.

Se passaram dois anos, agora estava forte, se vestia bem, alguns, iam embora, com algum homem mais velho,  mas antes escutavam o Jeronimo, lhes orientando,  este cobrava para liberar o rapaz.

Dois homens velhos, tinham querido que ele fosse embora com eles, depois de passarem 15 dias fazendo todas as noites sexo com eles, os acompanhando para jantar.   Já sabia algumas palavras em inglês, mas não suficiente para ir à luta.   Os dois por acaso era alemães, ele não entendia nada do que falavam.

Quando falaram com o Jeronimo, este lhe perguntou se queria ir?

Disse que nem pensar, o que ia fazer num lugar que não ia aprender nunca a falar a língua.

Jeronimo, tampouco fez nenhum esforço para isso, gostava dele.

Um inverno, já não havia trabalho na praia, saiam para andar nos shopping, Jeronimo lhe avisou que tinha um homem o seguindo, vá ao banheiro, vou ver se ele vai atrás, depois entro.

Era um homem até bonito, de uns 65 anos. Cabelos brancos, bem penteado, da mesma altura que ele.

O homem falou com ele, mas não entendeu.     Jeronimo, lhe disse que era francês, começou a conversar com o homem.  Saíram os três, o homem tinha um apartamento alugado no princípio de Ipanema.  Tinha um trato especial.         Falou com o Jeronimo, quanto cobrava para ele passar esses dias todos com ele, ficaria 10 dias no Rio.          Passou esses dias todos com François, era educado, lhe foi ensinando palavras em francês,  saiam para passear, foi com ele a todos os lugares turísticos, que nem ele conhecia, saiam para comer, jantavam sempre com o Jeronimo, que reclamava que a temporada do inverno era uma merda.

Cinco dias depois o homem perguntou se ele queria ir com ele a Paris.        Lhe disse fale com o Jeronimo.  O problema estava que ele não tinha documentos, disse ao homem que precisava dele para tirar os documentos, passaporte.            O levou consigo para falar com um policial que ele conhecia.   O homem logo se engraçou para seu lado.      Já sabes o meu preço Jeronimo, gosto de provar a mercadoria.  Antes anotou o seu nome, quando perguntou o sobrenome, ele disse que não sabia.      Inventou, Zazou Gamez, fica diferente do que Silva, Santos ou mesmo Gomes, fica parecendo estrangeiro.       Tiraram fotografia,  enquanto um outro preparava os documentos, o levou para uma cela, que mais parecia um quarto de hotel barato.         Mandou que ele tirasse a roupa, o alisou inteiro, quando abaixou as suas, ele levou um susto, tinha um caralho imenso, fez um sinal com o dedo, depois falou no seu ouvido, diga depois que era imenso, mas o que eu quero é o seu.            Diga que doeu muito.   Fudeu o homem a vontade, ele era gostoso.   Se não fosses embora, ficava contigo para mim.

Agora já tinha bilhete de identidade, passaporte, já era uma pessoa como dizia o Jeronimo, mas o policial, pediu mais uma visita, tinha gostado demais do cuzinho dele.    Jeronimo ainda disse, assim vai embora arrombado. 

Deixa comigo só uma noite, nem podia comparar o policial com o francês.      Pela primeira vez estava relaxado, além do Jeronimo, estava aprendendo a sentir prazer a fundo.

No dia seguinte o francês, estava nervoso, pensei que tivesse sumido,  Jeronimo lhe explicou que tinham ido tirar o passaporte, depois que Zazou tinha ido visitar sua família, para deixar algo de dinheiro, etc.

Vamos comprar um bilhete para ele.               François chegou a pagar mais caro, só para que ele fosse sentado ao lado dele no avião.       Jeronimo, lhe deu suas últimas instruções, se ele se torna pesado, arrume uma maneira de escapar.             Peça sempre que ele regularize tua situação de estrangeiro.     Ainda saíram para  comprar alguma coisa de inverno, pois na Europa era final do inverno, mas nada comparada com o inverno do Rio.  François pagou tudo.

Embarcaram, ele morto de medo, quando muito tinha andado de ônibus, nem de trem tinha andado, andar de avião ia ser um horror.       Mas François foi previdente lhe deu duas pastilhas, foi dormindo até chegar a Paris.

Quando o avião chegou, deu uma volta por cima da cidade, ele estava extasiado, pensou nessa cidade “ vou me realizar, ser famoso”.     Mas não estava pensando, em sexo, sua intuição lhe dizia que poderia ser alguém ali.

A princípio foi um mar de rosas, François, o apresentou aos seus amigos, mas nas reuniões, todos falavam depressa demais para ele entender.                          Pediu para fazer um curso, com conversação, se adaptar, a contra gosto François pagou, mas claro, depois cobrava os favores. Quando viu, tinha se transformado numa doméstica do outro.               Lavava a roupa, cozinhava, limpava a casa.         Não que isso lhe desgostasse, mas sempre havia alguma reclamação que as coisas não estavam bem feitas.   As vezes explodia, com um então faça você.   Não sabia direito porque ele não dava explicações, em que trabalhava o François.   O pior era que mal tinham chegado, François, sem que ele visse, pegou seu passaporte, fechou numa gaveta, para que ele não perdesse.   Meses depois resolveu seu problema de documentação, mas claro tudo fechado nessa bendita gaveta.  Começou a prestar atenção, qual era a chave, aonde ficava guardada, sempre estava num chaveiro da calça que ele usava.  Eram muitas chaves, faziam ruído até quando ele andava.

Lhe dava dinheiro para ir as compras de supermercado ou farmácia, dizia fica com o troco para tomar um café.   Mas ele guardava tudo, andou roubando na rua umas duas carteiras, para poder ter mais dinheiro, tudo escondido.

Como ficava sozinho o dia inteiro, roubou um guia que viu numa banca de jornais, agora ia explorando a cidade, conhecendo os lugares, mas sempre voltava antes para casa porque senão François lhe dava uma bronca colossal.  Queria saber detalhes de aonde tinha estado.

Não o levava mais a reuniões com seus amigos, pois todos ficavam prendados dele.  Estava cada vez mais bonito, segundo diziam todos.

Tinha vontade de ir ao Louvre, mas quando muito chegou a olhar a Pirâmide, por fora, imaginou que fosse imenso.   Escutou dois brasileiros falando, é muito grande, na segunda sala, já não se lembra da primeira, melhor ir ao Museu d’Orsay, buscou no mapa, na próxima escapada foi até lá.

Quando viu o imenso touro na entrada, ficou embasbacado, era uma escultura maravilhosa, ele nunca tinha tido tempo para ver arte.  Pagou a entrada, foi passando. Quando entrou, ficou parado na parte alta, sem saber muito bem aonde ir, estava fascinado.  Viu o guarda chamando atenção de uns garotos que passavam a mão nas esculturas.   Era o que ele tinha vontade de fazer.  Foi olhando todas, sem perceber que ficava parado com a boca aberta, os olhos como que querendo absorver tudo, amou  “Hercules Arqueiro, de Emile-Antoine Bourdelle”, ele lia o nome do criador, ficou ali parado, andou por todos os ângulos, para se impregnar dos detalhes, voltava a olhar de perto, depois se afastava, queria de alguma maneira botar essa imagem na sua cabeça.  Era uma perfeição, o movimento, a forma, não saberia talvez se expressar com palavras o que estava vendo, mas amava.

Ficou alucinado quando parou na frente da “Porta do Inferno de August Rodin”, estava de novo mergulhado nos detalhes, se pudesse se erguer para ver direito a parte alta, fez como da outra vez, olhava de perto, se afastava, achava graça que as pessoas vinham com um fone de ouvido ou um papel, olhavam iam embora sem ver a obra que era impressionante.

Estava tão concentrado nisso, querendo ver com detalhe uma figura que estava em cima, como que sentado com o cotovelo apoiado no joelhos, com o queixo na mão.  Quando escutou uma voz atrás dele dizer, é uma repetição de uma das obras mais famosas de Rodin, “O pensador”, está em outro museu.

Olhou o homem que sorria para ele.  Seus cabelos brancos se misturavam com os loiros, lhe dando um aspecto de leão, com os cabelos crespos imenso. Eu entrei junto contigo, venho te seguindo, venho aqui milhões de vezes com meus alunos, eles passam tudo por alto, queria que observassem as coisas como tu fazes.          Seria um balsamo para um professor de arte, que os alunos se interessassem.

É a primeira vez que entro num museu, nunca tive essa oportunidade, as vezes via esculturas nas praças, mas mal cuidadas, creio que as colocam ali para serem admiradas, mas as pessoas que passam não tem tempo para parar admirar.             Não tenho uma cultura artística, mas até gostaria de aprender.

Pelo sotaque vejo que não eres daqui?

Não sou do Brasil, vivo a pouco tempo aqui, aproveito meu tempo livre para ir conhecendo a cidade.  E o senhor é daqui?

Sim, mas nasci perto de Marseille, trabalho aqui perto, na École des Beaux Arts, estou aqui para olhar um quadro, que estou fazendo um estudo para transformar numa grande escultura.     Quer ver o quadro?

Ele balançou a cabeça, estava encantado que um artista lhe prestasse atenção,  O quadro era imenso, lhe impressionou, se sentia pequeno diante dele.  Ficou de novo de boca, aberta, esqueceu que o outro estava ali, começou de novo, a se afastar, observar detalhes de algum personagem que estava no quadro, depois passava para outro, se afastava para ver como funcionava o conjunto, mudava de figura.  

O professor estava com a mão no queixo, observando como ele fazia, sabia que tudo era intuitivo, já que lhe tinha falado que era a primeira vez que entrava num museu.           Quando acabou, fico imaginando como vais transformar isso numa escultura, curioso ao mesmo tempo, para saber como se faz.  Nunca vi ninguém trabalhando.

O professor estendeu a mão, Jean-Pierre Lascau, ao teu inteiro dispor.

Ele riu, meu nome até a pouco tempo era só Zazou, agora sou Zazou Gamez, lhe copiou, ao seu inteiro dispor.

Queres tomar um café para conversar Zazou?

Fez que sim com a cabeça.

Se sentaram num café, logo depois da saída do museu, ficava justo na esquina de Port Royal, a primeira pergunta ele demorou a responder, mas queria ser honesto com esse homem, não sabia por quê.

Queria saber como ele tinha vindo viver em Paris?

Olha Jean-Pierre, eu era um prostituto no Rio de Janeiro, um francês, gostou de mim, me convidou para vir, mas na verdade dei com os burros n’água, pois me trata como se eu fosse a mulher da casa, mas chega de noite o que quer é sentar em cima do meu pau.

Jean-Pierre, riu, me desculpe, mas normalmente as pessoas mentem ao responder essa pergunta, contam uma historia imensa.   Gosto como te comportas, vais direto ao assunto sem rodeio.    Eu também me prostitui quando cheguei aqui, não tinha dinheiro para estudar, posava para outros artistas, depois te mostro em alguns lugares, figuras em quadros que sou eu quando jovem.                 Mas nunca tive vergonha, tampouco escondi isso de ninguém, até que um velho professor me tomou sobre suas asas, me ensinou tudo que sabia, ficamos amigos, ele não tinha filhos, me transformei em seu filho.     Mas nunca fiz sexo com ele, era heterossexual, gostava de uma boa farra com mulheres, mas nunca me criticou porque eu gostasse de homens.    Dizia que cada um tinha que viver a vida como quisesse.

Eu vivia num orfanato minha mãe, não podia cuidar de mim, tinha outros irmãos, mas não sei aonde foram parar, fiz de tudo, roubei, dormi muito na rua, sonhando sempre com outra vida, me prostitui pelas ruas, até que encontrei um homem que cuidou de mim, claro ficava com uma parte do dinheiro, mas me protegia, me deu uma casa.

