GET AWAY

                                                      

Tinha escapado outra vez da casa aonde estava sob custodia, era sempre mais o mesmo, queriam abusar dele.  Agora com 16 anos, já não era um tonto, com 12 anos tinha conseguido escapar, delatar o sujeito que estava abusando dele.  Um pédofilo procurado, tinha sido vendido basicamente pelo sistema.   Quando o recolheram, prometeram que se testemunhava contra o sujeito, cuidariam dele.   Nada aconteceu, acabou o juízo, foi levado para um albergue de menores, de aonde não podia sair, em seguida, outra vez sobre a guarda de uma família que era desconcertantes, pois ora o homem, ora a mulher invadiam seu quarto atrás de sexo.

A mulher dizia que a culpa era dele, ser um moreno tão bonito.

Nem sabia direito quem era, pois tinha ido passando de mãe em mãe, o que se dizia seu pai, era um louco de muito cuidado, tinha uma aparência espetacular.  Fazia com que as jovens se apaixonassem por ele, dizia que precisava de alguém para ajudar a cuidar do filho, quando a coitada já estava na sua rede a colocava para se prostituir, passar drogas.                  Elas nunca o denunciavam pois achavam que ele as ajudaria.   Só uma não caiu nesse conto, o denunciou, foi preso, condenado, descobriram muitas coisas no seu passado.             O teste de ADN, dele, não coincidia com o meu, fui levado em seguida para um orfanato.  De lá adotado num sistema mal cuidado por um casal, logo fui vendido.    Assim fui levando a vida. 

Desta vez tinha jurado que não voltaria para o sistema de governo, ia arrumar minha vida de qualquer maneira.

Estava ali na parada de ônibus, abaixo de uma chuva torrencial, quando parou um carro ao seu lado, o sujeito já tinha passado antes, ele sabia o que o homem estava buscando.   A conversa mole, queres companhia nessa chuva toda.  Esta ameaçando um temporal de fazer gosto. Venha moro perto.

Ele aceitou, pelo menos, quem sabe podia dormir numa cama.  Mas mais uma vez viu que tinha errado no seu juízo.   O sujeito era daqueles, cheio de músculos, forte, com a cabeça raspada, apesar de tudo conforme o ângulo, era bonito.

Quando entraram na casa, ele já temendo o pior, ficou de sobreaviso.  Viu que o homem tinha todas as janelas fechadas por dentro com cadeado, a porta da cozinha também, o banheiro tinha a janela tapada.  Mal entraram ele fechou a porta com outro cadeado, estava prisioneiro.   O mesmo disse como desculpa, estavam na zona dos tornados.    Estava ameaçando um, que parecia forte.   Realmente o vento fazia um ruído na casa imenso.

Tentou alcançar as chaves, que estavam presas na calça do homem, este lhe deu um murro no peito o jogando longe.  Não tente me roubar.

Eu só quero a chave do cadeado para ir embora.

Nada disso, ainda não fizemos sexo, garanto que vamos fazer muito.

O levou para a parte de baixo da casa, aonde ele viu, aqui posso gritar, que ninguém vai me escutar.   Porra estou fudido.

Viu ali toda espécie de aparelhos para musculatura.   O sujeito, simplesmente arrancou sua roupa, mas quando ele pensou agora ele vai me arrebentar, nada, ficou parado olhando para seu sexo.  Não me enganei, poderemos nos divertir horrores.  Começou a o provocar de todas as maneiras, mas ele estava desesperado, não conseguia ficar excitado.  O homem o algemou mesmo ele lutando contra ele, numa tabua que estava ali meio inclinada.  O fez cheirar algo de um vidro, mesmo contra sua vontade ficou com o sexo duro.  O outro fez de tudo com ele, não podia se mexer ou defender.  Tentou com as pernas dar-lhe patadas, levou foi um puta murro na cara.

Tens que colaborar bonitão, pretendo fazer muitos vídeos contigo.   Os velhos vão adorar, ver esse caralho bonito, moreno.

O deixou ali, ele escutava movimento no andar de cima, mas perdeu a noção se era dia ou noite.   Vou ter que ser engenhoso se quero sair daqui.

Ele desceu com um prato com um sanduiche, coca cola de lata, o soltou, vê se te comporta, abriu um armário que estava na parede, feito de madeira bruta.  Viu uma quantidade de CDs arrumado em fila.  Tudo garotos com quem fiz sexo.

Todos colaboraram, depois foram embora tranquilos, pelo sorriso dele, viu que de tranquilos nada.

Ele colocou uma rádio, com notícias, está dizia que o tornado alcançaria terra dentro de momentos, que todos estivessem abrigados.  Talvez seja minha chance nesse momento, o homem olhava para ele, passando a língua nos lábios.  Não terei como escapar disso, seu caralho ainda estava sob efeito do que ele o tinha feito cheirar.  Passava por ele o alisava, tentava beija-lo. Mas era bruto em tudo que fazia.   Ouviram um estrondo imenso, parecia que a casa se balançava, ele subiu correndo a escada, tinha certeza que se ficasse o homem o mataria, ficaram correndo na parte de cima, como num jogo de gato atrás do rato, não havia muito aonde se esconder, num determinado momento, quando já estava quase sem folego, ele foi se aproximando, com uma faca na mão, desta vez tu passaste não acabou a frase, o teto inteiro desabou em cima dele, as vigas todas da casa de madeira, caíram sobre suas costas.  Ele correu na parte de baixo, procurou roupa para vestir, encontrou roupa que devia ter sido de algum outro garoto, cheiravam a mijo, seja quem fosse tinha mijado na calça, não importava, uma camiseta que também cheirava a mal,  escutou outro estrondo, se caia mais uma parte da casa.

Apesar das luzes piscando, viu que no armário aberto, tinham um portátil, bem como uma caixa de metal. As chaves estavam na porta, procurou uma que pudesse abrir a caixa, dentro muito dinheiro, bem como uma agenda de direções, deviam ser seus clientes.  Na parte de baixo viu uma mochila de couro negra, enfiou o dinheiro dentro de um saco de plástico meteu tudo ali.

Buscou um casaco para sair no meio do temporal.  Calçou seus tênis velhos, ainda dava para usar, todos seus movimentos eram automáticos, desesperados.

Pegou uma barra, que dessas que se usam para colocar pesos, subiu, viu que ele tentava sair debaixo das vigas.  Chegou por detrás, acertou na sua cabeça a barra várias vezes, viu quando ele caiu. Foi a cozinha lavou a barra, desceu, a colocando no lugar.   Esses anos todos presos em casas desconhecidas, aonde o que podia fazer era ver filmes, por puro instintos, pensou tenho que destruir tudo, levou as chaves para cima, abriu a porta da cozinha, que dava para uma garagem.   O carro estava ali, viu vários galões com líquidos amarelos, cheirou, era gasolina, subiu com dois, foi jogando nos moveis, gastou esses dois, voltou por mais, um derramou pela escada abaixo, inclusive no armário.   Foi até o homem, se lembrou de um filme que o sujeito coloca o celular no micro-ondas, esse explode, colocando fogo na casa, de um outro filme Shooter o ator Mark Wahlberg, explode a casa, rompendo a tubulação do gás,  procura como tinha visto no filme a ligação, a rompe abre a porta da cozinha, joga uma caixa de fosforo que estava por ali, na gasolina, foi como se iniciou o incêndio.   A explosão já escutou um tempo depois escondido detrás de um tronco de árvore imenso que tinha caído com o tornado.

Depois correu o mais que pôde, com a mochila nas costa, com a chuva lhe atrapalhando a visão, vais adiante, viu como um celeiro, a casa tinha voado inteira, mas o celeiro só estava inclinado, não viu viva alma.    Ali encontrou um baú cheio de roupas de algum garoto de seu tamanho, inclusive umas botas, de couro.  Trocou rapidamente a roupa molhada, a colocando num saco de lixo.     Como lhe ficavam bem, escolheu mais uma calça jeans velhas, bem como camisa de quadros, camisetas, uma cueca já amarela pelo tempo.

Nesse momento a chuva e o vento, deram uma parada, saiu correndo, por detrás se via uma estrada em direção a cidade de aonde tinha vindo.  Sabia que a parada não estava muito longe, viu ao longe ainda as chamas da explosão.   Correu tudo que pode.  Quando estava na parada passou uma senhora num chevrolet velho, parou dizendo, hoje não creio que apareça ônibus nenhum por aqui, vou a cidade mais próxima, que está fora do círculo do furacão, esse vai voltar logo, é um perigo ficar ai.   Era uma senhora de idade.

Não parou de falar, sem perguntar nada a ele, minha casa ficou arrasada, o celeiro meio caído, menos mal que me abriguei na casa de uma vizinha que é de material resistente, vou para a casa da minha filha, os telefones não funcionam.    Parece que a casa do homem estranho que se mudou a meses atrás, foi destruída por uma explosão.   Aquele homem me metia medo.

Estava sempre com todas as janelas fechadas.  O único momento que perguntou o que fazia ele por ali.   Estava esperando um ônibus, para ir para San Francisco, foi o nome que saiu nesse momento.

Então te deixo na estação de ônibus.  Acho que tem um que sai dentro de duas horas, disse olhando seu relógio.   Como é seu nome?

Mark Berg, disse usando o nome do ator, mas só o final de seu sobrenome.

Muito bem Mark, espero que o tornado não alcance o ônibus, riu muito de sua piada.

O deixou justo na frente da estação.   Espere, abriu uma bolsa que estava no chão, minha amiga é exagerada, me deu dois sanduiches imensos, não acredito que bar da estação esteja funcionando.   Pelo menos ainda estava seco.

Viu numa placa que o ônibus para San Diego saia em 15 minutos, correu ao guichê, pedindo um bilhete, o homem mal olhou, se tivesse olhado, teria visto um garoto assustado.

Até a metade do caminho, só tenho um lugar no final do ônibus, depois troque de lugar. 

A ele lhe importava uma merda isso, pagou, entrou correndo no andem da estação, viu aonde estava o ônibus, o condutor já estava dentro, vamos, que o temporal volta em minutos, se consigo pegar a estrada, será mais fácil.

Mesmo assim o começo da viagem foi emocionante, pois ao longe conseguiam ver os estragos que fazia o furacão, animais voando, telhados desaparecendo num sopro.   Parecia um filme de ação, ficou colado a janela, até que toda essa paisagem desapareceu, ficou escuro como a noite, começou a chover sem parar.    Na parada seguinte, uma família que estava mais à frente desceu, mas não subiu ninguém, o condutor ainda esperou uns minutos, mas nada.  Creio que com esse tempo desistiram da viagem.  Seguiu o caminho, ele mudou de lugar, pois o final do ônibus era desconfortável.  Em seguida se relaxou, usou a mochila que com as roupas, lhe serviam de travesseiro, ao mesmo tempo que a protegia com o dinheiro que tinha dentro.

Não tinha ideia de quanto tinha, mas era algo para ele começar a vida. Dois dias e meio depois iria chegar a San Diego, ficou tentado em várias cidades a descer, principalmente em San Antonio, ou Tucson, ao descer na Estação, mudou de pensamento, se me buscam, irão a San Diego,  comprou um bilhete para San Antonio, tinha deixado no ar, San Francisco e San Diego, se é que iam procura-lo.

Quando chegou a San Antonio, buscou um hotel pequeno para se hospedar.  Nessa noite contou o dinheiro que tinha na mochila, tinha mais de dez mil dólares em notas grandes.  Uau pensou, posso me virar, mas na verdade preferia procurar um trabalho.  Entrou numa loja que vendia de tudo, comprou umas calças, bermudas de surfistas, duas camisetas, cuecas e meias, viu um tênis barato também colocou no carrinho.

No caixa quando estava pagando, perguntou se não sabia de nenhum emprego para um jovem, preciso trabalhar.

O homem chamou uma senhora de cabelos compridos brancos que estava falando com outra senhora.   Melissa, não procuravas alguém para fazer pequenos serviços, o rapaz está procurando emprego.

Ela o olhou de cima a baixo, que sabes fazer?

De tudo um pouco, vivi em casas de acolhida, aonde me faziam trabalhar de tudo, até cozinhar um pouco eu sei.  A mim me basta olhar para aprender, gosto de prestar atenção aos outros trabalhando, nunca se sabe se vamos precisar ou não.

Como te chamas?

Mark Berg, nem sei por que tenho esse nome, já que meu pai era mexicano, minha mãe não sei, pois nunca a conheci.

Bom eu moro perto da praia, posso precisar que venhas comprar material para mim, passar máquina no jardim que dá para a praia, as vezes preciso de algumas coisas da cidade. Sabes conduzir?

Não mas posso aprender, ou posso ir de ônibus se for longe, ou andando se for perto.

Bom tenho um pequeno apartamento no fundo da casa que antigamente quando vinham muitos surfista por aqui eu alugava, mas acabavam me dando dor de cabeça.   Podes ficar lá, tem cama, banheiro com chuveiro, até uma pequena piscina.

Ela transmitia confiança. Na caminhonete velha, foi dizendo que era pintora, mas hoje em dia vivendo de sua velha gloria, pois ninguém se interessava mais por seu tipo de pintura, herdei de meu marido, essa casa, por isso vivo aqui.  Não é nada demais, na verdade não passa de uma cabana, no meio dessas casas de veraneio.

Tens bagagem?

Não senhora, só o que acabei de comprar, essa mochila, com outra muda de roupa, mas a cueca já está cheirando mal, bem como a bota.  Tenho que jogar fora, pois estiveram molhadas, nem eu aguento o cheiro. 

Devias ter comprado um chinelo para andar pela praia, mas no puxado atrás, deve ter alguma esquecida pelos surfistas.

Quando chegaram mostrou primeiro o lugar para ele, ficava na frente da praia, ele ficou deslumbrado, era muito bonito.  Depois de colocar o carro num puxado ao lado da casa, lhe mostrou o que ela chamava de apartamento,  era um quarto comprido, com uma cozinha num armário, bem como um banheiro pequeno, mas ele podia tomar o banho ali.

Devias ter comprado escova de dentes, sabonete, bom eu te arrumo isso, da próxima vez, compras, reponha na minha dispensa.  Venha lhe vou dar uma toalha de banho, roupa de cama, depois também compras para ti, pois sou muito desligada, sempre me esqueço de comprar essas coisas.   A cozinha de sua casa era boa, grande, ali estava a televisão, com duas poltronas, faço meu final de dia aqui, ou sentada na varanda vendo o por do sol.   Não gosto muito de cozinhar, faço o básico.  De noite sanduiches.  Ao falar isso a barriga dele começou a roncar.

Ela riu, toma a toalha o sabonete, a roupa de cama, tome um banho, jogue essa roupa suja no lixo, bem como essa bota, agora sinto o cheiro.

Ele fez isso, quando saiu do banho, ela o chamou, vamos sentar na varanda da frente, olhar o pol do sol acompanhada, será bom,  deu uma lata de coca cola para ele, atravessaram o salão ele ficou de boca aberta, o salão era seu studio de pintura, ficou parado na frente de um quadro que era a paisagem de um por do sol.  Chegou a sentir lagrimas nos olhos de tão bonito que era.

Ela sorriu, ganhaste meu coração garoto.  Amanhã durante o dia, me limpas o studio, eu te mostro meu trabalho.  Se sentaram fora, ficaram vendo o por do sol  em silencio, era impressionante, a praia estava vazia.

No sábado iremos a um lugar que fazem um mercado, isso se fizer sol,  ali aproveito para vender telas pequenas com paisagens, que uso como dinheiro para comprar material, algo de comida.  Assim economizo, me ocupo também, enquanto não vem o click para pintar algo grande.

Se sentia bem ali com o corpo lavado, a cabeça parecia que tinha barro de tanta sujeira que saiu. Ficou super contente.                       

Ela disse que gostava de dormir cedo, no verão é mais problemático, porque tem muito turista, no final de semana sempre, gente que vem ou de San Francisco, ou de Los Angeles, que tem casa aqui na praia.

Se tem ondas, muitos surfistas, jovens, os que tem carro, essas coisas vão a outras praias.

Pela primeira vez em dias dormiu contente, enfiou a mochila no fundo da cama, se ela tentasse pegar, ele saberia.

Mas acabou dormindo como uma pedra, só despertou com o ruído na casa.  Se levantou lavou a cara, colocou uma camiseta nova, as bermudas de surfista, como ela disse, ali tinha uma sandália dessas de dedo.  Descobriu também uma bicicleta que os pneus estavam murchos além de um skate.  Isso ele sabia usar.

Ela o chamou para tomar café.  Depois o levou para o studio, varra tudo por aqui, tinha um pote cheio de pinceis sujos, ela lhe ensinou como limpar, como os deixar secando.  Tinha um bloco imenso num cavalete preso com uma pinças, o desenho de um homem, velho, cheio de rugas.
Ao lado uma foto de aonde estava tirando o desenho.   De um viagem a Marrocos que fui, a muitos anos atrás com meu marido, ele escrevia, eu pintava, ficamos mais ou menos 3 anos percorrendo o Pais, por isso tenho muitas fotos que estou usando agora.

Veja esse quadro, era uma garota, com um menino pendurado atrás, recolhendo ervas, muito bonito, a expressão da garota era de tristeza.  Quando comentou isso, rapidamente ela respondeu, a vida das mulheres nesse lugares é uma merda, estão desde criança fadadas a serem uma mulas de carga.   Os homens não fazem grande coisa, a maioria fica rezando ao Alah, tomando chá.

Quando ele acabou de limpar os pinceis, pediu que limpasse umas espátulas, tenho horror a fazer isso, com os anos piorou, explicou como se limpava, deixar de molho, ir raspando uma com a outra.

Olhe a geladeira, vê se consegue preparar algo de comida com o que tem.  Para mim pode tostar pão.

Ele olhou, procurou aonde cozinhar, preparou uma salada com o que tinha na geladeira, depois fez ovos fritos dois para cada um, tostou o pão.

Quando a chamou, teve que o fazer várias vezes, estava tão concentrada no que fazia que não via mais nada.

A chamou de perto, ela levou um susto, me esqueci de ti.

A comida vai esfriar.

Se sentaram para comer, disse que os ovos estavam como ela gostava, para molhar com o pão, me lembre de te dar dinheiro para comprar comida no supermercado, lhe explicou como ir.

Vou arrumar aquela bicicleta que está no quarto detrás.

Era do meu marido, creio que ao lado do supermercado tem um senhor que arruma. Ele sempre levava lá.

Lhe deu dinheiro, para compras, a bicicleta ele disse que tinha um pouco de dinheiro.  Foi andando até aonde ela tinha falado, deixou a bicicleta com o homem, que ia arrumar enquanto ele fazia compra.   Tinha olhado tudo que faltava na geladeira. Anotou mentalmente, não sabia escrever direito, ler sim, mas escrever tinha dificuldade.

Comprou com seu dinheiro, blocos de desenho, lápis de cor, um estojo de aquarela de criança, de tarde se sentou olhando o mar, foi desenhando, depois tentou usar a aquarela, ria como uma criança, porque ia fazendo por intuição, não notou que Melissa estava atrás dele olhando.

Não está mal, mas o papel não é apropriado para isso, espere, foi buscar um bloco especial para aquarela, lhe explicou como se fazia. Tens quer ser rápido, pois o papel absorve a tinta, precisas tentar colocar uma por cima da outra para dar certo, fez um exemplo para ele.  Entendeu?

Sim, vou experimentar, um pouco depois fazia numa velocidade boa para quem faz aquarela.

Ela ficou admirada com a destreza dele, foi ensinando ele a trabalhar.   No final de semana, se sentou depois de suas obrigações, observando os surfistas, pintando os mesmo, ia fazendo tirando a folha do Bloco para  secar, as vezes retornava a mesma para mais alguns detalhes.

Melissa estava encantada com o trabalho, lhe ensinou como fazer sua assinatura, com um pincel mais fino.  Podes fazer um M.B. junto o ano. Assim documentas que época pintaste isso.

Ele sorriu sem graça, disse para ela, na verdade não sei meu nome, pequei esse nome de um ator de cinema, abreviei para não ser igual ao dele, Porque para mim é difícil escrever o nome inteiro dele.

Não sabes escrever?

Muito mal, nunca ia a escola tempo demais, pois ou era abandonado, ou ia para outra família, algumas não me colocavam em nenhuma escola, queriam o dinheiro que o governo paga para elas.

Vamos resolver isso, vou arrumar uma professora para ti, mas tens que te aplicar.

Tinha uma vizinha na parte de trás, tão antiga como ela ali na praia, tinha sido professora, quando ele lhe quis pagar.        Disse que não cobrava, porque seria uma distração para ela, se aborrecia de não ter o que fazer.          Ficou pasma com a facilidade que ele tinha de aprender, misturada como desejo de saber mais.   Ensinou tudo o que pode para ele, inclusive matemática prática, de como conferir um troco, coisas assim.   Uma vez por semana ele fazia compras para ela nunca ficava com o troco, prestava contas exatas.  Melissa achava isso engraçado, porque os de sua idade, com certeza iriam ficar com o troco.

Sempre tirava tempo para andar de skate pela linha de praia, pois mais adiante havia uma avenida que na verdade não passavam carros, era como um passeio largo acompanhando a praia.

Depois se sentava ali na frente da casa, desenhando ou fazendo aquarelas, quanto teve uma boa quantidade, acompanhou Melissa a feira, ajudou a carregar a barraca que ela usava, a arrumar os quadros pequenos, o ensinou a colocar as aquarelas, num envelope, que um lado era transparente.  Resulta que no primeiro dia ele vendeu todos, gostavam da coisa do surf.

Para a próxima prepare mais, vou te ensinar a trabalhar com tinta acrílica, que pode ficar melhor, preparou das duas coisas, um dia ficou de boca aberta, ao longe apareceu um veleiro, ele foi desenhando a aproximação do mesmo, depois ficou na linha atrás dos surfistas.   Ele desenhou e pintou os dois juntos.

No dia da feira, foi vendendo, até que parou um casal na frente deles, dizendo olha nosso veleiro aqui, o rapaz nos acompanhou.  Era um homem alto, com uma mulher muito bonita, um rapaz da idade dele.  O  mesmo disse que o tinha visto desenhando na praia.

Não sabes fazer surf?

Não, mas gosto de olhar mais do que pensar em fazer.

Nos dias de feira de peixes, ia ficava anotando detalhes dos peixes, passou a ilustrar com eles seus desenhos.  Cada vez ia acrescentando mais coisas.

Os anos foram passando, quando acreditava que fazia 18 anos, já tinha aprendido a conduzir a caminhoneta de Melissa.  Mas precisa de documentos.

Um dia a viu remexendo umas gavetas, procurando documentos.  Até que achou.

Meu filho morreu no Marrocos, contraiu uma doença, nunca disse aqui que tinha morrido, que achas de usar o nome dele oficialmente.

Como era o nome dele?

Robert Montgomery, mas podes seguir usando esse de Mark Berg como se fosse teu nome artístico, fica melhor.

Foi com ele, tirar os documentos, meu filho precisa de seus documentos, para tirar carteira de motorista.  Atualizaram tudo, oficialmente ele era agora Robert Montgomery, além de filho da Melissa.

Agora ela a levava a todos os lados, um dia pediu para colocar na caminhoneta os quadros grandes que estava no studio.    Os embalou todos antes, depois entre um e outro, colocou lençóis velhos que ela usava para limpar pinceis.

Quando chegaram a San Francisco, ela tomou a direção, pois conhecia o caminho aonde iam.

Foram a uma galeria, que comprou todos os quadros dela.  Dali foram a um banco, ela abriu uma conta no nome dele, depositando tudo.  Assim se me acontece alguma coisa, estas coberto, depois ela foi a um advogado, lhe mostrou ali perto uma loja de material de pintura, os alunos de Belas Artes, compram ali.  Leva meu cartão de artista, diga que é uma encomenda para mim, olhe o que queiras, assim podes seguir pintando. Ele fez todas as encomendas dela, foram dormir num hotel, ela se registrou com seu nome, o apresentou como seu filho.

No dia seguinte foram visitar um museu, que ela queria mostrar umas obras suas antigas, que vais gostar, são de uma época que pensava diferente.

Tinha um muito grande, ele ficou sentando num banco mais atrás admirando.  Te sentias exuberante não é, qual idade tinhas.

Quando ela disse, ele sorriu, estavas solteira e apaixonada, não é verdade.

Sim, mas era por outro homem, o verdadeiro pai de meu filho, me abandonou no dia que ele nasceu, disse que não tinha madeira para ser pai. 

Mas quando me casei, meu marido adotou meu filho.    Infelizmente ele não viveu muito, tinha uma saúde frágil, no Marrocos contraiu uma doença normal ali nas crianças, mas não resistiu.

Agora que falas nisso, quando eu morrer levas minhas cinzas para enterrar com ele, vou deixar escrito aonde ok.   Foi em Fez uma das antigas capitais do pais.  Foi lhe falando da cidade, da sua cor, do Zocco, era como se ele estivesse vendo, eram tantos os detalhes que ele ficou com a cabeça cheia.   Em casa tenho uma serie de fotografias de lá, depois te mostro.

Agora dava aulas para ele de pintura a óleo, lhe foi aumentando o tamanho dos quadros, em breve os dois dividiam o studio.

Um ano depois, estava trabalhando, quando olhou para ela, estava sentada, sem se mover, ficou assustado, chamou uma ambulância como tinha aprendido fazer.  Eles a levaram para o hospital, ela tinha tido um pequeno enfarte, mas em consequência disso passou a ter os movimentos complicados, ficava horas sentada na varanda, as vezes a via falando com alguém.             Um dia perguntou com quem falava.   Com meu marido, com meu filho, amigos que já partiram.  Explicou a ele o que deveria fazer se ela morresse, quero ser cremada, nada de missas ou qualquer outra coisa.  Lhe entregou um cartão, chames imediatamente esse advogado. Se for num final de semana, chame esse outro número que é o seu particular.   Escreveu num papel tudo como queria.

Ele pediu se ela podia posar para ele, fez um quadro grande dela sentada numa cadeira da varanda dessas trançadas, com um vestido florido que tinha, com seus imensos cabelos brancos soltos pelos ombros.    Ele pensou que não conseguiria, mas ela ficou emocionada ao se ver através dos olhos dele.

Está perfeito meu filho, agora só o chamava assim, nunca podia imaginar que herdasses de mim o talento, as vezes confundia realmente ele com o filho que tinha tido, o chamando inclusive de Robert ou Bob.

Os da galeria vieram visita-la, ela pediu para ele mostrar todos os quadros que tinha feito do Marrocos a partir das fotografias dela.   Parece como se estivesses lá, ela teimou dizendo que seu filho tinha estado lá com ela.  Ele tinha escutado ela falando de cada fotografia com tanta paixão, que sentia isso ao pintar.

Ficaram interessados em fazer sua primeira exposição.  Quiseram lhe oferecer um contrato, ela telefonou ao advogado que mandou um rapaz recolher o contrato para ver.   Disse ao Robert pois o conheciam assim, que não assinasse nada, que fosse sempre livre.

Marcaram a exposição, parecia que era ela que ia expor, foram juntos para San Francisco, ele disse como era para colocar os quadros, disse para escreverem ao lado a história, ela ditou a uma secretária o que devia escrever.  Ele tinha pintado suas memorias.  Ela nunca tinha pintado nada de lá, porque lhe lembrava o filho.   Agora que ele voltou, eu amo isso.

Na inauguração, estava sentada num cadeirão como num trono, falando com as pessoas, os que a conheciam murmuravam, como esse reencontro com o filho lhe fez bem, está menos agressiva.

Venderam 90 por cento dos quadros, saiu matéria no jornal.   Ele só não quis vender o quadro grande dela.

Semanas depois morreu dormindo, com um sorriso nos lábios, ele pensou ela encontrou com o marido e o filho.   Avisou o advogado, ela deixou uma serie de coisas para serem feitas, não tenho experiencia nenhuma nisso.

Um deles veio, providenciou tudo, como ela queria ser cremada, num caixão simples de pinho, com a mesma roupa do quadro.  Que ele levasse suas cinzas para Fez, tinha uma indicação, tumulo número 97.

Ele devia depois escutar a leitura do testamento.

Perguntou que é um testamento.  O advogado lhe explicou.

Foi até lá com o coração apertado, teria que deixar a casa aonde tinha sido tão feliz, tinha aprendido uma nova profissão ali.  Agora tinha dinheiro no banco, não só o que ela tinha depositado, bem como o da sua própria exposição, numa das vezes que foi ao centro da cidade depositou o dinheiro que tinha escondido, não tinha usado quase nada.

Estranhou, pois pensou que teria mais gente para escutar o que o advogado ia falar.

Eres como seu filho o único benificiário de seu testamento, ela te deixa tudo, a casa, o dinheiro que tinha no banco, bem, como a caminhoneta.  Deixou uma carta para ti também.

Voltou para casa, agora era dono de uma, depois iria ao banco, se sentou na varanda para ler a carta.

Meu querido Bob,

No dia que te vi na loja, primeiro levei um susto, eras parecido ao meu filho, tinha a mesma cor de pele dele, dos olhos, esses teus cabelos que estavam tão sujos.

Quando te vi desenhando pela primeira vez, pensei meu filho vive nesse garoto, passei a te amar como se fosse ele, tratei de te ensinar tudo que sei, pois tenho certeza que serás melhor do que eu fui.

Eres rápido desenhando, eu sempre fui lenta, por isso fazia fotografias.

Encheste meu final de vida, que não podia ser melhor, te deixo o meu studio, tudo o que possa possuir, só te peço aquilo que te disse, leve minhas cinzas para perto do meu filho.

Um beijo nesse teu coração imenso.    Melissa.

Ele ficou ali na varanda, tinha realmente perdido a mãe que nunca tinha tido,  olhava agora o por do sol, com que esperando que ela viesse se sentar ao seu lado.   Continuava dormindo no quarto detrás.

Nunca tinha subido ao andar de cima, era somente dela.

Foi uma surpresa, encontrou quadros dela quando jovem, fotos imensa dela, sentada como no quadro que ele tinha pintado.  Ela o marido, o filho, esse realmente se parecia com ele.

Quando recebeu as cinzas, procurou saber como devia fazer para ir até Fez.  Dali não havia voos diretos, na agência de viagem lhe aconselharam ir até Londres, de lá a Casablanca, alugar um carro, ir a Fez.    Lhe arrumaram um Riad para se hospedar.  Lhe explicaram que a maioria falava francês, mas alguns falavam inglês.

Conseguiu uma licença para levar as cinzas, dentro de uma maleta de mão.  Fez um voo San Diego, Londres, de lá outro até Casablanca, eram muitas horas de voos para quem nunca nem tinha subido num avião,   Arrumou um hotel, perto da praia para se hospedar.  Ficou dois dias ali, sentando olhando o mar, estava guardando tudo na sua cabeça.   Mas no segundo dia, saiu com seu bloco de desenho, sentou-se no cais, começou a desenhar tudo, as crianças vinha ficar perto dele.  Ele lhes dava uma moeda, ela se sentavam quietas para que ele as desenhassem, ficavam impressionada com a rapidez com que ele desenhava.  Alguns realmente posavam, gostavam de fazer isso.

Falavam com ele em sua língua, era como se ele as entendesse.

No dia seguinte recolheu o carro comprou um guia, conversou numa agencia de viagem, que lhe fizessem um roteiro,  iria primeiro a Fez para cumprir sua obrigação,  depois iria devagar aos lugares que lhe interessavam.

Lhe traçaram um roteiro.   Iria direto a Fez, aonde tinha o Riad reservado, de lá na volta iria visitar umas ruinas romanas, entre Fez  e Mequinez,  lhe disseram o que visitar lá.  Foram reservando para ele todos os Riad.  Voltaria a Casablanca, de lá iria bordeando o mar até Esauíra, lá ficaria 10 dias num Riad, depois iria a Marrakesh, a Uazazate, voltaria a Marrakesh, Casablanca, por último se ele decidisse a Rabat, mas lhe disseram era francesa demais.

Levou três meses fazendo esse viagem, a quantidade de blocos de desenhos que comprou era imensa, caixas de lápis de cor, outra quantidade, ainda material para aquarela.  Em alguns lugares dormiu no furgão que tinha alugado, em praias, em aldeias de pescadores, aonde parava para conversar, desenhar.   Estavam acostumados com turistas que faziam fotos, mas que desenhasse não. Ainda mais que tinha a mesma cor que eles, deixou os cabelos crescerem, estava sempre com um turbante em volta da cabeça, como eles usavam.  Sem sentir foi aprendendo a falar, a entender o que lhe diziam.  Em Esauíra, se deliciou desenhando, fazendo aquarela dos barcos, de uma praia cheia de surfistas.  Um deles inglês, lhe perguntou se queria fazer sexo, pensando que ele era dali.  Quando disse que era americano, ficou olhando para ele, nesse dia ele se questionou, porque nunca se interessava em fazer sexo.  Talvez pelo que tinha sofrido, não sabia explicar.

Em Marrakesh, fez a mesma coisa, entrou nos palacios que podia se visitar, desenhou os pátios, contratou um guia que o levou aonde ele tinha pedido.  Foi visitar a casa Majorelle que pertencia ao YSL, passou horas ali desenhando, bem como La Cotovia uma torre impressionante de uma mesquita. Visitou também La Menara, um belo lugar, mas sua paixão pelas cores o levou mudar toda sua viagem, em Uazazate.  Ficou conhecido por lá, passava os dias pelas ruas estreitas, desenhando as mulheres com ruas roupas coloridas, bem como os homens com seus turbantes, anotava detalhes de portas de madeira, bem como lâmpadas.   Comprou tapetes de Lã para levar para a casa da praia.  Voltou a Marrakesh, mas só dormiu uma noite, foi para Casablanca, conseguiu despachar tudo que tinha comprado, que lhe aguardasse no aeroporto de San Diego.  Mesmo assim pagou um excesso pelos seus cadernos de desenhos.  Quando desembarcou em Londres, uma aeromoça lhe chamou atenção pois estava de turbante, cuidado pode complicar sua entrada.    Claro ele estava de barba grande,  cabelos imensos, chamava muita atenção.  Mudou de roupa no banheiro do aeroporto, seguiu para San Diego.  Alugou um furgão tinha se acostumado a usar um.  Levou horas para liberar tudo que era seu que estava no aeroporto como coisas despachadas.  Só o seu material, eram duas caixas de cadernos.

Avisou o Advogado que já estava de volta, contou como tinha sido emocionante, encontrar o que ela tinha lhe pedido.  Tinha feito inclusive um desenho baseado na fotografia que tinha encontrado no andar de cima, o tumulo, o jarro com sua cinzas, ela junto como filho como na fotografia.

Os da galeria queriam ver todo material que ele tinha trazido.  Os convidou para passarem o final de semana, pois era um casal gay, lhe cedeu o quarto dela. Que estava igual. Os deixou foleando horas e horas todo os cadernos.

Disse que faria por sequência da viagem.  Que pensavam em arrumar o studio primeiro, depois começaria a trabalhar.  

Os dois comentaram com ele, que nessa viagem ele tinha deixado de ser um garoto, para ser um homem diferente.                  Lhes contou o que tinha acontecido com o Surfista em Esauíra, da confusão que o rapaz tinha feito.

Porque não ficaste quieto, aproveitavas fazia sexo com ele.

Isso queria falar com vocês, tenho confiança para isso, fui tão abusado em criança, que não me sinto a vontade, nem com vontade de fazer sexo.  Pode me aconselhar um psicólogo para que eu possa conversar, terei que ir a San Francisco.   Assim converso com um.

Aqui mesmo vive um amigo nosso, já tem uns cinquenta anos, mas é uma pessoa agradável, telefonaram para ele, este foi até a casa.  Ficaram andando na praia, ele contou mais ou menos o que tinha acontecido, os primeiros abusos que tinha sofrido nas casas de acolhida.

O Cristóbal, disse que tinha encontrado um lugar incrível para conversarem, podia usar sua varanda.

Estiveram ali sentados conversando muito tempo.  Falou da viagem que tinha feito ao Marrocos, a emoção que tinha sentido, cumprindo os sonhos de sua mãe postiça, na praia, quando perguntaram se queria fazer sexo, que se deu conta que não pensava no assunto.

Evidentemente estás te protegendo a muito tempo dessas recordações,  quando chegaste aqui encontraste um lar, um oásis para descansar.  Seguiram falando vários dias.

Um dia Cristóbal chegou o encontrou colocando na tela um desenho, perguntou de aonde era?

Fez, Marrocos, aonde estive como te contei.  Estive andando pela Judiaria de lá, vi esse símbolo numa sinagoga antiga, pegada ao cemitério. 

Minha família esteve por lá, contou o Cristóbal, meu filho acaba de retornar de uma viagem que fez a España, buscando a origem dos nossos antepassados, foram expulsos primeiro de Castilla, foram para Granada, finalmente atravessaram o estreito, viveram em Fez, para ele foi muito importante isso.  Ele encontrou um diário de meu bisavô, quando veio para América, aqui foi interessante o mesmo deixou de acreditar em qualquer deus, nunca mais praticou nada, nem o Sabbat, nem circuncisão dos filhos nada. Meu pai tampouco, sabia que era judeu, mas isso não lhe importava, o meu filho ao contrário, necessitava depois de ler o diário, refazer o trajeto do avô, inclusive fala o dialeto Sefardita, bem como o Árabe.   Como te entedias por lá.

Foi interessante, pois ao final eu os entendi. Aonde ia estava cercado de garotos, eles falavam sem parar, só faziam silencio quando me viam desenhando.  Em Uazazate, aluguei um burro, para levar cavaletes, meu material, para desenhar a cidade por fora, me acompanhavam o tempo todo, espera.

Procurou um desenho que tinha feito, dos meninos cercando o burro, tomando banho num riacho ali.   Fiz esse auto retrato também, ele no meio da garotada.   Um dia no Riad, me olhando no espelho, com turbante, roupas dali, me fiz um autorretrato assim também, sempre me parecia mais um deles.       Os velhos também me recebiam bem, pois era educado, antes de desenha-los, perguntava se podia.  Oferecia chá para eles, eles achavam graça dos garotos me seguirem.   Dizia que eu os estava ensinando a serem respeitosos com os mais velhos.

Posso trazer meu filho aqui?

Claro que sim, não tenho amigos da minha idade, as vezes o filho do vizinho vem de férias, mas como faz surf o tempo todo quase não o vejo.    No último verão veio acompanhado de um amigo da universidade, fez que não me conhecia.

Essa coisa dos preconceitos já conheço de longa data, quando era mais jovem me incomodavam, um dia perguntei a Melissa, ela disse que todos não passavam de uns tontos porque tinham dinheiro.

Dias depois ele apareceu com o filho, estava justamente pintando um homem do Zocco de Fez, sentado em sua pequena loja de telas de lã.   Tinha lhe encomendado um traje, um casaco que o homem tinha costurado tudo a mão, numa velocidade espantosa.   Esse seria o seguinte quadro.

O filho era mais moreno que o pai, talvez pelo sol da praia.  Joseph estendeu mão, que maravilha teu trabalho. Eu atravessei o estreito, para ir a Tanger, aonde se perde a pista da família, para aparecer mais tarde aqui.

Na sinagoga de Fez, tem uma lista de pessoas que habitavam ali, pode ser que consiga alguma informação, a dona do Riad, era uma Francesa, Judia segundo ela, tinha se casado com um árabe marroquino, por isso vivia lá.   Te dou o telefone, pede para ela verificar.

Ficaram conversando um tempo, perguntou se podia voltar no final do dia para seguirem conversando.  

Lhe disse a hora que costumava parar para ficar olhando o pôr do sol.

Na hora exata, ele tinha acabado de tomar banho, estava com os cabelos molhados, como um cachorro, o outro riu, fazendo a comparação, balançou a cabeça, o molhando, pediu desculpas.

Foi buscar Coca-Cola, ele seguia sem gostar de bebida alcoólica. Joseph perguntou porque, não sei talvez da minha infância, quando via gente drogada ou alcoolizada, peguei pavor de me imaginar assim.

Agora ele vinha todo dia conversar.  Lhe falava de Sevilla, Córdoba, Granada, aonde tinha estado na España, buscando fontes de referência da família.

Acho interessante meu pai nunca se interessar por isso, mas creio que foi sua educação, ele disse que leu o diário do bisavô, como se fosse um romance.

Cada um na verdade tem uma maneira de reagir.  Eu só comecei a me questionar minha sexualidade, quando me confundiram com um marroquino, me perguntando se queria fazer sexo.  Quando respondi em inglês, que era americano, desistiram no ato.

Levo tanto tempo embutido nessa capa de proteção que nem sei como será o dia que me interesse por alguém.

O outro ria, eu ao contrário, imagina, queria descobrir de aonde tinha saído, quando cheguei na España, era um gringo, todos queriam fazer sexo comigo.  Os olhava, meu interesse era outro, quando perguntava se tinham alguma ascendência Moura, como eles chama os árabes, mudavam de assunto no ato.

Também tinha colocado minha sexualidade a parte.   Me questionava coisas que mais tarde quando estendi minha viagem a Israel entendi.   Agora os Gays de lá são mais livres, mas antes estavam dentro de um armário a sete chaves.    Mas realmente sou como tu, necessito de tempo para me interessar, me tornar amigo pelo menos.    Acredito sempre nisso, que há que ter uma amizade também nesse relacionamento, não pode ser só sexo, pois este acaba, o que fica é a amizade.

Vinha ver todos os dias seus trabalhos, viu o desenho do seu autorretrato, soltou que ele ficava super interessante vestido assim.  Se fosse contigo para cama, ia pedir que colocasse um turbante.  Ficaram rindo.

Se queres posso colocar, não sei por que fiquei excitado.

O levou para seu quarto no fundo da casa. 

Joseph perguntou se esse era seu quarto apenas para fazer sexo?

Olha podia ter-me mudado para o quarto da Melissa, mas para mim é um santuário, gosto de continuar vivendo aqui.  É simples não preciso de muita coisa, tirei sim a estante aonde tinha o fogão, coloquei um tapete de lã que comprei por lá,  um cadeirão para ler as vezes que não tenho sono.  Nunca pensei em me mudar para a casa.  Lá está a cozinha, o meu studio, raramente subo para o quarto que tem lá em cima.

Ficaram um longo tempo se beijando, conversando, até que realmente partiram para o sexo, foram se explorando devagar, quando chegaram ao clímax os dois ao mesmo tempo, foi ótimo.

Agora vinha dormir todos os dias com ele, meu pai outro dia me abordou, estando preocupado por ti, não por mim.  Lhe contei como levamos a coisa.  Ficou mais relaxado.

Buscou para saber como era as roupas safardi, mas fazia quando ele não estava, sempre cobria a tela com um lençol velho.  Até que terminou.  O deixou ali a mostra,  Joseph entrou, esteve falando por celular com alguém, até que se deu conta do quadro.  Parou de falar, ficou com a boca aberta.  Se aproximou dele, o abraçou.    Incrível isso.  Quero ele para mim.

É um presente para ti, pelos momentos maravilhosos que temos passados juntos.

Tenho uma má notícia, me chamaram para dar aulas na Universidade em San Diego, estaremos mais afastado.

Eu entendo, deves ir, estás a tanto tempo esperando essa oportunidade, que deve ir.

Mas, nós dois?

Venhas quando queira, sabes que eu sentirei tua falta,  mas os caminhos são assim, tua vida profissional tem que ter importância, a quanto tempo estas esperando essa oportunidade.

Já perdi a conta, se não aceito, será mais difícil sair outra.

Então, se podes escapar para os finais de semana, afinal não estamos tão longe.

Passavam o final de semana juntos, até que um dia Joseph lhe disse que tinha conhecido um professor, que lhe interessava.

Conversaram a respeito, se despediram como amigos que sempre tinham sido.

Realmente sentia falta dele, principalmente para ter com quem falar.

Quando tinha uma boa quantidade de quadros, avisou os da galeria, que vieram como loucos para ver, estamos esperando a muito tempo essa oportunidade.

Estavam maravilhados com o que tinha feito, a única concessão de avanço, tinha desenhado dois quadros grandes, com os barcos de Esauíra.   Eles queriam fazer dois catálogos, um com os desenhos, outro com a pintura.  Eram tantos os desenhos, que esse seria o número um, só com Casablanca, Fez, algo de Esauíra,   Um dos primeiros grandes de  Uazazate, uma panorâmica da cidade que ficaria no final da Galeria.

Esperaram os catálogos ficarem prontos, começaram a divulgação, foi entrevistado pela televisão, contou o que tinha ido fazer lá, não disse que o rapaz de quem levava o nome estava enterrado lá.   Expos o desenho de Melissa com o filho, mas este não estava a venda.

Antes mesmo, recebeu um convite para expor em NYC, pela primeira vez.

Os quadros estavam vendidos, agora levavam o nome dos compradores que emprestavam os mesmos.   Mesmo assim como a galeria era maior, preparou mais 10 quadros imensos, o dos garotos, ele com o burro, foi vendido rapidamente para um museu.   Os outros, as mulheres carregando agua,  os velhos na frente da sinagoga, todos vendidos, eram imensos todos.

A capa do catálogo de NYC, era seu autorretrato de árabe.  O de desenho, já tinha esgotado a primeira edição, agora estava na segunda.

Na de San Francisco, Joseph apareceu com seu pai, além de seu namorado, imediatamente não gostou do sujeito, mas não comentou nada, achava que era porque estava com ciúmes.

Antes de ir para NYC, Joseph apareceu para conversar, o viu com uma cara de fazer pena, mais uma vez me enganei, meu pai quando o conheceu, disse que não confiava nele, eu fiz ouvidos surdos, me dei mal.

Lastima que vou para NYC amanhã, senão iriamos conversar muito a respeito disso.   Joseph perguntou se tinha conhecido alguém.

A verdade, verdade é que não tinha muito trabalho, tampouco saio tanto para conhecer gente.

Em NYC, foi uma roda viva de entrevistas para jornais, televisão, as perguntas as vezes eram cretinas, ele não respondia, só dizia a seguinte.   Uma entrevistadora lhe perguntou por que fazia isso.

Porque as perguntas são cretinas, não gosto de perder meu tempo falando besteiras.  Se me perguntas algo interessante respondo.

Esteve contente, mas louco para voltar para seu atelier, queria seguir trabalhando, tinha uma outra viagem em mente.   Mas ainda lhe faltava muito para acabar.

Seria como uma segunda exposição sobre o mesmo tema.  Agora o catalogo era sobre Marrakesh, Uazazate, as marinhas com os barcos, eram imensas, sempre com surfistas misturados,  um dos quadros lhe deu trabalho, pois tinha mais de dois metros, eram os barcos chegando as pessoas ajudando a traze-lo até a praia, fazendo uma fila imensa, puxando a corda, num desses, se colocou junto.  Fez um auto retrato dele de peito nu, com turbante colorido que usava nesse dia, ajudando os homens a arrastarem o barco.  Depois ao lado retratos de todos eles, assim sem camisetas, com panos na cabeça, alguns com uma caixa de peixes na cabeça, os peixes como que saltando da mesma.   Os garotos na praia, querendo aprender surf, fazendo com pedaços de madeira.   Revendo todos os desenhos, riu, pois tinha sido feliz ali, bem como Uazazate, pois tinha sido considerado um deles.  Isso que não usava todos os desenhos, pois eram muitos.

Tinha também muitas paisagens das ruas estreitas de Uazazate, a cor da terra subindo pelas paredes, alguns velhos sentado na porta de suas casas, com quem tinha parado para desenhar e conversar.

Quando tudo ficou pronto, estava exausto, pois se levantava as vezes a seis da manhã, porque a imagem esta ali em sua cabeça viva, querendo sair.

Um dos críticos comentou justamente isso, que seus personagens estavam tão vivos que ele não estranharia que se levantassem, saíssem andando dos quadros.

Lhe convidaram para sair, para conhecer a cidade, foram jantar, não conhecia direito o grupo, um deles lhe disse, não entende as indiretas não?

Indiretas, não sei do que falas.

Estão todos se oferecendo para ti, é como se nada, contínuas na tua.

Desculpe não estou acostumado a conviver, passo muito tempo no studio, gosto de coisas simples.  

Para complicar o arrastaram para uma discoteca, primeiro ficou surdo com tanto barulho, não bebia, viu que todos fumavam erva.  Foi saindo de fininho, na rua parou para respirar, um homem ficou rindo.   Se vê que não gosta de ambientes assim, eu tampouco, fui arrastado por um grupo de amigos.

Vim ver uma exposição, amanhã, de um artista que gosto muito, ele me faz lembrar o tempo mais feliz de minha vida, quando vivi no Marrocos.

Estas brincando comigo, não é?

Não, porque ia brincar contigo, era um tipo completamente diferente, barba grande, cabelos como o dele compridos, mas ruivos misturado com branco.  Eu vivo basicamente perto do mar, venho raramente a cidade, tenho apartamento aqui, mas desde que fui viver em Fire Island, deixe de vir a cidade.   Aproveito a paz para escrever.  Como sabem que vivi muitos anos no Marrocos pediram para que eu escrevesse sobre o assunto no Times, inclusive amanhã tenho uma entrevista com o rapaz.

Ficaram conversando, foram tomar um refrigerante ali perto.  Ele se identificou como Thomas Brookmaster, escrevi vários livros sobre o Marrocos, agora escrevo romances.

Tu com te chamas?

Robert Montgomery.  Não disse o nome que usava para assinar os quadros.

Quer vir até minha casa, ou preferes que marquemos alguma coisa amanhã?

Prefiro amanhã depois que tenhas tua entrevista.  Aonde vai ser?

Na Galeria, ira um fotografo, vou entrevistar o rapaz.

Se lembrou disso, que tinham lhe pedido que colocasse o turbante, para a entrevista.

O levou até seu hotel, antes que ele entrasse, posso pedir um beijo de boa noite?

Sim claro, trocaram número de celular, amanhã nos falamos.

Achou interessante o homem lhe interessar, afinal era um tipo diferente, relaxado na maneira de vestir, como ele, viu que tinham algo em comum.

No dia seguinte se vestiu como sempre, nem notou que a camiseta estava suja na parte de baixo de manchas de tinta, nunca dava muita importância para isso.   Como fazia frio, colocou o casaco que tinham feito para ele em Fez, bem como um pano em volta do pescoço, se lhe pedisse, colocaria na cabeça.

Foi para a galeria, atendeu a primeira entrevista, numa sala a parte, posou para as fotos, voltou para sala para descansar, 15 minutos depois lhe anunciaram o Thomas, ficou de costa para a janela, esperou que entrasse, então se virou.

O que fazes aqui? Foi sua pergunta.

Sou Mark Berg, o pintor que vais entrevistar, mas também me chamo Robert Montgomery, uma larga história.

Ficaram os dois rindo, o fotografo não entendia nada. Quando esse pediu que pusesse o pano na cabeça como turbante, lhe perguntou sério.  Tens certeza disso, o uso com orgulho, porque me sentia um deles, mas fazer pose de uma coisa tradicional, me parece fútil, desagradável.

As perguntas era sérias.   Como sabia dos lugares aonde tinha estado, falou o que tinha se sentido em cada um.   Mas te confesso que talvez tenha sido Uazazate, aonde me senti em casa, me receberam como um igual, talvez a cor da minha pele, ou minha postura, estão acostumados com turistas que vem fazem uma fotografia, ou um selfie, que esta mais de moda, vai embora em seguida, ou fica fechado dentro de um Riad, porque acha bonito.

Eu me levantava cedo, pois gostava de pegar a luz da manhã, para fazer aquarelas, desenhar, venha, foram a sala de exposição, apesar de ser um auto retrato, pois não fiz baseado em fotografia, mas sim num desenho, os meninos me acompanhavam o dia inteiro para  me ver trabalhar.  Conversava com ele, numa mistura de língua ou sinais.  Se riam muito comigo, como eu com eles.     Os velhos, ah, com esses tens que ser respeitoso, mas isso me ensinou minha mãe Melissa.  Ela tinha vivido um tempo por lá, então estava sempre falando.  Eu fui na verdade levar suas cinzas para deixar no cemitério de Fez.  Foi uma das coisas mais emocionantes da minha vida.   Tinha uma ideia, mas pensei que não aguentaria ficar três meses por lá.  Agora não consigo tirar isso da cabeça.  Se eu quisesse ainda faria outra tanda de  quadros, os tenho dentro de minha cabeça.  Tomei consciência de que tinha sido os melhores momentos da minha vida.  Talvez volte, depois entre por cima no Senegal, mas dizem que é perigoso.

De uma certa maneira quero me adentrar na arte negra.

A cada pergunta do Thomas que estava gravando, ao mesmo tempo que um dos homens que lhe acompanhavam faziam um vídeo.

O que fazia o vídeo lhe perguntou se não tinha relacionamentos, nem família.

Não tenho ninguém na minha vida, como desde da morte de Melissa, não tenho família, ela foi o melhor que aconteceu na minha vida, me ensinou a pintar, quando observou que eu tinha um certo talento.  

O mesmo fez outra pergunta, alguém ventilou que você continua dormindo num quarto pequeno atrás da casa, quem falou sobre isso, disse que ganhaste muito dinheiro, mas continua vivendo como se não tivesse, agora mesmo, se nota que sua camiseta está suja de tinta.

Primeiro claro que esta suja, sou um pintor, não vou me vestir uma roupa nova porque estou dando uma entrevista. A única coisa nova aqui é esse casaco que esta aí, mostrou o casaco numa poltrona.  Gostei como costuravam em Fez, a mão, se tens o catálogo de desenhos, verá dois, um eram os movimentos da mão do homem, que o fazia numa velocidade incrível.                Outra porque foi feito com amor pela sua profissão.                    Isso eu sempre respeito, mas não vou te responder, eu gosto da minha vida como esta.   Talvez o fato de dormir no pequeno quarto, me faça ter os pés no chão, me lembrar quem sou, de aonde sai         .  Isso é só meu, está guardado dentro de mim.

O homem ia fazer outra pergunta, mas Thomas lhe cortou, lhe perguntando se tinha feito contato com o mundo intelectual do pais.

Na verdade não Thomas, sou tímido, creio que prefiro estar entre a gente do povo, pois eu sai daí,  aprendi a escrever tarde, a ler, leio os livros velhos que  Melissa tinha em casa, li o que ela tinha sobre Marrocos antes de ir.      Imagina, nunca tinha viajado de avião, lá aluguei um furgão para andar pelo pais.  Dormi em praias, algumas vezes em Riad, uns bons outros nem tanto.

Gostei por exemplo que vi em Esauíra, de todos ajudando o barcos chegarem à areia, a descarregar os peixes, mas sempre com cuidado como se fosse seu.            Isso não vemos aqui, todos querem saber até a cor da merda que fazes.   Com quem vais para a cama, ou quem te incomoda, então vamos falar mal da pessoa.

Vivo numa casa velha, que era de minha mãe, continuo pintando no atelier que era o seu,  de vez em quando encontro algum tubo de tinta esquecido por ela em algum lugar.      Por isso não vou embora.            No verão a coisa fica mais complicada, pois a praia está cheia, nunca fecho a porta, as pessoas entram para olhar o que estou fazendo.   Como comecei pintando surfistas, me perguntam por que agora retrato essa gente feia.    Tento ser educado, para não dizer, não te olhaste ainda no espelho.   Outros querem encomendar um retrato, lhes digo que não faço isso, ao menos que o rosto da pessoa me diga algo.

O dono da galeria fez um sinal, dando por acabada a entrevista.

Mark, Robert, foi um imenso prazer em te conhecer.  Queres jantar comigo essa noite?

Sim, mas vou embora amanhã, sinto saudade de ver o mar.

Foram jantar, ontem parecias duvidar que eu não te conhecia, nunca tinha visto uma foto tua, as únicas que me mandaram era as que estavas com turbante.  Ficas diferente, gosto também como falas, sem problema nenhum de ser franco.

Depois foram andando pela ruas sem rumo, até que Thomas lhe disse, vivo ali, mostrou um edifício antigo, queres subir?

Foi como entrar num mundo caótico, cheio de mascaras, coisas dos países por aonde ele tinha andado.

Se aproximou, aquele beijo de ontem a noite só me deu vontade de dar mais beijos.  Aviso não tenho ninguém, vivo sozinho como tu, adoro minha solidão para escrever.

Estavam nus em cima de uma cama, me senti atraído por ti, na hora que te vi na discoteca, tinhas uma cara de chateado por estar ali, bem como eu, houve uma época que eu necessitava dessa musica no último volume, para abafar o que tinha na cabeça.   Mas hoje o silencio para mim é importante.   Ficaram juntos a noite inteira.

De manhã, ele se despediu, tinha que passar no hotel, para pegar sua bagagem, para ir para o aeroporto. 

Não se preocupe eu te levo.  Quero que tenhas meu endereço, pois se queres estar de novo comigo, como eu quero o teu, caso tenha vontade de ir te ver.

O levou ao hotel, depois ao aeroporto, se despediram com um beijo.  Assim que tiver o texto te mando uma cópia.

Uma semana depois recebeu um envelope daqueles antigos pardos, dentro estava o texto que ele tinha escrito.

Começava, tive a oportunidade de conhecer um grande artista, que retrata a terra que amo, fui esperando encontrar alguma brecha na sua história, mas esse homem, é fiel à si mesmo, vive como quer, sem se importar com o glamour de ser o pintor da moda.  Foi criado por uma mulher que não conheci, mas que sei que pensava da mesma maneira.

Posso dizer abertamente que me apaixonei por essa pessoa.   Quando vês em seus retratos, os personagens saindo do mesmo, parecem ter a intensão de falar alguma coisa, de se expressar seus sentimentos, tens realmente a ideia de que esse homem captou tudo.   Pelo que sei, não faz fotografias, ficou dias convivendo com essas pessoas desenhando cada expressão.  Espero que um dia me receba em seu atelier.  As fotos que acompanhavam, era ele ao lado dos quadros que Thomas mais tinha gostado.    O melhor era ele na frente do quadro com os meninos, o burro.  Embaixo, estava escrito, isso diz tudo dessa pessoa.

Lhe chamou, não atendeu, meia hora depois, ele lhe chamou, perdão, não tenho o hábito de levar o celular nos meus passeios pela praia.

Ficaram conversando.  Num rompante lhe perguntou por que não vinha passar uns dias com ele.    Dois dias depois estava trabalhando, ainda tinha ideias sobre Marrocos, estava pintando uma sinagoga de Fez que tinha entrado, era cheio de detalhes, um único homem com uma chilaba branca, estava lavando seus pés para entrar na sinagoga, ele tinha ficado impressionado com isso, estava acostumado a ver as pessoas colocarem suas melhores roupas, para irem a igreja.   Esse homem estava com a roupa do dia a dia, mas tinha lavado suas mãos, seus pés, o rosto, o braço.

Sentiu uma sombra na porta, Thomas, com a bagagem no chão encostado olhando para ele, senti que falavas com esse homem.

Estava pensando no respeito que tem pela oração, eu não acredito em Deus ou Deuses, mas admiro quem tenha uma fé assim.

Correu para ele, se abraçaram.   Então aqui é teu pequeno paraíso.  Levou as coisas dele para seu quarto, depois foram se sentar na cozinha para conversarem.   Num determinado momento ficou quieto, se levantou, foi para a varanda.

Isso  é a minha reza diária, me sentar aqui, como sempre fizemos, olhando o mar, deixando que a nossa cabeça, flutuasse além do horizonte.

Ficou ali de mãos dadas com o Thomas.

Este foi ficando, entendia agora o que ele dizia, ele realmente podia escrever sem ser perturbado, podia passar dias até que aparecesse alguém pela porta.   O observava agora uma pintura que fazia, era as mulheres subindo uma rua, em fila, cada uma com um alguidar de  barro na cabeça, com água para suas casas.  Algumas eram crianças ainda.

Ficava sempre de boca aberta, com sua concentração total, a sensação que tinha tido no primeiro dia, era a mesma, ele estava falando com essas pessoas.

Nesse dia ao olharem o por do Sol, contou o relacionamento que tinha tido com o Joseph, o que este tinha ido buscar do passado de sua família Sefardita, pensei em fazer isso, ir a España.

Sevilla, Córdoba, Granada, depois cruzar o estreito, entrar por Tanger, Tetúan, Rabat, depois descer outra vez, indo para Uazazate.   Desta vez quero aproveitar, vou levar para esses meninos, lápis, cadernos, passar um bom tempo por lá, me impregnando de tudo isso.

Thomas o ficou olhando, creio que vais precisar de um companheiro, para irem trocando a direção da Motorhome que fores alugar. 

Ele riu, estava mesmo pensando em comprar uma, depois vender antes de voltar.

Queres realmente ir comigo.  Levo o mínimo de bagagem, mas material muito para poder desenhar, pintar, essas coisas.  Que precisas tu?

Meu laptop, o amor de minha vida, alguma coisa de roupa, porque gosto de estar nu com ele.

Desfrutaram muito, porque agora um chamava a atenção do outro para algum detalhe, o mais interessante foi um dia que estavam os dois na praia, em Casablanca, prontos para adentrarem rumo a Uazazate, quando um rapaz parou na frente de Mark, voltaste, eu sabia que um dia voltaria,  era um dos meninos do quadro.

Que fazes aqui tão longe de casa.   Estou trabalhando na construção, mas é o que me toca, não tenho muitos estudos.   Gostaria, pensei que aqui poderia trabalhar, aprender.  Mas vejo que não, venho dormir aqui na praia, pois não tenho casa.

Nos vamos amanhã cedo para tua cidade, queres vir, passe esse tempo conosco, vou ver se te levo comigo.    Era o garoto que lhe fazia milhões de perguntas sobre américa, como era  viver lá.     Ele lhe olhou sério, sempre foste honesto comigo, isso não significa que queres fazer sexo comigo, como todos esses que se aproximam de mim.

Não para nada, tenho o que quero, colocou a mão em cima do Thomas,  Olha essa noite, de dou um saco de dormir, amanhã, vamos embora, queres vir.

Sim quero voltar para casa. Lá pensarei na tua oferta.  Foram a viagem inteira, com Thomas ensinando o rapaz a falar inglês.   Quando chegaram a Uazazate, saiu correndo, voltou com os meninos, agora todos grandes, gritava, eu não disse que ele ia voltar um dia.

Thomas tinha a revista com a reportagem, mostrou a foto dele, na frente do quadro.

Aquilo era uma festa, ficaram na motorhome, fora da cidade, mas todo o dia tinha garotos, os velhos vinha conversar com ele, se deixarem desenhar, falavam com ele, o rapaz de se chamava Mahamud, dizia, sabes o que ele disse.

Ele respondia perfeitamente, sim, não sei por que os entendo.   Perguntou se ali havia uma professora.  Sim apareceu dois jovens, não muito maior do que os outros rapazes.  Ele era do grupo, como a família tinha mais dinheiro, tinha ido estudar em Marrakesh,  aonde conheceu a jovem, com quem tinha se casado.    Perguntou o que precisava para a escola.  

Nos falta tudo, cadernos, lápis, livros, tudo.  Thomas arrumou uma caminhonete, foi com eles até Marrakesh, compraram tudo o que eles precisavam, mas em grande quantidade, Mark tinha dado o dinheiro.   Depois começou a ajudar as famílias, que os velhos diziam que mereciam ser ajudadas.

Como uma maneira de pagar ou retribuir o dinheiro que tinha ganho com os quadros. Numa das idas a Marrakesh, foram ao consulado americano, para conseguir visto para o Mahamud, lhe disseram que era menor de idade.   A solução foi o Thomas que era conhecido, no consulado, adotar o rapaz.

Deixou a Motorhome para que os professores pudessem ter uma casa, viviam os dois num quarto, foram até Marrakesh, para pegar um voo para San Diego, via Madrid, depois Miami, finalmente em casa. Antes de voltarem, conversaram como iriam fazer. Thomas não pensava deixa-lo, foi a NYC, vendeu tudo que tinha por la, inclusive a casa da praia. Enquanto isso, ele comprou a casa dos herdeiros da vizinha, ampliaram a deles.  Mas a casa de Melissa ficou igual.   Como ela tinha feito com ele, conseguiu uma professora, que lhe ensinou a falar, escrever direito.  Perdeu um ano recuperando tudo.   Hoje em dia fazia universidade, sempre falava, como era o mais velho da turma, os outros o respeitavam.

