BLACK IS BEAUTIFUL

                                        

Hoje cedo na rua do Ouvidor, quantos brancos horríveis eu vi.

Eu quero, preciso de Amor, dos negros do Congo ou daqui.

Quando lhe pediram para cantar a mesma música que era seu carro chefe, abaixou a cabeça, seus cabelos brancos imensos, caíram cobrindo totalmente sua cara.  Começou a dedilhar no piano sua música, sem querer tinha transformado em sua, uma música que muita gente antes tinha cantado.

Era o ano de 1980, Rio de Janeiro, a princípio considerou como seu ano maldito, era um domingo, voltava da praia com seu namorado, fazia um bom tipo, magro, alto 1,90 metro, cabelos imensos, queimados do sol, tinham estado falando, falando, se sentia esgotado de tanto falar.  A relação tinha ido para o caralho.  Depois de tudo que tinha feito, pensava, tinha largado tudo por esse amor, renunciado a uma carreira no teatro, começavam a lhe chamar para outros trabalhos, mas claro, pensou que amava. 

Este avisava, que ia de férias, quando voltasse, não queria mais nada dele em seu apartamento, sentia muito, mas o que pensava que era amor, tinha se acabado, queria novas experiencias.

Ficou puto da vida, nem casa, teria dentro de um mês.  Chegou, tomou um banho, tinha comprado dois ingressos para assistir o último dia do show de um cantor que amava, seu amigo de longa data, tinham começado na mesma época sua trajetória pelo Rio de Janeiro.  Nenhum dos dois era dali.

Ele tinha desistido de cantar, pois, tinha a voz de baixo, adorava os musicais, passava nos testes de dança, pois era bom nisso, mas quando abria a boca, diziam que não tinham nenhum papel para este tipo de voz.   Uma grande atriz ainda lhe disse, com todo seu tamanho, irias tapar o ator principal. Foi ele que disse que não, mas não desista, eres bom.

O jeito foi montar ele mesmo um espetáculo completamente maluco, primeiro tinha que passar na censura.  Com muito jeito, conseguiu enganar para os dias da estreia o censor, compartia palco com um amigo.  Ele tinha escrito o roteiro.  A cena mais importante, era o amigo contando a historia de como se tinha descoberto gay, vestindo a roupa da mãe, escondido.  Enquanto isso ele fazia a mesma cena de costa.                             No final do monologo, ele se virava lentamente, transformado no outro, soltava toda sua voz, num grito profundo, começava a cantar uma música composta pelos dois, o público não esperava isso, uma pessoa travestida, cantando com aquela voz de baixo, fazendo falsetes em jazz.

Fizeram uma temporada inteira, com a crítica falando dos dois.  Alguns falavam mais dele, o que ocasionou um choque entre os dois, de amigos, passaram a ser dois inimigos em cena.  Mas as pessoas diziam que o espetáculo tinha ficado melhor.  Nunca mais se falaram quando acabou a temporada.

Logo o chamaram para mais trabalhos, mas nunca nada interessante, como tinha um trabalho fixo, foi levando.     A paixão bateu em sua porta, num dia de chuva, quando saia da academia de dança.   Tinha feito uma aula de Jazz.   A professora teve que sair, como sempre lhe disse que seguisse com a aula.  Ele era bom.   Na época quando estudava, os momentos livres era para isso, aprender todos os tipos de dança, aulas de canto. 

Seu corpo era de fazer inveja, segundo diziam no banheiro depois da aula quando tomava banho, de costa para os outros, lhe dava vergonha ficar nu na frente dos outros.  Nunca conseguiu se livrar disso.

Chovia a mares nunca dantes navegados, como ele gostava de dizer, das chuvas de verão no Rio de Janeiro.  Nada que se esperasse um pouco, logo acabaria.   Saia um aluno, que já tinha falado com ele antes, tinha visto seu trabalho, as vezes ele substituía a professora que estava cheia de problemas no momento, era uma maneira de ganhar algo de dinheiro.

Lhe ofereceu uma carona. 

Vais para aonde? 

A resposta lhe deu uma surpresa, para aonde queiras, desde que acabe na cama contigo.

Acabaram realmente na cama, embora nessa época tivesse, entre aspas, relacionamento com um homem casado, se encontravam quando podiam.  Mas isso para ele era ótimo, levava sua vida.

Se deram bem em tudo, despertou nele um sentimento, que tinha pensado não ser capaz, por esse sentimento, começou a trabalhar período integral para poder conviver no apartamento do outro.   Foi uma má decisão, agora o colocava para fora.