Agora estou aqui, sem saber o que fazer da minha vida, o tempo esta passando, sei que estou perdendo algo, mas ainda não descobri o que.

Venha, vou te ensinar aonde é a Escola de Belas Artes, no caminho sinalizou uma loja de material de pintura. Quando olhou o relógio viu que era tarde, teria novamente uma discussão com François.  Perdão, mas tenho que ir embora, é muito tarde, o senhor com quem vivo vai aprontar um novo escândalo, se chego tarde.

Jean-Pierre, lhe estendeu um cartão, atrás colocou o número do seu celular, qualquer coisa, me chame, não importa a hora, quero te conhecer direito.

O metro estava lotado, mas chegou em casa tarde.  François, perguntou aonde tinha estado?

Estava num museu, porque, nunca me levas as estes lugares!

Não gosto de perder tempo, chego à comida não está feita, estou enojado de comer todos os dias a mesma coisa, devias sim, fazer um curso de cozinha francesa, para me agradar, afinal paguei para isso.  Não penses tu que teu querido amigo Jeronimo, te liberou sem que eu soltasse um bom dinheiro.

Ele sem pensar muito, apertou seu pau com a mão, dizendo, mas que usufrui bastante, verdade.

Se tens fome peça uma pizza, que eu já não tenho vontade de comer, ou vá comer com teus queridos amigos, aos que me escondes.  Tens medo de que, que eu fuja com algum deles.

Ele riu irônico, não podes fugir, tenho todos teus documentos comigo, em seguida serias preso, expulso do país.

Ele foi para seu quarto, batendo a porta, então era por isso que tinha seus documentos escondidos naquela gaveta.   Já veria ele com quantos paus se faz uma canoa.   Tempo depois o outro entrou no quarto, lhe pedindo perdão, venha me fazer companhia na sala.

Quis fazer sexo com ele, mas agora lhe dava asco.  Filho da puta, tudo bem que ele era um prostituto, mas dai querer se aproveitar dele, isso não.

Como todas as noites, tinha que preparar um comprimido para ele dormir.   Esmagava a mesma, dissolvendo na água, pois senão o François não dormia, nesse dia, fez isso com quatro comprimidos, colocou um pouco de açúcar, lhe entregou, na hora que ele estava distraído com alguma coisa, tomou dizendo que estava um pouco amargo. 

Todos os dias dizes a mesma coisa François, que esta amargo, não podes pelo menos agradece que faça isso para ti. 

O olhou de cima a baixo, estas aqui para isso, servir ao teu senhor.

Filho da puta o tomava por seu escravo, ele não tinha pedido que desse dinheiro para o Jeronimo, o fez porque queria desfrutar de seu caralho. Filho da puta repetiu na sua cabeça.

Ficou observando quando ele caiu num sono profundo, o levantou, levou para sua cama, tirou as calças, com cuidado, fez de proposito barulho com as chaves, para ver se ele despertava, nada.

Foi para o escritório, abriu a famosa gaveta, só teve que experimentar com duas chaves, na segunda funcionou.  Achou seu passaporte, todos os documentos franceses, enfiou no bolso, o que mais lhe chamou a atenção, a quantidade de rolos de dinheiro que tinha ali,  caramba foi tudo o que disse, abriu um para ver qual o valor de cada rolo.  Cada um tinha mais ou menos mil euros. Deixou a gaveta aberta, foi até seu quarto, encheu a mochila, colocou as roupas que gostava na parte de cima, vestiu um tênis novo que lhe deu de presente.   Foi até seu quarto, colocou as chaves na calça, assim ele levaria um tempo para descobrir.  Ele saia todos os dias de manhã para ir comprar croissants fresco para o café da manhã.   Olhou para o relógio, eram as duas da manhã.  Não vou conseguir dormir, o melhor é dar no pé agora.

Saiu para a rua, tomou um taxi que passava, disse Châtelet, de lá telefonaria para o Jean-Pierre, podia ir para um hotel, mas com certeza François iria procurar em todos hotéis baratos da cidade.

Escutou que o outro despertava, falava sonolento no celular.  Claro que sei quem eres, anote meu endereço.   A estás horas não sei se tem algum ônibus para cá.  

Vou de taxi, fica mais fácil. 

Saio agora de casa, te espero na Place Monge.

Foi rindo do taxi, como esse homem que nem o conhecia, o recebia assim, o certo era lhe dizer que o veria no outro dia perto de seu trabalho, fazer sexo com ele, desaparecer.

Realmente estava ali de camiseta, calças jeans, chinelos, riu para ele, sei que queres falar, mas estou com frio, vamos para casa.

Foram rápido, era realmente perto da praça, mas ele não iria encontrar, era um edifício antigo, que tinha cara de ter sido reformado.   Foram subindo as escadas, é no último andar, menos mal que era um edifício de três andares.   

Ufa, que frio, eu as vezes no inverno escapo para Marseille, na verdade perto dali, tenho uma casa pequena na praia.  Gosto de estar ali no inverno, pois não tem muito turista.

Imagino que tens muita coisa para falar, se queres conversamos agora, ou se prefere, falamos amanhã.

Ficou imaginando que o arrastaria para a cama, nada mais longe da realidade, o levou até um quarto, esse antigamente era meu quarto,  podes ficar tranquilo, mostrou que tinha um banheiro bem diante do quarto, no meu tem um dentro, o edifício foi reformado.   Meu Studio é no andar de cima, amanhã poderás ver.

Queres que te chame amanhã, eu costumo levantar muito cedo, para poder trabalhar um pouco antes de ir para a Escola, desenhar um pouco, manias que tenho.

O deixo se arrumar para dormir, ah, no banheiro acabo de colocar uma escova de dentes, bem como pasta para usares.  Tem toalhas para banho, tudo o que precisas.

O ajudou a arrumar a cama, não se preocupe por nada, eu já passei por isso, amanhã, conversamos.   Depois, buscou um lugar para esconder o dinheiro, mas não encontrou nada, tudo tinha sido reformado.   Tirou a roupa, se jogou na cama só de cuecas, ficou imaginando no dia seguinte o François, despertando, não iria encontra-lo, talvez demorasse a entender.  Sabia que ele não aceitaria bem.  Se lembrou de uma vez que um amigo dele lhe fez uma desfeita, explodiu, ajudei esse filho da puta, tem mais é que obedecer o que lhe digo para fazer.   Foi a primeira vez que o via fazer isso, ficou de sobreaviso.  Um dia seria com ele, com certeza, sabia que gostava disso, cobrar os favores.                  Tinha feito isso com ele, o transformando em sua empregada de cama, mesa.

Nem pensava em queimar as pestanas com isso, tinha pelo visto bastante dinheiro, não tinha menor ideia em que ele trabalhava, sabia que chegava sempre olhando para os lados, agora entendia, era porque andava com muito dinheiro na pasta, se esta gaveta tinha tudo isso, imaginava nas outras, pois todas eram fechadas a chave.

Tentaria agora arrumar algum emprego, quem sabe o que seria de sua vida, mas pela primeira vez dormiu o sono dos justos.

Despertou de manhã, com ruídos na cozinha, que ficava em seguida ao seu quarto, levantou, atravessou o corredor, tomou um banho quente, olhou sua cara no espelho, estava mais relaxada.

Jean-Pierre o esperava na cozinha.  Dormiste bem?

Sim, fiquei ainda um pouco pensando na minha situação, mas depois dormi o sono dos justos, profundamente.

Que bom fico contente, eu as vezes perco horas na cama, pois fico pensando no que estou fazendo, buscando solução para algum trabalho, ou mesmo que caminho seguir.  Mas isso é uma mania que tenho.   Já vês estou ficando velho cheio de manias.

Ele tinha um corpo estupendo, a pele meia morena. Esses cabelos loiros misturados com os brancos, os olhos profundos, essa boca que lhe dava vontade de beijar.

Em que estas pensando, me examinando dessa maneira?

Vejo que nada te escapa, estava guardando tua figura na minha memória.

Como gosta do café, foi lhe servindo, indicando o que havia na mesa para o café da manhã. Eu sempre como muito a essa hora, pois não sei que horas volto a comer.    Hoje por exemplo não dou aula, então aproveito para trabalhar.  No verão, como só trabalho de segunda a quinta-feira, na sexta de manhã, ou mesmo na quinta de noite, pego um trem vou para a praia.  Lá tenho um studio pequeno, mas posso desenhar.  Adoro o mar, sinto falta do seu cheiro,  ficar sentado na varanda olhando o nascer do sol, lembrando as vezes coisas da minha infância.

Minha última exposição foi sobre isso, minhas lembranças da infância. Objetos que tinha consciência que tinha visto ou sonhado.   Fui um sonhador desde criança, com um pai terrível, que me pegava sempre que eu não lhe respondia, se lhe dizia que estava dentro da minha cabeça, pior, pois dizia que estava louco.

Por isso um dia fugi, vim para cá. Tudo que trouxe foi uma mochila cheia de desenhos, mas claro ao apresenta-la na escola de Belas Artes, não tinha nem dinheiro para a matrícula, as vezes dormia escondido no prédio.  Outras vezes fazia sexo com alguém para conseguir dinheiro.   Quando pedia trabalho, ninguém queria um artista como empregado. Fui levando até encontrar meu protetor.

Agora serás o meu protetor?

Quem sabe, mas me conta que te aconteceu ontem.

Contou o que tinha passado no dia anterior, só não falando do dinheiro que tinha.  Se comportou como se eu fosse seu escravo, que tinha obrigação de fazer tudo que me mandasse.        Quando cheguei me apresentou aos amigos, mas quando esses começaram a conversar comigo, ou mesmo me elogiar, nunca mais me levou.  Virei de uma hora para outra, de amante, em uma empregada da casa, que tinha que satisfazer o senhor, na mesa, na cama.  Aliás era ele quem se satisfazia sentando no meu caralho.    Perdão, não quis ser grosseiro.

Jean-Pierre ría, batendo as mãos nas pernas.   Só mesmo tu para me fazeres rir a esta horas da manhã.   Vejo que serás boa companhia para mim.

Arrumaram a cozinha juntos, estava contente, era como um companheiro.               Não lhe disse, arrume a cozinha faça isso ou aquilo, esperava que não fosse só esse momento.

Venha, vamos subir para que tu conheças o studio.  Se pode ir por fora,  ou aqui mesmo da sala.  Subiram uma escada em caracol.   Acendeu a luz, iluminava um espaço imenso, devia ser todo um andar, com mesas de trabalho, um grande desenho preso numa parede, atrás de uma mesa, detalhando um personagem do quadro que tinha lhe mostrado no museu.   Vou só usar a ideia, mas quero fazer uma coisa atual.      As vezes levo muito tempo para realizar o que penso, primeiro porque há dias que me sobra pouco tempo.     Me distraio muito, talvez buscando algo não muito concreto.

Estava fazendo uma maquete do que quero fazer.     

Ficou olhando a maquete, o desenho na parede.   Porque não usas a ideia da emigração hoje, o pessoal tentando entrar na Europa, de barco, quantos morrem, essa coisa, o desespero de quem perdeu um filho, outro alegre porque chegou salvo no que eles acham que é o paraíso.

Vê isso me admirei ontem de ti, essa capacidade de observação.                 Se todos meus alunos tivessem seriam grandes artistas, somente alguns, na verdade uns poucos poderão alcançar isso.