Era um exímio surfista, tinha inclusive ensinado ao Thomas, ele não podia perder tempo, tinha que pintar.   Tinha altas conversas com o Thomas sobre a idade de ouro dessa parte de Andaluzia, quando estiveram habitada pelos Árabes, então todos os quadros referentes tinham uma figura como ele tinha visto nos livros que tinha comprado, mas com a cara dos habitantes de Uazazate.

Tornou a pintar várias coisas.       Começou a sentir dores nas articulações, os médicos atribuíam o fato de ele ter sido desnutrido em sua infância.   Diminuiu o ritmo, não pintava por dinheiro, não necessitava de muito para viver, mas sim, agora usufruía mais da conversas intermináveis que tinha com Thomas.    Mahamud ou Mud, como o chamavam os amigos, dizia, que os vê de longe, parece que vão sair aos tapas.  Eu sempre digo, estão apenas conversando.

Ele mesmo entrava as vezes nas conversas, colocando seu ponto totalmente oposto, por ter vivido tudo aquilo.

Um dia contou sua verdadeira historia aos dois.   Ficaram olhando para ele, sem saber se acreditar ou não.  Mas pela força dos detalhes, acabaram acreditando.

Quando Mud, se formou na universidade, era o orador, falou de aonde tinha vindo, um paraíso miserável, sem futuro.   Um dia quando era criança, apareceu um homem da mesma cor que a minha, com um furgão, carregado de blocos de papeis, eu ia aonde ele ia, queria ver o que ia desenhar ou pintar, as figuras pareciam sair do papel.  Procurei não perder nenhum dia de sua companhia.   Dava gosto ver esse homem, conversando com os velhos da sinagoga, com todo respeito do mundo, ao mesmo tempo que ia desenhando seu rosto.  Bom esse é um dos meus pais, quando o reencontrei com meu outro pai, em Casablanca, estava cansando de tentar melhorar minha vida, me apresentei diante dele, me disse amanhã vamos para aonde vivias, depois te levamos para América.   E assim fizeram, sempre me cuidaram como seu filho, me deram a oportunidade de estudar, me formo hoje graças a eles.  Obrigado por serem meus pais.  

RETRACTU

                            

Caminhou tranquilamente pela Av. Vieira Souto, pois do hotel em que estava, que tinha escolhido por ser o mais caro, era perto. A uma certa distância seguia seu guarda-costas um negro de 1,90 metros, um verdadeiro armário.

Ia relaxado, pois desde que estava de tournée pelo lançamento do livro, tinha tido este tipo de entrevista, com jornalistas, fotógrafos, ou mesmo interessados no assunto.

Apesar da idade, tinha um porte de homem seguro de si mesmo.  Estava moreno, calvo, moreno porque acabava de retornar de uma larga temporada na Africa.

As pessoas não entendiam o que ele via nesse continente, era muito difícil as vezes de explicar.

Ia vestido muito simples, com uma calça de linho larga em tom pastel, uma camisa também de linho da mesma cor.

Sapatos confortáveis, melhor dizendo um tênis.

Esperava que não o reconhecessem quando entrasse, na foto da capa do livro, era uma antiga, com os cabelos compridos, brancos, óculos.

Sua sobrinha que era sua Manager não tinha encontrado nenhuma foto sua mais atual ele apesar de fotografo, tinha horror a ser fotografado.

Entrou no salão de entrada, gostou, pois, todos estavam conversando, ninguém prestou muita atenção nele. Olharam sim para aquele negro imenso, muito sério, bem vestido.    Este se dirigiu a pessoa que sabia que estava ao mando da organização da entrevista, disse algo ao seu ouvido, indicou uma direção.  Ele como tinha visto a direção, se antecipou. Viu que todos murmuravam sobre o negro, riu, pois, sabia que nada tinha mudado nesse pais. Que o preconceito continuava, enraizado.

Jacques, seu secretário, segurança, pau para toda obra, entrou atrás dele, lhe passou a pasta, foram até uma sala,

Aguardaram, uns vinte minutos depois da hora estabelecida, vieram lhe avisar que estavam lhe esperando.

O único comentário foi em francês. “Le Brésil ne changera jamais”.  Pegou a pasta, seguido por Jacques se dirigiu a coxia do teatro.

Esperou que o mediador lhe anunciasse.

“Temos o prazer de ter conosco o Fotografo, Jornalista, Pedro Aragão”.

Ele entrou, se inclinou a plateia, como ele tinha pedido, numa cadeira mais atrás quase nas coxias, se sentou Jacques.

Reconheceu algumas pessoas, lhes fez um gesto de reconhecimento. Ao fundo do teatro viu umas figuras, que infelizmente não enxergava direito, para identificar.

Todos se sentaram.

Entrevista teve início, era a moda agora, depois que os ingleses, americanos tinha lançado o Time Laps, todo mundo agora o fazia, viu que as câmaras estavam acesas pela cor que a luz destilava.

Se sentou calmamente, esperou a primeira pergunta.

O Jornalista que o entrevistava também se chamava Pedro, se apresentou como Pedro Viera, disse o nome da televisão, do jornal que trabalhava, que tinha tido o prazer de conhecer o Pedro Aragão a algum tempo atrás em Paris, tinha ficado surpreso em descobrir que o fotografo, jornalista era brasileiro.

Mas o senhor usa documento francês não é assim.

Sim sou naturalizado francês, para me mover pelo mundo era mais fácil, bem como vivo a tantos anos lá, que é a minha pátria.

Perdão antecipado porque poderei usar algumas palavras ultrapassadas.

Pedro Vieira, mas seus vínculos com o país continuam, porque uma das coisas que menciona no livro, uma entrevista com um traficante de drogas de uma das favelas do Rio de Janeiro.

Pedro Aragão, sim uma entrevista que fiz a uns dois anos atrás, quando vim resolver  problemas pessoais, coisas de família.

Pedro Vieira, essa sua entrevista deu muito no que falar na época, ao ser publicada nos jornais da Europa.

Pedro Aragão, que bom que começas pelo final, pensei que isso me perguntaria ao final da entrevista.  Pelo visto o resto do livro não tem sentido algum, nem interesse, pois saltas todo o resto do livro, como se isso fosse a coisa mais importante.  Sinto dizer, mas não é.

Pedro Vieira, perdão,  creio que me deixei levar pela curiosidade, posso dizer que li seu livro de cabo a rabo, embora a parte anterior de sua vida aqui no Brasil, se resume em dois capítulos nada mais.

Pedro Aragão, porque não é um livro de memórias, nem de ajustes de contas.  Além de que a maioria dos nomes das pessoas que eu poderia citar, nem sei se estão vivos ou mortos.  Vivos vejo alguns aqui na plateia, os mortos não sei, nem me interessa saber.  Porque passado, passado está.

Pedro Vieira, voltando então a esses dois capítulos, poderia falar da sua infância aqui no Brasil.

Pedro Aragão, creio que foi como de qualquer criança do interior naquela época.  Começavam a aparecer os grandes descobrimentos ou novas tecnologias, como a Rádio, televisão.  Mas eu fui mesmo um leitor voraz, rato de cinema.  Descobri os livros por ser uma maneira de viver creio outras experiências.       O cinema porque me projetava para um mundo diferente com o qual passei a sonhar.

Desde que tinha uns 12 anos, já sonhava que ir embora do interior aonde sentia que não encaixava, havia limites, descobri depois com a maturidade, que odeio os limites, sempre parto para rompe-los.

Acreditava que indo para uma cidade grande como o Rio que eu amava, pelos filmes de Oscarito, Grande Otelo, que foram meus ídolos de infância, eu estaria conquistando o mundo.

Vim para o Rio justamente quando antes da  Ditadura militar. Não tinha ideias políticas claras, como contínuo não tendo, não acredito em políticos, governantes, nem em socialismo, comunismo, capitalismo, nada disso me atrai, é no fundo tudo a mesma merda.

Pedro Vieira, mas se sabemos que o senhor teve imenso contatos com muitos Governantes de quase todo mundo.

Pedro Aragão, por isso mesmo, por conhece-los, saber que são todos da mesma laia.  Conhecer é um exagero brasileiro, mas se conhece uma pessoa, se diz amigo dela.  Não é o caso, as conheci, porque tinha que entrevistar as mesmas.  Perdão, mas foste outra vez para quase o final do livro.

Pedro Vieira, perdão, curiosidade.

Pedro Aragão, não entendo, sendo o senhor um jornalista, como pode não saber o que perguntar, não me diga que aos seus entrevistados, vais perguntando ao leu, sem uma pauta, uma ideia de um todo. Eu que já entrevistei muita gente, antes, me preparo a consciência.

Pedro Vieira literalmente incomodado, se mexeu na cadeira, fez um gesto para que seguisse.

Pedro Aragão, em curtas, grossas palavras, cheguei aqui,  fui estudar, fiz muitas coisas, transei com muita gente, me descobri, redescobri o que queria da vida.

Plateia, levanta a mão.  Ele faz um gesto dizendo que sim.

Nós estivemos fazendo junto teatro, se lembra de mim por um acaso.

Pedro Aragão, sim fiz duas peças tuas, a primeira foi censurada, fiz a outra que me deu uma certa presença na mídia, como se diria hoje.   Talvez tenha sido a melhor coisa que fiz naquela época.  Mas é verdade que fiz muita pontas, substituições, entrar mudo, sair calado, tirar a roupa, pois tinha um bom corpo, cara, visual interessante.  Fiz uns dois filmes, que sequer foram vistos pelo público, pois foram censurados.             Na verdade, não gosto de fazer cinema, gosto mais de ver. Mas chegou um momento que era ou eu mudava de rumo, ou me afogava.  As chances que tinha, havia que pagar um preço que eu não estava disposto.

Pedro Vieira, isso sim contas num dos capítulos, com nomes, tudo.  

Pedro Aragão, eu não estava disposto a ir para a cama com ninguém, pelo fato de ter noção que se o fizesse, não me respeitaria mais.

“todos riem, aplaudem”.

Pois é uma das coisas mais importantes que eu aprendi nessa época, era que se eu não me respeitasse, me tornaria uma puta, isso eu não estava disposto.      Apesar de respeitar as putas.

Graças ao Teatro, pude me manejar em várias frentes, na moda, publicidade, etc.

Um dia me fartei, me mandei para Paris, estava realmente farto que ver a falta de seriedade de tudo.

“um dos amigos” levanta a mão.

Já sei o que vais perguntar,  sim a melhor época foi a que trabalhamos juntos. Este senhor um grande personagem da minha vida, não só foi meu amigo, como é até hoje, uma das poucas pessoas com quem mantenho contato aqui.

Mas por loucuras da minha cabeça, eu me mandei.

Não via, como contínuo, não vendo seriedade nas coisas aqui no Brasil.

“muito murmúrio na plateia”

Ele riu, esperou que o jornalista fizesse outra pergunta.

Pedro Vieira, já vi que cortaste realmente a entrevista.

Pedro Aragão, na verdade, eu não senti interesse nenhum em comentar minha vida pessoal, o pouco que escrevi, está aí.  Eu sempre dizia que um dia publicaria os nomes de todos os meus amantes nessa época, com nome, sobrenome, registro de cartório, tudo.

Mas se pensar bem, alguns já morreram, outros me fizeram feliz ou infeliz, ou eu a eles, porque a verdade sempre tem duas caras, não sou nem nunca fui perfeito.

O Pedro Vieira vai me perdoar, mas eu sempre fiz o que quis da minha vida, sem problema nenhum. Vou filosofar um pouco.                 Nunca gostei de linhas retas, mas sim como o grande arquiteto Oscar Niemeyer, gosto é das curvas, se uma direção não me interessa, mudo de rumo.     Por isso fui embora.

Pedro Vieira, mas foste direto ser fotografo ou não.

Pedro Aragão, não, como acabo de explicar, não tinha um objetivo concreto.  Tinha uma base de mil coisas que poderia fazer.        Fiz de tudo um pouco.        Por um acaso, preparei um cenário para uma sessão de fotos, o fotografo na última hora não apareceu.  O manequim estava pago, tudo estava ali, abusado como sou me atirei, fiz a sessão de fotos, como tinha visto fazerem, mas a minha maneira de enfocar.

Os da revista gostaram, passaram a me chamar, pois sabiam que além de tudo entendia de moda, estava aberto a todas as frentes, o que viesse era lucro.

Consegui, com isso comprar boas Câmeras fotográficas, desse arroubo partiu tudo. Durante um tempo isso me satisfez, mas acaba sempre sendo a mesma coisa.  Como digo sempre a mesmice me incomoda, me dá a sensação de que vou morrendo aos poucos.

Um dia na revista vi que precisavam de alguém para acompanhar um jornalista a guerra de Bósnia.  Por um acaso eu o conhecia, lhe pedi a oportunidade.  Ele riu muito, tinha um sentido de humor que eu gostava, acabamos na cama, começamos a viajar juntos.               Ele tinha um sentido de trabalho interessante, eu sou uma pessoa que observa tudo.

Vi como pensava, trabalhava, como enfocava as ideias, segui a corrente.

Uns dois anos depois, ficamos entre dois fogos cruzados, por um acaso ele foi atingido, com muita dificuldades, conseguimos retira-lo de lá,  me pediu, segues com a reportagem, escreva tu.

Eu nem tive tempo nem escolha, segui em frente mandando os artigos como se fosse ele.

Uns dias depois, num desses lugares que descansávamos, fiquei sabendo que tinha falecido.  O Diretor da revista me chamou dizendo que continuasse escrevendo que estava muito bem.

Depois disto não parei mais. Cobri várias, guerras, para jornais, revistas, quando não me contratavam ia por conta própria,  vendia ao melhor postor, eu queria mesmo era estar na linha de frente.  Ao me tornar independente, ganhei maior liberdade de movimento, de ideias.  Passei a ver outras coisas que no momento que me pediam alguma coisa concreta, não via.   Sentia essa sensação que passava por alto aos outros problemas decorrentes dessas guerras.

No fundo uma coisa muito importante, “o depois”, os que sobram, os que emigram com a roupa do corpo, sujeitos a muitas coisas.

Passei a escrever sobre isso, algumas revistas ou jornais se interessaram, compravam os artigos que fazia.    Mas se pensamos bem, sai das primeiras páginas, para as segunda, assim para trás, depois para as revistas filosofia, outras coisas.              Mas sempre que tinham alguma coisa importante, me chamavam, pois sabiam como eu iria encarar a reportagem.

De uma certa maneira, não tinha problemas de dinheiro, pois quando trabalhava para alguém ou empresa, arcavam com todas as despesas, meu dinheiro era limpo.

A cada reportagem que me encomendava, aproveitava, para ver o pais, esperava captar outra visão, outra perspectiva, como disse antes, a verdade tem sempre duas caras.

Com isso ganhei dois prêmios internacionais.

Virou-se para trás, sinalizou o Jacques, conheci no Senegal, quando fui fazer uma matéria sobre os garotos que vivem nas ruas de Saint Louis, das cidades do interior, pedindo dinheiro nas ruas para suas madraças, aonde os pais os mandam para estudar o Corão.  Foi ao mesmo tempo meu guia, bem como meu guarda-costas.   Quando alguém me enche o saco, digo que é meu capanga.  Leva me seguindo muitos anos, com ele percorri grande parte de Africa.

Sempre me perguntam por que me interesso por Africa, no livro falo de várias reportagens sobre os problemas de lá.     

De uma certa maneira tem uma similitude com o Brasil, este nunca deixara de ser emergente, porque os governantes são corruptos.  Os de lá, interessa aos países que se dizem desenvolvidos, que fiquem como estão para poderem conseguir o que necessitam.   Matéria prima, a baixo preço, subornando os homens de governo.

Mesmo que troquem de governantes, o suborno é sempre presente.

Um dos seus amigos levantou a mão para uma pergunta. 

Uma das vezes que falamos, me comentaste, que tens entrada vetadas em vários desses países?

Sim é verdade, ninguém quer que seus trapos sujos sejam ventilados mundo afora.  Tampouco os grandes países, pois isso acaba com sua mamata.

Os países quando são muito grandes, tem uma dificuldade que é a comunicação.  Todos esses países necessitam de estradas, escolas, hospitais.   Nada disso interessa aos governantes, nem aos outros países.   Porque se vão a escola, aprenderam a pensar.

Por isso quando vamos, tenho sempre o Jacques, bem como outros para me protegerem.

O mesmo levantou a mão outra vez.

Numa das últimas, estiveste entre a vida e a morte, por causa de um tiro?

Uau, vais me fazer contar tudo sobre minha vida.  Melhor trocares de lugar com o Pedro Vieira, que está aqui quieto.

Sim, fiquei mesmo muito mal, mas fui salvo pelo Jacques, estava subindo no helicóptero, quando fui atingido.   O jeito foi uma coisa de emergência, depois sair diretamente para Paris.  Justamente no tempo da recuperação, foi que comecei a montar esse livro.

Imagina, dentro de casa, sem poder fazer muitas coisas, escutava os telejornais, mas me enchia o saco.  Um dia sem querer, prestando a atenção numa reportagem de um amigo meu, vi que os jornalistas que apresentavam o programa, mudavam o contexto de suas palavras.   Pensei esse homem não pensa dessa maneira.

Quando estas ocioso, viras um filho da puta.   Na surdina, como tinha acesso aos canais de televisão, disse que estaria escrevendo um livro, que necessitava do material original, da apresentação da reportagem.   Porque quando estas em movimento, não vês televisão, tampouco te chegam os jornais, quando isso acontece é com muito tempo de atraso.

Acabei fazendo cópia de tudo.  Assim se me processassem, tinha a coisa na mão.  Quase 50% das reportagens tinha sido adulteradas.  As vezes só usavam para dar o enfoque que queriam, cortavam os vídeos, os deixando sem contexto.   Usando somente a parte que lhes dava o enfoque errado.  Justificando os governos.

Começou a rir, teve um acesso de tosse, tomou um gole d’água.  Virou-se para o Pedro Vieira, não vais perguntar o que eu fiz a respeito?  Isso não está no livro, sim num vídeo que te mandei.

A cara do Pedro Vieira era ótima.  Me disseram para não perguntar nada a respeito, nem falar no assunto.

Preciso responder?

O único jeito foi usar, a internet, que meu amigo Jacques faz de maravilha.            Criamos um blog, divulgamos tudo.       Claro com isso, passei a ser presença funesta em qualquer canal de televisão.

Mas a verdade é que não deixei barato.   Acabei escrevendo um roteiro de cinema, sem querer, o vendi para um diretor de cinema, independente.   Coitado, a luta que foi para poder exibir o filme.

Foi quando vim ao Brasil.   Agora sim Pedro Vieira, se encaixaria tua pergunta sobre a entrevista que fiz.

Recebi uma queixa formal do governo brasileiro, por estar escrevendo mal sobre a mãe pátria.  Mas no fundo a historia é divertida.    Vim para resolver problemas de família, uma herança que tinha que ser repartida.  No caso, estavam me passando a perna.  Mas resolvi tudo, nunca gostei de ser enganado.   Depois família, tirando alguns como minha sobrinha que organiza tudo para mim aqui, o resto é resto.

Um final de semana, fui ao samba, com meu inquisidor, apontou o amigo que tinha lhe feito as perguntas.    Lá pelas tantas se aproxima um sujeito, me aponta um camarote do outro lado da quadra, me diz que fulano quer falar consigo.

Sem ter a menor ideia quem era fulano, perguntei ao meu amigo. Vi que ficou sem graça, me disse que era o chefe da drogas da favela.

Me interessou, sempre tinha visto do outro lado da história.  Uma pergunta estalou na minha cabeça, qual era a sua verdade.

Fui falar com ele, esperando um velho, como vemos sempre nos filmes sobre a máfia, tipo Al Capone.

Nada era um sujeito muito mais jovem do que eu.

Me estendeu a mão normalmente, como faz a gente educada quando se conhece, me disse seu nome, eu o meu. 

Foi direto ao assunto, quando soube que estavas na quadra, quis conhece-lo, porque leio sempre tuas reportagens.    Lhe perguntei qual por exemplo, para minha surpresa, era uma que tinha escrito para o Times Americano.   Ele falava um inglês perfeito, seguimos falando nessa língua.   Depois descobri que era para que seus homens o vissem importante, bem como não escutassem o que falava.

Ao me despedir, lhe perguntei se poderia fazer uma entrevista com ele.   Iria embora dentro de dois dias, se lhe interessava.

Com uma condição, atrases tua viagem de volta, fique uns dias comigo na favela, para ver a vida por lá como é.

Aceitei prontamente, embora meus amigos depois me chamassem de louco.   Não tinha medo, pois tinha concordado que o Jacques me acompanhasse.

A princípio como todo mundo pensa, é que temos alguma coisa de sexo, que ele é meu amante, nada mais longe da verdade.  É um irmão para mim.  Saibam que tem dois livros editados de poesia, mas também atira para matar, sem pestanejar.   

A plateia ria, tinha se descontraído.

Voltou-se novamente para o Pedro Vieira, sigo ou já basta.

Todo mundo gritou, siga, esta interessante esse papo.

Pedro Vieira, levantou os ombros, como dizendo, estou fudido, fudido e meio.

Ele viu que alguns da plateia gravavam com celular, sabia que quando acabasse as redes sociais como se conhecia, Facebook, Youtube, estariam com isso no ar.

Bom, direto ao assunto, no dia seguinte um puta carro, veio nos buscar, nos levou até a parte mais alta da favela,  lá estava sua guarida.   Jacques se espantou, pois esperava um casebre, que teríamos que dormir no chão, coisas do gênero.  Nada mais longe da verdade, era uma boa casa, por fora sem acabamento nenhum, por dentro uma verdadeira fortaleza, com todo conforto possível.

Ele me contou toda sua vida, desde infância, etc.  O que mais me interessou, sobre o que escrevi longamente, era que sabia que nunca seria eterno, que tinha uma vida curta, como tinha tido seu antecessor.   Nunca duramos muito.  Se não nos matam aqui, quando somos presos, nos matam na prisão.  Por isso ele se documentava de tudo.   Quem eram os clientes, peixes gordos, tinha todo esse material em lugar seguro.   Políticos que comiam na sua mão, pois lhes fornecia cocaína.

O mais interessante foi que em determinado momento, de entrevistado, passou a entrevistador, começou a fazer pergunta sobre como eu vivia, como eram essas viagens, as guerras que tinha coberto, que disse que considerava como aventuras.    Soltou depois, que tinha muita inveja de mim, por ir leve, solto pelo mundo, sem amaras.

Andei com ele por toda favela, as pessoas lhe tinham respeito, pois graças a ele, tinham médicos, enfermeiras, escola,  Ninguém queria subir a parte alta da favela, mas lá de uma certa maneira se vivia melhor.    Me deu a liberdade, de entrevistar as pessoas.  A maioria me pergunta, se eu escreveria seu nome.  Lhes disse que não, que podiam falar à vontade.   Quase todos temiam sim a entrada de policiais nessa parte do morro, pois entravam atirando, sem olhar em quem.  Ele ao contrário, foge desses confrontos para proteger as crianças.   Um dos velhos ainda me disse uma coisa que tenho dito aqui, tudo tem duas verdades.   Me fez uma alusão interessante, que pedi depois que um designer fizesse para a capa da reportagem, é uma faca, que tem duas partes afiadas, que eles sempre estavam andando no fio dessa faca, se equilibrando, sobrevivendo, a cara de tranquilidade quando me dizia isso era interessante.   Para ele resultava que essa faca se rompia, quando chegava a polícia, que entrava dando tiros, sem pensar em quem atingia.

Bom sei que depois da reportagem, meses depois o traficante desapareceu, uns dizem que seus cumplices o mataram, outros a polícia.  A verdade ninguém sabe, ninguém viu.

Bom já sabe de que vai o livro, fotos, reportagens que fiz, da metade para frente, muitas viagens a Africa, aonde descobri uma parte de mim.   Pois sei que tenho ascendências Africanas, embora minha família como qualquer outra do Brasil que quando escuta falar, que em sua família, em algum momento houve um negro, nega, renega.

Uma última pergunta. 

Uma pessoa no final, levantou a mão, ele não via quem era, mas ao escutar a voz reconheceu, procurou não demonstrar surpresa, tampouco pediu para a pessoa se identificar.

Achas que é possível, um dia retornar ao Brasil, viver aqui?

Meu amigo, essa pergunta é uma arapuca.  Riu, muito difícil, tenho toda uma vida fora daqui, imagina meu sistema de saúde está lá.   Não valeria para o Brasil.  Então se tenho um problema, teria que usar a saúde pública.  Não me arrisco, depois me aposentei a pouco.   Tenho um pequeno apartamento que vivo bem.  Se necessito ajuda basta gritar pelo Jacques.  Morrer, eu vou morrer como todos.  Mas como dizia Carlota Joaquina, deste pais não quero nem o pó.

O Brasil que eu vivi, os motivos pelos quais fui embora, uma serie de coisas que no momento não vem ao caso, não mudou nada, em alguns aspectos piorou.                  Mesmo essa cidade Maravilhosa, tão fotogênica como Paris, virou uma merda.      Então, só posso responder uma coisa, não se deve cuspir para cima, pois pode cair em nossa própria testa, tampouco nunca digo não.

Muito obrigado a todos por estarem aqui. Um prazer em falar com vocês.

Saiu de fininho com o Jacques.  Sabia que seus amigos iam até o hotel tomar um drink com ele.  Mas sua cabeça estava em outro lugar.    O que fazia esse louco ali, aonde poderiam vê-lo.      Porra que tenha sido o causador de seu sumiço tudo bem.  Mas estar ali, era loucura.

Chegava a suar frio. Ao mesmo tempo estava feliz, sabia que ele estava vivo, que nenhum dos lados o tinha matado.   Se o tivesse que reconhecer seria impossível, só o tinha feito pela voz.

Se contasse aos seus amigos, com certeza o tomariam por louco.   Como podia ter tido uma aventura com um traficante de drogas.

Mas tudo era diferente.   Jacques atrás dele, disse baixinho, era ele não?

Sim Jacques, não vi sua cara por culpa da iluminação, mas pela voz, como tu o reconheci.

Ele também tinha ficado amigo do Jacques, que encarava tudo com normalidade, a ele desde o princípio tinha sido assim.   Podia contar a ele qualquer coisa, o segredo estava garantido, se fosse um problema, em seguida estava buscando uma solução.

Jacques podia ser tomado por muitas pessoas quando o tratavam pessoalmente como um retardado, mas ao contrário era de uma inteligência espantosa.    Tinha sido maltratado quando criança, vendido como escravo

Era mentira que o tinha conhecido no Senegal, falava sempre isso, mas nessas alturas, ele já estava com ele.    Estava no Sudan fazendo uma reportagem, tinha 6 pessoas o protegendo, mas nem sempre isso valia, qualquer um podia mata-lo.    Estava num mercado, fazendo fotos, quando o viu.  Estava jogado no chão, com um homem lhe batendo com um bastão de madeira.

Embora o que estava no chão fosse um homem grande, não se defendia.  Um dos homens disse que o que lhe pegava era um vendedor de escravos, dizia que não o conseguia vender porque era retardado.

Mas quando olhou os olhos do Jacques, viu uma luz que os outros não via.  Pergunte o preço, vou comprar esse escravo.  Pagou, mandou os homens ajudarem a levantar o rapaz, o levou ao acampamento que estava.  Depois de limpo, esse veio falar com ele.  Estou ao seu inteiro dispor, meu senhor.

Primeiro, não sou teu senhor.  A partir de hoje estas livre, podes ir para aonde quiser.

Não tenho para aonde ir, nem sei de que lugar sou, comecei a ser vendido desde criança.  Não tenho ideia de aonde sou.

O homem que coordenava sua viagem, lhe ajudou, conseguiram um documento falso para ele, com o nome de Jacques Vivier, quando foram embora o levou com ele.

A partir de então alugou um apartamento pequeno quase ao lado do seu aonde ele vivia.  Quando ele lhe contou toda sua vida.  Primeiro ficou furioso. Mas com o tempo, viu que Jacques nunca reclamava desse passado, quando lhe perguntou por quê?

Lhe respondeu olhando nos olhos, se eu perco tempo indo me vingar de cada um que me fez mal, não terei tempo de ter um futuro.  Agora estudava, sabia ler, escrever, tinha uma inteligência impressionante, tinha lido basicamente cada livro que tinha em minha casa.  Depois gostava de discutir comigo a respeito.  Fez um longo curso de informática, aonde deu um salto, de viver 100 anos atrasados, a pleno século XXI,  o mais interessante que achava isso normal.

Ele era como seu filho.  Quando esteve muito mal, cuidou dele com carinho, uma vez que estava chateado com uma pessoa que tinha tido um relacionamento, lhe perguntou se queria que  fazer sexo com ele.    Pois o tinha usado muitas vezes para isso.  A princípio ficou horrorizado, mas conversou longamente com ele.  Jacques, eres dono do teu destino, gosto de ti como um filho, jamais iria estragar esse sentimento, por sexo.

A vida tinha lhe ensinado que não estava errado, pois ele sempre estava aí, quando o precisava, fora dele a ideia do vídeo, o tinha ajudado com o livro.   Fazia agora alguns trabalhos agora para a editora, ganhando seu próprio dinheiro.   Por isso se vestia tão bem.               Dizia como ia se apresentar numa reunião mal vestido, iam perguntar, que faz esse negro aqui.

Chegaram ao hotel, realmente os amigos estavam ali no bar, sentou-se com eles numa mesa, ficaram rindo, alguns falavam de pessoas que ele não se lembrava mais,   até que perceberam que estava cansando.  Foram um a um, se despedindo, com a mesma coisa, que ele se despedisse antes de ir, pois tinha esse hábito, de ir embora sem falar nada com ninguém.   Riu, pensando que o faria como sempre, iria embora na surdina.

Quando chegou ao seu quarto, se despediu na porta do Jacques que estava no quarto em frente. Amanha nos vemos. Boa noite meu filho.

Entrou, viu que a janela estava aberta, achou estranho, pois a tinha deixado fechada, quando acendeu a luz.   Lá estava ele, sentando tranquilamente no sofá.

Quase me matas de susto, filho da puta.  Quando escutei tua voz, me fazendo aquela pergunta, quase te pedi, de um passo a frente para te ver na luz.

Ele se levantou, veio até ele, o abraçou, lhe deu um beijo prolongado.   Devo tudo isso a ti.

O afastou um pouco, realmente estava diferente,  já não tinha o nariz torcido, tampouco o cabelo tinha a mesma cor, estava cortado muito rente na cabeça.

Podia passar por uma pessoa qualquer na rua.

Começaram a tirar a roupa um do outro, dizia a todo mundo que tinha ficado uns 3 dias na favela, era uma mentira, pois tinha voltado outra vez. Tinha sido sua melhor aventura.

Senti sua falta, demoraste muito a voltar.

Pelas notícias que tinha, pensei que estavas morto, então não tinha motivo para voltar.  Não vou perguntar aonde vives, nem quero saber nada.  Estou feliz em saber que estas vivo.

Se amaram a noite inteira, de manhã quando acordou, já não estava mais.  Só um bilhete, te vejo em breve.

Hoje em dia achava que nunca tinha amado realmente ninguém.  Tinha deixado em contra partida de julgar as pessoas.  Elas faziam o que faziam por algum motivo. 

No dia seguinte só falou com sua sobrinha.  Esta disse que tinha um canal de televisão, com um programa de entrevista que queria falar com ele.

Nada disso, essas entrevistas são depois editadas, mudam o contexto todo.  Tampouco disse a ela que iria embora.

Como não tinha que fechar a conta do hotel, saíram de fininho, Jacques o conhecia bem, não disse uma palavra, só se voltaram a falar basicamente dentro do avião.  

Ele estava no teu quarto, não é?

Como sabes?

Esqueces que tenho um olfato privilegiado, senti o cheiro dele, nada mais ao entrar, além de tua cama como se tivesse tido uma batalha.  Mas estás feliz eu sei.

Não fez nenhum comentário a respeito.

Chegaram a Paris, queria ir para casa, Jacques tinha o carro, seu único luxo, no estacionamento.  Ficou ali parado lhe esperando.  Não o podia tirar de sua cabeça.

O senhor está muito distraído, qualquer um podia chegar, levar sua bagagem.

Escutou essa voz atrás dele, não ousava se virar, mas o fez lentamente.  Filho da puta, vieste no mesmo voo.

Sim, mas claro em turística para não chamar atenção.

Jacques quando chegou com o carro, abriu o porta malas sem perguntar muito.  Ria, nada mais, só de ver seu pai postiço contente, lhe deixava também.

Se viveram felizes, para sempre isso nunca se sabe.

NEVER – NUNCA

                                                

Estava orientando a montagem de uma exposição retrospectiva de toda sua carreira, num momento passou diante de uma coluna com espelho, automaticamente deu uma olhada, continuava o mesmo.  Cabelos longos, hoje branco total, as sobrancelhas seguiam iguais amarelas, olhos azuis puros, sua pele apesar dos tratamentos, seguiam igual, branca como a neve.  As pessoas se fascinavam com isso, o fato dele ser albino, ao mesmo tempo que seus quadros estavam cheios de cores.   Hoje em dia já não usava rastafari, por uma questão de tempo para cuidar, depois acabavam cheios de tinta.

Se poderia dizer, que muita água tinha passado por baixo da ponte, as vezes tranquilas, outras como uma torrente ou mesmo uma enchente.  Mas sempre considerava ao final que o passado, passado estava.

Olhou a capa de uma revista ali jogada, riu, duas fotos, ele no inicio de sua carreira, outra hoje, apesar dos anos, não sabia se pela pele, não tinha nenhuma arruga sua pele era lisa, lembrava a de sua mãe, quando estava morrendo, podia estar cheia de dor, as sua pele estava esticada.

Nunca tinha descoberto de havia outro problema como o seu na sua família.  Odiava recordar seu passado, sempre acabava lhe doendo muito.  Sentia uma falta de sua mãe, até hoje não conseguia entender por que não quis cuidar do câncer que tinha.   Poderia estar viva, poderia ter cuidado dele, dos irmãos,  mas algo a impedia de lutar mais.

Seu pai era todo ao contrário, um polonês, que tinha chegado na vila em criança, acompanhado de seus pais, uns 10 anos depois da segunda guerra.

Era um homem totalmente fechado em si mesmo, agressivo, já levantava de mal humor, o melhor era sair da frente dele.

Sua tia lhe tinha contado mais ou menos a história, quando queria se aprofundar em algum detalhe ela fugia as respostas.

Ela e sua mãe, tinha nascido com uma diferença muito pequena, menos de um ano, podia passar por gêmeas, pois eram idênticas.  Uma pele branca, olhos negros, cabelos negros crespos que ele tinha herdado, uma boca larga com um sorriso imenso.

As duas tinha conhecido seu pai, na escola, quando este chegou a vila, falando um inglês horrível, enquanto todos os outros garotos lhe faziam bullying, elas ao contrário, lhe ensinavam a falar direito.

Os pais dele eram muito estritos, católicos daqueles de irem a missa quase todos os dias, o pecado era uma coisa horrível para eles.

Elas ao contrário nunca iam a igreja, não lhes incomodava o mínimo isso.  Sonhavam sim as duas em irem embora da vila.  Seus pais, tinham um restaurante administrado pela mãe, ele levava uma loja que vendia coisas para as fazendas, além de tratores, coisas pesadas.

Quando chegou a época de irem a universidade, foram embora as duas, sua mãe ficou na universidade, sua tia, ao contrário, pegou o dinheiro que os pais tinham dado, se mandou para a Europa, voltou depois que ele tinha nascido.

Sua mãe, mantinha correspondência com seu pai, desde que chegara, ao ficar sozinha não parava de reclamar, não gostava do que estava fazendo, queria voltar, no meio do segundo ano, de repente lhe chamou disse que voltava, se ele queria casar com ela.  Ele tinha sido sempre apaixonado pelas duas, aceitou.   Sete meses depois eu nasci, para todo mundo um parto prematuro.    Mas ele ao ver aquela criança branca como leite, olhos azuis, cabelos loiros quase brancos, me repudiou imediatamente,  a questionou se era filho dele.

As crianças de 7 meses não nasciam do meu tamanho, sempre fui alto demais para tudo.

Levaram anos brigando por minha causa, ele nunca se chegava ao meu lado, eu não existia na casa, quando chegava bêbado, me chamava de bastardo.     Não entendia de maneira nenhuma o que queria dizer, quando perguntava a minha mãe, ela mudava de assunto.

Cresci sem ninguém para brincar, viviam na fazenda originalmente de meus avos, uma casa velha de madeira, que precisava sempre de uma pintura que não aparecia.   Ele saia de manhã, voltada de tarde.   

Dez anos depois, depois de um dia que ele tinha chegado bêbado, segundo minha tia, a tinha agredido sexualmente, nasceram os meninos, era divertido, os dois eram completamente diferentes um do outro, um se parecia a ela, outro a ele.  Um se chamou Matheus outro Thorpe, como meus avôs, eram meus brinquedos, me apaixonei imediatamente por eles, mas meu pai quando estava em casa, não permitia que eu me aproximasse.

Quando eles tinham oito anos, ela descobriu que tinha um câncer, ficou quieta, não disse nada a ninguém, nem a sua irmã que estava sempre pronta a escuta-la.

Minha tia já nessa época não falava com meu pai, quando eles fizeram 10 anos, ela estava muito mal, eu tinha 17, tive que deixar de ir a escola, para cuidar deles, dela, os levava a escola, depois fazia compras, comida, colocava a roupa para lavar, limpava a casa, se me sobrava algum tempo me dedicava a desenhar.   Ela já não saia da cama, estava sempre ali de olhos fechados, as vezes quando tinha muita dor, eu dormia ali aos pés da cama em cima de um tapete.

Ele jamais entrava no quarto, dizia que estava pagando pelos seus pecados que eram muitos, tampouco cuidava dos meninos, creio que se acostumou que eu cuidasse deles, tudo era comigo, aprendi a dirigir sozinho a velha camionete dela, os levava a escola, fazia tudo que tinha que fazer, voltava correndo para casa, para ajudar minha tia, que me ajudava a levanta-la, para trocar a roupa de cama, a principio dar-lhe um banho, depois com o tempo, limpa-la com um pano húmido.    Minha mãe, não dizia nenhuma palavra, ficava com a boca fechada.

Ele as vezes chegava bêbado, abria a porta, lhe perguntando ainda não morreu, filha da puta.

Se eu estava sentado segurando sua mão, se aproximava de mim, me dava um murro na cara, ou com sua imensa mão me batia, bastardo, sempre agarrado a mamãe.   Antigamente ela me defenderia, um dia resolvi enfrenta-lo, me levantei, era mais alto do que ele, ia me dar uma porrada, mas segurei sua mão, lhe disse na cara, isso se acabou covarde.

Sem querer vi pelo canto dos olhos, ela sorrindo.

Uma semana antes de morrer, eu estava ali segurando sua mão, ela me disse, ele não tem culpa, realmente não eres filho dele.  Conheci teu pai verdadeiro num concerto de jazz, ele tocava o saxofone,  era brilhante, era diferente dos outros do grupo que eram negros.  Usava o cabelo como tu, mas era claro, tinha algumas manchas no corpo, dizia que estava mudando de pele, depois descobri que era um albino.  Nem sabia o que era.   Me apaixonei, um dia despertei, tinha ido embora, voltei me casei com este, pois não queria abortar.   Mas não lhe disse nada, a culpa realmente foi minha.

Não sei por que chamou minha tia, lhe contou a verdade, lhe pediu um revolver que era do meu avô que estava ali na cômoda, um dia desses ele vai tentar me matar, bem como meu filho.

Estava cada vez pior, podia passar um dia inteiro sem dizer uma palavra, a última vez que escutei sua voz, foi para pedir que eu não deixasse os meninos a verem dessa maneira, queria que guardasse a imagem dela bem.

Ao final era pele e osso, ele ficou dois dias sem aparecer em casa, eu depois de todas as tarefas, estava sempre com ela, as vezes me olhava sorrindo.

No dia anterior, ele entrou no quarto de madrugada fazendo um escândalo, dizendo que não podia dormir por culpa dos gemidos dela.  Me assustei, pois ela não estava gemendo, se aproximou da cama, me assustei, colou os ouvidos nos lábios dela, era como se ela tivesse falado alguma coisa, se afastou, mas antes me pegou desprevenido, me deu um murro na cara.

No dia seguinte quando sai do armazém, dei de cara com o xerife, olhou minha cara, esse filho da puta te pegou outra vez. Isso tem que acabar.

Nesse dia, minha tia por problemas com o restaurante não pode ir, ao limpa-la, percebi o revolver justo ao lado de sua perna, ia tira-lo dali ela o agarrou muito forte, hoje ele vem matar-me, a ti também, defenda-se.

Coloquei os garotos na cama, no quarto que compartiam comigo, que era embaixo do quarto de minha mãe.   Depois subi, me deitei ao lado da cama, no chão, escutei o ruído que ele chegava, subiu as escadas como qualquer outro bêbado, quando abriu a porta, trazia um revolver na mão, disse desta vez vamos acertar as contas antes que morra. Lhe apontou o revolver, institivamente, busquei o que ela tinha, o segurava, mas não tinha forças, a ajudei a tirar debaixo dos lençóis, levantei o mesmo, com ela com o dedo no gatilho, ele viu, riu, até para isso eres patética, atirou ela suspirou morreu, eu aproveitei, apertei o dedo dela, acertando no meio da testa do filho da puta.

Por instinto, desci rapidamente, minha cama ficava pegada a porta, os meninos me viram como se eu estivesse levantando da mesma.   Que foi isso falaram os dois ao mesmo tempo, apenas lhes disse, chamem nossa tia, vou subir, vocês fiquem aqui.

Sabia o que ia ver, mas fiquei quieto,  Quando minha tia chegou me viu ali parado na porta, na cama minha mãe, com todo sangue em volta, ele caído no chão também num charco de sangue.

Ela ficou parada ao meu lado, eu imaginei que isso ia acontecer um dia. Estavas aqui?

Não, estava embaixo com os meninos, ele chegou fazendo escândalo como sempre, batendo portas, os meninos se assustam, depois escutei os tiros.  Mas, já era tarde, mandei avisarem a senhora, porque sabia que ias avisar o xerife.

Realmente ele chegou em seguida.

Me perguntou sentado na cozinha com uma caneca de café na mão, se eu tinha visto alguma coisa, repeti a mesma coisa, depois entendi que tinha que me apegar a essa historia pois, não tinha outra.   A repeti, até não aguentar mais.

O que eles não entendia era como ela tinha tido força de levantar o revolver, me perguntou se sabia que estava ali.   Lhe disse que sim, mas que não me deixava tirar dali. Repetia uma e outra vez que a qualquer momento ele viria para matarmos.

Depois de enterra-los, minha tia me perguntou se eu queria levar o negócio dele, lhe disse que não, que queria ir a Universidade, todos meus conhecidos tinham ido embora, eu tinha ficado para trás, teria que recuperar o tempo perdido.

Ela concordou, passamos a viver em cima do restaurante, eu continuei dividindo quarto com os meninos.   Eles queriam saber a verdade, eu lhes contei tudo, não queriam que tivessem problemas posteriormente.

Minha tia me contou que depois que os dois tinham nascido, ele tinha colocado na cabeça que ela o tinha traído com dois homens, por isso eram diferentes.

Durante o ano que estive afastado, estudei como se estivesse na escola, além de fazer desenhos, tinha desenhado minha mãe se definhando como um exercício, ou porque me aborrecia de estar ali, sem fazer nada.

No meio do ano, fui aprovado, falei com minha tia, que iria embora, não aguentava mais estar ali, me sufocava, aguentar o olhar de todo mundo em cima de mim. Quando trabalhava na caixa registradora do restaurante, todos me olhavam com pena.   Não tinha mais amigos, os da escola eram menores do que eu, me sentia um peixe fora d’água.

Aonde queres ir?

Lhe dei o folheto das escolas que gostaria de ir em NYC.

Te dou dinheiro, mas terás que trabalhar, sei que isso não te assusta, creio  que o dinheiro te dará para um ano ou dois.  Mas o resto é parte dos meninos, para seu futuro.   Na vila as coisas não valiam muito, ela vendeu a fazenda, bem como o negócio do meu pai.  Repartiu entre os três, os dos meninos colocou no banco, me deu mais dinheiro, como um presente dela.

Me ajudou a pagar para arrumar a caminhonete que usava, nesse tempo tirei bilhete de identidade, carteira de motorista. 

Peguei as poucas coisas que tinha, tomei rumo a NYC,  mal sai da cidade, tive que parar, pois chorava, tudo o que tinha guardado, saiu como uma catarata.  Coloquei a caminhonete na lateral da estrada, fiquei ali chorando, finalmente colocava para fora tudo o que sentia.

Mas me contive, segui em frente, tinha a direção de um conhecido de minha tia, que vivia no Brooklyn,  ele me disse que poderia usar o quarto que tinha em cima da garagem. No dia seguinte me levaria a escola, para ver como fazíamos.    O quarto era imenso, com um banheiro, pequeno, mas tinha um chuveiro, poderia me apanhar.  Paguei dois meses adiantado, embora ele não quisesse aceitar dinheiro.

Ele vivia com sua mãe, que estava doente na casa da frente.  Me contou que na verdade vivia em Manhatan, mas quem iria cuidar de sua mãe.

Me levou primeiro a uma escola, pois pensou que eu não sabia desenhar, a professora olhou meu trabalho, me disse que não tinha nada a me ensinar, que eu fosse a Parsons, lá sim poderia ir em frente.

Ele mesmo me disse, não sabia que eras tão bom.

Na Parsons me fizeram um teste, porque o semestre tinha começado, passei no teste, me disse que fosse pagar a matricular, pegar a lista de material que necessitava.

O amigo de minha tia Jim, foi legal comigo, disse que seu apartamento era ali perto, que eu podia ficar com ele, pois a casa era longe.  Pelo menos alguém cuidava do apartamento, depois eu conseguiria alguma outra coisa.    Na loja que fui comprar o material de pintura, vi um cartaz de que procuravam alguém para trabalhar, me ofereci,  teria aulas de manhã, tinha umas cinco horas livres, me contrataram.   Já tinha dinheiro, além de desconto no material que iria usar.

A primeira coisa que fiz, já que a casa não era minha, foi forrar uma parede de plástico, para não sujar, bem como o chão.

Nos dias seguintes estava a pleno vapor, dormia no salão, já que o quarto seria meu studio, comecei a receber informação, a trabalhar, a tentar entender a arte.

Nos domingos falava logo cedo com os meninos, com minha tia, eles agora a ajudavam, afinal não era tão jovem assim.

O que estranhei a princípio era que sempre tinha alguém procurando pelo proprietário, eu só respondia que não vivia ali, que tinha alugado o apartamento.

Um dia fui abordado na rua por um sujeito imenso, desses que passam o dia inteiro no ginásio, lhe disse o mesmo, que só tinha seu número de celular, nada mais.

No dia seguinte este me ligou dizendo que não disseste aonde estava, pedi dinheiro emprestado para cuidar da minha mãe, esses caras querem o dinheiro.

Quando o homem me parou na rua outra vez,  eu mesmo lhe disse, creio que jogou o celular fora, pois não me atende, aluguei o apartamento por dois meses, quando acabe vou embora daqui ninguém me deixa trabalhar direito.

Me perguntou o que eu fazia, lhe disse que pintava, abriu a camisa, perguntou se eu não o queria como modelo.  Lhe disse que não fazia esse tipo de pintura.

Ele insistiu, aceitei a contra gosto.  Marcamos, logo no primeiro dia, mal chegou, tirou a roupa toda, ficou nu.

O mandei se sentar num banco, numa determinada posição, comecei a desenha-lo, fui mudando de lugar para ver de outras posições, ao final, abriu as pernas, estava excitado.  Foi claro, queria fazer sexo comigo, essa nossa diferença de cor me excita.  Lhe disse que nunca tinha feito sexo com outro homem.

Não se preocupe te ensino, quando me viu nu, ficou impressionado com meu pênis, não o largou mais, eu pensando que ia ser currado, tive outra experiencia.

Ficou aparecendo várias vezes, conversava comigo, lhe impressionava o fato que eu sendo artista não consumisse drogas.

Me disse esta noite, que se continuasse me vendo, ia se apaixonar por mim, que não sabia se isso era bom, para o que ele fazia, mas que não conseguia me tirar da cabeça.  Eu não lhe disse nada, mas tinha arrumado um outro apartamento, no sentido contrário deste.

Durante o dia, ele nunca aparecia, me mudei rapidamente, tinha pouca coisa, além do meus desenhos, poucas roupas, meu luxo era a caminhonete. Coloquei tudo em cima desta, me mandei.

O melhor é que este agora tinha garagem, assim pelo menos eu podia esconder a caminhonete, se alguém me procurava por ela.

Semanas depois na banca de revista da frente da loja que trabalhava, mostrava uma foto de um assassinato, era o coitado, fiquei imaginando se eu estivesse junto, o chumbo que teria recebido.

Nunca mais voltei a ver o proprietário que me tinha ajudado, sabia que estava metido num marrom de fazer gosto, dever dinheiro a máfia, não era nada fácil.

Creio que fui criando sem ter muita noção um estilo próprio de trabalhar, isso parecia agradar aos professores,  na verdade escutava suas orientações, as entendia, mas usava a minha maneira, descobri depois que era isso que esperavam, orientar, mas que cada um fizesse a sua maneira.

Sentia uma dificuldade imensa de fazer amizades, tinha o tempo limitado, quando não estava ali, estava na loja, depois estava no pequeno apartamento pintando.

Na escola estava experimentando fazer um quadro grande, queria me sentir vivo fazendo isso, cada um tinha uma parede para isso.   A principio não se via qual o meu objetivo, fui criando capas, já com o rosto da figura em volume, quando estava com a textura que queria, comecei a desenhar o rosto de minha mãe morrendo, como ela tinha ficado com a boca aberta, após levar o tiro, querendo buscar ar.    Estava tão concentrado, que não percebi que os outros tinham parado de fazer o que estavam fazendo, estavam me olhando trabalhar, dois professores me observavam.

Quando acabei, me afastei, sem querer esbarei num colega que estava atrás de mim, que eu não tinha visto. Me aplaudiram.

Os professores balançaram a cabeça, como dizendo muito bem.

No dia seguinte, quando entrei na sala, eu sempre chegava antes dos outros, para seguir trabalhando,  ali estava um homem bem vestido, os cabelos impecáveis, todo uma figura, estavam ele, um dos professores de costas para mim.

Quando me viram o professor me apresentou,  Ruben Gaultiery tem uma galeria, no Soho, gostou do teu trabalho.

Mas ainda sou  um iniciante, preciso trabalhar mais.

Isso, necessito de mais quadros, não posso te lançar numa coletiva, pois vais acabar com os outros.

Se me fazes 10 desses tamanhos, prometo te vender todos.

Sinto muito no meu apartamento, não tenho espaço para isso,  é um studio pequeno, é o primeiro grande que faço, acho que o senhor está se precipitando.

O Ruben ria, imagina encontrar um artista que tem a capacidade de ser honesto, reconhecer que está começando.

Converse com teu professor, me deu um cartão, tens uma semana para me responder, eu posso arrumar um lugar para trabalhares.

O professor, era daqueles pessoas que falavam o estritamente necessário.  Quando vi o teu quadro vi o teu talento nascendo, todos teus trabalhos anteriores, embora pequenos são bons, mas isso te faltavam espaço para mostrar teus sentimentos.

Eu te arrumo um lugar, pois se ele o faz, ficarás em dívida com ele, outra coisa, ele vai te apresentar um contrato de exclusividade, não assine, ficarás para sempre preso dele. Leve essa conversa que só estas começando.   Mas faça a exposição.  Ah antes que use como argumento que trabalhas de tarde, eu sei que sim, tens dinheiro para aguentares pelo menos dois meses, esse é o tempo que vais pedir a ele.  Se não tiveres eu empresto.

Nesse tempo todo, tinha usado pouco o dinheiro que minha tia tinha me dado, bem como guardava a maior parte do que ganhava na loja.

O dono me disse, vai, se não acontecer nada voltas, as senhoras adoram ser atendidas por ti, pois lhes explica o que devem usar.

Fui ver o local com o professor, era um dos últimos, galpões que existiam ali no Village, recebi de herança, estou negociando a venda, mas posso esperar você acabar de preparar seu trabalho.

O senhor poderia vir por aqui olhar o que estou fazendo?   Senão perderei a noção do tempo, o contato com gente, já não tenho amigos, ficarei muito isolado.

Claro virei sempre que possa.

Coloquei três telas imensas na parede, fui preparando mais ou menos igual a todas, duas fiz um fundo negro, pintei a cara do meu pai me chamando de Bastardo, quando falava, era como o visse em câmara lenta. Aquela boca imensa, com os dentes meio estragados pela bebida, os olhos amarelos, a fúria que tinha seu olhar.

O terceiro desenhei o homem que tinha conhecido que tinha posado para mim, que nem sabia o nome, mas aproveitei os desenhos, a foto dele no jornal, pois a tinha visto de cabeça para baixo, o fiz sem roupa, numa diagonal do quadro, tudo era branco negro, em vez de estar com os olhos fechados, como na foto do jornal, o fiz com os olhos abertos, quando tínhamos sexo, chegava ao orgasmo.   Era como um orgasmo na morte.

O professor tinha uma maneira de comentar, balançava a cabeça, isso fazia que eu soubesse que estava bem.

Um final de semana me convidou para jantar, sei que não frequentas ambientes, mas precisas conhecer gente de tua idade.   Fomos a um restaurante, que parecia um teatro de revista, entrava e saia gente que sequer comia, somente alguns comíamos.   Muita gente vinha falar com ele, me apresentava, mas não me chamavam atenção.  Entrou um homem muito alto, vestido de mulher todo de azul, parecia um choque, pois se notava que tinha pelos no corpo, perguntou ao professor se depois ia ver o show.

Venha com seu namorado, apontou a mim.

Respondi rapidamente, não sou seu namorado, sou seu aluno, não tenho namorados, mas quero te pintar.

O outro puxou uma cadeira, como é isso.

Quero te pintar da minha maneira, vens ao studio, vês o meu trabalho, se aceita, te pinto, não posso pagar muito.

Caralho esse garoto, é incrível.

Incrível é o talento que ele tem, disse o professor que estava olhando a cena, com um sorriso na boca.

Ok, se vier ver meu show, apareço no studio, ok

Lhe disse que sim, prometo. Estendi a mão apertei, era a mão de um homem forte.

Depois de jantar, de conhecer mil pessoas, que no momento seguinte já não me lembrava de quem se tratava.  Não conseguia tirar da cabeça esse homem vestido de mulher, mas ao mesmo tempo tão masculino.

O professor, me disse, vais gostar do show, não é o show típico de travestis.

Eu lhe disse que nunca tinha visto nenhum, que nem sabia o que era.

O lugar do espetáculo, era ali perto, hoje já não existe mais.

Um bar, com mesas, um palco não muito grande, de repente apareceu aquele homem imenso peludo, com uma tanga, contou duas piadas, a melhor coisa que me aconteceu hoje foi conhecer uma pessoa, humana, sim porque vocês suas bichas descaradas, não são humanas.

De repente começou a cantar, quando terminou com sua voz potente, ficou meio em diagonal aonde eu estava. Tirei da minha bolsa um lápis, um bloco comecei a desenhar isso.

Mas era como se eu estivesse ao seu lado,

Apareceram outros atores, ele só voltou no final, agora vestido como estava antes, fazendo um numero comum outro ator, que estava vestido de homem, muito afeminado, dado momento, não sei como fazia, começava a cantar, mas como se estivesse comendo o outro que estava de fraque.  Era uma mulher possuindo um homem.

Sua cara era de uma maldade incrível, eu não parava de rabiscar, sobre o olhar atendo do professor. Quando acabou o show, ele disse que devíamos esperar mais um pouco, pois tinha muita gente saindo.

Por detrás chegou alguém que bateu no ombro dele, olá meu irmão, como andas, esse menino não prestou atenção no show.

Eu não podia acreditar, aquele homem era ele.  Comecei a rir, ele perguntou qual era a graça.

Lhe contei se o encontrasse na rua, não ia saber que era ele.

Obrigado isso é um puto elogio, significa que sou bom no que faço, mas na verdade, sou irmão mais velho dele.   Ele sempre foi o certinho da família, eu o ovelha negra.

O professor, tirou o bloco que eu tinha embaixo do meu cotovelo, ele prestou atenção sim no show, olhe.

Filho da puta desse garoto, como podes ler minha alma. Apertou minha mão, amanhã mesmo estarei lá.

Eu não podia esperar amanhã, não podia deixar esse homem escapar.  Lhe disse olhando na cara, não podíamos começar hoje?

Ficou me olhando serio de repente, o professor se afastou.

Não sabes com quem estas te metendo?   Isso pode ser ruim para ti, sou essa pessoa que viste em teus desenhos.  

Ah, estas pensando que quero fazer sexo contigo, ainda é cedo para isso, não tenho muita experiencia no assunto.  Portanto o que quero é outra coisa, tenho que fazer o que tenho na cabeça antes que me perca em outras coisas.

Fomos para o studio, quando entramos, ele só disse o local do meu pai.  Um bom filho da puta.

Pedi que tirasse a camisa, fui até o desenho, o que pensavas nessa hora, coloquei uns papeis grande na parede, comecei a desenha-lo, ficamos assim até de manhã, fazia calor, tirei a camisa, ele deve ter achado graça, eu era quase esquelético, branco como uma parede, meus pelos do sovaco eram amarelos.  Ficou me olhando, com um olhar de desejo, pintei isso também.  Lhe disse, tens uma coisa incrível, teu olhar, tua maneira de olhar, transmite tudo.

Bom por hoje acabamos, estou morto de cansado, um bom café agora iria bem, não achas.

Respondeu, prefiro um beijo.

Me aproximei, peguei sua cara passei a mão sujas de tinta por ela, o beijei, não imaginei que ia me incendiar. Não conseguia parar.

Caralho, não era para fazer isso. Mas não resisti, tirei sua roupa inteira, mergulhei nele, por assim dizer.  Quando terminamos estávamos os dois sujos de tinta.  Ficamos rindo.

Eu nunca imaginei que um garoto que não soubesse fazer sexo, pudesse fazer tudo isso.  A mil anos luz não tenho um sexo como esse.

Não nos largamos mais, durante dez anos, mas depois conto.

Preparei os quadros todos, ainda pintei dois de um negro que pedia dinheiro na Washington  Square, o desenhei ali na praça, sentado, pedindo dinheiro, era um dândi velho, mas com classe.   Perguntei se podia posar para mim, que lhe pagaria.  Me disse um preço, como dizendo ele vai se negar.

Um era um fundo branco, com ele como estava ali sentado, no outro o fundo era o céu cheio de nuvens, como se ele estivesse prometendo para todo mundo o melhor de suas vidas.  No último dia me disse que eu tinha uma coisa diferente das outras pessoas, tinha alma.   Nunca mais o vi, o procurei o resto de minha vida, mas não o encontrei.

Mas guardei isso dele, me dizendo que eu tinha alma, não aceitou o dinheiro que tinha me pedido.

O professor levou o Ruben Gaultiery para ver os quadros, ele ficou entusiasmado, eu não me enganei.  Tirou do bolso do casaco um contrato, justo nesse momento entrava o Jael, meu namorado, dizendo eu sou o agente dele, não assina nenhum contrato sem passar por mim, nem pelos advogados.

Tirou um lápis de uma de minhas caixas, foi riscando coisas.   Se quiseres fazer essa exposição, queremos um catálogo, cartazes pelos lugares importantes em termos de arte, quanto a essa porcentagem de 50% nem pensar, qualquer outra galeria ficaria com muito quiça com 15, o outro disse 20, ele é um desconhecido.

Ok, se trabalhares direito, os próximos quadros estarão sempre em sua galeria, mas nada de contrato.

Perfeito, vou preparar tudo que me pediste Jael, eu te conheço não?

Não acredito, acabo de chegar na cidade.  Eu agora ia dormir todos os dias na sua casa, nos dias que tinha show, eu ficava esperando por ele no studio, até que vinha me buscar.

Não tens medo de que saia com outro homem do show? Me perguntava sempre?

Não, porque sei que me queres, como eu a ti.  Olha Jael, podes fazer  isso qualquer hora do dia, quando estou trabalhando, nem vou pensar em te vigiar, mas se descubro algo, nunca mais vais me ver.

Um dia me arrastou com ele a um médico, para fazermos exames, foi claro, tenho Aids, me trato, viu que tenho cuidado, mas isso sempre é pouco.  Se quiseres me deixar eu entendo, devia ter falado no assunto no primeiro dia.

Nem podia pensar em deixa-lo, ele era um raio na minha vida.

Nos exames, deu que eu não tinha nada, mas me aconselharam como devia me comportar, isso tínhamos feito desde o primeiro instante.

Eu ia com ele visitar seus amigos no hospital, alguns em fase terminal, pedia licença educadamente se podia desenha-los, queria fazer uma exposição, para arrecadar fundos para o hospital, para aonde estava essa gente.   Quando ele dizia isso, aceitavam.

Mas tinha um que me olhava com horror, lhe perguntei por quê?

Me disse que nos meus olhos via a morte, que essa pele, esses cabelos, parecia a morte andando vestida de Rastafari.

Me sentei, comecei a desenhar, lhe disse assim?

Mostrei, começou a rir, até tossir, virou um grande amigo, saiu dali, seguimos amigos, porque se recuperou.  Jeremy Custer, um grande escritor, dramaturgo, as vezes aparecia no studio, ficávamos os três conversando coisas textos, quadros, ele dizia que eu conseguia ver a alma dos outros.  Acho que só quem viu a morte de perto pode fazer isso.

Um dia contei aos dois minha história, a cena do meu pai, minha mãe, como eu lhe dei o tiro no lugar dela.

Ficaram em silencio, Jeremy soltou que nesse momento eu tinha feito um pacto com o diabo, pois o que pensava que era meu pai ia me matar, mas teus reflexos ganharam, fizeste bem, um filho da puta sempre merece isso.

Minha tia tinha vindo com os dois ver a vernissage, disse que quando jovem tinha vivido essa vida, em Paris, fazia sucesso entre todo mundo.   Os meninos não se sentiram muito a vontade vendo os quadros, parece que estou vendo mamãe na cama me disse Matheus, pensei que ia me apaixonar pela cidade, mas a detestei.  Quero ir para casa, eu entendia, eu já não lhes inspirava confiança, entenderam minha pintura.   Me evitaram o resto de minha vida, como se eu os tivesse traído, os respeitei.

A vida seguiu, quando fiz a segunda exposição, ao ser dedicada aos doentes,  Ruben, convocou todos os jornalistas, pedia divulgação era por uma boa causa, nem ele nem eu íamos ficar com um puto dessa exposição.   Tudo foi vendido, o valor depositado em nome do hospital, para o tratamento da Aids.

Apesar da pressão para fazer uma nova exposição, queria mudar de ar.  Precisava sair de NYC, quando eu comentei com o Jael, ele me perguntou o que queria fazer.

Talvez me relaxar, ir a Paris, aos museus, beber na fonte, Londres, ou Berlin, vens comigo.

A resposta dele, foi franca, por nada do mundo te deixaria sozinho porque eres o ar que respiro.

Beber na fonte para ele, significava aprender, observou tudo nos museus modernos, como o Picasso, o Pompidou, depois em Berlin tudo que havia de moderno nas galerias.

Quando voltaram no voo Jael, começou a passar mal, saíram do aeroporto em ambulância diretos para o hospital,   depois de todos os exames, uma das medicações que ele tomava deixava de fazer efeito, agora vinha o mais difícil, acertar com outra, foram dias de agonia no hospital, mas não saiu do seu lado.