Quando ia se vestir para sair, o outro fumava um baseado, entraram seus amigos, sem sequer lhe dizer boa tarde, cada um foi deixando um baseado numa taça de barro que tinha em cima da cômoda, não teve conversa, passou a mão em meia dúzia.

Vestiu uma camiseta justa branca, uma calça boca de sino, desenho dele mesmo, enrolou na cintura um  tela indiana, misturada com lantejoulas, por cima uma camisa imensa branca, uns sapatos brancos que ele também tinha desenhado, com mais cinco centímetros de sola de cortiça, assim ficava mais alto ainda.

Foi duro conseguir um taxi, quando chegou no teatro, já tinha fumado 3 baseados, fumou mais dois de raiva antes de entrar.  O show já estava começando, seu amigo já estava em cena, ele estava tão tonto que não sabia aonde se sentar, o amigo do palco lhe disse para sentar na primeira fila pois tinha um lugar vazio.

Adorava a voz do amigo, era um tom mais baixo que a dele. Conhecia todo seu repertorio, mas quando ele disse, vou cantar uma música que sei que meu amigo adora, começou a cantar Black is Beautiful.  Sem se dar conta, estava eletrizado começou a cantar junto.  O amigo parou, de cantar, gente, esse sujeito tem uma puta voz, mas nunca lhe deixam cantar direito, faz milhões de casting, mas como é alto, quase não chama a atenção, a plateia riu a bessa.  Suba, cante tu dessa tua maneira a música.   A princípio ficou com vergonha, mas tinha aprendido a falar com os músicos seu tom, lhes disse que da segunda parte para o final, subiria dois tons.

Tirou a camisa, deixando que todo seu bronzeado, no seu corpo extremamente branco aparecesse.  Abaixou a cabeça, deixando que seus cabelos caíssem sobre sua cara, começou a cantar.

Hoje cedo na rua do Ouvidor, quantos brancos horríveis eu vi,  eu quero e preciso de amor, dos negros do congo ou daqui.  Abriu seu vozeirão, que até ele mesmo se surpreendeu, depois entendeu que estava incorporado por um Exu.   Foi subindo cada vez mais, quando foi chegando ao final, fez um sinal aos músicos, esse pararam de tocar, cantou o resto a capela, o público aplaudiu em pé.

Seu amigo, rindo falou, nasceu uma estrela, lastima que no céu dessa santa pátria, nenhum cantor com esse tipo de voz, faz milagres.   Lhe disse, depois vá até o camarim.

Desceu do palco, esperando que o amigo cantasse uma outra música que finalizava o show.

A doidera ainda rodava sua cabeça, riu para si mesmo, só mesmo eu, para transformar um momento de merda, numa coisa assim.   Sempre tinha sido assim, quando uma porta se fechava ele pulava uma janela, ou se atirava do balcão, buscando outra chance.

Esperou que os fans falassem com o amigo, encostado numa parede fumando um cigarro, ao seu lado se encostou um negro da sua altura, lhe disse que tinha amado sua parte no show, mas falava em inglês.   Se se preocupar muito começou a conversar com ele em Inglês, sua segunda língua.    Estava ali conversando, seu amigo saiu já pronto do camarim, dizendo, uau, nem preciso apresentar os dois. 

Jacobo Magstein,  um produtor de New York, veio assistir pela segunda vez meu show, ficou deslumbrado contigo.

Tu parecias incorporado, meu amigo, que espetáculo, te digo sempre és uma bomba pronta para explodir.

Sem saber como, no outro dia despertou na cama do Jacobo.                      Não se lembrava de absolutamente nada.               Este disse, não se preocupe, não fizemos nada do que possas te arrepender.

Riu, me arrependo de muitas coisas, não podia tirar os olhos do corpo dele, enrolado numa toalha, vem vá tomar um banho, porque dançaste ontem como um louco.  Ninguém podia contigo.

Ia pegar sua roupa, mas sentiu o cheiro que vinha dela, cigarro, bebida, tudo que se pode sentir depois de uma discoteca.

Acho melhor deixar para tomar um banho em casa.

Nada disso, pedi café para os dois,  tirou do armário umas bermudas, uma camiseta, ficaram bem nele.  Tomou um banho demorado, ainda em cinco minutos se lembrou porque tinha saído de casa na noite anterior. 

Se sentaram tomaram café, contou ao Jacobo, quando ele lhe perguntou por que seu amigo tinha feito um comentário a respeito de sua voz.    Falou de todos os casting que tinha feito, depois te mostro um vídeo de um espetáculo que acabei montando para poder ser alguém nesse pais.            Mas o incrível, era que não podia deixar de olhar aquele homem, porque se interessava por ele.