Foi acendendo luzes, uma parte era como um círculo embaixo de uma claraboia, aqui quando preciso de um modelo, o coloco no centro, para poder ver como incide a luz em cada posição. As vezes não entendem que eu me mova tanto, mas a mudança de luz, é importante.  Muitos pensam que os convido para virem aqui, para depois os arrastar para a cama, nada mais longe da verdade.    Mostrou uma foto do seu protetor, com uma mulher lindíssima ao lado.  Esta foi sua última mulher.  Pensou ao se juntar com ela, que ele  morreria antes, mas foi ao contrário, ela foi atropelada em frente à praça.    Para ele foi um problema sério, eu já vivia aqui, fiquei ao lado dele todo esse tempo.      Era apaixonado por ele, mas nunca verbalizei isso, sabia que me queria como um filho.            Imagino que estas pensando exatamente isso, porque ontem não te levei para a cama, já que estas em minha casa.    Se um dia for contigo para a cama, será porque nos conhecemos, queremos a mesma coisa.                            Podes ficar o tempo que queira aqui.             Inclusive podes posar para mim, se queres ganhar algum dinheiro, posso arrumar para que pose na escola, sempre é difícil conseguir alguém.   Poderias ter teu dinheiro, assim ninguém vai te incomodar.

Não ia lhe dizer que tinha dinheiro por um bom tempo, ficou quieto.

Serias capaz, de fazer exatamente o que disseste, uma pessoa, vendo o futuro, depois de tanta coisa amarga, não usarei tua cara, mas sim a expressão.  O colocou da maneira que imaginava, estas em pé em cima da barca, olhando que chegas para uma nova vida.

Ficou ali, imaginando uma nova vida com ele, deixou que seu corpo expressa-se isso, sua cara, seu olhar.

O silencio era tão grande que se podia escutar o ruído do lápis sobre o papel, ou mesmo quando arrancava uma página do bloco que estava desenhando.   Não podia olhar o relógio para saber quanto tempo estava ali em pé na mesma posição.   Se lembrou das vezes que era obrigado a ficar de joelhos, chupando o caralho de outra pessoa, quando os joelhos começavam a doer,  que ia ficando desesperado, mas precisava daquele dinheiro para comer.  Sentiu que as lagrimas começavam a baixar pela sua cara,  outra vez que como não chupava direito, o sujeito tinha lhe dado um murro na cara, ele só tinha uns 15 ou 16 anos, nada mais.

Graças a Deus não tinha espelho para se olhar,  não tinha ainda a força, nem corpo para se defender.   Hoje em dia, se levantaria, lhe daria um bom murro na cara.   Quis se controlar, não demonstrar o ódio que estava sentindo.  

Só escutou a voz do Jean-Pierre dizendo, sei que as lembranças, não são agradáveis, mas siga assim, já estou acabando.

Depois o ajudou a ir colocando os desenhos na parede, estava impressionado, realmente tinha captado o que ele tinha sentido.

Creio Zazou que é isso, a pessoa, estando num momento que chega ao seu destino, ao mesmo tempo que pensa no futuro, também se lembra do passado.

O ajudou a trazer uma quantidade de argila para a mesa, em seguida ficou fascinado ao vê-lo trabalhar.

Sua cara era de concentração total, embora fosse uma pequena escultura, parecia que todo seu corpo participava disso.   Absorveu tudo que podia daquela imagem, viu um pedaço de papel ali, um lápis, começou a desenhar, sem prestar muito atenção no papel, sim em mirar a cara do Jean-Pierre.

Ele de repente de soslaio, olhou o que ele estava fazendo, olhar fixo para ele, ao mesmo tempo o braço, como que obedecendo uma ordem da cabeça, como que funcionava sozinho.  Sorriu, não tinha se enganado.  Tinha um potencial ali guardado naquele jovem.  No mais era medo de se apaixonar por ele.

Se moveu, quebrando a concentração de Zazou, ia buscar mais argila,  mas parou para olhar o desenho.              Uma pessoa que não olhava o papel, devia estar fazendo uns rabiscos.   Ficou surpreso, estava perfeitamente desenhado, viu sua concentração no que estava fazendo. Era um perfil perfeito.  Ficou de boca aberta.

Zazou, olhou para o que tinha feito, não tinha tido consciência disso, fizera tudo automaticamente.         Ele mesmo ficou abismado.  Sorriu como se tivesse descoberto a pólvora.

Fiz tudo sem querer, creio que algum impulso me movia. 

Venha comigo, ali havia uma parte que era como um armazém de material, escolha o que queria, sei que não tens noção de material, já irei te explicando.  Creio que podes realmente fazer algo.   Use o que queira.

Já eram quase duas horas da tarde, sentiu a barriga roncar.  Riram os dois, pois o ruído era alto, venha vamos sair tomar um pouco de ar, comer alguma coisa.        Ou podemos comprar alguma coisa, ir comer no Jardim de Plantes aqui perto, o que achas, assim, nos relaxamos.

Compraram sanduiches de pastrami, num local judio, eram bem grandes, além de refrigerantes, com duas bolsas, caminharam até o Jardim de Plantes.   Zazou não conhecia essa parte da cidade, ficou admirado da Mesquita.   Um dia podemos vir comer aqui, a comida é excelente.

Se sentaram no jardim,  comeram um pouco, Jean viu que a cara do Zazou era muito séria, lhe perguntou o que lhe passava pela cabeça. 

Estou assustado, pois nunca agi assim, como que por instinto, estava te olhando, de repente, senti um impulso, vontade de te retratar, esse papel, estava ao meu lado, bem como o lápis, fui te olhado, nem sei como fiz.  Se tivesse que fazer pensando, creio que não sairia.

Veras, as pinturas mais famosas, como por exemplo “O Grito” de Edward Munch, se olhas para o que se fazia na mesma época, é muito feia.   Mas o seu significado é muito grande, dai talvez seu sucesso.  Existem milhões de exemplos.  O quadro mais famoso de Picasso, “Guernica”, é de uma força brutal, nem por isso bonito. 

Veja bem, Zazou, dizem que arte é isso, um tanto de técnica, mas o resto todo é transpiração, que em resumo, é instinto, impulso.   Se pensas muito, um desenho, uma pintura, será igual a tantas outras.   Uma coisa extremamente perfeita, por vezes é chata.  Depois vou te mostrar isso.

Riram os dois da imagem.

Sem saber muito bem porque, contou para ele toda sua vida, sentia uma confiança no Jean que era além do esperado, se conheciam não tinha nem dois dias, depois pensou, posso me arrepender disso, mas na verdade nunca se arrependeu.

Jean, posou para ele várias vezes,  até que conseguiu faze-lo de corpo inteiro.  No desenho, estava cada dobra, cada arruga da roupa.  Os detalhes mais iluminados pela luz da claraboia, ele só queria ir as aulas da Escola de Belas Artes, a partir que dominasse um pouco o desenho.

Semanas depois foi,  Jean tinha conseguido com o diretor que ele assistisse as aulas, o semestre acabava em breve,  era para ver mais como se sentia em grupo.  Ficou esperando as aulas, sentado na escadaria, alguns alunos fumavam, falando coisas triviais, vivencias que ele não tinha tido tempo de ter.   Alguns falavam de uma festa aonde tinham ido, segundo um dos rapazes, tinha rolado de tudo, drogas, sexo.  Ele mesmo nem sabia com quem tinha tido sexo, se ria desse fato.   Depois outro grupo um pouco mais afastado que ele percebeu que não pertenciam a mesma forma de pensamento, pelas roupas se via que eram mais sérios.

Entrou para a sala de aula com todos,  sentou-se aonde Jean lhe indicou, ficou mais atrás dos outros alunos. No centro, uma modelo completamente nua, esperava a indicação do Jean para posar.   Ele pediu que ela se inclinasse como se fosse deitar, pegou um pedaço de pano fez um drapeado, nos quadris dela, tapando o sexo.   Vocês tem 15 minutos, antes que ela mude de posição para fazer um esboço.   Ele começou a trabalhar, como em transe, deixou de escutar os comentários que faziam duas garotas que estavam sentadas a sua direita.  Quando Jean, disse tempo, parou, na verdade já tinha terminado, estava era fazendo uns retoques no drapeado do tecido. 

Ela a colocou em pé, com um braço esticado, descendo por ele, como se fosse uma serpente, o tecido, seguro pela mão que estava esticada ao alto, meio enrolado no quadril, mas com o sexo descoberto, descendo por detrás dela.

Fez o trabalho, era como se ele não escutasse nada,  fez tão rápido o esboço, que ainda sobrou tempo para imaginar como estava o resto de tecido descendo pelas suas costas, a tinha visto um segundo, de costas para ele, mas era capaz de se lembrar dos cabelos largos, de uma cicatriz nas costas, bem como de sua bunda. 

Deixou um ao lado do outro.

Cada um foi apresentando seu trabalho, ele deixou o seu por último.  Quero apresentar a vocês o Zazou, que assiste pela primeira vez as aulas.  Não tem muita experiencia, na verdade começou a desenhar a alguns dias atrás.  Será vosso companheiro, espero o semestre que vem.

Pediu que ele colocasse os desenhos, na frente, ele meio sem jeito levou.

Estavam perfeitos, se escutava o rum, rum  dos outros alunos comentando.

Um levantou a mão, perguntou ao Jean, estas de brincadeira, que ele só começou a desenhar a alguns dias atrás.

Oras, pergunte diretamente a ele.

Sim, respondeu Zazou, não tenho ainda noção do uso de técnicas, mas por um acaso comecei a desenhar, não sei muito bem se é isso que quero, vejo muitos defeitos no meu trabalho. Começou a sinalizar, aonde poderia ser melhor, agora que via com mais distância.  Perguntou se podia corrigir.  Jean consentiu, esperando ver a cara dos alunos.   Ele foi até os papeis, começou a detalhar algumas coisas que tinha passado por alto.     A cara dos outros era interessante, pois ele se movia pela sala, buscando ângulos para ver seu próprio trabalho, criando perspectivas que de um ângulo só não era fácil.

Um dos alunos que contava da festa, fez sinal aos outros que ele estava louco.

Pronto, creio que assim esta melhor.   Jean não disse nada, esperou que os outros alunos, falassem algo.

Espero que tenham visto como se trabalha um desenho.              Não é só olhar de um ângulo, estático, é necessário imaginar, outras maneiras de ver.     Buscar realmente o que nos inspire, respire.   Vamos fazer um exercício agora, prestem atenção em vossa própria respiração, eu estarei aqui em pé em cima do estrado, vou coordenar as respirações,  quando eu de o sinal, inspirem, segurem a respiração, pois vou encaixar na minha, nesse momento, mudo eu a minha postura, passem a desenhar no mesmo lugar essa postura, em cima da anterior, ou completando a anterior,  quando eu achar que está bem digo cortem ok.  Deu a partida, viu que Zazou estava completamente relaxado, ainda pensou como ele faz isso.   Os outros estavam nervosos, queriam entender ou fazer o que não tinham entendido.

Quando sinalizou que acabava, disse cada um fica no seu lugar, sem olhar o do vizinho, vou dizendo os nomes, venham trazendo aqui para a frente.  Vamos ver quem entendeu o exercício.

Nenhum deles tinha entendido, mas quando viram o trabalho do Zazou, ficaram impressionados, ele tinha feito todos os movimentos, os outros não tinha reparado que Jean, só tinha movimentado realmente o torso,   Ele fez esses movimentos, como se o torso fosse girando, que era o que tinha acontecido.  Vendo o trabalho dele, espero que tenham entendido a ideia, vamos repetir mais vezes, até vocês entenderem o trabalho.

Quando iam sair, viram que o reitor já estava a algum tempo na porta.   Fez um sinal ao Zazou, quero falar consigo.

Quando Jean me falou de ti, não imaginei que tivesses conhecimento de processos anteriores, mas vejo que tens uma base solida.