Eram capazes de se entender pelo olhar.                    Um dia Jael lhe disse que não queria ficar apodrecendo num hospital, como tinha visto seus amigos ficarem.  Não entendeu ou não quis entender o que se passava.  Dois dias depois quando voltava de comprar material para começar a trabalhar, visto que Jael saia do hospital, o encontraram morto.   Alguém tinha levado para ele um revolver ao hospital.

Ninguém sabia, ele estava aturdido, não conseguia entender.  Se lembrou da conversa, falou com os amigos dele, alguém tinha entendido a mensagem, ninguém abriu a boca.  Ele estava profundamente abalado com tudo, ficou fechado no escuro do studio dois dias sem sair, esperando uma luz, dormia ali mesmo no chão,  o tempo todo sonhando com os 10 anos que tinham convivido.

Quando se levantou, começou a pintar um quadro que era um revolver, pela primeira vez colocava umas palavras num quadro, será que resolve.

Passou semanas pintando como um louco, todos estavam preocupados, ele só abria para o rapaz que lhe levava comida.  Um dia, foi atender, atrás das embalagens estava o Jeremy Custer, venho te buscar, hoje é o enterro do Jael, não podes faltar.

Quando viu o que ele estava pintando, estas colocando toda tua agressividade para fora, isso mesmo.  O arrastou dali, contra sua vontade, o levou para tomar banho, mas a casa do Jael, tudo lhe fazia lembrar o homem que tinha amado tão loucamente.

O enterro ia ser judeu, tinham feito a autopsia do Jael, a bala tinha destroçado seu crâneo, mas nisso descobriram que tinha um tumor na cabeça, que sua vida não ia demorar muito tempo.

Ele procurou ficar a parte o tempo todo, essa quantidade de gente dando a mão, lhe ofendia, lhe fazia mal, era como ver milhões de mãos tentando lhe agarrar.

No cemitério, ficou afastado chorando, agora realmente tomava consciência que nunca mais o ia ver.   Ficou ali sentado num tumulo qualquer chorando como uma Madalena, uma pessoa lhe estendeu um lenço, aceitou, quando levantou a cabeça, estava ali um dos atores que trabalhavam com o Jael.        Sei o quanto ele te amava, mas é impressionante ver como transformastes esse homem num ser maravilhoso.   Devo muito a ele, deixei de fazer shows, ele disse que eu estava perdendo tempo, tinha talento para outras coisas.  Me fez ver que podia ser algo mais, agora estou estudando psicologia.

Ficaram ali conversando, comentou o que sentia, perdi uma pessoa que amei desde o momento que o vi, mesmo vestido de mulher, pude ver que por detrás estava um homem fantástico.

Ele me dizia o mesmo de ti.  Mas ele sabia que se ficasse vivo, a vida ia ser uma miséria, para ti, para ele.  Tinha visto todos seus amigos morrerem, não queria isso.

Eu entendi desde a primeira vez que me disse, mas não sabia o que podia fazer, não sabia como aliviar isso dele, na verdade tivemos uma viagem de despedida maravilhosa, nunca poderei esquecer nada que vi com ele, as conversas, as discussões que tínhamos a respeito do que víamos.

Eu acho que ele sabia que era sua última viagem, pois me disse dias antes, se não vou, pode ser que nunca mais veja o homem que amo.

Mas tens que tocar para frente, lembre-se que o Jael, já tinha quase 65 anos, ele era muito mais velho que você.   Tinha vivido a vida que tinha escolhido.  Você ainda é jovem, tens muito pela frente.

Lhe deu seu número de telefone, quando quiser apareça no studio.   Assim começo uma amizade que duraria sua vida inteira.   Agora saiam os três, Jeremy, Coult, o arrastavam para jantar, ir a um cinema, ou mesmo a estreia de um espetáculo, baseado na obra de Jeremy.

Assim foi se reerguendo aos poucos.  Pintou uns dois quadros que era ele mesmo gritando, na verdade era um quadro em branco, com uma boca escancarada gritando, os dentes, a língua  as narinas , os olhos nada mais.

O outro era sobre um sonho que ele tinha tido, como se fosse uma vingança, agora lhe tirava outra vez uma pessoa que ele amava.

Tentou falar com os irmãos, Thorpe estava estudando em San Francisco, Matheus levava o restaurante na vila, cuidava da tia, não quis falar com ele de maneira nenhuma.

Não insistiu, quem sabe o tempo acomodaria tudo.

Os dois últimos quadros, foram comprados sem sequer passar pela galeria, todos os dois para um museu Frances.   Para muitos seria uma glória, mas o dinheiro de um comprou um apartamento antigo, imenso num último andar, como precisava de reforma, abriu todo um lado, deixando uma pequena parte, para uma, sala, cozinha banheiro e um quarto, o resto era seu studio.

As vezes tinha vontade de sexo, saia com os amigos, pelas discotecas, os dois riam dele pois se fixava em homens parecidos com Jael.  Ele mesmo percebeu isso, começou a procurar o oposto.

Mas nunca passavam de uma noite, não havia magia, nada que fizesse inclusive que a pessoa ficasse para dormir.

Um dia vinha andando pela rua, deu sem querer um encontrão com alguém que vinha carregado de livros, se abaixou para ajudar, pedindo desculpas.   Era mais ou menos de sua idade, loiro, olhos verdes, atlético.   O rapaz disse, eu sei quem eres, caramba, adoro teus quadros.  O sorriso que tinha era cativante, começaram a conversar, foram tomar um café.

Porra quiseram ter isso todos os dias, conhecer uma pessoa especial.  Ficaram de se ver, estuda jornalismo na universidade.   Mas não deu certo, quando chegaram a cama, ele queria o Jael, foi uma merda, menos mal que o outro foi esportivo.  Eu entendo, as pessoas que amamos, nos marcam para a vida.

Um dia vagabundeando pela rua, para se relaxar, viu um cartaz de um grupo de jazz, um que segurava o saxofone, parecia com a descrição que tinha dado sua mãe.   Foi assistir sozinho o show.   Como estava sozinho numa mesa, três rapazes perguntaram se podiam sentar ali.  Um deles era filho do homem do saxofone.  Lhe perguntou se queria conhecer seu pai, podia apresenta-lo.

Disse que não, ir buscar no passado, não ia fazer bem, pois teria que desenterrar muita coisa.

Fez um quadro, que era como figuras recortadas, um homem tocando saxofone, tinha memorizado seus movimentos, era como se a cada movimento a figura que começasse em negro fosse se diluindo na tela, até ficar com duas mãos mais nada segurando o saxofone.

Isso era o seu passado, se diluindo, nunca mais iria em busca do passado, nunca mais voltou a vila, quando a tia morreu, mandou um ramo de flores, mas sequer telefonou aos irmãos.

Seguiu sua vida pintando, algumas vezes saia com alguém, mas seus dois amigos eram sua companhia predileta.

Pelo menos uma vez por semana, saiam para jantar, conversar, ou iam ao studio para ver o que estava pintando.  Quando teve uma quantidade grande de quadros, chamou o Ruben, marcaram uma exposição.   De novo foi um sucesso.  Tudo vendido.

Ele sentia que precisava se reciclar, não gostava de ficar parado no tempo, resolveu aprender a fazer escultura, voltou a escola para isso.  Quando estiveram em Paris, tinham ido ao Museu du Quai Branly, aonde viu muitas máscaras africanas, nem tinha tocado nessas fotos, procurou as mesmas,  começou a trabalhar em cima disso.    Misturando o como gostava de trabalhar, dizia que a boca os olhos, as narinas das pessoas podiam dizer muita coisa.

Começou a sair pelas ruas procurando negros que se parecessem com mascaras, os desenhava, um dia estava na Washington  Square, ficou fascinado por um estudante, seus traços pareciam terem sido cortados a faca, ficou ali o desenhando, mudando de lugar para ter outras perspectiva, quando escutou uma voz forte dizendo, fazes isso sem autorização, vou chamar a polícia.

Não tinha visto que ele tinha saído do banco aonde estava para se colocar ao seu lado.

Caramba, fico mais bonito, pelos teus traços. Estendeu as mãos negras por fora, brancas na palma,  Jonathan ou Jonas  Klayberg, mas minha mãe me chama de só Jonas,  é uma senhora fantástica.

Queres posar para mim Jonas?

Caramba rapaz, vai ser difícil, primeiro porque eu disse meu nome, me apresentei, mas tu não disseste o teu.

Thobias Grunderk, sou pintor.

Eu sei quem eres, me lembro quando chegaste na universidade, com aquele cabelos imensos rastafari, ainda perguntei a um colega, de aonde saiu essa peça.

Sou professor aqui,  dou aulas de direito, bem como de psicologia criminal.

Estou perdido, adeus, meus crimes todos virão a tona.

Se tenho tempo, claro que posaria para ti, mas tens que fazer um retrato meu, para oferecer a minha mãe, ela ia adorar. Tirou da carteira, uma foto dele, ao lado de uma mulher branca, ah sou filho adotivo.

Passaram a se encontrar ali na praça, até que um dia o levou ao studio,  pediu que tirasse a jaqueta, bem como a gravata, a camisa. O iluminou como gostava, começou a desenha-lo de todas as maneiras.  Sem saber, bem porque, num desenho incluiu o menino que estava com a mulher branca.  Seus olhos, sua maneira de olhar para ela.

Jonas quando viu ficou de boca aberta, como sabes que eu estava pensando nisso, essa foto estava guardada aqui a muito tempo, nunca mostrei para ninguém, porque pedem muitas explicações, eu odeio.  Você ao contrário, olhou, guardou na tua cabeça, agora sai espontaneamente.

Quando Jonas voltou de novo, ele tinha pintado um quadro, aonde Jonas criança, estava sentado num banco de jardim, com a senhora, que ele tinha memorizado, com um vestido cheio de flores, atrás olhando os dois Jonas adulto, de traje, gravata, um olhar sério.

As lagrimas rolavam na sua cara.  Como chegaste a isto?

Não sei, olhando a ti. Nada mais.

Eres um caçador de almas. Fez uma coisa que ele não esperava, se levantou, o abraçou, beijou sua boca, foi um efeito devastador. Ficou sem folego.

Tinha encontrado um novo amor.   Os dois faziam um par completamente diferente, ele tão branco, o outro tão negro.   Quando ele disse ao Jonas que era albino, primeiro ele não acreditou, lhe mostrou a foto de sua mãe, ela me contou no seu leito de morte, que tinha tido uma aventura, com um negro de uma cor distinta aos demais, que ele sem roupa era como um homem branco, eu nasci assim, branco quase transparente.

Foram levar o quadro para a mãe do Jonas, era uma senhora muito distinta, vivia numa zona chic da cidade.   A então é você que tem sequestrado o meu filho.   O abraçou, beijou seu rosto.

Quando viu o quadro, perguntou quem te falou nesse vestido, ele explicou que tinha visto nos olhos do Jonas.   Quando soube que ele na verdade era albino, ria muito, podia pensar que eras sueco, da Noruega, ou coisa parecida, mas que tivesses sangue negro nunca.

Agora ia com Jonas todos sábados jantar na casa dela.

A princípio Jonas só vinha dormir, mas foi ficando, gostava de estar estudando ou escrevendo qualquer coisa, enquanto ele pintava ou desenhava.

Os outros dois quadros do Jonas foram para a exposição, já marcados de vendidos, não queria que ninguém tivesse o seu amado. Os deu de presente a ele.

Agora depois de todos esses anos, estava esperando por ele, para entrar nas salas aonde faziam a retrospectiva de sua vida.   Estava emocionado,   Jonas sempre o acompanha em tudo.

Viu que ele chegava por detrás, o que estas fazendo aí escondido, aproveitando isso para rever tua vida.  Ele ofereceu seus lábios, sim, exatamente isso, fazendo uma análise de tudo.

Entraram os dois no salão do museu, aonde estava sendo sua retrospectiva, com obras que tinha espalhados pelo mundo inteiro.  Agora com a idade, trabalhava mais devagar, fazia uns desenhos pequenos para depois aumentar.  Tinha sempre no bolso, um bloco pequeno, um lápis.  Nunca tinha imaginado isso, essa necessidade de estar sempre captando pessoas.

Estavam os dois casados oficialmente a meio ano, a mãe do Jonas, dizia que queria morrer tranquila, sabendo que o filho estava bem casado com ele.

Comentou com ele, pena que ela não está aqui.

Ia adorar, conversar com essa gente toda.  O quadro do Jonas com ela, ocupava uma sala especial.

Pela primeira ver tinha se recordado do Jael, sem sentir dor no peito.

A vida seguia, agora em ritmo mais tranquilo.

OUTRO?

                                                      

Estava com a mão doendo de tanto dar murros na parede, filho da puta era pouco dos palavrões que dizia, ao mesmo tempo se culpava por ter sido ingênuo.

Estava literalmente apaixonado, mas isso não resolvia o problema, agora via que tinha sido usado todo esse tempo.

Se lembrou literalmente como o tinha conhecido, estava em seu escritório, no alto de sua torre que os amigos diziam que era de Rapunzel por causa de seus cabelos loiros compridos, acabava de atender um cliente, agora entrava outro.

Desculpe, abriram a porta, a secretária me mandou entrar, mas creio que há um engano, estendeu a mão ele por força do hábito disse, Johnny Fieldscott em que posso atende-lo. 

Estou procurando o senhor Robert.

Ah, é a sala seguinte, não passa nada, as secretárias deviam acompanhar os clientes até a sala, mas estamos em falta com pessoal, a empresa ainda é nova.

Ele tinha estado mais de dois meses, fazendo práticas em San Diego, agora sentia falta de lá, ao voltar em pleno inverno de NYC.  Acompanhou o homem, lhe indicou a sala, tudo que viu  que era um homem atraente.

Atendeu o seguinte, depois saiu para almoçar, estava esperando um amigo que não via a algum tempo, tinham sido namorados, mas agora eram apenas amigos, já estava sentado quando este chamou para pedir desculpas, um cliente de última hora.   Não passa nada, respondeu, já nos falamos.

Começou olhar o menu para pedir a comida, ia almoçar sozinho isso já estava acostumado, viu uma pessoa parada na frente dele, ia dizer o que queria, era o homem que tinha entrado em sua sala por engano.

Johnny, não é?    Me chama Robert Dascal, não tive tempo de me apresentar, falei com teu colega, creio que houve um erro lamentável de ambas as partes, me mandaram vender algo, que vocês também vendem. 

Sente-se, vais almoçar?

Não, acabei de fazê-lo, mas  te espero para tomar café.  Ficaram conversando, ele disse que vivia fora da cidade, ainda não consegui apartamento aqui.  Estou procurando. 

Creio que um ao lado do meu, está para alugar, se me espera depois do trabalho, eu saio por volta das seis, inclusive dá para ir a pé.

Ficaram conversando, falando de produtos que vendiam, nada de muita importância, não sabia o que pensar, já que o outro o olhava diretamente na cara. Por duas vezes quase tinha deixado a comida cair na toalha.   Tinha ficado nervoso, aquele homem bonito olhando para ele assim, não sabia o que pensar.

O acompanhou até o edifício, se despediram, nós veremos quando saia.

Trabalhou o resto da tarde, atendendo pessoas, era um trabalho novo para ele, antes tinha sido vendedor, mas de sistema de internet para grandes empresas, era especialista nisso.  Mas a empresa fechou, aceitou esse trabalho.  Não lhe desgostava, mas esperava logo conseguir alguma coisa na sua área.

Por algum tempo esqueceu do outro, quando levantou a vista, viu que estava atrasado, pensou no frio que devia estar aquentando.

Desceu rapidamente, lá estava, pediu desculpas, foram andando, foi cortes perguntou pela sua tarde de trabalho, etc.

Quando chegaram no edifício o porteiro disse que já estava alugado, mas dentro de uma semana, vai liberar um justamente no andar de cima.  Anotou o nome do Robert, com o frio que tinha obrigado ao outro aguentar, por ter esperado, lhe perguntou se queria um café, assim via como era o tipo de apartamento.   Entraram sacudindo do resto de neve.  O apartamento estava razoavelmente quente.          Perguntou se queria café ou outra coisa para esquentar, este riu lhe perguntado o que tinha para oferecer, trouxe uma garrafa de whisky, dois copos, perguntou se queria gelo, ele disse que gostava a cowboy, riu dizendo que ele também.

Lhe serviu, lhe mostrou o apartamento, por último o quarto que era espaçoso, com relação a sala, lhe perguntou se tinha família,  porque aqui não vive nenhuma família, creio que a maioria é família sem filhos.

Disse que não, lhe gostou que tinha uma poltrona, com uma mesa, justo perto da janela,  lhe explicou que gostava de ler, ali estava bem.  Quando iam voltando para a sala, ficaram frente a frente na porta, o outro avançou o beijando na boca, foi uma loucura, um terremoto percorreu seu corpo.  Quando viu estavam fazendo sexo como loucos, o tinha penetrado, este gemia, pedindo mais.  Acabou dormindo ali com ele, se levantou mais cedo dizendo que tinha que passar pelo seu hotel, para trocar de roupa.

Um pegou o número de celular do outro, passaram a dormir todos os dias, mas na sexta-feira disse que tinha que tomar o trem para a casa dos pais, pois levava a roupa para lavar, que se veriam na segunda, assim foi durante dois meses. 

Estava literalmente apaixonado.  Como era época de natal, saiu para comprar alguns presentes, no sábado, com um amigo, tinha que comprar coisas para sua mãe, sua irmã, claro para os sobrinhos, entraram numa grande loja de brinquedos modernos, quando o viu abraçado a uma mulher, ficou parado, se escondeu atrás de uma coluna, menos mal que seu amigo disse que o esperava fora, pois ali cheio de criança não entravam.  Viu que dois garotos corriam até ele, gritando papai.  Ele passou a mão na cabeça dos meninos, depois beijou a mulher. 

O primeiro impulso foi de se aproximar, para ver sua reação.

Ficou furioso, nessa noite saiu com o amigo tomou um porre monumental, estava frustrado, não gostava do emprego, ia aguentar mais tempo, pois pensava que estava apaixonado, mas não passava do outro.  Na cama o filho da puta estava sempre pedindo para ser enrabado, agora isso, era casado.

Por sorte no domingo, um amigo que tinha feito em San Diego lhe chamou, para dizer que na sua empresa de informática, precisavam de alguém com a experiencia dele, se queria, o lugar era seu.  Disse que sim, que queria, só precisava de dois dias, para embalar suas coisas, pedir demissão.   Se for possível, irei buscar meu carro  na casa da minha mãe, deixo os presente, irei de carro, pois aí, é melhor andar de carro.  

O amigo lhe disse que podia ficar uns dias na sua casa, mas que normalmente a empresa encontrava apartamentos para os empregados.   Perfeito foi tudo que disse, nem perguntou pelo salário, queria era sair desse inverno, da situação que estava.

Passou o dia inteiro arrumando em três caixas o que era seu,  segunda de manhã, foi a empresa, pediu as contas, foi até a casa de sua mãe no Brooklyn, deixou os presente, pediu desculpas, mas não podia perder essa oportunidade.   Quando voltou seu celular não parava.  Até conseguir um lugar para estacionar, foi difícil.  Quando chegou a porta do edifício, lá estava ele lhe esperando.  Lhe apertou a mão, ele subiu atrás dele.

Quando o este olhou as caixas, lhe perguntou o que significa isso, ele lhe mostrou uma fotografia dele com a família.

Ele literalmente se sentou numa cadeira.  Eu ia te contar, sinto muito, estou apaixonado por ti, estou tentando aguentar tudo, não esperava me apaixonar, pensei que ia ser somente uma noite, mas não consigo te tirar da minha cabeça.

Chegas tarde, além de que, eu jamais aceitaria ser o que fica esperando, te enganaste de pessoa, sou jovem demais para aguentar isso.   Se levantou tentando beija-lo, mas o empurrou, não sejas idiota, nem uma última noite quero contigo, me usaste isso não perdoo.

Queria saber para aonde ele ia, se negou a dizer.  Aliás nem no trabalho tinha dito, a única que sabia era sua mãe.

Estava furioso, lhe disse agora que já falamos, por favor de sair, antes que chame a polícia.

Ele foi embora, furioso, como se tivesse a razão.   Se sentou, chorou um pouco, mas não podia perder tempo, desceu pediu se o porteiro podia ajuda-lo, desceu suas coisas, enfiou no carro, lhe entregou a chave do apartamento.

Se me perguntarem aonde o senhor se mudou, o que digo.

Nada, literalmente nada, vou pelo mundo.

Entrou no carro, olhou para ver como estava de gasolina, era uma hora horrível para sair da cidade.  Estava literalmente furioso, nem dois quarteirões de sua casa, quando o viu falando com um rapaz, parecido com ele.  Ficou furioso, desceu do carro, se aproximou, ele dizendo ao outro que prazer te encontrar.   O agarrou, beijou na boca, virou-se para o outro, tens que ter o pau bem duro, pois ele gosta muito de dar o cu.

Saiu disparado, com ele atrás, filho da puta, é o irmão da minha mulher.

Agora te apanhes, entrou no carro, foi embora. Tinha de uma certa maneira se vingado. Na hora foi ciúmes mesmos.   Agora lhe importava uma merda a vida dele.

Antes de entrar na estrada, parou num posto de gasolina completou o tanque, viu que tinha um motel ali perto,  pediu um quarto, a mulher riu dizendo, o último, com esse frio ninguém quer dormir nos caminhões, ele viu uma fila de caminhões ali.

Já estava entrando no quarto quando escutou uma voz atrás dele, ei garoto bonito, não queres dividir teu quarto, meu caminhão está frio.   Olhou para trás, era um cara alto, com uma camisa de quadros vermelha, botas de cowboy, bonito a bessa.  Disse entra, antes que morras de frio.

Uau, que sorte, a mulher tinha acabado de dizer que este era o último. Se te incomoda durmo no sofá.

Bom tudo que quero agora é tomar um banho, quando saiu o outro estava deitado na outra cama, de cuecas, camiseta, tinha um corpo de enfarte.

Agora vou eu,  parou na porta, na hora que te vi, estava com uma cara de fúria, que quase desisti de pedir.

Não passa nada, vestiu uma camiseta, uma cueca, ficou encostado na cama.  O outro saiu, só de toalha, com os cabelos molhados.

Sabia que quando andas teus cabelos largos balança, são muito atrativos.

Posso, se sentou ao seu lado na cama, me conta o que te aconteceu?

Sem saber muito por que contou tudo. 

Eu te entendo, passei por algo parecido, mas do outro lado, me casei muito cedo, mas evitei ter filhos a toda custa,  ela era minha primeira namorada, nunca tive outra, não tinha experiencia, quando comecei a viajar, conheci um sujeito que levava a vida como eu, da mesma empresa que trabalhava na época.   Acabei fazendo sexo com ele, me apaixonei como um idiota, pedi o divórcio, pois não podia imaginar minha vida sem ele, quando cheguei na empresa, me disseram que ele tinha trocado de companhia, para ficar mais perto da família, tinha mulher, quatro filhos, estava no seu segundo casamento.

Mas a primeira vez que nos encontramos, se comportou como se nada tivesse acontecido.

Bem vamos dormir que está tarde, perdão se jogou na outra cama, não sei dormir de roupa, tirou toda sua roupa.  Tinha um corpo espetacular.

Porque não pensou, melhor dormirmos juntos, para esquentar, foi uma da melhores fodas que tinha tido na vida.   Depois ficaram rindo, ele soltou, fazer sexo contigo é como uma montanha russa.

Para aonde vais?

San Diego, para um novo trabalho.

Vou na mesma direção que você, podemos ir nos encontrando pelo caminho, marcamos quantos quilômetros fazemos, que te parece.  Tomaram café junto, escutando as notícias comentando.   Lhe perguntou aonde vivia.

Vivo em San Diego, embora seja de Santa Fé, mas amo a praia, fazer surf, tenho uma pequena casa na praia.

Ele disse o próximo lugar que pararia, te espero lá, riu posso ter certeza disso?

Sim, vou ligar para o amigo que me arrumou o emprego, lhe digo que por causa do tráfego, que preciso ir pensando na vida,  chegarei em uns 3 dias.

Vale,  marcaram, ficaram rindo, ele viu se carro, precisas de um novo, eu quando não estou na estrada, conserto carros, vendo, etc.

Sem porque ficou analisando o encontro, tinha sido algo estranho, tudo o que ele não tinha feito na cama com o outro, porra nem lhe perguntei o nome. Lhe chamou pelo celular, nem perguntei teu nome.

José Garcia, apesar de loiro, sou filho de mexicanos, depois te conto.  Paramos para almoçar?

Já te alcançarei.   Almoçaram juntos rindo, do fato de não terem perguntado o nome um do outro.

Johnny nunca gostei tanto de estar com alguém, me senti a vontade, apesar do princípio de pensar que estavas se desaforando do teu ex-namorado.

Nem pensei nele, juro, me senti a vontade contigo, contou que o outro na cama era como uma mulher, eu achava estranho, mas não me toquei, ele queria o que não tinha na cama com sua mulher.

Se não fosse me atrasar pois tenho que cumprir horário, iria fazer sexo contigo no caminhão.

A noite jantaram, depois ficaram na cama comentando coisas, estavam entrando numa área de deserto, a noite que vem, se queres podemos fazer uma coisa, parar num lugar que adoro, tenho mantas, edredom no caminhão, dormir olhando as estrelas queres.

Ficou de pau duro, imaginando, já não estava fazendo mais frio, se entregou completamente a ele, depois dormiram agarrados um ao outro.  De manhã fizeram sexo outra vez.

Disse que ele faria as compras, para comerem no deserto.  Ok

Nos vamos falando,  almoçaram juntos outra vez, chegaria mais tarde em San Diego, mas arrumaria uma desculpa.    Se encontraram no posto de gasolina, comentou meu carro está esquentando muito, ele imediatamente abriu o capo, começou a examinar. Uau, menos mal, porque ia te deixar atirado daqui uma ou duas horas.   Foi a loja do posto de gasolina, veio com a peça, trocou para ele.

Quanto te devo?

Me paga com sexo, faz muito tempo que não sou feliz com ninguém,  me siga, chegaram justamente na hora que o sol estava se apagando, a paisagem era fantástica.

Comeram sentados em cima de mantas, bebendo, coca cola, José lhe disse que quando estava na estrada não bebia.

Me conta essa historia de seres loiro, olhos azuis, ter nome mexicano.

Sou adotado, meu pai verdadeiro era amigo da família que me criou, ele estava com minha mãe tinham bebido muito, eu estava num cesto no banco de trás, capotaram com o carro, morreram os dois, o nome de contato como parente era o Jose Garcia.   Ele me levou para sua casa, não tinham filhos, então me adotaram, me colocou seu nome.  É uma figura, pensei que ele fosse dizer quando descobriu que eu era gay, que não me queria como filho, só me disse que me queria feliz.

Foi fantástico fazer sexo ali a luz da lua, olhando nos olhos, dele, cada um penetrou o outro várias vezes, não queria acabar, pois no dia seguinte chegariam a San Diego.

Já vi que não tens muitas coisas, não queres ficar na minha casa para irmos nos conhecendo?

Não vou te incomodar.   Depois iras de viagem, como fico.

Ah, não te disse, essa era minha última viagem, fiz para cumprir um compromisso com a empresa, faltou alguém, me chamaram, eu arrumo os caminhões para eles.  Só faço isso de vez em quando me pedem, me pagam muito, por isso não nego.

Depois é norma ir passar o natal em Santa Fé, com meus pais, podes vir comigo.

Mas José mal nos conhecemos.

Eu sei, mas não quero perder o que tenho contigo.   Ele pensou bem, disse eu tampouco, creio o que tive em NYC, foi porque me sentia totalmente sozinho.  Agora me sinto forte ao teu lado.

Lhe disse aonde tinha que lhe esperar, almoçaremos juntos, depois te levo para minha casa.

Voltaram a fazer sexo, quando o dia amanhecia, adoro teu cheiro lhe disse ele ao ouvido, estou louco por ti.  Fizeram um sexo fantástico.

Voltaram para a estrada, como tinha sobrado coisas, comeram no meio do caminho, quando entramos em San Diego, vou deixar o caminhão, tu me segues,  depois pego meu carro, vamos para casa, espero que não queria me esperar fora, não tenho vergonha do que sou, todo mundo sabe que sou gay.   Mas não deixo nenhum deles, se aproximar de mim.

Assim fizeram, ficou surpreso, com a casa dele, era fantástica, estava quase ao final de uma praia relativamente perto de aonde ia trabalhar.  Avisou seu amigo que tinha chegado, que não se preocupasse, que no dia seguinte cedo estaria pronto para trabalhar, embora fosse sexta feira, pelo menos ia tomar contato com o que ia fazer.

Comeram ficaram sentados numa varanda que tinha no andar de cima, no quarto do Jose, só não podemos fazer sexo aqui, porque iam ficar com inveja do meu homem.

Lhe mostrou aonde tinha oficina.

De noite disse, as vezes a vida te putea, mas em seguida te dá um presente, não podia ser melhor, isso é ótimo.

No dia seguinte, foi cedo para o seu novo trabalho, foi bom porque estavam relaxados pelo final de semana.  Conversou longamente com o chefe que queria criar um novo tipo de serviço, lhe explicou, infelizmente só te podemos oferecer uma secretaria ou secretario que tomes como ajudante.  Lhe disse o salário que era três vezes o que ganhava em NYC, bom isso estava bem, lhe levaram aonde iria trabalhar, uma sala separada, ah disse o chefe, esse salário é para os três primeiros meses, se o projeto avança, aumentamos com benefícios.  Agora venha, vou te apresentar os candidatos que temos, lhe passou as fichas, leia no final de semana, na segunda-feira entregue a minha secretária, ela os chamara para entrevista.

No meio da semana que vem é natal, então paramos na quinta-feira, voltamos na terça-feira porque a maioria é de outra cidade, para dar tempo de chegarem.

Estava super contente, passou na oficina, do José, ele estava terminando um trabalho, ficou sentado perto o vendo super concentrado no que fazia.  Era um modelo antigo da Ford, do ano de 1946, super luxo Woody Vagon, lhe recitou José.   O comprei de um senhor que foi surfista estava na garagem meio oxidado, o motor tinha ido para a merda, desmontei inteiro o mesmo, as peças que não encontrei, fiz eu mesmo no torno, até ficarem iguais, estou nisso a três meses, faltam ainda lixar a madeira lateral, recuperar a mesma, depois pintar nas cores da época, enfim bastante trabalho.   Anúncio, falando que o motor é novo.

Recupero ou peço para algum conhecido me ajudar recuperar os assentos, esses estão ótimos, escute o motor, parece um novo. 

Foram caminhando para casa, ele disse, preciso falar uma coisa séria contigo, porque se vamos para Santa Fé, será uma das primeiras coisas que meu pai vai falar contigo.  Não quero que te pegue de calças curtas.                  Inclusive depois do que eu te diga, podes até me dizer adeus.  Eu nunca comento, morro de medo de falar no assunto, mas como estou apaixonado por ti, tens que saber a verdade.

Eres soropositivo por um acaso?

Não nada disso, tem a ver com doença, mas nada disso, sentaram-se na sala, de mãos dadas, olha a uns dois anos atrás, desmaiei, fui parar no hospital, me diagnosticaram uma doença do coração, que deve ser hereditária, ou de nascença, como sou tão grande, meu coração em alguns lugares é como uma folha de papel.   Posso viver, cinco anos, 10 anos, 20 anos, conforme o que eu faça.   Um dos motivos que não aceito mais viajar de caminhão, pois poderia acontecer algo na estrada, sem querer provocar um acidente.

Mas faço exames todos os meses, segundo o médico, o que me aconteceu foi como um aviso, quero que saiba disto, pois como estamos começando a nos conhecer, temos tempos de nos recuperar.  O segundo assunto, ficou parado, esperando a cara de ansiedade dele, foi difícil esperar o dia inteiro para te ver de novo.

Seu sem vergonha, quase me mata de susto.  Na verdade, a vida é assim, por exemplo meu pai, saiu para trabalhar, não voltou, minha mãe levou dias para descobrir que estava morto na morgue de um hospital, quando caiu fulminado, lhe roubaram a carteira, ficou sem documentos.

Ela imaginando que ele a tinha abandonado com dois filhos por criar, essas coisas.

Tinha somente 28 anos, ninguém podia esperar isso, como pode acontecer de repente eu morrer antes de ti.   Nunca saberemos o que vai nos acontecer depois.  Creio sim que quero te conhecer mais, o que conheço já gosto demais, nunca esperei encontrar alguém como tu.

Temos interesses completamente diferentes, mas isso não nos impede de gostar de viver, um dia desses tem que me ensinar a fazer surf.

Amanhã o dia promete, tem um garoto na praia que gosta de ensinar, vou pedir que lhe dê as primeiras aulas, depois tenho duas pranchas, pode usar uma.

O duro sempre seria levantar, gostava de ficar agarrado a ele, sentindo o cheiro de sua pele.

Escutou que ele falava em espanhol com alguém, fez um sinal, meu pai.

Lhe disse que ia levar um namorado, se tinha problema, me disse que não que ia avisar minha mãe.

Foram em seguida a praia, lhe apresentou o rapaz, a praia estava lotada de jovens se preparando para entrar na água,  ele antes deu um mergulho, como querendo sentir que seria bem-vindo ali.          Depois se juntou a um grupo que idade variada, que o rapaz estava ensinando os primeiros passos,  depois mais tarde experimentaram o que ele tinha ensinado.

José veio ficar perto dele, lhe ajudou com as ondas pequenas, truques de equilíbrio, depois foram comer num bar ali na praia.  Comeram peixe, estava estupendo, a tarde já case caia quando foram para casa, ficaram nus um comendo o outro com os olhos, por estarem molhados fizeram sexo no tapete.

De noite ficou olhando analisando as fichas que tinha dos candidatos.  Tinha separado 3, dois rapazes, uma moça.   Ele olhou as fichas, passou ao José, o que achas.  Ele leu, separou uma, ficou olhando a cara do sujeito, depois olhou a outra, por último a garota.

Lhe disse, este daqui, vais notar que gosta de trabalhar junto com outra pessoa, esses dois vão querer te passar para trás porque estão loucos para entrar na empresa, subir a qualquer custo.

Faça uma pergunta trampa, para saber qual deles se acha o máximo em informática.  Aí saberás que esse daqui, está mais querendo aprender, compartilhar que esses outros dois.

Disse para a secretaria do chefe chamar os três para entrevista, sentou-se em sua sala, começou a estudar a ideia do projeto, fazendo anotações em seu laptop.  Tinham lhe dado um novo, aonde ele acoplou um disco duro externo, pois gostava de levar para trabalhar em casa.

Quando o chefe entrou, tinha seu novo laptop totalmente desmontado, estou verificando se é melhor forma de trabalhar, seria conseguir maior rendimento dele, vou acoplar o disco duro externo, bem como criar um sistema de segurança, para que nenhum funcionário, já que isso fica aqui, possa entrar, depois te dou o código.

O outro estava de boca aberta, se eu faço isso, ao remontar sou capaz de fazer outros dois laptops,  Entendo de teorias, mas não de coisas práticas.

Eu ao contrário entendi as duas, começando a montar o meu primeiro computador, com dois velhos de primos meus.  Vi as peças que estavam boas, fui montando até conseguir um superior a um novo.   Ainda o tenho, com ele posso fazer coisas inclusive que um laptop não faz, pois o fui melhorando.   Se me autorizas posso trazer para trabalhar.  

Claro que sim, como queiras, alias vinha te avisar que os candidatos estão aqui, faço passar o primeiro.

Logo de cara, não gostou do sujeito, sentiu que tinha um cheiro não muito agradável, mãos suadas, se estas nervoso, relaxa.   Perguntou uma serie de coisas que este respondeu, pelo teu curriculum vejo que trabalhaste na Oracle.   Porque saíste de lá.  Foi logo falando que tinham inveja do trabalho dele, que ele era melhor que os outros.  Nem precisou fazer a pergunta trampa, viu que se perguntava sobre o trabalho anterior a pessoa caia.

Depois foi a garota, muito segura de si, viu o computador desmontado, fez uma cara de asco, que tonto, deve ter pensado, se todos vem prontos.   Era experta em programação, tinha trabalhado na Microsoft.  Fez a pergunta de um milhão, caramba é uma puta empresa, porque saíste.

A lista que ela apresentou, nem de longe poderia ser verídica, que os homens tinham medo da inteligência dela, que na área dela, era a melhor, sabia mais que o próprio chefe.

Lhe disse que entrariam em contato.

O último era um rapaz simples, quando viu o laptop desmontado, ficou alucinado, se relaxou, ficaram falando um tempo no que ele estava fazendo.   Soltou o primeiro que tive, era um velho do meu pai, o desmontei, ele tinha trocado porque tinha um defeito que voltava sempre, mandava arrumar, funcionava dias depois tinha que voltar.  Vi um gatilho que tinham feito, é o meu preferido até hoje.  Meu pai ficou furioso quando descobriu que tinha sido enganado, na verdade seu trabalho era rotineiro, ele só usava uns 10% do potencial do computador.

Lhe explicou qual era o trabalho, metade isso, preparar alguma peça ou ligação para desenvolver um programa de interligação com clientes.

Uau, muito interessante, mas teria que aprender a fazer isso, pois sei das coisas, mas cada grupo funciona de uma maneira, estou disposto a aprender.

Mandou o rapaz para o departamento pessoal, para fazer o contrato, este agradeceu, o melhor presente de natal que poderia ter.  Eu estava trabalhando numa empresa que reparava computadores, meu chefe me disse que eu podia aprender mais numa empresa como essa, foi ele quem me indicou.

Avisou o chefe quem tinha escolhido, esse riu, eu quando vi as fichas, também teria escolhido esse, alias conheço seu antigo chefe, diz que o rapaz esta sempre interessado, mas que ali não tinha futuro.   Mas claro não ia dizer isso para ti.

Voltou para casa feliz, Jose estava passando lixa na parte de madeira do carro, esse lhe disse, passa esse líquido do outro lado, mas coloque máscara, espere secar um pouco, depois, raspe.

Sim senhor meu chefe, como pensas em pagar?

Com carne viva.  Foram para casa conversando, ele falou do rapaz que tinha contratado.  O chefe depois voltou para ver se eu tinha remontado o laptop, pediu se eu podia fazer o mesmo no seu, quando viu que o meu funcionava mais rápido.

Vou lá dizer, que cuidado, que nenhum avance sinal contigo, porque eres meu.

Essa noite, contou, vou te apresentar um amigo, aliás meu único grande amigo. O vais achar estranho, porque ele é diferente, é grande porque tem ossos grandes, mas não gordo, esta sempre serio prestando atenção em tudo.   Meu pai quando consegue arrancar um sorriso dele se levanta o beija na cara.  Sabe que esse sorriso, representa que gostou da história. Mas sempre foi assim.  Ele foi repudiado pela tribo inteira, ah esqueci de dizer que ele é índio, pois seu pai era um filho da puta de muito cuidado, matou a sua mãe, então na sua infância foi um garoto problemático, agressivo.  Quando José o trouxe para casa, vivia querendo me provocar para brigar.   Mas um dia na escola um grupo resolveu me dar uma surra, ele não permitiu, disse para os outros se alguém vai dar uma surra nele sou eu, nem se atrevam a tocar um dedo nele, tirou um canivete.   Todos saíram correndo, deu esse seu sorriso torto, ficamos amigos de pôr vida.

Quando eu estou em casa, Maria minha mãe o avisa, ele vive sozinho no centro, cuidando de um centro de recuperação de menores, vai para casa todo o tempo que estou, pode sentir um pouco de ciúmes de ti, mas não ligue.

Quando saíram da cidade, iam carregados de presentes, ele o ajudou a escolher os presentes, mas para o amigo que nem saiba o nome, escolheu uma coisa especial.

Quando chegaram, os pais saíram para abraçar o filho, ao contrario dele que era alto, os dois eram baixos, mais para gordos, o abraçaram também, seu pai Jose, segurou sua cara ficou olhando nos seus olhos, lhe deu um tapa suave, seja bem-vindo garoto.   Nisso parou um jeep velho, caído aos pedaços, saiu um homem com uma cabeleira negra imensa, levantou José do chão, filho da puta, nunca das notícias.  Abraçou e beijou os velhos, quando o viu, olhou o José, quem é esse garoto, o abraçou apertado, levantando do chão, disse ao seu ouvido, se fazes alguma coisa má para meu amigo te matarei, o colocou no chão deu um sorriso torto, gostei do muchacho.

A mesa estava posta, tinha comida para um batalhão, não quero que meus meninos passem fome, olhe como estão magros.  Agora entendi o nome do outro era Corvo, eu magro, estou assim porque vivo comendo aqui, levando quentinhas para meu quarto, se um dia estouro a culpa é de vocês.

Depois os dois foram arrumar a cozinha, nem deixaram Maria fazer nada, quando eles estão aqui me tratam como a rainha de Inglaterra.

Falas espanhol Johnny?

Não senhora, mas estou aprendendo, como José misturando sempre alguma palavra no que fala, aprendo.

O pai muito sério, ele te contou do que padece.

Sim senhor, me contou tudo, para que eu não levasse um susto.

Perguntaram de seu trabalho, procurou explicar em palavras simples. Quando viu os dois estavam parados lado a lado na porta, escutando.    Papi, entendeste alguma coisa?

Nada, mas fiz cara de interessado para ele não pensar que sou mal educado.

Verás depois lhe dá aquele seu computador que não funciona direito, vais ver do que ele é capaz.

Depois, agora vocês deveriam ir leva-lo para dar uma volta, conhecer a cidade.  Tua mãe vai preparar a ceia de Natal para amanhã.

Johnny qual a tua religião? 

Sou católico, por quê?

Amanha fazemos a ceia antes, depois vamos a missa, hábito da casa.

Os dois levantaram as mãos para o céus, mama, é necessário?

Claro que sim, a família toda junta, que vai pensar o Johnny.

Nada responderam os dois ao mesmo tempo.

Corvo foi explicando a cidade, sua maneira de falar era meio bruta, suas mãos eram imensas, a direção do jeep parecia uma dessas de brinquedo com ele segurando.

Depois foram tomar uma cerveja, fez questão de apresentar alguns conhecidos que estavam ali.

Depois os levou para casa, hoje não janto com vocês, tenho plantão. Me toca cuidar dos garotos.

Corvo gostou de ti, pois se alguém aparece do meu lado, logo cria caso, fica provocando a pessoa, faz tudo para instigar que a pessoa se aborreça ou comigo.  Diz depois não servia para ti.

Por que não o convidas para vir passar o Ano Novo conosco na praia?

Isso seria interessante, pois ele quase nunca sai daqui, creio que foi uma única vez, chovia horrores, nem banho de mar tomou.

Antes de ir embora, o convidaram.  Olhou para um, depois ficou olhando o Johnny, isso foi ideia tua não é, quer me conhecer fora do meu ambiente, para saber se sou mais amigo.  Perde teu tempo sou pior.

Absolutamente, apenas quero te conhecer melhor, eu estou aprendendo fazer surf, o José disse que a única vez que estiveste lá, chovia muito.

Surf, ficar andando em cima dessa coisa, como se fosse a coisa mais importante do mundo.

Eu tampouco me interessava, posso dizer que me relaxa, como se a água do mar, me descarregasse por dentro.

Ias acabar gostando, eu ainda não sou um experto nisso, mas gosto de ir aprendendo, alias nunca me nego a aprender uma coisa nova.

Falou tudo isso, desmontando o computador do velho José, esse ao lado estava com os olhos arregalados.    Perguntou quem tinha um soldador, tem um peça aqui solta, ia falando, mas estava prestando atenção em tudo que fazia.   Corvo se debruçou, começou a perguntar para que servia cada coisa.  Foi lhe explicando da maneira mais simples possível.  De que estava composto etc.   Experimentou, a velocidade tinha aumentado.    Perguntou qual o uso que o José pai, lhe dava ao computador.

Instalou uma série de coisas que lhe facilitariam seu uso.  Também lhe ensinou a usar, lhe disse que anotasse tudo isso, pois em caso de dúvida, olhasse as anotações.

Corvo tinha desaparecido, voltou com um velho laptop, é o que tenho lá na associação, os meninos as vezes usam fica uma merda, dá um jeito nisso para mim.

Claro, arrumou tudo, se não queres que usem, crie um bloqueio.

Os deixo usar para se distraírem. 

Vou ver se consigo, aonde trabalho, antigos, arrumo, assim iras buscar, esses garotos terão o que usar.

Ficou olhando para ele, o que vais querer em troca?

Nada, que apenas vá passar o Ano Novo com a gente.

Ficou olhando para ele como se desconfiasse.

Mas na hora que se despediram o apertou como fazia com o José.

Vais te arrepender dessa chantagem, mas irei.

Lá estarei esperando, vou ver o que consigo com os portáteis para os garotos.

Logo no dia que foi trabalhar, entrou como um furacão na sala do chefe, perguntou se podia pedir uma coisa.

O que vais pedir desta vez.

Se vocês tem laptops velhos, que eu possa consertar para dar para uma organização que cuida de garotos de ruas.  Claro faríamos uma coisa benéfica.

Venha comigo, o levou a uma sala, é tudo teu.  Se quiseres o nome da empresa bem, mas pelo menos livra essa sala dessas coisas todas.

Arad Ronney, seu ajudante, quando viu ele separando tudo, perguntou para o que era, ele lhe explicou, vou trabalhar nisso depois do horário.  Esses meninos quem sabe o que serão no futuro.

Posso me oferecer para te ajudar, além de ser uma coisa que gosto de fazer, será para uma boa causa. 

Se consigo pelo menos dez antes do ano novo, já fico super feliz.  O que faltar num, procuramos um bem fudido, vamos juntando peças, fazemos uma seleção dos que tem possibilidades, os que não fazemos como um ferro velho, separamos as peças boas para usar.   No primeiro dia, já tinham ordenado uma boa parte, fazendo isso.

Na véspera do Ano Novo, já tinham 11 para usar, na mão dos garotos seria genial.   Perguntou aonde o Arad ia passar o Ano Novo.

Com minha namorada, embora estejamos estremecidos, pois não quer que eu fique longe, mas assim é a vida, ela tem a profissão dela, não posso pedir que venha para cá.  Lá aonde vivemos não tenho futuro.   A largo prazo, evidentemente vamos nos separar.

No dia seguinte, bom o que eu temia, já aconteceu, me deu o fora, vai passar o Ano Novo com os pais num barco.

Lhe disse que Corvo vinha para passar com eles, porque não vens.

Quem são eles?

Ah vivo na casa do meu namorado, na praia.

Corvo é gay?

Não que eu saiba, por que te incomoda que eu seja gay?

Nem pensar, cada um tem direito a viver sua vida, só não quero incomodar os planos dos outros.

Nada será tudo simples, jantaremos, depois ficaremos na praia com a turma de amigos surfistas.

Surf, uau, então vou, posso levar minha prancha, assim faço um novo grupo, estou procurando um lugar para viver, quem sabe algum, quer dividir apartamento.

Avisou ao José que vinha seu ajudante.

Ele fez a mesma pergunta, se ele era Gay.

Foi o que ele perguntou do Corvo, é surfista também, vamos nos divertir, ensinando o Corvo surfar.

Não creio que ele queira aprender?

Deixa comigo.  Depois que estiver na água, nunca mais vai querer sair.

Trouxe com Arad, todos os laptops, embalados, o deixou na oficina do José.   No escritório em cima arrumou uma cama para o Corvo.

A primeira coisa quando chegou foi, aonde estão os Laptops, pois senão vou embora.  Na hora que foi levar suas coisas aonde ia dormir, ficou de boca aberta.  Conseguiste, seu filho da puta, agora vai me chantagear, nisso entrava o Arad.  Lhes apresentou, ele me ajudou a arrumar tudo para os teus meninos.

Quando viu a prancha do Arad, não penso em subir em cima disso.

Ninguém respondeu.  O dia estava estupendo, foram para a praia, quando Corvo tirou a camiseta, tinha um corpo estupendo que ele escondia embaixo de roupa muito grande, logo se viu cercado de surfistas que pensavam que ele era do Hawái, foi divertidíssimo, quando disse que não sabia surfar.  Todos queriam lhe ensinar, ele não teve escapatória.

Os outros entraram na água, ele perguntou o que eu fico fazendo.   Aprendendo. Jose ficou surpreso, Arad surfava bem, disse que era seu esconderijo, dos chatos, ali no mar se sentia pleno, além é claro quando estou consertando coisas com o Johnny.

Foi um fim de ano estupendo, estavam impressionado pois Corvo quando finalmente entendeu como funcionava o surf, fez sucesso com os garotos, pois se ele conseguia na sua idade, eles também.   Fizeram a festa na areia, uma grande fogueira, com todo mundo cantando, conversando, namorando, até o dia nascer.   Quando o sol despontou, José, falou ao ouvido do Johnny, queres casar comigo. Este levou um susto pela seriedade do José.   Me darias um grande prazer na vida, não consigo imagina-la sem ti.

Antes fales com teus pais, se concordarem, te respondo. 

Que tem meus pais a ver com isso, não vou casar com eles.  É por causa do meu problema?

Que problema estas falando, fico preocupado que não queira isso para ti, sei o quanto eres importante para eles.

Eles já sabem, tanto que minha mãe, mandou o anel de família para ser ampliado para ti.

Então quero, muito, apesar do pouco que nos conhecemos, não consigo pensar em viver longe de ti.   Nunca vivi com ninguém, nos damos bem, que mais posso pedir.

Contaram aos outros, Corvo ficou olhando serio os dois, vocês tem muita coragem, fico com inveja.  Quem sabe um dia eu também encontre o que eu quero.

Agora todos os finais de semana que tinha de folga vinha para surfar, tinha feito amizade com a turma da praia, além do Arad.   Os mais jovens vinham pedir conselho a ele, sobre muitas coisas, drogas, namoradas.   Nisso ele era ótimo.

Passaram cinco anos, Johnny tinha acabado o programa que fazia sucesso, mas por um lado ele não se sentia satisfeito, gostava disso, mas lhe faltava algo.  Conversando com Arad, esse comentou o mesmo, pensei que me sentiria mais realizado, mas sabe do que sinto falta, daquilo que fizemos com os laptops para a garotada, gosto disso de construir, de  juntar coisas, criar isso sim me deixaria contente.

Johnny disse que nunca tinha visto um lugar para estragar tanto material, a maioria dos que ali trabalhavam, ao menor problema pediam um novo, pois reclamava que o seu dava problemas, entendiam de tudo, menos da própria máquina.

O famoso deposito estava sempre cheio.   Eles tinham conseguido um lugar na oficina do José, na parte de cima, continuavam montando laptops com os que não serviam mais, primeiro arrumaram mais para o lugar do Corvo.   Depois eram os garotos da praia que lhes trazia o que tinham, para arrumar.

Ficaram pensando nisso, pois chegou um momento, que  não davam abasto, além do trabalho, na empresa queriam dar um cargo ao Johnny, para desenvolver um novo programa, quando olhou a proposta, lhe resultou totalmente desinteressante.  Declinou, falou com o José, este riu, já esperava isso a algum tempo, quando ficas quieto pensando, alguma coisa não vai bem, pensei que era entre a gente até que entendi que não, estamos bem.

Sim, imagina que se eu não te tivesse como ia ser, minha cabeça ia explodir, mas sempre posso contar contigo.

Tempos depois, estavam trabalhando na parte de cima, quando escutou um baque, pensou que alguma coisa tinha caído, chamou o José, não escutou resposta, desceu com o Arad.   Ele estava caído no chão.  Chamaram a ambulância, ficou uma semana no hospital, não houve jeito de o tirarem de lá.  Arad lhe levava roupa, tomava banho lá mesmo.

Quando Corvo trouxe seus pais, conversaram com o médico, ele foi claro, é o começo do declive, podemos lhe assistir, agora ele pode durar um tempo indefinido, como pode ser de um momento a outro.   As coisas foram complicando, depois que Maria morreu, piorou, a um ponto de estar de cadeira de rodas, mas seguiam dormindo juntos, ele pedia ao Johnny faça sexo comigo por favor, prefiro morrer a não te sentir em mim.

Havia um carinho imenso entre os dois. Corvo arrumou um emprego num organismo quase idêntico, era o apoio dele, bem como Arad.

Durou pelo menos mais um ano e meio, morreu dormindo nos braços do Johnny.  No seu testamento deixava tudo para ele.  O que  queria era que suas cinzas fosse levada pelos surfistas, lançadas depois das ondas, para que elas viessem surfando até a praia.   Assim fizeram, foi um ritual maravilhoso.   José pai, foi morar com uma irmã sua em San Diego.

Assistiu da praia a cerimonia do filho.  Deu um abraço apertado no Johnny, obrigado por cuidar do meu filho até o final.  Eu não estava só, tinha o Corvo, Arad é os amigos.

Corvo o pegou uma madrugada andando pela praia, ficou andando com ele em silencio, até que se sentou, começou finalmente a chorar, contou como o tinha conhecido, num mal momento de sua vida.  Nunca mais tinham se separado, eu sabia do seu problema, mas imaginei que isso seria daqui uns dez anos ou mais.   Mas me arrancaram o amor de minha vida.

O trabalho para ele era um desafogo, agora consertava inventava em cima do que a empresa que trabalhava antes precisava.   Foi com Arad a Corea, aonde estavam os grandes fornecedores de material, depois ainda a alguns fabricantes na china do qual já compraram, passou a desenvolver um tipo de Laptop, que os que trabalhassem em informática, tivessem o maior potencial possível para seu trabalho.  Depois o mesmo fizeram para quem trabalhava em desenho gráfico, ficaram conhecidos por isso, por desenvolverem laptops especiais para quem lhes encomendassem.

Agora os dois trabalhavam, usando a parte da oficina embaixo.  Corvo chegava cedo todo dia, para tomar uma cerveja com eles, ajudar na cozinha.

Arad arrumou uma namorada que trabalhava com desenho gráfico, estava morando com ela, sem compromisso.  Agora só sobravam ele, mais o Corvo para irem fazer surf.

Um dia preocupado, perguntou a ele, pois nunca o via falando de nenhuma namorada, se não sentia falta de estar com alguém.

Como é isso, eu estou com alguém, justamente já fazia muito mais de ano que José tinha morrido.

Que queres dizer com isso?

Que estou esperando por ti, ainda não percebeste que estou apaixonado por ti, desde o dia que apareceste com o José.   Hoje é pior pois não quero viver longe de ti.

Ah, meu amigo, colocou a mão em cima da sua, achas de poderia dar certo uma coisa entre a gente.  Deves estar farto de me escutar dizer o que sinto falta dele, nunca mais fiz sexo com nenhum outro homem.

Quem sabe um dia desses chegamos a um ponto.

Lembra quando você me contou como se tinham conhecido, a noite que dormiram no deserto, a gente acostumava fazer isso na nossa adolescência.  Ficávamos os dois olhando o céu, as estrelas,  falando dos nossos sonhos, o dele era ser amado.  Os meus de vingança, contra os que tinham me expulsado da tribo.

Mas anos depois descobri a verdade de tudo isso, foi doloroso, mas superei tudo, afinal tinha uma família, nele, em José, Maria, não precisava de mais nada.

Eu adoraria ir de novo fazer isso, planejamos tantas vezes, mas nunca conseguimos ir. Fazíamos  si aqui na praia, nos dias muito quentes, levávamos uma manta, dormíamos olhando o céu.

Eu sei, ficava com uma certa inveja disso.

Estou cansado, podemos tirar uma semana, ir até o deserto perto de Santa Fé, acampamos, o que achas.

Seria fantástico.  Ele tinha tudo a tenda, sacos de dormir.  Planejaram, ainda convidaram o Arad, mas sua namorada, disse que nem pensar, tinha medo de que algum bicho a atacasse.

Lá foram os dois, no primeiro dia estavam inibidos, ficaram conversando.  Corvo contou que suas aventuras nunca tinham passado de uma noite, as pessoas se assustam comigo, pelo meu tamanho, ficam imaginando coisas, quando me veem nu totalmente devem se decepcionar, pois tenho um membro normal, nada demais.  Ai quem não se sente bem sou eu.

Na segunda noite, tinham bebido, isso os relaxou, estavam sentados recostados num tronco ao lado de uma fogueira, conversando Corvo contando as reminiscências de sua juventude com o José.  Todo mundo pensava que eles tinham sexo, mas creio que nunca nos passou pela cabeça.

Quando se viraram para algum comentário, estavam cara a cara, saiu o primeiro beijo, primeiro terno, depois com mais ânsia, quando se deram conta, estavam fazendo sexo.  Nem tinha se tocado do que ele falava, realmente ele deitado em cima do Corvo parecia que estava no mar.

Era uma coisa diferente do que tinha com José,  ficaram rindo quando acabaram, ele deve estar olhando a gente lá de cima, rindo.

Sabe que ele sabia que eu gostava de você?

Como um dia, estávamos a volta da cama dele, saíste para ir a farmácia, ele daquele jeito direto, me viu te acompanhar com o olhar quando saias do quarto, me olhou nos olhos, me disse meu, irmão, amas o Johnny?

Nunca escondi nada para ele, lhe contei que sim, desde o primeiro dia.

Então me promete que vais cuidar dele para mim.

Eu ri, mais fácil ele cuidar de mim.

Passaram a viver os dois juntos, iam a todos os lugares juntos, tiveram foi que mudar de cama, pois esta era pequena para ele.   Johnny sempre de gozação dizia que quando estava em cima dele, sentia como se estivesse no mar.

Sabes que aprendi a fazer surf, porque queria estar perto de ti no mar.  Era verdade, ele sempre estava no meio dos dois.  Agora percebo coisas que não percebia, era tudo tão natural que não me toquei.

Eu jamais iria interferir entre vocês, cheguei a sonhar de estar fazendo sexo com os dois, mas claro isso era como profanar nossa amizade,  me afastava.

Arad estava nervoso, lhe perguntou porque, a namorada o estava pressionando para se casar, ele não queria uma família, filhos, nada disso.

Teriam que fazer outra viagem, foram os três, depois ele esticou com o Corvo até o Hawái, foi divertido, pois todos pensavam que era um deles.  Se divertiram muito fazendo surf.

As noites era boa demais, Corvo era muito apaixonado fazendo sexo, queria que ele tivesse o maior prazer possível, era como se procurasse superar o José.  Quando lhe disse isso, riu, sei que não poderia.   O que quero mesmo é sentir que você fique louco, é como eu entrasse em transe contigo.  Então estou sempre procurando uma coisa nova em ti, para te satisfazer.

Mas o que eles tinham era completo.   Eu adoraria me casar contigo, mas isso terei que esperar que você me peça.

Um dia ele voltava da oficina, tinha como sempre os surfista ao lado do Corvo, conversando, se confessando como ele dizia.  Mas tinha um em especial com cara de adoração, sentiu uma coisa que nunca tinha sentido, ciúmes.

Quando comentou com Corvo isso, ah, ele já se abriu comigo, lhe disse que era impossível, pois sou de uma pessoa só, que não posso pensar em viver sem ti.

Mas já está conformado.  Um dia viu o rapaz conversando com o Arad, achou graça. Este depois comentou que esse rapaz tinham um laptop que tinham feito.  A cabeça do Arad, estava diferente, disse um dia durante o trabalho, levantou a cabeça, sabe que vou fazer?

Não, vais voltar com a tua namorada?

Nem pensar, me sinto prisioneiro com ela.  Depois o sexo já nunca funcionou direito, me sentia incompleto não sei por quê.   Talvez porque via primeiro você com o José, agora com o Corvo como se comportam.  Vou experimentar fazer sexo com uma pessoa que me interessa.

No outro dia estava rindo.  Foi demais, nunca pensei que seria possível.

Quem foi?

Aquele rapaz que pensou que estava apaixonado pelo Corvo, disse que sentiu o mesmo que eu, vendo vocês dois juntos, ele queria uma coisa assim.  Tampouco como eu, tem muita experiencia, vamos seguir nos encontrando.

Realmente um ano depois estavam vivendo numa casa quase ao lado da deles.   Mas anos depois adotaram um casal de crianças abandonadas.   Quando lhe comento isso, sempre dizias que não querias filhos.

Não sei te explicar, mas me sinto completo com ele, adora crianças, sempre quis ser pai, então por que não.

Corvo na verdade tinha muitos filhos adotivos, adorava trazer a garotada de aonde trabalhava para aprenderem surf.

Tempos depois souberam da morte do José em San Diego, foram os dois ao enterro.  Na volta dormiram outra vez numa área muito deserta, entraram com o carro, jogaram mantas no chão, ficaram ali conversando.  Johnny tirou um anel que o tinha visto provar, o pediu em casamento.

Ele quase jogou o Johnny no ar, como uma criança.   Sonhei tanto com isso, mas vamos fazer uma coisa discreta ok.  é entre nós dois. Usaremos o mesmo anel, se perguntam respondemos.

Agora estavam mais soltos que nunca, Corvo não escondia que eram um casal, alias peculiar, pelo seu tamanho, Johnny mal chegava ao seu ombro.  As vezes faziam sexo no mar, experimentaram uma vez o Corvo ficar boiando, ele o usando como uma prancha de surf sentado em cima do seu sexo, depois saíram da praia as gargalhadas.

Já posso contar a garotada, que virei uma prancha de surf.  Mas quando chegaram em casa, agora quero ser tua prancha de surf, mas contigo dentro de mim.

Assim era a relação deles.

SORT OUT

                                                       SORT  OUT

Tinha levantado com os dois pés esquerdos como costumava dizer, quando mal abria os olhos se lembrando como seria seu dia.  A primeira coisa que pensou, vai ser uma merda.

Sua tia, fazia questão de todos os anos, mandar rezar uma missa por sua mãe, que já tinha morrido a mais de 10 anos.             Isso incluía aguentar um sermão do padre, que adorava falar complicado para parecer importante, ao que passados cinco minutos ele deixava de escutar, a plateia como ele chamava estava escassa, as velhas estavam todas morrendo pensou. Olhou diretamente na cara do padre, quando esse o olhou, fez um sinal, colocou o dedo sobre o relógio, este ficou vermelho, cortou rapidamente o sermão, afinal não mais que dez gatos pingados ali.

Teria que esperar sua tia se despedir das outras mulheres que iriam lhe perguntar quando se casava.   Estava já a estas alturas fartos, colocou dinheiro na mão de sua tia, disse que pegasse um taxi.

Ela colocou as mãos na cadeira, soltou, é que tua mãe, não te ensinou a ser cortes com as mulheres. 

Sim, respondeu de mau humor, mas não com as chatas que não tem nada que fazer no seu dia a dia, tenho pressa, tenho que trabalhar.

Entrou no escritório furioso, sua secretária de muitos anos, riu, cuidado teus cabelos estão pegando fogo.  Acabou rindo, pois usava a cabeça raspada.

Me fizeste imaginar a cena, quem é a primeira vítima, foi tudo o que perguntou, quando ela entrou enquanto ele tirava o casaco, colocou o café na frete de sua mesa.

Pelo visto o sermão esse ano foi curto?

Ele contou as gargalhadas o que tinha feito.   Agora era a vez dela rir, eu quando tenho que levar minha mãe a missa aos domingos, antes com a desculpa que tenho que falar com o padre, lhe digo se não faz um sermão curto, vou me levantar mandado tomar no cu na frente de todo mundo.              Faz uns sermões de uns 10 minutos, mas ao final me olha, faz um sinal para mim. Embora saiba que quer me mandar a puta que pariu.

Bom vamos as vitimas da quarta-feira, era o dia que ele recebia os escritores, ou para dizer que iam publicar seu livro, ou para mandar reescrever quase tudo, ou dizer que a ideia era boa mas que refizesse o texto inteiro, ou por último que era uma merda.