Jacobo foi honesto quando lhe perguntou por quê?   Fiquei alucinado quando te vi subir no palco, como se estivesse na sala de tua casa, soltar a voz daquela maneira, cheguei a ficar excitado, queria subir fazer sexo contigo ali mesmo.

Agora quem estava de boca aberta era ele.   Replicou dizendo, pelo que vi, o teatro estava cheio de gente bonita.

Nada como tu, tens energia, magia, essa tua voz.  Te imagino cantando jazz.

Quando colocou a sua mão sobre a dele para lhe agradecer, sentiu uma vibração diferente.

Acabaram finalmente na cama, fazendo o que não tinham feito.  Na hora do orgasmo, soltou um urro.   Estava colocando para fora tudo que sentia, mas agora tinha um prazer que tinha confundido, pela pessoa que o tinha deixado.

Jacobo tremia, caralho, nunca pensei que ia acontecer isso no Brasil.

Ele riu, Jacobo, não sou brasileiro, nasci em Paris a séculos atrás, meu pai é francês, minha mãe alemã, vieram para cá esperando ficarem ricos, vivem no sul, numa casa de madeira, que cai aos pedaços, numa terra imensa.   Eu escapei.

Passaram todo o domingo juntos, no quarto tinha um piano, cantou várias músicas que gostava, inclusive uma da Billie Holiday que amava.   Claro tinha transposto a mesma para sua voz. 

Não queres vir comigo para New York?

Como ir contigo, não tenho dinheiro para isso, mas para fazer o que?

Posso te lançar no teatro por lá, sou produtor.   Estou de férias para esquecer um amor mal resolvido.

Então estas como eu, amor mal resolvido.

Mas nunca senti o que senti hoje de manhã contigo na cama.

Tens certeza de que queres me levar?

Sim, tenho, corro o risco.

Na segunda feira pediu demissão de seu emprego, tirou passaporte, na terça, foi com ele ao consulado americano, conseguiu um visto de trabalho, uma coisa difícil de conseguir.

Seu amigo vibrava, sabia que ia acontecer isso, quando ele te viu, seus olhos se escancararam, depois na discoteca, quando encontraste teus amigos da escola de dança, improvisaste uma coreografia com eles, ele não fechava a boca.  Me disse que tudo teu era espontâneo.

Bom de qualquer maneira tinha que me pirar daqui, pois me colocaram para fora do apartamento.

Eu sei me contaste ontem.   O melhor não sabes, enquanto estavas dançando, vieste até o Jacobo, lhe deste um puta beijo na boca, nesse momento entravam teu ex com seus amigos ricos.  Parou ficou de olhos abertos, virou as costas foi embora.  Fica na minha casa, até ires embora.

Não, fico no hotel com ele, adoramos fazer sexo, ficar abraçados.  Agora entendo o que sentia pelo outro, um simples reflexo de mim mesmo, querendo ser amado.

Já tinha retirado toda sua roupa da casa do Ex como dizia seu amigo.   Inclusive sua máquina de costura. 

Jacobo perguntou para que queria uma máquina?

Eu aprendi a costurar, com minha mãe, a roupa que usava ontem, quase todas minhas roupas, faço eu, é muito difícil encontrar roupa para o meu tamanho.

Jacobo já tinha comprado o bilhete de avião para ele, trocou o pouco dinheiro que tinha por dólares,   ainda pensou, deve dar para comprar um palito, para tirar o resto de um hot Dog dos dentes.

Iam em classe turística,  mas estava feliz, Jacobo dormiu no avião ele ficou olhando para o rosto do outro.  Era um homem extremamente bonito.

O apartamento era bom, nem grande nem pequeno, mas podia se acomodar com ele.  Abriu um armário, estava cheio de trajes de homem sério.    

Jacobo ficou puto da vida, passou a mão no telefone, disse para alguém que se não viesse recolher sua roupa, jogava tudo pela janela.     Meia hora depois bateu na porta um rapaz, um mulato, mais baixo do que ele, sem dizer uma palavra, me olhou de cima a baixo, bom proveito, recolheu suas coisas foi embora.

Esse filho da puta tem muita cara, o peguei na minha cama com outro, ainda se faz de vítima, diz que nunca o soube satisfazer na cama.  Soube depois que me colocou o chifre com muita gente.