Senhor, me perdoe, eu não tenho base sólida nenhuma, se eu comecei a desenhar, não faz nem uma semana.  Isso não é possível, pode ser que ao longo do anos de minha juventude, eu tenha desenvolvido um sistema de observação, pois dele dependia minha vida.

O que fazia antes, de que idade estamos falando?

Até semanas atrás poderíamos dizer que minha profissão era de prostituto, nunca tinha entrado num museu, tampouco tinha prestado atenção a quadros, a nada do gênero, apenas necessitava do meu sentido de observação, para saber se devia fazer sexo, com este ou com aquele. Tratava de sobrevivência, de me proteger de algum possível maltrato.

A cara do reitor era ótima, pois não esperava uma resposta dessa.               Talvez esperasse uma resposta mais intelectual, mais erudita.   Isso ele não sabia falar, não tinha vergonha de ter sido o que dizia, era uma verdade, como dois e dois são quatro.   Cada vez mais tinha noção, de que se falasse a verdade, as pessoas o olhariam diferente, pensando que mentia.

Num segundo, abriu o caderno, traçou o rosto do reitor, do espanto dele, do seu movimento de perplexidade, sobre a verdade.  Creio senhor que meu problema é o impulso.              Às vezes, quando vejo já fiz.

Só disse antes de sair, espero que esteja aqui no semestre que vem, vá pensando num projeto.

Ele não entendeu. 

Ele quer dizer, que no semestre que vem, não terás que começar do zero, que te vê na sequência seguinte do curso.   Quer que tu desenvolva um projeto de trabalho.   Depois com calma te explicou.

Estava deixando o cabelo crescer como quando era adolescente.  Como tomava banho, em seguida sacudia o mesmo, ficavam crespos.

Nas férias, foi com Jean, para Cassis, a casa ficava numa pequena enseada, com outras casas, todas mais ou menos no mesmo estilo, a de Jean, estava mais afastada de outras,  na verdade se compunha de duas cabanas interligadas entre sim.    Uma era aonde se dormia, um grande salão com uma lareira, uma pequena cozinha americana, dois sofás-camas, um banheiro simples, na outra estava seu studio, era um espaço apenas dividido por colunas, aonde havia mesas de trabalho, de resto um banheiro, para necessidades .

Estava deslumbrado com a beleza do lugar, como a temporada não tinha começado ainda, basicamente só estavam eles ali.   Nessa noite, de lua cheia, tomaram banhos nus na praia, voltaram rindo para a cabana.   Estava feliz, como nunca tinha estado antes na vida, ficaram conversando, vendo a lua iluminar o mar.  Sem querer, ele segurou a mão do Jean, não soltou mais.    Obrigado por tudo, por me estar fazendo tão feliz.

Quando foram dormir, ele perguntou se podia deitar junto com ele.  Queria estar próximo dele, foi a primeira vez que se sentiu totalmente feliz fazendo sexo.  Até então estava preocupado em satisfazer a pessoa, desta vez fazia isso, mas se sentia satisfeito ele também.

Como era a primeira vez, que ficava beijando, fazendo carinho em outro homem.

As férias foram formidáveis, mesmo com outras pessoas ocupando as cabanas, a deles estava mais afastada.   Passavam o dia trabalhando, tinha comprado material, lápis de cor, lápis aquarela, bem como uns especiais que ele não sabia bem para que serviam.

Tinha ido sozinho várias vezes ao porto, desenhando velhos pescadores, que estavam ali, abstraídos,  esperando que algum peixe desavisado mordesse sua isca.  Jean não se preocupava, pois, quando ele chegava, se sentava na mesa, escolhi um papel maior, se colocava mãos a obra, só voltava a realidade, quando Jean lhe chamava para comer.  Depois do almoço, os dois se deitavam para fazer uma siesta, bem a moda espanhola.  Despertavam para um sessão de sexo.  Não se cansavam um do outro, agora até dormia junto, ele que não suportava isso, era ele quem abraçava o Jean.

Antes de voltarem, Jean muito sério, lhe perguntou o que sentia por ele, pois estavam entrando em um terreno perigoso.   Estamos nos apegando um ao outro.

Lhe disse, honestamente Jean, não sei o que é amor, mas o que sinto por ti, é enorme, nunca quis ninguém com quem fiz sexo.                Mas agora, não só faço coisas que não fazia antes, por exemplo beijar, como me sinto completo estando contigo.     Me abriste um mundo novo, isso eu quero compartilhar contigo, não me vejo me afastando de ti.   A não ser que queiras.

Esta noite foi especial, não fizeram sexo, mas sim ficaram abraçados um ao outro, conversando, beijando-se, rindo de algum comentário.   Dormiram sorrindo.

Voltar a realidade ia ser difícil, na volta vieram conversando, que projeto ele queria desenvolver. 

Jean lhe aconselhou escolher as matérias que queria fazer, aconselho inclusive fazeres coisas do primeiro período que não fizeste.

Quais, por exemplo?

Modelagem em barro, te dará uma ideia em três dimensões, como se diz agora, mas creio mesmo que te orientará a respeito de dimensões.   Por exemplo um crânio, que dimensão tem, para quando desenhares no papel, saber exatamente o que fazes.   Outra forma de criação seria esculturas em metal, no primeiro ano, se faz pequenos trabalhos de composição.  Creio que para ti seria bom.

Um dia no corredor, viu o reitor conversando com um homem que conhecia através do François, ele tinha feito um comentário, a respeito de sua beleza, que não gostou ao outro.

Quando ele passou, o reitor lhe chamou, ia apresentar, mas ele se antecipou, já nos conhecemos, o outro ficou sem graça, mas ele resolveu que tinha que ser franco sempre, senhor, eu fui prostituto de um amigo do senhor.

Esse menino prima pela franqueza.

O outro respondeu, pelo menos, quando for famoso, não terá que esconder tua vida anterior embaixo do tapete como fazem todos.

O reitor, retomou a conversa, este é um dos alunos promessas que te falei, perguntou se tinha sua pasta de desenhos ali na escola.

Sim os que fiz nas férias, que agora espero desenvolver.

Pode nos mostrar?

Claro que sim, senhor.

Os levou até a sala, Jean se aproximou, pois conhecia o homem, olá Marc, como vão as coisas na galeria.

Tudo bem, tens coisas novas que eu possa ver?

Já marcaremos uma data, ainda estou em processo de trabalho.

O próprio reitor foi passando os desenhos, com uma cara surpreendente.         O tal Marc, sorria, vejo que tens talento.

Alguns só desenhos que fiz no local, eles pescando, eu desenhando.   Um grupo em particular, chamava a atenção, um homem muito velho olhando para frente, primeiro da lateral direita, depois da esquerda, depois nas duas diagonais, a última de frente.

Como conseguiste que ele virasse a cara para ti?

Ele não virou, eu fiquei imaginando  a partir dos dois perfis, pois se observa, um lado é um pouco diferente do outro, pois tem uma cicatriz pequena no perfil esquerdo, juntei os dois na minha cabeça o fiz olhando como estava para o horizonte.  Ele não olhava a água, para ver se um peixe mordia, olhava o horizonte, como que esperando algo ou alguém.

Se quiseres eu compro o jogo de desenho, poderia montar uma sequência, expor na galeria?

Ele olhou o Jean, como que consultando.  Já o conhecia bem, sua cara imutável, dizia que não.

Eu não terminei o trabalho, pode ser mais a frente, no momento sou um mero aprendiz, tenho muita coisa por aprender.  Muito obrigado pelo oferecimento.

O sem vergonha além de tudo é educado.  Mas reconheço que fazes bem, há que ir com pés de chumbo na primeira fase, pois o sucesso pode subir a cabeça,  teremos o famoso sucesso dos cinco minutos, pois a pessoa não é capaz de enfrentar ou descobrir novos caminhos.  Tirou um cartão, podes te informar a meu respeito com o Jean, sempre expões na minha galeria.

Alias Jean, no momento não tenho nenhuma escultura tua a venda, sempre aparece alguém querendo algo.   Não terás nada antigo para me oferecer, ou pelo menos me emprestar para  a galeria.

Já te chamo, marcamos de um dia ires ao studio.

Zazou se aproximou do sujeito, espero que não comentes nada disso com o François.

Descuida, ele está desaparecido, tem a polícia atrás dele, negócios mal explicado, fizeste bem em desaparecer.  Ele procurou entre todos amigos, quem tinha roubado seu escravo.  Não se preocupe, seja sempre sincero contigo mesmo, mas o que disse do teu trabalho continua valendo.

Era bom saber que tinha talento, isso lhe dava um respiro, mas quanto a historia do François, ele não queria se meter.

Na volta a casa, pararam para comer alguma coisa, viu que Jean estava quieto.  Em que estas pensando?

Primeiro gostei de como abordaste o contato, realmente o primeiro cuidado em se expor teus trabalhos, tens talento, isso te disse desde o primeiro dia.  Eu por mais que avise os alunos, não escutam, o que ele disse esta certo, fazem a primeira exposição, se sentem o máximo, depois entram numa roda vida de merdas, acabam nem sabendo como seguir.   Isso me preocupa, embora te veja com a cabeça bem posta em cima dos ombros.

Realmente, pense, eu passei fome, miséria, dormi na rua, fui abusado, me prostitui, se tenho que ir em frente, tenho que ir devagar, pois é um mundo totalmente diferente para mim, eu conheci esse homem como amigo do François, numa reunião em que todos me pareciam pessoas superficiais.     No fundo, escutei todos falarem, o assunto era sempre o mesmo, sexo, como fosse a coisa mais importante do mundo.             Quase dormi de aborrecido que estava, o François se vangloriando do escravo loiro que trazia.  Este mesmo me disse, aos olhos de todos era o que aparentavam.  Disse que este desapareceu, assuntos de dinheiro.

Agora, só para que eu tenha uma ideia, quanto achas que esse homem me ofereceria pelos desenhos?

Bom como es iniciante, ele iria te oferecer um valor irrisório, pois eres  um desconhecido, mas depois venderia por um valor alto.  Pelo tamanho, creio que poderia chegar a valer todos juntos quase 800 mil euros.

Caralho, o que iria fazer com esse dinheiro?

Grande incógnita.

Quando iam chegando no studio, um senhor os esperava perto da porta.  Jean o apresentou como filho de um vizinho.

O homem foi direto ao assunto, Jean, conheces a casa,  meu pai já faleceu a meses, não posso ficar vivendo nessa casa imensa. O que me preocupa, é a capela.   A imobiliária, diz que tenho que tentar vender a parte, que talvez o bispado, queira, mas me vão oferecer uma quantia irrisória.   Lembra-se naquela época queria para fazer teu studio de esculturas, porque quando são grandes dizes que pesam para ser um terceiro andar.         Venha dar olhada mais uma vez.

Entraram na casa, imagina, eu atualmente tudo que uso, é uma sala, uma que transformei em quarto aqui embaixo, a cozinha, é um banheiro.   Isso qualquer apartamento pode me oferecer. Mas são mais dois andares cheios de quartos, biblioteca, um pátio central,  Nem sei quanto vale na realidade, vamos, atravessaram a lateral da casa, aonde se via muita poeira, quando chamo alguém para limpar, me pedem um absurdo.    Abriu duas portas imensas, estavam numa capela que era altíssima, nem sei precisar quantos anos tem tudo isso.   Não existia nem uma peça no altar,  ele foi dizendo que seu pai tinha vendido tudo, para pagar as dividas de imposto, tudo que havia por ali, além de poeira, era um busto romano que estava no meio do grande salão, meu pai diz que achou isso, quando fizeram uma reforma no porão, a mil anos atrás.