Nem sempre era agradável, o primeiro era um escritor pedante, que achava que todos seus livros seriam best sellers, normalmente a ideia original podia ser boa, mas ele não queria ter trabalho, vinha com um papel na frente, essa ideia foi usada num filme de Classe B, uma merda.

Sabia quem tinha lido o mesmo, era seu braço direito, nunca poupava a linguagem.  Tinha uma cabeça fantástica, se lembrava dos textos, se eram cópias ou não.

O sujeito entrou na sala com um sorriso falso em toda sua cara, lhe apertou a mão, depois esfregou uma na outra, quando vamos publicar essa maravilha.   Sem uma palavra, para não ter que discutir, lhe entregou o mesmo.   Sua cara mudou totalmente, quase espumava, a ideia pode ser do filme, mas eu a melhorei muito.

Sinto muito, ou mudas a ideia original, ou começas outra vez desde a primeira página. Não posso fazer nada, se um leitor diz isso, sinal que tem razão, ainda mais se tratando do Bradford.

Essa maricona velha, sempre faz tudo para amargar o dia.

Respeito, primeiro Bradford é mais jovem que tu, pelo menos uns dez anos, ou mais, além de que confio totalmente nele.

O outro se levantou, pegou o manuscrito, levantou os ombros, jogou ele mesmo na lixeira. Mais um sonho inalcançável.

Teve que ficar rindo, quando o via descer pelo corredor.   Era um embusteiro de muito cuidado, tinha escrito realmente em sua vida um livro bom, o primeiro, depois jamais foi capaz de escrever outro.   Vivia ainda das vendas do primeiro.

Apertou o interfone, avisou a secretária que estava livre.              O segundo era um rapaz jovem, estava nervoso, mas seu texto era muito interessante, ele mesmo o tinha lido por  recomendação do Bradford.   Apertou sua mão, perguntou se queria um café ou água.

Água por favor, estou nervoso, depois que vi esse senhor sair furioso, dizendo que ninguém o entende, fiquei pensando meu texto é uma merda.

Não meu caro, olhe aonde ele jogou o dele, ele mesmo o considerava assim, o teu pelo contrário é interessante, Bradford anotou as páginas, que gostaria que revisasse, bem como melhorar o texto, peça depois a minha secretária, para marcar uma hora com ele, mas recomendo não chegue atrasado, ele odeia.

O sorriso do rapaz iluminou a sua cara.  Obrigado, muito obrigado.

Assim foi toda a manhã, agora teria que ir almoçar com um amigo do Bradford, que vinha tentando publicar um livro com a historia da família, escrito por uma tia, solteirona que não tinha o que fazer, mas que glorificava a família.

Teria que ir com tato, porque essa família possuía ações da empresa.   Isso lhe incomodava uma merda, mas estava em suas obrigações.   Ele mesmo tinha lido o tal escrito, mais tonto era impossível, talvez tivesse algum fundo de verdade no que falava, mas iria interessar mais ou menos meia dúzia de leitores, com certeza amigos dessa família WASP, White Anglo-Saxon Protestant, normalmente todos metidos a besta como ele dizia.

Estava entrando no restaurante, o garçom que o conhecia, sabia qual mesa deveria lhe oferecer, dali poderia olhar o restaurante inteiro, se aparecia alguém, que ia ser um saco, ele saia pela cozinha, dali a porta dos fundos.

Mal se sentou, chegou o homem, vestido no estilo inglês perfeito, estendeu a mão como se fosse um beija mão papal.  Se sentou lhe entregou o envelope, gostava de ir direto ao assunto, assim poupava ter indigestão.  A cara do outro era curiosa.

Assim, antes do aperitivo, da comida.

O senhor me desculpe, mas é minha maneira de trabalhar, infelizmente o texto não merece uma publicação, nos daria prejuízo, o senhor como possuidor de ações da empresa sabe disso.  Acredito que lhe possa oferecer uma outra opção, indicar uma empresa que imprime, encaderna um livro assim, muito bem, para que o senhor possa oferecer aos seus amigos, seria a melhor opção.

Só então notou que tinha uma pessoa em pé.  Era uma cópia melhorada do outro, com uma roupa informal, passou por detrás deste, se sentou sem cerimonia nenhuma, me desculpe ao meu irmão, tão cheio de protocolo, mas eu lhe avisei que o texto era uma merda, uma quantidade de mentiras dessa bruxa solteirona.  Tinha dinheiro, não tinha o que fazer foi para a Inglaterra, inventou que estava pesquisando por la, quando o que mais fez foi gastar dinheiro.

Agradeço sua gentileza, eu também prefiro soltar a verdade, antes de comer, porque pode dar uma azia muito forte.

O outro se levantou, filho da puta, sempre estragando tudo que eu queira fazer.

Virou as costas, foi embora sem se despedir. 

O outro lhe estendeu a mão outra vez, Richard Brakstone, odeio todas essas mentiras, creio mesmo que os nossos antepassados vieram para cá, algemados na galera, por serem bandidos ou coisa parecida.  Mas meu bisavô inventou essas bobagens todas ao respeito da família, para entrar na sociedade, quando ficou milionário.

Meu irmão nunca trabalhou na vida, só me faz essas merdas, ora quer ser produtor da Broadway, ou de cinema, patrocinar qualquer artista que acha que será um sucesso, gastar dinheiro.    Eu sou pelo menos honesto, sou um sem vergonha de muito cuidado, gasto minha parte da fortuna sim, pois sou gay, não penso em me casar, então antes que acabe na mão desse idiota, vou gastando.

O olhou bem, não me eres estranho, fez um sinal para o garçom, lhe perguntou vinho tinto ou branco.

Me desculpe, não bebo,  no almoço só tomo água, porque depois tenho uma tarde horrível hoje. Podemos pedir se queres comer comigo.

Nem pensar, acabei de levantar-me, acabo de tomar o café da manhã.  Daqui irei jogar tênis para manter a forma.

Já sei de aonde te conheço, te vi uma vez numa festa na casa de alguém ou um jantar não é.

Ia concordar, mas nunca o tinha visto, não frequentava esse tipo de ambiente, suas saídas estavam com seus amigos de sempre.

Creio que não, basicamente odeio festas fúteis, como lhe disse, não bebo, não fumo, odeio ficar escutando besteiras superficiais, desculpe se sou franco.

Eu gosto, no nosso meio, tudo que escuto é isso, tens razão, tens razão.  Se levantou, com educação, estendeu a mão, espero não ter estragado o seu almoço.  Bom apetite.

Foi embora, realmente era uma bela figura de homem, mas todos os dois estavam fora da sua lista, odiava esse tipo de comportamento, tanto de um como de outro.

Pediu finalmente seu prato predileto das quartas-feiras, para alguns um gosto um pouco tonto, pois era uma comida leve. 

Acabou de comer, pagou, saiu, foi direto para a editora, na sua sala, estava esperando o Bradford, rindo.    Pela sua cara queria saber como tinha se saído.  Ao contrário dele, ele adorava essas festas, para depois sacanear todo mundo.  Na verdade, o convidavam, pois, pensavam que ele ainda tinha o dinheiro de sua família, nada disso, trabalhava porque não tinha muito dinheiro.

Bom fiz como sempre fui direto ao assunto, mas apareceu o irmão.

O Richard é muito louco, as festas que ele dá, são as melhores, dizem que na cama é uma fera, com um apetite insaciável.

Sim me deu essa impressão.  Mas não faz o meu tipo.

No final do dia, fazia um calor infernal, antes de sair, tirou a gravata, arregaçou as mangas, ia se encontrar com os amigos para uma cerveja.   Se surpreendeu em ver o Richard lhe esperando.

Estava te esperando, não pudemos nos conhecer direito.  Podemos tomar uma cerveja pelo menos. 

Ia dizer que o estavam esperando, mas resolveu aceitar.                 Falaram de mil assuntos, ficou intrigado, ele sabia tudo sobre ele.

Pelo visto fizeste uma investigação ao meu respeito, verdade?

Sim, nunca faço isso, mas achei interessante alguém que plantasse cara ao meu irmão, ele sempre se mete com gente que não deve, os esfolam depois o mandam a merda.

Porque essa curiosidade ao meu respeito, eu mesmo poderia te contar melhor a minha vida, sem problemas.    Não tenho nada que esconder, ao contrário, para não ser chantageado por ninguém procuro ser reto.

Quase soltou, que a pouco tempo um editor tinha ido para a rua, por ter misturado sua vida particular com a profissional, se encantou com um escritor, esqueceu que era casado com filhos, foi chantageado pelo outro que queria quer fosse editado seu livro.  Quando se negou, fez um escândalo.   Resultado o outro perdeu o emprego.    Mas não disse nada.

Bom o que gostas de fazer, já sei que não te posso convidar para nenhuma festa, pois não gosta, como é a tua vida?

Trabalho, amo os livros, ia agora tomar uma cerveja com meus amigos, depois iria para casa, pois comecei o dia com mau humor, me tocava uma missa, pela alma da minha mãe, que sua irmã faz questão de fazer todos os anos.   Ela ia odiar, pois nunca ia a igreja.   Mas para me livrar durante meses da minha tia, vou, depois a quarta-feira é o dia que vejo os escritores, para dizer sim ou não, julgamento como Salomão.

Agora o que quero é ir para casa, tomar um banho, escutar uma música, talvez até cochilar um pouco, depois trabalhar outro tanto.

Uma vida sem emoção nenhuma como pode ver.

Não tens namorado, ou alguma aventura.

Não, tenho paciência, as pessoas são absorventes, te querem possuir, minhas experiencias foram desastrosas.   Então prefiro ficar na minha, tenho claro aventuras sem compromisso.

Hum, acho que gostaria de ter uma aventura contigo.  Ficaram rindo, mas um olhando para o outro.   Ele acabou na sua casa, entrou olhando tudo, não acredito numa sala de visita com tantos livros, não cabem na biblioteca?

Está lotada, preciso de espaço para trabalhar, acendeu a luz da mesma, ele disse, caramba podias vender isso, já sei, colocas uma banca ali na quinta avenida, vou vender para ti.

Gostava desse jeito dele irreverente, em contraste com seu humor severo.

Mas na cama, foi uma loucura, ele era um furacão, ele quando tocado também, era insaciáveis os dois.   Ao final estavam exausto.

Richard soltou, porque não te encontrei a mais tempo.

Acabou dormindo, quando o despertador tocou as 7 da manhã resmungou, virou para o lado, seguiu dormindo, ele se levantou, fez a barba, tomou banho, se vestiu, ele não se mexia.  Deixou um bilhete, com seu número de celular, quando desperte, é só bater a porta que se fecha por dentro.

Teve pelo menos três reuniões, na qual a norma era, celulares, sem som, não atender nenhuma chamada.

Ao final do dia, viu que estava exausto, um amigo lhe chamou para tomar uma cerveja, mas disse que era impossível, estava morto.

Quando abriu a porta, sentiu cheiro de comida, o Richard na cozinha nu, preparava comida, estou te esperando, vá tomar um banho enquanto coloco a mesa, depois de jantar, lhe perguntou como tinha feito as compras, se não tinha saído. 

Oras por telefone, eles existem para alguma coisa.  Gosto de cozinhar para alguém, não quero te perder de vista.

Richard, hoje tive um dia  cansativo, se fizer o que fizemos ontem a noite, amanhã, não consigo trabalhar.

Entendi, não queres mais me ver?

Não é isso, eu levanto cedo, minha cabeça precisa funcionar, para tomar decisões, quiça no final de semana, sim podemos passar juntos.

Merda, esse é o problema, tenho uma festa na casa de praia em Los Hamptons, com alguns amigos, começou a rir, ias odiar, pelo menos umas 200 pessoas.

Realmente, nem pensar.

Bom, posso cancelar se for para ficar aqui contigo.

Não creio que você possa gostar, pois pretendo trabalhar.  Veja isso diz logo de cara que temos vidas completamente opostas.  Nada daria certo.

Mas a verdade, foi que ele cancelou para ficar com ele, o deixou trabalhar, jogado numa poltrona lendo um livro.

Saíram para jantar, fizeram sexo muitas vezes, lhe dizia ao seu ouvido, não posso ver o seu caralho que o quero para mim.

De repente de uma hora para outra, mudou, encontrou o que fazer, mas chegava na sua casa no horário, o apresentou para seus amigos, caiu bem a todos, se interessou pelo que fazia cada um, quando lhe perguntava, o que fazia, ele dizia sou um vagabundo, cheio de dinheiro, não escondia o que era.

Meus amigos diziam, Henry, ele não é nada do que parece, ouvi dizer que esta agora indo as reuniões da empresas da família, se interessa pelas coisas.

Se acostumou, de chegar em casa, o encontrar nu, andando por ela, ou fazendo algo especial para ele, se interessar como tinha sido seu dia.  Assim foi durante dois anos, um dia lhe perguntou se queria se casar com ele.   Levou um susto, ficou olhando para ele, agora sabia quando falava sério.

Eres a melhor coisa que me aconteceu na vida Henry, quero viver contigo, o resto de minha vida.

Ficou olhando para ele, estamos bem assim, para que complicar.  Mas tanto fez que acabou concordando.   Estava acostumado a ele.    Um belo dia o foi buscar na hora do almoço, foram ao fórum, se casaram.

Queria que ele fosse viver na sua mansão.   Disse que nem pensar, gostava de sua casa, foi um dia com ele até lá, achou um absurdo uma pessoa viver sozinha numa casa como aquela.

Depois queria dar uma festa para comemorar que tinham se casado, se negou, mas ele agora mostrava suas garras, fez a festa sem ele.

Apareceu três dias depois bêbado, drogado. Foi o começo do fim, se comportava uma semana, depois desaparecia.  Lhe disse que queria o divórcio. 

Nem pensar, gosto de estar casado contigo.

Cuidado, foi fazer um exame, completo, tinha medo de ficar com Aids, embora desde o primeiro dia tinha se cuidado.

Estava irritado, pois isso o impedia de se concentrar no seu trabalho.  Tomou uma resolução, lhe disse que não queria mais vê-lo, que assim não queria estar com ele.

Sua reação o surpreendeu, ninguém me deixa, sou eu que deixo as pessoas.  Saiu batendo a porta.   Ele prudentemente, mandou trocar a fechadura da porta, avisou o porteiro que não o deixasse entrar mais.  Se fosse o caso, inclusive falou com seu advogado pedindo uma ordem de que ele não podia se aproximar dele, até que considerasse o divórcio.

Uma semana depois, acordou com a campainha da porta, levantou de mal humor, pensando que era ele.    Era um policial.

Lhe perguntou se era casado com Richard Brakstone, ao dizer que sim, lhe pediu que o acompanhasse a sua mansão.    Tinha sido assassinado.

Quando entrou, aquilo parecia o inferno, gente bêbada, drogada, caída pelos cantos, sendo atendida por enfermeiros, o fizeram subir, ele estava numa cama imensa com dois garotos ao lado, cada um com um tiro na cabeça.

Quem fez isso?

Não conseguia passar da porta.  Quem fez isso perguntou de novo.  Ali aos pés da cama estava o irmão dele, com uma aparência horrível.   Foi ele, diz que estava farto dessas orgias que não o deixavam dormir.

Não posso ficar aqui, sem conseguir se controlar, começou a vomitar.  Merda, foi tudo o que pode dizer, além de agradecer o inspetor que o ajudou.

Sabemos que o senhor pediu divórcio, como o irmão esta incapacitado, tinha que ser o senhor.

Ok. Posso ir embora.  Depois o senhor sabe aonde me encontrar.

O sorriso do inspetor era amargo, a pergunta que o senhor está se fazendo é aonde eu fui me meter, verdade?

Sim, sem dúvida nenhuma, viveu comigo dois anos, maravilhosos, insistiu que nos casássemos, em seguida voltou a sua vida de antes.  Pedi o divórcio,  me disse que não, que era ele que deixava as pessoas.  Depois desapareceu.   Segui com minha vida, trabalhando, esperando que aceitasse, me deixasse em paz.

Bom, como o senhor já reconheceu o cadáver, não tem que ir ao necrotério, não sabemos quando liberaram os corpos, primeiro teremos que analisar tudo aqui.  Pode ser que tenhamos que falar outra vez com o senhor.

Foi para casa, avisou que não podia ir trabalhar, ficou primeiro andando pela casa, feito um louco, que idiota, com tudo que tinha podia ter feito algo de útil com sua vida.

Depois chorou, mas chorou muito, estava assim, quando tocaram de novo a campainha, foi atender, era o inspetor outra, vez,  posso entrar.

Já falei com o porteiro da noite, me disse que horas o senhor chegou, que não saiu de casa a noite inteira, me desculpa, mas tenho que descartar todas as possibilidades.  O irmão não é coerente.

O senhor aceita um café, eu necessito de um bem forte, fez café se sentaram na sala, pode perguntar o que queira.

O senhor sabia que quando ele começou o relacionamento consigo, tinha saído de uma clínica de desintoxicação?

Não, mas ele sabia, que eu não bebo, não fumo, não tomo drogas, eu lhe disse isso no primeiro dia.  Necessito minha cabeça limpa para pensar, para trabalhar.

Pelo que sei nesse tempo se manteve limpo, queria fazer um casamento por todo o alto, me neguei, só estive uma vez nessa mansão, queria que fossemos viver ali, eu acho um desperdício, quando chegou o verão queria ir para a casa de Los Hamptons, tampouco fui pois tenho que trabalhar.   Não só é o meu ganha pão, como amo o que faço.

Sim eu sei, o senhor é muito respeitado no meio, já tinha essa informação, quando vim busca-lo de manhã.

Mas a que hora aconteceu isso?

Pelo que vimos aconteceu de madrugada, ninguém na festa viu nada, só quando o irmão apareceu na escada, com o revolver dando dois tiros no ar, mas estavam acostumado que ele fazia isso, realmente o teto esta cheio de buracos de bala.

Os conheci ao mesmo tempo, o irmão queria publicar um livro escrito por uma tia, muitas mentiras a respeito da família, dizendo que eram nobres essas besteiras Wasp.

Me neguei a publicar, ele chegou justo quando eu dizia isso ao irmão.  Nesse dia me foi buscar para conversar, sem me dar conta, me apaixonei por ele.   Mas me neguei a sair de minha casa, ir a qualquer festa com ele, tampouco proibi.

Pode ser que  tenha visto no senhor um lugar seguro, para viver.  

Sim viveu aqui comigo dois anos, estávamos bem, por isso não queria me casar.   Mas ele era uma pessoa envolvente, nunca desistia de nada.   Quando vi tinha me casado.   Quando voltou a beber, drogar-se essas coisas, desaparecia, depois pedia desculpas.  Mas cortei pelo sano, pedi o divórcio, disse que em sua família isso não acontecia.  Lhe disse que não queria nada dele, só que me deixasse em paz.  Acionei meu advogado, dei ordem que não entrasse mais aqui, troquei a fechadura da porta.   Enfim, passei levar uma vida mais segregada do que levava antes.

Só assim podia ter paz para trabalhar.

As pessoas dizem que fui um privilegiado, mas para nada, primeiro sou filho adotivo, minha mãe, era uma pessoa fabulosa, nunca quis se casar, mas queria um filho, me viu num orfanato me adotou,  da para perceber que não sou branco, sou um mulato claro.  Mas a adorei com todas minhas forças, me deu um futuro.   A única coisa que discuti com ela, foi que comprou ações da editora, para que me deixassem trabalhar lá, por isso tive que ser melhor que os outros, não ia deixar ninguém me pisar, me chamar de protegido.

Mas não sou o dono, vivíamos nesse apartamento, o reformei, pois precisava de lugar para meus livros.

Agora se me pergunta, me sinto perdido, eu o amava, acreditei nele, agora me sinto perdido, mais do que antes, quando tudo acabou.   Se o visse agora, lhe daria uma surra, dessas que os pais davam antigamente nos filhos quando eram desobedientes.

O senhor me faz um favor, pois conhecendo meus amigos, dentro em breve todos vão querer vir aqui. Diga ao porteiro que eu não posso receber visitas, preciso ficar sozinho.

O inspetor lhe apertou a mão, depois passo para saber como está, meu nome é Duke Almagro, lhe deixo meu cartão se precisa falar com alguém.

Tirou toda roupa, entrou embaixo do chuveiro, ficou pelo menos meia hora ali. Tinha a sensação de que precisava limpar-se de toda essa merda.

Depois se sentou na mesa de trabalho, apoiou a cabeça nas mãos, algo lhe chamou a atenção num texto, começou a ler, acabou dormindo cansado, com a cabeça encostada na mesa.

Não sabia quanto tempo tinha estado ali, dormindo.   Mas pelo menos se relaxou.

Pediu comida pelo telefone de noite, viu a quantidade de mensagens que tinha no celular, borrou tudo, não queria conforto de ninguém.   Ia começar a comer, quando o inspetor Duke chegou outra vez.  Trazia comida também.  Se sentaram os dois na cozinha comendo em silencio.

Acredita que não acabamos de interrogar todo mundo que estava lá.  A maioria tinha uma alta dose de drogas.     Pela autopsia, ele morreu no ato, mas a alta concentração de drogas, estimulantes, além de esperma anal, a cama era uma verdadeira sujeira.  Me perdoe contar isso, mas o senhor tem que saber, pois isso acaba nos jornais.

Pare de me chamar de senhor, meu nome é Henry, nada mais.   Sim, creio que é bom saber tudo, assim não me assusto.

O advogado já me mandou um e-mail, dizendo que o enterro é amanhã.  Mas nem sei se irei, não conheço toda a família, odeio essa coisa dos pêsames.

Queres que te leve?

Duke, porque estas fazendo tudo isso por mim, me achas culpado de alguma coisa, ou tem alguma coisa que não sei?

Não te lembras de mim, não é?

No momento, com minha cabeça como está, não.

Estivemos juntos no orfanato, dormíamos em camas pegadas, Henry o tonto te chamava, a mim me chamavam de Duke el chicano.

Agora sim, sorriu, claro, me lembro, chegamos no mesmo dia no orfanato, cada um de um lado, estávamos mortos de medo, você me deu a mão, entramos de mãos dadas.  Mas você foi adotado antes, não é?

Sim fui adotado por um policial, que não tinha filhos, como era de ascendência mexicana, me adotou, foram uns pais maravilhosos para mim.

Quando fiquei maior, fui te procurar, queria saber quem tinha te adotado, quando vi aonde morava, pensei, ele está bem.

Ok, se podes amanha irei contigo ao enterro, é melhor estar com amigos.  Mas aviso, ficarei afastado, não quero nada dessa gente.

Assim, foi, veio busca-lo cedo, ele se vestiu todo de negro, com uns óculos negros também, ficou afastado, tinha muita gente, mas ele não se aproximou de nenhum, na verdade não conhecia os outros.

Um senhor se aproximou, perguntando se ele queria dizer algumas palavras, disse que não, não conhecia essa gente.  Sou o advogado do Richard, amanhã o senhor tem que ir a leitura do testamento, antes, enfiou a mão no bolso, isso ele deixou para o senhor.  Mas é necessário ir a leitura do testamento, pois vocês se casaram com comunhão de bens. 

Fez cara de surpresa, perdão, mas não sabia disso.

Lhe deu o cartão, disse a hora que devia estar, era perto de aonde trabalhava, pensava em voltar a trabalhar no dia seguinte.   Iria depois disso.

Viu que todos iam embora, um senhor já maior, com uniforme de chofer se aproximou, dizendo, eu o conheci desde criança, o tempo que esteve com o senhor, foram os melhores de sua vida.

De uma pessoa simples ele podia entender.

Ficou de contar ao Duke, depois como sairia da leitura, depois nos falamos.

Ficou em casa trabalhando, falou com sua secretária, ela ia dizer algo, mas ele cortou, não diga nada, não suporto isso de pêsames, diga ao pessoal que nem se atreva.

Amanhã chego mais tarde que tenho que ir ao advogado, depois irei trabalhar.

No dia seguinte se arrumou como outro dia qualquer para ir trabalhar, antes passou no escritório do advogado, aquilo parecia um jardim zoológico.   Se sentou nos fundos, mas o advogado foi busca-lo, o senhor é o viúvo, tem que estar na frente.  Viu que a família toda o olhava com desprezo.    Leu a carta que lhe entreguei ontem. Fez que não com a cabeça.

Sentou-se sem olhar a ninguém.

Ele leu as formalidades.   Quando leu o testamento, só escutava murmúrios de raiva, ele não tinha entendido nada, só escutava arrastar de cadeiras, em seguida a sala ficava vazia.
Perdão não entendi nada!

Ele deixou tudo para o senhor, pelos melhores anos da vida dele.  Tudo que tinha no banco, bem como a renda do fideicomisso que tinha da família, a mansão, a casa da praia, tudo é seu.

Que vou fazer com essa merda.

O senhor faz uma coisa, coloque tudo a venda, quando estiver vendido me fala, como vamos distribuir esse dinheiro.  Não quero nada.

Se alguém da família quiser comprar, posso vender para eles?

Me importa um caralho quem compre, desde que seja um preço de mercado. Depois darei uma parte ao orfanato aonde fui criado, obra da igreja que minha mãe ia. Depois resolvo isso.

Saiu dali tonto, o homem ainda correu atrás dele, com um envelope, aqui tem as contas de bancos, para saber quanto existe.

Estava furioso, como podia ter feito isso com ele, pensar que ele queria seu dinheiro.  Não disse bom dia a ninguém, foi direto a sua sala, fechou a porta, chamou o Duke.  Estou farto dessa merda que me meti.  Contou para ele tudo.  Já disse que uma parte vai para o orfanato de aonde saímos, vou distribuir o dinheiro dessa canalhada toda. Filhos da puta.

Posso passar por tua casa de noite?

Sim, pode, preciso falar com alguém, que me possa clarear a cabeça.

Sua secretária, abriu a porta, colocou a cabeça para dentro, lhe disse reunião da diretoria, tome um copo de água, pois as coisas por aqui andam quentes.

Entrou na sala, todos fizeram menção de lhe dar os pêsames, mas ele cortou rapidamente, não façam isso.

Bom qual o problema.  Ele na verdade tinha uma ninharia de ações, seu voto não valia para nada, que não fosse decidir o que devia ser transformado em livro ou não.  

Acabam de lançar uma OPA, para comprar a editora, vamos aceitar, pois estamos com o barco furado, os lucros são uma merda, preferimos ficar com o nome bem alto.

Ele perguntou e os funcionários?

Os que quiserem ficam, os outros podem fazer acordos para saírem.

Ok, eu vou embora, preciso de uns dias para refletir.  Podem me considerar na rua.

Saiu, pediu a sua secretária que mandasse, chamar o Bradford, quando este chegou, a chamou também.  Contou a situação, creio que montarei uma pequena editora, para fazer o que eu quiser.   Já os aviso, se quiserem seguir trabalhando comigo, façam um acordo com a empresa, peçam para sair.

Os abraçou, lhe pediu para recolher as coisas que eram dele, bem como sua lista de escritores que ele representava, essa ele enfiou em sua pasta,  por enquanto trabalharemos da minha casa ok.

Amanha os espero as 10 da manhã, tenho uma coisa para fazer antes.

Quando Duke chegou de noite, lhe contou tudo. Não abriste a carta?

Não tive coragem, porque se tem besteiras escritas, ficarei furioso, preciso ter a cabeça fria.

Amanhã preciso de um advogado para consultar, alguém honesto, em quem eu possa confiar.

Ele riu, eu sou advogado, mas quem ia querer um advogado mexicano, a não ser os das drogas por isso entrei na polícia.  Posso tirar férias que tenho vencidas, como já entreguei o relatório do caso, estou livre.

Se abraçaram na hora da despedida.

Tens família Duke?

Só meus pais, estão velhos, mas firmes, falei de ti para eles, mandaram abraços para ti.

Então amanhã podes vir tomar café comigo, assim discutimos tudo isso, nem abri o envelope do banco, mas não quero fazer isso sozinho.

Sentou-se sozinho na sala, com a carta do Richard nas mãos, só pode dizer, filho da puta, eu te amei tanto, como pudeste fazer isso comigo.

As lagrimas caiam pela sua cara, sentia como se todas as portas estivessem fechando em sua volta, mas se lembro de sua mãe, quando ele sentia isso ela, dizia.  Não importa, se fecham, meta o pé numa delas, que abre.  Mas o fazia literalmente, levantava uma das pernas como dando uma patada na porta.

Acabou dormindo, ali no sofá, a carta escorregou ficando em pé em cima do tapete.

Não sabia quanto tempo ficou ali, despertou com um ruído, no andar de baixo.  Se sentou no sofá recolheu a carta, vamos fazer isso de uma vez.

Perdão, era a primeira palavra, mas fiz merda, nunca consigo me livrar de minhas merdas, pensei que nunca mais depois de dois anos, pudesse recair outra vez nas drogas, mas não sou como tu, que tens uma fortaleza invejável.

Pensei que me escondendo atrás de ti, superaria qualquer coisa na minha vida inútil, mas nada deu certo, na empresa riem de mim, pois não entendo de nada, acabaram pedindo que eu fosse para casa, pois só faço merda.

Minha primeira recaída, fiquei furioso, pensou vou provar que posso fazer tudo que fazia depois sair como se nada.  Mentira.

Mas já tinha estragado tudo contigo, sabia que não ias me perdoar, nunca encontrei ninguém como tu.   Tinhas razão em não querer se casar, mas eu te amei, como nunca tinha amado ninguém, por isso deixo tudo para ti.   Esses merdas que se fodam.

Me criticaram por ter casado com um mestiço, isso nunca me importou, dei o rabo para muito negro, quando estava totalmente drogado.

Mas me aceitaste assim com esse passado negro, nunca me perguntaste nada.

Sei que me querias, como eu te quis.  Por isso aproveite faça alguma coisa boa com tudo isso que te deixo.

Um beijo imenso, não podia te dar o divórcio, pois ele não existe na minha família.  

Mereces o melhor.

Richard.

Não irei mais te molestar, só saberás disso quando eu morra.

Soltou um grito tremendo, sentiu que ia arrebentar, filho da puta, podia estar com ele, levar uma vida normal.  Ao mesmo instante se perguntou o que era normal, desde logo sua vida cotidiana de trabalho, não era a vida que Richard estava acostumado.

Tinha se escondido atrás dele, ou mesmo o tinha usado como uma balsa salva vida, por ter medo de encarar seu lado mais negro.   Nunca saberia o que teria levado a isso.  Pela rigidez que se comportavam todos, viviam de aparências.

Nessa noite dormir foi um desastre, até que acabou se levantando, tomou um banho, se sentou em frente a mesa, começou anotar coisas.        Caiu dormido em cima do que estava escrevendo, que na verdade eram seus planos.

Escutou a campainha tocando, se levantou, espreguiçou, foi abrir a porta, nem se tocou que estava nu. 

Isso lá são maneiras de receber teu advogado, Henry, que vou pensar, que estas te oferecendo.

Saiu correndo, voltou vestido, Duke já estava fazendo café, disse rindo, trouxe croissants, para tomarmos com café.

Mas tampouco precisava sair correndo, o máximo que iria fazer, era te jogar no chão te ensinar a fazer sexo direito.   Tinha um sorriso de troça na cara.

Deixa de zombar de mim, dormi mal a noite, me levantei tomei banho, me coloquei a escrever tudo que queria falar contigo hoje.

Foram os dois com as canecas de café, o saco de croissant para o escritório.  Sentaram-se na mesa, me diga tudo que pensaste, depois, voltamos atrás analisando cada coisa.

A primeira coisa é, quero que vás ao advogado da família, busque todos os papeis, tanto da mansão daqui, bem como da casa de Los Hamptons, pois não confio nesse homem, é capaz de querer vender a própria família por um preço mais baixo do mercado.  Desconfio dessa gente como do diabo.

Segundo, devemos analisar o que existe no banco, não tenho ideia disso, não abri o envelope ainda.

O que quero fazer é o seguinte, primeiro, ontem sai da empresa, convidei minha secretária, bem como Bradford para virem trabalhar comigo, quero montar uma editora, seria, que faça livros que eu tenha orgulho de publicar.

Temos que encontrar um local para isso.   Eu trouxe comigo a lista dos escritores que edito, o que necessito saber é se é honesto, tipo conectar com eles, dizendo que sai da empresa, que monto a minha própria. Mas claro vou escolher só alguns.

Temos que montar uma empresa, eu ficaria com 51%, o resto divido com quem queria trabalhar comigo.  Não quero ser o dono absoluto de nada.

Quero um ritmo mais tranquilo, em que possa ter uma vida mais relaxada.

Da venda das casas, quero que uma parte seja para o orfanato, pois estão sempre precisando de dinheiro, todos anos, reservo uma parte para lá, isso minha mãe sempre fez.  Depois vamos olhar aonde tem gente que precise de dinheiro.  Vou gastar o dinheiro dessa gente em coisa realmente boa.

Que te parece?

Me parece genial, se fosse outra pessoa, estaria já de mala e cuia, se mudando para a mansão, mas sei que tu eres diferente.

Vamos abrir o envelope, antes que chegue o Richard e a Marie, eles sempre trabalharam comigo, assim posso ter gente de confiança em minha volta.

Quando abriram o envelope, viram que havia contas em mais de um banco, os saldos eram grandes, pois a maioria era dinheiro aplicado, tirando as festas ele não gastava muito dinheiro.

Olhando o extrato, Duke disse, ele tinha coragem de pagar com cartão aos das drogas, isso será um prato cheio para a polícia, tirarei uma cópia.

Mas era muito dinheiro, pois foram anotando, significavam muitos milhões,  caralho, viu os depósitos do fideicomisso,  era como se fosse um salário de um grande executivo, do qual ele gastava pouco, pelo visto transferia isso para as contas.

Outra coisa, disse que tenho direito a esse fideicomisso, se é assim, esse dinheiro dá para ir tocando a editora, 

O resto, devo transferir para uma conta minha, ou abrir no próprio banco, preciso de um documento do advogado para isso não é, sei por que tive que fazer isso com o da minha mãe. Terei que procurar alguém que controle tudo isso.   Alias você poderia fazer isso como advogado, cuidaria dos contratos dos escritores, além da parte contabilidade.

Quando chegaram os outros dois, estavam ali discutindo o que fazer.   Fizeram mais café, sentaram-se todos a volta da grande mesa, os apresentou ao Duke, que já conheciam, pois tinha ido na editora investigar.

Explicou que Duke na verdade era um amigo seu de infância, vivemos juntos no orfanato, dai que nos conhecemos bem.

Ele será meu advogado.  Como estão vocês com a empresa?

Esperando ouvir tua proposta, nos ofereceram para ficar, mas claro trabalhar contigo é outra coisa.

Contou o que tinha pensado em fazer, os dois disseram que não tinham dinheiro para montar a sociedade.

Sem problemas, eu tenho o dinheiro, a princípio será apertado, mas penso em só editar o que realmente gostamos.  

Bradford, tu sempre estas reclamando, que tem que ter um pé fora do círculo, pois alguém te obriga a publicar o que não queres.     Isso acabaria, farias o meu papel, trabalharíamos juntos lado a lado, contratarias, uma ou duas pessoas como leitoras, mas pessoas que confies tu, de principio Marie iria controlar o escritório, precisamos de gente de confiança para controlar as empresas  que imprimem, encadernem, o Duke, além de administrar os contratos, ficaria com o controle de gastos.

Cada um pode ter não mais de dois funcionários a princípio.   Agora o mais importante, nada mais de trabalhar aos sábados, domingos, precisamos de tempo para nossas vidas.

Minha ideia é que eu teria 51% das ações, o resto dividido entre os três.   O que acham, já estavam rindo antes.    Trato feito.

Ele repetiu o que já tinha falado com o Duke, o dinheiro dessa gente finalmente servira para algo útil. 

Só vamos fazer livros que sejam bons.   Quero também entrar num mercado novo, livros através da informática, esse era o problema da editora, estava defasada, muita gente hoje não lê os livros em papel.

Agora temos que procurar um local, pois não quero nada aqui na minha casa.

Por enquanto nos reunimos aqui, mas depois temos que ter um local.

Marie disse que sabia de um em frente a outra editora, o espaço é menor, mas vi pela janela que o reformaram inteiro, vou bisbilhotar, depois aviso.

Bradford, que não parava de anotar, já tenho as pessoas, creio que basta telefonar, elas aceitaram.  

O Duke precisa dos documentos de todos, para montarmos a empresa.  Estava tão empolgado com tudo, que por pouco se esquecia do Richard.

Vamos chamar a editora, de Stone,  se não existe outra com esse nome, uma homenagem ao homem que está fazendo com que isso seja possível, o Richard.

As coisas começaram a correr, ao mesmo tempo que recebeu uma chamada de uma pessoa da família, perguntando pelas joias.

Joias, eu não sei nada de joias, falem com o advogado do Richard, nem tenho ideia do assunto.

Caso existam, nos gostaria comprar essa parte, bem como a mansão.

Tudo isso vocês deverão falar com meu advogado, o senhor Duke Almagro, ele sabe que as casas serão vendidas, o dinheiro ira para um orfanato e beneficência.

As casas estão fechadas, o advogado tinha mandado fazer uma avaliação de tudo que tinha dentro,  a maioria eram quadros que de valor não tinham muita coisa, mas os moveis sim.

Duke ficou sabendo através do advogado, já que não estava mais no caso, que o irmão estava em dificuldades financeiras, para pagar um advogado bom.  Estava internado num hospital, os outros parentes não querem o ajudar.

Contrate um criminalista bom para ele, creio que ele não é muito certo da cabeça, mas não quero de maneira nenhuma estar envolvido nisso.

Realmente num dos bancos tinham uma caixa de segurança, cheia de joias da família.

Mandou tudo para um especialista, riram muito pois descobriram que a maioria eram falsas, essas entregaram a família. O resto colocaram a venda. Se queriam comprar, teriam que pagar o preço do mercado. 

O que tinha telefonado já tinha feito contato, queria pagar um preço baixo, mas a estas alturas, Duke já tinha contatado um agente imobiliário da zona que lhe devia favores, sabia o preço justo. Disse que teriam que negociar com a imobiliária.

Bradford, de gozação disse que ele deveria manter Los Hamptons para fazer uma grandes festas.  Mas disse isso rindo.

Foram ver os 4 o local que Marie tinha falado, gostaram.  Só duas salas seriam fechadas, a de reuniões, é a que usariam para atender os escritores, o resto seria tudo aberto.

Bradford, já tinha feito contato com as impressoras de livros, a maioria o conhecia, então bastava mover.

Contrataram uma empresa para comprar os moveis, eram todos iguais, sem distinção de chefe, mesmo para ele, na sala de atender os escritores, uma mesa como as que tinha em casa.

Ao mesmo tempo, foram fazendo contatos com os escritores,  Bradford, colocou um cartaz nos cursos de escritura, nas faculdades de filologia, falando de novos escritores, como deviam mandar os textos.

Todos estavam trabalhando a pleno vapor, se mudaram para o escritório novo, pode por fim recuperar sua casa.

Duke disse que ia sentir falta de estar lá, talvez por inveja, nunca tive uma casa minha, meus pais, sempre vieram em primeiro lugar.

Falar nisso, querem organizar uma festa em sua casa, para comemorar nosso novo negócio, mas aconselho que venhas comigo até lá, para que não façam uma festa tipicamente mexicana com gente saindo pelas janelas.

Henry foi num final de semana com o Duke, se sentia a vontade com ele, podiam conversar qualquer assunto.

No carro foi lhe perguntando se nunca tinha tido um relacionamento sério. 

Queres me explicar como?    Um policial, agarrado a família, o que já por si só gera muita gozação, na minha idade viver com meus pais.  Ainda por cima gay.

Não sabia que eras gay.  Nunca falamos nisso.

Bom essa é a verdade, não pensava ser grosseiro contigo.

Mas a verdade é que sou aquela pessoa, que vai para cama com alguém, não me relaxo, saio correndo em seguida, antes mesmo que me convidem para dormir.  Uns dizem que pareço uma ratazana, que foge depois do coito.   Mas é uma verdade.

Nunca amaste ninguém?

Além de ti, não.    Tinha consciência embora fossemos crianças, que te queria.  Te procurei muito,  mas quando vi como vivia, pensei, nada para o meu bico.

Pois te enganaste, vivíamos muito simplesmente, minha mãe não gostava de luxos, veja o apartamento como é tirado a fachada o edifício, a localização, tudo dentro de casa sempre foi normal.   Nunca tivemos empregados, ela mesma fazia a limpeza, cozinhava, fazia tudo.

Dizia que uma pessoa ociosa era um merda para a sociedade. Tinha maneiras muito particulares de se expressar, contou como era quando dizia o da porta fechada.

Sempre te animava seguir em frente, dizia se ficássemos olhando para trás era mais difícil seguir em frente.   Procuro seguir seus exemplos, seriamente.

Foi uma comida em família, sabia que o estavam examinando, quando sem querer soltou que os dois tinham entrado no mesmo dia no orfanato.  A mãe ficou olhando para ele.  O raro é que nos olhamos, os dois com medo, em frente a porta tinha um espelho grande, até hoje quando me lembro imagino isso, dois garotos sem eira nem beira, de mãos dadas entrando por aquela porta, até vocês o adotarem, foi meu companheiro, único amigo.   Fui adotado logo em seguida, minha mãe era uma pessoa especial.

Duke, contou o que ele tinha falado da sua mãe. 

Ela tem uma irmã ainda viva, essa é o extremo oposto de minha mãe, vive de chás de caridade, enterros,  igreja, mas no fundo não faz nada por ninguém.

Quando soube que tinha me casado com um homem, deixou de falar comigo.  O que no fundo me veio bem, não aguento tanta besteira.

Minha mãe era uma mulher diferente, no enterro dela, fiquei surpreso com a quantidade de gente que não conhecia, inclusive gente da rua que ela ajudava.  Eu segui fazendo o mesmo, sempre tinha uma palavra para qualquer pessoa, para dar força.

Pois é escutávamos falar de ti, pelo Duke, nunca deixou de pensar em ti.  Estudou, poderia ter sido alguém se não fosse essa besteira da sociedade, dele ser e ter seus pais mexicanos.

Sempre nos ajudou quando começou a trabalhar.

Quem perguntou foi o pai, ele nos disse que vais abrir uma editora, que distribuiu uma parte entre ele, mais dois sócios?

Sim é verdade, contou do dinheiro, o senhor não acha que o dinheiro dessa gente ociosa deve servir para alguma coisa.    O orfanato os meninos sempre precisam de roupa, comida, eu dou dinheiro todos os anos, mas nunca é o suficiente, com uma parte, as freiras poderão se relaxar um pouco.

Quero que esses meninos possam estudar, como nos dois pudemos.  Alguns não são adotados, tudo que podem fazer é ou entram para o exército, para serem balas de canhão, pois ninguém se interessa por eles, ou traficantes de drogas.

Se espantou quando Manuel o pai do Duke, colocou a mão sobre a sua.  Gosto da ideia.  Nos também sempre ajudamos, pois nos deram um filho maravilhoso.

Vamos falar de coisas alegres, vamos falar da festa, faremos um churrasco mexicano.

Olha senhor Manuel, não sou muito de festa, muita gente me assusta, o Duke sabe disso, mas confio nos senhores.  Posso convidar os outros sócios.

Claro que sim, deixe tudo por nossa conta.

No sábado foram a festa, para surpresa de Henry, quem estava era a irmã Giovana, ou Giovi como a chamavam de criança, lhe fez a maior festa.  Ficaram sentados lado a lado conversando, o maior prazer era se lembrar de coisas da infância.  Irmã Giovi, reconhecia que tinha um pecado a gula, pois além de muito alta, era gorda, mas quando eles passavam por ela, tirava do bolso dois biscoitos um para cada um, depois colocava a um dedo na frente da boca, fazendo sinal de silencio.   Isso era um grande segredo, até que descobriram que fazia isso com todos os meninos que cuidava.

Estavam rindo muito dessa época, quando se aproximou um garoto em cadeira de rodas, meu novo protegido disse ela,  Jesse, venha aqui conhecer o Henry, esteve lá no orfanato também, o garoto o olhava com adoração, a irmã sempre fala em vocês dois, diz que um dia vou ter a sorte que tiveram vocês dois.   Mas quem vai querer um garoto em cadeira de rodas.  Alguém o veio buscar para comer.

Não tem solução seu problema?

Tem, ele levou uma surra do seu padrasto, caiu por uma escada, lesionou a coluna, depois o deixaram na porta do orfanato, evidentemente só pudemos fazer o essencial.  Tu sabes que só temos uma pessoa, uma enfermeira, só contamos com hospitais públicos, nenhum se interessa em fazer nenhuma operação.

Acredito que o orfanato devia ter um serviço médico, Duke passava por ali, o agarrou, sente-se aqui um momento, estou falando com a irmã Giovi, que o orfanato devia ter um serviço médico, não achas?

Claro que sim, um médico, enfermeira, dentista, tudo que os meninos precisam, verdade. 

Vocês dois estão fora da realidade, mal recolhemos roupas, para esses meninos, comida, contamos com ajuda, vocês dois são dos poucos que ajudam todos esses anos.  Mas precisamos de muito dinheiro.

Sabe irmã, disse Henry, tenho um amigo muito rico, vou falar com ele, quem sabe.

Seria o máximo, um médico que visite o orfanato pelo menos três vezes por semana já seria alguma coisa.  Dentista, esse ficaria louco com as bocas que temos.

Bradford, vinha empurrando a cadeira de rodas do Jesse, sabem da maior, ele me disse que escreve história, as desenha ao mesmo tempo, vamos recolher uma em sua mochila, verdade amigo.  Bradford tinha uma facilidade incrível para falar com as pessoas, se relacionava bem com todo mundo.  Os escritores eram capazes de lhe contar as coisas mais intimas, para ele, mas tinha uma vantagem, nunca comentava nada com ninguém.

Voltaram, sentou-se ao lado deles, começou a ver um caderno. Sua cara era de concentração total, isso se sabia quando tinha alguma coisa que lhe interessava.

Mas essa historia precisa de  continuação.   Jesse rindo bateu na sua cabeça, disse que estava tudo ali, mas que seu caderno tinha terminado.   Teria que esperar quando sobrasse algum no orfanato para ele desenhar.

Bradford passou o caderno para o Henry, dê uma olhada, isso seria genial, para atingirmos um publico jovem.   Quanto anos tens Jesse?

Sou velho tenho 12 anos, mas nunca ninguém quer me adotar.

Vou deixar você aqui com o pessoal, já volto.  O viram falando com um jovem dali, saíram rapidamente, em que vai se meter esse perguntou o Henry.

Segunda-feira, tenho a manha livre, Duke, podemos ir no orfanato, fazer uma lista do que precisam para pedir ao nosso amigo rico.

Jesse ficou ali ao seu lado, o senhor gostou do que eu faço.  

Sim muito, mas se o Bradford gostou eu tenho certeza de que serás bom com esse livro.

Daqui a pouco o Bradford, apareceu com um pacote, cheio de cadernos, lápis, lápis de cor, tudo para ele, o garoto, chorou de emoção, agradeceu muito.   Prometo colocar tudo que tenho na cabeça nessa história, agora já de brincadeira perguntou, com final feliz como nos filmes, ou a realidade.

Bradford muito sério respondeu, a realidade é o que faz as pessoas enfrentando a vida.

Bradford, lhe arrastou Henry pela manga, não conheces nenhum amigo teu médico, que seja especialista em problemas de coluna?

Espera, tenho um amigo que é uma enciclopédia, em se tratando da profissão dos amigos, me deixa perguntar para ele.

Estavam comendo a sobremesa, quando seu celular tocou,  falou com a pessoa, fez sinal positivo para o Henry.  Essa agora vai ser difícil, me fez lembrar que tive um romance com um médico, só que estraguei tudo, no dia seguinte sai de fininho, o sujeito não gostou, mas mesmo assim vou falar com ele.

No caminho de volta, ele perguntou ao Duke, em que pé estavam a venda das joias.

Bom mandei avaliar na Soteby’s, me deram o valor, a colocaram para venda dentro de pouco.

Qual o valor mais ou menos, daria para montar um ambulatório no orfanato?

Daria inclusive para pagar durante muito tempo um médico, enfermeira além do dentista, isso tenho certeza. 

Vamos fazer o seguinte, tiramos isso do dinheiro que está no banco, depois repomos com a venda.  Quando chegou em casa, disse foi ótimo reencontrar a irmã Giovi, minha mãe tinha verdadeira paixão por ela, quando alguém falava que não tinha filhos, ela dizia que devia visitar a irmã Giovi.

Quando você foi embora, eu fiquei chateado, para não dizer deprimido, um dia estava sentado no jardim, agora não tinha com quem jogar, quando uma senhora linda, apareceu, se sentou ao meu lado começou a conversar comigo, perguntar o que eu gostava, acabou virando minha mãe, os dois gostávamos de livros, isso foi o fio que nos uniu.

Então sentiste falta de mim?

Sempre, durante muitos anos, conversei contigo no meu quarto, arrumei um boneco, então parecia que estava falando com ele, mas na verdade estava jogando contigo.

Alias meu primeiro namorado se parecia contigo.

Caralho vou ficar com ciúmes, não preferes um ao vivo.

Estavam no elevador quando falavam nisso, ficaram um olhando ao outro, quando o elevador, chegou no andar que ele morava.

Entras, tinha trazido algumas sobras da festa, cortesia da mãe do Duke. 

Vou deixar essas coisas na cozinha, depois me piro, estava arrependido de ter falado dos seus sentimentos.  Mas desde que tinham se encontrado, tinha começado a amar seu amigo de infância, sabia que ele estava num momento complicado, podia não ser bom momento.

Estava distraído, quando Henry, o cercou, continuamos com nossa conversa. Mas já o beijando, fique comigo essa noite.

Posso ficar Henry, mas temos que pensar seriamente nisso, não sou uma pessoa de aventuras, quero que tenhas  certeza de que me queres em tua vida.          Não quero ter que sair de fininho amanhã, por isso é melhor pensar muito antes de tomar qualquer caminho. Pode estragar tudo que estamos construindo.

Se sentaram na sala, Henry sorriu tristemente, é que estas sempre presente em minha vida, mas tens razão ainda não sei o que quero, tudo isso me deixou confuso, posso estar misturando as estações, mas adorei beijar-te.

Duke foi embora, depois de abraçar o seu amigo, saiu excitado do apartamento, mas ele era assim, talvez por isso estava sozinho, era muito sério.

O namorado que tinha durado mais tempo, disse que ele apesar de jovem, parecia um velho, ele entendia isso, mas tinha como modelo o relacionamento de seus pais, acreditava num amor duradouro.  Queria isso para ele.

Sabia que nesse momento representaria a tabua de salvação de Henry, isso seria horrível, ter alguém dependente dele.

Parou o carro estava confuso com seu próprio antagonismo.    Será que amor justamente não era isso, apoiar alguém a quem amava.   Mas claro iria ter sempre a dúvida que a recíproca era verdadeira.   Conhecia muita gente que rompia com uma pessoa, simplesmente a substituía por outra, mas não resolvia seus problemas.

Preferia preservar a amizade que tinha por ele a criar barreiras.   Tinha uma nova oportunidade em sua vida, queria aproveitar.

Quando chegou em casa telefonou para Henry, pediu desculpas de ter saído de fininho, falou tudo o que tinha pensado.   Henry concordou, creio que isso iria acontecer, também prefiro ir devagar.   Estou aqui trabalhando, estou com o livro do garoto na cabeça.  Pode ser interessante como pensou o Bradford, estarmos abertos a coisas novas.

Segunda-feira foram ao orfanato, conversaram com a chefa de todas, bem como a irmã Giovi, afinal era ela o elo deles com tudo.

Vamos trazer um engenheiro ou arquiteto, temos que ver um espaço disponível, para fazer a clínica ou como se chame, vamos contratar um  médico, uma ajudante, além do dentista, assim os garotos ficam cobertos.  Já falei com minha secretária, ela é excelente resolvendo os problemas.

Quanto ao Jesse, Bradford, esta localizando um especialista para examina-lo, a fundação de dirigimos, cuidara dos gastos todos. Ok

Ah se todos que saíram daqui fossem iguais a vocês.   Eles sabiam que isso era um mantra que elas usavam com todos que ajudavam.  Mas dava igual.

Jesse, lhes entregou mais um caderno para passarem para o Bradford, agora ele tinha cores para colocar no desenho, seguia desenvolvendo a história com texto, que completavam o desenho.

Quando chegaram no escritório, Marie, ria, essa historia dos cartazes nos cursos de escritura criativa, tiveram efeito, olha a mesa do centro.   Tem um rapaz te esperando, na sala de reuniões, disse que você o conhece.

Era um dos sobrinhos do Richard, que ele tinha conhecido num encontro na rua.  Se via que estava nervoso.    Lhe apertou a mão, desculpe, mas não me lembro seu nome,  Robert Brakstone, mas todo mundo me conhece por Bob Brak.

Ninguém sabe que estou aqui, mas queria conversar contigo, estou fazendo um curso escondido da minha família, vi o cartaz, quando cheguei aqui para trazer o texto que escrevi, imaginei que você esta fazendo algo teu.   Gostaria de saber se eu poderia trabalhar aqui em alguma coisa, não suporto essa vida vazia que leva minha família.  Estou terminando a faculdade de filologia, fazendo esse curso ao mesmo tempo.   Escrevo desde criança.

No momento, estamos abrindo para tudo, vou te passar para meu braço direito, não diga quem es, se apresente somente com esse nome, Bob Brak, explique que gostarias de trabalhar, não fale nada a respeito de tua família ok.

Fique aqui, já o vou trazer para conversar contigo. Vá até a mesa, busque teu texto, assim mostra para ele.

Voltou com o Bradford, lhe apresentou o rapaz, este estendeu a mão muito tímido, começaram a conversar, ele foi para sua mesa.   Como sempre que mergulhava em alguma coisa, estava ali analisando, tudo que queriam fazer, tinha marcado um encontro com um grupo de representantes de livrarias, queria apresentar as ideias deles, sabia que o melhor que fazia era deixar Bradford expor a questão, desenvolver a ideia, ele era ótimo nisso, ele faria a abertura, passaria para ele desenvolver a ideia.

Viu que ele saia da sala, que o rapaz sorria feliz, lhe abanou a mão, o escutou dizer, amanhã as 9 esteja aqui, aquela mesa pode ser tua.   Era uma mesa ao lado dele.

Veio até a sua mesa, disse, está cru, mas tem uma vantagem, é aberto, conhece literatura profundamente, parece que passou sua vida inteira fechado num quarto lendo.  Vamos ver se o posso doutrinar.  Lhe dei o primeiro caderno do garoto para ele, achou sensacional, inclusive sugeriu como podemos editar.  Gostei da ideia.

Olhe, te mandou outro, disse que já tem o terceiro em execução.   Falaste com o médico?

Me chamou de filho da puta para baixo, lhe expliquei a situação, me disse que o levasse até lá, amanhã, tens o telefone do orfanato, para falar com a irmã, estou literalmente vidrado com a cabeça desse garoto.   Ficou rindo, o mais interessante, que o Médico, é uma pessoa que ficou na minha cabeça, mas naquele momento, não estava preparado, seria como substituir um namorado por outro, preferi guardar distância, devia ter dito isso a ele.                      Saia de um relacionamento daqueles que pensas que a pessoa te quer, mas nada, achava que eu tinha dinheiro, quando descobriu que eu apesar do meu nome era um pobre assalariado, caiu fora.

Veio depois contar que estava tudo combinado, amanhã, deixarei que Marie explique ao Bob, como trabalhar, tem muito texto para ler.   Terei que arrumar mais uma pessoa.

Marie antes de sair, lhe mostrou a mesa, estou fazendo uma coisa, terei que contratar uma pessoa, para fazer isso, receber o texto, criar no computador um número com os dados do autor, todo inerente.

Mas como o Bradford, prefiro uma pessoa sem experiencia a quem eu possa ensinar como quero que trabalhe. Achas que estou certa?

Marie, o departamento é teu, faça como achar melhor, sabe aquele chefe chato que tinha, acho que desapareceu no mapa.

Foi para casa, sabia que Duke tinha estado trabalhando, mas não tinham conversado, ele tinha saído para resolver coisas com o advogado, não tinha voltado.

Em casa tomou um banho, estava lendo um texto de um bom escritor, já tinha editado dois livros dele, esse estava difícil de se concentrar, era daqueles, que as vezes é difícil passar da 10 página, pois o começo é descritivo demais.  Anotou de chama-lo para conhecer a nova editora, falar com ele para revisar isso.   Acreditava que seus livros anteriores era mais interessantes, devia estar com crise de criatividade.  Tinha assinado um contrato com a editora anterior, que o obrigava a ter um livro por ano.   Achava isso uma merda, já tinham conversado a respeito, podia ser que estivessem errado, que o seguinte, outra editora se interessasse antes, mas era um risco a correr, porque normalmente o segundo livro, sempre era uma merda.

Estava anotando uma série de coisas, quando chamaram na porta, era seu fiel escudeiro Duke, não te vi a tarde inteira.

Estive com esse puto advogado, ele quer me forçar a vender a mansão para a família, por um preço baixo, o escutei bem, mas lhe disse na cara, que já estava em mãos de uma imobiliária, pedi as chaves da mansão me disse que estava com a família. Que estavam fazendo um inventario da casa.

Ele não sabia que eu era policial, lhe disse que ia acionar a polícia rapidamente, fui com ela até lá expulsei todo mundo, estavam separando coisas para levar. Fechei a casa, peguei a chave, o que estava comandando a família é um idiota, queria dar dinheiro a polícia para fazer vista gorda.

Mandei lacrar todas as portas, para não levarem nada.

Já comeste alguma coisa?    Eu estou morto de fome, que tal sairmos para jantar, acabo de ler o começo de um livro maçante, um bom escritor, creio que tem problema do famoso segundo livro.  

Pegou uma jaqueta, foram saindo, conversando, o levou a um restaurante que as vezes ia jantar com os amigos.   Estes estavam lá.  Os apresentou ao Duke, contou que no meio da confusão toda tinha encontrado um amigo da infância dele.   Estamos colocando as notícias em dia, outro dia comemos juntos.

Um deles soltou, não é porque agora estas milionário, que vai esquecer dos teus amigos não é.

Respondeu, desculpa, mas sou um milionário que trabalha muito.

Sentaram-se numa mesa ao fundo do restaurante, lhe contou a mania que tinha, com isso, ficaram rindo.

Bom voltando ao assunto que estava falando, temos que pensar no que já conversamos a respeito dos contratos, sei que alguns escritores ficam ansiosos por estes contratos, pois dependem do adiantamento que a editora possa lhe dar, para aguentar mais um ano só escrevendo,   creio que devemos analisar os casos.               Pois a maioria acaba como este, não consegue seguir em frente, pior, as editoras publicam um segundo livro que normalmente é um fracasso.

Ele ia anotando o que ele ia falando, enquanto comiam.   Do grupo de amigos, um deles era o mais próximo a ele, veio se despedir, desculpa o comentário, foi fora de lugar.

Apertou a mão do Duke, ficou olhando para ele, já sei quem eres, uma vez a muito tempo atrás nos conhecemos num cinema.  Estivemos juntos, mas quando me dei conta tinhas desaparecido.

Sim é verdade, não foi um bom momento.

Eu entendo, as vezes acontece comigo o mesmo, esperamos uma coisa, a pessoa vai em outra direção.    Mas se eres amigo do Henry, desde infância, sinal que deves ser uma pessoa boa.

Nos vemos por aí.

Uau, descobrindo o lado escuro do meu amigo Duke.

Na verdade, não aconteceu nada, nos conhecemos no cinema, começamos a comentar o filme, saímos para tomar uma cerveja, quando ele foi ao banheiro eu fui embora, como ele mesmo disse não era o momento, estava chateado com uma série de coisas.

Caramba, as vezes te vejo fechado demais em ti mesmo, nunca colocas para fora teus sentimentos.

Só contigo consigo falar, o que aconteceu, foi que estava estudando direito, conheci um rapaz que não me era estranho, estivemos juntos umas quantas vezes, depois fui descobrir que era namorado de uma sobrinha de minha mãe, mas ele sabia quem eu era.

Me colocou numa situação difícil, pois numa festa na casa dos meus pais, apareceu com ele, quis fazer sexo no meu quarto. Isso lhe excitava.  O mandei a merda.  Ameaçou contar para ela, eu saí na frente, contei tudo a ela, ficou furiosa, explodiu na frente de todo mundo.   Por isso a festa lá em casa não tinha tanta gente, são preconceituosos, imagina um chicano fazendo sexo com outro homem.

Saíram caminhando, falando dos fracassos sentimentais de cada um, como se isso fosse uma maneira de se conhecerem.

Porque não vens viver aqui comigo, tem um quarto, o que era meu, já dormiste nele outro dia, assim evita de ires para tão longe.

Não quero ver você trazer outra pessoa para casa, isso acabaria comigo, não estou preparado para encarar que tens direito a recomeçar a vida com qualquer pessoa.

Acho que me entendeste mal outro dia, realmente queria fazer sexo contigo, não como tabua de salvação, mas por medo de te perder outra vez.

Mas respeito tua decisão, vamos ir devagar ok.  Contou o do Bradford, que ia levar o garoto junto com a irmã Giovi ao médico no dia seguinte.   Precisamos ver como vamos fazer com o ambulatório.

Ah como tenho as chaves inclusive da casa de Los Hamptons, o da imobiliária diz que lá é fácil de vender.   Nunca foste até lá?

Não, porque sabia como eram essas festas, depois meu casamento com ele já estava acabado, não queria ver o pior.

Pode ser que me arrependa, mas não gosto desses lugares assim, em que as pessoas estão fazendo pose o tempo todo.

Duke riu dizendo que uma vez tinha ido com um namorado, a Fire Island, me dei mal, encontrei um conhecido da academia de polícia.   Mas gosto mais dali, tem umas casas fantásticas, eu aproveitei muito a praia.

Eu imagino, ficaste se exibindo para todo mundo, dizia isso rindo, se tivéssemos alguma coisa, eu ia te prender nos pés da cama.

Se despediram como sempre, amanhã nos vemos no escritório.

Subiu pensando nisso, realmente no outro dia, tinha vontade de fazer sexo com ele, mas havia que esperar para não ser só uma noite, disse para si mesmo, foste com pressa com o Richard olha o que aconteceu.

Era uma verdade, tinha sido tudo por instinto, se parasse para pensar, não tinham nada em comum, a não ser o sexo.    Quando o resto foi posto a prova, ele preferiu defender sua vida, do que o relacionamento de sexo.

Eu também tenho culpa do relacionamento não ter dado certo, eu sempre tão metido no meu trabalho, não percebi que ele talvez necessitasse de atenção.   Não vi os indícios que ele estava de novo nas drogas.

Foi olhar a gaveta que ele usava no banheiro, encontrou um plástico com cocaína, jogou rapidamente na privada, além de dois cigarros de Canabis, disse merda, aproveitou tirou tudo da gaveta, colocou numa bolsa, para colocar no lixo.  Encontrou uma caixa no fundo, com um anel, muito masculino.   Olhou dentro, era uma joia de família, a daria ao Bob, assim ele teria uma coisa do tio.  Mas ao colocar a gaveta outra vez para dentro não entrava, a retirou completamente, embaixo tinha mais cocaína, presa com fita adesiva.  Filho da puta, imaginou a polícia entrando na sua casa, examinando isso.         Deu uma olhada na outra gaveta, examinou todo o banheiro, bem como um troço do armário que ele usava.          Quando ele tinha estado a última vez, tinha levado suas coisas dali.  Que lastima pensou, precisar disso para viver, para ter emoções.      Será que tinha feito sexo com ele, com a cabeça cheia de cocaína, as últimas vezes, as vezes era agressivo.   Jogou tudo na privada, deu uma boa descarga, repetiu várias vezes.

Foi para cama, furioso, mas estava cansado, desmaiou afinal.   Não foi uma noite agradável, sim cheia de pesadelos, principalmente se lembrando das últimas vezes que tinha estado juntos, a ânsia que ele tinha de sexo.     Queria sempre mais, ele achava que era porque o amava, agora sabia que era por vicio.   Despertou molhado de suor, tomou um banho, abriu a janela, ficou olhando a noite.  Como fui tão idiota pensou.