Ele foi honesto, pois eu me sinto fantástico contigo na cama, basta ver esses dias todos.

Eu sei, também me sinto assim, mais agora que me sinto livre.  Amanhã vou te levar a um lugar, para cantares, mas te digo é só o começo, pois tem muito que brilhar.

Não lhe disse aonde era, só disse coloque uma das tuas roupas de fechar o comercio.  Ele colocou uma camiseta de lantejoulas negra, uma calça negra, que era uma cópia dos marinheiros americanos, boca de sino, uma sandália alta, com a sandália ficava mais alto que o Jacobo.

Este ria, já não chamarei mais atenção, mas todo mundo vai saber que sou teu amante.

Tomaram um taxi, pararam num lugar com porta dupla, só dizia Club.  Quando entraram viu que todo mundo falava com Jacobo, a grande maioria eram negros.  Se sentiu como uma galinha branca num terreiro de galinhas negras, vão me matar. 

Ao contrário, todos o olhavam com curiosidade.    No momento cantava um grupo de garotas jovens todas negras.  Lhes faltava algo.

Jacobo disse, em seguida vão de apresentar.

De fato, o apresentador, fez colocarem um piano em cena, soltou que nome difícil, Louis Daguerre.  Ele se levantou, Jacobo disse, canta Black.  Ele entendeu.

Se sentou no piano, inclinou a cabeça, começou a cantar, quando estavam as meninas cantando, se escutava a voz de pessoas falando.  Tudo era silencio, primeiro cantava em português, quando chegou na parte alta, passou a cantar em inglês.  Terminou com a cabeça jogada para traz, com seus cabelos fazendo uma cascata.   Todo mundo aplaudia muito.  Lhe entregaram um papel, era do Jacobo, canta Billie.

Porra na terra dela, cantar até era uma ofensa.   Pegou no microfone, falou, me pediram para cantar uma música, de uma cantora que admiro muito.  Mas claro não tenho a voz dela, fiz uma versão para minha voz, The Man I Love.  Mudava o ritmo um pouco, baixou o tom de voz, como se estivesse rouco.   Se imaginou se arrastando bêbado pelas ruas, atrás do homem perfeito.

Quando terminou, os aplausos era imensos, com todo mundo em pé.

O apresentador, disse one big star Louis Daguerre.  Mas pediam para continuar, outra em português, não se fez de rogado, cantou a música do seu espetáculo, mas o fez a capela, em pé no meio do foco, em cima dele.    Sabia que Jacobo tinha amado o vídeo.  Depois cantou a mesma em Inglês.  Soltou-se como fazia no espetáculo, dançando, cantando, desceu a plateia, mexeu com alguns homens que estava ali, como fazia.

Quando chegou perto do Jacobo, viu que estava enciumado, como o foco estava neles, disse my man.

Nunca mais faça isso, morri de ciúmes, todo mundo te devorava.

Mas quem me leva para cama es tu.

Se amaram essa noite como loucos, ele porque estava se sentindo fantástico, o outro porque tinha ciúmes, viu que todos o tinha devorado.

Passou se apresentar no Club, todos os finais de semana, aumentaram inclusive o que lhe pagavam, pois vinham de outros clubes para vê-lo cantar.   Ele gostava disso, do contato direto com o público, nunca mais cantou a música que deixava o Jacobo com ciúmes.

Agora tinha dinheiro para alugar uma sala na Broadway para fazer aulas de dança ele só.

Estava ali um dia, quando apareceu na porta um homem que ficou olhando ele dançar com uma música tremendamente sensual. 

Se apresentou com André Croix, disse que era produtor da Broadway, que estava selecionando gente para fazer um casting.  Ele disse que lhe daria o cartão ao seu agente para marcar alguma coisa.  Disse aonde cantava nos finais de semana.

Falou com Jacobo, este não gostou, agora percebia que era um pouco controlador, lhe disse isso, não gostava que o controlassem.  Já perdi demais na minha vida por quererem controlar minha vida.  Lhe disse que eras meu agente.  Tu que sabes, ou posso chamar, ir sozinho.

A contra gosto Jacobo chamou, o André disse que iria nessa noite assistir o show que fazia no Club, agora cantava mais músicas, uma parte em português outra em inglês. Se atrevia inclusive com uma da Carmen Miranda.

Depois André Croix disse que gostava da sua versatilidade, em colocar a voz.

Foram anos trabalhando duro, não ia contar dos casting no Brasil, quando sempre o colocavam para fora.

Deixou que os dois negociassem,  era para um segundo papel numa obra.  Já sabia que ele cantava, dançava, agora teria apenas de fazer um teste para falar o texto.