Apesar de faltar metade da cabeça, era impressionante, faltavam as pernas a partir dos joelhos, bem como uma parte da cabeça, só ia até o queijo.

Quanto queres pelo lugar,  Jean sabia que havia uma escritura em separado do imóvel.

O homem disse que precisava pagar os impostos de três anos atrasados, disse um absurdo, mas se pago dois anos, poderei vender a casa.   

Vou ver como posso fazer. Te dou uma resposta no final do dia, tenho que pensar.

Zazou estava louco pela pedaço de estatua, passava a mão sem se importar se estava suja ou não.  Quanto custa essa pedaço de estatua?

Sei lá, me pagas quanto puderes, tenho que juntar dinheiro.  Se não consigo vender essa casa, terei que ir viver num asilo, pois o governo tomara como sua.

Quando subiram os dois em silencio.  Tudo que perguntou ao Jean, se ele tinha dinheiro para comprar?  O local, é impressionante.

Mas custara pagar o imposto do mesmo.  Imagina isso em plena Paris, quem não ia querer, mas eu me apaixonei pelo local a muitos anos, inclusive tem uma saída pela outra rua.  Na época o pai dele, viu que eu ficava louco pelo local, pediu um absurdo.  Achava que eu era famoso, que tinha dinheiro.   Tenho tudo aplicado, além da herança do Henry, o meu protetor.  Mas sabe aquela história, ficas pensando, não tenho filhos, para que quero isso.   Na verdade, seria bom para poder fazer esculturas grandes, pois quando tenho que fazer, tenho que alugar algum armazém por meses, custam uma fortuna.    Mas a verdade é que poderia trabalhar realmente aqui sem me mover muito.  Estou pensando no trabalho que quero fazer,  nem tenho como subir uma pedra para o andar de cima. Venho quebrando a cabeça  de como fazer.

O que achas?

Zazou riu, tudo que posso pensar nesse momento, seria aceitar a oferta que me faça o homem da galeria, comprar esse pedaço de escultura, fazer um trabalho com ele, minha cabeça não para de dar voltas, mas é o mesmo problema, como subir isso.

Deixamos as coisas em casa, vamos ao banco, falar com o diretor. Ver o que ele sugere.

Saíram quase imediatamente.  Ele nunca tinha tido dinheiro em banco, ficou imaginando se o dinheiro que tinha roubado, não estaria melhor ali aplicado.

O senhor que atendia a conta do Jean, escutou o que ele tinha falado, é um valor alto, mas pense, tens o teu só em aplicação, creio que vale a pena, mas se assegure realmente que existe essa escritura, separada do local, pois senão a Cúria, pode reclamar.   Leve o documento a um advogado, ou melhor podes trazer aqui, nosso advogado pode dar uma olhada.

Dali, mesmo ele telefonou ao homem, que meia hora depois estava ali com a escritura.  Os últimos recibos de imposto do local, já pagos, faltavam pagar desse local, dois anos. Mostrou os recibos, não tenho dinheiro, além de que, pago um imposto mais caro, porque não tem uso nenhum.

O advogado lia atentamente tudo, consultou alguém por telefone.  Ao final disse que tudo estava bem, que ninguém, nem a Cúria podia reclamar, visto nunca ter funcionado com igreja.         Sim como capela particular.

Te dou o dinheiro, com uma condição, vou fechar a ligação da casa para a capela, mandamos fazer um acabamento, para borrar a existência da porta.  Outra, a escultura fica para o meu amigo.

Concordo, contudo, tenho dois dias para pagar os impostos.  O gerente do banco muito experto, lhe perguntou porque não trazia toda a documentação, eles olhariam, fariam um pedido de parcelamento dessa dívida, ele aplicaria o dinheiro, iria pagando aos poucos até liquidar tudo, nesse meio tempo pode ser que vendas, mesmo assim, temos clientes em carteira que vivem investindo em casas assim.

Ali mesmo prepararam o documento,  passaram duas semanas limpando o local, depois Jean, começou a descer todos os equipamentos que estavam no terceiro andar.   O local podia ser separado outra vez do seu apartamento, colocado a venda.  Se apanhariam com a capela que era muito maior.

Acabou tendo que contratar uma empresa que pudesse fazer isso, pois eram coisas pesadas, ele resolveu doar uma parte do material que estava lá, do Henry, para a escola de Belas Artes, vender, ter dinheiro em caixa.

Pelo menos disse, essas obras dele, que não viram a luz, poderão ajudar a Escola sempre precisa de dinheiro.

Ele agora tinha um canto seu para trabalhar,  depois de umas quantas aulas de trabalhar com o barro, colocou na parede, os desenhos do homem velho do cais, começou a trabalhar, como tinha visto o Jean fazer.     O faria até a cintura, para saber como trabalhar.  Se isolou em seu mundo, contava depois para o Jean, que chegava a sentir o sol, do dia que desenhava.

Jean de longe, só olhava, não queria interferir.  Quando o viu cometer o primeiro erro, ia avançar, mas viu que ele rapidamente tinha percebido, feito a correção.   A se meus alunos fossem como ele, teria, imensos artistas novos na praça.   Sabia que a maioria, principalmente os que vinham de fora, retornariam as suas cidades, acabariam dando aulas, nas escolas locais.

Enfrentar as dificuldades, nunca perguntava ao Zazou, como ele tinha dinheiro.  Se surpreendeu no dia que ele pagou um almoço com um cartão do banco.  

Não lhe tinha dito, que voltou ao banco, depositou todo dinheiro que tinha na mochila, imediatamente colocou mais da metade para render, bem como gastava pouco dinheiro.  Comprou sim dois macacões de trabalho, um para o Studio, outro para a escola.

As vezes nem queria subir para comer.  Agora tinham o hábito de comer num pequeno restaurante familiar ali perto, dizia que assim não perderia tempo em fazer comida.  Seu negócio era trabalhar.   Quando a cabeça ficou pronta, foi que Jean chegou perto para ver, era impressionante o que ele tinha feito, era como ver uma pessoa real, inclusive as roupas do meio busto estava ali, embora fossem na mesma cor.

Venha, vamos colocar para cozer,  colocou o forno para esquentar, como ele tinha peças também para cozer, faria tudo de uma vez só, também estavam testando, pois tinha vindo um homem especialmente para fazer a instalação.

Aproveitou lhe entregou dois livros sobre cerâmica policromada, ele leu tudo, ou melhor devorou, ao lado como o Jean tinha lhe falado, escrevia o que não sabia para procurar depois, este lhe mostrou uma estante, que tinha pertencido ao Henry, com pigmentos, colas, etc.  Lhe ensinou a preparar tudo.    Imediatamente preparou uma outra cabeça, agora mais rápido que a anterior, pois já tinha aprendido dos erros no anterior.  Era mais atrevida, como se a cabeça se projetasse, querendo alcançar o horizonte,  uma estava mais ao estilo clássico, a outra mais moderna.   Experimentou o processo.  Agora aguardaria o dia que pudesse colocar no forno.

Durante uns dias, disse que iria ao Museu D’Orsay, olhar o quadro que Jean estava trabalhando, tinha uma ideia de que queria fazer.

A primeira vez Jean, foi com ele, o apresentou para ter entrada livre, como aluno da Escola de Belas Artes.  Mostrou o personagem que lhe interessava, primeiro estudaria o personagem, depois criaria em cima, a partir de agora não olharia o trabalho do Jean.

Passou pelo menos três dias ali desenhando,  quando finalmente formou uma ideia da figura, foi até ao Magasin Sennelier, ficou olhando os papeis, descobriu o papel sépia, pediu para ver as gramaturas, encomendou um rolo de dois metros de largo,  pagou com seu cartão de credito, comprou pigmento de  sanguina, lápis dos tonos de sépia, sanguina, brancos.  Caixas de cada um.

Jean lhe chamou a atenção que poderia usar o material dele. 

Já vai sendo hora que eu me responsabilize pelas coisas que quero fazer, daqui a pouco vão dizer que sou tua puta.   Pediu perdão não queria ofender.  Já vivo grátis na tua casa, uso teu studio, não quero mal entendidos.  Ao mesmo tempo o abraçou, quero que me cuides sim, mas que me respeites também, se não me dou respeito como vai ser.

Começou depois de colocar o papel na parede, desenhando ou melhor ampliando o que tinha imaginado, o primeiro o peregrino em seu camelo, esse era só para ter uma ideia, pois imaginou o mesmo sem, como um personagem na lateral, mas com uma vestimenta um pouco mais rica, caminhando com um bastão,  depois de joelhos, em cima de um tapete, jogado sobre a areia, rezando a Alá, primeiro sentado sobre os pés dobrado, depois debruçado sobre o tapete, novamente em pé.

Se informou com o Jean, aonde poderia encontrar árabes que pudessem posar para ele, foram ao restaurante da Mesquita.  Ficou horas olhando as pessoas, esperou que Jean falasse um senhor, este os levou a parte,   Ele lhe explicou a ideia que tinha.  Não se tratava de uma critica a religião, mas mostrar o fervor de um crente indo a Meca.

O levou a um salão, chamou vários homens que estavam ali rezando, até que ele encontrou a figura como queria.   Perguntou ao homem, depois de explicar, se poderia posar para ele no Studio.   Lhe pagariam.

O homem olhou desconfiado, mas como o outro conhecia o Jean, concordou.   Iria depois do rezo com eles.

Estaremos comendo no restaurante, acabe o rezo, coma conosco.

O Imã veio conversar com eles, Jean comentou do quadro, disse que na verdade queria fazer uma escultura grande, de peregrinos indo a Meca rezar.  Soltou para o Imã, não esqueça que meu pai era Argelino, mulçumano.   Assim descobria mais alguma coisa do passado do Jean.

Então, basta você me dizer, que consigo pessoas para posarem para ti.  Jean perguntou se conhecia o quadro, lhe disse que não, os convidou para irem ao museu para ver.  Acharam maravilhoso.

O homem que Zazou tinha escolhido, era dócil, fácil de fazer o que ele queria.  Lhe disse, quando cansares, me diga.    Trabalhou bastante rápido.  Lhe pediu se podia voltar dentro de dois dias, para que pudesse incluir detalhes.  Pagou o homem que foi embora todo feliz.

Quando voltou, se viu retratado na parede, ficou emocionado, não sabia que era para isso.

Os detalhes que ele queria, era, pediu que ele pusesse as mãos viradas para dentro sobre sua cara, queria esses detalhes, o que se via num preciso momento.  Desenhou de frente, direita, esquerda.   O mesmo fez com ele ajoelhado no chão, se deitou ao lado para desenhar como ficava o rosto.  Mais uma vez desenhou o rosto.  A cara do homem era magra, quase faminta, barba irregular, olhos fundos.   Quando acabou lhe perguntou em que trabalhava.  Este respondeu que tinha perdido toda a família na travessia para a Europa, que não tinha emprego certo, na Líbia, era professor de literatura.   Ficaram amigos, logo Jean, mostrou o desenho que tinha feito do Zazou, representando a chegada, um pouco de esperança, um troço de perdida, de dor.

Mahamud, chorava ao olhar o desenho.  Senti tudo isso de um vez só.  As vezes vinha consertar alguma coisa, começaram a falar de literatura árabe, lhes indicava escritores, interessantes.

Desta vez, Zazou queria fazer diferente, sonhou uma noite com Mahamud, lhe dizendo que devia fazer o trabalho da frente para trás.  Na hora ele não entendeu, mas depois de passar um dia inteiro quase imóvel, pensando, repensando nisso.  Entendeu. Mas antes foi procurar por ele, o Imã disse que tinha sido deportado, por não ter emprego.  A sensação de que ele tinha morrido era dolorosa.