No dia seguinte, Bob Brak, apareceu com uma cara de fazer gosto, num primeiro momento hesitou em entrar, desculpe, fiquei sabendo o que aconteceu ontem, meu pai, sempre o primeiro em criar confusões.          Discuti com ele, acabei indo dormir na casa de um colega de faculdade.     Ainda me soltou na cara, que sou um viado como meu tio, louco por um caralho no cu, desculpe, mas nunca me senti tão ofendido com tudo isso.  Vou arrumar um lugar pequeno para morar, não suporto mais a família.   

Vamos te ajudar, olha ontem encontrei esse anel, devia ser de teu tio, porque não ficas com ele, até podes vender, para arrumar o apartamento. Se precisas de dinheiro, posso te adiantar alguma coisa. 

Meu amigo disse que posso ficar uns dias com ele, pois seu companheiro está viajando, mas vou ver se vale muito esse anel, pode ser que o use para isso.

Foi almoçar com Duke, Marie,  Bradford chegou justo quando iam pedir a comida, tinha um sorriso na cara.    Há possibilidades, o meu conhecido vai completar todos os exames, ele ficou no hospital com a irmã Giovi, depois voltarei até lá para lhe levar cadernos, lápis.               Estou literalmente encantado com esse garoto, era o filho que gostaria de ter. 

Não seja por isso, pense em adota-lo.

Tenho medo, de não ser um bom pai, imagina fui um filho da puta a vida inteira, não tenho boas coisas para ensinar a uma criança.

Deixe de besteira homem, soltou Duke, garanto que serias um pai fenomenal.

Quando saíram do restaurante, deram uma corrida até o hospital que não estava longe, Jesse, sorriu de orelha a orelha, estava feliz, ele foi com Duke, além do Bradford falar com o médico, disse que se responsabilizava por todas as despesas.

O médico sorria, ok, mas tenho que agradecer ao garoto, fez certa pessoa que foge no meio da noite, voltar.

Foram trabalhar, Bradford avisou que ia sair mais cedo, para ir em casa, tomar um banho, trocar de roupa para ficar no hospital com o garoto.  Assim a irmã pode descansar também.

Bradford, no dia seguinte confessou que nunca tinha se imaginado fazendo isso, ficar cuidando de alguém, o bom foi que o médico apareceu antes de ir embora, conversamos mais.

Os exames são positivos, fiquei sabendo da historia real dele, é uma lastima.  Nos primeiros meses terá que fazer fisioterapia no hospital, mas pode ficar em minha casa.

Ele ria da cara dele, fale com a irmã que queres adotar, afinal não eres um homem de ir pelas discotecas todas as noites, não te metes em drogas nada no gênero.

Converse com a Marie, ela sempre tem uma cabeça ótima para isso.   Outra coisa  como vai o Bob Brak?

Olha excelente aquisição, entendeu como é o trabalho, me apresentou uma análise de um texto que deixei para ele dar uma olhada, vou te passar?

Falar em texto, comentou do autor, que tinha lido na noite anterior,  creio que está com a síndrome do segundo livro.                    Deixei o mesmo na tua mesa, para dares uma olhada, ok

Pegou o texto que o Bob tinha analisado, foi vendo suas anotações, para um jovem até que tinha uma cabeça madura.   Olhou os dados da pessoa que tinha escrito, era um rapaz de 16 anos,  levou o texto para casa, leu, concordou com todas as anotações do Bob, tinha um bom olho.

No dia seguinte, chamou o Bradford, achei interessante, a partir que é de um rapaz de 16, anos, vamos fazer uma experiencia, manda ele chamar o rapaz,  vamos ver como ele conversa com o mesmo, tu o orientas como tem que ser a coisa.

Como vai o livro do Jesse, dormiste a noite no hospital.  O operam hoje no final do dia, quero estar lá, ok.

Sim eu irei na hora que saia daqui, creio que o Duke também.  No dia anterior não tinham estados juntos. 

Na hora do almoço, Bob veio falar com ele, mandei avaliar o anel, vale uma fortuna, não posso ficar com ele, eles vão descobrir, porque o joalheiro é conhecido da família, se isso chega na rua, vai dar no que falar.

Quer ver uma coisa, me diga aonde é o joalheiro, me dê a caixa do anel, vou lá tento vender, para saber o que ele diz.

Ficas aqui no restaurante, depois volto.  Entrou na joalheria, explicou quem era, meu marido me deu esse anel de presente, mas eu não uso joias, gostaria de vender, queria uma avaliação, bem como vender o mesmo.    Acha que tem algum problema?

Não, sei que o senhor é seu viúvo, portanto natural que esteja em seu poder o mesmo, se ele lhe deu de presente mais ainda.   Consultou, disse o valor, que era muito superior ao que quem tinha avaliado para o rapaz tinha dito.

Podemos fazer duas coisas, eu posso desmontar a peça, lhe compro o diamante que esta nela, que vale, disse um valor superior.

Muito bem, pode me dar um recibo disso,  com o ouro do anel o senhor pode fazer uma cruz?

Simples sem muito exagero ok.   O valor da pedra o senhor deposita na minha conta, lhe deu o número da conta.   Saiu sorrindo do joalheiro, atravessou a rua, sentou-se no restaurante com o Bob, estas rico garoto, lhe estendeu a nota do homem, ele vai depositar na minha conta, assim não te envolve. Comprou a pedra de volta, vai fazer uma cruz com o ouro.  Mas tudo será teu, depois te dou um cheque, tens conta num banco?

Não, antes tinha do meu pai, um cartão de crédito com um limite para gastar, mas ele suspendeu quando sai de casa, como uma maneira de me forçar a voltar.  

Fales com a Marie, no final do mês terão que te depositar dinheiro do teu salário, abra uma conta com esse cheque, mas aprenda a administrar esse dinheiro, pode render bastante, busque um apartamento jeitoso para uma pessoa.    Marie é a pessoa indicada, diga que procuras um apartamento pequeno para viver, ela vai conseguir, sempre consegue tudo.

Por que estás me ajudando assim?

Teu tio, reclamava da família, de como tinha sido criado, mas não fez nada para escapar dela, construir sua vida, talvez nos dois anos que viveu comigo sim, mas fora isso não.  Tudo isso o destruiu, acredito que queres outra vida, pelo menos me disseste isso. 

Bradford me mandou chamar o rapaz do livro que revisei, diz que tenho que conversar com ele, nem sei com vou fazer.  Não se preocupe, li o texto, bem como tuas anotações, esse foi meu serviço durante anos, ainda o faço.  Converse normalmente com ele, faça as sugestões que fizeste nas anotações, tire uma cópia de tudo antes, assim marque um dia com ele, para ir revisando o texto inteiro.   Use a sala de reuniões para isso, avise somente a Marie, dos horários. Ok.

As lagrimas corriam na sua cara, obrigado por acreditar em mim, me ajudar, tentarei me manter o mais escondido possível, da família.   Sei que me procuraram na universidade, mas lá estou de férias.  Não conhecem meu amigo.   Por enquanto estou livre deles.  

Não sentes falta da família?

Não, sempre foram frios comigo, dizem que sou o tonto da família, porque sempre fiquei na minha, odeio as festas que fazem.  Tudo é uma grande falsidade.

Bom um dia escreva sobre isso, quando estiveres bem longe, com uma nova vida, desde outra perspectiva.

Entraram juntos no escritório,  Bradford avisou que o autor do livro estava ali, devolvi o texto a tua mesa, está na sala de reuniões te esperando, quer falar contigo.

Nada disso, venha junto comigo, Bob, venha para aprender.

Falou com o escritor amavelmente, como vão as coisas? As conversas protocolarias. Lhe serviu água pois notou que estava nervoso.  Ainda tens o contrato com a editora antiga?  Pagaram adiantamento por esse livro?

Sim, me pagaram, mas devolvi, pois queria ficar livre da pressão.

Estas com a famosa síndrome do segundo livro, não é verdade.  Vou ser honesto, não consegui passar da 10 primeiras páginas, parece um manual de como descrever uma paisagem.  A ação é monótona.  Sabes que se não cativas o leitor nas dez primeiras páginas, fudeu.   Não vai ler o resto, ainda vai falar mal do livro.

Portanto, acho que devias, com calma, tentar analisar o livro, se quiseres, o Bob é excelente nisso, darei para ele ler o livro.

Mas ele é uma criança, não vai entender do assunto?

Talvez isso seja uma vantagem, tens que pensar que os velhos morrem, não compram livros, um jovem sim.  Acho que tua linguagem, do primeiro para este ficou de uma pessoa amarga, talvez por isso a obrigação de escrever um livro que faça tanto sucesso como o primeiro.

O que achas, queres tentar?

Ele ficou olhando para o Bob, soltou de repente, queres ajudar esse velho ranzinza, que odeia que o critiquem?

Bob deu um sorriso maravilhoso, ninguém gosta de ser criticado, principalmente por uma ideia ou pelo que escreveu, lhe prometo, analisar aonde está o problema, podemos discutir as ideias. Eu tenho um tempo agora, leio as dez primeiras páginas, conforme minhas anotações, em seguida falamos.

Viu que ele lia, rápido, ao mesmo tempo que ia anotando coisas numa folha de papel, não no texto como alguns faziam.

O deixaram falando com o escritor, foram trabalhar, este saiu com um sorriso na cara, esse menino vai longe disse ao Bradford.

A cara do Bob, era melhor, nem acredito que fui capaz de fazer isso, analisar, basicamente cada palavra das dez primeira páginas.

Diz que vai rever tudo, marcara para falar comigo.  Ufa.

Bradford, disse a queima roupa, estas roubando o meu emprego, vou te denunciar ao chefe, se matou de rir, sempre tive vontade de dizer isso,   diga a Marie que teu contrato é definitivo. Mas amanha tens a prova com o rapaz.

Saíram do escritório, foram para o hospital, ali na sala de espera estava Bradford, a irmã Giovi a superiora, tranquilamente rezando o terço.  

Uma hora depois o médico saiu, piscou o olho para o Bradford, disse que a operação tinha saído bem, agora a fisioterapia será importante. Ficara um mês aqui no hospital, depois terá que andar um tempo com um bastão, mas creio que em breve estará correndo.

A superiora, ficou nervosa, não temos dinheiro para pagar o hospital, nem a fisioterapia?

Já esta paga senhora, não se preocupe, quem tem amigos, tem Deus do seu lado.

Mas quem pagou tudo isso?

Segredo de estado, o médico era como o Bradford, tinha humor, realmente se voltassem a se conhecer daria certo.

Deu um cutucão no Bradford,  ele ficou vermelho, a senhora acha que eu posso o adotar?

Claro que sim.

É que sou gay? Tenho medo de que me neguem isso.

Deixa comigo soltou a irmã Giovi. Eu sempre resolvo qualquer problema. 

Posso ir ver o garoto doutor, pediu ele. 

Sim, já que serás o pai, creio que vou ser o tio. Venha comigo.

A preocupação do Bradford era que como ia ficar com o garoto esse tempo, tenho que trabalhar, conversava isso com o Jules o médico, estavam em seu consultório sentados frente a frente.

Primeiro me responda uma pergunta.    Por que fugiste de mim?

Embora sendo só uma noite, gostei de ti, mas vinha de um relacionamento que foi uma merda, me deu medo, sai de fininho, mas nunca te esqueci.  Descobri que tinha que ficar sozinho para resolver o problema.  Me fechei, até hoje, agora já levo uma vida discreta, aonde o trabalho impera, conheço muita gente essa é a verdade, mas amigos só tenho o Henry, Marie, agora o Duke com quem se pode falar de tudo.

Eu tampouco esqueci de ti, fiquei frustrado por teres fugido, quando perguntava por ti, diziam que tinhas desaparecido do mercado.   Uma vez fui até a editora que trabalhavas, estavas furioso com alguma coisa, discutia com um homem.   Com o dedo apontava a porta da rua.

Ele começou a rir, justamente a pessoa que me causou problemas, era um escritor medíocre, acreditou que se eu me apaixonasse por ele, arriscaria publicar seu livro, quando eu disse que lhe faltava muito, aprontou um escândalo, ameaçando contar a todo mundo que eu era Gay, tive que rir, pois todo mundo sabia.   Não tenho família com que me preocupar quanto a isso.

Tai, talvez seja a solução, minha mãe veio viver comigo, agora que ficou viúva, lhe falta ocupação, vou traze-la para conhecer o Jesse, pode ser que gostem um do outro.   Mas só farei isso se me das um beijo.  Quando viram estavam no chão do consultório.

Ficaram rindo, não tem jeito, não é?

Sim melhor parar de fugir.

A entrevista do Bob com o rapaz foi excelente, ao fundo da grande mesa se sentaram Henry com Bradford, na outra ponta estavam os dois jovens conversando,   Bob, foi mostrando os pontos aonde o livro fugia pelas ramas.   Quando tocou num assunto do terceiro capítulo, viu que o rapaz ficava tenso.    Aqui falas de amor não correspondido do personagem, mas nos capítulos anteriores ele não fala de romance com ninguém.  Creio que aqui falavas de ti mesmo, não podes confundir o personagem contigo.

A cara do outro era ótima, não pensei que as pessoas fossem descobrir isso, talvez tenha usado nesse momento minha frustação para falar disso.  Se queres manter isso, tens que no capítulo anterior falar dessa paixão por alguém.   Veja, somos jovens, creio que passaremos por muitas  desilusões amorosas, principalmente por não termos prática no assunto.  Tens duas opções ou mudas o capítulo, ou inventas algo no capítulo posterior, no seguinte, tampouco mencionas essa ruptura.  Creio que deverias pensar nesse capítulo do livro.   Podemos encontrar a solução juntos, o que te parece,  disponho de uma hora, para começarmos.  Ficaram se olhando, o rapaz soltou, mãos à obra.

Henry e Bradford, saíram de fininho, para trabalharem em outras coisas.

Duke veio falar com ele, disse que já tinha a casa de Los Hamptons vendida, o problema era a mansão.  Um grupo imobiliário queria comprar, para demolir, construir um prédio. Mandei verificarem com a prefeitura se podiam fazer isso. 

Mande uma pessoa verificar tudo que tem de valor naquela casa, mande vender.

Não se preocupe, já fiz isso.  Ali, quase tudo é cópia de alguma coisa, como se o importante fosse gastar dinheiro.

Meus pais te convidaram para almoçar no sábado em casa, tens algum compromisso?

Nenhum, gostaria de ir, pois me senti muito bem lá, de uma certa maneira te invejo, ter alguém que se preocupe por ti.

Eles estão com muita idade, por isso nunca os deixo sozinhos.

A mim me deixaste sozinho todos esses dias?

Tinha que me afastar um pouco para analisar meus sentimentos, perto de ti, fico confuso, quero fazer muita coisa ao mesmo tempo.

Estás feliz aqui trabalhando?

Sim, muito, tenho que resolver se continuo, para pedir primeiro uma licença sem remuneração da polícia, depois a demissão.

Acho bem, tens uma cabeça privilegiada.   Mas não te afaste muito, eu tenho pensado como tu no nosso relacionamento.   Quero experimentar.

Me pegas de surpresa, ia dizer a mesma coisa.

Nessa noite ficaram conversando, até tarde, quando viram estavam na cama, nus, se sentiam bem assim. Mas não fizeram sexo.

Em breve teriam três livros para lançar, fizeram então uma reunião, com as principais livrarias, distribuidores, os convidaram para um coquetel,  primeiro falou Henry, que passou a palavra para Bradford, esse foi explicando o conceito que queriam desenvolver,  que era arriscado, uma nova linguagem para atrair os jovens.  Mostrou um vídeo do Jesse, trabalhando seu livro, um jovem de pouca idade, mas com um conceito próprio para contar uma história.

Depois o velho, conversando com o Bob, procurando uma nova linguagem, para seu livro, atualizar em um contexto novo, a sociedade muda muito rapidamente.  O terceiro de novo o Bob, conversando com o rapaz, montando o final do livro.

Como vêm de simples leitor, esse rapaz jovem passou a editor, tem um conceito muito próprio do trabalho, uma nova safra vem por aí, como se fosse uma onda nova, temos que subir na nossa velha prancha de surf para segui-los.

Iam sendo colocados na frente de cada um embrulho com os três livros, tudo tinha sido muito bem pensado, desde a capa, tipo de letra, um conceito novo.

Os preços, estava apertados, pois Duke, tinha negociado com os impressores ao máximo.

Numa mesa, Marie, tomava  junto com Duke, nota dos pedidos, os distribuidores, queriam levar para o resto do pais a ideia.      Podemos trabalhar em cima dos vídeos para enviar uma amostra para as principais livrarias.  Todos pareciam gostar da ideia dos vídeos.

Finalmente saiam com lucros do investimento.

Já estavam trabalhando os outros textos, Bob apareceu com um na mão na reunião que tiveram, essa escritora, é justamente a professora com quem fiz o curso.  Antes fui verificar quem era, ela editou um livro a muitos anos atrás, depois sumiu do mapa.

Esse agora é interessante, mas algo me perturba, é como se já tivesse visto algo parecido.

Me lembro do livro dela, eu me recusei a publica-lo por ser muito complicado à primeira vista, tive que ler pelo menos duas vezes para entender.   Quem acabou publicando foi outra editora.

Posso tomar informações a respeito.  Tire uma cópia para mim do texto lhe pediu Henry.

Nessa noite sentou-se para ler, ele tinha uma memória prodígio para isso, leu uma passagem, veio na cabeça de quem era o texto.  Ela na verdade citava vários grandes autores, embora não disse de quem era o original, usava essas citações para contar uma história.

Não sabia se isso era valido,  teria que consultar o Duke.    Por ele, teriam uma anotação dizendo de quem era a frase original.

Quem a chamou foi ele, pois se tinha sido professora do Bob, isso seria complicado.

Conversaram sobre isso, imediatamente se colocou em defesa, mas ele estava ali com todos os livros citados em volta.   Talvez ao ler esses livros, essas frases ficaram na tua cabeça, isso é normal, mas se escreves a partir disso tua historia há que mencionar o fato, dizer quem é o dono da frase.

Isso não quero, pois os leitores podem entender que o resto do texto é uma cópia de uma das ideias.

Consultei nosso advogado, disse que isso pode virar um grande problema, pois a editoras donas desses textos podem reclamar.   Como está não podemos editar.

Ela se levantou, pegou o texto, foi embora.

No dia seguinte, Bob, veio lhe contar logo de manhã que tinha entrevistado um dos alunos, com um texto brilhante, que ela tinha dito em aula, que essa editorar não era boa.

Conversei com o rapaz a respeito do que aconteceu, disse que não mencionou nada.

O livro dele é interessante, mas do meio para o final, fica morno, falei com ele a respeito, disse que queria outra opinião, está na sala de reuniões, podes falar com ele.

Entrou, era um homem de uns trinta anos.  Olá, se apresentou, qual o problema?

Não quero que um rapaz de vinte e picos anos, análise meu livro, não foi escrito para jovens, quero atingir a faixa etária de  homens da minha idade.

Muito bem, pedirei ao Bradford que leia, ele te dirá alguma coisa a respeito.

Mas creio que erras, pois isso de escrever só para uma faixa etária, perde-se porque escrevemos para que os livros sejam sempre atuais, porque todas faixas etárias evoluem, os da minha idade a uma década atrás, pensavam de outra maneira, os que vem atrás, já vem com os problemas resolvidos.   Então estas escrevendo um livro efêmero, só servira para esta geração, para as próximas não servira.

Quanto ao Bob, ele acaba de editar um livro de um escritor, que já escreveu um livro de sucesso, mas reconheceu que sua linguagem não evoluiu, o jovem Bob como tu dizes, conseguiu que ele entendesse, atualizando sua linguagem num conceito mais amplo.

Acho que estas fechando uma porta antes de mais nada.  Gostaria que pensasse, de qualquer maneira passarei o livro para o Bradford, em seguida ele passara a mim, nos reuniremos os três para ver a que conclusão chegamos.

Se despediu cordialmente do homem.

Comentou com o Bob, acho esse homem um pouco tonto.            Fizeste aulas com ele na mesma turma?

Não, ele era de uma anterior a minha, mas vai sempre para assistir os debates.          Diz que não entendemos seu conceito.   O livro fala mais de conceitos de choques de gerações, isso sempre existiu, porque  como você disse, cada geração nova, já trás uma parte mastigada, é logico que considere a anterior ultrapassada.                           Não entende que o mundo muda cada vez mais rapidamente, que os conceitos também, se não estamos abertos, fica difícil.

Gostava de ver a maturidade do Bob, como ele funcionava, sua linha de pensamento.        Estava contente com ele.

Como vai no teu novo apartamento perguntou?

Uau, super bem, é como estar no paraíso, tem um parque em frente, sem muito ruído, é pequeno, mas me basta.

Fico contente contigo.

Ah, Marie me ensinou como administrar meu dinheiro, lá em casa ninguém pensa nisso, simplesmente gasta dinheiro, pois as empresas da família continuam gerando dinheiro.

Assim fica fácil, verdade?

Sim, mas para quem ficou confinado toda a vida, num quarto, para não participar, é duro, eu com uns 12 anos, tomei consciência que não queria ser como eles, ir pela vida como iam, as reuniões de família era um suplício,  creio que tio Richard se rebelou da maneira errada, tinha tudo para dar certo, mas deixou que as drogas governassem sua vida.  Olha como está o irmão, nem pode ser julgado, pois continua internado.   Não pense que os outros tem pena, pois como não pode gastar dinheiro, gastam eles.

Meu irmão mais velho, está indo pelo mesmo caminho, tentei falar com ele, é um tipo brilhante, mas largou a universidade, porque não gosta que o critiquem, como se ele fosse o dono da verdade.  Deixou tudo, esta a meses na Europa, frequentando festas.  Com certeza com muitas drogas.

De noite conversou com o Duke sobre isso, se para analisar, ficam dois contextos diferentes, um autor que só quer atingir uma faixa etária que acho que nem ele mesmo entende, do outro lado uma família disfuncional que acha que pode tudo.   Esse menino Bob, conseguiu escapar, mas como ele diz, Richard, tentou, mas se escorou no mais fácil.

É verdade Henry, os jovens que entram na droga, tem duas pontas, os pobres, que a vendem e consume vão presos, mas os ricos se livram facilmente.  Como existem mais pobres que ricos, o papel que representam os pobres sempre se multiplica.  Se um vai preso, logo tem outro para substitui-lo, é a máquina não para.

Agora namoravam todas as noites, existia paixão, mas também companheirismo, conversavam trocavam ideia, não era só sexo.

Um dia conversando com Bradford, via que este estava mais relaxado, dormia quase todas as noites no hospital com Jesse.  Comentou da recuperação.  Com Jules a coisa vai bem, durante o dia sua mãe fica com o Jesse, que considera como seu neto, outro dia ele soltou, para quem não tinha família, agora tinha uma completa.

Está escrevendo outra história, falando de sua própria recuperação, agora os desenhos são mais coloridos, diz que quer estudar belas artes mais tarde.

Como vai a adoção?

Complicada, pois sabemos que os pais verdadeiros existem, mas aonde não se sabe, primeiro porque Jesse não é seu nome verdadeiro, esse quem colocou foi a irmã Giovi, pois ele simplesmente estava jogado na porta do orfanato.   Inclusive pensaram que estava morto.

Ele era muito pequeno para se lembrar de alguma coisa, além é claro do trauma.

Mas por enquanto tenho a guarda dele.

As obras do ambulatório do Orfanato estão quase no final, falei com Jules, para conseguirmos um médico, ele se ofereceu para abrir mão de seu trabalho no hospital uma vez por semana, mas acredita que vai conseguir um que possa cuidar das crianças.

Estivemos olhando com o Duke, vamos começar a entrevistar pessoas.  Jules está participando nisso.

Indicou um médico especialista em administrar financeiramente um local, embora só se vai ter gastos, esses precisam ser administrado. Em breve as coisas estarão no seu devido lugar.

Vocês dois deviam pensar nisso, em ter uma família.

Nenhum dos dois disse nada, a respeito.

Ele leu o livro do sujeito, não gostou, era muito retórico, disse ao Bob que desistisse, esse é daqueles livros que ficam para os saldos, as pessoas compram, pelas primeiras dez páginas, depois se cansam da repetição.

Bradford foi da mesma opinião, se queres falamos como da outra vez os três com ele.  

Mas nunca mais voltou.  Tinham agora mais cinco livros para lançar.  A editora ia para frente, já tinham recolhido basicamente o investimento.

O verão estava no seu pico, foram passar um final de semana na casa de praia de Jules em Fire Island, com sua mãe incluída, ela conhecia todo mundo, na praia vinham todos falar com ela.

Foram olhar uma casa ao lado da dele, gostaram demais, estava a venda.  Teus pais não gostariam de vir?

Duke respondeu que achava que nunca tinham ido à praia.  Pediram para experimentar a casa, ele trouxe seus pais, se deram logo bem com a mãe de Jules, apesar da diferença social, era como velhos conhecidos, se sentavam na praia com o Jesse, que entrava na agua acompanhado do Bradford ou do Jules.   A mãe deste estava feliz, imagina, sempre me preocupou que meu filho ficasse velho sem companhia, mas esses dois conseguiram formar inclusive uma família, o que me deixa tranquila.

A mãe do Duke disse que poderia ficar vivendo naquela casa, era um sonho, talvez no inverno fosse mais frio, Henry comentou que as vezes nevava na praia, mas a casa tinha um sistema bom de calor, pois os antigos proprietários viviam ali o ano inteiro.

Acabaram comprando a casa, Duke estava feliz, disse um dia ao Henry, tenho medo de que essa felicidade acabe.  Não vejo por que, estamos bem um com o outro, isso é que importa.

Era uma verdade, iam agora aos finais de semana a casa de praia, os pais o recebiam felizes, conversavam, tomavam banhos de mar.  Melhor era impossível.

A editora ia bem, estavam trabalhando seriamente.   Ele criou uma fundação com o dinheiro todo do Richard, com seu nome, ia ajudando a quem precisava.  A Família nunca mais o procurou, mas apesar do nome da fundação, faziam tudo sem publicidade.

Bob um dia veio rindo contar, como tinha saído na televisão junto com um autor novo, falando de livros, de linguagem, que seu irmão mais velho o tinha contatado.

Estava tentando refazer sua vida mais uma vez.   O aconselhei a voltar a universidade, terminar o que tinha começado, levar a vida a sério, deixar as drogas, se ele não queria acabar como o Richard.

Me perguntou como eu podia viver sem o dinheiro do Fideicomisso, lhe disse, que por isso trabalhava, que isso tinha me salvado.   Mas não creio que ele se esforce muito para isso, queria ir a minha casa, mas marquei com ele num restaurante, chegou bêbado.  Simplesmente me levantei, fui embora, não disse nenhuma palavra.  Quando começou depois a se desculpar, disse que esse era o problema, a palavra desculpas normalmente é fácil de dizer, mas difícil de se acreditar, quando parece vazia.

Não disse nenhuma coisa a respeito de meus pais. Tampouco perguntei.

Tinham contratado um novo leitor, mas durou pouco, disse que era uma enxurrada de livros para ler.  Em seguida apareceu uma jovem, filha de japoneses, essa deu certo, se encaixou rapidamente no trabalho.

Definitivamente Bob era o mais jovem editor da empresa.

Se consolidaram, como uma editora de novos escritores, novas ideias, funcionava, bem como a fundação, conseguiam ajudar as pessoas, a clínica do orfanato funcionava, montaram uma outra num orfanato feminino.   La aconteceu o inevitável,  Duke se apaixonou por uma menina que estava lá, os dois acabaram adotando a mesma.  Passava claro a maior parte do tempo com os avós que babavam em cima da garota.

Viveram felizes comeram perdizes, isso não existe, mas aprenderam a contornar os problemas do dia a dia.

MEMPHIS BOY

                                                              

Jerome, iria guardar na sua cabeça para sempre a cena que acabava de ver, seu melhor amigo, morto, embora ele tivesse matado o homem também.  Empurrou o homem que estava em cima do amigo, o filho da puta ainda respirava, com o canivete enfiado no peito, nem pensou, por instinto, enfiou aonde tinha visto fazerem antes, cortando a jugular.

Ainda tentou reviver o amigo, mas nada.  As lagrima escorriam pela sua cara, não havia como conter.  Ficou pensando o que fazer, se o deixasse ali, ainda iriam dizer que era um negro assassino, o iriam chamar de viado, outras coisas.  Estavam à beira do Mississipi, melhor era pensar que tinha morrido afogado, como os dois estavam sempre tomando banho no rio, quiça para além de tirar a sujeira, limpar dos abusos que sofriam.

Arrastou o amigo, estava exausto, mas tirou a força do seu interior.                O levou até o rio, o empurrando, no seu peito, pediu a esse Deus que já que não o protegia, que pelo menos levasse o amigo para algum lugar bom.

A tristeza apertava seu peito, vontade de gritar, mas se fizesse isso podia chamar a atenção, voltou pegou o canivete que estava no pescoço do homem, voltou ao rio, lavou o mesmo, bem como suas mãos do sangue dos dois.   Fechou o mesmo, enfiando no bolso.  A cabana que estavam, caia de velha, era ali que iam fumar os cigarros que roubavam de seus pais, quando estes estavam totalmente drogados.  Achou a caixa de fosforo, juntou papeis velhos que estavam por ali,  tocou fogo, saiu rapidamente, se escondeu, ficando ver como o casebre rapidamente se consumia.

Tudo por culpa desses dois filhos da puta, se referia ao seu pai, bem como o pai do amigo.  Viviam nas drogas mais pesadas, para conseguir alguma coisa, não pensavam, vendiam os dois ao melhor postor.   Ele tinha sido abusado a primeira vez com 8 anos de idade, mal morreu sua mãe de overdose.   Desde então quando o pai não conseguia dinheiro cantando, tocando sua guitarra pelos bares, ele era quem tinha que ganhar dinheiro.  A primeira vez, tinha sido um inferno, o pai tinha sumido, mal colocou a mão no dinheiro do homem.  Ele ficou ali atirado, vendo o homem abaixar suas calças, sorrindo, dizendo rindo, um cuzinho virgem sempre é bom.

Foi a primeira vez que tinha tido vontade de matar o pai.  Quando se negava, esse o enchia de porrada, mas na cara não lhe batia, seu pai era um mulato claro, sua mãe branca,  ele era claro, com olhos como os delas castanhos, quase verdes, era magro, a desnutrição, o fato de viver comendo o que encontrava nos lixos, não ajudava muito.

Agora com 14 anos, era alto, mas claro, lhe faltava alimento para o corpo crescer, bem como ter força nesse seu corpo.

Voltou para o barraco que compartia com o pai, estava até a alma de cocaína, buscou nos seus bolso algo de dinheiro, para comprar comida, nada, procurou nos esconderijos que sabia que tinha nada.  O jeito porque a barriga roncava, foi ir fuçar as lixeiras dos restaurantes a margem do rio.

Pensou triste, pelo menos seu amigo, Tom Bradley, quem sabe aonde estava agora, deixaria de ter fome.

Os dois filhos da puta tinham ficado amigos, tinham se conhecido justamente fazendo isso, oferecendo seus filhos como prostitutos.

Os dois se protegiam. Mas nem sempre conseguiam como hoje.   Hoje iria dormir o mais longe possível de seu pai, pois era capaz de mata-lo.

Depois de comer os restos todos que tinha encontrado, subiu numa arvore imensa ali perto do Rio, sempre subiam ali, quando queriam se esconder, só desciam para buscar comida, uma vez tinham passado ali dois dias.   Desde então ali era o esconderijo preferido dos dois.

De manhã despertou com um alarido, gritos,  era o pai de Tom, gritando que seu filho estava morto, apurou o ouvido, ele dizia ao seu pai, como ia fazer agora para conseguir dinheiro para comprar drogas.   A resposta de seu pai, foi aterradora, ainda temos meu filho.  Mas não se preocupe, ainda tenho dinheiro escondido, hoje a noite faremos os dois uma farra.

Filho da puta, tinha dinheiro escondido.    Não devia ser grande coisa, mas ajudaria pelo menos para comprar um pão, um copo de leite.  Ficou todo o tempo dizendo filho da puta.

Ninguém tinha ido fuçar no barraco queimado, isso era uma coisa normal ali, todos estavam para cair aos pedaços, escorados por algum troço de madeira.   Se fico aqui estou fudido, esses dois vão me oferecer a mais de um, para poder comprar drogas para eles.

Não tinha escapatória, ou era ele ou os dois.   Pensou tem que ser essa noite.  A tempos tinha roubado roupa num varal de uma casa, mais ou menos do seu tamanho, a tinha escondida numa mochila, quase no ramal de trem, bem como uns tênis, eram velhos, mas estavam lavados, lhe faltava uma camiseta limpa.    Viu de onde seu pai tirava mais tarde o dinheiro.  Sabia que levariam um tempo para voltar,  foi buscando alguma casa que tivesse roupa estendida no varal, até que encontrou uma camisa azul de quadros, perto da cerca, com cuidado a retirou,  arrumou alguma coisa para comer,   Subiu de novo na árvore, seu pai só o procurava, quando precisava dele para o trocar por dinheiro.

Esperou ali, só observando, cantando mentalmente, a música era sua salvação, cantava uma música que sua mãe, lhe cantava para dormir, quando não estava cheia de drogas.  Sabia que tinha uma irmã que vivia em NYC, tinha que descobrir aonde.

Viu os dois voltando, se sentaram na frente da cabana, acabando uma garrafa de Whisky que deviam ter comprado, depois entraram.  Sabia que agora iriam compartir seringas, dois idiotas, seu pai, quando muito tinha uns 35 anos, mas parecia um velho de 60.  Era pele e osso, o odiava tanto, como odiava agora o pai do Tom.  Olha esses dois, nem remorsos tem.

Esperou, sabia o tempo que a droga faria efeito.   Desceu rapidamente da árvore, correu para a cabana, a noite lhe ajudava, era escura.   Entrou por detrás da cabana,   viu que os dois estavam atirados no chão.   Primeiro foi até o pai do Tom, pensou, pelo teu filho. Lhe cortou a jugular, viu que ele se engasgava com o sangue, mas rapidamente deixou de se mover, depois foi ao seu pai, obrigado por tudo seu filho da puta, que tua alma apodreça no inferno.  Fez a mesma coisa, mas seu pai ainda despertou por segundos, vendo a sua cara de ódio junto dele.  Para que nunca me esqueça no inferno.      Limpou o canivete na camisa do pai, foi até aonde tinha visto esconder a lata.               Estranhou, pois ali tinha um rolo de dinheiro, junto com algumas cartas. Enfiou tudo no bolso, saiu correndo na escuridão, tropeçou,  mas se levantou, sabia o rumo em sua cabeça.   Foi caminhando mais tranquilamente, para não chamar atenção.  Quando chegou aonde tinha escondido suas coisas, tomou um banho no rio, limpando-se da sujeira, do sangue, vestiu a roupa limpa, a camisa ficava folgada, mas todas ficavam.  Depois na luz da estação contou quanto dinheiro tinha, não era muito talvez desse para uma passagem de ônibus, alguma coisa para comer.  Tinha era que começar o movimento de ir embora.

Alguém tinha esquecido uma guitarra numa embalagem ali, porque esteve bastante tempo esperando.  Viu na escuridão um homem atirado, quando chegou perto, viu que estava morto, avisou o policial que estava ali na estação.  Antes que ele perguntasse se tinha visto alguma coisa se mandou, passou rapidamente pela maleta da guitarra, recolheu a mesma, saiu rapidamente sábia a direção da estação de ônibus.

Olhou num mapa de linhas, como fazia para ir para NYC,  não tinha estudado muito, mas sabia ler, escrever.  Fez um roteiro, que podia seguir, nada de ir direto pensou.  Tampouco sabia como procurar sua tia na cidade.

Tampouco o dinheiro dava para muito, dava para ir até Nashville, não teve dúvida nenhum minuto.  Comprou o bilhete.  Um sanduiche grande, pois a fome lhe corroía o estomago, ia comprar uma coca cola, mas tinha que economizar, para a próxima fome.

Pegou nas cartas, eram todas dirigidas a sua mãe, numa delas ainda fechada, se via que era de pouco tempo atrás.  Todas na direção da última casa que tinham vivido.   Tinha mais um pouco de dinheiro, talvez para a etapa seguinte.   Na carta, pedia desculpas por não mandar mais dinheiro, mas tinha despesas.   Perguntava por ele, por Nelson.

Quem porra era Nelson?   Não sabia a resposta, o nome de seu pai era Andrew, ou pelo menos isso pensava.    Quando quiseres venha com o menino para minha casa, é pequena, mas poderei te ajudar mais.

Pelo menos agora já sabia que direção tomar, guardou bem as duas cartas, uma era velha, mas esta de pelo menos um ano atrás.   Então ela não sabia que sua irmã tinha morrido já pelo menos a muito tempo.   O Filha da puta, ficou quieto esperando mais dinheiro.

Quando chamaram para o ônibus, conseguiu entrar com a guitarra, colocou na parte de cima, a vigiando.   Um tempo depois dormiu, sentia que o mesmo parava umas duas vezes, mas tinha tanto sono, que não tinha se movido.   Quando chegou a Nashville, desceu do ônibus, contou o dinheiro que tinha, daria para comer alguns dias, olhou o preço de um ônibus até NYC, não tinha para tanto.  Daria para ir até Indianapolis,  comprou mais esse tramo, o maior sanduiche que encontrou.  Estava ali sentado esperando, quando viu um homem lhe fazendo sinal para ir ao banheiro.  Nem se moveu.  Este abriu a carteira.  Continuou quieto,  viu que ele ia em direção a outro jovem,  este se levantou, mudando de lugar.  Pior agora tinha vontade de mijar, mas tinha medo de que o homem o atacasse. Quando não pode mais foi, lhe faltava pouco para o seu ônibus sair.    Estava ali mijando, o homem se colocou do lado dele, disse, espera que te ajudo, segurou seu piru, soltando para quem tem um corpo tão magro, até que tens grande.

Escutou a chamada do ônibus, disse que tinha que ir.  O homem tirou dinheiro da carteira, lhe deu duas notas.

Correu, entrou no ônibus, tinha pensado como estava acostumado que o queriam para enrabar.  Realmente tinha o piru grande, mas como sempre o atiravam no chão, pensava que sexo era só isso.    Pior, tinha gostado do que o homem tinha feito.

Tornou a dormir, quando chegou a Indianapolis, a fome rugia em seu estomago, tinha que ganhar algo mais para comer alguma coisa que mantivesse seu estomago a raia.   Só sanduiche não resolvia.   Além de que o dinheiro que o homem tinha dado não era muito.  De qualquer maneira, foi ao banheiro da estação, queria cagar,  ainda lhe doía o cu, da última vez que tinham abusado dele.  Sangrou um pouco, se lavou como pode ali, pois estava vazio, lavou bem a cara. Saiu a rua, viu logo que estava cheio de bares.   Podia tocar a guitarra, tinha aprendido com sua mãe,  abriu a maleta, tirou a mesma, começou a dedilhar, uma música que os dois gostavam, Moon River.  Começou a cantar junto, se acompanhava bem, pois se lembrava da música inteira, viu que as pessoas passavam, jogavam moedas na caixa da guitarra.  Quando parou viu que tinha bastante.  Começou a tocar outra, depois mais outra, recolheu, contou as moedas, já podia comer.    Entrou num restaurante, tinha visto o que ofereciam fora, ao passar numa mesa, viu um homem comendo um pedaço de carne grande, com um ovo em cima, batata frita, perguntou quanto era, contou as moedas, pediu um igual.   A senhora que o atendia, lhe trouxe, bem como uma coca cola, lhe disse que não tinha pedido.

Cortesia da casa, riu para ele.  Venha coma antes que esfrie.

Se sentia vivo, comeu devagar para demorar em acabar, a carne era suculenta, a última vez que tinha comido um troço de carne, tinha encontrado a mesma numa lixeira de um restaurante, estava cheia de nervos, mas nem por isso menos saborosa.

Comeu as batatas fritas uma a uma, na sua frente tinha um cesto com pão, perguntou a mulher que  passava se estava incluído na comida.  Ela balançou a cabeça que sim.  Foi molhando o mesmo no ovo, comendo feliz.

Pagou foi embora, ainda deixou uma moeda que sobrava em cima da mesa.  Ela tinha sido gentil com ele.   Sentou-se numa praça, tirou de novo a guitarra voltando a cantar, mas ia ficando tarde, já tinha poucas pessoas na rua.   Buscou ali algum lugar que pudesse dormir, tudo muito aberto, com certeza lhe roubariam a guitarra.  Voltou, passou pela lateral do restaurante, foi para o fundos do mesmo.   A mulher, estava ali fumando um cigarro, lhe perguntou o que estava buscando.  Ele muito honesto disse que um lugar para dormir.

O sorriso dela era muito triste.  Venha, o mandou seguir, abriu uma porta, era como um armazém, deixo a chave aqui, para poderes sair amanhã.   Não vale a pena levantar cedo, pois nessa região não tem muita  gente pela manhã, ou fundo tem uma cama que usava o senhor que fazia a segurança do restaurante.

A cama não cheirava muito bem, mas não dormia numa a muito tempo.  Até que chegou o momento que tinha medo de cair dela, arrastou o colchão para o chão, dormiu como uma pedra.

Despertou de manhã, com a mulher lhe trazendo um copo de leite, pão com manteiga. Para ele era um luxo.    Podes vir dormir aqui, enquanto esteja na cidade.  O restaurante é meu, venha comer depois das 4 que não tem muita gente, assim economizas.

Passou a manhã inteira, cantando aonde ela tinha lhe dito para ir cantar, realmente logo tinha muitas moedas,  quando voltou as 4 da tarde, contou as moedas, ela trocou por dinheiro.  Lhe deu a indicação de um outro lugar em frente a uma igreja.  Ganhou dinheiro, mas não muito.

Não sabia se ir dormir no mesmo lugar.  A senhora, estava arrumando a cozinha, lhe disse para entrar, guardei sopa para ti.   Perguntou o nome dele?

Jerome Bradley,  sem querer usou o sobrenome do amigo, ficava mais sonoro o seu.   Vejo que serás um dia um artista, com esse nome tão sonoro.   Deixei umas roupas para ti, no quartinho.

Amanhã é sábado, de noite tenho um bom movimento, melhor que ficar pelas ruas, se queres pode cantar aqui no restaurante, ganharas as propinas.

Lhe disse que atrás havia uma mangueira, que ele podia tomar banho ali. Lhe deu um sabão de cozinha mesmo, uma toalha, era pequena, mas ajudava a secar.

Depois foi para o quartinho dormir, viu que ela tinha trocado a roupa de cama, era mais limpa, cheirava bem.  Mesmo assim, por força do hábito dormiu no chão.  Despertou tarde, tinha tido um pesadelo durante a noite, com o homem que tinha tirado de cima do Tom.  Nem sabia como o Tom tinha conseguido enfiar o canivete no sujeito.

Viu que em cima de um barril de cerveja, estava uma bandeja, com leite e o sanduiche. Comeu vorazmente.  Quando passou, viu que estava atarefada, mas enfiou a cara na cozinha disse obrigado.   Voltou a mesma rua, cantou todo seu reportório, repetindo duas vezes, talvez por ser sábado, tinha maior audiência.

Todos passavam diziam que tinha uma voz muito bonita.  Pensava quem tinha uma voz bonita era sua mãe.  Ela cantava nos bares, algumas vezes fazia um show acompanhada de um homem que ele nunca via direito a cara, pois estava atrás de um piano.          Mas isso fazia muito tempo, depois esse homem desapareceu, ela caiu nas drogas.            Só se lembrava de seu pai, a partir dessa época.

Se lembrou de uma música, que ela sempre cantava no show, Over de Rainbow, a cantou baixinho primeiro,  quando levantou a cabeça, em volta dele, tinha um grupo de pessoas paradas assistindo, lhe aplaudiram, todos colocaram moedas, alguns notas.   Voltou na hora de sempre ao restaurante.  A senhora comentou que alguns clientes o tinha visto na rua cantando, coma, vá descansar, se lave bem, troque de roupa, deixei outras para ti, depois te chamo.

Dormiu, sonhou com sua mãe cantando, foi guardando todas as músicas na cabeça.  A tinha visto tantas vezes cantar quando era pequeno, que foi se lembrando de tudo.  Ela dizia que ele tinha ouvido musical, pois mal sabia falar, já cantava.

Antes que a senhora o chama se, se lavou todo, passou os dedos pelos dentes, sorriu para um pedaço de espelho que estava ali.  Contou todo o dinheiro, guardou bem escondido.

Quando ela chamou, lhe disse para sentar num pedaço da barra que não era usado, ficava virado para todo restaurante.   Assim todos poderão ver.   Meus queridos clientes, vocês que são assíduos aqui, quero apresentar essa noite, um jovem que escutei cantar outro dia, tem uma voz maravilhosa.  Jerome Bradley.   Um garçom o ajudou a subir, lhe deu a guitarra, ele começou a cantar, foi desfiando seu repertorio, algumas músicas que tinha escutado em seu sonho, até que no final uma senhora disse, canta o de hoje na rua.   Ele começou a cantar Over de Rainbow outra vez.  Teve que cantar mais duas vezes.

O resultado foi bom, perguntou para a senhora se esse dinheiro dava para ir até NYC,  ela disse que não sabia, que ia se informar.

No dia seguinte lhe despertou, lhe disse que tinha duas horas para estar na estação de trem, lhe estendeu o bilhete.  Que vais fazer em NYC?

Vou procurar a irmã de minha mãe,  sei que ela dava aula de canto numa escola, só tenho o endereço.

Vá com deus meu filho. Muito cuidado, porque NYC, é uma cidade difícil ok.

Disse que levasse a roupa que lhe tinha dado, era de seu filho que tinha morrido na guerra.

Lhe agradeceu muito. Ela o abraçou, apertando contra o peito, seja feliz.

Pegou o dinheiro que tinha escondido, tomou o leite com o sanduiche, mas ela lhe tinha preparado um grande para comer no trem.

Se sentou, esperando o trem, viu que um homem jovem fazia sinal para ele, outra vez em direção ao banheiro.  Ficou rindo para o homem. Agora já sabia o que significava, não ia se meter em confusão, pois já estava quase no seu destino.  Justo nesse momento, chamaram para o trem, abanou a mão para o homem, que sorriu para ele.

Quando encontrou seu lugar, se sentou, guardou a mochila entre suas pernas, pois ali tinha o dinheiro que ganhara cantando,  a guitarra em cima.  Ficou observando a paisagem, até que alguém perguntou se podia sentar-se ao seu lado.  Quando olhou era o homem.

Este riu, fico imaginando se tivesses aceitado, os dois perderíamos o trem.  Riu para ele, tinha os dentes muito brancos.  Estou numa cabine reservada, queres ir comigo lá.

Ficou com vergonha, não estou acostumado a isso, me desculpe, mas prefiro ficar aqui.

O homem inspirava confiança, disse que era dentista em NYC, que quando precisasse procura-se por ele.

Foram conversando maior parte do tempo.  Quando viu que ali não ia acontecer nada, foi para sua cabine.

Quando chegou a Central Station, procurou saber aonde era a casa da tia.  Se informou com um policial, este lhe acompanhou até uma parada de ônibus, mostrou o itinerário.

Quando chegou, chamou, mas ninguém atendia.  Se sentou nos degraus esperando. Ia entrando uma senhora, perguntou se a conhecia.

Ah ela não mora mais aqui.  A podes encontrar na Julliard School, lhe ensinou aonde era.   Ela passa o dia inteiro lá.

Lá foi ele outra vez, quando chegou, viu muitos jovens de sua idade ou maiores, perguntou pela tia. Lhe disseram que estava em aula, disse que era seu sobrinho, que tinha vindo de Memphis, veio uma senhora, o levou até a entrada da sala dos professores.  Ali sentado, confuso por tanto vai e vem de gente. Fechou os olhos, pegou a guitarra, começou a cantar Home sweet Home, logo tinha um grupo parado perto dele.  Estava cantando baixinho.   Parou na frente dele um senhor negro de uma certa idade.   Quando viu sua tia, chorou sentido, ela era igual a sua mãe.

Ela o abraçou, ficaram os dois ali parados, abraçados um ao outro.  O senhor foi dispersando todo mundo, dizendo todo mundo para as classes, vamos estão ouvindo.

Ela pediu o resto do dia livre, ele lhe explicou que tinha ido ao endereço que tinha nas cartas, quando soube de sua mãe chorou muito, mas muito mesmo.

Ela vivia num apartamento relativamente perto da escola,  foram caminhando, de mãos dadas, conversando.   Ele não ia contar suas desgraças assim de cara.

Ela disse, tua mãe, foi especial, mas tinha uma cabeça dura, eu disse para ela não largar os estudos, ir atrás desse pianistas, sei que é teu pai, mas louco, nunca mais soube dele.

Chegou a parar, o pianista é o meu pai?

Eu pensei que sabias, ficou gravida, foi com ele embora.  Uma tournée pelo sul.  Depois desse endereço que tinha em Memphis, nunca mais soube dela.  Ele não podia se mexer do lugar, respirou fundo, o homem que tinha matado não era seu pai, por isso se aproveitava dele.    Respirou fundo, ela depois foi viver com outro homem, viviam os dois na droga, quando não estava cantando, se metia todas as drogas possíveis.  Depois que morreu, fiquei com ele, só agora descobri numa caixa suas cartas, um pouco de dinheiro.

Essa guitarra era dela?

Não ele a vendeu, para comprar drogas.  A cara dela era de horror.  Imagino o quanto não deves ter sofrido tu.

Como vieste até aqui, contou o trajeto que tinha feito, que tinha cantado nas ruas, no restaurante, que o bilhete de trem lhe deu a dona do mesmo.  Essas roupas são de seu filho, que morreu na guerra, eu não tinha nem o que vestir.

Seu apartamento não era grande, mas tinha dois quartos, banheiro, um salão com um piano, bem como uma cozinha pequena.  Quase não faço comida aqui.  Venha tomas um banho, coloque roupa limpa, saímos para comer.

Ela contou a vida dela, da irmã, tinha tudo para ser uma grande cantora.   Era melhor do que eu nisso.  Tinha essa voz como tu tens, mas justo quando ia sendo mais conhecida, conheceu o pianista, se foi com ele. 

Só te conheci pelo nome de Jerome, mas o sobrenome, não conhecia.

Juntei o meu com o de um amigo, meu melhor amigo que morreu.  Uma homenagem a ele, uma maneira de não esquecer dele.

Ficaram o resto do dia conversando.   Sorriu, finalmente estava com alguém que o queria, ela o avisou que o problema dela com a irmã era justamente esse, era estrita, não suportava vícios, ela estava sempre fumando, bebendo demais, provando drogas.    Não era fácil controlar isso.  Lhe perguntou se usava drogas, bastou a cara de horror dele, para entender que não.   Depois de tudo que vi as pessoas fazendo, não posso querer.

Perguntou o que ele queria fazer?

Quero estudar música, ela me salvou.   Tocas piano?

Sim, sou professora de voz, normalmente pela tarde, dou consultas a cantores de opera, ou qualquer tipo de cantores que necessitam de ajuda.  Para isso uso o piano.

No dia seguinte, foi com ela a escola, se aborreceu de ficar ali esperando, entrou numa sala que tinha vários pianos, se sentou num deles, em sua cabeça, se viu sentado no colo de um homem, este lhe ensinava tocar  Clair de Lune, sem saber porque a musica foi brotando em sua cabeça, abaixou a cabeça, fechou os olhos, sentia a mão de quem agora sabia que era seu pai lhe ensinando que tecla tocar.

As lagrimas caiam pela sua cara, como podia ter-se esquecido dele, embora sequer soubesse seu nome, se lembrou de tardes sentados no colo dele, na antiga casa.  Foi como que uma enxurrada de lembranças, que deviam estar guardadas no fundo da sua cabeça.

Quando acabou, se debruçou em cima da teclas, continuou chorando.  Sentiu a mão do homem negro do dia anterior.   Isso meu filho chore, é sempre um remédio salutar.

Levantou a cabeça, te vi tocando guitarra, agora descubro que tocas pianos, te falta técnica, mas fazes bem.

Entre soluços, lhe explicou que tinha aprendido essa música com seu pai, a quem ele tinha esquecido completamente que existia, passei anos pensando que meu pai era um filho da puta, asqueroso, drogado.  Agora vejo que estava errado.

A vida, é dura, nunca é um mar de rosas, temos sempre que estar lutando contra o vento, contra a maré que muda o tempo todo.  A vida é como tentar se equilibrar na ponta de um alfinete.

Se escutou uma voz da porta o velho Ron Poter filosofando.  Quando se viraram, ele viu um homem de imediatamente achou asqueroso.

Se quiseres podes fazer aulas comigo, porque esse velho, já não tem nada para ensinar.

Seu instinto falou mais forte, pois eu prefiro fazer aula com ele que contigo, tens uma cara asquerosa.

Ron Poter ria a não mais poder.  Finalmente alguém te diz na cara o que es, um sujeito asqueroso.

Felizmente já é meu aluno. O sujeito saiu batendo a porta.   Ficaram rindo os dois.  Então eres o sobrinho da Emily, ela te buscou a muito tempo, mas ninguém te encontrava.

Alias eres totalmente parecido com ela.

Ela entrou pela porta adentro, que foi que disseste para o outro professor, diz que é inadmissível que se fale assim com ele.

O chamou de asqueroso, porque já queria me roubar o aluno.

Tia me lembrei de coisas da minha infância, meu pai me colocava no seu colo, me ensinava a tocar piano, por isso sabia a música que toquei aqui.

Toque outra vez.

Ele recomeçou a tocar,  ela chorava muito, essa música era a preferida de tua mãe. Me dizia que ele a tinha conquistado tocando essa música.  Por isso me fazia olhar para ela deitada numa rede, perto da janela, mas o que via não me agradava, estava sempre com um cachimbo com drogas.   Se ele lhe chamava atenção por isso, chorava.

Não sei se foi por isso que foi embora.

O Ron Porter, lhe perguntou se sabia ler partitura?

Foi franco, sei muito mal, ler, escrever, nunca vi uma partitura na minha vida, mas se escuto, sou capaz de tocar.

Então vou conseguir classes para ti de leitura de partitura, assim aprendes, ao mesmo tempo te irei ensinando técnicas de piano.   Se não quiseres ficar aqui, posso de dar aulas na minha casa, vivo no mesmo prédio da tua tia.

Diga a verdade Ron, sou tua inquilina, ele me aluga a parte de cima da sua casa.

Podes ir dar aulas Emily, que eu hoje não tenho nenhum desses alunos incompetentes, prefiro ficar aqui falando com meu novo aluno.  Pegou outro banco, sentou-se ao seu lado, foi lhe ensinando o nome de cada tecla, como se faz com uma criança, ficou surpreso, pois ele aprendeu de primeira mão.  A partir desse dia o velho Ron, virou seu mentor para tudo.  Logo conseguia tocar no piano todo seu repertorio.

Quando contou ao Ron, que tinha tocado guitarra nas ruas para juntar dinheiro para chegar até lá, ele se emocionou.   Eu saí de minha cidade, New Orleans, vim até aqui fazendo a mesma coisa.  Levei anos tocando em todos os bares, boates dessa cidade, até poder tocar piano como queria.  Mas claro já era tarde para um carreira de música clássica, mas teve uma coisa de bom, aprendi todas as técnicas, sei cada toque cada dedo pousado numa tecla.

Colocou uma música, um exercício para piano, lhe perguntou se conseguia, escutar, quais as notas aonde estavam no piano.  Se concentrou, prestou atenção, se evadiu de tudo. Como quando escutava sua mãe cantando.   Pediu para repetir,  fez a mesma coisa outra vez.

Se sentou no piano, tocou o exercício inteiro sem errar.  A cara do Ron era demais, tinha encontrado seu aluno predileto.

Este brigou com a escola, conseguiu que ele fosse seu aluno, a tempo parcial, o dividindo com as aula para aprender a ler, escrever partituras. 

Tinha até medo de tanta felicidade, ficava esperando que em alguma volta da esquina alguém o violasse.   Nos dias que estava nervoso, tinha pesadelos.

Emily, falou com o Ron sobre isso, as vezes desperto, escuto ruídos, é ele no meio de algum pesadelo.  Creio que teve uma infância difícil.   O levei outro dia ao médico, este disse que ele não era mais alto, pois estava seriamente desnutrido.  Que mais algum tempo assim teria problemas de pulmão, ou outro tipo de doenças.   Recomendou que ele visitasse a um psicólogo para colocar as coisas para fora, quando lhe falei isso com ele, me perguntou o que era um psicólogo, vi que ficou com medo.

Deixa comigo, sempre falamos como duas pessoas adultas.  Ele tem um discernimento muito grande de tudo.

Estava estudando uma música de Debussy, de Peleas e Melisande, entendia melhor a música porque Ron tinha paciência de explicar. Como devia tocar a tecla, qual emoção, o que significava a música.  

Quando lhe falava em emoção, Ron notava que Jerome ficava quieto.  Um dia lhe disse, te quero como meu filho, por isso irei direto ao assunto.   Se amas tanto a música, tens que pensar que a emoção é necessária.   Mas estas bloqueado pelas coisas que te aconteceram no passado.  Se não queres ir a um psicólogo, posso escutar.   A única diferença é que um psicólogo, tem que guardar segredo de tudo que falares, eu posso contar para todo mundo.   Vou te apresentar um amigo, ele é professor de psicologia da universidade, fomos amantes quando jovens, já falei com ele a teu respeito.   Posso marcar de tomarmos um café, assim o conheces, decide se queres falar com ele.

No dia seguinte depois de uma aula sobre partituras, a professora lhe elogiou, pois tinha aprendido tudo que ela podia levar um ano ensinando aos outros alunos.  Siga em frente meu filho, contou isso contente ao Ron.

Então vamos comemorar, vamos almoçar aqui perto, num restaurante judeu, que gosto muito, avisaram a Emily, que ele percebeu que queria ir junto, mas um gesto do Ron a brecou.

Foram andando conversando, entraram no restaurante, como tinha reservado uma mesa, mais afastada de tanta gente, pediram bebidas,  estavam os dois lendo o menu, Jerome já ia pedir que lhe escolhesse a comida, pois não entendia nada.  Quando escutou uma voz, fantástica, dura, mas diferente ao mesmo tempo.

Filho da puta, só assim te vejo, queres é me matar de saudade, meu velho amigo.

Quando levantou deu de cara com um homem, de uma estatura de 1,70metros, se via que fazia esporte, com uma cabeleira leonina, toda branca, a barba era igual, mas os olhos azuis era desafiantes.  Esse é o teu garoto, falou isso, agitando os cabelos do Jerome.

Jerome, este é meu amigo, Josep Goldstein, mais conhecido como Jo Gold, um sem vergonha de muito cuidado, me enganou durante anos, tenho chifres até hoje.

Ficou rindo quando os dois se beijaram na boca.   Ah velho amigo, que saudades tenho de ti, meu tempo anda curto com a Universidade, senão aparecia mais pela tua casa.

Deves estar mais é te atirando a algum aluno?

Ron, nunca vi uma quantidade tão grande de idiotas na minha vida, passam o tempo todo, no puto celular,  creio que cagam, mijam com eles na mão.   Como pode ser isso.  As vezes creio que estou falando para as paredes.  Mando fazer um trabalho, copiam dos livros, como se eu não já tivesse lido todos.  Sou capaz de citar até a página que usaram.           Creio que será meu último semestre na universidade, estou literalmente farto.    Prefiro ficar com meus clientes, que pelo menos procuro ajudar.

Jerome, este é o amigo que te falei que podias consultar como psicólogo.  Fomos amantes, hoje creio que somos além de amigos, uma família, não tenho ninguém, ele tampouco.

Deixe o garoto em paz, vamos pedir pois estou morto de fome, a quanto tempo não venho aqui, fez uma sinal, saiu um homem detrás do balcão, veio até ele, o abraçou, bem como ao Ron, que bom vê-los aqui.  Que querem comer?

Como parece que o garoto não entende lufas desse teu cardápio louco, sabe aquilo que gosto, uma degustação de todos os pratos, que venham três peças de cada.

Vai te encantar disse se virando para o Jerome, pois assim provas de tudo da cozinha judia, eu mesmo as vezes venho comprar para levar para casa.  

Tens ido a sinagoga Jo?

Na verdade é que não,  o rabino me enche o saco, mas outro dia, tu me conheces quando estou de mal humor, me parou na rua para me cobrar isso, lhe disse que enfiasse seu puto deus pelo cu, aonde está ele que nunca ajuda os que precisam tanto dele.   Foi embora furioso.

Se espantaram com o Jerome, verbalizando, eu penso igual, aonde estava esse filho da puta, quando mataram meu amigo, aonde estava, porque nos deixou sofrer tanto.

Graças a Deus, nem sei rezar, porque senão seria uma serie de palavrões, o mandaria tomar no cu literalmente.

Calma, Jo colocou a mão em cima da sua.   Nunca tinha sentido isso, sua mão transmitia tranquilidade, paz.

Vieram umas toalhas quentes, para lavar a mão, ele fez como os outros dois, olhando, aprendendo.  Comeremos com as mãos.

Isso eu estou acostumado, porque quando se come a comida do lixo, não existe garfo, nem faca, nem porcelana para colocar a mesma.

Os dois ficaram calados, olhando para ele.

Comeu com vontade, uau o sabor é impressionante, provou de tudo, fazia comentário de cada coisa.  Depois de limpar as mãos, colocou as suas em cima da dos dois, obrigando por essa comida amigos.

Ron ficou tranquilo, se chamava o Jo de amigo, era bom sinal, quando foram pedir as sobremesa, ele disse que estava satisfeito, não podia comer mais, tenho o estomago cheio, creio que agora ele terá que se esticar, pois estou acostumado a comer pouco.

Ron desviou a conversa, dizendo que hoje ele tinha terminado o curso de leitura de partituras, pois tinha feito o que os outros faziam em um ano, em quase um mês.   Esse menino tem uma memória visual incrível.  Além de auditiva, contou ao Jo, como ele fazia com a música.

Que tipo de música, pensas a te dedicar?

Ainda é cedo, verdade Ron, pois só agora tenho acesso a um piano, bem como a guitarra.  As vezes passo pelo corredor da escola, outro dia estava um jovem como eu tocando o Fagote, quase entrei para pedir que me ensinasse.   Mas claro não tenho dinheiro para comprar nada.

Quando saíram, Jo lhe convidou para ir conhecer seu consultório.  Venha assim batemos um papo preliminar. 

Ele se virou para o Ron, tu eres um malandro, com todo meu respeito, armou isso de tal maneira que ele me caísse simpático.

Realmente estava a volta da esquina.

Era uma sala aconchegante, com uma parede toda cheia de livros,  duas poltronas confortáveis com uma mesinha entre elas, luz indireta.  Embora tivesse ali uma chaise-longue, indicou que se sentasse numa das poltronas.

A chaise-longue é para as pessoas que veem muitos filmes, insistem em conversar sem me ver, como se fosse um confessionário.

Ron me disse que o que eu fale aqui, ficará somente entre nós dois, é verdade?

Sim, posso até conversar sobre ti, se não consigo te ajudar, com um outro psicólogo, que atende a mim como cliente, mas isso acontece raramente.

Temos tempo para isso, pelo que sei, fizeste um trajeto largo para chegar aqui, para encontrar tua tia.

Sim o pior foi descobrir que o homem que pensava que era meu pai, ao qual odiava, não passava de alguém que me enganou durante anos.   Só quando cheguei aqui que minha tia falou do meu pai, foi que me lembrei do mesmo, me ensinando a tocar piano quando devia ter uns dois anos.

Por que odiavas esse homem que pensava que era teu pai?