Quando leu o mesmo, esperando a vez de se apresentar.  Leu, que o personagem era de Puerto Rico, tinha conversado com vários deles no camarim, sabia como falavam, carregando em algumas frases.      Assim fez o texto, tinha decorado o mesmo, ficou com o papel. Mas poderia manter o espetáculo que fazia no Club.    Inclusive André Croix, conseguiu um cartão de residente permanente, a princípio teria que voltar ao Brasil, mas Jacobo conseguiu que ele fizesse show um final de semana em Toronto. 

Quando voltou, já estava como residente.  Percebia que Jacobo cada vez o vigiava mais, pois pensava que estava interessado no André.   Nem tinha lhe passado pela cabeça isso, era um tipo que não lhe interessava o mais mínimo.

Quando começaram os ensaios, ele gravava de primeira as modificações que o diretor fazia, o texto era uma coisa inovadora na época, um musical, com fundo gay.                  Se saia bem na coreografias, bem como cantando, ou falando com sotaque de Puerto Rico.  Muitos pensavam realmente que ele era de lá.   Lhe chamavam de branquinho de Puerto Rico, falavam com ele em castelhano das ilhas.  Ele respondia igual.

Convidou os companheiros para assistirem o show, depois do espetáculo.

Depois de meses em cartaz, já estava chegando a conclusão que gostava mais do show do Club, mas claro queria o dinheiro para sua independência.   Notava que as coisas com o Jacobo iam cada vez pior.   Tentou por duas vezes conversar com ele a respeito.                Aceitava que tinha ciúmes, que como não ia ter ciúmes com um pedaço de homem como ele.

Lhe explicou mil vezes que não se via assim, como ele dizia.  Se saio do teatro contigo, vou ao show contigo, como vou ter amantes.

Jacobo foi fazer um contato fora, voltou dias depois, sem querer soltou depois de terem se amado com saudades, do corpo um do outro, que o tinha mandado seguir, para saber aonde andava.    Foi a gota d’água.   Ficou furioso, te agradeço ter chegado aonde cheguei, mas isso está passando dos limites.  Não estou gostando nada do rumo que está tomando tudo isso, se descubro mais uma coisa desta, vou embora.

Mas não precisou muito, o espetáculo ia começar uma tournée, ele ia cair fora, pois não queria sair de New York, apesar de odiar o inverno, estava aguentando bem.  O diretor do espetáculo, o chamou, lhe ofereceram para fazer o papel principal, durante os dois últimos meses que ficaria na cidade.    Aceitou, as pessoas se surpreenderam, de repente deixou de ter o sotaque de Puerto Rico, para ter o sotaque de um sulista. Como estava mais branco do que nunca, pois aonde ir para se queimar ao sol.    A crítica elogiou seu trabalho dizendo que esse papel lhe caia como uma luva. Que realmente ele bordava fazer o personagem.   Numa entrevista, lhe perguntaram como o fazia.

Observo as pessoas falando, apesar de já saber falar inglês, procuro estar sempre falando melhor, falou do seu show no Club, o convidou para ir, ver outra faceta dele.  Sabia que ele adorava Dinah Washington, ensaiou para cantar Cry me a River, como estava tão branco, passou a só usar roupas negras, nesse dia pediu ao pianista da orquestra que ensaiasse com ele.   Tinha feito uma roupa que era um escândalo, mais parecia uma saia.  Quando viu que o entrevistador entrava na sala, avisou o pianista que era a primeira música.  Já tinha ensaiado com a iluminação.   Era o piano, ele, nada mais.   Acendeu a luz, estava de costa, quando se virou, a cara do outro era ótima, quando soltou a voz, cantando quase num sussurro,  sentiu que estava provocando o mesmo, era o mais famosos dos entrevistadores da televisão.

Não se atreveu a olhar o Jacobo, pois sabia que estaria furioso, não gostava que mudasse o show.  Os aplausos foram imensos. Agradeceu ao pianista, longe de querer competir com a deusa de alguns, aprendi a gostar dela também,  mais uma para ver se aprendi direito a lição da diva.  Cantou Ain’t Misbehavin, mas ele tocando o piano, desta vez mudou a voz rouca, de quem canta na orelha do amado.

O público veio abaixo. Quando desceu do palco todos vinham falar com ele, André disse, se segues dessa maneira, perderei para alguma grande casa de show.  Nunca disse ao André que não tinha nenhum contrato assinado com o Jacobo. 