Começou com uma figura em pé de ombros caídos,  pois assim devia ser la desesperança de chegar ao final de uma viagem, fazer uma pergunta para si mesmo, será que valeu a pena, depois a figura com o rosto quase colado ao tapete, depois ajoelhada com as mãos cobrindo o rosto, de novo em pé no começo da viagem com o cajado.

As figuras altas tinham um metro de altura.  Foi trabalhando, cada dia, não ia a aula, mal se levantava, tomava um banho, comia alguma coisa, descia para trabalhar,  Jean estava preocupado,  um dia como quem não quer nada, levou o reitor para o ver trabalhando, levou um bom tempo para perceber a presença deles.   Estava fazendo os detalhes do rosto do homem ajoelhado, tinham levado um tempo para perceber que estava deitado em cima da mesa fazendo isso. Tinha feito a magreza do Mahamud, como se o tecido que cobria seu corpo, mostrasse todos seus ossos, quando estava de bruços em cima do tapete, se via cada troço de sua coluna vertebral. 

Jean ia chama-lo, mas o reitor, tudo que fez foi um sinal de silencio, puxou uma cadeira, ficou ali mais de uma hora.           Quando os percebeu, o reitor disse que estava preocupado que ele não fosse a aula, por isso tinha vindo até ali.

Estava mais magro, a barba crescida, os cabelos cheios de troços de argila.

Venham  vamos comer todos, pago eu.

Ele olhou o prato de comida, começou a chorar.  Jean o conhecia bastante para saber que estava pensando em Mahamud, quando lhes contou como tinham passado fome.

O contato o tornou mais sereno.   Jean contou a história do Mahamud, não conseguiam descobrir aonde tinha ido parar, nem se estava vivo ou morto.

Quando o trabalho ficou pronto, ele relaxou, foi olhar o que tinha feito o Jean, era impressionante.  Eram diferente em dois detalhes, o do Jean, tinha mais personagens, se referia ao quadro, mas transferido para os dias de hoje quando chegavam os emigrantes.      O Dele era como uma volta.  Chamaram o Marc da galeria, embora faltasse coser as duas esculturas, a sua ele estava preparando alguns já estava policromados.    Nesse meio tempo tinha feito também um busto do Mahamud, era impressionante dos detalhes de sua cara magra, olhos fundos, olheiras a pele como se estivesse manchada de negro, por trabalho, ou mesmo pela travessia.

Ofereceu para eles fazerem a exposição em conjunto, cada um usa uma sala.  Os desenhos podem estar na parede.  O que acham?   Queria também que Zazou assinasse um contrato de exclusividade com ele.  Sem mesmo perguntar ao Jean como funcionava, só de pensar nisso, lhe lembrou seu passado.      Eu só sou exclusivo de uma pessoa, apontou ao Jean, de mais ninguém, me faria sentir prisioneiro.

Jean depois lhe disse que sorte por não cometer o erro de todos os novatos em exposição, isso tentavam todos os donos de galeria, queriam exclusividade,  Ficas preso, para sempre.  Eu caí nessa, pois assinei sem o Henry ver. Depois demorei muito tempo para me ver livre.

Depois das peças cozidas, tinha alguns retoques para fazer. Ele deixaria na galeria, para vender, mas o busto do Mahamud doaria a mesquita.

Quando tudo ficou pronto, vieram especialistas para transportar as duas obras para a galeria.  Ele tinha desenhado uma mesa bruta de madeira, aonde ficaria a sua, a do Jean, ficaria em cima de um estrado.

Quando viu seus desenhos cobrindo toda a parede da sala que lhe tocava, ficou emocionado, para quem saiu da merda não está mal.

Quando vieram entrevistar os dois, lhe perguntaram como um brasileiro, vinha para Paris, virava um sucesso na arte.  Vou responder, como me senti a primeira vez que vi Paris do alto, o avião que eu vinha, fez uma curva sobre a cidade, olhei pela janela, pensei, nessa cidade vou me realizar, ser alguém.     Sempre me senti uma pessoa, embora tenha lutado de maneiras as vezes não muito perfeitas para seguir a diante, não me envergonho do meu passado, mas descobrir que posso criar, que tenho senso de observação, para mim é importante.

Um dos jornalista perguntou como tinha vindo para a França, é uma longa história que nada tem a ver com meu trabalho.  Um dia quiça te conte.

Jean comentou depois, que ele tinha se saído bem com os jornalistas, eu ao contrário fico nervoso, quando perguntaram da ideia dos dois, não sabia o que dizer.  Um jornalista que estava perto, comentou, não respondeste à pergunta.  ^

Zazou, podes responder por ele?

Sim, no dia que nos conhecemos, eu entrava pela primeira vez na minha vida num museu, era um ignorante em termos de arte.   Me deslumbrei com uma série de esculturas, hoje sei os  nomes dos escultores, pois os estudei.   Estava parado deslumbrado com a Porta do Inferno de Auguste Rodin, quando ele me fez uma pergunta, começamos a conversar, ele foi me mostrar o quadro que tinha vindo ver, uma das figuras ficou na minha cabeça.   Não comecei por essa figura.   Quando precisei de um rosto para colocar na figura que queria usar, conheci um emigrante Sírio, que depois sem sabermos foi expulso do pais.  Mahamud, um homem que perdeu tudo, a mulher, o filho, a vida talvez, mas não perdeu a fé em seu Deus.  Esse trabalho dedico a ele.

Esses teus desenhos são fantásticos, alguns colegas teus da Escola de Belas Artes, dizem que quando estas trabalhando, parece que estas possuído, como é essa história?

Na verdade, isso de possuído é um pouco exagerado, eu diria mais concentrado, estou totalmente atento ao que estou fazendo, não escuto nada em volta, gosto do silencio, quero saber quem é a pessoa que estou criando com meus desenhos.  Numa sala menor estava os desenhos do velho pescador.  O jornalista, foi com ele até lá o fotografou junto com os desenhos.

No dia seguinte, saia uma reportagem sobre os dois, numa outra página, uma reportagem com ele.   O cabeçalho do texto era, “le nouvelle enfant terrible” de Paris.

Ele leu, realmente o reporte, tinha escrito exatamente o que ele tinha falado.  No final dizia que um dia desses daria uma entrevista falando dele.

Mas ele já estava fazendo outra coisa, na sua cabeça, tinha ficado uma imagem, não queria perder a oportunidade de explorar.   Queria fazer uma serie de homens posando como o pensador de Rodin.    Alguns ele imaginou.  Mas posaram para ele o reitor da Escola, Jean, um rabino, um Imã da mesquita de Paris, fez também o velho pescador.   A ideia era por exemplo o Jean, como era pintor, escultor, na mão livre tinha essas ferramentas, vestia a roupa que usava para pintar, o rabino, o seu chapéu tradicional, roupa preta, bem como um livro na mão,  não conseguiu que nenhum padre da igreja católica concordasse em posar, não teve dúvida foi a uma igreja, viu um tumulo, de um bispo, captou a imagem de sua vestimenta,  criou uma ideia, pediu a um companheiro de classe para posar para ele.   Depois um grupo de jovens sentados em círculo, cada um de um jeito, branco, negro, asiático.

Primeiro fez grandes desenhos, depois começou com um, logo foi criando todos os outros, os detalhes das roupas, tudo, foi observado a exaustão.  Estava no meio do trabalho, quando soube que sua escultura tinha sido vendida, bem como os desenhos.  Tudo tinha sido o mesmo comprador.  Também quiseram comprar o pescador, mas resolveu que como era seu primeiro trabalho real,  o guardaria.

Quando Marc viu os desenhos, e as duas primeiras esculturas do pensador, ficou louco.  Disse que faria qualquer coisa para ter tudo na galeria. 

Calma ainda estou no começo, quando termine, te aviso.

Este inventava qualquer desculpa para aparecer todas as semanas no studio.  Ele disse que estava bem, faria a apresentação na galeria, mas que desta vez só lhe daria 5% de comissão, viu que ele murchava, pois tinha ganho muito dinheiro com a outra, bem como os quadros.

Jean no momento, estava tentando desenvolver um trabalho com seus alunos, estava irritado pois não funcionava direito.

Quando comentou com ele, que não entendia por que não se motivavam.   A resposta foi uma que não esperava.

Esperas que eles amém como eu, os antigos pintores, escultores, coisas assim.   Olhe a idade deles, são muito jovens.  Tudo o que sonham é fazer um grafite bem feito.   Porque não andamos pelas ruas, buscamos os grafites, ou instalações, arrumas um lugar, consegues uma licença da prefeitura, os motiva para que cada um crie um trabalho.

Passaram 15 dias rastreando, os grafites pelo centro de Paris, pediram para quem soubesse de um interessante avisasse.   Depois fizeram uma programação, final de semana diferente, o próprio papel, era um grafite, com um mapa, a turma ficou imensa.  Depois de verem basicamente todos, os levou a uma praça, que estava rodeada das traseiras de uns edifícios de armazém, disse que 10 alunos, os que apresentassem o melhor projeto, iriam ter um troço inteiramente para ele. Todos estavam atentos, os desenhos foram super interessantes.

O ano que vem, que já estejam mais maduros, visite com eles o museu Picasso, ou monte um vídeo sobre o trabalho dele, desde seu começo, passando pelas várias fases.   O mais interessante, use a própria ideia dele, de ter como base um trabalho de outro artista, no caso Velásquez, lenda do Minotauro, ou as máscaras africanas, de onde ele tirou a ideia de Mademoiselle de Avignon, a base do cubismo.

A cara do Jean, era divertida, aonde aprendeste tudo isso?  

Da minha vontade de aprender, fui lendo todos esses livros que tens em casa, as vezes quando desapareço, vou a um museu olhar os trabalhos.  Me escapo de ti, pois acabamos parados na frente de um quadro, analisando o mesmo até a morte. Gosto disso, mas gosto também de descobrir coisas.

Queria fazer mais duas esculturas para o pensador, da conversa que tinha tido com o Jean, resolveu fazer as que faltavam, uma era Picasso, com sua camiseta de listras, mas sem calças, a outra era uma figura do quadro Mademoiselle, lhe deu vida.

Marc, estava alucinado.  Falou com o jornalista, que agora estava justamente numa revista que tinha tudo para dar certo, ao mesmo tempo que escrevia em duas revistas de arte.

Fez a entrevista, dele, sentado nu, com as esculturas, ele era mais uma delas.

Uma das primeiras perguntas, foi se realmente ele tinha sido um prostituto antes de ser artista.

Riu, sabia que um dia alguém ia me fazer essa pergunta.  Para entenderes isto, te conto uma parte de minha vida, que poucas pessoas conhecem.  Não tenho vergonha nenhuma do meu passado.  Contou tudo.  A cara do outro era impressionante.

Vou reduzir tudo isso, te mando a entrevista antes de publicar, para que concordes  com a publicação.  

Ele quando viu, não aprovou.  Marcou um café com o repórter, você romanceou a verdade, virei uma fantasia tua na entrevista, queres me transformar numa coisa que não sou. Te processo que publicas isso, ou contas a verdade, ou dou uma entrevista para um jornal, falando que mentiste ao público.

Ele publicou a verdade.  Alguns críticos disseram que o trabalho estava agora mais relaxado, ele respondeu, que não, que prestasse atenção, era uma homenagem dele, ao primeiro artista que tinha admirado.  Auguste  Rodin.  Quem seria hoje em dia seu modelo para essa grande obra.

Na verdade, todas foram vendidas, só a do círculo que foi vendida todas juntas.

Jean, conversou duas vezes com ele, sobre seu problema com a entrevista.