Lhe contou tudo, como o prostituia, a troca de dinheiro para as drogas, depois que sua mãe tinha morrido.  Que ele tinha que comer comida do lixo, a miséria que vivia.  Que seu único paliativo era seu amigo, mas o mataram.  O pai fazia a mesma coisa com ele, o prostituia.

Sabes o que é ter oito anos de idade, ter em cima de ti um homem maduro, enfiando o pau no teu cu.  Não poder sentar durante dias, estar sangrando continuamente.  Colocou as mãos na cara, começou a chorar baixinho.   

Jo o deixou chorar, até que se acalmou.  Lhe deu um lenço de papel, para enxugar as lagrimas. Quero que saiba que em momento algum, farei um gesto de compaixão, pois perderia a distância necessária para te escutar.   Não pense que não me assusta, ao mesmo tempo me dá raiva, ódio ao te escutar, mas minha profissão exige que esteja a parte. 

Não tinha se dado conta que tinha falado mais de uma hora, quando soou uma sineta, avisando que tinha alguém esperando na  outra sala.

Quando queres voltar?       Mas nem lhe deu tempo para responder, lhe passou uma coisa pela cabeça, estava acostumado a seguir seu instinto, lhe fez um sinal com a mão, saiu da sala, ficou fora uns minutos, voltou.      Perguntou, quando foi a última vez que abusaram de ti?

Ele falou gaguejando,  antes de sair de Memphis.

Espero que confies em mim, vou te levar agora mesmo a um médico, muito meu amigo, tem uma clínica aqui ao lado,  espero que lhe deixe fazer um exame de teu corpo, pois creio que é melhor prevenir do que remediar.     Venha comigo, fechou a consulta, mas antes colocou um papel que dizia que as consultas do dia estavam canceladas por motivo de força maior.

Não se preocupe, meus clientes me entendem bem.

Quando entraram no consultório, entrava pela outra porta um senhor mais ou menos da mesma idade dele, vindo ao que parecia de uma garagem.

Falou com ele, pediu que fizesse um exame rigoroso no Jerome.  Explicou a situação, para acalmar Jerome disse, ele tem obrigação de guardar segredo de tudo que acontece aqui.

Foram a uma sala, o Jo ia sair, mas Jerome pediu que ficasse.   O médico, lhe estendeu uma bata, pedindo que tirasse toda a roupa.  Quando ele tirou a camiseta ficaram de boca aberta, as costas eram cheia de cicatrizes,  quem te fez essas coisas?

O que pensei que era meu pai, quando eu negava a me prostituir, então me pegava para que o obedecesse, pois senão claro não podia comprar drogas.   Só não me batia na cara, pois dizia que estragava a mercadoria.

Quem cuidava de ti depois, lhe faziam curativos?

Não ninguém, eu ia depois com o Tom lavar nosso corpo cheio de sangue no rio, era a única coisa que fazíamos,  depois dessas surras, nos escondíamos em cima de uma árvore, só abaixávamos para buscar comida nos lixos dos restaurantes.

O exame foi exaustivo, scanners, lhe apalpou a barriga, fez uma série de coletas de sangue para análise, inclusive de HIV,  por último, lhe disse vestindo uma luva, vou procurar fazer de uma maneira que não te doa muito.

A resposta o deixou gelado, sempre dói muito, porque são homens grandes, negros na maioria. Jo ficou parado, pela sua cara, se via que estava com uma irá contida. 

O médico disse que achava que seria melhor fazer depois uma colonoscopia. Para ter certeza de que tudo estava bem.  Ainda perguntou se sangrava muito. 

Desta última vez, nem tive tempo de cuidar, pois mataram meu amigo, estava muito nervoso, porque sabia que podia acontecer comigo, que tinha que fugir.

O médico, mostrou ao Jo, sem que Jerome visse sua luva cheia de sangue.  Vou te dar uma medicação a primeira tomaras justo agora, lhe trouxe água, vais  tomar outra antes de dormir, amanhã viras para fazer o outro exame, não deves comer nada esta noite, lhe deu um outro remédio,   amanha venha logo cedo, te preparamos aqui para o exame.

Acho melhor assim, pois teremos que lhe lavar o reto, para o exame, faço isso aqui.  Apertou a mão dos dois, colocou a mão sobre o ombro de Jerome,  de graças a Deus ter escapado.

Voltaram ao consultório, Jerome percebeu que Jo estava alterado.  Ia começar a falar, quando este soltou, se esse filho da puta estivesse aqui, eu o mataria com minhas próprias mãos.

Eu o matei Jo, não se preocupe. Contou o que tinha acontecido, que encontraram Tom embaixo do sujeito, até hoje não entendi como ele conseguiu enfiar o canivete no sujeito.          Que tinha cortado a jugular do sujeito, levei meu amigo até o rio, o soltei corrente abaixo.  Depois queimei a casebre com o sujeito dentro, isso acontecia todos os dias.   Me escondi, esperei que meu pai, bem como o pai do Tom, fossem buscar drogas, contou o que tinha feito depois, foi ai que encontrei o endereço antigo de minha tia.   Fiz um caminho mais comprido, para ninguém vir atrás de mim.

A cara do Jo era espetacular.   Tiveste uma coragem imensa meu filho, imensa.  Nunca tenhas vergonha disso.   Eu quanto tinha 10 anos, fui abusado semanalmente pelo irmão de minha mãe, um rabino, cheio de filhos.   A primeira vez, disse que a culpa era minha por ser bonito.  Depois virou hábito, no dia que reclamei com meus pais, não me acreditaram.   Um dia me armei de coragem,  ele sempre vinha quando meus pais estavam trabalhando, peguei duas facas pontiagudas da gaveta, esperei. Ele tentou me capturar em volta de uma mesa na cozinha, quando se apoiou nela cravei a primeira faca, depois apoiou a outra, coloquei a outra faca, peguei um martelo, bati com todas as forças em cima das facas.  Ele ficou preso na mesa, abaixei suas calças, as cortei com uma tesoura, num acesso de loucura, cortei seus ovos, assim não fazia mais filhos, pois quando a mulher estava gravida, vinha atrás de mim.

Chamei meus pais, que só assim acreditaram.   Ele quase morreu, mas minha mãe, como era seu irmão, tinha 8 filhos, ficou com pena dele.  Em vez de me defenderem, me mandaram estudar em Israel.    Na minha escola tinha um psicólogo, conversei muito com ele.  Nunca mais voltei a falar com meus pais, eles escreviam, mas não respondia,  me formei em Psicologia, voltei para cá, vieram me procurar em busca de perdão, lhes disse que falassem isso com seu deus, que me deixassem em paz.   Me deixaram uma fortuna, que só uso para ajudar as pessoas, nunca comigo.     Não pense que o filho da puta parou, foi acusado por um dos seus filhos de seus abusos.  Mas fizeram de conta que era um exagero do garoto.    Anos mais tarde, o filho se suicidou.

Monstros existem tem todos os lugares, religiões, em cada canto do mundo.   Por isso não tenha dúvida, não te culpo, eu faria pior hoje em dia.  Não teria somente lhe cortado os ovos, teria cortado seu piru, além de deixar que morresse.

 Levei muitos anos, para entender, perdoar a mim mesmo, a ele nunca perdoei, mas perdoar os erros que cometi depois, pois nunca mais confiei em ninguém.  Ron foi meu amigo, amante, o perdi por minha culpa.   Mas até hoje o amo.

Venha vou te levar para casa, será necessário que ele saiba do exame de amanhã, pois precisam de uma pessoa responsável.

Ele ia falar que não queria que sua tia soubesse.  Jo entendeu imediatamente, vamos falar com ele, porque assim ela não precisa saber.

Acho melhor tomarmos um taxi, pois não tenho condições de dirigir.   Sem querer teus problemas me fizeram reviver os meus.

Temos sim que aprender a conviver com eles.

Quando chegaram, Ron estava terminando de dar uma aula.  Se escutava sua voz um pouco irritada.   Falava que essa peça exigia leveza da mão.  

Jo, ficou impressionado, como Jerome, ao escutar o piano, se relaxava, prestava atenção, mesmo com a porta fechada na música.   Não percebia que seus dedos contavam o compasso, justo o que dizia o Ron, que faltava ao outro isso, seguir o compasso.

Quando o rapaz saiu, acreditas, é um dos melhores, vai dar um concerto dentro de 10 dias, até agora, está distraído porque encontrou uma namorada, não consegue mentalizar o compasso, disse que a música era complicada para ele, mas nem pensar.

Pois ele estava marcando o compasso, creio que certo.

Sente-se no piano, assim te relaxas.  Jerome nem precisou escutar a segunda vez, sentou-se tocou a música ou pelo menos o pedaço que tinha escutado, no compasso certo.

Jo só disse, impressionante, para alguém que nunca foi a aula de piano.

Temos que falar contigo, amanhã Jerome tem que fazer um exame, não quer que sua tia saiba, pois começara a fazer perguntas sobre sua vida anterior, ele no momento não está em condições de explicar.  Preciso que tu o leves ao médico como seu responsável, pois eu não posso, já fui hoje, irei junto, mas para os papeis tem que ser você.

Podes contar para ele Jo, eu confio no Ron, se ele sabe das tuas coisas, pode saber das minhas.

Ele entende Jerome, porque com ele também aconteceu, isso lhe marcou por toda sua vida.

A cara do Ron, era fechada, como Jo não começava, ele contou tudo.  Ficou preocupado pois Ron, estava andando de um lado a outro da sala, como procurando se relaxar.   Depois de escutar só dizia filho da puta, malditos filhos da puta que só pensam nisso, abusar.

Depois se sentou com a cara escondidas nas mãos, ficou ali chorando, depois se levantou deu um abraço de urso no Jerome.  Cuidarei de ti, por mim tua tia não vai saber de nada.

Quando esta chegou, ele desceu disse que estava estudando uma música com o Ron,  comeram Jo lhe tinha dado um pequeno comprimido, corte pela metade, tome antes de dormir.

Jo essa noite dormiu na casa do Ron, pois ficaram falando até tarde, lambendo suas feridas, foram dormir juntos, como velhos amigos, de mãos dadas, tinham resolvido que cuidariam dele como se fosse filho dos dois.

Foram cedo para a clínica, ele não comeu nada como tinham dito, quando a tia perguntou, ele disse que tinha comido antes dela.

O prepararam para o exame, estavam os dois homens na sala com ele.  O médico depois disse que sim havia desgarros antigos, não sei como não infecionaram  se ele não foi medicado, nem se cuidou.  Mandei fazer os exames urgente ontem, deu negativo em tudo.  Graças a Deus.  Ele tem um sistema imunológico excelente, impressionante para quem tem desnutrição.

Receitou uma série de remédios que ele deveria tomar em seguida.   Os três agradeceram ao médico, foram dali a casa do Jo.

Ele viu que Ron estava muito nervoso, Jo cuidou dele.   Pareciam um casal de velhos se cuidando. 

Filho, resolvemos ontem a noite, que te vamos cuidar como se fosse nosso filho.  Não tire nunca sua camisa na frente de tua tia, pois ela tem uma saúde frágil, não entenderia. Ok.

Umas semanas depois viu que ela estava um pouco nervosa, perguntou o que era.  Venha vamos conversar com o Ron, ele pode me orientar.

Ficou preocupado, pensando que era alguma coisa com ele.

Suspirou quando descobriu que não era.   Ela tinha vários alunos do teatro de Opera de Paris, a convidavam para cuidar da voz de todos, durante a temporada.  Era uma oportunidade de ouro, mas estaria fora durante pelo menos seis meses.   Não o posso levar comigo, não quero que perca as aulas aqui.

Ron, riu, sem problemas, ele fica comigo, só tem uma coisa, o outro quarto da casa, uso para dar aulas, mas voltamos a usar a casa como uma coisa só.   Ele continua dormindo no seu quarto, mas toma café da manhã comigo, depois vamos para a escola, na volta tem aulas comigo outra vez mesmo.

Jo nos convidou agora no verão para irmos aos fins de semana para sua casa em Fire Island, podemos aproveitar para relaxar. 

Você acha que esse ambiente, não será pesado para ele?

Não se preocupe,  sempre que vamos, você inclusive já foi com a gente, aproveitamos a praia, depois estamos em casa, falando de música, nada mais.

Bom assim fico tranquila,  me perdoas meu filho, mas é uma oportunidade única, se fosse alugar uma casa, te levaria, mas creio que seria complicado, pois ficarias o dia inteiro sozinho.

Não queria mencionar que estava com problemas para conseguir uma documentação para ele, pois tudo que tinha conseguido era uma certidão de nascimento. Nada mais.

Como era menor de idade, não tinha nenhum documento dizendo que ela era a responsável por ele.  Teriam que primeiro encontrar seu pai.

Depois explicou ao Ron que tinha uma agência de detetives procurando o mesmo. Deixou tudo como tinha combinado.  Chorou um pouco quando teve que partir.

De uma certa maneira conviver com Ron tinha uma vantagem, depois das aulas sempre conversavam.   Agora que já tinha colocado para fora tudo que tinha passado, estava um pouco mais relaxado.

Só se sentia confuso, conversou com o Jo, sobre como tinha acontecido na estação, depois o que tinha acontecido no trem.

Sentiste vontade de ir com esse homem?

Sim porque foi simpático, creio que ele queria outra coisa, como o outro que só fez uma  coisa, diferente do que acontecia antes.   Esse eram negros a maioria, simplesmente me abaixavam as calças, metiam dentro, depois iam embora, não havia mais nada.

Na verdade, carinho, só recebi de meu pai, na época que ele vivia conosco.   Minha mãe estava sempre discutindo com ele, não sei por que na verdade.  Ele sempre falava disso, apontava para as drogas.  Que isso ia acabar com ela.  Na verdade, não me lembro dele usando nada.

Depois tenho um grande vazio, mais ou menos até irmos viver nesse barraco.  De encontra-la morta.  Eu mesmo tendo 8 anos, sabia que estava morta, pois estava gelada, devia ter passado a noite inteira ali jogada.   O homem me mandou esconder, quando chegou a polícia, dois dias depois me vendeu a um homem.  Na hora não entendi nada, só que me atirou no chão, arrancou minhas calças, passou a mão pela minha bunda, me penetrou, segurava minha boca, porque eu gritava, doía demais.  Creio que quando acabou, me disse nada como um cuzinho virgem, arrumou suas calças se foi, fiquei ali jogado horas.  Não tinha ideia do que era isso, até que a coisa passou a ser constante.   Ou quando passava na rua com o Tom, que nos diziam os prostitutos dos vigaristas.   Começo a acreditar que o Tom tampouco era filho do outro. Quando acabou de falar isso tremia um pouco.

Um dia vais gostar de alguém, será diferente.  Já veras, quando conheci um rapaz em Israel, primeiro eu era muito tímido, estava servido o exército porque era obrigatório, ele era meu companheiro, percebeu que eu não saia com os outros, ele tampouco saia, um dia me convidou para uma cerveja.  Conversamos, fiquei com medo, disse que achava que não estava preparado.   Passamos a sair nos dias livres, ora para um cinema, eu vivia num pequeno apartamento, ele ainda com os pais, passou a dormir lá comigo, ficávamos abraçados, com muita vontade, mas me respeitava.   Um dia sem querer aconteceu.

Quando voltei conheci o Ron, ele estava meio perdido, falávamos muito, o conheci numa festa que nem ele, nem eu encaixávamos, todo mundo usando drogas, bebendo demais, fomos para uma praça conversar.  Ele me disse que era músico, começamos a falar dos compositores que gostávamos, fomos a minha casa, só nos deixamos muitos anos depois, por culpa de minha cabeça.    Cometi uma serie de asneiras.         Voltamos outra vez, mas resolvemos que cada um viveria em sua casa.  É o meu melhor amigo além de tudo.

A convivência das pessoas nunca é fácil.

Porque achas que de repente as pessoas descobriram que tenho um piru bonito, que lhes interessa?

Pode ser porque estavas sendo vendido como uma coisa, para determinadas pessoas.  Talvez essas pessoas estivessem atrás desse estímulo, um garoto, porque ainda tens corpo de garoto, alguns homens gostam disso.    Já quando andavas rumo a tua nova vida, talvez tenhas mudado tua postura, agora eras o senhor de tua vida.

Com o Tom, como tinha a mesma idade, não aconteceu nada?

Não era como meu irmão, tomávamos banhos no rio, pois era a única opção que tínhamos de nos limpar de toda merda, lavávamos nossa roupa, ficávamos em cima dessa árvore nus, mas nunca nos passou pela cabeça outra coisa, pelo menos pela minha.   Falávamos sim de como podíamos escapar disso tudo.   Ele sempre dizia, só conseguimos se os matamos, como eu tinha um ódio pelo homem que o vendia,  um dia encontrou esse canivete, treinava como usá-lo.  Na verdade, nem sei como conseguiu cravar no sujeito que estava em cima dele, tinha o dobro de tamanho.

A pouco tempo comecei a ver a televisão para me distrair, mas as historias dos filmes me parece as vezes irreal.   Por mais que sofram, não convencem quando vivem na miséria.  Queria ver um deles realmente comer comida do lixo, como tínhamos que comer.   Pior era achar que estava bem, pois forrava o estomago.

Hoje quando como, começo a perceber os sabores, pois normalmente queria era comer, não importava o que.

Tinham voltado várias vezes no restaurante judio, pelo visto tinham frequentado muito quando viviam juntos.   Agora, já sabia pedir o que mais gostava, gozavam dele, porque pedia sempre a mesma coisa.  De tudo, foi o que mais gostei.

A tia o chamava toda semana.  No primeiro final de semana que foram para a casa de praia do Jo, encontrou um piano armário na sala.  Ron esclareceu que era dele.  Aqui ensaiei muitos concertos.  Precisava dessa paz para ensaiar.

Ele agora tocava a peça inteira que o aluno que ia dar um concerto tocava.  Ron lhe ensinava cada passo da música.  Veja a podes tocar inteira de cabo a rabo, mas cada momento dela, é composto de uma emoção diferente, como se fossem história que se cruzam.

Era como decompor a música,  esse trecho, toque, vamos gravar, vais escutar, depois conversamos para ver se entendes, repetimos.   Começou a notar, que realmente era diferente, sentia quando fazia isso, que podia encontrar a emoção daquele momento.

Agora entendia que fazia bem, mas que  faltava algo, que aos poucos ia encontrando.  Ron batia sempre na mesma tecla.  As vezes um músico não tem tempo de aprender de memória uma música, por com a vontade dele ou de seu agente de ganhar dinheiro, aceita concertos demais, não se dá o prazer de encontrar-se com a música.   Para muitos pode parecer perfeita, pois ele domina a técnica, mas falha na emoção.   A técnica é a base de tudo.  Isso tens quando capta a música ao instante, depois é necessário trabalhar a mesma até entender.           Quando tocas as músicas de tua mãe, ou o que teu pai ensinou, tens outro tipo de emoção, porque são lembranças tuas, fazem parte de uma época feliz na tua vida.

Agora ele conseguia tocar a música inteira.   Um dia Ron lhe disse, que precisava de um favor dele, um diretor de orquestra amigo dele, precisava de um pianista para ensaiar esse concerto com sua orquestra, me pediu alguém que conhecesse a música.   Para ti será interessante, pois ensaiaras com a orquestra. Que te parece?

Se é para ajudar, tudo bem.

Foram ao teatro, ficou emocionado, vendo a orquestra ensaiar uma música, depois o diretor, lhe agradeceu o favor.   Ajustou o banco, lhe avisou que lhe daria um sinal quando devia entrar, ele tinha treinado junto com o Ron, escutando um cd, com o piano junto com a orquestra.

Foi tudo como esperava, nem sabia que o diretor podia parar a orquestra para consertar alguma coisa, mudar um pouco o andamento nada disse, nunca tinha visto isso antes.

Mas tocou até o final.  A orquestra o aplaudiu. Ele não entendia, estava ali para fazer um favor.

Nos salvaste, pois o pianista desistiu da peça, diz que é muito difícil.  Mas vejo que o Ron não se enganou, o fazes magistralmente.

Amanhã ensaiamos outra vez pela manhã, nos apresentamos de noite. Ok. Ficou preocupado, como ia ser.  Ron assinou o contrato como seu agente.

No dia seguinte de manhã ao entrar no teatro, viu o cartaz, dizia Debut de Jerome Bradley, riu, mas se comportou normalmente durante o ensaio.

Depois foi com os dois a comprar um smoking, não gostou muito, lhe incomodava os movimentos.  Mas lhe disseram que tinha que usar.

De noite, lhe parecia normal, tinha tocado no restaurante para muita gente simpática, continuou reclamando do smoking, lhe impedia os movimentos.  Quando lhe disseram para entrar entrou, escutou aplausos, mas a luz não lhe deixava ver direito.  Quando se sentou, sentiu que seria impossível tocar com aquela roupa lhe incomodando, simplesmente tirou o casaco, a gravata, o maestro olhou lhe deu sinal, começou a tocar, foram até o final sem parar.   Os aplausos eram impressionantes, faziam muito barulho, foi quando viu finalmente a plateia, era imensa, todos de traje a rigor.  Fiz uma cagada.

Quando lhe perguntaram por que tinha tirado o casaco, disse que incomodava, que lhe impediria de tocar direito.   Muitos músicos o aplaudiram por isso.  Só então se deu conta que teria que tocar mais dois dias a mesma música.

Saiu ele sozinho, comprou uma blusa negra de gola alta, esse seria sua roupa nos dias seguintes.  Quando saiu a critica o elogiando pela apresentação, a simplicidade de se comportar, um dos críticos, dizia nasce uma estrela.  Sua tia lhe telefonou contente da vida.

Ron lhe veio perguntar se queria tocar a mesma música com a orquestra de San Francisco.

Nem pensar, quero aprender, trabalhar outra, fica muito sem graça sempre tocar a mesma música, mesmo quando lhe disseram o valor, disse que não, tenho dinheiro para comer durante muito tempo.   Era essa sua preocupação ter dinheiro para comer.

No último dia no teatro, recebeu uma visita no camarim.                 O dentista, não sabia que tinha conhecido uma estrela no trem.

Não sou uma estrela, apenas fiz um favor ao maestro, nada mais.  Como vai o senhor?

Bem, decepcionado porque não tive a chance de te conhecer melhor, tens ainda meu cartão?

Sim um dia te telefono, podemos almoçar?

Nisso entrou o Ron, ele o apresentou, mas quando entrou o Jo, a coisa esfriou, só disse são teus amigos?

Sim, devo tudo a eles, por quê?

Depois que foi embora, quando chegaram em casa perguntou o que foi que fez esse sujeito.

Ele gosta de jovens, é um bom filho da puta.  Os engana com promessas, depois abandona, um dos meus clientes se apaixonou por ele, depois de conseguir o que queria, o abandonou sem explicação, resultado o rapaz tentou suicídio.

Quando fui pedir, que fosse vê-lo se negou redondamente, dizendo que não passava de uma simples aventura sexual.

Bom saber disso.  Se eu tivesse experiencia, iria vingar esse rapaz, o faria se apaixonar por mim, depois o abandonaria.

Na semana seguinte foi com outros alunos, a um concerto de jazz.  Ficou louco com o que escutou.  Quando o piano começo a improvisar, quase teve um enfarte, ficou com o coração em suspenso.  Se lembrou de seu pai fazendo isso.   Improvisando uma música.

Experimentou fazer isso, tocar Moon River, depois acelerar, trocar ao contrário, estava na casa de sua tia, ficou um bom tempo fazendo isso, fez também com Over de Rainbow, com essa gostou mais, mudou o andamento, acelerando, como tinha visto fazer.  Sem querer começou a cantar junto, quando começou a improvisar, também o fez cantando.  Escutou um aplauso quando terminou.   Era Ron, na porta com seu aluno.

Caramba disse o outro rapaz, foi demais.  Outro dia fui te assistir, fazendo o concerto que não consegui tocar, por isso voltei as aulas com o Ron, ele tinha razão, eu não entendia a música.

Mas isso que fazes é sensacional, pensei outro dia, nasceu uma estrela, nada disso, isso sim é uma estrela.

Ron, sorria. Depois falamos.

Mas tarde conversando, como chegaste a isso, contou que tinha saído com outros alunos da escola, tinha ido a uma sessão de Jazz, que tinha ficado eletrizado, se lembrando de seu pai fazer isso.   Creio que sempre me levavam com eles as suas apresentações.   Porque sempre me lembro que não o via direito atrás do piano, quando muito via seus pés marcando ritmo.

Amanhã vou te apresentar uma pessoa, apenas toque não diga nada.

Nessa noite, sonhou, primeiro via o pé marcando o ritmo, depois como ele estivesse esticando o pescoço via o pai de olhos fechados, improvisando, era como se sua alma saísse de seu corpo, pelos dedos.

Acordou rindo da imagem.  Conseguia pela primeira vez, se lembrar de detalhes do rosto do pai.

Saíram logo cedo, Ron disse que iam ao Bronx, vais gostar ou odiar a pessoa que vou te apresentar, não se incomode com o jeito dele.  Tem dificuldade para se movimentar, isso o deixa frustrado.

Era um edifício antigo, com elevadores velhos, mas quando abriram a porta do apartamento, viu que era grande,  cheio de estantes com LP dos antigos, depois mais caixas de cd.  Uma senhora avisou, ainda está se levantando, lhes trouxe café.

Filho da puta, porque me fazes levantar tão cedo.  Mas quando viu Jerome, parou, quem é esse, algum protegido seu, para me encher o saco.

Ron disse, este senhor mal humorado se chama Gregori Malta

Ron disse baixinho ao Jerome, faça aquilo que fizeste com Over de Rainbow.  Apesar do mal humor do outro, tinha gostado do sujeito,  era um mulato que quando andava devia ser alto, tinha um tronco musculoso, se sentiu atraído por ele.

Sentou-se num piano de cola que estava perto da janela, olhou para fora, o dia estava estupendo, se esqueceu do resto, nem escutou o outro dizendo, na desafine meu piano.

Começou a tocar no ritmo que tinha feito da última vez, quando começou a improvisar, fechou completamente os olhos, se lembrou de seu pai, soltou a voz, cantou de traz para frente a música, ao mesmo tempo que tocava num ritmo completamente diferente.

Estava chorando quando acabou, enxugou as lagrimas com a costa da mão, se levantou apesar do silencio completo, foi se sentar com eles.

Quem te ensinou a fazer isso?

Creio que vi meu pai fazer, não tenho certeza, era uma criança.

Bem, o que queres?

Eu nada, o Ron me disse que vinha visitar alguém que queria me apresentar.  Falava olhando na cara dele, os olhos eram duros, mas sentia que atrás de tudo isso havia algo diferente.   O ficou encarando, até que o outro abaixou a vista.

Filho da puta, vieste aqui para mostrar alguém melhor do que eu não é.  Sei que errei, isso me lembro todos os dias que não posso me levantar sair correndo, fazer loucuras no piano, tenho que me contentar a dar aulas para idiotas.   Esse garoto não necessita de aulas, precisa só escutar grandes pianistas de jazz.   Porque não vais dar uma volta, enquanto converso com ele.

Ele não conhece nenhum grande pianista de jazz, te adianto.

Fora daqui de uma vez, segurando um pedaço de pão com uma mão, depois só com a boca, se dirigiu a uma estante.  

Jerome se levantou sem saber o que fazer.  Mas ele sorriu, disse, venha se sentar perto de mim, ficaram os dois escutando, músicas.   Parecia que se conheciam de toda vida.  Agora escute esse música, vê o que ele faz com essa nota, faz toda a improvisação em cima de uma nota só, depois passava para um músico completamente diferente.  Disse todos eles, amam a música de maneiras diferentes, seu piano é seu mundo.   Sem saber por que, se virou para ele, ficaram com o rosto muito próximo um do outro, se beijaram, nunca tinha beijado ninguém, foi uma coisa suave.  Foram interrompidos pelo barulho da porta se abrindo.

Jerome só teve tempo de dizer obrigado.  Quero voltar para escutar música contigo.

Era Ron, estava sentado fora na escada, mostraste para o garoto os músicos mais complicados desse pais.  Assim vai assustar o garoto.

Não acredito que ele se assuste com nada. Colocou uma música, escute bem, veja o sentimento que ele usa para tocar.

Sem se dar conta, começou a chorar, já tinha escutado aquilo, talvez tenha sido um dos últimos concertos de seu pai, estava trabalhando essa música, foi para o piano, começou a tocar junto como se estivesse fazendo um dueto.

Quem é esse?

Nelson Jameson Cruz, era filho de uma cubana com um trompetista de jazz, mas ele gostava do piano.  Lhe passou a caixa do cd.  

Ele ficou ali, alisando a caixa do cd, com a cara do seu pai, agora podia colocar cara ao homem que via sempre.

Ele só gravou esse cd, depois um outro no final de sua carreira, depois desapareceu no mapa, ninguém sabe aonde foi parar.

Podia conseguir para mim uma cópia disso.

Podes levar, depois volte para trazer, que vou te ensinar uns truques.

Quando se levantaram para ir embora, segurou sua mão, disse só não venha tão cedo pois gosto de ficar na cama até tarde, durmo muito mal a noite, falta alguém ao meu lado.

Ron se despediu, lhe dando dois beijos, ele fez o mesmo, ao sentir a pele de seu rosto junto ao seu, pensou, sei que vou amar esse homem.

Sabia que ele iria querer dar aulas para ti.  No seu momento foi um dos maiores, ganhou muito dinheiro, ficou como louco,  realizou seu sonho de ter um carro ultimo modelo, uma noite voltando para casa, um caminhão passou o sinal fechado, acabou com o carro, o homem que estava com ele, ele ficou preso no carro, até chegar a ambulância, bombeiros, foi tarde.  Desde então não se apresenta.   Gravou um outro CD que fez sucesso, mas só nas rádios.

Ele escutou tudo sem dizer uma palavra, queria era escutar o CDs de seu pai.  Passou o resto do dia fechado em casa, na segunda caixa, viu que tinha um papel com um número de celular, ligou.

Do outro lado, escutou, sou Gregori, sabia que ias me chamar.   Me enfeitiçaste, não consigo te tirar da minha cabeça. 

Nem eu de pensar em ti. Posso ir até aí.

Melhor não, posso me emocionar muito, isso não seria bom, depois tu eres um garoto, vamos separar as coisas.

Venha amanhã as 10 horas ok, mas venha sozinho, pois quero poder trabalhar contigo a vontade.

Anotou o endereço, no dia seguinte disse ao Ron que ia a casa do Malta, tinham se falado.

Hoje eu não posso ir.

Eu quero ir lá sozinho, tenho que enfrentar esse monstro.  Riu, piscando o olho para o Ron.

Quando chegou, tinha um enfermeiro lhe dando banho, sem pensar muito, ajudou o homem a fazer isso, secou suas costas, viu que ele ficava de piru duro, mas fez como se nada.  O enfermeiro riu, xi a coisa tá feia.

O ajudou a vesti-lo, sem fazer comentário nenhum.

Tomaram café juntos, depois que a senhora se retirou, foram para o piano. 

Toque alguma coisa que escutaste dos CD de teu pai.

Ele tocou a música mais complicada,  eu o ouvi tocar essa música milhões de vezes, nem sempre entendia o que queria dizer.  Uma vez ele fez isso, misturou essa música, com  esta, era a música que me ensinava a tocar  fazia assim começou tocando a composição, misturando depois com a de Debussy.  

Caramba, dizem que ele fazia isso nos shows.  Qual a tua idade?

Sorriu, vais rir, não sei direito, não cresci direito, tenho problemas de nutrição, sem querer contou toda sua história para ele.

Então porque me beijaste, por caridade?

Jamais, me senti atraído por ti, independente de tudo.  Se levantou foi empurrando a cadeira de rodas para o quarto, Malta reclamou, não faça isso, podes te arrepender. 

Jerome sorriu, eu necessito de amor, tu também, não faremos sexo, só vamos estar juntos.

Fechou a porta do quarto o ajudou a deitar-se na cama, tirou sua camisa, ele quando viu suas costas, não disse nada, ficaram abraçados um longo tempo, era como se estivessem em paz.

Bateram na porta para avisar que o almoço estava pronto. 

Já vamos.  Esta senhora cuida de mim a muito tempo, não se preocupe, é muito discreta.

Foram almoçar, ela lhe deu medicamentos, dizendo, não se esqueças que tens que descansar agora a tarde duas horas, eu vou embora, o garoto cuida de ti.

Foram escutar música outra vez, ele se sentou no chão com a cabeça nas pernas dele.

Sabes qual o problema Jerome,  posso me apaixonar por ti, se é que já não estou, isso seria horrível que você depois me abandonasse, não sei se ia aguentar.

Não sei Malta, alguma coisa em ti me atrai.  Quero escutar você tocando.

Faz muito tempo que não toco nada.

Vais negar tocar alguma coisa para mim, se levantou, segurou seu rosto, ficou beijando suavemente aquele homem que por algum motivo o atraia.

Ok, vou tocar, porque estou muito excitado, se tivesse o uso das minhas pernas te arrastava para a cama.

Tocou uma melodia diferente, não era jazz,  Venha tocar comigo, colocou a banqueta ao lado ficaram tocando juntos a música, de vez em quando seus dedos se roçavam.

Se viraram um para o outro, voltaram a se beijar.  Eu não tenho nada para te ensinar Jerome, queria somente te ver.

Acho que está na hora de descansar, o levou para o quarto, o ajudou a tirar as calças, tirou toda sua roupa, lhe disse baixinho, não sei fazer sexo, sempre fui abusado, me ensina.  Depois só podia pensar que tinha sido algo glorioso.

Viu que ele dormia, passou um pano húmido pelo seu corpo que suava, deitou-se ao seu lado, logo viu que tinha um pesadelo.  Ele deve ser como eu, muita coisa guardada.

Ficou segurando sua mão, viu que ele passava a dormir tranquilo.

Não estava acostumado a dormir de tarde, se levantou, com a música que ele tinha tocado na cabeça.  Sentou-se ao piano, a ficou tocando baixinho.  Em sua cabeça, pensou essa música parece mais uma sinfonia.

O escutou lhe chamando, queria levantar-se.  Enquanto o ajudava, lhe perguntou se não tinha tentado melhorar?

Vem todas as semanas um fisioterapeuta, mas teria que fazer uma operação muito cara, não tenho dinheiro.  Guardou aquilo na cabeça.

Perguntou se a música que tinha tocado antes, se tinha escrito partitura?

Não, não sei escrever partituras, o Ron insistia, mas me dava preguiça.

Pois então teremos um largo caminho por diante, vejo isso como uma sinfonia, riu dizendo que era um termo que tinha aprendido a pouco tempo.

Telefonou ao Ron, perguntando se ele estaria no final da tarde em sua casa. Ok, tenho que ir buscar alguma coisa de roupa, para dormir aqui com o Malta, mas falo contigo antes.  O ok do Ron era de preocupação.

O que estas tramando garoto?

Só farei uma pergunta, parecia mais adulto do que antes, confias em mim?

Sim, mas olhe lá o que estas tramando.

Escute como vou tocar tua música, vê como sente em tua cabeça.

Foi decompondo a mesma, uma abertura, a tocou, repetiu uma parte para finalizar.  Olhou para ele sentado ali ao lado, com a cabeça caída para frente, mas sabia que estava prestando atenção, ei lhe chamou.

Malta levantou a cabeça, corriam lagrimas pela sua cara.         Como pudeste captar o que sentia nesse momento?

Deduzi que essa música escreveste para o homem que estava contigo no carro.

Sim, eu o amava em segredo, era meu melhor amigo, vinhamos de um concerto, ele ia se encontrar com a namorada, mas claro, nunca chegou.   Tudo por culpa minha.

Não creio que tenha sido tua culpa, eu também quando abusavam de mim, pensava que era culpa minha, mas hoje entendo que não, estava era no lugar errado.

Posso tocar a segunda parte, como a dividi em minha cabeça?

Sim, mas se me emociono muito não pare, fico feliz em saber que me entendes. 

Foi até ele lhe dando um beijo.  Quero que saibas que nunca beijei ninguém na minha vida, eres o primeiro, espero que seja o último.

Tocou a segunda parte como a via.  Depois comentou, veja, aqui falta um pedaço, creio que poderias incluir alguma coisa.  Teremos que colocar em partitura, para poder arrumar isso.

O viu pensando, lhe disse, vou até em casa buscar uma roupa para dormir aqui contigo, tenho também que tranquilizar o Ron, depois volto.

Lhe beijou, tens que entender que não sei o que é amor, sou jovem demais para isso. Mas aprenderei contigo.

Quando chegou Ron, parecia um leão enjaulado.  Não lhe deixou falar.  A decisão de ir até ele foi tua.   Agora aguente as consequências.  Antes que pergunte fiz sexo com ele sim, mas sem essa coisa de penetração, os dois, estamos numa fase de namoro, permita que eu sinta isso por ele, essa atração é muito forte, nunca me senti bem com ninguém.

Nisso, ao virar-se viu Jo na porta.  Concordo com ele Ron, é um direito seu.

Bom que querias falar comigo?

Hoje escutei uma música dele, não é jazz, é mais uma sinfonia, precisa ser trabalhada, ele não sabe escrever partituras, diz que foi um erro não seguir teus conselhos, eu em contra partida aprendi graças a ti.  Queria trabalhar essa música, escrever, fazer algumas modificações.

Outra coisa, perguntei se o problema dele não tem solução, diz que sim, mas que é uma operação muito cara.  Podias verificar isso, se o dinheiro que ganhei não dá, podia fazer mais concertos para conseguir dinheiro.

Segundo preciso de outro piano na casa dele.  Não muito grande por causa do espaço. Além de precisar da tua ajuda para gravar a música.   Creio que depois tu podias transcrever para orquestra.   Nas tuas tardes livres iria até lá, nos ajudaria.  Em vez de ficar pensando besteira, como o que estou fazendo.

Virou-se para o Jo, perguntou quanto custa uma cadeiras dessas de rodas que a pessoa dirige, não sei como se chama, assim ele poderia se mover melhor.  Se pode alugar uma.

Jo ria da cara do Ron, o menino está crescendo a toque de caixa, para se incorporar ao rol dos homens, deixe de ser panaca.

Ron disse, posso alugar um piano, mando entregar lá.  

Eu me encarrego da cadeira de rodas, posso ir até lá para levar um amigo especialista, foi meu cliente, mas é especialista na área, para o examinar, bem como  ver os exames anteriores.

Ok. Os espero amanhã.  Desceu pegou suas coisas, muitos lápis, todas as partituras vazias que encontrou.

Viu que ele estava ansioso, quando chegou.   Pensou que eu não voltava mais, para disfrutar desse corpo.   Riu da cara dele, estou ficando sem vergonha.

Foi até ele o beijou, não vai ser fácil te livrares de mim, acabo de invadir teu espaço, tua vida, agora serás meu.   A senhora tinha deixado um jantar feito.

Ele sem graça disse que tinha que ir ao banheiro, tenho que tocar de cadeira.

Não se preocupe, te ajudo, não tenha vergonha de mim. O levou ao banheiro, passou para a outra cadeira, que encaixava na privada, antes o levantou, abaixou suas calças.  Vou te deixar tranquilo, quando acabes me avise.

Quando entrou, foi dizendo de brincadeira, comeste rosas, mas estavam estragadas, por deus, isso cheira mal. Mas não lhe dava tempo para falar, o limpou, como tinha visto o enfermeiro fazer.  Tinha dado descarga.  O levantou, passou para a outra cadeira, vou ficar musculoso de te levantar.  Arrumou suas calças, viu como não é difícil, o tirou dali, ficou de joelhos na frente dele, beijando seu rosto.

Menino, estas brincando com fogo.

Já me queimei, não tenha dúvida.   Venha, vamos trabalhar.

Colocou a cadeira ao lado do piano. Colocou partituras na frente, lápis, borracha, foi registrando cada nota da música.  Tocou essa primeira parte, seguindo a partitura,  vê aqui falta alguma coisa. Torno a repassar.  Quando se toca, não se nota essa nota, esta a mais.

Ficou ali, olhava para a cara dele.  Sabia que estava tocando mentalmente.  Ficaram horas nesse pedaço de música. 

Ao final reconheceu que nunca tinha trabalhado assim.  Aonde aprendeste isso?

Uma parte com o Ron, outra com a professora que me ensinou sobre partituras, outra vendo minha tia trabalhar com cantores, pois engolem notas.

Quando viram já era tarde,  Perguntou se queria ir ao banheiro outra vez.

O levou para mijar, mas fez uma coisa, eu te pego por detrás, tu vais mijar em pé como sempre fizeste. Ficou colado nas costas dele, os dois tinham a mesma altura.

Assim nunca vou acabar de mijar, só para ficares assim comigo.

Perguntou se queria dormir com roupa ou sem roupa.

Sem roupa se dormes ao meu lado. O colocou na cama, depois fez ele sua higiene, tirou toda a roupa.   Ele lhe perguntou baixinho sobre as cicatrizes.

Contou sem preocupação nenhuma, não tenhas medo, eu já coloquei para fora tudo isso, não tenho vergonha, não sabia me defender, tinha medo.   Pensava que o homem que fazia isso era meu pai.

Ficaram abraçados, ficaram excitados, um masturbou o outro se beijando, era delicioso  disse ao final.  Depois o limpou, voltou a ficar ao seu lado abraçado, perguntou como gostava de dormir, eu só posso dormir de barriga para cima, ele se encaixou ao seu lado.  Riu dizendo, nunca dormi com ninguém na minha vida, eres o primeiro em tudo, primeiro beijo, primeiro gozo, tudo se refere a ti.

No dia seguinte, se levantou antes, tomou banho, quando saiu a senhora lhe fez um sinal, disse que tinham uns homens na porta com um piano, ele abriu a porta de cuecas, disse aonde tinham que colocar.  Era de cola, mas pequeno, que fique encaixado ao outro.

Tinha fechado a porta do quarto, fazendo sinal para falarem baixo. Quando foram embora, a senhora estava de boca aberta, vendo as cicatrizes da sua costa.  Não se preocupe, isso foram maldades que me fizeram.

Nisso chegou o enfermeiro, o ajudou a dar banho, o colocar na privada, ajudou a limpar, pediu que lhe ensinasse a melhor maneira, depois ficou vendo como fazia exercícios com ele.

É um cabeça dura, devia estar fazendo fisioterapia no hospital, mas não, tenho que vir, fazer como posso.  Um dia me aborreço, como esse teu cu sujo, não vai poder se defender.

Sinto muito chegas tarde, ele é todo meu, respondeu o Jerome.

Já vi que a cama foi usada.  O ajudou a trocar os lençóis, abrir as janelas, contra a vontade do Malta, coloque na tua cabeça, meu homem que tua vida mudou desde ontem.

Ele ria, um garoto para revolucionar minha vida.

Quando viu os dois pianos, tinha um envelope em cima de um deles.  Cortesia de Ron Porter.

Para podermos trabalhar, foi um pedido meu.   Não te preocupe, é alugado.

Depois de comer, recomeçaram a trabalhar.  Cada um num piano, Malta comentou, olha se assim fica bom, esse pedaço ficou a noite inteira na minha cabeça.

Tocou, Jerome lhe deu ordem para tocar devagar, foi registrando nota por nota.

Depois do almoço, lhe disse creio que hoje não teremos cama, nem sexo, justo nisso bateram na porta.

Ron seu filho da puta, trouxeste esse demônio para me dar ordens não é, ia continuar quando viu o Jo, além de um homem negro de uma certa idade.

Que é isso um complô contra mim.

Jerome, o levou dali, pois viu que tinha ficado irritado com a entrada das pessoas.

Faça isso por mim, fui eu que pedi que viesse.  

Sabes quanto custa a consulta desse homem?

Não sei nem me interessa, quero saber se podemos te colocar em pé, para podemos fazer concertos juntos.  Te adoro, não estrague os meus sonhos.

Ele acabou concordando, depois de muitos beijos.

Vejo que o demônio faz milagres, foi o único comentário do Ron.

Deixou que o médico o examinasse, sei que tenho os teus resultados no hospital, amanhã te espero para fazer uma ressonância magnética para vermos como estamos.

Depois que ele foi embora, foi franco não tenho dinheiro para uma operação.

Jo tomou a palavra, admiro sua música, o Jerome é como meu filho, antes de mais nada sou psicólogo que o atendeu quando chegou aqui.  Ele sabe da minha vida também.  Recebi uma herança que me nego a usar comigo, a dispus de tal maneira, para ajudar as pessoas, no teu caso será uma honra que me permita te ajudar.

Ron, cortou, esse não tem jeito.   Sabe quem ele é?   Vais te lembrar, pois me escutaste falar dele, o amor de minha vida.  Pode confiar nele, agora o tenho baixo meu controle.  Ria a bessa.

Os dois estavam sentados, Malta perguntou o que eram umas caixas no chão.

Eu só obedeço ordens, é um aparelho para gravar o trabalho de vocês, pedido do Jerome, consultei aonde compro coisas, me disseram que é de última geração.

Agora enquanto monto com o Jo, toquem os dois essa música que ele não para de falar.

Malta ia para o piano novo, mas viu que ele já tinha colocado as partituras ali.  Foi para o seu, Os dois tocaram a música se olhando um no outro.  Quando terminaram, Jo estava boquiaberto, nunca imaginei tal entrosamento em duas pessoas que se conhecem recentemente.

Aliás a música é linda demais, o que achas Ron.

A cara do Ron, era indecifrável, realmente como falaste Jerome, está mais para um sinfonia, mas faltam coisas.

Veja estamos trabalhando a primeira parte, já escrevi as modificações que fizemos, me diga o que acha. 

Espera vou ligar isso, assim gravamos.  O rapaz me disse que se pode falar ao mesmo tempo, me ensinara depois a retirar coisas que não me interessam.  Tenho que aprender, ser mais moderno.

Toque tu primeiro Jerome.

Ele seguiu a partitura.  Não achas que fica melhor.

Talvez, experimente mudar para dois tons mais abaixo, no princípio, depois vais subindo.

Experimentou, ficava bem.   Agora vamos escutar como foi a primeira vez, depois com a mudança.

A cara do Malta era fantástica, estar rodeado de amigos, trabalhando lhe fazia bem.

Gosto disso, parece realmente uma abertura, sem perder nenhum contexto. 

Teremos que montar inteira, para depois pensar como seria como uma orquestra.

Estas louco, isso custaria uma fortuna que não tenho.  

Olha garoto, vocês estão tirando um velho com o pé no lodo, que está farto de atender músicos medíocres para passar a tarde, pois não tem nada o que fazer. Portanto não encha o meu saco, me escute por favor, me deixa fazer isso, salvaras minha vida.  O falou com tanta veemência que até o Jo se surpreendeu.

Jo, eu dou aulas de tarde para não me aborrecer, não pensar besteiras, mas as vezes acho que estou perdendo tempo, pois tenho que aguentar músicos medíocres.   Isso para mim seria viver outra vez.

No dia seguinte foram ao médico, Jo veio busca-los de carro, o acomodaram foram para o hospital.  Fizeram a ressonância, o médico o examinou melhor, aproveitaram para fazer todos os outros exames.

Daqui dois dias nos falamos.  Quando chegaram em casa, tinha chegado a outra cadeira de rodas, ele ia reclamar, mas quando viu já estava sentado,  O rapaz carregou mal entrou aqui, disse que podes usar tranquilamente.  Deves carregar a bateria todas as noites.

Gente não posso pa……não terminou de falar, pois o beijo que o Jerome lhe deu, na frente de todo mundo, bastou.

Bom vamos trabalhar.   A senhora avisou que tinha feito almoço para todo mundo.

Jo no almoço estava dizendo que tinha voltado a tocar clarinete, pois uma parte da música lhe fazia na cabeça como o clarinete.  Estive trabalhando a noite inteira nele.  Podem me escutar depois.

Nem sabias que tocava o Clarinete?   

Aprendi com o Ron, ele me ensinou, pois era o único instrumento que gostava.  Fiz aulas muito tempo, cheguei a tocar num grupo.  Mas claro foi quando me desencaminhei.    Mas agora estou entre amigos posso fazer.

Depois do café, tocou para eles como tinha sentido, tinha memorizado a música, toquei até de madrugada, tive que colocar o despertador, pois senão ia perder a hora.

O que achas Ron, fica interessante.

Vamos escutar, realmente fica interessante, os dois no piano, tu no clarinete.   O som ficava diferente porque engrossava.    Acho que tem uma parte que ficava legal no clarinete, ainda não escrevi a partitura, mas escute, disse qual o pedaço para o Malta, tocaram os dois.

Jo estava com os olhos fechados.  Quando pararam, viram que o Ron escrevia a partitura, podem tocar desde, fez o sonido do pedaço, pegaram daí.   Ok, já tenho, veja se é isso, passou para o Jo a partitura.  Ele colocou em cima do piano, foi tocando.

Suba um tom a mais, da segunda parte para o final. Tocou outra vez, depois ouviram as duas versões.  Ficava genial.  Tente tocar isso junto com o piano no início, deixando a partir de tal parte, para um solo de clarinete.

Malta aplaudia, fica ótimo.

O médico levou uma semana, para voltar a contatar, mas nesse tempo tinham trabalhado diariamente.  Jo tinha pedido um tempo na universidade, só atendia de manhã, trabalhavam todos os dias, chegavam na hora do almoço.   A senhora fazia uma lista de compras, eles traziam tudo que ela pedia, agora a comida era mais farta.

Malta estava diferente, de noite, se abraçava ao seu Jerome, dizendo, quando te vi, no primeiro momento fiquei com raiva, mas depois me senti tão atraído por ti, que me esqueci.

Espero que não me esqueças, quando voltares a andar.

Imagina, quero fazer sexo contigo inteiro, um dia pediu ao Jerome se podia penetra-lo, ele disse que nunca tinha feito isso, mas com jeito encontraram uma posição.  Os dois ficaram agarrados no final, sem querer se separar.  Contínuas, excitado dentro de mim, comece outra vez.   Depois pediu que o levasse ao banheiro, tomaram um banho juntos. Rindo como duas crianças.   Já não tomava tantos remédios, dizia que dormir com ele tinha melhorado sua vida.

Quando já estavam quase na metade da música, agora mais completa, mais dividida, registrada no papel, além da gravação.   O médico disse que tinha um espaço na agenda, que se queria operar tinha que ser agora.

Jerome convenceu o Malta a não deixar para mais adiante,  conseguiram um quarto isolado, trabalhariam com teclados, fariam ali o trabalho.

A operação foi um sucesso, devia começar em seguida a fisioterapia.  Saiu quase um mês depois do hospital, de muletas. Teria que usar a mesma durante um ano pelo menos.

A melhor surpresa foi que um dos enfermeiros tinha tocado saxofone em várias bandas, se juntou a eles.  Agora a coisa ia tomando corpo.

O processo da música já está quase acabado, faltava percussão, mas isso o Ron conseguiu, um jovem Africano tinha aparecido na escola, estava vivendo na rua, mas conseguiram um lugar para ele viver.  O levou um dia, se encaixou rapidamente no grupo.  Começou a trazer mais coisas para usar como som.

Quando terminaram, fizeram uma seção inteira, tocando a música completamente, inclusive com uma parte só de percussão.

Ron levou a gravação, mostrou para seu amigo maestro.  Esse disse que estavam ensaiando um concerto, os músicos, estão fartos, porque entra ano sai ano, poucas músicas novas temos para tocar.   Venha com teu pessoal, quem sabe como vão reagir.

Pisar num palco outra vez, mesmo que fosse de muletas, para o Malta foi sensacional, vibrava.

Tocaram como tinham imaginado.  Quando acabaram, ele deixou que Jerome, explicasse todo o processo.  Vocês são músicos profissionais, eu só um iniciante, mas quando escutei a música desde o começo me pareceu uma sinfonia.

Escrevemos para os instrumentos que tínhamos, mas podemos trabalhar, incluindo os outros.

Todos se levantaram, mostrando claramente que interessava.

Foram dois meses de trabalho.  

As noites agora, eram fantásticas, Jerome ainda tinha medo de que lhe penetrasse, mas um dia venceu, permitiu que o fizesse, nada a ver com o que tinha sofrido. O prazer que nunca tinha sentido agora era completo.  Agora eram completos um com o outro.

Sua tia o avisou que ficaria pelo menos mais dois anos na França, tinha assinado um contrato, mais largo, pois agora atendia a todos da Opera de Paris, tinha alugado uma casa, perguntou se queria vir.   Embora soubesse pelo Ron tudo que acontecia.  Estava tentando encaixar a estreia com uma ida a NYC.

Estava emocionada, bem como todos, o maestro tinha cedido a regência da peça para o Ron, era sua estreia como maestro.

Tocaram uma musica na primeira parte, antes de sair do palco, contou que tudo o que veriam em seguida era uma belíssima experiencia, um grupo tocaria com a orquestra, uma musica, com a adaptação feita por um jovem brilhante pianista, que foi aglutinando uma série de pessoas em sua volta para fazer ressurgir um musico excepcional.  Espero que gostem.

A orquestra estava vestida de negro, mas de camiseta com o nome da composição, eles também.  Quando abriu a cortina estavam todos já em cena, assim não viam o Malta entrar de muletas.

Ron deu início a música, parecia que no ar houvesse eletricidade, porque estavam não só eles entusiasmado, bem como os músicos da própria orquestra.

Fariam quatro apresentações, cada uma num final de semana seguinte. O final da apresentação foi apoteótico.

Aplaudiam em pé.   Pediram um bis, tinham ensaiado a música de seu pai, só que incluía o que ele tinha feito a Suíte Bergamasque, de Debussy,  quando terminou, disse que tinha aprendido essa música assim, que era de seu pai, Nelson Jameson Cruz.  O publico de novo aplaudiu de pé.

No dia seguinte a crítica não tinha qualificativo, dizia que a orquestra finalmente tinha se aberto ao novo.   Que a música era impressionante, que esperavam logo a ver no mercado, as companhias de Streaming logo queriam lançar ao mundo.

Contrataram um advogado para gerir os contratos, as seguintes apresentações foram um sucesso, pois com a crítica se venderam todas as entradas.

Sua tia sugeriu, porque eles não se mudavam para ficar junto com o Ron, aceitou o relacionamento dos dois muito bem, quando quisessem fossem a Paris.

Havia entre os dois, um estranho relacionamento, como se um completasse o outro, mas em tudo, se entendia em todos os sentidos.

Tinham dado ordens ao agente que os representava, no caso o Ron, que só tocariam juntos, nunca em separado.  Inclusive agora Malta se atrevia a tocar música clássica.

Quando Jerome, começou a compor ele mesmo, Malta o ajudava, agora tinha aprendido a escrever partituras,  era um trabalho dos dois.

Criaram o grupo para tocar jazz, prepararam um cd, com as músicas de todos, incluindo o Ron que tinha algumas escondidas.   O africano, conseguiu documentação, uma casa, mas se negava a sair do grupo.  Segundo o Jo, era um grupo que tinha se salvado uns aos outros.

No lançamento do cd de Jazz,  deram uma entrevista na televisão.  Era interessante, num sofá ele com o Malta, noutro, Jo junto como Ron, no outro os outros dois.  Eles pediram para ficar para o final.  O que tinha sido enfermeiro, dizia que tinha sido salvo no hospital, o africano, pelo Ron.       Depois a pergunta ao Ron, foi como fazia para ir descobrindo as pessoas.  Ele apontou ao ouvido, o entrevistador pensou que era surdo.  Riram muito, não quero dizer, ouvido para ouvir música nas pessoas.  Porque se a música não está na pessoa, essa pode ter a maior técnica do mundo, mas a música não emociona.

Jo respondeu que estava farto de dar aulas para quem não queria aprender, pois tinha sido salvos por eles.

Malta falou primeiro, ele me salvou, estava amargado em casa paralitico, Ron entrou casa adentro, com esse jovem arrastado, me empurrou para que escutasse ele tocar.  Foi amor à primeira vista.  Nunca mais nos separamos.  Não posso conceber minha vida sem ele.

Uau, disse o entrevistador, isso é uma declaração de amor.

Bom ele é correspondido, tive uma infância miserável, sem saber o que era amor, encontrei nos meus amigos, mas nele encontrei um pouso cheio de amor.   Nos entendemos, estamos agora trabalhando minha primeira composição.   Parto da composição de meu pai, uma que descobri no seu último CD.

Quem é seu pai?

Nelson Jameson Cruz, alias se alguém sabe aonde está, me avise por favor, gostaria muito de saber dele.

Os quatro tocaram a música do Nelson, em seguida choviam telefonemas, cada um dizia uma coisa.  Seria difícil separar tudo.

Dias depois o advogado, finalmente depois de fazer uma triagem nas pistas falsas, falou com uma mulher, que o tinha conhecido.  Viveu anos num asilo na florida, sofria de Alzheimer,  talvez devido a bebida.  Que tinha morrido há dois anos atrás.

Mandou uma foto de seu tumulo, ali mesmo no lugar que vivia.  Uma foto sua já acabado pela doença.

Na cabeça do Jerome, apesar de nunca ter tido esperança, brotou um turbilhão de emoções, que desembocou numa música composta por ele.

Inclusive cantava junto.  Malta fez o arranjo.  Quando surgiu a oportunidade de fazerem uma viagem, fizeram apresentação em vários lugares.  Um dia por surpresa num concerto apareceu a senhora do restaurante.  O abraçou, dizendo, eu sabia que tinhas futuro.   Fico contente em ter participado disso.

Depois foram pela Europa, Berlin, Madrid, acabaram em Paris, sua tia tinha conhecido um maestro, estavam vivendo juntos.   Pela primeira vez tinha uma pessoa firme em sua vida.

Continuaram compondo juntos, cada qual criando coisas novas.

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Essa bendita música de Bach, ele detestava, perguntou ao monitor, se não podia colocar outra, a desculpa era que essa música relaxava.

Pois a mim me faz ficar tenso, pois me irrita muito, esse violino, é muito chato, alcança meu celular, escolherei a música que quero para fazer fisioterapia.                        Escolheu a música, o fisioterapeuta ficou alucinado, como gostas desse tipo de música?

Necessito de energia, essa música me dá isso, vontade de lutar, era sua música preferida, Tannhaüser de Wagner, era vibrante, deixou de escutar o homem falando, sabia todos os exercícios que tinha que fazer.  Só falou quando pediu que o pusesse na barra paralela, queria experimentar, para ver se podia se colocar em pé.

Fazia isso numa base militar, graças a sua tia.  Ela era comandante da Marinha, médica, no momento estava de viagem a uma base militar, para dar orientação, sobre um novo sistema de amputação aos médicos que trabalhavam ali.   Esse novo sistema, fazia com que fosse mais fácil depois o uso da prótese.   Era uma mulher respeitada.

Ele tinha tido sorte, quando a avisaram o que tinha acontecido, foi o mais rápido possível a cidade aonde vivia com sua mãe, seu pai.  A tragédia estava consumada.

Ele tinha sido gestado para salvar sua irmã,  seria o doador de medula óssea,  para ela, era a paixão dos pais, uma garota linda,  o único jeito de salva-la era ter um irmão compatível com ela, depois de todas as pesquisas para encontrar um compatível.  Por azar, ela morreu antes de ele nascer, tinham feito contas erradas, ele nasceu quase um mês depois dela partir.

Seus pais nunca o perdoaram, como se culpa fosse dele.  Era quando pequeno, duas pessoas complicadas, bebiam muito, tinham brigas homéricas, um acusando o outro, era um inferno, ele ao contrario era um garoto tranquilo.  Inteligente desde pequeno, quando percebia o que ia acontecer, se escondia, por mais que o procurassem não eram capaz de encontra-lo.  Só aparecia depois da tormenta passar, ou seja, quando caiam na cama, bêbados de tudo.

Tudo foi a pior com o passar dos anos, a polícia chegar diante da casa, chamada pelos vizinhos que escutavam os gritos, coisas quebradas, já era uma coisa habitual.  Ele aprendeu a chamar a mesma, sabia inclusive com quem falava.   Infelizmente não tinham serviços sociais da cidade.

Quando entrou na secundaria, era um bom atleta, estudioso, seus trabalhos que fazia na biblioteca era sempre os melhores, mas amigos nenhum, quem queria ser amigo de um sujeito que os pais viviam indo presos, estavam sempre bêbados.

Na frente de sua casa vivia a melhor amiga de sua tia, avisava a esta do que estava acontecendo, mas ela não interferia, pois seu cunhado não a suportava, tampouco sua irmã, porque era lesbiana.   Militar ainda por cima.

Seus dias, eram sair para a escola, tomando café que ele mesmo preparava desde os 10 anos, um pedaço de pão que normalmente estava velho, mas tinha que forrar o estomago, quando saia, a amiga de sua tia, o estava esperando na esquina, com um lanche para a escola, ela trabalhava na biblioteca.   O deixava ficar ali, todo o tempo possível.  Depois de treinar natação que adorava, pois na água se relaxava.  Podia ficar horas na piscina, depois das classes, comia as sobras do lanche, ia para a biblioteca.  Estudava, fazia as tarefas, conseguia sempre aprovar com louvor.   Como as vezes não tinha o que fazer, passava a pesquisar os trabalhos do ano seguinte.   Se adiantou tanto, que com 16 anos, estava pronto para ir a Universidade.   Sua situação era precária, se sua tia não mandasse dinheiro para ele, pela amiga, ele não sabia o que faria.   Escondia esse dinheiro.  Ela sempre lhe mandava uma carta junto, pedia desculpas, mas no momento estava fora do pais.  Assim foram passando os anos até que a situação chegou ao limite.    Não havia semana que os pais não fossem parar na cadeia, era ele que chamava a polícia quando a coisa passava dos limites.

Chegou em casa, ia se esgueirar para seu quarto, quando sentiu que o pegavam por detrás, desta vez, não vais escapar.  Seu pai era tremendamente forte, quando estava nessa situação era incontrolável.   O jogou no chão da cozinha que estava cheia de sangue.   Ali estava sua mãe, cheia de marcas na cara, pelo visto tinham brigado antes dele chegar.

Ai estão os dois culpados de minha menina ter morrido, agora irão pagar caro, começou a gritar a ela, que era uma idiota, que não sabia nem contar, era sempre a mesmas acusações, que o tinha enganado, os tiros ele sabia por aonde iam, se esgueirou até o telefone, quando viu o revolver em cima da mesa, ficou apavorado, quando a mulher atendeu, ele disse do revolver, que estava descontrolado, mas já era tarde o primeiro tiro foi na cabeça de sua mãe, o segundo em direção a ele, tentou escapar, mas foi pior, o tiro o atingiu, tudo ficou negro.   Segundo soube depois, o terceiro tiro foi para ele mesmo, colocou a arma debaixo do queixo disparou. Quando a polícia chegou tudo era um mar de sangue.    Um policial viu que ele ainda tinha pulso, foi para o hospital, mal chegou ao fazerem um scanner, viram que a bala estava alojada na coluna, que teriam que operar, mas não havia nenhum médico especialista nessa área.

A amiga de sua tia, a chamou, contou o que tinha acontecido, como ele estava esperando por alguém que o pudesse operar.  Sua única resposta, a cavalaria, vai chegar.   Na pequena cidade, não estavam acostumado que um helicóptero do exército descesse ao lado do hospital, dele saíram várias pessoas, direta para a sala de operações, estavam contendo uma hemorragia.   Nita, ou Anita, sua tia, tomou rapidamente conta da situação, tinha trazido com ela uma enfermeira especializada, bem como um médico amigo dela, treinado especialmente para esses casos, ele olhou rapidamente os scanners, tomou providências.

Abriu sua maleta de cirurgia de emergências,  sabia que os hospitais dessas cidades lhes faltava de tudo, teriam que opera-lo de lado, pois a hemorragia era na parte da frente por aonde tinham entrado a bala.  Viu que a coluna estava inchada, com sumo cuidado, muita paciência, numa operação de horas, conseguiu retirar a bala, bem como parar a hemorragia, mas claro, nada era perfeito, nesse tipo de operações, sempre se afetava os nervos em volta.

Quando ele saiu de coma dias depois, a pessoa que viu ao seu lado, foi sua tia, segurando sua mão.  