Quando o entrevistador veio falar com ele, tens que voltar ao programa, para fazer isso, amei, lhe deu o cartão, se podes podíamos gravar na sexta-feira aqui, para apresentar no programa de domingo, no horário nobre.   Lhe deu dois beijos no rosto de despedida.

O escândalo do Jacobo, foi imenso. Queria pegar o cartão para rasgar.   Estas falando da minha carreira que está se levantando, nem pensar.  Sei que tudo devo a ti, mas não se esqueça que ganhas dinheiro a minhas custas, além de que não tenho na realidade nenhum contrato contigo.

Por um acaso pensaste em convidar o mesmo para o show?   Não, quem fez o contato com o André Croix, fui eu não tu,  a única coisa que fizeste, amo de paixão esse trabalho é no Club, ouvi dizer que querias que cancelassem o meu show, tiveste a coragem de dizer ao dono, que não quer os homens olhando para mim.

Acho uma besteira, porque eu não olho para eles, mas eu te avisei que aquele último escândalo teu era o último.  Eu nunca esqueço nada. Amanhã vou embora, nos seguiremos vendo, mas vou viver sozinho.

Não posso ter você o dia inteiro atrás de mim.    Estas deixando atrás teus outros representados, acorda de uma vez. 

No dia seguinte, procurou encontrou um studio, não precisava de mais nesse momento.  Seguiu fazendo o espetáculo de teatro, bem como o Show do Club, tinha se esquecido de chamar o apresentador, foi esse que o procurou outra vez no Club.  Lhe pediu que falasse com o proprietário do local, ele não queria problemas.   O outro concordou imediatamente.

Estava sempre com o Jacobo, as vezes dormia em sua casa, outras ele na dele. Mas não tinha a chave.   Não gostou quando soube que seria gravado com convidados do apresentador.  Muita gente do mundo da música, do teatro.   Ficou anunciando diariamente nos programas anteriores. Um especial que faria com um artista brasileiro que era como o filho mais novo da cidade, que tinha vencido por ele mesmo. 

No princípio da entrevista ele disse, não venci sozinho, fui descoberto no Brasil, por Jacobo, depois aqui ainda tive outro padrinho o André Croix.  Foi encaixando música com entrevista. Ele perguntou como tinha conhecido o Jacobo no Brasil.  Fui ao show de um grande amigo, disse seu nome, um grande cantor, começamos juntos.  Estava chateado por um problema amoroso,  me tinham colocado no olho da rua.  Vi vários baseados, não tive conversa, roubei, fumei todos.  Quando cheguei ao show, um pouco atrasado meu amigo me fez sentar na primeira fila,  ele começou a cantar uma música que adoro.  Já fez parte do show, se quiseres posso fazer para ti.  No camarim, tinha várias roupas dele.   Se vestiu como nesse dia, pediu a pequena banda do Club tocar,   Subiu ao palco, todo de branco, quando retirou a camisa disse, a diferença era que estava moreno de praia.                      Se soltou no palco, parecia que estava incorporado.  

Houve um intervalo, viu que Jacobo estava no camarim.  Trocou outra vez de roupa, agora todo de negro.  

Ele disse com uma cara triste, estas conquistando o mundo com isso tudo, eu ficarei para trás. Nada disso, sabes que te quero.  Realmente o queria muito, afinal tudo devia a ele.

O show para a televisão durou mais uma hora, quando saiu, não viu ninguém lhe esperando, perguntou ao porteiro pelo Jacobo.   Foi embora daqui acompanhado por um rapaz.

Filho da puta, foi a casa dele, abriu a porta nu.   Já me abandonaste, estou procurando alguém para me dar prazer. Viu um rapaz que não devia ter nem 18 anos.   Mas Jacobo é um menor de idade.

É um puto, estou pagando para que me dê prazer.

Foi embora, no dia seguinte acordou com a polícia batendo na sua porta.   Os atendeu, sim estive na casa dele ontem, mas estava com um rapaz.

Pois o mesmo além de o roubar o matou.

Ele caiu no chão com todo seu tamanho.            Puta merda, ficou totalmente desconsolado, como pode uma pessoa fazer isso, foi tudo que pensou.   Avisou o André, pois tinha que ir a delegacia, para ver se reconhecia quem estava na casa.   Quando disse quem era, pois o tinha visto bem, soube que tinha 16 anos.   Puta merda.         O rapaz alegou que o André depois que ele tinha ido embora, não quis mais fazer sexo, tampouco pagar, que só estava fazendo uma cena de ciúmes.