Não quero Jean, que as pessoas pense outra coisa de mim, que não seja a verdade.   O mesmo como agora posso dizer que te amo, porque entendi finalmente o que é amor.  Depois de fazer sexo com tanta gente, encontrei em ti, a pessoa que quero estar sempre junto, pois me deste um mundo inteiro, seguro, honesto. 

Foram passar todo o verão em Cassis, estava quieto, não sabia o que iria surgir na sua cabeça.  Um dia teve um pesadelo, estava ali na Candelária, cercado dos garotos que como ele estavam perdidos.  Despertou o Jean, disse, amanhã vamos para o Rio de Janeiro.

Jean, só tinha 15 dias de férias, mas foi mesmo assim. Mal chegou foi procurar pelo Jeronimo, mas recebeu uma triste notícia, tinha morrido, num confronto com um traficante de drogas, que queria usar seus garotos para distribuir.  O único a quem ele poderia pedir ajuda, seria ao policial, que lhe tinha ajudado no passado.   Este sorriu quando o viu.  Caramba, estás estupendo, falou baixinho, espero que esse caralho também.  

Me desculpe te procurar, mas estou fora disso já a muito tempo, se quiser podemos tomar um café, para conversar.  Mostrou seu trabalho para o outro, como vê, sem querer você me ajudou sair da prostituição, lá encontrei meu caminho.   Preciso da tua ajuda, queria desenhar os meninos de rua, mas com a cara que tenho agora, sempre me tomaram por turista, desde que cheguei não paro de ser assediado por todo tipo de gente.   Meu acompanhante, não fala português, esse então não tem respiro.   Queria pedir ajuda, preciso de uma pessoa que o leve para conhecer a cidade, eu ao contrário preciso de uma pessoa que me acompanhe de noite pelos lugares que quero reproduzir.

Como assim?

Tirou um bloco da mochila, um lápis, começou a desenha-lo, o fez nos mínimos detalhas muito rápido, agora com a prática, podia fazer isso em segundos.

Caramba foi tudo o que o outro disse.  Eu mesmo  te acompanho pelas noites, me diga que hotel estás, que vou te recolher.  Quanto ao teu amigo, lhe deu um cartão, meu irmão tem uma empresa que faz passeios turísticos pelo Rio de Janeiro.  Ele poderá levar vocês.

Jean estava deslumbrado com a beleza da cidade, não era capaz de como quase todos turistas, ver a miséria que rodeava essa coisa tão bonita, um cartão postal do Brasil.

Lhe disse que iria acontecer, de noite sairei com um policial, explicou que tinha sido ele que tinha conseguido seus documentos, contou ainda que para conseguir isso, tinha feito sexo com ele.  Mal me viu se insinuou, embora eu tenha cortado.  Queres ver a miséria?

Eu trouxe material para trabalhar,  já no mesmo dia de noite preparou tudo para ir juntos.  Quando chegou o policial, lhe disse ao ouvido, ele sabe tudo sobre mim, inclusive que fiz sexo contigo para conseguir os documentos, por isso eu te pago, mas não te insinues, pois amo esse homem, devo muito a ele.

Ramos, como se chamava o policial, soltou, estou contente em saber que uma pessoa que ajudei pode seguir em frente, a maioria volta com AIDS, ou se gabando de ter conquistado todos os pirus europeus, mas não tem nada na cabeça, não podem ir em frente.

Te ajudarei, não sou tão filho da puta como podem pensar os demais.  Você guardou nosso segredo isso eu sei, porque depois perguntei para o Jeronimo.   Uma pena o que aconteceu com ele, porque protegia a sua maneira seus meninos.  Hoje todos acabam no vicio.

Lhe explicou o que queria, contou mais ou menos sua vida.   Ele os levou para um lugar aonde estavam os meninos se banhando numa fonte, roupas sujas, eles mesmos entravam na agua, para tentar tirar a sujeira que tinham.   Diga a eles que lhes darei comida, um pouco de dinheiro, tinha conseguido no hotel, trocar dinheiro miúdo.  Sabia que se desse muito, seria um inferno.

Jean, preparou a câmera para fazer fotos com má iluminação, assim seria uma garantia.  Os meninos ficaram felizes.  Ele começou a desenhar cada um,  como estavam, os detalhes estariam em sua mente, bem como nas fotografias.  Ficaram até de madrugada ali, Ramos só se afastou, para ir até a Praça XV, no Angu do Gomes, trazendo quentinhas para os garotos. Comeram como loucos.  Tinha um garoto que ele se viu refletido, lhe perguntou a quantos dias estava nas ruas.  Era muito pequeno junto aos outros.  

Olhou com uns olhos tristes, minha mãe morreu de parto do ultimo a nascer, meu pai foi distribuindo os maiores, aonde pudessem trabalhar, a mim, não sei porque, disse que eu não era seu filho, parou o carro me botou para fora.

Como é teu nome, meu filho?

Asdrúbal, mas só sei isso. 

Ramos ficou olhando para ele, como se estivesse entendendo o que se passava.   

Ramos, vais pensar que sou louco, mas estávamos de férias, sonhei com esse garoto, por isso vim até aqui.  Será que consegues fazer o que fizeste por mim.   Posso te pagar.

Não me pagues somente para te acompanhar. Levamos o garoto, essa noite o levo para dormir na minha casa, minha mulher adora crianças.  Amanhã cedo, trocas de hotel, eu te levo o garoto já de banho tomado, com certeza minha mulher tem roupa de criança que sirva nele.

Vi o teu olhar ao garoto, sei que não tem sacanagem no meio.  Estas te vendo nele, verdade, não se preocupe. 

Perguntou ao Asdrúbal, se queria ir viver com eles, eu não moro aqui, moro muito longe daqui, mas se quiseres, eu posso te criar.

A cara do garoto, foi ótima, eu já vi o senhor, no dia que dormi na Kombi, sonhei contigo, vinhas me buscar.  Ela diz que devo ir com o senhor. 

Quem? Asdrúbal, quem?

Ele sinalizou uma imagem que tinha no meio da fonte, era de uma mulher que parecia uma santa.  O garoto não saiu mais do lado dele, nem do Jean.

Quando foram embora, entrou no carro com eles.   Agora vais com o Ramos para a casa dele, ele vai providenciar papeis para ti, assim poderás ir comigo.

O Ramos crescia no seu conceito de pessoa.  Achou estranho ele ser casado, com família, policial, gostar de homens, mas não fez nenhum comentário.

Na noite seguinte, os levou aonde ficavam os travestis,  que se prostituiam na noite, todos quiseram posar para ele, alguns logo queriam fazer sexo com o Jean, mas este ria, dizendo que seu homem era o Zazou.

Ele conseguia ver mais além do brilho das roupas, conseguia ver uma roupa remendada, mas que de longe parecia bonita.  Ficou a noite inteira ali, via chegarem clientes, os rapazes desaparecerem, outros ocuparem seus lugares, policiais que paravam, para falar com o Ramos.

Já tinham mudado de hotel, registraram o Asdrúbal, que agora era Gamez como ele, constava como pai, viúvo.   Uma autorização para a viagem do garoto.

Como ele fazia isso, não queria saber.

Foram dias produtivos, compraram roupa para o Asdrúbal, uma maleta pequena, que ele levava com orgulho.  Ramos fez questão de os levar ao aeroporto, pois se acontecia algum problema ao embarcar, ele conhecia todo mundo.

Ao se despedir, só lamento uma coisa disse no seu ouvido, não ter pertencido mais uma vez a ti, nunca te esqueci.  Lhe deu o endereço, um número de celular, qualquer coisa, me avisa ok. Quem sabe um dia não vou visitar vocês.

Passaram todo o controle tranquilamente, agora seria como chegar a Paris, o garoto foi sentado no meio dos dois.  Olhava ao Jean, com amor, lhe perguntou como ia chamar os dois?

De pai é claro Asdrúbal, a partir de agora os dois somos teus pais.  Achavam que o garoto não tinha mais do que 5 anos, mas ele disse que não que já tinha 7 anos, agora eu iria para a escola.

O controle foi normal, ele usou seu passaporte brasileiro, que tinha renovado, quando lhe perguntaram disse, que ia a Disney com o garoto.

Agora viria o mais complicado, que ele aprendesse francês, para poder ir a escola, conseguir documentos para ele, tudo isso.   Pediu ajuda ao Marc, esse depois de ver o garoto, tomou a peito isso.

Asdrúbal estava deslumbrado com o studio, em casa por ter um quarto só para ele, mas procuravam ser normais com ele, pois queria que fosse um garoto normal.

Um dia sentado ao lado do Zazou na mesa, perguntou por que seu pai o tinha abandonado assim, sua resposta foi, para que eu te encontrasse, me tornei teu pai.   O que preferes.

A ti, é claro, lá em casa nunca tinha muita comida, depois ele chegava bêbado, metia a mão em quem não lhe obedecia.  

O levaram aos médicos, para uma bateria de exames.      Tinha desnutrição, por isso aparentava menos idade.          Ficou imaginando esse menino, nas mão de algum louco, que abusasse dele. Graças a Deus sonhei com ele.

Jean, adorava o garoto, estavam sempre ensinando palavras novas em francês, tinha conseguido uma professora,  como o semestre já tinha começado, ela achou melhor ele entrar numa escola que ele pudesse fazer adaptação, conviver com outros garotos, assim aprenderia mais facilmente.

Desta vez, ele talvez não fizesse nenhuma escultura, tinha resolvido, pintar sobre papel, todos de tamanho natural.  Com as fotografias prontas, ele começou a juntar as mesmas aos seus desenhos.  A primeira, que fez, foi da praça, os garotos lavando roupas, uma lavando o outro.

Resolveu que iria ser de um realismo total, com a fotografia para acompanhar, foi criando todo o ambiente.  Asdrúbal quando viu, disse, a lagoa da senhora. Sinalizou a imagem que estava ali.

Ia dizendo os nome dos garotos que ele sabia.   Chorou um pouco de saudade, abraçado ao Jean.    Este se apanhava, para leva-lo a escola de manhã, ir busca-lo depois.

Com a alimentação, remédios, ele começou a crescer, mas nunca seria muito alto, dizia a médica.

Descobriu indicado por um vendedor de Sennelier, um lugar aonde poderia encomendar um papel muito grosso sépia, pediu em placas de um tamanho especial, Jean tinha que ajuda-lo a colocar na parede.

Já tinha uns quinze quadros prontos, quando Marc apareceu um dia, tinha conseguido com um amigo, cliente na certa, resolver os papeis do Asdrúbal.  Ele tem um trabalho seu. Gosta muito do que fazer.  Vai ficar louco quando veja estes.   Desta vez não vais fazer nenhuma escultura?

Não, somente pinturas, posso te dizer que é uma fase de transição, ainda não sei como será a próxima, nem tenho ideia.   Mas ao ver uma foto, resolveu fazer uma escultura.  Era de uma mulher, andrajosa, cercada de crianças, pedindo dinheiro numa esquina.  Ramos inclusive tinha dito, que acreditava que essas crianças nem era filhos dela, mas não tinha como provar.  O que ele fez, foi usar sua memória, chorou muito, teve inclusive pesadelos, por buscar essas lembranças, a transformou em sua mãe, ele com seus irmãos na rua pedindo dinheiro.

Jean, por mais que ele explicasse, demorou para entender, porque lhe tocava tanto.  Mas afinal compreendeu, não tinha essa experiencia, mas entendeu.

Depois que colocou tudo para fora, elaborou a escultura de tal maneira para que ficasse no meio de uma possível exposição.