Olá meu garoto, agora já estas fora de perigo.  Avisou a enfermeira, para chamar o médico, eles estavam aproveitando esses dias para atenderem todos os casos que haviam no hospital, que no momento não contava com médicos para operação.

Quando esse saiu da sala de operações, foi dar uma olhada no paciente.  Ele olhou ao médico, pensou, parece um deus.  Alto, com os cabelos loiros imensos, rebeldes, uns olhos azuis cristalinos.

Me olhas assustado, por quê?

Pensei que estava no céu, que tinha morrido. Pareces a imagem de um santo.

Sua tia riu, como sempre fazia, sua risada era um escândalo, esse senhor é o maior pecador que conheço.   Estas em terra firme, marujo.

O médico se sentou, primeiro se espreguiçou, estou morto de cansaço, primeiro olhou os aparelhos,  que eram velhos,  bom, já podemos ir embora, o preparam para levar para a base em San Francisco.

Ela o tranquilizou, mandei enterrar teus pais, aos lados dos avôs, embora não merecessem estar ali.  Esse dois nunca foram certos da cabeça.

Ele não fez, nenhum comentário.  Nunca tinha recebido carinho, um gesto sequer, tinha sido o filho que chegou tarde demais para salvar sua irmã.

O transportaram numa maca, até o helicóptero, foi para o outro hospital.   Lá o médico, lhe contou como ele estava, quando comentou que não sentia as pernas.  

Se tivéssemos sabido ao momento, não como aconteceu, quando cheguei, os tendões, os nervos estavam todos inflamados, pode levar pelo menos uns dois anos, para que possas outra vez andar.  Mas isso não te impedira de estudar, de viver.  Nesse tempo terás que usar cadeira de rodas, fazer fisioterapia, mas chegaras ao porto.

A princípio foi duro, o que como sempre gostava, era quando o colocavam na piscina para fazer exercícios, aprendeu rapidamente a sobreviver a sensação que ia se afogar.

Agora que sua tia estava fora, ele se movia pela base, diretamente a fisioterapia, em cadeiras de rodas especiais, ia falando com as pessoas, todo mundo o tinha recebido bem.

Sua tia teve que mover os papeis, conseguir que o juiz lhe desse a guarda dele, bem como a adoção por parte dela, para que ele pudesse seguir usando o sistema médico da marinha.

Convivia com os soldados que voltavam da guerra, mutilados, com problemas maiores que o dele.    Com isso entendeu que ele estava em melhor situação.  O que ajudava era que ninguém sentia pena dele, estavam preocupados mais com seus problemas para não ficarem em cima dele.     Fazia terapia, seu psicólogo dizia que pelo menos com ele escutava outros problemas que não fosse os complicados, como dos rapazes que voltavam da guerra.

Um em particular lhe chamava atenção, era um soldado que tinha voltado sem as duas pernas, mas era fortíssimo, da mesma maneira que era violento.  As vezes os enfermeiros tinham que usar força com ele.   A primeira vez que o encontrou na piscina, o olhou com indiferença, ele fez o mesmo, fez seus exercícios do outro lado, sem se importar com a presença dele, num determinado momento se voltou, viu que o mesmo estava no fundo, se afogando, nadou até lá mergulhou o trouxe a tona, ajudado pelos enfermeiros que tinham se distraído, o colocaram para fora da piscina.

Na vez seguinte, o olhou com um olhar dolorido, dizendo por que não me deixaste morrer?

Porque tua vida é importante, deves superar toda tua dor, seguir em frente, poderás andar antes de mim.

Mas tens tuas pernas?

Mas não me servem muito, pois estão mortas.

Lhe estendeu a mão, Howard, o meu é Bruce, como o homem morcego.

Ficaram rindo disso.  Levaram um tempo para falarem do que lhes tinha acontecido.  Quando disse a Howard que seu pai tinha atirado nele, que tinha tido uma infância horrorosa, deixou de reclamar.  

Em breve Howard, estava experimentando próteses, realmente começou a andar antes dele, ele continuava não sentindo as pernas, mas não se importava, ia a universidade, tinha hesitado muito que carreira queria seguir.   Tinha pensado em medicina, mas viu que seria difícil, por isso optou por outras das coisas que gostava, matemática pura, física.   Mas o que mais lhe apaixonava era a matemática.

Nos primeiros dias de aula, o professor foi colocando um teorema no quadro, quando terminou, ele já tinha a resposta, pois tinha feito o mesmo.  Pediu para falar, o senhor cometeu um erro de proposito para que os alunos não encontrem a solução. 

Levante-se venha até aqui, corrija o meu erro.  Ele foi em cadeiras de rodas, o outro não tinha percebido, como havia um estrado o professor pensou que ele não iria subir, mas nem por isso, seus braços eram fortíssimos pelos exercícios que fazia.  Inclinou a cadeira, deu um impulso, foi até aonde estava o erro, mostrou,  pediu a um colega, venha aqui, me ajude, não tinha vergonha de pedir ajuda.  Indicou como tinha que seguir, bem como a resposta.

O professor disse que tinha ganhado dois pontos, pois tinha percebido o raciocínio, bem aonde estava o erro proposital.

Quando ele disse ao professor, que já tinha resolvido todos os teoremas, as teorias que seriam a classe esse ano.   Lhe fez um exame, ele acertou tudo, inclusive um que o professor, tinha escrito errado, ele consertou, foi aprovado,   Acabou terminando a Universidade em dois anos, agora com 23 anos, se questionava o que fazer.  Continuava não sentindo as pernas, o médico no último exame, lhe tinha dito que suas reações eram normais, mas que talvez fosse uma coisa psicológica.

Por isso hoje queria tentar a barra. Ficar em pé para ele era fundamental.  Dois enfermeiros o ajudaram a se colocar na barra.  A sensação de estar em pé, com sua música preferida de fundo, eram fantástico, sentia vontade de vencer.  Apoiou  os braços na barra, tinha força suficiente, seu corpo musculoso, era impressionante.  Levou o direito para frente, depois o esquerdo, nem que se arrastasse iria até o final.  Qualquer coisa o distraiu, retirou o braço direito da barra, mas continuava em pé, a perna se deslizou para frente.  Tinha dado o primeiro passo. 

Semanas depois já conseguia mover as pernas na piscina.  Até mesmo sair dela sozinho, se sentar na beira da mesma, conversar com seu amigo Howard, que disse que o psicólogo lhe daria alta em breve.   Estava louco para voltar para sua cidade no interior do Texas.   Nada me segura aqui.

Ia dizer para ficar, mas não se atrevia, ia perder um amigo, talvez seu primeiro amigo na vida.

Howard riu, dizendo, precisas ver tua cara, não queres que vá embora, diga, mas tens que dizer por quê?

Vou perder o primeiro amigo que tenho na minha vida, vai ser difícil, vou sentir muito tua falta.

A resposta tampouco esperava.

Eu de ver esse corpo incrível que tens, estavam só os dois na piscina, sentados lado a lado, caramba vou ter que tomar iniciativa de tudo. O puxou para ele, lhe deu um beijo na boca, sem ti, não sei o que faria.  

Foi melhor do que pensou, mas ainda era difícil se manter em pé, a não ser com muletas, o médico tinha lhe falado que em breve ele poderia usar bengalas.

Estava sozinho em casa, o convidou para ir até lá, teve a primeira relação sexual de sua vida, mas de qualquer maneira Howard foi embora, de um dia para outro disse que tinha que partir, pois sua família necessitava dele.   Foi uma despedida cruel.

Ele precisava encontrar um emprego, mas claro, tinha escolhido uma profissão difícil, se candidatou uma pós graduação no MIT, Massachusetts Institute of Technology, mandou todos os trabalhos, esperou ansiosamente.

Sua tia nessa época voltava de uma viagem, em que tinha estado mais de seis meses fora, o apoiou para conseguir o que queria.   Em breve estarás andando normalmente, nada mais natural que sigas tua vida.   Eu poderia me aposentar daqui uns três anos, mas penso em seguir trabalhando, afinal foi o que fiz a vida inteira.

Ele foi aceito, isso encheu seu coração de esperança, lá continuaria sua reabilitação, bem como podia usar a piscina da universidade.

Se dedicou com afinco, buscou uma coisa que fosse interessante para a pós graduação, embora num primeiro momento ficasse decepcionado com os professores, esses mantinham uma distância considerável com os alunos.  As perguntas, as dúvidas, eram tudo com hora marcada, com antecipação.                 As vezes quando chegava seu momento de falar com o professor, ele mesmo tinha resolvido sua dúvida,  mas nem assim recebia uma felicitação, finalmente entendeu que esse era um procedimento de todos.           Aproveitou seus momentos livres para fazer cursos de língua, para ajudar nas suas pesquisas.          Viu num quadro, um chamamento a uma análise matemática de alto rango para o exército, por curiosidade foi, era para a agência espacial.   O salario era bom, mas falou antes com sua tia.  Ela lhe disse para pensar muito era uma vida sacrificada, isolada, continuaria tendo poucos amigos, lhe passou um número de celular, levou dois dias para conseguir falar com a pessoa.   O homem que o atendeu, um amigo dela, lhe disse que depois o chamava, pois vinha de dois dias sem descanso, estou muito cansado, preciso dormir.

Realmente devolveu a chamada, quando lhe fez a pergunta que o preocupava, o outro foi claro, viveras num gueto, estou aqui a cinco anos, mal sei os nomes dos meus  companheiros, embora passemos o dia inteiro fechados numa sala.  As vezes como ontem, quando me chamaste, faziam dois dias que não dormia, estou esperando acabar o meu contrato para cair fora, estou totalmente isolado, os outros tem família, eu não, chego a uma casa vazia, como comida congeladas, ou sanduiches.  Pode ser interessante a nível intelectual, mas chegas a uma idade que o nível intelectual só não compensa.

Quando pediram sua resposta, declinou, tinha vivido toda sua infância e juventude fechado em si mesmo, precisava de gente para viver, nem ali no MIT, tinha feito amizades,  começou sim a sair, procurar viver.   Mas como as pessoas estavam todas viradas para seu mundo particular, era os famosos romances de uma noite, depois era capaz de encontrar a pessoa, esse sequer dizer bom dia.

Recebeu uma oferta para a Universidade de Nova York, aceitou, era um contrato de dois anos, para substituir um professor que fazia pós-graduação na Alemanha.

Seu primeiro dia de aula, foi um desastre, todos alunos, ali com um celular na mão, esperando tudo de mão beijada, fez o que seu professor tinha feito, colocou no quadro um teorema com dois erros,  ficaram desesperados, mas não encontraram a solução.    Ele parou no meio da sala, fez a pergunta, vocês analisaram tudo que está no quadro.  Todos responderam que sim.

Nada estranho, silencio, levaram até o final da aula para descobrirem os dois erros.  Um dos alunos reclamou que isso era ter que pensar muito.   Que o professor anterior, lhes dizia o exercício do livro, nada mais. 

Bom eu como não sou o professor antigo, aviso, minha aulas são para pensar, não quero ver nenhum celular, em cima das mesas.   Estão aqui para pensar, não para passar o tempo.

Com alguns funcionou, ele ficou surpreso, pois pensava que os que escolhiam essa matéria, era porque gostavam de matemática.   Deu um exame surpresa, só dois podiam dizer que teriam sido aprovados.   Abriu sua sala para consultas, nenhum aluno.

A única vantagem que tinha, era que começava a ter vida social, saia para jantar, conheceu gente nos bares, teve aventuras, ia aos museus pela primeira vez, a aprender arte.  Enfim tinha seu lado bom.

Agora as turmas que tinham três aulas na semana, um dia usava para dar uma prova.  Resolveu fazer uma coisa, colocava a teoria inteira, com final, tinham descobrir um erro colocado ali de propósito.  A maioria começou a mexer a bunda como ele dizia, um deles, que se achava um sabe-tudo, disse que isso não era motivação.   Então o desafiou a encontrar os erros.  Esse por mais que revisava não encontrava.  Mostrou que eram duas besteiras, uma virgula, uma letra mal posta.  Se vais te dedicar a pesquisa, um pequeno erro será uma tragédia.

A que pensas em te dedicar. O rapaz disse que pensava em entrar para a Nasa.

Bom eu fiz o teste de seleção da Nasa,  não aceitei por muitos motivos pessoais, me lembro perfeitamente do exercício principal, vou colocar no quadro, todos tem uma semana para resolver, podem vir me consultar para qualquer dúvida.

Pela primeira vez, alguns alunos foram a sua sala.  Aproveitou para conversar com eles, para saber a meta de cada um.  A maioria era ambiciosa, mas desmotivada.  Procurou saber aonde estava o problema.   Não foi difícil, a maioria era de família rica, na verdade eram inteligentes, mas não tinham problemas a curto prazo.

Entendeu, aonde estava o problema, a muito custo, buscando motivar os alunos, aguentou os dois anos de contrato.   Quando o professor voltou, conversou com ele, como fazia.

Não me preocupo muito, tenho meu trabalho a parte, o que quiser aprender que se esforce, os que não, deixo irem ver a vida.

Se sentia frustrado com a vida de professor.   Um conhecido, com quem tinha saído duas vezes, lhe disse que ele vinha do sul, de Georgia.

Pensou muito, mandou seu curriculum, para o Instituto de Tecnologia de Georgia, foi aceito para o semestre seguinte.  Nesse tempo o contratavam para ser um professor com a obrigação de consultas para os alunos.   Decepcionado com o de NYC, quase não aceitou, mas depois pensou, esse tempo eu poderia ir me adaptando a cidade.   Lhe ofereceram um alojamento, num edifício para professores, ele era o único que não tinha família.

Foi interessante.  Ele tinha que assistir aulas com os alunos, depois os recebia, sabendo o que o professor tinha proposto.   A ânsia de aprender, principalmente dos bolsistas, a maioria eram negros, era diferente.  Tinha paciência de reexplicar numa linguagem coloquial, a teoria, dizia sempre vocês tem uma arma excepcional, a cabeça, façam com que funcione, questione o porquê, recomessem o exercício quantas vezes façam falta.  Descobriu no meio deles um de uma inteligência impressionante, mas cometia falhas por sua ansiedade.

Conversou muito com ele, era um mulato sarará, levou um tempo para entender, pois não o via em nenhum grupo.  Este lhe explicou, para os brancos, sou negro, para os negros sou branco, então não sei aonde me situar.

Contou a ele, seu exemplo, eu fui em minha época de estudante um paira na escola, meus pais eram alcoólicos, volta e meia o carro de polícia estava em frente a minha casa, os alunos recebiam ordens dos pais para não se misturarem comigo.  Passei todo esse período em silencio, passava meu dia na biblioteca estudando.  Hoje até agradeço essa gente não se aproximar de mim, pois eu fui em frente, eles ficaram para trás.

Se precisas falar com alguém, fale comigo, estarei aqui pronto para tirar dúvidas, conversar contigo.  Tinha uma aluna, negra, muito especial, era inteligente, agora vinha sempre tirar dúvidas, disse que sentia uma pressão impressionante, pois tinha que ser a melhor, sou a primeira da minha família a ir a uma universidade.

Tens que pensar que isso é uma carga fútil.   Es a primeira, mas nem por isso a única, quantas outras mulheres fora a primeira a dar um passo em alguma direção.  Também sofreram dúvidas, angústias, tudo ao mesmo tempo.   Não tinham ninguém em quem se apoiar, mas você tem, suas amigas, faça amigos.

A resposta foi que a maioria das mulheres que estavam ali, procuravam um casamento, com algum homem que tivesse futuro, quanto aos homens, o primeiro que queriam era se aproveitar para fazer sexo. 

Ele foi juntando um grupo de pessoas que tinham um objetivo, mas tinha um problema, não eram práticas.   Os reunia uma vez por semana, para conversarem, trocarem ideias, as vezes ria muito, porque avançavam o sinal, agressivamente.    Isso ele cortava rapidamente, voltando ao raciocínio que não tinham que provar nada a ninguém, a não ser a eles mesmos.

Sempre falava com a tia, volta é meia, falavam dos problemas que encontrava, nunca deixava de perguntar pelo médico que o tinha operado.  Estava sempre pelo mundo.

Estava corrigindo os últimos exames, teria agora 3 meses de férias, quando foi chamando dizendo que sua tia tinha sofrido um enfarte muito perigoso.         Pegou o primeiro voo para San Francisco, foi direto ao hospital, foi cumprimentando enfermeiras, seguranças, todo pessoal que tinha conhecido em sua estadia ali.   Caminhava bem, apoiado numa bengala.    Quando chegou ao quarto aonde estava a tia, lá estava o médico.                      Agora, com muitos cabelos brancos misturados com os loiros.  Se abraçaram, meu salvador, meu herói, foi dizendo de brincadeira, como está a paciente.

Rebelde como sempre, mas já está melhor, um pequeno contratempo com o braço direito, mas com fisioterapia vai melhorar.

Foi ficando cuidando dela, fazia a comida, conversavam, as vezes o médico vinha vê-la, o que para ele era um prazer.  Escutava o que dizia, reclamava que não aguentava mais ver as merdas que via nos hospitais de campanha.   Esses meninos não têm culpa dos governantes que temos que por qualquer motivo provocam uma guerra.

Tenho dinheiro guardado, vou tirar uma licença sem vencimento.  Não sei como consegues seguir trabalhando?  

Ela respondeu que era o que gostava.

Se virou para ele, por que ficas sempre me olhando desse jeito?   Nunca falas nada, estás satisfeito com tua carreira.

Bom a primeira, eu quando acordei da operação, quando te vi, pensei que estava no céu, que eras um anjo que vinha me ajudar, por isso não me canso de te olhar.

Segundo, estou tão frustrado como tu, tive que inventar sistemas para incentivar a gente jovem a pensar, a querer alguma coisa.               Cheguei a conclusão que os que sofreram, os que tem problemas são os que vão a luta, os jovens de hoje estão mal acostumados, tem tudo de bandeja, com seu celular pensam que são reis do mundo, não fazem um esforço para usar a cabeça, perceber nada em sua volta.             Então reúno os poucos que querem ir à luta, a eles ensino realmente como buscar algo.   No último semestre, esse grupo se resumia a 3 pessoas, é muito frustrante.       Creio que procuram que sejam como eu.

Nunca tinham se dado a mão, quando o acompanhou até a porta, ao apertarem a mão, sentiu algo, não sabia explicar, ficaram os dois ali, um olhando para o outro, foram se aproximando, acabaram se beijando.    Bob disse que voltava no dia seguinte para ver a paciente.

Mas no dia seguinte a paciente estava morta,  tinha morrido durante a noite, um outro enfarte fulminante a levou.   Ele pela primeira vez sentia a dor real de pena de perder alguém, quando soube que seus pais tinha morrido, a sensação foi de alívio, não de pena.

Bob o ajudou a resolver tudo, disse depois que tinha alugado uma casa na praia, que iria passar uns dias ali, se ele queria ir junto.

Tinha vontade de dizer, contigo, vou até o inferno.

Bob, falou muito da amizade dele com sua tia, nem sei como ela sobreviveu nesse mundo cheio de homens com preconceito, mas nunca a escutei reclamar de nada.   Sempre foi batalhadora, a pessoas a seguiam no trabalho, como uma messias.

Pois é eu pensei em estudar medicina por causa dela, por ti também é claro, mas estava numa cadeira de rodas, ficava me imaginando numa sala de operações, não me convencia.

Bob disse que o mar tinha sempre lhe fascinado, venho de uma família de pescadores, fui o primeiro ir a universidade, na minha área de especialização, só no exercito encontrei uma saída, foi quando conheci tua tia.                Virei seu escudeiro, íamos a lugares terríveis, quando voltava necessitava de um psicólogo para colocar tudo para fora.    Ela ao contrário, guardava  tudo, dizia que em sua juventude tinha visto merdas também, que podia aguentar.

Quanto a sua vida pessoal, era como bater contra um escudo de aço puro, nunca ouvi falar de relação nenhuma, nada.

Eu ao contrário, a romance frustrado, corria para contar para ela.  Ela percebeu que tu gostava de mim, me disse que eras uma criança, que eu não me aproximasse.   Mas te vigiei todos esses anos, ela me contava todas vossas conversas, algumas vezes estava na casa dela, te escutava falando de tua vida.  Ela me dizia para participar, mas achava que não tinha esse direito.  Mas nosso beijo de outro dia, me fez ver, que apesar da diferença de idade, eu também me sinto atraído por ti.

Sempre serás meu anjo, isso tenho certeza, pois as vezes sonho com isso, principalmente se me lembro alguma coisa do meu passado, apareces no final para me ajudar.

Nessa noite na casa da praia, tiveram seu primeiro encontro sexual.   Nunca tinha acontecido nada com ele a esse nível.  Foi emocionante.    Passaram os dois rápidos demais, pois falavam sem parar.  O que vais fazer afinal, não quero te perder.

Nem eu a ti.   Creio que aceitarei qualquer convite para ser médico num hospital aonde tu vivas.

Isso não vale, eu ia dizer a mesma coisa, ficaram as gargalhadas.   A universidade de Georgia queria que seguisse dando aulas, mas ele queria ter a liberdade de dar aulas de outra maneira.

Bob disse que mandaria um curriculum seu ao hospital da cidade.  Foi aceito, mas antes foram até lá para ver.  

Ele propôs a universidade, fazer uma coisa diferente, daria um teste aos alunos, escolheria os mesmo, para um curso de como pensar a matemática, que isso pudesse fazer com que esses alunos pudessem ir em frente.

Concordaram, dizendo que seu tempo ali, tinha aumentado o número de alunos, interessados, que ele podia fazer como queria.

Colocou um anúncio,  pelo menos cinquenta alunos se inscreveram, ele elaborou os exercícios como pensava, tinham não só que procurar os erros, mas como pensar.   Os que passassem teriam uma entrevista.

No dia do teste, um aluno chegou alucinado, tinha tido um problema na sua comunidade, chegava 10 minutos atrasados, era um mulato com os cabelos Black Power, parecia a juba de um leão, lhe disse que teria que correr.   Foi o melhor teste, estava perfeito.

Dos cinquenta, selecionou, 30 que tinham mais ou menos resolvido as questões, as entrevistas nem tanto, a maioria das respostas eram, queriam fazer o curso com ele, pois lhes daria prestígios.  Os que lhe diziam isso, os mandava para casa, para trabalhar no campo, porque prestígio se ganha trabalhando, não porque o professor tem um curriculum bom.

O tal aluno, disse que em primeiro lugar, precisava escapar do gueto que vivia, preciso ser alguém, amo a matemática, as vezes dormindo resolvo as questões que não pude durante o dia pois tenho que trabalhar.   Lhe lançou um teorema complicado, terás que pensar, resolver  mentalmente, se fazer cálculos, usando somente a tua cabeça.   O rapaz fechou os olhos, 10 minutos depois deu a resposta certa.

Não te candidates-te a nenhuma bolsa de estudos?

Não tive nenhum professor para me apoiar, aqui se necessita disso. 

Pediu o curriculum dele, discutiu com o reitor, até que conseguiu uma bolsa de estudo completa para ele.

O problema dele, era aonde morar.  Ele dividia seu apartamento com o  Bob, embora ele sempre estivesse em urgência dos hospital, pois era aonde gostava de trabalhar, disse que precisava de adrenalina.

Fale com ele, explique que vivemos juntos, se ele quiser um quarto, o outro está vazio.

Foi o que fez com, chamou o aluno para conversar, ele não escondia que vivia com o Bob, ninguém tinha nada a ver com sua vida.

Disse que só podia lhe ajudar dessa maneira, lhe oferecer o quarto que sobrava de sua casa, contou que vivia com o Bob, mas que era uma casa diferente,  a maior parte da sala, esta ocupada com meu lugar de trabalho, um pequeno espaço, com um sofá, para ver televisão quando preciso sair da minha cabeça, tudo muito simples, não preciso de nada mais que isso, Bob é igual, vive para trabalhar na Urgência do hospital, passou a vida viajando de hospital em hospital do exército, de guerra em guerra.  É uma pessoal especial.

Se quiseres amanhã, ele está livre, venha jantar, conversar com a gente. Se aceitares, pode ficar lá em casa.

Foi um jantar descontraído, riram muito, pois gostavam de coisas parecidas, quando contou aos dois a música que gostava, apesar que quando estava em casa, pouco escutava música.

Geo, ou Geoffrey, amava o Jazz, sempre que posso vou a algum lugar escutar.   Um dia se quiserem podemos ir juntos.

Na semana antes de começar as aulas, trouxe suas poucas coisas, disse que até esse momento vivia na casa de sua tia.  Ela deve estar contente em se ver livre de mim, ao mesmo tempo vai sentir minha falta, pois apesar de ter filhos da minha idade, eu era o único que levava dinheiro para casa.    Os dois estão metidos com bandas.

A convivência, não foi difícil, gostava de escutar os dois conversando, debatendo algum assunto, as vezes entrava na discussão com um ponto de vista diferente.

Começou as aulas, desta vez, avisou ao reitorado, a matéria, levei meses preparando, não admito interferências. Quero que eles sejam os alunos mais brilhantes da universidade.

Só uma pessoa desistiu no meio do caminho, o resto seguiu em frente, quando acabaram o curso todos puderam optar por excelentes pós graduações.   Geo, disse que preferia que ele o orientasse na tese que pensava fazer.  Se o aceitasse, seria a primeira tese em matemática pura na universidade.

Logo outras universidades se interessaram no seu método de trabalho.  No ano seguinte, uma série de professores se interessaram de assistir ou mesmo receber aulas com ele de como dar o curso.    Começou a escrever sobre isso.   Agora seu tempo estava quase todo ocupado, menos para o Bob, este disse que tinha perdido tempo, antes tivesse te procurado antes, mas eras muito jovem, tinha medo.

Estava fora dando um curso para professores em San Francisco, quando Geo lhe chamou, Bob tinha tido problemas no trabalho, tinha sido raptado por uma banda, para tratar de um chefe que tinha levado tiros.    Apareceu duas semanas depois, o tinham ameaçado de todas as maneiras.   Eu achava que na guerra era pior, mas a guerra aqui da cidades é horrenda.

O pior foi que a polícia o passou a pressionar, para dizer aonde tinha estado, ao mesmo tempo que uma outra banda queria saber a mesma coisa.   Um dia saindo do hospital, se viu no meio de um tiroteio entre a polícia, uma banda, morreu no mesmo instante que uma bala perfurou sua cabeça.

Foi enterrado ali mesmo na cidade, com honras militares.

Ficou lhe faltando uma parte dele, Geo se preocupava, as vezes o via respirando com dificuldade.    Lhe dizia que era a pressão que sentia pela falta do Bob.           Mas foi levando sua vida em frente, agora era convidado para dar seminários.    Chegou a conclusão, que isso pouco funcionava, pois encontrava sempre a maioria dos professores desmotivados.             Alguns não estavam preparados para dar aulas, buscavam um porto seguro para suas vidas, se conformavam com isso.

O duro era chegar a conclusão dos conflitos de gerações, o mundo andava rápido demais, muitas novas tecnologias, que a maioria nem entendia, usava sem fazer um esforço para pensar, para discutir.   Quando se sentava no campus da universidade, o que notava era isso, a maioria nem conversava entre si.

No ano seguinte quando entrevistava os alunos, falava disso, que não permitia o uso de acessórios.  Quando perguntavam o que era acessórios, lhes indicava o celular que tinham na mão, estas numa entrevista que vai definir tua vida, ao mesmo tempo, esperas que esse animal viva um segundo para ti.  Isso não é permitido.

Agora estava preparado, exigia que os alunos, apresentassem propostas, análises de como eram escritos os algoritmos, que eram desenvolvidos matematicamente para fazerem os computadores funcionar, bem como os celulares.  Fazia os exercícios de matemática pura em cima disso.   Ele mesmo teve que ler uma quantidade imensa de textos, livros, junto com Geo para entender tudo, colocou na sala de sua casa, um quadro aonde desenvolvia as questões, voltava a vibrar com a matemática.

Os alunos ficavam loucos.         Quando alguém ousava a consultar o celular, ele exigia ver qual programa estava usando.               O aluno devia decifrar o  algoritmos do mesmo, com pena de suspensão.  

Convidava gênios dessa nova safra de homens de computadores, de aplicações, embora a maioria nem soubesse desenvolver um trabalho matemático em cima do tinha construído, analisavam o programa, aonde por não ter usado a matemática, a coisa deixava passar segurança.    Muitos desses novos gênios agora vinha fazer aulas com ele.

Conseguiu que as companhia dessem bolsas de estudos para esses jovens, depois fariam estágios nas empresas.   A maioria voltava frustrada, pois tudo era feito nas cochas como ele dizia, havia uma necessidade de alimentar a fome do ser humano em novas tecnologias  que eles jamais saberiam usar em profundidade.

Geo um dia lhe disse que se prepara-se que iam sair de noite, pensou que era para ir a um concerto de Jazz em algum bar.  Já tinha uma desculpa na ponta da língua, quando Geo lhe disse ao ouvido, pois estavam na universidade.  Vamos a um encontro de hackers da internet profunda, a negra.

Foi um amor à primeira vista, todos ali eram jovens, por si só tinham desenvolvido processos de trabalho, através da intuição, ali encontrou alunos que realmente gostavam de matemática na informática.  Ele mesmo aprendeu a trabalhar.    Se reunia com eles duas vezes por semana, cada lado trazendo uma informação diferente.

Entravam nos espaços livres dos programas do governo, isso o divertia, pois não tinham ideia de que esses buracos eram criados por não saberem usar a matemática.

Escreveu um livro, sobre os buracos justamente num programa usado por uma das grandes empresas, essa o tentou de todas as maneiras o fazer calar-se.  Estava sendo vigiado em sua casa, se sentiu jovem outra vez, se escapou, se reuniu com o grupo, bloquearam todo o programa, fizeram a empresa reconhecer as falhas, que nunca eram testadas, embora os usuários reclamassem.

No porão do edifício, descobriu um lugar longe de tudo, ali criou sua internet profunda, já que o estavam sempre vigiando.   Divulgou por ali, o dia que o FBI, entrou em sua casa, que reviraram sua mesa de trabalho, no dia seguinte todos os jornais de internet divulgavam o fato, a Corte suprema foi chamada para se pronunciar a respeito.  Um dos jovens tinha gravado as escutas que os juízes tinha sido ameaçados pelas agências do governo, em nome da santa pátria.

A confusão foi grande, ninguém sabia aonde ele estava.  Ficou desaparecido dois meses, mas estando ali mesmo, nunca tinha saído do edifício de sua casa.

Quando o FBI, encontrou o local da rede profunda dos jovens, ele que estava interligado, conseguiu borrar tudo antes que conseguissem alguma informação, fez aparecer como se fosse um lugar de encontro de jovens para jogar, nada mais.

Conseguia ver os agentes furiosos, pois não tinham conseguido nada.

No momento, ele desviava tudo, através de China, Índia, outros países vulneráveis.  Mas claro, sabia que chegaria sua hora.  Se dedicou simplesmente a trabalhar o conceito matemático dos programas, aonde não se conseguia entrar.   Testava sempre o sistema, para ver se havia alguma lacuna.   Descobriu que um deslizamento dos próprio uso dos programas causava isso, quando chamou Geo para ver como tinha descoberto, este lhe trouxe comida, como fazia todo dia.   A única observação que fez, você já se olhou num espelho?

Realmente não.  Tudo que fazia era trabalhar, ir dormir, tomar comprimidos, porque lhe doía a coluna.  Precisava de movimento. 

Depois do achado, passou a informação a todos os hackers do mundo oculto.  A matemática não tinha nada a ver com os buracos ocasionados, sim o sistema de energia, bem como o uso sucessivo de programas, como esses se moviam na rede, causava isso.

Combinou com Geo, este o retirou de seu esconderijo uma noite muito escura, o levou para um novo lugar.   Só levava um disco duro externo, com todos seus descobrimentos.

Numa casa de praia, afastada do centro urbano, se dedicou a escrever um livro sobre isso, Geo o ajudava.  Discutiam as conclusões.  Agora era encontrar um meio de lançar isso nas redes, resolveu que primeiro faria uma edição digital, ao mesmo tempo que negociava com uma editora.

Foi uma bomba no mercado, algumas grandes empresa quiseram tomar para si o achado, mas claro, tinham medo da reação.  Já que tinha sido divulgado antes digitalmente na internet.

Deu por terminado essa etapa.   Resolveu fazer um exame médico, se constatou que devido a falta de exercícios, justamente aonde tinha se operado, formava uma espécie de tumor, fizeram uma biopsia, não dava como canceroso, coletaram material para mais biopsia.   Teria que ser operado, mas claro,  o risco de ficar outra vez em cadeira de rodas era grande.

Pensou muito a respeito, conversou com os médicos, afinal já estava numa idade, na qual importava a qualidade de vida, voltar a cadeira de rodas, cortava isso, bem como a possibilidade que ir perdendo os movimentos.

Decidiu que não.   Voltou para a casa de praia, ficou ali retirado, escrevendo seu livro de memorias.  Entregou tudo ao Geo, um belo dia, a praia estava vazia, fazia um dia horrível, cinzento, ondas altas, saiu para caminhar, ao longe avistou carros negros do FBI, tinham descoberto sua localização,  como quem não quer nada, foi entrando no mar, sabia que se desta vez o pegavam, ficaria muito tempo sem liberdade.

Isso ligado a qualidade de vida, era essencial, liberdade.  Foi entrando, deixando-se levar pelas correntes.  Quando os homens que estavam em sua casa se deram conta, já era tarde demais, ele um exímio nadador, se deixou levar.

MORALES

                 Eram conhecidos os irmãos Morales, eram os heróis da garotada do bairro, quando entravam numa quadra de basquete, ninguém podia com eles. O mais interessante se olhassem seus pais, que eram de estatura mediana, ninguém ia imaginar esses dois homens de dois metros de altura.  Eram fantásticos. Tinha nascido com uma diferença de poucos minutos um do outro.

Na altura Jeronimo ou Gero, nem Maria, tinham ido ao médico pois não tinham dinheiro para isso, ela só foi a uma clínica aonde lhe fizeram os exames periódicos.  A parteira se assustou, pois no momento do parto, como era prematuro, chamou uma ambulância a levou para o Hospital.    Lá nasceram os dois.   Ninguém daria os vendo agora, que tinham sido dois meninos pequenos, mas o fato que chamou a atenção, era que vinham de mãos dadas.  A posição do segundo quase mata Maria, mas conseguiram inverter sua posição, soltar as mãos, assim Marco nasceu berrando como um louco, só ficou quieto na hora que o puseram ao lado de Ricardo. Os nomes dos dois, eram os de seus avôs.  Maria não dava abasto para dar de mamar, logo tiveram que passar para a mamadeira.  Tinham uma fome de fazer gosto.  As pessoas vinha olhar os dois no berçário, pois se fossem separados, berravam, choravam, o jeito era os ter juntos.  Um adivinhava o que o outro fazia.  Eram tão iguais que era difícil identifica-los, mas Maria o sabia, um tinha uma pequena marca no braço era uma coisa ínfima, mas por ali, ela os identificava.

O pai, que babava pelos dois, seu maior prazer era chegar em casa da oficina mecânica que trabalhava, se lavar, sentar-se no sofá, ficar com um em cada braço, conversando, foi assim a infância deles inteira, juventude, sempre que o pai chegava, estavam em casa o esperando para ver um telejornal, ou um jogo de futebol.   Nenhum dos dois gostava de futebol, gostava de nadar, algo de beisebol, mas amavam jogar basquete.  Quando a primeira vez que viram um partido, ficaram alucinados, no dia seguinte com uma bola pequena, começaram a treinar passar bola um para o outro.    

Por mais que um tentasse enganar o outro, era impossível.  Era como se o outro lesse no movimento do corpo do irmão, o que este ia fazer.

Quando queriam uma coisa, eram capazes de levar os pais a loucura.  Antes de tudo, sabiam todos os truques, para convencer o pai, tinham que saber a utilidade do que queriam, nada que fosse uma besteira.   Tinha que servir para alguma coisa.

Com dez anos, de uma hora para outra, começaram a esticar, a mãe não dava abasto de aumentar o comprimento das calças, as camisetas ficavam pequenas em seguida.  Por sorte Maria tinha uma família imensa, todos seus parentes tinham filhos homens, então as roupas usadas eram sempre benvindas.               Eles só pediam no natal, um tênis próprio para jogar basquete.  Nunca pediam brinquedos, nada eletrônico.          Mas esse tênis era sagrado, só o colocavam na hora de jogar, depois voltava para a mochila, tinham um pé imenso.  Com 17 anos já tinham 1,90 de altura, o jogo era tudo para eles, mas eram além disso uns estudantes impressionantes.   Os professores os amavam, pois eram fascinados por aprender, nada de obriga-los a estudar.  Chegavam em casa, sabiam que antes de sair para jogar uma partida nos fundos da casa, teriam que ter a tarefa pronta.   Um ensinava o que o outro não sabia, a única diferença estava nisso, um era apaixonado por matemática, outro por geografia, botânica.  Voltavam todos os dias com livros da biblioteca. 

O mais interessante como dizia a bibliotecária, eram os únicos alunos que procuravam livros de física, biologia, matemática, nada de besteira, romance coisas assim.                Isso eles levavam sempre um para sua mãe, esta adorava romances.

Os dois economizavam tudo que podia, seu preocupação era como os poderiam mandar a universidade?   Era um sonho que eles tiveram que abandonar no meio do caminho.

A partir dos 15 anos, quando chegava o verão os dois arrumavam um trabalho, mas tinha que ser juntos.  Trabalhavam em algum que pagasse bem, davam todo o dinheiro para a mãe, para o futuro diziam eles, sabia que ela tinha um conta no banco para isso.

Faziam parte da equipe de basquete do instituto, não arrumavam namoradas, como estavam todo momento juntos, os companheiros até gozavam os Morales, devem inclusive cagar juntos, o que no fundo era uma verdade.  A casa tinha dois banheiros, Gero teve que fazer outro fora, pois os dois queriam ir ao mesmo tempo.    Ele dizia agora, quem chegasse primeiro no banheiro de dentro ganhava.  Quase sempre empatavam.

Essa união dos dois, fazia felizes seus pais, ver os dois conversando, já com 17 anos, eram incrível, tinham metido na cabeça que teriam que conseguir uma bolsa de estudo para serem jogadores de basquetes para irem juntos a universidade, mas nenhum dos dois sabia ainda o que queria.   Eram as notas máximas em todas as matérias.  Nunca sofreram bullying porque quem ia buscar uma briga com os dois.  Ninguém era tonto.

Quando os olheiros das universidades, começaram a procurar em Santa Fé, possíveis jogadores, deram com eles.  O que era difícil, nas equipes tinham normalmente negros, principalmente pela costa oeste, mas por ali, procuravam alunos brancos, deram com os dois jogando.   Um inclusive, quando percebeu, estava torcendo pelos dois, como só existissem eles na quadra.

Foi quando brigaram pela primeira vez.  Tiveram uma discussão monumental, cada um queria ir para um lugar diferente.   Um queria estudar, matemática, física, o outro queria estudar o que lhe entusiasmava Botânica,  biomédicas.    Um queria ir para MIT Massachusetts Institute of Tecnology, o outro ali em Santa Fé mesmo, na cidade deles.   A bronca dos dois foi imensa, com direito a chantagens inclusive.  Depois de tanto tempo vais me deixar sozinho, era o que perguntava um ao outro.    Os pais não se intrometeram, estavam contentes, pois tinha bolsas de estudos, não só na área de esportes, como no educativo, visto os dois terem excelentes notas, nada abaixo do notável.

Inclusive tinham ganho sempre juntos os concursos da escola, eram sempre juntos que ganhavam.   Nas provas os professores os colocava cada um num extremo da sala de aula, depois comparavam as provas, era basicamente idênticas, inclusive no uso das palavras.

Afinal chegaram um acordo, que sim iriam, mas se falariam todos os dias por celulares, as pessoas riam, pois podiam passar uma ou duas horas falando um com o outro, falando sobre o que tinham feito.

No MIT, Marc como o chamavam os da faculdade, dividia quarto com um ao extremo contrário dele, filhinho de papai, que estava ali para gozar da vida.  Basicamente não se viam, o outro chegavam, quando ele se levantava.  No fundo riam dizendo que isso era bom, pois não atrapalhava o Marc estudando.

Seu grande problema estava nas quadras, sentia falta do seu irmão, disse ao entrenador, prefiro ficar na retranca, do que jogar na frente, vai ser difícil encontrar em outro jogador o que eu tinha com meu irmão.  Passou a treinar, jogar a bola de muito longe, todo tempo livre, ele estava na quadra sozinho, lançando a bola do outro extremo da quadra.  O que era Capitão não gostava, pois dizia que não jogava em equipe, porque na posição que estava, capturava a bola, a atirava na cesta do outro lado da quadra, ganhando pontos duplos ou triplos.   Isso faziam com que os outros não brilhassem como ele.  Queriam ir jogar na NBA, mas claro os olheiros vinha olhar a ele.

Na verdade, o odiavam,  quando faziam festas ele nunca comparecia, pois era a hora da noite, que estaria falando com o irmão, entre uma festa, falar com o irmão ganhava sem dúvida, depois não bebia, não fumava, não tinha vícios.

Resolveram fazer uma maldade com ele, a festa estava rolando, o capitão mais dois, saíram de fininho da festa,  o encontraram dormindo em cima de um livro, o dominaram dando-lhe uma pancada na cabeça, abusaram dele, lhe encheram de porradas, o mesmo tinha cheirado cocaína, estava totalmente fora de controle, pegou uma cadeira, rompendo a perna dele.

Quando o companheiro de quarto chegou de manhã de uma festa, levou um susto, pois ele mal tinha pulso, chamou imediatamente a ambulância,  por pouco ele não morre, os pais vieram como loucos.   A universidade tentou abafar o caso, afinal o capitão da equipe era de uma família que doava dinheiro a universidade, o outro não passava de filho de mexicanos.

O pai ficou uma fera, a polícia da universidade, recebeu ordem de abafar o caso.  Depois de quase uma semana em coma, finalmente Marco abriu os olhos, a primeira coisa que viu foi o irmão com uns cabelos imensos, cheio de caracóis, de óculos, riu, estas diferente, mal te reconheci.  Recebeu abraços dos pais, mas queria mesmo era ficar de mãos dadas com o irmão.

Quando soube que a Universidade não faria nada, ficou uma fera, se descontrolou totalmente, voltou a estar em coma.    O irmão, se aproximou do seu ouvido, lhe dizendo, não se preocupe, eu me vingarei.

Maria tinha um irmão com quem quase não se falava.  Vivia no tráfico de drogas, com bandas de chicanos.   Os deixou tomando conta do irmão disse que precisava tomar ar.   Os dois sempre tinham sido os queridos do tio, nunca o marginaram, quando ele aparecia numa festa, corriam para ele, quando ficaram altos, o levantavam do chão, pois não era muito alto.

Falou com o tio o que tinha acontecido, que a Universidade, tentavam tapar o sol com a peneira, mas que ele queria vingança, já que a justiça não fazia nada.

Tinha ido a delegacia, mas diziam que se a polícia da Universidade tinha fechado o caso, era porque não era importante.  Um ainda soltou, um mexicano falando de justiça, aonde pensa que está.

O tio ficou uma fera, espera, vou falar com um amigo que tenho aí, sempre mando coisas para ele.  Coisas ele queria dizer drogas, mas não se preocupou.  Tinha um plano em mente, chamou um colega, com o qual desenvolvia um projeto, com relação, as plantas alucinógenas,  lhe pediu que lhe enviassem um extrato delas, que as queria mostra nos laboratórios dali.   Ao que tinham chegado, era que bastava uma quantidade mínima, para que a pessoa entrasse num estado paranoico, contando toda a verdade, bem como depois tinha espasmos, babando, entrando em estado paranoico.

O tio, perguntou aonde ele estava, espere aí, um furgão negro, ira até você, farão o que você queira.   Foi o que ele fez, pediu que sequestrassem os três, que conseguissem um lugar que não pudesse ser encontrados.  Pediu homens que se atrevessem a currar todos os três, deviam não ter tatuagem nenhuma, que fossem negros, pois ele ia filmar tudo.

Por sorte os três, saiam ao mesmo tempo da universidade, como se nada tivesse acontecido, sequestra-los foi fácil.  Todos estavam de negro, mascarados, sem tatuagem que o pudessem ligar com nenhuma banda.

Os levaram a um velho armazém, primeiro com uma agulha, molhou no líquido, lhes picou na base da coluna. Colocou o celular de tal maneira, que se vissem que lhe estavam fudendo, mas não quem.

Na hora pensou, até hoje fomos bons,  agora vão ver a parte negra de nossa personalidade.

Com a droga, eles ficaram loucos, o que era o capitão, pedia que todos o fudessem, que ele gostava disso de levar no cu.  Gritava de prazer.   Quando foi perguntado, porque tinham feito maldade com seu irmão, respondeu, que ele não passava de um mexicano, que tinha aprendido com seu pai, que eram uma sub-raça, como o outro se atrevia a querer ser melhor do que eles que eram brancos, ricos, que devia morrer por isso.

Em seguida, foram levados para um hospital, aonde foram jogados na calçada, sem documentos, sem nada, nus,  um desses de subúrbio que os médicos estão vendo merdas todos os dias.  Os levaram a emergência.

Ao mesmo tempo ele subia os vídeos na internet, para que escutassem as confissões, bem como sendo fudidos, as cena que o capitão da equipe, pedia sempre mais, um lhe colocava o pau na boca, ele chupava com gosto, pedia sempre mais.

Claro finalmente a polícia tomou conta do caso, foram até o hospital, lá estava ele com a família, em volta do irmão em coma.    Lhe pediram o celular.   Não tinha nada, tinha usado um de pré-pago, fornecido pelo traficante.

O mesmo tinha sido destroçado bem como qualquer vestígio que o pudesse ligar a qualquer coisa.

Como sempre estavam os três no quarto, as enfermeiras disseram que ele sempre tinha estado ali.

Quando a polícia foi embora, ele disse ao ouvido do irmão, nossa vingança foi consumada.  Agora vamos exigir da universidade uma fortuna por ter tentado acobertar tudo isso.  Arrumou imediatamente um advogado, as provas estavam no ar, um dos criminalista da cidade aceitou o caso, acusavam a Universidade de acobertar tudo, bem como proteger os alunos criminosos.

Esses quando foram finalmente encontrados, pois uma das enfermeiras viu o vídeo, chamou a polícia.  Eles tomaram alguma droga, que não aparece nos exames de drogas, não conseguimos encontrar nada.  Mas estão ainda em estado de alucinação, tudo que encontramos, é que os três tem uma picada na base da coluna.  Algo foi administrado via venosa.   Mas não sabemos o que.

Quando Marco saiu do estado de coma, foi melhorando, lhe contou o que tinha feito, que estava movendo uma ação contra a Universidade por não ter feito nada, ter escondido o assunto embaixo do tapete.   Agora o assunto é nacional, esses filhos da puta, estão fudidos, todo mundo sabe, saiu nos jornais, o caso está no tribunal, nem precisamos mover um dedo.  Quanto queres pedir por tudo isso?

A resposta do Marco o surpreendeu, pensou que ia negar pedir dinheiro.   Quanto precisamos para terminar na melhor universidade do pais, pagando,  uma pós graduação, tudo incluído para os dois. Esse é o valor exato.

Falaram com o advogado, esse disse que tinham tentado tirar o vídeo do ar, quanto mais tentavam mais se divulgava.  Os três rapazes continuam internado.  Terão que ir a julgamento, embora no vídeo estão soltos, inclusive o capitão esta sentado em cima de um negro, ao qual não se vê a cara, ou seja, eles fizeram porque quiseram, o argumento que foram coagidos não funciona.   Alegam que alguém injetou alguma droga, mas a policia descobriu que são clientes de um traficante de drogas da cidade, clientes regulares, algumas vezes inclusive pagam em cartão de crédito.    Nesse dia tinham comprado uma quantidade grande de pastilhas que liberam o libido, isso estava no sangue deles.

O pior é que o juiz é amigo do pai do capitão, inclusive desses de jogarem golfe juntos, toda semana, o fiscal também é amigo, ai está o problema.  

Não podemos fazer nada, todos os sábados, se reúnem num clube para almoçar.   Neste sábado agora, inclusive podem tramar como vão fazer.

Teria que descobrir qual o clube, falou de novo com o traficante, esse disse que devia muito ao seu tio.   

Preciso estar na cozinha na hora que forem servidos o pedido desses três homens.

Sem problema nenhum, uma das minhas empresas fornece coisas para o restaurante.

Estavam os três confabulando quando ele passou por perto, anotou o pedido dos três, mal levantaram a cabeça, como dizendo quem é esse merda que ousa interromper nossa conversa, sequer o olharam na cara, um outro serviu a bebida, cada uma continha uma micro gota do produto dele.

O escândalo foi monumental,  primeiro tiraram a jaqueta que usavam, depois os tênis, depois as calças, as camisas, cuecas, ficaram inteiramente nus, quando foram chamados a ordem, subiram em cima da mesa, falando mal de todos que estavam ali, nos somos a raça pura de América, fulano tem negros na família, assim foram falando de todos que estavam ali, claro sendo filmados ao mesmo tempo por todos os celulares dos presentes, ao mesmo tempo subidos na internet, inclusive quando a policia chegou, o juiz agrediu um policial negro.  Gritando que odiava os negros, por isso os condenava sempre, o fiscal balançava o pau na direção de todas as mulheres, todas as mulheres são putas, o pai do capitão, gritava a plenos pulmões que ele como o filho gostava muito de um caralho grande, tentava pegar o do fiscal.

No final do dia, o advogado apareceu no hospital,  não sei o que aconteceu, a polícia está fudida, os três, ingeriram cocaína, creio que através da comida, por isso ficaram desse jeito, o juiz é conhecido, por condenar qualquer um que tenha qualquer coisa de drogas,  prejudica todo mundo.  Contou para a policia todos os subornos que recebeu para prender pessoas, o mesmo fez o fiscal, ao escutar o outro falando, um queria contar mais coisas que o outro, o empresário, contava como subornava todo mundo do governo.

Pior já está nos telejornais, de qualquer maneira, o caso será julgado por uma juíza negra, muito séria.   Inclusive sua filha estuda na universidade.

Vamos ver como nos saímos.  Quanto vocês querem pedir, estivemos conversando sobre o assunto, queremos dinheiro que nos sirvam para estudar na melhor universidade do pais, bem como pós graduação,  que paguem os seus direitos de advogado.

O julgamento não durou nem dois dias, o advogado dos três, aconselhou que se reconhecessem culpados,  para aliviar a pena.  Mas se deram mal, pois isso os condenava ao presidio, a juíza ficou de dizer por quanto tempo.  Quanto a Universidade, concordou em pagar o que pediam sem dizer nem um pio, mas o advogado que tinha inflado o valor que eles tinham pedido, pensando que teria que negociar para chegar ao acordo, ficou rindo, era muito dinheiro.

Ao mesmo tempo que o reitor, perdia seu cargo, bem como o juiz, o fiscal, o empresário viu de uma hora para a outra, fecharem as portas da sociedade para ele e sua família.  Além do pedido de divórcio de sua mulher.

Isso diziam os irmãos, para nunca mais ninguém fazer qualquer sacanagem com um Morales.

Ricky de qualquer maneira destruiu todo seus estudos do produto, por saber agora que se caísse em mãos de quem não devia seria uma catástrofe.

Com o dinheiro, como sobrava, compraram uma oficina para o pai, que adorava sua profissão, assim poderia trabalhar mais à vontade.

Os dois, sabiam que o ano na universidade estava perdido, resolveram fazer uma viagem para tentar esquecer do que tinha acontecido.

Na verdade, não foram longe, alugaram um rancho, perto do deserto, enquanto Ricky pesquisava sobre as plantas da região, ele se preparava para já chegar preparado a universidade.   Iriam agora os dois a mesma, mas na França, ao mesmo tempo estudavam francês para se saírem bem.

A Sorbonne os recebeu de braços abertos, visto os dois estarem preparados no que queriam.

Os pais vinham sempre visita-los, cobravam dos dois que se casassem, queriam netos.  Mas isso nem passava pela cabeça deles.

CAIXA DE PANDORA

                                                                

Porra, despertar numa cama desconhecida, despertou resmungando, odiava isso, ter ido parar depois de uma bebedeira na cama de alguém.

Olhou em volta, escutou barulho de alguém tomando banho de chuveiro, se levantou meio tonto, recolheu sua roupa, sapatos, saiu de fininho, a chave estava na porta, no corredor se vestiu rapidamente, pois podia aparecer algum vizinho.  Apalpando suas calças, viu que tinha a chave, carteira, mas porra aonde estava o celular.  Tinha esquecido dentro, voltou, abriu a porta bem devagar, quando estava no meio do corredor já chegando ao quarto alguém saiu do banheiro.

Quando se virou, era um homem do seu tamanho, com o peito todo cabeludo, com uns cabelos, imensos negros, com a cara mais bonita que podia imaginar.

O outro riu, dizendo, feche a boca, dormiste comigo essa noite, não podes negar.

Ele se encostou na parede, estava zonzo, a dois dias atrás, véspera de seu casamento, sua noiva tinha rompido com ele, dizendo que ele não estava preparado para ter uma família, que era um homem infantil. Agora isso, estava dormindo com homens quando bebia.

Não te lembras de nada de ontem à noite?

Não, só que estava puto da vida, sai para beber com meus amigos, me abandonaram dizendo que estava chato demais.  Pode ser, mas como te encontrei.

Pois eu estava com umas amigas que trabalham para mim, te aproximaste, começaste a conversar, contando para elas tua tragédia.  Elas foram embora, tu mal te aguentavas em pé, perguntei se querias dormir na minha casa, disseste que sim.   Chegaste aqui, vomitaste horrores, te deitei na cama, fui limpar o banheiro, quando voltei dormias, tirei tua roupa, só isso, depois me deitei do teu lado para dormir, te agarraste a mim.

Realmente de noite, sentiu que estava abraçado a alguém que lhe fazia sentir-se como num porto seguro.

Mas não aconteceu nada, não te preocupes.  Quando perguntei se querias que te levasse para tua casa, disseste que não.

Bom, agora estava mais relaxado em saber que não tinha acontecido nada, talvez porque o apartamento está montado como a casa que íamos viver.  Odeio o lugar, estou esperando um apartamento que aluguei, mas estão pintando ainda.  O que estou agora, ela vai ficar com ele.

Desculpe a curiosidade, mas o que aconteceu realmente, porque contaste para as meninas uma baboseira, aliás era difícil de te entender.    Elas aguentaram porque disse que te conhecia.

Porra, são duas coisas diferentes, faltando dois dias me disse que não queria mais se casar comigo, porque na cama eu era como uma criança, que tinha me traído com um amigo seu, esse sim era um homem na cama.

A segunda coisa, como diz que me conhecias?

Não me reconheceste ainda?      Se levantou foi até uma estante, tirou um álbum de fotografia, olha estas fotos, fazem pelo menos uns 15 anos delas, mas podes te reconhecer.

Eram fotos quando tinha uns 14 ou 15 anos, umas férias com um grupo de amigos da escola.  Realmente havia uma foto dos dois abraçados.  Nesse dia os dois perdemos a virgindade, transamos no rio, não te lembras.

Foi como uma bolha que estourasse na sua cabeça.   Eres o Igor Boaventura, caramba como mudaste tanto assim.  

Bom a vida passa, mudamos, sobrevivemos, enfim mil coisas.  Nessa época os dois vivíamos em Niterói, claro os outros começaram a falar do que tinham visto, meu pai me tirou dessa escola, me mandou estudar interno em Friburgo,  nunca mais soube de ti, quando ia de férias te procurava na praia. Mas nunca mais te vi.

Bom pelo mesmo motivo, mudamos aqui para o Rio, meus pais já trabalhavam aqui, nos mudamos para a Tijuca que era perto do trabalho dos dois, passei a estudar no Colégio Militar, segundo meu pai para me colocar no meu devido lugar.   Fiz faculdade, me formei, comecei a trabalhar em seguida numa companhia na parte de informática.  Primeiro fiz substituindo uma pessoa, depois fiquei como fixo.  Estou farto disso, outro problema porque é a repetição da repetição, apesar de ganhar bem.   E tu.

Antes de continuarmos a relembrar o passado, vou fazer um café, nos sentamos na varanda, podemos tomar café conversando.

Enquanto Igor fazia soltou sem pensar, eras bonito, mas realmente estas lindíssimo.

Ele riu, dizendo um grande problema, pois querem ir comigo para cama por isso, depois quando me conhecem realmente dão no pé.

Por quê?  Sempre foste uma pessoa inteligente demais, eras tímido, com aqueles óculos de grau, tinhas sempre o nariz marcado, por causa disso.  Eu sentava atrás de ti na escola, vivia puxando teus cabelos, me fascinavam, porque eu sempre tive cabelos crespos curtos, tu não, levavas imenso, não tanto quanto agora.

Sabes que fizeste isso essa noite, passaste a mão pelos meus cabelos como fazias naquela época.

Sentaram-se na pequena varanda que dava para a praia do Flamengo,  ficaram uns instantes olhando a paisagem, era muito bonito, quase em frente ao Museu Carmen Miranda, com vista para o Pão de Açúcar, com a Urca embaixo.

Caramba, deve ser fantástico viver aqui, só está vista.

Quase não tenho tempo para me sentar aqui, o comprei por isso.

Me conta que fizeste tu?

Bom depois do internato, meu pai que trabalhava numa companhia américana, foi transferido, fomos viver no meio do nada, aonde estava a fábrica, tive que ir estudar em Dallas, embora não gostasse muito, muito provinciana.   De uma certa maneira, por não gostar muito dali, estudei como um louco, porque os da minha idade eram muito tontos, me viam como um garoto bonito para uma foda, depois adeus.  Me toquei rapidamente disso, cortei vamos dizer assim.   Se é para isso, bato uma punheta, basta.   Me formei também em informática, fui fazer um estágio na Microsoft,  depois me contrataram, fui passando por vários departamentos, alguns me achavam um louco por não ficar em nenhum, subir na escala de chefes, mas eu queria aprender tudo, não queria ficar lá, tinha isso definido desde o primeiro dia.   Fui sim juntando dinheiro.   Meus pais se divorciaram, minha mãe, resolveu voltar, com a desculpa de vir com ela, voltei para cá.   Esperava uma mudança, mas minha vida continuou a mesma.   Montei uma empresa, vou bem.   Mas quanto aos romances, sigo igual, quando percebo que me querem porque sou bonito, não pela minha cabeça, corto pela raiz.

Por isso, pelo nosso passado me trouxeste para tua casa.

Bom eu sempre te considerei meu amigo, me lembro que depois que voltamos dessa viagem, todo mundo vinha encher meu saco, o único que me defendia eras tu.  Mas claro diziam que éramos namorados.  Não sei se hoje em dia seria diferente.   Mas nunca te esqueci, foste meu primeiro amor.

Tu falas nisso, mas na época livrava uma batalha imensa comigo mesmo, por causa disso, não conseguia te tirar da minha cabeça.  Quando me olhavas, sempre tinhas um sorriso.  Em comparação, a ti sou feio, nunca fui uma pessoa que se possa dizer bonita.  Até hoje meus cabelos são o mesmo.  Normalmente ia comer com eles todos os finais de semana , mas agora estou evitando, pois ficaram preocupados comigo.  Querem falar no assunto.

Nunca mais tiveste relação nenhuma com outro homem?

Não, naquela época, depois eu me masturbava pensando em ti.  Tive que ir a um psicólogo porque era uma obsessão.               O jeito foi começar a sair com garotas, ter namoradas, meus amigos são todos metidos a machões,  a maioria está casada, mas os vejo infelizes.  De uma certa maneira penso que me livrei de ficar como eles.

Bom já colocamos o papo em dia, podemos nos ver, vou te dar um cartão com meu celular, assim me chamas se quiseres falar mais.

Quando se levantaram, para passar na porta, ficaram frente a frente, tomei a dianteira, segurei sua cara com as minhas mãos, o beijei como tinha sonhado fazer durante muitos anos.

Por sorte ele retribuiu.   Se darmos conta, estávamos na cama.  Minha ânsia era tão grande, que acabei tendo uma ejaculação precoce.   Fiquei sem graça, pedi desculpa, estou muito emocionado.

Fique tranquilo, eu fiquei me controlando, mas estou legal.  Ficaram ali abraçados, lhe soltei, eu te achava bonito, mas o que gostava, era que me tratavas bem, as vezes me ensinava coisas que eu não entendia, mas sem aquela, sou mais inteligente que você.  Te via diferente, às vezes, em que vi você sem camisa, ou só de cuecas antes da aula de ginastica, não pensava na tua cara, queria teu corpo perto de mim.  Comecei a rir, deve ser por isso que minha noiva dizia que não era bom de cama. 

Quando fomos aquela viagem, todo mundo gozava pois estávamos sempre falando, conversando coisas que a eles não interessavam,  quando fomos tomar aquele banho de rio, quando te vi só de sunga, não aguentei, tinha que me aproximar de ti, te tocar, perdi o controle, como agora.   Não adiantava por exemplo olhar revistas pornográficas, só pensava em ti.   Não posso dizer que fosse amor, ou era, não sei, mas quando nos separaram, pensei que ia morrer.

Bom posso dizer a mesma coisa, apesar de ter tido aventuras, aquele momento ficou na minha cabeça, quando chegaste ontem perto na mesa, perguntando se podias sentar, pois estavas abandonado, essas foram tuas palavras, te reconheci imediatamente.   Estavas bêbado, mas eu consegui que as meninas te aceitassem.  Mas fiquei te escutando, o que falaste do teu casamente não me interessava, sentia si em ti  uma solidão muito grande como a minha.

Passei a mão pelo seu rosto num gesto de agradecimento, começamos a nos beijar novamente, então fizemos um sexo gostoso, mesmo naquela época não tínhamos nos penetrado, nem pensávamos nisso, tínhamos sim nos masturbado dentro da água.

Desta vez chegamos juntos ao final.

Tomamos um banho junto, fiquei abraçado a ele, como querendo recuperar todo esse tempo, num dado momento chorei como tinha chorado o dia que meus pais falaram comigo, que isso não era possível, que tínhamos que ir embora, pois todos falavam de nos dois.  A dor que tinha sentido era muito grande.

Ele ficou preocupado, me ajudou a me secar, nos sentamos na cama, lhe contei o que tinha sentido, como tinha chorado por tê-lo perdido.

Eu também chorei, mas o pior foi estudar numa escola tremendamente católica em Friburgo, não encaixava em nada, a primeira coisa que me fizeram foi cortar meus cabelos, foi como podar minha personalidade, só voltei a ter cabelos grandes já quando era independente, meu pai dizia que por culpa dos meus cabelos, por ser bonito, atraia coisas erradas.    Escrevi cartas que nunca mandei, mas não dizia teu nome nunca, sonhava contigo.

Estavam agora os dois sentados um frente ao outro chorando, se abraçaram, vamos tentar não nos separar mais.

Agora estavam com fome, teria que ir em casa trocar de roupa, pois esta está cheirando mal, a cigarros, bebida, suor.

Queres que te leve, pois depois tenho que ir à casa do rapaz com quem estou saindo, tenho que cortar com ele, pois agora não poderei mais fazer sexo com ele.  Embora nem perguntei se queres seguir me vendo.

Temos que ir com calma, pois  senão nunca mais sairemos dessa cama.                       Tens razão, resolva teu compromisso, trocamos o número de celular, farei uma coisa que estou adiando a dias tirar minha roupa do apartamento, embora 80% esteja dentro de malas,  amanhã é domingo,  pensava em fazer isso.

Queres que te ajude?

Não porque ficaremos o tempo todo na cama.  Só de pensar estou excitado de novo.  Se jogou em cima dele rindo, começaram de novo a brincar.