Que idiota, ficou furioso, prometeu que nunca mais ia querer alguém o controlando.

Quando André quis que ele fechasse um contrato com ele, como agente, se negou, a partir de agora, ele só faria o que queria.    O enterro foi muito triste, poucas pessoas, pensou, deixas de brilhar as pessoas desaparecem.

Em vez de ir de tournée com o teatro, lhe apareceu outra oportunidade, com o André, agora tinha fácil o trabalho, estava conhecido pela entrevista.   Era um musical, muito interessante, mas assinou contrato por seis meses, com o compromisso de avisar no quinto mês se continuava ou não.  Fez o mesmo durante um ano, ao mesmo tempo que o show no Club.  Mas ao final estava cansadíssimo.   O musical ia para San Francisco, aceitou só porque precisava de sol, todo dinheiro que ganhava, mal tinha tempo para gastar, tudo estava no banco investido, para quem não tinha um puto quando chegou, agora até tinha demais.

Adorou San Francisco, por recomendação de um que atuava no Club, foi a uma casa noturna assistir ao show.  Se apresentou ao dono, esse disse que tinha visto a entrevista com o show, que gostava muito.

Estou farto desse show que tenho, o contrato acaba agora, se queres de deixo montar alguma coisa, repartimos lucros, bem como eres livres para o trabalho.   Já conhecia os americanos, exigiu um contrato com tudo isso, levou a um advogado, para saber se tinha letras pequenas.

Ele disse que se qualquer coisa ele não gostasse, viesse falar com ele.  Era um cara super bonito, vi teu show, com meu namorado da época, quando fui a New York, diziam que era o que havia de melhor, fui a contra gosto, mas gostei demais.

O convidou um dia que tivesse livre para jantar.   Mas acabou não acontecendo nada, ficaram amigos, Ruby Carrasco, era descendente de mexicanos, mas não entendiam os dois, porque, se sentiam atraídos, mas não funcionavam na cama.   Ficavam nervosos os dois, daí ficarem amigos.

Fez um casting, com os que já estavam trabalhando, só ficou com um jovem que estava iniciando, os outros tinham vícios demais, só sabiam fazer uma coisa.

Quando começou a entrevistar primeiro as pessoas, foi encontrando gente que buscava uma saída para seu talento, foi separando essas pessoas.  No novo grupo, quem mais se destacava era um japonês, diferente dos outros pois tinha a mesma altura dele.  Experimentou fazer uma dupla com ele.  Funcionou.                      Montou um espetáculo, primeiro arrumou um pequeno apartamento, foi a NYC, buscar suas coisas.   se despediu dos poucos amigos que tinha, seguiu em frente.

Nesse local ficou mais de 10 anos, até que foi convidado para montar um show em Las Vegas, lá encontrou o que buscava, como sempre procurou uma casa pequena, fora do centro da cidade, as pessoas se impressionavam, pois se movia de ônibus, ou quando muito de taxi.  Só levou com ele Ken Takano, muitos pensavam que tinham algum romance, mas nada mais longe da verdade.

Se davam bem no palco.          Montou dessa vez partes exclusiva para ele,  apesar do show fazer sucesso, sentia falta de uma coisa, como tinha no Club.   Procurou um lugar, mas estava difícil, um dia vagabundeando durante seu dia de folga, viu um anúncio de venda de um bar.  Entrou para ver, era uma cópia do Club, talvez um pouco melhor, examinou o local com o dono, precisava de uma reforma geral.  Ficou interessado, o que fez foi chamar o Ruby Carrasco, para vir até lá, revisar tudo, contratos, contabilidade do local, não queria se encontrar com nada escuro demais.