Marc, já tinha começado a preparar um catálogo, impressionante, era feito em papel sépia, pois assim ficava conforme a exposição, lutou até o último momento, para que ficasse pronto, pelo menos 10 dias antes, mandou para todos os jornalistas.  Ele só não tinha feito nenhum do Asdrúbal, pois não o queria ligar aos mesmos.

Recebeu um dia antes os jornalistas na galeria, sentado ao pé da única escultura.  Quando lhe perguntaram se tinha um nome para ela, ele explicou, que se tinha baseado numa foto que o Jean tinha feito, mas que num esforço de memoria tinha transformado na sua família.  Eu tinha muitos irmãos, ela foi procurando pessoas que pudesse adotar meus irmãos, a mim me deixou num orfanato.   Lhe perguntaram se estava a venda, ele ainda não sabia, embora tivesse feito outra menor em terracota, esmaltada.

Os preços dos quadros eram altíssimos.  No dia a inauguração, Marc lhe apresentou um homem, que escapava das referências.  Se via que era educado, culto, tinha um título, pois Marc o apresentou assim, George, soltou um nome imenso. 

Ele riu, prefiro ficar só com o George, pois amanhã não me lembrarei do resto.  Obrigado por ter me ajudado. 

Ele perguntou pelo garoto.  Respondeu que estava bem, que já tinha um raciocínio em francês,  se adaptou bem a escola.

Tens que me contar essa história?

Não seja por isso, venha um dia ao Studio, terei o maior prazer em te receber lá.

Marc depois disse que ele tinha comprado o quadro da praça, ficou apaixonado pelo mesmo. Não tens ideia quem ele é, não é verdade?

Não, sei que parece importante, mas não sei quem é.

Ele é ministro do governo atual. Vem de uma larga estirpe francesa, é o último da família que esta vivo.  Sem filhos, nunca se casou, dizem que é gay, mas nunca o vi com ninguém.

Logo depois da exposição, um dia subia tarde para a casa, o Asdrúbal, vinha descendo as escadas correndo, disse que pai Jean, estava dormido, não havia maneira de desperta-lo. Subiu como um louco, mas quando chegou a ambulância, já era tarde.  Tinha tido um infarto.

Telefonou ao Marc, não sabia com quem contar, avisou ao reitor da escola de Belas Artes, o que tinha acontecido, todos os dois correram para lá para ajudar organizar.   Marc, era o único que sabia que ele tinha um advogado, pois era este que revisava os contratos.

Quem estava inconsolável era o  Asdrúbal, nessa noite, veio chorando para seu quarto, disse que tinha feito xixi na cama, que tinha pesadelos.  Não quero te perder também.  O fez trocar de pijama, o deitou ao seu lado, ficou mais tranquilo, dormiu segurando sua mão.

Sonhou com Jean, este agradecia os últimos anos felizes de sua vida, nada podia ser mais maravilhoso.

Depois do enterro, inclusive apareceu o George, ele pensou, o Marc o avisou.

Não tive nem tempo de avisar ninguém.  Acho que ele leu nos jornais, pois não tive tempo de nada.

Depois do corpo cremado, como era seu desejo, guardou as cinzas para levar para Cassis, foram assistir a leitura do testamento, ele, Marc, o reitor da Escola de Belas artes.  Deixava os dois edifícios para o Zazou, mas todas suas obras que estava no Studio, Marc devia avaliar, colocar a venda, que o dinheiro iria para a Escola.  Tinha uma carta para ele. O advogado o alertou que os bens incluíam a casa de Cassis.   Mas talvez ele tivesse que se desprender de alguma coisa para poder pagar os impostos que isso iria gerar.

Ele ficou cismando um dia no studio, passava o dia inteiro ali.   O pé direito era altíssimo, podia montar um pequeno apartamento, na parte que ficava em cima da porta da rua.  Vender o outro apartamento, bem como a parte do sótão que estava em desuso desde que tinham o studio novo.  Conseguiu que o mesmo arquiteto, fizesse o que ele queria.  Colocou a venda o apartamento, o preço era altíssimo.  Pagou os impostos,  com dinheiro do Banco, além de que fez uma coisa, colocou uma grande soma, em nome do Asdrúbal, para que futuramente ele tivesse um coisa em que se apoiar.

Um dia recebeu uma chamada, era o George, perguntava se podia ir visita-lo, queria lhe fazer uma encomenda.

O recebeu, num horário que Asdrúbal estava em aula, descobriu logo que a encomenda, não passava de uma maneira de ir até lá.  Foi direto ao assunto, estava interessado nele como pessoa.

Ele como sempre honesto, disse que não podia, no momento ainda não conseguia depois de todos esses anos vivendo com Jean, pensar em mais ninguém.  Sinto muito, mas me é impossível.

Sentiu que o outro não gostava muito da resposta, em seu foro íntimo podia imagina, a pergunta, sabe quem eu sou?

Se quiseres me esperar, sei que es um homem importante, deves ter teu tempo super ocupado, gosto de ti, mas pensa bem, depois de tanto tempo convivendo com a pessoa que foi a mais importante de tua vida, fica difícil começar alguma coisa nova.

Agora mesmo, mal consigo pintar, creio que não vim abaixo pelo meu filho, senão estaria destroçado.

George aceitou de muito mal humor.

Marc, ficou sabendo da história, lhe disse, é um homem com uma personalidade complicada, eu se fosse tu, saia um tempo de Paris.

Ele achou boa a ideia, arrumou sua bagagem, foi com o filho para Cassis, ali passou quase um ano, sem dar as caras por Paris, as despesas iam para sua conta no Banco, tinha conseguido uma escola para o menino ali na vila, sentiu que este ficava mais relaxado lá.

Pensou muito no assunto, esse tempo todo fora, aproveitou para andar pelo sul da França, aprendeu a dirigir, comprou um carro, saia com o filho sempre que possível.  Foi se encantando de novo pelas cores, foi aproveitando todo material que tinha ali em Cassis.  Voltou a se sentar no cais, agora ia muito cedo para observar os barcos voltando da pesca.  Finalmente tomou coragem de se sentar com o velho, perguntar por que olhava sempre o horizonte.   Meu filho, eu olho para frente, antigamente saia de barco para pescar, a idade não me permite, mas o horizonte é minha casa, um dia quando morrer, gostaria de ser cremado como os vikings, que o corpo era colocado no barco da pessoa, solto no mar, com fogo que logo  queimaria tudo, terei que me contentar em ser cremado, que minhas cinzas seja jogadas no mar.

Cada vez que conversava com o velho, falavam de um assunto, ele ia desenhando o mesmo, observando seus gestos,  contou que tinha feito muitos quadros dele, o levou até a cabana que servia de studio, mostrou.                              O velho riu, pintas uma casca, terás que me conhecer profundamente para pintar meu interior.

Acho que isso é a frustração dos artistas, captar a alma das pessoas, a minha por exemplo está cheia de cicatrizes, de histórias que não terminaram bem, frustrações.

Asdrúbal chamava o velho de avô, este o adorava,  agora os três estavam sempre ali conversando, contando histórias.  Ele foi anotando as histórias, criando quadros em cima delas, como sempre usando seu material favorito, o papel.

O que não sabia, era que seu filho, escrevia as historias do velho, as vezes vinha lhe perguntar o que queria dizer certas palavras que usava o velho.  Ele explicava, até que descobriu que ele escrevia.   Incentivou que o filho escrevesse sempre, viu que ele se frustrava, por não conseguir desenhar, um dia lhe explicou, que escrever, descrever as coisas, era como desenhar com palavras.

Marc, veio passar um final de semana com eles, adorou os trabalhos, as pinturas. Tudo girava em torno ao velho.  Acabou o conhecendo pessoalmente quando um dia veio trazer peixes para seu neto.

Um dos quadros, era a história do velho quando jovem, contava que tinha caído dentro de um dos primeiros locais de criação de peixes, os mesmos nadavam em volta dele, num primeiro momento ficou  nervoso, depois dizia que era como se estivesse no céu.

Então o quadro, era como um cardume de peixes, com um homem jovem, ali no meio deles todos, nu.  O tons do peixes eram entre um cinza, vários tons de azuis, o corpo do jovem eram tons terra.

O velho adorou, assim me sentia eu com os peixes.

As histórias eram muitas, Asdrúbal estava sempre pedindo livretos novos para escrever o que ele falava.  Tinha uma memória excepcional para guardar detalhes das mesmas.

Marc acabou contando que tinha encontrado o George acompanhado de um jovem, muito parecido contigo.   Este pelo visto vivia as suas custas. 

Em breve estourou  um escândalo, George teve que sair do governo, pois estava sendo chantageado pelo rapaz, por pessoas que estavam por detrás disso tudo.

Quando soube lhe deu pena, imaginava a solidão que esse homem com tanto poder, devia sentir, ao chegar em casa no final de uma dia complicado, no fundo estar sozinho.  Nunca mais ouviu falar dele.

Um dia ao se aproximarem do velho, viram que tinha um homem com ele. O apresentou, tinha a pele curtida do mar, os olhos pequenos, de quem olha muito o mar.   Esse é meu filho, que passou agora uma larga temporada, trabalhando numa plataforma de petróleo no mar.  Agora vem para ficar comigo.

Jacques, contou que tinha se cansado dessa vida, apesar de estar sempre em cima do mar, sentia falta de muitas coisas.  Os dois tinham a mesma idade, começaram a conversar, sempre aparecia com um peixe, nos dias que a praia estava vazia, iam nadar.  De um companheirismo nasceu um amor.  Viveram juntos anos.  Foram orgulhosos a formatura do Asdrúbal na universidade de Paris.  Logo ao lançamento do seu primeiro livro, contos de um velho pescador, ilustrado pelo Zazou.   Logo se casou, tinha dois filhos, com uma linda mulher argelina, sentia lastima por Jean que tinha perdido isso, ter netos.

Jacques foi seu grande companheiro, agora já não sentia a compulsão de que tenho que acabar esse quadro hoje.  Pintava lentamente, de maneira mais complexa.

Quando Jacques morreu, foi novamente uma pancada na sua vida.  Asdrúbal veio passar uns dias com ele, com toda a família.   Dizia que tinha sempre amado chama-lo de meu filho, mas agora adorava os netos que tinha.

Agora olhando-se no espelho, depois de voltar dos exames todos que tinha feito, tinha pensado ir ao Brasil, mais talvez por inspirar-se.   Mas tudo isso mudava seus planos.  O médico lhe avisou que tinha pouco tempo de vida.   Preparou tudo, embora ao longo dos anos, tinha ido passando tudo para o Asdrúbal, a casa do Jean que nunca foi vendida, ficou para ele, afinal aquela casa grande era para uma família grande.  Vendeu sim a capela, pois raramente ia a Paris. Sua vida estava toda ali em Cassis.

Seguia se olhando no espelho, medindo o longo caminho que tinha percorrido, se lembrou outra vez com um sorriso, no dia que tinha chegado a França, o círculo que tinha feito o avião sobre a cidade, os seus olhos brilhava ao lembrar do que tinha pensado.  Realmente tinha realizado toda sua vida ali.  Breve teria que ir a Paris, para inaugurar uma grande exposição, uma retrospectiva de toda sua obra.   Marc, já mais velho que ele, orientava um sobrinho seu de como conseguir os quadros, esculturas, na mão de qual cliente estava.

O que mais gostava agora de fazer, era ir se sentar aonde sentava-se o velho, ficar olhando o horizonte.   Agora entendia o velho, se podia realmente ver muito mais além do que um simples olhar permitia.

Foi assim que o encontraram, com a cabeça apoiada nas mãos, como o “Pensador” de August Rodin, olhando o horizonte.  Seu último pensamento foi, isso faltou a Rodin, que seu pensador olhasse o horizonte, que pudesse ver o que existe realmente além dele.

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