Ele o levou até o apartamento que deixava, na Lagoa, na verdade o apartamento era do pai de sua noiva que o queria de volta.   Nada ali era seu na verdade, tudo era presente de casamento, ficaria tudo para ela, ali só tinha sua roupa. Tomou um banho por causa da roupa suja, colocou numa bolsa de plástico, guardou o resto, resolveu fazer uma coisa, levar para o apartamento que iria viver agora, um studio em Copacabana, estavam terminando de pintar, mas o quarto estava pronto.   Antes chamou o Igor, estava com voz de chateado, disse que iria levar suas duas maletas para Copacabana, depois se falavam.

Espere passo para te pegar assim falamos. Ok

Ficou nervoso, será que eram más notícias, depois de tanto tempo, agora que iam estar juntos outra vez, não conseguia pensar em outra coisa, será que o puto destino os separaria de novo.  Isso era uma maldade.

Voltou no tempo, se lembrando do dia que tinham se conhecido,  Igor se sentou na carteira em frente a sua, quando o viu entrar, ficou deslumbrado, não só porque era bonito, mas sentia que ele tinha personalidade, o professor falou de um livro que teriam que ler.  Ele ofereceu espontaneamente, pois já tinha lido o mesmo, sabia a história de cabo a rabo.  Quando no começo do ano, recebiam a lista dos livros que tinham que ler, comprava todos, os ia lendo sem parar.                Era um dos seus prazeres,  nunca tinha tido uma turma, nem amigos, tinha os colegas da escola, nada mais.   Na praia sempre  ia sozinho, ou com seu pai, mas acabava ficando sozinho, pois seu pai encontrava com seus amigos, iam para a cerveja, ele ficava ali olhando os outros jogarem futebol, ou jogando vôlei, era um horror nos esporte, fazia um esforço imenso de ver jogo de futebol com seu pai pela televisão, odiava isso.   Seu pai ria dele por ser tão tímido.    Mas era seu jeito, não gostava de sair muito, cinema isso todos os filmes novos.   Mal estreavam no Cine Icaraí, ele ia, ganhava uma mesada que dava, ainda sobrava para comprar seus livros.       Sua mãe reclamava, pois como não gostava de ler, sempre dizia, não sei a quem saiu esse garoto.                  Tinha saído a seu avô paterno, que vivia sozinho, enfurnado com seus livros, discos de jazz, foi com ele que aprendeu a gostar de música, lastima que tinha morrido.    Quando o apartamento tivesse pronto, iria buscar seus livros, discos na casa de seus pais.   Estes quando soubesse que tinha encontrado o Igor, não iam gostar muito.      Tinha pensado em passar um tempo na casa dos pais na Tijuca, mas quando seu pai soube que sua noiva o tinha mandado a merda, seu único comentário foi, sempre foste um frouxo.   Não disse viado, porque ia criar uma briga com sua mãe.

Não pensava mais esconder nada.  Agora teria que dar graças a deus a ex-noiva, por tê-lo deixado, isso tinha feito que encontrasse com o Igor.   Riu pensando no momento que estiveram nus na cama, tinha ejaculado, só do prazer de se encostar nele.  

Estava na calçada parado com as duas malas, quando parou o carro dele.  Estavas rindo sozinho, mal sinal.

Estava pensando no primeiro dia que te vi, soltou tudo de uma vez, como sempre fazia quando se emocionava.      Que o entendia era seu avô, tinha ficado contra seus pais, pôr o terem afastado do Igor, lhe contou isso.   Ele ficou uma fera, disse que não era direito fazerem isso.   Anos depois me contou que tinha tido um grande amor por um homem, quem sabe eu te transmiti isso.

Perdão falei demais, como foi teu encontro?

Pesado, não é má pessoa, mas está em outra onda,  é surfista, fechado dentro de um armário com sete chaves, morre de medo que saibam que é gay.   Seus amigos são todos machotes, tem inclusive namorada, mas gosta de dar seu cuzinho.  Ficou bravo comigo, depois pediu perdão porque só nos vemos a escondidas.

Lhe disse que isso não ia comigo a tempo, pois estou sozinho de qualquer maneira, sempre vou a um cinema sozinho, tudo, imagina ontem poderia estar comigo, mas tinha uma festa na casa de um amigo.  Nem sei como cheguei a ter algo com ele.   Talvez carência.      Mas o que me deixa chateado, é que não quer assumir que é gay, um dia acabara se casando, sendo infeliz.

Isso pensava agora mesmo, talvez por isso ria, teria que agradecer a minha ex-noiva por ter dado o pé na minha bunda.  Senão não iria nunca te reencontrar.

Já que fizeste tudo que tinha que fazer, não queres passar o final de semana comigo.   Podíamos ir Icaraí, para recordar os velhos tempos.    Ficamos rindo os dois.

Acho melhor é recuperar o tempo perdido, Igor quando viu o apartamento que tinha alugado, disse que era pequeno. 

No momento com as dívidas que fiz com esse puto casamento, é o que posso pagar, mas adiante quando esteja tudo bem, poderei ir para um melhor.

A cama foi a única coisa que comprei, o resto está tudo na casa de meus pais, quando puder vou buscar, assim poderei montar o apartamento como quero.  Na verdade, só venho dormir em casa, trabalho o dia inteiro, quando saio, venho para casa ler, escutar minhas velhas músicas.   Você se lembra quando ias la em casa, ficávamos no quarto escutando música, primeiro me chamaste de antigo, mas depois começaste a gostar de jazz.

É verdade, duas coisas que me deixaste foram isso, livros, jazz, ninguém entende como sou apaixonado, mas não ia dizer que escutava as músicas que tínhamos escutado juntos para me lembrar de ti.

Mal chegaram em casa do Igor, foram de novo para a cama, ficaram deitados um ao lado do outro, lhe disse o que tinha pensado esperando por ele.   Que se o puto destino não os ia afastar outra vez.

Acho que não, somos adultos, agora podemos decidir os dois. Igor falou baixinho no ouvido dele, quero que me penetres, nunca fizemos isso, sonho sempre com isso. Foi uma sensação incrível, principalmente porque tiveram um orgasmo juntos.   Puta merda, tivemos que esperar todo esse tempo por uma coisa tão boa.

Dormiram, mais tarde a mãe do Igor telefonou para dizer que o tinha esperado, ele disse que depois contaria por quê.

Segunda-feira era dia de retornar a rotina de ir trabalhar, esteve no trabalho cismando, que se estava estagnado por culpa dele mesmo,  ao passar no corredor, viu na parede um curso de designer informática.

Não teve dúvida, conversou com o Igor, acho que estou estagnado por minha culpa, devia ter ido à luta, mas me faltava estímulo.   Meu trabalho é chato, mas porque fiquei parado.

Se queres fazer um curso posso te indicar, tenho um amigo que dá aulas, ele é excelente, já trabalhou comigo, mas sempre quis ir por livre, trabalha de free Lancer, mas dá aula também.           Tenha paciência, porque quando me pega no telefone, fala sem parar.    Falou um bom tempo com o amigo, anotou um número num papel.    Ele disse que quando queiras, mas cuidado, vai querer fazer sexo, me afastei dele por isso, confundia, trabalhar comigo, com oportunidade de fazer sexo.   Mas nunca quis.

E se faço, disse rindo?

Te corto o piru, segurou o mesmo, fazendo o gesto de cortar.

Começaram a falar da família, Igor contou que sua mãe tinha se casado outra vez, com um viúvo, com filhos, mas cada um num lugar diferente, fazem companhia um ao outro, agora ela me apoia, me da força, sempre diz que como ela, encontrarei um companheiro  para o resto de minha vida.

Eu ao contrário tenho um irmão, um garoto genial, com uma personalidade forte. 

Um filho temporão?

Nada disso, filho de uma aventura de meu pai, que não durou nada, mas ele mantinha ela com o garoto, ela morreu, ele confessou tudo a minha mãe, ela o cria como seu filho.  As vezes contra vontade de meu pai, ele vem se encontrar comigo.  É um garoto fantástico.   Quando acabarem de pintar o apartamento, vou trazer para um fim de semana, depois é claro de uma batalha.

Meu pai, não é capaz de me chamar de viado ou coisa parecida, me chama de fresco, como meus namoros nunca duravam muito, diz que sou um frouxo, um fresco.   Nunca me perdoou, por isso nossa conversa é sempre nervosa, se irrita por qualquer coisa, creio que pelo fato de estar no exército tanto tempo, o deixou neurótico, com isso de ser macho, acusa sempre a minha mãe por ter me criado mal.  Nem sei como ela aguenta,  Pedro, o filho dele, a quer com loucura, acho que por isso ela não manda ele a merda.

Tenho que ir um dia destes buscar minhas coisas, nem me atrevo a falar muito nada de minha vida pessoal, pois sempre sai discussão.     Com ela sim falo, se ele não está em casa, aprendeu a ficar calada, não suporta nossas discussões.

Quando queiras ir buscar tuas coisas, te ajudo ok.

Sim são umas quantas caixas nada mais.  Os livros que amo, bem como os LPS, antigos do meu avô, todos de jazz é claro.  Um velho aparelho de disco, duas caixas de som, está tudo no quarto de empregada.

Os meses passavam, na verdade estavam sempre juntos, cinema, teatro, adorava sair com as amigas do Igor, pois o queriam muito, primeiro pediu desculpas pela bebedeira.   Disse simplesmente que esse bendita bebedeira o tinha feito reencontrar com seu melhor amigo.

O curso que fazia com o amigo do Igor tinha saído bem, ele lhe passou um exercício, montar uma capa de um livro.  Ele conhecia o livro, tinha lido em inglês,  então desenhou várias opções em cima do texto.   Muito bem disse o professor,  dias depois chegou para ele com um envelope, vendi o teu trabalho, era um pedido que me tinham feito, mas queria saber como te saias.  Tive que inventar no final uma assinatura, pois não o fizeste, mostrou o que tinha feito, era uns lábios negros, embaixo em pequeno, S.Bocanegra. gostaram do trabalho, mas lhes disse que fazes questão de ler os livros antes.           Semana que vem vão mandar 3 mais, lhes disse que era teu agente.   Por enquanto passaram para mim os trabalhos.   Os pode realizar aqui, não pense que vou te cobrar nenhuma coisa.   O Igor fez igual por mim, nem vou cobrar em carne, disse rindo, pois já entendi como falas dele, que o ama.   Ele me mataria.

Quando contou ao Igor, este riu, tinha visto os trabalhos, analisou cada detalhe com ele, o que podia melhorar.   Bom agora, tens duas opções, ou vens trabalhar comigo, ou te transforma num free Lancer, tu é que sabes.    

Por enquanto me gostaria a segunda opção, ainda não sei muito bem separar as coisas,  apesar desses meses nem sei o que somos, amigos de cama e mesa, amantes, ou o que?

Nada de rótulos, quando tivermos certeza de tudo, nos casaremos, isso sim.   Te quero como sempre quis, mas tu tens que ter certeza de que queres isso, poderemos viver juntos definitivamente.

Comecei a rir, viver juntos, se não saio daqui, venho todos os dias dormir contigo, só vou ao meu apartamento para buscar roupa, colocar a suja para lavar, dormir sem ti, para mim é um castigo.

Nunca se separavam, contou o que se lembrava do dia da bebedeira, creio que quando te abracei, me senti como num porto seguro.   

Teu professor não se insinuou para ti?

Sim, mas disse que não queria morrer tão jovem, que desde o primeiro dia, quando mencionei teu nome, sentiu que eu falava de maneira diferente, perguntou a uma amiga que vocês tem em comum, ela confirmou que vivíamos praticamente juntos.   Nunca mais tocou no assunto.

Podemos montar no quarto da televisão, um lugar para poderes trabalhar,  se quiseres é claro, ou então o montas em teu apartamento, um lugar de trabalho, assim não ficas tão fechado em casa.  Poderei passar trabalhos para ti, meu pessoal esta sempre cheio de trabalhos, mas terás que ir até o escritório, para conversar com a responsável.   Nunca me mostre nada, só o faça a ela diretamente.

Com o do livro, tinha sido bom, preparou os outros três, agora passariam o trabalho diretamente para ele, deu para montar o seu studio como queria,  comprou novo computador, com tudo que podia de especial, assim poderia fazer o que queria,  Usou para isso o sala que tinha uma luz especial.   Quando viu o volume de trabalho que a garota que trabalhava para o Igor lhe passou, viu que podia viver disso, se arriscou, pediu demissão do emprego.   Estavam contentes com ele, fizeram um acordo, rescendiam seu contrato, se precisassem de seu trabalho externo, ele seguiria fazendo.  Isso lhe dava uma boa margem, ganharia mais que como empregado.   Se fez de autônomo, para seguir pagando impostos para sua aposentadoria.

Nesse tempo, Pedro veio passar um final de semana com eles, no ônibus quando foi busca-lo, contou a verdade para ele.  Vivo com a pessoa que sempre amei, mais ou menos quando tinha a tua idade, teu avô, bem como meu pai, nos separaram.  Agora nos reencontramos por acaso.

Pedro, colocou a mão sobre a sua, se ele gosta de ti como mereces, fico contente, será meu outro irmão, mas não se preocupe, não vou comentar nunca com o velho, pois nunca mais ia deixar que estivesse contigo.

Era um garoto fácil de manejar, foram ao cinema, saíram para comer, foram a praia na barra, ele estava extasiado.

O velho não me permite nada, nem que tenha amigos, as vezes me convidam para uma festa, ou para um encontro  de todos da turma da escola, diz que não, que isso é perigoso.   Agora entendo porque ele pensa assim. 

Quando foram leva-lo em casa, já que estava de carro, resolveu descer suas coisas para colocar no carro, Pedro o foi ajudando.   Seu pai perguntou quem era que estava no carro, só lhe respondeu que um amigo. Ficou olhando pela janela, observando.  Voltou para a última leva de caixas, o velho o parou, não me diga que esse do carro é o Igor, aquele com quem fizeste sexo em garoto.

Resolveu encarar a situação pela primeira vez.   O senhor me chamou tanto de frouxo, de fresco, que acreditei, sim é ele, por minha sorte o reencontrei.  Vou viver com ele.

Levaste teu irmão para esse tipo de ambiente?

Que ambiente pai, que é melhor que essa casa, aonde controlas tudo, como se estivesse no exército, sem perguntar nada a ninguém.  Olha minha mãe, tem sorte ter aceitado teu filho, mal exemplo eres tu que tinhas amantes.  Ela nunca reclamou. 

Ele saiu da sala, estava abraçado a sua mãe, quando ele voltou com um revolver.  Filho meu não fala assim comigo, não sou um frouxo como era meu pai.

Sua mãe se colocou na frente dele, lhe deu um tiro certeiro no coração, a ele disparou três vezes, depois colocou o revolver na boca, deu um tiro. 

Igor ao ouvir os tiros, subiu junto com o Pedro, da porta parou, chamou uma ambulância, bem como a polícia. Teve que segurar o Pedro que queria abraçar a sua mãe postiça.  Ficou ali com o garoto de um lado, do outro segurando a mão do Sergio.    Rezando mentalmente, não me separem dele agora por favor.

Quando chegou a polícia junto com os da ambulância, levaram logo o Sergio, disseram ao hospital, ele disse que os dois não tinham visto nada, só escutaram os tiros, subiram correndo, mas já era tarde, teriam que esperar o Sergio melhorar para saber.

Agarrou o menino, foi com ele ao hospital.  Quando chegaram, Sergio estava na sala de cirurgia. Não sabia quando acabaria, tinha três balas no corpo, segundo a enfermeira, por sorte nenhuma atingiu nenhum órgão vital.

Agora era esperar, nesse tempo se encarregou do Pedro, que começava a se sentir culpado.  Nada disso, não sabemos o que aconteceu, não eres culpado de nada.  Estas comigo, agora sou tua família também.

Quando Sergio foi para o quarto, puderam estar com ele, chegou um inspetor de polícia que os médicos tinham avisado.

Ele disse que seu pai não estava bem, era ex-militar, estava muito neurótico,  começou a discutir sem mais, saiu da sala voltou, deu um tiro em minha mãe, menos mal que cai, porque senão estaria morto, depois escutei um último disparo, pensei agora vou morrer.

Pelo que soubemos pelos vizinhos, teu pai, estava muito complicado, tinha conseguido brigas com quase todos os vizinhos, inclusive há várias reclamações a respeito dele na delegacia do bairro.  Dizem que por qualquer coisa começava a brigar, que não permitia que tua mãe saísse a rua de maneira nenhuma, nem ao garoto.   Que a meses atrás tua mãe, esteve no hospital com hematomas.

Pois não me contou nada, chamou para perto o Pedro, esse confirmou que sim, mas que ela tinha feito ele prometer que não contaria nada.  Por qualquer coisa, até uma notícia na televisão, ficava furioso, se os senhores olharam a casa, devem ter visto no salão a televisão quebrada, foi alguma noticia sobre militares, ele arrancou a televisão da mesa aonde estava, a atirou no chão.  Disse que na casa não entrariam mais mentiras.   Mas comprava jornais todos os dias, depois  quando não gostava rasgava o jornal inteiro. Levantou a manga da camisa, não queria que eu passasse o final de semana com meu irmão, queria me pegar, minha mãe se colocou no meio, levou a pior.   Foi quando foi para o hospital.

Bom o senhor terá que se fazer responsável pelo seu irmão menor de idade, deve depois ir até o juiz para retificar.

Obrigado por tudo inspetor.

Pedro, se deitou sobre seu peito, como pode fazer isso com nossa mãe, ela procurava obedecer em tudo a ele para evitar esses problemas,  ficava agressivo, quando sem querer eu não obedecia, me chamava de filho da puta, era isso tua mãe verdadeira, ai ela me defendia, não fale assim com meu filho.  Nunca dizia a ele teu filho, eu era só filho dela.

Ela sempre te quis muito Pedro, não se esqueça disso.

Agora teria que preparar o enterro dos dois, nem sabia a quem chamar.   Não conhecia nenhum parente, apareceu um homem do exército, dizendo que de seu pai, pelo rango que tinha se encarregavam eles. Mas sua mãe não estava incluída.

Me lembrei o cemitério que estava o avô, lá pros lados de Charitas, vou ver se posso enterrar ela lá.  Deu as dicas ao Igor, que disse que ia verificar tudo.

Vou levar essas coisas para o teu apartamento, o Pedro fica comigo lá em casa.  Vou ver se minha mãe pode vir dormir com ele, assim posso ficar contigo aqui,  nem isso vai me separar de ti.  Chorava dizendo, quando pensei que te perdia, quase tive um enfarte.

Estava me despedindo de minha mãe, abraçado a ela quando ele voltou, sem uma palavra apontou o revolver, ela se colocou diante de mim, por isso morreu, como eu estava com as caixas, elas creio que me protegeram.  Eram as coisas do meu avô, nunca pensei que ele odiasse seu pai tanto assim.  Me disse que seu pai era gay.  Imagine o velho estava sempre sozinho, só minha mãe e eu que o visitávamos, ele não ia nunca.  Uma vez me lembro, ela disse que ele mandava lembranças, ele respondeu, minha filha, não minta por esse sem vergonha.   Morreu sozinho, foi enterrado nesse cemitério, ele tampouco foi ao enterro que tinha uns quantos gatos pingados.

Pedro vem, comigo, vamos resolver esse assunto, assim teu irmão descansa.

No carro, o garoto soltou, como gosto de ver vocês dois juntos, se gostam de verdade.  Meu pai dizia que era impossível isso, dois homens se gostarem, quando aparecia alguma notícia de gais na televisão, apagava a mesma, dizia que bastava um naquela casa.   Levei muito tempo para entender que falava do Sergio.  Mas desde que me viu, me tratava como seu irmão, me dizia que eu não tinha culpa dos erros dos outros.

Uma grande verdade, não temos a culpa dos erros de nossos pais, ou dos demais, temos sim que ter consciência do que somos capazes, seguir em frente, lutar.  A partir de agora, volto a te repetir, não estas sozinho, tem a nós dois.

Por sua cabeça rondava, agora creio que devemos nos casar.   Quando entrou na cozinha viu o corpo do Sergio coberto de sangue, a dor que sentiu no peito, quase o deixa sem raciocínio para chamar ambulância além da polícia.

Falou com sua mãe, ela não vivia muito longe dele, quando contou o sucedido, porque não trazes o garoto para cá, José vivia antes nessa zona, pode conhecer alguém para te ajudar.   Venha para cá quando possa, esse garoto deve ter fome.    Contou ao Pedro, que para sua mãe tudo se revolvia comendo, eu falando assim parece que é imensa de gorda, ao contrário é magra como eu.

Creio que lá estarás bem, pois os dois são gente fina.  

Ele não é teu pai?

Não, meu pai vive até hoje nos Estados Unidos, gosta da vida lá,  a fábrica para qual trabalhava, lhe paga bem, apesar de estar aposentado, para orientar os mais jovens.   Um lugar aonde judas perdeu a bota, nem voltou para buscar a mesma.

Depois de fazer tudo, foi a casa da sua mãe que esperava com a mesa posta, se sentaram com eles, volta e meia olhava o garoto, segurava sua mão.  Igor piscava para ele.   Depois antes de sair com o Jose, lhe disse ao ouvido, esse menino pode virar teu neto.   O sorriso da cara dela, era imenso.

Resolveram tudo, José conhecia todo mundo, conseguiu liberar o corpo da polícia, que uma funerária fosse buscar, além de manter até Sergio poder ficar em pé.   Na hora que foi deixa-lo, quando entraram em casa, sua mãe, mostrava um álbum de fotos dele na mesma idade.  Riu, pensou, já assumiu que é avó.

Pelo menos Pedro estava tranquilo, lhe disse que ia para o hospital, vou passar em casa agora, tomarei um banho, irei para o hospital.   Quando chegou levou um susto, Sergio não estava no quarto, quando perguntou lhe disseram que estava outra vez em cirurgia, tinha tido um problema.

Ficou aterrado, chegou à conclusão de que se ele morresse ia ser difícil seguir em frente.  Todos esses anos, tive aventuras, mas nada como o que tenho agora com ele.             Sabia que se contasse a alguém diriam que ele estava vendo filmes românticos demais.   

Quando ele voltou para o quarto, riu da sua cara, o que passa?  

O que aconteceu digo eu?

Nada, foram fazer o curativo, um dos pontos tinha saído, bem como uma grapa que usam agora, então me levaram para fazer outra vez.

Puta merda, cheguei aqui não te vi, levei um susto de morte. 

Como está o Pedro?

Bem, na casa da minha mãe, fui com o José que conhece todo mundo, resolvemos tudo, trouxe uns papeis que tens que assinar, nada mais.

Eu disse ao ouvido da minha mãe, que Pedro pode vir a ser seu neto, ficou como louca, quando voltei estava mostrando um álbum de fotos minhas quando garoto.

Como seu neto?

Ora Sergio, se nos casamos, podemos adotar o Pedro, só isso, só por isso me caso contigo.

Sem vergonha, isso lá é maneira de me pedir em matrimonio?

Inovadora é.   Só de pensar em te perder de novo, fico alucinado.  Ficou ali segurando sua mão, até que mais tarde ele dormiu.   Acabou dormindo, encostou a cabeça na cama, acordou muito mais tarde com Sergio passando a mão nos seus cabelos como ele gostava.

Mais tarde veio o médico, explicou, teria que usar uma faixa no tórax, até quase o quadril, pois duas balas tinha entrado e saído. A terceira que era a perigosa, tinham retirado.  Mas precisavam da pressão da faixa para manter as costuras fechadas.  Tiveste sorte, pois essa terceira podia ter sido a final.  Dentro de dois dias poderás sair, desde que prometa não fazer esforço.

Mais tarde, sua mãe com o José, trouxeram Pedro para ver o irmão, tiveram que o conter pois se queria jogar em cima do mesmo.             Sergio ficou alisando seus cabelos, fique tranquilo, vou sair daqui dois dias, vamos ficar juntos ok.

Igor avisou seu advogado, que veio falar com eles, para justamente Sergio conseguir a guarda do irmão, não se preocupe, conheço um juiz da vara de menores, resolvo tudo para ti. Já falamos.

Um momento que Lindalva, a mãe do Igor ficou sozinha com ele, disse, não sabe o quanto me arrependo de ter ficado quieta quando devia ter defendido que os deixássemos em paz naquela época, mas meu marido era um cabeça dura.    Menos mal que vocês se reencontraram, tudo que quero é ver meu filho feliz, sei que está pela maneira que olha a ti.  Esta mais relaxado, até conversa mais com o José.    Pode deixar que cuido esses dias do teu irmão, é um bom garoto, me contou tudo que aconteceu.  Talvez mais tarde devas leva-lo a um psicólogo, pois essas coisas marcam muito.

Ficou ali segurando sua mão,  Igor parou na porta, ficou sorrindo, pode largar a mão dele, é minha.  Depois a senhora tem que me ajudar a encontrar um anel de compromisso, não posso deixar que escape, quero me casar com ele.

O enterro de sua mãe, eram só eles, tinham removido os ossos de seu avô, encontraram sua carteira de documentos junto ao corpo.    Ninguém entendeu, creio que meu pai o mandou enterrar como estava, não trocaram suas roupas, não houve velório, nada disso.  Só viemos, eu e minha mãe.

Achou tudo muito estranho, ficou com a pulga atrás da orelha, pois quando olhou os documentos, seu avô aparecia como solteiro.   Resolveu fuçar, buscou na casa da sua mãe, os documentos do pai, só constava como família seu pai, não aparecia o nome de uma mãe.  Rebuscou mais numa caixa de metal, fechada com chave, ali encontrou um documento de adoção, uma coisa rara na época.   Então a raiva deve ter sido esta, seu avô tinha adotado seu pai.   Nessa caixa havia fotos dos dois sempre juntos, mas uma lhe chamou a atenção, pois era de seu pai abraçado com o avô, o beijando no rosto.  Noutra, uma reunião na casa dele, mas não havia nenhuma mulher, só homens.   Bem no fundo encontrou um pequeno caderno, escrito primeiro em letra infantil, primeiro contente que esse homem o tivesse adotado, o retirando do orfanato que estava, aonde passava fome.   Depois um comentário o deixou surpreso, mas que não gostava de dormir na mesma cama que ele, que este o agarrava muito.

Já anos mais tarde, dizia que iria fugir, que finalmente tinha descoberto que o que os dois faziam era pecado, não sabia que fazer sexo com o próprio pai era errado.   Ou seja, agora entendia o horror que tinha ao avô, tinha abusado dele.   Ele me diz que se sente só, que sou a única pessoa que ama, por isso dorme comigo.

Que coisa mais complicada, ficou com esses papeis na mão, fechou a caixa, separou com as outras coisas, o de sua mãe era fácil de explicar,  foi criada num orfanato, talvez por isso tivesse dificuldade de o abandonar.    Separou as coisas do Pedro para levar, o resto doou tudo para que viesse buscar, o apartamento era alugado.   Batalhou para conseguir que a pensão que seu pai tinha, ficasse com o Pedro, para fazer um fundo para que um dia pudesse ir à universidade.

Quando comentou, mostrando as anotações,  bem como os documentos ao Igor, o porquê seu pai era tão retorcido, tão fechado em si mesmo, o escândalo que tinha feito quando tinha descoberto o que passava entre eles.   Tinha tudo sobre isso muito  confuso em sua cabeça.  Foi falar com um psicólogo que conhecia, lhe mostrou tudo.   Na minha infância, tudo que me lembro, é que nunca tive um carinho dele, como se tivesse medo de se aproximar, será que isso lhe provocava.   Perguntei ao meu irmão, ele disse o mesmo que nosso pai nunca tinha lhe feito um carinho.

Busquei seu registo no exército, aonde ele tinha entrado com 18 anos, para poder fugir do meu avô, mas quando ia a casa deste eu só escutava música, falávamos de livros, era uma pessoa totalmente tranquila.

Bom o melhor era deixar esse passado, pois agora entendia o que lhe passava pela cabeça, era uma coisa totalmente distorcionada, não faria bem a mim, nem que Pedro soubesse disso.   Ele sentia realmente era a morte de minha mãe, pois o tinha cuidado com amor.   Tampouco tinha ideia de quem seria sua mãe , verdadeira, porque ele tinha sido registrado como filhos dos meus pais.   Que confusão.

Mas segui meu trabalho.  Conseguimos uma transferência do Pedro para perto de casa, quando o juiz me deu a custódia dele, lhe perguntei, se pela diferença de idade eu poderia adota-lo.  Fizemos o papel rapidamente.

Igor um dia cheio de mistério, era meu aniversário, logo de manhã, fazíamos sexo, ele sentado em cima de mim, se abaixou tirou do travesseiro uma caixa com um anel, queres te casar comigo.  Não sei por que fiquei alucinado, fizemos um sexo mais selvagem, lhe disse, peça outra vez quando esteja dentro de mim.  Foi o que ele fez.   Agora entendia o que era sexo de verdade.  Eu lhe disse que sim, se essas seções não acabassem nunca.     Pedro as vezes passava o final de semana com Lindalva, essa o enchia de mimos, tinha tempo de sobra para curtir o neto.

Eles aproveitavam para estar sos.  Quando Pedro se formou na Universidade, foi interessante, falava dos avós que o tinham feito ir em frente, Lindalva, Jose, e seus pais que amava acima de tudo Sergio e Igor.

Os dois agora tinham os primeiros cabelos brancos,  mas felizes. Tinha valido o tempo de espera.

BLACK IS BEAUTIFUL

                                        

Hoje cedo na rua do Ouvidor, quantos brancos horríveis eu vi.

Eu quero, preciso de Amor, dos negros do Congo ou daqui.

Quando lhe pediram para cantar a mesma música que era seu carro chefe, abaixou a cabeça, seus cabelos brancos imensos, caíram cobrindo totalmente sua cara.  Começou a dedilhar no piano sua música, sem querer tinha transformado em sua, uma música que muita gente antes tinha cantado.

Era o ano de 1980, Rio de Janeiro, a princípio considerou como seu ano maldito, era um domingo, voltava da praia com seu namorado, fazia um bom tipo, magro, alto 1,90 metro, cabelos imensos, queimados do sol, tinham estado falando, falando, se sentia esgotado de tanto falar.  A relação tinha ido para o caralho.  Depois de tudo que tinha feito, pensava, tinha largado tudo por esse amor, renunciado a uma carreira no teatro, começavam a lhe chamar para outros trabalhos, mas claro, pensou que amava. 

Este avisava, que ia de férias, quando voltasse, não queria mais nada dele em seu apartamento, sentia muito, mas o que pensava que era amor, tinha se acabado, queria novas experiencias.

Ficou puto da vida, nem casa, teria dentro de um mês.  Chegou, tomou um banho, tinha comprado dois ingressos para assistir o último dia do show de um cantor que amava, seu amigo de longa data, tinham começado na mesma época sua trajetória pelo Rio de Janeiro.  Nenhum dos dois era dali.

Ele tinha desistido de cantar, pois, tinha a voz de baixo, adorava os musicais, passava nos testes de dança, pois era bom nisso, mas quando abria a boca, diziam que não tinham nenhum papel para este tipo de voz.   Uma grande atriz ainda lhe disse, com todo seu tamanho, irias tapar o ator principal. Foi ele que disse que não, mas não desista, eres bom.

O jeito foi montar ele mesmo um espetáculo completamente maluco, primeiro tinha que passar na censura.  Com muito jeito, conseguiu enganar para os dias da estreia o censor, compartia palco com um amigo.  Ele tinha escrito o roteiro.  A cena mais importante, era o amigo contando a historia de como se tinha descoberto gay, vestindo a roupa da mãe, escondido.  Enquanto isso ele fazia a mesma cena de costa.                             No final do monologo, ele se virava lentamente, transformado no outro, soltava toda sua voz, num grito profundo, começava a cantar uma música composta pelos dois, o público não esperava isso, uma pessoa travestida, cantando com aquela voz de baixo, fazendo falsetes em jazz.

Fizeram uma temporada inteira, com a crítica falando dos dois.  Alguns falavam mais dele, o que ocasionou um choque entre os dois, de amigos, passaram a ser dois inimigos em cena.  Mas as pessoas diziam que o espetáculo tinha ficado melhor.  Nunca mais se falaram quando acabou a temporada.

Logo o chamaram para mais trabalhos, mas nunca nada interessante, como tinha um trabalho fixo, foi levando.     A paixão bateu em sua porta, num dia de chuva, quando saia da academia de dança.   Tinha feito uma aula de Jazz.   A professora teve que sair, como sempre lhe disse que seguisse com a aula.  Ele era bom.   Na época quando estudava, os momentos livres era para isso, aprender todos os tipos de dança, aulas de canto. 

Seu corpo era de fazer inveja, segundo diziam no banheiro depois da aula quando tomava banho, de costa para os outros, lhe dava vergonha ficar nu na frente dos outros.  Nunca conseguiu se livrar disso.

Chovia a mares nunca dantes navegados, como ele gostava de dizer, das chuvas de verão no Rio de Janeiro.  Nada que se esperasse um pouco, logo acabaria.   Saia um aluno, que já tinha falado com ele antes, tinha visto seu trabalho, as vezes ele substituía a professora que estava cheia de problemas no momento, era uma maneira de ganhar algo de dinheiro.

Lhe ofereceu uma carona. 

Vais para aonde? 

A resposta lhe deu uma surpresa, para aonde queiras, desde que acabe na cama contigo.

Acabaram realmente na cama, embora nessa época tivesse, entre aspas, relacionamento com um homem casado, se encontravam quando podiam.  Mas isso para ele era ótimo, levava sua vida.

Se deram bem em tudo, despertou nele um sentimento, que tinha pensado não ser capaz, por esse sentimento, começou a trabalhar período integral para poder conviver no apartamento do outro.   Foi uma má decisão, agora o colocava para fora.

Quando ia se vestir para sair, o outro fumava um baseado, entraram seus amigos, sem sequer lhe dizer boa tarde, cada um foi deixando um baseado numa taça de barro que tinha em cima da cômoda, não teve conversa, passou a mão em meia dúzia.

Vestiu uma camiseta justa branca, uma calça boca de sino, desenho dele mesmo, enrolou na cintura um  tela indiana, misturada com lantejoulas, por cima uma camisa imensa branca, uns sapatos brancos que ele também tinha desenhado, com mais cinco centímetros de sola de cortiça, assim ficava mais alto ainda.

Foi duro conseguir um taxi, quando chegou no teatro, já tinha fumado 3 baseados, fumou mais dois de raiva antes de entrar.  O show já estava começando, seu amigo já estava em cena, ele estava tão tonto que não sabia aonde se sentar, o amigo do palco lhe disse para sentar na primeira fila pois tinha um lugar vazio.

Adorava a voz do amigo, era um tom mais baixo que a dele. Conhecia todo seu repertorio, mas quando ele disse, vou cantar uma música que sei que meu amigo adora, começou a cantar Black is Beautiful.  Sem se dar conta, estava eletrizado começou a cantar junto.  O amigo parou, de cantar, gente, esse sujeito tem uma puta voz, mas nunca lhe deixam cantar direito, faz milhões de casting, mas como é alto, quase não chama a atenção, a plateia riu a bessa.  Suba, cante tu dessa tua maneira a música.   A princípio ficou com vergonha, mas tinha aprendido a falar com os músicos seu tom, lhes disse que da segunda parte para o final, subiria dois tons.

Tirou a camisa, deixando que todo seu bronzeado, no seu corpo extremamente branco aparecesse.  Abaixou a cabeça, deixando que seus cabelos caíssem sobre sua cara, começou a cantar.

Hoje cedo na rua do Ouvidor, quantos brancos horríveis eu vi,  eu quero e preciso de amor, dos negros do congo ou daqui.  Abriu seu vozeirão, que até ele mesmo se surpreendeu, depois entendeu que estava incorporado por um Exu.   Foi subindo cada vez mais, quando foi chegando ao final, fez um sinal aos músicos, esse pararam de tocar, cantou o resto a capela, o público aplaudiu em pé.

Seu amigo, rindo falou, nasceu uma estrela, lastima que no céu dessa santa pátria, nenhum cantor com esse tipo de voz, faz milagres.   Lhe disse, depois vá até o camarim.

Desceu do palco, esperando que o amigo cantasse uma outra música que finalizava o show.

A doidera ainda rodava sua cabeça, riu para si mesmo, só mesmo eu, para transformar um momento de merda, numa coisa assim.   Sempre tinha sido assim, quando uma porta se fechava ele pulava uma janela, ou se atirava do balcão, buscando outra chance.

Esperou que os fans falassem com o amigo, encostado numa parede fumando um cigarro, ao seu lado se encostou um negro da sua altura, lhe disse que tinha amado sua parte no show, mas falava em inglês.   Se se preocupar muito começou a conversar com ele em Inglês, sua segunda língua.    Estava ali conversando, seu amigo saiu já pronto do camarim, dizendo, uau, nem preciso apresentar os dois. 

Jacobo Magstein,  um produtor de New York, veio assistir pela segunda vez meu show, ficou deslumbrado contigo.

Tu parecias incorporado, meu amigo, que espetáculo, te digo sempre és uma bomba pronta para explodir.

Sem saber como, no outro dia despertou na cama do Jacobo.                      Não se lembrava de absolutamente nada.               Este disse, não se preocupe, não fizemos nada do que possas te arrepender.

Riu, me arrependo de muitas coisas, não podia tirar os olhos do corpo dele, enrolado numa toalha, vem vá tomar um banho, porque dançaste ontem como um louco.  Ninguém podia contigo.

Ia pegar sua roupa, mas sentiu o cheiro que vinha dela, cigarro, bebida, tudo que se pode sentir depois de uma discoteca.

Acho melhor deixar para tomar um banho em casa.

Nada disso, pedi café para os dois,  tirou do armário umas bermudas, uma camiseta, ficaram bem nele.  Tomou um banho demorado, ainda em cinco minutos se lembrou porque tinha saído de casa na noite anterior. 

Se sentaram tomaram café, contou ao Jacobo, quando ele lhe perguntou por que seu amigo tinha feito um comentário a respeito de sua voz.    Falou de todos os casting que tinha feito, depois te mostro um vídeo de um espetáculo que acabei montando para poder ser alguém nesse pais.            Mas o incrível, era que não podia deixar de olhar aquele homem, porque se interessava por ele.

Jacobo foi honesto quando lhe perguntou por quê?   Fiquei alucinado quando te vi subir no palco, como se estivesse na sala de tua casa, soltar a voz daquela maneira, cheguei a ficar excitado, queria subir fazer sexo contigo ali mesmo.

Agora quem estava de boca aberta era ele.   Replicou dizendo, pelo que vi, o teatro estava cheio de gente bonita.

Nada como tu, tens energia, magia, essa tua voz.  Te imagino cantando jazz.

Quando colocou a sua mão sobre a dele para lhe agradecer, sentiu uma vibração diferente.

Acabaram finalmente na cama, fazendo o que não tinham feito.  Na hora do orgasmo, soltou um urro.   Estava colocando para fora tudo que sentia, mas agora tinha um prazer que tinha confundido, pela pessoa que o tinha deixado.

Jacobo tremia, caralho, nunca pensei que ia acontecer isso no Brasil.

Ele riu, Jacobo, não sou brasileiro, nasci em Paris a séculos atrás, meu pai é francês, minha mãe alemã, vieram para cá esperando ficarem ricos, vivem no sul, numa casa de madeira, que cai aos pedaços, numa terra imensa.   Eu escapei.

Passaram todo o domingo juntos, no quarto tinha um piano, cantou várias músicas que gostava, inclusive uma da Billie Holiday que amava.   Claro tinha transposto a mesma para sua voz. 

Não queres vir comigo para New York?

Como ir contigo, não tenho dinheiro para isso, mas para fazer o que?

Posso te lançar no teatro por lá, sou produtor.   Estou de férias para esquecer um amor mal resolvido.

Então estas como eu, amor mal resolvido.

Mas nunca senti o que senti hoje de manhã contigo na cama.

Tens certeza de que queres me levar?

Sim, tenho, corro o risco.

Na segunda feira pediu demissão de seu emprego, tirou passaporte, na terça, foi com ele ao consulado americano, conseguiu um visto de trabalho, uma coisa difícil de conseguir.

Seu amigo vibrava, sabia que ia acontecer isso, quando ele te viu, seus olhos se escancararam, depois na discoteca, quando encontraste teus amigos da escola de dança, improvisaste uma coreografia com eles, ele não fechava a boca.  Me disse que tudo teu era espontâneo.

Bom de qualquer maneira tinha que me pirar daqui, pois me colocaram para fora do apartamento.

Eu sei me contaste ontem.   O melhor não sabes, enquanto estavas dançando, vieste até o Jacobo, lhe deste um puta beijo na boca, nesse momento entravam teu ex com seus amigos ricos.  Parou ficou de olhos abertos, virou as costas foi embora.  Fica na minha casa, até ires embora.

Não, fico no hotel com ele, adoramos fazer sexo, ficar abraçados.  Agora entendo o que sentia pelo outro, um simples reflexo de mim mesmo, querendo ser amado.

Já tinha retirado toda sua roupa da casa do Ex como dizia seu amigo.   Inclusive sua máquina de costura. 

Jacobo perguntou para que queria uma máquina?

Eu aprendi a costurar, com minha mãe, a roupa que usava ontem, quase todas minhas roupas, faço eu, é muito difícil encontrar roupa para o meu tamanho.

Jacobo já tinha comprado o bilhete de avião para ele, trocou o pouco dinheiro que tinha por dólares,   ainda pensou, deve dar para comprar um palito, para tirar o resto de um hot Dog dos dentes.

Iam em classe turística,  mas estava feliz, Jacobo dormiu no avião ele ficou olhando para o rosto do outro.  Era um homem extremamente bonito.

O apartamento era bom, nem grande nem pequeno, mas podia se acomodar com ele.  Abriu um armário, estava cheio de trajes de homem sério.    

Jacobo ficou puto da vida, passou a mão no telefone, disse para alguém que se não viesse recolher sua roupa, jogava tudo pela janela.     Meia hora depois bateu na porta um rapaz, um mulato, mais baixo do que ele, sem dizer uma palavra, me olhou de cima a baixo, bom proveito, recolheu suas coisas foi embora.

Esse filho da puta tem muita cara, o peguei na minha cama com outro, ainda se faz de vítima, diz que nunca o soube satisfazer na cama.  Soube depois que me colocou o chifre com muita gente.

Ele foi honesto, pois eu me sinto fantástico contigo na cama, basta ver esses dias todos.

Eu sei, também me sinto assim, mais agora que me sinto livre.  Amanhã vou te levar a um lugar, para cantares, mas te digo é só o começo, pois tem muito que brilhar.

Não lhe disse aonde era, só disse coloque uma das tuas roupas de fechar o comercio.  Ele colocou uma camiseta de lantejoulas negra, uma calça negra, que era uma cópia dos marinheiros americanos, boca de sino, uma sandália alta, com a sandália ficava mais alto que o Jacobo.

Este ria, já não chamarei mais atenção, mas todo mundo vai saber que sou teu amante.

Tomaram um taxi, pararam num lugar com porta dupla, só dizia Club.  Quando entraram viu que todo mundo falava com Jacobo, a grande maioria eram negros.  Se sentiu como uma galinha branca num terreiro de galinhas negras, vão me matar. 

Ao contrário, todos o olhavam com curiosidade.    No momento cantava um grupo de garotas jovens todas negras.  Lhes faltava algo.

Jacobo disse, em seguida vão de apresentar.

De fato, o apresentador, fez colocarem um piano em cena, soltou que nome difícil, Louis Daguerre.  Ele se levantou, Jacobo disse, canta Black.  Ele entendeu.

Se sentou no piano, inclinou a cabeça, começou a cantar, quando estavam as meninas cantando, se escutava a voz de pessoas falando.  Tudo era silencio, primeiro cantava em português, quando chegou na parte alta, passou a cantar em inglês.  Terminou com a cabeça jogada para traz, com seus cabelos fazendo uma cascata.   Todo mundo aplaudia muito.  Lhe entregaram um papel, era do Jacobo, canta Billie.

Porra na terra dela, cantar até era uma ofensa.   Pegou no microfone, falou, me pediram para cantar uma música, de uma cantora que admiro muito.  Mas claro não tenho a voz dela, fiz uma versão para minha voz, The Man I Love.  Mudava o ritmo um pouco, baixou o tom de voz, como se estivesse rouco.   Se imaginou se arrastando bêbado pelas ruas, atrás do homem perfeito.

Quando terminou, os aplausos era imensos, com todo mundo em pé.

O apresentador, disse one big star Louis Daguerre.  Mas pediam para continuar, outra em português, não se fez de rogado, cantou a música do seu espetáculo, mas o fez a capela, em pé no meio do foco, em cima dele.    Sabia que Jacobo tinha amado o vídeo.  Depois cantou a mesma em Inglês.  Soltou-se como fazia no espetáculo, dançando, cantando, desceu a plateia, mexeu com alguns homens que estava ali, como fazia.

Quando chegou perto do Jacobo, viu que estava enciumado, como o foco estava neles, disse my man.

Nunca mais faça isso, morri de ciúmes, todo mundo te devorava.

Mas quem me leva para cama es tu.

Se amaram essa noite como loucos, ele porque estava se sentindo fantástico, o outro porque tinha ciúmes, viu que todos o tinha devorado.

Passou se apresentar no Club, todos os finais de semana, aumentaram inclusive o que lhe pagavam, pois vinham de outros clubes para vê-lo cantar.   Ele gostava disso, do contato direto com o público, nunca mais cantou a música que deixava o Jacobo com ciúmes.

Agora tinha dinheiro para alugar uma sala na Broadway para fazer aulas de dança ele só.

Estava ali um dia, quando apareceu na porta um homem que ficou olhando ele dançar com uma música tremendamente sensual. 

Se apresentou com André Croix, disse que era produtor da Broadway, que estava selecionando gente para fazer um casting.  Ele disse que lhe daria o cartão ao seu agente para marcar alguma coisa.  Disse aonde cantava nos finais de semana.

Falou com Jacobo, este não gostou, agora percebia que era um pouco controlador, lhe disse isso, não gostava que o controlassem.  Já perdi demais na minha vida por quererem controlar minha vida.  Lhe disse que eras meu agente.  Tu que sabes, ou posso chamar, ir sozinho.

A contra gosto Jacobo chamou, o André disse que iria nessa noite assistir o show que fazia no Club, agora cantava mais músicas, uma parte em português outra em inglês. Se atrevia inclusive com uma da Carmen Miranda.

Depois André Croix disse que gostava da sua versatilidade, em colocar a voz.

Foram anos trabalhando duro, não ia contar dos casting no Brasil, quando sempre o colocavam para fora.

Deixou que os dois negociassem,  era para um segundo papel numa obra.  Já sabia que ele cantava, dançava, agora teria apenas de fazer um teste para falar o texto.

Quando leu o mesmo, esperando a vez de se apresentar.  Leu, que o personagem era de Puerto Rico, tinha conversado com vários deles no camarim, sabia como falavam, carregando em algumas frases.      Assim fez o texto, tinha decorado o mesmo, ficou com o papel. Mas poderia manter o espetáculo que fazia no Club.    Inclusive André Croix, conseguiu um cartão de residente permanente, a princípio teria que voltar ao Brasil, mas Jacobo conseguiu que ele fizesse show um final de semana em Toronto. 

Quando voltou, já estava como residente.  Percebia que Jacobo cada vez o vigiava mais, pois pensava que estava interessado no André.   Nem tinha lhe passado pela cabeça isso, era um tipo que não lhe interessava o mais mínimo.

Quando começaram os ensaios, ele gravava de primeira as modificações que o diretor fazia, o texto era uma coisa inovadora na época, um musical, com fundo gay.                  Se saia bem na coreografias, bem como cantando, ou falando com sotaque de Puerto Rico.  Muitos pensavam realmente que ele era de lá.   Lhe chamavam de branquinho de Puerto Rico, falavam com ele em castelhano das ilhas.  Ele respondia igual.

Convidou os companheiros para assistirem o show, depois do espetáculo.

Depois de meses em cartaz, já estava chegando a conclusão que gostava mais do show do Club, mas claro queria o dinheiro para sua independência.   Notava que as coisas com o Jacobo iam cada vez pior.   Tentou por duas vezes conversar com ele a respeito.                Aceitava que tinha ciúmes, que como não ia ter ciúmes com um pedaço de homem como ele.

Lhe explicou mil vezes que não se via assim, como ele dizia.  Se saio do teatro contigo, vou ao show contigo, como vou ter amantes.

Jacobo foi fazer um contato fora, voltou dias depois, sem querer soltou depois de terem se amado com saudades, do corpo um do outro, que o tinha mandado seguir, para saber aonde andava.    Foi a gota d’água.   Ficou furioso, te agradeço ter chegado aonde cheguei, mas isso está passando dos limites.  Não estou gostando nada do rumo que está tomando tudo isso, se descubro mais uma coisa desta, vou embora.

Mas não precisou muito, o espetáculo ia começar uma tournée, ele ia cair fora, pois não queria sair de New York, apesar de odiar o inverno, estava aguentando bem.  O diretor do espetáculo, o chamou, lhe ofereceram para fazer o papel principal, durante os dois últimos meses que ficaria na cidade.    Aceitou, as pessoas se surpreenderam, de repente deixou de ter o sotaque de Puerto Rico, para ter o sotaque de um sulista. Como estava mais branco do que nunca, pois aonde ir para se queimar ao sol.    A crítica elogiou seu trabalho dizendo que esse papel lhe caia como uma luva. Que realmente ele bordava fazer o personagem.   Numa entrevista, lhe perguntaram como o fazia.

Observo as pessoas falando, apesar de já saber falar inglês, procuro estar sempre falando melhor, falou do seu show no Club, o convidou para ir, ver outra faceta dele.  Sabia que ele adorava Dinah Washington, ensaiou para cantar Cry me a River, como estava tão branco, passou a só usar roupas negras, nesse dia pediu ao pianista da orquestra que ensaiasse com ele.   Tinha feito uma roupa que era um escândalo, mais parecia uma saia.  Quando viu que o entrevistador entrava na sala, avisou o pianista que era a primeira música.  Já tinha ensaiado com a iluminação.   Era o piano, ele, nada mais.   Acendeu a luz, estava de costa, quando se virou, a cara do outro era ótima, quando soltou a voz, cantando quase num sussurro,  sentiu que estava provocando o mesmo, era o mais famosos dos entrevistadores da televisão.

Não se atreveu a olhar o Jacobo, pois sabia que estaria furioso, não gostava que mudasse o show.  Os aplausos foram imensos. Agradeceu ao pianista, longe de querer competir com a deusa de alguns, aprendi a gostar dela também,  mais uma para ver se aprendi direito a lição da diva.  Cantou Ain’t Misbehavin, mas ele tocando o piano, desta vez mudou a voz rouca, de quem canta na orelha do amado.

O público veio abaixo. Quando desceu do palco todos vinham falar com ele, André disse, se segues dessa maneira, perderei para alguma grande casa de show.  Nunca disse ao André que não tinha nenhum contrato assinado com o Jacobo. 

Quando o entrevistador veio falar com ele, tens que voltar ao programa, para fazer isso, amei, lhe deu o cartão, se podes podíamos gravar na sexta-feira aqui, para apresentar no programa de domingo, no horário nobre.   Lhe deu dois beijos no rosto de despedida.

O escândalo do Jacobo, foi imenso. Queria pegar o cartão para rasgar.   Estas falando da minha carreira que está se levantando, nem pensar.  Sei que tudo devo a ti, mas não se esqueça que ganhas dinheiro a minhas custas, além de que não tenho na realidade nenhum contrato contigo.

Por um acaso pensaste em convidar o mesmo para o show?   Não, quem fez o contato com o André Croix, fui eu não tu,  a única coisa que fizeste, amo de paixão esse trabalho é no Club, ouvi dizer que querias que cancelassem o meu show, tiveste a coragem de dizer ao dono, que não quer os homens olhando para mim.

Acho uma besteira, porque eu não olho para eles, mas eu te avisei que aquele último escândalo teu era o último.  Eu nunca esqueço nada. Amanhã vou embora, nos seguiremos vendo, mas vou viver sozinho.

Não posso ter você o dia inteiro atrás de mim.    Estas deixando atrás teus outros representados, acorda de uma vez. 

No dia seguinte, procurou encontrou um studio, não precisava de mais nesse momento.  Seguiu fazendo o espetáculo de teatro, bem como o Show do Club, tinha se esquecido de chamar o apresentador, foi esse que o procurou outra vez no Club.  Lhe pediu que falasse com o proprietário do local, ele não queria problemas.   O outro concordou imediatamente.

Estava sempre com o Jacobo, as vezes dormia em sua casa, outras ele na dele. Mas não tinha a chave.   Não gostou quando soube que seria gravado com convidados do apresentador.  Muita gente do mundo da música, do teatro.   Ficou anunciando diariamente nos programas anteriores. Um especial que faria com um artista brasileiro que era como o filho mais novo da cidade, que tinha vencido por ele mesmo. 

No princípio da entrevista ele disse, não venci sozinho, fui descoberto no Brasil, por Jacobo, depois aqui ainda tive outro padrinho o André Croix.  Foi encaixando música com entrevista. Ele perguntou como tinha conhecido o Jacobo no Brasil.  Fui ao show de um grande amigo, disse seu nome, um grande cantor, começamos juntos.  Estava chateado por um problema amoroso,  me tinham colocado no olho da rua.  Vi vários baseados, não tive conversa, roubei, fumei todos.  Quando cheguei ao show, um pouco atrasado meu amigo me fez sentar na primeira fila,  ele começou a cantar uma música que adoro.  Já fez parte do show, se quiseres posso fazer para ti.  No camarim, tinha várias roupas dele.   Se vestiu como nesse dia, pediu a pequena banda do Club tocar,   Subiu ao palco, todo de branco, quando retirou a camisa disse, a diferença era que estava moreno de praia.                      Se soltou no palco, parecia que estava incorporado.  

Houve um intervalo, viu que Jacobo estava no camarim.  Trocou outra vez de roupa, agora todo de negro.  

Ele disse com uma cara triste, estas conquistando o mundo com isso tudo, eu ficarei para trás. Nada disso, sabes que te quero.  Realmente o queria muito, afinal tudo devia a ele.

O show para a televisão durou mais uma hora, quando saiu, não viu ninguém lhe esperando, perguntou ao porteiro pelo Jacobo.   Foi embora daqui acompanhado por um rapaz.

Filho da puta, foi a casa dele, abriu a porta nu.   Já me abandonaste, estou procurando alguém para me dar prazer. Viu um rapaz que não devia ter nem 18 anos.   Mas Jacobo é um menor de idade.

É um puto, estou pagando para que me dê prazer.

Foi embora, no dia seguinte acordou com a polícia batendo na sua porta.   Os atendeu, sim estive na casa dele ontem, mas estava com um rapaz.

Pois o mesmo além de o roubar o matou.

Ele caiu no chão com todo seu tamanho.            Puta merda, ficou totalmente desconsolado, como pode uma pessoa fazer isso, foi tudo que pensou.   Avisou o André, pois tinha que ir a delegacia, para ver se reconhecia quem estava na casa.   Quando disse quem era, pois o tinha visto bem, soube que tinha 16 anos.   Puta merda.         O rapaz alegou que o André depois que ele tinha ido embora, não quis mais fazer sexo, tampouco pagar, que só estava fazendo uma cena de ciúmes.

Que idiota, ficou furioso, prometeu que nunca mais ia querer alguém o controlando.

Quando André quis que ele fechasse um contrato com ele, como agente, se negou, a partir de agora, ele só faria o que queria.    O enterro foi muito triste, poucas pessoas, pensou, deixas de brilhar as pessoas desaparecem.

Em vez de ir de tournée com o teatro, lhe apareceu outra oportunidade, com o André, agora tinha fácil o trabalho, estava conhecido pela entrevista.   Era um musical, muito interessante, mas assinou contrato por seis meses, com o compromisso de avisar no quinto mês se continuava ou não.  Fez o mesmo durante um ano, ao mesmo tempo que o show no Club.  Mas ao final estava cansadíssimo.   O musical ia para San Francisco, aceitou só porque precisava de sol, todo dinheiro que ganhava, mal tinha tempo para gastar, tudo estava no banco investido, para quem não tinha um puto quando chegou, agora até tinha demais.

Adorou San Francisco, por recomendação de um que atuava no Club, foi a uma casa noturna assistir ao show.  Se apresentou ao dono, esse disse que tinha visto a entrevista com o show, que gostava muito.

Estou farto desse show que tenho, o contrato acaba agora, se queres de deixo montar alguma coisa, repartimos lucros, bem como eres livres para o trabalho.   Já conhecia os americanos, exigiu um contrato com tudo isso, levou a um advogado, para saber se tinha letras pequenas.

Ele disse que se qualquer coisa ele não gostasse, viesse falar com ele.  Era um cara super bonito, vi teu show, com meu namorado da época, quando fui a New York, diziam que era o que havia de melhor, fui a contra gosto, mas gostei demais.

O convidou um dia que tivesse livre para jantar.   Mas acabou não acontecendo nada, ficaram amigos, Ruby Carrasco, era descendente de mexicanos, mas não entendiam os dois, porque, se sentiam atraídos, mas não funcionavam na cama.   Ficavam nervosos os dois, daí ficarem amigos.

Fez um casting, com os que já estavam trabalhando, só ficou com um jovem que estava iniciando, os outros tinham vícios demais, só sabiam fazer uma coisa.

Quando começou a entrevistar primeiro as pessoas, foi encontrando gente que buscava uma saída para seu talento, foi separando essas pessoas.  No novo grupo, quem mais se destacava era um japonês, diferente dos outros pois tinha a mesma altura dele.  Experimentou fazer uma dupla com ele.  Funcionou.                      Montou um espetáculo, primeiro arrumou um pequeno apartamento, foi a NYC, buscar suas coisas.   se despediu dos poucos amigos que tinha, seguiu em frente.

Nesse local ficou mais de 10 anos, até que foi convidado para montar um show em Las Vegas, lá encontrou o que buscava, como sempre procurou uma casa pequena, fora do centro da cidade, as pessoas se impressionavam, pois se movia de ônibus, ou quando muito de taxi.  Só levou com ele Ken Takano, muitos pensavam que tinham algum romance, mas nada mais longe da verdade.

Se davam bem no palco.          Montou dessa vez partes exclusiva para ele,  apesar do show fazer sucesso, sentia falta de uma coisa, como tinha no Club.   Procurou um lugar, mas estava difícil, um dia vagabundeando durante seu dia de folga, viu um anúncio de venda de um bar.  Entrou para ver, era uma cópia do Club, talvez um pouco melhor, examinou o local com o dono, precisava de uma reforma geral.  Ficou interessado, o que fez foi chamar o Ruby Carrasco, para vir até lá, revisar tudo, contratos, contabilidade do local, não queria se encontrar com nada escuro demais.

Depois de um exaustivo trabalho, fecharam negócio, fez uma puta reforma, lhe recomendaram uma pessoa para cuidar da obra.  Amor à primeira vista,  começaram a discutir o que ele queria, acabaram na cama.  Além de fazer obras, era polícia, viveu com ele, mais de 10 anos, se adoravam.               Agora tinha seu próprio Club, foi deixando os shows grandes,  seu clube era indicado pelos hotéis, quando procuravam um lugar especial.  Era como ele sonhava, mesmo depois de tanto tempo juntos, todo momento livre estavam juntos.   Artho era mistura de muitas raças, era um tipo completamente diferente, alto como ele, moreno, cabelos super negros, os dois juntos faziam um casal diferente.  Não se escondiam de ninguém, ao contrário, foi viver na casa dele, fora do centro, aonde tinha piscina, lá podia tomar banho de sol que tanto amava, longe de olhares curiosos.  Podia fazer sexo na piscina, sem problema nenhum.  Quando ele passou a inspetor, dois anos depois levou um tiro, correu como um louco para o hospital, mas só pode se despedir.  Artho só lhe disse, siga em frente, foste o amor de minha vida, isso nada nem ninguém vai poder tirar.   Herdou a casa dele, ficou vivendo lá, os primeiros meses foram uma tragédia, pois cada troço da casa tinham escolhidos juntos.  Mas superou, cantando toda as noites, agora entendia as grandes do Jazz.   Descobriu numa loja de jazz, disco de Sam Cooke, ficou encantado com sua voz.  Ele não tinha o mesmo tom, mas transferiu para sua voz, algumas coisas que ele cantava.  Durante a semana quando não tinha nenhum cantor ou artista convidado, se sentava ao piano, podia ficar horas desfiando canções.    Mas gostava mesmo do final de semanas quando a casa estava cheia.               Continuava fazendo suas próprias roupas, ideando os shows.    

Pediu a Ruby, que viesse como sempre verificar suas contas, queria que olhasse se ia tudo bem, tinha dinheiro, mas não aproveitava muito.  Levava uma vida simples, seu luxo era fazer seus shows como queria.   Mas sabia que algum momento, seria ultrapassado, pois, as novidades em termos de música não paravam.  Queria conversar com alguém que confiasse.

Quando viu Ruby ficou preocupado.  Nunca o tinha visto tão em baixa, quando perguntou o que passava, não esperava a resposta que recebeu.

Nunca me entendo sexualmente com as pessoas, elas se cansam de mim rapidamente, veja conosco, nem chegamos direito a cama.

Ora Ruby, nem sabias beijar direito.              Venha vou te ensinar, dessa brincadeira de ensinar, encontrou uma parte dele mesmo no outro.   Tu eres como eu, quando cheguei a cidade, mas porque deixaste o tempo passar.  

Sempre fui apaixonado por ti, mas tinha medo de ser rejeitado novamente, sempre fui desajeitado quando se tratava de sexo.  Nunca soube me comportar, se devia ser um machão na cama ou ser frágil.   Contigo descobri que tenho que ser eu mesmo.

Se mudou para Las Vegas, estavam juntos até hoje.  Hoje segundo  Louis, faziam quarenta anos que tinha saído do Brasil.

Quem sabe seja hora de fazer uma visita ao teu pais. Visitar tua família?

Nem sei ir aonde vivem. Olha a figura que sou hoje em dia, mais pareço um americano, mal sei falar português, além das músicas que canto, que hoje já devem estar todas no passado.

Ruby estava tão saído, que adorava ver o corpo dos dois, apertados um ao outro no espelho, seja se ele estivesse na frente ou atrás.    Deixou o clube com o Ken, que já estava farto de fazer musicais nos cassinos.   Queria paz.

Foram os dois, via Los Angeles.  Quando chegaram ao Rio de Janeiro, quem os esperava era seu amigo, com que tinha sempre mantido contato.   Estava mais gordo, para Ruby foi como encontrar uma pessoa conhecia, de tanto que escutava falar dele.

Rapidamente descobriu que já não era brasileiro, todos só falavam com ele em inglês, quando tentava falar em português tinha que ficar buscando na memória palavras, já não sou daqui.

Ficaram num hotel, bom em Copacabana, seu amigo arrumou uma pessoa para passear com eles pela cidade.  Um dia o levou a Rua do Ouvidor que tinha escutado quando ele cantava, ficou decepcionado,  teve que lhe explicar que era uma música nada mais, ou será que ele queria encontrar algum negro.  Ruby ficou furioso, tinha a ele, isso bastava.

Mas na verdade ficou rememorando a Rua do Ouvidor de sua época, não era tão suja, nem estava abandonada como agora.  O centro da cidade, aonde tinha trabalhado em vários lugares, agora parecia nada mais que uma imensa lixeira.  Chegou a uma conclusão triste, realmente ele já não era dali.  Quarenta anos pesavam na balança.

Quando voltaram, gostavam da vida que tinha agora, quarenta anos tinham passado, chegou a conclusão que tinha vivido bem.  Ken tomava conta do Clube, eles tinham todo o tempo para eles.  Viajavam mais agora.   Aproveitavam a vida.

Ele tinha chegado à conclusão de que não tinham dado certo a primeira vez, porque não se souberam explorar como deviam.                Pois não se cansavam de fazer sexo, estarem juntos, compartir coisas, enfim viver a vida.