Depois de um exaustivo trabalho, fecharam negócio, fez uma puta reforma, lhe recomendaram uma pessoa para cuidar da obra.  Amor à primeira vista,  começaram a discutir o que ele queria, acabaram na cama.  Além de fazer obras, era polícia, viveu com ele, mais de 10 anos, se adoravam.               Agora tinha seu próprio Club, foi deixando os shows grandes,  seu clube era indicado pelos hotéis, quando procuravam um lugar especial.  Era como ele sonhava, mesmo depois de tanto tempo juntos, todo momento livre estavam juntos.   Artho era mistura de muitas raças, era um tipo completamente diferente, alto como ele, moreno, cabelos super negros, os dois juntos faziam um casal diferente.  Não se escondiam de ninguém, ao contrário, foi viver na casa dele, fora do centro, aonde tinha piscina, lá podia tomar banho de sol que tanto amava, longe de olhares curiosos.  Podia fazer sexo na piscina, sem problema nenhum.  Quando ele passou a inspetor, dois anos depois levou um tiro, correu como um louco para o hospital, mas só pode se despedir.  Artho só lhe disse, siga em frente, foste o amor de minha vida, isso nada nem ninguém vai poder tirar.   Herdou a casa dele, ficou vivendo lá, os primeiros meses foram uma tragédia, pois cada troço da casa tinham escolhidos juntos.  Mas superou, cantando toda as noites, agora entendia as grandes do Jazz.   Descobriu numa loja de jazz, disco de Sam Cooke, ficou encantado com sua voz.  Ele não tinha o mesmo tom, mas transferiu para sua voz, algumas coisas que ele cantava.  Durante a semana quando não tinha nenhum cantor ou artista convidado, se sentava ao piano, podia ficar horas desfiando canções.    Mas gostava mesmo do final de semanas quando a casa estava cheia.               Continuava fazendo suas próprias roupas, ideando os shows.    

Pediu a Ruby, que viesse como sempre verificar suas contas, queria que olhasse se ia tudo bem, tinha dinheiro, mas não aproveitava muito.  Levava uma vida simples, seu luxo era fazer seus shows como queria.   Mas sabia que algum momento, seria ultrapassado, pois, as novidades em termos de música não paravam.  Queria conversar com alguém que confiasse.

Quando viu Ruby ficou preocupado.  Nunca o tinha visto tão em baixa, quando perguntou o que passava, não esperava a resposta que recebeu.

Nunca me entendo sexualmente com as pessoas, elas se cansam de mim rapidamente, veja conosco, nem chegamos direito a cama.

Ora Ruby, nem sabias beijar direito.              Venha vou te ensinar, dessa brincadeira de ensinar, encontrou uma parte dele mesmo no outro.   Tu eres como eu, quando cheguei a cidade, mas porque deixaste o tempo passar.  

Sempre fui apaixonado por ti, mas tinha medo de ser rejeitado novamente, sempre fui desajeitado quando se tratava de sexo.  Nunca soube me comportar, se devia ser um machão na cama ou ser frágil.   Contigo descobri que tenho que ser eu mesmo.

Se mudou para Las Vegas, estavam juntos até hoje.  Hoje segundo  Louis, faziam quarenta anos que tinha saído do Brasil.

Quem sabe seja hora de fazer uma visita ao teu pais. Visitar tua família?

Nem sei ir aonde vivem. Olha a figura que sou hoje em dia, mais pareço um americano, mal sei falar português, além das músicas que canto, que hoje já devem estar todas no passado.

Ruby estava tão saído, que adorava ver o corpo dos dois, apertados um ao outro no espelho, seja se ele estivesse na frente ou atrás.    Deixou o clube com o Ken, que já estava farto de fazer musicais nos cassinos.   Queria paz.

Foram os dois, via Los Angeles.  Quando chegaram ao Rio de Janeiro, quem os esperava era seu amigo, com que tinha sempre mantido contato.   Estava mais gordo, para Ruby foi como encontrar uma pessoa conhecia, de tanto que escutava falar dele.

Rapidamente descobriu que já não era brasileiro, todos só falavam com ele em inglês, quando tentava falar em português tinha que ficar buscando na memória palavras, já não sou daqui.

Ficaram num hotel, bom em Copacabana, seu amigo arrumou uma pessoa para passear com eles pela cidade.  Um dia o levou a Rua do Ouvidor que tinha escutado quando ele cantava, ficou decepcionado,  teve que lhe explicar que era uma música nada mais, ou será que ele queria encontrar algum negro.  Ruby ficou furioso, tinha a ele, isso bastava.

Mas na verdade ficou rememorando a Rua do Ouvidor de sua época, não era tão suja, nem estava abandonada como agora.  O centro da cidade, aonde tinha trabalhado em vários lugares, agora parecia nada mais que uma imensa lixeira.  Chegou a uma conclusão triste, realmente ele já não era dali.  Quarenta anos pesavam na balança.

Quando voltaram, gostavam da vida que tinha agora, quarenta anos tinham passado, chegou a conclusão que tinha vivido bem.  Ken tomava conta do Clube, eles tinham todo o tempo para eles.  Viajavam mais agora.   Aproveitavam a vida.

Ele tinha chegado à conclusão de que não tinham dado certo a primeira vez, porque não se souberam explorar como deviam.                Pois não se cansavam de fazer sexo, estarem juntos, compartir coisas, enfim viver a vida.

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